Revista Brasileira do Aço
Ano 22 - Edição 145
Outubro/Novembro 2012
E hoje, como está a
siderurgia no Brasil?
De acordo com o Instituto Aço Brasil, os indicadores de produtividade da indústria do
aço se mantiveram ou melhoraram. O País precisa de isonomia competitiva, crescimento
e prevalência das regras de mercado de forma sustentável, além de mecanismos de defesa
comercial diante do cenário de crise internacional
A indústria brasileira do aço continua investindo em seus
parques de produção para manter as usinas nos estágios mais
avançados de desenvolvimento tecnológico, isso porque os
empresários do setor foram motivados pelas medidas anunciadas pelo Governo Federal, que elevou a tarifa de importação
para alguns produtos siderúrgicos (o que pode vir a minimizar
as dificuldades enfrentadas pelo segmento). No entanto, ainda
existe a necessidade de complementos para se reverter a trajetória negativa observada neste ano, buscando o crescimento
do mercado interno, regulamentação para o conteúdo local da
indústria e também a correção de assimetrias competitivas.
“Estamos vindo de um momento muito difícil, com o
mercado crescendo menos do que se esperava no primeiro
semestre. Fomos agredidos pelas importações predatórias,
já que muitos fabricantes estavam vendendo aço a preços
bem baixos, diante do excesso de capacidade da indústria
siderúrgica mundial”, comentou o Presidente Executivo do
Instituto Aço Brasil, Marco Polo Mello Lopes.
No que se refere às importações diretas do aço, registrou-se 3 milhões de toneladas de janeiro a setembro de
2012. Um crescimento de 4,9% ante o mesmo período do
ano anterior. As importações indiretas totalizaram 3,6 milhões de toneladas de janeiro a setembro, o que mostra queda de 1,6% em relação ao mesmo período de 2011.
No Brasil, de janeiro a setembro de 2012, a produção do
aço bruto foi de 26 milhões de toneladas, ante 26,8 milhões
de toneladas no mesmo período de 2011, o que representa queda de 3%. Já o consumo aparente nacional foi de 2,1
milhões de toneladas, totalizando 19,3 milhões de toneladas
em 2012 (janeiro a setembro). Esses valores representam
um aumento de 0,5% e 1,6% respectivamente, comparado a
igual período do ano anterior.
A Gerdau, por exemplo, investiu no terceiro trimestre R$ 904 milhões em ativo imobilizado e, no acumulado
deste ano, R$ 2,4 bilhões. Dentro deste planejamento está
a construção de uma nova aciaria, ampliação da produtividade, da segurança operacional, da qualidade dos produtos
e da proteção ambiental, além da redução do consumo de
energia. Considerando as incertezas do mercado econômico mundial, a empresa informou que está sendo seletiva na
avaliação dos projetos de investimentos futuros e que está
revisando o plano de R$ 10,3
bilhões (2012-2016). Uma nova
estratégia será anunciada em
fevereiro de 2013.
Marco Polo Mello Lopes
Presidente Executivo do Instituto Aço Brasil
Expectativas para 2012
Para o Presidente do Iabr, no mercado mundial há um
excedente de oferta de aço de 500 milhões de toneladas e
queda de consumo desse material nos países desenvolvidos. As projeções apresentadas pelo WorldSteel para o período 2011/2013 indicam ainda que o desbalanceamento na
oferta deverá persistir devido aos aumentos de capacidade
previstos para diversos países/regiões. “Com a queda que a
indústria vem sofrendo na participação do PIB e com a reprimarização da nossa pauta de exportação, há um processo de
desindustrialização no País. O peso e o impacto das importações diretas e indiretas de aço na cadeia metalmecânica são
significativos e contribuem para aprofundar esse processo
em curso no Brasil”, avaliou Lopes.
É preciso corrigir distorções! Dentro desta premissa,
Lopes explicou que o Senado Federal corrigiu a grave distorção na economia brasileira que prejudicava a produção
e geração de empregos, aprovando o projeto de resolução
72/10, que levou a unificação em 4% da alíquota do ICMS em
operações interestaduais com produtos importados. Frente
às projeções macroeconômicas do País em 2012, o Aço Brasil estima o consumo aparente de produtos siderúrgicos em
26,4 milhões de toneladas, aumento de 5,4% quando comparado a 2011. “No cenário atual de volatilidade, estamos
revendo este número”, justificou.
E para 2013
Existe a sensibilidade do Governo em priorizar, de um
lado, a implementação de medidas que assegurem efetivamente o crescimento sustentado do mercado interno, e, por
outro lado, a eliminação do artificialismo observado no processo de importação e a correção de assimetrias. “Além disso,
há expectativa de que o consumo de aço seja impactado positivamente pelos chamados ‘projetos especiais’, entre eles a
Copa do Mundo e Olimpíadas. No entanto, o momento é de
preocupação”, encerrou Lopes.
Autopeças
Novo rumo às autopeças
Balança comercial do setor está deficitária, mas a expectativa é de que o pacote de benefícios
anunciado pelo Governo torne a indústria mais competitiva e isso reflita no segmento aço
No mês de outubro, foi publicado no Diário Oficial da União
(DOU), um decreto que regulamenta o Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos
Automotores (Inovar-Auto), visando “apoiar o desenvolvimento tecnológico, a inovação, a segurança, a proteção do meio ambiente, a
eficiência energética e a qualidade dos veículos e autopeças”.
A preocupação do Governo brasileiro com a atual situação da
indústria brasileira de autopeças reflete a gravidade e as dificuldades enfrentadas para garantir a competição, em condições de
igualdade, no mercado global. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), dados da balança comercial de autopeças, elaborados
com as informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria
e Comércio Exterior (MDIC), do mês de agosto, apontaram um
aumento de 23,10% no déficit comercial acumulado no ano, em
comparação a 2011. No mês de agosto, as importações somaram
US$ 1,58 bilhão e as exportações, US$ 1,01 bilhão, o que resultou
no déficit mensal de US$ 565 milhões.
A balança comercial de autopeças está deficitária. O coordenador
do Grupo de Manutenção Automotiva (GMA) e conselheiro do Sindipeças, Antônio Carlos Bento, ressaltou que essa inversão começou em 2006. O estudo sobre o desempenho do setor de autopeças, feito pelo Sindicato, revelou que o total de importação de 2009
a 2011 foi de US$ 38 bilhões e a exportação foi de US$ 27,4 bilhões,
e a exportação, no mesmo período, foi de um déficit de US$ 10,6 bilhões. As projeções do faturamento nominal para 2012 apontaram
US$ 45,28 bilhões, ou seja, uma variação de -17,2%, e para 2013 de
US$ 45,77 bilhões, com variação de 1,1%.
O setor vem se modificando substancialmente, devido ao aumento de modelos e diferentes montadoras, concomitante à contínua introdução de novas tecnologias. Para o presidente do Sindicato
do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado
de São Paulo (Sincopeças), Francisco Wagner de La Torre, isso requer
um grande esforço do setor varejista de
autopeças para manter os estoques atualizados e com preços competitivos. “No
entanto, as altas taxas de inadimplência
Paulo Moraes
e a queda do valor do ticket médio têm Gerente comercial da Aços Groth
dificultado o investimento e a reposição dos estoques. Esse quadro
promoveu a depuração dos players e apenas as empresas com considerável saúde financeira e boa gestão superarão essa fase.”
La Torre argumentou que, apesar do Governo ter implementado plano de socorro à indústria automobilística, com pacote de benefícios fiscais, creditícios e restrições às importações, garantindo
reserva de mercado às montadoras instaladas no Brasil, não houve
ajuda direta que pudesse incrementar os negócios do segmento
que atua. “Porém, acredito que, ao incentivar as vendas de veículos,
o setor possa se beneficiar, quando essa frota sair da garantia de
manutenção das montadoras.”
Aço X Autopeças
O gerente comercial da Aços Groth, Paulo Moraes, não vê ainda
sinais claros de que a situação mudará a curto prazo. “As perspectivas
para o próximo ano são pouco animadoras, uma vez que o setor de
aço perdeu cerca de 40% das vendas para o de autopeças, nos últimos
quatro anos, com relação a clientes e à redução do volume de compras. Os distribuidores de aço, excluindo as coligadas, vêm sofrendo,
durante esse tempo, margens cada vez mais reduzidas, devido à política de preços praticada pelas usinas produtoras de aço nacional
e pelas importações. As vendas para o setor de autopeças não têm
acompanhado o crescimento do setor automobilístico do País.”
Moraes acentuou que, ao receber o reajuste de preços, os distribuidores são forçados a repassá-los à indústria de autopeças, que
deveria adotar o mesmo procedimento com os seus clientes. “Porém,
como as indústrias não foram contempladas com os mesmos reajustes impostos aos distribuidores, negam-se a aceitar qualquer alteração de preço por parte das autopeças, ameaçando-as com a importação de peças estampadas ou adquirindo aço direto da usina. Não
temos como reduzir, ainda mais, nossas margens e custos internos,
porque estamos lidando com uma commodity, que tem pouco valor
agregado, e competindo de forma desigual com as coligadas.”
Apesar das dificuldades encontradas, Antônio Carlos Bento
acredita que os efeitos práticos dos benefícios fiscais, oferecidos
pelo governo, possam ser sentidos nos próximos anos, tornando a
indústria nacional de autopeças mais competitiva. “O setor de aço
tem papel importante no de autopeças, cuja matéria-prima é utilizada em sua produção. Entretanto, o custo do aço reflete no valor
da autopeça, uma vez que o setor já sofre muito com a alta carga
tributária e perde competitividade diante dos importados”, destacou ele, acrescentando que, para combater os custos, a indústria
utiliza estratégias mais focadas em resultados e em melhorias de
processos, para se manter competitiva no mercado.
FATURAMENTO NOMINAL (1)
Ano Fiscal
2008
variáveis
2009
valor
monetário
variação %
2008/2007
valor
monetário
R$ bilhões
75,17
10,1%
US$ bilhões
40,99
16,9%
unidade
monetária
2010
2011
2012 (projeção)
variação %
2009/2008
valor
monetário
variação %
2010/2009
valor
monetário
variação %
2011/2010
valor
monetário
75,67
0,7%
86,39
14,2%
91,50
5,9%
37,90
-7,6%
49,77
31,3%
54,66
9,8%
1. Faturamento com ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) e sem IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados)
2 | Autopeças
2013 (projeção)
variação %
2012/2011
valor
monetário
variação %
2013/2012
87,84
-4,0%
91,08
3,7%
45,28
-17,2%
45,77
1,1%
Fonte: Sindipeças
Por Oberdan Neves Oliveira
Estatísticas
Compra e venda da rede voltam a crescer
PANORÂMICA
DO AÇO
DESEMPENHO
DOS ASSOCIADOS
PRODUÇÃO MUNDIAL
AGOSTO
ESTOQUE1
OUTUBRO
2012
2011
Var.%
2012
2011
Var.%
123.737
125.042
-1,0%
936,9
1.017,9
-8,0%
PRODUÇÃO AMÉRICA LATINA
AGOSTO
COMPRAS2
OUTUBRO
2012
2011
Var.%
2012
2011
Var.%
5.546
5.808
-4,5%
388,8
341,6
13,8%
PRODUÇÃO BRASIL
SETEMBRO
VENDAS1
OUTUBRO
2012
2011
Var.%
2012
2011
Var.%
2.848
2.859
-0,4%
401,2
371,3
8,1%
1 Incluem importações informadas pelos associados
2 Incluem os embarques das usinas para outros setores via distribuição
Unid:1000 ton.
3 Produtos: LCG, BQ, BF, CZ, CPP, CAZ e EGV.
As compras de aços planos em outubro registraram acréscimo
de 14,1% quando comparadas ao mês anterior, atingindo o
volume de 388,8 mil toneladas. Frente ao mesmo período do ano
passado (341,6 mil toneladas), as compras subiram 13,8%.
As importações de aços planos³ de outubro apresentaram
recuo de 38,8% diante ao mês anterior, com volume total de
108,2 mil toneladas.
Já às vendas, no mês de outubro também tiveram alta,
13,4% frente a setembro, com volume total de 401,2 mil
toneladas, segundo maior volume do ano. Quando comparadas
a outubro de 2011 (371,3 mil toneladas), as vendas da rede
associada cresceram 8,1%.
Para novembro, a expectativa da rede é que a compra
permaneça estável enquanto a venda recue em torno de 7%.
Com isso, os estoques de outubro marcaram pequena
retração de 1,3% em seus volumes, atingindo o montante de
936,9 mil toneladas. Quando comparado ao mesmo período do
ano anterior (1017,9 mil toneladas), o armazenamento recuou
8%. Assim, o giro dos estoques recuou para 2,3 meses.
Estatisticas | 3
Visão econômica
Meses depois...
... A indústria no Brasil volta a respirar? Passado alguns meses da implantação de alguns benefícios
fiscais oferecidos pelo Governo, qual a avaliação do setor feita por alguns economistas?
No segundo semestre de 2012, o Governo resolveu atuar e tomou algumas medidas para estimular a indústria do
País, que a cada mês perdia espaço e apresentava números
decrescentes assustadores.
E este quadro não mudou... O Banco Central divulgou no
início de novembro o relatório Focus com as expectativas do
mercado financeiro sobre a economia brasileira, e o resultado é desanimador. Segundo a pesquisa, os analistas acreditam que a queda da produção industrial em 2012 deva ficar
em 2,31%. Essa foi a sexta vez que se reavaliou para baixo a
previsão do desempenho industrial.
Mas nem tudo é notícia ruim: para 2013, o relatório Focus
prevê uma recuperação do setor, com crescimento de 4,15%.
Mas e os efeitos práticos dos incentivos fiscais?
A atuação do Governo (ao reduzir impostos na energia,
desonerar a folha de pagamento, aumentar a alíquota de
importação etc) visa fomentar, no curto prazo, a competi4 | Visão econômica
tividade da indústria – em particular nos setores expostos
à competição internacional, como é o caso da indústria do
aço. Uma forma direta para isso é reduzir os custos.
Para a economista Patrícia Marrone, mestre em economia pela Universidade de São Paulo (USP), as decisões, reclamações antigas do mercado, podem ter, realmente, impactos positivos na cadeia industrial. Sobretudo, no caso da
desoneração da folha de pagamento, que promete, com o
fim da cobrança fixa de 20% sobre os custos patronais, ajudar na recuperação das margens de lucro do mercado nacional, prejudicado com a concorrência das importações, que
se acirraram ainda mais com a valorização do real, frente a
outras moedas do planeta.
Com a mudança, a partir de agora, as empresas do setor
passarão a recolher 1% sobre o faturamento bruto. A alteração
na forma de cobrança, além de diminuir os custos sobre a mão
de obra, poderá adequar parte da carga tributária na relação
entre produtos internos e insumos importados, que não con-
Visão econômica
tam com nenhuma contribuição acerca da produção.
“Além disso, a queda no
preço das tarifas de energia
elétrica, que propiciará redução de até 28% no preço do
Giorgio Romano
insumo para as indústrias,
também pode ser vista como
ponto fundamental nesse processo de crescimento da esfera industrial brasileira. Com o corte de impostos e encargos,
que hoje respondem por aproximadamente 45% do total cobrado pelo setor energético, as empresas ganham mais um
fator de aceleração à competitividade, tornando os produtos
mais baratos e mais atraentes para o consumo interno e para
exportações”, afirmou Patrícia.
Outra decisão que afetará diretamente a área siderúrgica
é o aumento da alíquota do imposto de importação do Aço,
que subiu para 25% (antes, variava de 10 a 18%, dependendo
do tipo de produto). “A decisão atinge, principalmente, a compra de bobinas a quente e chapas grossas e visa o controle de
importações especulativas e o aumento da demanda interna
por artigos nacionais. Outra consequência, segundo analistas
econômicos, poderá ser o reajuste de forças do setor, diante
de concorrentes estrangeiros”, apontou Patrícia.
De acordo com o Professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC),
Giorgio Romano Schutte, é preciso também mais investimentos em tecnologia e desenvolvimento para estimular
a produtividade e a qualidade dos produtos, o que sempre corresponde à forma mais consistente de incentivar a
competitividade. “No curto prazo, porém, o Governo está
agindo corretamente diante da pressão dos importados –
que cresceram consideravelmente depois de 2010 e já deixaram o País com o déficit expressivo na balança comercial
dos manufaturados”, analisou Schutte. “É evidente que as
empresas beneficiadas pelas medidas deverão ficar com
uma saúde financeira melhor. Cabe verificar se estão aproveitando essa folga para melhorar seu desempenho em
qualidade e produtividade”, alertou.
Para Schutte, todos os países industrializados estão
sofrendo uma pressão muito grande da China. “Se pegarmos a indústria de bens de capital, há uma pressão pela
qualidade da indústria alemã na outra ponta. O câmbio é
um fator crucial. Assumir uma política deliberada de administração do câmbio vai ao sentido certo, mas demorará ainda para mostrar efeito. O mesmo vale pela recente
de redução dos juros – isso a curto prazo. Já a médio e
longo prazo, o que deve pesar é a capacidade de inovação”, concluiu o professor.
É preciso mais
O ex-diretor do Banco Central e economista Paulo
Yokota (hoje, diretor gerente da Ideias Consultoria), disse
que tais soluções implantadas
pelo Governo Federal é somente a preservação de parte
do mercado interno, quando
as empresas siderúrgicas brasileiras carecem de mais força
Paulo Yokota
perante a concorrência internacional (como as que fazem a
redução direta do minério de ferro com a utilização de gases de custos baixos). “É preciso articular melhor o conjunto, com o estabelecimento das condições de competitividade (que dependem de juros, impostos, câmbio, encargos
trabalhistas, custo de infraestrutura competitiva), deixando
claro o prazo de sua duração. Pesquisas adicionais devem
ser estimuladas para que as usinas instaladas tenham condições de inovações (já implantadas no exterior). Até agora, só estamos na expectativa, e uma das medidas urgentes
seria o aumento do prazo do recolhimento dos impostos,
compatível com o limite de recebimento dos pagamentos
dos clientes, de forma a reduzir os encargos financeiros que
estão sendo arcados”, explicou Yokota.
De acordo com o economista, o longo período que a indústria ficou relegada a segundo plano, sem uma política industrial
objetiva, deteriorou a sua situação, e agora, há a necessidade
de um programa de grande magnitude. O Brasil dispõe de minérios de boa qualidade e deveria contar com uma siderurgia
competitiva internacionalmente, como já foi no passado. “Medidas pontuais não resolvem mais o problema”, enfatizou.
Realidade
A utilização dessas medidas fiscais não é algo novo na
política industrial brasileira. Quando usadas de forma isolada, apenas trazem alívio momentâneo. A empresa respira
com ajuda de aparelhos. É eficaz para uma sobrevida... Mas
ainda há muito que fazer.
O empresário precisa observar os seus investimentos, independente da política encorajá-los ou não. Tem que se atentar aos concorrentes, pois “boa vontade” do Governo não será
capaz de fazer com que a concorrência desapareça.
Basta olhar quem são os maiores produtores mundiais
de aço, a frente do Brasil: 1º China, 2º Japão, 3º EUA, 4º Índia, 5º Rússia, 6º Coréia, 7º Alemanha, 8º Ucrânia e 9º Brasil.
Logo percebemos que se trata de um setor fundamental
para países emergentes ou avançados, ou seja, siderurgia
não é commodity. A competitividade no setor não está apenas atrelada à redução de custos, mas sim, na forma como
a redução de custos é obtida. Inovações tecnológicas e organizacionais são incorporadas a produtos e processos. O
problema é bem mais complexo e a solução proposta pelo
Governo não é suficiente para resolvê-lo. A indústria brasileira precisa se capacitar internamente, buscando reduzir
custos com eficiência e inovação. Ou seja, fazer exatamente
e melhor o que os concorrentes já fazem.
Visão econômica | 5
Artigo - Octavio de Barros
O 'novo normal'
Em maio de 2009, o economista Mohamed El-Erian (sócio
de uma importante gestora de investimentos) publicou um
artigo que teve e tem até hoje grande repercussão, na medida
em que trata do conceito da economia operando em um modelo chamado de “novo normal” ("A new normal", Mohamed
A. El-Erian, “Secular Outlook”, maio 2009). O artigo refere-se à
situação da economia global pós-crise de 2008, que deverá
perdurar por um período longo em substituição a uma configuração que prevaleceu até 2007.
A ideia do “novo normal” traduz o reconhecimento de
que a economia mundial passará a conviver com características inéditas bem distintas daquelas que prevaleceram até
poucos anos atrás. Para recapitularmos, na visão do autor, o
“antigo normal” modo de funcionamento da economia era
marcado por taxas de crescimento bem mais elevadas, propiciadas por uma expansão global do crédito e por uma despreocupação com o financiamento soberano. No período de
2000 a 2007, tivemos o crescimento exuberante da China,
um sistema financeiro pouco regulado, baixa intervenção do
Estado na economia, elevadas taxas de retorno, crescimento
econômico baseado, sobretudo, no consumo etc. Esse modo
de funcionamento da economia teria se esgotado na visão
do mencionado artigo seminal.
O “novo normal” envolveria a China crescendo menos
e convergindo gradualmenOctavio de Barros,
te para padrões clássicos de
Diretor do departamento de pesquisas e
desenvolvimento; os países estudos econômicos do Bradesco, é doutorado
pela Universidade de Paris X-Nanterre
emergentes focando cada vez
mais no investimento e no aumento da produtividade do
que no consumo; maior e mais rígida regulação do setor
financeiro; mais moderada expansão do crédito, taxas menores de retorno dos negócios em geral e busca de menor
concentração de renda.
Parece intuitivo que o “novo normal” da economia esperado pelas economias maduras dialoga com um “novo
normal” também dos países emergentes, como o Brasil. Daí
nos cabe refletir não apenas sobre o que seria esse possível
Banco de imagens Criatura
6 | Artigo
Artigo
“novo normal” que a economia brasileira estaria obrigada
a inaugurar ou que já teria inaugurado. Ou seja, discute-se
qual será o novo padrão de crescimento, a normalidade econômica que marcará um período longo, de pelo menos uma
década no Brasil e no mundo emergente.
O fato de a economia mundial estar vivendo um momento especial, que poderíamos classificar como “ajuste de
contas”, acaba nublando a compreensão do alcance de um
novo modelo de crescimento das economias em geral, que
imaginamos que venha a ter vida longa. Alguns analistas,
precipitadamente, ainda acalentam a tese de que, passada
a fase crítica de ajustes na Europa, nos Estados Unidos e na
China, todas as economias reencontrarão taxas elevadas de
crescimento e se observará a volta da euforia do crescimento
dos negócios a taxas novamente invejáveis.
”Minha visão é a de que, depois do inevitável ciclo de
ajustes que ainda durará alguns anos, sobretudo nas economias maduras, não veremos tão cedo assim a volta da “Era
da euforia” nos negócios. Mesmo em ambientes que poderíamos classificar como otimistas, passaremos a assistir com
muito mais frequência a um posicionamento cauteloso por
parte de empresas e famílias. Seria como se, mesmo em ambientes positivos, a “Era da euforia” passasse a ser substituída
pela “Era do otimismo com cautela e parcimônia”, sem que
isso necessariamente signifique que o espírito animal do
empresário não volte mais a estar presente”.
A economia mundial e a brasileira ingressam em uma
fase aparentemente irreversível de maior regulação governamental, em que “o novo normal” significa taxas mais moderadas e menos voláteis de crescimento e, consequentemente, de investimento. Por consequência, estamos a um
pulo de taxas também mais moderadas de retorno dos negócios empresariais em geral, analisando-os de forma agregada. É como se tivesse havido um aprendizado com a crise,
que faz com que as empresas e as famílias deem passos mais
calculados e menos afoitos nas suas decisões de consumo e
de investimento. Até quando esse comportamento prevalecerá é difícil prever, mas parece que será um longo processo.
Do lado mais exagerado, observa-se que em momentos
de crise, sobretudo de crises da envergadura desta a que
estamos assistindo, há uma recorrente reaparição de teses
estagnacionistas, como se o crescimento econômico fosse
seguir medíocre por muito tempo, como se o mundo tivesse
se transformado em um grande Japão, que cresce pouco há
décadas. Há também análises que olham para o ambiente de
incerteza global com reverberação midiática constantemente negativa e observam, por exemplo, o crescimento brasileiro muito baixo por quatro trimestres e, mesmo em um
ambiente de estímulos governamentais e de taxas de juros
em patamares historicamente inéditos, projetam mecanicamente um futuro quase sombrio.
O que quero aqui sugerir é que as populares teses estagnacionistas são muito frágeis, ainda que sedutoras, e não podem ser confundidas com a alta probabilidade, que defendo,
de que estejamos ingressando em um “novo normal”, com
recuperação da atividade econômica no mundo e no Brasil.
Essa recuperação será, porém, em patamares mais moderados, mais condizentes com a realidade de economias mais
reguladas do ponto de vista de crédito e do ponto de vista
dos incentivos fiscais.
Isso talvez ajude a explicar o tipo de recuperação que
podemos esperar daqui para diante. Mas, como sabemos
que política monetária funciona desde que a aversão ao
risco não seja exagerada, apostamos na recuperação cíclica
tão logo os temas globais mais nevrálgicos sejam adequadamente endereçados e os riscos de ruptura se dissipem.
Saídas de crise na forma de “V” parecem fora do radar,
tanto no mundo como no Brasil. Seria mais plausível uma saída de crise mais parecida com um “V mais aberto”, plasticamente similar ao símbolo da marca Nike, só para trazermos
um pouco de humor a um artigo austero como este.
Estamos falando de um “otimismo repaginado”, com menores comportamentos pro-cíclicos e com agentes econômicos agindo com um pouco mais de racionalidade e parcimônia, pelo menos por um bom tempo. As boas oportunidades estarão sempre à disposição, mas identificá-las exigirá
mais trabalho e mais competência estratégica em todos os
países, inclusive no Brasil.
Crescimento decenal do PIB real do Japão (em %)
Fonte: Bloomberg. Elaboração: Bradesco
Artigo | 7
Artigo - Dr. Carlos de Freitas Nieuwenhoff
Negociações 2012/2013
Convenções coletivas de trabalho
O Sindisider tem durante todo ano negociações coletivas de trabalho com vários sindicatos dos empregados.
Sendo ele um sindicato nacional, representa as empresas da
distribuição de produtos siderúrgicos em todo o território
nacional. A grande maioria das empresas tem sua predominância formada por empregados no comércio, e em número
menor as formadas por empregados metalúrgicos.
Este ano, de forma geral, grande parte das negociações
tratou somente da parte econômica, poucos foram os que
discutiram benefícios e cláusulas sociais.
Com a inflação mantida em níveis médios entre 5 e 5,9%
(INPC), previa-se negociações mais rápidas com aumentos reais muito próximo da inflação (cerca de 10 a 20% dela), mas
não é o que ocorre. Os pleitos de aumento real variam de 2,0%
a 3,5%, o que representa 40% a 70% da inflação do período.
As principais negociações em andamento são:
Comerciários de Criciúma, Santa Catarina
Data base maio – reajuste de 8,5%, mantidas as demais cláusulas da CCT, já encerrado.
Comerciários do Paraná – Diversos municípios
Data base junho – reajuste médio de 8,0%, mantidas as demais cláusulas da CCT, já encerrado.
Comerciários de Caxias do Sul – Rio Grande do Sul
Data base julho – reajuste de 7,3%, mantidas as demais cláusulas da CCT, já encerrado.
Metalúrgicos de Taubaté
Negociações em fase final. Índice negociado de 7,5% de
reajuste e abono salarial já aprovado e assinado em Termo
aditivo à CCT, no valor de R$ 1.300,00, mantidas as demais
condições já estabelecidas em nossa Convenção Coletiva de
Trabalho. Data base agosto de 2012, texto final com todas as
condições negociadas já está disponível em nosso site. Pagamento das diferenças na folha de novembro/12.
Metalúrgicos de Campinas e Limeira
Negociações encerradas. Índice de reajuste de 8,5% e manutenção das demais cláusulas de nossa Convenção Coletiva
de Trabalho. Data base setembro de 2012, texto final com
todas as condições negociadas já está disponível em nosso
site. Pagamento das diferenças na folha de novembro/12.
Comerciários de São Paulo Capital
Negociações em andamento. Foi momentaneamente suspensa a Convenção Coletiva dos Comerciários de São Paulo, em
função de desacordo quanto ao índice do reajuste salarial.
Inicialmente as partes haviam acertado um reajuste de 7,5%.
Porém, no momento da assinatura para registro na SRT, o Presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo declinou
das tratativas anteriormente realizadas, pleiteando novo índice de 8%
(documento disponível no site).
Comerciários de Osasco
Negociações encerradas. Índice de
reajuste de 7,5% e algumas alteraDr. Carlos Freitas Nieuwenhoff
ções nas cláusulas sociais. Data base
setembro de 2012, texto final com
todas as condições negociadas já está disponível em nosso
site. Pagamento das diferenças na folha de novembro/12.
Comerciários de Santo André
Negociações encerradas. Índice negociado de 8,0% de reajuste e 8,5% nos pisos, mantidas as demais condições já estabelecidas em nossa Convenção Coletiva de Trabalho. Data
base setembro de 2012, texto final com todas as condições
negociadas já está disponível em nosso site. Pagamento das
diferenças na folha de novembro/12.
Comerciários do Interior (federação e demais sindicatos)
Negociações encerradas. Índice negociado de 8,0% de reajuste e 8,5% nos pisos, mantidas as demais condições já estabelecidas em nossa Convenção Coletiva de Trabalho. Data
base setembro de 2012, texto final com todas as condições
negociadas já está disponível em nosso site. Pagamento das
diferenças na folha de novembro/12
Comerciários de Guarulhos
Negociações encerradas. Índice negociado de 8,0% de reajuste e 8,5% nos pisos, mantidas as demais condições já estabelecidas em nossa Convenção Coletiva de Trabalho. Data
base outubro de 2012, texto final com todas as condições
negociadas já está disponível em nosso site. Pagamento das
diferenças na folha de novembro/12.
Metalúrgicos da Capital e interior (Força Sindical)
Negociações encerradas. Índice de reajuste de 8,0% a partir
de 01/01/2013, com pagamento de um abono de 22% (equivalente aos meses de novembro, dezembro e 13º salário) a
ser pago em duas parcelas de 11% do salário vigente em
31/10/12, nos dias 7 e 21 /12/2012, respeitado o teto de R$
6.050,00, mantidas as demais cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho. Data base novembro de 2012, termo aditivo
da Convenção disponível em nosso site.
Empregados na Distribuição de Minas Gerais – SEEDSIDER
Negociações encerradas. Índice de reajuste de 7,0% e algumas alterações nas cláusulas sociais. Data base novembro de
2012, texto final com todas as condições negociadas já está
disponível em nosso site.
Para maiores informações acesse www.sindisider.org.br
Expediente
Diretoria Executiva
Presidente
Carlos Jorge Loureiro
Vice-presidente
José Eustáquio de Lima
Diretor administrativo e financeiro
Miguel Jorge Locatelli
Diretor para assuntos extraordinários
Heuler de Almeida
8 | Artigo
Revista Brasileira do Aço
Conselho Diretor
Alberto Piñera Graña, Carlos Henrique,
Stella Rotella, Philippe Jean Marie Ormancey,
Ronei Kilzer Gomes, Newton Roberto Longo
Superintendente
Gilson Santos Bertozzo
Conselheiro Editorial
Oberdan Neves Oliveira
11 2272-2121 [email protected]
Editora Isis Moretti (Mtb 36.471)
[email protected]
Projeto gráfico, diagramação e editoração www.criatura.com.br
Impressão Pigma
Distribuição exclusiva para Associados ao Inda. Os artigos e opiniões
publicados não refletem necessariamente a opinião da revista Brasileira
do Aço e são de inteira responsabilidade de seus autores.