UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – campus V PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL HELVÉCIA – homens, mulheres e eucaliptos (1980 – 2005) LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES Santo Antônio de Jesus JANEIRO / 2009 2 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS – campus V PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA REGIONAL E LOCAL HELVÉCIA – homens, mulheres e eucaliptos (1980 – 2005) LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em História Regional e Local da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre. Orientadora: Profa. Dra. Ely Souza Estrela Santo Antônio de Jesus JANEIRO / 2009 3 HELVÉCIA - homens, mulheres e eucaliptos (1980-2005) LILIANE MARIA FERNANDES CORDEIRO GOMES Orientadora: Profa. Dra. Ely Souza Estrela Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em História Regional e Local, da Universidade do Estado da Bahia - UNEB, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre. Aprovada por: BANCA EXAMINADORA: _______________________________________________ Prof. Dr. (a) (orientador) Ely Souza Estrela _______________________________________________ Prof. Dr. (a) Lídia Maria Pires Soares Cardel ________________________________________________ Prof. Dr. (a) Charles D’Almeida Santana ________________________________________________ Prof. Dr. (a) Suplente Alicia Ruiz Olalde ________________________________________________ Prof. Dr. (a) Suplente Wellington Castellucci Júnior JANEIRO / 2009 4 Aos homens e mulheres de Helvécia, que, em sua inteireza se (re)inventam cotidianamente e, com os quais eu muito aprendi. 5 AGRADECIMENTO Ao escrever este agradecimento várias pessoas me vêm à memória e dizem de sua importância nesta caminhada, que foi possível de ser realizada em razão do apoio e contribuição de cada uma delas. Entendo o ato de agradecer como uma partilha e é com este sentimento que agradeço: As pessoas de Helvécia que me acolheram com confiança e inteireza em suas casas e se dispuseram a falar de suas vidas. De forma especial, agradeço a Célia, Netinha, Jorge, João Vitor e Marília que intermediaram o meu contato com muitos dos entrevistados. Aos funcionários dos arquivos consultados, em especial os responsáveis pelo arquivo da Associação Cultural Bahia Minas e pelo cartório de Helvécia. Aos colegas do Departamento de Educação do campus X/ UNEB que contribuíram de forma decisiva em minha caminhada com seus incentivos, especialmente os colegas do colegiado de história. Neste sentido também os discentes do colegiado de história tiveram um papel importante nesta etapa de minha vida, e a eles do mesmo modo, eu agradeço. Aos professores e funcionários do campus V - UNEB, que foram responsáveis diretos pela minha formação: Charles D’Almeida Santana, Daniel Francisco dos Santos, Ely Souza Estrela, Felipe Magalhães, Walter Fraga Filho, Wilson Mattos e Suzana Severs. Aos companheiros de turma que, ao me acolherem com carinho, contribuíram para que as minhas longas viagens também significassem reencontros prazerosos, durante o processo de construção desta pesquisa. De forma especial agradeço Rosana, Philipe, Raul, Carlos, Edilma, Fabiana e Rose. À minha orientadora, Ely Estrela, muito obrigada pela confiança, carinho, profissionalismo, paciência, sabedoria e alegria. Àquele que com sua sagacidade e bom humor contribuiu de forma definitiva na história da minha vida, meu pai, seu Zeca, sempre presente na minha memória, e a memória é viva. A dona Tê, minha mãe, o agradecimento constante de quem reconhece e sabe não só de sua torcida e carinho por mim como também dos poderes de sua oração. 6 Aos irmãos Jorge, pelos dengos e Tarcísio pelos incentivos constantes, contribuições e carinhos. As irmãs Lúcia, pelas docilidades e Tânia pelos comentários sagazes, indagações e carinhos. Aos familiares: Beto, Denga, Karina, Bruno, Rafa, Gabriel, Camila, Talita, João Vitor, Olívia, Pablo, Higor, e Vitor. É muito bom ter vocês sempre por perto, na torcida. Aos amigos Alzi, Rafael, Gean, Janete, Tata e Catiuscia, valeu o carinho. Ao meu companheiro Osvaldo que soube tentar compreender minhas muitas ausências e principalmente ouvir minhas angústias nos vários momentos em que a vontade e necessidade de escrever não se transformavam em texto. 7 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS Abecel – Associação das Empresas Brasileiras Exportadoras de Celulose ABI – Associação Baiana de Imprensa ACA – Associação e Comunidade Afro AQH – Associação Quilombola de Helvécia BNDE – Banco Nacional de Desenvolvimento Bndes – Banco Nacional de Desenvolvimento Social CAB – Centro Administrativo da Bahia CAR – Coordenadoria de Ação Regional Cedic – Centro de Documentação e Informação Cultural sobre a Bahia Caema – Companhia de Ações Especiais Mata Atlântica. Caerc – Companhia de Ações Especiais da Região Cacaueira. Cepedes – Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia Cerflor – Programa Nacional de Certificação Florestal Coorpin – Coordenadoria Regional de Polícia do Interior CVRD – Companhia do Vale do Rio Doce Detaq – Departamento de Taquigrafia, Revisão e Redação FASB – Faculdade do Sul da Bahia Flonibra – Empreendimento Florestais S.A. FSC – Forest Stewardship Council IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços PDU – Plano de Desenvolvimento Urbano PND – Plano Nacional de Desenvolvimento PNPC – Plano Nacional de Papel e Celulose Proesp – Programa de Apoio à Educação Especial PT – Partido dos Trabalhadores Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural Seplan – Secretária de Planejamento UPM – Unidade de Produção de Mudas UNEB – Universidade do Estado da Bahia 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 – Cemitério São Pedro ............................................................................ 50 Figura 2 – Cemitério São Pedro e eucaliptos ........................................................ 51 Figura 3 – Cemitério São Pedro: fragmentos......................................................... 53 Figura 4 – Cemitério São Pedro: Lápide................................................................ 54 Figura 5 – Estrada de ferro Bahia e Minas ............................................................ 77 Figura 6 – Barracão na propriedade do sr. Kemi Krull ........................................... 148 Figura 7 – Prensa manual, propriedade do sr. Kemi Krull ..................................... 150 Figura 8 – Cocho, propriedade do sr. Kemi Krull ................................................... 150 Figura 9 – Forno, propriedade do sr. Kemi Krull .................................................... 151 Figura 10 – Residência do camponês Manoel Norberto Henrique de Sena........... 158 Figura 11 – Instrumentos de trabalho de um camponês........................................ 159 Figura 12 – Placa da reforma da escola João Martins Peixoto .............................. 199 Figura 13 – Cemitério do Sertão – marcas do tempo ............................................ 218 Figura 14 – Cemitério do Sertão – novas marcas do tempo .................................. 219 9 LISTA DE TABELAS Tabela 01 – Produção de café da Colônia Leopoldina 1836-1853......................... 41 Tabela 02 – População residente por sexo e situação .......................................... 125 10 RESUMO Helvécia, distrito de Nova Viçosa, está localizado no extremo sul da Bahia e desde 2005 foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares, como área remanescente de quilombo. O modo de organização econômica desta comunidade, associado às dimensões sócio-culturais está imbricado à lida/propriedade/posse das terras que no passado remoto fizeram parte da Colônia Leopoldina. A eucaliptocultura se encontra em franca expansão no extremo sul baiano e esta atividade se faz presente em Helvécia desde os anos de 1980. À época de sua implantação, houve por parte de integrantes da comunidade, a esperança de que estaria se iniciando um tempo de progresso e conquistas sócio-econômicas. Com o passar dos anos, as fraturas entre o prometido e o realizado começaram a se fazer visíveis, implicando na experiência de “desmantelamentos” da vida de muitos camponeses, e na tessitura de tensões, resistências e negociações. A pesquisa indica a existência de diferentes projetos coexistindo em Helvécia, sugerindo a complexidade das relações entre os próprios membros da comunidade e entre estes e os representantes da eucaliptocultura. Também fica perceptível a mudança na composição de forças entre os representantes destes projetos após o reconhecimento do distrito como área remanescente quilombola. O objetivo deste trabalho é discutir as condições sociais e as relações simbólicas dos homens e das mulheres de Helvécia, após o desenvolvimento do agronegócio no distrito. A partir da realização de entrevistas, analisou-se narrativas e silêncios tecidos pela memória de habitantes do distrito a respeito do que significava viver naquele lugar antes da implantação da eucaliptocultura e como estes indivíduos foram obrigados a se (re)inventarem e a se (re)organizarem, através de estratégias diversas, para viver com o eucalipto. Palavras-chave: eucaliptocultura, resistência, remanescente de quilombo, memória e cotidiano. 11 ABSTRACT Helvécia, district of Nova Viçosa, is located in the extreme south of Bahia and since 2005 was recognized by Cultural Palmares Foundation, as a Quilombola remaining area. The economic organization way of this community, coupled with socio-cultural dimensions is imbricated to labor / property / possession of land which in a remote past was part of Leopoldina colony. The eucalyptus culture is booming in the extreme south of Bahia but this activity has been present in Helvécia since the 1980s. At the time of its deployment there was ,from members of the community, the hope that it would bring a time of progress and socio-economic achievements. Over the years, the fracture between the promised and the accomplished started to become visible, implying in the experience of "dismantling" the lives of many peasants, and the arising of tensions, resistance and negotiations. The research indicates the existence of different projects coexisting in Helvécia, suggesting the complexity of the relationship between the community members themselves as well as between them and the representations of the eucalyptus culture.It is also noticeable the change in the composition of forces between the representations of these projects after the recognition of the district as a Quilombola remaining area. The aim of this research is to discuss the social and symbolic relationship of men and women of Helvécia, after the development of agribusiness in that district. From interviews applied, both narratives and silences produced by the memory of inhabitants of the district about what meant living in that place before the deployment of the eucalyptus culture and how these individuals were forced to (re) invent and to (re) organize themselves, through various strategies, to live with the eucalyptus. Keywords : eucalyptus culture, resistence, Quilombola remaining area, memory and daily. 12 SUMÁRIO Introdução ............................................................................................................. 13 1º Capítulo – Velhos Tempos de Helvécia............................................................. 36 1.1 Helvécia – uma aproximação em três tempos ................................................. 37 1.2.1 Colônia Leopoldina e Helvécia – Alinhavos .................................................. 39 1.2.1.1 Lugar de memória ........................................................................... 48 1.2.2 Tempo do cativeiro – memórias indizíveis .................................................... 56 1.2.3 Tempo da fartura “Ah, mais aqui era muito bom”.......................................... 61 1.2.3.1 “Festa em Helvécia era superior” .................................................... 69 1.2.4 Tempo da estação – Estrada de ferro Bahia Minas ...................................... 72 2º Capítulo – “Pensou que não chegou a firma” .................................................... 84 2.1 “Porque eu me senti comprada” ...................................................................... 99 2.2 “Desmantelamentos” ....................................................................................... 115 2.3 “Se não ficasse rico”........................................................................................ 120 3º Capítulo – Viver com eucaliptos ........................................................................ 137 3.1 Resistências miúdas........................................................................................ 146 3.1.1 “Pior de tudo é nada né?” .................................................................. 147 3.1.2 “Eu não vou viver de pau” .................................................................. 153 3.1.3 Entre facho e preguiça – viver do carvão ........................................... 161 3.2 “Assuma a sua identidade, seja orgulhoso de ser filho de Helvécia” ............... 174 3.2.1 Arranjos identitários. Ser quilombola, tornar-se quilombola................ 187 3.3 “A gente está em um jogo de cintura com a comunidade” ............................... 205 Considerações finais ............................................................................................. 213 Referências ........................................................................................................... 221 13 INTRODUÇÃO Uma estrada “antiga”, de terra batida, estreita, ladeada por eucaliptos, que estão enfileirados, organizados, vicejantes e prontos para serem cortados, empilhados e enviados através de caminhões capazes de armazenar e transportar toras e mais toras da branca madeira até diferentes portos, rumo a outros cantos do mundo. Uma estrada principal, “nova”, ladeada por eucaliptos que não se fazem de rogados, e aparecem em diferentes tamanhos e portes como a dizer que aquele caminho é, natural e definitivamente, deles. Espaços de ausência nas beiras das estradas. Não mais tantos sítios, não mais jaqueiras frondosas, não mais fartura de gado, não mais casas avarandadas. Silêncios e eucaliptos, eucaliptos e máquinas coletoras, eucaliptos, homens e máquinas. Não há mulheres. Espaços de existência na beira da estrada. Um pequeno sítio, jaqueiras tímidas e frondosas, algumas reses, algumas casas, uma varanda. Possibilidades de confrontos e conflitos se insinuam no meio das estradas. Homens e mulheres vivem nos povoados que se situam às margens das estradas por onde circulam as carretas que transportam o eucalipto. Eles buscam recolher, das mais variadas formas, algumas sobras que se desprendem da riqueza do eucalipto, que passa, cada vez mais rápido, rumo aos seus destinos, seus distantes portos de desembarque. Espaço de vivência para além das estradas e seus eucaliptais. Lugares plenos de histórias, histórias que sugerem outro jeito de viver e lidar com a terra, com o ritmo do tempo, com as relações de sociabilidade. Homens e mulheres. Também eles já estavam ali e ali permanecem. Permanecerão? A composição desses elementos sugere a existência de tensões não só na beira da pista, mas dentro das casas, das igrejas, das vendas, enfim dos lugares de convívio. É neste feixe de possibilidades, de leituras de lugar, que está situado o distrito de Helvécia, pertencente ao município de Nova Viçosa-BA, a 958 km de Salvador tendo a BR 418 e a BR 101 como rodovias de acesso. A princípio, o que chama a atenção neste distrito, não é uma singularidade, mas sim o fato de o mesmo, como 14 tantos outros na região, ter sido, de certa forma, tomado pela plantação de eucalipto. Entretanto, uma observação mais cuidadosa deste lugar nos faz ver suas idiossincrasias, e nos revela a existência de uma comunidade predominantemente afro-brasileira, reconhecida desde 19 de abril de 20051 como área remanescente de quilombo, que, diante de desmantelamentos estruturais, busca se organizar a partir de ações individuais e coletivas no sentido de continuar a existir. Segundo dados preliminares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes à elaboração do censo de 2006,2 a população total do distrito de Helvécia é de 4.298 habitantes, divididos entre 1.690 na área urbana e 2.608 na área rural. A partir das falas de pessoas que residem naquele distrito é possível identificar dimensões do cotidiano que revelam o significado do viver com o eucalipto em Helvécia, suas expectativas e conflitos. Essas falas também apontam os imbricamentos deste cultivo com os projetos governamentais que defendem o agronegócio em detrimento dos outros modos de viver pautados nas atividades agrícolas associadas a outras, não agrícolas, utilizadas para complementação da renda, com o intuito de manter a condição de agricultor.3 Meu interesse de pesquisa sobre essa comunidade deu-se a partir de contatos com ela estabelecidos, em razão de trabalhos orientados e desenvolvidos por mim, juntamente com alunos dos cursos de turismo, pedagogia e letras,4 desde o ano de 2003. Estes primeiros contatos foram feitos a partir de leituras sobre Helvécia, nos raros materiais escritos existentes a que tive acesso à época, visitas à comunidade e conversas informais com alguns de seus membros. Neste período, já se concretizara no Brasil e na Bahia uma tendência de valorização da cultura afro-brasileira, com uma espécie de exaltação de tudo aquilo que se lia, se via e se dizia relacionado às tradições africanas. Em consonância com este movimento, o debate a respeito da importância das comunidades quilombolas suscitava estudos acadêmicos e ganhava espaço na mídia e na agenda política, com repercussões sobre o fazer legislativo. 1 Reconhecimento através da Fundação Cultural Palmares, do Ministério da Cultura, portaria nº 7 de 6 de abril de 2005, publicado no Diário Oficial da União, de 19 de abril de 2005. 2 Informações obtidas no escritório do IBGE em Teixeira de Freitas - Bahia. 3 Maria José Carneiro. Pluriatividade da agricultura no Brasil: uma reflexão crítica. CPDA/UFRRJ. 4 Integro o colegiado de Turismo da Faculdade do Sul da Bahia – FASB em Teixeira de Freitas e fui convidada a ministrar aulas no curso de formação de professores em exercício – PROESP de licenciatura em Letras da UNEB Campus XVII de Eunápolis. 15 Em conformidade com a Lei 10.639/2003, que, em seu artigo 26-A, trata da obrigatoriedade do ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, tanto em escolas oficiais quanto em escolas particulares, essa temática ganhou cada vez mais espaço nos ambientes acadêmicos, principalmente nos cursos de pedagogia, em razão da necessidade de que estes futuros profissionais tivessem conhecimento a respeito da mesma. Nos debates passou a ser muito comum falas dos alunos sobre comunidades negras. De forma específica – acredito que em razão da proximidade espacial, na cidade em que vivo e trabalho, Teixeira de Freitas –, Helvécia passou a ser apresentada em sala de aula pelos discentes, como um lugar de referência da cultura afro-brasileira, falada como sendo um espaço de resistência, um lugar onde as pessoas tinham suas tradições associadas aos tempos da escravidão, vivenciados na antiga Colônia Leopoldina, fundada por colonos europeus ainda no início do século XIX. Concomitante à valorização anteriormente indicada, somavam-se os problemas relativos ao crescimento da eucaliptocultura, que compunha a paisagem da região do Extremo Sul baiano. Esta atividade ganhava terreno e ao fazê-lo contribuía para o aumento do deslocamento de pessoas de seus lugares de origem, de seus sítios, de suas terras. O debate a respeito do impacto ambiental do plantio do eucalipto também ocupava os espaços acadêmicos e ganhava uma relativa visibilidade na mídia local. A discussão se pautava, em linhas gerais, na dicotomia progresso versus preservação do meio ambiente. Uma série de discursos apresentados pelas empresas representantes da eucaliptocultura, seus agentes e defensores, queriam fazer ver unicamente os benefícios deste plantio e se negavam a discutir os problemas que lhes eram atribuídos por grupos ligados às organizações ambientais e/ou sociais. Foi exatamente no exercício dos debates em sala de aula e em outros ambientes acadêmicos, que vislumbrei as relações e a complexidade existente entre a eucaliptocultura e o distrito de Helvécia. Cabe recordar, com um pouco mais de detalhes, os meus primeiros contatos com Helvécia. Esses aconteceram, antes de iniciar o desenvolvimento desta pesquisa, a partir de visitas feitas à comunidade. O debate sobre a importância da cultura afro-brasileira ensejou os discentes a provocarem este movimento de ida até aquela comunidade. 16 A primeira delas deu-se em razão de um grupo de estudantes do curso de Turismo, no desenvolvimento de uma atividade acadêmica, ter convidado para vir à faculdade um grupo de Helvécia que iria “apresentar” a dança do “bate-barriga”, bem como “encenar” a luta dos mouros e cristãos. Naquela oportunidade, um dos eixos de debates desenvolvidos, junto com a turma, estava relacionado às discussões sobre a premissa, comum em um curso de turismo, da valorização da cultura local. Atrelada a esta questão, discutíamos os riscos existentes em folclorizar as pessoas, em tratar a produção cultural como um espetáculo. Foi assim que, após a “apresentação”, abrimos um espaço de conversa com algumas das pessoas da comunidade e combinamos uma visita a Helvécia para conhecermos um pouco mais sobre aquele jeito de ser. Saber, por exemplo, como se dera a elaboração das letras das músicas cantadas por eles, conversar sobre a linguagem corporal ali utilizada e seus possíveis significados, buscando, desta forma, ir além da postura de meros espectadores de um show que se encerrara com aplausos e comentários entusiasmados da platéia sobre a “riqueza da cultura afrobrasileira”. Passados alguns dias, nos organizamos e fomos até o distrito de Helvécia. A paisagem que se apresentou durante o trajeto até a comunidade foi se mostrando impactante pela sua homogeneidade. Para onde quer que se olhasse, o eucalipto se fazia presente, verde, pronto para o corte ou ainda se insinuando em mudas ordenadas, enfileiradas. Aquele fato chamou a atenção do grupo e a minha, de modo particular. Ao chegarmos, fomos recebidos com carinho e tivemos de fato aquilo que havia sido planejado, qual seja a oportunidade de conhecer um pouco o jeito de ser de alguns membros da comunidade. Alguns fatos nos chamaram a atenção, um deles foi a existência de quintais que não se separavam por cercas, dando uma pista de que havia, naquele espaço, um jeito diferente de lidar com a noção de propriedade. Outro dado referia-se ao orgulho com que a população fazia menção ao prédio da estação ferroviária Bahia e Minas, fazendo questão de mostrá-lo como se ele fosse um exemplo concreto da importância do distrito em outros tempos vividos. Falava-se muito do passado, talvez para não falar da vida presente e do que a mesma implicava. 17 Foi nesta oportunidade que comecei a perceber a existência de um desejo por parte de membros da comunidade em falar de suas Memórias, e ao fazê-lo percebi que os tempos da estação eram lidos como tempos áureos e os tempos do eucalipto como um tempo de tensões, suscitando emoções confusas e ambíguas. Era comum a construção de frases que em linhas gerais expressavam a idéia de que o distrito estava “cercado pelo eucalipto”, ao mesmo tempo em que se falava das “firmas” 5 como se as mesmas desempenhassem um importante papel na história daquele local. Algum tempo depois, exatamente no dia 29 de janeiro de 2006, voltei à Helvécia, desta vez com uma turma do colegiado de Letras da UNEB – Campus XVIII, Eunápolis, onde ministrava a disciplina Cultura Afro-brasileira, no curso de formação de professores em exercício, através do Programa de Apoio á Educação Especial (Proesp). Naquele dia a comunidade realizava festejos em homenagem a São Sebastião. Além dos alunos regularmente matriculados na disciplina, algumas discentes de outros cursos fizeram a viagem. Este fato acabou por requerer de mim uma atenção especial a respeito dos comentários produzidos no caminho, e que indicavam as expectativas daquele grupo no que dizia respeito a uma comunidade quilombola. Pude observar na fala de alguns estudantes, à medida que o ônibus se aproximava do distrito, a manifestação de um imaginário segundo o qual estaríamos chegando numa área intocada pelo tempo e que encontraríamos um modelo de quilombo que teria se constituído de forma isolada do mundo, como se fora uma área de negros fugidos do cativeiro que buscavam restabelecer em solo brasileiro uma nova África.6 Aquele imaginário indicava uma leitura de cultura como algo estático, que não estivesse sujeito a transformações engendradas nas relações cotidianas. Os estudantes diziam de suas expectativas e me faziam pensar que, para eles, aquela era uma viagem no tempo, como se fosse possível restaurar naquele 5 É comum os habitantes de Helvécia se referirem às empresas responsáveis pelo plantio de eucalipto no distrito, quais sejam Aracruz e Bahia Sul Suzano e Celulose, como “as firmas”. 6 Arthur Ramos apud Flávio dos Santos Gomes. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. Ed. rev. e ampl. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 18 lugar as “sociedades africanas” dos nagô, cabinda, congo, hauçá, benim, calabar, moçambique, rebola e gêge,7 que para ali foram trazidos à época da Colônia Leopoldina. Muitas das falas foram no sentido de essencializar aquela comunidade. Era como se no momento em que descêssemos do ônibus todo um repertório “afro” fosse se descortinar para nós através de ritmos, pratos “típicos” e uma plasticidade associada àquele mundo, traduzida na beleza de homens e mulheres que estariam com seus cabelos trançados e enfeitados com contas coloridas. Falava-se de Helvécia como se aquela comunidade tivesse sido formada por escravos fugitivos que lutaram para reconstruir Estados Africanos no Brasil. Assim, entre os alunos havia a idéia de que naquele lugar eles iriam encontrar “sobrevivências africanas”8 ainda intocadas. Neste sentido, havia, por exemplo, uma curiosidade em relação a como seria a caracterização lingüística da comunidade de Helvécia, associada, no imaginário de muitos dos alunos, ao “falar crioulo”.9 Observei que um tema era recorrente nas conversas, a religiosidade afro. Havia ali, naquele grupo, uma expectativa velada e/ou revelada de que encontraríamos vários membros da comunidade adeptos dos cultos afros e que estes estariam dispostos a falar sobre suas crenças e rituais. Todas essas observações convidaram-me a fazer uma pequena intervenção no sentido de alertar para o fato de que aquele era um espaço historicizado e, portanto, não se tratava de um lugar morto, parado no tempo como se fosse um cenário de filme ou novela de época. Havia ali indivíduos vivendo o seu tempo, aquele tempo em que nós também estávamos. Ainda assim, qual foi o choque destas pessoas ao descerem do ônibus e se depararem com carros de som tocando axé music e arrocha. Ficamos ali por todo o dia e comecei a reparar a existência de outros ônibus, além do nosso, com placas que indicavam lugares os mais diversos: Belo Horizonte, Vitória, entre outros. Percebi, através de conversas informais, que havia, além de turistas que vieram conhecer uma área remanescente quilombola, também pessoas 7 Guia para formação de processo. Fundação Cultural Palmares – Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia – Nova Viçosa – Bahia, fls 41. 8 Flávio dos Santos Gomes. Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. Ed.rev. e ampl. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 11. 9 Antes da viagem a Helvécia, havíamos lido em sala de aula o texto produzido por Dante Lucchesi e Alan Baxter, Projeto Vertentes do Português Rural do Estado da Bahia, disponível em http://www.vertentes.ufba.br/helvecia.htm. 19 naturais de Helvécia que não mais moravam no distrito e estavam ali a passeio para visitar amigos e parentes. Elas faziam questão de dizer que eram de Helvécia e acentuavam, nas suas falas, um sentimento de orgulho. Curioso observar que quando uma das alunas perguntou onde era que se localizava o terreiro de candomblé obteve como resposta um taxativo: “Isso não existe aqui”, indicando que este era um terreno interdito que não se deixaria ver ou ao menos não se deixaria ver de pronto. Ainda não entendendo o que estava acontecendo, a estudante resolveu buscar mais informações sobre essa temática e passou o dia fazendo a pergunta para qual obtinha sempre a mesma resposta. Até que ao se aproximar de algumas jovens que não eram de Helvécia encontrou uma resposta diferente, qual seja, havia sim um terreiro e este se localizava em uma determinada saída de Helvécia, a “estrada velha”. Para satisfazer a curiosidade, que a essa altura já havia sido despertada em todo o grupo, resolvemos fazer o caminho de volta através da tal estrada passando pelo vilarejo denominado “Espora Gato”, pertencente ao município vizinho, Caravelas. O novo trajeto, de fato, deixou ver a existência de um terreiro. Este foi identificado a partir de elementos que compuseram a descrição feita para a estudante que integrava o nosso grupo. Após a constatação e conversas tecidas a partir daí, continuamos a viagem pela “estrada velha”. A estrada era bem mais estreita que a via principal e ladeada por eucalipto. À medida que o ônibus andava, mais e mais plantios de eucalipto apareciam e tínhamos a impressão de estar dentro de uma cerca viva. Este sentimento de estar enredado por eucaliptos começou a me fazer pensar nas falas das pessoas que moravam naquele distrito, principalmente como era para elas viver com tal cultivo. Naquele momento começava a se desenhar algumas das indagações que pretendo abordar nesta pesquisa, como: em que medida as relações entre os membros da comunidade e as empresas que plantam eucalipto foram tecidas a partir de expectativas e conflitos? Como os habitantes de Helvécia se organizavam para viver com o eucalipto? Como lidaram com as tensões envolvendo as questões da propriedade da terra? Até que ponto a eucaliptocultura influenciou a comunidade no processo de busca de reconhecimento de uma identidade quilombola? Em que medida eles utilizaram, frente à eucaliptocultura, mecanismos de resistência no seu fazer cotidiano? De quais formas a memória da comunidade se compõe e estabelece relações com seus elementos identitários? A existência dos 20 deslocamentos, que percebi através de falas de membros da comunidade, teria relação com a implantação do agronegócio do eucalipto? Mais tarde, em julho de 2006, ao assumir o cargo de professora substituta no colegiado de História da UNEB campus X, em Teixeira de Freitas, deparei-me em uma reunião de departamento com a leitura de uma carta enviada por pessoas da comunidade de “Espora Gato”. Motivadas pelo reconhecimento de Helvécia como área remanescente quilombola, solicitavam da academia um estudo sobre a sua origem, que, ainda segundo a referida carta, era predominantemente afro. Essa demanda do povoado instigou ainda mais a minha vontade por desenvolver uma pesquisa. Foi quando tomei conhecimento do programa de Mestrado em História Regional e Local da Universidade do Estado da Bahia, campus V. Em seguida, decidi participar do processo de seleção com o projeto então denominado: Helvécia: homens, mulheres e eucaliptos – histórias de sonhos, conflitos e dores. Do ponto de vista conceitual, para não ficar presa à dualidade expressa no binômio natureza/cultura, e buscando compreender as relações, por vezes contraditórias, existentes dentro da comunidade de Helvécia, farei uso de categorias de análise como cotidiano e experiência, memória, resistência e identidade. Aqui é preciso que se esclareça em que sentido e a partir de quais leituras compreendo a dimensão do cotidiano. Em primeiro lugar, devo elucidar que não o entendo como associado à idéia de rotina, previsibilidade e repetição. Se assim o fosse é provável que tal pesquisa estivesse fadada a se limitar a uma análise descritiva do modo de viver em Helvécia. Diferentemente desta concepção, do cotidiano como algo fixo e já dado, compreendo este conceito associado à idéia de movimento e imprevisibilidade, dando margens para novos arranjos sociais. Isso implica dizer que o cotidiano será aqui trabalhado em sua dimensão relacional, nos espaços econômicos, políticos e socioculturais. Possibilitando, assim, a problematização do mesmo, bem como a desconstrução de estereótipos que servem a uma visão rígida dos papéis e espaços, mas que não compreendem a complexidade exigida pela historicidade. Naquilo que concerne aos estudos voltados para a dimensão do cotidiano, Maria Odila Leite da Silva Dias, comentando as diferentes formas de se trabalhar tal conceito, expressa sua crítica à idéia do mesmo como instrumento de mera descrição e assinala a importância que este adquire à medida que 21 [...] estuda o cotidiano problematizando conceitos herdados do pensamento tradicional e mostrando o impasse em que se encontram. Nesse sentido vem trabalhando tensões e conflitos que clamam por uma hermenêutica radical: a politização do privado, das relações de gênero, de uma pluralidade de sujeitos e de diferentes processos históricos de construção das subjetividades. É esse um caminho bastante fecundo, que tornou visível a historicidade de valores considerados estanques como natureza e cultura, público e privado, sujeito e objeto, razão, emoções, paixões, dualidades que têm por certo sua historicidade, a qual, porém, o pensamento contemporâneo vem procurando transcender.10 Ao romper com a dualidade natureza e cultura, público e privado, sujeito e objeto, razão e emoção, estes universos passam a transitar e se comunicar de tal forma que nos surpreendem com amálgamas que se expressam nos arranjos, nas invenções, nas construções de alternativas, no jeito de ser. Assim, nesta pesquisa se buscou conhecer indivíduos que transitavam nestes diferentes espaços. Pessoas que, através de suas falas, indicavam uma defesa do jeito de viver pautado na pluriatividade,11 cujos integrantes da família exerciam mais de uma atividade econômica, com especial destaque para as agropastoris, e associavam a estas suas memórias dos “bons tempos”. Por outro lado, porém, perguntavam-se: “Como fazer outro cultivo, como investir em outra produção se o que dá dinheiro hoje é o eucalipto?” Compreende-se, pelo exposto, que é necessário levar em consideração o contexto simbólico das pessoas de Helvécia para se conhecer, minimamente, aquilo que é vivenciado por elas, afinal, a análise da eucaliptocultura vista “a partir de cima” pode encobrir fissuras, desalentos não quantificados, distante de uma perspectiva “a partir de baixo”12, vivenciada e traduzida nas falas daqueles que moram em Helvécia e que muito têm a nos narrar do lugar que ocupam. Como nos indica Roseli Ricardo Constantino, integrante da Associação Quilombola de Helvécia (AQH), pedagoga e professora da comunidade, ao dizer: “é muito fácil falar sobre uma realidade quando 10 Maria Odila Leite da Silva Dias. Hermenêutica do cotidiano na historiografia contemporânea. Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica da São Paulo, São Paulo, EDUC, nº 17, p. 231, 1998. 11 José Graziano da Silva, Mauro Eduardo Del Grossi. O novo rural brasileiro. Este texto é parte de uma pesquisa mais ampla denominada “Projeto Urbano” (www.eco.unicamp.br). 12 Edward P Thompson. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas: UNICAMP, 2001, p. 245. 22 não se mora e não se está vivendo o dia-a-dia do lugar. Mostrar isso por intermédio de gráficos bonitos e enfeitados é muito fácil.”13 Exatamente por não acreditar que as mudanças econômicas analisadas de forma pontual e descoladas da realidade sociocultural, através, por exemplo, de “gráficos bonitos e enfeitados”, possam dar conta da complexidade existente nas relações sociais, bem como por entender, a partir das leituras de Maria Odila Leite da Silva Dias,14 que o estudo do cotidiano seja de fundamental importância para que se compreendam as tensões sociais, é que se pretende, nesta pesquisa, ir além da descrição do impacto econômico da eucaliptocultura no distrito de Helvécia. De modo a buscar, dentro dos limites possíveis, conhecer um pouco das experiências destas mulheres e homens que têm um sentimento de pertencimento em relação à Helvécia, analisando de que forma a implantação de uma atividade econômica monocultora e agroexportadora se relaciona e/ou se fricciona com os costumes existentes naquilo que diz respeito não só ao universo do trabalho, mas também no que é experienciado por essas pessoas nos seus mais variados espaços de atuação. E que no dinamismo histórico faz ver suas transformações quando se pensa no aqui-ontem e no aqui-hoje. Convém dizer que a problematização do cotidiano de Helvécia, que ora se pretende fazer, não tem a pretensão de, através das memórias e entrevistas realizadas, dar conta de reconstruir o passado. Estou ciente de que esta é uma tarefa inexeqüível, por outro lado, acredito que através das entrevistas realizadas, bem como de sua análise, seja possível conhecer, por assim dizer, uma “nesga” deste passado, visto que estou entendendo aqui a memória como uma construção. Assim, o depoimento individual não é “solto”, sua memória está impregnada de dimensões da vida coletiva. Pierre Nora, ao escrever a respeito da memória, traduz suas potencialidades e limitações dentro de uma atividade de pesquisa ao afirmar: A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, neste sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações 13 Roseli Ricardo Constantino, Depoimento n. 1595/05 de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – DETAQ. 14 Maria Odila Leite da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2. ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 1995. 23 sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações.15 Sendo assim, cabe ao historiador, ao trabalhar com pessoas e suas memórias, ter clareza de que está lidando com leituras/interpretações sobre o real, pois como nos diz Nora, ao tratar das diferenças entre história e memória, “a história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais”,16 o que significa dizer que ao trabalhar a partir das memórias construídas, uma limitação se faz presente, visto que muito daquilo que foi vivenciado no passado não será utilizado na composição da história daquele lugar e daquelas pessoas. Além disso, o trabalho com memórias exige uma análise criteriosa e responsável daquilo que foi apresentado pelos entrevistados à pesquisadora, constituindo-se um constante desafio nem sempre aqui enfrentado em sua complexidade. A importância que o estudo do cotidiano ganha nesta pesquisa está também associada à idéia de conhecer um pouco das experiências sociais tecidas em Helvécia, entendendo que aquelas pessoas atuam como agentes históricos dentro daquela realidade, na medida em que nas relações engendradas se vive não só a concretude do vivido, como também aquilo que se dá no campo da imaginação. O uso da categoria “experiência” foi feito a partir de leituras de Edward P. Thompson, que afirma o quanto esta é de fundamental importância para o historiador, tendo em vista que “[...] compreende a resposta mental e emocional, seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos interrelacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento”.17 Desta maneira, os entrevistados compuseram suas memórias a partir daquilo que havia sido sentido por eles, integrantes da comunidade de Helvécia, em seu convívio com a atividade da eucaliptocultura. O fato de entender essas pessoas como agentes históricos não significa identificá-las como se pudessem escrever seus scripts de maneira idílica, segundo suas vontades, como se a realidade não lhes apresentasse uma série de limites. Por outro lado, tais sujeitos não são seres sem vez nem voz, vítimas de uma história que se apresenta como um rolo compressor. Estes agentes constroem a sua história a 15 Pierre Nora. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Revistas do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História. PUC-SP, n° 10, p. 9, dez./ 1993. 16 Idem. 17 E. P. Thompson. A miséria da teoria ou um planetário de erros – uma crítica ao pensamento de Althusser. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1981, p. 15. 24 partir de condições determinadas, conforme salientou Karl Marx, em um processo contínuo em que há espaço para avanços e recuos, para ações marcadas por consonâncias e contradições.18 Os limites de ação da história também são construções humanas, e por isso são cambiáveis. Ainda no que diz respeito às experiências, sabemos que elas são plurais e no fazer-se de uma comunidade há espaços para fissuras, convergências e divergências. As experiências humanas devem ser entendidas, como nos alerta Thompson, dentro de seus contextos históricos específicos, sob o risco de, ao se optar por generalizações, abraçar modelos universais esvaziados que não darão conta da historicidade destes indivíduos. É, pois, a esta historicidade que o estudo em questão dará ênfase, entendendo estas pessoas não como simples fontes de pesquisa, não como modelos de uma comunidade quilombola que vivencia a atividade do agronegócio, mas sim como pessoas que têm algo a dizer a respeito de suas experiências, sobretudo de seu modo de viver. No diálogo com esses sujeitos pretende-se uma aproximação de possíveis interpretações das experiências dos habitantes de Helvécia. Não se tem aqui a aspiração de se chegar a um modelo explicativo, nem muito menos conclusivo do modo de viver desses indivíduos. Ao contrário, já se pode desde agora afirmar que nenhum modelo dará conta das possibilidades existentes. O que se pretende é uma aproximação de algumas dessas possibilidades, através da análise de conceitos como, por exemplo, aqueles ligados à idéia de trabalho, em diferentes unidades de tempo. É sempre bom lembrar que, como nos fala Maria Odila Leite da Silva Dias, “[...] projetos hegemônicos de uma sociedade dificilmente coincidiam com as experiências concretas de setores oprimidos da população”.19 Em relação ao método de pesquisa utilizado, vale dizer que os conflitos e as violências simbólicas impetradas pelo modelo agroexportador serão analisados a partir de dados qualitativos, uma vez que se compreende que não existe uma implicação direta entre a importância simbólica da violência e a quantidade de existência da mesma. Neste sentido, recorremos à defesa feita por Thompson, de que o contexto simbólico deva ser levado em consideração na análise de episódios 18 Maria Aparecida de Moraes Silva. A luta pela terra: experiência e memória. São Paulo: UNESP, 2004. 19 Maria Odila Leite da Silva Dias. Hermenêutica do cotidiano na historiografia contemporânea. Projeto História, op. cit., p. 233. 25 de violência, pois a esses episódios são atribuídos valores que variam em razão do referido contexto e que não aparecem numa análise puramente quantitativa.20 Não se trata, por exemplo, de fornecer dados sobre a quantidade de terra que pertencia aos habitantes de Helvécia e que hoje pertencem às empresas produtoras de eucalipto. O que nos preocupa é conhecer em que medida tais aquisições foram pautadas em ações que constituem atos lidos e tidos pela comunidade local como agressivos e/ou violentos. Interessa-nos saber, por exemplo, como as pessoas se sentiram ao terem seus espaços, antes conhecidos e individualizados, agora homogeneizados pelo plantio do eucalipto. A fala a seguir dá uma pista dessa, por assim dizer, sensação, Eucalipi tá pertinho assim do Comércio [Helvécia], tomando mermo. Isso aí que eu não me senti bem [...] eucalipi tá dentro do Comércio.[...] e a maioria desse pessoal lá perto venderam a terra toda, então a terra que eles venderam foi tudo pra Aracruz, aí virou eucalipi.21 na qual a proximidade do plantio é denunciada nas entrelinhas como algo agressivo, e a venda das terras para a Aracruz é interpretada como uma imediata transformação destas em eucalipto, traduzida na expressão: “aí virou eucalipi”. Outra ressalva que se acredita pertinente diz respeito ao seguinte fato: não se pode imaginar que o distrito de Helvécia, independente da eucaliptocultura, pudesse viver de forma a não entrar em contato com mudanças e transformações ocorridas no Brasil no período da denominada modernização conservadora. Não se trata aqui de entender uma comunidade camponesa, hoje reconhecida como área remanescente quilombola, como se fosse uma comunidade parada no tempo, vivendo de forma anacrônica. A modernização da agricultura, iniciada no Brasil na década de 1950, estava relacionada à tomada do campo, condição para a expansão capitalista. Segundo José Graziano da Silva, “uma das características marcantes da modernização conservadora da nossa agricultura nos últimos 25 anos foi a ‘territorialização da burguesia’“,22 que expropriou uma parcela dos trabalhadores rurais. 20 Edward P. Thompson. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Campinas, UNICAMP, 2001. 21 Entrevista concedida à autora pela Sra. Célia Maria Silva Zacarias, em 15 de março de 2007. 22 José Graziano da Silva. Terra para quem nela não trabalha. Portal da Fundação Perseu Abramo. Debate Programa para o Campo nº 7, 1989. www2.fpa.org.br. Acesso em novembro 2008. 26 A estrutura do campo, à época, contava com a presença de uma oligarquia latifundiária, dividida entre latifundiários capitalistas e latifundiários “tradicionais”, estes últimos quase sempre associados à atividade da pecuária. Abaixo destes estavam os médios proprietários de terra que também faziam uso em suas propriedades do trabalho assalariado. Na base desta estrutura havia a pequena propriedade familiar, que conseguia produzir o suficiente para suprir suas necessidades, e também existia outra parte integrante desta base que se destacava, como afirmam Mello e Novais: “[...] no conjunto do país, a esmagadora maioria, cerca de 85%, é formada por posseiros, pequenos proprietários, parceiros, assalariados temporários ou permanentes extremamente pobres ou miseráveis.”23 A produção feita por essas pessoas era normalmente rudimentar e quase sempre suficiente apenas para prover a alimentação da família. Quando havia sobra, esta era comercializada nas feiras próximas aos lugares de produção, e o dinheiro adquirido nesta atividade era utilizado na aquisição de roupas, sapatos ou utensílios de casa que não eram produzidos pela própria família. Os intelectuais e políticos, defensores do projeto modernizador, viam neste cenário características associadas ao atraso e típicas de um remoto passado colonial. Este precisava ser apagado, para que o Brasil, que desde o início do século XX iniciara um processo de aproximação com o capitalismo industrial, entrasse, definitivamente, na era da modernização. Estamos falando aqui da modernização selvagem da agricultura, iniciada na década de 1960 e que deveria ser feita a qualquer custo. Na verdade, um custo um tanto quanto alto para os pequenos proprietários e posseiros, que engrossavam os 85% da população rural do Brasil e que também se faziam presentes em Helvécia. Em conformidade com este projeto de modernização, foi criado, em 1964, através da Lei nº 4.504, o Estatuto da Terra.24 Este incentivou o aumento da produção e produtividade e transformou a paisagem rural à medida que ampliou e consolidou a expansão capitalista através da industrialização do campo. Tal industrialização se fez sentir com a chegada ao campo de maquinários pesados, como o trator, o uso de inseticidas e implementos agrícolas sofisticados, 23 João Manuel Cardoso de Mello e Fernando A. Novais. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: História da vida privada no Brasil: Contrastes da intimidade contemporânea. Volume 4, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 575. 24 Maria Aparecida de Moraes Silva. A luta pela terra – experiência e memória. São Paulo: UNESP, 2004. Coleção paradidáticos. 27 processo denominado revolução verde,25 que alterou a maneira usual de produção de muitos dos pequenos camponeses. Essas transformações estavam atreladas à presença de grandes empresas internacionais e nacionais que contavam com o apoio dos governos federal e estaduais, no sentido de ocuparem propriedades, inclusive pequenas, familiares ou de posseiros. A grilagem compôs este cenário de transformação do campo e implicou a expulsão de pequenos proprietários, posseiros, agregados e arrendatários, contribuindo de forma decisiva para a concentração. Warren Dean,26 ao discutir o “imperativo do desenvolvimento”, destacou, entre outros aspectos, o apoio dado pelos governos militares à plantação do eucalipto no Brasil. Em relação ao papel do Estado na concessão de exploração da terra, Dean afirma: A troca do patrimônio estatal pelo ganho de curto prazo dos interesses privados é um tema constantemente repetido na história brasileira, tão habilidosa e diversificadamente adotada e tão inerente que se mostrava como a razão mesma da existência do Estado.27 Outra ação governamental, significativa neste período, foi a construção de estradas de rodagem incentivando o deslocamento permanente da fronteira agrícola28 bem como possibilitando o escoamento dos produtos provenientes das ações das empresas que estavam à frente deste projeto de industrialização do campo. Foi desta época, 1972, a construção da BR-101, que contribuiu com o processo de reorganização dos papéis comerciais desempenhados pelos municípios e distritos que eram, ou não, como Helvécia, perpassados por ela. Entre 1950 e 1980, intensificou-se o processo de deslocamento populacional do campo para as cidades. Foi dentro deste contexto que a história de Helvécia foi sendo construída diariamente, de maneira a conviver com a existência do novo, o que implicou o desfecho de novas necessidades, organizações sociais, diferentes jeitos de ser, diante de uma realidade que se mostrou ela própria diferente. Tal realidade não mais 25 José Graziano da Silva. A globalização da agricultura. Palestra proferida no Centro Nacional de Pesquisa de Monitoramento e Avaliação de Impacto Ambiental da Embrapa. Jaguariúna, 24/04/97. Publicado em Silveira, M. e S. Vilela, eds. Globalização e a sustentabilidade da agricultura. Jaguariúna, Embrapa Meio Ambiente – 1998. Série Documentos, p. 29 a 38. 26 Warren Dean. A ferro e fogo: a história e a devastação da mata atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 27 Idem, p. 291. 28 João Manuel Cardoso de Mello e Fernando A. Novais. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna, op. cit., p. 580. 28 aceita, ou ao menos não aceita somente os mesmos ritmos de trabalho, as mesmas organizações de lazer, os mesmos sonhos e expectativas. Interessa-me saber como nas relações do cotidiano são feitas intermediações, pelos moradores de Helvécia, com o intuito de lidar com a realidade de forma criativa, fazendo uso de um repertório de atitudes que não estavam prescritas, mas que foram (re) inventadas frente à situação dada. O fazer-se deste cotidiano é, pois, ditado pelo vir a ser, eivado de imprevisibilidade. Mesmo quando este passa a ser regulado por uma série de normas disciplinares, como por exemplo aquelas ligadas ao ritmo do trabalho, é importante não se perder de vista uma indagação proposta por Michel de Certeau a respeito das relações sociais: “que procedimentos populares (minúsculos e cotidianos) jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los?”29 É este agir, minúsculo e cotidiano, que nos interessa estudar. Acerca dessas ações, ou melhor, do desprezo dado às mesmas, James C. Scott, em artigo intitulado “Formas cotidianas da resistência camponesa”, nos provoca quando afirma que, de certa forma, muitas das pesquisas que tratam das insurreições camponesas acabam por privilegiar aquelas que são lidas por representantes do Estado como sendo significativas em razão de terem provocado algum tipo de alteração visível, para as classes dominantes, na relação destes camponeses no jogo das classes sociais. Assim, o registro de ações camponesas comumente é mais rico nos momentos em que essas representaram alguma ameaça à ordem vigente. Tais registros, normalmente, constituem as fontes consultadas pelos pesquisadores a respeito das insurreições camponesas. Este procedimento acaba quase sempre por desvalorizar as resistências que acontecem no viver diário e que, neste sentido, por vezes, dizem mais aos seus agentes, visto que eles as experienciam nas suas relações diárias. Assim, no dizer de Scott: Para os camponeses, pulverizados ao longo da zona rural e enfrentando ainda mais obstáculos para a ação coletiva e organizada, as formas cotidianas de resistência parecem particularmente importantes.30 29 Michel de Certeau. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1994, p. 41. 30 James C. Scott. Formas cotidianas da resistência camponesa. Revista de Ciências Sociais e Econômicas, Universidade Federal de Campina Grande, Programa de Pós-graduação em Sociologia, vol. 1, n° 1, p. 11, jul./dez. 1982 . 29 São essas as formas de resistência que serão analisadas nesta pesquisa. Elas se constituem em ações que na comunidade são memoradas e ditas, por exemplo, quando seus membros mencionam o fato de que alguns “pegam, pegam mesmo o facho”, referindo-se aos pedaços de eucalipto que recolhem daquilo que restou nas plantações após as empresas efetuarem o corte da madeira que lhes interessava. Este facho, por vezes retirado sem autorização das empresas, é utilizado, por integrantes da comunidade, para produzirem carvão. Isso implica a existência de tensões envolvendo os membros da comunidade e os representantes das “firmas”. Outra situação de resistência que aparece nas entrevistas como significativa para os camponeses locais diz respeito às falas de pessoas mais idosas que se orgulham de não terem vendido suas terras ou, ainda, de não se deixarem seduzir pelas propostas de fomento. Este mecanismo consiste numa espécie de contrato feito por proprietários31 de terra e empresas de eucalipto. Por meio dele, os proprietários plantam eucalipto em suas terras, com auxílio técnico e financeiro das empresas. Dentro da lógica do agronegócio, esta produção depois é comprada pelas empresas que descontam o valor investido anteriormente. Ocorre que os habitantes de Helvécia possuem sua própria lógica e esta foi construída a partir de suas experiências diárias, com base em um repertório próprio que lhes permitiu agir no contato com o estranho, com o novo. A execução das práticas sugeridas por esse repertório mostrou-se, como veremos no decorrer deste trabalho, complexa e com possibilidades de diferentes arranjos. Naquilo que diz respeito ao uso do conceito de identidade, importante na discussão sobre o sentimento de pertencimento da comunidade de Helvécia como quilombolas, fiz uso do referencial teórico construído por Stuart Hall em razão do mesmo evidenciar seu processo de formação, quando afirma que [...] a identidade é algo realmente formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”.32 31 Nesta dissertação estou usando o termo proprietário de terra no sentido dado pela comunidade de Helvécia, tendo eles, ou não, titulação da terra. 32 Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 8. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 38. 30 Na elaboração desta pesquisa, faz-se uso, entre outras, de fontes orais, não por creditar ineditismo às mesmas, mas por compreendê-las como de vital importância no processo de conhecimento das experiências vivenciadas em uma comunidade em que o uso da oralidade é relevante como maneira de expressão. Pressupõe-se que a partir das falas e silêncios, lembranças e esquecimentos dar-seá dizibilidade e visibilidade àquilo que os entrevistados compuseram como significativo para sua história e do seu lugar, podendo traduzir ou indicar tensões nas relações cotidianas dessa comunidade com os diversos segmentos responsáveis pelo desenvolvimento da eucaliptocultura. Tal opção traz em si a indicação de que não se espera coletar a partir das entrevistas apenas meras informações ou dados quantitativos a respeito da atividade produtora de eucalipto no distrito de Helvécia. Acredita-se na existência de uma ligação enriquecedora entre oralidade, tradição e experiência, traduzida na construção de narrativas, nas quais, “o narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes”.33 Esta tessitura, existente na troca de experiência de pessoa para pessoa, possibilita o relato de saberes construídos em um tempo passado, nem sempre passíveis de uma comprovação no tempo presente. Talvez resida aí a riqueza de se ouvir o outro falar sobre o seu viver, comunicando aquilo que se encontra para além do relato, aquilo que está no universo do sentido, vivido, experienciado. No trabalho com fontes orais os textos são produzidos a partir do diálogo entre entrevistador e entrevistado, sendo sempre uma relação dialógica, em que se deve predominar a delicadeza e a sensibilidade de ouvir.34 Esta tarefa foi por vezes árdua, no sentido de exigir uma escuta ao mesmo tempo participativa e de algum modo solitária. Entretanto, a verdadeira aridez no trato com este tipo de fonte eu pude sentir quando, após as inúmeras escutas e transcrições, comecei a selecionar o que seria incluído no meu texto. Neste momento, por várias vezes, me senti deixando de levar em consideração exatamente aquilo que havia me proposto desde o início, ou seja, conhecer o que aquelas pessoas tinham a dizer de suas 33 Walter Benjamin. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 201. 34 Paul Thompson. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 31 experiências de vida dentro da problemática que elegi como objeto de estudo. São, pois, as minhas escutas e os meus olhares que aqui serão apresentados. A partir das conversas com os entrevistados é que pude aprender algo sobre aquele lugar e sobre o significado de se viver ali com todas as questões e limitações que estão postas, pela implantação da eucaliptocultura numa área remanescente quilombola. Nisto consiste meu problema de pesquisa. Aquele lugar passou então a ser para mim um espaço de aprendizagem, de conhecimento. Eu estive ali sempre para aprender com aquelas pessoas, porque de fato só elas expressam em suas memórias aquilo que eu precisava conhecer para, minimamente, tentar responder às perguntas que havia formulado. Ao fazer, anteriormente, menção à idéia de dizibilidade e visibilidade daquilo que foi composto pela memória dos entrevistados não estou pensando em fazê-lo partindo da premissa de que serei eu a estar dizendo ou fazendo vê-los; ao contrário, foi exatamente a partir daquilo que os entrevistados disseram e/ou silenciaram e daquilo que eu pude ver nas oportunidades em que estive em Helvécia que fui construindo tal texto, o que implica reconhecer que não há ninguém melhor do que os habitantes de Helvécia para falar sobre o significado de viver a realidade da eucaliptocultura naquele distrito. Aquelas pessoas têm suas vozes, por vezes dissonantes, seus rostos e jeito de viver, da sua forma narram suas histórias, e, certamente, não reúno condições de atuar em nome daquela comunidade, pela razão óbvia de que eles próprios se nomeiam e se dizem de forma clara, não precisam de alguém alheio para falar por eles. Então, a que me refiro quando falo em dizibilidade e visibilidade? Penso na possibilidade de, tendo acesso ao meio acadêmico e aos mecanismos de divulgação, que este meio enseja fazer uso destes com o intuito, aí sim, de que aquilo que está sendo (re)construído em Helvécia, pelos seus habitantes, possa ser conhecido por outras pessoas. Na realização desta pesquisa entrevistei vinte e três pessoas, destas, duas residem em Teixeira de Freitas (BA), duas em Teófilo Otoni (MG) e dezenove em Helvécia. Os entrevistados, em sua maioria, eram ou tinham sido pequenos proprietários e/ou posseiros naquele distrito. Destes, alguns tinham vendido suas glebas para as empresas de eucalipto ou para atravessadores. Foi de fundamental importância para a realização das entrevistas o fato de, antes do desenvolvimento da pesquisa, ter conhecido pessoas de Helvécia. Em razão deste meu conhecimento prévio fui acolhida na comunidade e apresentada a 32 outras pessoas que se dispuseram a falar a respeito de suas vidas, de suas experiências no convívio com a eucaliptocultura. À medida que fui fazendo as entrevistas, surgiram informações que indicavam a necessidade de buscar ouvir uma ou outra pessoa da comunidade. Também foi imperativo entrevistar integrantes da Associação Cultural Ferroviários da Bahia e Minas, na cidade de Teófilo Otoni (MG). A partir da fala de um entrevistado, fui compreendendo também a fala de outro. De forma que por vezes aquilo que se insinuara em uma reminiscência aparecia com destaque em outra. A respeito do número de pessoas entrevistadas, algumas questões de natureza prática foram consideradas. Havia um tempo para realizar as pesquisas de campo. Depois era preciso fazer a análise e cruzamento das fontes e então construir o texto. As tarefas demandavam também uma organização temporal e por isso quando percebi que já possuía dados suficientes para trabalhar na construção da dissertação, tomei a decisão de parar. Na prática, no momento em que comecei a construir o texto senti necessidade de fazer algumas novas entrevistas, o que me fez sair de novo a campo, desta fez, porém, com o objetivo de buscar informações mais pontuais a respeito de um ou outro tema que se mostraram relevantes no momento da análise dos dados coletados. Além das fontes orais, ou melhor, dos diálogos que tive com pessoas de Helvécia, para a realização desta pesquisa foi feito o uso de documentos existentes no Arquivo Público do Estado da Bahia, em Salvador. Na capital baiana também pude consultar a hemeroteca do Instituto Geográfico Histórico da Bahia, o Acervo do jornal A Tarde e os arquivos da Seplan – CAB (Centro Administrativo da Bahia). Também consultei monografias que tratam de temas afins, desenvolvidas na Universidade Estadual de Santa Cruz, na Universidade Federal da Bahia e na Universidade Federal de Minas Gerais. Recorri também às empresas Aracruz Celulose e Bahia Sul Suzano Celulose, à Fundação Cultural Palmares e aos acervos de Organizações não governamentais que atuam na região. O projeto inicial desta pesquisa contemplava a possibilidade de entrevistar pessoas que representassem a Aracruz Celulose e a Suzano Bahia Sul Celulose. Iniciei os contatos com estas empresas por telefone e em seguida por e-mail. A Aracruz Celulose não respondeu a nenhum dos e-mails enviados por mim. A Suzano 33 Bahia Sul Celulose respondeu a todos eles, enviou artigos produzidos por pesquisadores sobre a atuação da empresa na região e dados a respeito das ações de responsabilidade social desenvolvidas no Extremo Sul Baiano. Entretanto, em relação às perguntas a respeito da atuação especifica da empresa em Helvécia, alegou não ter as informações discriminada por distrito, mas sim pelo município. Mesmo estas, quando solicitadas, não foram enviadas pela empresa. Estabeleci contatos, através de carta enviada pela minha orientadora, com o Centro de Documentação e Memória da Suzano Bahia Sul e Celulose, localizado em São Paulo. Em resposta, tive as minhas questões encaminhadas novamente para um representante da empresa que atua diretamente no Extremo Sul da Bahia. Este funcionário sinalizou com a possibilidade de uma conversa futura, que não aconteceu. Como o tempo para desenvolver a dissertação era exíguo, busquei conhecer as vozes dessas empresas através das informações que as mesmas divulgam em seus sites oficiais e através de jornais. Se por um lado a não realização destas entrevistas, pelos motivos apresentados, constitui um hiato nesta pesquisa, por outro, os silêncios podem sugerir algum tipo de dificuldade destas empresas em falarem de suas atuações no distrito de Helvécia. As fotografias, produzidas nas atividades de campo foram utilizadas não como dados objetivos, uma reprodução fiel da realidade. Elas são construídas. Como afirma Mauro Guilherme Pinheiro Koury, citado por Ariosvaldo da Silva Diniz: a imagem significa, ao mesmo tempo, o olhar do criador e o olhar do espectador, e a interpretação é a resultante desta interdependência, ou desta ambigüidade de olhares, associada ou não a um terceiro olhar que busca compreender os mecanismos sociais que desconstroem e reconstroem as informações transmitidas pelo intercruzamento dos diversos olhares.35 Tendo essa clareza, a análise do material visual adquiriu um valor indiciário significativo no processo de elaboração desta dissertação. Acredito ser importante fazer algumas considerações a respeito do recorte temporal utilizado, qual seja 1980-2005. Tal opção se justifica em razão deste espaço de tempo contemplar duas balizas do tema que pretendo abordar: a expansão da eucaliptocultura em Helvécia, que se deu a partir de 1980, bem como 35 Ariosvaldo da Silva Diniz. A iconografia do medo. In: Mauro Guilherme Pinheiro Koury (Org.). Imagem e memória: ensaios em Antropologia visual. Rio de Janeiro: Garamond, 2001, p. 114. 34 as mudanças e permanências ali engendradas no bojo dessa expansão, que suponho ocorreram simultaneamente ao processo de reconhecimento daquele lugar como uma comunidade remanescente quilombola, formalizado em 2005 pela Fundação Cultural Palmares. Este período será referido aqui através da memória dos entrevistados. Convém lembrar que estes, ao longo de suas falas, por vezes visitaram outros tempos, que não aquele estabelecido no referido recorte temporal, para poderem falar de si, das transformações e permanências tão importantes na construção da memória e da história. Por vezes usarei algumas expressões e construções dos entrevistados como título e subtítulo dos capítulos. Justifico tal procedimento a partir do significado que muitas das frases trazem consigo e que por si indicam sentimentos e leituras feitas a partir das experiências daquelas pessoas sendo, portanto, de importância fundamental para a construção desta dissertação. No primeiro capítulo, intitulado Velhos tempos de Helvécia, abordarei o tempo anterior à implantação da eucaliptocultura. O eixo deste será a Memória de seus habitantes. Através das construções da memória, Helvécia se apresentará em diferentes tempos e ritmos. Haverá assim espaço para que se possa conhecer um pouco da Colônia Leopoldina, o tempo do cativeiro, o deslizar do trem nos trilhos da estrada de ferro Bahia e Minas, o comércio incrementado na praça da estação, as produções agrícolas diversificadas, as festas e os lugares de memória. O interesse por elementos dos velhos tempos de Helvécia, de forma não linear e pleno de hiatos, esteve associado à busca de aproximações que esclarecessem o presente e contribuíssem para a compreensão do passado pelo presente.36 No capítulo seguinte, “Pensou que não, chegou a firma”, irei discutir o cultivo de eucalipto em Helvécia. Falarei a respeito das expectativas vivenciadas à época da implantação da eucaliptocultura no distrito, enfocando como essas foram tecidas a partir de movimentos engendrados pela composição formada pela mídia, pelas falas e ações dos representantes governamentais e por integrantes da comunidade local. Nesta oportunidade, estarei discutindo questões como oferta de empregos, buscando fazer o cruzamento e análise de dados fornecidos pelos diferentes 36 Marc Bloch. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. 35 segmentos apontados, de maneira a enfatizar os encontros/desencontros entre as expectativas geradas e o vivido. As experiências dos habitantes de Helvécia, através de suas ações cotidianas, nortearam a construção do texto. No terceiro e último capitulo, Viver com eucaliptos, tratarei dos compassos e descompassos entre as perspectivas existentes em relação à atuação das empresas de eucalipto e as experiências engendradas em Helvécia. Neste sentido, abordarei um repertório de resistências cotidianas construídas por membros da comunidade, seja de forma individual e/ou coletiva, com enfoque para o debate sobre a questão da identidade quilombola daquele local. 36 1º Capítulo – VELHOS TEMPOS DE HELVÉCIA Conversar com as pessoas de Helvécia sobre o significado daquele lugar poderia ser descrito como uma espécie de viagem a outros tempos. Nas falas, gestos e silêncios aparecem elementos que indicam como seus moradores retornaram a diferentes períodos para falar de si, de suas maneiras de organização social e econômica, de suas crenças e valores, de seus hábitos, de suas relações sociais, da lida com a terra, de suas alegrias, de aflições e de tristezas. O passado, os velhos tempos de Helvécia, ocupa um lugar37 na fala dos integrantes da comunidade. Por esta razão, fragmentos de tempo que não estavam contemplados na periodização estabelecida, mas que apareceram nos diálogos presente/passado, foram utilizados como indícios no processo de inteligibilidade das mudanças significativas vivenciadas pelas pessoas daquele distrito. Foi a memória que desempenhou o papel de fio condutor das entrevistas a respeito do significado de viver em Helvécia. Sendo assim, é preciso que se diga algo a respeito da complexidade que há em se buscar conhecer a história de um lugar a partir da memória de seus habitantes. Entendo que a memória implique uma construção elaborada a partir de sensações que mudam com o passar do tempo, e assim é bem provável que as pessoas que foram entrevistadas por mim no decorrer desta pesquisa possam ter tecido, elas mesmas, outras construções ao longo de suas vidas, ou então pode acontecer de virem a fazê-lo no futuro. Neste sentido, Alistair Thomson diz que Experiências novas ampliam constantemente as imagens antigas e no final exigem e geram novas formas de compreensão. A memória “gira em torno da relação passado-presente, e envolve um processo contínuo de reconstrução e transformação das experiências relembradas”, em função das mudanças nos relatos públicos sobre o passado. Que memórias escolhemos para recordar e relatar (e, portanto, relembrar), e como damos sentido a elas são coisas que mudam com o passar do tempo.38 37 Jacques Le Goff. História e memória. 5. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003, p. 47. Alistair Thomson. Recompondo a Memória: questões sobre a relação entre a História Oral e as memórias., Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, p. 57, 1981. 38 37 Essa flexibilização, por assim dizer, daquilo que se rememora não implica em si um problema para a presente pesquisa, ao contrário, para este estudo ela é parte intrínseca do objeto analisado. Essa característica contribuiu para o entendimento de situações como, por exemplo, a venda de uma terra realizada num tempo passado ter sido interpretada como um negócio vantajoso e justo, para depois passar a ser entendida e sentida como um equívoco, uma vez que a pessoa se sentia lograda. Buscar compreender quais ponderações foram levadas em consideração para uma e outra sensação, pela mesma pessoa, pode significar uma riqueza de interpretações das experiências que a composição da memória oferta aos pesquisadores. A proposta deste capítulo é apresentar, através da memória dos entrevistados, entendida aqui como um dos objetos da história,39 como era viver em Helvécia antes da implantação da eucaliptocultura. Desde já esclareço que não entendo este tempo anterior como desconectado daquilo que se processou em Helvécia na década de 1980. Interessa-me aqui ver como os habitantes daquele distrito conjugaram em suas práticas diárias e em seu sentir as mudanças e permanências que ali se processaram. 1.1 HELVÉCIA – UMA APROXIMAÇÃO EM TRÊS TEMPOS. O senhor Manoel Peixoto, morador, proprietário de terra e comerciante em Helvécia, ao falar sobre o distrito iniciou sua narrativa da seguinte maneira: Eu cheguei, mais ou menos, deixa eu ver se lembro..., na década de quarenta, no inicio de quarenta. Então, aqui era bem diferente, o comércio40 aqui sabe? O aspecto do comércio era um aspecto ainda, do tipo assim, talvez colonial, europeu. Porque aqui tinha poucas casas, mas as casas aqui eram uns prédios, eram uns prédios assim, prédios tipo alto, tinha um porão embaixo, certo? Era erguido de madeira, naquele tempo naturalmente era difícil cimento essas coisas. Era de madeira, aqui tinha, eu lembro de três prédios, mas tem umas casas grandes com aspecto mais ou menos de um prédio, então, parece que o porão ali embaixo era para secagem de café, cultivava aqui na região toda, café. Porque aqui fazia parte da Colônia Leopoldina, né? Colônia Leopoldina era dividida em glebas, em sesmarias, que cada uma delas pertencia a europeus, entendeu? 39 40 Jacques Le Goff. História e memória, op. cit., p. 49. A expressão comércio está sendo utilizada nesta fala para significar o lugar de Helvécia. 38 Europeus de nacionalidade diferente e aqui parecia, eu não tenho muita certeza, que era parte de onde cabia aos suíços, aos suíços.41 É pouco provável que essa fala possa ser entendida sem que se tenha acesso a outras informações, afinal o senhor Manoel Peixoto começou sua narrativa sobre Helvécia nos anos 1940, para, através de elementos da arquitetura que ele buscou na memória, retroceder ao século XIX, aos tempos da Colônia Leopoldina. Talvez seja, então, o caso de nos aproximarmos da Helvécia desses tempos, a partir de alguns dados que, ao dialogarem com aquilo que foi falado pelo senhor Manoel Peixoto, possam contribuir para o entendimento deste lugar, afinal, como afirma Jacques Le Goff, “a dialética da história parece resumir-se numa oposição – ou num diálogo – passado/presente (e/ou presente/passado)”.42 Esta aproximação com os tempos da Colônia Leopoldina foi feita com o intuito de conhecer um pouco do universo trazido pela memória das pessoas entrevistadas. Estes tempos foram apresentados de forma não linear. O entrevistado buscava naquilo que ouviu dizer algo significativo em sua construção de memória. Na fala de alguns, os tempos do cativeiro apareciam, às vezes inclusive como uma negação – “não tinha vivido nele e não lembrava dele” –, entretanto aquele tempo havia existido, um tempo passado integrante da história presente daquele lugar. Por vezes, ele surgia na construção do imbricamento passado/presente, na expressão “cativeiro remunerado” utilizada para dizer de como muitos moradores de Helvécia se sentiram em relação ao tratamento que lhes foi dispensado pelas empreiteiras acionadas pelas empresas produtoras de eucalipto, no processo de terceirização, comum na atualidade. Os recortes feitos sobre estes velhos tempos colaboraram para que eu pudesse indagar/compreender algumas dessas construções, que se compuseram, não de forma neutra, em razão do diálogo passado/presente estar associado a pares de valores,43 entre eles, por exemplo, atraso/progresso, tranqüilidade/insegurança. Os hiatos entre os tempos da Colônia Leopoldina e o distrito de Helvécia estão sendo entendidos aqui não como uma falta, mas como algo intrínseco à própria dinâmica da pesquisa no campo da história que tem como matéria fundamental o tempo. Este tempo histórico, segundo Le Goff, não se encerra no 41 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. Jacques Le Goff. História e Memória, op. cit., p. 8. 43 Idem. 42 39 tempo cronológico, “o tempo histórico encontra, num nível muito sofisticado, o velho tempo da memória, que atravessa a história e a alimenta”.44 1.2.1 COLÔNIA LEOPOLDINA E HELVÉCIA – ALINHAVOS. Brasil, século XIX, período colonial, ano 1808. É neste contexto que D. João VI assina um decreto permitindo a concessão de sesmarias a estrangeiros que estivessem dispostos a vir residir no Brasil. Até então a doação de sesmarias estava restrita a portugueses e colonos brasileiros. Decreto de 25 de Novembro de 1808 Permite a concessão de sesmarias aos estrangeiros residentes no Brasil. Sendo conveniente ao meu real serviço e ao bem público, aumentar a lavoura e a população, que se acha muito diminuta neste Estado; e por outros motivos que me foram presentes: hei por bem, que aos estrangeiros residentes no Brasil se possam conceder datas de terras por sesmarias pela mesma forma, com que segundo as minhas reais ordens se concedem aos meus vassalos, sem embargo de quaisquer leis ou disposições em contrário. A Mesa do Desembargo do Paço o tenha assim entendido e o faça executar. Palácio do Rio de Janeiro em 25 de Novembro de 1808. Com a rubrica do Príncipe Regente Nosso Senhor.45 Foi assim que em 1818 se deu a implantação de colônias estrangeiras no Brasil, para atender aos interesses da Coroa portuguesa no sentido de garantir o povoamento46 de áreas consideradas desocupadas e aumentar a produção de dividendos, a partir do incremento da lavoura. Interessa-me aqui a gênese de uma em particular, a Colônia Leopoldina, criada neste mesmo ano e tendo em sua formação a presença de suíços e indivíduos que compunham reinos que posteriormente deram origem a atual Alemanha. A sua fundação foi, segundo Henrique Lyra, obra do cônsul hamburguês Peyckr juntamente com os naturalistas George Eilhem Freyreiss e Morhartdt e os suíços Abrão Laughan e David Pache.47 44 Idem, p. 13. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/Rev_48/dim251808.htm, in Brasil Leis etc. Coleção das Leis do Brasil de 1808. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1891, p. 166. 46 Não se levava em consideração, em razão de uma postura etnocêntrica, que essas terras já estavam povoadas pelos nativos que aqui viviam antes da chegada dos portugueses. 47 Henrique Jorge Buckingham Lyra. Colonos e colônias – uma avaliação das experiências de colonização agrícola na Bahia na segunda metade do século XIX. Dissertação de mestrado em Ciências Sociais, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 1982, p. 25. 45 40 Foi ao longo das margens do rio Peruípe, doze léguas acima de Nova Viçosa, na então comarca de Caravelas, no Extremo Sul da Província da Bahia, que a Colônia Leopoldina se localizou, a partir da doação de cinco sesmarias de mata virgem, e cada uma das sesmarias correspondia a meia légua quadrada.48 Além dos suíços e alemães, outros estrangeiros se faziam ver no espaço da Colônia Leopoldina. Tratava-se de africanos que foram utilizados como mão-de-obra escrava. Segundo Henrique Lyra, essa foi a única colônia estrangeira instalada na Bahia no século XIX a fazer uso deste tipo de mão-de-obra.49 Lyra esclarece que havia, neste período, uma proibição quanto à utilização do trabalho escravo nas colônias agrícolas em razão das pressões que estavam sendo feitas, neste sentido, pela Inglaterra. Em contraposição a esta proibição, a Colônia Leopoldina, ao invés de ter desempenhado, unicamente, a função agrícola de subsistência, utilizando mão-deobra familiar e livre, acabou por se destacar no cenário regional como colônia de produção cafeeira para exportação. A historiadora Albene Menezes em reportagem veiculada pelo Correio da Bahia, intitulada “Pioneiros agrícolas”, destacou o uso da mão-de-obra escrava como tendo sido de fato um diferencial da Colônia Leopoldina, posto que as demais colônias teuto-brasileiras à época sobrevivessem fazendo uso do trabalho familiar, enquanto que na Colônia Leopoldina, segundo dados da referida reportagem, “além dos europeus, se ocupavam do trabalho agrícola naquelas fazendas cerca de dois mil escravos”. Na mesma matéria, Menezes afirma textualmente que a Colônia Leopoldina era “Subvencionada, em parte, pelo governo do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, [e que] a iniciativa pioneira se caracterizou como um empreendimento agrícola privado que em 1858 somava 40 fazendas de café, com o mérito de exportar da Bahia as primeiras levas do produto”.50 Os dados relativos à produção de café (cf. tabela 1) corroboram esta informação e podem nos ajudar a entender por que os estrangeiros, que eram agora proprietários daquela terra e moradores daquele lugar, ao erguerem suas casas no século XIX, fizeram-no de tal maneira que a arquitetura refletisse e se harmonizasse com a produção econômica de café em larga escala que ali se realizava. 48 Idem. Idem, p. 25-26. 50 http://www.correiodabahia.com.br/reporter/noticia_impressao.asp?codigo=99634, Jornal Correio da Bahia, Pioneiros agrícolas, 8 de fevereiro de 2004. Acesso em 29 de abril de 2008. 49 41 Tabela 1 PRODUÇÃO DE CAFÉ DA COLÔNIA LEOPOLDINA 1836-185351 ANOS SACAS DE 60 kg. 1836 6.610 1842 8.570 1848 Entre 16.158 e 17.138 1851 17.138 1853 24.483 Esses dados ganham maior relevância quando se leva em consideração o percentual de produção da Colônia Leopoldina em relação à Província da Bahia. Lyra afirma que esta respondia no ano de 1842 por 60% da produção cafeeira, tendo aumentado essa porcentagem para a casa dos 90% no ano de 1853.52 Por outro lado, outras fontes sugerem a necessidade de se relativizar essa importância, ao menos naquilo que concerne aos seus dados quantitativos, pois ao compararmos a quantidade de café produzida em Helvécia com a produção da Província de São Paulo, verificamos que a mesma era mínima. Senão vejamos: aquilo que correspondia a 90% da produção da província da Bahia, 24.483 sacas de 60 K, passa a equivaler, quando realizada a conversão de unidade, a 97.932 arrobas, número infinitamente menor do que a quantidade de arrobas de café produzida na Província de São Paulo no ano de 1854, que foi de 3.534.256 arrobas.53 Entretanto, ao que parece, tais comparações quantitativas não ressoaram na composição da realidade vivenciada em meados do século XIX pelos moradores da Colônia Leopoldina, até porque é pouco provável que estes tivessem acesso a dados a respeito da produção cafeeira paulista. Não tendo um parâmetro nacional de comparação, estes habitantes, provavelmente, mediam a importância comercial de sua produção econômica a partir de dados relativos às suas experiências locais e aos números advindos da produção cafeeira oriundos de outros sítios da província baiana. 51 Henrique Jorge Buckingham Lyra , op. cit., p. 26. Henrique Jorge Buckingham Lyra , op. cit., p. 26. 53 Sérgio Milliet. Roteiro do café e outros ensaios: contribuição para o estudo da história econômica e social do Brasil. 4 ed. rev. e ampl. São Paulo: HUCITEC; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1982, p. 21. 52 42 Além disso, as ponderações comparativas indicadas anteriormente com certeza não foram levadas em consideração quando do momento de construção, por parte dos habitantes de Helvécia, daquilo que seria, no seu imaginário, o papel da Colônia Leopoldina, qual seja, uma área que tivesse cumprido, à época do século XIX, um papel de relevância nacional, naquilo que concernia à produção cafeeira. Foi possível perceber que, na composição da memória daqueles tempos da Colônia Leopoldina, os moradores de Helvécia maximizaram a importância da cultura cafeeira, assim como o fez Robert Ave-Lallemant, em seu livro Viagem pelo norte do Brasil, ao falar da importância comercial da Colônia Leopoldina. [...] Quase não se poderia compreender, como uma localidade costeira tão isolada [o autor referia-se à Caravelas], possa alimentar tão grande atividade comercial, se duas empresas coloniais, se sobretudo e muito especialmente a Colônia Leopoldina, [...] não operassem aí. [...] A algumas milhas Peruípe acima, fica a já citada Colônia Leopoldina, se é que merece o nome de colônia uma rica zona agrícola que produz grande quantidade de café, até 80.000 arrobas por ano.54 Ora, um lugar que assume para si a função de pujante produtor de café externaliza este papel na organização de suas relações sociais, de seus espaços, na construção de suas casas, “[...] O aspecto do comércio era um aspecto ainda, do tipo assim, talvez colonial, europeu. Porque aqui tinha poucas casas, mas as casas aqui eram uns prédios, eram uns prédios assim, prédios tipo alto, tinha um porão embaixo, certo?”55 Quando o senhor Manoel Peixoto chegou a Helvécia, ele encontrou na arquitetura daquele lugar a memória da produção cafeeira e dos colonos estrangeiros que ali viveram. As casas cumpriam não só o papel de abrigo, eram também usadas para a estocagem de café, “[...] aqui tinha, eu lembro de três prédios, mas tem umas casas grandes com aspecto mais ou menos de um prédio, então, parece que o porão ali embaixo era para secagem de café, cultivava aqui na região toda, café”.56 54 Robert Avé-Lallemant. Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1º volume. Trad. Eduardo de Lima Castro Rio de Janeiro: Instituto Nacional do livro, Ministério da Educação e Cultura, 1961, p.150151. Coleção de obras raras VII. 55 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 56 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 43 Na adequação do Plano de Desenvolvimento Urbano (PDU) 2004, faz-se menção à existência de um prédio associado à função de estocagem de produtos. Este imóvel é apresentado como se fosse um antigo armazém, Imóvel localizado à rua Caravelas, hoje utilizado como Clube Social, tem grande probabilidade de ter sido o principal armazém para estocagem de produtos agrícolas a serem embarcados para o litoral, em virtude de suas dimensões e de sua localização. Este é o edifício mais próximo do início do declive do caminho que leva ao porto.57 Podemos observar nesta informação a indicação de que já no período da Colônia Leopoldina as riquezas produzidas naquele lugar também escoavam, através do porto Santa Luzia, localizado a 23 km de Helvécia,58 para outros lugares, outros terras, outras pessoas. Além de lembrar a arquitetura e os aspectos econômicos do distrito de Helvécia, o senhor Manoel Peixoto fez algumas afirmações e indagações a respeito do passado daquele lugar. Assim, ao falar de Helvécia, nos convidou a ver a formação da Colônia Leopoldina.59 Na formação desta colônia estiveram presentes pessoas de nacionalidades hamburguesa e suíça. Além desses povos, segundo o documento apresentado a seguir, indivíduos de outras nacionalidades também vieram viver naquelas terras. Ilmo. Senhor Doutor Juiz de Direito As plantações, que existem no lugar chamado Colônia Leopoldina e que pertencem a estrangeiros, nas quais se cultiva o café em braços de escravos, são as que enumero abaixo: Banda do Norte do Rio Peruípe Fernando Krunde, prussiano Gustavo e Constancio Jattaros, suissos Defunto Abrão Vouga, suisso Henrique Borrel, suisso [...] Madame Jeoffroi, franceza Felippe Moers, hanoverano Ernesto e Francisco Krull, hanovereanos Banda do Sul do Rio Peruípe [...] 57 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 67. Acervo SEPLAN – CAR, CAB, Salvador. Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 79. Acervo SEPLAN – CAR, CAB, Salvador. 59 Este nome foi dado, pelos colonos, em homenagem à imperatriz D. Leopoldina. 58 44 João Martinho Flach, suisso Defunto Augusto Coffrane, suisso Defunto Alfredo Coffrane, suisso Lambert, alemão Fora destas fazendas nomeadas tem vários sítios lavrados por índios e outras pessoas com suas próprias famílias, mas que são tão pequenos que não merecem nem podem ser lembrados aqui, como o dono muda de instante em instante, e as propriedades brasileiras já por fim não entram nesta enumeração. João Conrado Lang Doutor em Philos e Medicina60 Acredito que agora seja possível alcançar o sentido relativo a uma das declarações do senhor Manoel Peixoto: Porque aqui fazia parte da Colônia Leopoldina, né? Colônia Leopoldina era dividida em glebas, em sesmarias, que cada uma delas pertencia a europeus, entendeu?61 Em relação ao documento assinado por João Conrado Lang, apresento o nome de João Martinho Flach em negrito porque a ele pertencia a fazenda denominada Helvetia, em razão da origem suíça de seu proprietário. A respeito dos nomes dados às fazendas, Avé-Lallemant disse O número dessas fazendas, pequenas e grandes, que prosperam com o trabalho escravo, pode montar a 40 ou 50. Seus nomes são na maioria ecos da pátria ou recordações de família do seu proprietário; encontramos entre esses nomes uma Germânia, Melusina, Helvetia, Wilhelmsee, Karlsruhe, Grutls etc., e, entre os proprietários, nomes alemães, franceses e brasileiros, que têm sobretudo ainda a peculiaridade de dividir seus proprietários em grupos dissidentes, tendo-se, em Leopoldina, de ser ou Flach ou Maulas, se não se quiser ser atenazado por ambos os partidos.62 A fazenda Helvetia, segundo falas de membros da comunidade de Helvécia, era produtora de café e uma das maiores e mais organizadas da região. Essa importância também se deixou ver na afirmação de Avé-Lallemant a respeito do poder exercido na Colônia Leopoldina pelos Flach. Talvez o senhor Manoel Peixoto estivesse se referindo a este saber quando, mesmo proferindo não ter certeza, disse ser a Colônia Leopoldina ocupada por “[...] Europeus de nacionalidade diferente e aqui parecia, eu não tenho muita certeza, que era parte de onde cabia aos suíços, 60 Arquivo Público do Estado da Bahia, Colonos e Colônias, maço 4607, Salvador (grifo da autora). Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 62 Robert Avé-Lallemant, op. cit., p. 151. 61 45 aos suíços”.63 Leio essa repetição final como uma espécie de comprovação daquilo que o narrador, a princípio, apresentou como incerteza. Interessa-me agora ressaltar algumas pistas fornecidas pelo documento direcionado ao Ilmo. Senhor Doutor Juiz de Direito. Fica visível, nesta fonte, a existência de pessoas vindas de diferentes lugares da Europa, o que nos sugere, por um lado, uma composição social na Colônia Leopoldina um tanto quanto matizada, diversificada e européia; por outro, o documento esclarece que nessas propriedades a mão-de-obra utilizada era escrava, o que estrangeiriza ainda mais aquele espaço. Tal interpretação fica mais fortalecida se fizermos o cruzamento dessas informações com os dados apresentados anteriormente (cf. tabela 1), em que se pode notar que a Colônia Leopoldina cumpriria, em meados do século XIX, a função de produtora de café voltada para a exportação. O documento, ao se referir à vocação da Colônia Leopoldina como uma área de produção que fazia uso da mão-de-obra escrava, mostrou-a em consonância com o modelo econômico escravista típico do Brasil no período.64 Havia ali, então, o desenvolvimento de uma atividade que atendia aos interesses da política de exportação imperial, qual seja a produção cafeeira. Entendendo-se que tal produção ficava a cargo dos escravos, é curioso observar seu significativo aumento no ano de 1853. Este crescimento foi da ordem de 7.345 sacas, entre os anos de 1851 a 1853, ou seja, um incremento de aproximadamente 43% na produção. A curiosidade a qual me refiro diz respeito ao fato de que em 1853 já se haviam passado três anos da implantação da lei que proibia o tráfico de escravos para o Brasil, estabelecida em 1850, e ainda assim tivemos na Colônia Leopoldina o crescimento da produção de café, que a princípio estaria associada à utilização da mão-de-obra escrava. O dado pode indicar que além do tráfico inter-regional e do contrabando de escravos que passaram a existir após a proibição estabelecida pela lei Euzébio de Queiróz, a mão-de-obra de outras pessoas, livres e/ou libertos, pode ter sido utilizada pelos proprietários estrangeiros da Colônia Leopoldina para tocar seus empreendimentos. Ainda neste sentido, gostaria de chamar a atenção para a informação que se encontra no último parágrafo do documento assinado por João Lang, que oferece 63 64 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. Apesar da existência de pressões inglesas em sentido contrário. 46 informações a respeito de outros personagens que também tinham seu lugar nesta história, mesmo que, segundo o seu redator, não fossem “dignos” de ser nomeados. Fora destas fazendas nomeadas tem vários sítios lavrados por índios e outras pessoas com suas próprias famílias, mas que são tão pequenos que não merecem nem podem ser lembrados aqui, como o dono muda de instante em instante, e as propriedades brasileiras já por fim não entram nesta enumeração. João Conrado Lang Doutor em Philos e Medicina65 A alusão à existência de vários sítios que não utilizavam a mão-de-obra escrava, e que são lavrados por índios e outras pessoas com suas próprias famílias, pode a meu ver indicar a coexistência de outras formas de mão-de-obra naquele lugar. Ao dizer que estes não merecem, nem podem ser relacionados em razão de serem pequenos, vários e de proprietários que mudam constantemente, invizibilizando, portanto, sua identidade nominal, Lang acaba por nos dar uma pista de que, para além da cafeicultura, havia ali, entre as bandas Norte e Sul do rio Peruípe, diversos sítios que não engrossavam a produção de café e diversas pessoas que não se adequavam ao perfil de estrangeiros “grandes e médios proprietários” de terra. É provável que nestes sítios se desse uma produção de alimentos voltada para a subsistência daqueles que viviam naquele lugar. Também é possível que esta produção fosse construída em outro ritmo, bem diferente do da cafeeira, pois além de essas propriedades serem pequenas, a mão-de-obra utilizada não era escrava, sugerindo a existência de diferentes normas e ritmos de trabalho. Lyra66 registra que além do café havia na Colônia Leopoldina o cultivo de uma série de produtos voltados para atender às necessidades do consumo interno, com destaque para frutas, entre as quais o abacaxi, a jaca, a laranja, a manga e a banana. Praticava-se também o cultivo de fruta-pão, cana-de-açúcar, algodão, fumo, milho, mandioca e legumes diversos. O autor não esclarece se esta produção variada se dava nas propriedades dos estrangeiros e/ou nos pequenos sítios que João Lang faz referência. Outra fala oficial se recusa a ver a existência de diferentes formas de propriedade na Colônia Leopoldina. É como se a “pujança” do café não deixasse ver 65 66 Arquivo Público do Estado da Bahia, Colonos e Colônias, maço 4607, Salvador (grifo da autora). Henrique Jorge Buckingham Lyra, op. cit., p. 27. 47 que naquele espaço outras pessoas viviam, tinham seus pequenos sítios e produziam não para atender aos ditames da pauta de exportação, mas, muito provavelmente, para atender às suas necessidades cotidianas relacionadas à subsistência. Trata-se do pronunciamento feito em 1861, pelo então presidente da Província da Bahia, ao anunciar que “A Colônia Leopoldina no Sul não existe mais, pois que está toda transformada em fazendas de café de ricos proprietários, quase todos estrangeiros”.67 Contrapondo-se a esta afirmação que indica a dissolução da Colônia Leopoldina, a Ata de eleição de 6 de novembro de 1898 faz referência à seguinte situação: “Na sala da escola mista da Colônia Leopoldina primeira e única seção eleitoral deste distrito com 58 eleitores...”68 Interessa-nos aqui frisar que ainda no ano de 1898, um documento registra a existência da Colônia Leopoldina e indica que na mesma se localizava uma seção eleitoral, portanto era um local reconhecido pelo poder instituído à época. Sinal de que a Colônia existia, senão com o seu estatuto e função originais, mas pela sua distinção. O próprio reconhecimento da Colônia Leopoldina por parte do poder central da Província diferia daquilo que se registrava através de atos oficiais desta mesma instância do poder no local. A Colônia Leopoldina existia, e para além do cultivo de café, havia ali, como podemos ver pelas análises apresentadas até o presente momento, a insinuação da existência de camponeses que lavravam a terra em pequenos sítios. Teria sido então a partir desta Colônia, ou melhor, de uma das áreas que pertencia a ela, que se originou o distrito de Helvécia. Este é apresentado no PDU 2004 da seguinte maneira: [...] Com a introdução do plantio de café em outras regiões da Bahia e com a abolição da escravatura, a colônia entrou em decadência, mas até hoje a presença dos antigos colonizadores europeus ainda é visível nas edificações e a grande concentração de escravos ocorrida no século passado se faz notar na composição étnica da população.69 Esta população, a partir de suas experiências, lembra dos tempos da Colônia Leopoldina, e ao fazê-lo o traz para o presente, traça com ele paralelos, entrelaça o 67 Henrique Jorge Buckingham Lyra, op. cit., p. 28 (grifo da autora). Cartório de Helvécia, Livro 01, Contratos Diversos, fl 18. Helvécia – Bahia. 69 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 50-51. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 68 48 ritmo do cativeiro nas roças do café, a partir do “ouvir dizer”,70 com o trabalho árduo, vivido no presente, nas empreiteiras de eucalipto. Confrontos entre diferentes modelos econômicos permeando suas vidas e de seus antepassados foram apontados nas falas, bem como a existência de acomodações e resistências na relação entre tais modelos. Nesta composição, alguns lugares do distrito de Helvécia foram trazidos pela memória de sua população quando estes falaram do processo de transformações engendradas pela implantação da eucaliptocultura, e daquilo que isso significou em suas vidas. 1.2.1.1 LUGAR DE MEMÓRIA Pierre Nora, ao discutir a relação sobre memória e história, nos fala sobre a aceleração do tempo na contemporaneidade e de como esta aceleração, no ritmo das transformações que ocorrem em todo o mundo, teria sido responsável pelo fim do equilíbrio associado a idéias de tradições e costumes, a ponto mesmo de indicar uma ruptura com o passado. Neste tempo de rupturas, em que a memória se apresenta de forma esfacelada, e diante das mudanças constantes que trazem em si a possibilidade de que algo desapareça, os lugares assumem um papel importante, pois, ainda segundo Nora, “o sentimento de continuidade torna-se residual aos locais”.71 David Harvey,72 por sua vez, ao discutir a compressão espaço-tempo e as articulações do tempo e espaço com as relações de poder, assinala que por mais que as elites construam uma noção de tempo e espaço pautada na homogeneização, as minorias inventam, constituem temporalidades mistas com a emergência de situações novas ou a valorização de tempos tradicionais. Em Helvécia, traços arquitetônicos distintos corroboram a pujança da antiga Colônia Leopoldina no processo de construção da memória do distrito. Refiro-me aqui ao cemitério São Pedro. Este “lugar de memória” apresenta-se, nesta pesquisa, como um indicativo da importância daquele espaço em tempos passados. Desta maneira, ganhou ares de “cemitério histórico”, sendo descrito no PDU 2004 como 70 Michael Pollak. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol., 5, nº 10, 1992. 71 Pierre Nora. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Revistas do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História, PUC-SP, nº 10, p. 7, dez. 1993. 72 David Harvey. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2006. 49 um local que “[...] conta com interessante conjunto de elementos escultóricos e lápides que são importantes documentos para a recomposição da história de Helvécia e apresenta potencial turístico a ser explorado”.73 Também no PDU do município de Nova Viçosa, 2001, o item que trata dos “Edifícios tombados fora da sede” informa que o Cemitério São Pedro faz parte do patrimônio material da cidade, sendo tombado em 30 de dezembro de 1989 pela Lei 309, art. 98,74 que reconhece, ao menos no que tange ao aspecto legal, a importância daquele local como um “lugar de memória”, portanto legitimado pelo poder público como sendo significativo para o referido município. A importância dada, por pessoas de Helvécia, ao cemitério já havia sido por mim registrada na primeira entrevista realizada no início desta pesquisa, indicando em relação ao Cemitério São Pedro uma vontade de memória,75 para usar uma expressão de Pierre Nora. Porém, diferente daquilo que poderia ser inferido, a partir das informações constantes no PDU, 2001 e 2004, anteriormente apresentadas, a entrevistada Célia Zacarias, natural de Helvécia, deixou entrever que aquele “lugar de memória” não estava sendo respeitado: [...] O ruim também quando eu vou lá em Helvécia, eu não gosto, o eucalipi tá tomando o comércio, Nossa Senhora. Cê precisa de ver, pra nós ir pra nossa roça ... eucalipi. O cemiteri tá no meio do eucalipi.76 Esta fala, somada a outras que foram sendo compostas ao longo da pesquisa, indicava que a coexistência da eucaliptocultura com os “lugares de memória” do povo de Helvécia estava eivada de tensões. No dia 15 de agosto de 2007, em uma das atividades de pesquisa de campo, solicitei a um conhecedor dos caminhos daquele distrito, que me levasse até o Cemitério São Pedro, talvez numa tentativa de entender melhor aquilo que Célia Zacarias havia sugerido ao dizer “Cê precisa de ver [...]”. A pessoa que me guiou por entre as estreitas estradas ladeadas pelos eucaliptos foi o senhor Jorge Ferreira da Silva, que, nascido em Helvécia, há 37 anos, labuta na terra herdada por ele e sua irmã. A permanência desta terra, na 73 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 73. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. Adequação do PDU 2001 Nova Viçosa, não há numeração de páginas. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 75 Pierre Nora. Entre Memória e História: a problemática dos lugares, op. cit., p. 22, 76 Entrevista concedida à autora pela sra. Célia Maria Silva Zacarias em 15 mar. 2007. 74 50 atualidade em mãos da família, em virtude dos pais em vida terem resistido às propostas de compra feitas pelas empresas de eucalipto, constitui motivo de orgulho, além de uma fonte de geração de renda para o seu sustento, de sua mulher e filhos. Na vida do senhor Jorge Ferreira, a convivência com as firmas de eucalipto não esteve associada somente às proposições de compra das terras dos seus pais. Ele, ainda proprietário dessas terras, nas quais, à época da entrevista, plantava maracujá e eucalipto, também enaltece o fato de, no passado, ter trabalhado na então Bahia Sul Celulose. Conseguir alguém que soubesse o percurso e se dispusesse a levar-me até o Cemitério São Pedro foi uma tarefa árdua. A sensação de ir até lá era para mim algo inusitado. Afinal, havia toda uma expectativa, em razão de as leituras e informações que havia tido, “[...] interessante conjunto de elementos escultóricos e lápides [...]”,77 terem sido constantemente friccionadas pelas falas de moradores de Helvécia, no sentido de denunciar a existência do plantio de eucalipto sufocando o Cemitério São Pedro. Após alguns minutos de trajeto pelas estradas, que, em razão da homogeneização da eucaliptocultura, mais pareciam um labirinto, o senhor Jorge, parou a moto e disse que havíamos chegado ao Cemitério São Pedro (cf. figura 1). Figura 1 – Cemitério São Pedro, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. 77 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 73. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 51 O senhor Jorge Ferreira da Silva me apresentava o Cemitério São Pedro, eu olhava e via um emaranhado de cipós, raízes de árvores revoltas e mato. Aquele espaço, mesmo levando-se em consideração que “os lugares de memória são, antes de tudo, restos,78” em nada se associava às minhas idéias do que seria um cemitério. O que o meu olhar via, provavelmente em razão do meu objeto de pesquisa, era definido pela ausência e presença acintosa dos eucaliptos. Assim, no primeiro momento, o que chamou a atenção foi o entorno do Cemitério São Pedro – que eu não conseguia ver como um cemitério. Este estava envolto por um primeiro círculo, o da ausência, cujas marcas da anterior existência de pés de eucalipto se deixavam ver (cf. figura 2). Figura 2 – Cemitério São Pedro e eucaliptos, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Ao analisar essa fotografia, a partir das leituras de Roland Barthes, atentei-me para a possibilidade da inconstância desta ausência, uma vez que “a fotografia não fala (forçosamente) daquilo que não é mais, mas apenas e com certeza daquilo que foi”.79 Ainda por este prisma, passei a ver o segundo círculo, o da presença de eucaliptos (cf. figura 2), como um indício do processo de mudanças e permanências que estava sendo implantado em Helvécia. Talvez aquela pretensa ausência numa 78 79 Pierre Nora. Entre Memória e História: a problemática dos lugares, op. cit., p. 12. Roland Barthes. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 127. 52 área delimitada de 50 metros ao redor do Cemitério São Pedro, segundo informações de entrevistados, seguida da imediata e teimosa presença dos eucaliptos, sugerisse o quanto aquele lugar de memória se transformara em uma arena de tensões, comportando o imbricamento de tempos passado, presente e futuro. Após a sensação de espanto, não só para mim, mas também para o próprio senhor Jorge Ferreira, que há tempos não ia ao local, resolvemos entrar naquele “lugar de memória”. O senhor Jorge começou a falar de suas lembranças e de como o espaço havia sido no passado. Segundo ele, encontraríamos túmulos com lápides e outros objetos como cruzes, além do muro do cemitério, que ele guardava em sua memória inteiro e feito de pedras. Andar naquele espaço requeria cuidado, e não fosse pela desenvoltura do guia/acompanhante é bem provável que eu não tivesse podido conhecer o que sobrara do cemitério tombado pela Lei Orgânica do município de Nova Viçosa.80 Na primeira incursão, não encontramos nenhum traço do muro de pedras ao qual fizera referência o meu acompanhante. Fato que o deixava intrigado, evidenciando os descompassos existentes entre aquilo que ele via e aquilo que trazia ainda nítido em suas lembranças. Após algum tempo, encontramos um túmulo (cf. figura 3) e ao lado uma lápide jazia no chão. 80 Lei orgânica do Município de Nova Viçosa – Bahia. Artigo 98, § 2, item VII, 30 de dezembro de 1989, p. 47. 53 Figura 3 – Cemitério São Pedro: fragmentos, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Esta foto, além de revelar vestígios de um túmulo, bem como raízes expostas e plantas rasteiras que dele se assenhoreavam, sugere a presença de uma ferida,81 uma memória não respeitada, sufocada pelo descaso. Ao levantar a lápide posta no chão ao lado do túmulo, pudemos notar a seguinte inscrição: Carlos Krull – 1890 (cf. figura 4). Aquele era um registro da morte de alguém, provavelmente alguma pessoa que possuíra laços de parentesco com Ernesto e Francisco Krull, proprietários hanoverianos que, como nos informou João Conrado Lang, em documento apresentado no início deste capítulo, haviam se instalado nas bandas do norte do rio Peruípe na então Colônia Leopoldina, em outros tempos, nos tempos ainda do século XIX. 81 Roland Barthes, op. cit. 54 Figura 4 – Cemitério São Pedro: Lápide, agosto 2007 Fotografia: Trabalho campo Mas não somente este século estava encerrado ali. Naquele lugar de morte, em que os muros já não eram mais inteiros, havia também fragmentos de outro tempo. O registro feito através da fotografia (cf. figura 4) traz a possibilidade de junção de tempos que na cronologia estariam irremediavelmente apartados. Entretanto, “o tempo fotográfico recompõe o tempo da memória, alheio ao tempo cronológico. São instantâneos irregulares e arbitrários ligados e separados pelo esquecimento”.82 Assim, a ação do senhor Jorge, ao levantar a lápide, com o objetivo de que eu pudesse registrar o que nela estava escrito, possibilitou, num átimo, que se revelasse o tempo esmagado,83 82 no qual o tempo do passado, Miriam Lifchitz Moreira Leite. Morte e a fotografia. In: Mauro Guilherme Pinheiro Koury (Org.). Imagem e memória: ensaios em Antropologia visual. Rio de Janeiro: Garamond, 2001. p. 44. 83 Roland Barthes, op. cit. 55 associado aos rituais de enterros dos mortos de Helvécia, foi comprimido ao tempo do registro da fotografia e ao tempo presente de quem a olhava. Quando da colocação desta lápide, no século XIX (cf. figura 4), ela era um objeto. Entretanto, no momento do registro fotográfico ela não era mais o mesmo objeto, ela comunicava a existência, em outros tempos, de um integrante da família Krull, Carlos Krull, que fora enterrado naquele lugar. A inscrição na pedra servia como suporte a uma sobrecarga da memória. Desta maneira, este “arquivo de pedra”,84 segundo expressão de Le Goff, existente no cemitério São Pedro, ao tornar pública e sustentar a durabilidade daquela memória lapidar, funcionou como um antídoto ao esquecimento. E não só os “arquivos de pedra” continuavam a fazer lembrar aquele lugar. Ali foram enterradas pessoas que compuseram a história da Colônia Leopoldina bem como a memória do povo de Helvécia. E por mais que o local estivesse abandonado pelo poder público e cercado pela produção de eucalipto, aquele ainda era um espaço revisitado pelas lembranças de seus moradores no processo de composição de suas vidas: Meu avô foi enterrado lá, minha avó foi enterrada lá... Minha família quaes tudo foi enterrado lá, que nós morava na roça... botava o caixão numa vara de bambu, e botava no ombro, né? Um numa ponta outro na outra. Levava pra lá. A nossa família quaes tudo foi enterrado lá. Agora, dos meus tio pra cá, tá enterrada aqui. Eu tinha vontade de ir lá, mas quem me leva...85 Essa narrativa foi construída por dona Maria da Conceição, conhecida desde pequena como dona Cocota, parteira que, segundo informação dada por Gilsineth Joaquim Santos, e confirmada pelo sorriso largo de dona Maria, “aparou mais de trezentas crianças” na região. Ela nasceu no ano de 1908 em uma roça nas proximidades de Helvécia e falava do Cemitério São Pedro como um espaço com o qual a vida de sua família estava intrinsecamente relacionada: “Minha família quaes tudo foi enterrado lá...” Ao recompor essas memórias, a entrevistada manifestou o desejo de voltar a encontrar aquele lugar onde estavam enterrados seus ascendentes. Ao ser 84 85 Jacques Le Goff, História e Memória, op. cit., p. 428. Entrevista concedida à autora por dona Cocota, em 14 out. 2007. 56 informada de que o Cemitério São Pedro estava abandonado,86 pronunciou-se: “Mais eu queria ir assim mermo, abandonado...” Esta fala, associada ao seu jeito de dizê-la, deixou ver o quanto aquele “lugar de memória” estava vivo e cuidado pelas suas lembranças. 1.2.2 TEMPO DO CATIVEIRO – MEMÓRIAS INDIZÍVEIS Maria Isaura Pereira de Queiroz, em seu texto “Relatos orais: do ‘indizível’ ao ‘dizível’”,87 nos remete, como o próprio nome sugere, entre outras questões, à existência das memórias indizíveis, aquelas que por provocarem dor e tristeza não são trazidas à lembrança, e se o são não são partilhadas. Como se o ato de falar daquela situação por si só fosse capaz de produzir novamente a sensação de dor, opressão, a qual ela remete. Assim, em Helvécia, não foi de se estranhar que poucas pessoas tenham trazido nas entrevistas dados a respeito dos tempos de cativeiro. Deste tempo sobraram indícios, fragmentos. Nas narrativas apareceu uma referência à existência de senzala em uma fazenda, o registro de que havia ainda, no prédio da antiga estação,88 uma armadilha para capturar escravos que fugiam, uma fala a respeito da doação de terras feita pela princesa Izabel quando da abolição, mas nenhum entrevistado abordou essa temática em profundidade. Analiso aqui, portanto, os silêncios, o que significou não querer falar deste tempo. Ou, no máximo, falar dele como algo distante, de existência conhecida, “de ouvir dizer”. Nas narrativas das pessoas diretamente ligadas à Associação Quilombola de Helvécia (AQH), o tempo do cativeiro apareceu como algo remoto, não definidor do ser quilombola. Dentre os entrevistados que construíram narrativas a respeito do cativeiro, temos o senhor Manoel Norberto Henrique de Sena, camponês que, à época da entrevista, vivia sozinho em sua pequena propriedade nas proximidades do distrito 86 Essa informação foi passada para dona Cocota pelo sr. Jorge Ferreira da Silva, que estava presente no momento da entrevista. 87 Maria Isaura Pereira de Queiroz. Relatos orais: do ‘indizível ao dizível‘. In: Olga de Moraes Von Simson (Org.). Experimentos com histórias de vida. São Paulo: Vértice/Ed. Revista dos Tribunais, 1988. 88 Havia, segundo informações de membros da comunidade, um projeto de transformar uma das salas do prédio da antiga estação em um museu. 57 de Helvécia. Foi a partir daquilo que o seu pai, sua mãe e sua avó lhes contaram que o entrevistado compôs a seguinte narrativa: [...] agora na escravidão, que quando a criança chorava, não é minha data não, heim! Quando a criança chorava o senhor, vinha o senhor novo, mexia essa formiga lava pé olha, a mãe da criança estava lá torrando farinha, ou estava apanhando café ou estava capinando, o que era daquela data, aí mexia essa formiga lava pé e botava essa criança assim olha, dançava aqui.89 Durante toda a entrevista, o senhor Manoel Norberto Henrique de Sena fez uso da linguagem corporal.90 Com a agilidade que não deixava transparecer os 84 anos, o seu corpo falava de forma a indicar para aqueles que o ouviam como se dera aquilo que sua memória estava trazendo através da oralidade. Assim, ao falar dos castigos que ocorriam no tempo do cativeiro ele foi enfático, levantou-se para dizer como a criança “dançava” em razão da dor que lhe era provocada pelas picadas da formiga lava-pé, de forma a mostrar que o senhor expunha a criança de uma escrava que estava trabalhando nas mais variadas tarefas a uma situação de dor e humilhação. Essa reminiscência trazia para o presente, de uma forma quase teatral, o caráter da perversidade daquele “senhor novo” ao mesmo tempo em que o entrevistado deixava claro que aquela situação não fizera parte de sua experiência individual, “não é minha data não, heim!”. Alistair Thomson diz que “Reminiscências são passados importantes que compomos para dar um sentido mais satisfatório à nossa vida, à medida que o tempo passa, e para que exista maior consonância entre identidades passadas e presentes”.91 Talvez o senhor Norberto estivesse, naquele momento da entrevista organizando suas reminiscências de modo a construir uma composição harmoniosa com a sua identidade de não cativo. Ao se referir a seus avós, o senhor Manuel Norberto demonstrou orgulho ao pronunciar seus nomes, Paulina Eva Mina e Fidelis Geiso, para em seguida contar sobre quem eram e como chegaram àquele lugar: Ele contava para nós, eles não teve registro, não teve data deles, nem nada, veio da África, parece que veio lá da África, mas não 89 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. Paul Zumthor. Perfomance, recepção, leitura. São Paulo: EDUC, 2000. 91 Alistair Thomson. Recompondo a Memória: questões sobre a relação entre a História Oral e as memórias, op. cit., p. 57. 90 58 contava com nós, se eles teve registro, batistelo, veio comprado, muitos negros caíram na água porque os alemães mandava vir só no navio, comprava os negros lá na Angola, na África, quando chegava, vamos olhar um negócio lá no barco, quando chegava no barco o sono estava pegado, quando os negros entrava eles destrancava o navio e saia, muitos negros caia na água, quem contava era os meus avós.92 Acredito que essa fala, em alguma medida, contraria ou ao menos relativiza o que foi tratado como memórias indizíveis, em que haveria uma necessidade de se proteger das lembranças, estabelecer uma fronteira, uma distância do tempo muitas vezes associado ao sofrimento e à dor. A leitura que faço desta narração é de que ela, ao contemplar os laços de parentesco, acaba por indicar que aquelas pessoas, em algum momento de suas vidas, tinham socializado com seus pares os sofrimentos, as lembranças do seu cotidiano, afinal, tratava-se dos avós do entrevistado, cujos nome e sobrenome ele insistiu em enfatizar como se quisesse afirmar suas origens. Pode ter acontecido que algo que foi, apesar e pela dor, dizível pelos avós do senhor Norberto não tenha sido, para o entrevistado, aquilo a ser cultivado como a identidade africana que ele proclamava para si mesmo, tendo, inclusive, como alcunha “africano”. Ele é proprietário de uma pequena roça, na qual planta mandioca, abacaxi e coco. E embora não negasse sua ancestralidade, fazia questão de dizer que não tinha experienciado a situação de viver cativo. Tal afirmação diz do seu não reconhecimento, não pertencimento àquela identidade cativa. Neste sentido, das relações existentes entre memória e identidade, Thomson afirma: [...] existe uma relação dialética entre nossas lembranças e nossa identidade. Construímos nossa identidade em relação à história de outras pessoas a nosso respeito e nossas próprias histórias a nosso respeito, histórias a respeito do nosso passado e nosso presente e acerca daquilo que queremos nos tornar. [...] A memória é obviamente uma parte crucial disso, pois uma parte muito importante é, “de onde vim”, “como me tornei quem sou agora”. Então as maneiras pelas quais contamos nossas histórias do passado são uma das formas cruciais pelas quais construímos nossa percepção de que somos agora.93 92 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. Alistair Thomson. Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a História oral e as memórias. Debate, Proj. História, São Paulo, (15): 80, abr. 1997. 93 59 E o agora do senhor Manoel Norberto, se por um lado mostrava seu orgulho em ser “africano”, tencionava com as experiências da escravidão que seus avós tinham vivido e que provavelmente chegaram para ele como memória herdada,94 através da oralidade. Como essas lembranças não eram vistas pelo entrevistado como algo que lhe dissesse respeito, ele, que tinha muito o que falar (sua entrevista durou aproximadamente duas horas) abreviou o tempo do cativeiro e rapidamente chegou à abolição: [...] se não fosse princesa Isabel, o pobre dos negros estavam frito, viu? A senhora entende, se não fosse princesa Isabel que não agüentou ver o devasto que estava fazendo com os negros. A princesa Isabel falou, oh meu pai acaba com a escravidão, o negro todos lavrados, dormindo na escalda, ou no tronco, sem roupa sem nada, pode estar chovendo, pode estar verão, põe eles para dormir ali, negro bravo que brigava não respeitava eles, botava lá no tronco, viu, viu, viu? Colocava no tronco e ficava lá e quando descia de lá, quando não era uma coisa era outra, pegava umbigo do boi, umbigo do boi seco, passava na areia ou no sal e vai no lombo.95 Essa construção a respeito da memória da abolição e do tratamento dado pelos senhores aos seus escravos parece indicar aquilo que Michael Pollak afirma existir na maioria das memórias, que seriam “(...) os marcos ou pontos relativamente invariantes, imutáveis”.96 A presença destes marcos estaria relacionada com aquilo que ao longo do tempo foi sendo trabalhado de forma a se apresentar de maneira solidificada, não viabilizando a ocorrência de mudanças, transformações. Outra possibilidade de análise, a respeito das memórias indizíveis, seria a simples inexistência de informações a respeito desta experiência, de forma mais aprofundada, por parte do entrevistado. Estas podem ter chegado para ele de forma fragmentada. Pois não se “[...] contava casos para criança” porque “[...] lugar de menino e tamanco era debaixo do banco”.97 Assim, o indizível pode ter sido também simplesmente aquilo que não existe para ser dito. Quanto perguntado se a terra que havia herdado do pai, havia sido legada pelos avós, a resposta do entrevistado foi a seguinte 94 Michael Pollak. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, p. 204, 1992. 95 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. 96 Michael Pollak. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, p. 201, 1992. 97 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. 60 Não, não. É a libertação da escravidão. Olha, assunta bem, a escravidão, quando a princesa Isabel libertou a escravidão, deu vinte braça para cada, vinte braça para cada um escravo, entende? Vinte braça para cada um escravo, agora a divisa quem faz... é fazer divisa botar uma banana, um touceira de cana, botar uma coisa. Não tem cerca não. Eu aqui a senhora, a senhora aqui e eu aqui, Jorge ali, tudo irmão. Agora não tem tamanho não. A frente era só vinte braça, vinte e cinco braça, não é vinte não, vinte e cinco braça para cada um escravo e deixou tudo.98 Não há neste texto o objetivo de se discutir a maneira como a princesa Isabel é apresentada. Ao que parece, nos dois últimos trechos transcritos da narrativa, ela era vista, pelo entrevistado, como alguém a qual se deveria reconhecer, agradecer não só pela abolição como também pela doação de terras aos ex-escravos. Entretanto, o que há de interessante aqui, para as questões que estarão sendo tratadas nos capítulos seguintes, diz respeito ao significado da terra para aquelas pessoas. Refiro-me ao fato de a terra, que antes era associada ao trabalho árduo e cativo para um senhor, ter sido transformada em pequenos domínios de vinte e cinco braças, com divisas que não se constituíam em cercas, e nas quais habitavam indivíduos considerados pelo narrador como “tudo irmão”. Também a respeito do processo de transferência das terras dos antigos colonos estrangeiros para os ex-cativos, Regina Constantino, professora e integrante da AQH, disse: [...] que muita gente possuía terra, aqui em Helvécia. É um fato assim que a gente não sabe nem explicar, como que os negros daqui de Helvécia conseguiram ter posse dessas terras, como que eles conseguiram, que eram cativos e depois da abolição, não sei como é que deu isso, aí. Muita gente. Meu avô fala que quem foi chegando primeiro foi marcando os pedaços: Isso é meu, isso é meu e foi tornando dono. Então tem muita gente que tem terra e assim plantava de tudo um pouco, né? Na época de feijão plantava feijão, época de abóbora plantava abóbora e nessa época também o clima ajudava, então as pessoas viviam de uma certa forma bem, que pelo menos uma alimentação boa eles tinha... então assim, eram felizes, né? Eram felizes que faziam o que gostava de fazer.99 Talvez este hiato tenha sido preenchido na memória das pessoas de Helvécia buscando um fio condutor entre o fim do cativeiro e a posse das terras. 98 99 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. 61 Estudos recentes sobre a escravidão100 apontam para a presença no pósabolição de lutas feitas pelos ex-cativos, associações abolicionistas e intelectuais negros no sentido de garantirem o acesso e o domínio da terra por parte dos antigos escravos. A memória não se constrói do nada. Assim, talvez, quando seu Manoel Norberto credita à princesa Isabel a doação de vinte e cinco braças para cada escravo, esteja falando de algo que pode ter sido, pelo menos, insinuado, articulado, pedido pelos negros daquele lugar. Foram nessas terras que os ex-escravos se organizaram e passaram a produzir para atender aos seus próprios interesses. Neste novo tempo, supõem-se que aquelas terras passaram a ter outro sentido, outro significado associado à vida, a idéia de liberdade. O ritmo de produção passou a ser marcado por novos códigos, novas regras, novos jeitos de se organizar naquele espaço para viver. 1.2.3 TEMPO DA FARTURA “AH, MAIS AQUI ERA MUITO BOM” Ah, mais aqui era muito bom, porque, antes, tudo que você plantava dava, é feijão, abóbora, milho, amendoim, cebola, batata, na horta e tal, basta roçar o lugarzinho, queimar, plantar. Dava cada uma abóbora!101 Faustina Zacarias, nascida em Helvécia, 53 anos, casada, faz neste relato uma curiosa construção em sua memória, alinhavando passado e presente de tal modo como se ambos os tempos subsistissem em suas práticas diárias. Os diferentes tempos verbais utilizados pela narradora não foram lidos aqui como um problema de concordância verbal, mas sim como uma maneira de ela indicar, através da oralidade, que, em sua memória, o tempo de antes ainda era sentido e desejado como possibilidade do tempo de agora. Assim, ela começou falando do passado, rememorando a diversidade de produção associada à generosidade da terra, “tudo que você plantava dava”, e enfocando o fato de que ela, Faustina, integrante de uma família que havia sido proprietária de uma pequena gleba, tinha autonomia, ela produzia. Continuando, Faustina começou a tecer sua memória no presente ao dizer que “basta roçar o lugarzinho, queimar, plantar”, para logo após dar-se conta de que falava do 100 101 Entre os quais, aqueles realizados por Walter Fraga, Wlamyra Albuquerque e Sidney Chalhoub. Entrevista concedida à autora pela ra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 62 passado,102 e completar a frase com a afirmação “Dava cada uma abóbora!”, como se fosse uma espécie de convite da narradora para a visualização de imagens saudosas de fartura e qualidade dos alimentos produzidos em tempos distantes. Outras narrativas, neste sentido, foram apresentadas pelos entrevistados. A fala a seguir do senhor Manoel Norberto, pode nos ajudar a conhecer um pouco mais dos laços de sociabilidade das pessoas, em Helvécia, nos momentos de trabalho com a terra, de produção cotidiana: [...] O filho que manobra os pais, agora na minha data quem manobrava era os pais, olha, não teve hora, na minha data não teve hora não, hora o galo batia asas... uma hora da manhã, o galo marcava hora, zero hora da noite o galo marcava, se era uma da manhã, marcava, se era duas horas da manhã aí ficava, está ali, está ali, daí a pouco o galo... batia asas outra vez... aí quando o galo pegava miudar, cantava mais adiantado, mais adiantado, aí o velho ou a velha lá, – Fulana? – Senhora minha mãe? – Está na hora, heim. Aí ela pulava, pulava da tarimba, que não era cama não, hoje é caminhazinha, de esteira ou de vara, aí chegava cuidava do café, cuidava com o lanche pela manhã.103 Essa narrativa nos deixa entrever a maneira como as pessoas se organizavam, ou melhor, a partir de quais códigos se organizavam para desenvolverem suas tarefas diárias. É assim que ao falar das suas relações familiares o entrevistado acabou por nos dizer da maneira como se organizavam com o tempo, com a divisão de trabalho entre os gêneros, como eram as relações dos filhos e filhas com os pais, nos possibilitou entrar em sua casa, despertar na tarimba. Ele se remete a um tempo, “na minha data não teve hora não”, em que fica implícito que o ritmo de trabalho não estava associado ao tempo do relógio, data em que se sabia em qual momento do dia se estava através da interpretação da cadência dos sons produzidos pelo galo. “Aí quando o galo pegava miudar,” era hora de levantar: Aí os pais estava deitado, aí os pais levantava, quando chegava na hora aí vestia essa roupinha que tinha, aí saia para fora, aí quem era filho homem, para cuidar, se tem uma vaca de leite aí ia olhar, se não tem uma vaca de leite, então um cavalo magro ali amarrado chega aqui arreado com uma lona que se chama cangalha, um arreiozinho, 102 Em outro momento da entrevista, Faustina esclarece que não tem mais terra, as terras de propriedade de sua família foram vendidas para a Aracruz. 103 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. 63 aí as meninas soltava o cafezinho, a pessoa tomava, usava esse cafezinho, aí saia, ia lavrar lavoura de mandioca, de café, de mandioca, de batata, de abóbora ou de mandioca, a maniva e ia lutar.104 Essa é uma rotina que está claramente associada à posse da terra e ao tempo marcado pela cultura “[...] na qual as tarefas diárias [...] parecem se desenrolar, pela lógica da necessidade, diante dos olhos do pequeno lavrador“105. Foi com base nesta premissa que a sobrevivência do senhor Norberto e de sua família foi construída desde a primeira “batida de asas do galo” até o momento em que os diversos componentes da família começaram a manusear os apetrechos adequados ao trabalho doméstico e à luta na lavoura. A autonomia deste trabalho na terra ocorria, não a partir de ações individualizadas, mas sim através do trabalho coletivo, no qual a família do senhor Norberto, como tantas outras famílias camponesas se organizavam no desempenho das mais variadas tarefas associadas à terra. Também é possível perceber que não existia uma divisão entre o espaço de trabalho e o lugar em que se vivia, estes mundos não eram apartados, a fronteira era a porta da casa, “aí saia para fora”, e dava-se início à rotina com a lida dos animais e da lavoura. No que diz respeito a esta, mais uma vez tem-se a afirmação de que predominava em Helvécia a policultura. Perguntado como era o trabalho na lavoura, o senhor Norberto respondeu: “Era terra, a terra que era a mãe, não teve outra coisa [...].”106 Naquilo que diz respeito à fartura, acredito que a narrativa a seguir possa ajudar a compreender um pouco mais daqueles tempos nos quais existia uma exuberância da atividade agrícola realizada pelos proprietários e posseiros de Helvécia. [...] meu pai plantava, humm... Era abacaxi..., tudo tinha fartura. Tinha fartura. Feijão? Nóis..., lá pai plantava feijão na época, olha para você ver, era tudo mais fácil que hoje. Produzia, naquela época produzia. Plantava feijão, pai colhia era cem sacos de feijão, duzentos sacos de feijão na safra de feijão. Sem trator, sem nada, arava a terra, na época pagava, plantava e colhia. Era fartura! Agora hoje? Para achar uma melancia em Helvécia... Ave-maria! Não acha não.107 104 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out 2007. Edward P. Thompson. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 271. 106 Entrevista concedida à autora pelo senhor Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. 107 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 105 64 O entrevistado, senhor Jorge Ferreira, apresentou dados numéricos para falar da fartura da produção de feijão, “[...] cem sacos de feijão, duzentos sacos de feijão”, e parecia estar saboreando aqueles bons tempos que, em sua memória, contrastavam com as dificuldades existentes naquele momento da entrevista para se adquirir produtos agrícolas em Helvécia. A comparação que aparece na afirmativa “era tudo mais fácil que hoje” foi feita com base na experiência do entrevistado, que ainda vive labutando e plantando, inclusive um pouco de eucalipto, naquela terra que no passado havia pertencido aos seus pais. Outra entrevistada, Célia Maria Silva Zacarias, a partir de suas memórias, nos falou o seguinte: ... o que eu alembro da minha época é assim. Quando eu tomei entendimento nos meus treze, quatorze anos, a gente mexia com roça. E era muita dificuldade, que a gente plantava muito e o que a gente vivia era do plantio da roça: mandioca, amendoim, é... meus pais gostava muito de plantar assim... é uma horta, nós tirava muito, lá mermo nós colhia o que nós comia, nós tirava de lá mermo, meu pai criava porco, essas coisas, muuito dendê.108 Novamente temos a presença de alguns elementos recorrentes nas falas de outros entrevistados, como por exemplo o senhor Norberto e a senhora Faustina, ao relatarem a maneira como organizavam suas vidas em relação ao trato com a terra. A idéia deste trabalho como uma tarefa árdua, “E era muita dificuldade, que a gente plantava muito e o que a gente vivia era do plantio da roça”, traduzia uma labuta, ao mesmo tempo em que poderia também indicar a existência de autonomia por parte dessas pessoas, pois o fruto desta labuta era daqueles que trabalhavam em suas terras, o que novamente nos faz ver toda uma organização familiar alicerçada na posse da roça. Percebe-se na fala de Célia a existência do trabalho coletivo, familiar. A construção “mexer com a roça” pode ser lida também como um indicativo de proximidade entre aquelas pessoas e o ato de produzir, gerar alimentos que garantissem suas vidas. José de Souza Martins, em seus estudos sobre as lutas sociais no campo, ao apresentar suas análises sobre a idéia de autonomia dos camponeses, afirma que 108 Entrevista concedida à autora pela sra. Célia Maria Silva Zacarias em 15 mar. 2007. 65 No campo, a categoria mais importante é a das pessoas que são autônomas, que trabalham para si mesmas, não têm patrão e também não têm empregados. [...] São parentes, a esposa, os filhos, daquelas outras que trabalham para si mesmas. [...] Mas esses trabalhadores autônomos não trabalham individualizados, trabalham juntos, trabalham em família, como é normal entre os camponeses.109 Desta maneira, aquilo que era produzido coletivamente compunha a mesa de refeição daquela família, seus hábitos alimentares estavam ligados ao sucesso ou fracasso de suas produções. Cuidar das hortaliças, dos cultivos e da criação era, em última instância, garantir mesa farta, repleta de variedades. A entrevistada também nos disse que vivia do plantio da roça na qual mexia, na qual seus pais gostavam de plantar. Acredito que este tipo de construção não diga respeito exclusivamente ao mundo do trabalho, vejo aí elementos de outras dimensões de sua vida, da vida de sua família, em que, além do labor, aparecem os laços de afeto e respeito com aquilo que faziam, das dificuldades, das maneiras encontradas para lidar e responder a elas, do sentimento de alegria pela produção farta. Fiz uso da palavra afeto em relação à terra, numa clara alusão ao texto “O afeto da terra”, no qual Carlos Rodrigues Brandão destacou a relação de proximidade entre a terra e aquele(a) que a faz produzir. Desta forma, “A ‘terra’ do afeto de Zé Tonhá é a terra próxima, física, qualificável segundo um código de atributos naturais avaliados pelo seu poder de produção. A terra real sobre a qual se trabalha; a terra em que se planta.”110 Interpretei as narrativas de Faustina, de Célia e do senhor Norberto como tendo sido construídas a partir desta relação de imbricamento e afetividade com a terra. Estes entrevistados não estavam falando de algo distante de suas vidas, de um trabalho mecânico ou de algo que estivesse associado unicamente à idéia de produção econômica e sobrevivência, eles falaram de si e para isso recorreram às suas lembranças no trato com a terra, no qual encontravam, dentre outras imagens, familiares, rotinas de vida, sociabilidades e uma produção agrícola variada. Nestas memórias, o distrito de Helvécia aparecia de forma a constituir a idéia de um lar, “no sentido especial em que ’lar’ representa uma lembrança e um 109 José de Souza Martins. Os camponeses e a política no Brasil – As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995, p. 139. 110 Carlos Rodrigues Brandão. O afeto da terra. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1999, p. 63. 66 ideal”,111 desta maneira as relações de sociabilidade foram lembradas naquilo que ofereciam de melhor, de mais solidário, de mais tranqüilo e seguro. Este tipo de percepção, por mais que estivesse repleto de saudosismo, não pode ser desqualificado como sendo algo imaginado. Afinal, o imaginário não está deslocado da realidade. A relação com a terra também foi rememorada por dona Cocota. Para ela, Ah minha filha a vida aqui é treita. A vida é cansada minha filha, quem trabalha na roça, mora na roça, na enxada é pesado... Eu comecei trabalhar na enxada e no forno, de tanto carregar peso me acabei. [...] Agora que o serviço tá tudo leve, que os meninos tá tudo na escola, né? Mais naquele tempo não tinha escola pra mim. Nem que tinha, mãe não tinha pudido botar eu na escola, né? Fui criada no mato, na roça. Com uns doze anos eu tava no forno torrando farinha. Por quê? Prá sobreviver. [...] A gente vinha da roça com cesto na cabeça, saco na cabeça, lá da roça [...] Coitada de mim fui criada jogada, que eu não tinha pai, meu pai me deixou com um mês de nascida. Morreu. Criei com minha mãe e meu gado, né? Minha mãe não tinha recurso. [...] E trabalhava pra gente e pros outros, tinha que trabalhar pros outros pra gente ter o que comer, né?112 Essa narrativa ajuda a entender a complexidade existente naquele viver. Dona Cocota, que por muito tempo fora parteira em Helvécia, ao afirmar que a vida ali era cansada, sugeriu a insustentabilidade da imagem do trabalho na terra como uma realidade paradisíaca, “[...] quem trabalha na roça, mora na roça, na enxada é pesado...” Ela disse da dureza daquele labor e do significado dele em sua vida: “[...] de tanto carregar peso me acabei.” Falou igualmente de suas perdas, de sua ausência na escola que não existia, e de sua possível ausência, também, caso uma escola se fizesse presente àquela época: “Nem que tinha, mãe não tinha pudido botar eu na escola, né?” No alto dos seus cem anos, dona Cocota se recordou do tempo de criança. Ao fazê-lo, sentiu o trabalho na terra como intenso, duro. Desta forma, ela tencionou com outras memórias apresentadas. No período decorrido entre a meninice e a velhice, ela foi capaz de trazer memórias que destoam das narrativas anteriormente evidenciadas. Os 88 anos existentes neste intervalo não foram capazes de amainar ou fazer com que os problemas, distantes no tempo, perdessem sua força. Ao 111 Raymond Williams. O campo e a cidade – na história e na literatura. Trad. Paulo Henrique Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 377. 112 Entrevista concedida à autora por dona Cocota em 14 out. 2007. 67 contrário, a sua narrativa sinaliza um enfrentamento em relação a problemas que ela trouxe a baila a partir de suas reminiscências: “Com uns doze anos eu tava no forno torrando farinha. Por quê?” Ao responder “Pra sobreviver.[...]”, acabou por falar daquilo que havia experienciado como uma necessidade, uma dura exigência que ela, ainda criança, teve de assumir na construção de suas práticas diárias. Neste sentido, também a morte do seu pai foi rememorada pela entrevistada como uma perda. Esta ausência, acredito, teria sido, naquele universo social, sentida por dona Cocota como algo que, se por um lado a fragilizara, “Coitada de mim fui criada jogada, [...]”, por outro teria cobrado dela uma atuação familiar de protagonismo no mundo do trabalho: “Criei com minha mãe e meu gado, né? Minha mãe não tinha recurso.” Dona Maria de Jesus Joaquim Santos, camponesa, moradora de Helvécia, que na época em que foi entrevistada tinha 59 anos, quando indagada sobre como havia sido a sua vida no cultivo da terra, comentou: Ah minha filha se eu falar isso com você, você vai até chorar. Por que minha filha, igualmente eu. Oh meu Deus do céu. Eu fui prá roça né? Quarenta ano que eu moro na roça, quarenta e dois anos, né? Ai eu criei meus filhos tudo foi na roça, né? Meus filhos andava nove quilometro de lá da roça pra qui, pra vim estudar. E aí foi uma vida mermo de... só eu podia güentar, e güentei. Por causa de quê? Por eu queria viver, fazer uma família. Por que hoje, ninguém num aceita isso, o que eu passei, né? Então foi uma vida assim na roça, de capinar, não existia trator. O trator era nos mermo, com nossa enxada. Estocar a terra, plantar, depois colher, ir prá Posto da Mata de pé, vender as coisas, né? Ia e voltava com filho enganchado do lado. Então foi assim.113 Neste registro, o trabalho na terra aparece como sendo uma tarefa árdua. Morar na roça, para além daquela imagem idílica que por vezes é atribuída a este universo,114 requereu esforço, implicou sacrifícios, não só da entrevistada como também dos filhos: “Meus filhos andava nove quilômetro de lá da roça pra qui, pra vim estudar”. Ainda sobre as exigências do ritmo de trabalho na roça e das implicações deste ritmo no seu trato para com os filhos, dona Maria de Jesus, em outro ponto da entrevista, disse: “[...] fui uma mãe assim carrasca por que eu não tinha tempo de colocar meus filhos no colo. O colo dos meus filhos era a rede... hoje nós estamos no céu.” 113 114 Entrevista concedida à autora pela sra. Maria de Jesus Joaquim Santos em 15 ago. 2007. Raymond Williams. O campo e a cidade – na história e na literatura, op. cit. 68 Estas foram memórias de uma mulher que viveu e construiu sua família a partir do trato com a terra. Dona Maria de Jesus mostrou como as tarefas por ela desempenhadas exigiam força e garra. Ela teria agüentado todas as situações que aquele viver lhe exigia em nome de um projeto de vida que estava associado à sua vontade de “fazer uma família”. Essas narrativas que, a princípio, podem parecer dissonantes, são na verdade enriquecedoras para essa pesquisa, na medida em que contribuem para que a comunidade de Helvécia seja vista como diversa, não homogênea, não monocromática. Assim, pode-se ver, por algumas das narrativas analisadas, que lembrar dos tempos de trabalho na roça não se resumia a falar de bons tempos. Aquele também fora um tempo de dureza, de rusticidade no trato com os filhos pequenos. A labuta na terra não era uma lida fácil, o trabalho segundo o ritmo da natureza exigia a presença de mãos firmes na enxada, com exigências de esforço físico e de abdicações, como, por exemplo, do ato de embalar os filhos no colo. Estas dissonâncias não dizem respeito somente à memória dos tempos anteriores à eucaliptocultura. Elas aparecem também em ações do tempo mais recente quando, apesar das pressões existentes, alguns dos camponeses de Helvécia se recusaram terminantemente a vender suas terras às empresas de eucalipto, enquanto outros, de pronto, o fizeram. Curioso observar que após falar das “treitas” da vida em Helvécia, dona Cocota disse: “Mais eu gosto daqui... Já fui em Caravelas, já fui em Teófilo Otoni, em Nanuque 4 anos, 4 anos em Belo Horizonte, trabalhando. Mais num esqueço daqui, né?” Ao comparar algumas das falas, analisadas anteriormente, de Faustina, de Jorge, de Célia e do senhor Norberto, foi possível verificar que elas tinham em comum uma memória construída a partir do trabalho realizado nas terras de suas famílias. Dona Cocota trouxe um dado novo a respeito da relação do trabalho na terra: “[...] E trabalhava pra gente e pros outros, tinha que trabalhar pros outros pra gente ter o que comer, né?” Talvez resida aí uma das chaves para entender por que aquelas lembranças não podem ser traduzidas unicamente pela construção “Ah, mais aqui era muito bom”, talvez seja importante não perder de vista, como disse Dona Cocota, que “Ah minha filha a vida aqui é treita”, ainda mais se levarmos em 69 consideração o que nos disse Raphael Samuel: “Há verdades que são gravadas nas memórias das pessoas mais velhas e em mais nenhum lugar.”115 1.2.3.1 “FESTA EM HELVÉCIA ERA SUPERIOR“. Ao fazer uma consulta ao Guia Cultural da Bahia: Extremo Sul,116 observei que este, ao referir-se ao município de Nova Viçosa, apresentava com certo destaque um conjunto de festas que aconteciam no distrito de Helvécia. Em um dos itens do referido guia, denominado “manifestações populares”, existia um tópico intitulado Folclore e neste havia um breve histórico das festas realizadas em Helvécia, entre as quais Bate Barriga, Mouros e Cristãos, Viola, Cosme e Damião, além da festa da padroeira.117 Estas informações aludiam à presença destas festas na memória dos moradores daquela comunidade. Seguindo esta pista, no decorrer da entrevista com o senhor Kemi Krull, camponês de sessenta e quatro anos, que vive com a esposa em sua pequena propriedade nas proximidades de Helvécia, perguntei que lembranças ele tinha das festas daquele lugar. Antes de responder, ele, que já havia revelado sua relação de proximidade com o distrito, “fui nascido e criado e por aqui estou”,118 compôs em seu rosto uma expressão que interpretei como de alegria, como se fosse bom lembrar, voltar àquelas festas. Ah, era maravilhosa! Era bom demais, hoje em dia para mim não tem grande prazer não, festa em Helvécia era superior, para mim, para outras pessoas, eu não sei dizer que cada um tem uma natureza, né? E agora diminuiu bastante, dá muita gente, mas não é como era. Não, não é não. A gente farreava tranqüilo, não tinha problema de confusão e hoje em dia... quando dava dia de sábado de meio dia para tarde, chegava era quantidade de gente, aquela influência. Hoje em dia não, vem gente de fora, de Vitória, esse cantos, mas para mim não é igualmente era não.119 115 Raphael Samuel. História local e história oral. Rev. Bras. de Hist. São Paulo, v. 9 n. 19, p. 230, set.89/fev. 90. 116 Secretaria da Cultura e Turismo. Coordenação de Cultura. Guia Cultural da Bahia: Extremo Sul. Salvador: A secretaria, 1997, v. 3. Acervo Cedic – Centro de Documentação e Informação Cultural sobre a Bahia, Salvador, Bahia. 117 . Idem, v. 3, p. 153-155. 118 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 119 Entrevista concedida à autora pelo r. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 70 Aquela lembrança pareceu preciosa para o entrevistado, e ele fez questão de realçar o seu sentimento de alegria ao compô-la, independente da ciência de dados que, acredito, suspeitava pudessem ser levados em conta como sendo relevantes para realçar a importância das festas do tempo presente, como, por exemplo, o número de pessoas vindas de fora. Ele não titubeou ao proferir “... festa em Helvécia era superior” para se referir aos tempos de outrora. Para o senhor Krull, as festas eram espaços de sociabilidade nos quais imperava a tranqüilidade, a inteireza das pessoas, “chegava era quantidade de gente, aquela influência”. A tranqüilidade identificada nos festejos, em suas mais variadas dimensões – particular e/ou privado, profana e/ou religiosa –, envolvia pessoas que tinham relações de parentesco e algum tipo de laço de solidariedade tecido em outros espaços de convívio social. Talvez outra construção de memória deva ser aqui apresentada para que se possa fundamentar aquilo que foi dito: [...] fazendo uma comparação é com a minha vida quando criança o que eu vivi, a forma, né? Como eu vivi, é esse período da minha vida, eu vejo assim, uma, eu vejo uma, como é que eu vou colocar? Uma diferença muito grande, eu me lembro, por eu morar no Rio do Sul, que o Rio do Sul também é uma comunidade, só negros, lá só tem negros. Então, existia muito a questão de muitas manifestações, de um ir para a casa do outros, do final de semana ser na casa de fulano, da questão dos ofícios, que era muito usado. Samba, bate barriga, o samba de viola e o samba bate barriga, eu lembro muito, porém eu não ia muito porque meu pai não deixava a gente sair, mas isso existia, se este final de semana era na minha casa o outro final de semana era na casa do outro, um final de semana em Helvécia, outro final de semana em Volta Miúda, então, existia isso não só com Helvécia, mas Helvécia e suas vizinhas... 120 Essa narrativa de Gilsineth Joaquim Santos, pedagoga e professora da única escola existente em Helvécia, apresentou alguns elementos que me ajudaram a pensar aquilo que anteriormente apontei. Observei, nesta composição da memória, a formação de algo que vou chamar aqui, por falta de melhor termo, de rede. Deste modo, os habitantes de Helvécia se reuniam em casas diversas, não só de integrantes de suas comunidades, como também em residências de pessoas que moravam nas comunidades vizinhas, para festejar. Ao fazer isso, inseriam este tempo de lazer em um dinamismo espacial que requeria minimamente um (re)conhecimento do outro. Desta forma, homens e mulheres se aproximavam, e 120 Entrevista concedida à autora pela sra. Gilsineth Joaquim Santos em 15 ago. 2007. 71 provavelmente fortaleciam/estabeleciam laços de amizade, de parentesco, de compadrio, além de relações associadas ao mundo do trabalho, do labor, “[...] se este final de semana era na minha casa, o outro final de semana era na casa do outro, um final de semana em Helvécia, outro final de semana em Volta Miúda, então, existia isso não só com Helvécia, mas Helvécia e suas vizinhas...“121 Outro caminho, válido para compreender aquela afirmação do senhor Krull, “A gente farreava tranqüilo, não tinha problema de confusão e hoje em dia...”, poderia estar relacionado à situação de se falar do tempo passado somente naquilo que ele tivera de bom, de satisfação proporcionada. Neste caso, a distância temporal talvez tenha feito com que os possíveis conflitos existentes naqueles momentos de lazer ficassem esmaecidos, não sendo dignos de serem apresentados naquela composição que deixara saudades para o narrador. Ao contrário daquilo que ele sente em relação às festas do tempo presente. Outro aspecto que gostaria de realçar na construção de memória feita por Gilsineth diz respeito à afirmação, “[...] eu lembro muito, porém eu não ia muito porque meu pai não deixava a gente sair, mas isso existia [...]”, que explicita a possibilidade de uma lembrança intensa, “eu lembro muito”, associada à existência de uma prática cultural que era considerada significativa para sua comunidade, mesmo que a entrevistada não tenha necessariamente participado como protagonista das festas. Ainda sobre as lembranças dos festejos em Helvécia, quando indaguei ao senhor Krull se ele sentia saudades das festas que anteriormente qualificara como sendo “superior”, ouvi a seguinte resposta: Tem dia que eu lembro, me dá vontade de chorar. Mas gente, eu ia no sábado a tarde, só chegava em casa na segunda-feira, saia satisfeito e chegava satisfeito, graças louvado seja Deus, agora só fica com saudade...122 121 122 Entrevista concedida à autora pela sra. Gilsineth Joaquim Santos em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 72 1.2.4 TEMPO DA ESTAÇÃO – ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS. Ponta de areia Composição: Milton Nascimento & Fernando Brant Ponta de areia ponto final Da Bahia-Minas estrada natural Que ligava Minas ao porto do mar Caminho de ferro mandaram arrancar Velho maquinista com seu boné Lembra do povo alegre que vinha cortejar Maria fumaça não canta mais Para moças flores janelas e quintais Na praça vazia um grito um oi Casas esquecidas viúvas nos portais123 Quando os compositores Milton Nascimento e Fernando Brant fizeram essa letra eles estavam, como o nome da composição sugere, se referindo a uma estação específica, Ponta de Areia, situada no distrito de Caravelas (BA), local em que, segundo a música, encontrava-se o ponto final da Bahia e Minas, que na verdade correspondia ao km 0.124 Ocorre que esta estrada de ferro, ao ser desativada, pode ter deixado vazias praças que ficavam em diferentes lugares por onde o trem passava e em que havia estação. Assim, apesar de a letra da música não se referir ao km 74,125 ou seja, à estação Helvécia, o tema da letra é também pertinente à história do distrito de Helvécia. Aqui, nos interessa como a desativação da estação Helvécia foi representada pelos moradores daquele distrito. É este interesse que faz com que a leitura dos versos de “Ponta de areia” seja associada às falas dos habitantes de Helvécia que ainda teimam em escutar, através de suas memórias, o aviso da chegada do trem. Curioso observar que este tempo da ferrovia tenha sido rememorado, nas entrevistas realizadas, mais pelos homens do que pelas mulheres, talvez como a indicar que houvesse mais proximidade do gênero masculino com aquele universo, seja naquilo que dizia respeito ao trabalho nas mais variadas funções, entre as quais: maquinista, foguista, chefe-de-trem, chefe-de-estação, feitor de turma, mestre 123 Milton Nascimento, LP Milton Nascimento, Emi Odeon, 1969. Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 49. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 125 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 49. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 124 73 de linha, caldeireiro, torneiro;126 como também poderia ter sido um indício de que, àquela época, os homens viajavam mais enquanto as mulheres ficavam esperando por eles e quem sabe pelas novidades que eles pudessem trazer como fruto de suas andanças. Deste tempo há rememorações e fragmentos, partes destes estão concretamente expostos no prédio da estação onde a escrita com indicação do ano de inauguração da mesma, 1897, teima em mostrar que aquele espaço de passagem, que outrora serviu de local para embarques e desembarques, fez parte de diferentes tempos da história do distrito. Há indício de que desde o momento da proposição de construção da estrada de ferro Bahia e Minas já havia, em torno da mesma, toda uma expectativa em relação aos dividendos que esta poderia gerar para a região. Em relatório feito pelo então presidente da Província da Bahia, dr. Antônio de Araújo de Aragão Bulcão, em maio de 1879, encontramos o seguinte argumento em defesa da construção da referida estrada: A estrada de que vos falo, partindo de Caravelas, porá em fácil comunicação o sul da nossa província com o norte da de Minas. Será incontestavelmente uma das mais importantes, e o seu custo ver-sehá em poucos anos resgatado, deixando ainda não pequena fonte de renda.127 Vê-se aí uma referência explícita ao papel de comunicação que esta ferrovia desempenharia para a região, na qual estava localizado, entre outros, o distrito de Helvécia, bem como a defesa de que o investimento seria superavitário. O dr. Antônio de Araújo de Aragão Bulcão encerra o relatório dizendo: “Há um ponto comum em que todos os baianos se encontrão: é o esforço pelo engrandecimento e progresso de nossa terra.”128 Cabe esclarecer que com a intensificação das lutas contra a escravidão, que acabou por engendrar o processo que culminou na abolição, em 1888, e a ocorrência do deslocamento da produção cafeeira para outras áreas do Brasil, a Colônia Leopoldina entrou em crise e os colonos a abandonaram. Porém, ao que 126 Conforme documento mimeografado, intitulado “Estrada de Ferro Bahia e Minas”, sem número de página, encontrado nos acervos da Associação Cultural Ferroviários Bahia e Minas, situada na rua Júlio Costa, 61, bairro São Diogo, Teófilo Otoni, Minas Gerais. 127 Benedito P. Ralile. Monografia histórica de Caravelas. Salvador: Tipografia São Miguel, 1949, p. 60. 128 Benedito P. Ralile, op. cit., p. 61. 74 parece, muitos dos ex-cativos permaneceram nas terras vizinhas das antigas plantações de café, praticando uma cultura de subsistência, em que foram sucedidos por seus descendentes.129 Para essas pessoas que estavam vivendo a crise da produção cafeeira, a chegada da estação no km 74 foi bem vinda, e desta maneira, “A vila de Helvécia passaria a viver em função da estação da ferrovia Bahia e Minas, inaugurada em 1897”.130 A estação de Helvécia era, entre as que se encontravam na Bahia, a mais sofisticada da estrada de ferro Bahia e Minas,131 sendo composta por um edifício “com planta regular, constituída por dois corpos justapostos: o da direita, térreo, servia de armazém, enquanto que o da esquerda, assobradado, abrigava a administração e estar dos passageiros”.132 Este prédio seguia os padrões de arquitetura européia, com telhado de planos inclinados recobertos com telhas francesas arrematados com lambrequins em madeira recortada no pavimento superior e com grande balanço apoiado em mãos francesas, no pavimento térreo, lembram os elegantes edifícios construídos no final do século XIX baseados em padrões europeus.133 Incrustada no centro de Helvécia – entre as ruas Júlio Metizker e Henrique Sulz –, encontra-se a estação de Helvécia como a ilustrar para o presente o tempo de outrora. Fiz uso da palavra ilustração de maneira proposital, com o objetivo de indicar que enquanto tal, a praça da antiga estação ali está para dizer daquilo que foi, como se sua existência fosse atrelada agora à função de ser vista e quase sempre fotografada pelos turistas e pesquisadores que por ali passam. É um lugar de ausências. Naquela antiga praça da estação não há mais o burburinho de pessoas apinhadas para ver chegar ou pegar o trem, não há mais, como outrora,134 o chamado dos ambulantes oferecendo cafezinho, bolos, beijus, frutas, enfim, as guloseimas típicas daquele lugar, não há mais o frisson da chegada 129 Dante Lucchesi; Alan Baxter. Projeto Vertentes do Português Rural do Estado da Bahia, Disponível em http://www.vertentes.ufba.br/helvecia.htm. 130 Idem. 131 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 65. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 132 Secretaria da Cultura e Turismo. Coordenação de Cultura. Guia Cultural da Bahia: Extremo Sul. Salvador: A secretaria, 1997, v. 3, p. 151-152. Acervo Cedic – Centro de Documentação e Informação Cultural sobre a Bahia. Salvador, Bahia. 133 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 65. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 134 Conforme documento mimeografado, intitulado “Estrada de Ferro Bahia e Minas”, sem número de página, encontrado nos acervos da Associação Cultural Ferroviários Bahia e Minas, situada na rua Júlio Costa, 61, bairro São Diogo, Teófilo Otoni, Minas Gerais. 75 de parentes e amigos em tempos de festa, não há mais o alarido de pessoas em busca de encomendas, não há mais comércio. A praça da antiga estação é por muitas vezes vista, ironicamente, por aquilo que ela não é mais, por aquilo que ela já não mais traz consigo, por aquilo que ela já não mais representa para seu entorno. Aquele é um espaço que no presente, pelos seus rastros, faz-se ver pelo que foi no passado. Usando expressão de Pierre Nora, seria um lugar de memória.135 A edificação é apresentada pelos moradores àqueles que lá chegam como tendo sido um espaço representativo de uma época áurea, é como se o sentimento de continuidade com os significados daquele período tivesse se tornado residual àquele local.136 Em razão das narrações feitas por alguns dos entrevistados, a importância daquela estação continuou sendo motivo de orgulho para os habitantes daquele lugar. Ah, o trem... O trem funcionou aqui até mil novecentos e sessenta e três, sessenta e quatro aí começou a ser... Foi extinta a estrada, então até sessenta e quatro era transportado toda a mercadoria daqui no trem. Trem de ferro. Estrada de ferro Bahia e Minas. Então o movimento aqui era um pouco mais ativo porque tinha bastante funcionários aqui na Bahia e Minas porque aqui era um... era um ponto aqui onde convergia o comércio quase da região toda...137 A impressão que tive enquanto ouvia o senhor Manoel Peixoto falar da estação era que ele trazia em suas palavras outro ritmo que outrora acontecera em Helvécia. Falar do tempo da estação era também falar de um tempo de prosperidade no “comércio”, tempo no qual aquele lugar fora convertido numa área de concentração comercial. Com o intuito de conhecer um pouco mais deste tempo, a partir de diferentes olhares, entrevistei o senhor Amadeu Deolindo, 73 anos, funcionário “encostado” da Bahia e Minas: Entrei na Bahia e Minas em 1951 [...] a luta da gente... porque era assim: tinha a Lei do Provisório, se não era bom ia pra fora, se prestava, passava para diarista e depois passava para mensalista. Aí era firme. Eu trabalhei nove meses e não ganhei um tostão, comprava na cooperativa... eu passei a tarefeiro, aí eu comecei a ter problema de vista...138 135 Pierre Nora. Entre memória e História – a problemática dos lugares. Proj. História, São Paulo, (10) dez. 1993. 136 Idem, p. 7. 137 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 138 Entrevista concedida à autora pelo sr. Amadeu Deolindo em 23 maio 2008. 76 Este filho da Bahia e Minas, como ele mesmo se denomina, nascido em Helvécia e residente, no momento da entrevista, na cidade mineira de Teófilo Otoni, construiu sua narrativa da seguinte maneira: Em primeiro lugar a nossa Bahia e Minas começou de Ponta de Areia, né? Até Arassuaí. Em primeiro lugar a Bahia e Minas só pegava mais negro. Por quê? Que era, as pessoas falam, que é muito forte. O povo da Bahia e Minas ... não tinha curso, não tinha preparo nenhum. Era só chegar assim, é negão, é pra trabalhar? Pode botar aí. Tava empregado. Não tinha cultura nenhuma. Se vê que povo da Bahia e Minas antigo sê pode procurar que não tem cultura nenhuma. Não tem cultura não. Os que tinha assim... tinha mais, era mais foveiro um pouquinho, que eles falava que era branco, esses trabalhava no escritório, telegrafista, agente, chefe de trem, [...] e demais eu peguei um trecho da Bahia e Minas... que era assim trem de carga, cargueiro...139 Nesta construção destaco alguns elementos. Havia por parte da Bahia e Minas a geração de emprego sem que houvesse em contrapartida a necessidade de uma escolarização. Mesmo que a afirmação “O povo da Bahia e Minas... não tinha curso, não tinha preparo nenhum” necessite ser relativizada, ela nos indica que aqueles tempos podem ter sido fartos na oferta de empregos para muitas pessoas de Helvécia que se viram na condição de receber uma resposta afirmativa da Bahia e Minas ao pleitearem uma vaga para trabalhar. A fala nos revela que havia uma demanda grande de emprego por parte destas pessoas que não possuíam qualificação. É bom lembrar, segundo informações dadas pelo senhor Amadeu, a respeito da existência da Lei do Provisório, que “estar empregado” na ferrovia Bahia e Minas não implicava necessariamente garantia de permanência no emprego. O mesmo narrador contou ainda que Helvécia... que eu sou filho lá de Helvécia. Ah, era o lugar que tinha mais negro, então tinha a estação de Helvécia, quando chegava lá era a merma coisa, pegava um bocado de passageiro e vinha embora, pra Posto da Mata, depois Argolo,... Naquela época que a Bahia e Minas tinha movimento, negrão não ficava desempregado.140 Talvez quando da desativação dessa estrada de ferro aqueles que não ocupavam cargos especializados, que não eram “foveiros”, que não eram “firmes” se viram desempregados, sem poder contar com direitos trabalhistas. 139 140 Entrevista concedida à autora pelo sr. Amadeu Deolindo em 23 maio 2008. Entrevista concedida à autora pelo sr. Amadeu Deolindo em 23 maio 2008. 77 A narrativa a seguir pode ser esclarecedora em relação à importância da estrada de ferro Bahia e Minas para certo dinamismo dos lugares por onde os trilhos passavam: E a Bahia e Minas é o que? Que que vinha a Bahia e Minas? Antigamente as coisas que vinha prá aqui pra Teófilo Otoni, Arassuaí, aliás, vou começar de Ponta de Areia,... ..., aí vinha subindo Helvécia, Juerana, Posto da Mata,... aí chegava até aqui,...... as coisas que era mantido, que sustentava este povo desta região que estou falando, tudo vinha em que? Vinha de lá aqui, desembarcava do navio, chegava em Ponta de Areia, pegava o trem que era o trem cargueiro, tinha um bocado de vagão, e aí vinha trazendo esses trem e aí chegava em cada estação jogava um bocado aqui,... aí vinha embora, tinha os comercinhos, a parada sabe.141 Figura 5 – ESTRADA DE FERRO BAHIA E MINAS142 Uma destas paradas era a estação de Helvécia. O senhor Deolindo, quando indagado sobre do que ele, funcionário do trem cargueiro, se lembrava a respeito da produção de sua terra natal, disse: 141 Entrevista concedida à autora pelo sr. Amadeu Deolindo em 23 maio 2008. Bruno Dias Bento. As matrizes e a fundação: A companhia de commercio e navegação do Mucury & a estrada de ferro Bahia e Minas. Um breve estudo da formação do Vale do Mucuri. Monografia apresentada ao Programa de Ciências Sociais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2006, p. 135. 142 78 Aquela época... farinha. Farinha de mandioca. Então lá dava muita farinha. Oh gente! Parece até brincadeira, muito abacaxi, vinha... jaca. [...] O produto mesmo era abacaxi, ah não, primeiro vinha a farinha, que lá nóis fazia a farinha era bastante mermo. AÍ vinha despachando pra estes comércios pequeno, aí vinha distribuindo, os comerciante comprava para revender. [...] O trem cargueiro pegava cem sacos de farinha aí ia distribuindo, muito abacaxi, jaca. Deixa ver o que mais vinha daquela região... coco.143 Assim foi que “O trem, [...] trem de ferro” dinamizou a economia local, incrementando o comércio interno de produtos agrícolas ao mesmo tempo em que empregou membros da comunidade. A partir desta ferrovia, os habitantes de Helvécia passaram a exportar farinha de mandioca para o porto de Caravelas e para o interior de Minas Gerais.144 Esta dinâmica tornou-se estável ao longo de décadas. Esta idéia de movimento na praça e no tempo da estação, do km 74, que apresentei ao longo deste tópico, foi tecida pelos entrevistados, tendo sido, pois, realizada por eles em suas lembranças a partir dos parâmetros de suas experiências, daquilo que eles entendiam por movimento, dinamismo comercial. Uma informação a respeito do ritmo da locomotiva usada naquela época pode contribuir para relativizar essa idéia de dinamismo e movimento: A famosa locomotiva Maria Fumaça, da década de 60, inspira muitas saudades. Não poderiam passar despercebidos alguns fatos deleitosos, como o de que esta locomotiva percorria apenas 10 km por hora. As vezes descarrilava daquele trilho enferrujado, ora parava e ora faltava lenha. Além disso, quando algum dos passageiros saltava para fazer suas necessidades conseguia tranqüilamente retornar ao seu lugar. Isto nos faz sentir os bons tempos dos anos 60.145 Era neste ritmo, de aproximadamente 10 km por hora, que se processava a ligação de Helvécia com os outros lugares por onde passava a estrada de ferro Bahia e Minas. Quando perguntado a respeito de como era o comércio em Helvécia na época em que a estrada de ferro Bahia e Minas estava ativada, o senhor Kemi Krull construiu a seguinte narrativa: 143 Entrevista concedida à autora pelo sr. Amadeu Deolindo em 23 maio 2008. Dante Lucchesi; Alan Baxter. Projeto Vertentes do Português Rural do Estado da Bahia, Disponível em http://www.vertentes.ufba.br/helvecia.htm. 145 40 anos da colonização japonesa no Extremo Sul da Bahia, Teixeira de Freitas, Bahia, s.a., s.ed., 1997, p. 58. 144 79 [...] naquele tempo, tinha o pai de, ele já é falecido, chamava Oraldo, o pai de Dalvo, então o camarada poderia levar quantidade de farinha que ele comprava todinha, era farinha, dendê, arroz de casca, isso tudo ele comprava, quando já teve quantidade aí ele pegava gente para carregar tudo no ombro, colocava na estação, agora para levar para o estado de Minas para poder vender, Teófilo Otoni, nesses cantos. Já hoje em dia...146 A narrativa do senhor Kemi Krull é significativa na medida em que ele, além de indicar a importância da estação para o escoamento da produção, sinaliza a existência de uma variedade de produtos, “farinha, dendê, arroz de casca”, bem como sugere que tal produção era feita por pequenos produtores. Leio tal assertiva no instante em que o comprador, senhor Oraldo, é apresentado pelo entrevistado, como se tivesse sido uma espécie de atravessador que comprava a produção local e, “quando já teve quantidade”, vendia aquilo que foi amealhado para o estado de Minas Gerais, mais provavelmente a sua região norte, como indicado naquele relatório produzido anos antes pelo dr. Antônio de Araújo de Aragão Bulcão. Também o senhor Manoel Peixoto nos falou mais desse tempo: E o movimento de trem era grande, aqui em Helvécia tinha umas três linhas que a gente falava desvio, tinha umas três linhas principal e os desvios [...] aqui era um dos comércios mais movimentados, era o mais movimentado, né? Quanto aos habitantes daqui, eu já falei, né? Aqui tinha uns, na época tinha umas cinco famílias, mais tinha mais umas oito famílias de brancos, né? E os... tinha muitos negros, que aqui era muito negro, aqui era o foco onde eles também comerciava, trazia as mercadorias que eles tinham e levava daqui, levava o que precisavam. Roupas, o que fosse necessário para manutenção da vida deles, né? Aqui os sábados e domingos ficavam muitos cavalos amarrados aqui, no meio da rua, aqui tinha muitas estacas para amarrar os cavalos que vinham carregados com aquelas cestas nos cavalos. O comércio foi feito assim, então trazia muita... como eu falei mesmo o principal aqui era a farinha, né? Que negociava aqui, então vinha aqui, colocava os cavalos aí vendia farinha e levava a mercadoria deles.147 O senhor Manoel Peixoto, que planta eucalipto em terras de sua propriedade, e também é dono de um pequeno estabelecimento comercial localizado na praça da estação, fez, em sua fala, referência à existência de um contingente de pessoas que ali moravam “[...] que aqui era muito negro, aqui era o foco onde eles também comerciava, trazia as mercadorias que eles tinham e levava daqui, levava o que 146 147 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 80 precisavam”, indicando, no decorrer de sua fala, ter havido ali mais negros do que “famílias de brancos”. Como a residência do sr. Manoel Peixoto, onde realizei a entrevista, estava localizada nas proximidades do prédio da estação, ele fez uso constante da linguagem corporal, e ao falar, indicava com as mãos o movimento comercial dos tempos de outrora, quando os negros traziam, nos sábados e domingos, as mercadorias por eles produzidas para serem realizados os negócios de compra e venda, logo ali em frente de sua casa, na praça da estação. Aquele lugar foi um “foco” de comércio dos negros. Enquanto a farinha produzida pelos camponeses, que chegava à praça em cestas148 ganhava novos ares através dos trilhos da ferrovia Bahia e Minas, o fruto de sua comercialização circulava no distrito de Helvécia, sendo gasto ali com objetos de necessidade que não eram produzidos a partir da lida na terra. Uma loja comercial daquela época, provavelmente a mais sortida, pertencia ao pai do senhor Manoel Peixoto, e a descrição que ele fez dela pode nos ajudar a compreender como aquelas pessoas que vendiam seus produtos agrícolas na praça da estação se organizavam para adquirir algumas das mercadorias de que necessitavam: Ah, o comércio da época de meu pai aqui era interessante, tinha de tudo, era uma miscelânea o comércio dele. Ele vendia muito mais tecido, o forte dele mais era tecido. Mas ele vendia tecido, vendia ferragem de um modo geral, vendia também cereais, vendia tudo, era carne, feijão, sal, café, querosene, né? Que não tinha luz, sortido, era sortido, o comércio dele era variadíssimo, [...]149 Além de contribuir para o movimento comercial, a estação do km 74 era também um espaço para ocupação de mão-de-obra, “Então o movimento aqui era um pouco mais ativo porque tinha bastante funcionários aqui na Bahia e Minas”,150 e no distrito, em uma rua bem próxima à linha por onde passava o trem, foram construídas as casas para os funcionários da estação. Na rua Júlio Metizker se ergueram oito casas com telhados em duas águas geminadas duas a duas, eram as habitações construídas para abrigar os funcionários da estação. Dessa maneira, seus funcionários estavam sempre próximos, sempre à mão da empresa quando 148 É provável que o sr. Manoel Peixoto, ao falar de cestas, estivesse se referindo aos panacúns, que são de fato uma espécie de cesta que se prende ao lombo dos animais, muito utilizado para transportar mercadorias. 149 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 150 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 81 esta precisava de seus serviços. “As casas, como de praxe na época, foram construídas dentro da faixa de domínio da estrada e hoje ocupam o leito da rua.”151 Após a desativação da estrada de ferro, as casas, construídas pela Companhia de Estrada de ferro Bahia e Minas para abrigar seus funcionários, permanecem habitadas pelos moradores de Helvécia.152 Mas o tempo da ferrovia foi também lembrado pelos entrevistados no seu ocaso, e junto com este uma série de reminiscências pode nos ajudar a entender como a desativação da ferrovia Bahia e Minas, e mais precisamente da estação do km 74, foi sentida pelos sujeitos daquele lugar, [...] então quando foi no dia dezessete de abril de mil novecentos e sessenta e seis o trem de passageiro saiu de Teófilo Otoni com os passageiros até Ponta de Areia, quando deu terça-feira, não, dia dezoito, só voltou com as pessoas que trabalhava nele, maquinista, guarda-freio, bagageiro e o chefe, mas outro passageiro mais não. O pai de Estela veio na reza da mãe dele que era minha avó, dia dezessete, quando deu dia dezoito para ele ir embora para Moreis na fazenda dele, foi obrigado ir andando metade a pé, pegando carona não é igual hoje em dia que tem fartura de carro não, então até chegou na fazenda dele, também de lá para cá trancou mesmo, nunca mais, nunca mais aí depois pareceu uma firma por nome Rodocar arrancando os trilhos, depois que começou arrancar os trilhos aí a gente perdeu a fé memo.153 Foi possível perceber, a partir desta fala, que a desativação da estrada de ferro Bahia e Minas ocorreu para esta população de forma abrupta, sendo provável que nem todos os seus usuários soubessem que a partir de um determinado momento não mais poderiam contar com aquele meio de transporte e comunicação. Teria sido este o caso narrado pelo Senhor Kemi, no qual “O pai de Estela veio na reza da mãe dele que era minha avó, dia dezessete, quando deu dia dezoito para ele ir embora para Moreis na fazenda dele, foi obrigado ir andando metade a pé, pegando carona...” “Caminhos de ferro mandaram arrancar 154 ”, e com estes a vida das pessoas que moravam naquele lugar saiu dos trilhos. As ações de sociabilidade entre as pessoas foram redirecionadas, posto que para se locomoverem elas não mais 151 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 71. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 71. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 153 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 154 Milton Nascimento e Fernando Brant. “Ponta de Areia”. LP Milton Nascimento, Emi Odeon, 1969. 152 82 poderiam contar com o trem de passageiro. Foi preciso, então, buscar em seu repertório outras ações, andar a pé, pegar carona, reinventar-se em Helvécia. É, dessa época depois que foi extinta a estrada de ferro Bahia e Minas aqui houve uma queda muito grande, o comércio fracassou muito, tornou dificílimo o transporte para as mercadorias. Aí foi que apareceu a BR 101, essa BR 101 tirou a vida daqui e aqui foi pela sorte, foi meio cruel aqui, mudou completo a vida daqui, o movimento comercial daqui caiu muito mesmo, foi parando, parando... Aqui ficou numa época aí, acho que, por exemplo, de... na época de sessenta até setenta, oitenta, aqui ficou, foi ficando um comércio ruim, muito ruim, muito parado, os comerciantes daqui da época foi embora, todo mundo foi embora, um dos poucos que conseguiram resistir e ficar aqui foi meu pai155 (grifo da autora). Essa afirmação do senhor Manoel Peixoto, de que com a saída do trem o comércio de Helvécia foi parando, parando, foi construída de tal maneira que provocou em mim a sensação de que o entrevistado ao frisar a diminuição do ritmo do comércio também o fazia em relação ao próprio trem, como se a velocidade do trem estivesse diminuindo, diminuindo, incitando assim o desembarque não de uma pessoa, mas do próprio distrito de Helvécia. É como se Helvécia houvesse descido não na estação, mas sim da estação do ritmo acelerado de pessoas que se juntavam para comercializar os produtos oriundos das pequenas roças, fazendo assim circular o comércio local; do ritmo de oportunidades diversas em que se estabeleciam os contatos familiares, as missas de domingo, os batizados, namoros, as rezas dos parentes, os sambas. Ironicamente, aquele que havia sido o lugar de movimento estava parado, estático em um prédio que por mais que anunciasse sua presença, enquanto estação ferroviária, não mais tinha vida. Esta situação ficou ainda mais evidente quando a firma Rodocar arrancou os trilhos. Não havia mais trem. Se não havia mais trem, também não havia por que ir à praça da estação. Faltava ali a circulação dos funcionários, dos transeuntes. Restou a memória deste tempo que foi parando, parando. Ainda quanto ao prédio da estação, sua imagem poderia ser descrita como um misto paradoxal de imponência e impotência, talvez essa combinação nos ajude a entender a recomendação de seu tombamento, pelos profissionais que elaboraram a adequação do PDU 2004 do município de Nova Viçosa. Este tombamento estaria 155 Entrevista concedia à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 83 associado à implantação de um café-bar no antigo prédio, “[...] sem cozinha, com mesas no interior, na varanda e na praça conjugado com exposições tanto nas paredes do térreo como no pavimento superior pode criar a ‘animação’ necessária da cidade às artes plásticas”.156 Nem é preciso dizer que este projeto não foi implementado. O café não tornou a ser o centro das atenções no distrito de Helvécia, nem mesmo como ponto de encontro, de lazer, de “animação”. Este é o típico projeto feito por “técnicos” sem respeitar uma premissa básica, qual seja, conhecer minimamente a realidade local. O desrespeito a tal premissa constitui um forte indicador da não importância que se estava dando aos sujeitos de Helvécia. Os tempos da estação presentes na memória dos habitantes de Helvécia, a partir das entrevistas por mim realizadas e analisadas, em nada comungavam com a construção de um café-bar. Naquele lugar, a “Maria fumaça não canta mais”. Como bem nos disse o senhor Kemi Krull, data de 1966 a desativação da estrada de ferro quando, sob seu impacto, os moradores de Helvécia passaram a ter grandes dificuldades para escoar a produção agrícola. Este fato colaborou para que a comunidade se voltasse à produção de subsistência, trabalhando a terra através de núcleos familiares e desenvolvendo a prática de pequenos cultivos agrícolas utilizados para abastecer o mercado interno, e em menor escala, em razão das dificuldades de transporte, as feiras semanais das cidades próximas de Nova Viçosa e Caravelas. Com a implantação da BR 101 na década de 1970, o distrito de Helvécia viveu mais um momento de perda de importância do papel que desempenhara até então naquele microespaço regional, visto que a BR 101 deslocou o movimento comercial para outros distritos e cidades que estavam, diferentemente de Helvécia, à sua margem. A esse propósito é reveladora a fala do morador Manuel Assis Peixoto sobre o significado desta mudança: “A terra aqui em Helvécia em 70 e 80 não valia nada.”157 Foi neste contexto que se deu a implantação da monocultura do eucalipto. 156 157 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 66. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. Entrevista concedida à autora pelo Sr. Manoel Peixoto em 14 de agosto de 2007. 84 2º CAPÍTULO – “PENSOU QUE NÃO, CHEGOU A FIRMA...” A chegada da eucaliptocultura no sul da Bahia, em meados dos anos 1970, não poderia ter sido mais festejada e exaltada. Houve neste momento uma consonância de vozes no sentido de apontar as benesses, tidas como certas, em razão da vinda de empresas de “reflorestamento” para a referida região. É importante cruzar diferentes fontes que, a partir de lugares diversos, nos falam sobre as expectativas e vivências deste tempo. O eucalipto, que hoje se faz viçoso no Extremo Sul da Bahia, ali chegou com o aval do Governo Federal, representado à época pelo presidente Ernesto Geisel, que assinou um acordo com o primeiro-ministro japonês,158 abrindo um ciclo de inaugurações de grandes projetos brasileiros de celulose. Como um dos resultados deste acordo, foi criada a Flonibra – Empreendimento Florestais S.A., do Grupo Vale do Rio Doce. A respeito desta empresa, vejamos o que disse o coronel Dalmo Leme Pragana, então presidente da Flonibra:159 A Flonibra é resultado de acordo da Companhia Vale do Rio Doce com as 15 maiores empresas japonesas produtoras de celulose. É uma indústria brasileira, onde o Governo Federal tem maioria absoluta, porque a Companhia do Vale do Rio Doce pertence em 85% ao Governo Federal e esta, por sua vez, tem 55% do controle acionário. Desse modo, a companhia é inteiramente controlada pelo governo da União.160 Ainda nesta mesma reportagem, o jornal A Tarde trouxe alguns dados, todos eles fornecidos pelo coronel Dalmo Leme Pragana e pelo chefe do Escritório Regional da Flonibra no Estado, o ex-prefeito da capital baiana, Clériston Andrade, a respeito da implantação da eucaliptocultura no Extremo Sul baiano. Chama a atenção o teor persuasivo constante dos argumentos utilizados pelas autoridades responsáveis pelo empreendimento. Analisei aqueles que pareceram relevantes em 158 Jornal A Tarde, Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 159 A entrevista coletiva foi realizada no dia 25 de fevereiro de 1976, em Salvador, na sede da Associação Baiana de Imprensa – ABI. 160 Jornal A Tarde, Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 85 razão de portarem elementos que contribuíram para ensejar, na região, uma expectativa positiva, quando se pensava na chegada da referida empresa. Em primeiro lugar, é antecipada uma posição do investimento na hierarquia dos empreendimentos existentes no Estado da Bahia. Conforme a entrevista, em grau de importância econômica, o negócio só perderia para o Pólo Petroquímico de Camaçari. É bom lembrar que à época este Pólo tinha importância econômica inquestionável. Portanto, a comparação feita através da mídia valorizava e impedia qualquer questionamento a respeito da relevância do projeto que então se apresentava. Ampliando-se os fatores favoráveis à persuasão, o coronel Pragana informou sobre a previsão de investimentos da ordem de, aproximadamente, um bilhão de dólares para a compra de terras e implantação de três fábricas de celulose. Um significativo percentual destas terras estaria concentrado no Estado da Bahia. Segundo a reportagem, um dos objetivos da Flonibra era o reflorestamento de 400 mil hectares de terras distribuídas no sul da Bahia e norte do Espírito Santo. Dentre estes, 4/5 na Bahia. Conforme representantes da Flonibra, o empreendimento, compreendendo três fábricas de celulose, somando uma capacidade produtiva de 765 mil toneladas por ano, geraria 300 milhões de dólares para o Brasil. Outro recurso usado pelo presidente e pelo chefe do Escritório regional da Flonibra para exaltar as vantagens inequívocas do empreendimento tocava mais de perto aos moradores das áreas de abrangência do projeto. Pela previsão destes, o número de postos de trabalho criados seria tão expressivo que não haveria população suficiente na região para ocupá-los: “[...] essa empresa oferecerá 15 mil empregos diretos no Extremo Sul e 60 mil indiretos.”161 Informavam também que estavam [...] encontrando dificuldade de pessoal especializado ou não. Quem trabalhar na Flonibra terá casa, escola para os filhos, assistência médica, entre outros benefícios, mas mesmo assim não há população nessas áreas para ocupar todas as vagas.162 Todos os argumentos selecionados pelos entrevistados, como foi possível observar, visavam à construção de uma imagem positiva do projeto com o fito de 161 Jornal A Tarde, Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 162 Idem. 86 gerar uma unanimidade favorável, produzindo uma impressão de que se tratava de algo a ser defendido em nome do interesse público da região. Outra justificativa recorrente para a implantação do projeto consistia no fato de que neste período o Brasil importava cerca de 300 milhões de dólares de celulose por ano e, por sua vez, os exportadores tradicionais à época, notadamente Suécia, Islândia e Canadá, estariam com suas capacidades esgotadas.163 Tal equação sinalizava uma possibilidade exitosa no investimento do agronegócio do eucalipto. Ainda a respeito da atuação do governo federal, no processo de incentivo às companhias que investissem em plantações de eucalipto, é necessário destacar o espaço garantido a essas iniciativas, a partir do II Plano Nacional de Desenvolvimento - II PND, 1974, fortalecendo as denominadas políticas florestais em consonância com o I Programa Nacional de Papel e Celulose voltado para áreas dos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia e Pará.164 Segundo dados apresentados no Seminário Internacional do Processo de Articulação e Diálogo, produzido por Daniel Silvestre, O Governo Federal destinou cerca de US$ 466.846.200,00 ao setor celulósico-papeleiro entre 1974 e 1980, não só mediante financiamentos por meio do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), mas também pela participação acionária do BNDE e de estatais com a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) em empresas de papel e celulose.165 Nas esferas do executivo estadual e municipal, o poder público também se manifestava entusiasmado com a implantação do projeto. Tal entusiasmo não se deu de forma pontual, ao contrário, este esteve presente ao longo do processo de efetivação do agronegócio do eucalipto. A isenção fiscal166 foi uma das maneiras que o Estado encontrou para incentivar a indústria de celulose, o argumento utilizado para esta prática era a possibilidade de ganhos futuros através do aumento da arrecadação de impostos. Esta conjunção de apoio do poder público à eucaliptocultura traduziu-se na constatação de que “Entre 1980 e 1992, a produção de celulose de eucalipto para 163 Idem. Daniel Silvestre. Seminário Internacional do Processo de Articulação e Diálogo, s.l., s.ed., s.d. 165 Idem, p. 2. 166 Idem, p. 2. 164 87 exportação cresceu aproximadamente 83%”.167 Este crescimento ensejou a fundação da Associação das Empresas Brasileiras Exportadoras de Celulose (ABECEL), composta pela Aracruz, Cenibra, Riocell, Monte Dourado e Bahia Sul.168 Destas, interessa aqui, neste momento, apresentar um breve histórico da Aracruz Celulose e da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose, posto que foram elas que passaram a atuar no distrito de Helvécia. No resumo público de certificação da Suzano Bahia Sul Celulose S.A., existe o seguinte registro a respeito de sua origem e desenvolvimento: A Bahia Sul Celulose S/A foi fundada em 1987, com participação societária de 55% da Cia. Suzano de Papel e Celulose e 45% da Cia. Vale do Rio Doce. A nova empresa incorporou ao seu patrimônio as terras das Florestas Rio Doce, subsidiária da Cia. Vale do Rio Doce, num total de 96.645 ha onde 44.814 ha eram plantações de eucaliptos que haviam sido anteriormente estabelecidas no Norte do Espírito Santo e Extremo Sul da Bahia entre 1974 e 1982. [...] Em junho de 2001 a Cia. Suzano de Papel e Celulose adquiriu a totalidade das ações da Cia. Vale do Rio Doce na Bahia Sul Celulose. Em junho de 2004, por acordo entre os controladores de seu capital social, a empresa muda a sua razão social para SUZANO BAHIA SUL PAPEL E CELULOSE S.A.169 Ressalto o fato de que as terras anteriormente adquiridas pela Vale do Rio Doce, da qual a Flonibra fizera parte, no Extremo da Bahia, foram após a criação da Bahia Sul Celulose S.A., incorporadas a esta última. Desta maneira as análises feitas até aqui a respeito da chegada da Flonibra passaram a ser desdobradas nas ações realizadas pela Bahia Sul Celulose S.A. Quanto aos dados sobre a origem da Aracruz Celulose, estes se encontram disponíveis no site www.aracruz.com.br. Tal empresa foi fundada em abril de 1972 e Suas operações florestais alcançam os Estados do Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com mais de 286 mil hectares de plantios renováveis de eucalipto, [...] O controle acionário da Aracruz é exercido pelos grupos Safra, Lorentzen e Votorantim 167 José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999). Tese de doutorado em administração, Escola de Administração, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000, p. 85. 168 Maurício Otávio Mendonça Jorge apud José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999). Tese de doutorado em administração, Escola de Administração, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000, p. 85. 169 Resumo público de certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. unidade de Mucuri, p. 5. 88 (28% do capital votante cada) e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES (12,5%).170 A respeito da participação do governo brasileiro como agente acionário da Aracruz Celulose, é preciso que se diga que esta ocorreu já em 1972, quando o então BNDE estabeleceu uma política generosa “baseada na participação acionária, financiamento de acionistas e controle direto de vários projetos de papel e celulose.”171 Em relação à Aracruz, ao que tudo indica, esta participação foi decisiva: Em 1972, o projeto industrial da Aracruz Celulose, rejeitado pela lógica empresarial devido às incertezas quanto à viabilidade técnicoeconômica de produção de celulose de fibra curta de eucalipto, somente se tornou exeqüível pelo apoio integral do BNDE.172 Ainda a respeito do crescimento das empresas de eucalipto atrelado às ações e aos planos governamentais, José Célio Silveira Andrade afirmou que Grande parte deste crescimento concentrou-se entre 89 e 92, quando entraram em operação os projetos de duplicação da capacidade de produção da Aracruz e a partida da Bahia Sul Celulose. O Estado atuou nessa fase através da edição, em 1987, do II Programa Nacional de Papel e Celulose. Esse programa setorial tinha como objetivo duplicar a capacidade instalada do complexo através da implantação de novas unidades e ampliação das existentes.173 De fato, em 1989, há registros que indicam o explícito apoio do poder executivo estadual no processo de implantação de novas unidades da então Bahia Sul Celulose no Extremo Sul baiano. Refiro-me à publicação feita pelo Jornal A Tarde em uma matéria intitulada “Fábrica de celulose trará mais ICMS para o Estado”, na qual o então governador do Estado da Bahia, Nilo Coelho, ao entregar a licença do Centro de Recursos Ambientais (CRA), exigência para que ocorresse o início das obras da fábrica de celulose da Bahia Sul,174 destacou a importância do empreendimento em razão de associá-lo à geração de empregos e, quando efetivamente implantado, a uma grande fonte de ICMS para o Estado. Na 170 http://www.aracruz.com.br/show_arz.do?act=stcNews&menu=true&id=12&lastRoot=8&lang=1, Quem somos, último acesso em fevereiro de 2008. 171 José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999), op. cit., p. 94. 172 Ibidem. 173 José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999), op. cit.. p. 85. 174 Jornal A Tarde, 30 de junho de 1989, geral, p. 2, Fábrica de celulose trará mais ICMS para o Estado, Arquivo do Instituto Geográfico Histórico da Bahia, Salvador – Bahia. 89 oportunidade foi dito que a fábrica seria instalada na cidade de Mucuri, no Extremo Sul baiano. Na solenidade de entrega da licença, em que também estavam presentes o vice-presidente da Companhia Vale do Rio Doce, Bernardo Spiegel, e Darlan Dantas, diretor do Bndes,175 o governador Nilo Coelho, ao dirigir-se ao presidente do grupo Suzano de Papéis, Leon Feffer, assim se pronunciou: Entrego a licença a um pioneiro que traz para as novas gerações o exemplo do trabalho e da dedicação que foi seguido no sul do país e hoje chega na Bahia, um exemplo de empresários e industrial brasileiro que os baianos recebem de braços abertos na certeza de que vêm contribuir para o nosso desenvolvimento e progresso.176 É certo que também, em um primeiro momento, os baianos de Helvécia estiveram, como nos disse Nilo Coelho, de “braços abertos” para acolher as empresas de eucalipto. Deixemos que a senhora Célia Maria Silva Zacarias nos fale deste tempo: Aí foi, a gente trabalhando, né? Aí não demorou a gente teve o comentário que ia chegar a firma da Rio Doce, que é o eucalipi. [...] Aí já veio o comentário logo do pessoal querendo vender as terra. Meu pai falou assim: não, a minha eu não vendo não, a minha é pra nós trabalhar, pra nós tirar nossos alimentos daqui. [...] Aí se mandei pra firma do eucalipi. Chegou de Vitória. Aí começamos a trabalhar. Mudou a vida de muitos lá, sabe? Era pertinho de nossa roça, aí todo mundo trabalhava no eucalipi, trabalhava na roça, era essa a vida.177 Parecia mesmo que estava ocorrendo ali “um abraço”,178 no sentido de um encontro de expectativas. Senão vejamos: havia uma empresa que tinha à sua frente um futuro promissor em razão das potencialidades de mercado; um estado que enxergava a possibilidade de ganhar duplamente, pois além de participar da empresa, e portanto de seus dividendos, iria aumentar a sua arrecadação tributária; e uma comunidade, que por sua vez sentia-se contemplada em suas expectativas e necessidades com o surgimento de empregos para todos e, além do mais, sem que isso ‘desmantelasse’ seus antigos jeitos de trabalho, pois “...aí todo mundo trabalhava no eucalipi, trabalhava na roça, era essa a vida”. Será? 175 Idem. Idem. 177 Entrevista concedida à autora pela sra. Célia Maria Silva Zacarias em 15 mar. 2007. 178 A imagem do abraço foi utilizada para fortalecer o significado da idéia de receptividade por parte da comunidade de Helvécia à época da implantação da eucaliptocultura. 176 90 Na parte da entrevista transcrita e apresentada aqui, Célia Zacarias assegura que a chegada da firma de eucalipto “Mudou a vida de muitos lá...”, para em seguida indicar que “todo mundo trabalhava no eucalipi”. Quando instigada a falar sobre essas mudanças, ela nos disse o seguinte: [...] Até meu pai mermo deu de trabalhar fora. Aí passou, já chegou outra firma de eucalipi, que é aquela que antigamente chamava... Fronibra,179 hoje é a Bahia Sul. Essa Fronibra ajudou os habitantes de Helvécia mais ainda, nossa senhora, como foi bom! Que não ficava ninguém parado dentro de Helvécia. Aí mexia com a roça, mexia com a firma. Trabalhava na roça, trabalhava na firma. Eu mermo era uma. Trabalhava, quando dava na folga assim do sábado, minha mãe falava assim: – Agora vamos lá pra roça plantar mandioca. Nós se mandava, eu e minhas primas.. Aí foi lutando, foi lutando até que não passava mais dificuldade, que passava muita dificuldade... depois dessas firma cada um tinha seu lugarzinho de ganhar seu pão, né? E graças a Deus.180 A partir dessa narração, é quase possível ver a chegada das firmas181 de eucalipto ao coração da gente de Helvécia. Elas teriam chegado com possibilidades de emprego e renda para a comunidade, que após a implantação das mesmas passou a viver um período de melhorias, idéia essa traduzida na seguinte construção: “Aí foi lutando, foi lutando até que não passava mais dificuldade, que passava muita dificuldade... depois dessas firma cada um tinha seu lugarzinho de ganhar seu pão.” Tal narração foi por mim interpretada como sendo uma memória de um tempo de certezas, de tranqüilidade, em que o novo, a eucaliptocultura, chegou e foi sentida como uma atividade que abria possibilidades de atuação para os moradores daquele lugar. Isso teria acontecido de tal forma que, não obstante a incorporação desse novo afazer, as atividades laborais precedentes foram preservadas através da incorporação, pelos trabalhadores dos “eucalipi”, de jornadas de trabalho nos dias de folga das “firma” em seus espaços de produção anteriores. Assim, “Trabalhava na roça, trabalhava na firma. Eu mermo era uma. Trabalhava, quando dava na folga assim do sábado,... minha mãe falava assim: – Agora vamos lá pra roça plantar mandioca”. Nesta situação, observa-se um ajuste no que se refere à distribuição do tempo. O contrato com a empresa de eucalipto passou a regular mais amplamente o 179 A entrevistada refere-se à Flonibra. Entrevista concedida à autora pela sra. Célia Maria Silva Zacarias em 15 mar. 2007. 181 Na fala da entrevistada faz-se referência às firmas Rio Doce e Flonibra como se elas não tivessem ligação, entretanto como já foi explicado no corpo do texto a Flonibra pertencia ao grupo do Vale do Rio Doce. 180 91 cotidiano daquelas pessoas. Elas já não mais podiam decidir suas rotinas levando em consideração somente elementos e as correspondentes exigências do tempo das tarefas domésticas, tal qual conceitua Thompson (Tempo e disciplina do trabalho), como mencionado no primeiro capítulo. Elas, agora, estavam diante de outra temporalidade, regida pelo relógio, na qual suas atividades anteriores estavam sujeitas aos intervalos de folga definidos por este. Essa nova configuração insinua, senão uma perda de controle do tempo por esses trabalhadores, posto que também o tempo da natureza lhes impunha normas, ao menos uma necessidade de adequação destes trabalhadores ao tempo de trabalho organizado pelas firmas, sem que houvesse, por parte destas, necessariamente, algum tipo de respeito ao tempo da natureza ao qual aqueles trabalhadores estavam acostumados. Esta situação acabava repercutindo, de alguma forma, sobre a autonomia destes nas suas organizações de sociabilidade diárias, ligadas, por exemplo, aos costumes associados aos horários de dormir, levantar, alimentar-se. Desta maneira, aquele quadro que a princípio sugeria harmonia, “Trabalhava na roça, trabalhava na firma”, com integração entre mudanças e permanências, ao ser olhado em suas nuances nos convida a ver alguns elementos que possivelmente contribuíram para gerar dúvidas, incertezas. O que trago aqui como questionamento é: será que o procedimento descrito por Célia pôde ser adotado pela maioria dos pequenos proprietários ou posseiros de terra? Como isso foi possível se, como informou182 o coronel Dalmo Leme Pragana, presidente da Flonibra, havia a necessidade de aquisição por parte da empresa de uma grande parcela de terra para o plantio do eucalipto? Quando a entrevistada fez menção à questão da posse da terra, ela nos deixou uma pista ao dizer que “Aí já veio o comentário logo do pessoal querendo vender as terra. Meu pai falou assim: não, a minha eu não vendo não, a minha é pra nós trabalhar [...]”. Tal argumento me levou a deduzir que ao tecer sua memória e afirmar que as pessoas continuavam trabalhando na roça e nas firmas, “Até meu pai mermo deu de trabalhar fora”,183 ela se referia não só a sua realidade familiar, visto que tal afirmação indica que além do seu pai havia um movimento de outras pessoas daquela comunidade em direção ao trabalho nas firmas. Ao reelaborar sua 182 Em entrevista concedida ao jornal A Tarde em 26 de fevereiro de 1976, em matéria intitulada: Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador – Bahia. 183 Deduzi que “trabalhar fora” referia-se ao trabalho na firma de eucalipto, pois a entrevistada anteriormente estava falando exatamente sobre a chegada da empresa na comunidade. 92 memória, a entrevistada manifesta valores e procedimentos associados à sua coletividade. Entretanto, outro dado que a entrevistada sugere consiste no fato de que uma grande quantidade de pessoas, quando da chegada das firmas na região, passou a pensar em vender suas terras, e muitas delas, de fato, venderam-nas para as empresas de eucalipto. Isso significa dizer que para essas pessoas a rotina do trabalho foi alterada de modo mais substancial, posto que deixaram de ter a posse da terra, com todas as implicações daí derivadas. É provável que, desta maneira, para tais pessoas a permanência no distrito estivesse, agora, atrelada às possibilidades de ocupação nas empresas de eucalipto. Se levarmos em consideração, com já foi indicado anteriormente, que a terra em Helvécia sofrera desvalorização em razão da construção da BR 101, podemos entender que a chegada de empresas ávidas por terra significou a possibilidade de negócios vantajosos para muitos dos pequenos proprietários e posseiros daquele distrito, ainda mais se no processo de negociação das terras estivesse implícito que os antigos proprietários e seus familiares teriam emprego nas firmas. Em síntese, os moradores de Helvécia conseguiriam a um só tempo aferir ganhos com a comercialização de áreas rurais, à época desvalorizadas, e garantir o emprego nas “firmas” de eucalipto. Teria havido, neste momento, por parte de integrantes da comunidade, a expectativa de que ali estaria se iniciando um novo período de progresso e conquistas para o distrito de Helvécia. Muitos acreditaram, em razão de suas necessidades, das propagandas midiáticas e dos discursos dos políticos locais e atores sociais que dispunham de credibilidade junto ao segmento mais afetado pelo empreendimento, isto é, os pequenos camponeses, que as empresas responsáveis pelo plantio do eucalipto iriam gerar empregos e fazer uso da mão-de-obra da localidade, dando, principalmente aos jovens, oportunidades de colocação no mercado de trabalho e ascensão social. Este tempo foi assim apresentado por Roseli Ricardo Constantino: Faço parte da AQH — Associação Quilombola de Helvécia —, uma comunidade que foi completamente destruída pela monocultura do eucalipto. Como os colegas já disseram, não somos contra o progresso. Quando as empresas chegaram, houve euforia. Todos 93 quiseram a vinda das empresas, porque esperávamos que elas trouxessem benefícios para a nossa comunidade.184 Podemos observar, a partir desta fala, que houve uma ampla expectativa por parte da comunidade em relação à vinda das empresas de eucalipto, mesmo sendo presumível que, diferentemente daquilo afirmado pela Roseli, nem todos tenham aderido à vinda das empresas. Esclareço que, quando se deu a chegada das empresas de eucalipto em Helvécia, Roseli era uma criança, pois, em 2005, ao proferir o depoimento citado, deveria ter aproximadamente trinta anos. Assim é bem possível que sua afirmação seja resultado de outras memórias que lhes foram apresentadas ao longo da vida. Como essas memórias chegaram até Roseli a partir de diferentes falas, e levando-se em consideração que as palavras são “multimoduladas”185 e que, portanto, nelas existem elementos que traduzem outros tempos, é de se esperar que por mais que Roseli Constantino tenha se esforçado para dar conta da completude das falas a que teve acesso sobre o tempo da implantação da eucaliptocultura em Helvécia, algo tenha lhe escapado, pois é provável que além de ter deixado de levar em consideração uma ou outra fala a respeito da implantação da eucaliptocultura em sua comunidade, o sentido das palavras proferidas àquela época não necessariamente correspondesse ao sentido das mesmas palavras no tempo da construção do depoimento proferido pela declarante. Assim, a fala de Roseli Constantino não dá conta de elaborar uma assertiva que ofereça uma visão exata e completa do sentimento de sua comunidade, visto que “Tudo que dizemos tem um “antes” e um “depois” – uma “margem” na qual outras pessoas podem escrever.186 No caso em questão, pessoas podem ter dito coisas, naquele tempo de implantação da eucaliptocultura que traduzissem um sentimento de não euforia e não aquiescência ao referido projeto, entretanto, à margem de suas falas, outros textos podem ter sido escritos. A ênfase que Roseli deu a determinados aspectos deve ser lida como própria daquele contexto, afinal, ao participar como depoente na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados, ela tinha, como é regra na 184 Roseli Ricardo Constantino, integrante da Associação Quilombola de Helvécia, pedagoga e professora daquela comunidade. Depoimento n. 1595/05 de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – DETAQ. 185 Expressão utilizada por Stuart Hall, na obra A identidade cultural na pós-modernidade, para indicar que o significado das palavras não é fixo. 186 Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 8. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p. 41. 94 construção dos discursos, um objetivo específico e construiu sua fala no sentido de atingi-lo. Desta forma, quando convidada a representar sua comunidade numa audiência pública e manifestar-se sobre este tempo da chegada do eucalipto, Roseli Constantino construiu um discurso em que foi realçada a consonância, ao menos no primeiro momento, de sua comunidade com o projeto da eucaliptocultura, frisando que essa vinda foi entendida como sendo portadora de benefícios. Interpreto esta expectativa como sendo principalmente associada à geração de empregos. Faço tal leitura partindo do pressuposto de que, com a desativação da estrada de ferro Bahia e Minas, os trabalhadores não efetivos, em razão da existência da Lei Provisório,187 foram dispensados. Quanto aos efetivos, estes, segundo informações apresentadas pelo senhor Antônio Simões, ou se aposentaram ou foram enviados para diferentes lugares do Brasil. [...] Pai trabalhou 47 anos na Bahia e Minas, e assim mesmo não queria aposentar não, ele não queria sair não. Pai era apaixonado pela Bahia e Minas. Ele começou como aprendiz aos onze anos de idade... Ele nasceu em 1896 e trabalhou 47 anos na Bahia e Minas. Eu devo dizer pra você [dirigindo-se para a entrevistadora] que eu vi pai chorar duas vezes na vida. (...) e a segunda vez foi na extinção da Bahia e Minas, que eu vi pai chorar. Não só pai, todos os ferroviários. Porque, imagina você uma empresa há quarenta anos atrás, uma empresa que tinha quase 2000 mil funcionários. Era uma grande empresa, né? Então dois mil funcionários... sendo que depois com a extinção da Bahia e Minas esses funcionários foram embora pra Divinópolis, Belo Horizonte, Lavras, Três Corações, enfim, distribuiu funcionário pra tudo quanto é lado. Tem funcionário que tem quarenta anos que nunca mais voltou aqui, até de tristeza. Muitos funcionários morreram em decorrência disso... Os poucos que ficaram aqui (funcionários) acho que foram remanejados para um outro órgão do governo assim, né?... Tem gente que foi até pra perto do Estado do Rio, então dispersou, cê entendeu?188 Ainda a respeito do que significou para os trabalhadores daquela estrada de ferro, a sua desativação, Antônio Simões, um dos integrantes da “família” Bahia e Minas, ajuda a entender o que aconteceu com as pessoas e lugares que tinham suas histórias associadas aos trilhos da estrada de ferro: 187 Abordada no item “Tempo da estação – Estrada de ferro Bahia e Minas”, do primeiro capítulo, a partir da narrativa do senhor Amadeu Deolindo. 188 Entrevista concedida à autora pelo sr. Antônio Simões em 23 maio 2008. 95 Isso foi assim uma das piores coisas que acho que aconteceu em termos de economia,... quanta cidade pro lado da Bahia que morreu em decorrência disso. Cidade que acabou.189 Se, como vaticinou o senhor Antônio Simões, a cidade de Helvécia não acabou, é possível afirmar que a produção agrícola, voltada para atender ao comércio dinamizado pelos trilhos ao longo dos lugares existentes nos 587 km190 da ferrovia, foi abalada e com ela também as formas de organização sociocultural daquela comunidade. A produção agrícola para o comércio local, e a renda decorrente desta, também foi afetada em razão da construção da BR 101, que deslocou o eixo comercial de Helvécia para outros lugares, como, por exemplo, Posto da Mata e Teixeira de Freitas. Muitos dos donos de terra em Helvécia, ao venderem suas propriedades e posses para as empresas de eucalipto ou para seus intermediários,191 passaram a contar com a possibilidade de virem a se tornar funcionários das “firmas”, passando a ter salários, para que pudessem prover seu sustento e expectativas. Porém, com o passar dos anos, as fraturas entre o prometido, o esperado e o realizado começaram a se fazer visíveis: [...] pensou que não chegou a firma. Foi comprando a troco de nada, e o pessoal, eles falavam muitas vezes que pudesse vender que ia ser bom, comprando, né? O pessoal, que ia ser bom para as pessoas, que ia ter muito trabalho. No início empregou muita gente, até eu trabalhei na colheita, eu e meu esposo trabalhamos. O melhor salário daquela época, há vinte e sete anos atrás, há trinta, era da Fanibra [Flonibra]. E aí quando pensou que não, foi trazendo as máquinas foi dispensando o pessoal, e aí? Tem máquina que enquanto mil pessoas faz o serviço de um dia, a máquina faz sozinha, com um homem só manobrando ela. E foi desempregando todo mundo [...].192 Faustina Zacarias nos traz, a partir da construção “pensou que não chegou a firma [...] empregou muita gente [...] pensou que não, foi trazendo as máquinas [...] E foi desempregando todo mundo [...]”, a sua leitura de diferentes tempos históricos e de seu significado para os moradores de Helvécia. É também possível interpretar 189 Entrevista concedida à autora pelo sr. Antônio Simões em 23 maio 2008. Enciclopédia dos municípios brasileiros. Planejada e orientada por Jurandyr Pires Ferreira, presidente do IBGE, supervisor da edição Dyrno Pires Ferreira, 2 de julho de 1958, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Rio de Janeiro, XX volume, p.140. Acervo Cedic – Centro de Documentação e Informação Cultural sobre a Bahia, Salvador, Bahia. 191 O processo de venda das terras será abordado no próximo item deste capítulo. 192 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 190 96 uma idéia de descontrole por parte daquela que fala sobre o processo de introdução da novidade, uma idéia de aceleração desenfreada na implantação da firma: enquanto ela pensa, a firma chega. Essa construção dá uma indicação de distância entre o tempo da firma e o da comunidade. A firma ainda bem nem chegou e já empregou, já trouxe as máquinas e já desempregou. Tem-se aí a idéia de compressão do tempo na pós-modernidade de que fala David Harvey.193 A fala de Faustina Zacarias também nos deixa entrever que a euforia e certezas do primeiro tempo memorado deram lugar a dúvidas e incertezas à medida que as pessoas venderam suas terras, “a troco de nada”, o que indica que o dinheiro adquirido com a venda das terras, diferentemente daquilo que possa ter sido imaginado à época, não foi nenhuma fortuna e foi corroído ao ser usado para atender aos apelos consumistas de compra de uma casa, de utensílios domésticos e coisas do gênero. Também os empregos gerados não atenderam às expectativas, intencionalmente alimentadas pelos defensores das empresas ao afirmarem, como já foi dito, que “Não haveria população suficiente na região para ocupar as vagas de emprego que seriam geradas”.194 Diante desta situação, a comunidade viu-se obrigada a deslocar-se de seu lugar em busca de alternativas de emprego e sobrevivência. Esses deslocamentos ocorrem tanto para destinos próximos do distrito, como a cidade de Nova Viçosa e Teixeira de Freitas, como para centros mais distantes, entre os quais Vitória, Salvador, São Paulo e Belo Horizonte. O aumento destes deslocamentos nos últimos anos indica entre outros aspectos que, além de “sobrar gente”195 no local e faltar vagas, o “progresso”, aqui entendido com o sentido que as pessoas lhes davam e que estava associado à melhoria da qualidade de vida, geração de empregos e maiores ganhos salariais, não se realizou a partir deste desenho, ao contrário, fez parte dele a expulsão da gente que sempre viveu naquele lugar. 193 David Harvey. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 15. ed. São Paulo: Loyola, 2006. 194 Fala proferida pelo presidente da Flonibra, Coronel Dalmo Leme Pragana, em reportagem do jornal A Tarde, Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 195 Faço uso desta expressão em contraponto à afirmação feita por Pragana no sentido de que não haveria população suficiente na região para ocupar as vagas de emprego que seriam geradas. 97 A respeito desses deslocamentos, o depoimento de Roseli Constantino, na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, nos indica a sua leitura e interpretação da atividade da eucaliptocultura no ano de 2005. Em Vitória, encontrei mais de 10 pessoas da minha comunidade, em função deste êxodo: as pessoas têm saído de sua comunidade para morar nas periferias dos grandes centros. Se há realmente uma melhora, onde ela está? Por que todos os anos, nas festas tradicionais da comunidade, recebemos tantos moradores de Helvécia, do Município Nova Viçosa? Se como os expositores mostraram no quadro, é realmente bom, não era para tantos moradores do município de Nova Viçosa estarem morando em São Paulo, Salvador e em outros Estados do País.196 Este questionamento, “Se há realmente uma melhora, onde ela está?”, nos faz pensar que aquilo que foi prometido pelas firmas não atendeu ao que foi esperado pela comunidade. Foi diante desta realidade que os habitantes de Helvécia agiram. Alguns, como afirmou Roseli Constantino, saíram de Helvécia e foram construir suas vidas em outros lugares. Outros ficaram e tiveram de se organizar para continuar a viver naquele distrito. Estes habitantes, em geral, já não eram mais proprietários ou posseiros de terra e também não eram funcionários das firmas, era preciso, pois (re)inventar-se, ocupar novas posições, novos espaços nas relações sociais. Por outro lado, é importante problematizar a fala da senhora Roseli Constantino. Como afirma Ely Souza Estrela197 os deslocamentos198 das pessoas de um lugar para outro também estão associados a projetos de vida, a escolhas; assim, o ir para um novo lugar dá-se, por vezes, com o intuito de adquirir recursos, inclusive para manutenção da vida camponesa. Também a busca de novas experiências, principalmente para os jovens, na ânsia de “conhecer o mundo”, incrementa os deslocamentos. Reduzir o processo de deslocamento dos camponeses de Helvécia como se fora uma espécie de conseqüência da eucaliptocultura traduz uma explicação simplista da realidade. Este cultivo, contribuiu para o incremento dos processos de 196 Roseli Ricardo Constantino, integrante da Associação Quilombola de Helvécia, pedagoga e professora daquela comunidade. Depoimento n. 1595/05 de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – Detaq. 197 Ely Souza Estrela. Os sampauleiros : cotidiano e representações. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/USP/Fapesp/EDUC, 2003. 198 A opção pelo uso da expressão “deslocamento” está relacionada ao fato de este termo, segundo Ely Souza Estrela, estar associado à idéia do constante ir e vir das pessoas. 98 deslocamentos, mas em última instância não foi seu definidor. As pessoas não atuam na construção de suas histórias apenas reagindo, elas agem, tomam iniciativas com o objetivo de atenderem a seus próprios anseios. A respeito deste questionamento, nos contatos que estabeleci, através de telefonemas e e-mail com a Suzano Papel e Celulose, obtive um artigo intitulado “Estudo da sustentabilidade regional da produção industrial de eucalipto no Estado da Bahia”. No caso deste estudo, os autores, após apresentarem uma série de conclusões feitas por pesquisadores da universidade de São Paulo e da Federal de Viçosa, afirmam que o eucalipto não seca nem empobrece o solo, minimizando, assim, os problemas ambientais muitos vezes atribuídos a esta monocultura. Os autores desenvolvem o artigo dizendo, em linhas gerais, que os problemas com o eucalipto são inerentes a toda monocultura e que o maior desafio da eucaliptocultura na atualidade se encontra nas questões políticas e sociais.199 Nas conclusões que apresentam, afirmam, a partir de dados macroeconômicos, que no Estado da Bahia a cultura do eucalipto não é nociva, ao contrário, “[...] as cidades estão conseguindo melhoras com a presença dessa espécie vegetal”.200 Entretanto, seus autores deixam uma pista, algo que tenciona a conclusão apresentada: [...] Como se analisou indicadores macroeconômicos, pode-se estar encobrindo problemas de ordem microeconômica, tais como o êxodo gerado pela diminuição de empregos, já que se espera que toda monocultura necessite de um número menor de trabalhadores no processo produtivo e do aumento dos custos de vida da população em geral, pois estes devem consumir produtos de outras regiões em que pese os custos de logística.201 Estes problemas de ordem microeconômica, que aparecem na citação anterior como uma obviedade de toda monocultura, pelo visto não foram apresentados à comunidade de Helvécia quando da chegada das “firmas” àquele distrito; ao contrário, pelo exposto, tem-se a impressão de que disseminou-se a idéia daquele tempo, o da eucaliptocultura, como sendo um tempo de oportunidades, de 199 Jorge Emanuel Reis Cajazeiras, José Carlos Barbieri e Dirceu da Silva. Estudo da sustentabilidade regional da produção industrial de eucalipto no Estado da Bahia, p. 7 (sem ano, sem editora, enviado para mim por e-mail da Suzano). 200 Idem, p. 14. 201 Idem, p. 14. 99 geração de empregos e possibilidades de ascensão social para os integrantes da comunidade de Helvécia, principalmente para aqueles que concordassem em vender suas terras. 2.1 “PORQUE EU ME SENTI COMPRADA...” A questão da propriedade e posse da terra esteve sempre no cerne das relações entre a comunidade de Helvécia e os representantes das empresas de eucalipto. Esta afirmativa se alicerça na importância que o contato com a terra adquiria na organização das vidas das pessoas que moravam no distrito, e tinham, na construção do seu cotidiano, vínculos com o labor na roça, não só a partir do plantio de produtos voltados para sua subsistência, como também em virtude dos laços de sociabilidade, da relação com o tempo e o espaço na construção de práticas culturais e seu respectivo imaginário, conforme apresentado no primeiro capítulo. Por outro lado, a terra era de fundamental importância para que os projetos da eucaliptocultura se desenvolvessem. Para as empresas silvicultoras era necessário que grandes extensões de terras contíguas fossem transformadas em áreas exclusivas para o plantio de eucalipto. Estas diferentes maneiras de lidar com a terra deixavam ver a existência de dois diferentes desenhos daquilo que se planejava realizar no distrito de Helvécia. Mas tanto um quanto outro só poderiam ser efetivados a partir do uso da terra. A terra em Helvécia nos anos de 1970 e 1980 havia sido desvalorizada, em razão da conjunção entre a desativação da estrada de ferro Bahia e Minas e a posterior abertura da BR 101. Tais fatores contribuíram para o deslocamento do eixo econômico daquela microrregião, como nos explicou o senhor Manoel Peixoto: Então foi nesse período... que o comércio ficou fraco, muito fraco, aí depois desse período que Teixeira começou a crescer com a BR 101, Posto da Mata também, então eles foram desenvolvendo e aqui foi caindo, foi caindo e ficou mesmo fracassadíssimo mesmo. Então a terra sem valor, depois que já passamos bastante, bem no fim de oitenta a principio de noventa começou a falar em, não sei se foi a Aracruz, acho que foi a Aracruz primeiro, essas empresas aí. A Bahia Sul que hoje é Suzano, Suzano e Aracruz. Começaram a ter noticia que eles iam investir aqui na região. Então alguns fazendeiros de lá 100 da região de Aracruz202, lá do Espírito Santo, que já havia lá (o agronegócio do eucalipto) já estava implantado lá, começaram a vir para cá, começaram vir e comprar terra e aí comprava terra baratíssimo, né?203 Este relato diz da existência de uma situação que pode ser apresentada em diferentes momentos. Em primeiro lugar, os moradores de Helvécia que labutavam com a terra tinham experienciado perdas significativas no que diz respeito ao seu modus vivendi. Tais perdas se acumularam em um período relativamente longo, indo desde o momento da desativação da estrada de ferro Bahia e Minas, em 1966, se acentuando com a construção da BR 101, em 1972, e persistindo pelos anos seguintes, pois, como disse o entrevistado, “Teixeira começou a crescer com a BR 101, Posto da Mata também, então eles foram desenvolvendo e aqui foi caindo, foi caindo e ficou mesmo fracassadíssimo mesmo”. Por seu turno, fazendeiros da região de Aracruz (ES), informados da necessidade de amplas glebas para a implantação da eucaliptocultura, passaram a comprar terras em Helvécia objetivando promover a especulação, “começaram a vir para cá, começaram vir e comprar terra”. A venda de terra em Helvécia não foi feita somente para fazendeiros vindos de outros lugares, também representantes diretos das empresas responsáveis pelo agronegócio do eucalipto compraram terras. Isto ocorreu em um tempo em que os moradores de Helvécia sabiam, porque experimentavam uma depressão econômica, que suas terras estavam desvalorizadas no mercado. Deste modo, acredito que esta situação também tenha contribuído para o desfecho que se deu com o processo de venda das terras, para aqueles que não eram daquela comunidade, por um valor “baratíssimo, né?” A observação, feita anteriormente, tem o intuito de alertar para que não se faça uma leitura das atitudes dos moradores de Helvécia que efetivaram a venda de suas terras por valores, hoje entendidos como insignificantes, como se aqueles tivessem agido de maneira equivocada. Pode ter acontecido que na época da transação comercial das terras, os vendedores tenham, a partir dos dados de que dispunham e das pressões que sofriam, analisado aquela atitude como a mais acertada e propícia dentro do contexto, uma vez que surgiam oportunidades de se realizar negócio com áreas até então pouco cobiçadas. 202 203 O entrevistado referia-se à cidade de Aracruz – Espírito Santo. Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 101 Outra entrevistada, ao se referir ao processo de venda das terras no distrito, deixou ver também a atuação de atravessadores que, diferente da situação apresentada pelo senhor Manoel Peixoto, moravam na comunidade, conheciam as pessoas daquele local, sabiam da situação de crise que os mesmos experienciavam, tinham, pois, de alguma forma laços de sociabilidade com os prováveis vendedores das terras, e viram na associação às empresas de eucalipto a possibilidade de obter lucros: “[...] a gente não sabia que ele era um cara trançado. Já, vamos supor que trabalhava para a firma procurando e sempre que dizer que tirando um pouquinho para o lado dele, né?204” Os registros da existência da figura do intermediário, fosse ele integrante da comunidade ou não, apareceu também na fala do coronel Dalmo Pragana ao se referir ainda aos primórdios da implantação da eucaliptocultura na região do Extremo Sul baiano. Naquela oportunidade, ele se apressou em isentar a empresa, na época denominada Flonibra, de qualquer tipo de vínculo ou responsabilidade com este personagem, chegando mesmo a sugerir que os proprietários de terra, para evitar a ação dos ditos intermediários, procurassem o escritório da empresa para efetuar, diretamente, a venda.205 Esses dados sugerem a necessidade de uma análise de outros elementos que compuseram o cenário daquelas transações comerciais, para que se possa entender o significado das vendas de glebas pelos integrantes da comunidade de Helvécia às empresas de eucalipto ou seus intermediários. Posto que, pelo apresentado até o momento, não pareça que tenha ocorrido uma simples operação de compra e venda alicerçada na real autonomia dos indivíduos que atuaram nos anos finais da década de 1980. O êxito daquelas empresas estava intrinsecamente relacionado à necessidade de terras para o plantio. A respeito desta necessidade, desde os primórdios da eucaliptocultura no Brasil, o governo já havia sinalizado claramente qual seria sua postura, com o intuito de garantir “grandes áreas de terras contínuas que pudessem ser adquiridas para a implantação de distritos florestais”.206 Segundo informação apresentada por Andrade, já no I Plano Nacional de Papel e Celulose (PNPC) esta questão foi abordada da seguinte maneira: “(...) a etapa de obtenção 204 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. Jornal A Tarde, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 206 José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999), op. cit., p. 92-93. 205 102 de terras é tão essencial ao êxito do projeto que o Governo deverá concentrar nela todos os esforços, utilizando meios objetivos e realistas, inclusive desapropriação...”207 Este não foi o caso em Helvécia, uma vez que não haja registro de desapropriação de terra. Entretanto, outros mecanismos foram utilizados para aligeirar o processo de venda das glebas de maneira a garantir às empresas grandes áreas de terras contínuas. Ora, se levarmos em consideração que muitos dos homens e mulheres de Helvécia tinham sobre seu domínio pequenas e médias áreas, isso significa dizer que, para que se desse, por parte das empresas de eucalipto, a obtenção de terras contínuas, foi necessário que o processo de venda fosse realizado não por um, ou outro camponês, mas sim pela sua coletividade. Assim, os mecanismos utilizados para convencer diferentes indivíduos constituíam um repertório variado, que oscilava desde propostas aparentemente generosas, para aqueles poucos camponeses que possuíam as escrituras das terras, até a divulgação incisiva dos códigos legais do Brasil que associam a garantia da propriedade das terras à aquisição de titulação. A este respeito, o senhor Manoel Peixoto, dando prosseguimento a sua narrativa, apresentou o seguinte relato: Comprava terra quase dado, trocava terra por mercadoria, por qualquer tipo de mercadoria, chegava aí, ficava aí para dentro, comprava terra baratíssimo, umas pessoas que tinha dinheiro que pegava a região aqui, comprou muita terra. Então, é como eu falei, aí eles compraram terra barato, chegava em pessoas aí, que as terras aqui eram apenas terras de herdeiros, tudo mais, então naquele tempo dificilmente uma terra aqui tinha escrituras, essas coisas...208 Há nesta narrativa uma clara associação entre a esporádica existência do porte de escrituras das terras, pelos camponeses de Helvécia, e o fato de elas terem sido vendidas por preços baixos ou mesmo terem sido trocadas por mercadoria, “por qualquer tipo de mercadoria”. Por sua vez, a senhora Regina Constantino, ao falar sobre essas transações de troca de terras por mercadorias diversas, disse do valor 207 Maurício Otávio Mendonça Jorge apud José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999), op. cit., p. 93. 208 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. 103 simbólico que alguns objetos passaram a ter para integrantes da comunidade de Helvécia: [...] então as pessoas viviam de uma certa forma bem, que pelo menos uma alimentação boa eles tinham e o que sobrava, meu avô falava que eles iam vender lá em Teixeira ou então em Mucuri, no jegue mesmo. Andava dias e dias vendendo isso, né? Levava o dia todo até chegar em Teixeira e Mucuri para vender as coisas que eles plantavam, então assim, eram felizes, né? Eram felizes que faziam o que gostavam de fazer e eram felizes. Aí as pessoas assim, nessa de levar as coisas para Mucuri e para Teixeira, acho que começaram a sentir falta, né? Teixeira tem isso e Helvécia não tem, Mucuri tem isso, Helvécia não tem e aí essas empresas já estavam lá, já estava começando a chegar na região, via uma bicicleta, uma geladeira e não tinha condições de comprar porque eles plantavam era só para manter a alimentação adequada deles lá e comprar as veste, nem estudava direito, só fazia até a quarta série, aqui não tinha escola, era o Mobral..., a filha de um vereador que dava aula nas casas para as pessoas. As pessoas estudavam naquela época em Helvécia assim, e aí as pessoas começaram a sair, viajar um pouquinho. “Ah! Eu não tenho uma geladeira, eu não tenho uma bicicleta.” Então quando as empresas chegaram para cá para Helvécia muitas terras foram trocadas por geladeira, por bicicletas. O meu avô, é... um mês atrás eu fui lá no Rio do Sul, o meu avô me mostrou, “Essa terra toda era do finado Antônio e trocou por uma bicicleta”. Uma bicicleta ele trocou a terra, como ele tinha muita, achava que tinha muita, veio o pessoal da Aracruz e hoje as terras é da Aracruz, ele vendeu para um outro senhor, né? Que trocou por uma bicicleta com ele, depois de mão em mão já estava na mão das empresas.209 A despeito daquilo que podemos pensar a cerca do valor monetário de uma bicicleta ou de uma geladeira, ao que parece, segundo o relato da senhora Regina, estes objetos foram identificados por alguns dos camponeses de Helvécia como sendo algo valioso e desejado, possivelmente em razão dos contatos com o universo de cidades imaginadas como desenvolvidas e modernas, como Teixeira de Freitas e Mucuri. Para obtê-los, valia, inclusive, abrir mão de um pedaço de terra, pois “achava que tinha muita”210. A respeito da falta de escrituras das terras, já em 1976, o presidente da Flonibra ao falar das dificuldades para a implantação do projeto, na região do Extremo Sul baiano, fez referência à existência de um problema no processo de compra de terras. Segundo Pragana, esta situação decorria da constante não legalização das terras por parte de quem queria vender. Com o intuito de resolver este problema, qual seja o de possibilitar àqueles que tinham glebas de terra não 209 210 Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago 2007. 104 registradas a condição de vendê-las, a Flonibra se dispusera a assumir o ônus da titulação e pagar o mesmo preço, tanto ao proprietário legalizado quanto ao posseiro.211 Possivelmente, tal oferta foi utilizada como argumento para fazer com que os proprietários de áreas consideradas não legalizadas fossem convencidos a negociar suas glebas com a Flonibra, empresa capaz de assumir os custos deste tipo de transação comercial. Esta situação se fazia realidade em Helvécia quando da chegada da Aracruz e da Bahia Sul, atual Suzano, “que as terras aqui eram apenas terras de herdeiros, tudo mais, então naquele tempo dificilmente uma terra aqui tinha escrituras, essas coisas...” Ocorre que eram nessas terras de herdeiros, sem escrituras, que as pessoas de Helvécia organizavam suas vidas, e diferente daquilo que Pragana apresentava como solução para o problema, talvez, vender as terras pudesse, para aqueles camponeses, vir a se constituir, no futuro próximo, um novo problema. Enquanto as terras do distrito de Helvécia não ocupavam uma posição estratégica para o agronegócio, a organização das pessoas nas relações com suas glebas se alicerçava, supõe-se, desde a abolição da escravatura, no direito pautado no costume, “que as terras aqui eram apenas terras de herdeiros”. Entretanto, tal configuração foi alterada a partir do momento em que o agronegócio do eucalipto passou a exigir, para a sua implantação naquele distrito, terras, muitas terras. Tal situação engendrou um aparato de ações desenvolvidas com o intuito de garantir às empresas acesso àquelas terras. No primeiro item desenvolvido, neste capítulo, vimos que houve uma espécie de consenso entre os poderes nacionais, regionais e locais instituídos, no sentido de atender aos interesses dos grupos que representavam o agronegócio do eucalipto. Este tipo de atitude se concretizava com a aplicação do modelo de políticas e práticas de organização do território nacional pautadas nos interesses e necessidades da grande produção, no sentido de atender aos anseios do mercado externo. Contudo, ao que parece, a organização de comunidades e famílias camponesas que anteriormente lavravam a própria terra ou trabalhavam em propriedades alheias no cultivo de pequenas lavouras foi desconsiderada e desta maneira violentada por aquele modelo. Não se trata aqui de mitificar o passado e a 211 Jornal A Tarde, Produção de celulose vai ter um bilhão de dólares, 26 de fevereiro de 1976. Arquivo do jornal A Tarde, Salvador, Bahia. 105 vida no campo, pois como nos alerta Raymond Williams,212 é preciso lembrar sempre que os ”bons tempos de antigamente” quando estudados também apresentam suas dificuldades e relações de exploração. Cabe também recordar Pierre Bourdieu quando ele alerta que “a força do costume jamais anula completamente o arbitrário da força”. 213 Diferente daquilo que se poderia supor, em razão da já sabida incidência de conflitos violentos na luta pela propriedade da terra no Brasil, Maria Aparecida de Moraes Silva214 chama a atenção para o fato de que este processo, descrito no parágrafo anterior, também ocorria através daquilo que ela denominou violência escondida e legal, em que o Estado, detentor do monopólio da elaboração e promulgação das leis, as fazia em defesa de projetos de modernização que implicavam a expropriação de terras e destruição de parte do campesinato brasileiro. No instante em que os posseiros do distrito de Helvécia começaram a perceber que as terras estavam se valorizando, deram-se conta também de que não possuíam os registros das mesmas. Como afirmou o senhor Manoel Peixoto, muitas delas “fruto de heranças”. Regulamentar tais posses implicava gastos e para isso era necessário ter recursos. Ora, muitos desses posseiros se viram em uma situação na qual, não tendo dinheiro para regulamentar suas posses, sentiam-se ameaçados de perder as terras, pois, na Lei, a terra tinha de ser documentada. A partir das falas dos moradores de Helvécia, no período em questão, percebe-se que ali estava se constituindo uma situação na qual “O medo de ficar sem as terras fez com que os camponeses as “vendessem”, a qualquer preço [...]“,215 na verdade, “baratíssimo”, como disse o senhor Manoel Peixoto. Esta configuração legal não foi feita de forma a deixar ver sua parcialidade. O fato é que tal legislação acabava por atender e legitimar os interesses dominantes, posto que para as empresas e fazendeiros o custo com a regulamentação da propriedade era viável. Ao contrário, as leis davam a entender que eram imparciais e, por isso mesmo, dignas de serem proclamadas legítimas. Sua eficácia, no sentido de atender aos interesses dominantes, por vezes residia, paradoxalmente, na sua capacidade de parecer não defendê-los. Neste sentido, Thompson nos alerta: 212 Raymond Williams. O campo e a cidade – na história e na literatura, op. cit. Pierre Bourdieu. Meditações Pascalinas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p. 115. 214 Maria Aparecida de Moraes Silva. Errantes do fim do século. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1999. 215 Idem, p. 46. 213 106 Se a lei é manifestamente parcial e injusta, não vai mascarar nada, legitimar nada, contribuir em nada para a hegemonia de classe alguma. A condição prévia essencial para a eficácia da lei, em sua função ideológica, é a de que mostre uma independência frente a manipulações flagrantes e pareça ser justa.216 Dentro desta lógica da legitimidade, os defensores da eucaliptocultura afirmaram que o processo de aquisição das terras no distrito de Helvécia pelas empresas de eucalipto se deu dentro das normas do mercado capitalista, expressas nas leis de apropriação de terras no Brasil, através das quais os interessados na compra das pequenas propriedades fizeram ofertas e seus donos aceitaram vendêlas. Os aspectos tratados anteriormente podem ser associados a partir de um olhar capaz de evidenciar distâncias implícitas e não tornadas claras entre as partes. Trata-se de dois pólos em negociação. De um lado estão os habitantes de Helvécia com todo o seu intricado universo material e simbólico. De outro lado, estão os interessados nas terras daquela micro-região para o sucesso do agronegócio. Apesar das paridades formais das duas partes em jogo, quando revelados seus elementos simbólicos ficam evidentes as desproporções que poderia ser traduzida pela força do empreendimento econômico sobre a precariedade vigente na comunidade. Tal desequilíbrio é, facilmente, manifestado enquanto disputa de natureza simbólica, dotando-se o confronto de propriedades objetivamente válidas e até legais, porém baseados em uma violência simbólica expressa pela distribuição desigual dos códigos que, formalmente, permitem o equilíbrio entre as partes, porém exigem dos participantes um preparo prévio, caso contrário [...] amplia a imposição de uma fronteira entre os que estão preparados para entrar no jogo e os que, quando nele se acham lançados, permanecem de fato excluídos, por não poderem operar a conversão de todo espaço mental [...] que supõe a entrada neste 217 espaço social. Ainda mais quando se leva em conta a forma como foram construídos os acordos ou as trocas econômicas nas quais as partes atuaram como se houvesse equiparação entre os produtos intercambiados. Prevaleceu então, a crença por parte 216 Edward P. Thompson. Senhores & caçadores: a origem da lei negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 354. 217 Pierre Bourdieu. O poder simbólico. 4 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.225. 107 daquele que negociava a sua propriedade agrícola sobre a referida justeza da negociação. Entretanto, as ferramentas acionadas para se chegar as conclusões quanto ao valor foram aquelas disponíveis pelos referenciais locais, ou seja, a terra não valia nada e a vida representada por Teixeira de Freitas e Mucuri exigia a posse de objetos, como por exemplo uma bicicleta, como fator de inclusão no mundo que estava à margem da BR101. Percebe-se, nesse caso, o emprego de mecanismos de persuasão por parte das empresas de eucalipto, a partir dos valores correntes do universo de Helvécia e com isto se evidencia o uso do poder simbólico, que segundo Bourdieu “só se exerce com a colaboração dos que lhe estão sujeitos porque contribuem para construí-lo como tal.”218 Entretanto, Essa cumplicidade não é concedida por um ato consciente e deliberado, ela própria é o efeito de um poder, que se inscreve duravelmente no corpo dos dominados. 219 Todas as operações anteriormente descritas se constituem em violência simbólica enquanto modo de dominação que impõe ao outro, comportamentos regidos por mecanismos de coação dificilmente reveláveis. Os dados a seguir, a respeito da região do Extremo Sul baiano, apresentados no resumo público de certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. tratam da perspectiva dos que compraram aquelas terras. Com a falta de celulose no mercado e incentivos governamentais, tais como financiamentos do BNDES e a isenção de ICMS sobre exportações, a região passou a atrair ainda maiores interesses ao reflorestamento econômico. O desenvolvimento dessa atividade propiciou um avanço dos reflorestamentos em áreas antes utilizadas pela pecuária (principalmente) e pela agricultura. Ao contrário dos exploradores de madeiras nobres do período de 50 a meados da década de 70, as empresas de reflorestamentos adquiriam as terras de que necessitavam para os seus plantios do eucalipto. O desgaste das terras pelo modelo de pecuária adotado (extensivo, baixa lotação, com queimas periódicas e esgotamento das terras), a baixa produtividade dos cultivos agrícolas, e a falta de políticas públicas de apoio à agricultura, além dos preços atrativos pagos pelas empresas reflorestadoras e grandes pecuaristas, promoveram 218 219 Pierre Bourdieu. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.207. Ibidem. 108 a venda de terras por parte de pequenos e médios produtores e o êxodo rural220 (grifo da autora). Alguns dos elementos explícitos neste documento já foram analisados anteriormente. Eles voltaram a ser aqui apresentados com o intuito de demonstrar o uso feito pela própria empresa Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. do apoio dado pelo governo para, em certa medida, justificar a razão do seu crescimento em detrimento de outras atividades na região do Extremo Sul baiano. De certa forma, ele sintetiza a importância da existência de incentivos governamentais para que esta região tivesse sido transformada em área de atração para o “reflorestamento econômico”, maneira esta utilizada, no referido documento, para fazer menção à plantação do eucalipto. Por outro lado, esta fonte também revela que a empresa Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. adquiriu, a partir do mecanismo de compra, as terras necessárias para o desenvolvimento de suas atividades. Nas entrelinhas, as informações foram apresentadas de tal modo a deixar implícita a idéia de que nas terras compradas pela empresa haveria o predomínio da pecuária, o que poderia indicar a presença não de camponeses, mas sim de proprietários de terra de médio e grande porte. Saliento que tais informações dizem respeito à região do Extremo Sul baiano como um todo. Ocorre que aqui nesta pesquisa, a discussão refere-se ao distrito de Helvécia, o que implica a necessidade de cruzamento de fontes para que se possa fazer uma aproximação daquilo que se desenhara como a realidade daquela comunidade. Mesmo levando-se em consideração a hipótese de que ali houvesse a existência de grandes proprietários de terra voltados à atividade da pecuária, esta não era, como já foi possível perceber pelas entrevistas apresentadas até o presente momento, a estrutura fundiária predominante naquele lugar. Resta ainda analisar a informação de que as terras adquiridas pela Suzano apresentavam uma “baixa produtividade dos cultivos agrícolas, e a falta de políticas públicas de apoio à agricultura...” Novamente tem-se uma construção de forma subliminar nesta informação. Refiro-me à idéia que a mesma traz em seu bojo de que aquelas terras estariam sendo usadas de forma inadequadas e/ou ineficazes. Além disso, a atividade agrícola estaria fadada ao fracasso, posto que não contasse, como era o caso do “reflorestamento econômico”, com apoio que, como expresso, 220 Resumo público de certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A., unidade de Mucuri, p. 14 (grifo da autora). 109 recebia “incentivos governamentais, tais como financiamentos do Bndes e a isenção de ICMS sobre exportações”. Ora, teria sido então a somatória destes elementos, acrescida dos “preços atrativos pagos pelas empresas reflorestadoras e grandes pecuaristas” que “promoveram a venda de terras por parte de pequenos e médios produtores”, contribuindo para que se engendrassem deslocamentos. Por fim, é revelador o fato de a empresa reconhecer o movimento provocado por tais aquisições de terra, “o êxodo rural”. Em outras palavras, não havia espaço para a coexistência dos modelos agrícolas pautados pela experiência camponesa e pela política da indústria agroexportadora de papel e celulose. Partindo-se da premissa que alicerçava este olhar da Suzano Celulose, sobre a realidade, a terra havia sido transformada em mercadoria. Os indivíduos que venderam as terras foram contabilizados como fornecedores. Não importando aos compradores o significado que, para aquelas pessoas, o viver naquelas glebas adquirira, posto que, para além da “baixa produtividade dos cultivos agrícolas”, lhes eram preciosas, significativas, como foi visto no item Tempo da fartura “Ah, mais aqui era muito bom” desta dissertação. Por seu turno, integrantes da comunidade de Helvécia, ao construírem suas memórias acerca do processo de venda das terras, apresentam um texto que indica uma leitura diferente desta que consta no resumo público de certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A.: Então, é como eu falei, aí eles compraram terra barato, chegava em pessoas aí que as terras aqui eram apenas terras de herdeiros, tudo mais, então naquele tempo dificilmente uma terra aqui tinha escrituras, essas coisas, então o cara também ia vender uma terra para ele o proprietário era, ele dizia ter por exemplo, um exemplo que eu estou dando, vinte alqueires, vinte alqueires, alqueirinho que nós falamos aqui, mas ele chegavam lá para comprar e dizia: não só essa terra beneficiada aqui que você pode vender, são cinco alqueires o resto não, não é? Não tem cultura, não tem... ninguém está cultivando nada, não tem beneficio nenhum, então aquilo ali praticamente eles não pagavam. É, mas media para eles, né? Não pagava, mais ficava para eles. Então, muita gente que veio de fora, principalmente uns dois ou três fazendeiros daqui, adquiriram uma área grande mesmo de três mil alqueires e tudo mais, quatro, desse jeito, muito barato. E aí é que começou a aparecer o plantio de eucalipto, né? Então, eles começaram a plantar eucalipto e foram 110 devagarzinho aumentando, todo mundo foi aumentando o plantio de eucalipto.221 Alguns dados constituintes desta narrativa de alguma maneira dizem do processo de compra das terras a partir de mecanismos de pressão. Um deles, a inexistência da posse de escrituras por parte dos camponeses, foi utilizado como instrumento de força por parte daqueles que tinham interesse em adquirir a mercadoria terra. Ao que parece não se tratava de uma simples negociação, mas sim de uma maneira de apropriação das mesmas a partir de recursos os mais variados, senão vejamos. Mesmo que não tenha havido em Helvécia, como foi dito anteriormente, desapropriação de terras por parte do governo federal, o conhecimento da existência desta possibilidade muito provavelmente foi insinuado por aqueles que queriam comprar terras. Somava-se, a esta ameaça velada, o fato de muitos dos pequenos posseiros se sentirem sem condições de agir em conformidade com o aparato legal, que dizia respeito à comprovação, por meio de escrituras, da propriedade de suas terras. Sob este aspecto, Maria Aparecida de Moraes Silva em seus estudos a respeito dos projetos de colonização e desenvolvimento rural do Estado de Minas Gerais, afirma que a passagem de posse para propriedade deveria ocorrer através da regularização segundo as leis fundiárias, mediante pagamento de taxas, o que na prática, para muitos dos camponeses posseiros, implicava a inviabilidade de legitimação de suas terras.222 Desta maneira, o direito formal, positivo, ao transformar a terra em mercadoria, agia com o intuito de mascarar o fato de que os posseiros operavam em uma relação com a terra pautada pelo valor de uso. Verifica-se processo semelhante ao descrito em Helvécia. Para muitos daqueles camponeses, a terra era um meio de sobrevivência, e era a partir do trabalho coletivo, familiar que ela oferecia seus frutos223 e alimentava aquela comunidade. Por esta razão, Martins afirma que “[...] uma preocupação com a 221 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Peixoto em 14 ago. 2007. Maria Aparecida de Moraes Silva. Errantes do fim do século, op. cit., p. 46. 223 José de Souza Martins. Os camponeses e a política no Brasil – As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. 222 111 propriedade da terra é, também, necessariamente, preocupação com o principal instrumento de trabalho que há no campo”.224 Neste sentido, gostaria de analisar uma narrativa composta por um camponês que apresentou um novo dado ao descrever como ocorreu o processo de compra das terras em Helvécia. Refiro-me à informação dada pelo senhor Sérvulo Constantino Filho, de que muitas pessoas venderam suas terras porque foram “levadas no papo”. Ele, quando indagado por mim, explicou assim a situação: Levar no papo é... Que as pessoas tinha a terra, chegava lá fazendo conversa bonita, como que pra eles mesmo ali falaram (ao falar gesticulava apontando com a mão em direção a outras pessoas que participavam da entrevista), que vinham comprar as terras, mas não ia tirar eles da terra, que eles iam ficar na mesma terra onde estava, entendeu?225 Diante da ameaça de perder as terras, visto que muitas não eram tituladas, a possibilidade de vendê-las, acreditando nas promessas das empresas de que poderiam permanecer nelas, pareceu uma boa alternativa. Tais propostas, ainda segundo o entrevistado, foram feitas a partir de códigos comuns aos negócios realizados pelos camponeses de Helvécia. Desta forma, esta combinação não constava em documento escrito, tendo sido empenhada a partir da palavra dos contratantes. O narrador, senhor Sérvulo, assim nos contou o desenrolar da história: Aí que aconteceu. Depois que as empresas passaram a mão nas terras todas, aí foi empurrando, cada um saindo fora. “Agora vocês vão desocupar porque de hoje em diante a terra é minha e tal.” Aí mudou de idéia, né? É a mesma coisa, tem horas que eu vejo uma proposta comigo já de alguma coisa e nós leva na confiança, sem fazer nada, nenhum documento, né? Quando chega depois, fala: “Ah, não! Não falei nada não, nunca nós foi combinado assim.” Já passou isso para mim também, então é isso que a gente tem experiência, que hoje se você não fizer as coisas tudo no papel, lá no cartório, não adianta fazer nada de boca que hoje ninguém cumpre, mas antigamente... Eu mesmo, com algum colega, nós fazia coisa assim conversando, e era negócio, estava registrado mesmo, não tinha esse negócio de voltar para trás. Aqui está errado não, aqui está tudo certo. Era desse jeito.226 224 Idem, p. 138. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. 226 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007 (grifo da autora). 225 112 Foi a partir das experiências que aquelas pessoas tinham nos seus acordos e negócios cotidianos que elas se relacionaram com os estranhos recém-chegados. Estes traziam consigo novos códigos, novas regras de conduta social,227 em que valia o que estava escrito e registrado em cartório. Essa composição, venda de terras e permanência dos antigos posseiros nas mesmas era algo impossível de atender a uma das necessidades prementes ao desenvolvimento do agronegócio no Extremo Sul da Bahia. Refiro-me à necessidade da separação entre o trabalhador e os meios de produção,228 condição para a relação capitalista se constituir plenamente. Uma das condições primeiras para o estabelecimento da atividade relacionada à eucaliptocultura, em Helvécia, consistia exatamente em comprar as terras dos camponeses da região, transformando-os em trabalhadores com necessidade e possibilidade de vender sua mão-de-obra para as empresas. Essa transformação espacial contribuiu também para que ocorresse a criação de novas necessidades para aquela comunidade, estabelecendo-se inclusive uma dependência entre antigos camponeses e os representantes do capital. Tal fato nos revela a dependência que se alicerçava na relação social que ora se apresentava, em que não tendo mais a propriedade da terra e dos instrumentos para realizar seu labor, restava aos camponeses negociar seu trabalho como possibilidade de troca por salário.229 Em Helvécia, os camponeses, ao venderem suas terras, perderam, em grande medida, sua condição autônoma. Agora, para garantir a sobrevivência, teriam que vender sua mão-de-obra aos representantes do agronegócio. Como esta situação foi sentida pelas pessoas daquela comunidade? Eu sinto aquela saudade, vontade de trabalhar naquela terra, eu vejo as plantas que eu fazia, como era bonito, você chegava na roça e você parava assim para olhar. E hoje se eu querer uma mandioca mansa eu tenho que comprar, então acabou aquela liberdade de eu lutar na terra pura. Acabou.230 227 José de Souza Martins. A chegada do estranho. São Paulo: HUCITEC, 1991. José de Souza Martins. Os camponeses e a política no Brasil – As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político, op. cit., p. 158. 229 Idem. 230 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 228 113 Além de falar de suas saudades, a entrevistada nos oferece o significado de ficar sem a terra para ela, que acredito pode ser traduzido como falta de autonomia e mudança na forma de produzir, de adquirir o alimento. Trabalhar na terra estava associado à idéia de liberdade. No decorrer da entrevista, quando perguntada sobre a sensação após a venda da terra para as empresas de eucalipto e as expectativas em relação aos benefícios das empresas para a comunidade, Faustina Zacarias relatou: Não era nada disso que a gente pensava, tipo que agente foi assim, comprado, hoje eu me sinto, se eu tivesse com a minha terra hoje, eu não venderia e nem deixava o meu irmão ao lado vender também, porque eu me senti comprada, não a terra, nós todos e era muita terra, até chegou ficar organizada nossa terra já estava bem pequena, mas não era pouca não.231 Quando a entrevistada nos disse que não foi a terra que foi comprada, mas sim ela própria, talvez estivesse nos dizendo exatamente aquilo que Martins nos convidou a pensar na obra Os camponeses e a política no Brasil – As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. A liberdade de ser dessa narradora estava intrinsecamente relacionada ao fato de ela ter o domínio sobre uma gleba, o que na prática significava que a mesma era capaz de, fazendo uso de sua força de trabalho, gerar os produtos necessários à sua sobrevivência, à sua vida. Ao passar à condição de não mais possuir terras, mesmo que isto tenha ocorrido a partir de transações comerciais de compra e venda legitimadas pelo campo jurídico, Faustina Zacarias expõe a dor da perda que não se restringe ao bem material, mas sim a todo um conjunto de práticas associadas à lida com o campo. A narradora, por fim, reforça sua indignação atribuindo a toda uma coletividade o seu sentimento, uma vez que agora não lhes resta muitas opções, a não ser vender-se enquanto mão-deobra, talvez por isso a enfática afirmação “eu me senti comprada, não a terra, nós todos”. Outra possibilidade, considerando o contexto no qual o distrito de Helvécia está inserido, seria uma releitura de outros tempos. Neste sentido, fiquei me indagando a respeito do significado que teria para alguém construir uma narrativa em que afirma ter se sentido comprada? Afinal, essa parece ser uma construção 231 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007 (grifo da autora). 114 paradoxal, ao menos naquilo que tange às possibilidades temporais, posto que Faustina Zacarias, no momento da entrevista, tivesse somente 53 anos de idade, não tendo, pois, experimentado o tempo da escravidão. Entretanto, aquele tempo se fazia presente na memória dos moradores de Helvécia e talvez, por este motivo, frente a uma situação de perda, Faustina Zacarias tenha recorrido a este tipo de paralelo para falar da sensação de ter sido lograda, perdido a liberdade. Relacionando a eucaliptocultura ao tempo do cativeiro. Cabe registrar e ressaltar que nem todos os camponeses agiram segundo o script das empresas. Por exemplo, o senhor Manoel Norberto se recusou a vender sua pequena gleba: “Minha mãe eu não vendo, quando ela não dá uma coisa, ela dá outra. Vocês gostam de dinheiro, eu gosto da minha mãe. Ela não acaba. Todo o tempo ela é a mesma.”232 Mais uma vez vemos aqui a idéia de afetividade em relação à terra. Há nesta construção uma clara associação entre a idéia de mãe com a idéia de terra, mas para além desta obviedade, o narrador nos deixou ver que a sua relação com a terra pressupõe a crença na existência infinita da mesma. Em consonância com Martins quando este afirma: A terra também é distinta do capital, dos outros instrumentos e objetos de trabalho, e da força de trabalho, porque ela, tratada corretamente, não se desgasta, não desaparece. [...] Como a terra não tem valor, não é produzida pelo trabalho nem pode ser reproduzida, não se transfere para os frutos que dela são extraídos. Mil anos depois poderemos encontrá-la produzindo.233 . Certamente por isso, o senhor Norberto não vendeu sua terra, hoje cercada pelas empresas de eucaliptos ou por aqueles proprietários rurais que aderiram à prática do fomento. 232 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. José de Souza Martins. Os camponeses e a política no Brasil – As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político, op. cit., p. 166. 233 115 2.2 “DESMANTELAMENTOS...” Em um determinado momento da entrevista com a senhora Faustina, indaguei a respeito da produção agrícola em Helvécia após a implantação da eucaliptocultura. Em sua resposta diferentes tempos foram trançados para falar dessa produção: Muito pouco, que as vezes você para comprar um quilo de quiabo você tem que procurar muito onde você vai encontrar. Não está tendo mais, a abóbora a gente sai daqui para ir comprar em Posto da Mata. Cadê a nossa abóbora nós tirava da nossa terra? Mandioca mansa praticamente a mesma coisa, cadê? Uma coisa que você plantou um pedacinho de manaíba, com oito meses, ano, você está tirando cada raiz de mandioca, você não tem onde plantar mais, [...] as vezes você leva quase ano sem comer uma espiga de milho, uma coisa que você comia de vez em quando, que você mesmo tirava, mais saboroso, não tem nada de química, nem nada. Tomate, quem querer comer tem que comprar fora, muito difícil porque não tem onde plantar [...] Onde nós tirava e jogava. Não era vendido também não, se eu queria um quiabo, eu ia na sua casa, você pegava uma bacia de quiabo – Toma. É abóbora e tudo não usava estar vendendo não. Hoje para você comer, você tem que comprar, tem que comprar um quilo, dois, quantos você quiser, e se achar, porque as vezes não acha não.234 Essa é uma fala rica de possibilidades de análises. Nela se explicitou que o problema da falta de produtos agrícolas em Helvécia está diretamente ligado à questão da posse da terra, afinal era da “nossa terra” que se “tirava” mandioca, milho, tomate, abóbora. Mas agora “não tem onde plantar” o que implica dizer que as terras que antes eram ocupadas pela lavoura de subsistência não constituem mais espaço para tais cultivos. Podemos ver, também, nesta fala que tal situação acabou por contribuir para uma série de mudanças no jeito de ser daquelas pessoas, pois como a entrevistada nos disse a fartura da produção trazia consigo uma prática de troca pura e simples do produto da safra, visto que “não usava estar vendendo não”. Ora, essas pessoas que foram criadas desta maneira e assim criaram seus filhos elaboraram uma série de práticas a partir de premissas que hoje não mais se sustentam na sua vida cotidiana. Desta forma, dona Faustina, ao nos dizer, com certa estranheza, que quem quisesse comer quiabo agora tinha de comprar, talvez estivesse nos chamando a pensar que ali existia outra maneira de organização 234 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 116 produtiva e de práticas culturais, e estas não foram respeitadas por aqueles que ali chegaram para implantar o agronegócio do eucalipto. A existência de relações de troca foi vista pelas empresas produtoras de eucalipto como prova do atraso em que vivia aquela comunidade. Isto consistiria em mais uma razão para a introdução de novos formatos de investimentos portados, à época, pelas firmas. Sobre a desvalorização dada à agricultura de subsistência, é ilustrativo do contexto sociopolítico e econômico da época o trecho da matéria “Agricultura brasileira II – Pesquisa, tecnologia e os desafios”, do Caderno Econômico do jornal A Tarde, 6 de janeiro de 1980, no qual o cientista Paulo de Tarso Alvim afirmou: Primeiramente, é preciso enfatizar que a colonização de novas áreas deve ser feita com o firme propósito de contribuir efetivamente para melhorar as condições de vida de nossa população rural. Se é este de fato o nosso propósito, então não nos deve interessar uma colonização que visa meramente ampliar as fronteiras da agricultura de baixa renda ou de subsistência. Cremos que todos os economistas reconhecem que não se pode promover desenvolvimento à custa desse tipo de agricultura. Poderemos mesmo ironicamente afirmar que a única vantagem aparente da agricultura de baixa renda é a de esconder a nossa pobreza no interior do país ao invés de mantê-la exposta nas favelas de nossas cidades.235 No desenrolar da matéria, o senhor Alvim apresentou as seguintes sugestões para que houvesse o desenvolvimento das condições de vida da população rural, a saber: criação de pólos agroindustriais de crescimento, produção preferencialmente voltada para o mercado externo e o implemento de medidas governamentais que oferecessem vantagens às empresas integrantes dos pólos agroindustriais. Teria se dado, então, no contato entre o modo de viver da comunidade de Helvécia e os representantes do projeto do agronegócio do eucalipto, um olhar estigmatizador, a partir do qual toda a vida comunitária foi percebida como atrasada, desprovida de riquezas e de valores dignificantes. Portanto, aquele seria um espaço a ser tratado como alvo de uma espécie de saneamento, tendo em vista as perspectivas de avanços e progressos que se vislumbravam naquelas terras antes usadas para uma produção de subsistência. 235 Jornal A Tarde de 6 de janeiro de 1980, Caderno Econômico, “Agricultura brasileira II – Pesquisa, tecnologia e os desafios” p. 8. Arquivo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. 117 É oportuno associar essa dimensão à idéia das máquinas, que foram, anteriormente, indicadas por Faustina como aquela que vai substituir a mão-de-obra local: E aí quando pensou que não, foi trazendo as máquinas, foi dispensando o pessoal, e aí? Tem máquina que enquanto mil pessoas faz o serviço de um dia, a máquina faz sozinha, com um homem só manobrando ela. E foi desempregando todo mundo [...]236 Metaforicamente esse maquinário teria suprimido práticas sociais, valores, hábitos, regras próprias àquele microambiente. Em nenhum momento estou aqui sugerindo que antes da implantação da eucaliptocultura na comunidade de Helvécia não se registrasse vínculos com redes comerciais. Esta afirmação seria despropositada e não condizente com a realidade daquele lugar que desde a sua fundação, nos tempos da Colônia Leopoldina, experimentara a prática comercial, tendo inclusive se destacado como centro produtor de café da Bahia no século XIX. Helvécia, como vimos no primeiro capítulo, estava integrada aos mercados regionais e nacionais. Também é importante recordar que após a desativação da ferrovia Bahia e Minas verificou-se uma depressão econômica que contribuiu para a adoção de práticas baseadas no cultivo de subsistência. Estes processos não podem ser interpretados apenas em suas dimensões econômicas, certamente houve adaptações socioculturais relevantes. Em relação a este período vale observar a existência, concomitante ao uso do dinheiro como moeda de troca, de uma prática comum de permuta de mercadoria in natura que se dava de forma a evidenciar os laços de solidariedade, reciprocidade e parentesco entre as pessoas que ali viviam, posto que se depreenda das falas dos entrevistados que as trocas, “de quiabo por abóbora”, ocorressem entre vizinhos, amigos, parentes. Revela-se ainda que estes intercâmbios não se limitassem à dinâmica dos meros objetos, ao contrário, circulavam também as trocas de notícias, de receitas culinárias, dos “mexericos”, dos ensinamentos de orações, das lembranças a respeito daqueles que não mais viviam na comunidade, enfim, eram ocasiões ricas no que se refere à sociabilidade. 236 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 118 Outro dado que pode contribuir para que se entenda as relações existentes naquela comunidade diz respeito aos arranjos feitos por seus habitantes no sentido de orquestrar, em seu cotidiano, ações que dessem conta de dialogar com as necessidades que lhes eram apresentadas. Oh minha filha. Nem toda vez vendia as coisas, foi logo no início que abriu essa estrada, essa estrada 21,237...nóis pegava essas coisas, trocando minha filha as coisa, trocando, por um pouquinho de arroz, um pouquinho de feijão, um pouquinho de óleo, pedaçinho de sabão. Não vendia tudo, não dava pra trocar tudo, nóis ia pra Posto da Mata vender, aí porta em porta vender. Voltava com aquela feirinha que já trocou, com aquela mixaria de dinheirinho pra poder ir passando a vida até...238 Parece visível que a prática da troca, que foi abordada neste tópico como sendo de vital importância para a vida cotidiana daqueles homens e mulheres no sentido de adquirirem aquilo que lhes era necessário para viver, tinha seus limites, “não dava pra trocar tudo”, e também “Nem toda vez vendia as coisas”, em Helvécia. Naquela situação de desmantelo era preciso buscar novas maneiras de agir. Havia agora um novo caminho, uma nova estrada, a BR 101, e por ela um grupo de pessoas se deslocava, “nóis ia pra Posto da Mata vender, aí porta em porta vender”, para que se pudesse amealhar aquilo que se fazia necessário à sobrevivência da família. Estas exigências cotidianas de trabalho intenso, nas reminiscências de dona Maria de Jesus, duraram até certo período. Ela, ao continuar sua narrativa, disse: “Voltava com aquela feirinha que já trocou, com aquela mixaria de dinheirinho pra poder ir passando a vida até... quando deu pro meu marido empregar.” Quando indaguei em que lugar o seu marido se empregou, a entrevistada respondeu: “Na Suzano.” Este emprego, que foi conseguido de forma árdua, “foi uma luta, foi uma luta prá empregar também”, na memória da entrevistada, esta ocupação do cônjuge foi responsável por amainar as suas labutas diárias. Fiz tal interpretação a partir da entonação que a mesma deu a palavra “até...”, como se após aquele momento tivesse inaugurado um novo tempo em sua vida. Essa análise ajuda a compreender um pouco da complexidade existente na comunidade de Helvécia, como em todo sistema social, visto que as transformações 237 238 A entrevistada referia-se à BR 101. Entrevista concedida à autora pela sra. Maria de Jesus Joaquim Santos em 15 ago. 2007. 119 processadas contribuíram para o surgimento de novas necessidades, que por sua vez ajudaram não só na (re) invenção de práticas sociais como também na (re) leitura destas. Deste modo, a introdução das firmas de eucalipto naquele espaço também aparece na memória de seus moradores como tendo sido um tempo de melhoria naquilo que concernia à segurança e à qualidade de vida no trabalho. Isso mostra a existência de dissonâncias. Também a reflexão sobre as relações baseadas nas permutas não negligencia a existência de fissuras e tensões dentro daquela comunidade, como se a mesma se pautasse exclusivamente por relações harmoniosas. Mesmo antes da implantação da eucaliptocultura havia em Helvécia a existência de diferenças sociais e obviamente nem todos que lá moravam eram pequenos proprietários de terra. Como informou dona Cocota, conforme já salientado, ela labutava na terra de outros para sobreviver. Não se trata de idealizar o povoado de Helvécia. O que estamos sugerindo é que naquela comunidade havia, para além das diferenças sociais, um modo de sobreviver e de viver que comportava códigos morais e de conduta associados a valores como: a reciprocidade, a solidariedade, a independência na organização e gestão das tarefas cotidianas. Ainda a respeito dos desmantelamentos ocorridos na comunidade de Helvécia após a introdução da eucaliptocultura naquele espaço, podemos também ouvir o que o senhor Sérvulo Constantino nos disse: “[...] hoje ninguém planta nada, hoje ninguém planta nada porque tudo virou eucalipto, acabou [...].”239 De novo aparece nesta fala a idéia de que a terra que antes era portadora da possibilidade e prática da diversidade se transformou naquilo que é denominado pelos ambientalistas de deserto verde.240 O senhor Sérvulo sentencia que “hoje ninguém planta nada porque tudo virou eucalipto, acabou [...]”. Ele traz uma imagem que sintetiza a sua posição (talvez de grande parte da comunidade), a propósito do empreendimento que fora instalado como sendo a grande promessa, a solução, o progresso. Em uma única frase sua o “castelo” do eucalipto foi reduzido a nada: “hoje ninguém planta nada porque tudo virou eucalipto, acabou [...]”. 239 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. Daniel Silvestre. Seminário Internacional do Processo de Articulação e Diálogo, s.l., s.ed., s.d., p. 22. 240 120 Este camponês, ao dizer que “ninguém planta nada” retira qualquer dúvida sobre a participação (ninguém) dos membros da comunidade e a reminiscência das velhas práticas (nada). E o motivo para esta inexistência completa foi uma mutação: “[...] tudo virou eucalipto.” O somatório dessas duas parcelas teve como produto a expressão “acabou”. Sem aquela relação social com a terra, muitos dos antigos camponeses daquela comunidade passaram a necessitar cada vez mais da possibilidade de empregos e salários para que pudessem adquirir as mercadorias necessárias, muitas das quais, inclusive, em um passado presente em suas memórias, eram por eles produzidas ou então lhes eram ofertadas pelos vizinhos de propriedade. 2.3 “SE NÃO FICASSE RICO...” Na adequação do Plano de Desenvolvimento Urbano de Nova Viçosa, ano 2004, encontramos a seguinte afirmação a respeito das atividades desenvolvidas pela população de Helvécia: A maioria dos membros da comunidade de Helvécia trabalhava em pequenas propriedades agrícolas familiares, dedicando-se sobretudo à cultura de subsistência e o eventual excedente do fabrico artesanal da farinha de mandioca assim como de produtos de horti-frutigranjeiros eram absorvidos pelo comércio da região. Hoje, com a implantação das grandes plantações de eucalipto houve uma concentração da propriedade da terra e muitas famílias que viviam do cultivo em suas pequenas propriedades foram desalojadas. Esses indivíduos e seus descendentes agora trabalham no plantio e corte de eucalipto.241 Essa informação foi construída de maneira a equilibrar e equacionar as transformações ocorridas no distrito. O tempo passado é apresentado como o da produção de subsistência e venda dos excedentes eventuais para os lugares próximos. Em seguida, apresenta-se aquilo que seria o elemento transformador daquele mundo, a introdução da eucaliptocultura provocando uma concentração de terras nas mãos daqueles que estavam associados ao plantio do eucalipto, o que concomitantemente implicou o ato de desalojar “muitas famílias que viviam do cultivo em suas pequenas propriedades”. Logo depois aparece a informação segundo a 241 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 51. Acervo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 121 qual os que trabalhavam em pequenas propriedades agrícolas familiares, bem como seus descendentes, “agora trabalham no plantio e corte de eucalipto”. É como se fosse simples assim: aqueles que antes tinham suas terras e viviam a partir daquilo que delas produziam deixaram de possuí-las e passaram a trabalhar nas empresas de eucalipto, mais precisamente no plantio e corte de eucalipto. O que talvez esteja óbvio, apesar de não estar escrito no PDU 2004, é que essas pessoas que tinham suas vidas alicerçadas em uma atividade costumeira e permanente, que lhes dava segurança, e em última instância dependiam, afora determinações de ordem climática, do trabalho familiar para garantir a produção de alimentos para seu sustento e de sua família, tinham também em suas pequenas glebas um lugar para morar, livre de aluguel. Além disso, naqueles espaços podiam desenvolver atividades de lazer como a pesca ou caça, realizar encontros com os vizinhos, Antes era comum, todo sábado, haver uma festa, um bate-barriga,242 um samba de viola. Era muito comum no local: hoje, na comunidade do Sr. João; amanhã, na de D. Maria. Atualmente, nada disso existe. As pessoas estão morando em pequenas casas, porque tiveram de vender suas terras.243 Nesta fala de Roseli, uma das integrantes da AQH, gostaria de ressaltar o imbricamento existente entre a ocorrência de transformações estruturais, indicadas na venda das terras, e a mudança do tamanho das casas, assim como o processo de modificação do jeito de ser, do jeito de experienciar o lazer, de festejar os dias de sábado na referida comunidade. Em razão de não mais possuírem terras, somou-se a todas estas transformações a perda de autonomia e a instalação de uma condição de dependência. 242 Diferentemente daquilo que é afirmado, o Bate-barriga não deixou de existir em Helvécia. Para saber mais sobre o Bate-barriga, ver a dissertação A dança Bate-barriga em Helvécia, um espaço fabricante de performances afrodescendentes no Extremo Sul da Bahia, desenvolvida pelo professor Valdir Nunes dos Santos na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. 243 Roseli Ricardo Constantino, integrante da Associação Quilombola de Helvécia, pedagoga e professora daquela comunidade. Depoimento n. 1595/05 de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – Detaq. 122 Desta forma, aquelas pessoas passaram a buscar empregos, nas empresas de eucalipto, para ter salários que iriam garantir a compra daquilo que lhes era necessário à sobrevivência. Ressalto o fato de que tanto uma quanto outra atividade ocupacional atribuída, no texto do PDU 2004, aos membros da comunidade de Helvécia na atividade da eucaliptocultura fosse sazonal. Teria havido, então, uma ocupação temporária para aquelas pessoas, nos momentos do plantio e da colheita do eucalipto. Mesmo se não questionássemos se de fato as antigas famílias camponesas foram efetivamente empregadas nas empresas de eucalipto, tais dados, ainda assim, mostram que aquelas transformações ocorridas em Helvécia trouxeram no seu bojo problemas que, diferente daquilo que o texto do PDU 2004 intenta mostrar, não foram equacionados. Afinal, atividades temporárias pressupõem salários temporários. Ora, dificilmente estes poderiam suprir as necessidades cotidianas daquela comunidade. Experiências deste tempo de transformações atreladas à implantação da eucaliptocultura ficaram registradas na memória de Jorge Ferreira, ao recordar a chegada da Aracruz Celulose no distrito de Helvécia: [...] em oitenta e oito que a Aracruz chegou aqui encheu, aqui de Helvécia saia uns três ou quatro caminhão, chegou falando que trinta por cento dos funcionários da Aracruz iam ser de Helvécia quando ela chegou para a região comprando terra, né? Comprando terra... e trinta por cento do contrato, trinta por cento vai ser funcionário de Helvécia.244 Este relato indica a existência de uma associação entre promessas de empregos, para membros da comunidade de Helvécia, e a compra de terras, por parte da Aracruz Celulose. Também os jornais divulgaram, em 1989, matérias que contribuíam para incrementar as expectativas da população do Extremo Sul baiano, inclusive dos moradores de Helvécia, naquilo que concernia à certeza de que aquelas firmas iriam gerar muitos empregos. 244 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 123 Bahia Sul aprovada O Conselho de Proteção do Meio Ambiente (Cepram) aprovou, ontem, a licença de implantação da Bahia Sul Celulose S.A., o que permite a empresa iniciar suas obras. O Cepram já havia autorizado a licença de localização. A Bahia Sul que será implantada no município de Mucuri (Extremo Sul do estado) representa um investimento de 800 milhões de dólares e produzirá 420 mil toneladas ano de celulose de eucalipto branqueado, de acordo com informações do superintendente regional, Élio Régis. A empresa é associada à Vale do Rio Doce e a Suzano, e vai gerar quatro mil empregos diretos245 (grifo da autora). Neste texto ficou claro, a geração de empregos era tida como certa. Não se tratava, pois, de indicar uma possibilidade, mas sim de divulgar uma certeza. Os jornais de circulação local no Extremo Sul baiano, igualmente, noticiavam a importância da chegada das empresas de eucalipto e mostravam como estavam incrementando a oferta de empregos na região. Bahia Sul investe em treinamento A Bahia Sul Celulose está investindo maciçamente no treinamento de seus funcionários. Ao todo, mais de 1.500 pessoas já receberam treinamento para operar a fábrica no primeiro semestre de 1992. Desde janeiro de 1990, um grupo contratado para a fábrica recebe do treinamento básico ao específico, através de aulas teóricas e práticas complementadas por estágio em diversas fábricas de celulose e papel do país. Cerca de 32 supervisores ministraram, nesse período, 440 horas/aula de matemática, 400 de física, 520 de química e 890 de segurança industrial. Na área florestal, o treinamento foi concentrado principalmente em colheita de madeira, e a empresa está contratando na região cerca de 500 novos funcionários até março, que também receberão treinamento.246 Essa notícia, divulgada no ano de 1991, mostra uma preocupação da empresa Bahia Sul Celulose em treinar pessoas da região para compor o seu quadro de funcionários. Neste texto se explicita a preponderância do treinamento de pessoal para a atividade de colheita da madeira. Essa prática da empresa, de oferecer cursos de profissionalização, também foi lembrada com admiração pelo senhor Jorge Ferreira: 245 Jornal A Tarde, 23 de junho 1989, Caderno de Economia, Acervo Instituto Geográfico Histórico da Bahia, Salvador. 246 Jornal Alerta, Medeiros Neto, Ano V, nº. 46, 25 de novembro a 10 de dezembro de 1991, p. 2. Arquivo jornal Alerta, Teixeira de Freitas, Bahia. 124 [...] quando chegou o eucalipto, no início beneficiou muita pessoa. Empregou os funcionários, empregou depois acabou. Eu trabalhei na Bahia Sul no início, que hoje é Suzano. Quer dizer que hoje de Helvécia trabalhando só tem um companheiro que entramos junto, só ficou ele. Então era melhor antes. E veio o outro lado também, que o eucalipto trouxe boas coisas para a região em um aspecto e em outro piorou. Que eu vejo que assim... profissionalização de... no caso de... Eu antes, eu nunca pensava em ser um carreteiro, através do eucalipto hoje eu sou um carreteiro. Posso falar que sou um carreteiro. Fiz curso de carreteiro, que na época começou o porto de Caravelas, eu fui escolhido um dos dez da região, um dos melhores para treinar outros motoristas, então eu senti!247 No contexto de implantação da eucaliptocultura, houve de início a geração de empregos, e pelo apresentado na narrativa anterior, não somente no plantio e corte de eucalipto, como também em atividades que demandavam maior especialização. No caso, a atividade de carreteiro, ou seja, aquele que dirigia carretas transportando o eucalipto até o Porto de Caravelas. O entrevistado salienta a importância que ele dava à atividade desempenhada: “eu fui escolhido um dos dez da região, um dos melhores para treinar outros motoristas, então eu senti!”248 Mas este tempo foi apresentado na narrativa como um tempo que havia acabado: “[...] quando chegou o eucalipto, no inicio beneficiou muita pessoa. Empregou os funcionários, empregou depois acabou.”249 O descompasso entre empregos gerados na implantação da eucaliptocultura e sua diminuição no decorrer do tempo está relacionado também com o fato de ter havido um processo de mecanização, voltado principalmente para a atividade do corte de eucalipto. Desta forma, homens foram substituídos por máquinas. Apresento, agora, dados a respeito da população de Helvécia. Trata-se de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo este, em 1970 a população total de Helvécia era de 6.846, sendo 652 urbana e 6.194 rural.250 Na década seguinte, 1980, a população daquele distrito atingiu o número de 10.009. Neste censo, a informação a respeito deste total é segundo o gênero, sendo 247 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 249 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 250 VIII recenseamento geral 1970, série regional, volume I, tomo XIII. Arquivo IBGE Teixeira de Freitas (BA). 248 125 5.066 homens e 4.943 mulheres.251 Por sua vez, os dados da década de 1990 trazem informações conjuntas de situação de residência e gênero (cf tabela 2). Tabela 2 HELVÉCIA – NOVA VIÇOSA (BA), 1991 POPULAÇÃO RESIDENTE POR SEXO E SITUAÇÃO252 HOMENS MULHERES Urbana Rural Urbana Rural 759 7.154 776 6.865 Apesar de não haver, nas fontes consultadas, uma padronização dos dados que o IBGE disponibiliza sobre a população de Helvécia, é possível afirmar que a maioria dos moradores de Helvécia se encontrava na área rural, e, como foi visto na análise de documentos apresentados ao longo desta dissertação, as empresas de eucalipto compraram terras naquele distrito para que pudessem desenvolver o agronegócio. Essa conjunção implicou aquilo que chamei de desmantelamentos, bem como a posterior necessidade de estas pessoas se empregarem para conseguir sobreviver. Desajustes foram sendo sentidos por aquela comunidade, estes implicaram novos arranjos, reajustes inventados cotidianamente por aquelas pessoas que viviam em Helvécia. Se já não mais podiam contar com o sistema de troca de mercadoria que foi afetado em razão da produção agrícola de subsistência ter sido seriamente comprometida pelo uso das terras para o plantio da monocultura do eucalipto, essas pessoas, em razão das necessidades que lhes eram impostas, começaram a exigir das firmas que lhes oferecessem alternativas para que pudessem adquirir aquilo que lhes era vital para a sobrevivência. As expectativas de muitos dos habitantes de Helvécia em relação à satisfação de necessidades inerentes às suas vidas passaram a ser associadas àquelas empresas que ali chegaram na década de 1980 com todo um discurso de progresso e desenvolvimento da comunidade: “[...] porque a população do lugar eles gritam por emprego, eles quase não acreditam mais no trabalho da terra, entendeu, eles 251 IX recenseamento geral do Brasil, censo demográfico dados distritais. 1980, volume I, tomo 3, número 13. Arquivo IBGE Teixeira de Freitas (BA). 252 http://www.ibge.gov.br/home/ , http://www.sidra.ibge.gov.br/ 126 querem ser empregados de uma determinada empresa”,253 nos disse Malzinéia Henriqueta Ambrósio, professora da escola municipal de Helvécia e integrante da AQH. É possível que o ajuste, para muitos destes habitantes, tenha se pautado na idéia de que se foram essas empresas que alteraram seus labores e relações cotidianas com a terra, deveriam ser também elas a lhes possibilitar o acesso aos salários, que, ao menos nas expectativas, lhes garantiria o acesso às mercadorias que outrora eles conseguiam obter a partir da produção própria e do mecanismo de troca. Como os empregos não chegaram, ou ao menos não chegaram para atender, não apenas àquilo que foi prometido como também àquilo que foi esperado pelas pessoas, criou-se uma sensação de engodo. Habitantes de Helvécia se sentiram lesados e construíram relatos sobre esta sensação. Acabou, acabou, se eu querer melância tenho que comprar, que eu não vou achar ninguém para me dar mais, tenho que comprar, ainda se eu achar para comprar. Porque é difícil vim até aqui, tem que ir em Posto da Mata, as vezes até de Teixeira. [...] agora para você comprar você precisa estar trabalhando e cadê o emprego? Cadê o emprego? 254 A entrevistada é contundente ao perguntar de forma incisiva pelo emprego. Neste sentido, o que ela disse, “[...] agora para você comprar você precisa estar trabalhando e cadê o emprego? Cadê o emprego?“,255 tenciona a informação existente no PDU 2004 apresentada logo no início deste tópico: “Esses indivíduos e seus descendentes agora trabalham no plantio e corte de eucalipto.”256 Convém discutir as diferenças existentes entre aquilo que foi prometido pelas empresas e aquilo que a comunidade criou enquanto expectativas do que significaria a vinda das mesmas para Helvécia. Obviamente existiu uma interlocução entre as esperanças e o que foi efetivamente prometido pelas empresas e seus defensores, pois se compreende que uma expectativa se cria a partir de algo dado, sinalizado, sugerido. Entretanto ela não se conforma apenas a estes aspectos, ela se pauta também no mecanismo de construção individual e coletiva das pessoas a partir da conjunção entre o que ficou 253 Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 255 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007 256 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 51. Arquivo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 254 127 nas entrelinhas do prometido e o que os indivíduos desejavam de melhor para suas vidas. O relato a seguir mostra o quanto, no imaginário dos habitantes de Helvécia, o trabalho nas empresas de eucalipto estava associado à projeção e status social: “Lembro, lembro que aquelas pessoas que entrou na Flonibra, o povo se sentia que nós..., que eu fazia parte, eu e meu esposo, que nós ia ficar... se não ficasse rico mais ia ficar remediado, que era firma boa, né?”257 Trabalhar para tais firmas era garantia, dentro deste imaginário, de ascensão social dentro da comunidade, assim talvez, quando a firma prometia emprego é pouco provável que as pessoas se pensassem ocupando funções de baixo escalão, afinal, “a firma era boa, né?” Com base nesta premissa, os integrantes daquela comunidade começaram a projetar o futuro. Possivelmente, este passou a ser imaginado com a presença de algumas garantias daquilo que apareceu em algumas entrevistas como parte constitutiva de “firma boa”. Por exemplo, plano de saúde, plano dentário, bons salários. Esta prefiguração do futuro, construída no imaginário, alimentou o sonho de consumo daqueles habitantes e estes passaram a desejar para si outras rotinas, outros ritmos que fossem diferentes daqueles associados à labuta na terra em prol de uma produção agrícola voltada à subsistência. A eucaliptocultura, por sua vez, ao gerar empregos permanentes fez, em geral, uso de uma mão-de-obra especializada, sobretudo a industrial, não absorvendo a população local. Ao contrário do esperado pelos moradores dos municípios nos quais a eucaliptocultura foi implantada, foi significativa a quantidade de pessoas vindas de fora, principalmente da região Sudeste, para ocuparem cargos do alto e médio escalão nas empresas. Prova disso é a existência de bairros, em formato de vilas residenciais, dentro das cidades de Teixeira de Freitas, Mucuri e Itabatã, destinados a atender estes grupos que se deslocaram para o Extremo Sul baiano. Restou à população local se contentar com a possibilidade dos serviços temporários. Ocorre que a geração de um número expressivo de empregos aconteceu apenas no momento das obras de construção das fábricas das empresas de eucalipto. Passado este tempo, aproximadamente 80% dos empregados foram 257 Entrevista concedida à autora pela sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. 128 mandados embora.258 A isso se somou à substituição de muitos funcionários envolvidos com a atividade de corte do eucalipto, em razão do intenso processo de mecanização implementado pelas firmas. Além disso, paulatinamente, tanto na Aracruz quanto na Suzano Celulose, ficou cada vez mais usual a terceirização dos serviços: A Aracruz dava emprego para todos. Hoje, apenas 2 pessoas da comunidade trabalham na empresa. Esses trabalhadores são jogados para as empreiteiras. A cada dia que passa, surgem novas empreiteiras, que não têm o mesmo compromisso com seus funcionários. Os salários são bem mais baixos. 259 Vê-se, neste depoimento, um misto de desejo e frustração. Há a idéia de que o trabalho na Aracruz era bem remunerado, e por isso mesmo compreendemos que desejado, e de que a empresa, ao implantar o processo de terceirização, teria mudado sua relação com a comunidade, deixando de ter compromisso com seus funcionários, jogando-os para empreiteiras, frustrando-os. Esta dualidade deve ser pensada para além de uma construção contraditória. Ela faz parte de um repertório de ações desta comunidade, repertório este que comporta simultaneamente a idéia de resistência e acomodação.260 Um dado existente no Resumo Público de Certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A., da unidade de Mucuri, com data de 14 de dezembro de 2004, permite, como indicado anteriormente, verificar também nesta empresa a tendência para a terceirização dos serviços: “A Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A. tem 170 funcionários próprios e realiza o manejo florestal contando os serviços de 24 empresas que empregam um número aproximado de 2.500 trabalhadores em várias funções”261 (grifo da autora). Estes não são números que possam confirmar as promessas feitas e veiculadas, de geração de 4.000 empregos diretos, na matéria “Bahia Sul aprovada,262” do jornal A tarde, no ano de 1989, anteriormente analisada. 258 Segundo dados do Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia (Cepedes). 259 Roseli Ricardo Constantino, Depoimento n. 1595/05 de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – Detaq. 260 Maria Cristina Wissenbach. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-1880). São Paulo, HUCITEC, 1998, p. 27. 261 Resumo Público de Certificação da Suzano Bahia Sul Papel e Celulose S.A., da unidade de Mucuri, 14 de dezembro de 2004, p. 5 262 Jornal A tarde, 23 de junho de 1989, Caderno de Economia, Acervo Instituto Geográfico Histórico da Bahia, Salvador. 129 A narrativa a seguir faz referência à idéia de uma expectativa a respeito das ações das firmas de eucalipto no sentido de que elas efetivamente atuassem atendendo à demanda de emprego da mão-de-obra da comunidade de Helvécia: [...] então eu vejo isso, que se a gente pudesse melhorar... se essa firma pudesse nos ajudar recuperar um pouco para ajudar os mais carentes... já digo assim, que aqui ainda tem algumas pessoas que tem suas terras, tem bastante ainda que tem, mas as deles as vezes não dá emprego para ninguém porque é coisa só deles e de seus filhos trabalhar. Então por isso que tem que ter emprego, e vejo isso como uma coisa muito triste porque se não tiver um comércio ou então uma terra para trabalhar, emprego também não tem, então é uma coisa que a gente ver e é muito triste263 (grifo da autora). Há na fala de Faustina Zacarias, filha de uma família que no passado havia vendido suas terras para a Aracruz Celulose e, também no passado, havia sido empregada na antiga Flonibra, a expressão do sentimento de tristeza, demonstrando a fissura entre o prometido e o realizado. Quantos sonhos de emprego, estabilidade e ascensão social foram se desfazendo neste percurso transposto entre os sinalizados 4.000 empregos e os 170 efetivamente disponibilizados pela Bahia Sul Celulose? A resposta a esta indagação pode se configurar ainda mais robusta, se levarmos em conta que em razão deste discurso, grande oferta de emprego, muitas pessoas de outras regiões se deslocaram para o Extremo Sul baiano com a intenção de “fazer a vida”. É provável que muitos desses homens e mulheres hoje habitem as periferias das cidades da referida região engrossando o número de desempregados, da violência, dos distúrbios familiares, das tristezas, dores e solidão. Quanto às promessas feitas pela Aracruz, fissuras também se fizeram visíveis: [..] Chegou na região, falou, vou comprar, estamos instalando na região, então, trinta por cento vai ser de Helvécia, mais trinta por cento de outro lugar, mais trinta por cento, hoje só tem três funcionários aí. E a promessa que ela fez e não cumpriu.264 263 264 Entrevista concedida à autora pela Sra. Faustina Zacarias Carvalho em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira em 14 ago. 2007. 130 No caso da área que corresponde hoje ao distrito de Helvécia, se buscarmos ver como era sua paisagem antes da introdução do “plantio em massa” de eucalipto, encontraremos o registro da existência de dendê, bromélias, orquídeas de espécies diversas, sapé, bambu, maracujá e araçá, bem como de uma atividade agrícola com produção de abóbora, amendoim, melancia, mamão, quiabo, feijão, mandioca, milho, batata-doce, enfim, um modelo agrícola voltado para a policultura, além de uma atividade pecuária voltada para criação de bovinos, eqüinos, suínos e aves. Entretanto essa diversidade, foi interpretada e lida pelo discurso da modernidade como um universo rural atrasado e de subsistência que poderia ser transformado numa área de progresso, desde que aderisse ao projeto do agronegócio, cantado em verso e prosa por jornais265 como a “salvação da lavoura”, na medida em que, entre outras vantagens, geraria empregos e oportunidades para o desenvolvimento local. Levando-se em consideração que o distrito de Helvécia tem uma população que não se caracteriza como mão-de-obra especializada, podemos inferir os impactos ali provocados pela monocultura do eucalipto que desalojou os homens e mulheres de suas atividades habituais e não os inseriu no mercado de trabalho monocultor. Gostaria agora de salientar algumas questões que dizem respeito ao campo de trabalho para as mulheres de Helvécia. Estas, segundo dados do IBGE (cf. tabela 2), eram, na década de 1990, em número de 7.641, numa população total de 15.554 pessoas, perfazendo, pois, uma porcentagem de aproximadamente 49% da população. O senhor Kemi Krul, ao rememorar as dificuldades de conseguir um serviço em Helvécia, falou, entre outras coisas, dessas mulheres: [...] serviço por aqui era meio difícil, mais era na Bahia e Minas, mas custava empregar as pessoas, só daqueles que já estava. Mas hoje em dia serviço apareceu, não trabalha quem não quer. Agora o problema do serviço de antigamente, tanto faz de roça ou outro tipo de serviço, se o camarada poderia está até com oitenta ano, se ele teve coragem para trabalhar e fosse ele trabalhava. Já essas firmas não aceita mais o camarada de sessenta, setenta anos, né? Criança pior, mulher só se for para trabalhar no escritório, mas no campo a firma não aceita. Numa parte melhorou e na outra não, em 265 Refiro-me aqui de forma mais precisa à reportagem veiculada no Caderno Econômico do jornal A Tarde de 6 de janeiro de 1980, em que o cientista Paulo de Tarso Alvim defende a idéia de que se deva criar no Brasil pólos agroindustriais com produção voltada preferencialmente para o mercado externo, contando, para isso, com medidas governamentais de incentivo. 131 Juerana266 na época que era roça, muito japonês, dia de segundafeira, saia carro trator lotado de gente para a roça, tanto faz homem novo como mais idoso, mulher e criança. Quando dava a tarde chegava todo mundo. No dia do pagamento, que era sábado, todo mundo recebia seu dinheiro. O homem recebia, mulher e criança, aquele dinheiro ficava somente dentro de uma casa, já hoje em dia não, hoje em dia as vezes tem muita mulher que quer até trabalhar, mas não sendo na roça não tem mais serviço, roça na região acabou é só eucalipto e a firma não aceita mulher ir trabalhar no meio do eucalipto, né?267 (grifo da autora) Essas são lembranças representativas do significado do trabalho coletivo e familiar para os integrantes daquela comunidade. Refiro-me aqui de forma específica ao trabalho feito nas roças de outrem, no caso, japoneses. No início, dos anos de 1960, estes chegaram à região do Extremo Sul baiano. Instalaram-se em povoados diversos, entre os quais Juerana, Taquari, Aparajú e Helvécia, desenvolvendo cultivos variados de produtos agrícolas,268 e empregando moradores da região em suas lavouras: “...dia de segunda-feira, saia carro trator lotado de gente para a roça, tanto faz homem novo como mais idoso, mulher e criança.” O fruto deste trabalho, recebido nos dias de pagamento, era somado pelos integrantes de uma mesma família: “O homem recebia, mulher e criança, aquele dinheiro ficava somente dentro de uma casa...” No início de sua narrativa, o senhor Krull afirmou: “hoje em dia serviço apareceu, não trabalha quem não quer.” Entretanto, no decorrer de sua fala ele foi oferecendo pistas da existência de uma série de obstáculos ao trabalho de homens idosos, crianças e mulheres. Estes obstáculos possivelmente contribuíram para que se realizassem mudanças nos papéis sociais desempenhados por cada um destes componentes no universo familiar, afinal os impedidos de trabalhar, homens idosos, crianças e mulheres, não mais poderiam levar para suas casas seu quinhão de salário para ser agregado àquele que fora recebido, supõe-se, pelo homem jovem. Mudanças também devem ter se processado nas relações de sociabilidade entre os membros das famílias. Ao que parece, o trabalho nas “roças dos japoneses” era, para as crianças, também um espaço de aprendizagem. 266 Povoado localizado nas proximidades do distrito de Helvécia. Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 268 40 anos da colonização japonesa no Extremo Sul da Bahia. Teixeira de Freitas, Bahia, s.a., s.ed., 1997. 267 132 Em Helvécia hoje está difícil, está difícil, que nem era antes não. Antes era verdura, amendoim, pimentão, melancia, tomate, era caminhão mais caminhão. Era caminhão mais caminhão, melão, pepino, saia de tudo aqui, o que você pensava sai daqui, tinha um grupo de japonês ali... hoje só tem eucalipto, né? Que plantava de tudo, inclusive eu estudava de manhã e depois de meio-dia vinha o trator de lá do japonês, deslocava de lá para vim buscar os meninos que estudavam de manhã, trabalhava de tarde e os que estudavam de tarde ele trazia, e aí eu trabalhava como menino. É lá que eu tive oportunidade de aprender alguma coisa, trabalhando com os japoneses...269 Interessa-me aqui analisar algumas das transformações que atingiram aproximadamente 49% da população de Helvécia, ou seja, suas mulheres. A chegada das firmas de eucalipto marcou um tempo, que leio, como de agruras para elas. Como foi visto, através das informações do PDU 2004, a mão-de-obra da população de Helvécia, desalojada de seus domínios territoriais, teria sido incorporada pelas empresas de eucalipto para realizar tarefas de plantio e corte. Nenhuma destas atividades era feita por mão-de-obra feminina, pois, como disse o senhor Krull, “hoje em dia às vezes tem muita mulher que quer até trabalhar, mas não sendo na roça, não tem mais serviço, roça na região acabou é só eucalipto e a firma não aceita mulher ir trabalhar no meio do eucalipto, né?”270 Esta afirmação, “roça na região acabou”, pode ser melhor dimensionada quando levamos em consideração a concentração de terras nas mãos da Aracruz Celulose e Suzano Bahia Sul Celulose no município de Nova Viçosa, ao qual pertence o distrito de Helvécia. De uma área total de 91.952 ha, 45.118 ha pertencem às referidas empresas, ou seja, 49% da área daquele município está a serviço do modelo agroexportador e monocultor de eucalipto.271 Ora, muitas das mulheres de Helvécia não tinham mais suas glebas para produzir e também não tinham mais a opção de trabalhar em roças de outras pessoas, “roça na região acabou”. Desta forma elas tinham perdido sua autonomia no trato com a terra ao mesmo tempo em que, não conseguindo mais vender sua mão-de-obra, perderam também a posição de alguém que contribuía com dividendos para os gastos familiares, ficando provavelmente na dependência daquilo que seus pais e/ou 269 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 271 Pe. José Koopmans. Além do eucalipto: o papel do Extremo Sul. 2. ed. Revisada e atualizada. Teixeira de Freitas: Centro de Defesa dos Direitos Humanos, 2005, p. 74. 270 133 esposos e filhos provessem para seu lar. Conflitos, abertos ou ocultos, em relação às repartições das decisões cotidianas da família272 podem ter sido formados, porém a este respeito nas entrevistas prevalece o silêncio. Isso significou a entrada de uma menor quantidade de dinheiro nas casas das famílias da comunidade de Helvécia, ao mesmo tempo em que havia tido no distrito uma diminuição de produtos agrícolas básicos para a sobrevivência de seus moradores. A vida de fartura aparecia agora como lembrança: [...] todo mundo alimentava bem, não tinha essa miséria que tem hoje não. Tem nego aí que diz, não vejo, mas tem gente que fala que tem nêgo passando fome por causa que não tem alternativa nenhuma. Principalmente para as mulheres que é sozinha, não tem serviço para as mulheres sozinhas, empregos não tem empresa nenhuma aqui que pega mulher para trabalhar, não tem nenhuma, antigamente tinha, mulher não ficava parada, ia trabalhar para os japoneses, ia trabalhar. Na época tinha um fazendeiro que mexia muito com pé de mamão que ele tinha loja em Campinas, trabalhava um monte de mulher na roça de mamão, hoje não tem mais, ninguém ficava parado, hoje você vê a maioria das mulheres que não tem um serviço, o que emprega aqui mesmo hoje mesmo é a prefeitura, mas só trabalha quem é concursado... mas hoje, para trabalhar aí em Helvécia hoje não tem empresa nenhuma que pega mulher para trabalhar.273 Conforme a narrativa do senhor Jorge, a miséria não fazia parte do cotidiano de Helvécia. Aquele era um lugar no qual a possibilidade de produzir alimentos, seja nas glebas sob o domínio do próprio camponês, seja em propriedades de outrem, voltadas para o cultivo agrícola, se traduzia em fartura e alimentação para todos os integrantes da comunidade. Este tipo de afirmação evidentemente pode ser contestado por antigos moradores de Helvécia que tenham passado momentos de crise, seja em razão de uma má colheita, um gasto inesperado para cuidar de enfermos na família, dentre outros. Entretanto, também é provável que com a implantação da dinâmica de trabalho e regras das firmas, alguns atores sociais tenham, em razão de sua mão-de-obra desqualificada, sido alijados. No caso das mulheres sozinhas esta situação de exclusão foi ao que parece taxativa: “hoje, hoje para trabalhar aqui em Helvécia, hoje não tem empresa nenhuma que pega mulher para trabalhar.” 272 Michelle Perrot. Os excluídos da história – operários, mulheres, prisioneiros. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2001. 273 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira em 14 ago. 2007. 134 Na voz de mulheres de Helvécia, esta situação se configurou como uma dívida das empresas para com a comunidade: [...] porque setenta e quatro por cento das terras de Helvécia são ocupadas com plantio de eucalipto e pertence a Aracruz, então tem uma dívida muita grande conosco, a firma tem uma dívida muito grande, plantou no início, ofereceu muitos empregos, muitos empregos foram dados, de repente as pessoas foram todas mandadas embora, né? Ah você não serve mais, não serve mais e aí essa situação está até o dia de hoje...274 Entendo a fala de Regina Constantino em relação à Aracruz, “ofereceu muitos empregos”, como uma afirmação que dizia respeito ao universo masculino. Faço essa interpretação em consonância com as narrativas do senhor Kemi Krull e do senhor Jorge Ferreira. Nessas circunstâncias, em que a mão-de-obra feminina não encontrava espaço no campo do trabalho assalariado, mulheres sós, que não podiam contar com filhos ou companheiros para prover o sustento, passaram a viver precariamente de trabalho temporário, autônomo. Não tendo mais o trabalho na roça “sem oportunidade de emprego e tendo que improvisar a própria sobrevivência” 275 elas se reinventaram, passaram a viver do fabrico da muqueca, doce feito de goma com coco e assado na folha de banana, para ser vendido nas feiras dos lugares próximos. Outras transformaram suas casas em pousadas e/ou restaurantes simples e improvisados para atender eventuais pesquisadores e visitantes que chegavam ao distrito. A senhora Maria Henriqueta Ambrósio nos fala de sua sensação a respeito das mudanças trazidas no bojo da eucaliptocultura: Para que uma fazenda mais bonita que aquela, eu morei lá, hoje você pode, doutor é Antônio Alfredo, o povo era de Minas Gerais, Teófilo Otoni, eu morei lá quase dois anos, era uma fazenda bonita, criava muito gado, muita galinha, muito pato, eu recolhia tanto ovo de cocar em um dia que eu ficava besta, falava: “Meu Deus seu Alfredo onde o senhor vai levar esse tanto de ovo?”, “Vou levar para Teófilo Otoni e vocês pegam e comem e dá para quem quiser.” Era desse jeito. Hoje,... o filho dele pegou e vendeu, hoje você passa lá e é só eucalipto. Essa fazenda aí, do japonês, né? Era muita verdura, 274 Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. Maria Odila Leite da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2 ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 1995, p. 20. 275 135 plantava de tudo, batatinha, pimentão e tudo. Hoje você passa lá é só eucalipto, não tem nada mais. Dá uma revolta, sabia?276 Conforme aquilo que foi apresentado, a senhora Maria Henriqueta, ao afirmar que “hoje você passa lá é só eucalipto”, talvez estivesse também dizendo que hoje, naqueles lugares nos quais ela havia trabalhado, não havia mais espaço para sua atuação: “hoje você passa lá é só eucalipto, não tem nada mais. Dá uma revolta, sabia?” Neste comentário, a entrevistada fala não só das transformações ocorridas nos seus espaços de vida, ela nos diz também de como sente tais mudanças indicando que, para além de saudades e tristezas, havia também naquela comunidade um sentimento de revolta com aquela situação. Foi naquele contexto histórico específico que as mulheres de Helvécia atuaram como seres sociais, mesmo não sendo assalariadas nem proprietárias. Maria Odila Leite da Silva Dias é incisiva ao afirmar que mulheres nesta situação continuam a ter sua organização familiar, a integrar redes de dominação e de convívio comunitário.277 Também neste sentido, Michelle Perrot278 alerta para o fato de que as mulheres do povo têm saberes e poderes médicos, religiosos e culturais. A posse destes poderes e saberes não permitiu que as mulheres de Helvécia deixassem de ocupar o seu lugar de agente histórico naquele distrito. Elas continuaram, por exemplo, a ser responsáveis pela realização dos ofícios solicitados por membros de uma família que perdeu um ente querido, pois segundo a senhora Elzira Peixoto em Helvécia “... ainda predomina o ofício de nossa senhora, ele é cantado muitas partes em latim”, 279 revelando que aquelas mulheres que sabiam fazer o ofício eram/são respeitadas na comunidade, independente de serem ou não proprietárias e/ou assalariadas, em razão do seu saber e do poder religioso atrelado a ele no imaginário dos moradores do distrito. Entretanto, os habitantes de Helvécia não experienciaram apenas permanências e, diante do desemprego e da desestruturação do seu modo de vida, 276 Entrevista concedida à autora pela sra. Maria Henriqueta Ambrósio em 15 ago. 2007. Maria Odila Leite da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2 ed. rev. São Paulo: Brasiliense, 1995. 278 Michelle Perrot. Os excluídos da história – operários, mulheres, prisioneiros. 3 ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2001. 279 Entrevista concedida à autora pela sra. Elzira Peixoto em 14 de ago. 2007. 277 136 de suas novas expectativas e necessidades culturais, bem como de seus sentimentos em relação ao imbricamento destes elementos, as pessoas se organizaram para viver com o eucalipto e com o que isso representava no seu cotidiano de homem e mulher da comunidade. 137 3º CAPÍTULO – VIVER COM EUCALIPTOS À primeira vista, nas pesquisas de campo, realizadas em Helvécia, o desenrolar dos dias em nada indicava como sendo aquele lugar um espaço no qual existisse algum tipo de conflito e/ou fissuras entre diferentes projetos de vida. Ao contrário, ao realizar algumas das entrevistas com moradoras daquela comunidade, sentada embaixo da sombra de uma generosa amendoeira, saboreando a fala, sem pressa, das entrevistadas e observando o movimento das pessoas que circulavam nas ruas, tive a impressão de que tudo estava correndo em um ritmo marcado pela tranqüilidade. Em uma tarde quente de um dia de semana, algumas mulheres andavam pelas ruas, crianças jogavam bola em um campinho improvisado e, nas vendas, que também funcionavam como bares, havia a presença de um ou outro freguês nas poucas cadeiras e mesas de plástico dispostas nas calçadas que davam acesso direto à rua principal. Algumas bicicletas, conduzidas por homens adultos, circulavam de vez em quando. Também o silêncio chamava a atenção. Será que ele significava tranqüilidade?Ou indicava ausências? Compondo este cenário, as pessoas, ao falarem de suas rotinas, deixavam por vezes ver imagens que revelavam a existência de impasses vivenciados no cotidiano da comunidade. [...] A maioria do povo está passando necessidade, a maioria do povo. O povo hoje minha senhora, nesse mundão de meu Deus aqui, [...] porque aqui tem terra, tinha terra, não faz um plantio de terra, não faz um plantio de roça de abóbora, antigamente dava muito serviço o povo. Ali era meu vizinho [apontando em direção a um camponês que estava sentado à sua frente], plantava feijão, era roça de mamão, tinha de tudo, de tudo, quando chegava com quinze dias ele fazia pagamento do povo aqui na rua, rolava dinheiro, hoje, cadê? Acabou. Seu fulano fazendeiro está plantando eucalipto, seu fulano de tal está plantando eucalipto, aí zerou, todo mundo está aí parado, não tem serviço, só melhorou para quem plantou, que entra o dinheiro. Só para ele e pronto, e aí a comunidade está passando necessidade. Eu vejo aí olha [indicando um senhor que neste momento passava a pé pela rua em frente à venda na qual estávamos sentados e onde se realizava a entrevista], está passando muita necessidade. E aí é problema, que a gente não acha que só a gente pode viver, todo mundo precisa de viver bem, né? Ou que vive bem ou que vive mal, todo mundo precisa de viver, né? Então é o que a gente sente. – Ah fulano está aí passando necessidade, está 138 passando fome, vamos dar uma ajuda. Mas é pessoa que tinha e foi na conversa dos outros, que existe muita gente boba ainda.280 O senhor Sérvulo falou sobre um pouco daquilo que não era tranqüilidade e deixou implícito que aquela situação, “A maioria do povo está passando necessidade”, atingia pessoas que, em um passado recente, tinham possuído terras. Havia, segundo sua narrativa, uma relação entre a venda das terras, o subseqüente plantio de eucalipto e aquela situação de penúria para a “maioria do povo”. Ele traçou um paralelo entre a atividade agrícola existente no distrito antes e depois da eucaliptocultura. Este teve como eixo os benefícios gerados por uma e outra atividade. Ficou claro que o eucalipto trouxe benefícios. Entretanto, para o entrevistado, estes se concentraram nas mãos daqueles que plantaram: “[...] só melhorou para quem plantou, que entra o dinheiro. Só para ele e pronto, e aí a comunidade está passando necessidade.” As benesses não foram pulverizadas, distribuídas na comunidade, como nos tempos em que os donos de terra no distrito, inclusive muitos japoneses, faziam cultivos agrícolas variados: “plantava feijão, era roça de mamão, tinha de tudo, de tudo, quando chegava com quinze dias ele fazia pagamento do povo aqui na rua, rolava dinheiro, [...].” Dinheiro que provavelmente circulava nas vendas, nos bares, na compra de roupas e sapatos para os dias de folguedo, nos lances dados nos animados leilões de frango assado, realizados no último domingo de setembro, quando da festa de Nossa Senhora da Piedade – padroeira de Helvécia. Ocasião em que a população do distrito recebia/recebe parentes e amigos que chegavam das mais diversas cidades do Brasil. Na narrativa, o senhor Sérvulo não fez menção à existência de penúrias antes da eucaliptocultura. Entretanto esta ausência deve ser relativizada. Moradores de Helvécia já haviam passado necessidades, entretanto, elas não foram descritas talvez porque, contrapostas à situação atual, o passado estivesse sendo lido pelo entrevistado de uma forma idílica. Nesta fala há também uma pista de como os laços de sociabilidade existentes são acionados, através das informações veiculadas na comunidade, no sentido de ajudar os conhecidos: “– Ah fulano está aí passando necessidade, está passando 280 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. 139 fome, vamos dar uma ajuda.”281 Viver com o eucalipto também era conviver com antigos moradores de Helvécia que, por não terem mais nem terra nem trabalho, experienciavam privações básicas de sobrevivência e passaram a contar com a solidariedade de integrantes da comunidade para viverem. Pois, como disse o senhor Sérvulo, “ou que vive bem ou que vive mal, todo mundo precisa de viver, né?” Um questionamento possível, a partir daquilo que nos foi apresentado pelo senhor Sérvulo, seria por que, em Helvécia, camponeses que ainda possuem terras, ao invés de continuarem a plantar os produtos agrícolas dos tempos de fartura, vivo nas memórias, estão plantando eucalipto? A informação, elaborada através de uma indagação feita pelo senhor Milson Silva Zacarias, jovem residente em Teixeira de Freitas, filho de filhos de Helvécia, ligado àquele distrito por laços afetivos, diz algo sobre este questionamento: [..] Se for vê o que tá dando mais dinheiro hoje é o eucalipto. Num é? Aí a tendência de quem tem uma terrinha é o que? Plantar eucalipto. Então com isso só vai acabando né? Só vai engolindo a cidadezinha [referindo-se à Helvécia]. O único jeito de fazer um bom dinheiro... aí quem tem sua terra é arrendar prá uma boa empresa dessa aí ou então... plantar eucalipto, não é isso? E com isso a terra tá acabando hoje em dia, por causa disso. Rola muito dinheiro no eucalipto. 282 Ele parte do pressuposto de que as pessoas de Helvécia, que ainda têm suas terras, almejem ganhar dinheiro, aderindo desta maneira ao plantio do eucalipto, “o único jeito de fazer um bom dinheiro”. Ainda segundo o entrevistado, esta realidade seria responsável pela “cidadezinha” estar sendo engolida pelos eucaliptos. Quanto à afirmação “rola muito dinheiro no eucalipto”, esta será aqui analisada, em relação ao distrito de Helvécia, com cuidado, em razão de alguns elementos. Em primeiro lugar, nas pesquisas de campo, não pude observar manifestações exteriores de riqueza. Nos espaços privados, destacava-se a simplicidade dos equipamentos mobiliários e eletro-eletrônicos, bem como dos meios de transporte e comunicação. As edificações recentes, construídas depois da chegada do eucalipto, em nada se aproximam da idéia de opulência. Existe uma ou outra construção residencial que se destaca, seja pelo tamanho, seja pelo estilo, mas isto é uma exceção. Em geral as casas de alvenaria são simples e ainda 281 282 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Milson Silva Zacarias em 15 mar. 2007. 140 existem casas de pau-a-pique. Nas propriedades rurais, os sinais externos indicavam/indicam rusticidade e improvisação. Também não há bem feitorias públicas no distrito que, de alguma forma, traduzissem, ou mesmo indicassem que ali estaria “rolando muito dinheiro”. Na grande maioria das ruas de terra batida do distrito e sem sistema de esgotamento sanitário, circulam poucos veículos automotores, de modelos populares e bem marcados pelos sinais do uso. Se, “rola muito dinheiro no eucalipto”, ele segue outros caminhos, que não os trilhados pela maioria dos habitantes de Helvécia e seus arredores. A preocupação do senhor Milson em relação ao que está acontecendo em Helvécia diz dos laços afetivos mantidos com membros da comunidade e das memórias associadas aos seus ascendentes: [...] antes do eucalipto chegar a cidade... Cara [dirigindo-se à entrevistadora], era várias frutas, tinha vários sítios em Helvécia, você vê o pessoal naquele ânimo trabalhar em sua roça, meu avô, pai do meu pai tinha uma roça, hoje é eucalipto. Nós ia plantar e colher, torrar a farinha .... então hoje cabou.283 Este mesmo jovem que nos falava das mudanças, identificadas na tendência de plantar eucalipto por donos de uma “terrinha”, também experienciou a sensação de permanência, pois a gleba que pertenceu aos seus avós maternos, diferente daquilo que acontecera com as terras do avô paterno, continuou nas mãos de sua família, como fruto de herança. Ela não foi vendida, apesar das ofertas feitas pelas firmas de eucalipto. Fato que, pelo visto, envaidece e orgulha a família Zacarias. 284 A respeito da suposta “escolha” dos camponeses pelo plantio de eucalipto em detrimento de outros cultivos, um camponês relatou [...] o eucalipto hoje para quem planta é o melhor empreendimento que o camarada pode fazer, que não tem agricultura nenhuma que dá mais que o eucalipto, não tem gado, não tem, e a maioria hoje está vivendo, está partindo para o eucalipto. Porque eu gosto de mexer com a agricultura né? Mas tem um lado bom e um lado ruim que o eucalipto ele... Eu hoje se eu for mexer com a agricultura, eu emprego hoje, emprego não, dou trabalho para umas quatro ou cinco pessoas e o eucalipto não, eu vou ter o plantio dele, caso for, dependendo uma pequena área eu mesmo cuido. Porque, eu com 283 Entrevista concedida à autora pelo sr. Milson Silva Zacarias em 15 mar. 2007. A entrevista com o sr. Milson Zacarias foi realizada na presença de sua mãe e esta manifestou, assim como o filho, orgulho por ainda possuir terras em Helvécia. 284 141 um trator, eu vou lá pulverizo com o maquinário pronto, depois daqui a três meses eu pego duas pessoas vou lá adubo, pronto. 285 Alguns proprietários de terra em Helvécia, que não as venderam para as firmas de eucalipto, se associaram aos interesses destas empresas, plantando eucalipto, com o intuito de obter lucros individuais, bem como uma redução na jornada de trabalho na roça, pois, pelas informações colhidas em diversas entrevistas, o cultivo do eucalipto não demandaria uma exigência de cuidados diários. Além disso, o número de pessoas envolvidas nesta atividade é menor e o serviço é temporário, o que, na lógica capitalista, significa menos investimento, menos gasto com mão-de-obra e mais lucro. Esta colaboração, ou associação entre os camponeses e os grupos identificados com o agronegócio, encobria/encobre discrepâncias existentes entre dois projetos. Um no qual a terra era vista como provedora não só das condições materiais de sobrevivência, mas também como um lar, um lugar de sociabilidade ao qual se estava ligado por laços afetivos, e por esses motivos era importante manter a propriedade da terra. Para isso, naquele contexto, uma das maneiras encontradas foi aderir à pratica do fomento e realizar o plantio de eucalipto. O outro projeto, por seu turno, associava a terra à produção de eucalipto em consonância com os ditames do mercado, de maneira a atingir as metas de produtividade, vendas e lucros estabelecidas pelas empresas. Quando perguntei ao senhor Jorge a respeito da existência ou não de incentivos do governo para o plantio de produtos agrícolas, ele disse o seguinte: A maioria, quando alguém vai plantar um plantio, por exemplo, assim, vai plantar abóbora, ele tem um sério risco de tomar um empréstimo no banco e não pagar esse empréstimo aí a terra dele fica em jogo, porque, hoje para você mexer com a agricultura, agricultura pesada no caso, em um tamanho maior, você tem que ter uma irrigação porque você corre risco de perder, as vezes é muita sol ou muita chuva e o eucalipto não. As vezes a pessoa chega assim, eu já cansei de tomar veneno na cara... Tem um colega meu que hoje ele tem duzentos hectares de eucalipto, ele falou assim: – Jorge meu trabalho aqui era de agricultor mesmo, mexia mesmo, pegava no pesado, eu parei, porque não tem, não tem incentivo nenhum na agricultura, você toma um dinheiro emprestado em um banco e às vezes você não tira. Trabalha, trabalha, trabalha e não tira, chega no final do ano você tem que pagar, você tem que tirar um bezerro dali, um bezerro de lá e vai ter que pagar para você não 285 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 142 perder a sua terra, para sua terra não ser hipotecada... então ele falou: – Hoje eu tenho eucalipto lá cem hectares, duzentos mais novas, cem hectares mais velha. Diz ele que depois de um período de dois anos a Aracruz paga dois por cento ao ano por hectares, aí ele falou: – Jorge eu estou ganhando por ano trinta mil, sem fazer nada, ganhando sem fazer nada. Só que ele é um cara que ele, ele cria o boi dentro do eucalipto, então ele não acabou, só que ele não mexe com a agricultura mais, então a vantagem do eucalipto é isso. Ele mesmo e o filho dele que cuida do eucalipto, só vai ter mão-deobra a partir do corte. Aí como é que fica? Como é que a pessoa sobrevive? Não tem como.286 Essas informações trazem a idéia de um contraste entre a atividade da eucaliptocultura e a atividade agrícola. Explicita os riscos inerentes a esta última em razão das exigências de investimento, por exemplo, com o processo de irrigação. Este processo obrigava o camponês a contrair empréstimos em bancos, quase sempre hipotecando a terra. O não pagamento da dívida podia implicar a perda da propriedade para a instituição credora. Por outro lado, o cultivo do eucalipto não exigia irrigação e, além da diminuição dos custos com a mão-de-obra, contava com os recursos das empresas através da prática do fomento. Em relação à situação do amigo ao qual o entrevistado faz referência, convém frisar a existência da criação de gado dentro da plantação de eucalipto, traduzida pelo senhor Jorge como uma permanência: “Só que ele é um cara que ele, ele cria o boi dentro do eucalipto, então ele não acabou, [...].” Em Helvécia, o plantio do eucalipto em consórcio com a pecuária foi uma das maneiras encontradas por alguns dos proprietários de terra, que aderiram à eucaliptocultura, para continuarem a desenvolver seus antigos labores. No que diz respeito à prática do fomento, esta, muitas vezes, foi lida por alguns camponeses, não só como sendo certeza de ganhos, como também de ganhos sem grandes esforços. Segundo senhor Jorge, ele ouviu de um outro camponês: “Jorge eu estou ganhando por ano trinta mil, sem fazer nada, ganhando sem fazer nada.”287 Entretanto, em relação ao fomento, existem na comunidade vozes que destoam: O fomento, ela [referindo-se à “firma”] entra com todas as despesas, um exemplo assim, eu tenho a minha terra lá, o que está influindo é isso, quem tem suas terras prontas para venda, manga, está tudo beneficiado, aí ela paga trezentos e cinqüenta reais por hectares, aí 286 287 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 143 esses trezentos e cinqüenta reais é para você limpar sua terra, estocar, tirar toco, mas quem tem suas terras tudo prontinha, ele pega esses trezentos e cinqüenta e sem, sem fazer nada, ali já é meu, a terra está ali e pronto. Mas só que ele, o que eu vejo, o fomento para quem não tem opção nenhuma é a melhor coisa para quem não tem opção, mas só que a partir do momento que ela ganha ali ela já está pagando sua madeira, daqui seis anos ela já está começando pagar, quando chega daqui dois anos ela paga dois por cento em cima do valor dos hectares que vai tirar, ela faz um cálculo lá e paga, está te pagando, você não está percebendo que está te pagando, quando chega a época de você cortar aí você vai ver o peso, o desconto, quanto é aquele adubo, aquela muda, aquela herbicida, aquele dinheiro que te deu para destocar, aí ela quer tudo em madeira, mas lá na fábrica não é aqui na roça não, tem que pagar o frete. Então é bom, para quem não tem opção, mais ela cobra tudinho, ela está incentivando, mas ela deu não, ela quer tudo de volta.288 A riqueza desta fala consiste na descrição dos detalhes que envolvem a transação do fomento. Em primeiro lugar, fica claro o interesse das firmas na expansão do plantio de eucalipto. Diferente do momento de chegada ao distrito, em que as mesmas faziam oferta de compra das terras, o meio utilizado para atingir o objetivo passou a ser o fomento. Acertado o acordo entre o dono da terra e os representantes das empresas de eucalipto, iniciava-se o investimento. O primeiro incentivo era em forma de recursos para que fosse feita a limpeza da terra, “limpar sua terra, estocar, tirar toco”. Os camponeses que tinham sua terra já preparada para o plantio levavam vantagem em relação aos demais, pois embolsavam o valor, investindo-o em outros negócios. Em seguida, o camponês recebia o adubo, as mudas, os herbicidas. Os valores correspondentes a estes produtos seriam descontados ao final do contrato, afinal, como asseverou o senhor Jorge, “ela está incentivando, mas ela deu não, ela quer tudo de volta”. Através deste mecanismo, as empresas estabelecem com os proprietários de terra uma relação na qual eles irão contribuir com suas produções para que ela atinja suas metas de produtividade. Neste tipo de contrato, não se configura uma relação patrão e empregado. Desta forma, não cabe às empresas o ônus com o pagamento de direitos trabalhistas e impostos, o que significa diminuição nos custos da produção. Havia/há ainda um outro expediente, usado pelas firmas de eucalipto para “convencer” as pessoas a aderirem àquele cultivo. Este consistia em “ilhar” as pessoas. 288 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007 (grifo da autora). 144 Assim, por exemplo, eu tenho a terra aqui e oferecendo um valor mais alto que sua terra vale, as pessoas sentem seduzidas por isso, pagando mais pelas terras e você fica ali cercada, aí você acaba vendendo. Eu vendo a minha, você vende a sua e fica ali no meio e aquilo é uma pressão muito grande, a pessoa acaba ali se sentindo sufocada e fazendo a mesma coisa vendendo suas terras, [...]. 289 Dentro da lógica capitalista, atender às necessidades do mercado e obter lucros ofertando aquilo que estava sendo demandado justificava, para os representantes da Aracruz e Suzano, o uso de diferentes estratégias, no sentido de expandir a área de cultivo do eucalipto. Viver com eucaliptos não era somente uma escolha feita pelos donos de terra. Em Helvécia, viver com eucaliptos, era/é uma realidade que estava associada à expansão do capital e ao aumento da demanda do mercado internacional. Entre 1980 e 1992, a produção brasileira de celulose para exportação cresceu cerca de 83% e as maiores empresas do complexo agroindustrial de celulose de mercado (Aracruz, Cenibra, Riocell, Monte Dourado e Bahia Sul), todas constituídas entre os finais das décadas de 60 e 80, foram consideradas os atores responsáveis pela especialização do país como o principal exportador de celulose de fibra curta de eucalipto. Assim, o Brasil passou a ocupar, em 1993, o quarto lugar no ranking mundial de produção e exportação de celulose de mercado e o primeiro no que se refere à celulose de fibra curta de eucalipto.290 Satisfazer essa demanda do mercado exigia das empresas ações que garantissem atingir suas metas de produtividade, vendas e lucros. Uma das estratégias utilizadas neste sentido foi exatamente incrementar a prática do fomento. Assim, em um mercado ávido pelo produto, também para alguns dos proprietários/posseiros de terra em Helvécia, produzir eucalipto, dentro dos padrões exigidos pelas “firmas”, significava a possibilidade de obter algum ganho e, em última instância, garantir a propriedade de sua terra. Ocorre que ao fazer este contrato, os camponeses também ficavam sujeitos às oscilações do mercado, e estas se faziam/fazem presentes no cotidiano dos camponeses de Helvécia.291 289 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Ricardo Constantino em 15 ago. 2007. Gertner et al (1997) e Kenny (1997). In: José Célio Silveira Andrade. Conflito, cooperação e convenções: a dimensão político-institucional das estratégias sócio-ambientais da Aracruz Celulose S. A. (1990-1999). Tese de doutorado em Administração, Escola de Administração, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2000, p. 67. 291 Em razão do agravamento da crise mundial, há uma onda de temor no Extremo Sul baiano, uma vez que a Aracruz Celulose já sinalizou o rompimento dos contratos de fomento. Caso isso ocorra, os camponeses dependentes unicamente da eucaliptocultura entrarão em ruína. 290 145 Por outro lado, havia, nas relações de mercado, mais do que a demanda pelo crescimento da eucaliptocultura. O incremento da competitividade no mercado internacional estabeleceu novos padrões de regulação, nos quais “a unidade não é mais propriedade privada individual, mas o seu coletivo, que é o território”.292 O maior incremento a esta prática, em substituição a compras de terras, após o reconhecimento do distrito como área remanescente de quilombo, tanto pode está ligado ao fenômeno capitalista, de se apropriar da renda da terra sem ter sua propriedade, como sugerir uma estratégia das empresas de se esquivarem do enfrentamento direto com os habitantes de Helvécia que, a partir daquele momento, passaram a ter amparo das leis no sentido de, independente de terem ou não a titulação individual da terra, poderem continuar vivendo nas mesmas. A respeito das relações estabelecidas na atualidade entre empresas e comunidades, José Graziano da Silva afirma: Não há globalização que funcione sem alguma inserção no território; e o território é por definição um espaço local. A globalização revaloriza o território como um espaço onde os agentes sociais fazem compromissos, acordos, estabelecem programas. Por isso, cada vez mais as formas de controle social emergem a nível dos municípios, das comunidades.293 Desta forma, não interessava, por exemplo, às empresas Aracruz Celulose ou Suzano Bahia Sul Celulose terem os seus nomes envolvidos em uma situação de conflito de terras com integrantes daquela comunidade, sob pena de implicar perdas comerciais e de imagem. Diante daquela realidade, em que Helvécia foi reconhecida como área remanescente de quilombo, as empresas de eucalipto que atuavam na comunidade precisavam fazer notar suas ações de responsabilidade social, no viver com eucaliptos. A este respeito, a Suzano Papel e Celulose, em material intitulado “Uma história de Sucesso”, divulgado através do seu site,’ informava: A Bahia Sul Celulose segue uma gestão transparente e fundamentada na ética e adota o respeito às pessoas e ao meio ambiente como princípio fundamental de sua atividade. Desde a sua implantação no final da década de 1980, no Extremo Sul da Bahia, a 292 José Graziano da Silva. A globalização da agricultura. Palestra proferida no Centro Nacional de Pesquisa de Monitoramento e Avaliação de Impacto Ambiental (CNPMA) da Embrapa. Jaguariúna, 24/4/97. Publicado em Silveira, M. e S. Vilela (eds.). Globalização e a Sustentabilidade da Agricultura. Jaguariuna: Embrapa Meio Ambiente, 1998. p. 7. 293 Idem, p. 9. 146 empresa vem contribuindo para fomentar o desenvolvimento da região. Investimentos de porte garantiram a construção de vilas residenciais, escolas, hospital, estradas e infra-estrutura para comunicação, trazendo benefícios diretos para os moradores locais. Passados mais de dez anos da sua instalação, a Bahia Sul Celulose continua a incentivar programas voltados para o desenvolvimento regional e a incentivar e promover ações, com ênfase nas áreas de educação e saúde, contribuindo para o processo de inclusão social da população local. Promover o desenvolvimento em bases sustentáveis e tornar a cultura acessível para a população carente da região sul da Bahia são os dois grandes desafios da Bahia Sul Celulose. Desafios que a empresa adotou como metas – e que vêm sendo atingidas.294 . Qual terá sido a ética que fundamentou a estratégia, revelada por Roseli Constantino, de ilhar pessoas? Em que medida aquelas pessoas que viveram sob pressão tão bem descritas pela entrevistada foram respeitadas? 3.1 RESISTÊNCIAS MIÚDAS James Scott faz uma crítica aos estudos sobre camponeses que valorizam unicamente as atuações destes, quando elas implicam algum tipo de perda significativa para o Estado ou para a ordem vigente. Por aquilo que foi apresentado até o momento, é possível afirmar que as ações dos camponeses em Helvécia nas suas relações com o agronegócio do eucalipto não implicaram obstáculos que comprometessem o desenvolvimento dos projetos das empresas que ali atuam desde 1980. Entretanto este dado não deve ser motivo de recusa em se realizar estudos dos camponeses como sujeitos históricos que participam no processo de construção de sua realidade, transformando-os, como também nos alerta Scott, em meros “[...] contribuidores mais ou menos anônimos para as estatísticas sobre densidade populacional, impostos, migração da mão-de-obra, propriedade de terras e a produção agrícola”.295 Outra maneira de não registrar os camponeses como sujeitos históricos pode ser encobrindo as fissuras existentes entre os seus projetos de vida e os das empresas de eucalipto através de estudos que, ao fazer uso de análises macro, acabam por desconsiderar os indivíduos. Seria o caso, por exemplo, de autores de 294 http://www.suzano.com.br/suzano/responsabilidade_social/balanco_social.pdf James C. Scott. Formas cotidianas da resistência camponesa. Revista de Ciências Sociais e Econômicas. Universidade Federal de Campina Grande, Programa de Pós-graduação em Sociologia, vol. 1, n° 1, p. 11, jul./dez., 1982. 295 147 um artigo sobre a sustentabilidade da produção industrial de eucalipto no estado da Bahia, no qual afirmam que “a presença de investimentos florestal e agroindustrial tem gerado um impacto na região, alterando a organização socioeconômica e inaugurando na região uma nova lógica de crescimento econômico”296, e apresentam dados a respeito do crescimento de renda per capita, bem como comprovações do aumento do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal. Eles não apresentam os camponeses como atores históricos, uma vez que não discutem os significados das alterações sinalizadas para as pessoas que viviam/vivem naquela região, suas ações e reações em relação às mudanças e permanências processadas, não somente no universo socioeconômico, como também cultural e político. Ainda segundo Scott, a ênfase nas rebeliões camponesas deveria considerar a luta cotidiana “entre os camponeses e aqueles que querem extrair deles o trabalho, o alimento, os impostos, os aluguéis e os lucros”.297 Ele salienta que, mesmo os fracassos, muitas vezes resultantes destes embates, podem representar algum ganho, em forma, por exemplo, de determinada concessão por parte do Estado, uma pequena pausa em relação ao ritmo das novas formas de produção, ou ainda uma memória de resistência que nortearia as ações futuras dos camponeses. Scott, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a possibilidade da existência destes ganhos, destaca, entretanto, sua incerteza, contrapondo-a à certeza da existência de repressão por parte dos grupos que detêm o poder. 3.1.1 “PIOR DE TUDO É NADA, NÉ?” Um camponês de Helvécia, senhor Kemi Krull, após falar dos bons tempos e de suas memórias sobre as festas e a fartura do comércio na localidade, rememorou o tempo da eucaliptocultura. Falou de sua labuta na terra e das dificuldades do tempo de agora, da “dureza do cotidiano”:298 [...] já hoje em dia... Se por acaso o camarada levar três sacos de farinha em Helvécia ele pede graças a Deus se vende nem que seja 296 Jorge Emanuel Reis Cajazeiras, José Carlos Barbieri e Dirceu da Silva. Estudo da sustentabilidade regional da produção industrial de eucalipto no estado da Bahia, s.l., s.ed., s.d., p. 4 (material enviado pela Suzano Papel e Celulose, por e-mail, para a autora). 297 James C. Scott. “Formas cotidianas da resistência camponesa”, op. cit., p. 11. 298 Idem, p. 18. 148 dois sacos ou um, quer dizer, nessa parte aí caiu, muito, muito, muito mesmo. Nem roça está existindo mais né? Acabou tudo, acabou tudo rapaz [dirigindo-se a um senhor que estava presente durante a entrevista], tudo, tudo, todo lado que a gente olha é só eucalipto, mas vamos dizer que está bom né? Que serve também né? Porque vamos dizer, se eu vender dois, três sacos de farinha, quem vai comprar essa farinha é o povo que trabalha na firma, quer dizer que de qualquer maneira eu estou ganhando dinheiro que a pessoa está ganhando na firma.299 Quando falou da dificuldade de vender os produtos da terra, “[...] já hoje em dia se por acaso o camarada levar três sacos de farinha em Helvécia ele pede graças a Deus se vende nem que seja dois sacos ou um, [...]”, é razoável que se diga aqui que esta pode ter sido uma experiência de sua própria labuta, sendo possível que ele tenha sido “o camarada” que levou sacos de farinha para vender no comércio de Helvécia e encontrou dificuldades para fazê-lo. Alguns registros fotográficos feitos no momento da entrevista podem contribuir para que se compreenda, a partir da análise das imagens, o lugar ocupado pelo senhor Kemi Krull, ou seja, a partir de que lugar aquele camponês está falando. Figura 6 – Barracão na propriedade do senhor Kemi Krull, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. 299 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 149 Este barracão (cf. figura 6) está localizado em sua propriedade. Se nos ativéssemos a olhar apenas esta primeira foto, poderíamos fazer uma leitura panorâmica: é um galpão, coberto com tabuinhas, de difícil definição quanto ao seu uso. Nesta fotografia/panorama, tem-se a impressão de um ambiente caótico (cf. figura 6). Uma vara de bambu, utilizada como suporte para pendurar apetrechos, apoiada sobre a tesoura de sustentação do galpão, ao lado direito uma corda amarrada com um frouxo nó, várias cordas de embira dispostas na trave central, um tampo de madeira apoiado no lado direito mais ou menos em baixo da segunda trave, um feixe de tábuas junto ao esteio central, entre outros objetos que parecem estar ali, simplesmente, amontoados. Entretanto, se utilizássemos lentes próprias para captar os elementos que compunham o espaço fotografado, estas seriam capazes de atribuir funções/vida aos objetos aparentemente desprovidos de funções/mortos. Talvez com essa lente fosse revelado que as cordas de embira, à esquerda, na primeira estaca de sustentação do galpão, teriam utilidade precisa na lida com os animais, nas amarras de feixes de lenha; as peneiras, com aros de madeira, penduradas logo na estaca posterior, um pouco à esquerda das cordas de embira, seriam usadas no processo de peneirar a farinha; a bicicleta verde, encostada no tonel vermelho, poderia ser empregada como meio de transporte da produção de farinha até o povoado de Helvécia. Passaríamos a ver, a partir do uso dessas lentes sensíveis, que estes objetos podem ser representados por um sistema, com suas funções precisas e complementares, associadas ao universo de produção daquela micropropriedade e das pessoas que ali vivem. Para melhor visualizar os artefatos existentes naquele galpão, fundamentais no processo de produção da farinha, feita pelo senhor Krull e sua esposa, vale operar cortes fotográficos, de primeiro plano, na tentativa de contribuir para a identificação e função daqueles instrumentos de trabalho dispostos ao fundo do galpão (cf. figura 6). 150 Figura 7 – Prensa manual, propriedade do senhor Kemi Krull, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Figura 8 – Cocho, propriedade do senhor Kemi Krull, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. 151 Figura 9 – Forno, propriedade do senhor Kemi Krull, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. A seqüência de imagens (cf. figuras 7, 8 e 9) indica o processo de produção da farinha. A mandioca, cultivada na gleba pelo senhor Krull e esposa, era descascada e levada até a prensa artesanal (cf. figura 7), ali era processada e armazenada no cocho (cf. figura 8), para só então ser levada até o forno (cf. figura 9) e torrada. Estes registros visuais representam uma permanência que, muitas vezes, se oculta ante as imagens da sociedade moderna do agronegócio do eucalipto. Talvez por isso, agora, seja preciso explicá-las detalhadamente, para que as mesmas possam informar que aquele universo está vivo. A respeito do destino da farinha produzida, aquele camponês contou que “quando dá para vender a gente vende, quando não dá o consumo é da casa mesmo”.300 E continuou dizendo que a venda, quando ocorria, era feita na feira de Teixeira de Freitas: “É exatamente em Teixeira, tem vez que o preço está bom, tem vez que está ruim, mas pior de tudo é nada né?”301 Este deslocamento de camponeses de Helvécia para os lugares próximos em busca de mercado consumidor para seus parcos produtos nos sugere que aquele distrito já não mais 300 301 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 152 vivia nos tempos da estação, nos tempos do comércio “promissor”, e que diante de uma impossibilidade real, no presente, de transformar aquela situação, os camponeses ajustavam suas ações às circunstâncias existentes. Scott afirma que essas adaptações possuem um caráter pragmático, o que significa que as mesmas não implicam a exclusão de certas formas de resistência, ao mesmo tempo em que se adaptar “não implica um consentimento normativo daquelas realidades”.302 Continuando sua narração, o senhor Krull, alinhavou a dificuldade em comercializar não só a partir da desativação da estrada de ferro Bahia-Minas como também devido à inexistência de roças na região. Sua fala explicitava sua experiência: “[...] nem roça está existindo mais né? Acabou tudo, acabou tudo rapaz,303 tudo, tudo, todo lado que a gente olha é só eucalipto, [...]”304 É bom que se informe que o entrevistado que afirma que acabou tudo e diz que olhando só se vê eucalipto, estava fazendo uma descrição do ambiente no qual ele se encontrava quando da entrevista. O encontro com o senhor Kemi Krull se deu na sua pequena e isolada propriedade, cercada pela plantação de eucalipto. A constatação de que “acabou tudo” é indicativo da solidão em que ele se encontrava. Acabou o contexto de pequenas propriedades que compunham a sua vizinhança. A sua gleba de terra, pelo simples fato de ter se mantido naquele lugar, adquiriu a condição de elemento extraordinário. Ao mesmo tempo em que o senhor Krull é exemplo de permanência, é também testemunha ocular das mudanças. O impacto da magnitude destas foi sentido por ele de tal forma que a sua manifestação sobre o assunto suprime um dado essencial, qual seja, o fato de que ele é a prova viva de que nem tudo havia acabado. Por outro lado, caberia uma indagação. Em certo sentido, o senhor Kemi Krull não teria razão quando afirma que tudo acabou? Responder a esta questão implica compreender o que é esse “tudo” por ele mencionado. Já foi indicado que ele é um “resto”, quando antes ele era uma parte no interior de um modelo vigoroso de laços sociais, econômicos e culturais. Portanto, a sua permanência em condição de isolamento tal como passou a ser deve ser interpretada também como sinal de que 302 James C. Scott. Formas cotidianas da resistência camponesa, op. cit., p. 18. Esclareço que no dia da entrevista com o senhor Kemi Krull, fui levada até a sua roça pelo senhor Jorge, que, sendo de Helvécia, me apresentou e acompanhou a referida entrevista, daí em sua fala o senhor Kemi Krull ter se referido a um “rapaz”. 304 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 303 153 “tudo acabou”. E neste “desmantelamento” ele passou a forjar novos arranjos e maneiras de atuar no novo cenário. [...] mas vamos dizer que está bom né? Que serve também né? Porque vamos dizer, se eu vender dois, três sacos de farinha, quem vai comprar essa farinha é o povo que trabalha na firma, quer dizer que de qualquer maneira eu estou ganhando dinheiro que a pessoa está ganhando na firma.305 Este tipo de prática e reflexão sobre a prática mostra a sabedoria do entrevistado em lidar com as transformações que estavam sendo processadas em Helvécia sem abrir mão dos seus saberes. A permanência da produção da casa de farinha em sua propriedade, apesar das perdas que aquele labor havia acumulado ao longo dos anos, foi lida por mim como sendo uma espécie de “memória da resistência” diária do senhor Krull e de sua esposa Benedita. 3.1.2 “EU NÃO VOU VIVER DE PAU” Levando-se em conta o caráter de permanência, além do senhor Krull, identifiquei dois outros pequenos proprietários resistentes à venda de suas terras. Estas três glebas estão localizadas distantes umas das outras, e podem ser representadas como três ilhas, cercadas pelo eucalipto, tal como os próprios entrevistados se referiram. Esta diluição no “mar de eucaliptos” não contribuiu para que se pudesse pensar na existência dessas glebas como parte de um movimento de resistência devidamente organizado, com estratégias de enfrentamento comum. Há na história de vida destes pequenos proprietários, entretanto, alguns pontos similares. Em primeiro lugar, de acordo com as entrevistas, foi possível observar um caráter de tenacidade nestes homens, expresso nas suas falas fluentes, de narradores natos, e também na “[...] corporeidade, o peso, o calor, o volume real do corpo, do qual a voz é apenas expansão”.306 Todos eles viveram longos e diferentes tempos em Helvécia, à época das entrevistas, suas idades variavam de 64 a 84 anos. Em dois dos casos pode-se observar que tal resistência era objeto de certo embate familiar, pois membros da geração mais nova da família eram, por vezes, favoráveis à venda das terras; os pais, por seu turno, se opunham 305 306 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. Paul Zumthor. Perfomance, recepção, leitura. São Paulo: EDUC, 2000, p. 19. 154 e chamavam para si a condição de poder e autoridade para decidir sobre o futuro da propriedade. Em relação a esta questão, quando perguntei ao senhor Norberto se ele já havia recebido alguma oferta de compra de suas terras por parte das firmas de eucalipto, ele enfaticamente respondeu: Fica calado. Filho que vem com bestagem, eu não dou. Filho, no dia que filho de ser pai eu mudo dessa vida. Eu fui filho, eu não atentou meu pai. Ah, que botar, aqui não bota. Bota batata, bota mamão, bota abacaxi, bota o que for, mas, eu trabalhei quinze anos, eu trabalhei encostado do viveiro [referia-se a um viveiro de mudas de eucaliptos], eu não trouxe uma muda de eucalipto para o meu lugar, eu não vou viver de pau, eu vou viver de alimento. Chega lá tira meus coco, panho uma coisa que eu quero, mas é coisa de alimentar, não dou não, não dou não, meus filhos plantou uma areazinha lá, trouxe duas caixas de eucalipto, botou lá, disseram que era para fazer cerca, mas eu não dou liberdade, eu ensinei vocês o que presta, o que não presta vocês aprenderam [...]307 O entrevistado não cogitava a venda de suas terras, “Filho que vem com bestagem, eu não dou”. Ele nem mesmo queria em sua gleba a presença de plantios de mudas de eucalipto, nem para o uso da madeira como cerca. O senhor Norberto apresentou sua terra como o seu lugar de produção de alimentos e foi enfático ao dizer “eu não vou viver de pau”. Havia uma indicação de que aqueles homens queriam demonstrar que estavam vivos e eram eles que comandavam as suas vidas e garantiam a segurança dos seus descendentes, atuando conforme ensinamentos recebidos de seus progenitores. Essa era uma resistência saboreada como sendo um ganho, “uma memória da resistência e da coragem que pode servir para o futuro”308. Igual eu, tenho pouca leitura, já tenho uma experienciazinha que meu pai sempre falava com a gente: – Olha você tem que crescer, trabalhar para ter suas coisas, não vai na conversa de ninguém. [...] Olha quando o meu pai morreu, eu estava com dezessete anos de idade, graças a Deus nunca saí de cima da terra que ele deixou para nós, até hoje estou com ela e eu estou com setenta e sete anos, estou em cima dela. Vou lá pego meu trator, vou lá para a roça, trabalho. Tem o meu genro, nós sempre trabalha junto, pego um animal vou juntar o gado no campo e dessa maneira. E se não tiver como é que vai fazer? Fica pior, meu neto chega aqui, tudo chega 307 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007 (grifos da autora). 308 James C. Scott. “Formas cotidianas da resistência camponesa”, op. cit., p. 11. 155 aqui, fala: – Ah eu vou na roça hoje! Mas por causa de quê? Que tem alguma coisa lá e se não tivesse? Fica difícil, fica difícil.309 Conforme as recordações do senhor Sérvulo, havia, no momento da entrevista, uma possibilidade de desfrutar de certo sentimento de vitória no que se referia à decisão, tomada no passado: A gente se sente bem porque justamente amanhã se eu morrer de hoje para amanhã largo para eles né? Se eles quiserem vender aí é caso deles, não estou vendo nada entendeu? E eu vou deixar igual o meu pai deixou aí, não vendo não, se vender vai para a pior né?310 A decisão, de não ceder às propostas de compra de suas terras pelas empresas de eucalipto ou seus intermediários, foi inicialmente vista, por muitos membros da comunidade, como despropositada: Ave Maria, eu tive oferta, teve carrão aí na minha porta, eu disse: – Rapaz você acha que eu vou trocar a minha terra por um carro? Sou algum palhaço? Então foi o que aconteceu e hoje eu tenho minha terra. Está lá, tenho minhas vaquinhas, tenho meu trator, estou com vinte e poucos alqueires de terra e nós estamos vivendo. Aposentei por ali, minha mulher aposentou nessa terra, então é o que aconteceu, vi vários aí que todo mundo tinha terra e hoje ninguém tem mais nada e cadê emprego? Cadê?311 Essa atitude de vanglória chegou mesmo a ser exacerbada. Pude constatá-la, por exemplo, ao presenciar um diálogo do senhor Sérvulo com o senhor Gabriel Cercílio Monteiro, em que o primeiro falava das vantagens que lhes coubera por não ter cedido às pressões outrora feitas para que vendesse sua propriedade, ao mesmo tempo que zombava do amigo por ele não ter agido da mesma forma. Este, por sua vez, se defendia: “O que já foi já foi, o que já foi ninguém vai mais contar né? Eu já estou com setenta e quatro anos de idade, já foi, já vendeu, pode ser por mil réis, pode ser por dois, pode ser por três.”312 A voz não chegava a ser embargada, mas não era uma voz altiva. Ao contrário do amigo, o senhor Gabriel não queria falar do passado, insistia que não fazia sentido ficar falando do que passara, importava o presente, e, no presente, ainda lhe restava um pedaço de terra. 309 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino.Filho em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino.Filho em 15 ago. 2007. 311 Entrevista concedida à autora pelo sr. Servulo Constantino.Filho em 15 ago. 2007. 312 Entrevista concedida à autora pelo sr. Gabriel Cercílio Monteiro em 15 ago. 2007. 310 156 Quando perguntei ao senhor Gabriel se ele havia vendido muita terra para as empresas de eucalipto, antes que ele tomasse a palavra, o senhor Sérvulo se antepôs, respondendo: “Vendeu, ele tinha para mais de quarenta alqueires313 de terra não era? Mas ele ainda ficou arranjado, está com dois alqueires de terra, dentro da rua, ele estava bem, terra boa, lá na Jacutinga.”314 Ao ouvir do amigo aquele comentário, o senhor Gabriel, com voz que indicava constrangimento, disse: “Estando com saúde está bom, o ruim é ficar doente e morrer, não é?”315 Esse diálogo pode ser interpretado como uma espécie de acerto de contas entre as duas posições antagônicas aqui indicadas. Inicialmente, é possível que tenha cabido ao senhor Gabriel a posição daquele que zomba, diante da resistência do amigo Sérvulo em não vender a sua terra, em se recusar a fazer um “excelente negócio”. Imediatamente após a venda, o senhor Gabriel estaria cheio de razão. Posteriormente, houve a inversão de papéis. Isto consiste no que chamei de acerto de contas. No que tange às semelhanças entre as experiências do senhor Krull, do senhor Sérvulo e do senhor Norberto, é perceptível, a partir das respostas dadas, que eles apesar das idades avançadas, continuavam atuando diretamente em suas propriedades e desenvolvendo a prática agrícola. A narrativa a seguir fala da variedade da produção agrícola, mas está centrada no tempo presente, no tempo da eucaliptocultura: Aqui tem banana plantada, tem laranjeira, tem abacaxi, mandioca, feijão de corda, tem coqueiro, jaqueira, tudo isso tem né? Agora não planto mais coisa, vamos dizer uma melancia, abóbora, falta de condição e outra que aqui nessa área aqui não tem água, disse que vai puxar energia e nunca que essa energia aparece né? Todo ano o imposto eu pago, todo ano eu pago, mês que vem é hora de pagar o imposto e acabando, cadê? Nada da energia, mas Deus é bom, Deus dá o poder.316 O senhor Krul nos falou da existência de uma produção variada, e ao fazê-lo nos permitiu conhecer um pouco dos seus hábitos alimentares, daquilo que, produzido por ele, compunha, na atualidade, sua mesa. As dificuldades de produção aparecem nesta fala associada à ineficiência do poder público, que cobra impostos sem, em contrapartida, disponibilizar os serviços necessários ao bem-estar dos 313 Na Bahia o alqueire corresponde a 19.36 hectares. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. 315 Entrevista concedida à autora pelo sr. Gabriel Cercílio Monteiro em 15 ago. 2007 316 Entrevista concedida à autora pelo sr. Kemi Krull em 15 ago. 2007. 314 157 indivíduos da comunidade. Diante desta constatação, o senhor Krull finaliza o trecho de sua fala recorrendo às suas crenças, ao poder divino, que sendo bom, dará, senão a energia, o poder. O senhor Sérvulo, por sua vez, também nos falou dos cultivos que continua a desenvolver em sua propriedade: Lá eu tenho, nós temos roça de mandioca, planto milho, feijão, melancia, abóbora, entendeu? Crio gado, animal, você entendeu? E também laranja, coco, jaqueira. É, graças a Deus, nós plantou maracujá, fizemos uma roça de maracujá muito grande, e agora nós vamos fazer outra, se Deus quiser.317 A recorrência à força divina também apareceu nesta fala. Viver com eucaliptos era uma tarefa que demandava a necessidade de outros apoios. Quanto ao senhor Norberto, ao entrevistá-lo, fiz perguntas utilizando o tempo verbal no passado, e ele, ao respondê-las, enfatizou a idéia da permanência. Ao analisar as, respostas identifiquei uma fricção entre aquilo que o narrador tinha a dizer e minha falta de sensibilidade, naquele momento, em perceber o que estava acontecendo. Era como se eu não estivesse vendo que o senhor Norberto me falava de suas ações no tempo presente. Quando fiz a primeira pergunta – “E quando o senhor era mais jovem, trabalhando na terra, como é que era? O que o senhor lembra, quando saía para trabalhar na terra, para lidar com a terra, como era, seu Norberto?318” –, referia-me às lembranças do trabalho na terra quando ele era jovem. Mas o trabalho na terra continuava a fazer parte da sua vida, ele não precisava recorrer àquele artifício que eu criara na pergunta, tempos da juventude, para lembrar da dinâmica do seu trabalho na terra. Eu lido com a terra era braçalmente, na minha caneta, machado. Olha, assunta bem: facão, foice, enxada e machado e outra sombra minha na minha caneta, eu não tombo terra, meu tombo quem dá sou eu. – Pesquisadora – Essa terra que o senhor trabalhava era do senhor? – Senhor Norberto – Que eu trabalho é minha...319 317 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. Pergunta feita pela pesquisadora no decorrer da entrevista com o sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. 319 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007 (grifos da autora). 318 158 A caneta, a qual o entrevistado se referia, era sua enxada. Curiosa alusão ele fizera, ao ser entrevistado por alguém da universidade, a respeito do orgulho que tinha de sua caneta, com a qual ele limpava, revirava a terra, abria sulcos, preparava a terra para acolher as mudas de abacaxi, as raízes de maniva. Sua “caneta” dizia de si, daquilo que o senhor Norberto era e fazia, tanto que, após a entrevista, que ocorreu em Helvécia, fui levá-lo em sua propriedade e, ao chegar à sua casa, ele abriu a porta, pegou a enxada, que estava atrás da porta, e me apresentou com orgulho a “sua caneta” (cf. figura 10). Figura 10 – Residência do camponês Manoel Norberto Henrique de Sena, outubro 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Esta é uma imagem rica. A vida daquele camponês, que lida braçalmente na terra, é organizada, naquele espaço, de forma a mostrar como diferentes dimensões se entrelaçam na construção de sua vida. Antes de proceder a análise, é necessário lembrar-se da existência na fotografia de uma pluralidade de sentidos,320 tanto no lado do fotógrafo quanto no lado do fotografado e do espectador da fotografia. No mesmo espaço havia um fogão, que desempenhava naquele momento a função de suporte para colocar os mantimentos que ele havia comprado em Helvécia. Uma bacia ao lado do mesmo indicava que aquele utensílio era utilizado 320 José de Souza Martins. Sociologia da fotografia. São Paulo: Contexto, 2008. 159 para lavar os pratos, e nos falava também da ausência de água encanada. Outra ausência aparece nesta imagem, não havia lâmpadas, a energia elétrica não havia chegado àquela pequena propriedade. A existência de uma única cadeira dizia da ausência de outros integrantes da família do senhor Norberto, da solidão daquele camponês nos momentos de refeição, de oração. O espaço central daquela casa nos fazia ver a importância do sagrado, do divino, na vida de seu dono. Na parede várias imagens de santos, na mesa, coberta por uma toalha branca, um oratório rústico com duas imagens de santos, além de símbolos cristãos como uma cruz. Um copo com água, tampado com um pires, logo à frente do oratório, talvez sugerisse a presença concomitante de outros símbolos, outras crenças. A força do divino estava presente no cotidiano daquele camponês, assim como havia aparecido nas falas do senhor Krull e do senhor Sérvulo. Do outro lado da mesa um filtro de barro e sobre ele um copo. Li essa organização como sendo as fontes de alimentação daquele homem. Naquela mesma parede, lado a lado, havia o lugar da comida, das suas crenças, e da água. Alguns instrumentos de trabalho, como a enxada e uma bota apropriada para a lida no campo (cf. figura 11), estavam dispostos atrás da porta, que era a fronteira com a terra, com a labuta. Figura 11 – Instrumentos de trabalho de um camponês, outubro 2007 Fotografia: Trabalho de campo. 160 As marcas de terra e a disposição destes instrumentos (cf. figura 11) indicavam o seu uso freqüente, pelo senhor Norberto. Eles não estavam guardados, trancados em um armário, mas sim a postos para ser utilizados de pronto, no presente, “eu lido com a terra era braçalmente, na minha caneta [...]”. Quando perguntado se não se sentia sozinho morando ali, o senhor Norberto nos mostrou seu companheiro, um rádio de pilha, que, além das noticias de outras partes do mundo, trazia-lhe entretenimento. Ao falar de suas ações no presente, ressaltando a dimensão do significado de não terem vendido suas terras, aqueles camponeses, talvez, demonstrassem, através desta associação, a evidência de que estavam vivos e íntegros, não apenas em termos físicos, mas também no que se referia ao plano subjetivo, que comporta uma relação de simbiose com a terra, sendo dela parte e junto a ela todo, inteiro. “Minha mãe eu não vendo, quando ela não dá uma coisa ela dá outra. Vocês gostam de dinheiro eu gosto da minha mãe. Ela não acaba, todo o tempo ela é a mesma.”321 Entendo esta ação do senhor Norberto como uma forma de resistência porque parto da seguinte definição proposta por James Scott: Micro-resistência entre camponeses é qualquer ato de membros da classe que tem como intenção mitigar ou negar obrigações (renda, imposto, deferência) cobradas a essa classe por classes superiores (proprietários de terra, o estado, proprietários de máquinas, agiotas ou empresas de empréstimo de dinheiro) ou avançar suas próprias reivindicações (terra, assistência, respeito) em relação às classes superiores.322 .Esses homens precisavam então diuturnamente vestir as suas convicções, independente de todos os julgamentos contrários a elas. Atuavam como se estivessem protegidos de todas as intervenções externas que buscavam desestabilizar as suas posições. Havia que se ter uma teimosia e um senso de perseverança e confiar que um dia aquela resistência miúda iria se revelar razoável, tornando mais uma vez aceitável a existência de pequenas propriedades voltadas para o cultivo de produtos variados. Sobre este aspecto, da existência de outras possibilidades de se organizar a vida diária, é relevante citar uma provocação feita por Edward Thompson: 321 Entrevista concedida à autora pelo sr. Manoel Norberto Henrique de Sena em 14 out. 2007. James C. Scott. “Formas cotidianas da resistência camponesa”, op. cit., p. 24. 322 161 Nunca retornaremos à natureza humana pré-capitalista; mas lembrar como eram seus códigos, expectativas e necessidades alternativas pode renovar nossa gama de percepção de possibilidades implícita no ser humano.323 Talvez tenha sido exatamente essa percepção da existência de outras possibilidades que tenha contribuído para as ações tenazes destes homens, Krull, Norberto e Sérvulo, no sentido de continuarem a organizar suas vidas a partir das relações com a terra. A resistência foi também expressa na fala de uma entrevistada, que, mesmo não possuindo terras, afirmou: “[...] Eu, se eu tivesse minha terra eu não vendia não. Porque a terra não acaba nunca. Eu não [...].”324 Esta fala contrariava muitos dos interesses daqueles que chegaram a Helvécia propagando as vendas das terras como uma real oportunidade de aquisição de segurança e tranqüilidade. Na experiência de dona Cocota, com seus 100 anos de idade, não funcionava assim: “[...] Esse dinheiro eu como, e ele acaba. E a terra não acaba nunca, cria eu, cria quem vem...325” 3.1.3 ENTRE FACHO E PREGUIÇA – VIVER DO CARVÃO Em Helvécia, apesar das ressalvas e dos titubeios, identifiquei que a retirada do facho dos eucaliptais, para ser transformado em carvão, fazia parte do cotidiano das pessoas do lugar. [...] Hoje em dia se vê o... É, é até feio a gente falar. Hoje o pessoal... saindo assim de noite, pegando esses eucalipto, por causa de quê? Por causa do eucalipto. Se não fosse os eucalipto. [...] Hoje os quintal tudo cheio de forno aí vira essa fumaceira. Essa fumaça tá fazendo o quê? Causando o quê? Uma doença. Dentro do Comércio, cheio de fumaça, né? De calvão. Por causa de quê? Por causa do eucalipto.326 A fala da senhora Maria de Jesus Joaquim Santos, 59 anos, dimensiona o significado daquela prática para muitos dos integrantes da comunidade: “É, é até feio a gente falar.” A entrada sorrateira, nas plantações de eucalipto, feita 323 Edward P. Thompson. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 23. Entrevista concedida à autora pela sra. Maria Conceição, dona Cocota, em 14 out. 2007. 325 Entrevista concedida à autora pela sra. Maria Conceição, dona Cocota, em 14 out. 2007. 326 Entrevista concedida à autora pela sra. Maria de Jesus Joaquim Santos em 15 ago. 2007. 324 162 normalmente na calada da noite, por pessoas protegidas pelo anonimato, se apresentava/apresenta visível nas construções dos artefatos necessários à produção do carvão, “[...] os quintal tudo cheio de forno”, bem como nos sinais de fumaça dentro do Comércio, alterando a composição do ar respirado pelos moradores, interferindo na qualidade de saúde daquela população. Esta camponesa nos disse também que aquela atividade não era algo que fazia parte da tradição de labores em Helvécia. O fazer carvão estava associado à introdução da eucaliptocultura naquele distrito. A construção “É, é até feio a gente falar. Hoje o pessoal... saindo assim de noite, pegando esses eucalipto” me instigou a pensar que aquela prática era geradora de conflitos entre seus adeptos e as empresas. Ao entrevistar outras pessoas, abordei a questão e obtive diferentes opiniões. Não, conflito não teve porque aqui a comunidade é muito pacifica, eles não... teve uma época assim que eles [referindo-se aos representantes das empresas de eucalipto] estava exigindo, eles não estava querendo que pegava aqueles facho aí... é o restolho, aqueles restos de resíduos que corta, sobra, não estava querendo, aí em Juerana [Distrito de Caravelas, próximo a Helvécia] tem um... uma grande reivindicação. Botou fogo em ônibus, botou fogo em trator, botou fogo em dois trator, botou fogo em um ônibus, descarregou um caminhão. [...] Aí teve uma discussão lá e tal que esse restolho, esse facho... aí foi indo que liberou. [...] aqui em Helvécia o pessoal pega normalmente, ninguém fala nada, facho eles não perturba. Agora sou contra o camarada entrar lá na área deles, que eles plantam, vai lá e corta, porque teve custo ali. Então, se deu pega, agora se não deu, não pega. Mas conflito nenhum, não teve não.327 O fato de, em Helvécia, não ter havido, como na vizinha Juerana, um confronto explicitado através de reivindicações, queima de tratores e ônibus, polarizando os interesses da comunidade e os das empresas produtoras de eucalipto, quando estas proibiram a retirada do facho, é suficiente para que aceitemos a idéia daquela comunidade como sendo pacífica? E ainda, será que a ausência destes eventos identificadores de uma revolta coletiva pode ser entendida como indicativo de que em Helvécia não haveria nenhum conflito em relação à apropriação do facho? 327 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 163 O que seria feio até de falar, segundo a senhora Maria de Jesus, não estaria associado àquele vestígio que o senhor Jorge deixou entrevisto ao dizer “Agora sou contra o camarada entrar lá na área deles, [...]”? Percebi, nas atividades de campo, que o facho passou a constituir, nas franjas da eucaliptocultura, um elemento importante no desenvolvimento de uma outra atividade econômica, o fabrico do carvão, que estava sendo realizada, não sem obstáculos, por integrantes da comunidade. Como esta atividade, que havia mudado a paisagem dos quintais das casas de Helvécia, se imbricava no cotidiano daquele lugar? Quem eram essas pessoas que produziam carvão? Elas obedeciam às regras, “Então, se deu pega, agora se não deu, não pega”, de aquisição do facho? Como eram tecidas as relações entre os representantes das empresas produtoras de eucalipto e a comunidade quando o assunto era a apropriação do facho? O senhor Jorge comentou a este respeito: Quando corta na área [em que a madeira já havia sido retirada pelas empresas] pega sem problemas. Anteriormente, antes estava sendo... eles estava mandando, quando topava um trator com facho eles mandava descarregar. O pessoal da Visel que toma conta da área mandava descarregar, mas depois que houve esse conflito em Juerana, aí foi liberado.328 Gostaria de problematizar algumas questões presentes nesta fala. Primeiro, parece claro que teria havido um direito baseado no costume,329 as pessoas podiam retirar o facho sem que as empresas se opusessem a isto. Imagino que este direito estivesse associado à retirada do facho em pequenas quantidades, para ser utilizado como lenha pelas famílias que residiam próximas aos eucaliptais. Transportados em lombos de animais, em bicicletas ou mesmo, carregado em forma de feixes, nos braços, ou nas cabeças. Assim, as migalhas do facho eram liberadas, “pega sem problemas”. Entretanto, integrantes da comunidade começaram a perceber que o facho poderia lhes render mais, poderia ser transformado em carvão e vendido para empresas do ramo. Não bastava mais pegar migalhas de facho, era preciso uma quantidade maior, e estas eram transportadas em tratores. Em quantidade, a 328 329 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. Edward P. Thompson. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 164 retirada do facho foi reprimida pelas empresas, “quando topava um trator com facho, eles mandava descarregar”, e tal repressão, no vizinho distrito de Juerana, incitou a população a reivindicar o seu direito, nos moldes que atendessem aos anseios de continuarem produzindo carvão. Ainda segundo o entrevistado, o conflito ocorrido em Juerana produziu a liberação da retirada do facho também em Helvécia. Isto sugere que aquele não havia sido um conflito delimitado somente ao distrito de Juerana, se assim o fosse, porque as empresas teriam agido daquela maneira? Teriam elas ciência de que, também em Helvécia, a retirada do facho era uma arena de tensões, de conflitos velados, desenvolvidos em ações sorrateiras durante a noite? A suposta liberação não seria uma tentativa de amenizar essas tensões, com o intuito de evitar outra “grande reivindicação”? Essa suposta liberação do facho nos faz lembrar Scott,330 quando ele fala sobre a possibilidade de os camponeses, mesmo em revoltas fracassadas, obterem pequenos ganhos. Através, por exemplo, de breves pausas feitas pelas empresas em relação às novas regras por elas impostas. A senhora Maria Sérvulo Henriqueta nos disse algo mais desta composição entre aquilo que era liberado, pelas empresas, e aquilo que era tomado, por membros da comunidade: Só que assim, a quantidade que eles liberam às vezes não é muita, né? Então a pessoa pega aquele tantinho, que está lá reservado para liberar, está liberado já e já quer meter a mão no que não é, e aí param de fazer isso, falaram até que ia fazer uma cooperativa, né? Aqui em Helvécia começou a fazer, teve algumas reuniões, aí parou e ninguém falou mais nada e aí está do mesmo jeito que está aí, o povo pegando madeira escondido.331 Como a opção da cooperativa não vingou, a retirada do facho em Helvécia continuou noite adentro, ocupando anônimos que desafiavam as normas das empresas, “o povo pegando madeira escondido”. Pelo que pude deduzir, a partir da análise do conjunto de entrevistas, havia, em relação à apropriação do facho, situações diferenciadas. Uma, na qual as empresas, após cortar o eucalipto, liberavam a retirada do facho, por membros da comunidade, “[...] aquele tantinho, que está lá reservado para liberar”. Outra em que 330 331 James C. Scott. “Formas cotidianas da resistência camponesa”, op. cit. Entrevista concedida à autora pela sra. Maria Sérvulo Henriqueta em 15 ago. 2007. 165 esta liberação era vedada, ocorrendo, pois, a retirada do mesmo sem a autorização, de forma sorrateira, “[...] o povo pegando madeira escondido”. Havia, ainda, uma terceira possibilidade, em que integrantes da comunidade entravam sem autorização nos plantios de eucalipto e retiravam dali, não o facho, mas sim a madeira que ainda não havia sido cortada pelas empresas, “Agora sou contra o camarada entrar lá na área deles, que eles plantam, vai lá e corta, porque teve custo ali332”. Havia ainda um outro mecanismo, usado para transformar o eucalipto em facho. Colocar fogo nos eucaliptais. A comunidade sabia que a madeira afetada pelas chamas não mais serviria para as empresas, e era ideal para ser transformada em carvão. Normalmente este tipo de ação acontecia em áreas de plantio de eucalipto que pertenciam às firmas. Nas atividades de campo, fiquei intrigada com a existência de muitas áreas em que havia o plantio de eucalipto sem nenhuma cerca delimitando a plantação, e normalmente eram áreas enormes. Também observei a existência de plantios que estavam cercados, em áreas com medidas variadas. O senhor Jorge me explicou que a existência ou não das cercas dizia da propriedade da terra. Terras cercadas pertenciam a particulares que plantavam eucalipto através do sistema de fomento ou ainda de forma autônoma. As plantações sem cerca pertenciam às empresas, Aracruz ou Suzano. Com base nesta informação, deduzo que a retirada dos fachos, quando não autorizada, devesse ocorrer com mais freqüência nas áreas não cercadas, uma vez que a existência de cercas dificultaria, um pouco mais, o desenvolvimento daquele tipo de atitude. Além disso, este tipo de atitude talvez sugerisse uma prática alicerçada na sensação de que roubar o grande, empresas de eucalipto, fosse visto com complacência; já roubar o fraco, pequenos proprietários, fosse visto com reprovação. Não tenho conhecimento da existência de registros a respeito da quantidade de facho retirada por integrantes da comunidade das plantações de eucalipto pertencentes às empresas, Aracruz e Suzano. Acredito que eles não existam. Talvez a falta de dados possa ser explicada em razão de esta ação ser praticada quase sempre na calada da noite, por vezes de forma individualizada e sempre sem que 332 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 166 seus praticantes, por motivos óbvios, queiram sair da condição de anonimato. Levando-se em consideração a possibilidade da sua existência, não há, por parte das empresas, interesse em sua divulgação, talvez para não admitir a prática. Em suma, nem aqueles que se apropriam dos fachos, nem as empresas que rotineiramente têm perdas em razão desta prática, querem que este tipo de assunto ganhe visibilidade. Os primeiros, provavelmente, porque terão suas ações, na perspectiva da lei, entendidas como furto, e não como resistência passiva; e os segundos porque, certamente, não têm interesse algum em ver estampado nas mídias a dura realidade da vida de pessoas que, para conseguirem sobreviver, estão tendo de se sujeitarem, muitas vezes, inclusive, arriscando suas vidas, a realizar aquele tipo de prática, ilícita, que em nada confirma as promessas de emprego e/ou responsabilidade social propagadas pelos representantes das empresas e seus pares. A narrativa a seguir, construída por Regina Constantino, professora da escola João Martins Peixoto em Helvécia, nos conta um pouco do contexto que incitou integrantes da comunidade a se arriscarem para produzir carvão, bem como permite certo conhecimento a respeito da realidade dessas pessoas, suas trajetórias a partir de diferentes labores. [...] ele [referindo-se a uma pessoa do seu círculo de relações que tinha vendido terras para as empresas de eucalipto] de início trabalhava na Aracruz e aí depois ele foi mandado embora, mas não tinha leitura nenhuma, não sabia ler nem escrever direito e aí ele empregou na roça [...] aí foi quando ele começou a ir na feira, lá de Nanuque, ele plantava maxixe, quiabo, abóbora, um pouquinho de cada, agricultura de subsistência, um pouquinho de cada para consumo e o resto vender né? Ai ele começou a ir lá para Nanuque para vender as coisas dele lá, todo fim de semana, saia na quintafeira e retornava no sábado à tarde né? Só que ele começou a sentir problema de coluna né? Assim problema de coluna, pegando peso levando as coisas na feira, aí ele parou também de trabalhar com essa atividade. Foi quando chegou a questão do carvão. – Ah, é um dinheiro rápido não sei o quê. Aí ele começou com essa atividade e só via saída nisso e aí foi quando ele perdeu a vida dele né? Quatro filhos para criar, todos estudando, a mulher dele também era doméstica mesmo, trabalhava na roça com ele só para ajudar e sair para pegar madeira à noite. Numa dessas noites aí, ele deu azar que perdeu a vida dele lá na estrada, caiu o facho né? O trator, aí coloca o facho naquelas carretas né? E aí foi descer a ladeira, estava chovendo, acho que ele colocou uma marcha lá que não era para colocar e o trator disparou e ele pulou, ele foi o primeiro a pular do trator aí pulou e caiu no barranco, nessa que ele caiu... caiu o facho 167 né? Do eucalipto, lá foi e perfurou a barriga dele, aí ele morreu a caminho, ia tirar para São Mateus, não agüentou.333 Essa narrativa mostra as várias tentativas de inserção feita por aquele camponês até chegar ao fabrico do carvão. Ele, que tinha sido dono de terras, havia vendido sua gleba para a Aracruz, e no primeiro momento chegou a ingressar “na firma”, provavelmente no desempenho de tarefas temporárias de plantio e/ou colheita de eucalipto, pois, como disse a entrevistada, “não tinha leitura nenhuma, não sabia ler nem escrever direito”. Ao ser demitido, voltou a laborar na roça, não mais na condição de dono, mas sim de empregado. O fruto daquele trabalho não encontrava mercado no seu distrito, sendo então preciso se deslocar para a cidade de Nanuque – MG, carregando produtos variados e pesados para serem comercializados na feira daquela cidade. Este labor, que exigia um esforço físico demasiado, foi interrompido: “[...] ele começou a sentir problema de coluna né?” Era preciso, então, para sustentar seus filhos, buscar outro tipo de atividade, “foi quando chegou a questão do carvão [...] Aí ele começou com essa atividade e só via saída nisso...” Ocorre que aquela saída implicava riscos, e, para este camponês, estes riscos – trabalhar de forma ilegal, na calada da noite, sem fazer uso de equipamentos apropriados, sobressaltado pela real possibilidade de ser descoberto e reprimido – provocaram a sua morte. Quando abordei a estratégia de as empresas não divulgarem as fissuras de suas relações com a comunidade, expressa na existência da retirada do facho sem sua autorização, ou ainda na retirada da madeira inteira, não estava afirmando que as empresas desconhecessem o que acontecia. Elas não só sabiam, como se organizavam para reprimir este tipo de ação. Se pegar vai para a cadeia, se pegar vai para a cadeia, como já foi, vai para a cadeia entendeu? O povo apanha de teimoso. Quando eles liberam, né? Menos mal, mas quando não libera, eles pega e bota na cadeia. [...] Já foi gente, umas pessoas que já pagou cinco mil, né? Como aí menino... já foi preso, um magrinho.334 A repressão existia e era desafiada, “o povo apanha de teimoso”, correndo riscos de prisão e perdas materiais. 333 334 Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. 168 Teve que pagar com os bens que na verdade nem foram adquiridos com essa atividade de carvão, que muita gente já tinha tratores, teve sua moto, então antes né? Teve essas coisas às vezes trabalhando na terra, antes de mexer com carvão e aí, quando veio essa atividade de trabalhar com carvão, nessa ilusão de que carvão estava dando dinheiro, né? Muita gente parou de trabalhar na terra e foi trabalhar com carvão e aí veio a Caema, né? Eles pegavam a madeira à noite, pegava o pessoal aí roubando madeira, que na verdade estava roubando, né? Pegando escondido, pegando madeira escondido e aí prendia, leva o trator lá, apreendia o trator, moto... e para tirar era a maior dificuldade. Tem gente que está lá com trator até hoje enferrujando no pátio da Aracruz, mas não consegue tirar. Quer dizer, para soltar, para sair da cadeia era cinco mil reais, seis e, para pegar os trator esses trem eles não devolvem não, quem não tem esse dinheiro vai tirar de onde? Só se vender as terras, né?335 Esta repressão ocorria a partir de práticas muitas vezes violentas. A comunidade sabia disso e denunciava inclusive o uso da Caema, como uma força do Estado, utilizada para defender os interesses dos representantes das empresas, colocando em risco a vida de camponeses. [...] e quanto essa atividade de carvão que todo mundo agora em Helvécia... tornou outra praga, que todo mundo só quer fazer isso, isso, isso, aí tinha uns fachos, eles cortavam o eucalipto, pega a madeira melhor e levava, ficava aqueles facho ali no meio, eles começaram a pegar esses fachos, só que quando eles iam pegar esses fachos também aproveitavam e pegavam o que era da empresa, que era útil para a empresa, a madeira boa. Aí veio a Caema que é aquele pessoal lá da Mata Atlântica... e veio para estar controlando isso. Veio a serviço, acho que principalmente da empresa, que acho que veio mais para isso, e aí minha filha, a gente já perdeu um... [referindo-se a um ente querido], em dois mil e cinco, porque ele foi lá pegar um eucalipto, uma madeira à noite, lá perto do Rio do Sul e aí, ...pegando a noite, escondido, roubando, e aí teve um acidente de trator, acabou morrendo. Perdeu a vida, novo, deixou aí quatro filhos, quatro filhos aí todos novos e assim sei lá, tem gente perdendo a vida aí à toa, perdendo o que já tinha antes e cada vez mais afundando né? Ninguém consegue as coisas mais aqui em Helvécia, as pessoas falam que parece que enterraram uma cabeça de bode aqui em Helvécia, que tudo de ruim só está em Helvécia e nada de bom.336 As firmas contam com o apoio do Estado, através da atuação da Caema, no sentido de coibir a retirada, não autorizada, do facho. Estas ações repercutem na comunidade, explicitam tensões que perpassam aquele distrito, dizem de um outro 335 336 Entrevista concedida à autora pela sra. Maria Sérvulo Henriqueta em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. 169 ritmo no cotidiano, bem diferente daquela impressão primeira de tranqüilidade a que fiz alusão. A idéia da dor está presente nesta narrativa, bem como uma espécie de determinismo: “ninguém consegue as coisas mais aqui em Helvécia, as pessoas falam que parece que enterraram uma cabeça de bode aqui em Helvécia, que tudo de ruim só está em Helvécia e nada de bom”337. Vê-se aqui a recorrência ao campo das crenças, “enterraram uma cabeça de bode aqui em Helvécia”, em busca de uma explicação para aquilo que se processava. Ao mesmo tempo em que a entrevistada constrói essa narrativa falando da falta de esperança que estaria grassando em Helvécia, ela atua em seu cotidiano no sentido de construir novos caminhos para si e para o seu lugar. Apesar das dificuldades, concluiu o segundo grau, fez o curso de pedagogia, através do programa Rede UNEB 2000, no vizinho distrito de Posto da Mata, atua como professora na escola de sua comunidade e participa da AQH. Em relação à atuação da Caema, no combate à retirada ilícita do facho, não só em Helvécia como em outros distritos do Extremo Sul baiano, o coordenador da 8ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior – 8ª Coorpin – afirmou, segundo matéria do jornal Alerta: No âmbito da 8ª Coordenadoria Regional de Polícia do Interior foi criada uma “força tarefa” integrada por todas as unidades policiais no intuito de prevenir e reprimir a prática desses grupos armados, adotando providências no sentido de identificar e responsabilizar os autores através do devido procedimento legal, além de operações policiais em conjunto com a Polícia Militar, através das companhias especializadas – Caema e Caerc.338 Outra entrevistada, Cecília Joseph Bastos, de 69 anos, natural de Helvécia, que se orgulha de ter vivido muitos anos fora do distrito, apresentou a sua leitura a respeito da prática da retirada do facho: [...] o mal do povo daqui também é que o povo com preguiça de trabalhar, vendeu as terras todas e agora fica atentando os outros. Além de dar emprego pra eles, a Aracruz não deu emprego pra eles? Porque eles não vão trabalhar? Por que ficam roubando eucalipto. A Aracruz não conhece dinheiro, só conhece mato. Tenho certeza que 337 Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. Queimadas criminosas já destruíram mais de 30 mil m3 de eucalipto da Suzano e Aracruz Celulose. Caema, Caerc e PC empenhadas no combate aos incendiários. Alerta, ano 21, número 831, 7 a 11 nov. de 2007, p. 7 (jornal semanal fundado em 1 de julho de 1987, circulação nas principais cidades do Extremo Sul). 338 170 quem vendeu as terras ninguém tem dinheiro Porque eles dão emprego, por que eles não vão trabalhar? São preguiçosos.339 Esta narradora foi enfática, em seus gestos e tom de voz, ao afirmar a preguiça dos habitantes de Helvécia, “o mal do povo daqui também é que o povo com preguiça de trabalhar, vendeu as terras todas e agora fica atentando os outros”. Segundo ela, a Aracruz oferecia emprego, mas as pessoas, preguiçosas, “ficam roubando eucalipto”. Para ela, não se tratava de retirada de facho. Sem fazer uso de eufemismo algum, a narradora afirmava a existência da prática do roubo e associava esta à característica do povo de sua comunidade de não querer trabalhar. A preguiça, a qual faz referência a entrevistada, não poderia também ser interpretada como uma espécie de resistência à situação de transformações engendradas pela eucaliptocultura? Talvez aqueles que não tinham mais suas terras não quisessem voltar a trabalhar nelas na condição de empregados, plantando “pau” para as “firmas”. Quanto aos empregos oferecidos pela Aracruz, este não era um terreno de certezas, de tranqüilidade na garantia dos recursos necessários à sobrevivência de camponeses de Helvécia, “[...] já que se espera que toda monocultura necessite de um número menor de trabalhadores no processo produtivo [...]”.340 A senhora Cecília continuou a construir sua narrativa dizendo de que maneira interpretava a realidade do distrito na atualidade: [...] Velhas, as casas velhas aqui. [...] Fala em botar uma polícia aqui! Fala em botar uma polícia aqui! Todo mundo briga prá tirar, por que... prá poder ficar... sabe, aqui, eles quer viver esse lugar aqui como se fosse, vou falar português claro ... igual verme, só tá vivo quando tá no produto... Eles quer que Helvécia seja isso. Helvécia não pode crescer. Eles briga pra não chegar ninguém aqui trazendo nada prá melhorar isso. Eles quer que isso fica ... não sei... pior que o tempo dos escravos [...]341 Alguns elementos desta construção deixam ver a insatisfação da entrevistada em relação às ações de membros da comunidade. Interpretei essa insatisfação, a partir da fala e dos gestos da senhora Cecília, como sendo em razão daquilo que ela 339 Entrevista concedida à autora pela sra. Cecília Joseph Bastos em 15 ago. 2007 (grifos da autora). Jorge Emanuel Reis Cajazeiras, José Carlos Barbieri e Dirceu da Silva. Estudo da sustentabilidade regional da produção industrial de eucalipto no estado da Bahia, op. cit. 341 Entrevista concedida à autora pela sra. Cecília Joseph Bastos em 15 ago. 2007. 340 171 considerava ações contrárias à chegada do progresso em Helvécia. Havia ali também pequenos indícios de uma crítica às ações da AQH, em razão desta associação ter implementado o projeto que resultou no reconhecimento de Helvécia como área remanescente quilombola. Talvez a preguiça, a possibilidade de ganhar dinheiro rápido, a resistência em manter a casa com a fachada tal qual no passado, “velhas, as casas velhas aqui...”, tenham sido um jeito encontrado por algumas pessoas de falarem de suas insatisfações com o modelo de progresso que prometeu, seduziu e depois os ignorou. A fala do camponês Sérvulo Constantino, apresentada a seguir, tenciona o que foi sugerido pela senhora Cecília: [...] a maioria não tem nada mesmo, está queimando esse carvão para sobreviver. Porque pai, não tem, porque vendeu as terras. E muita gente, às vezes a pessoa que tem [terra], às vezes com o sol desse desanima, não dá para plantar nada, a pessoa joga a semente debaixo da terra e não tira nada, é prejuízo. Aí a pessoa ver esse negócio de carvão, parte para o carvão é aí que na hora o bicho pega para o lado deles, porque parte para o carvão, [...] achando que vai dar dinheiro e como às vezes dá, quando a Aracruz libera, libera o facho. Liberava, que hoje também não libera, quando chega liberar não dá nada, acho que é aí que eles partem para pegar madeira e dá esse problema todo.342 Produzir carvão funcionava também como uma alternativa para quem estava sem terra e sem emprego, vivia em um distrito no qual as opções de trabalho eram reduzidas e, muitas vezes, exigia estudos e qualificações não disponibilizadas pelo poder público para os membros da comunidade, como era o caso em Helvécia. É isso mesmo. Que tem muita gente que não tem estudo, né? Agora mesmo aqui, quantas pessoas saíram da prefeitura, daqueles que estavam trabalhando, quantos eram... saíram umas oito pessoas, estava vinte e tantos anos trabalhando na prefeitura. Os vereadores não correm atrás de nada para ajudar esse povo.343 A ausência de um poder público que oferecesse condições de estudo, através de escolas regulares de segundo grau e/ou cursos técnicos de capacitação profissional, somada à escassez de emprego tanto nos espaços públicos quanto em 342 343 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. 172 empresas particulares, contribuiu para que o fazer carvão se apresentasse como uma possibilidade de sobrevivência. Caso houvesse a possibilidade de somar a quantidade do facho retirado, o montante, provavelmente seria expressivo, sobretudo sabendo-se que esta prática, relevante na aquisição daquilo que era necessário para a sobrevivência de alguns dos integrantes da comunidade, passou a ser também estimulada por empresas clandestinas de carvão, atuantes na região, desejosas de adquirir o produto por um preço mais baixo que o praticado no mercado. A produção clandestina de carvão, em matéria publicada no jornal Alerta, de circulação regional, foi tratada de maneira a informar como o poder público se posiciona diante da mesma: Há cerca de três semanas uma série de incêndios criminosos vêm sendo provocados, principalmente nos municípios de Prado, Alcobaça, Nova Viçosa, Mucuri e Caravelas. Segundo o que se apurou até agora, o fogo vem sendo provocado por empresas que atuam ilicitamente na exploração de carvão ilegal, um mercado que movimenta milhões de reais todos os meses na exportação do produto para as grandes siderúrgicas do estado do Espírito Santo, [...] Segundo dados levantados até agora pela Polícia, o grande problema com relação a esse carvão é a procedência, qual (sic) na grande maioria é de madeira furtada das fazendas de eucaliptos da Suzano e Aracruz Celulose, furto que ocorre geralmente durante a madrugada. “Os carvoeiros roubam essas madeiras em depósitos ou as arrancam utilizando-se de tratores ou caminhões. Quando a fiscalização é constante, esses carvoeiros provocam os focos de incêndio, destruindo os plantios de eucaliptos e árvores nativas da Região, como forma de retaliação”, disse um policial que trabalha na investigação. [...]344 A maneira como esta reportagem apresenta a situação dá a entender que se trata de uma organização criminosa de grande vulto objetivando lucros significativos a partir de suas práticas ilícitas. Não é meu objetivo discutir se este tipo de afirmação procede. Entretanto gostaria de chamar a atenção para as ausências, nesta matéria. Faz-se referência ao “roubo de eucalipto” como sendo algo realizado Queimadas criminosas já destruíram mais de 30 mil m3 de eucalipto da Suzano e Aracruz Celulose. Caema, Caerc e PC empenhadas no combate aos incendiários. Alerta, ano 21, número 831, 7 a 11 nov. de 2007, p. 7 (jornal semanal fundado em 1 de julho de 1987, circulação nas principais cidades do Extremo Sul). 344 344 173 por empresas de carvão, por ladrões ou por grupos criminosos organizados. Não se levanta a possibilidade de que esse tipo de ação também esteja sendo desenvolvido por pessoas que, longe de estarem ganhando milhões, tiveram suas vidas alteradas pela prática monocultura do plantio de eucalipto e, tendo sido, posteriormente, alijadas do processo de produção da eucaliptocultura, manifestem sua insatisfação, ao mesmo tempo em que desenvolvem atividades econômicas alternativas em busca da garantia de sua sobrevivência. Essas ausências e a não existência de dados quantitativos a respeito da retirada, não autorizada, do facho em Helvécia, não apagam o que está sendo feito por alguns membros da comunidade. Mesmo que suas investidas na calada da noite, de forma individualizada, sem armamentos, não ganhem as manchetes de jornal, suas ações reverberam no cotidiano daquele lugar. Este modo de resistência não é insignificante, havendo inclusive uma associação entre as empresas de eucalipto e instituições ligadas ao Estado, no caso a Caema, para proteger as empresas produtoras de eucalipto. Outro indício da relevância desta forma de resistência aparece no fato de que a produção de carvão no distrito de Helvécia esteja sendo coibida: “[...] agora mesmo aí já não está entrando caminhão aqui para pegar carvão, o que aconteceu, não está entrando e aqui o povo está tudo com o carvão queimado para vender pra quem? Está parado aí passando necessidade.”345 Quando indaguei porque o caminhão não estava mais entrando em Helvécia para comprar o carvão produzido pela comunidade local, o senhor Sérvulo titubeia, para logo dizer: “Não sei o que aconteceu..., uns falam que a fábrica está muito... está fazendo limpeza.” Em seguida, deixa de ser lacônico e informa: Essa noite eu ouvi falar que é a firma que está travando, já para poder o povo parar. Vão baixar até trinta reais para poder o povo parar de tirar o carvão, e a pessoa vai viver de quê? Roubar vai roubar. Só o povo mesmo que está botando o pobre para a rua para roubar.346 Poderíamos, pelo exposto, perguntar se a aquisição do facho, sem autorização das empresas, teria elementos de uma justiça popular.347 Se assim o 345 Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pelo sr. Sérvulo Constantino Filho em 15 ago. 2007 (grifos da autora). 347 James C. Scott. “Formas cotidianas da resistência camponesa”, op. cit., p. 23. 346 174 fosse, parece que as empresas encontraram uma maneira de diminuir o poder de ação dos seus agentes, “é a firma que está travando”, proibindo, no distrito, a entrada de caminhões que compravam a produção de carvão. Sem comprador, provavelmente, os membros da população que não estavam se contentando em pegar apenas o “tantinho” de facho liberado, diminuiriam suas incursões noturnas pelos eucaliptais. Com a proibição da entrada de caminhões responsáveis pela retirada do carvão produzido em Helvécia, feita pelas “firmas” provavelmente em consonância com as ações da Caema, ficou difícil para os anônimos produtores de carvão se encarregarem do transporte e comercialização daquele produto, comprometendo a dinâmica da atividade. Para viverem com o eucalipto, fazia-se necessário, para aqueles camponeses, o implemento de novas formas de atuação. 3.2 “ASSUMA A SUA IDENTIDADE, SEJA ORGULHOSO DE SER FILHO DE HELVÉCIA” As transformações vivenciadas em Helvécia após a implantação da eucaliptocultura teriam contribuído para o processo de organização de arranjos identitários daqueles homens e mulheres enquanto comunidade remanescente de quilombo? Este questionamento se fundamenta na idéia defendida por Kobena Mercer, citado por Stuart Hall,348 quando afirma: “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.”349 Assim, podemos perguntar em que medida a implantação da eucaliptocultura trouxe para o distrito de Helvécia dúvidas e incertezas, e como isso transformou o sentimento de pertencimento e identificação num questionamento, numa indagação que precisasse ser respondida através de sinais identitários reconhecidos não só pelos membros da comunidade como também pelo grupo dos outros, dos diferentes. Teria sido essa a situação vivenciada em Helvécia pelos seus moradores ao verem que suas antigas terras estavam sendo utilizadas para o plantio em massa de eucalipto e que seu distrito estava sendo sufocado pelo projeto agro monocultor? A 348 349 Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 8. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. Kobena Mercer apud Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade, op. cit., p. 9. 175 narrativa a seguir traz elementos importantes para a compreensão daquilo que ocorreu em Helvécia: [...] Além da monocultura do eucalipto não ter trazido o progresso que tanto esperávamos, trouxe a destruição. Para onde Helvécia vai crescer? Uma comunidade com cinco mil habitantes está completamente cercada pelo eucalipto, sem nenhuma perspectiva de crescimento, porque não tem para onde. O plantio não respeitou o espaço. [...] A nossa cultura, como comunidade remanescente quilombola, está se perdendo a cada dia. Havia dois meios de Helvécia crescer: pela monocultura do eucalipto na região e por intermédio da cultura. Pelo tempo que essas empresas estão instaladas na região, vimos que o progresso por intermédio do eucalipto não se dará. Estamos, então, tentando resgatar a nossa cultura, a nossa história.350 A fala da senhora Roseli Constantino Ricardo, líder comunitária da Associação Quilombola de Helvécia, foi proferida, em Brasília, numa audiência pública, que tinha por finalidade discutir o impacto da expansão da eucaliptocultura no Brasil. Isto se deu em 18 de outubro de 2005, portanto no mesmo ano em que Helvécia foi reconhecida, oficialmente, como área remanescente de quilombo. Nesta audiência estiveram presentes representantes de segmentos diversos, entre os quais Sindicato dos trabalhadores rurais de Itamarajú-Bahia e de EunapólisBahia, IBAMA, membros da Aracruz, da Suzano Papel e Celulose, comunidades indígenas, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Nacional (Bndes), além de deputados e do Ministério do Meio Ambiente. Na fala da depoente, pode-se observar a apresentação da existência de dois caminhos/projetos diferenciados para o distrito de Helvécia. “Havia dois meios de Helvécia crescer: pela monocultura de eucalipto na região e por intermédio da cultura”. O primeiro deles, ainda segundo a depoente, além de não ter trazido o progresso esperado, “trouxe a destruição”. O caminho do crescimento “por intermédio da cultura” apresentou-se como alternativa diante da constatação de que “[...] o progresso por intermédio do eucalipto não se dará [deu]”. Diante desta realidade, avaliada em razão do tempo de atuação das empresas de eucalipto na região, a valorização da cultura de Helvécia, apresentada “[...] como comunidade 350 Sra. Roseli Ricardo Constantino em Depoimento n. 1595/05, de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – Detaq. 176 remanescente quilombola, [que] está se perdendo a cada dia”, passou a ser o único caminho: “Estamos então tentando resgatar a nossa cultura, a nossa história.” Ao identificar a comunidade de Helvécia como uma cultura quilombola associando o crescimento do distrito a ações agregadas ao “resgate” cultural e histórico, a senhora Roseli Constantino, talvez, estivesse dando uma pista de como se processara a construção de uma estratégia de preservação da identidade e da memória coletiva daquele lugar. Compreendendo-se a identidade como definida historicamente, isto é, construída ao longo do tempo,351 e com espaços para fissuras e discordâncias, havia/há em Helvécia, apesar do reconhecimento oficial como área remanescente quilombola, o que poderia indicar uma pretensa unidade, outras identidades, outros sentimentos de pertença que não necessariamente atendem ao modelo esperado como típico ou tradicional de uma comunidade quilombola, segundo, por exemplo, as expectativas dos poderes públicos e de alguns integrantes dos espaços acadêmicos. Neste construir, houve espaço para diferentes processos identitários, o que significa dizer que o ser quilombola em Helvécia foi/é lido por alguns de seus membros como uma fantasia, uma inverdade, enquanto que para outros ser de Helvécia se traduz no fato, para eles vivido e, portanto, inquestionável, de ser quilombola. Além dessa possibilidade de diferentes processos identitários defendidos por distintos sujeitos históricos, Hall nos convida a perceber a complexidade desta fluidez identitária quando afirma que “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente”.352 Com esta afirmação, o autor desloca a existência de uma diversidade identitária para um sujeito particular, tendo este a possibilidade de se reconhecer como pertencente a várias identidades, sem que exista a necessidade de uma liga, uma concordância entre elas. Assim, um sujeito, no seu fazer-se, pode assumir para si identidades diversas e inclusive contraditórias. 351 352 Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade, op. cit.. Idem, p. 13. 177 Tendo clareza da complexidade do conceito de identidade, a partir das pontuações feitas, acredito ser possível dialogar com a temática com mais tranqüilidade. Para tentar conhecer como se deu o processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo, foi necessário analisar algumas das ações realizadas pelos habitantes daquela comunidade no processo de construção e/ou negação desta identidade. A partir das entrevistas realizadas, pude conhecer alguns elementos constituintes do dinamismo de construção deste processo. A senhora Regina Constantino, professora e integrante da AQH, fez o seguinte comentário: [...] enquanto aluna, enquanto você é estudante já havia aquela angústia de não conhecer um pouquinho da nossa história, nada era falado, nada era dito, aquilo foi passando, passando, terminamos o ensino médio do mesmo jeito, aí fomos para a faculdade [referia-se ao curso de pedagogia realizado pelo Programa Rede UNEB 2000 em Posto da Mata] graças a Deus, e lá alguns professores despertaram isso em nós, questão da luta né? Questão de valorizar mesmo a história da gente, ainda mais Helvécia, igual minha tia falou, muito conhecida: – Ah, Helvécia é uma antiga Colônia... Helvécia era muito importante... Nós não nos sentia tão valorizado, quem está valorizando Helvécia? Ninguém, e aí lá na faculdade, começou essa indagação essas coisas, foi aí que a gente teve um pesquisador lá do Rio de Janeiro [referia-se a Tomas Martin Ossowicki]... ele também veio fazer uma pesquisa aqui em Helvécia e sempre em contato com a gente, – Já que é professor me leva lá para conhecer fulano que eu quero entrevistar. A gente ia levar e sempre conversando, numa dessas conversas ele falou: – Olha gente Helvécia tem todas as características de uma comunidade remanescente de quilombo, que tal vocês pedirem esse reconhecimento do pessoal da Fundação Cultural Palmares? E a gente naquela euforia, – Ah, vai ser bom. Conversou tudo direitinho, vamos pedir para tentar melhorar, para ver se melhora né? E nós pedimos [...]353 Regina Constantino revelou, nesta narrativa, a presença e importância de pessoas, não integrantes da comunidade de Helvécia, no processo de orientação a respeito da valorização da história daquele distrito. Ela identificou o espaço acadêmico como um lugar do qual partiu o interesse e incentivo às ações voltadas para a valorização da história de Helvécia, “questão de valorizar mesmo a história da 353 Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 15 ago. 2007. 178 gente”. Ainda segundo ela, foi também a partir do convívio com um pesquisador 354 do Rio de Janeiro que Helvécia foi apresentada a integrantes do distrito, como tendo “todas as características de uma comunidade de quilombo”. Diante desta constatação, feita por alguém de fora, e da provocação no sentido de que a comunidade de Helvécia pedisse o reconhecimento através da Fundação Cultural Palmares, deu-se início ao processo que resultou no efetivo reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo. Em relação aos trâmites legais355 para que se desse este reconhecimento, o primeiro documento, ao qual tive acesso, data de 21 de setembro de 2000, quando foi encaminhado a então presidente da Fundação Cultural Palmares, senhora Dulce Maria Pereira, a seguinte solicitação, assinada pelo procurador da República Márcio Andrade Torres: Cumprimentando-a cordialmente, solicito a V. Sª. encaminhar a esta Procuradoria da República no Município de Ilhéus/BA, no endereço abaixo, as informações porventura existentes nessa fundação acerca da comunidade negra rural de Helvécia, localizada no Município de Nova Viçosa/BA. 356 Em resposta, datada de 11 de outubro de 2000, o senhor Jônatas Nunes Barreto, presidente substituto da Fundação Cultural Palmares, dirigiu-se ao senhor Márcio Andrade Torres, afirmando: Em atenção ao ofício PRM/IOS/BA nº 702/2000, informa a Vossa Senhoria, que foi aberto no âmbito desta Fundação processo administrativo, referente ao reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, localizada no município de Nova Viçosa/BA, nos termos do Art. 68 do ADCT e Arts. 215 e 216 da CF/88. Em breve esta Fundação Cultural Palmares estará deslocando equipe para trabalhar com esta comunidade para fins de reconhecimento da área que ocupam, se for o caso, bem como 354 A partir de dados coletados em outras entrevistas, pode-se afirmar que a sra. Regina Constantino referia-se ao antropólogo Tomas Martin Ossowicki, que desenvolveu, em Helvécia, suas pesquisas de mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 355 Solicitei à Fundação Cultural Palmares o acesso ao material sobre o processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente quilombola e recebi uma cópia impressa dos diversos documentos que constam deste processo. 356 Ministério Público Federal, Procuradoria da República Ilhéus – Bahia. OF./PRM/IOS/BA nº 702/2000, Ilhéus, 21 de setembro de 2000. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 04. 179 compatibilização de ações conjuntas com demais órgãos envolvidos neste processo, inclusive o Governo Estadual.357 A abertura do processo foi efetivada através do memorando nº 90/2000, 358 encaminhado pela Coordenação Nacional de comunidades remanescentes de quilombos, sob o comando do senhor Murilo da Costa Santos, a chefe de divisão de serviços gerais somente em 10 de novembro de 2000. Enquanto os documentos transitavam em Brasília, em Helvécia, professoras e professores da escola municipal desenvolviam atividades que valorizavam a história da comunidade, incitavam os estudantes a esta valorização a partir de frases do tipo “assuma sua identidade, seja orgulhoso de ser filho de Helvécia, se sinta orgulhoso hoje de ser filho de Helvécia, porque Helvécia é história.359” Esta mesma professora, a senhora Malzinéia Henriqueta Ambrósio, lembrou: [...] acho que foi em dois mil e dois, nós tivemos aqui um acontecimento muito bom, aconteceu aí o quinto encontro do da Semana Zumbi e aí nós estávamos assim ligados com as pessoas de várias localidades, da rede de vários lugares, de Comuruxatiba, de Caravelas, de Eunápolis e vários lugares, que foge da mente e aí a gente passava para eles, conversava e depois eles viam para cá mesmo, procuravam conversar com a gente, nós passávamos para 360 eles sobre esses conflitos, o que nós estávamos vivendo... Este evento, “quinto encontro da semana Zumbi”, contou com a participação de membros da “Rede Alerta Contra o Deserto Verde” e, segundo a entrevistada, após a realização do mesmo, intensificou-se as conversas entre integrantes da comunidade de Helvécia e membros desta rede: “[...] aí a gente passava para eles, conversava e depois eles viam para cá mesmo, procuravam conversar com a gente, nós passávamos para eles sobre esses conflitos, o que nós estávamos vivendo...” A “Rede Alerta Contra o Deserto Verde” é um “movimento que luta contra a expansão da monocultura do eucalipto para a produção de celulose e carvão vegetal 357 Fundação Cultural Palmares, ofício nº 1104/2000 – PRES/GAB/FCP/MinC, Brasília, 11 de outubro de 2000. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl.05. 358 Fundação Cultural Palmares, Coordenação Nacional de Comunidades Remanescentes de Quilombos, memorando nº 90/2000, 10 de novembro de 2000. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 02 359 Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. 360 Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. 180 no Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais”.361 Representa diversas comunidades quilombolas, além de outras comunidades. Seus integrantes, que estabeleceram contatos com a comunidade de Helvécia, conheciam as exigências e ações necessárias para que o processo de reconhecimento daquele distrito alcançasse êxito. Data de 23 de outubro de 2004, o pedido de reconhecimento como comunidade remanescente de quilombo, devidamente assinado pela Associação e Comunidade Afro – ACA, Maria da Conceição, Benício Ricardo, Manoel Norberto, Amâncio dos Santos e Sérvulo Constantino Filho, encaminhado para a Fundação Cultural Palmares. Transcrevo, a seguir, alguns trechos deste documento. Nós, comunidade de Helvécia, nos autodefinimos remanescentes de quilombo, portanto, pedimos e requeremos o registro no livro de cadastro geral, expedição de certidão pela Fundação Cultural Palmares. Esta carta é, portanto, uma declaração comunitária, feita através da Associação e Comunidade Afro do Município de Nova Viçosa, Bahia, visando o reconhecimento da comunidade negra e do distrito de Helvécia, deste mesmo município, e as comunidades e terras negras adjacentes, como Comunidades Remanescentes de Quilombo, perante o artigo 68 da Constituição Brasileira de 1988, e diante o decreto nº 4887, feito pelo Presidente da República no dia 20 de novembro de 2003. [...] A área acima mencionada constituía, entre, mais ou menos, os anos 1820 e 1900, a Colônia Leopoldina, grande empreendimento cafeeiro, movido por mão-de-obra escrava, [...] A partir da abolição a área se tornou uma comunidade quase exclusivamente negra. [...] Atualmente estamos perdendo a nossa liberdade de ir e vir em busca do nosso próprio sustento devido o grande plantio de eucalipto ao nosso redor e nas nossas terras. O eucalipto tem destruído o resto da Mata Atlântica e da nossa terra, e empobrece as nossas roças. Somos impedidos, através de forças polícias (sic), e das empresas (Aracruz e BahiaSul (sic) ), de caçar, pescar e tirar lenha nas nossas próprias terras. Portanto reiteramos pedido de certificação como remanescente de quilombos, reconhecendo (sic), delimitação, demarcação e titulação de nossas terras pelo órgão competente.362 Destaco alguns elementos. Em primeiro lugar, a utilização da construção “nos autodefinimos remanescentes de quilombo” diz da existência de uma organização 361 Rede Alerta Contra o Deserto Verde. Fomento Zero – por que dizer não ao plantio de eucalipto? Publicação FASE, Espírito Santo, 2003, p. 21. 362 Pedido de reconhecimento como comunidade remanescente quilombola, Helvécia, 23 de outubro de 2004. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fls. 09 e 10. 181 social, de um grupo de pessoas organizado politicamente,363 na época através da ACA, para garantirem os seus direitos nas terras que ocupavam, em conformidade com aquilo que está definido no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias: “aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”364 No que concerne ao uso da categoria remanescência, José Maurício Andion Arruti chama a atenção para o fato de que esta “levou a uma atualização do termo quilombos, permitindo que, cada vez mais, ele seja apropriado como uma autoidentificação política”,365 não estando mais atrelado a reminiscências, como, por exemplo, restos de senzalas, documentos e/ou locais emblemáticos, mas sim a “[...] uma elaboração social e simbólica em torno das suas formas de existir e resistir, que se manifestam nas formas de organização contemporânea do grupo”.366 Arruti salienta que [...] as formas de resistência sempre estiveram historicamente ligadas às formas de negociação das diferenças e interações e é sobre elas (e não apesar delas) que suas demandas se sustentam.367 Assim, no viver com eucaliptos, a comunidade de Helvécia organizou-se, resistindo e negociando, diante das diferenças e interações existentes na relação com os projetos defendidos pelas “firmas”. O fato de constar, no pedido de reconhecimento enviado à Fundação Cultural Palmares, por membros da comunidade de Helvécia, um parágrafo no qual os signatários denunciam mazelas associadas ao plantio do eucalipto nas terras de sua comunidade, é um indicativo de que o processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo estava inserido nas estratégias de grupos organizados daquela comunidade, de resistência e negociação nas relações com “as firmas”. 363 José Maurício Andion Arruti. As comunidades negras rurais e suas terras: a disputa em torno de conceitos e números. Dimensões – Revista de História da Ufes. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Humanas e Naturais, nº 14, 2002. 364 Constituição da República Federativa do Brasil. Texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988. Brasília: Senado Federal, Subsecretária de Edições Técnicas, 2002, p.159. 365 José Maurício Andion Arruti. As comunidades negras rurais e suas terras: a disputa em torno de conceitos e números, op. cit., p. 246. 366 Idem, p. 248. 367 Idem, p. 248. 182 A AQH não foi a primeira organização voltada para discutir a questão da remanescência quilombola em Helvécia. De fato, o auto-reconhecimento e o pedido de certificação foram encaminhados à Fundação Palmares, acompanhados de Ata e Estatuto da Associação e Comunidade Afro do Município de Nova Viçosa – ACA, cuja sede era em Posto da Mata. Data de 22 de abril de 2005,368 o registro da descentralização da Associação Quilombola de Helvécia da ACA, feita por seus membros que residiam em Helvécia. Na ata da segunda reunião da AQH, em 9 de julho de 2005,369 há registro da presença do então deputado federal Luiz Alberto (PT/Bahia), que, na ocasião, proferiu uma palestra a respeito dos temas tratados naquele dia – Comunidade remanescente quilombola e Plantio de eucalipto na região. O contato deste deputado com integrantes da AQH foi freqüente no ano de 2005, tendo sido ele, juntamente com o deputado César Medeiros (PT/Minas Gerais), a requerer,370 na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, a realização de audiência pública para discutir o impacto da expansão da eucaliptocultura no Brasil, em 18 de outubro de 2005, da qual a senhora Roseli Constantino Ricardo participou, na condição de líder da AQH. A presença, de um integrante do poder legislativo federal atuando de forma direta na comunidade de Helvécia sugere, e a fala de entrevistados ligados à AQH endossam, a existência da mediação e orientação feita por estes representantes para que ocorresse o reconhecimento. Houve um protagonismo, no processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo, de pessoas que integravam a AQH e/ou educadores de Helvécia, em consonância com membros do poder executivo e representantes ligados ao universo acadêmico de diferentes instituições que, em razão de pesquisas realizadas naquele distrito, acabaram contribuindo, à medida que levaram informações sobre os procedimentos necessários, para que se desse o referido pedido de reconhecimento. Aquela não era apenas uma disputa por terras envolvendo camponeses e representantes do agronegócio, havia um novo contexto, relacionado à existência do Artigo 68 da Constituição de 1988, e, provavelmente, as ações dos habitantes de 368 Ata da Associação Quilombola de Helvécia fl. 3, Helvécia – Bahia. Ata da Associação Quilombola de Helvécia fl. 3, Helvécia – Bahia. 370 Conforme dados constitutivos do Depoimento n. 1595/05, de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – DETAQ. 369 183 Helvécia se relacionaram com as novas experiências que eles tiveram, inclusive com o conhecimento do teor do artigo. Arruti, em estudos sobre o processo de reconhecimento de outras áreas quilombolas, alerta para a importância de se compreender que A noção de “territorialização” indicaria, portanto, o movimento pelo qual um objeto político-administrativo se transforma em uma coletividade organizada, implicando: a criação de uma nova unidade sociocultural mediante o estabelecimento de uma identidade étnica diferenciadora, a constituição de mecanismos políticos especializados, a redefinição do controle social sobre os recursos ambientais e a reelaboração da cultura e da relação com o passado.371 Não se tratava, simplesmente, de um processo de auto-reconhecimento por parte dos habitantes de Helvécia no sentido de se afirmarem como quilombolas. Existia concomitantemente também um processo externo, vinculado àquele autoreconhecimento, do qual o Estado havia tomado para si as diretrizes, visando definir os espaços que constituíam aquela comunidade. Desta maneira, ela ficou territorializada, e isso não significava de forma alguma uma mera definição física, também a idéia de territorialidade encontrava sua essência nas questões associadas às maneiras dessas pessoas que ali viviam de lidar com a natureza, com suas representações sociais, suas produções associadas à religiosidade, lazer, pois, conforme salienta Eliane Cantarino O’Dwyer, Ao contrário do que o termo “remanescente” possa sugerir com referência às sobras e restos de um passado sempre ressuscitado, essa forma de identificação é utilizada por eles no presente para a ação coletiva em defesa do território que ocupam e na garantia da reprodução de seu modo de vida característico.372 Esta defesa estava expressa no pedido de reconhecimento feito por integrantes da comunidade de Helvécia: “Atualmente estamos perdendo a nossa 371 José Maurício Arruti. Mocambo – Antropologia e História do processo de formação quilombola. Bauru, SP: Edusc, 2006, p. 41. 372 Eliane Cantarino O’Dwyer. “Remanescentes de quilombo” na fronteira amazônica: a etnicidade como instrumento de luta pela terra. In: Clóvis Moura (Org.). Os quilombos na dinâmica social do Brasil. Maceió : EDUFAL, 2001, p. 305. 184 liberdade de ir e vir em busca do nosso próprio sustento. [...] Somos impedidos, [...] de caçar, pescar e tirar lenha nas nossas próprias terras.373” Ainda a respeito da importância do Estado, Arruti alerta para o risco de se supervalorizar o seu papel neste processo de territorialização: “[...] desconsiderando que as coletividades organizadas antecedem a tal objetivação e podem ser as propositoras de uma auto-objetivação,”374 ou seja, as transformações relacionadas ao processo de territorialização como, por exemplo, aquelas relativas à identidade, à unificação política e à adaptação cultural podem ter antecedido a territorialização feita pelo Estado. Para Arruti, ainda que o Estado seja a figura central neste procedimento de territorialização, na medida em que é o Estado que certifica, ou não, uma área como sendo remanescente de quilombo, ele não deve ser visto como o único agente importante neste processo de reconhecimento. Integrantes da comunidade de Helvécia se organizaram na construção de sua identidade quilombola. Partindo do pressuposto de que a identidade é relacional,375 os homens e as mulheres de Helvécia se sabiam pertencentes àquela comunidade no momento em que, nas suas relações cotidianas, vivenciavam situações em que ficava visível, a partir do contato com o outro, as semelhanças que poderiam sugerir a idéia de pertencimento, reconhecimento de si. Da mesma forma, também nas relações com os outros é que foram observadas e identificadas as diferenças e a idéia de nãopertencimento, não-reconhecimento de si em determinadas atitudes, jeitos. Sendo a construção identitária relacional, ela se dá na observação, no diálogo e no convívio, nem sempre tranqüilo, com o outro. Assim os habitantes de Helvécia viram chegar ao seu lugar novos sotaques, vindos de outras regiões do Brasil, pessoas acostumadas com outro ritmo de trabalho, marcado pelo horário das firmas e não pelo ritmo da natureza. Pessoas que desconheciam o significado religioso dos ofícios em Helvécia, não sabiam do costume de soltar fogos para avisar/comemorar o nascimento de uma criança, o 373 Pedido de reconhecimento como comunidade remanescente quilombola, Helvécia, 23 de outubro de 2004. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fls. 09 e 10. 374 José Maurício Arruti. Mocambo – Antropologia e História do processo de formação quilombola, op. cit., p. 42. 375 Raymond Ledrut apud Jacques D’Adesky. Pluralismo étnico e multi-culturalismo: racismos e antiracismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2005, p. 40. 185 batizado, a conclusão de um curso de graduação.376 Estranhavam o espocar de fogos na madrugada do dia 14 de agosto, comunicando à comunidade a saída de um grupo de habitantes de Helvécia para a festa de Nossa Senhora D’Ajuda que acontece, todos os anos, em Arraial D’Ajuda – Porto Seguro. Desse desconhecimento construíram-se as estranhezas, as não-adaptações aos modelos, por exemplo, de higiene. Neste sentido, podemos pensar numa situação prosaica e ilustrativa do constrangimento provocado pelo encontro de diferentes hábitos alimentares, em que os moradores locais estavam acostumados a comer animais criados no fundo de seus quintais ou nas suas propriedades, como galinhas e porcos, animais esses que eram abatidos na hora, e isso significava para eles a certeza de uma refeição saborosa e digna de ser oferecida como um deleite para qualquer pessoa. Já os engenheiros e demais funcionários do primeiro escalão das empresas, designados para permanecerem alguns dias no distrito - durante as negociações, medições de terra, estabelecimentos de acordos - estavam habituados a se alimentar com produtos adquiridos em supermercados, congelados e devidamente identificados com selos de inspeção de qualidade e padrão de higiene. O encontro entre estes dois jeitos de ser/saber em uma refeição causava constrangimento para ambos os envolvidos, pois enquanto o dono da casa acreditava estar servindo o que de melhor havia para oferecer, o convidado via-se diante de uma situação que não atendia às normas de segurança alimentar as quais estava habituado. Desta forma, a relação com o outro era a relação com outro jeito de fazer, outros gostos, outras formas de construir as normas. Esta estranheza377 fazia-se presente tanto para os moradores de Helvécia quanto para aqueles que ali chegavam com o objetivo de implantar a atividade do agronegócio de eucalipto. D’Adesky, citando Erik Erikson, afirma que o processo de identificação social ocorre a partir de ajustes que vão sendo feitos nas relações do eu com o outro, o que significa dizer que ele não é mecânico, imediato. Ainda para Erikson, este [...] processo é, em sua maior parte, inconsciente, exceto nos casos em que condições internas e circunstâncias externas se combinam para reforçar uma consciência de identidade dolorosa ou exaltada.378 376 Informações dadas à autora pela sra. Gilsineth Joaquim Santos em 13 ago. 2007. José de Souza Martins. A chegada do estranho. São Paulo: HUCITEC, 1991. 378 Erik Erikson apud Jacques D’Adesky. Pluralismo étnico e multi-culturalismo: racismos e antiracismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2005, p. 41 377 186 A narrativa da senhora Roseli Constantino, a respeito do processo de valorização da identidade quilombola em Helvécia, fornece algumas pistas sobre a existência desta combinação entre condições internas e circunstâncias externas. [...] o que a gente observa aí [referindo-se a Helvécia] é a falta de oportunidade, não tem emprego, não tem nada e foi aí que nós começamos a fazer esse trabalho né? Foi através disso que surgiu o fato da gente ter pedido o reconhecimento, porque Helvécia hoje está ilhada [...] mas, uma vez, que a gente cedeu espaço, a comunidade cedeu esse espaço para a monocultura, a gente viu que não melhorou, não mudou nada, muito pelo contrário e aí a gente vê, começamos a observar né? A questão da cultura, o quanto isso aí é rico, sempre a gente via pesquisadores, desde criança a gente depara com pessoas indo pesquisar, a gente até não entendia, ia para a casa de um ia para a casa do outro e convivendo né? Depois mesmo que nós terminamos o ensino médio a gente até tentava trabalhar já na sala de aula aquilo que a gente conseguia né? Sem conhecimento até para desenvolver um trabalho melhor, mas a gente tentava e no ingresso na Universidade que foi assim o caminho que nos impulsionou mesmo, para dizer: – Não, é por aí mesmo, temos que procurar trabalhar, incentivar mais as crianças, levar esse conhecimento para a sala de aula, para que a gente tenha, digamos, aliados né? Nessa luta aí por uma Helvécia diferente né? Resgatando esses valores que eram tantos antes da vinda do eucalipto, porque as manifestações, elas aconteciam com mais freqüência, cada semana a gente ia, eu mesmo já fui várias vezes com meus avós, a samba, a festas na casa dessas pessoas e, com a venda dessas terras, tudo isso foi acabando, então a gente sentiu a necessidade de está fazendo esse resgate, explicando para o aluno na sala de aula e até mesmo para a comunidade, através de palestras, de feiras, para que o aluno conheça, para que a comunidade conheça essa importância, o valor que a comunidade tem e a partir daí começar a valorizar isso aí.379 Quando a entrevistada, após explicar que o pedido de reconhecimento foi pensado a partir da realidade expressa na construção “não tem emprego, não tem nada”, realidade esta que teria contribuído para que “a questão da cultura” fosse valorizada, ela esmiuçou o dinamismo desta valorização, falando da atuação feita na escola380 junto às crianças de Helvécia. Ao fazê-lo, produziu em sua narrativa uma pista de que aquele não tinha sido um caminho consensual: “temos que procurar trabalhar, incentivar mais as crianças, levar esse conhecimento para a sala de aula, 379 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 15 ago. 2007. Na época em que realizei as entrevistas, alguns dos membros da AQH eram pessoas que atuavam como professoras(es) na escola João Martins Peixoto. 380 187 para que a gente tenha, digamos, aliados né? Nessa luta aí por uma Helvécia diferente né?”381 Assim, por mais que as condições internas, expressas na fala da entrevistada – valorização da história local, transformações engendradas pela monocultura do eucalipto, desilusões quanto às expectativas de emprego e ascensão social – tenham se somado a circunstâncias externas – aprovação do Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias na Constituição de 1988, criação do programa Brasil Quilombola pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, aprovação da Lei 10.639/2003 –, alinhavadas de forma a “reforçar uma consciência de identidade”,382 esta situação não impediu que membros daquela comunidade se posicionassem de forma contrária ao processo de reconhecimento. 3.2.1 ARRANJOS IDENTITÁRIOS. SER QUILOMBOLA, TORNAR-SE QUILOMBOLA. O pedido de reconhecimento como Comunidade remanescente de quilombo enviado para a Fundação Palmares em outubro de 2004 não demorou a ser respondido. A certidão de Auto-reconhecimento383 foi expedida pelo então presidente da Fundação em 2 de março de 2005, editada na portaria nº 7 de 6 de abril de 2005 e publicada no Diário Oficial da União em 19 de abril de 2005. Em Helvécia, esta informação foi divulgada através de um panfleto. Comunicado da AQH: HELVÉCIA AGORA É QUILOMBO!!! O Governo Federal reconheceu HELVÉCIA Como Comunidade Remanescente de Quilombo no dia 6 de abril de 2005384. 381 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 15 ago. 2007. Erik Erikson apud Jacques D’Adesky. Pluralismo étnico e multi-culturalismo: racismos e antiracismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2005, p. 41. 383 Panfleto da AQH. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 35 384 Panfleto da AQH. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 37. 382 188 Além deste comunicado, o referido panfleto trazia um xerox do Diário Oficial da União no qual estava publicada a portaria nº 7. Como a população de Helvécia recebeu este comunicado? Ave Maria, foi uma revolta para aqueles que acham que ia ser poderoso em Helvécia, uma meia dúzia, que Helvécia ia ser mudada, que Helvécia quem tinha suas casas não podia vender. Chegou pessoas, sei lá, pessoas da nossa cor, [o entrevistado referia-se a ser negro] pessoas do nosso nível [provavelmente referia-se à condição de pequeno proprietário de terra] sair fazendo abaixoassinado aí dentro de Helvécia, falando que se Helvécia fosse quilombola não ia ter escola, não ia ter energia, que ia cortar isso tudo, para as pessoas assinar, quem tinha suas casas não poderia vender, se você fosse vender sua terra você tinha que vender para um que era da comunidade não podia vender para outra pessoa que era de Posto da Mata, se você fosse embora tinha que largar sua casa aí. Mas falou tanta coisa...385 A reação ao “comunicado” deixou ver que aquele não era um projeto de toda a comunidade. Além disso, dúvidas em relação àquilo que aconteceria com a propriedade da terra e os direitos individuais sobre as mesmas foram levantadas por “uma meia dúzia” de pessoas, “aqueles que acham que iam ser poderoso em Helvécia”. Este grupo, segundo a fala de outros entrevistados, não era assim tão pequeno, e se organizou através da confecção de um abaixo-assinado com o intuito de negar aquilo que lhes havia sido comunicado. Eles não se reconheciam como remanescentes de quilombo, mas, por outro lado, se sabiam pertencentes à Helvécia. Aquele foi um tempo de tensão. Hoje a nossa Associação, ela está mais ou menos com umas doze pessoas, por aí, pode ter mais algumas, mas aparece de vez em quando, logo quando surgiu a Associação ela tinha um número muito bom de pessoas, mas a opressão ela foi tanta da população e os falatórios eram tantos e nem todo mundo tem esse sangue guerreiro, né? De lutar até o fim, de ir até o fim, [...] então a maioria por medo afastou, [...] o inicio foi doloroso demais, foi muito doloroso, nós éramos apontados na rua, né? Como pessoas que vai roubar terra dos outros, [...], teve pessoas que chegou até dizer que muitas de nós, ia acontecer com nós o que aconteceu com Chico Mendes, então era um sofrimento muito grande para as nossas famílias, para nossos filhos [...]386 385 386 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. 189 Ao abaixo-assinado somaram-se os falatórios, as ameaças, “chegou até dizer que muitas de nós, ia acontecer com nós o que aconteceu com Chico Mendes”. Aquela memória era dolorosa, a senhora Malzinéia nos falou de pressão, de sua dor ao ser apontada na rua, “Como pessoas que vai roubar terra dos outros”. Outra entrevistada, Jilsimere Joaquim Santos e Silva, 31 anos, falou sobre este período doloroso, silenciando: “de início eu estava engajada no grupo mas... eu preferi, eu gostaria de estar, mas por questões, né? Eu preferi...387” A opressão, o medo, denunciados pela senhora Malzinéia, talvez estivessem ditos nesses silêncios. Pelo exposto fica claro que a questão crucial que causava descontentamentos no processo de reconhecimento de Helvécia como comunidade quilombola dizia respeito à propriedade da terra. No panfleto, elaborado pela AQH, comunicando a ação do governo federal aos habitantes de Helvécia, constava algumas informações a este respeito. O Artigo 68 da Constituição Federal garante aos negros descendentes dos escravos e quilombolas o direito legítimo de suas terras. 90% da população de Helvécia é NEGRA!!! Portanto temos o direito e a chance de usufruir da Lei Federal, existente desde 1988, o centenário da Abolição da Escravatura. O Quilombo veio para beneficiar principalmente OS MENOS FAVORECIDOS da nossa COMUNIDADE!!! Veio para garantir TERRA para nós TODOS!!! Não veio para tomar a terra de 387 Entrevista concedida à autora pela sra. Jilsimere Joaquim Santos e Silva em 14 ago. 2007. 190 ninguém da nossa comunidade! Não veio para excluir ninguém, independente de cor, religião, renda ou simpatias políticas! Vamos LUTAR juntos para melhorar o lugar que é NOSSO!!! Para maiores informações: Associação Quilombola de Helvécia (AQH)388 Alguns elementos deste texto deixam claro que a AQH tinha conhecimento dos descontentamentos que ele provocaria. Havia neste panfleto uma apresentação sucinta daquilo que tinha sido decidido no campo jurídico, através da elaboração do Artigo 68. Tal decisão foi apresentada como uma conquista, e a população de Helvécia teria “o direito e a chance de usufruir da Lei Federal”. A questão da terra apareceu em negrito, ocupando, no papel, lugar de destaque, o mesmo que assumiu nas conversas, nos burburinhos, nos debates e nos embates feitos nas vendas do distrito, na igreja, na AQH. O texto dizia da não-exclusão, mas não foi suficiente para acalmar os ânimos e garantir a tranqüilidade aos moradores de Helvécia. As dúvidas ganharam as ruas, as casas, os espaços de sociabilidade. A senhora Roseli Constantino, líder da AQH, a respeito da relação entre a comunidade e a associação que assinou o panfleto, comentou: É, não tem um relacionamento assim muito bom, né? Porque quando nós pedimos o reconhecimento, muitas pessoas, eu acho que houve falha nossa, em relação assim, divulgamos pouco e por falta de conhecimento muitos têm uma idéia completamente equivocada do que vem a ser uma comunidade remanescente de quilombo, que tem um grupo de pessoas que passaram principalmente para o povo mais carente, mais pobre, que ser quilombola não seria uma coisa boa e isso está ligado às próprias pessoas que ainda continua tendo terra e são muito ligadas à empresa [referia-se à Aracruz Celulose.], então elas começaram a passar para a comunidade que ser quilombola não era uma coisa boa, que você iria perder sua casa, entendeu? Iria perder sua casa, você não iria ser dono de mais nada, chegaram a ponto de dizer que a escravidão ia voltar e a 388 Panfleto da AQH. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 37. 191 comunidade acreditou, ela acreditou e começou um certo conflito entre a Associação Quilombola e essas pessoas[...]389 A idéia de impetrar o processo de reconhecimento do distrito de Helvécia como área remanescente de quilombo não foi previamente debatida com toda a comunidade. A entrevistada inclusive avaliou que tal procedimento, por parte da associação, contribuiu para que uma série de equívocos fossem divulgados junto à população. A este respeito, a senhora Roseli Constantino falou da existência, dentro de Helvécia, de proprietários de terra aliados aos interesses das empresas de eucalipto, e que, por esta razão, eram contrários à aceitação do reconhecimento daquela comunidade como área remanescente quilombola. Deduzo que esta aliança tenha se dado em razão da adesão destes proprietários, ao fomento praticado pelas empresas responsáveis pela monocultura do eucalipto. Tanto a Aracruz Celulose quanto a Suzano Bahia Sul Celulose sabiam das implicações legais da certificação do reconhecimento e do processo de reterritorialização que a mesma poderia trazer em seu bojo. Daí o discurso de seus representantes, junto aos seus pares – parceiros da prática do fomento, proprietários de empresas terceirizadas que atuavam no distrito, empregados das empresas –, “ser quilombola não era uma coisa boa, [...] Iria perder sua casa, você não iria ser dono de mais nada”.390 Havia no distrito pessoas que tinham interesses econômicos em defender a expansão da eucaliptocultura, que não desejavam a ocorrência de nenhum tipo de obstáculo ou embargo a este desenvolvimento. Esta situação, ao ilustrar a existência de alianças entre membros da comunidade e representantes das empresas, coloca em xeque uma visão simplista de que a comunidade de Helvécia se manifestava, toda ela, de forma adversa à implantação da monocultura de eucalipto. Outra situação possível pode ter sido organizada por representantes da comunidade, possuidores de terras e interessados em garantir seus direitos individuais, temendo o estabelecimento de uma lei que se apresentava defensora do coletivo, “veio para beneficiar principalmente os menos favorecidos da nossa comunidade!!!391” 389 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007 391 Panfleto da AQH. In: Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 37. 390 192 O movimento de pressão e boatos a respeito do significado daquele reconhecimento também foi feito a partir de uma “elite local”, identificada pelos entrevistados como grandes proprietários de terra, em geral brancos e representantes do poder político local, que, associados ou não às empresas de eucalipto, divulgaram informações que desqualificaram o reconhecimento da comunidade e ainda impingiram à população um sentimento de pânico. Os velhos tempos de Helvécia, os tempos do cativeiro, das memórias indizíveis deixaram ver sua força: “[...] chegaram ao ponto de dizer que a escravidão ia voltar e a comunidade acreditou, ela acreditou.” 392 Será? Não tenho como responder a esta questão, entretanto, nas pesquisas de campo, alguns dos entrevistados, ao serem convidados a falar da história de Helvécia e da chegada da eucaliptocultura naquele lugar, trouxeram, a partir de suas memórias, o sentido de pertencimento e de reconhecimento de si nas relações com os outros, sem ao menos fazer menção à idéia de Helvécia como quilombo; outros buscaram explicar por que não se reconheciam como quilombolas e outros ainda se viam e se valorizavam como tal. Pode parecer paradoxal, e talvez o seja, mas o fato é que a riqueza da história de gente comum não está atrelada à idéia de verdade. Ela é apenas, e isso não é pouco, uma construção feita a partir de olhares de sujeitos históricos que têm muito a nos dizer dos lugares que eles vivem, freqüentam e interpretam. Assim, por exemplo, a fala da Presidente de uma Associação talvez não seja suficiente para dar conta das várias leituras que seus diversos membros fazem de uma determinada situação. Do mesmo modo que, em não se fazendo parte daquele grupo especifico, outros sujeitos possam elaborar diferentes análises de uma mesma realidade. A estratégia de preservação de identidade em Helvécia pode ter acentuado o caráter ilusório393 da mesma. Talvez este tenha sido maximizado quando da organização de uma associação para lutar pelo reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo, visto que existisse dentro da comunidade uma variedade de noções de pertencimentos e identificações que não se referia a ser ou não ser quilombola. Essa variedade se pautava, por exemplo, em relações 392 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007. Maria de Fátima Araújo Di Gregorio. Memória Coletiva: estratégias de preservação da identidade cultural dos imigrantes italianos em Itiruçu – BA, 1950-2000. Salvador: EDUNEB, 2003. 393 193 construídas no campo das sociabilidades políticas, religiosas e de parentesco, e, ao que parece, eram fluidas. Essa idéia de fluidez identitária nos convida a dialogar com as narrações feitas nas entrevistas, entendendo-as não como verdades cabais, mas sim historicizando o tempo em que foram produzidas, compreendendo que aqueles mesmos sujeitos podem construir diferentes narrativas em outros tempos e espaços. Tal fluidez não desqualifica as narrações nem as invalida, ao contrário, nos faz perceber, segundo o que foi proposto por Hall, que os sujeitos históricos vivenciam uma situação por ele denominada de descentramento,394 na qual uma pessoa assume para si um repertório de identidades e não uma única e excludente. A questão da identidade quilombola em Helvécia fez-se presente, enquanto processo e construção, a partir do momento em que as pessoas daquela comunidade passaram a ter dúvidas sobre sua própria organização social, isto é, quando a dinâmica de suas atividades de produção não mais lhes garantiu o sustento, em razão de não mais possuírem terras para plantar, posto que estas, em sua maioria, foram adquiridas pelas empresas de eucalipto. Concomitante a esta situação, homens e mulheres de Helvécia não encontravam espaços de emprego de sua mão-de-obra “nas firmas”. O que estou afirmando é que em Helvécia aconteceram transformações, e essas se deram nos espaços do cotidiano. O movimento dessas transformações foi marcado por diferentes interesses que traduziram aquilo que Hall denomina de “duplo movimento de conter e resistir”.395 Portanto as pessoas daquele lugar, em razão de interesses individuais e coletivos, foram organizando um repertório de ações no sentido de marcarem seu espaço de atuação bem como o espaço de atuação das firmas e de tudo aquilo que elas trouxeram consigo. Nos convívios ou contatos esporádicos com os outros, por exemplo, com os funcionários das empresas que eram de outras cidades e regiões eles se sabiam diferentes e não se identificavam com traços destes outros grupos. Nestes contatos, a comunidade teve suas representações sociais muitas vezes desvalorizadas pelos funcionários do alto escalão, freqüentemente vindos das regiões Sul e Sudeste do Brasil, havendo ainda situações em que heranças culturais da comunidade de 394 Stuart Hall. A identidade cultural na pós-modernidade. 8 ed. Rio de Janeiro, DP&A, 2003. Stuart Hall. Da Diáspora – identidades e mediações culturais. Belo Horizonte, ed. UFMG, 2003, p. 233. 395 194 Helvécia foram folclorizadas396 por este grupo. Segundo Selim Abou, citado por Jacques d’Adesky, um dos caminhos trilhados pela história oficial, para homogeneizar e enfraquecer o sentimento de identidade de um grupo, consiste exatamente em uma ação que “[...] tenta folclorizar sutilmente as heranças culturais dos grupos étnicos dominados, enfraquecendo seu sentimento de identidade e seu poder de contestação”.397 Essa espetacularização do outro pelos canais oficiais pode ser aqui ilustrada através das informações que o guia de turismo do município de Nova Viçosa398 traz a respeito de Helvécia. Neste documento, Helvécia é descrita como se fora um patrimônio histórico pronto para ser degustado por turistas que quisessem conhecer elementos típicos do Brasil colonial bem como provar das maravilhas do exotismo daquela cultura negra, traduzido, entre outras coisas, numa dança associada ainda ao tempo do cativeiro, denominada de bate-barriga.399 Parte da população de Helvécia, ao ter, nas suas relações com o outro, o diferente, percebido que estava sendo preterida e desqualificada, seja através dos sinais econômicos e/ou de status social, fez uso de um discurso juridicamente reconhecido400 no Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias,401 para fazer valer suas reivindicações coletivas, associando à questão da identidade quilombola a possibilidade de garantia da propriedade das terras bem como daquilo que estaria associado a esta propriedade e que dizia respeito a práticas do seu cotidiano. Foi naquele contexto de transformações originadas “pela intervenção de forças externas e da configuração de um novo campo de relações de poder e 396 A expressão “folclorizada” está sendo utilizada aqui no sentido de espetacularização, em que práticas culturais existentes em Helvécia foram lidas por pessoas que não são daquele lugar como se fossem espetáculos, apresentações. 397 Jacques D’Adesky. Pluralismo étnico e multi-culturalismo: racismos e anti-racismos no Brasil, op. cit., p. 42. 398 Publicado pela Secretaria de Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura de Nova Viçosa no ano 2000. 399 Guia de turismo do município de Nova Viçosa, Secretaria de Turismo e Meio Ambiente da Prefeitura, 2000. 400 José Maurício Arruti. Mocambo – Antropologia e História do processo de formação quilombola, op. cit. 401 Constituição da República Federativa do Brasil, Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2002, p.159. 195 resistência402” que a referência à identidade quilombola adquiriu sentido para integrantes daquela comunidade, que se organizaram coletivamente, já que individualmente teriam mais dificuldades em dialogar com as empresas de eucalipto, fazendo essas se posicionarem de maneira a respeitar e atender algumas de suas demandas. Então, no bojo das pressões, se organizaram para jogar, com mais propriedade e assertividade, o jogo das identidades. Neste jogo, pudemos observar que não existia consenso, pertencer a Helvécia não significava necessariamente se reconhecer como quilombola, e este não-reconhecimento não implicava um pertencimento menor do ponto de vista daquele que não se identificava. Havia/há em Helvécia diferentes visões de Helvécia, bem como diferentes noções do que significava pertencer a esse distrito. A senhora Elzira Rafael Peixoto, natural dessa comunidade, por exemplo, elaborou a seguinte narrativa: Hoje aqui tá tombado como quilombo, mas na verdade mesmo os primeiros descendentes daqui não foram escravos. Vieram com eles, né? Vieram com eles, alguns escravos pra trabalhar nas fazendas de café. Antigamente aqui era fazenda de café. Então os suíços, os alemães, os portugueses, os holandeses – que a minha descendência é holandesa, aqui o vizinho já é de alemão..., mas eles foram fazendeiros, como a minha bisavó, chamava Ermínia Krismia, a minha avó era Ermínia Krismia e meu avó pertencia ao Krull – então são duas raças que vieram e trouxeram seus escravos para trabalhar nas fazendas de café. Depois de fundado, então eles trouxeram muitos escravos. Uns morreram aqui, outros voltaram pra sua origem... [referindo-se aos antigos colonos] e os escravos permaneceram nas suas lavouras, nos seus trabalhos, que eles sabiam fazer. Mas como quilombo mesmo..., que quilombo é uma terra que, é uma área reservada para aqueles negros trabalhar forçado. Trabalhar e vender aquilo que eles possuíam. Mas aqui nunca foi isso. Tem muito negro? Tem. Oitenta por cento, noventa por cento de negros? Tem, mas foi dessa maneira. Mais aí que nasceu a história de Helvécia... nasceu a história de Helvécia assim. Porque que Helvécia tem muitos negros? Os brancos trouxeram os negros, através de navios, naquela época o único transporte que tinha. Aqui os negros foram ficando, foram progredindo. E a raça branca como era a minoria muitos voltaram e houve essa mistura de raça...Aqui tem pessoas negras com olhos azuis, negros dos cabelos loiro, loiro assim, liso. Índio, tem muita 402 Eliane Cantarino O’Dwyer. “Remanescentes de quilombo” na fronteira amazônica: a etnicidade como instrumento de luta pela terra. In: Clóvis Moura (Org.) Os quilombos na dinâmica social do Brasil. Maceió: EDUFAL, 2001, p. 301. 196 raça aqui misturada, misturou as raças, então predominou essa cor.403 Interessa-me seguir algumas das pistas sugeridas na fala da senhora Elzira Peixoto. Em primeiro lugar, nas entrelinhas, ela teceu uma interpretação do motivo de Helvécia ter na atualidade uma população predominantemente negra, ao mesmo tempo em que buscou demonstrar que Helvécia, apesar de ter sido “tombada” 404 como quilombo, não o é. É como se para ela a evidência de Helvécia como quilombo estivesse na presença maciça de negros, “80, 90% de negros”. Foi então preciso memorar a gênese de Helvécia para desconstruir essa, ainda segundo a entrevistada, não-verdade. Para isso, ela foi buscar, em sua memória, elementos da formação da Colônia Leopoldina, falou da chegada dos colonos que vieram para desenvolver o cultivo de café e trouxeram consigo escravos para trabalhar nas lavouras. A partir dessa informação ela indicou que quem primeiro chegou não foram africanos, na condição de escravos, mas sim europeus provenientes de diferentes nações, vindos para aquela região na qualidade de fazendeiros. É com este grupo que a entrevistada se identificava/identifica, “Antigamente aqui era fazenda de café. Então os suíços, os alemães, os portugueses, os holandeses – que a minha descendência é holandesa”, sendo, portanto, para ela, importante trazer à tona uma identificação de Helvécia como uma colônia de estrangeiros europeus. Existia na fala da senhora Elzira Peixoto uma necessidade de dizer que ela se associava à história daquele lugar, que ali estavam os seus vínculos identitários associados à questão do parentesco, “[...] mas eles foram fazendeiros, como a minha bisavó, chamava Ermínia Krismia, a minha avó era Ermínia Krismia, .e meu avó pertencia ao Krull,”405 que ela reconhecia Helvécia como tendo uma população predominantemente negra, mas que isso de Helvécia ser quilombo não era verdade, pelo menos não para ela. Considerando que a identidade coletiva não se esgota na idéia de pertencimento e que essa é também produto de um processo de identificação, entendo, a partir da leitura do texto de Jacques D’Adesky, que uma coisa é dizer “eu sou de Helvécia”, idéia de pertencimento, outra é dizer “eu sou quilombola”, idéia de 403 Entrevista concedida à autora pela sra. Elzira Rafael Peixoto em 14 ago. 2007. Uso aqui a expressão “tombada”, que foi utilizada pela entrevistada para indicar que Helvécia foi reconhecida como quilombo. 405 Entrevista concedida à autora pela sra. Elzira Rafael Peixoto em 14 ago. 2007. 404 197 identificação.406 Tais diferenças ficaram evidentes no distrito de Helvécia após a chegada das empresas de eucalipto. A presença do estranho contribuiu para que estranhamentos entre os integrantes da própria comunidade fossem expressos e exigiram novos arranjos e acomodações nas relações de sociabilidade dos moradores do distrito. Quanto ao clima de animosidade estabelecido entre parcela da população e os integrantes da AQH, após o reconhecimento as relações foram sendo contemporizadas. [...] ameaças nós tivemos por conta disso, mas a gente tem um ano já que se deu e eu vejo que hoje já está havendo uma abertura, porque a gente está levando a informação, até a gente deu uma recuada que no inicio estava bem tenso mesmo ameaças, nós sofremos e hoje a gente vê que a Comunidade ela quer benefícios, né? E ela percebeu que através da Associação, Helvécia pode melhorar, até na televisão mesmo eles têm escutado pessoas que vêm de outras comunidades, de outros lugares e falam que é uma coisa boa, então a gente já vê essa abertura por parte de muita gente em está aderindo, né? A Associação, mas ainda há uma resistência por parte de muitos, não só aquelas pessoas que possui terras, mas pessoas que não têm nem onde morar também, mas que não aceita ser Quilombola e eu acredito que isso é falta de conhecimento mesmo, né? Então estamos tentando trabalhar nesse sentido de fazer um trabalho mesmo de formiguinha, de estar sentando com as pessoas e explicando o que é, a gente tem um material aqui até riquíssimo, a gente tem levado, mostrado para as pessoas para estar lendo, para se informar melhor sobre a Associação.407 Aquela comunidade passou a ter mais informação a respeito dos benefícios atrelados ao reconhecimento feito pelo governo federal. Integrantes da AQH colocaram em prática o “trabalho mesmo de formiguinha, de estar sentando com as pessoas e explicando o que é”. A resistência ao reconhecimento persistiu, “mas ainda há uma resistência por parte de muitos, não só aquelas pessoas que possui terras, mas pessoas que não têm nem onde morar também, mas que não aceita ser Quilombola”. Este trabalho de informação, de esclarecimento da AQH, ganhou os espaços das salas de aula. Esse reconhecimento para nós é importante por isso, que nós vamos estar trabalhando com essa nova geração, a importância de você ser 406 407 Jacques D’Adesky, op. cit., p. 41. Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007. 198 negro de você ser Quilombola e de aceitar né? [...] que a gente só tem praticamente dois anos de luta, mas a gente já vê hoje essa abertura por parte de muitos alunos que assumiram, quando você pergunta, por exemplo, sua religião, né? Aqueles que vão com seus pais freqüentar o centro de Candomblé eles já falam em público né? Eu sou dessa religião e sem vergonha nenhuma, então isso é importante para nós, de ter todo esse resgate cultural e religioso está melhorando também a situação do negro na parte social, na parte econômica, que são os mais sofridos aqui, então nós, você vê aquela, que ainda há aquela submissão das pessoas por algumas famílias que se dizem elite dessa comunidade, a gente vê que tem uma submissão muito grande, então ter pedido esse reconhecimento é importante por isso, é consegui ser libertado [...]408 Segundo a entrevistada, o reconhecimento também havia contribuído para transformações no campo das relações cotidianas entre integrantes da comunidade. Nesta fala, há elementos de valorização do ser quilombola que dialogam com o que foi proposto por Arruti, ao afirmar que Ao serem identificados como “remanescentes”, aquelas comunidades, ao invés de representarem os que estão presos às relações arcaicas de produção e reprodução social, aos misticismos e aos atavismos próprios do mundo rural, ou ainda os que, na sua ignorância, são incapazes de uma militância efetiva pela causa negra, passam a ser reconhecidas como símbolo de uma identidade, de uma cultura e, sobretudo, de um modelo de luta e militância negra, dando ao termo uma positividade [...]409 A militância negra em Helvécia, organizada através da AQH, conquistara, não sem obstáculos, espaços de ação e valorização, e o reconhecimento da comunidade como remanescente quilombola foi decisivo no processo de valorização daquela militância. Também sobre benefícios associados ao reconhecimento, ouvi do senhor Jorge o seguinte: A comunidade teve muito beneficio inclusive, eu fui fazer um cadastramento para energia rural lá na Coelba e dei referência, Helvécia é remanescente de quilombola, ele falou: – Olha, então pode ter certeza que vai sair logo, tem prioridade. Ele falou comigo, o cara da Coelba, o lugar que é reconhecido como quilombola tem prioridade.410 O reconhecimento implicou mudanças de tratamento para com o distrito, “o lugar que é reconhecido como quilombola tem prioridade”, e essas mudanças se 408 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007 José Maurício Arruti. Mocambo – Antropologia e História do processo de formação quilombola, op. cit, p. 82. 410 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. 409 199 fizeram ver na qualidade da merenda da escola, na agilidade de serviços de cadastramento para energia rural. Também mudou a relação das empresas de eucalipto com a comunidade.A senhora Jilsimere Joaquim Santos e Silva, 31 anos, natural de Helvécia e uma das integrantes da AQH no início de sua fundação, deixou ver, nas entrelinhas de sua narrativa, a mudança de comportamento da Aracruz Celulose na relação com a comunidade após o reconhecimento. Então hoje a empresa [referia-se à Aracruz Celulose] reconhece que... e também por ter a associação né? A AQH, então hoje a empresa reconhece que Helvécia é unido, que a gente tem uma força né? Então eles hoje procuram por Helvécia, por representantes 411 deste grupo [referindo-se a AQH]. Este reconhecimento da existência de novas forças na comunidade de Helvécia exigiu das empresas de eucalipto diferentes formas de abordar o grupo. Entretanto isto não significou o fim das tensões existentes, senão vejamos. No campo da educação, houve, em Helvécia, investimento por parte da Suzano Papel e Celulose. A análise da fotografia a seguir (cf. fotografia 12) ajuda a conhecer e problematizar alguns dados referentes à esta atuação. Figura 12 – Placa da reforma da escola, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. 411 Entrevista concedida à autora pela sra. Jilsimere Joaquim Santos e Silva em 14 ago. 2007. 200 A escola João Martins Peixoto é a única existente em Helvécia e oferece apenas o ensino fundamental. Segundo os dados da placa, ela não foi construída pela Suzano Papel e Celulose. O investimento feito por esta empresa foi no sentido de reformar a unidade escolar em parceria com a prefeitura municipal e com apoio do Bndes. Esta reforma ocorreu somente em meados de 2007, portanto mais de duas décadas depois da atuação da empresa no distrito. As crianças que ali estudam usufruem, na atualidade, em relação à estrutura física, de uma escola com amplas salas de aula, em um prédio recém-pintado, com um pátio interno espaçoso e sem cobertura que as proteja nos dias de chuva. Um dos diferenciais da escola João Martins Peixoto, apresentado por alguns entrevistados, diz respeito à boa qualidade da merenda escolar. Quando, em uma entrevista, perguntei se havia alguma contribuição das empresas de eucalipto para esta melhoria, obtive a seguinte resposta: Não, com as empresas não, não tem porque a relação que teve porque foi reconhecida um quilombola, então a merenda de Helvécia é diferenciada das merendas dos outros municípios. De outro local, é diferenciada de Posto da Mata, de Argolo e de Nova Viçosa, então a merenda de Helvécia é melhor por causa do reconhecimento.412 A vistosa placa (cf fotografia 12) não encobre a realidade cotidiana dos jovens de Helvécia, que após concluírem a oitava série413 ou param de estudar ou, para terem acesso à escola de 2º grau, acordam às cinco horas da manhã e percorrem aproximadamente 24 km até o distrito de Posto da Mata, muitas vezes em ônibus com condições precárias de segurança. Ressalto o ano de realização da reforma feita na escola João Martins Peixoto, 2007, posterior ao reconhecimento do distrito de Helvécia como área remanescente de quilombo, ocorrido em 2005. O questionamento que estou propondo é o seguinte: porque a Suzano Papel e Celulose, instalada em Helvécia desde os anos 80, que tem como meta “[...] incentivar programas voltados para o desenvolvimento regional e a incentivar e promover ações, com ênfase nas áreas de educação [...],”414 iniciou a reforma da única escola existente no distrito de Helvécia apenas no ano de 2007? Haveria contribuído para isso a existência de algum novo elemento na composição de forças estabelecida entre a comunidade de Helvécia e a empresa? A comunidade de Helvécia teria contribuído de que forma para que se desse o estabelecimento 412 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. Série que equivale ao nono ano. 414 http://www.suzano.com.br/suzano/responsabilidade_social/balanco_social.pdf 413 201 daquela parceria entre a Suzano Papel e Celulose, a prefeitura municipal de Nova Viçosa e o Bndes? O fato de Helvécia ter sido reconhecida, desde 2005, como área remanescente quilombola teria dado àquele distrito uma visibilidade que convidava a empresa a mostrar, em placas também visíveis, suas ações no campo da responsabilidade social? Este questionamento fundamenta-se na existência de uma série de exigências para que uma empresa do ramo da eucaliptocultura obtenha e/ou renove o Forest Stewardship Council – FSC, isto é, “[...] o selo verde que atesta a qualidade do manejo florestal e verifica se o mesmo está dentro dos padrões socioambientais definidos como classe mundial [...]”,415 ou o Cerflor, adaptação, para os padrões brasileiros, do FSC. Entre os vários itens avaliados para que se possa certificar uma empresa, destaco: a) direito dos povos indígenas e das comunidades tradicionais; b) relações comunitárias e direito dos trabalhadores.416 A posse destes certificados, no jogo da concorrência capitalista internacional, é, nos tempos atuais, fundamental e justifica a necessidade da realização de ações que revelem a existência de uma política de responsabilidade social. Isso não significava atender efetivamente às necessidades prementes da comunidade. Nas pesquisas de campo não coletei, por exemplo, nenhuma informação que fizesse referência à atuação das empresas de eucalipto no incremento de ações ligadas à melhoria da saúde da população local. Não existe hospital em Helvécia. O que existe é um posto de saúde, atendido por um médico que não reside na comunidade. Também não há ambulância. Em caso de urgência os membros da comunidade se organizam para levar seus doentes até Posto da Mata, Nova Viçosa ou Teixeira de Freitas, em busca de assistência médicohospitalar. Isto não dá conta de suprir as necessidades locais, e a comunidade, através de apoio político, de membros externos, e da atuação da AQH, tem buscado agir. [...] vamos estar trabalhando nesse momento a questão cultural, já teve alguns benefícios igual, é a gente deu apoio ao deputado Luiz Alberto que desde o início ele tem nos ajudado nisso e aí ele conseguiu um recurso para cá de cento e trinta mil reais e esse recurso ele veio através da Associação que também é uma outra área que a gente tem procurado trabalhar e esse recurso ele veio 415 Jorge Emanuel Reis Cajazeiras, José Carlos Barbieri e Dirceu da Silva. Estudo da sustentabilidade regional da produção industrial de eucalipto no estado da Bahia, op. cit., p. 8 (material enviado pela Suzano Papel e Celulose, por e-mail, para a autora). 416 Idem. 202 para a área da saúde, onde vai ser construído um novo posto e esse que existe vai ficar funcionando como a creche.417 É provável que este novo posto esteja sendo pensado de forma a ser melhor equipado e possa contar com mais profissionais da saúde. Ressalto a menção feita à necessidade e possibilidade de criação de uma creche no distrito, e entendo que ela indica uma nova dinâmica de trabalho, diferente daquela realizada nas roças, nas quais as crianças acompanhavam seus pais na labuta da terra. No trabalho de campo, uma entrevistada falou do seu sentimento de estranheza em relação à maneira como as empresas de eucalipto passaram a lidar com a comunidade após o reconhecimento desta como área remanescente de quilombo. Ela se referiu de forma específica à Aracruz Celulose: [...] É fica um pouco meio confuso, a gente fica um pouco meio confuso e a Aracruz hoje, interessante que hoje ela não dá folga, quase todos os dias tem uma pessoa de Aracruz aqui em Helvécia, vem conversar, chega aí senta lá na praça conversa com um, conversa com outro, hoje vem um, amanhã vem outro... Esses dias doou um computador para a escola, – Isso aqui é um presente meu, não é da Aracruz, é um presente meu. Então são migalhas que vêm para calar, é um bico né? Para calar a boca né? Quando está chorando dá bico né? Não tem nada ali, é só para sugar mesmo né? E vem para calar a boca mesmo.418 Esta presença constante de membros da empresa Aracruz Celulose, entabulando conversas com diversos integrantes da comunidade, após o reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo, tem sido recorrente e constitui-se, na atualidade, em um novo elemento na tessitura das relações sociais daquela comunidade no seu “viver com eucaliptos”. O contato da comunidade com integrantes das empresas não é algo novo, que possa ser associado ao período posterior ao reconhecimento como área remanescente de quilombo. Nova é a postura dos representantes das empresas que, segundo alguns dos entrevistados, agem como se estivessem sondando, buscando saber mais sobre a comunidade, em busca principalmente de informações sobre as ações da AQH. 417 418 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Ricardo Constantino em 15 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Gilsineth Joaquim Santos em 15 ago. 2007. 203 Ainda sobre a presença de integrantes e equipamentos das empresas de eucalipto em Helvécia, nas estradas que dão acesso ao distrito, ela ocorre de forma ruidosa através das carretas que transportam o eucalipto pela BR 418, levantando poeira. Esta estrada, apesar de constar no mapa como sendo pavimentada, não o é. A poeira fica entranhada nas casas, objetos e corpos daqueles que insistem em viver próximo “à rodagem”, dificultando aquele viver, provocando doenças e sufocando pessoas. O constante ir e vir de carretas contribuiu de forma decisiva para o intenso desgaste das estradas. Além de torná-las potencialmente perigosas para as pessoas que transitam em veículos automotores, a cavalo, de bicicleta, com carroça ou que costumam realizar o translado a pé. Em Helvécia, os “investimentos de porte” em estradas e infra-estrutura para comunicação, se existiram, não garantiram benefícios diretos para os moradores locais. Nas pesquisas de campo, pude observar que muitos deles diuturnamente trafegam por um caminho que dá acesso ao distrito passando pela ponte do rio Peruípe, construída ainda nos tempos da Colônia Leopoldina, pela qual escoava a produção cafeeira. Esta não oferece nenhum tipo de segurança, ao contrário, atravessá-la chega a ser quase uma aventura. O uso da ponte, feito pela comunidade em seu dia-a-dia, não foi levado em conta nem pelo poder público nem pelas empresas, que não tiveram interesse em investir na recuperação da mesma em razão do seu uso ser inviável para o tráfego das pesadas carretas. Dentro desta lógica, foi construído um desvio que atende aos interesses das “firmas”, mas não, necessariamente, os da comunidade. Além disso, o espaço em que está a ponte do rio Peruípe significa um lugar de encontro para os moradores. Em pequenos grupos, eles ali se reúnem, em busca do frescor da água, das brincadeiras com amigos, de um refresco nos dias ensolarados, tão comuns naquela região. Estes significados não foram valorizados pelas empresas de eucalipto. Viver em Helvécia era/é transitar por estradas ladeadas por eucaliptos. Como, nas atividades de campo, tive informações de pessoas que haviam se perdido nos eucaliptais, em razão de os caminhos de eucalipto parecerem iguais, resolvi, em uma entrevista, abordar esta questão. Qual foi minha surpresa ao ouvir do senhor Jorge o seguinte: Não, não aqui em Helvécia. Eu, por exemplo, não perco aqui nessa região. Não perco em lugar nenhum, porque mesmo com o eucalipto 204 você sabe mais ou menos a área que você está e quem mora aqui não perde no eucalipto não, e crianças também no eucalipto não tem caso nenhum de perdimento de ninguém no eucalipto perdido não. Aqui, aquele que é daqui que vai embora, quando volta que... essa área, aí sim pode perder, se ele não for com alguém que conhece... igual mesmo, aqui tem uma estrada que vai para Nova Viçosa, você entra aqui por dentro e vai sair lá em Nova Viçosa , na estrada do boi, eu perdi um dia, porque eu cheguei passei o eucalipto estava grande quando eu cheguei a área estava toda cortada e estrada tudo do mesmo jeito, falei – Agora, como é que eu vou fazer? De noite, estava vindo de Nova Viçosa, estava eu e os meninos todos no carro. Aí eu parei, parei e olhei desci e falei, – Não, estou perdido. Voltei cheguei no lugar e falei – É aqui. ...falou, – Ah, você vai dormir no eucalipto. Falei – Não, pode ficar tranqüilo, não vou dormir no eucalipto não. Essas áreas todinha aí já trabalhei, puxando madeira e já vi como é que é o esquema né? Pesquisadora – Se você que conhece tanto... Senhor Jorge Ferreira – Perdi. E quem não conhece não adianta nem entrar, que se entrar fica perdido se não tiver alguém que conhece, agora as pessoas daqui não têm dificuldade nenhuma quase para falar que vai perder não, a não ser aquele que sai, fica um tempo fora e depois volta419 A fala do entrevistado sugere o quanto “a construção da narrativa revela um grande empenho na relação do relator com a sua história”,420 no caso, a história de um conhecedor de Helvécia, conhecedor dos caminhos de Helvécia, que afirmava não existir a possibilidade de se perder dentro dos eucaliptais ao mesmo tempo em que ilustrava sua fala com um exemplo claro de que também ele se perdera. Cabe aqui a proposição feita por Raymond Williams,421 que nos faz pensar que as interferências feitas na natureza não podem ser entendidas como dissociadas da exploração humana. Assim, seria no mínimo ingênuo imaginar que “as firmas”, ao se apropriarem de terras em Helvécia e imprimirem nas mesmas o verde monocromático do eucalipto, não estivessem, ao mesmo tempo em que anunciavam a chegada do progresso, produzindo desajustes nos modos de viver daquela comunidade. Essa não-separação entre exploração dos recursos naturais e dos homens implicou transformações, traduzidas pelo senhor Jorge, na expressão “perdi”. Tais desajustes exigiram daqueles homens e mulheres todo um trabalho de (re) construção de suas vidas. . 419 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007 (grifos da autora). Alessandro Portelli. O que faz a história oral diferente. Projeto História, São Paulo (14): 31, fev. 1997. 421 Raymond Williams. O campo e a cidade – na história e na literatura. Trad. Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. 420 205 Então hoje é o que está acontecendo aqui em Helvécia. Que nem eu falei no início que a cultura antes era mais alegre porque tinha muita agricultura, todo mundo mexia com... um mexia com a roça de feijão, outro mexia com abóbora, com mamão, outro mexia com a melancia, então ninguém saía daqui para procurar serviço fora, porque todo mundo trabalhava por aqui mesmo, tinha vários japoneses também. Aí depois que chegou o eucalipto, todo mundo foi... aí algumas pessoas entraram na firma, outros indo embora que acabou. Então foi acabando a cultura de Helvécia, por isso que eu falo eucalipto é bom numa parte e ruim em outra, no aspecto de as pessoas não estar diariamente na comunidade, que várias pessoas saem da comunidade para trabalhar fora por causa disso, que não tem mais agricultura, aqui em Helvécia hoje mesmo quem mexe com a agricultura pode contar de dedo, pode contar de dedo, não tem mais ninguém que mexe com agricultura. Eu comecei agora porque, eu comprei um trator. E quem não tem um trator para mexer com agricultura não adianta. Então... assim ficou assim... uma coisa que fica difícil de explicar mas o eucalipto tem as vantagens e tem as desvantagens.422 Essa percepção da concomitância de vantagens e desvantagens do plantio do eucalipto expressava-se nas ações e nas expectativas das pessoas da comunidade, contribuindo para torná-la ainda mais complexa. Complexidade esta presente nas negociações existentes entre os representantes das empresas de eucalipto e os habitantes de Helvécia. Tais negociações não implicaram relações harmoniosas, “havia um espaço social que se tecia tanto de barganhas quanto de conflitos”,423 e este espaço foi perpassado pela articulação entre as condições de vida dos habitantes da comunidade, o reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo e as ações de responsabilidade social das empresas. Estas ações, quando realizadas, não o foram somente para atender às exigências do mercado internacional, mas também às da comunidade, cuja atuação, organizada politicamente para lutar pela regularização dos territórios sociais tradicionalmente ocupados, compôs, não sem fissuras, as forças daquele jogo. 3.3 “A GENTE ESTÁ EM UM JOGO DE CINTURA COM A COMUNIDADE” No pedido de reconhecimento como comunidade remanescente de quilombo, enviado à Fundação Cultural Palmares, em outubro de 2004, os signatários, após 422 Entrevista concedida à autora pelo sr. Jorge Ferreira da Silva em 14 ago. 2007. João José Reis, Eduardo Silva. Negociação e conflito – a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 7. 423 206 um breve relato sobre Helvécia, encerraram assim o documento: “portanto reiteramos pedido de certificação como remanescente de quilombos, reconhecendo (sic), delimitação, demarcação e titulação de nossas terras pelo órgão competente424”. Entretanto, após o reconhecimento e os embates suscitados por ele, a AQH passou a agir, segundo a senhora Roseli Constantino, da seguinte maneira Helvécia, como eu estava falando já foi reconhecida já como comunidade remanescente, só que a gente deu essa recuada por conta dos conflitos que surgiram, até ameaça de morte e aí em relação a outras comunidades remanescentes, nós tínhamos dois problemas, porque as outras é uma briga entre a comunidade e os latifundiários e aqui não, aqui a gente tinha uma briga com as empresas [referia-se a Aracruz Celulose e Suzano Bahia Sul Celulose] e uma briga interna em relação à própria comunidade não se aceitar, tanto é que teve né abaixo-assinado, pessoas que passaram, saíram por aí fazendo abaixo-assinado para as pessoas não aceitar, então esse abaixo- assinado voltou para nós de novo né? E aí, esses dias mesmo tivemos contatos com o povo da..., ligaram para nós, o povo da Fundação Cultural Palmares e onde eles iam discutir já a questão da territorialidade, a gente falou –: Não, vamos dar um tempo né? Vamos estar trabalhando nesse momento a questão cultural, [...] não estamos ainda discutindo a questão da territorialidade até por conta dessa falta de conhecimento do povo que é negro, a gente também entende que em Helvécia muitas pessoas têm tido suas terras né? E aí eu sei que muitas pessoas não vão aceitar, por exemplo, uma titulação única, então também isso gerou medo em algumas pessoas, até negras mesmo que têm terra em saber que vai ter essa titulação única e se mudar de governo e se mudar alguma coisa, [...]425 Nesta fala, a líder da AQH deixou clara a permanência do clima de tensão em Helvécia ao mesmo tempo em que identificou dois pólos de conflitos existentes: “aqui a gente tinha uma briga com as empresas e uma briga interna em relação à própria comunidade não se aceitar”” O fato de a AQH ter, diante das ameaças veladas e/ou reveladas, recuado e pedido, informalmente, aos integrantes da Fundação Cultural Palmares que não desse andamento ao processo de demarcação e titulação das terras indica a complexidade que este adquiriu na comunidade. Ainda em relação aos conflitos internos, a fala da senhora Roseli evidencia que estes estão vinculados à não-aceitação e até mesmo rejeição da 424 Pedido de reconhecimento como comunidade remanescente quilombola, Helvécia, 23 de outubro de 2004. In; Fundação Cultural Palmares, Reconhecimento da Comunidade Negra Rural de Helvécia, Nova Viçosa/BA, fl. 10. 425 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007 (grifos da autora). 207 identidade quilombola e aos receios e dúvidas em relação à dinâmica/forma da titulação terra. Mas não era só, um outro elemento compunha essa relação de tensão em Helvécia. Ele aparece na fala da senhora Roseli quando a mesma discorre sobre o comportamento das empresas após o reconhecimento de Helvécia. Olha com a Suzano a gente não tem muito contato, mas desde que nós pedimos o reconhecimento a Aracruz já nos procurou, dias após a minha ida à Brasília, ...começou as ligações, a ligar lá para casa, querer dialogar. Mais de vinte anos de empresa na região, eles nunca vieram, essa vinda dela a partir do reconhecimento... tem nos procurado sempre e nos colocando em uma situação muito complicada, porque enquanto que a Associação, a gente sabe que Associação é contra né? Essa monocultura, mas aí a comunidade por aquilo que eles prometem...426 Por que a mudança de comportamento das empresas de eucalipto – em especial da Aracruz Celulose – tem deixado as integrantes da AQH “em uma situação muito complicada”? Possivelmente porque, dentre as tantas promessas, as firmas traziam novamente à baila um tema caro à população de Helvécia: a geração de empregos. A promessa de ocupação, através da criação de um viveiro, segundo a senhora Malzinéia, seduzia/seduz a população, obrigando a Associação a “ter jogo de cintura”. Sobre as investidas da Aracruz Celulose, após o reconhecimento de Helvécia como comunidade quilombola, a referida senhora dá mais detalhes: E aí quando o senhor Walter [referia-se a um representante da Aracruz Celulose], ele esteve aqui ao ouvir as nossas reivindicações e de alguns líderes da comunidade, ele colocou que nós pudéssemos nos acalmar né? Que ia surgir, já estava previsto, já estava quase que tudo certo... a implantação de um viveiro nas proximidades de Helvécia para favorecer a comunidade de Helvécia. E aí a gente fica naquele impasse – Poxa, uma Associação que briga... né? Para ter as suas terras de volta e no mesmo instante aceitando o viveiro de eucalipto. É porque a população do lugar eles gritam por emprego, eles quase não acreditam mais no trabalho da terra, entendeu? Eles querem ser empregados de uma determinada empresa, então nós da Associação, que é um grupo bem menor, ficamos quase que espremidos entre eles. Então é o que eu falei para você, a gente tem que ter um jogo de cintura, porque somos nós que moramos aqui dentro, somos um pequeno grupo, então exige todo um manejo de levar a situação.427 426 427 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. 208 Este encontro aconteceu em 2007. Na oportunidade, o representante da Aracruz Celulose sinalizou com a possibilidade de implantar um viveiro de eucalipto em Helvécia, gerando empregos, inclusive para as mulheres do distrito. Esta proposição foi feita em reunião com membros da comunidade, incluindo os integrantes da AQH, estes “quase que espremidos entre eles”, e frente à uma população que anseia por emprego “de uma determinada empresa” tiveram que ter “jogo de cintura”. Para Malzinéia, que participava da AQH desde sua fundação aquela foi uma situação de “impasse entre defender a terra e apoiar o viveiro que está vindo aí justamente para plantar o eucalipto, então é uma contradição muito forte para a gente, muito forte e dolorosa”428. A respeito destas reuniões feitas amiúde pela Aracruz Celulose com a comunidade de Helvécia, logo após o reconhecimento, a professora Regina Constantino fez a seguinte análise: [...] a gente não sabe com que interesse eles estão fazendo isso, toda vez que eles marcam uma reunião, falam assim: – Chama as meninas da Associação, né? A gente vai, aí quando chega lá é aquela briga né? Vereador brigando e tal – Ah tem que ser em Helvécia, tem que ser em Helvécia [referindo-se à implantação do viveiro de eucalipto] [...] E aí a gente fala assim: – Gente será que no meio dessa reunião, eles não vão falar, não querem jogar o povo contra a gente né? – Ah, não pode ser em Helvécia porque Helvécia é terra de quilombo, não pode mais plantar esse tipo de atividade aqui em Helvécia. Então por isso estamos com medo disso de ser uma jogada da empresa né? Para tentar acabar com a Associação, ninguém nunca vai saber o que está querendo né?429 A senhora Regina vislumbra na ação da Aracruz Celulose, de convidar as “meninas da Associação” para as reuniões feitas por esta empresa com integrantes da comunidade, a possibilidade de uma estratégia de “jogar o povo contra” a AQH. Mesmo sem elementos para asseverar como este tipo de estratégia estaria sendo pensada, a narradora está alerta, afinal, em sua memória, a Aracruz Celulose, para desenvolver seus projetos em Helvécia, não respeitou, em um passado recente, as organizações existentes no lugar. Por outro lado, é importante lembrar que, ao ser reconhecida como área remanescente de quilombo, Helvécia ganhou visibilidade, exigindo das empresas de 428 429 Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. Entrevista concedida à autora pela sra. Regina Constantino em 14 ago. 2007. 209 eucalipto que atuam na região ações que fizessem ver a sua propalada responsabilidade social. Corrobora esta análise, por exemplo, a criação da Associação Arte Helvécia, parceria da Aracruz Celulose com artesãs da cidade para a construção de “produto socialmente justo e ecologicamente correto, [...] com resíduos florestais de eucalipto e sementes da região”.430 Destaco aqui o fato de esta associação ser composta apenas por mulheres, alijadas do campo de trabalho em razão dos “desmantelamentos” ocorridos no distrito. Essas, possivelmente, antes da criação da Associação Arte Helvécia, pela Aracruz Celulose, talvez constituíssem um grupo insatisfeito, inclusive propenso a participar de movimentos de resistência e/ou questionamento ao projeto das empresas de eucalipto. Jornais locais veiculam matérias divulgando ações das empresas em Helvécia, destacando a geração de empregos para integrantes da comunidade. “Aracruz oferece cursos de capacitação em Helvécia” [...] No último dia 17 de março teve início, em Helvécia, distrito de Nova Viçosa (BA), novos cursos de capacitação voltados para atender aos moradores da Região. Parte dos cursistas vai atuar na Unidade de Produção de Mudas (UPM) que a empresa vai construir no Distrito neste ano; a outra parte estará disponível no mercado. As primeiras 240 qualificações já foram concluídas e, no momento, 120 novos alunos, todos moradores de Helvécia, aprendem ofícios de pintor, bombeiro hidrossanitário e armador de ferragem para atuarem na área de construção civil. Em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de Salvador, a Aracruz também abriu processo de seleção dos candidatos a instrutores voluntários para trabalharem no centro de informática que a empresa construiu juntamente com uma biblioteca. No mês de maio terá início o curso de viveirista, que será realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) da Bahia, que vai receber 600 alunos. [...]431 As parcerias da Aracruz Celulose com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural indicam o apoio que esta empresa continua a ter das instituições públicas, ao mesmo tempo em que o título da matéria, “Aracruz oferece curso de capacitação em Helvécia”, dá a entender que o referido curso foi uma iniciativa da Aracruz. Leio esta reportagem como um 430 Conforme material de divulgação da Associação Arte Helvécia entregue à autora em outubro de 2007. 431 Aracruz oferece cursos de capacitação em Helvécia. Alerta, ano 21, número 867, 26 a 30 de março de 2008, p. 4. 210 indicativo claro da intenção da empresa em divulgar suas ações em Helvécia, uma espécie de resposta às criticas feitas a sua atuação na região. Criticas que ganharam maior visibilidade em razão de o distrito ser remanescente de quilombo. A Aracruz atua em outros municípios, nos quais o jornal Alerta, que veiculou a matéria, circula, como, por exemplo, Caravelas, Teixeira de Freitas, Alcobaça, Prado. Por que então especificar “120 novos alunos, todos moradores de Helvécia”? Por que a construção de um centro de informática e uma biblioteca em Helvécia? Por que a instalação da Unidade de Produção de Mudas – UPM em Helvécia? Estas ações são indícios de que Helvécia ocupava um novo lugar. Não era apenas mais um distrito que desde 1980 havia sido tomado pela eucaliptocultura. Este novo lugar havia sido galgado a partir do momento em que fora nomeado e reconhecido como área remanescente de quilombo. Arruti, ao falar do significado deste termo, remanescente quilombola, afirma que o mesmo implica, para a população que o assume (indígena ou negra) a possibilidade de ocupar um novo lugar na relação com seus vizinhos, na política local, frente aos órgãos e às políticas governamentais no imaginário nacional e, finalmente, no seu próprio imaginário[...]432 Este novo lugar, ocupado agora pela comunidade de Helvécia, na relação com as empresas de eucalipto, é identificado pela senhora Roseli Constantino: Às vezes eu fico observando que as pessoas só acreditam naquilo que elas querem, que no fundo, no fundo elas sabem que a vinda da Aracruz aqui só está acontecendo por causa desse reconhecimento, mas eles ainda não atentaram para isso, e ao invés de abraçar [a AQH] ainda há um certa resistência, então a nossa relação com ela tem sido isso aí, a gente não entrou ainda em conflito, mas em todo momento a gente deixa claro quais são os nossos objetivos, algumas pessoas do grupo, da rede [referindo à Rede Alerta Contra o Deserto Verde] que a gente faz parte até ficavam – Cuidado com esse povo da Aracruz. Então todas as vezes que nós reunimos com eles a nossa fala tem sido sempre a mesma, [...] independente de qualquer coisa que vocês vierem trazer, vocês estão sabendo que vocês estão cumprindo a responsabilidade social que é de vocês e que a comunidade em geral quer receber esse beneficio, mas que nós não vamos abrir mão dos nossos direitos, que a luta da Associação vai ser discutir a questão cultural, social e mais tarde com certeza a questão da territorialidade, pode ser que hoje muitas pessoas não queiram aceitar, mas daqui cinco anos, dez anos tenho certeza que as crianças, as novas gerações elas irão querer. Quem quiser abrir mão de seu direito hoje que faça isso, mas eu não abro mão do meu 432 José Maurício Arruti. Mocambo – Antropologia e História do processo de formação quilombola. Bauru, op. cit., p. 82. 211 e a Cartilha da Fundação Cultural Palmares deixa claro isso, até que uma pessoa, uma pessoa só tiver pedido o reconhecimento é válido, né? Então aquele que não quer... mas ele não pode impedir os outros de querer e eu tenho certeza que a gente está trabalhando para que as novas gerações tenham esse beneficio, daqui há cinco, dez anos com certeza, eles vão sentir essa necessidade e vão abraçar melhor a Associação, que é ser quilombola né?433 Ela sabe da mudança de composição de forças, engendrada pelo processo de reconhecimento de Helvécia, e percebe que outros integrantes da comunidade também o sabem, mas não admitem, em razão dos conflitos internos com a AQH. Referindo-se às relações entre a AQH e a Aracruz Celulose, a entrevistada compôs uma narrativa como se fosse um recado à empresa. Neste, ela falou dos benefícios esperados pela comunidade através de ações de responsabilidade social, ao mesmo tempo em que reafirmou a continuidade das etapas seguintes do processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente de quilombo, o que irá implicar a titulação coletiva da terra. Ainda nesta fala, a senhora Roseli disse do alerta feito por integrantes da Rede “Cuidado com esse povo da Aracruz”. Este alerta apareceu na fala de outra entrevistada de forma mais explicita: O pessoal da Rede né? De outras localidades, nos critica, mas eu gostaria que eles morasse aqui para sentir um pouquinho o que nós sentimos, porque a gente está em um jogo de cintura com a comunidade, porque perdeu o apoio da comunidade você não tem nada, então você fica quase que numa sinuca de bico, tem que saber jogar [...]434 Sinalizando que as ações da AQH, no sentido de recuar frente à questão da titulação das terras, não é consensual entre os pares que contribuíram com o processo de implementação do reconhecimento de Helvécia. Malzinéia, por seu turno, nos convidou a ver a complexidade existente no cotidiano, “porque perdeu o apoio da comunidade você não tem nada, então você fica quase que numa sinuca de bico, tem que saber jogar”. Lutar pela sobrevivência dessa comunidade, Helvécia, era batalhar pela existência da mesma no tempo presente e, portanto, a partir das necessidades, costumes e problematizações agora postas, nas quais se entrelaçava o agronegócio 433 Entrevista concedida à autora pela sra. Roseli Constantino Ricardo em 14 ago. 2007. 434 Entrevista concedida à autora pela sra. Malzinéia Henriqueta Ambrósio em 14 ago. 2007. 212 do eucalipto, a aceitação e/ou negação da identidade quilombola, as resistências das elites locais e de pessoas que possuíam uma pequena propriedade em aceitar uma titulação única da terra, as expectativas de movimentos sociais externos à comunidade, os anseios da comunidade por empregos e ascensão social. Em conversas nas vendas, nos encontros nas igrejas, nos banhos no rio Peruípe, nas reuniões nas associações existentes se tecia a história daquele lugar, a partir das ações, de resistência e acomodação, de seus homens e mulheres. 213 CONSIDERAÇÕES FINAIS A introdução da eucaliptocultura em Helvécia constituiu-se na chegada do estranho. A partir desta sensação de estranhamento, entre os integrantes da comunidade e aqueles que chegaram, portando novos e diferentes códigos, foram sendo construídas novas relações e novas territorializações. Nestas relações não tivemos o estabelecimento de um esquema simplista e linear, traduzido na idéia de grupos antagônicos, rivais ou estereotipado no binômio: dominados e dominadores. Os habitantes de Helvécia não devem ser pensados como vítimas da eucaliptocultura, essa visão não daria conta de entendê-los em toda a sua riqueza de ações diante das mudanças que ali se processaram. Na verdade, tais pessoas atuaram/atuam como sujeitos na composição da história daquele lugar. É importante ressaltar aqui o fato de que o poder e a força das camadas populares devem ser entendidos como diversos e contraditórios, ou seja, nas atuações destes grupos houve espaços para negociações, omissões e apatias frente a processos que lhes eram estranhos e que ao se estabelecerem provocaram desajustes, ajustes e novos arranjos, novas relações. Sendo assim, as ações das camadas populares não devem ser tomadas como uma maneira de mitificar esses grupos, homogeneizando-os e praticando uma espécie de heroicização do povo. O que existe de significativo, neste tipo de ação, é a premissa de que os acontecimentos históricos não são um mero reflexo dos interesses dos dominadores, mas sim o resultado de conflitos que envolvem diferentes anseios, projetos, modelos de vida, e que nem sempre os resultados destes conflitos atendem por inteiro aos interesses dos grupos dominantes. Desta forma, as mudanças e permanências que ali se processaram não foram feitas necessariamente de modo exógeno, verificou-se também a participação daquela comunidade no processo de implantação da eucaliptocultura. Entendo que esta participação tenha se dado por meio de diferentes formas, incluindo omissão, resistência passiva, medo, aceitação e negação/rejeição. Obviamente, tal participação se deu a partir de limites explicitados e impostos pela correlação de forças, econômica e política, que se desenhara principalmente no que concernia à propriedade da terra. Esta foi a questão central no jogo de mudanças e 214 permanências que se processaram em Helvécia. Afinal, a maneira como as pessoas se organizavam para produzir seus alimentos, assim como administravam o seu tempo de trabalho, realizavam suas festas, criavam espaços de lazer, incrementavam suas práticas de trocas materiais e culturais estava alicerçada na lida e no domínio que aqueles camponeses tinham sobre pequenas glebas de terra. A este respeito, é emblemático o depoimento de Roseli Constantino, apresentado no corpo deste trabalho e aqui retomado com o intuito de ressaltar o seu significado a partir daquilo que foi apresentado nos dois primeiros capítulos. Antes era comum, todo sábado, haver uma festa, um bate-barriga, um samba de viola. Era muito comum no local: hoje, na comunidade do sr. João; amanhã, na de d. Maria. Atualmente, nada disso existe. As pessoas estão morando em pequenas casas, porque tiveram de vender suas terras.435 Para aquelas pessoas, a casa não era entendida como um espaço exíguo, cumprindo apenas a função de abrigar os integrantes da família. As casas eram construídas nas glebas, provavelmente com quintais ou terreiros amplos, nos quais amigos e parentes se reuniam para festejar, brincar, dançar. Todos estes fazeres e saberes estavam imbricados a esta de dimensão de lar. Por seu lado, a atividade da eucaliptocultura necessitava de grandes extensões de terras contínuas para que pudesse ser realizada. Diante deste impasse uma série de ações protagonizadas por diferentes agentes sociais foi sendo tomada no sentido de garantir a aquisição destas terras pelas empresas de eucalipto. No que tange a ações de apoio de integrantes daquela comunidade no momento da chegada das empresas de eucalipto no distrito, a pesquisa revelou que elas foram realizadas com base em informações e códigos que eles partilhavam, e que nas relações estabelecidas esteve presente a violência simbólica, expressa no poder “de uma ordem dominada por forças enfeitadas de razão”, 436 como aquelas que agiam através da propagada necessidade de existência da titulação de terras para que o camponês pudesse ser reconhecido como proprietário legal das mesmas. 435 Depoimento n. 1595/05, de 18/10/2005, na Comissão de Meio Ambiente Sustentável da Câmara dos Deputados – DETAQ, dado pela senhora Roseli Ricardo Constantino, integrante da Associação Quilombola de Helvécia, pedagoga e professora daquela comunidade. 436 Pierre Bourdieu. Meditações Pascalianas.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p. 101. 215 Em um momento posterior, marcado pelos descompassos entre as expectativas, promessas e realizações, integrantes daquela comunidade se organizaram de modo a “se servir mais da razão para se defender contra formas crescentemente racionalizadas de dominação”,437 neste sentido, por exemplo, se apropriaram de todo um aparato constitucional fazendo uso da categoria “remanescentes de quilombos” que desde a aprovação do artigo 68 da Constituição Federal de 1988 havia assumido uma natureza jurídica e instituído desta maneira uma nova figura de direito. Desta forma, estabeleceu-se em Helvécia, uma nova composição de forças, mas isso não implicou em apaziguamento ou harmonização entre os diferentes projetos ali coexistentes. Pressões outras foram sendo feitas, pois se a comunidade tinha, como disse anteriormente, um repertório de ações438 utilizadas no seu cotidiano, também os defensores da eucaliptocultura o tinham no sentido de apresentar o projeto do agronegócio como sendo o que de melhor poderia ocorrer para a comunidade de Helvécia. Em razão do reconhecimento do distrito como comunidade remanescente e também da necessidade da aquisição e/ou renovação do FSC, as empresas que atuam em Helvécia e, mais especialmente, a Aracruz Celulose, ressignificaram discursos e práticas, passando a desenvolver projetos de responsabilidade social. Entre estes projetos, realizou-se a reforma da escola municipal João Martins Peixoto, a criação da Associação Arte Helvécia, a instalação de um centro de informática e construção de uma biblioteca. Tais ações contribuíram para acirrar ainda mais as oposições internas em relação ao processo de construção da identidade quilombola e seus desdobramentos em relação a uma nova territorialização. Entendo-se aqui, território como espaço de relações, de domínio e de apropriação de poder. O processo de reconhecimento de Helvécia como área remanescente quilombola estava inserido nas estratégias de grupos organizados daquela comunidade, de resistência e negociação nas relações com “as firmas”. Neste não houve/há consenso. Pertencer a Helvécia não significava necessariamente se 437 Pierre Bourdieu. Meditações Pascalianas.Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.102. José Sérgio Leite Lopes (Coord.). A ambientalização dos conflitos sociais – participação e controle público da poluição industrial. Rio de Janeiro: Relume Dumará, UFRJ, 2004. 438 216 reconhecer como identidade quilombola, e este não-reconhecimento não implicava um pertencimento menor do ponto de vista daquele que não se identificava. O reconhecimento de Helvécia como área remanescente não significou o fim das tensões existentes naquele distrito. Após o mesmo, novos elementos passaram a perpassar o cotidiano daquela comunidade de modo a deixar ver a existência dos diferentes projetos de vida que ali coexistem. Ainda neste sentido, a pesquisa revelou a influência da chegada do estranho, o agronegócio, potencializando o surgimento de estranhamentos outros entre os membros da própria comunidade. Outro aspecto que observei, a partir das pesquisas e análises realizadas, diz respeito ao fato de Helvécia ser tratada em fontes diversas como um lugar onde a realização potencial se deu no passado e pode vir a se dar novamente no futuro. Neste sentido, é evocado o potencial turístico de Helvécia, que segundo o PDU 2004 “apesar de ainda inexplorado, é muito grande” 439 e ao ser desenvolvido se constituirá uma alternativa de trabalho e renda para os habitantes do distrito. A Colônia Leopoldina foi trazida na memória das pessoas como um tempo, para além do cativeiro, de produção de café para exportação, de importância singular para a província da Bahia. Também o tempo da estação foi mostrado como um período de fortalecimento da atividade comercial que contemplava os anseios da população de Helvécia, uma vez que abriu espaço para a comercialização dos excedentes nas pequenas propriedades e incrementou a vida do distrito. Afinal o Km 74 era parada obrigatória e nesta ocorriam não somente as trocas comerciais como também o conhecimento de novas pessoas. Aquele era um espaço de sociabilidade. Para além da memória, dos discursos e dentro dos limites existentes, integrantes da comunidade de Helvécia tem se organizado cotidianamente para conviver e viver com aquilo que efetivamente existe, não como potencialidade ou promessas, mas sim como realidade construída. Nas minhas idas a Helvécia e nas entrevistas que fiz durante o transcorrer da pesquisa com alguns de seus moradores não pude, como de fato não era o meu objetivo, elaborar nenhuma explicação que pudesse dar conta do repertório de ações daquela comunidade como um todo. Como afirmei no corpo deste texto, não se tratava, aliás, como nenhuma comunidade o é, de um grupo monocromático e homogêneo. Não tenho, pois, nenhum tipo de afirmação categórica a respeito da 439 Adequação do PDU 2004 Nova Viçosa, p. 51. Arquivo Seplan – CAR, CAB, Salvador. 217 maneira como aquelas pessoas se (re)inventaram para conviver/coexistir com o eucalipto. Considero esta situação positiva, pois se tivesse minimamente me aproximado de algum modelo teria cometido o equívoco de ter me deixado levar pela idéia de totalidade que, além de não consistir no objetivo destas considerações, encobriria as ações, leituras, interpretações, elaborações feitas, entre outros, pelo senhor Manoel Peixoto, senhor Kemi Krull, senhor Norberto, senhora Faustina, Dona Cocota, que me foram tão importantes, como já disse, não para postular modelos, mas sim para falar de como as pessoas naquela comunidade se organizaram a partir de seus repertórios de conhecimento, de laços de sociabilidade, de valores e crenças para lidar com aquilo que lhes estava sendo posto pela sociedade capitalista em que estão inseridos e com a qual se relacionam de forma diária. Apesar dos códigos próprios da dinâmica do agronegócio lhes parecerem estranhos. A memória dos entrevistados buscou diferentes tempos para falar do viver em Helvécia e trouxe consigo toda uma riqueza de possibilidades ao mostrar como a realidade era interpretada e sentida a partir de olhares variados. Enquanto muitos entrevistados falaram dos tempos de outrora como sendo bons tempos de fartura e tranqüilidade, outros nos fizeram olhar para o trabalho na terra como algo árduo, exigindo esforço e abnegação, indicando também a existência em Helvécia da necessidade de se trabalhar em terras alheias em busca do sustento. A partir desta multiplicidade de olhares pude me aproximar do significado das palavras de alguns habitantes daquele lugar quando me diziam, nas entrevistas, que estavam ilhados, cercados por eucaliptos. Neste sentido, posso afirmar que a imagem a seguir (cf. figura 13), apesar de suas limitações em relação à qualidade, traz em si a possibilidade de algumas leituras que creio sejam úteis para a compreensão deste sentir que há pouco me referi. A fotografia foi tirada de um lugar de morte, trata-se do “cemitério do sertão”, utilizado na atualidade pela comunidade de Helvécia. Os túmulos e cruzes evidenciam que ali é um lugar de mortos. No primeiro plano, temos um portão que contém em si as marcas do tempo, indicadas na forma dos diversos pontos de ferrugem, como se estivessem a fazer referência à existência de algo carcomido e apartado do tempo presente, uma espécie de portão entre os tempos. Ao fundo, no que poderíamos chamar de terceiro plano, encontrase um muro de cimento cuja função seria a de, juntamente com o portão que se encontra no primeiro plano, delimitar o espaço daqueles habitantes de Helvécia que 218 ali se encontravam. Ironicamente, no terceiro plano da fotografia, e para além deste muro, com uma luminosidade que poderia estar associada à idéia de vida, encontramos os eucaliptos, enfileirados, imponentes como se estivessem cumprindo o papel de sentinelas daquele lugar e, mais do que isso, daquilo que aquele lugar de memória representava para a comunidade. Ao reler o parágrafo anterior, fiquei me perguntando se o mesmo não estaria retratando algo mórbido. Talvez agora, tenha entendido o que significava “estar cercada por eucaliptos”. Figura 13 – Cemitério do Sertão – marcas do tempo, agosto 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Na segunda oportunidade em que estive no “cemitério do sertão”, fiz um registro, de outro ângulo, que endossa aquilo que descrevi, entendendo, segundo José de Souza Martins, que o discurso visual de uma imagem fotográfica seja dotado de vida e legalidade próprias,440, como sendo uma possível análise da imagem anterior. Com o agravante de que nesta segunda fotografia temos uma invasão daquele lugar de memória materializada em um pé de eucalipto que caiu sobre um dos muros que cercava o cemitério, tombando, também morto, no espaço delimitado para os mortos de Helvécia. 440 José de Souza Martins. Sociologia da fotografia. São Paulo: Contexto, 2008. 219 Figura 14 – Cemitério do Sertão – novas marcas do tempo, outubro 2007 Fotografia: Trabalho de campo. Este pé de eucalipto não caiu de forma acidental, e também não foi derrubado pelos membros da comunidade, ou ao menos não o foi por suas próprias mãos. Ele tombou, porque foi cortado. Sua queda sobre o muro do cemitério, esta sim foi casual. Este corte se deu no momento em que, através de diversas pressões e negociações, membros da comunidade manifestaram seu descontentamento e insatisfação com o fato de os cemitérios de Helvécia, tanto o São Pedro quanto o do Sertão, estarem enterrados pelo eucaliptal. As falas de integrantes da comunidade foram contundentes, e sinalizaram que aquilo para eles era um acinte. Só então a empresa Aracruz Celulose, responsável pelo referido plantio, ordenou o corte de pés de eucalipto que estivessem em um raio de 50 m dos cemitérios de Helvécia. Leio esta ação como um indicativo de que as falas dos habitantes daquela comunidade não puderam ser totalmente ignoradas. Por outro lado, paradoxalmente, a falta de cuidado da empresa em não reparar de imediato o muro do cemitério, retirando de dentro dele o pé de eucalipto que tombara, é um indício de sua postura de resistência em reconhecer e agir de forma a respeitar os direitos da comunidade. Esta imagem (cf. figura 14) revela outra possibilidade de análise. O fato da comunidade não reparar, ela mesma, o muro do “cemitério do sertão”, não sinaliza também uma forma de resistência? Deixar aquela marca da invasão expressa por 220 um pé de eucalipto tombado no lugar dos mortos de Helvécia, não seria uma denúncia do descaso da empresa em relação à comunidade? Em relação à Helvécia há muitos silêncios, cortes e hiatos; ditos e não ditos. Memórias fragmentadas, tempos “ilhados”, histórias não escritas... Neste trabalho, busquei ligar alguns fios, conectar alguns pontos que as narrativas dos entrevistados trouxeram como possibilidades. O modo como os camponeses de Helvécia contaram as suas histórias revelou o sentido dado por eles as suas vidas. Seria aquilo que Clifford Geertz chama de interpretação de primeira mão. 441 No texto desta dissertação, há uma interpretação deste sentido, uma leitura, entre outras possíveis, daquilo que foi contado, narrado. 441 Clifford Geertz. A interpretação das Culturas. 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