Carlos Carvalho Arte Contemporânea NAS IMEDIAÇÕES DO DESENHO Alexandra do Carmo Catarina Leitão Conceição Abreu Cristina Ataíde Isabel Brison Lourdes Castro Luís Nobre Mónica de Miranda Paulo Lisboa Susana Gaudêncio Teresa Henriques Preview: 29 de Janeiro 2014 19h00 De 29 de Janeiro a 8 de Março 2014 Nas imediações do desenho “Drawing is a verb.” Richard Serra Concebida originalmente para servir como um estímulo de ideias para a execução do trabalho do artista, a obra “Verb List” (1967/68) de Richard Serra procura esgotar todas as acções directas passíveis de serem executadas com os materiais. Este guia de possibilidades da prática artística vem mostrar que o desenho pode ser uma acção física no espaço e no tempo e também uma conceptualização de ideias pensadas para a prática. “Verb List” revela como o desenho está implícito na acção, porque é a consequência da mudança que foi provocada pela acção sobre o material - a execução do fazer sobre o material devolve o desenho1 . Este suporte é fundamental para perceber as características de massa e volume do material que sofreu alterações através da acção. O desenho é expressão do acto de fazer - como actividades centrais do ser humano, ambos têm mesmo princípio - que pode assumir variadas formas mas que tem a ideia como ponto comum: “Tudo o que podemos projectar em termos do desenho – ideias, metáforas, emoções, linguagem, estruturas, resultam do acto de fazer”. O trabalho de Richard Serra enforma, de um modo mais afirmado e consistente, a ideia de que o desenho não termina na folha de papel mas é em si um referencial na análise das coordenadas do espaço perceptivo2, como a fluência entre os corpos, o peso, a estrutura ou a escala. Isto quer dizer que, para o artista, o desenho é um ponto de contacto com a experiência física do trabalho artístico que lhe permite receber informações resultantes da percepção, que é fundamental para o desenvolvimento da prática. Deste modo, mais do que resultado pictórico, o desenho pode ser experiência, acção, conceptualização e com este pressuposto abrem-se perspectivas sobre o que o desenho pode ser. A expansão da obra de arte por via de uma prática da performance nos inícios dos anos 60 permitiu uma viragem estrutural para a ideia de arte enquanto experiência física fora da sala de museu3 . E dentro de um contexto de exponenciação e alargamento da prática, o desenho retira-se do seu papel acessório e preparatório e é questionado no que diz respeito ao seu formato, âmbito, limites ou função4 . Mais vertiginosamente se sente este princípio de subversão pelas características intrínsecas do desenho permitindo que este flua e se interseccione com vários suportes. E é neste campo de indefinição que começam a surgir artistas que pressionam as fronteiras do desenho polarizando-o e convertendo-o num campo de possibilidades. Exemplos deste alargamento de fronteiras da experiência física da linha são “Spiral Jetty”, 1970, de Robert Smithson, executando linhas numa área gigantesca que cobre Great Salt Lake nos Estados Unidos ou “England”, 1968, de Richard Long, que percorreu um campo de flores marcando linhas no chão com os pés. É também a experiência da acção enquanto linha em movimento que poderemos ver nos vídeos iniciais de Richard Serra como “Hand Catching Lead”de 1968. A prática artística actual prevê um critério de ultrapassagem de bases tradicionais e de desmistificação de convenções, sobretudo no que se refere à não circunscrição de um suporte único. Esta modificação não decorre apenas do uso do material mas da subversão do processo habitual da produção artística. Neste processo está subjacente a ideia básica de que “o desenho consiste em riscar com um material que produz cor uma superfície lisa de papel, pressupondo que a cor produzida pelo material é diferente da cor de fundo que a vai conter” ou ainda que “o desenho é a planificação sobre a tela das áreas que vão receber a cor para resultarem numa pintura”. Esta ideia de desenho como antecâmara da obra final, assumindo atribuições funcionais de subalternização a outro suporte, sofreu um realinhamento quanto ao modo de produção em si próprio e também quanto à relação com outros meios – escultura, pintura, vídeo, performance. A expansão do desenho beneficia do facto deste se ter debatido com a necessidade de autonomia em relação àquilo que seria uma prática preparatória, porque, não estando consagrado a um estatuto ou não tendo o peso de um estatuto, foi mais permeável ao abandono do uso exclusivo do suporte único e da desvinculação da obra à materialidade. Logo, pelas suas características específicas, o desenho flui relativamente a todos os 1 Gary GARRELS - An Interview with Richard Serra in Richard Serra: a retrospective: Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, 2011, p. 65 2 Michelle WHITE – Drawing as Drawing, ibid., p. 18. 3 Id. Ibid. 4 Id. Ibid. Carlos Carvalho Arte Contemporânea PAULO LISBOA, Sem título, 2013 grafite s/ papel,100 x 70 cm CONCEIÇÃO ABREU, escultura suportes, expondo a sua hibridez e facilidade de relação com outros meios. Este debate tornou-se fundamental para entender-se o desenho como um meio de ligação mais imediato ao conceito, ao gesto e à mão, isto é a um espaço que é o da ideia e o da conceptualização. “Nas imediações do desenho” mostra como a linha pode assumir características específicas de transgressão para outros meios através de um núcleo de artistas que entendem o desenho como ponto estratégico fundamental para o desenvolvimento dos seus trabalhos. Parte destes compreende que a incursão para outros suportes é uma forma de perceber e analisar princípios presentes no desenho. Noutros, este meio envolve-se num outro processo para voltar à forma bidimensional já com outra condição. Comum a todos, é a consciência de que o desenho permanece, seja ele apresentado através do papel, da imagem ou da matéria. É nestes termos que utilizam outras práticas para pensar este suporte enquanto processo autónomo e com identidade própria. Por isso esta exposição atenta a um conjunto de questões como a de perceber de que modo é que o desenho é uma base de construção incontornável da produção artística que não se esgota no seu suporte quando se estende para outros meios? De que modo é que a deriva acontece preservando a autonomia e identidade do desenho? Como se debatem questões inerentes ao desenho através de outros suportes? A exposição procura focar-se na evolução do entendimento sobre o desenho em que se podem intercruzar a escultura, a instalação ou a vídeo-projecção, sem restrições a uma folha de papel. Mostra trabalhos que exploram uma relocalização deste suporte e afastamento da sua esfera natural, verificando-se uma consequente readequação de ideias. Por isso estas obras são uma negação tanto da prática como um fim em si mesma, como da lógica convencional do encadeamento da produção artística. A exposição procura debater os processos e resultados do desenho e o modo pelo qual este é pensado como obra final mas mostrado através de outros suportes. Sair da folha de papel é um posicionamento estratégico que permite a estes artistas questionarem e desenvolverem questões inerentes a este. Por isso podem ser mostradas na exposição algumas das variantes do que a linha pode ser. Nas esculturas de Cristina Ataíde a linha tridimensional é colocada no espaço real e enforma uma acção de ligar dois objectos. E este gesto simples de ligar um objecto ao outro constitui o princípio mais básico de conhecimento visual. E é essa ideia de relacionamento entre as coisas que trata Isabel Brison, produzindo um espécie de storyboard de desenhos e anotações, críticas, relações com a palavra escrita que a artista contrapõe com o desenho. As folhas são desenhos diagramáticos, esquemas, mapas de pensamento que enformam comentários visuais a um discurso pré-existente. E estando estes desenhos dispostos em forma de montagem sobre uma mesa, o que resulta é uma associação e uma ordenação dos conteúdos para com estes mostrar um pensamento. A série Thicket expõe o modo como o uso do desenho é uma estratégia transversal a todo o trabalho de Catarina Leitão. Já Mónica de Miranda subverte o que seria a concepção do desenho enquanto um acto de riscar sobre uma superfície; a acção subjacente ao acto de desenhar é a perfuração o que contém em si ressonâncias psicológicas que são exploradas pela artista. Os trabalhos de Lourdes Castro da série “Grande herbário de sombras” resultam de um processo heliográfico, próximo das primeiras experiências que conduziram à invenção da fotografia, interseccionando a imagem com o desenho. Através da sombra, a linha actua no espaço obrigando o desenho a ser pensado numa dimensão projectual. A luz desenha sobre o negro da grafite nos desenhos de Paulo Lisboa e produz um conjunto de formas abstractas, sem referente real, e pertencentes à imaginação. No vídeo “Plateau” a luz que resulta da perfuração de uma película expõe a lâmpada que está no interior da câmara através de um mecanismo em tudo semelhante a uma pin-hole. O resultado são desenhos de projecção de luz diferentes entre si, conteúdo cuja autoria é designada, não por uma fonte única, mas pelo que resulta de um mecanismo construído pelo artista. Também no trabalho de Teresa Henriques o conteúdo resultou da acção da máquina sobre o movimento do papel; a autoria da artista advém da situação que esta provocou, não sendo resultante de uma opção directa. Alexandra do Carmo questiona a relação do artista com o exterior e o espaço de atelier na prática do trabalho artístico, usando a sequência dos desenho para encontrar paralelismos nos diferentes momentos da acção dos seus vídeos ou das peças sonoras. Intercala com espaços de intervalo que instigam o observador a imaginar o desenho através de informação que vem do áudio ou da imagem. O desenho permite tecer relações profundas entre o espaço do observador e a consciência do artista, obrigando a um percurso mais introspectivo e intimista, pertencente ao domínio do privado. O conjunto de trabalhos da artista fornece imagens cinemáticas porque advém de uma Carlos Carvalho Arte Contemporânea LOURDES CASTRO, Grande Herbário de Sombras, Tomateiro, 1972, fototipia, 65,5 x 50,5 cm LOURDES CASTRO, Grande Herbário de Sombras, Datura, 1972, fototipia, 65,5 x 50,5 cm LOURDES CASTRO, Grande Herbário de Sombras, Echium, 1972, fototipia, 65,5 x 50,5 cm sequência contínua, embora transparecendo não uma história com início, desenvolvimento e fim mas um caminho que reflete um trecho áudio. Susana Gaudêncio funde o movimento e a linha na vídeo-animação “Chamber of invention”, encontrando semelhanças entre o gesto de desenhar - no movimento da linha no papel – e o movimento gerado pela animação. Luís Nobre trabalha através de uma selecção, distribuição, conectando elementos, materiais, estilos e práticas e dispostas num modo de apropriação espacial e mapeamento conceptual que decorre do mesmo princípio de acção e gesto mostrados no desenho. O desenho existe também sob a forma de infra-texto, um conteúdo residual, que poderemos ver nas relações entre os objectos, nas escolhas e na mediação do artista ao apropriar-se do espaço. Existem níveis de aglutinação ou de espaçamento que contam como desenho e podem traduzir-se num mapa de disposição de objectos que obedece a critérios que são apenas do artista. É um desenho de exposição de obras, que joga entre texturas, recortes e traços. Luís Nobre mostra as várias dimensões da linha: esta tanto pode ser encontrada num vaso de cerâmica, em imagens de representações do passado ou do presente ou dentro de uma fotografia, podendo percorrer diversos quadrantes temporais e estilos. Estes referentes, desconectados do seu sentido inicial, são retirados do contexto, e aglutinando-se e transmutando-se dão origem a outros discursos. Conceição Abreu torna visível a importância do desenho enquanto compreensão do espaço físico, não só traduzindo a linha tridimensional numa superfície tecida, como demonstrando a sua importância para fornecer respostas perceptivas. A relação entre o desenho no trabalho da artista devolve-lhe coordenadas sobre o relacionamento entre o observador, a obra e o espaço onde esta é mostrada. A exposição é uma celebração do desenho enquanto meio primordial e um processo obrigatório na construção e mapeamento de ideias. Mostra esse lugar imediatamente próximo do desenho, as imediações, esse lugar de passagem entre dois ou mais meios, sem um grande distanciamento projectual objectivo em relação à obra final. Comum a estes artistas está a desobrigação de seguir uma prática convencional do desenho, o não confinamento a uma folha de papel e a transgressão estratégica para outros suportes. Sair do desenho é um modo de pensar dentro do desenho. Patrícia Barreira SUSANA GAUDÊNCIO, Chamber of invention, 2010, video-animação, loop, 1’02’’ Agradecimento: Carlos Carvalho Arte Contemporânea