ISSN: 2316-3992
REFLETINDO SOBRE AS QUESTÕES DE MEMÓRIA ATRAVÉS DO FILME “COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ”¹
Cláudia Gisele Masiero²
Janice Roberta Schröder³
Cristina Ennes da Silva4
Resumo
Este estudo pretende refletir sobre as questões e os conceitos básicos relativos à Memória, suscitando-os através da obra “Como se fosse a primeira vez” (2004). Busca-se assim, uma interdiscursividade entre os estudos dos
principais autores ligados ao tema como: Catroga (2001), Halbwachs (1990), Le Goff (1996) e Pollak (1992) e
algumas situações vividas pelas personagens do filme. Nota-se a importância da Memória para a formação da
identidade dos sujeitos e para a sua inserção na sociedade, reforçando os sentimentos de pertença.
Palavras-chave: Memória; Cinema; Identidade.
¹Trabalho apresentado no 1º Encontro Centro-Oeste de História da Mídia – Alcar CO 2012, 31/10 e 01/11 2012, Unigram/
Dourados/ MS. .
²Bolsista PROSUP/CAPES, Mestranda em Processos e Manifestações Culturais, Universidade FEEVALE/RS/BR, claudiamasiero@
feevale.br.
³Mestranda em Processos e Manifestações Culturais – Universidade FEEVALE/RS/BR, [email protected].
4
Orientadora do trabalho. Doutora em História – PUCRS. Professora no Programa de Pós-Graduação em Processos e Manifestações Culturais da Universidade FEEVALE/RS/BR, [email protected].
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MASIERO, Cláudia Gisele
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Introdução
A memória faz parte do individuo e está mais presente no seu cotidiano do que normalmente percebemos,
porém, nos últimos anos, vários estudos acadêmicos tem procurado discorrer sobre esse tema e dar-lhe a devida
importância. Este estudo procura fazer uma reflexão sobre os conceitos e questões relativas à memória, segundo alguns autores, tais como Catroga (2001), Halbwachs (1990), Le Goff (1996) e Pollak (1992). Assim, para
tornar essas ideias mais inteligíveis e ao mesmo tempo refletir sobre elas, procuramos exemplificá-las através
de situações concretas. Para tanto optamos por utilizar algumas situações vividas pelas personagens do filme
“Como se fosse a primeira vez” (2004), que através de sua narrativa, trabalha com memória e esquecimento,
principalmente com a perda da capacidade de transformar acontecimentos recentes em memória permanente. O
filme em questão não se trata de um clássico do cinema mundial, mas podemos dizer que tem uma interessante
história e ao final, no “acender das luzes”, teremos a amostra de que uma comédia romântica pode dialogar
com questões teóricas e proporcionar melhor entendimento do assunto abordado.
Buscamos, assim, fazer o que Nova (1996) chama de dissecar os significados “ocultos”, mas presentes na
narrativa, ou seja, elementos que levem ao debate acerca da memória. Também fazemos uso de outra ideia da
referida autora que diz que “um filme diz tanto quanto for questionado. São infinitas as possibilidades de leitura
de cada filme” (NOVA, 1996, p. 3). É preciso dizer ainda que não buscamos elementos da realidade na ficção,
mas sim elementos na própria obra ficcional que ajudem a entender como se processam as questões da memória. Pretendemos utilizar o modelo de análise proposto por Nova (1996), que segundo ela, não é um esquema
fechado, podendo se enquadrar em qualquer tipo de estudo. Assim, seguindo os passos de análise propostos,
primeiramente faremos uma leitura da crítica externa do filme, ou seja, resgate de aspectos externos: cronologia, levantamento da equipe técnica e público alvo, entre outros aspectos. A segunda parte consiste em uma
crítica interna, ou seja, análise de todos os elementos que são colocados de forma explícita: diálogos e enredo,
por exemplo. É, segundo Nova, “extrair dele o que é dito de forma direta” (1996, p5). Ainda nessa etapa, se
faz uma análise do conteúdo implícito do filme, o conteúdo existente nas entrelinhas, de “tudo aquilo que os
produtores queriam que chegasse ao espectador, mas não o fizeram, por algum motivo particular, direta e claramente” (NOVA, 1996, p.5). É necessário dizer que essas duas etapas estão intimamente ligadas às intenções
(objetivos conscientes) dos produtores com a película. E a terceira e última etapa busca dar conta dos elementos
inconscientes existentes no filme, tudo aquilo que não está entre as intenções de quem produziu o filme. Nessa
última etapa, especificamente nesse estudo, buscamos uma interdiscursividade entre os conceitos de memória e
algumas situações vividas pelas personagens do filme.
1. O filme
O filme “Como se Fosse a Primeira Vez” (“50 First Dates”, título original em Inglês), é um longa metragem,
classificado como comédia romântica, lançado em 2004 e distribuído pela Columbia Pictures5 .
5
Informações retiradas dos sites IMdb e AdoroCinema.
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Foi dirigido por Peter Segal, que dirigiu entre outros filmes “Tratamento de Choque” (2003) e “Meus Queridos
Presidentes” (1996). Escrito por George Wing, que não tinha nenhum grande trabalho antes desse e produzido
por Jay Roach, conhecido por dirigir e produzir “Entrando numa fria” (2000). Em seu elenco conhecidos atores
do cinema americano como Adam Sandler (Henry Roth), de “O Paizão” (1999) e “Click” (2006) e Drew Barrymore (Lucy Whitmore), de “Para Sempre Cinderela” (1999) e “As Panteras” (2000), no papel das personagens principais. Também atuaram nesse filme Rob Schneider (Ula), do filme “Gigolô por Acidente” (1999) e Dan Aykroyd
que atuou em “Meu Primeiro Amor” (1991). O filme não figura entre as maiores bilheterias nem nos EUA, nem
no Brasil, mas obteve um alcance considerável, possivelmente devido aos conhecidos atores que o estrelaram.
Ao que percebemos foi aceito pelo público, mas não foi tão bem aceito pela crítica.
A história se passa no Havaí. Henry é um veterinário de animais marinhos que costuma conquistar as turistas
que passam pela ilha. Certo dia seu barco estraga, precisa atracar e, então, numa parada forçada, conhece Lucy
ao ir a uma lanchonete. Ela, uma moça que vive no lugar, sofre da síndrome de Goldfield. (síndrome fictícia,
criada para a trama), sequela de um acidente de automóvel. Em decorrência disso ela se recorda somente do
que se passou em sua vida até o dia em que sofrera o acidente, deste episódio nem mesmo lembra, pois perdeu
a capacidade de reter informações novas. Assim durante o sono, esquece tudo o que se passou durante o seu
dia e, ao acordar, pensa sempre ser o mesmo dia, um domingo, aniversário de seu pai, quando aconteceu a
tragédia. Seu pai e seu irmão deixam o jornal daquele dia para ela ler e agem para que ela continue convencida
de que realmente está naquele tempo que pensa estar, pois nos dias em que algo dá errado e Lucy percebe que o
tempo passou e que de nada se recorda, tudo lhe parece estranho e ela sofre muito. No primeiro encontro Henry
e Lucy iniciam com uma boa relação, mas no dia seguinte quando ele volta para vê-la, ela não o reconhece e se
assusta com a abordagem do rapaz. A dona da lanchonete, amiga de Lucy, explica a ele o problema que ela tem.
Assim, todos os dias o jovem tenta reconquistá-la, usando as mais diversas artimanhas. Ao final eles se casam e
partem para uma viagem de barco ao Alasca (antigo sonho de Henry) e a perda de memória é contornada com
a ideia de passar um vídeo para Lucy de sua vida pós-acidente, todos os dias, quando ela acorda.
Podemos dizer que se trata de uma tradicional comédia romântica produzida aos moldes do cinema americano. Traz estrelas consagradas no seu elenco, trilha sonora marcante e termina com o tradicional final feliz. Além
de ter o objetivo de entreter, há também o romantismo, a conquista e a valorização das relações duradouras.
Provavelmente, o filme queira mostrar a suposta importância do amor na vida das pessoas, uma vez que Henry
muda totalmente sua postura ao se apaixonar por Lucy e ela, por sua vez, passa a viver plenamente após encontrá-lo, pois ele lhe ajuda a enfrentar o seu problema de memória, que antes disso lhe era escondido. Ao analisar
essas questões e realizar interpretações acerca do filme sabemos que estamos fazendo uma interpretação subjetiva e ainda que possivelmente não se compreenda na totalidade a ideia do seu autor, pois
Toda produção cinematográfica é um produto coletivo, não apenas por conter elementos
comuns a uma coletividade, mas por ter sido, de fato realizada por uma equipe (diretor, produtores, financiadores e tantos outros). No entanto, nem isso, nem os seus condicionamentos
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sociais eliminam a presença do caráter individual e artístico de cada obra, cuja análise
é, por vezes, dificultada pelo fato da arte nem sempre seguir modelos lógicos e coerentes e
possuir um grau elevado de subjetividade (NOVA, 1996, p. 3).
Assim, deixando claro que o que dizemos sobre ele se trata de uma interpretação, ainda podemos acrescentar
que o filme, quando se propõe ser romântico, traz cenas bem feitas e trabalhadas, mas quando se propõe a ser
comédia se torna um tanto tolo, trazendo cenas como o vômito de uma morsa ou Lucy espancando um homem
com um bastão de maneira demasiada. O filme comove pela sua mensagem de amor e persistência, mas não
convence nas cenas cômicas.
2. O filme e as questões de memória
O problema de Lucy de não reter acontecimentos recentes na memória, é um elemento que perpassa toda
a narrativa, desencadeando-a. Porém, o tema não vai além disso, uma vez que até mesmo a síndrome da qual
ela sofre não é real. Então, as questões de memória, sobre as quais queremos refletir, estão implícitas na narrativa. Buscamos suscitá-las através de algumas situações vividas pelas personagens, relacionando-as com o que
importantes autores discorrem sobre elas. Primeiramente podemos dizer “que a memória é um fenômeno construído social e individualmente” (POLLAK, 1992, p. 5), então, passamos a debater sobre esse processo através
da narrativa fílmica em questão.
Le Goff escreve que: “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações
passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1990, 366). Percebemos que no filme, Lucy não
tem essa capacidade de atualizar as informações sobre a sua própria história, pois se esquece durante o sono do
que viveu ao longo do dia. Por esse motivo, quando a encenação de sua família, para que não perceba o seu
problema, falha e assim ela percebe que o tempo passou, sente-se deslocada e perdida. Diferentemente do que
ocorre com uma pessoa na qual a memória opera normalmente e que entende o contexto no qual está inserida
porque este é atualizado por sua memória. Dessa forma, vemos que a memória nos ajuda a entender o presente
porque organiza os acontecimentos passados e assim o torna inteligível. Presente esse que, no filme, Lucy não é
capaz de ler, e por isso é estranho para ela. Podemos complementar essas primeiras informações dizendo que
“os fenômenos da memória, tanto nos seus aspectos biológicos como nos psicológicos, mais não são do que os
resultados de sistemas dinâmicos de organização e apenas existem na medida em que a organização os mantém
ou os reconstitui” (LE GOFF, 1990, p.367).
Além de conservar e atualizar informações, também é a memória “um elemento essencial do que se costuma
chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das
sociedades de hoje, na febre e na angústia” (LE GOFF, 1996, p.476). Nesse sentido, ao conseguirmos, através
da memória, ter consciência das experiências pelas quais passamos e das escolhas que fizemos, enfim do que
aprendemos, somos capazes de formar nossa identidade.
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Vemos isso no filme quando, ao acordar, certo dia, junto de seu namorado Henry, Lucy começa a gritar e depois a agredir o rapaz, em uma das cenas cômicas do filme. A moça já havia aceitado o pedido de namoro dele
no dia anterior, mas como de nada se lembrava no dia seguinte, nem mesmo de quem ele era, ficou bastante
espantada com a situação. Podemos dizer que ela não se reconheceu como namorada de Henry, não conseguiu
assumir essa identidade, isso porque sua memória não a completou e nem a atualizou. Acerca dessa relação
ainda podemos dizer
que a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual
quanto coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução
de si (POLLAK, 1992, p.5).
A memória não é somente individual, ela também precisa do coletivo6 , como explica Catroga (2001), ninguém se recorda exclusivamente de si mesmo, e a exigência de fidelidade, que é inerente a recordação, incita ao
testemunho do outro; e muitas vezes a anamnesis pessoal é recepção de recordações relatadas por outros e só a
sua inserção em narrações coletivas, reavivadas por liturgias de recordação, é que lhes dá sentido. Halbwachs,
por sua vez, explica que
nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos e com objetos que
só nós vimos. É porque em realidade nunca estamos sós. Não é necessário que os outros
homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós porque temos sempre conosco e
em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem (1990, p. 26).
Assim, as lembranças que Lucy possui anteriores ao acidente, são as vividas em família, que é o dia do
aniversário de seu pai, que é domingo, dia de ir à sua lanchonete preferida tomar café da manhã, enfim, são
lembranças de sua vida em sociedade, lembranças compartilhadas. E, quando percebe que não se recorda do
acidente que sofreu, precisa do testemunho do outro para que sua existência faça sentido. Porém é preciso dizer
que ela não consegue interagir com essas informações porque em sua memória ela nada guardou desses acontecimentos que lhe são relatados, é como se não os tivesse vivido. Ou seja, ela não reconstrói as suas lembranças
a partir dessas informações porque não dialoga com elas. Diferentemente de um sujeito comum que combina as
suas lembranças com as que lhe são relatadas. Como explica Halbwachs,
para que nossa memória se auxilie com a dos outros, não basta que eles nos tragam seus
depoimentos: é necessário ainda que ela não tenha cessado de concordar com suas memórias e que haja bastante pontos de contato entre uma e as outras para que a lembrança que
nos recordam possa ser construída sobre um fundamento comum (1990, p.34).
Não estamos aqui falando de memória coletiva, que é um outro conceito, que pode ser melhor compreendido através da
leitura de Le Goff (1990) e Halbwachs (1990), mas que não cabe nesse estudo. O que poderíamos acrescentar para ilustrar essa
questão é que o próprio acidente sofrido por ela e seu pai faz parte da memória da comunidade na qual vivem, fato que fica claro
porque todos sabem desse fato e ajudam Lucy com seu problema.
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Como a moça não tem essas lembranças, não há pontos para que possa relacionar com as que lhe são apresentadas, ou seja, apenas as assimila, entendendo que também são suas, mas, voltamos a dizer, não é capaz de
construir uma memória, apenas a recebe.
A memória não registra a totalidade de nossas vivencias e experiências, ela é seletiva. Como diz Pollak, “nem
tudo fica gravado e nem tudo fica registrado” (1992, p.4). O vídeo que Henry faz, com alguns episódios da vida
de Lucy, para que ela sabia do que aconteceu e possa começar seu dia sem estranhamentos, de certa forma,
exemplifica o trabalho da memória e também como ela age. Henry, já então marido de Lucy, faz uma montagem
de algumas partes de suas vidas, iniciando pelas fotos do acidente, depois do namoro, casamento, ou seja, faz
recortes, seleciona alguns momentos. Assim também age a memória, nem tudo é arquivado, ou reavivado por
ela, mas sim faz uma seleção do que faz sentido ao próprio sujeito. Outro exemplo disso é que Lucy, devido ao
agravamento de seu problema, foi internada em uma clínica e lá fez muito desenhos do rosto de Henry, sem ter
consciência de quem se tratava. De alguma forma, a memória dela guardou o rosto dele, certamente pelo que o
rapaz representava para ela. Com isso, na narrativa, possivelmente se quis mostrar o quanto ele era importante
em sua vida, por ser significativo foi armazenado em sua memória. Foi a única imagem nova que consegui reter
depois do acidente. Desse modo podemos verificar que a memória “nunca é um mero registro, pois é uma representação afetiva” (CATROGA, 2001, p. 46).
Ainda segundo Pollak, “a memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra, como vimos, em tentativas mais ou menos conscientes de definir e
de reforçar sentimentos de pertencimento” (1989, p.7). Assim, esse vídeo, feito por Henry, é o que lhe confere
referências sobre o passado e a situa na narrativa de sua própria vida, ou seja, lhe ajuda a reforçar o sentimento
de pertencimento àquele grupo, só então se reconhece como esposa e posteriormente como mãe, quando sua
filha surge na narrativa.
Segundo Pollak, “a memória também sofre flutuações que são função do momento em que ela é articulada,
em que ela está sendo expressa. As preocupações do momento consistem um elemento de estruturação da memória” (1992, p.04). No filme vemos essa questão quando a personagem principal lê o jornal do dia e se dá
conta de que não é a data em que pensa estar. Desse momento em diante ela busca reestruturar sua memória,
buscando entender-se, movida pelas preocupações que estava vivenciando. Para o autor acima citado, além da
memória ser flutuante, ou seja, mutável, ela também ao mesmo tempo, guarda pontos ou marcos relativamente
invariantes, imutáveis e quando isso ocorre, ele explica que foi um trabalho tão importante de solidificação da
memória que impossibilitou a ocorrência de mudanças. Na narrativa fílmica, a cena do acidente, ao qual já nos
referimos, é mostrada sempre da mesma forma, focando os mesmos elementos, é como que uma lembrança
imutável.
Outro importante aspecto acerca da memória tratado por Pollak (1992) é sobre os seus elementos constituintes. São assim, o que chama de “acontecimentos” ”, vividos pessoalmente ou vividos pelo grupo ou pela
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coletividade à qual a pessoa se sente pertencer, constituídos por pessoas, personagens e por fim por lugares.
Os lugares de memória, por exemplo, são frequentemente invocados em “Como se fosse a primeira vez”. O
início da narrativa se passa em uma lanchonete, um lugar que permeia as lembranças da personagem principal,
para onde vai todos os dias tomar café da manhã e onde então, conhece o amor de sua vida. A casa de Lucy
permanece como estava no dia do acidente para que ela não perceba sua falta de memória com tudo o que se
passou desde então. Como é artista, todos os dias ela pinta a parede da garagem, como se nunca houvesse feito
isso antes, seu pai, então, deixa a parede novamente branca (cobrindo a sua pintura) para que no dia seguinte
ela a possa repintar. A casa dela parece ser o lugar de memória mais marcante no filme, pois aquele espaço
lhe ajuda a manter as lembranças em ordem. Sabemos que, segundo Bachelard (1998) que as lembranças do
mundo exterior, nunca hão de ter a mesma tonalidade das lembranças da casa. Talvez por isso tanto zêlo seja
demonstrado em manter a casa como Lucy dela se recorda, o que não vemos com os outros ambientes, como
a lanchonete, por exemplo.
Ao cheirar as mãos de Henry e sentir cheiro de peixe, Lucy lembra de seu pai e de seu irmão, que são pescadores e segundo ela, têm aquele mesmo odor. Isso a fez recordar também dos dias em que eles passavam no
mar e que ela sentia muita falta deles. Sabemos, então, que “nas lembranças mais próximas, aquelas de que
guardamos recordações pessoais, os pontos de referência geralmente apresentados nas discussões são, como
mostrou Dominique Veillon, de ordem sensorial: o barulho, os cheiros, as cores” (POLLAK, 1989, p. 9). A importância desses elementos que reativam a memória nos é, então, descrita por Catroga (2001), que lembra que
A memória só poderá desempenhar a sua função social através de liturgias próprias,
centradas em reavivamentos que só os traços-vestígios do pretérito são capazes de provocar,
portanto o seu conteúdo é inseparável dos seus campos de objetivação e de transmissão –
linguagem, imagens, relíquias, lugares, escrita, monumentos – e dos ritos que o reproduzem
(CATROGA, 2001, p.28).
Se a memória perpassa toda a narrativa fílmica, como já dissemos, também o esquecimento é um dos pontos
fundamentais do seu desenvolvimento, uma vez que é justamente porque Lucy não retêm as informações sobre o
que vive durante o seu dia, ou seja as esquece, é que temos a problemática que move as personagens no filme.
É uma outra maneira pela qual podemos analisar as questões de memória, porque sabemos que
Por conseguinte, existem nas lembranças de uns e de outros zonas de sombra, silêncios,
“não-ditos”. As fronteiras desses silêncios e “não-ditos” com o esquecimento definitivo e o reprimido inconsciente não são evidentemente estanques e estão em perpétuo deslocamento. Essa
tipologia de discursos, de silêncios, e também de alusões e metáforas (POLLAK, 1989, p.6).
O esquecimento do qual se refere o autor acima citado, vai além do causado por um dano físico, como no
caso de Lucy, mas mais próximo dos silenciamentos feitos pela família e amigos diante do seu problema, no início
da história, quando nada lhe diziam e procuravam esconder tal fato. Ainda conforme o autor, essas memórias,
que conceitua como marginalizadas, podem emergir em algum momento conforme circunstâncias do presente,
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fazendo assim uma reinterpretação do passado. Isso se aplica a toda forma de memória seja ela individual,
coletiva, familiar ou de um pequeno grupo. Tais memória permanecem soterradas até que possam “aproveitar
uma ocasião para invadir o espaço público e passar do “não-dito” à contestação e à reivindicação” (POLLAK,
1989, p. 7). Esse silêncio, ao exemplo do filme, pode ser provocado por situações dolorosas, traumatizantes, mas
também pode estar ligado a situações de dominação, de culpa ou mesmo vergonha.
Podemos ainda fazer mais algumas outras considerações acerca do filme, por exemplo, refletindo sobre o
nome das personagens principais. Cassier (2006) explica que o nome não é nunca um mero símbolo, sendo
parte da personalidade de seu portador, para ele é o nome que faz do homem um indivíduo. Assim não podemos deixar de pensar na escolha do nome Lucy, que significa “você é maravilhosa” no idioma etíope (amhárico),
que sendo assim, ajuda a transmitir a mensagem do filme, pois é justamente dessa forma que Henry a vê, sem
se importar com o seu grave problema de memória, ela é a mulher da sua vida. Por sua vez, Henry, nome inglês, quer dizer “senhor da casa, ou o senhor a fortaleza”, mais uma vez condizete com a narrativa, na qual o
personagem é uma fortaleza para Lucy, passa a ser seu porto seguro, quem lhe ajuda com as dificuldades que
enfrenta diariamente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Fundamentalmente, nesse filme, temos implícita a importância da memória na vida do sujeito, vista através
de todas as complicações que vive a personagem principal por não tê-la em prefeito funcionamento. Vemos a
tentativa de fazer com que Lucy não se dê conta de que não é capaz de armazenar informações novas em sua
memória permanente, uma vez que sem isso ela se sente deslocada, perdida, não se reconhece, não organiza
sentimentos de pertencimento e não constrói sua identidade, como vimos anteriormente. Ou as pessoas ao seu
redor trabalham para que ela consiga viver normalmente com as lembranças anteriores ao acidente que sofreu,
sem a necessidade de incluir informações novas, permitindo que ela faça tudo igual, todos os dias, ou oferecem
a ela todos os dias, as suas memórias. Do contrário, sua vida passa a ser uma constante agonia. A memória não
tem, então, somente uma função psíquica, mas tem uma função social.
Debates como esse acerca da memória são pertinentes, assim cremos que o são, porque esclarecem o
processo de formação das identidades e de pertencimento que constituem o sujeito. Possibilitando assim, que
possamos refletir sobre a nossa própria construção enquanto sujeitos, entendendo nossas lembranças, o que elas
significam, porque determinado fato, lugar ou fala nos são significativos, como são arquivados e viram nossas
lembranças. Não para controlarmos nossa memória, porque isso nem mesmo possível é, mas para que tenhamos consciência desse processo, muitas vezes inconsciente e que acaba por nos formar.
Sendo a memória seletiva e considerando que nem tudo é arquivado por ela, devemos estar atentos as lembranças que nossa própria memória reaviva e ao que nos é contado como sendo “verdades de um passado”.
No filme apenas chegam a Lucy lembranças coerentes e verdadeiras, embora sejam interpretações das pessoas
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que as cercam, mas nem sempre as lembranças são contadas com tal preocupação. For fim podemos dizer
que o próprio filme nos ajuda a contar como se fez cinema na última década, por exemplo, é ele um elemento
dessa memória.
REFERÊNCIAS
ADOROCINEMA. Disponível em: < http://www.adorocinema.com>. Acesso em: 05 jun. 2012.
BACHELARD, G. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
CATROGA, Fernando. Memoria e História. In. Fronteiras do Milênio. PESAVENTO, Sandra Jatahy (org.). Porto
Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 2001.
CASSIRER, E. A Palavra Mágica. In: Linguagem e Mito. São Paulo: Perspectiva, 2006.
COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ. Direção: Peter Segal. Columbia Pictures. DVD (1h e 39 min.) 2004.
IMDB, The Internet Movie Database. Disponível em: <http://www.imdb.com>. Acesso em: 05 jun. 2012.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo, SP: Editora Vertice, 1990. Tradução: Laurent Léon
Schaffter.
LE GOFF. Jacques. História e Memória. Campinas, SP: UNICAMP, 1990.
NOVA, Cristiane. O cinema e o Conhecimento da História. In: O Olho da História: revista de contemporânea. Salvador, v.2, n.3.1996.
POLLAK, Michael. Memória, Esquecimento e Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n.3, 1989,
p. 3-15.
POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n.10, 1992, p.
200-212.
SILVA, Karina V. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.
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5.2 O mundo digital e em mobilidade
Os dispositivos móveis em sua maioria possibilitam ao indivíduo estar on ou offline e em movimento o que
muda toda uma forma de comportamento, como também não é difícil ver pela televisão ou pela internet uma reportagem que foi feita por um cidadão comum, pois eles estão equipados com câmaras conectadas que podem
relatam fatos antes mesmo dos profissionais, tudo isso em mobilidade.
A Mobilidade
Segundo Santaella (2010, p. 109) mobilidade pode ser definida de várias formas dependendo da área que
a esteja conceituando. A palavra mobilidade contém o sema de movimento, o que compreende a ideia de um
ato de deslocamento que permite que objetos, pessoas, ideia, coisas, possam trafegar através de localidades.
Na perspectiva da geografia, mobilidade pode ser entendida como “a habilidade de mover-se entre diferentes
lugares de atividades”. Nesta área as definições têm um significado mais físico, enquanto que os sociólogos
apresentam mais o caráter social da mobilidade e as condições de possibilidade que se apresentam, ou seja,
propensão a ser móvel varia de intensidade de indivíduo para indivíduo.
Para a autora há também a questão da mobilidade de curto e de longo alcance. De longo alcance aparecem os aviões e os carros, de longa distância no espaço e de longa duração no tempo. No turismo, ou em caso
de mudanças de residência, migrações ou imigrações também aparecem o conceito de mobilidade. Só que
neste caso o conceito está associado à transgressão de fronteira, pelo menos do ponto de vista convencional.
Entretanto, o conceito de mobilidade passa a ter outras conotações no mundo pós-moderno, pois o indivíduo é
constantemente desafiado à permanente em mobilidade.
Segundo Kellerman (apud Santaella 2010, p. 110) “a dimensão mais notável da mobilidade encontra-se na
expansão espacial do eu pela transmissão e recepção de informação que tem produzido mobilidades virtuais”.
Apesar de que, segundo Kellerman tudo isso começou com o telefone, se acentua mais expressivamente com os
meios de comunicação de massa: jornal, cinema, rádio e especial com a televisão que promovem o transporte
da mente. Porém, com o advento da internet e com os dispositivos móveis a mobilidade virtual não só se potencializa ou se diversifica como também obtêm novos significados: a informação, o saber, o conhecimento, a
habilidade humana em criar identidades abstratas, pois tudo isso passa eletronicamente
Considerações finais A tecnologia móvel está crescendo e tornando-se uma ferramenta de muita importância para o desenvolvimento pessoal e profissional para os indivíduos e para as organizações. Dispositivos com acesso a internet e comunicação em tempo real estão se convertendo em acessórios vitais em nossas vidas, como pudemos constatar
por meio neste pequeno ensaio.
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REFLETINDO SOBRE AS QUESTÕES DE MEMÓRIA ATRAVÉS DO FILME “COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ”
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A comunicação via dispositivos móveis está se convertendo em recurso intensivo em todos os níveis da população mundial, segundo os dados da CETIC.br 76% das pessoas no Brasil possuem celular, mais de 50% da
população mundial possui um aparelho celular, empresas de telecomunicação, universidades e outras entidades
estão empenhadas em pesquisar e analisar os efeitos que esses dispositivos podem proporcionar para a sociedade como um todo.
E para finalizar, essa tecnologia está transformando conceitos tais como espaço e tempo, como também elimina fronteiras, encurta distâncias, mistura espaços virtuais e físicos, sem contar que ela convida o indivíduo a
conexão constante, a ubiquidade e a onipresença.
Entretanto, continua sendo somente tecnologia, se não houver um direcionamento pedagógico nas escolas
de nada adianta, os alunos de forma geral continuarão se distraindo. Assim como se os professores não se especializarem e se atualizarem não irá acompanhar o desenvolvimento tecnológico e permanecerão a imposições
por parte das entidades públicas como por exemplo, as proibições de utilização dos celulares em sala de aula.
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