OFICINAS COMO ESTRATÉGIA DIDÁTICA NA FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSOR@S1 FANFA, Michele – UFSM [email protected] FREITAS, Deisi, Sangoi – UFSM [email protected] Eixo Temático: Práticas e Estágios nas Licenciaturas Agência Financiadora: PROLICEN Palavras-chave: oficina temática, formação inicial de professoras, reflexão e pratica. Resumo Este trabalho foi realizado com acadêmic@s do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Maria matriculados na disciplina de Estágios Curriculares Supervisionado no primeiro semestre de 2011, os quais se encontram em estágio desde março nas escolas públicas de ensino médio da cidade. O trabalho está vinculado ao projeto – Estágio: Espaço onde as formações se encontram, desenvolvido pelo grupo de pesquisa INTERNEXUS. Nesse momento, investigamos: o desenvolvimento de processos reflexivos sobre crenças dos futuros professores ao ensinar e aprender; as dificuldades da profissão; escritas dos estagiários em diários pessoais e diários de aula em relação às atividades propostas nos encontros semanais de orientação. Estas atividades foram pensadas como espaços de problematização das dificuldades no período de estágio e consistiam em oficinas com temáticas diversificadas. Na Oficina de Máscaras, cada estagiário moldou máscaras com ataduras de gesso no rosto dos colegas, criando contato físico e possibilitando a construção de elos de afeto e confiança. Tratamos o “uso de máscaras” como construtos sociais por vezes saudáveis e necessários, e outras, impedindo as relações e produzindo distanciamento no espaço escolar. Posteriormente, foram realizadas Oficinas sobre Gênero e Sexualidade abrangendo assuntos como Escola sem Homofobia, utilizando vídeos e textos. Foi realizada a Oficina de Bonecas Abayomi, confeccionando bonecas negras de pano e introduzindo questões sobre preconceito e racismo. Em sequência, Oficina de Leitura e Produção de Sentido, com leituras de diferentes gêneros literários, 1 O uso do símbolo @ no texto, será para indicar o feminino e o masculino, no caso: professores e professoras e em outro momento, a “leitura” de imagens de Sebastião Salgado. No último encontro foi realizada uma Oficina de Percepção Sensorial em que os alunos eram vendados e guiados pelos colegas, e visualização do documentário Janela da Alma. Essas oficinas tinham como propósitos criar estranhamentos e provocações referentes à metodologia utilizada e ao movimento reflexivo dos estagiários quanto as suas vivências nas escolas. Introdução Este trabalho foi realizado com acadêmicos do sétimo semestre do curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Maria matriculados na disciplina de Estágios Curriculares Supervisionado no primeiro semestre de 2011, encontrando-se em estágio desde março nas escolas públicas de ensino médio. O trabalho em questão está vinculado ao projeto de pesquisa – Estágio: Espaço onde as formações se encontram, desenvolvido pelo grupo de pesquisa INTERNEXUS. Um dos objetivos desse projeto se refere à construção de espaços de reflexão no que diz respeito à evolução das concepções e práticas dos futuros professores, caracterizando estes avanços profissionais. Nesse momento, estamos investigando o desenvolvimento de processos reflexivos, sobre as crenças dos futuros professores quanto ao ensinar e aprender e as dificuldades da profissão. Também investigamos a escrita dos estagiários nos diários pessoais e nos diários de aula em relação às atividades propostas por meio de oficinas temáticas, nos encontros semanais e nas orientações. Essas oficinas temáticas têm intuito de gerar provocações, fazendo com que os estagiários possam refletir as atividades em questão, produzindo subjetividades e construindo um espaço relacional, ou seja, de encontros consigo e com os outros. Estes relacionamentos nos inserem (professores formadores e professores em formação inicial) dentro de esferas de representação social em que cada sujeito ocupa seu papel de agente dentro da sociedade. Nesse sentido, os sujeitos desempenham papéis diferentes de acordo com o ambiente e a situação em que se encontram, nesta caso, o ambiente formativo e escolar. Procuramos, então, provocar nos estagiarios situações em que eles podem vir a presenciar e causando reflexões de como agir em determinadas situações práticas. Desenvolvimento Este trabalho é uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo estudo de caso na qual utilizamos oficinas temáticas como dispositivos formativos com os estagiários. Está circunscrita ao caso de estagiários do curso de licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Maria, RS, matriculados na disciplina de Estágios Supervisionados no período de março de 2011 a dezembro de 2011. Tem vigência de um ano, centrando seu foco de análise no desenho das disciplinas de Estágios Supervisionados, nas quais se pretende desenvolver um modelo dialógico e problematizador de orientação. A análise dos dados será baseada em Moraes (1999) e Moreira & Silveira (1993) e utilizaremos como as técnicas de pesquisa para a análise e organização dos resultados a Análise de Conteúdo (AC). A análise de conteúdo é considerada uma técnica para o tratamento de dados que visa identificar o que está sendo dito a respeito de determinado tema (VERGARA, 2005, p. 15). Analisamos para este trabalho relatos escritos referentes à avaliação final das atividades realizadas no formato de um questionaria de “Que bom?”, “Que pena?” e “Que tal?”. Os diários pessoais não foram analisados neste semestre, pois as atividades seguem até o final do ano letivo de 2011. Dêmos início à criação desse espaço com encontros através das oficinas, sendo a primeira Oficina de Máscaras. Num primeiro momento os alunos foram encaminhados a uma sala especial do Centro de Educação (CE), onde procuramos criar um clima específico para a realização da oficina. A turma foi convidada a iniciar o trabalho: cada estagiário moldou máscaras com ataduras de gessos no rosto dos colegas, o que permitiu-lhes desempenhar um movimento de conhecimento significativo, onde cada um produziu a máscara no colega, criando um contato fisico e assim possibilitando a construção de elos de afeto, carinho e confiança no outro. Mais que isso, trazemos pro debate no final da oficina a necessidade de percebermos o “uso de máscaras” como construtos sociais por vezes saudáveis e necessários e, outras, impedindo as relações e produzindo distanciamento nos espaços de dentro e fora da escola. Na sequência foram efetuados quatro encontros com o tema Oficinas de Gênero e Sexualidade, utilizando vídeos, textos e reportagens para problematizar as temáticas, abrangendo assuntos atuais como Escola sem Homofobia, com o objetivo de gerar a reflexão dos futuros professores sobre questões que estão cada dia mais presentes nos espaços escolares. A presente oficina objetiva identificar nas narrativas de futuros professores, os discursos de justiça e verdade diante de situações que envolvam Gêneros. Além disso, almejamos construir conjuntamente com os participantes envolvidos na pesquisa subsídios para novas abordagens de questões relativas a esses temas nos espaços escolares. Neste contexto, também foi realizada uma oficina de produção de bonecas Abayomi2, em que os acadêmicos confeccionaram bonecas negras feitas com sobras de pano, sem uso de costura ou de cola. Para problematizar o tema em questão, utilizamos trechos do filme nacional “Quanto Vale ou é por Quilo?”3, buscando questioná-los sobre racismo, sexismo e violência durante momentos de experiência estética4. Em seguida, foram desenvolvidas quatro Oficinas de Leitura e Produção de Sentido com diversos gêneros textuais, com a intenção de promover um espaço de experiência literária em situação grupal e de encontro consigo mesmo, fazendo com que os alunos estagiários reflitam sobre as várias temáticas propostas. Entre uma das oficinas em questão foram utilizadas leituras de imagens a partir de fotos de Sebastião Salgado, em que cada estagiário escolheu uma (ou mais) foto e falou sobre a(s) mesma(s). Nesse sentido, tomando como referência Porlán & Martín (1998), utilizamos também nesta disciplina uma forma de registros escritos que denominamos de Diário de Registros Pessoais, escrito pelos estagiários, onde cada acadêmico recebeu um cadeirno pra escrever suas reflexões sobre as atividades propostas nas oficinas. Por fim, foi realizada uma Oficina de Percepção Sensorial em que os estagiários eram vendados com retalhos de tecido escuro e guiados pelos colegas em um passeio pelos corredores do Centro de Educação (CE) na UFSM, retornando a sala onde estava sendo reproduzido o filme Janela da Alma5. Os estagiários ao saírem vendados criavam um elo de confianças com os colegas diminuindo a distancia e a diferença entre eles. Essas oficinas tinham como propósitos criar estranhamentos e provocações referentes à 2 A história das Bonecas Abayomi, começou com Lena Martins, artesã de São Luiz do Maranhão, educadora popular e militante do Movimento de Mulheres Negras, que procurava na arte popular um instrumento de conscientização e sociabilização. Logo, outras mulheres, de várias gerações, vindas de vários movimentos sociais e culturais, aprenderam com ela, juntaram-se e fundaram no Rio de Janeiro a Cooperativa Abayomi, em dezembro de 1988, dando continuidade ao trabalho desde então. 3 O filme relata uma comparação entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. 4 Kastrup (2008) se fundamenta em John Dewey para conferir a prática da cerâmica por portadores de deficiência visual adquirida como uma experiência estética, a qual não se restringe apenas ao campo da arte. Apesar de Dewey dualizar a palavra “artístico” como referência ao ato de produzir uma obra e o termo “estético” ao ato de percepção e apreciação de quem se depara com a mesma, afirma que a experiência com a arte não faz a separação entre o sofrer e o gosto, ambos alternando e existindo em mútua relação. “O artista, enquanto trabalha, incorpora a atitude de quem percebe, como o pintor que precisa padecer conscientemente o efeito de cada toque do pincel ou não será capaz de discernir aquilo que está fazendo e para onde encaminha seu trabalho (Dewey, 1934/2005). Por outro lado, a experiência perceptiva é, ela própria, uma experiência criadora, e completa o trabalho de criação. Nesse sentido, as práticas artísticas, como as experiências estéticas, acionam processos de cognição inventiva e de produção de subjetividades, engendrando domínios cognitivos e novos territórios existenciais” (KASTRUP, 2008, p. 193) 5 Dezenove pessoas com diferentes graus de deficiência visual, da miopia discreta à cegueira total, falam como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo. metodologia utilizada e ao movimento reflexivo dos estagiários quanto a suas vivências nas escolas. Segundo Tardif (2002) o ensinar se constitui em um agir com outras pessoas. Disto decorre toda uma relação sutil de troca de conhecimentos, de reconhecimentos e de papéis mútuos, alteradas por esperas e aparências ajustadas. Neste contexto e com o objetivo de aprofundamento teórico e metodológico na formação de professores, lançamos provocações pra gerar reflexões de assuntos que se tornaram comuns no cotidiano das escolas onde muitos dos estagiários estarão ministrando aulas depois de finalizada sua formação inicial. Resultados A princípio percebemos a riqueza com que os alunos estagiários receberam as oficinas, mostrando-se abertos a novos saberes, compartilhando suas dúvidas e medos com os colegas que, por sua vez, estão passando pelas mesmas etapas profissionais e que por muitas vezes tem as mesmas dúvidas em relação às questões propostas. Sobre isto notamos a escrita de um dos sujeitos da pesquisa. Já é meio manjado e tecla batida, várias vezes, mas todos os elogios já feitos e ditos são realmente verdadeiros. Esta provocação gera, e isso fica rebatendo por muito tempo, toda uma mobilização e nos faz questionar sobre o quanto, quando e como somos enquanto pessoas e professores e quando somos ou estamos sensibilizados. Analisando as escritas de outros participantes percebemos o quanto as atividades tornaram-se importantes no âmbito da reflexão dos alunos matriculados na disciplina ECS, assim como na fala anterior, o mesmo se observa em outros sujeitos analisados na pesquisa. Complicado falar, mas certas vezes pensamos coisas que talvez não seja realmente o que [se] esta sendo dito. Em certos momentos o caminhar em ovos não é o mais equilibrado possível e pisamos em alguns, quebraram-se ovos então, perder-se talvez por completo ou nos olhos de otimistas destes quebrados ovos pisados, ainda podemos fazer um omelete, reaproveitar. Às vezes, o quebrar a casca pode ser delicado, aos poucos com batidas suaves até ela se romper. Outros precisamos quebrar pisando mesmo, rompendo-se ao susto. Então, aqui é um que pena que já não é tão pena assim, melhor, é um que pena que não romperam a casca antes. Na fala do estagiário fica claro o reflexo das ações experienciadas nas oficinas e como todo esse movimento fez com que os alunos estagiários voltassem pra si produzindo novas subjetividades. A maioria dos alunos afirmou que as aulas em formato de oficina criavam outra perspectiva de como ser um professor, e sobre as realidades que poderão surgir no decorrer da suas vidas profissionais. Os estagiários também afirmaram que. Essa parte de pensar sobre algo “não-conteudista”, e da subjetivação é algo que falta no nosso curso e que nos faz muito bem, e nos auxilia na formação. Percebemos nas narrativas de vários alunos a questão de ser pouco tempo e que gostariam de muito mais aulas para poder dizer e refletir sobre muitos outros temas que no andar das oficinas surgiam em algum momento. Os estagiários também mencionaram em aula as dificuldades de transpor o que foi trabalhado nos oficinas para a sala de aula. Considerações finais Frente a esses resultados percebemos a importância de espaços na formação inicial onde os alunos estejam livres para falar, escreverem suas dúvidas e refletir sobre temas num movimento que possibilita a criação de si. Essas experiências na disciplina ECS são relevantes e devem ser consideradas quanto à formação de jovens professores. Podemos ter a certeza que o desafio lançado, auxilia na capacidade de lidar com o novo e com o diferente, o que poderão ajudar nas desacomodações e conformidade dos processos muitas vezes pensados como inevitáveis. Ao partir do contexto das atividades propostas nas oficinas com a idéia de reflexão do sujeito no seu processo formativo e mais forte ainda neste período de reconhecer-se professor. Estamos procurando inventar um espaço, subjetividades, corpo, um lugar de encontros. Esse processo sempre permanente de construção de si vai à contramão do individualismo academicista, pensando num grupo em que vê a sua liberdade na condição da liberdade do outro. Afirmamos a importância de grupos formativos que potencializem o humano e a produção de subjetividades sem abandonar sua singularidade, acreditando que isso seja efetivamente produção e afirmação de diferenças. Referências KASTRUP, Virgínia. O Lado de Dentro da Experiência: Atenção a Si mesmo e produção de subjetividade numa oficina de cerâmica para pessoas com deficiência visual adquirida. Psicologia ciência e profissão, 28 (1), p. 186-199, 2008. LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, jan./fev./mar./abr. 2002, n. 19, p. 20-28. MORAES, R (nome completo). Análise de conteúdo. Educação, 37:7-32, Porto Alegre, 1999. MOREIRA, M.A (nome completo).; SILVEIRA, F.L.S. Instrumentos de pesquisa em ensino e aprendizagem. 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