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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
Volume I
CONFISSÕES DE UM EX - PASTOR
SAGA DE UMA SEITA MALIGNA
PAULINHO SOUTO MAIOR
[email protected] – (21) 7904-4718 / (22) 9252-0892 – [email protected]
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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
Volume I
ESTA HISTÓRIA É BASEADA EM FATOS REAIS
QUALQUER SEMELHANÇA NÃO EXISTIRÁ HIPÓTESE
DE COISCIDÊNCIA.
CONFISSÕES DE UM EX - PASTOR
SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA
PAULINHO SOUTO MAIOR
Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias
mãos.
Provérbios 14.1
DEDICATÓRIA
In memória
Dedico essa obra a Vanda, minha saudosa esposa, foi ela quem escreveu toda a história
de minha vida, sem esta pérola preciosa, a vida para mim não teria qualquer significado.
*****
Ao meu amado filho Roberto Brasil que tem nas veias o sangue de escritor.
Paulinho Souto Maior
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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
Volume I
INTRODUÇÃO
LEMBRANÇAS...
Fevereiro de 2001. Eu estava tranqüilo em meu escritório no Centro da cidade do Rio de
Janeiro. Era uma sexta-feira, precisamente, às 12h30min. Já estava farto de beber tanto
cafezinho para enganar o estômago – pois eu estava sem grana pra almoçar. Aliás, este
agora era o meu estado no momento: „sem grana’. Acabara de sair de um mal
investimento onde perderá uma grande soma de dinheiro.
Assim eu estava aquele princípio de ano, presumidamente, e; aquele dia pertencia
justamente a um desses caóticos dias que não gostaríamos que existisse.
Eu tinha acabado de perder um pouco mais de quinhentos e oitenta e cinco mil dólares por
tentar fazer um investimento celestial e, um pouco mísero da grana que ainda me restara,
eu investira erradamente numa produção televisiva.
Agora, eu estava ali, em um simples escritório compartilhado com mais pessoas, em plena
sexta-feira e sem “nenhum tostão” para levar para casa.
Na verdade eu fazia parte de um grupo de três pessoas que dividia as despesas daquela
sala de escritório. Um deles era um senhor de setenta anos, casado com uma mulher de
trinta e seis – por sinal, muito bonita. Ele estava passando por uma crise matrimonial muito
séria e, naquele dia, esse meu amigo foi até sua casa, atendendo a uma denúncia
anônima de que tinha algum estranho “visitando” o seu apartamento em sua ausência.
Enquanto isso, o segundo participante que dividia também a sala conosco, estava com a
esposa entrevada numa cama e, aproveitando-se da situação, passou no escritório
somente pela manhã para nos informar que estava indo passar o fim de semana em
Petrópolis com uma mulher (a qual era sua amante há dois anos) em “lua-de-mel”.
Por fim, eu estava sozinho... Eu sentia uma sensação aparente de paz, estava lendo a
Bíblia e não tinha nenhum cobrador, oprimindo-me e alegando que eu o devia por algo ou
alguma coisa – até porque eu não tinha dado aquele endereço para ninguém, nem para
minha família; apenas minha esposa e meu filho sabiam de meu paradeiro.
Mas... Como tudo que é bom sempre acaba... A campainha tocou. - “Quem será?”, pensei -. - “Não estou esperando ninguém, e os meus dois supostos ”amigos” de escritório
não voltarão hoje...”.
Pensando que era algum ambulante, não dei muita atenção para o meu incômodo
visitante. Além disso, minha sala era a última daquele imenso corredor, e a porta de vidro
de entrada era bem lá na frente. Ela protegia todo o conjunto de cinco salas daquele lado
do andar.
A campainha insistiu com veemência, e parecia que a pessoa não queria tirar mais o dedo
da tecla. Irritado, levantei-me disposto a “soltar os bichos” em cima do meu importunador.
Abri a porta da minha sala e caminhei por aquele extenso corredor até a frente, na entrada
principal.
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Volume I
Lá chegando, ao olhar pela porta de vidro, dei de cara com um senhor negro, pesando
cerca de cento e trinta, e creio que com quase dois metros de altura. Parecia uma jamanta
desconjuntada. Perguntei ainda com a porta de vidro fechada:
–
Pois não?
–
Pastor Paulo Roberto?
–
Sim! Sou eu mesmo...
–
Pastor Evaldo, muito prazer meu irmão...
Abri a porta e o cumprimentei.
Sem qualquer convite particular, aquele gigante de massa preta, entrou e foi caminhando à
minha frente. Parecia que ele já sabia onde era meu escritório. Não entendi nada, mas,
fechei a porta de vidro e segui após o irmão. Chegamos juntos à sala, com ele sempre à
frente.
Esperou-me entrar. Ele mesmo fechou a porta com a chave, jogou-a sobre a mesa e se
esparramou no sofá, como se fôssemos velhos amigos.
–
Eu não me lembro do irmão – eu disse.
Ele riu...
–
O irmão não me conhece... Eu estou aqui em uma missão importante... Vim tratar
de um caso muito sério... Seríssimo por sinal... Mas vou esperar dois amigos que
estão estacionando o carro lá no edifício Garagem. Daqui a pouco estarão aqui. Só
vim na frente preparar o seu espírito.
Fiquei cabreiro.
–
Não estou entendendo, irmão, de que se trata?
–
Eu me dou o direito de calar-me por agora... Vamos esperar que eles cheguem.
Não quero ser indelicado.
“Mas está sendo” – pensei comigo mesmo -. E fiquei com receio de verdade.
–
Mas o que foi que houve meu irmão? – perguntei espantadíssimo, - ele apenas
sorriu com os lábios fechados.
Percebi que ele não falaria nada. Nessa hora, senti como se meu sangue tivesse
desaparecido do meu corpo; dava para perceber claramente que o meu semblante
mudara. “Seria aquele homenzarrão realmente um pastor, ou um bandido disfarçado?”
E eu imaginava tudo de ruim.
Talvez fosse um cobrador alucinado, pois como falei anteriormente, eu acabara de perder
um pouco do restante do dinheiro de minha antiga empresa de cartão de estudantes,
investindo em uma produção televisiva no ano 2000. A minissérie que eu tentara fazer, me
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Volume I
levara toda a grana e em dezembro eu tive que suspender. Era Janeiro, e eu estava
sofrendo o trauma desta perda.
„A Síndrome dos Anjos‟ foi uma das minhas melhores produções em argumento,
produção e roteiro que tentei realizar. Eu escrevi com muito carinho e muito estudo
esotérico e teológico.
Além de tudo eu tinha um elenco fantástico e dentre eles eu contava com: Leila Schuster
ex-miss Brasil e esposa de Hélio Ferraz antigo sócio do Pelé, Paula Manga a filha de
Carlos Manga diretor da Rede Globo de Televisão, e; é claro: uma das mulheres mais
linda e mais sensual da época, nossa amada Sheila Carvalho, dançarina do grupo: „É o
Than‟ e personagem principal de uma das maiores revistas sexual do Brasil.
Infelizmente por tentar unir o útil ao agradável, tentei inserir no elenco alguns nomes da
religião evangélica, pois a série retratava da invasão de seres espirituais na Terra:
ANJOS e DEMÔNIOS, e; por eu ser um “Pastor evangélico”, professor de teologia e um
grande estudioso de religiões, a minissérie tinha uma conotação cristã, mas; sem apologia
ou dogmatismo. Por isso convidei alguns artistas evangélicos como: Simone Carvalho,
Baby do Brasil e Carlos Machado, este último figurante quadjuvante da Rede Globo, e
muitos outros nomes do teatro e cinema brasileiro como o nosso saudoso Jesse
Valadão.
Eu contaria no futuro com setenta por cento do Patrocínio de um grande Banco brasileiro
e os outros trinta por cento, eu mesmo deveria inserir do meu próprio esforço.
Mas para provar que a minissérie seria uma boa produção eu deveria bancar todo o
primeiro capítulo, ou seja; eu pagaria este capítulo integral e apresentaria ao Banco para
que pudesse aprovar e; caso aprovado, ele me reembolsaria o que gastei.
Ganhei um título de ICMS do Governo do Estado do Rio de Janeiro no valor de R$
345.000,00 (trezentos e quarenta e cinco mil reais), mas esses títulos de incentivos
governamentais são tão somente pra inglês vê, porque 90% por cento dos títulos
concedido só servem para as pessoas guardarem de recordação.
Apenas dez por cento dos cem por cento desses títulos distribuídos, conseguem serem
trocados, e isso apenas por pessoas que já estão na mídia.
Logo aquele órgão chamado de „Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro‟ (pelo menos
nessa área), foi criado apenas para cabide de emprego. Não posso assegurar se os
demais Estados brasileiros são assim.
Afora que o percentual concedido pelo Governo do Estado é quase que uma esmola para
a arte de se fazer Arte e Cultura no Brasil.
Se houver uma auditoria verão que entre mil títulos, apenas cinqüenta ou sessenta títulos
foram de fato úteis e utilizados.
Por isso de nada adiantou para mim ou para vários produtores esse famigerado „título‟,
pois todas as empresas que supostamente trocam os tais, estão sumariamente
“comprometidas” para “o ano vigente”, e quem sabe no “ano que vem”? Este era e é
sempre o argumento usado.
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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
Volume I
Mas os astros e estrelas se compadeceram de mim e juntos unimos nossas forças para
fazermos o primeiro capítulo em cooperativismo.
Todos faziam e ajudavam em tudo. Roupas, maquiagens, residências para „SET DE
FILMAGENS‟, exceto claro, eles não bancavam outros custos, e; eu me responsabilizaria
por transportes, hospedagens, alimentações e algumas mordomias para as maiores
estrelas.
Ainda por cima ainda tínhamos que nos preocupar com o valor a pagar do horário locado
na Rede TV que era de um milhão de reais pelas doze horas locadas distribuídas em três
semanas no horário nobre de segunda a quinta feira. E Marcelo de Carvalho, o vice
Presidente da emissora, vivia na minha cola pedindo o dinheiro antecipado.
Mas isso não era o meu fantasma. Eu ainda tinha um pequeno um capital em caixa
disponível, concedido por pequenas empresas que tinham parceria comigo na minha
firma: CLUBE DO ESTUDANTE DO BRASIL, (hoje VIP CARD ELECTRONIC BANKS/
www.vipbanks.com.br - onde eu solicitava colaboração para bancar alguns custos.
A gota d‟água se deu quando na gravação de Baby do Brasil com Sheila Carvalho. A
Baby não aceitou gravar com Sheila, e; se rebelou afirmando que pelo fato de ser uma
pastora, ela não gravaria com mulher de Playboy.
Eu não aceitei essa condição e aí o caos entrou no meio da produção. O grupo se dividiu
e fui acusado de endemoniado e, de tudo que não presta. Oitenta por cento dos crentes
seguiram a Baby. Fizeram uma reunião e fui acusado de comer as moças do elenco e tal
coisa assim, digna da mente dos evangélicos (toda regra tem exceção). Somente vinte
por cento dos cristãos e os demais do elenco foram ao meu favor. Eu vivi um inferno no
Céu.
A partir daí, o elenco se desfez, e eu fiquei com os demais tentando me consolar. Fiquei
devendo a produção alguma coisa como: iluminação e filmagem. E para tentarem me
derrubar ainda mais, foi inventado o desaparecimento de algum produto da iluminação e
por ser o responsável da produção, fui acusado de ter que pagar por algo que tenho
certeza não ter sumido, por isso não paguei, mas ficaram ranços de alguns pagamentos
não realizados.
Resumo: fiquei devendo na praça cerca de noventa mil reais além de todo dinheiro que já
tinha aplicado e as ameaças de cobranças por métodos extra-ilegais que alguns gaiatos
que nada tinham com a produção me ameaçavam. E apareceram demônios santificados
com bíblias na mão, tentando levar vantagem de minha suposta desgraça.
Tudo se passava em minha mente em um rápido flashback, e vi todo o meu passado
fantasmagoricamente ali descortinado diante de mim. Senti um calafrio correr em minha
espinha.
Tentei falar com Michel o filho do dono da Casa Bahia (acredito que seja o Vice
Presidente dessa Organização), só sei que este era Tiete da Sheila. Falei com ele se
podia nos ajudar a dar continuidade, mas “aquele momento” não era apropriado me
alegou o moço.
Então... Abortei a missão.
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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
Volume I
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Eu era um pastor evangélico, com mais de vinte anos de convertido e com apenas seis
anos de ministério.
Jamais fui sustentado pela igreja, só que, na verdade, minha vida sempre foi
desestabilizada materialmente dentro da chamada Eclésia porque eu ganhava muito
dinheiro com minha empresa, mas; tentava fazer altos investimentos na igreja, logo o
resultado era que eu vivia sempre em “altos e baixos” por tentar ajudar os “irmãos”. E por
não querer viver à custa da igreja, eu vivia à custa de minhas tresloucadas investidas da
suposta coragem de tentar ser um pastor bonzinho e humilde. Isso me fez por muitas
vezes ficar chafurdado em dívidas.
Durante todos esses anos de evangelho depois que me converti, eu sofrera de debilidades
na área financeira por minha própria culpa e mania de tentar ser „Deus‟ e salvar os menos
desfavorecidos, e; isso até eu perceber de fato que: „SE DEUS NÃO CUIDA DE QUEM É
DELE, PORQUE QUE EU DEVERIA CUIDAR‟?
Pena que só aprendi essa lição um pouco tarde demais. Eu agora estava sumariamente
falido.
Depois da minha conversão e a mania de tentar corrigir o que achava estar errado, a
minha vida passou a ser um verdadeiro fiasco. Uma hora eu tinha dinheiro aos borbotões,
mas outra ficava a zero, tirava de minha casa pra ajudar algumas igrejas e a muitos
irmãos.
Eu dava pra algumas igrejas como oferta, o que pensava ser certo tipo carro, relógio caro,
e muitas outras coisas de valor. Um dia a igreja que eu freqüentava estava passando por
problemas financeiros, vendi tudo da minha casa e passei a dormir no chão com minha
mulher e filho, crendo que Deus ia me conceber suas “bênçãos”. Fiz por fé em Deus e
acho que Deus não botou fé em mim.
Não podia ver um irmão chorando suas mágoas por estar nesta ou naquelas condições, lá
estava o irmão ou irmã se lamuriando em meu lar e eu cobrindo suas despesas. Até
empréstimos de agiotagem de alguns eu paguei. Hoje até me orgulho um pouco por ter
sido melhor que Deus. Já que ele nada fez, fiz eu.
Eu me casei com a igreja e fui amante de Deus e do seu aludido filho, que me exploraram
até o último cetil. E quem ficava sempre duro e teso, era eu. E eles ganhavam a glória.
(tipo assim): - Sabe aquele adágio que diz: (gozar com o pau dos outros).
A falta de dinheiro me fazia vender até bosta em saquinho como ouro em pó, e, por causa
disso, eu sofria muito.
E este último caso do seriado, foi para mim a gota d‟água. Deus acabara de destruir a
minha vida, minha paz, minha alegria e minha esperança. Eu tinha que deixar de ser
escravo dele e de seu mimado filho, mais o medo de ir para o inferno, fazia com que eu
insistisse na asneira de segui-los. Como fui babaca...
Agora eu me encontrara ali, naquele escritório, numa sexta feira e completamente sem
dinheiro nem para almoçar.
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Volume I
Será que eu devo realmente a alguém que eu não me lembre?
Pensava eu olhando seriamente para aquele brutamontes. E essas coisas assolavam
minha mente naquele instante.
Enquanto esperávamos quietos os tais “amigos”, o negro de massa bruta lia uma revista
antiga, e eu fingia ler a Bíblia, mas meus pensamentos voavam.
Fui despertado desses pensamentos quando, pela segunda vez, ouvi o toque da
campainha – a qual era do tipo cigarra e fazia um barulho tremendo, assustando ainda
mais quando se estava em silêncio absoluto e desespero interno.
E foi isso mesmo que aconteceu. Ao tocarem aquela cigarra, o “pastor” tomou um susto
tão grande que chegou a pular do sofá, na maior “harmonia” comigo, em salto
sincronizado, pois o sobressalto dele também me assustou mais do que o toque da
cigarra, a qual eu já conhecia bem, e o pulo que ele deu no sofá fez com que eu me
levantasse rápido da minha cadeira e batesse com o joelho com toda força na quina da
mesa.
A dor foi tanta que fiquei tonto, mas não esbocei qualquer tipo de sentimento. Só “Deus”
sabia (será que sabia mesmo?) a dor que eu senti! Rimos um pouco sem jeito, fazendo
comentários apáticos sobre minha campainha e o susto.
A cigarra insistiu e, agora, tocava de uma maneira que me fazia estremecer por dentro.
–
São eles, irmão – ele disse.
–
Eles quem, pastor? – perguntei -.
–
O pessoal que estamos esperando...
Ele estava esperando, eu não! E para quê? Turbilhões de pensamentos afluíam em minha
mente. Procurei pensar a quem eu devia mais dinheiro, e o que poderiam querer ou exigir
de mim. E o pavor tomou conta do meu ser.
Senti um ronco dentro do meu estômago e logo percebi que meu intestino se revoltava
com a minha tensão. Ele prenunciava que minha “menstruação fecal” ia descer mais
rápido que eu imaginava. Sentei-me, tentando tapar a pressão que ameaçava sair do meu
traseiro.
–
Vamos abrir a porta – sugeri, sem esboçar qualquer esforço para fazê-lo.
Na verdade, isso era o que eu menos queria. Quando tentei estender a mão par pegar as
chaves, o pastor levantou-se e segurou meu braço com toda força. Aquela grande mão,
com dedos enormes e pontiagudos, parecia um ancinho catando gravetos. Então, todo o
meu corpo tremeu e senti quando um jato de ar quente saiu por baixo de mim... Logo
percebi que tinha uma “almofada” mole e melecada embaixo do meu traseiro...
–
Eu vou abrir irmão... Fique orando em espírito – disse-me ele um pouco tenso -.
Não entendi tal colocação. Ele saiu da minha sala para ir até a porta de vidro externa que
tinha quase exatamente uns quinze metros ou mais de distância. Era o tempo que
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Volume I
precisava para me recompor. Enquanto Evaldo foi abrir a porta, eu me apressei em ir ao
banheiro para tirar aquela roupa toda suja de excremento.
Sorte que, toda vez que eu chegava ao escritório, colocava uma bermuda e camiseta,
tirava os sapatos e calçava a minha sandália tipo “to na merda”, e, literalmente, naquela
hora, eu estava.
Abri os dois janelões rapidamente e desliguei o ar condicionado. Esperava que o mau
cheiro não tomasse conta de todo o ambiente.
Entrei no banheiro, sentei no vaso e “completei o serviço”. Depois, entrei embaixo do
chuveiro. A demora fez com que Evaldo me chamasse estridentemente (com sua voz de
trovão). O trombone da voz do grandalhão ecoou de uma maneira tão hostil, que sai
molhado do banheiro, sentei novamente no vaso e braaau!
–
Um momeeento, irmão... Estou me arrumaaaando – Falei, desconcertado, tentando
ganhar tempo para sanar a cólica e esvaziar todo o ventre.
Minha voz soou um pouco trêmula pelo medo, pela cólica e pela força que eu fazia para
esvaziar mais rápido tudo o que restava dentro do meu intestino. Eu fazia um esforço para
tentar escutar a conversa deles do lado de fora do banheiro, mas nada ouvia. Apenas um
silêncio mórbido tomava conta do ambiente, o que me fazia temer mais e mais.
Orei então a Deus: “Senhor, toma conta de minha família, mas lembre-se: eu não posso
morrer agora. Minha mulher e meu filho caçula só têm a mim, e ninguém vai querer acudilos. Portanto, Pai, poupa-me só mais dessa vez, e procurarei ser mais santo”.
Uma oração curta e grossa. Arrumei-me todo e pendurei minha bermuda, agora lavada, no
basculante do banheiro. Vesti-me socialmente esportivo – como sempre chegava ao
escritório. Saí do banheiro com a cara mais piedosa e cínica do mundo. Quem olhasse
para mim percebia que eu suplicava por misericórdia. Pensei comigo mesmo: “Eu tenho
que encarar. Seja o que Deus quiser”.
Não tinha como fugir pelo basculante do banheiro e nem pela janela da sala. A altura do
andar não me permitia qualquer investida. Eu tinha mesmo que enfrentar. Então, ao abrir a
porta, logo vi os dois homens – um aparentava ter cerca de 30 anos e o outro cerca de 40
– estavam sentados no outro sofá ao lado do pastor Evaldo.
–
Boa tarde – cumprimentei.
–
Boa tarde – respondeu o mais moço.
–
De que se trata? – Perguntei, sentando-me em minha cadeira após perceber que
ela não estava suja, mas apenas umedecida pelo desastre anterior.
Na verdade, eu confiei em Deus naquele momento. Embora o “Senhor” não me tivesse
dado o dinheiro para eu pagar toda a minissérie, Ele sempre “me livrava dos meus
opressores”.
Eu estava com medo daquele gorila que era o Evaldo, e, agora, ainda havia mais dois
comparsas! Por outro lado, Evaldo era pastor, „ao menos foi o que me disse‟ quando
chegou. Os outros dois eram magrinhos – até dava para eu jogá-los para fora da janela
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Volume I
sem muito esforço, se eles fizessem alguma menção de ataque. E, eu juro que eles
desceriam os nove andares voando junto comigo.
Por isso, ao sentar-me, fui arrastando minha cadeira (de rodinhas) para um ponto
estratégico, a fim de poder defender-me caso meus visitantes fizessem quaisquer
movimentos estranhos. Evaldo exclamou surpreso:
–
Puxa! Arrumou-se todo para receber as visitas? A mim, recebeu-me todo
escachado... – E abriu um bruto sorriso.
O homem mais velho também sorriu e se antecipou no assunto.
–
Bem, pastor, eu não sei se o Evaldo adiantou-lhe o assunto, mas estamos aqui em
uma missão...
–
Foi só isso apenas que ele me disse... Uma missão! Nada mais que isso
–
Não quero que o senhor fique tenso ou nervoso. A missão para nós é bem mais
importante do que para o senhor – tentou me acalmar o mais moço.
–
Mas de certo modo também lhe trará benefícios – expôs-me o mais velho.
Então, Evaldo tomou a palavra...
–
Eu só disse para o pastor que vocês viriam aqui. O restante eu gostaria que vocês
mesmos expressassem a ele.
–
Bem, pastor, eu não sei bem por onde começar, visto que algumas pessoas de sua
religião têm restrições quanto ao que acreditamos – declarou o mais velho.
–
Mas o Evaldo também não é pastor? – repliquei.
–
Deixe-me explicar com calma. É que existem crentes que acreditam no que vamos
expor, mas outros não. – falou ainda o homem que contava ter cerca de 40 anos.
–
Poderiam ser um pouco mais claro? Eu não estou entendendo muito bem sobre...
Essa tal missão?
–
Vamos ser objetivos. Permita-me primeiro me apresentar, pastor. Meu nome é
Carlos, e este é o Celso. Nós estamos aqui em uma missão ultra-espacial, ou seja;
além dos parâmetros da Terra.
–
É isso aí! – Enfatizou Celso euforicamente.
–
É isso meu irmão – retrucou Evaldo. – Eu não poderia contar absolutamente coisa
alguma enquanto eles não chegassem para não assustá-lo.
–
Mas conseguiu mesmo assim, meu irmão... Pensei que fosse outra coisa.
–
Eu sei pastor, que o assustei, mas o clima tinha de ficar mesmo em suspense até o
senhor saber de tudo o que se passa... – Concluiu Evaldo.
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Volume I
Carlos, então, voltou a falar:
–
Bem, pastor... O que quero informar é que fazemos parte de uma Ordem Ufóloga
Secreta, a „OUS‟, ou simplesmente ORDEM. Com o tempo, o senhor vai entender o
porquê de ser nossa ORDEM “secreta”.
Nosso grupo pertence ao maior acontecimento cósmico universal de todos os
tempos. E nossa fraternidade é de alto nível. Não costumamos fazer alaridos ou nos
mostrar ao mundo, assim como fazem muitos ufólogos que desconhecem nossa
Ordem. Ou eles não conhecem o verdadeiro significado dos Ets, ou nunca foram
chamados de fato pelos espíritos cósmicos. Pelo menos, não por enquanto. Nosso
objetivo é permanecer no anonimato, até o informe prenúncio da vinda definitiva do
grande Ser.
Um dos seres cósmicos nos enviou um presente para lhe ofertar. Não sabemos o
que seja, nem mesmo nos interessa, mas esse “SER” intergaláctico o conhece
muito bem.
Embora estando os deuses a milhares de anos luz distante da Terra, o senhor já
tinha sido escolhido por eles desde o ventre de sua mãe. Os seres cósmicos não
entram em detalhes quanto ao fato da escolha de pessoas de nosso planeta. Só
sabemos que eles têm o controle de tudo e, quando nos capacitam para uma
missão, esperam que a cumpramos.
–
Somos uma espécie de mensageiros desses „entes astrais’. – disse Celso.
Eu senti uma vontade louca de dar uma gargalhada, mas aqueles homens estavam tão
cheios de seus ideais e tão crédulos naquilo que enfocavam que tudo que pude expressar
foi simplesmente uma indagação de espanto:
–
Um ET? Meu amigo? Danou-se... Não me falta acontecer mais nada na vida!
Eles se entreolharam, um pouco sem jeito...
–
É justamente por isso que eu estou aqui, irmão – disse-me o pastor Evaldo. Seria
muita ignorância de nossa parte, acreditar que no universo infinito, haja vidas
somente em nosso planeta.
–
E o irmão também está envolvido nisso de crença nos Ets, mesmo sendo um
pastor? – perguntei-lhe -.
–
Primeiro, escute o que eles têm a dizer meu irmão – respondeu-me -. – Não seja
precipitado no falar. A Bíblia diz em Tiago 1:19: ‘Sabeis isto, meus amados
irmãos; mas todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio
para se irar’ – exortou-me Evaldo, enquanto se entreolhavam desconfiados.
–
Bem, pastor – continuou Carlos – recebemos a missão de entregar-lhes esse
pequeno presente. Nossos amigos espaciais acham que o senhor, aqui na Terra, é
uma personalidade de grande valia, pois, segundo os mestres cósmicos, o senhor
foi escolhido para fazer parte do maior acontecimento dos últimos tempos.
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Volume I
Ele, então, tirou algo do bolso e, pela pequena caixa, parecia ser um anel, aliança ou coisa
parecida, e até estava embrulhada em um papel de presente.
–
Tome, é seu... – Carlos estendeu-me a mão com o presente. – Por favor, pastor, o
senhor deve aceitar! Segure... É seu!
–
É somente esse o trabalho de missão incumbida a nós – falou Celso.
–
Se o senhor não aceitar nós seremos considerados um fracasso diante dos
habitantes do nosso NÚCLEO. Correremos até o risco de sermos destituídos da
Ordem. Nossa missão não é tão simples. Mas... temos apenas de lhe entregar a
encomenda, o senhor só que tem que aceitar. Depois que nós sairmos o senhor
pode fazer do seu presente o que bem quiser. Mas por favor, receba.
Evaldo aproveitou para concluir:
–
Pastor Paulo Roberto, algumas denominações, acreditam em extraterrestres, mas
outras não. Então, vim aqui com eles para “dar uma força”, para caso do senhor
recusar o seu presente. Particularmente eu não vejo problema algum. Não existe
respaldo bíblico para negar a existência desses seres cósmicos. Afinal, nós vimos
tantos sinais por aí, pelo mundo afora, e até mesmo a Bíblia enfoca essas coisas. É
questão somente de interpretação.
Olhei para Evaldo com certo ar de julgamento e condenação às colocações dele. Fiquei
um pouco apreensivo... Não porque eu acreditasse naquela baboseira, mas porque me
pus a pensar, no que poderia estar me acontecendo. Afinal o homem falou numa „Ordem
Ufóloga Secreta‟, e isso devia englobar muita gente com síndrome de suas convicções
cósmicas.
–
Eu não entendi direito, amigos, mas eu prometo pensar no assunto.
Peguei aquele pacotinho que mais parecia ser mesmo uma caixinha com um anel ou
qualquer coisa do gênero. Não abri no momento para não me mostrar curioso; apenas
segurei-o por cima da mesa, pois já voltara ao meu lugar e estava bem aliviado: dos males
o menor... Fiquei brincando com o embrulhinho fechado com meus dedos da mão,
revirando-o para um lado e para o outro, até que Carlos interrompeu o silêncio e disse:
–
Evaldo nos falou tudo a respeito do que certos crentes pensam sobre isso e afirmou
que, se o senhor fosse como tal, do tipo antagônico, jamais aceitaria esse...
–
Amuleto...
–
Não! Não é um amuleto! É uma fonte de vida, uma dádiva dos céus! O senhor ainda
não entende, mas depois que for o possuidor desse presente, verá como é viver,
realmente, uma vida de prosperidade e felicidade. O senhor será um homem
conceituado e irá tornar-se uma grande personalidade. É só receber, usar e o resto
acontecerá naturalmente – completou o homem.
–
Só a Fonte de Água Viva pode dar felicidade ao ser humano, Carlos... – Falei isso
sem ao menos crer de fato no que eu falava, eu estava pra lá de decepcionado,
aliás, eu e mais uns cento e milhares de pessoas que eu conheci.
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CONFISSÕES DE UM EX- PASTOR – ‘ A SAGA DE UMA SEITA MALÍGNA’ – DE: PAULINHO SOUTO MAIOR
13
Volume I
–
Não entendo muito de água viva, porque não sou biólogo... Mas o que eu trouxe
aqui para o senhor é algo superior a tudo na Terra.
–
Bem, pastor – falou Celso, como se chegasse a uma conclusão final –, nossa
missão era entregar-lhe a dádiva e, ao senhor, cabia recebê-la, como já o fez.
Parabéns! E por isso... Vamos comemorar – Enfocou Celso – Vamos descer para
almoçar. O senhor é nosso convidado. Bebe uma cervejinha conosco? Talvez, com
a cabeça mais fresca, o senhor reflita melhor e, quem sabe, entenderá mais do
assunto.
–
Boa pedida! – Disse Evaldo animadamente. Já passou muito da hora de
“rangarmos”.
–
O que o senhor gostaria de comer, pastor? – perguntou Celso.
–
De graça, qualquer coisa! – Sorri e provoquei sorrisos -.
–
Faça o favor pastor Paulo, o senhor escolhe, e nós teremos o prazer em “bancar”. É
o nosso principal convidado – afirmou Carlos.
–
Bem, hoje é sexta-feira... Conheço um lugar aqui perto que tem uma feijoada
maravilhosa – falei.
–
Ótimo! Feijoada é uma boa pedida e o tempo está ajudando! – concluiu Evaldo.
Enquanto eu me preparava para descer, comecei a orar em espírito, pedindo sabedoria a
Deus de como agir naquela situação.
Fechei as janelas com cuidado e desci com aqueles três estranhos até o restaurante. Eu
estava mais interessado em beber as cervejinhas e comer a feijoada do que em aceitar
aquela idéia absurda. Mas a caixinha já estava em meu poder, em meu bolso... “Se for
ouro legítimo, eu empenho”, eu pensava, enquanto caminhávamos para o restaurante...
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