Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 Determinação de Vazão por Método Colorimétrico em Escoamentos Turbulentos em Escala de Bancada. Bernardo José Munhoz Lobo, Luciana de Magalhães Braga, Wesley Batista de Souza, Luis Antônio Domingues, Jonas Alves Vieira, Orlene Silva da Costa Universidade Estadual de Goiás, Brasil [email protected] , [email protected] , [email protected], [email protected] , [email protected], [email protected]. Palavras-Chave: Reynolds; vazão; colorimetria. 1 INTRODUÇÃO Em 1883, Osborne Reynolds estudou o comportamento de um fluido por meio de um dispositivo de escoamento com vazão regulável. Ao injetar um corante neste fluido em escoamento, de acordo com o perfil formado, filete retilíneo ou o de uma mistura bem difundida, Reynolds definiu o escoamento laminar ou turbulento. [1] Ao longo de seus estudos, Reynolds concluiu que a característica do escoamento não somente dependia da velocidade, mas de um número adimensional que abrangesse os efeitos da viscosidade do fluido (NETO, 2010). O número de Reynolds desconsidera fatores como rugosidade das paredes da tubulação e obstruções levando em consideração apenas os efeitos do fluido. Relaciona a energia cinética e o trabalho contra o atrito interno, que são as duas formas de trabalhos existentes no fluido em movimento. Quando Re apresenta valor pequeno significa que predomina o trabalho feito contra o atrito e Re grande significa que predomina a energia cinética (RIBEIRO, 2010). Algumas vantagens de se usar um parâmetro adimensional como o número de Reynolds são as seguintes: 1. Diminuição do número de variáveis, já que Reynolds agrupa a velocidade, densidade e viscosidade do fluido. 1 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 2. Por ser um número adimensional não depende da escala do sistema e nem das unidades utilizadas. 3. Melhor avaliação dos efeitos inerentes a cada parâmetro, de acordo com o comportamento do numero adimensional (RIBEIRO, 2010). Entre as aplicações industriais para a medição de vazão do número de Reynolds podemos citar a utilização para estabelecer o regime laminar ou turbulento, determinação das perdas por atrito e quedas de pressão ao longo das tubulações, verificação da aplicabilidade de determinado medidor de vazão, e estudo da precisão e linearidade do medidor de vazão (RIBEIRO, 2010). O número de Reynolds pode ser aplicado para vazão laminar ou turbulenta e também para diferentes sistemas, como canal, tubulações e placas como mostrado na Tabela 1. Tabela 1. Formas de cálculo do numero de Reynolds 2 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 O estudo tem um enfoque maior em sistema de canais, tanto para vazões turbulentas quanto laminares, como apresentado na Equação 1: (1) Onde v é a velocidade de escoamento do fluido, V é a viscosidade do fluido e Rh é o raio hidráulico. O raio hidráulico pode ser expresso pela equação 2: (2) O que define a vazão laminar ou turbulenta de um canal é a velocidade do fluxo, a viscosidade, rugosidade e geometria do canal. No fluxo laminar as camadas de água fluem paralelas não se misturando, o perfil de velocidade é parabólico já que a velocidade no centro da tubulação é o dobro da velocidade média. No fluxo turbulento as camadas de água são mutáveis tanto no sentido transversal como longitudinal do canal com mistura constante das camadas. O seu perfil é achatado, com a velocidade media aproximadamente igual à máxima (NETO, 2010). Os três principais parâmetros para se estudar as propriedades de um canal são a largura, a profundidade e a velocidade de escoamento, esses parâmetros podem ser controladas através algumas variáveis como o regime do fluxo, vazão, rugosidade e área do canal (NETO, 2010). Em todos os estudos hidrológicos é necessários se saber a vazão, área da seção, velocidade de escoamento do fluído, profundidade e largura do canal. O 3 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 que varia entre os meios de medição de vazão é a forma que são feitas essas medições (NETO, 2010). Em termos de energia, os medidores de vazão podem ser divididos naqueles que extraem ou adicionam energia ao processo medido (RIBEIRO, 2010). Os medidores que extraem energia necessitam de um valor mínimo de Re para poder operar satisfatoriamente. Nesses medidores não é necessário uma fonte externa de energia, no entanto o medidor apresenta bloqueio a vazão. Alguns exemplos deste tipo de medidor são: placa de orifício, venturi, bocal, alvo, cotovelo, área variável, pitot, resistência linear, vertedor, calha, deslocamento positivo, turbina e vortex (RIBEIRO, 2010). Os medidores que adicionam energia ao processo necessitam de alguma fonte externa de energia, mas têm-se como vantagem um bloqueio muito pequeno ou nenhum a vazão. A energia nesses medidores praticamente independe do número de Reynolds. Alguns exemplos deste tipo de medidores são: magnético, sônico, calorimétrico e anemômetros (RIBEIRO, 2010). Os métodos utilizados para determinar a vazão podem também ser classificados como diretos ou indiretos. A escolha do método dependerá das condições disponíveis em cada caso (NETO, 2010). A medição direta é feita com aparelhos automáticos, como molinetes e ADCP, que fornecem um resultado mais preciso. O molinete tem forma de torpedo e função de medir a velocidade do fluxo da água de forma pontual por unidade de tempo (m.s-1). O Acoustic Doppler Current Profiler (ADCP) determina velocidade do fluxo em perfis verticais, baseando-se no efeito Doppler (NETO, 2010). Já a medição indireta estima manualmente a vazão. É um método simples, no entanto é exigido um embasamento teórico. O método de determinação de vazão empregado neste estudo foi o volumétrico, que é baseado no volume do fluido que passa por uma determinada seção por unidade de tempo e o colorimétrico que é baseado na diluição de um corante de concentração conhecida aplicado continuamente numa determinada seção do canal (SCHNNEG, 2006). Este estudo teve como objetivo comparar os valores de vazão obtidos pelo método volumétrico aos valores do novo método proposto, para a medição de vazão em regimes turbulentos através do uso de canal em escala de bancada e os 4 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 corantes alimenticios azul brilhante (INS 133), vermelho bordeaux (Amaranto INS 123) e amarelo ovo (tartrazina INS 102). 2 MATERIAL E MÉTODOS Previamente ao ensaio com a calha, foram realizadas em espectrofotômetro, curvas de varredura dos traçadores, a fim de determinar o melhor comprimento de onda para a leitura do mesmo. O experimento realizado, em escala de bancada, utilizou-se de uma calha de vidro de 1m de comprimento por 0,05 m de largura, com uma das extremidades aberta. Com auxilio de uma mangueira de borracha ligada a registro, a água da rede de abastecimento público foi inserida na extremidade fechada da calha, controlando manualmente o registro foi possível ajustar vazão inserida e conseqüente mente os parâmetros hidráulicos do escoamento. Através de mangueira flexivel, cuja vazão foi controlada manualmente por meio de uma vávula do tipo borboleta. Os parâmetros hidráulicos foram determinados medindo-se a altura da lâmina d’água, a temperatura do fluido, a viscosidade cinemática e a vazão. As amostras de água foram coletadas numa bandeja contendo 24 béqueres. Após a injeção do corante amarelo ovo (tartrazina INS 102) simutaneamente à coleta das amostras de água, foram registados os tempos de coleta. O mesmo procedimento, foi repetido com os corantes azul (INS 133) e vermelho (amaranto INS 123). As amostras dos três ensaios foram levadas para leitura em espectrofotômetro e os dados obtidos foram analisados. A velocidade de escoamento foi determinada a partir do tempo em que o centro de massa do traçador, adicionado ao fluido, levou para percorrer 0,925 m de canal. Este foi o tempo de viagem da pluma de corante ao longo do canal, obtido graficamente pela disposição dos valores de absorbância, ou concentração correspondente, versus o tempo de amostragem, cujo o pico de máxima absorbância corresponde ao centro de massa da pluma. Assim, o produto da velocidade de escoamento pela área da seção transversal ao escoamento equivale à vazão colorimétrica, que foi comparada à vazão volumétrica. 5 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO As Figuras 1, 2 e 3 correspondem às curvas de varrredura de comprimento de onda de melhor absorbância dos corantes amarelo, vermelho e azul, respectivamente. Figura 1. Curva de varredura do corante amarelo Figura 2. Curva de varredura do corante vermelho 6 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 Figura 3. Curva de varredura do corante Azul Os comprimentos de onda de melhor leitura no espectrofotômetro UVVisível foram: 1) Corante amarelo – 450 nm; 2) Corante vermelho – 520 nm; e 3) Corante azul – 630 nm, como demonstrado na Tabela 2. Tabela 2. Comprimentos de onda para leitura em especrtofotômetro dos corantes amarelo, vermelho e azul. 7 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 3.1 Determinação de vazão com corante amarelo Os parâmetros hidráulicos e gráfico de leitura de amostras estão dispostos na Tabela 3 e figura 4, respectivamente: 8 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 Tabela 3. Parâmetros hidráulicos da corrida com corante amarelo Parâmetro hidráulico Valor Temperatura da água 25,00 Valor °C 25,00 2 °C m2.s-1 cm 0,9250 m 5 cm 0,0500 cm 1,4 cm 0,0140 cm 7 cm2 0,0007 m2 Raio hidráulico 0,89 cm 0,0089 m Velocidade do escoamento 10,24 cm.s-1 0,1024 m.s-1 Vazão volumétrica 71,69 cm3.s-1 0,0717 L.s-1 1021,22 - turbulento Tipo de escoamento 8,97 • 10 m .s 92,5 Largura interna do canal Altura da lâmina d'água Comprimento útil do canal Área da secção transversal Reynolds -1 Unidade 8,97 • 10 Viscosidade cinemática -7 Unidade -7 O tempo de viagem da pluma de corante amarelo foi de 8,17 s para uma percurso de 0,925 m de comprimento do canal. Assim, obteve-se uma vazão colorimétrica de 79,24 cm3.s-1, cujo erro foi de 10,53 % quando comparada à vazão volumétrica. Figura 4. Absorbância versus tempo do ensaio com o corante amarelo. 9 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 3.2 Determinação de vazão com corante vermelho Os dados obtidos no ensaio com corante vermelho, bem como os parâmetros hidráulicos em que foi realizado, estão dispostos na Figura 5 e Tabela 4 a seguir: Tabela 4 – Parâmetros hidráulicos do ensaio com corante vermelho Parâmetros hidráulicos Valor Unidade Valor Unidade 25 °C 25 °C 8,97 • 10-7 m2.s-1 8,97 • 10-7 m2.s-1 Comprimento util do canal 90 cm 0,9 m Largura interna do canal 5 Cm 0,05 cm Altura da lâmina d'águ 0,9 Cm 0,009 cm Área da secção transversal 4,5 cm2 0,0004 m2 Raio hidráulico 0,66 Cm 0,0066 m Velocidade do escoamento 14,28 cm.s-1 0,1428 m.s-1 Vazão volumétrica 64,26 cm3.s-1 0,0643 L.s-1 1053,56 - Turbulento Tipo de escoamento Temperatura da água Viscosidade cinemática Reynolds Figura 6. Absorbância versus tempo do ensaio com o corante vermelho O tempo de viagem da pluma de corante vermelho foi de 6,22 s para uma percurso de 0,900 m de comprimento do canal. Assim, obteve-se uma 10 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 vazão colorimétrica de 14,45 cm3. s-1, cujo erro foi de 1,24 % quando comparada à vazão volumétrica. 3.3 Determinação da vazão colorimétrica com corante azul Os parâmetro hidráulicos determinados no ensaio do corante azul constam na Tabela 5. Tabela 5. Parâmetros hidráulicos da corrida com corante azul Parâmetro hidráulico Valor Unidade Valor Unidade 25 °C 25 °C 8,97 • 10-7 m2.s-1 8,97 • 10-7 m2.s-1 Comprimento útil do canal 90 cm 0,9 m Largura interna do canal 5 cm 0,05 cm Altura da lâmina d'água 1 cm 0,01 cm Área da secção transversal 5 cm2 0,0005 m2 Raio hidráulico 0,71 cm 0,0071 m Velocidade do escoamento 14,92 cm.s-1 0,1492 m.s-1 Vazão volumétrica 74,60 cm3.s-1 0,0746 L.s-1 1188,09 - turbulento Tipo de escoamento Temperatura da água Viscosidade cinemática Reynolds O tempo de viagem da pluma de corante azul foi de 6,20 s para uma percurso de 0,900 m de comprimento do canal. Assim, obteve-se uma vazão colorimétrica de 72,46 cm3.s-1, cujo valor diferiu em apenas 2,85 % da vazão volumétrica. 11 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 Figura 7. Absorbância versus tempo do ensaio com o corante azul. 4 CONCLUSÕES O método alternativo de medição de vazão proposto, método colorimétrico, apresentou valores muito próximos aos valores obtidos pelo método volumétrico. Os valores das vazões colorimétricas foram: 1) 79,24 cm3.s-1 para o corante amarelo; 2) 14,45 cm3.s-1, para o corante vermelho; e 3) 72,46 cm3.s-1, para o corante azul. Já os valores das vazões volumétricas, ou vazões padrões, foram: 1) 71,69 cm3.s-1 para o corante amarelo; 2) 64,26 cm3.s-1, para o corante vermelho; e 3) 74,60 cm3.s-1, para o corante azul. Sendo o erro relativo entre as vazões prospostas e as padrões de: 1) 10,53 %, para o corante amarelo; 2) 1,24 %, para o corante vermelho; e 3) 2,85 %, para o corante azul. Verificou-se que o corante vermelha apresentou uma resposta mais acurada do que os ensaios relatizados com os corantes de dores azul e amarelo. Uma provável explicação plausível para esta observação, pode estar relacionada à estrutura química e o comprimento de onde de absorbância do corante vermelho (amaranto INS 123) empregado nos ensaios. Portanto, faz-se necessário estudar o comportamento de absorbância de diferentes corantes vermelhos de naturezars diferentes, bem como variadas concentrações. 12 Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica e V Jornada de Pesquisa e Pós-Graduação UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS 10 a 12 de novembro de 2010 O método proposto ainda requer aprimoramentos, entretanto seus resultados até este ponto têm-se mostrado satisfatórios, indicado que o método colorimétrico de determinação de vazão é uma alternativa promissora para a determinação de vazão em trechos de canais de dificil acesso, ou trechos de corredeiras, onde as outras técnicas de medição de vazão são limitadas. REFERÊNCIAS MOORE R. D. 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DETECCÃO EM TEMPO REAL DE TRACADORES ÓTICOS EM ÁGUAS CONTENDO ALTAS TAXAS DE MATÉRIA ORGÂNICA, 2006, Instituto de Geologia, Rua Emile Argand, Neuchâtel, Suiça Water Action Volunteers- Volunteer Monitoring Factsheet Series, Stream Flow: Flow Speaks Volumes, 2002, University of Winsconcin, Wisconsin Department of Natural Resources. 13