© Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera
Ministério de Grupos Pequenos
Abril de 2011
Produzido para uso interno e não comercial
Contatos:
[email protected]
www.chacaraprimavera.org.br
(19) 3254-4500
Equipe de produção
Alcides José Bazioli (texto)
Jonathan Luís Hack (revisão)
Marco Antonio Gomes Da Silva (texto e revisão)
Ricardo Amaral (arte)
ÍNDICE
Instruções para uso deste material ......................................................... 1
Introdução .............................................................................................. 3
Desafios no estudo de Jonas .................................................................. 5
Visão geral do livro de Jonas ................................................................. 9
O livro de Jonas ................................................................................... 15
É possível fugir de Deus? .................................................................... 20
A oração que transforma ..................................................................... 28
Qual é a direita? E qual é a esquerda? ................................................ 36
Bibliografia .......................................................................................... 45
Graça soberana
1
Instruções para uso deste material
Caro amigo e líder de grupo pequeno:
Com satisfação e dando graças a Deus, encaminho o material riquíssimo que nosso amigo Alcides José Bazioli nos presenteia. O
mesmo é fruto de uma pesquisa laboriosa e minuciosa, a qual espera-se
que seja abençoadora tanto para nós quanto para as pessoas que fazem
parte dos grupos pequenos. Esse material foi preparado para ajudá-lo
na tarefa de aprender e ensinar sobre a vida e o livro de Jonas.
A tarefa é desafiadora. Exigirá tempo para estudar e esmero pessoal em oração para Deus revelar suas preciosidades. É um livro com
imagens que nos levarão a olhar para um Deus que estabelece um pacto de amor e graça com o homem. O perdão é exclusivamente divino.
O homem não pode e não tem condições para tal.
Nos temas listados abaixo, serão exploradas as componentes dessa experiência que Jonas teve, mesmo querendo se esquivar dela. Espera-se que, ao final, as pessoas compreendam que Deus chama o homem, mesmo que esse não tenha discernimento para distinguir a mão
direita da esquerda. Além disso, espera-se que entendam que é impossível se esconder desse chamado de Deus para sua vida.
A agenda prevista para as próximas semanas nos pequenos grupos seguirão as datas previamente definidas:
 26 a 28/abril = É possível fugir de Deus? Este estudo faz alusão à tentativa de Jonas de fugir daquilo que Deus lhe ordenara que fizesse. Está baseado em Jonas 1.
 03 a 05/maio = A oração que transforma. Este estudo foca o
tempo que Jonas passou dentro do grande peixe e a experiência de transformação dele. Está baseado em Jonas 2.
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Graça soberana
 10 a 12/maio = Qual é a direita? E qual é a esquerda? Este
estudo investiga a compaixão de Deus derramada sobre o ser
humano, mesmo quando este não tem merecimento ou discernimento. Está baseado em Jonas 3 e 4.
Basicamente o material de estudo estará apresentado seguindo o
padrão:




Objetivos do estudo;
Textos em destaque com pensamentos pertinentes ao estudo;
Introdução ao estudo;
Estudo propriamente dito com perguntas e respostas no material do líder. Observação: o material do participante só conterá
as perguntas. Além disso, você terá um esboço literário que o
ajudará a ter uma visão macro deste livro bíblico;
 Para refletir e praticar
 Leituras sugeridas para o próximo estudo.
Adicionalmente, você recebe ainda um material muito bem elaborado para ajudá-lo no preparo de estudos bíblicos, na seção denominada “Desafios no estudo de Jonas”.
Marco Antonio Gomes Da Silva
Abril de 2011
Graça soberana
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Introdução
Jonas foi o mais estranho de todos os profetas. Porém, sua mensagem produziu efeitos até naqueles que não o ouviram diretamente.
Nenhum outro pregador foi tão bem sucedido. Nem mesmo Jesus, pois
muitos se opuseram à sua pregação. No texto original fica evidente que
o sermão de Jonas se compunha de apenas algumas palavras e nada
mais. E que impacto!
Jonas fez todo o possível para que sua missão fracassasse. Tinha
um espírito indignado, um preparo insatisfatório, um sermão medíocre.
Resultado: um sucesso tremendo! A maioria dos pregadores trabalha
duramente para obter bons resultados. Entretanto, Jonas trabalhou duro
para não ter bons resultados. Mesmo assim ele teve sucesso, apesar da
sua atitude. Jonas foi o único pregador da história que ficou frustrado
com o seu sucesso.
Alguns estudiosos, dando rédeas à sua imaginação, fazem do
grande peixe que engoliu Jonas o centro deste livro. Mas o peixe não é
o personagem principal do livro, nem mesmo Jonas. O Senhor Deus é
o personagem central. O livro ensina que Deus é o Senhor não apenas
de Israel, mas da natureza, da história e de todas as nações. Sua vontade se cumpre, sempre, no final. Os homens não podem criar-lhe obstáculos nem frustrá-lo.
O profeta Isaías no capítulo 55 disse:
Os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês,
nem os seus caminhos são os meus caminhos, declara o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra,
também os meus caminhos são mais altos do que os seus
caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus
pensamentos.
Considere também esta afirmação de Bill Hybels:
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Graça soberana
As pessoas insensíveis tendem a ver os homens como ganhadores ou perdedores, pesos pesados ou pesos mosca, vitoriosos ou incapazes, lúcidos ou desequilibrados. Não conseguem perceber que ninguém é um simples objeto. E todo
ser que vive, anda e respira é um tesouro inestimável aos
olhos de Deus. Têm dificuldade para compreender que os
perdedores e os incapazes são tão importantes para Deus
quanto os vencedores e os sobreviventes...
Esse Jonas é o personagem que dá nome ao livro que estudaremos nesta série. Por meio dele veremos que Deus é soberano. Sua vontade acontece apesar de nós, seres humanos. Aprenderemos que sua
misericórdia é extensiva a todos e que sua graça é irresistível.
Apesar das surpresas de impacto e dos elementos sensacionais,
Jonas deve ser compreendido como uma narrativa histórica e profética.
A história está centralizada em uma figura específica e a composição
escrita como um texto histórico. Jesus não considerou a história de
Jonas como uma mera parábola, mas como uma narrativa firmemente
enraizada na realidade histórica.
O tema de Jonas versa sobre a misericórdia de Deus sobre as nações. Isto é usado por Jesus como uma repreensão ao Israel impenitente. Os ninivitas se arrependeram com a pregação do profeta Jonas, que
foi salvo do confinamento no ventre de um grande peixe. Ainda mais
Israel deveria se arrepender com a pregação de Jesus, o Filho do Homem, que seria ressuscitado do túmulo.
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Desafios no estudo de Jonas
A grande tragédia entre os cristãos hoje é que muitos de nós estão sob
a Palavra de Deus, mas não a estudamos por nós mesmos.
Howard e William Hendricks
Objetivos
Durante este ano, os grupos pequenos da Chácara Primavera já
tiveram as seguintes séries de estudos: “De dentro para fora”, “Ajustando a visão” (uma abordagem sobre igreja conforme a visão da Chácara, uma comunidade criativa, acolhedora e transformadora), e “Cristianismo 1.0”. Agora estudaremos sobre o livro de Jonas.
O estudo do livro do profeta Jonas, nesta sequência adotada para
os grupos pequenos, tem dois objetivos:
1. Revitalizar o chamado para o nosso principal objetivo, ou seja, proclamar as boas novas (conforme Mt 28:18-20).
2. Estudar um livro do Antigo Testamento que contemple a proposta para esta revitalização.
Mesmo sendo esta uma proposta simplificada de estudo, vocês
receberão uma quantidade de material maior do que aquilo que poderão passar para seus grupos.
Esperamos que isso não cause nenhum problema. Pelo contrário,
gostaríamos que vocês tivessem em mãos uma boa quantidade de material para seus estudos pessoais e pesquisas. O propósito é que vocês,
como líderes, tenham flexibilidade para aprofundar o tema com seus
grupos, sem ficarem restritos a algumas perguntas, como propõe o estudo reduzido deste tema.
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Graça soberana
Estratégias para o preparo de um estudo bíblico
É importante darmos alguns passos em certa ordem para garantir
um bom resultado. Os estudiosos da área de métodos de estudo bíblico
sugerem três passos cruciais para a compreensão do texto. Eles devem
ser executados em uma ordem específica, a saber:
A. Observação
Neste passo, você pergunta e responde à questão: “O que vejo?”.
Ao ler as Escrituras, você pergunta: “Quais são os fatos?”. Neste momento, você assume o papel de um detetive bíblico procurando pistas.
Nenhuma delas é trivial.
É importante a forma como você faz esta leitura bíblica:
 Leia com atenção.
 Leia repetidas vezes. Leia todo o livro, leia em várias traduções, leia em voz alta, leia com entonação. Leia sem se preocupar com capítulos e versículos, e muito menos com os títulos (frases em negrito que aparecem entre grupos de versículos). Faça você mesmo as principais divisões do texto lido.
Depois compare suas divisões com as divisões tradicionais
que toda Bíblia apresenta.
 Leia seletivamente. Já que falamos de Jonas, lance “iscas” para esclarecer melhor sua leitura. Por exemplo:
o Quem são as pessoas envolvidas no texto?
o O que está acontecendo no texto?
o Onde a narrativa está acontecendo?
o Quando os eventos estão acontecendo? (neste caso não
se preocupe sobre quando o livro foi escrito, mas sobre
quanto tempo se passa dentro da narrativa)
o Por que isso está colocado aqui, ou, por que isso foi incluído?
Graça soberana
7
o Por que esta pessoa disse isso, ou ainda, por que isso
precede aquilo?
o Para que me serve isso? Em outras palavras, e daí?
 Leia telescopicamente. Busque no texto as coisas que são:
o enfatizadas,
o repetidas,
o relacionadas,
o semelhantes,
o diferentes,
o da vida real.
 Leia para sua meditação. Lembre-se que nossa leitura pode
estar comprometida pela opção do que fazemos com nossas
agendas.
 Leia de forma aquisitiva. Isto é, não para receber informação,
mas para incorporá-las em sua vida.
B. Interpretação
Nesse passo, você pergunta: “O que quer dizer isso?”. A melhor
interpretação do texto é a que usa o bom senso e mantém coerência
com outros textos das Escrituras.
Interpretar o texto bíblico é um tópico bem extenso. Para simplificar, seguem algumas ações possíveis:
1. Para o estudo de Jonas, leia esta apostila e utilize uma boa Bíblia de estudo. Exemplos: NVI, Bíblia Shedd, Bíblia Anotada,
Bíblia de Genebra, Bíblia de Jerusalém (ou outras que contenham uma boa introdução histórica e comentários de rodapé).
2. Consulte também comentários, tais como Conheça sua Bíblia,
de Júlio Andrade Ferreira; Merece confiança o Antigo Testamento?, de Gleason L. Archer; Examinai as Escrituras, J. Sidlow Baxter; a coleção A Bíblia fala hoje, da editora ABU;
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Graça soberana
Obadias, Jonas, Miquéias, Naum: introdução e comentário,
de David Baker et alii, na série Cultura Bíblica.
3. Verifique outras sugestões que poderão surgir através do fórum dos líderes de grupo.
4. Consulte livros de método de estudo bíblico para ter uma visão mais ampla sobre como interpretar a Bíblia.
5. Inscreva-se nos cursos ministrados pelo Téleios, que são oferecidos na Chácara Primavera.
C. Aplicação
Lembre-se que a aplicação não pode ser substituída pela interpretação. Antes, o estudo das Escrituras deve nos levar a um melhor relacionamento com Deus, com nossa família, igreja, trabalho e qualquer
outro grupo com quem nos relacionamos.
Sobre o texto estudado, você agora deve buscar resposta a, no
mínimo, quatro perguntas:
1. O texto expôs algum pecado seu? O que você deve fazer?
2. O texto lhe deu alguma promessa de Deus? O que você deve
fazer?
3. O texto lhe deu algum mandamento? O que você deve fazer?
4. O texto lhe deu algum exemplo a ser seguido? O que você
deve fazer?
Observação: Sempre responda a estas perguntas de
aplicação na primeira pessoa do singular, “Eu”.
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Visão geral do livro de Jonas
Introdução
Segundo a divisão habitual em nossas Bíblias, o Antigo Testamento está estruturado da seguinte forma:
 Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio
 Livros históricos:
o Josué, Juízes, Rute,
o I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas,
o Esdras, Neemias e Ester
 Livros poéticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão
 Profetas maiores: Isaías, Jeremias, Lamentações de Jeremias,
Ezequiel e Daniel
 Profetas menores:
o Oséias, Joel, Amós, Obadias,
o Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque,
o Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias
É bom recordar que a diferença entre profetas maiores e menores
não é devida à sua importância, mas pela quantidade de texto escrito
(ou seja, o tamanho do livro).
No entanto, a divisão da Bíblia Hebraica pelos israelitas (o AT
das Bíblias cristãs) é um pouco diferente. O judaísmo divide seu livro
sagrado em: Lei (Torá), Profetas (Anteriores, Posteriores e os 12 Profetas) e Salmos (ou Escritos). Assim Jesus se referiu em Lc 24:44 às
Escrituras como um todo, ensinando que elas faziam referência a ele.
Nessa divisão hebraica, os profetas não incluem alguns livros que nós
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Graça soberana
consideramos como proféticos (como Daniel e Lamentações). Por outro lado, incluem outros livros que nós classificamos como históricos
(como Samuel e Josué).
Gênero literário de Jonas: história ou alegoria?
Alguns estudiosos consideram este livro como uma alegoria. Teria sido escrito por volta do ano 430 a.C. para confrontar o nacionalismo na época de Esdras e Neemias. Neste período, os samaritanos estavam sendo excluídos de qualquer participação no culto em Jerusalém.
Além disso, todas as esposas estrangeiras estavam sendo divorciadas
sob pressão. Essa seria uma boa hora para um defensor anônimo com
ideias mais liberais tentar chamar a atenção da nação. Sob esta ótica,
Jonas representa a nação israelita desobediente; o mar representa os
gentios; o grande peixe, a Babilônia; os três dias no ventre do peixe, o
cativeiro dos judeus na Babilônia. Quanto à planta, cuja morte entristeceu o coração de Jonas, alguns interpretam o incidente como sendo
uma referência a Zorobabel (Ag 2:21).1
Argumentos em favor de tomar o texto como alegoria
1. A figura por demais excêntrica do profeta e sua aventura sem
paralelo no AT;
2. A terrível tempestade no mar que foi imediatamente acalmada
com o lançamento do profeta desobediente às aguas;
3. O período de 3 dias e noites no ventre de um grande peixe;
4. A planta que cresce em um dia para dar sombra ao profeta;
5. O tamanho citado da cidade de Nínive, aparentemente muito
maior do que as descobertas arqueológicas indicam;
6. A citação de Jesus, que reforça o conteúdo da mensagem mas
não implica, necessariamente, no reconhecimento da sua historicidade.
1
Gleason L. Archer Jr., Merece confiança o Antigo Testamento?, p.237-238.
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Argumentos em favor de tomar o texto como história
1. A referência a Jonas como filho de Amitai (Jn 1:1), que encontra respaldo em 2Re 14:25. Jonas viveu em Israel no reinado de Jeroboão II cerca de 785 a.C., tendo grande importância profética na época;
2. O profeta e o livro são amplamente conhecidos e citados na
história e literatura do povo de Israel;
3. Mt 12:39-41 e Lc 11:29-32 são registros de citações textuais
de Jesus acerca da vida e missão de Jonas, para comparar com
sua própria missão.
4. O historiador judeu Flávio Josefo, no século I d.C, incorpora a
história de Jonas em sua História do Povo Judeu. Ele argumenta que achou necessário registrar o que encontrou escrito
nos livros hebraicos acerca desse profeta.
5. O reconhecimento de que Deus atuava, e ainda atua, de forma
sobrenatural para cumprir seus propósitos na história da salvação. Se a narrativa de Jonas não pode ser aceita pela lógica
moderna, então assim também se questiona a criação, o dilúvio, a abertura do mar, as pragas do Egito, os milagres dos
profetas Elias e Eliseu, e muitos outros mais...
Conclusão
O que está em jogo neste debate não são os fatos ocorridos no livro do profeta Jonas, mas reconhecer ou não que Deus atua de forma
sobrenatural na história para cumprir seus propósitos.
Nós, na Chácara, cremos que Deus é soberano sobre as nossas
vidas. Ele age continuamente na história e sua graça e amor geram vida
e preservam a criação. Ele pode intervir na história de forma sobrenatural a qualquer tempo. Assim, nós cremos que Jonas foi um profeta
real e que as narrativas deste livro retratam uma profunda experiência
de transformação deste profeta nas mãos de Deus.
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Autoria e data
Assim como Jonas, outros livros proféticos também não apresentam dados precisos sobre o ano em que os acontecimentos registrados
ocorreram. Muitos estudiosos modernos defendem que o livro de Jonas
foi escrito no período pós-exílico. Contudo, as referências textuais do
próprio livro de Jonas e do segundo livro dos Reis nos permitem atribuir estes acontecimentos e seu respectivo registro ao período préexílico do século VIII a.C.. Assim, assumimos que estes fatos ocorreram cerca de 760 a.C.
Quanto à autoria, no entanto, não há evidências que levem ou
sugiram a sua identificação. Contudo, é razoável supor que a narrativa
tenha sido composta por Jonas perto do final da sua carreira profética,
ao relembrar o ponto decisivo do seu ministério. Isto explicaria o uso
do verbo no passado ao se referir a Nínive (Jn 3:3). Conquanto o autor
não fale na primeira pessoa do singular, isto não é mais surpreendente
do que o fato de Moisés, nos livros da Lei (Torá) sempre se referir a si
mesmo na terceira pessoa.2
Propósito e destinatários
O livro de Jonas visa:
 Mostrar que Deus não é indiferente à miséria humana.
 Mostrar a possibilidade de arrependimento.
 Mostrar a supremacia do caráter misericordioso de Deus.
Os destinatários do texto são os dois reinos do Israel dividido.
Visava o reino do norte (Israel), primordialmente, para prepará-los
para o seu exílio que se aproximava (722 a.C.). Também visava o reino
do sul (Judá), que foi levado cativo para a Babilônia quase 150 anos
depois (586 a.C.).
2
Archer Jr., Merece confiança o Antigo Testamento?, p.237-238.
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Esboço do livro
Antes de examinar o esboço abaixo, gostaria de perguntar: você
já leu várias vezes o livro do profeta Jonas e fez o seu próprio esboço?
Para efeito deste estudo, adotaremos o esboço proposto pela Bíblia Anotada, da editora Mundo Cristão:
 A fuga de Jonas (capítulo 1)
o A razão da sua fuga (1:1-2)
o A rota da sua fuga (1:3)
o Os resultados da sua fuga (1:4-17)

Para os marinheiros (1:4-11)

Para Jonas (1:12-17)
 A oração de Jonas (capítulo 2)
o As características de sua oração (2:1-9)
o A resposta à sua oração (2:10)
 A pregação de Jonas (capítulo 3)
o A comissão divina para pregar (3:1-3)
o O conteúdo da pregação (3:4)
o As consequências da pregação (3:5-10)
 A lição de Jonas (capítulo 4)
o A reclamação de Jonas contra Deus (4:1-3)
o O currículo de Deus para Jonas (4:4-11)
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O livro de Jonas
Para auxiliar sua leitura do livro de Jonas, incluímos abaixo o
texto integral deste pequeno livro, sem capítulos ou versículos. Mantivemos uma sugestão de parágrafos para facilitar sua leitura.
O texto usado é o da NVI (Nova Versão Internacional). Leia-o
várias vezes para se familiarizar com a história.
TEXTO
A palavra do Senhor veio a Jonas, filho de Amitai, com esta ordem: “Vá depressa à grande cidade de Nínive e pregue contra ela, porque a sua maldade subiu até a minha presença”.
Mas Jonas fugiu da presença do Senhor, dirigindo-se para Társis.
Desceu à cidade de Jope, onde encontrou um navio que se destinava
àquele porto. Depois de pagar a passagem, embarcou para Társis, para
fugir do Senhor.
O Senhor, porém, fez soprar um forte vento sobre o mar, e caiu
uma tempestade tão violenta que o barco ameaçava arrebentar-se. Todos os marinheiros ficaram com medo e cada um clamava ao seu próprio deus. E atiraram as cargas ao mar para tornar o navio mais leve.
Enquanto isso, Jonas, que tinha descido ao porão e se deitara, dormia
profundamente. O capitão dirigiu-se a ele e disse: “Como você pode
ficar aí dormindo? Levante-se e clame ao seu deus! Talvez ele tenha
piedade de nós e não morramos”.
Então os marinheiros combinaram entre si: “Vamos lançar sortes
para descobrir quem é o responsável por esta desgraça que se abateu
sobre nós”. Lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas. Por isso lhe
perguntaram: “Diga-nos, quem é o responsável por esta calamidade?
Qual é a sua profissão? De onde você vem? Qual é a sua terra? A que
povo você pertence?” Ele respondeu: “Eu sou hebreu, adorador do
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Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra”. Então os homens
ficaram apavorados e perguntaram: “O que foi que você fez?”, pois
sabiam que Jonas estava fugindo do Senhor, porque ele já lhes tinha
dito.
Visto que o mar estava cada vez mais agitado, eles lhe perguntaram: “O que devemos fazer com você, para que o mar se acalme?”
Respondeu ele: “Peguem-me e joguem-me ao mar, e ele se acalmará.
Pois eu sei que é por minha causa que esta violenta tempestade caiu
sobre vocês”. Ao invés disso, os homens se esforçaram ao máximo
para remar de volta à terra. Mas não conseguiram, porque o mar tinha
ficado ainda mais violento. Eles clamaram ao Senhor: “Senhor, nós
suplicamos, não nos deixes morrer por tirarmos a vida deste homem.
Não caia sobre nós a culpa de matar um inocente, porque tu, ó Senhor,
fizeste o que desejavas”. Em seguida pegaram Jonas e o lançaram ao
mar enfurecido, e este se aquietou.
Tomados de grande temor ao Senhor, os homens lhe ofereceram
um sacrifício e se comprometeram por meio de votos. O Senhor fez
com que um grande peixe engolisse Jonas, e ele ficou dentro do peixe
três dias e três noites.
Dentro do peixe, Jonas orou ao Senhor, o seu Deus. E disse:
“Em meu desespero clamei ao Senhor, e ele me respondeu.
Do ventre da morte gritei por socorro, e ouviste o meu clamor. Jogaste-me nas profundezas, no coração dos mares;
correntezas formavam um turbilhão ao meu redor; todas as
tuas ondas e vagas passaram sobre mim. Eu disse: Fui expulso da tua presença; contudo, olharei de novo para o teu
santo templo. As águas agitadas me envolveram, o abismo
me cercou, as algas marinhas se enrolaram em minha cabeça. Afundei até chegar aos fundamentos dos montes; à terra
embaixo, cujas trancas me aprisionaram para sempre. Mas
tu trouxeste a minha vida de volta da sepultura, ó Senhor
meu Deus! Quando a minha vida já se apagava, eu me
lembrei de ti, Senhor, e a minha oração subiu a ti, ao teu
santo templo. Aqueles que acreditam em ídolos inúteis desprezam a misericórdia. Mas eu, com um cântico de grati-
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dão, oferecerei sacrifício a ti. O que eu prometi cumprirei
totalmente. A salvação vem do Senhor”.
E o Senhor deu ordens ao peixe, e ele vomitou Jonas em terra
firme.
A palavra do Senhor veio a Jonas pela segunda vez com esta ordem: “Vá à grande cidade de Nínive e pregue contra ela a mensagem
que eu lhe darei”. Jonas obedeceu à palavra do Senhor e foi para Nínive. Era uma cidade muito grande, sendo necessários três dias para percorrê-la. Jonas entrou na cidade e a percorreu durante um dia, proclamando: “Daqui a quarenta dias Nínive será destruída”.
Os ninivitas creram em Deus. Proclamaram um jejum, e todos
eles, do maior ao menor, vestiram-se de pano de saco. Quando as notícias chegaram ao rei de Nínive, ele se levantou do trono, tirou o manto
real, vestiu-se de pano de saco e sentou-se sobre cinza. Então fez uma
proclamação em Nínive: “Por decreto do rei e de seus nobres: Não é
permitido a nenhum homem ou animal, bois ou ovelhas, provar coisa
alguma; não comam nem bebam! Cubram-se de pano de saco, homens
e animais. E todos clamem a Deus com todas as suas forças. Deixem
os maus caminhos e a violência. Talvez Deus se arrependa e abandone
a sua ira, e não sejamos destruídos”.
Tendo em vista o que eles fizeram e como abandonaram os seus
maus caminhos, Deus se arrependeu e não os destruiu como tinha
ameaçado.
Jonas, porém, ficou profundamente descontente com isso e enfureceu-se. Ele orou ao Senhor: “Senhor, não foi isso que eu disse quando ainda estava em casa? Foi por isso que me apressei em fugir para
Társis. Eu sabia que tu és Deus misericordioso e compassivo, muito
paciente, cheio de amor e que prometes castigar mas depois te arrependes. Agora, Senhor, tira a minha vida, eu imploro, porque para mim
é melhor morrer do que viver”. O Senhor lhe respondeu: “Você tem
alguma razão para essa fúria?”
Jonas saiu e sentou-se num lugar a leste da cidade. Ali, construiu
para si um abrigo, sentou-se à sua sombra e esperou para ver o que
aconteceria com a cidade. Então o Senhor Deus fez crescer uma planta
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sobre Jonas, para dar sombra à sua cabeça e livrá-lo do calor, o que
deu grande alegria a Jonas. Mas na madrugada do dia seguinte, Deus
mandou uma lagarta atacar a planta e ela secou-se. Ao nascer do sol,
Deus trouxe um vento oriental muito quente, e o sol bateu na cabeça de
Jonas, ao ponto de ele quase desmaiar. Com isso ele desejou morrer, e
disse: “Para mim seria melhor morrer do que viver”. Mas Deus disse a
Jonas: “Você tem alguma razão para estar tão furioso por causa da
planta?” Respondeu ele: “Sim, tenho! E estou furioso ao ponto de querer morrer”.
Mas o Senhor lhe disse: “Você tem pena dessa planta, embora
não a tenha podado nem a tenha feito crescer. Ela nasceu numa noite e
numa noite morreu. Contudo, Nínive tem mais de cento e vinte mil
pessoas que não sabem nem distinguir a mão direita da esquerda, além
de muitos rebanhos. Não deveria eu ter pena dessa grande cidade?”
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1
É possível
fugir de Deus?
Jonas 1:1-17
“O que verdadeiramente me faz falta é ter clareza do que devo fazer, não
do que devo saber. A questão é compreender a mim mesmo, enxergar o
que Deus realmente quer que eu faça”.
Sören Kirkegaard
Objetivos deste estudo
 Compreender que Deus não muda um chamado porque ele
não foi entendido.
 Entender que situações adversas não visam o mal daquele que
foi chamado.
Introdução
O nome Jonas quer dizer “pombo”. Ele é identificado em Jn 1:1
como filho de Amitai. Este profeta é mencionado em 2Re 14:25 como
aquele que predisse as conquistas de Jeroboão II. Pela sua palavra o
Senhor falou acerca do restabelecimento de limites territoriais de Israel, e isto se concretizou. Sua cidade natal era Gate-Hefer, da tribo de
Zebulom, no norte de Israel.
Jonas é mais uma biografia do que um discurso ou sermão. O
tema do livro é que a misericórdia e a compaixão de Deus se estendem
até as nações pagãs, na condição de se arrependerem. Era, portanto,
obrigação dos israelitas testificarem perante elas sobre a fé verdadeira.
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Negligenciar esta tarefa poderá levar a nação, como foi o caso do próprio Jonas, às águas profundas da aflição e do castigo.
Estudo
1. Leia Jonas 1:1-3. Fica claro que o profeta ouviu claramente e
sem dúvida a Palavra de Deus. Mesmo assim racionalizou e optou por não obedecer, descendo a Jope para embarcar em um
navio na direção contrária (Társis). Deus tem falado com você?
Você está fugindo dele?
Resposta pessoal de cada participante.
2. Como saber se Deus está mesmo falando isso ou aquilo para
mim? Como posso me certificar de que é a “voz de Deus”?
A voz de Deus não é tão difícil assim de se ouvir. Às vezes é
preciso até fecharmos os olhos e ouvidos para não compreendermos
sua mensagem. Deus algumas vezes grita em meio à dor, sussurra enquanto relaxamos nas férias, permite que frases numa canção falem ao
nosso coração, ou ainda adverte por meio dos 66 livros da sua Palavra.
Está tudo ali, tinta no papel.
Além desta fonte infalível de sabedoria, ele nos ofereceu o seu
Espírito Santo. Ele habita em nós e nos guia a toda verdade.
Finalmente, Deus também provê conselheiros sábios, pessoas
que têm um relacionamento sério com Deus e podem nos aconselhar
em situações difíceis.
3. Em sua opinião, quais foram os motivos que levaram o profeta
Jonas a fugir em vez de cumprir seu papel profético?
Um dos motivos da fuga de Jonas pode ter sido o medo. Jonas
sabia muito bem, afinal de contas, quem eram os assírios, famosos
guerreiros cruéis. Imagine que Deus lhe desse a seguinte ordem: “Saia
da sua casa, vista-se como policial civil e vá até o Complexo do Alemão (no Rio), sem armas ou proteção. Diga a todos os chefes do tráfico e das milícias que a maldade deles chegou até mim. Eles precisam
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se arrepender e se entregar às autoridades ou eu vou agir.” Você iria
numa boa?
Entretanto, o principal motivo era que Jonas tinha um preconceito teológico. Ele cria que Nínive não era merecedora da misericórdia
de Deus. Na sua percepção limitada, ele cria que somente Israel era o
povo que “merecia” a graça de Deus.
Em Jn 4:2, Jonas declara que sua fuga foi motivada pela certeza
de que Deus é misericordioso e tardio para se irar. Ele sabia que, se os
assírios se arrependessem, Deus mudaria de ideia sobre aquele povo
gentio. E isso era inconcebível para ele! Como Deus poderia ter misericórdia daquele povinho sabendo tudo que fizeram com Israel, o “único povo escolhido” de Deus?
Interessante! Se isso era o que se passava pela sua cabeça, o conhecimento que ele tinha de Deus era destorcido. Ele tinha esquecido
que o chamado de Abraão foi um chamado missionário. Isto ocorre
imediatamente após o capítulo 11 de Gênesis, quando Deus espalha os
povos pela terra e confunde suas línguas. Além disso, a proposta para
Abraão era ser uma bênção para todas as famílias da terra. Isto se
cumpriu integralmente na pessoa de Jesus. Todavia, até sua vinda Israel tinha a responsabilidade de mostrar para o mundo quem era seu
Deus.
Um motivo adicional é apontado por Swindoll:
Um ato de desobediência tem origem na incredulidade.
Quando você conhece a vontade de Deus e deliberadamente
segue em outra direção, isso é incredulidade pura e simples.
Você está dizendo ao Senhor: Não creio que seu plano seja
melhor. ... É uma questão solene para todos: somos suficientemente exatos em nossa obediência? Como se sabe, desobediência e incredulidade são os dois lados da mesma
moeda – uma moeda cunhada pelo diabo. Os que desobedecem não creem, e os que não creem desobedecem.3
3
Charles R Swindoll, Moisés: um homem dedicado e generoso, p.349-350.
Graça soberana
23
4. Considerando os textos de Mt 28:18-20 e 1Pe 2:9, o que em
sua vida mais dificulta o cumprimento destes mandamentos?
Resposta pessoal. Como desafio, compare os acontecimentos de
Jonas 1, dentro do navio, com os acontecimentos com Paulo em At 27
e 28.
5. Compare Jn 1:17 com Mt 12:38-41 e Lc 11:29-32. Opine a respeito.
Assim como Jonas foi uma mensagem de salvação para Nínive,
Jesus foi para aqueles que o ouviam. É impressionante como Jesus se
compara a Jonas! Contudo, Jesus foi obediente em sua missão.
Se, para Jonas, as condições adversas sinalizavam o fim de tudo,
para Deus elas eram uma oportunidade de recomeço. Jonas tinha dificuldades de lidar com a misericórdia divina, por isso a maneira que
Deus usou para fazê-lo compreender foi a mais dura possível.
6. O que foi mais importante para você neste estudo?
Resposta pessoal.
Comentários adicionais
“Dispõe-te, vai...” (Jn 1:2)
O desafio do chamado era complicado para Jonas, pelo fato de
Nínive ser a capital do reino da Assíria. A Assíria considerava Israel e
Judá como estados vassalos. Uma representação dessa subserviência
era o obelisco em pedra negra que hoje pode ser visto no Museu Britânico, em Londres. Este obelisco documentava as vitórias do rei assírio
Salmaneser III (859-823 a.C.). Ali se menciona Jeú, rei de Israel (2Re
9 e 10) pagando tributo, provavelmente para tentar evitar uma invasão
assíria. Nos dias de Jeú, os limites de Israel também foram diminuídos
através da ação direta de Hazael, rei da Síria, após ter sido derrotado
pelos assírios (2Re 10:32).
Jonas tinha conhecimento de tudo isso, e era participante direto
desse contexto conturbado. A razão divina para o chamado de Jonas,
24
Graça soberana
expressa no verso 2 é a mesma quando Deus se referiu a Sodoma e
Gomorra, em Gn 18:20-21. A “malícia” citada é semelhante ao pecado
de Sodoma e Gomorra. Ela pode ser ampliada e especificada como:
homossexualismo, injustiça, adultério, mentira, incitamento à maldade,
orgulho, vida fácil, e despreocupação com os pobres, conforme os textos de Is 1:10-17; 3:9; Jr 23:14; Ez 16:49; Gn 19:5.
O livro do profeta Naum declara posteriormente que os pecados
de Nínive incluíam: a) Tramar o mal contra o Senhor (Na 1:11); b)
Crueldade e saques nas guerras (Na 2:12-13; 3:1,19); c) Prostituição e
bruxaria (Na 3:4); d) Exploração comercial (Na 3:16).
Diante de todo esse panorama bem conhecido de Jonas, não era
razoável levar nenhuma mensagem de Deus como alerta àquele povo
terrível. Melhor seria aguardar a sentença de Deus, a mesma que veio
sobre Sodoma e Gomorra: Uma bem-vinda destruição! Então “Jonas se
dispôs, mas para fugir da presença do SENHOR”.
“Jonas se dispôs, mas para fugir...” (Jn 1:3)
Por um lado Deus requeria a disposição de Jonas para ir a Nínive. Por outro lado, Jonas efetivou sua disposição em desenvolver um
projeto alternativo bem elaborado, mas completamente diferente do
que Deus havia requerido dele: “Jonas se dispôs...” (Jn 1:3).
A sua ideologia excessivamente nacionalista e xenófoba, como a
da maioria do povo de Israel de seu tempo, fez com que se iniciasse na
vida de Jonas uma sequência de movimentos descendentes. Estes culminaram no fundo dos “...fundamentos dos montes” (Jn 2:6): Jonas
desceu até Jope, desceu ao porto, desceu ao porão do navio, mergulhou
em sono profundo, desceu às profundezas do mar....
Em todo esse processo descendente, o seu projeto se mostrava
mais glamoroso e aceitável do que o enfrentamento da dura realidade
de ir a Nínive, embora não fosse fácil, tranquilo nem barato. Investiu
tudo nele, assumindo plenamente o comando de sua vida. Társis era
como um Eldorado. Situava-se, provavelmente, no extremo oeste do
mar Mediterrâneo, na costa sul da atual Espanha. Representava o sonho de uma aventura maravilhosa, um lugar exótico, com o encanto do
Graça soberana
25
desconhecido. Nas referências bíblicas que mencionam Társis, destacamos 1Re 10:22, que relata as idas da frota de Salomão a Társis para
trazer ouro, prata, marfim, macacos e pavões. Um lugar assim era muito mais atrativo do que a problemática Nínive, e garantia adicionalmente, na ilusão de Jonas, uma distância “segura” da presença de
Deus.
“Declara-nos, agora...” (Jn 1:8)
Jonas finalmente cai em si, após ter sido apontado como responsável por tudo aquilo. Questionado pela tripulação, ele faz duas proclamações:
 Acerca de Deus e de sua relação com ele (v.9).
 Acerca de sua frustração e derrota, reconhecendo que para ele
não havia mais saída. Era o fim, plenamente merecido (v.12).
Não há evidência de que os marinheiros renunciaram a todos os
seus outros deuses (como Naamã em 2Re 5:15). No mínimo, porém, os
marinheiros reconheceram naquele momento que o Deus de Israel estava no controle dos acontecimentos. Por isso, devia ser adorado e reconhecido. Deus se fez conhecer aos pagãos apesar da rebeldia do profeta.
A obstinação de Jonas era tal que, aparentemente, ele não considerou a hipótese de confissão de pecado, arrependimento e disposição
de obedecer. Ele podia se dispor, enfim, a ir a Nínive cumprir a missão
que Deus lhe havia confiado. Se Jonas tivesse tomado essa atitude,
Deus provavelmente teria feito cessar a fúria do mar, sem a necessidade dos marinheiros lançarem Jonas ao mar. Mas isso são apenas hipóteses e conjecturas.
Consequências da fuga
Jonas foge a partir do porto de Jope. Este é o mesmo lugar onde,
cerca de 800 anos depois, o apóstolo Pedro tenta fugir do chamado de
Deus para evangelizar os gentios. Nesta ocasião, a xenofobia de Pedro
em relação a eles também é mudada por Deus.
26
Graça soberana
Em Atos 10 lemos o relato dessa experiência, que revela muitos
paralelos entre Jonas e Pedro: 1) Ambos eram judeus; 2) Ambos tinham preconceito forte contra os gentios; 3) Foi em Jope o início da
fuga de Jonas e o início da mudança de Pedro; 4) De lá Jonas tentou ir
a Társis, mas acabou no ventre de um grande peixe. Foi, involuntariamente, instrumento da conversão dos marinheiros. De lá Pedro foi para
Cesaréia, onde iniciou a evangelização dos gentios com a conversão do
centurião Cornélio.
Apesar da disposição e da decisão equivocadas de Jonas, temos
aqui mais uma evidência de que os propósitos e desígnios de Deus não
podem ser frustrados.
Para refletir e praticar
1. Jonas racionalizou sua missão levando em conta as circunstâncias históricas e políticas do seu contexto. Assim ele acabou estabelecendo suas próprias prioridades. Como você tem
reagido às missões que Deus lhe tem confiado?
2. Apesar da desobediência do profeta, em sua soberania Deus
transformou a situação produzindo resultados surpreendentes.
Você crê que Deus pode fazer mais do que você pode imaginar em situações que a seu ver são complicadas ou adversas?
Para o próximo estudo
Leia, por favor, o capítulo 2 de Jonas.
Graça soberana
27
28
Graça soberana
2
A oração
que transforma
Jonas 2:1-10
“A questão não é orar até que Deus ouça o que lhe pedimos, mas até que
entendamos aquilo que ele nos pede”.
Sören Kirkegaard
Objetivos deste estudo
 Compreender que Deus pode usar certas situações para dar
suas respostas às orações das pessoas
 Entender que estar em situações adversas pode conduzir as
pessoas a um momento de reflexão e de transformação
Introdução
Deus é criativo. Jonas desobedeceu e tomou um navio, mas Deus
não o impediu de imediato. Ele esperou até que o navio estivesse em
alto mar. Poderia ter mandado um anjo, mas enviou uma tempestade.
Poderia ter falado com algum marinheiro, mas esperou que o medo
tomasse conta dos seus corações. Já poderia ter falado com Jonas, mas
deixou que ele reconhecesse quem era e o que estava fazendo. Esperou
que os marinheiros o jogassem ao mar. O mar deixou que ele percebesse a morte. Aí então, Deus não enviou um tronco para Jonas se agarrar
ficar à deriva, mas enviou um grande peixe para engoli-lo.
Não foram algumas horas, mas três dias e três noites! Além de
ensinar o profeta, Deus fez de Jonas uma profecia sobre o que aconte-
Graça soberana
29
ceria com Jesus, o próprio Deus. Tornou-se um sinal para uma geração
perversa e adúltera.
Ao estudarmos esta oração, devemos nos lembrar de que ela foi
feita em um período de três dias e três noites. Muita coisa se passou
dentro daquele peixe.
Estudo
1. Leia Jonas 2. Quais são os elementos principais desta oração
de Jonas?
 O reconhecimento da sua situação (2:1-6)
 O seu retorno a Deus (2:7-9)
 A resposta de Deus (2:10)
2. Como Jonas descreve sua situação nesta oração?
Para Jonas, a morte agora já não era algo tão fácil de lidar como
ele tinha expressado em 1:12. No início de sua oração, Jonas clama de
forma genérica ao Senhor em angústia (2:2). Depois especifica essa
angústia gritando por socorro a partir do “ventre do abismo”. Compare
com 2Sm 22:7; Sl 18:6; 130:1 e Lm 3:55. Os textos registram esta
mesma ideia de gritar das profundezas. Ou seja, não havia mais esperança de vida.
Em 2:4, o profeta demonstra se sentir excluído da presença de
Deus; ele se considera um morador entre os mortos. Isso aparece ainda
mais claro em 2:6. Podemos imaginar que não havia luz, alimentação
nem água. Apenas oxigênio num lugar apertado cheirando a peixe.
Até esse momento, quando começa a deslumbrar um fio de esperança contra toda a esperança, Jonas não externou nenhum sentimento
de amargura ou lamentação pelo que lhe estava acontecendo. Todas as
agruras que lhe ocorreram foram encaradas por Jonas como vindas do
Senhor; não por mero acidente, fatalidade ou alguma outra causa, senão pela própria mão do Senhor. Assim é que ele não esboçou qualquer tentativa de se defender, de lamentar ou murmurar acerca dos
30
Graça soberana
acontecimentos. Simplesmente silenciou, calou-se a respeito. Apesar
de a experiência ser profundamente dolorida para ele, ele reconhecia a
origem dela no próprio Deus: “(tu) me lançaste” e “as tuas ondas e as
tuas vagas” (2:3).
No Salmo 39:9, Davi age da mesma maneira. Reconhecendo
como vindo de Deus o seu flagelo, ele disse: “Emudeço, não abro os
lábios porque tu fizeste isso”. A ausência de murmuração em Jonas
naquele momento o leva a expressar-se: “lançado estou de diante dos
teus olhos” (2:4) e “dentro de mim desfalecia a minha alma” (2:7).
É interessante notar que, antes, em sua iniciativa de fugir da presença do Senhor, Jonas o fez com bastante disposição. Agora, contudo,
ele se sentia excluído da presença de Deus e completamente desanimado! Começava então a se lembrar de que “na tua presença há plenitude
de alegria” (Sl 16:11).
3. Sua vida de oração se resume aos períodos de crises e tristezas? Há alegrias? Há algo mais?
Resposta pessoal.
4. Como Jonas expressa seu desejo de retorno para Deus? Há
evidências no texto de que ele creu em Deus apesar da situação
em que estava?
Depois do desespero, o profeta clama por socorro (2:2). E, pela
fé, creu, a exemplo de Abraão (Rm 4:18 = “Abraão, esperando contra a
esperança, creu”).
As aparências, por vezes, contradizem todas as esperanças. As
simples realidades em torno de Jonas anulavam suas mais tênues expectativas. Tivesse sua esperança se baseado na lógica, na razão, na
natureza, no tempo ou em qualquer outro fator ou circunstância, ele
teria afundado para sempre. Mas ele creu contra toda esperança, sem
compreender, sem questionar; apenas creu. Tão claramente ele creu em
esperança que a fé anulou a capacidade que a lógica e a razão têm de
destruir a esperança: “Contra a esperança ele creu em esperança”. Essa
é a vitória que a fé tem de alcançar, em meio a toda a sorte de inciden-
Graça soberana
31
tes, eventos, circunstâncias, influências, poderes e tudo o mais que for
adverso ao nosso livramento e salvação.
Com o coração renovado pela fé e esperança (2:4,6-7), o profeta
faz uma declaração (2:9) que se torna o auge da sua oração. Isto não
apenas em função da sua própria situação, mas por reconhecer algo
vital no caráter de Deus: “A salvação vem do Senhor!”.
Quem vive apenas pela razão, se alegra e louva a Deus quando as
coisas acontecem. No entanto, é prerrogativa peculiar à fé, que é dom
de Deus, propiciar essa alegria e adoração em gratidão antes mesmo de
ver as coisas acontecerem, ou até sem vê-las acontecer. Isso nos lembra das palavras de Jesus a Tomé: “Por que me viste, creste? Bem
aventurados os que não viram e creram” (Jo 20:29).
5. O que você tem aprendido com Deus e sobre Deus em seus
momentos de oração?
Resposta pessoal.
6. Como Deus respondeu a oração de Jonas?
Deus sempre responde às orações, mas nem sempre como gostaríamos. “E o Senhor deu ordem ao peixe, e ele vomitou Jonas em terra
firme” (2:10). Para que não fique dúvida: o grande peixe não lançou
Jonas em Nínive. Jonas estava cheirando a peixe, sujo, com o cabelo
em pé, cheio de gosmas do interior do peixe, doido por um banho de
água doce, por comida e por água potável. Mas para chegar até esta
cidade ainda seria necessária uma boa caminhada por terra.
Como veremos no capítulo 4, Deus ainda não havia terminado de
trabalhar com Jonas. Ele tinha ainda uma importante lição a aprender.
7. Qual a lição mais importante para você nesta experiência de
Jonas?
Resposta pessoal.
32
Graça soberana
Para refletir e praticar
Leia abaixo a música de Gilberto Gil e a resposta que Carlos Sider preparou.
Se eu quiser falar com Deus
Gilberto Gil
Se eu quiser falar com Deus,
tenho que ficar a sós.
Tenho que apagar a luz,
tenho que calar a voz.
Tenho que encontrar a paz.
Tenho que folgar os nós
dos sapatos, da gravata,
dos desejos, dos receios.
Tenho que esquecer a data,
tenho que perder a conta,
tenho que ter mãos vazias,
ter a alma e o corpo nus.
Se eu quiser falar com Deus,
tenho que aceitar a dor.
Tenho que comer o pão
que o diabo amassou.
Tenho que virar um cão,
tenho que lamber o chão
dos palácios, dos castelos
suntuosos do meu sonho.
Tenho que me ver tristonho,
tenho que me achar medonho.
E, apesar de um mal tamanho,
alegrar meu coração.
Se eu quiser falar com Deus,
tenho que me aventurar.
Tenho que subir aos céus
sem cordas pra segurar.
Tenho que dizer adeus,
dar as costas, caminhar
decidido, pela estrada
que ao findar vai dar em nada.
Nada, nada, nada, nada (3x)
do que eu pensava encontrar.
Resposta a Gil
Carlos Sider4
Se eu quiser a um simples deus qualquer,
desses que a mente sempre vai criar,
desses que aos milhares vem se ofertar,
sujo espelho de quem quis ser, mas não será.
4
Faixa 5 do CD “Fruto de vida II” de Carlos Sider.
Graça soberana
33
Nobre amigo, tenho então de concordar
com tuas notas, teus acordes, o teu triste cantar:
dura estrada, trilha errada, longa saga de alta paga,
que ao fim dá mesmo em nada, nada, nada, nada, nada, nada...
Mas se eu for falar com nada mais que Deus,
não preciso nem sequer me concentrar.
Nem de longe tenho que me flagelar.
Sua voz me fala antes que eu venha falar.
Nobre amigo, nem sequer o procurei,
fui achado, resgatado, me bastou o que escutei,
e ele é a vida desejada, mais que achada, ofertada.
Ele é tudo, tudo em mim. (3x)
Muitas vezes já falei com Deus...
1. Você consegue dizer que o seu Deus é pessoal e que ele fala
com você mesmo sem você procurá-lo?
2. Você acha que é vergonhoso fazer como Jonas, isto é, só procurar Deus (orar) quando se está em desespero? Jonas orou a
Deus em seu cativeiro no ventre do peixe e foi libertado. E
você?
Para o próximo estudo
Leia, por favor, os capítulos 3 e 4 de Jonas.
34
Graça soberana
Graça soberana
35
36
Graça soberana
3
Qual é a direita?
E qual é a esquerda?
Jonas 3:1-4:11
“Manda quem pode, obedece quem tem juízo!”
Ditado popular
“Um discípulo de Jesus precisa decorar quatro letras: O, B, D, C!”
Autor desconhecido
Objetivos deste estudo
 Entender que a vontade de Deus se cumprirá apesar da ação
ou reação do ser humano
 Compreender que Deus é Senhor de Israel, da natureza, da
história e de todas as nações
 Entender que obedecer deve ser a prática de todo o cristão
Introdução
A justificação própria de Jonas se revela na demonstração da sua
ira. “Isto não é justo!” As pessoas reagem assim. “Não consigo acreditar que ele tenha feito isto para mim!” Isto é o que a ira faz: a ira avalia
alguma coisa ou alguém. Jonas avaliou Deus e sua reação foi: isto é
injusto, desagradável, insuficiente, deficiente.
Depois da avaliação, vem a ação. A ira desperta a pessoa a agir
atacando. Jonas exemplifica uma das causas da ira: interpretar erradamente uma atitude ou fato. Em sua visão de mundo limitada, Jonas
Graça soberana
37
entendeu que era injusto Deus salvar o povo de Nínive. Faltava-lhe
discernimento do plano maior de Deus para as nações.
Jonas tem uma compreensão teológica correta de Deus. Ele sabe
que Deus salva e é gracioso. Mas ele não queria dividir esta graça com
outros e isto não trouxe mudanças no coração do profeta quanto ao seu
preconceito racial.
É uma heresia extraordinária achar que posso ter Jesus como
Salvador e adiar a obediência a Jesus como Senhor pelo tempo que
desejar. “Salvação sem obediência é algo desconhecido nas Escrituras
Sagradas” (Egon Paulitsch).
Estudo
1. O que a expressão “segunda vez” em Jn 3:1 revela sobre a
graça de Deus?
Um sinal significativo da graça divina é o fato de que Jonas não
apenas foi perdoado e pessoalmente restaurado, mas também reconduzido à sua missão no serviço do Senhor. Encontramos um paralelo com
o apóstolo Pedro nesta restauração de Jonas à sua missão, pois ele a
havia recusado e afastou-se da presença de Deus (Jn 1:3). O Senhor o
trata como tratou Pedro, depois que este o negou três vezes (Jo 18:17,
25, 27). Ele ordena: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21:15-17).
O Senhor prontamente aceita a confissão de nossa culpa, nossas
expressões de tristeza pelo pecado cometido, e ainda afasta de nós todo
o medo de não sermos mais aceitos por ele. Através do pleno e livre
perdão, ele nos dá a mais completa reconciliação.
2. Como você se sente diante dos seus fracassos passados?
Você crê que Deus pode renová-lo em sua missão?
Resposta pessoal.
38
Graça soberana
3. Por que era necessário Jonas proclamar a mensagem de Deus
(3:2)?
Na primeira vez, Deus deu a Jonas a razão da missão (1:2). Desta
vez, não deixou muito espaço para questionamentos ideológicos. Deus
queria que o profeta não se importasse mais com as motivações dele
nem do próprio Deus, mas que se ativesse ao primordial: proclamasse
a mensagem de Deus.
Por que Deus não usou outros meios? Por que ele prefere nos
convidar a cooperarmos com ele no anúncio de sua mensagem. Paulo
respondeu isto em Rm 10:10-15. Não há mudanças se a Palavra de
Deus não for proclamada. E não há possibilidade da mensagem ser
proclamada sem que haja um mensageiro.
Os exemplos bíblicos nos mostram que mesmo um passado de
rebeldia e fracassos não é impedimento para sermos usados hoje poderosamente. Deus nos chama à confissão, arrependimento e disposição
de obedecer. Deus ainda realiza maravilhas hoje, apesar de nós, os
mensageiros problemáticos.
4. Após tanta relutância para fazer o que Deus queria, como você
entende esta súbita obediência de Jonas (3:3)?
Jonas levantou-se e foi. Aparentemente foi, constrangido pela palavra do Senhor (3:3). Obedeceu, mesmo não totalmente convencido e
conquistado pelas razões de Deus para a missão. A dura experiência no
ventre do peixe o tinha transformado, pelo menos, em um profeta obediente. Conhecia agora, as consequências da rebeldia e da desobediência. Daí o seu constrangimento. Mas permanecia um conflito, não mais
entre fé e razão, mas entre a sua vontade e vontade de Deus.
Não se sabe o que pesou mais para Jonas, nessa altura dos acontecimentos. Pode ter sido o constrangimento produzido pelo amor de
Deus, capaz de perdoar e salvar um pecador como ele, gerando nele
um sentimento de gratidão e de plena submissão. Mas pode também ter
sido constrangido pelo temor advindo da desesperadora experiência
decorrente de sua desobediência, e isto pode tê-lo feito obedecer mesmo contra sua própria vontade.
Graça soberana
39
Jonas se levantou e foi, mas não havia misericórdia no seu coração. A manifestação da graça de Deus na vida de Jonas não produziu
nele misericórdia para com os ninivitas. No entanto, na medida em que
Jonas se levantou e foi, teve condições de cumprir sua missão com
sucesso. Este talvez seja um dos ensinos mais significativos do livro de
Jonas.
Nesse ponto da narrativa, fica claro que nada, a não ser a palavra
do Senhor, importava. Pela palavra, Jonas se levantou e foi. Pela palavra, Jonas enfrentou as centenas de quilômetros de uma viagem perigosa e estafante. Pela palavra, Jonas arriscou enfrentar a agressividade
e rejeição de um povo inimigo de Israel. Pela palavra, ele encarou as
tentações de novamente sucumbir aos seus próprios pensamentos e
desejos, às dificuldades, aos perigos, aos medos e ansiedades.
Possivelmente, Jonas foi reclamando a cada passo da penosa viagem. Deus podia fazê-lo ir, mas não podia fazê-lo gostar de ir. Mesmo
dessa forma ele pode chegar a seu destino e cumprir sua missão, proclamando a palavra do Senhor.
A obediência a Deus, ainda que a contragosto, produz resultados
significativos.
5. Qual era a real motivação da pregação de Jonas (3:4)? Compare com 4:2-3.
Jonas não estava muito confortável com a sua missão, mas sim
constrangido e sem poder abrir mão dela. Assim, ele procurou, logo no
primeiro momento, realizá-la da forma mais rápida possível.
Entretanto, Jonas desejava a destruição de Nínive. Ele foi obediente e pregou, pois tinha esperanças de que eles não aceitariam sua
pregação e não se converteriam. Desta forma seriam destruídos pelo
Senhor.
6. Como você tem reagido às ordens de Deus? De que tipo é a
sua obediência? Compartilhe com o grupo.
Resposta pessoal.
40
Graça soberana
7. Qual foi a mensagem de Jonas?
A mensagem (3:4), a única proclamação que o livro de Jonas
contém, incluía dois alertas bem claros: 1) Uma condenação viria ao
povo, a qual podia significar destruição ou transformação traumática;
2) Havia pouco tempo separando-os desses acontecimentos terríveis.
Jonas não suprimiu partes da mensagem original. Havia implicitamente em toda proclamação profética a possibilidade de salvação e
perdão mediante arrependimento.
A mensagem objetivava confrontação do pecado, alertava para
suas consequências, e ensejava uma necessidade de mudança (arrependimento). Apesar do mensageiro, a mensagem chegou com clareza aos
destinatários e os atingiu de forma eficaz. Era a Palavra de Deus, cumprindo a premissa de Is 55:11.
8. O que gerou o arrependimento do povo de Nínive (3:5-10)?
Os ninivitas não creram em Jonas, mas sim em Deus (3:5)! Esta
é a origem do arrependimento: a fé que vem pela pregação das boas
novas (Rm 10:17). Não há coração suficientemente duro que não possa
ser amolecido por Deus, como não há pecador tão perdido que Deus
não possa salvar. Pela graça de Deus (Ef 2:8), a fé nasce no coração de
pessoas que nunca imaginaríamos, e nos lugares mais imprevisíveis e
improváveis. Assim foi com os ninivitas.
Ao crer na Palavra de Deus, os ninivitas esperavam a destruição
que viria como castigo pela iniquidade deles. A fé produziu arrependimento. Os primeiros sinais de verdadeiro arrependimento são as manifestações de tristeza, convicção de pecado, abatimento, e reconhecimento da justiça de Deus (veja Sl 51:4). De início, os ninivitas se expressaram com atitudes que falavam mais alto que palavras: jejum e
panos de saco.5
5
O uso de vestimentas feitas de panos de saco simbolizava um coração contrito e
humilhado na presença de Deus. O jejum complementa esta busca de Deus ao eliminar a concorrência de outros prazeres e funções.
Graça soberana
41
A consternação foi geral e intensa, chegando ao rei, que multiplicou o processo de arrependimento coletivo. A mudança começa quando o rei ordena ao povo que se convertam dos seus maus caminhos e
da violência (3:8). É importante que a mensagem chegue às autoridades públicas, pois podem exercer influência significativa sobre o povo.
A oração dos ninivitas (3:9), longe de representar uma falta de
fé, manifesta convicção de pecado. Eles reconheciam não ter direito de
reivindicar nada de Deus, pois Deus não tem obrigação alguma de perdoá-los. Eles apenas esperam na sua misericórdia, manifestando a esperança de que Deus desvie deles a sua ira, e mude de ideia a respeito
deles. Foi o que acabou ocorrendo, pois essa é a oração que Deus ouve
(veja Lc 18:9-14).
9. Descreva uma situação em que você já manifestou um arrependimento semelhante ao dos ninivitas.
Resposta pessoal.
10. Por que Jonas ficou irado com Deus (4:1)? E o que Jonas fez
para expressar sua ira (4:2-3)?
Como já vimos, a agenda de Deus era diferente da agenda de Jonas. A misericórdia divina não se restringia à nação de Israel. Contudo,
tanto o profeta como o povo de Israel não entendiam isso. Por isso,
Jonas ficou “profundamente descontente com isso”.
Para expressar sua ira, Jonas orou! Não ficou quieto e fugiu da
presença de Deus como antes, mas verbalizou seu inconformismo com
Deus. Conhecia o caráter de Deus (Jn 4:2; Ex 34:6-7), mas não podia
concordar com ele.
Embora não pareça de início, esta atitude de orar, ainda que com
ira, é positiva. Jonas manteve o seu relacionamento com Deus, mesmo
num momento difícil e doentio. O importante é não ficar em silêncio.
Jonas levou toda a sua carga para quem podia resolver e fez de Deus
seu conselheiro. Se tivesse silenciado, teria surgido nele um crescente
sentimento de duplicidade que o afastaria novamente da presença de
Deus. Sua transparência permitiu a continuidade de dialogo entre o Pai
misericordioso e o filho insensível.
42
Graça soberana
11. O que Deus fez para chamar ainda mais a atenção de Jonas?
Deus não desistiu de seu profeta furioso. Para ensinar-lhe uma
preciosa lição, ele mexeu no conforto de Jonas (4:5-11). Só assim conseguiu captar a atenção total de Jonas. Não somos nós assim também?
O livro termina sem a reação de Jonas ao que Deus estava lhe
ensinando. A pergunta continua aberta e é dirigida a nós. Devemos
pedir a misericórdia divina só para nós, como Israel?
12. Qual a lição mais importante para você nesta experiência de
Jonas?
Resposta pessoal.
Comentários adicionais
Spurgeon comenta sobre Jn 3:4-10 em um sermão:
 Os convites ao arrependimento não foram muitos. No entanto,
a obediência ao aviso foi imediata, universal, prática e aceitável, de tal modo que a cidade foi poupada.
 A mensagem do profeta não foi encorajadora. No entanto,
desta tremenda mensagem o povo fez uma boa nova e agiu de
acordo com ela, a ponto de achar livramento. Infelizmente,
muitos de nós hoje temos rejeitado a muito mais rica, segura e
gratuita promessa de Deus em seu Evangelho.
 O próprio profeta não os ajudou em sua esperança. No entanto, aquelas pessoas obedeceram à voz de Deus e obtiveram
misericórdia por darem ouvidos à sua advertência.
 A esperança dos ninivitas era bem fraca. Podiam no máximo
articular um “Quem sabe?” ou “Talvez Deus...” (3:9).
“Viu Deus” (3:10)
O texto salienta que Deus tudo vê (Gn 16:13; Mt 4:6). Nada
acontece sem que ele perceba, seja o nosso pecado ou o nosso arrependimento sincero.
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“Deus se arrependeu” (3:10)
A mudança radical ocorrida no povo de Nínive fez com que
Deus mudasse de ideia. O uso da palavra “arrependimento” é problemático para muitas pessoas. A melhor forma de traduzir este texto é a
usada pela NTLH:
„Talvez assim Deus mude de ideia. Talvez o seu furor passe, e assim não morreremos!‟ Deus viu o que eles fizeram e
como abandonaram os seus maus caminhos. Então mudou
de ideia e não castigou a cidade como tinha dito que faria.
(Jn 3:9-10)
Jr 18:7-11 demonstra claramente o sentido desta expressão. Os
pronunciamentos proféticos de juízo eram sempre condicionais e revelam o sincero desejo divino de derramar sua graça sobre os povos.
Para refletir e praticar
1. O ser humano só busca a Deus quando seu bem-estar é afetado, ou quando aquilo que é caro e importante é perdido ou
comprometido. Você concorda com isso? É assim na sua
vida?
2. Nós estamos sempre tentando lutar com Deus e querendo fazer o que achamos melhor para nós, independentes da vontade
dele. Assuma hoje o compromisso de ouvir a sua voz e de
não mais lutar contra a vontade dele.
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Bibliografia
ARCHER Jr., Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento? São
Paulo: Vida Nova, 2003.
FULLER, David Otis. Spurgeon ainda fala. São Paulo: Vida Nova,
1989.
HENDRICKS, Howard; HENDRICKS, William. Vivendo a Palavra.
São Paulo: Batista Regular, 1991.
HYBELS, Bill. Quem é você quando ninguém está olhando? Venda
Nova: Betânia, 2000.
IBCU. Apostila de estudos sobre Jonas. [Esta apostila serviu como
base para todos os estudos].
SWINDOLL, Charles R. Moisés: um homem dedicado e generoso. São
Paulo: Mundo Cristão, 2000.
Vários comentários sobre Jonas.
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