Revista Jurídica da Unic / Emam - v. 1 - n. 1 - jul./dez. 2013 CIÊNCIA POLÍTICA, HISTÓRIA E LITERATURA: UM DIÁLOGO ATRAVÉS DO “ESPELHO” 1 Lourembergue Alves 2 INTRODUÇÃO Pretende-se com este artigo realçar o estreitamento dos laços entre Ciência Política, História e Literatura, com o propósito de buscar o pensamento transdisciplinar. Pensamento este que, além de não se quebrar nas fronteiras entre as áreas do saber, permite o diálogo pluralista. Pluralista como é também a própria política, a qual trata da convivência entre os diferentes, e, até por conta disso, aliás, igualmente se baseia no sentido plural dos homens. Nenhum homem é autárquico. Pois depende de outros em sua existência, e a falta de um provimento da vida – a realizar-se através do Estado – relativo a todos impediria o convívio. Assim, o viver se dá, ou deveria se dá sob o clima da liberdade. A de externar opinião, o direito de ouvir opiniões de outros e de também ser ouvido. Tem-se, então, o indispensável da liberdade política, cuja ausência desapareceria com o espaço político, e este é aquele que se pode, e deve chamar de mundo essencialmente humano, o qual também se apropria e, ao mesmo tempo, torna-se parte a academia. A universidade, portanto, não deve se fechar em si mesma. Mas, isto sim, procurar as mudanças necessárias, e estas passam pela desconstrução da tese de que cada área do conhecimento dá conta de todas as preocupações humanas. Tanto não dá que o dialogo entre elas é importante, inclusive no cotidiano de um curso superior, cuja sobrevivência também depende da política, e do seu entrelaçamento com os demais saberes, em especial a literatura – tida como uma espécie de espelho da sociedade. 1 Este texto foi, com algumas correções e revisões, apresentado no Seminário de Letras na Universidade de Cuiabá/IUNI, em 28 de maio de 2012. 2 Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Cuiabá/IUNI, cientista político, ocupante da cadeira número 6 da Academia Mato-Grossense de Letras, autor de 9 livros, articulista do jornal A Gazeta, com mais de 16 mil texto, e foi analista política da Rádio CBN/Cuiabá, segunda edição. 108 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” UM DIÁLOGO ATRAVÉS DO “ESPELHO” MACHADIANO Já se fala bastante a respeito de política no país. Até mais do que em outros tempos. Porém, a discussão sobre ela ainda se prende sempre aos personagens, atores. Quase nada se vê com relação às ideias, ações, projetos e programas partidários e de governos. Tanto em bate papos nos botequins, praças e shoppings, como em conversas formais. Inclusive as que se dão nos corredores e nas salas dos cursos superiores. Ainda que estes cursos se encontrem voltados às áreas de humanas3, as quais – independentemente de suas próprias especificidades – deveriam se valer da história e de obras literárias4. A Ciência Política não foge a esta regra, nem a política – como atividade – lhe devem ser indiferente. Nesse sentido, pensou-se em escolher um livro sobre política, literatura e história, e destacar dele dois ou três de seus tópicos mais marcantes, e, depois, trazê-los aqui, com o intuito de provocar uma dada discussão. Ideia, no entanto, logo substituída pela adoção de uma obra literária, de preferência de autor nacional. Aluizio de Azevedo, Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa, Carlos Drumonnd de Andrade e Jorge Amado foram os nomes rapidamente lembrados, e até porque eles avançaram na compreensão da sociedade brasileira. Mas tais autores, assim como de outros clássicos do país, já fazem parte do cotidiano da Universidade. Diante disso, surgiram literatos estrangeiros, entre eles o de Pascal Mercier, pseudônimo de Peter Bieri – nascido na Suíça e radicado em Berlim, onde leciona filosofia. Seu mais famoso romance, “Trem noturno 3 Sobretudo no curso de Direito, cuja grade consta a Ciência Política, as conversas não ultrapassam a esse limite. Um limite, na maioria das vezes, norteado por conteúdos que têm pouco a ver com a dita disciplina, e bem mais com a Teoria Geral do Estado, Direito Constitucional e Direito Civil. Isso fica claro, inclusive, na bibliografia apresentada, encabeçada por autores destas áreas específicas, a exemplo de Celso Ribeiro Bastos – doutor e livre docente em Direito Constitucional –, Paulo Bonavides – um dos constitucionalistas mais respeitados do País –, Reis Friede – mestre e doutor em Direito Público –, Marcus Claudia Acquaviva – jurista brasileiro. Nenhum deles, portanto, ligado a Ciência Política; tampouco à história, sociologia e à filosofia, as quais fazem ou deveriam fazer uma parceria necessária e instigante no cotidiano das aulas de Ciência Política. 4 A Literatura, por exemplo, como local do debate jurídico. “É possível melhor compreender a questão da interpretação do Direito através do método comparativo com outros campos do conhecimento, e em especial a Literatura. Quem sustenta esta possibilidade é Dworkin, ao recomendar que os juristas estudem não só a interpretação literária, mas outras formas de interpretação artística, nas quais ‘foram defendidas muito mais teorias da interpretação que no Direito, inclusive teorias que contestam a distinção categórica entre descrição e valoração que debilitou a teoria jurídica’...” (DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. Trad. de Luís Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 21. Apud. OLIVO, Luiz Carlos Cancellier de. O estudo do direito através da literatura. Tubarão: Studium, 2005, p. 217-222). Lourembergue Alves 109 para Lisboa”, é uma verdadeira obra-prima 5. Tanto que levanta questões atemporais acerca da vida, da solidão e da morte. Temáticas que estão bem mais relacionados com a conversa entre o “Eu consigo mesmo”, que constitui a essência do pensamento, no dizer Hannah Arendt6. O pensar é solitário, diferentemente, portanto, do agir; porém, longe de se colocar como introspectivo, voltado para seu mundo interior, à moda de Flora que, “aos quinze anos, dava-lhe para se meter consigo”7, e diferente de Maria Olímpia, cuja vocação é a da “vida exterior”8. Personagens bastante distintos de outro, também machadiano, que respondia por Jacobina. Este, sim, mais calado, preso lá com seus próprios botões, a ponto de quase cochilar-se, “espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação”. Pois, não discutia nunca, e defendia sua abstenção com o seguinte paradoxo: “a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial”. “Assim, nem conjetura, nem opinião; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento”9. Comportamento apolítico. Próprio de quem se recusa a participar do que talvez considere “a incivilidade do jogo político”10. Ignora, assim, que “a política está, quase sempre, relacionada à capacidade de expor suas ideias de modo favorável e de saber o que dizer – sobretudo quando e a quem dizê-lo”11. Jacobina, então, foi incitado por um dos demais personagens, quando a conversa veio a recair sobre a temática da natureza da alma. “O casmurro usou da palavra para dizer que narraria um fato de sua vida”, mas não consentia réplica. “Não se tratava de opinião ou conjectura; era apenas a demonstração da matéria alvo da discussão. Nesse momento, o 5 MERCIER, Pascal. Trem noturno para Lisboa. 7ed. Traduzido por Kristina Michahelles. Rio de Janeiro: Record, 2010, 460 p. 6 ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Traduzido por Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2003, 2003, p. 45. 7 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Esaú e Jacó. São Paulo: Nova Fronteira, 1982, p. 31. 8 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. A senhora do Galvão. Disponível em: http://www.superdownloads.com.br/download/18/senhora-do-galvao-machado-de-assis/ Acesso em: 20 maio 2012. 9 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. O espelho. In: ___. Papéis avulsos. Belo Horizonte: Itatiaia, 2006, p. 45. 10 “A única maneira de evitar a política é evitar as pessoas – exercendo suas funções em um refúgio oculto. E essas serão, sem dúvida, as mesmas funções que executará pelo resto da vida se permanecer politicamente isolado” (REARDON, Katheleen Kelley. Política pessoal. Tradução de Maria Alayde Carvalho. São Pulo: Gente, 2008, p. 11). 11 REARDON, Kateheleen Kelley. Op. cit., p. 11. 110 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” narrador-personagem assume um ethos de phrónesis, estimulado que está pela atitude responsiva e interessada de sua audiência” 12. Eis, aqui, o porquê da escolha de “O Espelho”, de Machado de Assis, que muito bem poderia ser trocado por outro escrito deste mesmo autor, tais como “A Sereníssima República”13, “Esaú e Jacó”14, “Mas o que é, afinal, a política?”15. Escritos, cujos painéis são preenchidos também por ações e movimentações políticas, e que são igualmente reveladores. Revelam, entre outras coisas, que o olhar e o tom da voz, de quem os escreveu, procuravam ir mais longe e mais fundo do que o mero registro empírico, no dizer de Alfredo Bosi, que acrescenta: [...] havia um gosto acentuado de contar histórias de políticos. Não são poucas Não são poucas as crônicas em que falou de parlamentares do passado ou seus contemporâneos [...] Mas a leitura de Machado tem a 12 MONNERAT, Rosane S. M. As faces n(o)/´o (e) espelho: seleção lexical e construção de identidade. Disponível em: http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/Vertentes34/Rosane%20 Monnerat.pdf Acesso em: 15 maio 2012. 13 “Nascido a partir do episódio histórico do pacto eleitoral no Brasil – flagra o surgimento de uma instituição política em uma comunidade de aranhas. A narrativa é construída de maneira a imitar a conferência de um cientista maluco – o Cônego Vargas – para uma comunidade acadêmica. O objetivo de Vargas é divulgar os resultados de uma experiência extraordinária, realizada com um grupo especial de aracnídeos. Sob a aparência séria e neutra de um discurso científico, o conto satiriza os mecanismos de organização sociopolítica. De acordo com Vargas, a partir do domínio da língua das aranhas, foi possível manipulá-las em relação às formas de governo. a coação para a necessidade de organização política é implantada pela aceitação da ideologia política por parte dos aracnídeos e pela dissimilação consensual do sistema. A continuidade do regime é garantida pelo medo de desagradar o cientista e doutrinador e pelo idealismo quanto ao aprimoramento da democracia. Tal como nas comunidades humanas, nesta sociedade de insetos falantes e pensantes também ocorrem fraudes e corrupções, permitindo o questionamento acerca da vida em sociedade” (Penguin-Companhia. Disponível em: <http://www.companhiadasletras.com.br/penguin/guia_leitura.php?codigo=85018>. Acesso em: 20 maio 2012). 14 Trata-se do romance mais repleto de elementos e fenômenos histórico-político. os personagens (Conselheiro Aires, Santos e Natividade, Pedro e Paulo, Batista e Cláudia, Flora, Nóbrega) agem quase sempre referenciados nos acontecimentos e no quadro político – movem-se no palco tendo como móbil motivações e interesses sócio-econômico ou desejo de poder (SEGATTO, José Antonio. Política e literatura em Machado de Assis. Novos Rumos. São Paulo, n. 48, ano 22, p. 18, 2007). 15 “[...] Uma das cartas dizia simplesmente que a política é tirar o chapéu às pessoas mais velhas. Outra afirmava que a política é a obrigação de não meter o dedo no nariz. Outra, que é, estando à mesa, não enxugar os braços no guardanapo da vizinha, nem da ponta da toalha. Um secretário de club dançante jura que a política é dar excelência às moças, e não lhes pôr alcunhas quando elas já têm para esta. Segundo um morador da Tijuca, a política é agradecer com um sorriso animador ao amigo que nos paga a passagem [...] Terêncio ou Corneille, tudo vem dar neste velho adágio, que diz que quem não tem cão, caça com gato. É oportuníssimo, confesso; mas prefiro-lhe o aparte de um deputado, no discurso do Sr. Rodrigues Alves, quando este tachava um presidente de interventor, não porque recomendasse candidatos, mas porque fez favores a amigos destes. “Queria que os fizesse aos amigos de V. Ex.a?” perguntou um colega. Tal qual a política do boticário: não comprar na botica da esquina” (MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Mas o que é, afinal, a política? Disponível em: <http://machado.mec.gov.br/ images/stories/pdf/cronica/macr24.pdf>. Acesso em: 20 maio 2012). Lourembergue Alves 111 ver com os gestos, os ritos, os gritos, as palmas, os silêncios, a vida, paixão e morte dos indivíduos, o ciclo mesmo da existência pelo qual uns vão, outros voltam e todos partem definitivamente. Interessava-lhe, artista que era, o estilo dos atores políticos; atraíam-no as suas aparições efêmeras, ora risíveis, ora patéticas [...] O que impressiona no texto machadiano é o movimento passageiro das aparências, que é vivo e tem a sua verdade na medida em que os mecanismos políticos não dispensam o teatro; o público inquieto que ora vaia, ora aplaude; os presidentes formalistas que exigem silêncio, mas em vão [...] O cronista continuou a passar horas nas galerias das câmaras [...] Serão horas imaginárias essas, que a página da Semana recorda em 27 de novembro de 1892, mas nem por isso menos reveladoras de um Machado olheiro e ouvinte das sessões legislativas encaradas como representação [...] O cronista tudo observava [...] Mas o seu olhar e o tom de sua voz procurando ir mais longe e mais fundo do que o mero registro empírico.16 Diante disso, pode-se afirmar que os textos machadianos são verdadeiros achados, os quais devem servir, e muito, para os pesquisadores da história e da política. Estes pesquisadores terão que “cavar e escavar duramente para extrair” deles e das “páginas de engenho e arte”, que os formam, o objeto mesmo de seus estudos, ou seja, “o drama vasto e concreto da história e da política”17. Justifica-se, uma vez mais, a escolha de “O Espelho” para a discussão proposta neste artigo. Conto este em que se pode identificar o olhar crítico e ironia afiada de seu autor, cuja pena desvela recônditos da condição humana que habitualmente se ocultava sob a superfície das aparências. Daí a utilização de “O Espelho” na psicologia, e, vez ou outra, na filosofia. Quase nunca, contudo, experimentado no debate sobre política, a despeito do dito conto ter como foco a ascensão social como forma de mascaramento, e o status a assumir a figura do próprio eu. Mas, nessa condição toda, encontra-se o cenário de mudanças que ocorria entre o velho e o novo, entre o progresso e a dificuldade de se adaptar as exigências desse mesmo progresso, em pleno morro de Santa Tereza, cuja história funde-se 16 BOSI, Alfredo. O teatro político nas crônicas de Machado de Assis. Disponível em: <www.iea. usp.br/artigos>. Acesso em: 20 maio 2012. 17 Idem, p. 23. 112 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” com a história privada de seus moradores. Momento ideal para que haja um diálogo possível entre a literatura, história e a política. No século XVII, o Morro de Santa Teresa era o objeto de desejo dos escravos fugidos. Até mesmo em razão de ser uma área de difícil acesso. O que a tornou palco de vários quilombos. Por conta disso, portanto, tido pelas autoridades e pela elite como lugar perigoso. Tal estigma desaparece à medida que outras pessoas passam a construir residências no local. Uma delas, e talvez a mais famosa, o português Antonio Gomes do Desterro construísse uma capela em sua propriedade. Ele queria se tornar conhecido. Aliás, em função deste português, o morro passou a ser chamado do Desterro, cujo desenho arquitetônico tem outra característica a partir da construção do Convento das Irmãs Carmelitas – todo financiado pelo governador Gomes Freire. Mudou-se, inclusive, de nome. Pois as Carmelitas eram devotas de Santa Teresa. A partir de então, mas não por causa de como passou a ser chamado, e sim pela abertura de áreas para habitação, outras levas de pessoas chegaram à região. Essa povoação se tornou mais intensa com a venda de parte das terras do Convento, o qual passava por dificuldades financeiras. De todo modo, o morro se urbanizava. Mudava-se por inteiro. Particularmente no século XIX, com a chegada de gente rica, que podia pagar o luxo de palacetes e casarões, nos quais organizavam saraus literários e musicais e reuniões entre artistas, poetas e intelectuais. Até mesmo para fugirem da febre amarela, bastante presente na área central da cidade, e também para escaparem-se da aglomeração. Foi, aliás, por isso, que o cuiabano Joaquim Murtinho passou a morar em Santa Tereza, e chegou daí a lutar para ser prefeito do Rio de Janeiro, mas perdeu a batalha para Francisco Pereira Passos, em1902. Três anos depois, adoeceu: insuficiência aórtica e arteriosclerose cardiorrenal. Faleceu no dia 19 de novembro de 1911, em sua própria casa, cuja administração passou para os cuidados da sobrinha e herdeira.18 18 Laurinda Santos Lobo, nascida em Cuiabá, no dia 4 de maio de 1878, era órfã de pai. Seu tio, Francisco Murtinho – irmão da mãe –, é que passou a sustentá-la. Com o falecimento de Joaquim Murtinho, que não teve filhos, ela herdou as vilas de Petrópolis, as ações da Ferro-Carril e o casarão em Santa Teresa, e continuou a fazer dela um local apropriado para encontros de artistas, poetas e músicos. Atividade desenvolvida pelo ex-ministro e ex-senador, que gostava da música de câmara, delirava com a atriz Sarah Bernhadt e frequentava os concertos da maioria dos grandes solistas vindos ao Brasil (MACHADO, Hilda. Laurinda Santos Lobo: mecenas, artistas e outros marginais em Santa Teresa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002, 56). Lourembergue Alves 113 Os irmãos Murtinho – Manuel e Joaquim - tiveram por algum tempo as rédeas da política mato-grossense.19 Manuel chegou a ser governador e o Joaquim, senador e ministro no governo Campos Sales, além de ser “o mais disputado homeopata carioca do final do século”.20 Joaquim Murtinho contribuiu, e muito, para o progresso do morro de Santa Tereza21. Isso abreviou a vinda do bonde22 – elemento essencial para a expansão e a organização do espaço urbano no Rio de Janeiro. 19 ALVES, Lourembergue. Caetanada: violência e luta armada como estratégia de obtenção e manutenção de poder. São Paulo: Scortecci, 2002, p. 20. 20 “Pela manhã, visitava doentes e dava consultas até as nove da noite no consultório da Rua da Quitanda. Era procurado por familiares desesperados em sua casa no Morro de Santa Teresa e durante o veraneio em Petrópolis”. Em sua lista de pacientes encontravam o Conde d’Eu, Princesa Isabel, Visconde do Ouro Preto, Deodoro da Fonseca, Campos Sales, Benjamin Constant, Rui Barbosa e esposa, Maria Augusta. “A partir do trânsito na elite republicana, do saber médico, Joaquim Murtinho construirá carreira política e fortuna, se tornará um dos homens mais importantes do início da República Velha”. Em 1896, a convite de Manuel Vitorino, assume o Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas – segunda maior pasta “empregadora de recursos públicos. Mas seria como ministro das Finanças que ele passaria para a história” (MACHADO, Hilda. Laurinda Santos Lobo: mecenas, artistas e outros marginais em Santa Teresa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002, 74). 21 Mantinha em sua casa um salão litero-musical. Político poderoso, homem rico, seria muito acusado de corrupção. “Humberto de Campos relatou conversa com Edmundo Bittencourt em que o dono do Correio da Manhã, afirmando que todas as grandes fortunas do Brasil foram feitas à custa do Tesouro, explicava como patrimônios construídos por uma série de patifarias envolvendo fazendas fluminenses hipotecadas a um banco emissor no tempo do encilhamento e, mais tarde, nas liquidações do tempo de Campos Sales. Edmundo Bittencourt cita nominalmente Joaquim Murtinho. ‘Murtinho’ – diz – ‘ao morrer deixou uma fortuna superior a 50 mil contos e não foi certamente com a homeopatia que ele se tornou arquimilionário’. Uma denúncia obteve tamanha repercussão – escândalo – Andou na baila a Ferro-Carril Carioca. O escândalo envolvia Murtinho. Em 1907, quando se vende a companhia dos bondes para a Light, ele é denunciado por um velho sócio que se sentiu logrado: o ex-ministro é apontado como principal acionista da Ferro-Carril, a companhia de bondes de Santa Teresa, criada quando era ministro. O anonimato que Joaquim Murtinho procurou aponta para a especulação com terras valorizadas pelo bonde elétrico [...] Morador e grande proprietário do bairro, quem comprou pessoalmente terras no traçado da futura Ferro-Carril foi Joaquim Murtinho, e seu homem de confiança, Casemiro de Meneses, continuou ali adquirir propriedades após a inauguração [...] Foi associado à figura do milionário Barão de Rothschild” Este “teria presenteado Murtinho com uma casa [...] que ainda está lá, número 20, podendo ser vista quando o bonde de Santa Teresa mais uma vez atravessa a Lapa por cima dos Arcos e entra na Rua Joaquim Murtinho...” (MACHADO, Hilda. Op. cit., p. 21-24, 99) 22 Graças também a Ferro-Carril. Esta companhia “foi a mais antiga [...] concessão para estabelecer linhas de carris na cidade e nos morros de Santa Teresa e Paula Matos, obtida em outubro de 1872 por empresários que organizaram a Empresa Ferro-Carril de Santa Teresa [...] Entre 1885 e 1891 essa empresa passou a funcionar com o nome de Empresa do Plano Inclinado de Santa Teresa [...] expandindo as linhas nos morros de Santa Teresa e Paula Matos. Em 1888, empresa transferiu seus privilégios para uma companhia estrangeira, a Société Amonyme de Travauz ET Enterprises Du Brésil, mantendo entretanto, a firma antiga. Em 1891, foi fundada a Companhia Ferro-Carril Carioca que obteve os direitos, concessões, privilégios, uso e gozo da exploração das linhas da extinta Empresa do Planto Inclinado de Santa Teresa. No ano seguinte, a nova companhia conseguiu permissão para prolongar suas linhas do Morro de Santa Teresa até o Morro de Santo Antônio, por meio de um viaduto...” (MACHADO, Hilda. Op. cit., p. 99) 114 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” Assim, em 1882, ano da publicação do conto “O Espelho”, de Machado de Assis, o morro de Santa Tereza era o retrato do progresso da cidade do Rio de Janeiro. Foi, aliás, em uma casa modesta em Santa Tereza que quatro ou cinco cavalheiros debatiam sobre questões metafísicas. “Quatro ou cinco”, pois um deles se encontrava calado, e dizia não gostar de discussão. Jacobina, protagonista do conto “O Espelho”, é um homem entre quarenta e cinco e cinqüenta anos, e passou a narrar um episódio ocorrido na sua juventude. De acordo com a sua teoria, o ser humano é provido de duas almas: a interior, que olha de dentro para fora, e a exterior, que olha de fora para dentro. Esta última mudaria de natureza e de estado, representando os interesses que movem a existência. Jacobina conta que, quando foi nomeado alferes da Guarda Nacional, aos vinte e cinco anos, ganha uma farda e passa a ser superestimado na esfera familiar. É convidado a passar um tempo na casa da tia, que o cobre de atenções e coloca em seu quarto um antigo e valioso espelho. A bajulação e as atenções relacionadas ao posto militar, segundo ele, passam a ser sua alma exterior, tendo “o alferes eliminado o homem”. Entretanto, a anfitriã precisou partir, às pressas, e o deixou tomando conta da casa. Logo depois, os escravos fogem, e ele é obrigado a ficar sozinho, desprovido, portanto, de sua alma exterior. Assim, o tempo lhe custa muito a passar e a solidão o tortura. Um dia, ao mirar-se no espelho, não consegue ver-se nitidamente e passa a ter medo de enlouquecer, até que lhe ocorre a ideia de vestir a farda. Com ela, consegue ver sua figura reproduzida integralmente no espelho, recurso que utiliza durante mais seis dias, até que a tia regresse 23. Quando termina de contar o caso, Jacobina sai da sala furtiva23 Trata-se, aqui, de narcisismo, cujo “traço de personalidade caracteriza um exagerado sentido da própria importância e das próprias habilidades. Pessoas com esse traço acreditam serem únicas e geralmente fantasiam acerca de seu fabuloso sucesso, poder ou fama, criando expectativas sobre tratamento diferenciado e concessões de outros para com elas. No entanto, Westen (1985) aponta um paradoxo ao afirmar que indivíduos narcisísticos são, geralmente, inseguros e têm baixa auto-estima, o que sugere ser o motivo que os leva a requerem considerável admiração ser o motivo que os leva a requerem considerável admiração de outros e, além disso, encontram dificuldades em aceitar críticas [...] A princípio, não é o indivíduo quem estabelece as qualidades que deve possuir, mas outros, aqueles que o cercam no início de sua vida. Sendo assim, o narcisismo, em sua dimensão mais primitiva, está relacionado com o momento em que são instauradas no indivíduo, por meio do olhar de outros, tais qualidades que o definem, tanto para os outros, como para si mesmo”. De todo modo, ”as relações sociais constituem-se no meio pelo qual cada indivíduo busca reconhecer no outro sua própria individualidade. São, pois, relações de espelhamento em sua essência, narcísicas. Pode ser positivo, quando proporciona ao indivíduo o conhecimento de si em sua relação com o outro. No entanto, pode ser também negativo, porque o homem nem sempre se reconhece no outro. Nesse caso, o indivíduo é levado à alienação e, consequentemente, à perda da identidade [...] Como conseqüência disso, Lourembergue Alves 115 mente, e, enquanto os companheiros se refaziam da comoção produzida pelo relato, ele já havia descido as escadas. De todo modo, o conto de Machado de Assis tem como tema a alma humana, metaforizada no espelho, que representa, nesse escrito machadiano, a alma exterior de Jacobina. O espelho, por outro lado, uma “obra rica e magnífica” denota a vaidade do homem, que mistura a tradição do objeto com o prazer de ser visto por si próprio e pelos outros. Além disso, em “O Espelho”, Machado trata igualmente da alma nacional do Brasil e faz referência a identidade nacional. Traço, aliás, de fácil identificação, pois era próprio da literatura brasileira da época, de acordo com as palavras de “O Bruxo do Cosme Velho”. A farda de alferes, no dito conto, “simboliza” ou “representa a nacionalidade” do personagemnarrador, exalta o seu sentimento e o seu pertencimento a uma nação. Sentimento que se dá com “a negação dos valores da antiga metrópole”, e este coincide com a “fase realista da literatura”, a qual se prende ao relato de problemas reais, cotidianos. Machado de Assis valia-se da ficção e da subjetividade para “transportar as questões sociais para o papel”.24 Por outro lado, a alma de Jacobina e a alma do povo são duas imagens que se projetam ou se dissolvem na moldura velha, mas tradicional. A alma nacional precisava da tradição monárquica para sua representação no espelho da sociedade, como a velha moldura coberta de madrepérola, mas corroída pelo tempo. Jacobina posiciona criticamente sobre um episódio ocorrido em sua juventude. Certamente influenciado pelo distanciamento, que lhe permite avaliar os fatos com mais objetividade. Inclusive diante da vida fútil da alta sociedade. Este exercício, o da crítica, é também uma forma importante da participação política. Pois, afinal, fornece elementos para que cada indivíduo proceda conscientemente ao tomar suas próprias decisões e ajuda os demais a formarem suas respectivas opiniões. Até porque “quanto mais posições de pessoas” alguém “tiver ao ponderar um dado problema, e quanto melhor puder imaginar como ele sentiria e pensaria se estivesse em seu como alerta Maccoby (2000), essa desordem pode provocar vários distúrbios, como depressão e stress que são, por sua vez, geradores de comportamentos não desejáveis, principalmente em determinadas situações, como, por exemplo, aquelas em que o indivíduo narcisista não é o centro das atenções” (SOARES, Carem Rocha; GOULART, Íris Barbosa. A manifestação do narcisismo nas práticas discursivas de liderança. Disponível em: <http://www.fpl.edu.br/periodicos/ index.php/get/article/viewFile/80/221>. Aceso em: 20 maio 2012). 24 ESTEVÃO, Bruna; CRUZ, Eduardo da; MOCHENSKI, Franciane. O espelho de Machado de Assis refletindo um nacionalismo brasileiro “autêntico”. Revista Vernáculo, n. 23 e 24, p. 26, 29, 2009. 116 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” lugar, mais forte será” sua “capacidade de pensamento representativo e mais válidas” suas “conclusões finais”, suas “opiniões”25. Estas carecem de fundamentos, uma vez que não são auto-evidentes, e se formam nos confrontos ou nas esgrimas sobre as contradições existentes nas realidades. O que possibilita a formação da estrutura de sustentação do corpo político. Até porque as comunidades políticas se constroem na convergência dos contrários 26, e o processo político, pelo seu turno, exige uma escolha entre diversos argumentos. O personagem-narrador, agora, demonstra ser outra pessoa, bem diferente de quando tinha vinte e cinco anos, mais madura e com instrução, a qual fica clara durante as citações de atores da história, tal como no seguinte trecho do dito conto: [...] e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. “Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração.” Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele [...] Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável [...] li uma poesia america25 “É essa capacidade de uma mentalidade alargada que habilita os homens a julgarem; como tal, ela foi descoberta por Kant na primeira parte de sua Crítica do Juízo, embora ele não reconhecesse as implicações políticas e morais de sua descoberta. O próprio processo da formação de opinião é determinado por aqueles em cujo lugar alguém pensa e utiliza sua própria mente, e a única condição para esse exercício da imaginação é o desinteresse, a liberação dos interesses privados pessoais. Por conseguinte, mesmo se evito toda companhia ou me acho completamente isolado ao formar uma opinião, não estou simplesmente junto apenas a mim mesmo, na solidão da meditação filosófica; permaneço nesse mundo de interdependência universal, onde posso fazer-me representante de todos os demais” (ARENDT, Hannah. Verdade e política. In: ____. Entre o passado e o futuro. Tradução de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 299). 26 Afinal, “o conflito é de palavras, com palavras. Na guerra de palavras, conceitos nascem, coisas despertam. O conflito é pai, é rei: verbal é seu império. Palavras dominam palavras, reinam e libertam. A pluralidade expansiva do logos atravessa entrelaçamentos, redes, textos. O logos lega, liga. Vasto é seu legado. Não se confundam conflito e devastação guerreira. O conflito cria e preserva. Responsável pela correlação, o conflito congrega. Não se exclua a philia do conflito. Contradições se buscam. Se os entes não fossem conduzidos por ela, os oponentes se aniquilariam. Sem acordo não há convívio. Posso ser hostil sem ser inimigo. Ao me opor a outrem, reconheço-o como aquele que decidiu ser quem é. Exemplar é a rebelião de Prometeu. Ousou invadir o palácio de quem vibra o raio para trazer aos homens melhores condições de vida. Conquistado foi o quinhão que lhe coube. O conflito, determinado por objetivos precisos, conjuga destino e responsabilidade. Verbal é o conflito que gera e protege muralhas legais” (SCHULER, Donaldo. Origem do discurso democrático. Porto Alegre: L&PM, 2002, p. 79-80). Lourembergue Alves 117 na, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! – For ever, never! Confesso lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: – Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada [...] Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes [...]27 Por outro lado, de acordo com Andrea Barros, “O Espelho” suscita e expressa o estranhamento, o medo do homem moderno diante da nova configuração da vida social, do trabalho e das relações humanas na modernidade28. Situação que faz Jacobina se firmar como um niilista pleno, pois no instante em que se coloca na condição de moderno, revela-se também impossibilitado de adesão às coisas. E, mesmo assim: [...] sua adesão é uma farsa, é uma aparência. O que difere a alma moderna da antiga – aludida nas referências a César, Cromwell, Camões – é o fato de a decadência dos valores absolutos ter tornado a alma moderna incapacitada de absorver o que quer que seja ou aderir a algo com plena convicção. Estando lançada num mundo radicalmente inconsistente, ela vê a si mesmo em sua total transparência, isto é, ela vê sua mutualidade e sua inconsistência essenciais.29 As mudanças, que ocorriam à época, eram frutos de uma sociedade alicerçada em valores contraditórios, nos quais mesclava um discurso liberal às ideias e relações econômicas e sociais ainda presas aos modelos vigentes na recém abolida escravidão30. Uma sociedade conservadora em mudanças. 27 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. O espelho. Pará de Minas, MG: Virtual Books Online M&M, 2003, p. 4, 7, 8. 28 BARROS, Andrea de. Reflexões do medo na modernidade: uma leitura de “O Espelho” (1882), de Machado de Assis. Miscelânea – Revista de Pós-Graduação em Letras/UNESP. Assis, v. 4, p. 34, jun./Nov. 2008. 29 MOTTA, Gilson. Uma abordagem do trágico no conto “O Espelho”, de Machado de Assis. Disponível em: <http://www.pgletras.uerj.br/palimpsesto/num6/dossie/dossie6_Gilson%20Motta. htm>. Acesso em: 13 maio 2012. 30 ARMANGE, Ana Helena Krause. O diálogo entre narrador e narratório em contos machadianos e sua contribuição para a significação. Porto Alegre, 2004, 230 p. Dissertação (Mestre em Letras, na área de Literatura Brasileira), Instituto de Letras/Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em: <www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6294/000439975.pdf?>. Acesso em: 12 maio 2012. 118 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” Percebe-se, então, o escolher, o optar-se e o posicionar-se. Tripé que marca “o estar no mundo”31, parafraseando aqui Paulo Freire. Estar no mundo que significa estar com o mundo e com os outros – estrutura discursiva dialógica. Própria da política, cujo campo é o do pensamento no plural, no dizer Hannah Arendt32. Daí a sua exigência por um espaço apropriado. Não regido pelas virtudes do governante ou dos representantes nos Parlamentos, nem pelos valores do campo privado. Mesmo em tempo, como agora, em que a privacidade se entra na rede social e, igualmente, se encontra em vários tipos de Big-Brother. Diferentemente da época em que a intimidade só era escancarada pela literatura33, a qual também é um produto artístico destinada a agradar e a comover, assim como também pode ser o espelho das realidades sociais. O que, necessariamente, faz do literato um ser social e participante “dos movimentos da sociedade em que vive e de que depende”34, e é através da linguagem que ele se apropria do mundo e, ao mesmo tempo, busca expô-lo. Daí a necessidade de se trazer as obras literárias para dentro das Faculdades de Ciências Humanas. A de Direito não foge a esta regra. Nem deveria, pois é grande “a importância da linguagem textual e da Literatura para a compreensão do direito”35. Isso porque, através do método comparativo com outros campos do conhecimento, e em especial a literatura, permite melhor compreender a questão da interpretação do direito. Livros 31 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 79. 32 Diferentemente, portanto, do pensamento em si mesmo que, de acordo com Hannah Arendt, “é o diálogo silencioso conduzido de mim para comigo, devo ser cuidadoso para manter intacta a integridade desse parceiro; de outra maneira, perderia inteiramente, decerto, a capacidade de pensamento” (ARENDT, Hannah. Verdade e política. In: ___. Entre o passado e o futuro. 5. ed. São Paulo: Perspectiva, 2003, p. 303. 33 A literatura abria fechaduras, frestas nos muros e rachaduras nas portas, além de levar o leitor a percorrer todos os corredores das casas – grandes ou pequenas – até as alcovas. Os relacionamentos entre casais são, portanto, desnudados, com lances de adultérios e vidas misturadas em cortiços e palacetes. Inclusive, os velhos e seus desejos mais íntimos. Aliás, nos contos “Ruído de passos” e “Mas vai chover”, Clarice Lispector trata da sexualidade e expõe uma face da velhice que não costuma ser discutida, especialmente quando se trata do desejo feminino. Essa exposição de um drama íntimo sob forma de literatura permite a reflexão sobre o tema visto com preconceito pela sociedade, e observar sua forma de representação. 34 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. O passado, o presente e o futuro da literatura. Disponível em: <http://www.superdownloads.com.br/download/2/passado-presente-futuro-da-literaturamachado-de-assis/>. Acesso em: 12 maio 2012. 35 ROCHA, Leonel Severo. Semiologia e desejo. In: OLIVEIRA JÚNIOR, José Alcebíades(org). O poder das metáforas. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998, p, 79. Lourembergue Alves 119 a exemplo do “Mercador de Veneza”36, “Helena”37 e “O crime do Padre Amaro”38 são imprescindíveis para entender as noções de justiça. Tais noções podem ser discutidas, igualmente, com “A hora da estrela”39, sobretudo no que concerne ao princípio isonômico – diretamente ancorado na dignidade da pessoa humana – e no instante em que vincula a literatura ao problema da eficácia das normas sociais. Neste caso, aliás, não se pode negar a profundidade da visão de Shakespeare, descrevendo a demanda de Shylock como um anseio, mais forte do que isso, uma sede, fome ou desejo físico pelo Direito, demarcaria a intensidade da relação entre a pretensão do credor e o direito objetivo40. 36 SHAKESPEARE, William. O mercador de Veneza. 1 ed. Traduzido por Beatriz Viegas-Faria. São Paulo: L&PM, 2007. 37 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Helena. 1 ed. São Paulo: Globus, 2011. 38 QUEIROZ, Eça de. O crime do Padre Amaro. São Paulo: L&PM, 2006. 39 Esta obra, de Clarice Lispector “introduz o leitor, por intermédio da narrativa das fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela, a uma realidade chocante, na qual a ingenuidade de sua protagonista, a nordestina Macabéa, se depara com um mundo voraz. Macabéa é, ainda que sua consciência não o consiga perceber, antes de tudo, uma mulher. Mulher que, analisada por seu gênero, ao longo da História sempre ocupou o segundo plano das relações sociais [...] Alguns aspectos histórico-sociais, embora exteriores à obra, podem ter influenciado diretamente seu contexto. Publicada em 1977, período de turbulência política e instabilidade no país, pairando uma expectativa acerca do fim do período ditatorial, o trabalho literário surge com um sentido explicitamente social [...] Entretanto, o foco não era apenas mostrar as dificuldades enfrentadas por nordestinos que migravam para o sul em busca de melhores condições de subsistência. Parece evidente a intenção da autora em apresentar também outra perspectiva: as relações e interações entre gêneros [...] A coletividade retratada de maneira tão sórdida, desprovida de uma linguagem que lhe retire a fidedignidade, aviva o tema da violência contra a mulher, questão que assume extraordinária relevância nos dias atuais, dada a gradual evolução da sociedade no sentido de repensar um ideal adotado ao longo dos séculos e que só recentemente começa efetivamente a se alterar [...]Dessa forma, “À Hora da Estrela” revela-se instigante ponto de partida para a investigação científica que concerne ao Direito no ramo da Criminologia, dada a similitude existente entre as disciplinas que se confrontam. Veja-se que o pensamento helênico entendia a Literatura como a arte que imitava pela palavra. Aristóteles pregava que arte literária era o processo de recriação da realidade (mimese). Bem assim, também o Direito era tido como uma arte, ou, mais precisamente, como uma técnica, que tinha por objeto o bom e o justo” (MAIS, Carlo Velho; AMATO, Gabriela Cruz. A estigmatização do gênero feminino em “A hora da estrela”: uma reflexão criminológica acerca da violência contra mulher. Revista Direito e Justiça. São Paulo, v. 35, n. 1, p. 22, 24, 25, jan./jun. 2009). 40 “A proximidade de Shakespeare com o mundo jurídico é constatada por Honan, ao reconstruir o início de sua trajetória em Londres. Ele descreve que ‘comerciantes e suas esposas, cortesãos e litigantes, residentes temporários e estudantes das sociedades de Direito [...] constituíam alguns dos componentes de um público sofisticado e educável, e os estudantes de Direito, na verdade, contribuiriam para educar a sociedade londrina’. Em outra passagem afirma que ‘Ele [Shakespeare] havia começado a entreter alguns dos entusiastas mais fervorosos do teatro, os estudantes de Direito e outros hóspedes das grandes sociedades jurídicas de Londres, os Inns of Court e os Inns of Chancery’, e que historicamente, as sociedades jurídicas patrocinavam o teatro quase sempre como um dever de lealdade e tinham poetas e futuros dramaturgos em seus quadros” (HONAN, Park. Shakespeare: uma vida.Trad. de Sonia Moreira. São Paulo: Cia das Letras, 2001, p. 137. Apud. OLIVO, Luiz Carlos Cancellier de. O estudo do direito através da literatura. Tubarão: Studium, 2005, p. 25). 120 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” Esta afirmação é valiosa para todos os conteúdos que constituem a grade curricular do referido curso. Especialmente a disciplina de Ciência Política que, definitivamente, não pode ser confundida com o Direito Constitucional e a Teoria Geral do Estado, embora necessite conversar com estas, ainda que em grau menor com que se relaciona com a História, Filosofia, Sociologia e a Literatura. Particularmente no instante em que se percebe um vazio de ideias e de propostas sobre o tablado da esgrima. Vazio que reduz o jogo político no personalismo, de fato. Isso tem reforçado os preconceitos contra a própria política41. O perigo disso, no entanto, é o desaparecimento da própria política. Justamente ela que “é algo como uma necessidade imperiosa para a vida humana e, na verdade, tanto para a vida do indivíduo como da sociedade”42. Pois é sua a tarefa e o objetivo de tornar a vida mais ampla. Sobretudo no que diz respeito à convivência, ainda que seja a moda Jacobina, do conto machadiano, uma vez que até neste caso haverá também a necessidade de agir – juntamente com outrem – e é esta faculdade que faz do homem um ser político. Condição que o obriga a não abrir mão do relacionar-se, do dialogar-se. Afinal, tudo que os seres humanos fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Até porque a inserção no mundo humano se dá com palavras e atos. Processo que carece da garantia da permanência nesse mesmo mundo, ou melhor, no mundo político. Isto só ocorre por meio do diálogo não do “eu consigo mesmo”, mas com os outros, com os quais se deve chegar a um acordo, ainda que temporário ou provisório. Daí o sentido da interação. Resultante, contudo, da capacidade de cada um atribuir aos dados do mundo uma função ou um lugar determinado no espaço físico, social e cultural em que se encontra inserido. Assim, aquele mundo, agora denominado político, se apresenta como um universo de valores e conceitos interiorizados na relação entre umas pessoas com as outras. Importa-se, aqui, a representação das realidades por meio de sistemas simbólicos. E este campo comunicado “é sempre fruto de um agir comunicativo constru41 Estes “representam algo de político no sentido mais amplo da palavra: não brotam da soberba das pessoas cultas e não são culpados do cinismo delas, que viveram demais e compreenderam de menos. Não podemos ignorá-los porquanto estão presente em nossa vida, e não podemos atenuá-los com argumentos porquanto refletem realidades incontestáveis e, com maior fidelidade ainda, a qual situação existente, de fato, justamente em seus aspectos políticos. No entanto, esses preconceitos não são juízos definitivos. Indicam que chegamos a uma situação na qual não sabemos – pelo menos ainda – nos mover politicamente. O perigo é a coisa política desaparecer do mundo” (ARENDT, Hannah. O que é política? 7. ed. Tradução de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007, p. 25). 42 ARENDT, Hannah. O que é política? op. cit., p. 45. Lourembergue Alves 121 tivo e imaginativo e, no caso específico dos textos”, pode-se “observar como passar, por meio da língua, de um mundo real a um mundo representado, ou seja, de um mundo a significar a um mundo significado”.43 O espaço é o mesmo para o simbólico ou para o real – melhor, para as realidades, assim no plural. Pois inexiste tão somente uma realidade, no singular. Apesar disso, e até por essa razão, o inconsciente também se manifesta abertamente, sem a censura do ego – do “eu consigo”, a exemplo do personagem-narrador de “O Espelho”, mais precisamente em sua fase de apolítico, quase no ritmo do Bentinho de “Dom Casmurro”44, o qual tenta reviver as emoções de sua vida através da reconstrução do passado. Relembra-se de Capitu – transformada por Machado de Assis em um enigma, a partir da ambiguidade das imagens metafóricas usadas para descrevê-la, com base no significante olhos/olhar: olhos de ressaca, olhos de cigana, olhos oblíquos e dissimulados; enquanto o narrador-personagem se perde na teia de seus medos, dúvidas e fantasias interiores. Porém, sem perder o controle do fio narrativo, que é sempre consciente e volitivo, adequado os seus fins. Uma dúvida que Machado fez questão que perdurasse, inclusive para a reflexão do seu leitor: houve ou não a traição de Capitu? Aliás, o próprio viver democrático é recheado de dúvidas e de questionamentos. E este viver, diferentemente do vivido por Bentinho, não é uma questão de achismo. Afinal, “o campo resolutivo é, como sempre, a história”, e no transcorrer e na construção desta os homens garantem a própria sobrevivência, cujo terreno se tem “algo mais sólido e mais nítido”, que é a “gênese e o desenvolvimento da função social” – “origem da política”. Ponto de partida, sem o “prescindir do solo histórico”45. CONSIDERAÇÕES FINAIS História e política, nesse exato instante, se entrelaçam, sem se fundirem, uma vez que cada qual tem a sua área por onde atua. O diálogo entre elas, entretanto, depende dos atores presentes. Aliás, “o espaço público é 43 MONNERAT, Rosane S. M. As faces n(o)/´o (e) espelho: seleção lexical e construção de identidade. Disponível em: <http://www.ufsj.edu.br/portal-repositorio/File/Vertentes34/Rosane%20 Monnerat.pdf>. Acesso em: 15 maio 2012. 44 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Dom Casmurro. Rio de Janeiro: Ediouro; São Paulo: Publifolha, 1997 (Biblioteca Folha, 20). 45 LESSA, Sergio. Lukács – ética e política: observações acerca dos fundamentos ontológicos da ética e da política. Chapecó: Argos, 2007, p. 38-39. 122 Ciência política, história e literatura: um diálogo através do “espelho” um espetáculo que, como o teatro”, é constituído de atores, críticos e expectadores. Aqueles primeiros dependem da aprovação ou desaprovação destes últimos, e estes não se “retiram do mundo das aparências”. Mundo, “dada a sua intersubjetividade”, carece da “comunicabilidade pública”, via discurso, o qual requer, “por dar-se no plural”, “a concordância potencial dos outros da qual depende o agir conjunto”.46 Percebe-se aí a importância da comunicação. Daí a relevância da junção da política com os meios de comunicação. Até mesmo em razão da persuasão, não necessariamente do convencimento do eleitorado. De todo modo, vale à pena reforçar a relevância da comunicação. E para a existência desta é necessário recorrer a um sistema de sinais. Esses sinais têm todos em comum o fato de possuírem uma face material, possível de ser aprendida pelos sentidos (o significante) e uma face não-material, estritamente mental, inapreensível pelos sentidos (o significado). A esses sinais constituídos por um significante e um significado chamados de signos. Nem sempre, no entanto, a mensagem levada é, de fato, compreendida. A não compreensão, vez ou outra, se deve a uma falha de comunicação, do transmissor, e, em ocasiões diferentes, do receptor que, dos dois, é o agente mais importante. Isso porque é ele que tem a responsabilidade de decodificar os símbolos e, igualmente, a mensagem. Ainda que esta seja toda norteada pelo tecnicismo. Um tecnicismo que pode ser desmitificado com o uso da didática, a qual exige instrumentos variados. Nesse sentido, a dialógica não pode ficar de fora. Até em razão do próprio caráter da política, que apresenta uma estrutura dialógica. Daí a importância da presença dos textos literários. Estes são produtos da sociedade na qual os autores viveram e vivem, cujas obras estão impregnadas de falas, lacunas e silêncios.47 Silêncios que podem ser quebrados pelo trabalho do historiador, à medida que este procura preencher as lacunas deixadas. Isso, no entanto, não apaga as pegadas do literato, o qual faz uso de inúmeros “fios”, que “são tecidos”, e se tornam “assim um novo texto entre os quais”, ele “deixa transparecer, em sua escrita sua visão de mundo, isto é sua forma de enxergar a realidade brasileira”.48 46 LAFER, Celso. Hannah Arendt: pensamento, persuasão e poder. 2 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003, p. 101-103. 47 CHALOUB, Sidney. Machado de Assis: historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 92. 48 Idem, p. 112. Ver também ARAUJO, Cláudia M. de. Os espaços público e privado subjetivados por Machado de Assis. Disponível em: <http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/HELENAMACHADODEASSIS.pdf>. Acesso em: 10 mar. 2012. Lourembergue Alves 123 Percebe-se, então, que a ficção é uma forma plausível de representação das realidades. Isso faz a história aproximar-se da literatura. Principalmente porque a obra literária fornece “o singular, o privado, o subjetivado, o sensível” e, assim, juntas, porém independentes, história e literatura, possam “desvendar e iluminar aspectos muitas velados da realidade histórica e da política” 49. O trabalho com a literatura, portanto, se constitui em uma nova perspectiva se pensar a história e a política, e o porquê não a Ciência Política, como disciplina pertencente à grade curricular do curso de Direito. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Lourembergue. Caetanada: violência e luta armada como estratégia de obtenção e manutenção de poder. São Paulo: Scortecci, 2002. ARAUJO, Cláudia M. de. Os espaços público e privado subjetivados por Machado de Assis. Disponível em: http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/HELENAMACHADODEASSIS.pdf. Acesso em: 10 mar. 2012. 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