DO RECIFE PARA NOVA IORQUE
Quando da tomada de Pernambuco pela força das
armas das tropas holandesas, financiadas pela
Companhia das Índias Ocidentais, e consolidação das
fronteiras do Brasil Holandês, após a vitória contra os
naturais da terra em 1635, mais de 7.000 pessoas
vieram morar na estreita faixa de terra da zona
portuária do Recife.
Acentua José Antônio Gonsalves de Mello que "ocupado
Pernambuco pelas armas da Companhia das Índias
Ocidentais muitos cristãos-novos, que aqui moravam,
declararam-se publicamente judeus, fazendo-se
circuncidar. Possivelmente essa confissão de fé que
secretamente professavam foi feita quando da
consolidação da conquista, no início de 1635. Essa
decisão foi possível graças à concessão de liberdade de
consciência pelos Estados Gerais dos Países Baixos. No
'Regimento do governo das praças conquistadas ou que
foram conquistadas' concedido pelos Estados à
Companhia das Índias Ocidentais, datado de Haia, 13
de outubro de 1629, permitia-se aos que residiam nas
terras onde se viesse a estabelecer a soberania
holandesa, quer fossem espanhóis, portugueses e
nativos, católicos ou judeus, 'que não sejam molestados
ou sujeitos a indagações em suas consciências ou em
suas casas particulares'"( Gente da Nação p. 212-213).
A tomada de Pernambuco ecoou como uma boa-nova e
veio a despertar a atenção dos judeus portugueses
(sefardim) e alguns outros migrados da Polônia e da
Alemanha (ashkenazim), residentes na Holanda, que
logo se apressaram em vir tentar a sorte em terras do
Nordeste do Brasil. A situação desses judeus,
estabelecidos em Amsterdam e em outras localidades
dos Países Baixos, era, por vezes, de extrema penúria,
como bem demonstra Elias Lipiner, em artigo publicado
na revista Comentário. Rio, 1972. ano XIII nº 50 p. 5382.:
A liberdade religiosa concedida aos judeus na Holanda
atraía para esse asilo os fugitivos da Inquisição em
número constantemente crescente. Aumentava, em
conseqüência, na mesma proporção, a quantidade de
pessoas necessitadas. Cabe lembrar aqui que entre as
associações judaicas existentes em Amsterdam nos
séculos XVII e XVIII, a maioria visava ao socorro dos
pobres. As denominações hebraicas destas associações
revelavam as suas finalidades beneficentes: AviYdthomim (Pai dos Órfãos), Avodáth-Hakhéssed (Ação
Caritativa), Baalé-Zedaká (Os Benfeitores), Bikúr-Kholim
(Auxílio aos Doentes), Khonén-Dalim (Protetor dos
Pobres), Éven-Yekará (Pedra Preciosa), Guevúl-Almaná
(Asilo das Viúvas), Guemilúth-Khassidim (Obra
Beneficente), Maassim Tovim (Ações Boas), MaréiNéfesh (Pessoas Aflitas), Maskil-el-Dal (Protetor dos
Necessitados), Mezón-Habanóth (Alimentação das
Órfãs), Meli-Zedaká (Roupas para os pobres),
Menakhém-Avelim (Consolo aos Enlutados), MishénethZekenim (Amparo aos Velhos), Móhar-Habethulóth
(Dote para as Donzelas), Nothén-Lékhem-Ladái (Pão
para o Pobre), Ozér-Dalim (Auxílio aos Pobres), etc.
Cita ainda a mesma fonte opúsculo do filósofo e
economista judeu holandês Isaac de Pinto (1715-1787)
que, ao analisar a situação de pobreza de alguns judeus
de Amsterdam, onde "800 famílias que vivem ou
morrem a nosso cargo", aconselha uma emigração
organizada a ser conduzida ao "Suriname, Curaçao,
Jamaica, Barbados e outras colônias da América, onde
já existissem comunidades judaicas". Deixa de
mencionar o Brasil, visto que a comunidade formada na
primeira metade do século XVII, havia sido extinta
quando da expulsão dos holandeses em 1654.
Estabelecido o governo holandês, muitos cristãos-novos
de Pernambuco vieram a declarar-se publicamente
judeus, fazendo-se circuncidar, dentre os quais Gaspar
Francisco da Costa, Baltasar da Fonseca e seu filho,
Vasco Fernandes [Brandão] e seus filhos, Miguel
Rodrigues Mendes, Simão do Vale [Fonseca], Simão
Drago e muitos outros.
Com a notícia de uma colônia holandesa no Nordeste do
Brasil, um grande número de judeus sefardim e alguns
poucos ashkenazim resolveram embarcar para a nova
colônia. Isso se depreende do grande número de
solicitações, feitas ao Conselho Político da Companhia
das Índias Ocidentais em Amsterdam, no período de 1º
de janeiro de 1635 a 31 de dezembro de 1636, cujo
único livro de atas se conservou até os nossos dias.
Na significativa lista de judeus que solicitam
transferência para a "terra do açúcar", naqueles dois
anos, trazendo consigo suas famílias, se depreende os
requerimentos assinados por Abraão Serra, dois filhos e
um irmão; Jacobus Abecanar, quatro filhos; Jacob
Moreno, com a mulher, desejando estabelecer-se como
cirurgião na Paraíba; Pedro de Lafaia, a mulher, dois
sobrinhos e duas sobrinhas; a mulher e dois filhos de
Diogo Peixoto , cujo marido já se encontrava no Recife;
três ourives portugueses Moisés Neto, Isaac Navarro e
Matatias Cohen; Arão Navarro e um criado; Abraão
Gabid; Miguel Rodrigues Mendes; Bento Rodrigues;
Benjamim de Pina; João Carvalho; Abraão Cardoso e
Isaac de Cáceres; Daniel Gabilho que ia ao Brasil a
serviço de Duarte Saraiva; David Ferdinandus; Simão
Gomes Dias e Jacob Serra, com mulheres, filhos e toda
a mobília; Rodrigues da Costa e Moisés Franco de Wit;
Abraão Serra e um filho de 16 anos; David Levy Bon
Dio; Jacob Fundão; Abraão Gabai, com sua mulher, sua
mãe e cinco filhos; Moisés Alves; Salvador de Andrade e
Davi Gabai "seu camarada"; Isaac da Costa e seu primo
Bento Osório; Simão Gomes Dias, sua mulher e uma
criada; Jacob Serra e seu sobrinho, Mardocai Serra;
Samuel Namias; Jacques Rodrigues e seu empregado,
Moisés Rodrigues; David Gabai e Salvador de Andrade;
Jacob Rodrigues e Manuel Henriques, com o seu criado
Moisés Rodrigues; os comerciantes David Atias, Jacob e
Moisés Nunes. Grande parte dos solicitantes pediam à
Câmara de Amsterdam passagem gratuita, havendo
alguns que se comprometiam em pagar as despesas de
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A nação judaica
DO RECIFE PARA NOVA IORQUE
(Continuação)
A Rua dos Judeus
Com a consolidação da ocupação de Pernambuco,
milhares de judeus aqui se estabeleceram no ramo do
comércio, particularmente do açúcar e do tabaco,
chegando alguns a possuir engenhos e a dedicar-se à
cobrança de impostos e ao empréstimo de dinheiro.
Alguns deles dedicavam-se ao comércio de escravos
que, trazidos pelos barcos da Companhia da costa da
África, eram aqui arrematados em leilões e vendidos a
prazo aos senhores de engenho; atividade retratada
pelo artista Zacarias Wagener, que viveu no Recife entre
1634 e 1641, no seu "Mercado de escravos na Rua dos
Judeus".
Por sua vez, tornou-se crescente o número de judeus
que se transferiam para Pernambuco, a partir de 1635,
originários principalmente dos Países Baixos, conforme
se comprova em depoimentos da época; a exemplo de
Manuel Mendes de Castro que, em 1638, trouxe de uma
só vez em dois navios 200 deles, entre ricos e pobres,
mulheres e crianças ( Gente da Nação p. 218 - 223).
Tal era o número de judeus que chegavam ao Recife
que o Conselho Político, em sua reunião de 9 de
novembro de 1635, assim decide: "como a extensão e
área do Recife é pequena para acomodar os
comerciantes livres em suas necessidades e negócios,
resolveu-se vender um terreno medindo oitenta pés de
comprimento e sessenta de largura [2.434,40 cm. x
1.828,80 cm.], situado fora de portas onde se costuma
fazer a 'guarda do bode' ( bochenwacht), ao Senhor
Duarte Saraiva, comerciante livre aqui, pelo preço de
450 reais e oito, para que construa uma casa segundo o
seu gosto, ou para vender o terreno ou casa e o terreno
para seu lucro".
Esse terreno estava localizado fora da " porta de terra ",
ao Norte do Recife, no istmo que ligava a povoação a
Olinda, e, graças às construções nele realizadas, já a
partir de 1636, veio dar origem à Rua dos Judeus,
denominação que se manteve até 1654, quando da
expulsão dos holandeses de Pernambuco.
Duarte Saraiva, conhecido entre os do Recife e da
Holanda pelo nome de David Senior Coronel, judeu
português nascido em cerca de 1572 e cujo filho, Isaac
Saraiva, era rabino e mestre-escola entre os judeus
portugueses de Amsterdam, veio a ser um dos
principais líderes da comunidade de então. Na sua casa
funcionou a primeira sinagoga, em 1636, antes de ser
construído o prédio onde veio estabelecer-se de forma
definitiva a Kahal Kadosh Zur Israel , ou seja, a "Santa
Comunidade o Rochedo de Israel", talvez em alusão ao
próprio Recife; bem de acordo com a visão de outro
contemporâneo, o reverendo Joannes Baers (1580-
1653), que assim sintetiza a descrição da cidade de
então: "o Recife é um arrecife".
Segundo José Antônio Gonsalves de Mello, in Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro , v. 149, Rio
1988, "na Rua dos Judeus residiam aqueles que tinham
alcançado as melhores condições econômicas e muitas
de suas casas foram construídas pelos proprietários,
pois que a área da Rua dos Judeus foi incorporada à
cidade após a ocupação holandesa. Nessas casas a
parte residencial colocava-se no andar ou andares
superiores, ao rés-do-chão ficava a casa de negócio.
Vários judeus ricos moravam nessa rua, como Gaspar
Francisco da Costa (aliás José Atias), Moisés Navarro,
Abraão Azevedo e Duarte Saraiva (aliás David Senior
Coronel), dentre outros".
O prédio da sinagoga
Com o aumento da comunidade fez-se necessário uma
casa de orações, daí ter-se estabelecido uma sinagoga
na casa do capitalista Duarte Saraiva, o mesmo que
comprara o terreno "na guarda do bode" e que,
segundo o autor de Gente da Nação , "pela sua idade [c
64 anos] e sua ação entre os correligionários, era
pessoa prática no judaísmo, um pregador leigo, sendo
um dos seus filhos, Isaac Saraiva, haham, isto é, rabino
e mestre-escola entre os judeus portugueses de
Amsterdam".
É desta época o surgimento da nova sinagoga do
Recife, estabelecida no primeiro semestre de 1636,
segundo denúncia dos predicantes do Conselho da
Igreja Reformada, Schagen e Poel, feita ao Conselho
Político em 23 de julho daquele ano: "Em primeiro lugar,
observa-se que os judeus que residem aqui começam a
estabelecer uma assembléia em forma de sinagoga, o
que deve ser impedido" ( Dag Notule ).
Em princípio funcionou a sinagoga em casa alugada,
mas, logo depois, veio a ser construído um templo
próprio em pedra e cal, possivelmente entre 1640 e
1641, conforme documento enviado ao Conselho dos
XIX, com data de 10 de janeiro de 1641.
Em 1839, quando da publicação do Inventário dos
prédios que os holandeses haviam edificado ou
reparado até o ano de 1654 , manuscrito raríssimo que
teve a sua segunda edição em 1940, aparece a
indicação local onde funcionou a primeira sinagoga do
Novo Mundo: "Umas casas grandes de sobrado da
mesma banda do rio, com fronteira para a Rua dos
Judeus, que lhes servia de sinagoga, a qual é de pedra
e cal, com duas lojas por baixo, que de novo fabricam
os ditos judeus". - Hoje, como veremos adiante, a
antiga sinagoga ocuparia os prédios de nº 197 e 203 da
Rua do Bom Jesus, no bairro do Recife.
A sinagoga estava situada no sexto lote de terreno,
construído a partir do norte, funcionando no primeiro
andar de um prédio geminado, servido por uma só
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alimentação; sendo registrado casos, como Duarte
Saraiva, cujo nome judeu era David Senior Coronel e
que em 1635 já se encontrava no Recife, de judeus que
pagavam todas as suas despesas.
DO RECIFE PARA NOVA IORQUE
(Continuação)
Na sinagoga Zur Israel , do bairro do Recife, serviam
personagens ilustres como o Hazan (o leitor), Jehosua
Velosino; o Rubi (o mestre-escola), Samuel Frazão e o
Samas (guarda) Isaac Nehamias, segundo relação do
ano de 1649. O famoso erudito Menasseh ben Israel
(1604-1657), rabino de Amsterdam, cujo nome
português era Manuel Dias Soeiro que esteve para partir
para Pernambuco em 1640, onde já se encontrava o
seu genro, Ephraim Soeiro, ao publicar a segunda parte
de sua obra em 1641, O Conciliador etc. , em quatro
volumes (Amsterdam, 1632-51), faz uma dedicatória
"aos anciãos da Nação Judaica" do Recife, David Senior
Coronel, Dr. Abraão de Mercado, Jacob Mocat e Isaac
Castanho.
O berço da literatura hebraica
Com o retorno do conde João Maurício de Nassau à
Holanda, em 1644, teve início, logo no ano seguinte, o
movimento chamado de Insurreição Pernambucana
que, liderado por João Fernandes Vieira e outros
representantes da nobreza da terra, visava a expulsão
das tropas da Companhia das Índias Ocidentais do
território da então capitania de Pernambuco.
O ano de 1646 foi de grande crise para os holandeses e
judeus residentes no Recife. Depois das vitórias
conquistadas no monte das Tabocas, na Casa Forte e no
Cabo de Santo Agostinho, nos meses de agosto e
setembro de 1645, os insurretos isolaram o Recife,
deixando os seus habitantes sem acesso aos alimentos
produzidos na zona rural, o que resultou em grande
fome para cerca de 6 a 8.000 pessoas, quando até ratos
foram consumidos pela população.
Esse momento de privação é descrito em cores vivas e
pungentes na coletânea hebraica sob o extenso título:
"Memória que compus acerca dos milagres de Deus e
seu imenso favor com graça e misericórdia concedida à
Casa de Israel, no Estado do Brasil, quando sofreram o
ataque das tropas de Portugal, gente indigna que
despreza Seu nome, para exterminar , matar e aniquilar
todos que eram de origem de Israel, inclusive crianças e
mulheres, num só dia, no ano de 5406 [1946], eu o
humilde Isaac Aboab".
Nos seus versos, os primeiros escritos em aramaico e
hebraico nas três Américas, descreve o rabino, que "os
que estavam habituados a comer à mesa de ouro,
davam-se por felizes com um pedaço de pão seco e
bolorento, num ambiente agitado. Mas também isso
faltou em nossas casas, que faltou o azeite na botija e a
farinha na panela acabou"...
A sorte parecia traçada quando, em 22 de junho de
1646, aportaram no Recife os barcos holandeses Gulden
Valk e Elizabeth trazendo alimentos para aquela
população de esfomeados.
Além do poema, deixou Isaac Aboab da Fonseca uma
oração, em forma de confissão, quando da chegada a
Pernambuco dos regimentos portugueses, em julho de
1645. "Dirigindo-se a Deus confessa seus pecados, isto
é, os do povo de Israel, por ter estado voltado para os
interesses materiais, para os gozos mundanos
esquecido dos mandamentos, tal qual os demais
habitantes do país; e conclui por pedir o perdão a Deus
misericordioso".
Com a rendição dos holandeses, em 27 de janeiro de
1654, Isaac Aboab da Fonseca retornou a Amsterdam,
onde deu continuidade a sua ação pastoral, fundando a
atual Sinagoga Portuguesa de Amsterdam em 1675, e
transformando-se numa das mais importantes figuras
da comunidade israelita do século XVII.
Segundo a inscrição do seu túmulo, faleceu aos 88
anos, em 9 de abril de 1693, na cidade de Amsterdam.
Sua biblioteca foi vendida em leilão, logo após a sua
morte. Dela constavam 18 manuscritos em hebraico,
373 livros em hebraico e 53 em outras línguas.
A Nova Amsterdam
Após a rendição das tropas da Companhia das Índias
Ocidentais, em 27 de janeiro de 1654, cerca de 150
famílias judaicas voltaram aos Países Baixos. Dali
algumas delas retornaram ao Novo Mundo, fundando
novas comunidades em ilhas do Caribe e na América do
Norte. Um desses grupos saídos do Recife, passageiros
do navio Valk, depois de aportar na Jamaica, como
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escada, no qual funcionava no andar térreo duas lojas,
bem próxima à "Porta de Terra", que dava saída para o
istmo que ligava o Recife a Olinda. Estabelecida no
andar superior, o salão da sinagoga, a exemplo da
primitiva sinagoga de Amsterdam, tinha encostada à
parede da frente, voltada para o leste, a arca com os
rolos da Torá e, ao centro, o local de leitura e pregação.
- Após a expulsão dos holandeses em 1654, a Rua dos
Judeus veio a ser denominada de da Cruz e, a partir de
1870, teve o seu nome mudado para do Bom Jesus.
Nesta primeira sinagoga em terras das Américas
exerceu o rabinato o célebre Isaac Aboab da Fonseca
que era português de nascimento. Natural de Castro
Daire, distrito de Viseu, na Beira Alta, Isaac Aboab da
Fonseca nasceu em 1605, tendo emigrado com os seus
pais para a França e, em 1612, para Amsterdam. Era
filho de David Aboab e Isabel da Fonseca. Tendo
estudado nas escolas judaicas daquela cidade
holandesa, denominada de " A Jerusalém do Ocidente ",
em 1626 foi designado rabino da Congregação Beth
Israel, função que ocupou até 1638 quando da
unificação de três sinagogas ali existentes. Em 1641
aceitou o convite da comunidade do Recife para vir
presidir os serviços religiosos da sinagoga local,
construída em 1636, que tinha a denominação de Zur
Israel , recebendo para isso o estipêndio de 1.600
florins anuais. Exercia ainda a função de Mohel, ou
circundador, e vivia, ao que parece, exclusivamente do
culto e do ensino - do hebraico, da Torah e do Talmud para os que se iniciavam.
DO RECIFE PARA NOVA IORQUE
(Continuação)
prisioneiros dos espanhóis, foram libertados pelos
franceses e, com eles, rumaram em direção à Nova
Amsterdam a bordo do barco Sainte Catherine. Desse
grupo, vinte e três judeus já se encontravam na Nova
Amsterdam em setembro de 1654, fundando assim a
primeira comunidade judaica daquela que veio a ser a
cidade de Nova Iorque. Segundo comprovação de
pesquisas junto ao arquivo do cemitério da
Congregação Shearith Israel, daquela cidade, membros
da Congregação Zur Israel do Recife aparecem em
documentos da época. Um deles, Benjamin Bueno de
Mesquita , falecido em 1683, tem a sua lousa tumular
preservada naquele cemitério; Arnold Wiznitzer, in Os
judeus no Brasil colonial . São Paulo: EDUSP, 1966. p.
125-126.
Assevera José Antônio Gonsalves de Mello que "Jacob
Barsimson - deve ser Jacob bar Simson - , mencionado
em documento do Recife, em 31 de março de 1647 (
Dag. Notulen ), foi mais o primeiro judeu a se fixar na
cidade de Nova Iorque, para onde foi por via da
Holanda". ( Gente da Nação , p. 247).
e Geográfico Pernambucano e na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro , anteriormente citada.
A Rua dos Judeus, por sua vez, passou a ser chamada
de Rua da Cruz, em alusão a uma grande cruz erguida
sobre o arco da "Porta de Terra", em cujo pavimento
superior veio a funcionar a capela do Senhor Bom Jesus
das Portas. Em 1850, por necessidade do trânsito, foi
demolido o chamado Arco do Bom Jesus, com a sua
capela, passando a rua, em 1870, a ser denominada
Rua do Bom Jesus em alusão à capela que nela existira.
Em 5 de novembro de 1992, o autor destas linhas, com
o consentimento do então prefeito da Cidade do Recife,
Gilberto Marques Paulo, e o apoio do presidente do
Centro Israelita de Pernambuco, sr. Germano Haiut, fez
afixar na antiga Rua dos Judeus as placas indicativas.
Coube ao artista Bernardo Dimenstein fazer o desenho
e ao ceramista Ferreira confeccionar as placas em
cerâmica que foram afixadas no local: Rua do Bom
Jesus antiga Rua dos Judeus. 1636 - 1654 .
Trechos de:
Por outro lado, intelectuais judeus, nascidos em
Pernambuco durante a ocupação holandesa, vieram a
ser admirados por seus trabalhos no âmbito da
literatura, da filosofia e da teologia. É o caso de Isaac
de Andrade Velosino, chamado por Barbosa Machado, in
Biblioteca Lusitana , de Jacob de Andrade Velosino, que
se declara judeu nascido no Recife em 1639, segundo
Sacramento Blake. "Doutor em Talmud e Doutor em
Filosofia", foi ele o orador oficial quando da inauguração
da sinagoga portuguesa de Amsterdam (1675). Autor
de várias obras, dentre as quais Epítome de la verdad
de la ley de Moyses , escrita em espanhol, O Theologo
Religioso , O Messias Restaurado , além de outras.
“UMA COMUNIDADE JUDAICA NA AMÉRICA
PORTUGUESA”
de Leonardo Dantas Silva
Novamente senhores da terra, o governo português,
entre as presas de guerra, fez doação do prédio onde
funcionara a sinagoga a João Fernandes Vieira que,
cerca de vinte anos depois, o transferiu por escritura de
doação, datada de 14 de outubro de 1679, à
Congregação do Oratório de São Felipe de Neri. Em
1821, com a extinção dessa ordem, os dois prédios
passaram a integrar o patrimônio do Colégio dos Órfãos
(1835) e posteriormente a Santa Casa de Misericórdia
do Recife (1862), sua atual proprietária. Os prédios, que
tinham os números 12 e 14, no século passado,
receberam nova numeração no início deste século,
passando a ostentar os números 197 e 203. Sua
identificação tornou-se possível graças à planta
existente no arquivo da Empresa de Urbanização do
Recife - URB, encontrada pelo professor José Luiz da
Mota Menezes, e de sentença judicial em favor da Santa
Casa de Misericórdia do Recife publicada no Diário da
Justiça , de março de 1962, que identifica
expressamente os dois imóveis. Comunicado neste
sentido foi feito pelo professor José Antônio Gonsalves
de Mello, em sessão do Instituto Arqueológico Histórico
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O destino da sinagoga
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