UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO ESCOLA DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS RODRIGO CESAR DE ARAÚJO SANTOS DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO: a formulação conceitual de Caio Prado Júnior (1954-1958) GUARULHOS 2014 1 RODRIGO CESAR DE ARAÚJO SANTOS DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO: a formulação conceitual de Caio Prado Júnior (1954-1958) Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para a obtenção do grau em bacharel em História. Orientadora: D’Aléssio. GUARULHOS 2014 Marcia Barbosa Mansor 2 Cesar, Rodrigo. Desenvolvimento econômico, desenvolvimento histórico: a formulação conceitual de Caio Prado Júnior (1954-1958) / Rodrigo Cesar de Araújo Santos. – Guarulhos, 2014. 139 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em historia) – Universidade Federal de São Paulo, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Departamento de História, 2014. Orientadora: Márcia Barbosa Mansor D’Aléssio. Título em inglês: Economic developmen, historical development: the conceptual formulation of Caio Prado Júnior (1954-1958). 1. Caio Prado Júnior. 2. Desenvolvimento. 3. Historiografia. 4. Economia Política. I. D’Aléssio, Márcia Barbosa Mansor. II. Desenvolvimento econômico, desenvolvimento histórico. 3 RODRIGO CESAR DE ARAÚJO SANTOS DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO, DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO: a formulação conceitual de Caio Prado Júnior (1954-1958) Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para a obtenção do grau em bacharel em História. Orientadora: D’Aléssio. Aprovado em: _____/_____/___________ Prof.: Prof.: Prof.: Marcia Barbosa Mansor 4 A Herotildes (in memorian), Anita, Arminda, Alcina e Jorge (in memorian), com carinho e admiração. 5 AGRADECIMENTOS À Deise e ao Ricardo, pela vida, o exemplo, o amor; agradeço a vocês por tudo. À Carolina e ao Daniel, pela companhia, a amizade e o carinho. Ao pequeno Emilio, por vir ao mundo e fazê-lo mais feliz. À querida prof.ª Márcia D’Aléssio, pela sabedoria, compreensão e orientação atenta e cuidadosa. Ao prof. Janes Jorge, pelo incentivo, apoio e os valiosos comentários. Aos prof. André Machado, Fabiano Fernandes, Wilma Peres Costa e Samira Osman, pelos comentários valiosos e, principalmente, pelas críticas pertinentes e construtivas. Ao prof. Luigi Biondi, pela iniciação na pesquisa acadêmica. Às prof.ª Maria Fernanda Lombardi Fernandes e Gabriela Nunes Ferreira, pela indicação de bibliografia e a motivação. À prof.ª Maria Luiza F. de Oliveira, pelas oportunidades proporcionadas. Ao prof. Marcus Orione, pela disponibilidade, atenção e contribuição. Ao Dainis Karepovs, pela confiança depositada. Ao Valter Pomar e ao Bruno Elias, pelo estímulo, o companheirismo e o apoio. À Edma Walker e ao Cloves Castro, por me inspirarem. À Iole Ilíada, pelos comentários motivadores. Ao Carlos H. M. Menegozzo, pelas conversas construtivas. À Aline Maciel, ao Sarkis Alves, ao Fábio Dantas, à Vanessa Nadotti e à Luana Soncini pelo convívio amistoso e pela sintonia. À Elisabete M. Ribas, em nome de quem agradeço toda a equipe do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), pelo belo trabalho realizado, o profissionalismo e a gentileza. À Agostinha C. Bastista, ao Jair F. Balduino e à Sônia Maria D’Angelis, trabalhadores da Biblioteca Central da Faculdade de Direito da USP, pela assistência, atenção e dedicação. Ao Geraldo e à Márcia, do Arquivo Geral da Faculdade de Direito da USP, pela paciência e ajuda. Aos estudantes, professores e funcionários da Unifesp, pelo aprendizado. Aos companheiros e companheiras de militância, pelos sonhos compartilhados. Aos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras, por suas lutas e conquistas. 6 A história precisa ser reescrita a cada geração, porque embora o passado não mude, o presente se modifica; cada geração formula novas perguntas ao passado e encontra novas áreas de simpatia à medida que revive distintos aspectos das experiências de seus predecessores. Christopher Hill O mundo de ponta-cabeça Em rigor, numa investigação histórica, é estudado um desenvolvimento (ou um declínio), desenvolvimento ou declínio de um grupo definido, entre duas datas definidas. Aquilo que se procura no estudo metodológico é o instrumento de análise que torne possível a edificação racional de cada estudo particular. Em suma, para que a ciência histórica progrida, o que conta é a aplicação do instrumento ao caso, e não o instrumento em si; este não deve transformar-se em objeto de contemplação. Pierre Vilar Desenvolvimento econômico e análise histórica 7 RESUMO Neste trabalho analisamos o conceito de desenvolvimento de Caio Prado Júnior entre 1954 e 1958. Com isso, visamos contribuir para aprofundar o conhecimento sobre sua obra e levantar questões sobre as relações estabelecidas entre o autor e diferentes setores do pensamento econômico e social. Para tanto, investigamos em que medida os debates sobre o desenvolvimento nos anos 1950 contribuem para sua formulação conceitual, bem como o modo como se relacionam historiografia e economia política em seu pensamento. Neste sentido, são úteis às reflexões de Pierre Vilar sobre desenvolvimento econômico e análise histórica e de Eric Hobsbawm sobre a relação entre economistas e historiadores. Tendo em vista que as experiências concretas que viveu foram indispensáveis para a formação de seu pensamento, buscamos compreender a produção de seus textos à luz de diferentes dimensões da realidade ao seu redor, entre elas: a conjuntura política e econômica nacional, o pensamento econômico e social brasileiro, o movimento comunista, a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo e o concurso para a cátedra de Economia Política. 8 ABSTRACT In this work, we analyze Caio Prado Júnior’s concept of development between 1954 and 1958. Thus, we aim to contribute to further knowledge about his work and raise questions about the relations between the author and various sectors of economic and social thought. To do so, we investigate to what extent the development debates in the 1950s contribute to his conceptual formulation, as well as the way by which historiography and political economy relate in his thought. Therefore, Pierre Vilar’s reflections on economic development and historic and Eric Hobsbawm’s analysis on the relationship between economists and historians are useful. Given that the concrete experiences that he lived were indispensable in the formation of his thought, we seek to understand the production of his texts in the light of different dimensions of the around him, including: policy and economic national situation, the Brazilian economic and social thought, the communist movement, the São Paulo University Law School and the exam for the chair of Political Economy. 9 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO................................................................................................................... 10 1. AS ARCADAS .................................................................................................................... 16 Caio Prado Júnior e as Arcadas ........................................................................................................ 16 Tempos de Caio Prado Jr.: Tempos de memória, Tempos de história (1554, 1827, 1932, 1954) ... 22 Comunistas, trabalhistas, udenistas e militares ................................................................................ 33 2. O CONCURSO .................................................................................................................... 47 O ensino de economia política ......................................................................................................... 47 Procedimentos polêmicos, suspeitas e disputas acirradas ................................................................ 55 Avaliação e resultados: economia ou política? ................................................................................ 62 3. HISTORIOGRAFIA E ECONOMIA POLÍTICA ............................................................... 69 Tempo e análise econômica ............................................................................................................. 69 Economia na dialética da história .................................................................................................... 76 Teoria e prática na história ............................................................................................................... 81 4. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E ANÁLISE HISTÓRICA ................................. 86 Produção e consumo ........................................................................................................................ 86 Estado e mercado ............................................................................................................................. 92 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 103 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 105 Bibliografia .................................................................................................................................... 105 Fontes ............................................................................................................................................. 114 ANEXOS ................................................................................................................................ 118 IMAGENS .............................................................................................................................. 129 10 APRESENTAÇÃO O presente momento histórico é profundamente marcado por três processos interligados: a crise capitalista internacional, a instabilidade geopolítica mundial e as mobilizações sociais de massas. Temos, assim, um terreno fértil para debates e reflexões sobre os rumos estratégicos dos povos, nações, continentes e até mesmo do planeta e da humanidade. Nas discussões, destaca-se entre os formuladores de políticas, tanto do poder público quanto da sociedade civil, a questão das vias de desenvolvimento econômico e social. No Brasil, nesta conjuntura, tornaram-se mais evidentes as controvérsias sobre o tipo de desenvolvimento a adotar, inclusive a manutenção ou transformação do padrão monopolista e dependente de desenvolvimento capitalista do Brasil no século XX. Recentemente, os debates envolvendo o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), o papel do Estado na economia, as taxas de investimento e a larga escala de inserção de setores sociais marginalizados ao mercado de consumo de massas reanimam a questão do desenvolvimento. Com base em diferentes teorias econômicas e modelos de desenvolvimento, forças sociais de variados matizes do espectro político e inseridas em diversas instituições públicas ou privadas participam da discussão, opinando sobre temas que dizem respeito à economia política do desenvolvimento. Entre os debatedores, muitos seguem inspirando-se em formulações produzidas pela intelectualidade nacional e internacional entre as décadas de 1940 e 1970, que tratou de assuntos semelhantes, mas em contextos históricos bem diferentes, obviamente. É vasta, causou forte impacto político e acadêmico e segue exercendo influência a literatura produzida neste período a respeito das teorias do desenvolvimento econômico, da economia política do desenvolvimento, do subdesenvolvimento, da teoria da dependência, do capitalismo tardio etc. Entre estas formulações encontram-se as de Caio Prado Júnior, que foi não apenas um historiador proeminente de seu próprio tempo como segue sendo referência indispensável para quem deseja conhecer a formação histórica brasileira. Mas foi também um homem de ação, militante político, membro ativo do Partido Comunista Brasileiro (PCB), marxista declarado. Neste sentido, compreender o modo como encarava a “questão do desenvolvimento”, como ele mesmo se refere, pode contribuir para aprofundar o conhecimento sobre sua análise historiográfica e levantar questões sobre as relações estabelecidas entre o autor e diferentes setores do pensamento econômico e social, o que pode ajudar a estimular reflexões sobre as 11 influências do desenvolvimentismo sobre uma parcela da esquerda brasileira na conturbada década de 1950. Em uma primeira aproximação, estudar Caio Prado Júnior hoje, depois de tantas pesquisas realizadas e polêmicas travadas, pode parecer pouco promissor se o que se pretende é trazer alguma contribuição minimamente relevante para o conhecimento histórico. Mas se a construção da realidade histórica tem por base a solução de problemas elaborados com questões do tempo presente, cada momento histórico lançará questões próprias sobre um objeto que já foi estudado em períodos anteriores. Assim, considerando que no período em que mais se produziu textos que analisam o pensamento de Caio Prado Júnior a “questão do desenvolvimento” não esteve tão presente quanto atualmente, estudar o conceito de desenvolvimento deste autor pode contribuir para levantar novas questões e abrir algumas sendas interessantes, seja no debate sobre a historiografia brasileira, sobre o pensamento econômico brasileiro ou sobre uma das principais referências intelectuais de setores da esquerda que discutem o desenvolvimento hoje. Neste trabalho, analisamos o conceito de desenvolvimento de Caio Prado Júnior formulado entre 1954 e 1958. Neste sentido, cabe observar que nosso objeto não é o conceito de desenvolvimento presente no conjunto da obra de Caio Prado Júnior, mas particularmente de um período específico, principalmente a partir de duas obras: Diretrizes para uma política econômica brasileira (1954) e Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). Consideramos que o estudo do conceito de desenvolvimento utilizado por um historiador do século XX pode contribuir na compreensão de sua produção historiográfica. Contudo, prosseguir neste caminho exige enfrentar algumas questões importantes: qual a influência que os compromissos políticos do historiador exercem sobre a leitura que faz do processo histórico? Em que medida as discussões políticas de seu tempo sobre o modelo de desenvolvimento a ser implementado participa da construção de seu conhecimento histórico? De que maneira a ideia do desenvolvimento como passaporte para o futuro pode interferir na sua interpretação do passado? Se admitirmos que a construção da realidade histórica tem por base problemas elaborados com questões contemporâneas, podemos considerar a posição do historiador diante do desenvolvimento um fator importante no momento de sua produção historiográfica? No caso particular de Caio Prado Júnior – que não se limitou à produção de narrativas historiográficas, mas cruzou muitas “fronteiras” teórico-metodológicas que diferenciam disciplinas e campos do conhecimento, e orientou sua investigação científica por uma 12 inquietação prática e política – outras perguntas se fazem necessárias: é possível identificar no autor influências de correntes do pensamento desenvolvimentista? Em que termos ocorreu o diálogo entre ele e as doutrinas econômicas que formularam conceitos de desenvolvimento nos anos 1950? Em que medida os debates e a trajetória do PCB no período condicionaram suas posições a respeito do desenvolvimento brasileiro? Quais as teorias e interpretações a respeito do desenvolvimento que Caio Prado Júnior pretendeu desconstruir? Com quem estabeleceu relações de concordância e de divergência quando se tratava de compreender processos de desenvolvimento e propor ações para realizá-los conscientemente? Como se relacionavam desenvolvimento histórico e desenvolvimento econômico nos referidos textos? Quais as influências exercidas pelos conflitos e contradições vividas por Caio Prado Júnior durante o processo de concepção e redação destas obras? Não pretendemos que todas estas perguntas tenham respostas objetivas e conclusivas no âmbito desta pesquisa: elas servirão mais para nos orientar na investigação do que como questões que precisam ser encerradas. Portanto, ao contrário de querer formular as respostas certas, a preocupação maior consiste em fazer as perguntas que nos permitam percorrer os caminhos mais promissores. Com nossa pesquisa pretendemos contribuir para aprofundar a compreensão sobre a historiografia caiopradiana, levantar questões sobre as relações estabelecidas entre o pensamento econômico desenvolvimentista e o autor, bem como estimular a reflexão sobre a influência do pensamento político e econômico na produção historiográfica. Neste sentido, nos propomos a trazer à discussão algumas impressões que possam servir como estímulo para a realização de debates e novas pesquisas. Se conseguirmos gerar inquietações, indagações e questionamentos nos leitores, e se formos capazes de estimulá-los a demandar mais conhecimento sobre o tema, nossos objetivos terão sido cumpridos. Mas para que não pairem dúvidas sobre nossos procedimentos, cabe um esclarecimento metodológico preliminar. Segundo Koselleck, estudioso da semântica dos tempos históricos, a história dos conceitos, sobretudo o método por ela preconizado, é imprescindível para problematizar a relação entre a história dos fatos e a compreensão que os sujeitos históricos tiveram destes fatos por eles vividos. Decifrando a temporalidade das experiências e evidenciando a estratificação de significados atribuídos a elas ao longo do tempo, a história dos conceitos problematiza as durações, as diferenças entre acontecimentos e estruturas. 13 Assim, a profundidade histórica de um conceito entra em questão e se torna uma exigência sistemática. 1 Nosso trabalho se dedica a estudar um conceito que, apesar de ter sido compartilhado por diferentes gerações na curta duração do período que analisamos, foi alvo de disputas em torno de seu significado. Nos limitamos a buscar compreender melhor um dos agentes desta disputa, ou melhor, a formulação que este agente produziu para dar significado próprio a este conceito. Portanto, caso quiséssemos estudar a história deste conceito a partir de Koselleck e, portanto, sua duração, suas alterações, sua relação com as experiências no tempo, a restrição a um período tão curto não seria recomendável. Ademais, se não se pode depreender a realidade histórica apenas a partir do conceito, mesmo que a compreensão deste conceito nos estimule a refletir sobre esta co-incidência,2 levar a cabo o desafio de relacionar uma realidade vivida historicamente com o conceito elaborado para apreender esta realidade exigiria muito mais que a compreensão do conceito de um indivíduo. Em suma, se por um lado não devemos deixar de levar em conta a consciência que determinada sociedade do passado tem dela mesma para entender esta sociedade, por outro lado não podemos pretender que os conceitos que exprimem a consciência desta sociedade possam ser explicados com base em um conceito produzido de um ponto de vista monográfico. Com isso, não queremos dizer que a história dos conceitos não compõe nossas preocupações, mas tão somente dizer que nossos propósitos, mais modestos, não nos permitem incorporar de conjunto as premissas teóricas que envolvem a produção de uma história dos conceitos. Considerando que a formulação conceitual de Caio Prado Júnior está vinculada com as experiências por ele vividas no momento de sua elaboração, buscamos relacionar a trajetória de vida do autor no contexto político, social e cultural pelo qual circulou com o pensamento expresso nas obras que então produziu. Neste sentido, ainda que nosso objeto esteja mais vinculado ao pensamento do autor que às experiências concretas que viveu, sua biografia será abordada como elemento constituinte e, portanto, indispensável para compreender as reflexões que realizou. Assim, na abordagem de nosso objeto, pretendemos relacionar quatro dimensões distintas de um contexto histórico de curta duração: a conjuntura política e econômica nacional, o pensamento econômico e social brasileiro, o marxismo e o movimento 1 Cf. Reinhart KOSELLECK. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-RIO, 2006, p. 114-5. 2 Ibidem, p. 114. 14 comunista e a Faculdade de Direito da USP no momento em que o autor prestou concurso para a cátedra de Economia Política. Ademais, as discussões a respeito do método mais adequado para a apreensão da realidade e a formulação de interpretações históricas, modelos teóricos e orientações políticas são elementos cruciais da obra de Caio Prado Jr. A análise de nossas fontes principais visando à compreensão do conceito de seu desenvolvimento deverá passar, portanto, pelas considerações metodológicas nelas presentes. No primeiro capítulo, à luz da conturbada conjuntura política e econômica brasileira do período, das memórias da chamada “Revolução Constitucionalista” de 1932 e do quadricentenário da cidade de São Paulo (1554-1954), analisamos os traços principais do ambiente no qual Caio Prado Júnior pretende voltar a integrar, agora na condição de docente, à Faculdade de Direito da USP, na qual gradou-se em 1928. Iniciamos nosso trabalho com este foco específico, uma vez que ambas as fontes principais de nossa pesquisa foram elaboradas em função do concurso para a cátedra de Economia Política da Faculdade: o primeiro deles, a tese que apresentou à banca examinadora do concurso, Diretrizes para uma política econômica brasileira (1954), e o segundo, um livro que é uma espécie de acerto de contas, redigido possivelmente em função de ter sido o último colocado entre os candidatos, Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). No segundo capítulo, apresentamos uma narrativa sobre o referido concurso, tendo em vista que a historiografia sobre Caio Prado Jr. é unânime em considerar que a banca examinadora do concurso não lhe concedeu a cátedra por motivações políticas, mas teria lhe concedido o título de livre docente por reconhecê-lo como um importante intelectual brasileiro. Por um lado, a análise das atas da Congregação da Faculdade de Direito apontam em outra direção, pelo menos no que se refere à livre docência: tanto na votação para a habilitação quanto para a concessão do título de livre docente, a maioria reprovou Caio Prado Júnior. Entretanto, por outro lado, outras fontes como a Revista e os Relatórios Anuais da Faculdade de Direito apresentam Caio Prado Júnior como livre docente da instituição. Além de tentar elucidar tal controvérsia, pretendemos enfrentar a seguinte questão: as motivações para a reprovação teriam sido apenas políticas, ou havia uma crítica teórica no campo da economia às teses apresentadas pelo autor no concurso? Para tratar destas questões, procedemos a uma análise detalhada das disputas, interesses e conflitos envolvendo os protagonistas do concurso: concorrentes, banca examinadora e direção da Faculdade. O terceiro capítulo discute as relações de conflito e diálogo, ao longo dos anos 1950, entre Caio Prado Júnior e alguns setores da intelectualidade. Sua crítica metodológica a outras 15 escolas de pensamento econômico, na medida em que indicam a negação e a afirmação de formulações alheias, também informam, em certa medida, as formulações teóricas e metodológicas do próprio autor. Portanto, nossa interpretação de seu conceito de desenvolvimento inclui uma análise das considerações metodológicas no âmbito da historiografia e da economia política presentes nos textos de 1954 e 1957 do autor. Para fazêlo, buscaremos relacioná-las com as ideias e propostas sobre o desenvolvimento brasileiro que circulavam na época, inclusive as monografais apresentadas pelos candidatos no concurso da Faculdade de Direito. Questões relacionadas à teoria e prática, objetividade e subjetividade, bem como o lugar da história na análise do desenvolvimento econômico da periferia do capitalismo ocuparão lugar privilegiado. No capítulo final, analisaremos de que modo Caio Prado Júnior relaciona sua análise histórica do desenvolvimento econômico brasileiro com sua formulação conceitual de desenvolvimento. Mais precisamente, estudaremos o modo como Caio Prado Júnior insere as categorias do desenvolvimento econômico à análise do processo histórico, sugerindo a hipótese de que, em seu pensamento, desenvolvimento econômico e desenvolvimento histórico formam uma unidade indivisível, implicando na necessidade de formular teorias do desenvolvimento econômico que respondessem aos dilemas colocados pelas especificidades do desenvolvimento histórico de cada sociedade. 16 1. AS ARCADAS Caio Prado Júnior e as Arcadas Entre os dias 20 e 28 de maio de 2013, realizou-se na Sala da Congregação da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FD-USP) o Ciclo de Debates Caio Prado Júnior, que contou com quatro mesas de discussão. No primeiro dia, 20 de maio, o tema em debate foi a trajetória intelectual e política de Caio Prado Júnior. Em seguida, no dia 22, foram analisadas suas contribuições à história econômica e ao direito econômico. A terceira mesa, em 24 de maio, tratou do lugar e da contribuição de Caio Prado Jr. ao pensamento brasileiro. Por fim, no dia 28, debateu-se a trajetória de Caio Prado Júnior e a relação entre as obras Formação do Brasil Contemporâneo (1942) e A Revolução Brasileira (1966). 3 O evento foi idealizado e organizado pelo Grupo de Estudos Direitos Humanos, Trabalho e Marxismo, composto por Marcus Orione, juiz federal e professor livre docente da Faculdade de Direito, e por seus orientandos. Inicialmente, o grupo propunha-se a realizar o estudo das obras de marxistas brasileiros, entre eles Caio Prado Júnior, somente depois de ter finalizado a leitura das obras de Marx e dos marxistas do final do século XIX e início do século XX. Mas este planejamento trazia um problema, pois “demoraria muito”, uma vez que o grupo ainda não havia terminado de estudar as obras de Marx. O professor, então, apresentou uma proposta: “na medida em que nós estamos agora discutindo tanto a questão da memória, da verdade e assim por diante, por que não resgatar o Caio Prado lá na escola?” Concretamente, sugeriu que o primeiro evento organizado pelo grupo fosse sobre Caio Prado Júnior, o que foi aceito rapidamente pelo coletivo. 4 Em seguida, deu-se inicio à organização do evento. Contudo, tendo em vista o conservadorismo predominante na direção e no corpo docente da FD-USP, buscou-se um caminho que pudesse “evitar alguns espaços de embate”. Ainda que atualmente o ambiente acadêmico talvez pudesse permitir sua realização com as formalidades necessárias para tornar o evento uma atividade de extensão – o que envolveria o trâmite e a aprovação de uma proposta em diversas instâncias da Faculdade – optou-se “pela forma mais fácil, a maneira mais informal possível [...] a forma mais intimista possível”. Assim, por exemplo, não houve a emissão de certificados aos participantes e realizou-se a atividade na Sala da Congregação, que comporta até 60 pessoas, aproximadamente, e vinha recebendo os eventos menores da 3 4 A programação completa do evento pode ser consultada no Anexo 1 deste trabalho. Marcus ORIONE, entrevista concedida no dia 12 de dezembro de 2013. 17 Faculdade. De acordo com Orione, o Ciclo de Debates, além da qualidade nas discussões sobre a vida e a obra do autor, teve o mérito de servir como um registro da ligação entre Caio Prado Júnior e a Faculdade, que em geral passa despercebida naquele espaço, inclusive entre os que conhecem sua obra e reconhecem sua contribuição para o pensamento social brasileiro. Como exemplo, podemos citar um episódio peculiar relatado pelo professor Marcus Orione: ao sugerir que uma sala da Faculdade de Direito da USP fosse nomeada em homenagem a Caio Prado Júnior foi questionado, sob o argumento de que haveria outros nomes ilustres que tiveram uma ligação mais estreita com a casa para serem homenageados. Aos defensores da proposta interessa saber por que as ligações e passagens de Caio Prado Júnior pela Faculdade de Direito são tão pouco conhecidas atualmente pelos que circulam nestes ambientes. Por quais motivos “os fatos não se encontram muito na fala dos poucos interlocutores que conhecem a história do Caio Prado”? 5 Se por um lado a memória não atribuiu significados sobre a presença de Prado Jr. na FD-USP, por outro a historiografia recebeu um importante aporte para se refletir a respeito da relação entre o autor e a academia, particularmente a Faculdade de Direito de São Paulo e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL-USP), fundada juntamente à USP em 19346. Trata-se da tese de doutoramento de Paulo Henrique Martinez, defendida em 1999 e publicada em livro em 2008: Dinâmica de um pensamento crítico: Caio Prado Jr. (19281935). Neste livro, Martinez apresenta a trajetória militante e intelectual de Prado Júnior no período indicado, analisando inclusive seu percurso como estudante da USP em três momentos distintos. Primeiro, como aluno de graduação da Faculdade de Direito de São Paulo, onde obteve o título de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1928. Depois, como aluno do curso de Doutorado desta mesma Faculdade, no qual fez matrícula em 1932 junto à 2ª Seção (Teoria Geral do Estado e Economia e Legislação Social), mas não o concluiu – possivelmente em função do levante armado de 1932, que levou à interrupção do ano letivo em função da participação de professores e estudantes no movimento paulista, ou pela reorientação de seus interesses políticos, pessoais e intelectuais nos anos seguintes. Por fim, como estudante de graduação da 5ª Seção (Geografia e História) da FFCL-USP, na qual matriculou-se em 1934, prosseguiu os estudos em 1935, mas não concluiu o curso, “pois foi 5 Ibidem. Fundada em 11 de agosto 1827, a Faculdade de Direito foi incorporada à Universidade de São Paulo em 1934, quando da sua criação. 6 18 preso naquele mesmo ano, na onda de repressão ao movimento comunista de novembro, embora não tivesse participação efetiva na preparação e eclosão dos levantes armados”. 7 Outros autores que pesquisaram Caio Prado Júnior também abordam sua relação com o ambiente acadêmico. Para Paulo Miceli, apesar dos textos e reflexões do autor terem exercido enorme influência sobre professores e estudantes, suas relações com a universidade “nunca foram de muita cordialidade”.8 Segundo Lincoln Secco, ele “não tinha lugar na academia, não só porque ela era incipiente no Brasil, mas também porque, sendo comunista militante, sua entrada nela estava interditada.” Em seguida, arremata com um contrafactual: “Se tivesse sido um professor universitário, seu fazer intelectual teria sido restringido pelas formas e limites da investigação acadêmica.” 9 É sempre bom lembrar que jamais saberemos o que aconteceria se o que não aconteceu tivesse, de fato, acontecido. Como não aconteceu, mesmo os historiadores não podem fazer mais que especular a respeito. A princípio, fazer afirmações a respeito das consequências de um contrafactual sobre o fazer intelectual de um sujeito histórico seria mera abstração, raciocínio lógico. Mas refletindo sobre como elas podem ajudar ou atrapalhar os historiadores e de que maneira o ato de especular pode ser legitimamente empregado na investigação histórica, veremos que o recurso do contrafactual pode nos ajudar a pensar sobre as alternativas consideradas possíveis na época e, assim, compreender melhor o período analisado a partir das avaliações de seus contemporâneos.10 Neste sentido, se por um lado aos historiadores de hoje pode parecer evidente que a entrada de Caio Prado Júnior na universidade como docente estava de fato interditada, por outro, se considerarmos que o próprio tentou se tornar professor universitário em pelo menos três ocasiões11 e que foi 7 Paulo Henrique MARTINEZ. A dinâmica de um pensamento crítico: Caio Prado Jr. (1928-1935). São Paulo: Edusp, Fapesp, 2008, p. 166. A trajetória de Caio Prado na FD e na FFCL é narrada principalmente nos capítulos “Viveiro de Ideais” (p.40-66), “Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras” (p. 164-83) e “5ª Subseção: Geografia e História” (p. 183-218). 8 Paulo MICELI. “Sobre história, Braudel e os vaga-lumes: a escola dos Annales e o Brasil (ou vice-versa)”. In: Marcos Cezar de FREITAS (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998, p. 260. Lincoln SECCO. Tradução do marxismo no Brasil: Caio Prado Júnior. Mouro: Revista Marxista – Núcleo de Estudos d’O Capital. São Paulo, ano 1, n. 2, jan. 2010, p. 14-5; idem. Tradução do marxismo no Brasil: Caio Prado Júnior. In: PINHEIRO, Milton (org.) Caio Prado Júnior: história e sociedade. Salvador: Quarteto, 2011, p. 65. 10 Cf. Eric HOBSBAWM. “Podemos escrever a história da Revolução Russa?”. In: Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 332-46. 11 A primeira tentativa foi em 1954, quando se inscreveu em concurso para professor catedrático de Economia Política da FD-USP, mas não foi aprovado. Analisaremos detalhadamente este episódio ao longo de nosso trabalho. Depois, em 1963, quando foi convidado a dar aulas na Faculdade Estadual de Araraquara – na época, um dos institutos isolados que posteriormente passariam a fazer parte da Universidade Estadual Paulista, a Unesp – mas teve sua contratação vetada pelo governo estadual mesmo depois de seu nome ter sido aprovado 9 19 estimulado por amigos a fazê-lo, podemos dizer que aqueles que viveram a história faziam uma leitura diferente de quem hoje a escreve. A persistência de Caio Prado evidencia que, de acordo com sua avaliação, ainda que improvável, seria possível compor o quadro docente de uma instituição acadêmica. De qualquer modo, o fato de nunca ter lecionado nestas instituições pode ter contribuído para que as memórias coletivas destes lugares tivessem pouco ou nenhum registro deste personagem. Mas isso não explica tudo. Há vinte anos, dizia Pierre Nora: A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. 12 Assim, o sentimento de que Caio Prado Júnior foi esquecido pela Faculdade de Direito tornase fator de estímulo para que hoje sua memória seja reivindicada, na tentativa de (e como justificativa para) reestabelecer nexos entre o sujeito e o espaço. Daí a realização de um evento na instituição como maneira de “resgatar” o personagem e a proposta de nomear uma sala em sua homenagem. Eis a simbologia e a importância de tais iniciativas: O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória. [...] Se habitássemos ainda nossa memória, não teríamos necessidade de lhe consagrar lugares. Não haveria lugares porque não haveria memória transportada pela história. 13 Os lugares de memória “nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais.” A necessidade dos lugares de memória é, portanto, característica de nossa sociedade “certamente arrancada de sua memória pela amplitude de suas mudanças, mas ainda mais obcecada por se compreender historicamente”. 14 pela Congregação da Faculdade. Cf. Lincoln SECCO. Caio Prado Jr.: o sentido da revolução. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 107. Por fim, em 1968, quando se inscreveu em concurso para a livre docência de História do Brasil na FFCL-USP, mas teve sua pretensão frustrada em função do cancelamento do concurso após a decretação do Ato Institucional nº 5. 12 Pierre NORA. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n. 10, dez. 1993, p. 7-8. Traduzido de Les lieux de mèmoire. I La République. Paris: Galimard, 1984, p. XVIII-XLII. 13 Ibidem, p. 8. Nesta passagem, observamos novamente o emprego dos contrafactuais, mas não de modo a nos aproximar das avaliações dos sujeitos que promoveram o surgimento dos lugares de memória no tempo passado, e sim como recurso retórico no tempo presente que carece de meios de comprovação. 14 Ibidem, p. 13-21. 20 A este respeito, é exemplar a homenagem prestada a Caio Prado Júnior no dia 1º de março de 1984. No ano em que foi comemorado o cinquentenário da USP, uma das salas de aula do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas foi batizada com seu nome (Figura 1). Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, a universidade “se redimiu do equívoco” de nunca ter contado com Caio Prado em seu quadro de professores. Na solenidade, estiveram presentes Florestan Fernandes, Edgard Carone, Fernando Novaes, Simão Matias, Aziz Simão, Carlos Guilherme Mota, Antônio Cândido, Severo Gomes, Eduardo Maffei, Paulo Sérgio Pinheiro, entre outros. O ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro Luis Carlos Prestes e o publicitário Carlito Maia enviaram congratulações. Em retribuição aos elogios e às palavras de reconhecimento Caio Prado disse: “Essas coisas todas que disseram me tocaram muito, é minha vida. Estou muito emocionado”.15 A sala Caio Prado Júnior segue sendo a maior do Departamento de História. Este episódio nos evidencia um dos domínios aos quais pertence os lugares de memória. “O que os constitui é um jogo da memória e da história, uma interação dos dois fatores que leva a sua sobredeterminação recíproca.” 16 Material, simbólica e funcionalmente, a Universidade de São Paulo passava a ser um lugar de memória a respeito de Caio Prado Júnior. No jogo entre memória e história há desequilíbrios e disparidades, mas também semelhanças. Ao lado da escassez de memória está a limitada historiografia a respeito da relação de Caio Prado Júnior com a Universidade de São Paulo. Uma das poucas informações que atualmente circulam no ambiente acadêmico uspiano a esse respeito provém de um livro, de autoria da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp), O controle ideológico na USP (1964-1978), publicado originalmente em 1978 e reeditado em 2004, por ocasião dos 40 anos do golpe de 1964. Note-se, ainda, que o próprio livro indica a falta de conhecimento que à época se tinha sobre os vínculos de Caio Prado com a USP, até mesmo entre as autoridades. No dia 28 de abril de 1969, o ex-reitor da USP Gama e Silva, como ministro da Justiça, assinava com o presidente Costa e Silva e o ministro da Educação Tarso Dutra, um decreto que aposentava compulsoriamente servidores de órgão da Administração Pública Federal, mas incluíam na lista três professores da USP, uma universidade estadual. Hélio Lourenço de Oliveira, Vice-Reitor em exercício substituindo Gama e Silva, protestou. Em resposta, no dia seguinte novo decreto foi assinado, desta vez dirigido especificamente contra a USP, no qual se aposentava, ou demitia quando fosse o caso, o Reitor e mais 23 15 "USP presta homenagem ao historiador Caio Prado Jr.", Folha de S. Paulo, 2 mar. 1984, p. 23. A íntegra da reportagem consta no Anexo 2. 16 Pierre NORA. Entre memória e história: a problemática dos lugares, p. 22. 21 professores. Caio Prado Júnior constava na lista, mas se tratava novamente de uma grave incorreção no próprio texto do Decreto, pois entre os 24 professores da USP, seis não eram da instituição. Caio Prado Júnior não tinha cargo na universidade, possuía apenas o título de livre-docente, que lhe dava o direito de poder vir a disputar um concurso de cátedra, tornandoo uma ameaça latente e constante aos olhos dos professores conservadores da USP. Em função do equívoco, os atos foram republicados “por terem saído com incorreções”. Neste sentido, o Diário Oficial da União de 20 de maio de 1969 republicou o texto do decreto de 29 de abril com um adendo: "determinar a cessação de quaisquer outros vínculos com a mesma Administração, ainda que não tenham caráter empregatício”. Segundo a Adusp, “a correção ainda não corrige, porque faz cessar vínculos inexistentes”.17 O caso repercutiu na imprensa. No 1º de maio, o Diário Popular divulgou uma lista com os professores aposentados pelo decreto presidencial. No mesmo dia, o Correio da Manhã divulgou matéria contendo pequenas notas biográficas de alguns dos professores da USP “com fama no mundo” que foram aposentados compulsoriamente. Entre eles estava Caio Prado Júnior, que teve vários dos seus livros “traduzidos para o inglês e o russo” e “foi eleito o intelectual do ano em 1966, recebendo o troféu ‘Juca Pato’ das mãos do poeta Cassiano Ricardo”. No dia 22 do mesmo mês, o Estado de S. Paulo lançou a notícia “Modificado ato punitivo”, no qual é destacada a ausência do nome de Caio Prado como uma das diferenças do novo decreto e uma nota da redação: “Os professores agora excluídos da medida punitiva não mantinham, a rigor, vínculos com a administração pública estadual. O prof. Caio Prado Jr. tem apenas o título de Docente livre da Faculdade de Direito.” O jornal Última Hora do mesmo dia, por sua vez, dá mais destaque ao autor com reportagem intitulada “Caio Prado vai continuar na USP”, na qual é transcrito o novo decreto.18 Nota-se, assim, não apenas a projeção alcançada então por Caio Prado Júnior ou o interesse de parte da imprensa em cobrir a crise política e institucional da USP após a decretação do Ato Institucional nº 5. Estava em questão o tipo de vínculo que o “professor” mantinha com a universidade e a administração pública estadual. De qualquer modo, importa notar que a narrativa produzida pela Adusp, na medida em que compõe o repertório de um dos atuais professores da Faculdade de Direito interessados na memória do autor19, contribuiu para que a história se torne também um dos domínios dos 17 Cf. ASSOCIAÇÃO dos docentes da USP, O controle ideológico na USP (1964-1978). São Paulo: Adusp, 2004, p. 45-59. Trataremos da questão do vínculo de Caio Prado Júnior com a USP no próximo capítulo. 18 Cf. Dossiê 30-K-33, fundo DEOPS, Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP). 19 Marcus ORIONE, entrevista concedida no dia 12 de dezembro de 2013. 22 lugares de memória. Realizar um ciclo de debates e propor que uma das salas da Faculdade seja nomeada em homenagem a Caio Prado são ações que compõem um mesmo movimento em direção à construção de um lugar de memória: debatendo sua vida e sua obra, salienta a contribuição política e intelectual do autor, atribuindo-lhe valor cultural; demarcando o espaço, induz a experiência sensível de quem o frequenta, atribuindo-lhe valor histórico. Ainda assim, estas histórias e memórias são marginais na FD-USP. Para os nossos propósitos de analisar o conceito de desenvolvimento de Caio Prado Júnior a partir de textos diretamente vinculados ao concurso para a cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da USP, a reflexão a respeito da memória dos dias atuais em torno do autor naquele espaço pode nos ajudar a compreender a própria instituição e, portanto, um aspecto importante do processo de criação dos referidos textos. Neste sentido, é importante compreender as Arcadas no período que se inicia quando o concurso é aberto (1954), passa pela proclamação de seu resultado final (1956), e termina com a publicação de Esboço dos fundamentos da teoria econômica (1957). Tempos de Caio Prado Jr.: Tempos de memória, Tempos de história (1554, 1827, 1932, 1954) Na cronologia da história brasileira, o ano de 1954 é lembrado principalmente como aquele em que Getúlio Vargas se suicidou. O fato tão marcante da trajetória política e social do país parecia confirmar que, ao menos para as massas que saíram às ruas para protestar contra as forças políticas de oposição que queriam derrubar o governo, o mês de agosto, quando a tragédia se consumou, era realmente o mês do desgosto, como diz o ditado popular. Esse momento crítico da história foi abordado de diversas maneiras. Entre as mais difundas, temos o livro Agosto, publicado em 1990. Trata-se de romance de Rubem Fonseca que mescla ficção e realidade em uma trama que narra a crise que levou Vargas ao suicídio. O sucesso da obra lhe rendeu em poucos anos uma adaptação para a televisão. Emblematicamente, no dia 24 de agosto de 1993 foi ao ar o primeiro capítulo da minissérie homônima da Rede Globo, que levou ao grande público uma visão policialesca e romanceada da conjuntura política brasileira no fatídico mês. Em 2004, no aniversário de 50 anos da morte de Vargas, ocorreu uma variedade de seminários, exposições, debates, construção de monumentos e memoriais, artigos em revistas especializadas, cadernos especiais de jornais, programas de rádio e televisão etc. Por uma 23 infinidade de maneiras, a efeméride serviu como um campo de disputa sobre a memória e o legado de Vargas, na busca por exercer um controle sobre o passado e, assim, comandar o presente. Mas a trajetória de comemorações (no sentido de construir memórias) não é recente. O ano de 1964, quando se completou a primeira década do acontecimento, foi marcado pela noção de “queda do império getuliano” e a “segunda morte de Vargas”. A deposição de João Goulart, então seu principal herdeiro político, proporcionou uma conjuntura adversa para o cultivo de uma memória positiva a respeito de Getúlio. Por sua vez, em 1974 deu-se uma divisão entre três modos de apropriação da memória de Vargas: “a do regime, que filtrava os conteúdos estatistas e os usava a seu favor, a dos populares, fragmentada num culto à cartatestamento, e a da oposição, que utilizava a imagem ditatorial de Vargas para espelhar a realidade política do país”.20 A década seguinte foi antecedida pelo centenário de seu nascimento, em 1983. Uma exposição foi organizada pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV); Paulo Brandi lançou o livro Vargas: da vida para a história; em abril o Jornal do Brasil lançou um caderno especial; em outubro estreou no Rio de Janeiro a peça Vargas, de Dias Gomes e Ferreira Gullar; vários artigos, matérias e biografias foram publicados nos jornais e revistas. Em agosto de 1984, em meio à efervescência da Campanha das Diretas Já que meses antes havia feito um comício com mais de um milhão de pessoas no Rio de Janeiro, Tancredo Neves e Leonel Brizola, junto com outros líderes, organizaram uma caravana à São Borja para prestar homenagem à Vargas. Em 1994, a frase corrente de que “a Era Vargas acabou” e o processo de abertura da economia, privatizações, redução da ação do Estado e ajuste fiscal levaram alguns analistas a considerar o momento como “a terceira morte de Vargas”. 21 No corrente ano, com o 60º aniversário da morte de Vargas, sua memória volta a ser debatida. Simbolicamente, no 1º de maio que marca o anúncio de 100% de aumento do salário mínimo pelo então ministro do trabalho João Goulart – que ademais é personagem importante nas atuais rememorações dos 50 anos do golpe de 1964 –, estreia o filme Getúlio, de João Jardim. O longa metragem – assim como o livro e a minissérie Agosto, mas não de modo romanceado – relata o atentado de 5 de agosto na Rua Toneleros e a crise que em seguida se intensificou até o suicídio do presidente. 20 Marieta de Moraes FERREIRA. Getulio Vargas: uma memória em disputa. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006, p. 5-6. Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao_intelectual/arq/1592.pdf>. Acessado em: 19 abr. 2014. 21 Cf. Ibidem. 24 Contudo, ressaltamos o destaque dado ao evento para, paradoxalmente, lhe restringir o alcance em um primeiro momento. Somente em seguida, retomar sua influência nos contextos em que Caio Prado Júnior estava inserido. Afinal, por mais banais que sejam, certas obviedades precisam ser ditas: antes da tragédia, que ademais nunca esteve anunciada, o ano de 1954 transcorria sem esta marca histórica. Somente com isso em vista, poderemos compreender como era a Faculdade de Direito da USP quando Caio Prado Júnior se pôs a escrever Diretrizes para uma política econômica brasileira, monografia que deveria entregar no ato de inscrição do concurso para a cátedra de Economia Política – e, diga-se de passagem, foi concluída em agosto daquele ano. Igualmente, somente assim, cientes de que o acontecimento foi tão inesperado quanto surpreendente aos seus contemporâneos, e que já nos primeiros momentos que lhe sucederam foi aberto um conflito em torno de seu significado, poderemos compreender aspectos importantes da instituição à qual Caio Prado queria acessar na condição de professor catedrático. Deste modo, devemos levar em consideração que em São Paulo, 1954 tinha início com atenção para o IV Centenário da Cidade. A sociedade paulistana estava mobilizada para celebrar a fundação da cidade, datada de 25 de janeiro de 1554. Na ocasião, tratava-se de lembrar a primeira missa da então vila de São Vicente, celebrada por Manoel de Paiva, José de Anchieta e Manuel da Nóbrega por ocasião da inauguração de uma casa de catequese jesuíta – que posteriormente viria a ser o Real Colégio de Piratininga – em dia deliberadamente escolhido por ser aquele em que a Igreja Católica celebrava a conversão do apóstolo Paulo. 22 Mas os preparativos não eram apenas para realizar festejos. Para as autoridades, era preciso garantir sua segurança. Em 14 de janeiro de 1954, o delegado auxiliar da 5ª Divisão Policial, Manoel Ribeiro da Cruz, encaminhou o seguinte comunicado a ser expedido via rádio a diversas divisões da polícia paulista, inclusive ao comandante da força pública de São Paulo, coronel Oscar de Melo Gaia: Aproximando o dia em que se comemora a fundação de São Paulo, os comunistas tentarão colocar faixas e fazer pixamento [sic] de paredes; assim, solicito a finesa 22 Com diferentes níveis de detalhamento, inúmeros portais eletrônicos fazem referência a este episódio como momento de fundação de São Paulo, entre eles os de instituições como o Governo do Estado de São Paulo e o Museu Anchieta. Em uma publicação de 2008 do serviço educativo do Arquivo Histórico de São Paulo (AHSP), administrado pela prefeitura da cidade, lê-se o seguinte: “A história da fundação de São Paulo começa com a fundação de uma casa de catequese pelos jesuítas. Estes eram padres que vieram de Portugal com o objetivo de transmitir aos índios os ensinamentos da Igreja católica. No dia 25 de janeiro de 1554, os padres Manuel da Nóbrega, José de Anchieta e Manuel de Paiva celebraram a missa que oficializou a instalação dessa casa, só depois elevada a Colégio.” SÃO PAULO. Conhecendo o Arquivo Histórico Municipal: os primeiros séculos na cidade de São Paulo. DPH, 2008, p. 18. Como veremos, o consenso em torno deste marco de fundação de São Paulo carrega uma significativa carga simbólica que vem se reproduzindo ao longo do tempo. 25 [sic] de alertar seus auxiliares no sentido de ser reprimida toda e qualquer manifestação por parte dos vermelhos, prendendo e fazendo apresentar neste departamento, juntamente com o material usado, todo aquele que for apanhado naquelas práticas.23 Dois dias depois, a chefia do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPSSP) enviou solicitação aos delegados de ordem política e social de Belo Horizonte, Curitiba e Goiânia para “verificar e informar se comunistas desse Estado se dirigem para essa Capital por ocasião dos festejos do quarto centenário que se iniciarão este mês”. Em seguida, no dia 19 de janeiro, Manoel Ribeiro da Cruz, assinando agora como diretor do DOPS-SP, remete um novo pedido para que os delegados de Curitiba, Belo Horizonte e Niterói o informassem “se tem sido notada a vinda de mais elementos comunistas”, indicando que muito provavelmente havia recebido resposta positiva das primeiras solicitações feitas. 24 Na véspera da segunda solicitação, o Boletim nº 13 do DOPS-SP – informativo de circulação interna que resumia os atos publicados no Diário Oficial do Estado de São Paulo relacionados à instituição, sumariava os trâmites burocráticos adotados e organizava os trabalhos de toda a equipe do Departamento – havia publicado a seguinte recomendação de Cruz: Praticamente inicia, hoje, o DOPS, a sua tarefa árdua de policiamento dos festejos do “IV CENTENÁRIO DE SÃO PAULO”. RECOMENDO às autoridades e funcionários que na manutenção da ordem ou na repressão se conduzam como sempre se tem conduzido, cuidando do interesse da sociedade sem excessos reprováveis, mas tendo em vista que São Paulo vive este ano, um ano de privilégio para os seus habitantes que assistem a passagem de uma data centenário [sic] da sua existência. 25 Para cuidar do interesse da sociedade, as forças policiais deveriam reprimir os vermelhos, mas sem excessos reprováveis. Entretanto, para o cumprimento de sua incumbência de garantir a ordem nos festejos, não bastava a obediência à voz de comando, seria importante que os oficiais estivessem convictos da importância da ocasião. Assim, no Boletim nº 16 convocava-se todo o Departamento a comparecer ao Salão Vermelho do Centro de Estudos do DOPS, no sábado (23), “a fim de assistir a uma solenidade em comemoração à data de fundação de São Paulo”. 26 Na avaliação das autoridades, tudo transcorreu bem. Cinco mil policiais foram mobilizados e não houve conflitos com manifestantes, o que era motivo de júbilo. No dia 23 RHP 12, p. 184, Dossiê 50-Z-013, fundo DEOPS, APESP. Disponível em: <http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/Deops/Boletins/>. Acessado em: 19 abr. 2014. Mais adiante, teremos a oportunidade de verificar que não seriam os “vermelhos” (ou pelo menos não apenas eles) que pretendiam protestar. 24 Ibidem, p. 193-4. 25 Ibidem, p. 190. 26 Ibidem, p. 195. 26 seguinte às comemorações, o Boletim nº 19 relata que o diretor do DOPS passou um rádio ao Secretário de Segurança Pública ressaltando a “excelente demonstração de eficiência, compreensão e civismo” da polícia durante os festejos, ocasião na qual o povo “em sua quase totalidade, saiu às ruas para viver em comum as horas de glória que a sua terra vive ao completar mais um século de existência”. A edição seguinte do informativo transcreveu a resposta de Elpidio Reali, que agradeceu a gentileza e ressaltou a “colaboração eficientíssima” prestada pelos oficiais que, “demonstrando verdadeira compreensão de seus deveres, não pouparam esforços, com seu chefe à frente, para que os festejos comemorativos do IC Centenário da fundação de São Paulo decorrecem [sic] em absoluta ordem e disciplina, sem um mínimo incidente.” Motivado pelo sucesso, o secretário de segurança emitiu a Portaria nº 7, publicada no Diário Oficial de 27 de janeiro, na qual elogiava os titulares das repartições envolvidas na ação e autorizava-os a transmitir os elogios a seus subordinados. 27 Este janeiro de 1954 evidencia, como muitos outros momentos da história brasileira, a relação entre o autoritarismo presente na nossa sociedade e os mitos fundadores da nação. Ao caso da cidade de São Paulo acrescenta-se ainda aos marcos fundamentais de memória nacional a ideia de sua fundação como originária da ação católica jesuítica e o mito dos bandeirantes, atribuindo-lhes o papel de formadores da nação pelo desbravamento e conquista de seu território. Não se resumindo a uma mera narração dos feitos lendários da comunidade, o mito tem também o sentido de atribuir a esta narrativa uma solução imaginária às contradições e conflitos que não são resolvidos concretamente. Particularmente, o mito fundador impõe um vínculo interno com o passado de origem, ou seja, um passado que não cessa, conservando-se sempre presente, não permitindo que a diferença temporal possibilite a compreensão do presente como tal. Assim, pela repetição de algo imaginário, o mito fundador cria um bloqueio à percepção da realidade e impede os sujeitos de lidarem com ela. A fundação, se referindo a um momento do passado como instante originário que se mantém vivo no curso do tempo, aparece emanando da sociedade e, ao mesmo tempo, engendrando a própria sociedade da qual ela emana. Com isso, os elementos de representação da realidade oferecidos pelo mito fundador podem ser reorganizados, readequados e repostos a cada momento da formação histórica, o que lhe permite repetir-se indefinidamente, sempre 27 Ibidem, p. 198-201. 27 encontrando novos meios, linguagens, valores e ideias para se renovar mantendo-se, ao fim e ao cabo, a repetição de si mesmo.28 Deste modo, reaparece o 25 de janeiro de 1554 em diversas ocasiões, sendo o IV Centenário da Cidade a oportunidade maior de exaltação do mito fundador. Não por acaso, portanto, o professor Ernesto de Souza Campos encerra com os seguintes dizeres a introdução ao livro sobre a história da Universidade de São Paulo que o Conselho Universitário, em sessão de 28 de março de 1951, o havia incumbido de escrever por ocasião dos 400 anos da fundação da cidade: Em 1954, comemora-se o IV Centenário de São Paulo e 20º aniversário de nossa Universidade. A nossa casa, jovem ainda, porém vigorosa e produtiva traz, de par com a ufania de suas duas décadas de proveitosa existência, contribuição comemorativa do mais alto grau para a Metrópole paulistana, porque a Universidade é o espelho da civilização moderna, é a fonte primordial da energia que impulsiona para a frente e para o alto as nações contemporâneas. São Paulo, 25 de janeiro de 1954 29 Por sua vez, no prefácio da obra, o então reitor Ernesto de Moraes Leme, professor da Faculdade de Direito, evidencia os vínculos que se pretendiam estabelecer entre 1554, 1827, 1934 e 1954: Se o rigor da cronologia faz com que se inicie a história da Universidade de São Paulo a 25 de janeiro de 1934, quando o decreto nº 6.283 veiu dar-lhe existência efetiva, poderíamos remontar-lhe a origem a 11 de agosto de 1827, quando se criou, juntamente com Olinda, a primeira das Faculdades que a integram. Foi, em verdade, ao se inaugurar em São Paulo o curso jurídico, tão cheio de tradições, que nasceu a Universidade, instituída por Armando de Salles Oliveira cerca de cento e sete anos depois. Na Faculdade de Direito vai ela encontrar suas raízes. [...] 30 Tamanha é a força do mito fundador, que Campos faz a seguinte afirmação sobre a Faculdade de Direito: “Tão vigoroso impulso imprimiu ao quase vilarejo que em vertiginoso crescimento chegamos à magestosa [sic] Metrópole de hoje, no seu IV Centenário de fundação”. 31 Ou seja, teria sido a vida social dinâmica proporcionada pela Faculdade a responsável pela transformação de São Paulo em uma grande metrópole, dotando seu aniversário de 400 anos de grande significado. Marilena CHAUÍ. “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”. In: Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro. Belo Horizonte: Autêntica Editora; São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2013, p. 152-3. 29 Ernesto de Souza CAMPOS. História da Universidade de São Paulo. São Paulo, Edusp, 2004. 30 Ernesto de Moraes LEME. “À guisa de prefácio”. In: Ernesto de Souza CAMPOS. Idem. 31 Ernesto de Souza CAMPOS, idem, p. 311. 28 28 Mas não é apenas nos textos que se expressa a repetição do mito fundador: a cultura material se inclui entre uma das formas de expressão desta sucessiva reposição do passado. Nas escadarias da Faculdade de Direito da USP, encontra-se, no térreo, um vitral central representando o antigo convento franciscano que abrigou os cursos jurídicos a partir de 1827 (Figura 2). Em terreno doado pela Câmara em 1642, o convento foi construído em 1647 e abrigou um pequeno núcleo franciscano na Vila de São Paulo de Piratininga. Datam deste período o pátio e as famosas arcadas com suas pilastras de alvenaria feitas com argamassa de saibro e blocos de pedra-ferro, tão característicos das construções eclesiásticas, que viriam marcar indelevelmente a identidade da futura Faculdade. Depois de proclamada a Lei de 11 de agosto de 1827 que criava os primeiros cursos jurídicos no Brasil, José Arouche de Toledo Rendon, nomeado diretor da Academia, emitiu parecer a favor da escolha do convento de São Francisco para sediar o Curso de Ciências Jurídicas e Sociais, em detrimento dos conventos do Carmo e São Bento. 32 Contudo, no início dos anos 1930 é posta em discussão a capacidade da antiga construção de continuar abrigando a Faculdade, mesmo depois de passar por reformas na década de 1890. Em 5 de dezembro de 1931, Alcântara Machado, então Diretor da Faculdade, encaminha ofício ao diretor geral do Departamento Nacional de Ensino na tentativa de convencê-lo da necessidade de ampliação e reforma do edifício, alegando falta de espaços adequados e condições de higiene, bem como problemas no telhado, nas calhas e nos forros. As instalações eram consideradas inadequadas para o funcionamento das atividades administrativas e das aulas, motivando o diretor a fazer constar no relatório referente ao ano de 1932 que em função da deficiência das acomodações, não foi possível iniciar os cursos pré-jurídicos – conhecido como Curso Anexo, preparatório aos que prestariam exames para ingressar na Faculdade. Mas Waldemar Ferreira, diretor que responsável pelo relatório anual de 1934, alegava que as novas reformas planejadas e executadas logo se mostraram insuficientes. Mas a polêmica proposta de demolir o velho convento e em seu lugar construir um novo edifício não se amparava apenas na questão da adequação física das instalações: a inevitabilidade do progresso do século XX exigia que aquele estorno ao progresso material fosse substituído por uma construção moderna e monumental, que correspondesse aos anseios de grandiosidade pretendidos pela Faculdade de Direito. Apesar de objeções, predominou a noção de que o pesar pelo desaparecimento da velha tradição da cidade – considerada por 32 Cf. Ana Luiza MARTINS; Heloisa BARBUY. Arcadas: História da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (1827-1997). São Paulo: Alternativa, 1998, p. 14-29; Ernesto de Souza CAMPOS, História da Universidade de São Paulo, p. 309. 29 alguns como uma de suas mais preciosas relíquias – seria compensado pelo otimismo do progresso material e pelo simbolismo de um amplo, moderno e majestoso edifício que fizesse jus à instituição. Ainda assim, a força da tradição não sucumbiu. Premido pela ideia de que o prédio, como suporte de memória e portador da tradição que representava os primeiros estertores de independência intelectual no Brasil, o engenheiro e arquiteto encarregado pelo projeto do novo edifício, Ricardo Severo – conhecido como precursor do estilo arquitetônico neocolonial –, buscou conciliar tradição e modernidade na formulação e execução da proposta. Tratava-se, pois, de conferir um novo sentido aos elementos do passado como processo de recriação das tradições no novo prédio. Neste sentido, pelo menos três dimensões do novo edifício garantiriam que estivesse ancorado na tradição: o estilo arquitetônico que propunha uma estética de retomada da arquitetura colonial brasileira; a presença de artefatos e elementos da cultura material que evocavam a história da Faculdade; e a recriação de espaços simbólicos do velho convento, como o pátio das arcadas.33 Neste local, por ocasião da chamada Festa da Tradição no dia 11 de agosto de 1935, ainda em meio aos escombros da obra inconclusa, um dos oradores da solenidade matutina, ainda que lamentando o “desaparecimento do velho claustro”, revelava que a tensão entre modernidade e tradição não estava apenas na edificação, mas também no sentimento de quem havia frequentado a Faculdade anteriormente: De fato, o espírito de quem se detém ante a contemplação daquele sítio, de onde desapareceu a simplicidade vetusta do antigo convento, e a perspectiva de nele ver levantar-se o aparato de um palácio, oscila entre o constrangimento saudoso pela destruição da velha mole, seio de tantas reminiscências gloriosas, e a necessária conformação com as inelutáveis contingências da vida moderna. 34 Compreende-se, portanto, que aquilo que motivou a preservação das Arcadas no novo edifício também pesou para o programa decorativo dos vitrais nas escadarias da Faculdade. No intuito de vincular a instituição com a história de São Paulo, além do antigo convento franciscano, estão representadas, no primeiro andar, a missa que é considerada seu momento de fundação (Figura 3), o Pátio do Colégio que é considerado seu local de fundação (Figura 4) e a partida das monções, simbolizando as bandeiras, seu movimento de expansão (Figura 5). Indo além, buscava-se relacionar a formação da nação soberana com a fundação da Faculdade. Na pintura presente em uma das paredes da Sala da Congregação – na qual, lembremos, ocorreu o Ciclo de Debates Caio Prado Júnior em 2013 – se encontra transcrito o 33 Diego Amorim GROLA. A memória nas arcadas: construção material, simbólica e ideológica do edifício da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. São Paulo: Humanitas/FAPESP, 2012, p. 27-53. 34 Rodrigo OTÁVIO. Foi um dia um convento. O Estado de S. Paulo, 17 ago. 1935, p. 4 apud Ana Luiza MARTINS e Heloisa BARBUY. Arcadas, p. 177. 30 artigo 1º da lei de 11 de agosto de 1827, que cria os cursos jurídicos no Brasil. A seu respeito, Martins e Barbuy fazem o seguinte comentário: Um valor simbólico é atribuído não só à data de criação dos Cursos Jurídicos mas também ao fato de sua viabilização através de texto legal, o que no caso das Academias de Direito, significava o primeiro passo para uma ordem jurídica no estado nacional. Se a proclamação da Independência, às margens do Ipiranga, em 1822, tinha significado simbólico de emancipação política do país, o estabelecimento dos Cursos Jurídicos representava sua emancipação intelectual. 35 Certamente, este era o entendimento dos projetistas do novo edifício. Nesta mentalidade se enquadra o vitral central do segundo andar das escadarias da Faculdade. Criada a partir da famosa pintura de Pedro Américo, a obra representa o grito da Independência, servindo não apenas como repositório da memória nacional, mas também como uma ponte entre a nação e a tradição das arcadas. (Figura 6) Contudo, entre as memórias que compunham aquele espaço no período de 1954 a 1957, não havia apenas 1554, 1882 e 1827. Sobre todos esses, mais um sedimento se somava: o movimento constitucionalista de 1932. Contribuía para isso a presença do monumento “Aos acadêmicos de direito mortos por S. Paulo em 1932” (Figura 7), inaugurado na referida Festa da Tradição, em 11 de agosto de 1935. Ademais, no capítulo referente à Faculdade de Direito do livro de Campos sobre a história da USP, o autor lembrava a “vibrante e comovida oração de Alcantara Machado”: Conclamou o espírito das grandes personalidades que saíram dos bancos acadêmicos da Faculdade de Direito ou ilustraram suas cátedras, para uma imaginária sessão comemorativa da fundação dos cursos jurídicos, em XI de agosto de 1932. Saudava os moços que nas linhas de frente se batiam pela constitucionalização do Brasil. 36 Em seguida, listando as efemérides que registram o que considerou os principais acontecimentos da Faculdade de Direito, Campos relata à sua maneira os acontecimentos de 9 de julho de 1932: Nesta data gloriosa para a história de São Paulo, congregaram-se no edifício da Faculdade, pela madrugada, os moços de São Paulo para a luta que se travou pela constitucionalização do país. Jovens pertencentes a um Estado cuja população sempre foi pouco afeita aos serviços de guerra, muitos empunhavam armas pela primeira vez. Mas não vacilaram em dar seu sangue e sua vida pela redenção constitucional do Brasil. E ali, na velha escola, orientadora dos destinos jurídicos de nossa terra, reuniram-se estudantes de todos os setores da vida estudantil e intelectual de São Paulo, irmanados por um só pensamento, o de repor o Brasil entre as nações democráticas. A luta foi árdua. O desfecho aparentemente negativo. 35 36 Ana Luiza MARTINS e Heloisa BARBUY. Arcadas, p. 27. Ernesto de Souza CAMPOS. História da Universidade de São Paulo, p. 317. 31 Todavia, esta foi a semente que mais tarde germinou, restabelecendo a ordem política, dentro de normas democráticas. Eis uma data que não poderia ficar esquecida nestas efemérides. E situa-se na Faculdade de Direito, de onde partiu o grito inicial. 37 O tom de exaltação evidencia não apenas a posição individual do autor e, por se tratar de uma publicação oficial, a posição da USP: trata-se, sobretudo, de travar uma disputa pela memória do movimento de 1932. No mesmo ano em que o livro foi lançado, inaugurou-se uma placa nos muros do saguão de entrada da Faculdade (Figura 8), uma homenagem do Instituto Argentino-lusobrasileño de Cultura de Santa Fé “A La Facultad de Derecho de San Pablo, ‘alma mater’ de la cultura jurídica e de la educación cívica brasileñas.” Não temos informações sobre o Instituto, mas a julgar pela inscrição “Daqui sahiram campanhas gloriosas” – numa evidente referência ao 9 de julho e à formação de batalhões no interior da Faculdade –, observa-se a intenção de fortalecer determinada memória em relação ao evento. Soma-se a isso, a data gravada na placa: 28 de agosto de 1954, poucos dias depois do suicídio de Getúlio Vargas, contra quem se insurgiu o movimento paulista em 1932. No mês anterior à inauguração da placa, circulou o manifesto “9 de Julho” do Centro Acadêmico XI de Agosto, assinado por Victor Augusto Fasano, seu presidente.38 Em tom poético e dramático, o documento se propunha a demarcar politicamente com quem consideravam traidores de duas “revoluções”, a de 1930 e a de 1932. Os primeiros seriam traidores porque “a Constituinte não vinha, não vinha nunca”, o que marcava “o início da carreira de traição e mentira do homem que se tornou beneficiário dela”, numa nítida alusão a Vargas. Os segundos, “homens que aderiram, que transigiram, que traíram porque isto lhes pareceu mais vantajoso do que continuar fiéis aos ideais de 32”, numa possível alusão a Miguel Reale – professor da Faculdade de Direito que foi Reitor da USP no período 19491950 e teve participação no movimento de 1932, mas que depois de abandonar o integralismo apoiou o Estado Novo e, em 1951, defendia a fusão de seu partido, o Partido Trabalhista Nacional (PTN), com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) de Vargas. 39 Para os autores do manifesto o “Nove de Julho foi esquecido. (...) 32 está longe e é fácil esquecê-lo”, sendo 37 38 Ibidem, p. 322. Em eleição realizada no dia 16 de outubro de 1953 que contou com 1331 votos válidos, Fasano, do Partido Acadêmico Libertador, concorreu com os estudantes Maurício dos Santos, Wladimir Ximenes e Wanderley Racy, elegendo-se presidente com 668 votos, perfazendo 50,18%. Cf. Dossiê 20-C-011, (320), fundo DEOPS, APESP. 39 Cf. Dossiê 24-Z-003 (76), fundo DEOPS, APESP; ver também entrevista de Miguel REALE em Ana Luiza MARTINS e Heloisa BARBUY. Arcadas, p. 236-44. 32 necessário lembrar que “foi uma epopeia, o marco inicial de uma grande epopeia”. A disputa política imediata, portanto, era travada também pelo combate ao esquecimento. 40 Em 1957, quando se completavam 25 anos do movimento constitucionalista, as celebrações tiveram grande pompa. No dia 7 de julho foi feito, em cortejo fúnebre e com a presença do Governador de São Paulo, o translado dos restos mortais dos “heróis de 32” que eram expostos na Praça da República para o saguão da Faculdade de Direito. No dia seguinte, com a presença de veteranos de 1932, familiares dos mortos, autoridades civis e militares, estudantes, professores e demais cidadãos paulistanos, foi feito novo translado dos restos mortais para a Catedral Metropolitana, onde ficariam até o dia seguinte. Na manhã de 9 de julho, em solenidade especial, o toque de alvorada foi dado pelos veteranos de 1932. Pela noite, no pátio das arcadas, foi realizada sessão solene com a presença do Secretário de Segurança Pública de São Paulo, o Reitor da USP, o Diretor da Faculdade e demais convidados. Segundo relatório investigativo do DOPS, os oradores afirmaram que “a revolução ainda não terminou” e conclamaram os presentes a manterem “sempre acesa a chama que iluminou o espírito dos revolucionário de 32” e cultuarem “a tradição para que esse movimento jamais seja esquecido.” No encerramento do evento, o Diretor Gama e Silva inaugurou uma placa gravada com poema de Ibrahim Nobre, onde se lê: “As gerações que viverem as arcadas / Saberão transmitir e sustentar / Sob a clara memória desses idos / A flama excelsa e viva dessa fé.” (Figura 9). Novamente o recurso à memória e o combate ao esquecimento. Novamente a presença do movimento constitucionalista. De acordo com o Anuário da Faculdade de Direito de 1932, Caio Prado Júnior encontrava-se matriculado no curso de Doutorado da Faculdade de Direito, cujo envolvimento no levante militar daquele ano foi intenso, levando à paralisação das atividades acadêmicas. Mas Prado Jr. não aderiu à causa dos constitucionalistas e, segundo sua primeira esposa, Hermínia Cerquinho, optou por retirar-se para uma das propriedades rurais da família durante os meses de conflito. 41 Décadas depois, em junho de 1978, quando perguntado se teve algum envolvimento em 1932, respondeu: 40 Cf. Dossiê 20-C-011 (353), fundo DEOPS, APESP. Não podemos deixar de transcrever o parágrafo inicial do manifesto, atestando que seus autores estavam fielmente embalados pelo mito fundador do Brasil e de São Paulo: “Pelos anos de 1500 houve em Portugal o tempo em que os portugueses desvendavam os mares. Tempos dos navegantes. E nossas terras foram descobertas então. Mas como se não bastassem as aventuras do navegado mar, pelo fascínio da terra e o desejo de fazer um povo, em nome de El Rey, em nome de Cristo, surgiu um novo homem, a quem chamaram paulista e uma nova aventura a que a história denominou o tempo das Bandeiras.” 41 Cf. Paulo Henrique MARTINEZ, A dinâmica de um pensamento crítico, p. 78. 33 Nessa época já estava no Partido Comunista e fui contra. Contra os dois lados. Era contra Getúlio, porque já havia passado dois anos desde a Revolução e não se fizera nada do que eu imaginava que se deveria fazer. As viagens pelo Brasil me mostraram que vivíamos num país de miseráveis, de pobreza e sofrimento. E imaginara que a Revolução fosse realmente começar a modificar a situação, a fazer alguma coisa. Talvez fosse um pouco apressado, por ser moço ainda e desejar realizar tudo de um dia para o outro. Eu era contra o governo, mas muito mais contra a gente daqui de São Paulo. O comando de 32 explorou o ressentimento paulista. 42 Na avaliação de Caio Prado, a massa do povo foi contra o movimento de 1932 por ser simpático à Revolução de 1930 e enxergar em Getúlio a encarnação de uma aspiração de mudanças, sendo que os setores reacionários temiam justamente isso em Vargas. São Paulo, 25 de janeiro de 1554; 11 de agosto de 1827; 9 de julho de 1932. De certa maneira, as memórias emuladas por estas datas confluíram para o dia 24 de agosto de 1954 no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, e seus desdobramentos. Mas para compreender melhor este processo, devemos nos debruçar sobre as conexões entre as tensões e conflitos políticos nacionais e o modo como esta conjuntura se desdobrava na cidade de São Paulo e na sua tradicional Faculdade de Direito. Comunistas, trabalhistas, udenistas e militares A conjuntura política brasileira do período que estamos analisando já foi vastamente abordada pela historiografia. Mesmo que isso não signifique que o assunto esteja esgotado, podemos dizer que o conhecimento sobre o assunto é suficiente para nossos objetivos. Não pretendemos sumariar, debater exaustivamente ou simplesmente reproduzir a produção historiográfica disponível, pois isso fugiria de nossos propósitos. Tomando-a como base buscaremos relacionar, de um lado, a dinâmica da luta política e as movimentações de seus principais atores nacionalmente e, de outro, as ações e reações dos sujeitos que frequentavam o “majestoso” prédio do Largo do São Francisco. Com isso, nos aproximaremos um pouco mais de parcela dos ambientes geral e específico nos quais e para os quais Caio Prado Júnior produziu os textos. Neste mesmo sentido, por ser marxista e militante comunista, daremos atenção especial à atuação do PCB nesta conjuntura. Ainda que as posições de Caio Prado não coincidissem necessariamente com as de seu partido, importa saber como agiu o grupo do qual fazia parte. “É preciso deixar o povo falar”. Entrevista. Em Lourenço Dantas MOTA (coord.). A história vivida. São Paulo: O Estado de S. Paulo, 1981, p. 305 (v. 1). 42 34 Se o alvorecer de 1954 em São Paulo teve o IV Centenário como principal atrativo, na Faculdade de Direito não foi diferente. O DOPS-SP, preocupado com o sucesso dos festejos, ou seja, com a garantia da ordem, não deixou de investigar como se preparavam os estudantes do Largo de São Francisco para a ocasião. Por meio de seus relatórios é possível perceber o grau de tensão política que existia com a possibilidade do presidente Getúlio Vargas participar das celebrações. Diversas reuniões estudantis vinham se realizando para organizar uma passeata no dia 25 de janeiro em protesto à presença de Vargas: no caso, os estudantes deveriam repetir em voz alta por várias vezes a palavra de ordem “Fora Corrupção” quando passassem pelo palanque oficial. O estudante Marcos Pereira alegava que desde o momento em que assumiu a presidência, Getúlio “tudo fez para prejudicar São Paulo [...]; não é justo portanto que ele venha a uma festa à nossa casa.” Outro aluno, José Gregório, propôs que caso o presidente de fato fosse a São Paulo, que o Centro Acadêmico XI de Agosto pusesse “bandeira em funeral e os alunos de gravata preta”. Contudo, prevaleceu a posição moderada de Alfredo Arduini apresentada em reunião da diretoria da entidade estudantil no dia 11 de janeiro: São Paulo estará em festas. Turistas em quantidade estarão presentes. E nós devemos dar mais do que ninguém uma demonstração de respeito aos homens que dirigem nosso país. Podemos não admirar o Sr. Getúlio Vargas, porém devemos respeitar em nossa festa magna, a figura do Presidente da Nação, seja ele quem for. Não gostamos do homem, mas valorizamos o título e a posição que ele ocupa. Principalmente e considerando-se que o “XI de Agosto” tomará parte nos festejos, fazendo realizar uma serenata, serenata esta que foi lembrada especialmente pelo Senhor Governador; indicando os alunos desta casa para relembrar São Paulo da serenata, da garoa, do paulista. 43 Mas isso não impediu que posteriormente o estudante de filosofia Luiz Alves Trancoso fizesse um pronunciamento enfático em reunião do dia 16 com a presença de estudantes das faculdades de Direito, Filosofia e Politécnica: Meus colegas! Poderá ser antipática minha argumentação. Poderá causar espécie meu ponto de vista, mas sou, como paulista, e disso muito me orgulho, contrário à pessoa do Senhor Vargas. Este homem, colegas, dorme procurando em seu sono satânico, um “que” com que possa prejudicar São Paulo. [...] Vem este homem arruinando o país há 20 anos, e a base de sua perseguição é São Paulo, que cometeu o crime de colocar-lhe na garganta um espinho em 1932. Não há miolo de pão brasileiro que lhe arranque esse espinho. Por isso São Paulo terá que pagar. Se houvesse uma figueira, capaz de enforcar um Estado, São Paulo seria a vítima; e o tambor seria o repicar da dentadura de Vargas no seu sorriso maquiavélico. É ferrenho inimigo dos Paulistas. [...] É esse o homem que vem a São Paulo, no dia 25. Por certo virá sorrir satanicamente dos mesmos homens que o enfrentaram em 43 Dossiê 20-C-011 (333) (332), fundo DEOPS, APESP. 35 32. Não devemos permitir que ele venha. Se vier façamos seu enterro. O caixão está pronto. O defunto vai chegar. 44 Aprovou-se que caso Vargas fosse a São Paulo haveria protesto com uma passeata na qual seria carregado um caixão. Os professores que acabavam de sair de uma reunião da Congregação da Faculdade tomaram conhecimento da decisão e buscaram demover os estudantes da posição, sob o argumento de que deveriam ser dadas demonstrações de solidificação do regime e respeito às autoridades, o que foi conseguido. Mas a oposição estudantil à Vargas que se manifestava entre os muros da Faculdade não se restringia a ela. Anteriormente, no dia 12 de dezembro de 1953, no Monumento do Ipiranga, havia sido realizado comício de lançamento do Movimento Cívico de Recuperação Nacional, impulsionado pelo XI de Agosto. O local foi estrategicamente escolhido: “Ao lado de um símbolo de liberdade política de São Paulo também partirá o grito da liberdade espiritual contra as forças da degradação moral”, dizia o panfleto que convocava o ato.45 Fizeram uso da palavra no comício o político Otávio Mangabeira, o prefeito Jânio Quadros, o jornalista Carlos Lacerda e o escritor Paulo Duarte. Apesar de aparentemente expressivo, o movimento, na avaliação do investigador do DOPS, não encontrou a repercussão desejada por seus organizadores. Trabalhistas, ademaristas e comunistas seriam contrários e outros tantos consideravam que a iniciativa não deveria servir para satisfazer meia dúzia de udenistas e outro tanto de janistas.46 Como vimos, sob a direção de Victor Fasano o Centro Acadêmico XI de Agosto mantinha relações políticas com importantes lideranças conservadoras. Mas os contatos não se limitavam ao meio civil. A partir da ditadura do Estado Novo, depois da repressão dos comunistas, dos integralistas e das oligarquias regionais, os militares passaram a ser os fiadores, mais do que da defesa nacional, também da ordem interna e da política de desenvolvimento econômico industrial. A partir de 1947, o advento da guerra fria inaugurou um período em que os setores conservadores das Forças Armadas visavam uma intervenção mais orgânica dos militares na política, em termos institucionais e não apenas individuais. Com a criação da Escola Superior de Guerra (ESG) entre 1948 e 1949, que surgiu mais como uma escola de altos estudos sociais, políticos e econômicos do que apenas uma escola de guerra, estreitaram-se os laços entre elites militares e civis no combate ao comunismo. Assim, desde o final dos anos 1940 as Forças Armadas redefiniram suas doutrinas e modelaram uma corporação que tratava de 44 Dossiê 20-C-011 (334), fundo DEOPS, APESP. Dossiê 20-C-011 (328), fundo DEOPS, APESP. 46 Cf. Dossiê 20-C-011 (331) (330) (329) (328), fundo DEOPS, APESP. 45 36 expandir seu papel ativa e dinamicamente, inclusive na atividade política. Nesse contexto, o Clube Militar ganhava gradativa importância ao longo dos anos 1950, e os problemas nacionais encontravam eco nas chapas que polarizavam as disputas pela sua diretoria. Setores progressistas e nacionalistas se confrontavam com anticomunistas e favoráveis ao alinhamento do Brasil com os EUA nos quadros da guerra fria. Estes últimos, derrotados nas eleições de 1950 do Clube Militar e atuando como corrente de oposição à diretoria eleita, fundaram em fins do ano seguinte uma organização para coordenar sua ação política: a Cruzada Democrática. Em seu manifesto de criação, defendia-se a proscrição do Clube de “atividades que afetem a Ordem e a Segurança interna e os compromissos internacionais da Nação Brasileira; as atividades que possam ser exploradas num sentido político-partidário, visando gerar dissensões de qualquer natureza entre os sócios; as iniciativas que possam ser interpretadas como pressões indébitas, quer sobre a opinião pública, quer sobre os poderes constituídos.” Nas eleições de 1952 a chapa organizada pela Cruzada Democrática foi vitoriosa. Já em 1954, o agravamento da crise política que resultaria no suicídio de Vargas e a eficácia das pressões exercidas nos quartéis garantiram uma vitória ainda mais esmagadora na reeleição. 47 Esta crise havia sido aberta depois da divulgação, em fevereiro de 1954, do “Memorial dos Coronéis” – documento assinados por quase uma centena de coronéis e tenentes-coronéis que refletia as posições do alto comando do Exercito e da corrente que se organizava em torno da Cruzada Democrática no Clube Militar. Seu impacto político imediato resultou na queda dos ministros do Trabalho e da Guerra do governo Vargas. 48 Mas Zenóbio da Costa, o novo Ministro da Guerra, parecia não agradar os setores anticomunistas do Clube Militar. Em função de uma declaração desta autoridade de que não havia perigo comunista no Brasil, pois tal movimento não teria proporções suficientes para provocar consequências ameaçadoras ao país, a Cruzada Democrática enviou em maio uma carta ao Centro Acadêmico XI de Agosto apresentando argumentos e documentos que contrariavam a avaliação do Ministro. Alegaram que estavam perplexos com tal declaração e sentiam-se “na obrigação de fazer chegar aos moços estudantes de São Paulo o que de verdade existe.” Por ser um “baluarte democrático”, Cf. João Roberto Martins FILHO. “Forças Armadas e política, 1945-1964: a ante-sala do golpe”. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de A. Neves (org.). O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003 (O Brasil republicano, v. 3), p. 97-126. 48 Ibidem, p. 117. 47 37 a academia poderia “aquilatar por seu espírito moço o perigo que realmente ameaça nossa pátria.” 49 Apesar da Escola Superior de Guerra não se confundir com a corrente anticomunista do Clube Militar organizada em torno da Cruzada Democrática, os oficiais da ESG procuravam preservar com este grupo boas relações, cientes de que constituiriam a base de apoio indispensável para seu propósito de definir uma doutrina e uma linha de ação de segurança nacional para as Forças Armadas no contexto de bipolarização da guerra fria. E no sentido de formular tal doutrina, confirmando que se tratava de uma instituição de altos estudos políticos, econômicos e sociais, em meados de 1956 a Escola Superior de Guerra e a USP, e particularmente a Faculdade de Direito, entraram em entendimento no sentido de promover altos estudos referentes aos problemas, à organização e à segurança nacionais, realizando conferências seguidas de debates, que contariam com a presença de conferencistas da ESG. Tratava-se de uma iniciativa proposta pelo Prof. Soares de Melo que, depois de ter cursado a Escola Superior de Guerra entre março e dezembro de 1955 como representante da USP, retornou à Faculdade de Direito e, em fevereiro de 1956, informou à Congregação que a direção da ESG pretendia instituir um curso de defesa nacional em diversos institutos universitários brasileiros. Compreendendo que a Faculdade deveria se associar à ideia, recomendou que fosse formada uma comissão para fazer as tratativas com a Escola e estabelecer um intercâmbio de professores com o objetivo de melhor esclarecer à Congregação sobre o referido curso. 50 Assim, de acordo com o parecer dos professores Candido Mota Filho, Braz de Souza Arruda, José Soares de Melo e Ernesto de Moraes Leme apresentado à Congregação da Faculdade de Direito, deveria ser criado nos seguintes termos um Instituto para concretizar a proposta: A direção será constituída de três representantes da Faculdade, designados pela Congregação, de um representante da Escola Politécnica, Faculdade de Medicina, Faculdade de Filosofia e Faculdade de Ciências Econômicas, sob a presidência do Reitor da Universidade. E por um Conselho composto de representantes do Instituto de Engenharia, Ordem dos Advogados, Associação Paulista de Medicina, Federação das Indústrias, Federação do Comércio, Sociedade Rural Brasileira, Faresp, um representante do clero, um representante da 2ª Região Militar, um representante da Academia Paulista de Letras e da Sociedade Brasileira de Filosofia [Instituto Brasileiro de Filosofia]. 51 49 Dossiê 20-C-011 (347), fundo DEOPS, APESP. Cf. Ata da 2ª sessão da Congregação em 24 de fevereiro de 1956, Livro 17, p. 2. 51 Ata da 5ª sessão da Congregação em 22 de junho de 1956, Livro 17, p. 35-6. 50 38 Na reunião, o prof. Soares de Melo salientou ainda que, depois da apresentação do parecer, teve conhecimento de um artigo publicado na Military Review sobre a escola civil de guerra de Harvard, nos mesmos moldes do que se pretendia fazer em São Paulo. A iniciativa prosperou. Em consequência, em setembro do mesmo ano já se realizava na Faculdade de Direito o curso de extensão universitária “Problemas fundamentais do Brasil”, sob os auspícios da ESG e em cooperação com a USP. Na programação estavam previstos tema como inflação, petróleo, produção industrial e agrícola, transportes, energia elétrica, entre outros, tendo a primeira aula do curso versado sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos. 52 Tanto a Congregação da FD-USP quanto o Centro Acadêmico XI de Agosto tiveram contato com militares em um momento de intensa participação das Forças Armadas na política nacional. Getúlio Vargas governou sob constante pressão dos quartéis e para evitar um golpe suicidou-se; Carlos Luz – presidente da Câmara dos Deputados que, na linha sucessória, assumiu a presidência da República depois que Café Filho renunciou por problemas de saúde – foi derrubado por um golpe preventivo comandado pelo General Henrique Teixeira Lott em novembro de 1955; e Juscelino Kubitschek enfrentou permanente rebeldia e revolta militares. Havia uma profunda divisão no país em torno de dois projetos distintos: de um lado, o trabalhismo e o getulismo propondo o desenvolvimento nacional com base na industrialização com o fortalecimento do Estado e das empresas estatais; de outro, o udenismo, o antigetulismo e o anticomunismo propondo o equilíbrio fiscal e a abertura econômica em moldes profundamente liberais e conservadores. Pelo menos três fatores fundamentais contribuíram para que a participação orgânica dos militares na política nos anos 1950 contrastasse com as décadas anteriores: o fortalecimento e as transformações pelas quais passaram as Forças Armadas depois de 1935 e principalmente durante o Estado Novo; a ativa participação política militar na deposição de Vargas em outubro de 1945; e a criação da Escola Superior de Guerra no final dos anos 1940. Mas apesar da correlação de forças na Marinha, no Exército e na Aeronáutica nos momentos de crise institucional do período ter sido um fator importante nos seus desfechos, os diferentes projetos em disputa mobilizavam, dirigiam e organizavam forças políticas e sociais nos mais diversos espaços – inclusive nas universidades. “Notas à margem de um curso. Relações Brasil-Estados Unidos”. Notícias de Hoje, 27 set. 1956. Ver Dossiê 50-Z-013, documento 434, fundo DEOPS, APESP. 52 39 A hegemonia conservadora na Faculdade de Direito no início dos anos 1950 era incontestável, o que dificultava sobremaneira a ação dos comunistas em seu interior. Porém, entre os saudosistas de 1932 e os militantes do PCB havia um ponto em comum: fazer oposição a Vargas. No caso dos comunistas esta orientação remontava aos documentos que ficaram conhecidos como o Manifesto de Janeiro (1948) e o Manifesto de Agosto (1950). Depois de cassado o registro do PCB em 1947 e malogrados os esforços para reverter a situação perante o Tribunal Superior Eleitoral, constatou-se a inadequação da política de “União Nacional”. Basicamente, no plano internacional tal orientação era consubstanciada na política de coexistência pacífica da URSS com os EUA no imediato pós-guerra visando “desmascarar os provocadores de guerra e garantir as condições para a marcha pacífica dos povos no caminho do progresso e da democracia”. Internamente, se refletia na posição “em face ao governo de apoio franco e decidido aos seus atos democráticos e de luta intransigente, se bem que pacífica, ordeira e dentro dos recursos legais, contra qualquer retrocesso.” 53 Em 1948 o Manifesto de Janeiro fez uma autocrítica da política que vinha sendo empregada e, em 1950, estas posições seriam aprofundadas e consolidadas no Manifesto de Agosto, que caracterizava o governo Dutra como de “traição nacional” e “serviçal do imperialismo” que deveria ser derrubado por uma Frente Democrática de Libertação Nacional para instituir um “governo democrático e popular”. Em consequência o PCB defendeu o voto em branco para as eleições presidenciais de 3 de outubro de 1950, da qual saiu vitorioso Getúlio Vargas (PTB) com 48,7% dos votos, contra 29,7% de Eduardo Gomes (UDN) e 21,5% de Cristiano Machado (PSD).54 O posicionamento em relação ao governo Dutra não se alterou no que se refere ao governo Vargas. O Projeto de Programa aprovado pelo Comitê Central do PCB em dezembro de 1953 considerava que o governo Vargas era “um instrumento servil dos imperialistas norte-americanos”, implementava uma “política de traição nacional”. Em suma, era “inimigo do povo”, devendo ser “destruído e substituído por um novo regime, o regime democrático 53 Resoluções da III Conferência Nacional do PCB, 15 jul. 1946. In: Edgar CARONE. O PCB. São Paulo: Difel, 1982, (v. 2, 1943 a 1964) p. 65-8. Cf. Lúcio Flávio Rodrigues ALMEIDA. “Insistente desencontro: o PCB e a revolução burguesa no período 1945-64”. In: Antonio Carlos MAZZEO; Maria Izabel LAGOA (orgs.). Corações Vermelhos: os comunistas brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003, p. 89-94; Jose Antônio SEGATTO. “PCB: a questão nacional e a democracia”. In: Jorge FERREIRA; Lucília de A. Neves DELGADO (orgs.). O tempo da experiência democrática, p. 224-7; Antônio Carlos MAZZEO. Sinfonia inacabada: a política dos comunistas no Brasil. Marília: Unesp-Marília-Publicações; São Paulo: Boitempo, 1999, p. 73; Thomas SKIDMORE. Brasil: de Getúlio a Castelo. Rio de Janeiro: Saga, 1969, p. 108. Para o Manifesto de Janeiro (1948) e o Manifesto de Agosto (1950) ver Edgard CARONE. O PCB, p. 72-89 e 108-12, respectivamente. 54 40 popular” a partir de um “governo democrático de libertação nacional”. 55 Ao longo de todo o ano de 1954, nas páginas do jornal Voz Operária, órgão do PCB, foram veiculadas matérias e editoriais com o tom e o sentido do Manifesto de Agosto (1950) e do Projeto de Programa (1953) – que deveria ser debatido e submetido ao IV Congresso do partido, convocado para novembro de 1954. Nos preparativos para as eleições estaduais de outubro, dizia-se que um dos objetivos era derrotar os candidatos de Vargas. Em relação à política externa, dizia-se que o presidente amestrava diplomatas para servir aos americanos. Na campanha contra o aumento dos preços, Getúlio era considerado o “pai da carestia” e seu governo o “fabricante da carestia”. Na campanha pela legalidade do PCB, faziam-se contundentes denúncias da perseguição aos comunistas e repressão contra os direitos sindicais e as liberdades democráticas. Nos preparativos para o 1º de maio, avaliava-se que o governo concederia um aumento de apenas 40% a 50% no salário mínimo, sendo que a reivindicação era “Nem um centavo a menos que os 100% de aumento no atual salário mínimo!”. Mesmo depois de feito o anúncio de 100% de aumento pelo Ministro do Trabalho, João Goulart, no primeiro de maio, a avaliação do governo não sofreu nenhuma mudança. 56 Em meio à tensão entre as tentativas de estabilização e os mecanismos que garantissem o crescimento econômico e o desenvolvimento, tamanho aumento dos salários não foi um gesto menor. A situação econômica do Brasil durante o Governo Vargas emitia sinais de dificuldades, herdadas de seu antecessor, Eurico Gaspar Dutra. O saldo do balanço de pagamentos vinha sofrendo queda desde 1949, que só passou a ser revertida em 1951 e saiu do negativo apenas em 1954. A deterioração do salário mínimo vinha desde o final do Estado Novo sem um reajuste substantivo, o que veio a ocorrer somente em dezembro de 1951, repondo-o aos níveis pouco superiores aos de 1943, e em maio de 1954. Em 1953, a inflação deu um salto do patamar anterior, avaliado em torno de 12%, para 20,8%. No mesmo ano, o PIB cresceu apenas 2,5%, contrastando com os 4,9% de 1951 e os 7,3% de 1952. Ademais, a campanha desencadeada nos Estados Unidos contra o café brasileiro resultou na queda dos preços internacionais e na redução das exportações do principal produto brasileiro, complicando a balança comercial.57 55 Projeto de programa do partido Comunista do Brasil, Voz Operária, n. 242, 2 jan. 1954, p. 1-5. Voz Operária, edições de 13 e 20 fev., 27 mar., 10 e 17 abr. e 8 mai. 57 Cf. Pedro Cezar Dutra FONSECA. “Nem ortodoxia nem populismo: o segundo governo Vargas e a economia brasileira”. In: Marcos Costa LIMA (org.). Os boêmicos cívicos: a assessoria econômico-política de Vargas (1951-54). Rio de Janeiro: Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, 2013, p. 612; Sérgio Bresserman VIANNA. “Duas tentativas de estabilização: 1951-1954”. In: Marcelo de Paiva ABREU 56 41 A crise econômica atingia o governo, mas a relação com a crise política era indireta: os liberais conservadores, liderados pela UDN simplesmente não aceitavam a presença do ditador do Estado Novo na presidência da República. Tentaram inviabilizar a posse de Vargas em 1950 com o argumento de que o candidato não havia obtido maioria absoluta dos votos, mas isso não era um requisito previsto pela legislação. A partir de 1953, a opção pelo golpe, que vinha sendo amadurecida pelos conservadores, tornou-se irreversível, sendo a desestabilização do governo a principal arma da oposição de direita. A situação de Getúlio já vinha se agravando ao longo de 1954, mas foi o atentado contra Carlos Lacerda na Rua Toneleros, em Copacabana, que resultou na morte do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, na primeira hora do dia 5 de agosto, que abriu caminho à ofensiva final dos udenistas. Embora desconhecesse que a iniciativa tinha partido de seu fiel chefe de segurança, Gregório Fortunato, o presidente não teria como escapar das responsabilidades. Na primeira página de seu jornal, Tribuna da Imprensa, Lacerda declarou: “[...] acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões. Esse homem é Getúlio Vargas”. Diante das circunstâncias, ciente de que o acontecido era de grande impacto político, o presidente teria comentado: “Esta bala não era dirigida a Lacerda, mas a mim.” 58 O fato causou profunda indignação na Faculdade de Direito. No dia 10 de agosto, os estudantes realizaram um comício que tomou o Largo do São Francisco quase por completo. Na ocasião, diversos oradores condenaram o ocorrido e responsabilizaram Vargas. O presidente do CA XI de Agosto, Victor Fasano, pronunciou discurso em que, além disso, defendeu a deposição de Getúlio da presidência da república e dizia acreditar nas Forças Armadas. O desejo de que o presidente renunciasse ou que as forças armadas o depusesse esteve presente nas falas mais contundentes.59 No dia seguinte, o 11 de agosto, aniversário da Faculdade, foi marcado por uma missa de sétimo dia do major Vaz na Catedral da Sé, com a presença de centenas de pessoas, entre militares, estudantes, professores e populares. Ao final da missa, já na porta da catedral, foram dados gritos de viva a Carlos Lacerda e morra a Getúlio Vargas.60 (org.). A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana (1889-1989). Rio de Janeiro: Elsevier, 1990, p. 123-50. 58 Cf. Thomas SKIDMORE. Brasil: de Getúlio a Castelo, p. 176; Jorge FERREIRA. “Crises da República: 1954, 1955 e 1961”. In: Jorge FERREIRA; Lucília de A. Neves DELGADO (orgs.). O tempo da experiência democrática, p. 306-8. 59 Dossiê 20-C-011, (360) (364), fundo DEOPS, APESP. 60 Dossiê 20-C-011 (362), fundo DEOPS, APESP. 42 Por outro lado, em 21 de agosto foi publicada entrevista de Luis Carlos Prestes, secretário geral do PCB, sobre o atentado na capa da Imprensa Popular, jornal de grande circulação editado pelos comunistas. Lembrando de operários torturados e assassinados durante o segundo governo Vargas e afirmando que nunca esqueceriam do Estado Novo, Prestes afirmou que os “trabalhadores brasileiros há muito tempo conhecem os instintos sanguinários do sr. Vargas e de seus policiais.” Quando perguntado sobre a possibilidade de um golpe de Estado ou militar, primeiro considerou que os comunistas precisam “unir e organizar nossas forças para por abaixo o governo Vargas e substituí-lo por um governo democrático de libertação nacional”. Em seguida, disse que “Vargas já confessou repetidamente que não se sente bem nas suas roupagens de presidente constitucional, mas falta-lhe ainda a força indispensável para realizar o golpe de Estado, liquidar os últimos vestígios constitucionais e implantar a ditadura terrorista que almeja.” Entretanto, avaliava que “a ameaça maior vem agora do outro bando, o dos politiqueiros da UDN, que cinicamente ainda pretendem passar por ‘oposicionistas’ e que tem à frente um grupelho de generais fascistas.”61 Fica evidente que a orientação política do Manifesto de Agosto (1950) e do Projeto e Programa (1953) ofuscavam a capacidade da direção do partido de compreender as condições concretas da disputa política em curso. No dia 22, Vargas recebeu um documento assinado por trinta brigadeiros da Força Aérea Brasileira (FAB) exigindo sua renúncia, que recebeu apoio de oficiais da Marinha no dia seguinte. À noite, um grupo de generais do Exército se somou e entregou um manifesto assinado por dezenove generais. Vargas presidiu sua última reunião ministerial nas primeiras horas do dia 24, em que decidiu aceitar a proposta de se licenciar até que fosse esclarecido o crime na rua Toneleros. Redigiu-se uma nota e pouco antes das cinco da manhã a notícia foi divulgada. Entretanto, duas horas depois um grupo de generais chegou ao Palácio do Catete exigindo que a licença se transformasse em renúncia. Diante daquilo que era, na verdade, sua deposição, Vargas se recolheu a seus aposentos e redigiu sua carta testamento. Entregou-a em um envelope a João Goulart para que fosse mostrado seu conteúdo à imprensa em Porto Alegre ou em Buenos Aires em caso de necessidade. Minutos depois, Vargas se suicidou. Por volta das nove da manhã a rádio Nacional divulgava o conteúdo da carta ao país. 62 61 Imprensa Popular, n. 1282, 21 ago. 1954, p. 1. Jorge FERREIRA. Crises da república..., p. 309-10; João Roberto Martins FILHO. Forças Armadas e política..., p. 118. 62 43 Enquanto no Rio de Janeiro os oficiais das Forças Armadas preparavam sua investida contra Getúlio com seus manifestos, Carlos Lacerda fazia visita a São Paulo para realizar conferências e participar de reuniões visando fortalecer a campanha oposicionista. No dia 20 participou de programa de televisão na Rádio Difusora, no Alto do Sumaré, na qual tratou do atentado e pediu a renúncia de Vargas e sua substituição pelo vice-presidente Café Filho. Na manhã seguinte, às 11 horas, participou de conferência no Instituto de Engenharia, onde lançou a campanha do “R”, que significaria “réu”, “renúncia” e “rua” para Getúlio. Em seguida, almoçou com jornalistas e proprietários de jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ao final do almoço, fez discurso, transmitido pela Rádio Difusora, mais uma vez clamando pela renúncia do presidente. Depois, rumou para a sede estadual da UDN, onde ocorria convenção do partido, que aprovou uma moção de solidariedade a Lacerda. À noite, participou de assembleia dos estudantes no Centro Acadêmico XI de Agosto. O jornalista e alguns estudantes portavam um “R” no peito. Na ocasião, teria dito: Dia 25 é um grande dia. Já soube que nesse dia os senhores vão organizar um comício e uma passeata. [...] Será outro dia do Fico. Só quem ficará será o povo livre dessa família de estrangeiros que infestou o Brasil. Não há mais o que negar. A culpa está provada. O dia 25 deve ser o da renúncia. Façam como quiserem. O estado Bandeirante terá recebido o seu maior presente de IV Centenário. Confiamos no patriotismo e bons propósitos da Formas Armadas. Elas querem o apoio do povo e este já o tem dado. 63 Às 10 da manhã do dia 22 decolou em direção ao Rio de Janeiro. 64 No dia 23, nova assembleia dos estudantes de direito ocorreu, na qual foi decidido que deveriam ir ao Rio de Janeiro solicitar a Vargas pessoalmente sua renúncia. Caso voltassem sem o resultado esperado, promoveriam uma greve geral de todos os estudantes de São Paulo. Durante a madrugada o Centro Acadêmico estava agitado. Cedo pela manhã, receberam a notícia de que o presidente havia renunciado. Animados, compraram fogos de artifício para comemorar. Enquanto estouravam, chegava a inesperada e surpreendente notícia do suicídio. Em respeito ao falecido, decidiu-se que a escola se silenciaria.65 Naquela manha e durante todo o dia, o povo revoltado com a morte de Vargas manifestou não apenas seu lamento, mas sobretudo sua raiva violentamente. No Rio, os símbolos da oposição foram alvo da revolta popular: material de propaganda da UDN, a Embaixada dos Estados Unidos, a sede da empresa Standard Oil, as sedes dos jornais O 63 Dossiê 20-C-011, (371), fundo DEOPS, APESP. Cf. Dossiê 20-C-011, (370) (371), fundo DEOPS, APESP. 65 Cf. Dossiê 20-C-011 (368), fundo DEOPS, APESP. 64 44 Globo, Tribuna da Imprensa, A Notícia e O Mundo – não por acaso, o único a escapar foi o Última Hora, solitário defensor do governo Vargas. Em diversas capitais a cena se repetiu: Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Natal, Fortaleza, Aracajú, Teresina. O suicídio de Vargas paralisou os golpistas e a reação popular os fizeram recuar. 66 As forças políticas se movimentavam diante do ocorrido. O Comitê Central do PCB lançou manifesto no dia 1º de setembro, no qual condenavam o golpe: “Pela força das armas, os piores inimigos do povo chegaram ao poder”. Ademais, saudavam “com orgulho patriótico as grandes e corajosas manifestações populares contra os generais fascistas e seus patrões norte-americanos” e se dirigiam “particularmente aos trabalhadores getulistas, nossos irmãos” para dizer que o momento “exige que trabalhistas e comunistas se deem fraternalmente as mãos” para lutarem juntos “em defesa das leis sociais conquistadas”. Por fim, repetiam para Café Filho, a mesma orientação em relação a Dutra e Vargas: “lutamos pela derrubada do atual governo e por um governo democrático de libertação nacional”, com a ressalva de que estariam dispostos a entrar em acordo com forças políticas, líderes e correntes patrióticas “que queiram unir-se em torno de uma plataforma democrática a fim de derrotar eleitoralmente as forças da reação e do entreguismo.”67 Nesta resolução já se encontrava esboçada a linha política que fundamentaria o artigo de Prestes de 2 de outubro defendendo uma aliança com o PTB e o apoio à chapa Juscelino-Jango nas eleições presidenciais de 1955, representando uma nova guinada na política do PCB que se solidificaria com a Declaração de Março (1958) e se estenderia até o golpe de 1964. Aparentemente, portanto, as mobilizações antigolpistas de agosto despertaram os comunistas para a realidade viva da conjuntura. 68 Por sua vez, Lacerda faz nova passagem por São Paulo em setembro e comentou o suicídio de Vargas, afirmando que a atitude foi um grito de desespero de quem, depois de destruir a dignidade da nação, destruiu-se a si próprio. Em seus discursos tratou de afastar a acusação de que seriam culpados pela morte de Getúlio.69 Nas eleições de outubro, elegeu-se deputado federal, mas a bancada da UDN caiu de 84 para 74 cadeiras, enquanto o PTB passou de 51 para 56 vagas na Câmara e o PSD aumentou sua representação ligeiramente, de 112 para 114 cadeiras.70 Mas sua influência sobre a Faculdade de Direito já não era a mesma na 66 Cf. Jorge FERREIRA. Crises da república..., p. 310-15. Voz Operária, n. 278, 11 set. 1954. 68 CF. Raimundo SANTOS. A primeira renovação pecebista: reflexos do XX Congresso do PCUS no PCB (1956-1957). Belo Horizonte: Oficina de livros, 1988, p. 87 69 Cf. Dossiê 20-C-011 (345), fundo DEOPS, APESP. 70 Cf. Thomas SKIDMORE. Brasil: de Getúlio a Castelo, p. 183. 67 45 crise de 1955. Lacerda questionava as razões que levavam os chefes os militares a permitirem a realização das eleições de 3 de outubro, pois a considerava fraudulenta. No dia 5 de agosto, em solenidade comemorativa de um ano da morte do major Rubens Vaz, o presidente do Clube Militar e chefe do Estado Maior das Forças Armadas, Canrobert Pereira da Costa fez discurso no qual dizia que os militares deveriam decidir entre uma pseudolegalidade corrompida e o restabelecimento da moralidade democrática mediante intervenção militar. Lacerda saudou o discurso de Canrobert. Estava dado o novo sinal. Não conseguindo inviabilizar, buscou-se adiar as eleições, também sem obter sucesso. Juscelino angariou 36% dos votos, Juarez Távora recebeu 30%, Ademar de Barros 26% e Plínio Salgado obteve 8%. O apoio de comunistas a Juscelino, a acusação de fraudes eleitorais e a já utilizada tese da “maioria absoluta” foram levantadas para tentar impedir a posse do presidente eleito.71 Mas na Faculdade de Direito a campanha não colou. Em reunião, a Congregação aprovou a seguinte moção: A Congregação da Faculdade de Direito, da Universidade de S. Paulo, fiel às gloriosas tradições democráticas do Brasil, as quais sempre cultuou, quer proclamar, neste momento angustioso da vida nacional, decidido apego às fórmulas constitucionais e firme aversão a quaisquer soluções ou tentativas de solução de divergências entre brasileiros por meios subversivos da ordem legal e, especialmente, à preconização e ao uso de métodos violentos, que repugnam a índole pacifica do nosso povo e a consciência jurídica da nação. São Paulo, 17 de outubro de 1955 72 Entre os estudantes, não foi diferente. Desde agosto vinham organizando debates sobre o golpe e, no dia 21 daquele mês, publicaram um manifesto assinado pelos presidentes das entidades estudantis que compunham a comissão executiva do Conselho Estadual de Universitários Paulistas, entre elas o XI de Agosto, que lançava o Movimento Universitário Contra o Golpe e conclamava o povo a cerrar fileiras na luta pela sobrevivência do regime democrático.73 Nesse contexto conturbado ocorreu o concurso para a cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito. Apesar de saber das dificuldades que enfrentaria para regressar à instituição onde se graduou-se bacharel em Direito agora na condição de professor catedrático de Economia Política, Caio Prado Júnior seguiu em frente e foi até o fim. 71 72 Cf. Jorge FERREIRA. Crises da república..., p. 315-19. Ata da 11ª sessão da Congregação em 20 de outubro de 1955, Livro 16, p. 89. Assinavam a moção: Braz de Sousa Arruda, Honorio Monteiro, Noé Azevedo, Siqueira Ferreira, Miguel Reale, Luis Eulalio de Bueno Vidigal, Luis Antônio da Gama e Silva, Gofredo da Silva Teles Jr., Alvino Lima, José Carlos de Ataliba Nogueira, Gabriel de Rezende Fº, Lino de Moraes Leme, Jorge Americano, Vicente Ráo, Genesio de Almeida Moura, Canuto Mendes de Almeida, Nicolau Nazo, Cardoso de Melo Neto 73 Dossiê 20-C-011 (431), fundo DEOPS, APESP. 46 47 2. O CONCURSO O ensino de economia política No Brasil, o ensino de Economia Política teve início com o decreto de 23 de fevereiro de 1808, assinado pelo Príncipe Regente, que se tornaria mais tarde D. João VI. Com sua promulgação, lançou-se a base jurídica para que se estabelecesse no Rio de Janeiro a primeira Cadeira e Aula Pública dedicada ao assunto, tendo sido designado como seu professor José da Silva Lisboa, o futuro Visconde de Cairu, autor dos Princípios de Economia Política (1804), considerado, assim, o pioneiro do ensino da Economia Política no país. No segundo quarto do século XIX, além das chamadas Aulas de Comércio da Corte – mantidas e fiscalizadas pela Real Junta de Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação – apenas as Faculdades de Direito de São Paulo e Recife, criadas conjuntamente em 1827, ministravam o ensino de Economia Política. Em 1856, as Aulas de Comércio da Corte foram transformadas no Instituto Comercial do Rio de Janeiro, marcando uma maior especialização das disciplinas. Ainda assim, mantinha-se a clássica associação entre o Direito e a Economia Política, já observada no currículo das Aulas de Comércio, e que também era característica das referidas Faculdades de Direito. Contudo, a integração da Economia Política no quadro das disciplinas voltadas à formação do jurista se dava a partir do domínio firmado do jurídico sobre o econômico. Sob o predomínio do ponto de vista do jurista, nas Faculdades de Direito o estudo da Economia Política era entendido como formação da cultura geral. 74 O século XIX se encerrou contando basicamente com três vertentes do ensino de Economia Política: o das Faculdades de Direito, sob o ângulo do jurista; o das Escolas Politécnicas e de Engenharia, atenta aos aspectos técnicos; e o do ensino comercial, voltado à formação dos homens de negócios. Foi somente na primeira década do século XX que o ensino de Economia e da Administração surgiu como ramo autônomo da graduação no ensino superior, precedido e acompanhado de vigorosa expansão do ensino comercial e como seu desdobramento – integrando-se, portanto, na tradicional vertente comercial, que remonta às Aulas de Comércio da Corte. A Academia de Ciências Comerciais do Rio de Janeiro, fundada em 1902, serviu como paradigma para o padrão de ensino oficial de Comércio. Assim, cerca de doze escolas distribuídas em oito estados tinham seus diplomas equiparados aos da 74 Cf. Alice Piffer CANABRAVA (coord.). História da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (1946-1981). São Paulo: FEA/USP, 1984, p. 23-7. De acordo com o decreto de 11 de agosto de 1827, nas Faculdades de Direito de São Paulo e Recife a Economia Política seria a primeira cadeira do quinto e último ano, o que significa que não fazia parte da formação básica dos futuros juristas. 48 Academia do Rio de Janeiro, em 1923. Estreitamente vinculada às Ciências Sociais, uma nova vertente veio a se constituir já nos anos 1930, com o ensino de Economia Política na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais, de 1931; na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, fundada em 193375; e no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da Universidade de São Paulo, fundada em 1934. 76 Antes do surgimento dos cursos de ensino superior de Ciências Sociais, este campo do conhecimento era em geral vinculado às Ciências Jurídicas e seu ensino ocorria nas Faculdades de Direito. Podemos dizer que um primeiro momento de dissociação entre estas áreas se deu com a chamada Reforma do Ensino Livre, que instituiu uma nova regulamentação para o ensino primário e secundário da Corte e para o ensino superior em todo o Império. O Decreto nº 7.247 de 19 de abril de 1879 dividiu as Faculdades de Direito em duas seções, uma de Ciências Jurídicas e outra de Ciências Sociais, sendo que a cadeira de Economia Política compunha o currículo desta última. Com a proclamação da República e os debates constituintes, novas modificações foram introduzidas nos cursos de Direito. A reforma de 1891 introduziu uma terceira seção, chamada “notariado”, e o Decreto nº 11.530 de 1915, ao reorganizar o ensino superior da República, determinou que no curso de Direito a cadeira de Economia Política e Ciências das Finanças passaria a ser lecionada no 2º ano do curso de Direito. 77 Junto à fundação da USP, com o objetivo declarado de “promover a alta cultura econômica e comercial e fornecer preparação científica para as profissões e ofícios de direção, atinentes à atividade econômica e comercial”,78 criou-se o Instituto de Ciências Econômicas e Comerciais da USP, mas que, diferentemente da FFCL, não foi instalado. Nos anos 1940, 75 Sobre a Escola de Sociologia e Política de São Paulo, ver Iris KANTOR, Débora A. MACIEL, Júlio Assis SIMÕES (orgs.). A Escola Livre de Sociologia e Política: os anos de formação (1933-1953): depoimentos. São Paulo: Sociologia e Política, 2009. A obra clássica de Roberto Simonsen, História Econômica do Brasil (15001820), publicada em 1937, resultou da série de conferências ministradas na cadeira homônima daquela Escola. São significativas as primeiras palavras de Simonsen na introdução de seu livro: “Em princípios de 1933, numa atribulada fase da vida paulista, considerável plêiade de intelectuais lançava, nesta cidade, um manifesto, que se há de tornar memorável com o correr dos tempos. Nesse documento, demonstravam que não tendo podido ver triunfante pela força das armas o seu ponto de vista, compreendiam, mais do que nunca, a profunda desarmonia existente entre as nossas aspirações e a realidade político-econômico-social do país. Pregavam a urgente necessidade de se criarem escolas de formação de ‘elites’, em que se divulgassem as noções de política, sociologia e economia, despertando e criando uma consciência nacional, capaz de orientar a administração pública, de acordo com a realidade do nosso meio, concorrendo, assim, para fazer cessar, dentro do Brasil, a incompreensão reinante de que São Paulo era, e é, a vítima principal.” Roberto SIMONSEN. História Econômica do Brasil (1500-1820). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978, p. 19. 76 Cf. Alice Piffer CANABRAVA (coord.). História da Faculdade de Economia e Administração..., p. 28-30. 77 Cf. Memorial das Arcadas, exposição permanente na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. 78 BRASIL. Decreto nº 6.283 de 25 de janeiro de 1934, que cria a Universidade de São Paulo. 49 diversos cursos de Economia foram criados no Brasil. “Ainda que com dificuldades, esses cursos nasceram porque se desejava difundir no país o ensino de Economia como ciência positiva, construída de um modo ou outro sob o fundamento da racionalidade instrumental”, afirma Euletério F. S. Prado.79 Neste sentido, o ano de 1945 é um marco também para o pensamento econômico brasileiro, na medida em que é promulgado o decreto-lei 7.988 de 22 de setembro que estipula o padrão oficial no ensino superior de Economia e Administração. De acordo com Alice Piffer Canabrava: O texto marca um ponto de inflexão nos quadros mentais do país, com a tomada de consciência quanto à complexidade que havia alcançado a economia brasileira como fato do novo Brasil emergente, e seu condicionamento à formação de profissionais especializados no estudo dessa realidade. (...) Dificilmente o Brasil poderia manter os níveis já alcançados quanto ao desenvolvimento econômico e aumentar o seu ritmo, sem a formação de pessoal credenciado para seu estudo, do ponto de vista científico, técnico e empresarial. Revelava a nova mentalidade dos grupos dirigentes e de setores das elites intelectuais, desenvolvimentistas e nacionalistas, voltada para as possibilidades materiais e humanas do país. Enfim, a nova consciência consagrava a importância do fator “econômico” no processo social associado à imagem do Brasil “moderno”, ou seja, industrial e urbano, que está a se projetar, sob os nossos olhos, em contraste com o do passado, agrário e rural. 80 Emblemático, neste sentido, é o famoso debate entre Roberto Simonsen e Eugênio Gudin em 1944 e 1945, que tinha uma face explícita (a planificação da economia brasileira) e uma implícita (o modelo brasileiro de desenvolvimento e o papel da industrialização). Enquanto o primeiro destacava a importância da industrialização e da planificação da economia para o desenvolvimento e a produção de riqueza, o segundo era avesso ao planejamento e buscava adaptar os postulados clássicos do liberalismo para o ganho de produtividade da economia primário-exportadora brasileira, alinhando-se com os defensores da vocação agrária do país. Em certo sentido, podemos dizer que este debate foi o precursor dos confrontos entre desenvolvimentistas e monetaristas que se aguçou nos anos 1950, se prolongou por décadas e, guardadas as particularidades do tempo histórico, em certa medida chega até os dias atuais. Naquela ocasião, por um lado, em contraste e oposição ao Estado Novo, havia uma intensificação de manifestações em favor de um maior liberalismo Euletério F. S. PRADO. “A ortodoxia neoclássica”. In: Tamás SZMERECSANYI; Franciso da Silva COELHO. (orgs.). Ensaios de história do pensamento econômico no Brasil contemporâneo. São Paulo: Editora Atlas, 2007, p. 7. 80 Alice Piffer CANABRAVA (coord.). História da Faculdade de Economia e Administração..., p. 31-2. 79 50 econômico; por outro lado, a ideologia desenvolvimentista resistiu a este clima liberalizante e reforçava a conscientização sobre a importância histórica do avanço industrial. 81 Ambas as posições se manifestavam em veículos de expressão pública, que cresciam em quantidade e importância nas discussões. Em meados dos anos 1940, o crescente interesse por assuntos econômicos pode ser visto na profusão de artigos, palestras e conferências, acompanhando a grande valorização da reflexão econômica e o prestígio dos próprios economistas. Incentivava-se a criação de instituições, assessorias técnicas e grupos de estudos e pesquisas de organizações públicas e privadas, e ressaltava-se com frequência a necessidade de elevar o padrão técnico das análises econômicas, seja em relação ao suporte teórico como à elaboração e utilização de estatísticas.82 Isso pode ser visto como uma expressão nacional e incipiente de um fenômeno mais amplo que se intensificaria com o tempo: na segunda metade do século XX, “a Economia como ciência ganhou um caráter técnico e profissional no mundo todo à medida que o sistema capitalista em permanente expansão foi se tornando gradualmente mais e mais regulado”. Trata-se de uma mudança que não ocorreu isoladamente nos meios científicos produtores da ciência econômica, mas se deu “também, em simbiose, nos centros dedicados à Economia Aplicada e nas instituições de ensino de graduação e pósgraduação”. 83 Contudo, no início dos anos 1950, o ensino de Economia Política na Faculdade de Direito mantinha-se relativamente hermético às novas orientações das ciências econômicas. Hermético, pois era o Direito e as ciências jurídicas que permaneciam como fio condutor da formação acadêmica. Mas o era apenas relativamente, pois não estava completamente alheia aos debates econômicos que a circundavam e, sobretudo no momento do concurso para a cátedra de Economia Política, viriam a atingi-la diretamente, como veremos nos próximos capítulos. Neste momento, o ensino de Economia Política já fazia parte das disciplinas lecionadas no primeiro ano do bacharelado,84 o que indica que os saberes econômicos passaram a ser considerados elementos importantes da formação básica dos juristas. 81 Cf. Ricardo BIELSCHOWSKY. Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000, p. 266-7. Sobre o debate Simonsen-Gudin, ver Roberto SIMONSEN, Eugênio GUDIN. A controvérsia do planejamento na economia brasileira. Brasília: Ipea, 2010; e Aloísio TEIXEIRA, Gilberto MARINGONI, Denise Lobato GENTIL. Desenvolvimento: o debate pioneiro de 1944-1945. Brasília: Ipea, 2010. 82 Cf. Ricardo BIELSCHOWSKY, idem, p. 267. 83 Euletério F. S. PRADO. “A ortodoxia neoclássica”, p. 7 84 Cf. SÃO PAULO. Lei estadual nº 3.023, de 15 de julho de 1937. 51 Fez-se necessário realizar concurso para selecionar um novo professor catedrático da cadeira de Economia Política, pois José Joaquim Cardoso de Melo Neto, então titular da cadeira, aposentou-se em fins de 1953: um mês depois de gozar de 60 dias de licença prêmio, o professor foi compulsoriamente aposentado por decreto do Governador de São Paulo, de 26 de agosto daquele ano. O professor Lino de Moraes Leme, que o substituiu quando do afastamento, passou a exercer interinamente o cargo de titular da referida cadeira após a aposentadoria de Cardoso de Melo Neto.85 No ano em que se aposentaria, o professor proferiu a aula de abertura dos cursos jurídicos, em 10 de abril, com o tema Almeida Nogueira e a cadeira de Economia Política na Faculdade de Direito, ocasião em que lembrou a todos que o homenageado tinha “o propósito permanente de levar a seus discípulos a convicção de que a matéria lecionada não sendo Direito, sem ela o Direito se esvaziava daquele conteúdo social que o coloca no ápice das ciências, porque o faz a ciência da coexistência humana”. Entretanto, se por um lado o Direito perderia seu conteúdo social caso fosse destituído do componente econômico de seus propósitos, por outro, em seu ensino era necessário “colocar, nítida e inconfundivelmente, a Economia no campo do Direito Público”, não importando que isso fosse feito “com a preocupação de reduzir as funções do Estado à atividade jurídica.”86 Assim, considerando-se privilegiado por ser sucessor de José Luis de Almeida Nogueira, Melo Neto inseria seu mestre (e a si mesmo, portanto) em uma tradição: A cadeira de Economia Política, nesta Faculdade, sempre esteve entregue a homens dedicados aos estudos de economia e finanças, na parte em que tais conhecimentos são indispensáveis ao desenvolvimento dos fenômenos jurídicopolíticos. Professores todos adeptos da escola clássica e por isso mesmo procurando incutir em seus discípulos a regra de não intervenção do Estado na ordem econômica. (...) Mas, o certo é que, na consecução de seu desiderato, estudavam a produção, circulação e consumo da riqueza em função do Estado. Eram juristas, forrados de economistas e como tais, jamais encararam o fenômeno econômico isolado e sempre e só conjugado com o ato jurídico. 87 Nenhum deles deixou de “dar a seus alunos a impressão de que a Economia Política, como sua própria denominação o indica, era matéria essencial num curso de Direito”. Mas rejeitavam a noção de Economia Política pura, que inventou o chamado homo economicus, bem como os economistas a ela vinculados que se encontravam “insulados muitos deles em seus teoremas, como se possível fora enquadrar o fenômeno humano da produção e circulação 85 Cf. Relatório das atividades da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1953). Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 49, 1954, p. 552-5. 86 José Joaquim Cardoso de MELO NETO. Almeida Nogueira e a cadeira de Economia Política na Faculdade de Direito. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 48, 1953, p. 106-11. 87 Ibidem, p. 111. 52 da riqueza dentro de uma fórmula matemática”. Aos ingressantes da turma de 1953, o catedrático que logo viria a se despedir das Arcadas registrou que Almeida Nogueira – e por extensão a tradição do ensino de Economia Política da Faculdade de Direito – reconhecia a legitimidade da intervenção do Estado na economia. O homenageado, ainda que apresentasse seu livro fundamental como sendo “inspirado pelos ideais do mais puro liberalismo, na melhor acepção da palavra”, não levava “a extremas consequências o princípio individualista, quando em conflito com os interesses fundamentais da comunhão social”. 88 Tais interesses, temo-los também como direitos da coletividade, oriundos da solidariedade humana. Deve, pois, a sociologia, consagrar princípios tendentes a operar a harmonia dos direitos da sociedade com a liberdade humana, e não menos os direitos da humanidade com a liberdade social. Se a produção da riqueza não é fenômeno que possa resultar do exclusivo esforço da atividade particular, mas antes da ação do indivíduo com a colaboração, aparente ou oculta, da sociedade, não é lógico nem equitativo contestar-se a legitimidade da interferência do Estado nos fenômenos da distribuição, circulação e consumo das riquezas. 89 O centenário do nascimento de Almeida Nogueira serviu, assim, para reafirmar uma orientação teórica para o ensino de Economia Política. Mais precisamente, como lembraram os editores da Revista da Faculdade de Direito, a aula inaugural serviu para alertar não apenas os estudantes, mas também o próximo catedrático da cadeira, de que Melo Neto se preparava para entregar “à nova geração a preciosa herança da cátedra de Economia Política”, a quem caberia a tarefa de “conservá-la, aumentando-a”.90 O conteúdo da aula inaugural ganhava em importância devido à proeminência que o orador dispunha entre seus pares da Congregação da Faculdade de Direito, o que ademais lhe rendeu o título de Professor Emérito, concedido durante a solenidade de encerramento do curso jurídico do ano letivo de 1953, realizada na manhã de 14 de novembro. Tanto nesta ocasião quanto no almoço que lhe foi oferecido em 24 de outubro, por motivo de sua aposentadoria, proferiu discursos que deixavam evidente a referência que tinha em seu mestre, Almeida Nogueira. Mas não só isso: fez questão de lembrar que foi governador de 88 José Luis de Almeida NOGUEIRA. Curso didáctico de economia política ou sciencia do valor. São Paulo: Graphica São José, 1936 (5ª Ed.), p. 8. A primeira edição da obra data de 1913 e a edição que utilizamos foi revista por J. J. Cardoso de Melo Neto. Caio Prado Júnior não teve aulas com Almeida Nogueira, que faleceu em 1914. Contudo, em 1925, no 2º ano da Faculdade, teve aulas de economia política e ciências das finanças com Melo Neto, que muito provavelmente as ministrou com base no Curso didáctico. Em seu histórico escolar consta que Caio Prado foi aprovado “plenamente” em Economia Política. Cf. Paulo Henrique MARTINEZ. A dinâmica de um pensamento crítico, p. 265. 89 José Luis de Almeida NOGUEIRA. Curso didáctico..., p. 8 90 Revista da Faculdade de Direito, v. 48, 1953, p. 115. 53 São Paulo durante um período do Estado Novo e que, antes disso, em 1933, na presidência do Partido Democrático, pôde [...] decisivamente, colaborar para a formação da “Chapa Única por São Paulo Unido” que, vitoriosa, elegeu à Assembleia Nacional Constituinte a bancada, cuja primeira e essencial contribuição para o restabelecimento do regime democrático, no Brasil, constituiu em levar ao chefe do governo provisório os nomes dos paulistas, dentre os quais deveria ser escolhido, como o foi, o daquele que passaria a governar São Paulo, integrando assim e desde logo, na posse de si mesmo. 91 Sua filiação política à causa paulista estava reiterada e anunciada. O sucessor interino de Cardoso de Melo Neto, Lino de Moraes Leme, ministrou as aulas de Economia Política no curso de bacharelado entre 18 de maio de 1953 e 9 de agosto de 1956, quando tomou posse o candidato aprovado no concurso. Durante parte deste período, mais precisamente a partir de outubro de 1954, sob a sua indicação e com a aprovação da Congregação, passou a contar com o bacharel Adib Casseb como auxiliar de ensino.92 E quando escolhido como paraninfo da turma de bacharelandos de 1955 elegeu o marxismo como um dos alvos de seu discurso e pôs-se a defender a propriedade privada. Para ele, “os fundamentos da propriedade são a liberdade, o trabalho e a inteligência” e o direito de propriedade garantiria não o interesse individual, mas o interesse coletivo. Não considera necessário, portanto, “suprimir a propriedade individual, para se atender aos interesses gerais.” Daí o tom crítico ao dizer que em relação à propriedade haveria “duas posições extremadas – defendendo uns a propriedade coletiva, outros, a individual, sem concessões recíprocas.” Neste contexto, a ética serviria para buscar “realizar o equilíbrio social, que é condição de vida e desenvolvimento da sociedade e do indivíduo”; equilíbrio este que “se encontra na cooperação, imposta pelas necessidades gerais”. Neste sentido, a vida social seria a síntese entre a “força egoística” do interesse econômico e a “força altruística” da solidariedade e da cooperação. “O homem, para trabalhar, precisa de estímulos; ora, a supressão da propriedade individual viria priva-lo desses fundamentos do progresso”, afirma 91 José Joaquim Cardoso de MELO NETO. Uma escola de civismo. Revista da Faculdade de Direito, v. 49, 1954, p. 356. Ver também: Discurso de Agradecimento do Professor Dr. J. J. Cardoso de Melo Neto, à homenagem que lhe prestou a Congregação da Faculdade conferindo-lhe o Título de Professor Emérito. Revista da Faculdade de Direito, v. 49, 1954, p. 348-52. 92 Cf. Relatório das atividades da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1953), p. 552-5; Ata da 8ª sessão da Congregação, 9 set. 1954, Atas das sessões da Congregação, Livro 16, p. 26; Relatório das atividades da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1954), Revista da Faculdade de Direito, v. 50, 1955, p. 436. Em sessão da Congregação de 17 de fevereiro de 1954, o prof. Waldemar Ferreira propôs que fosse contratado um professor para reger a cadeira de Economia Política, mas depois de debate e votação, prevaleceu por 17 votos contra 2 a proposta do prof. Siqueira Ferreira de manter Lino de Moraes Leme na sua regência. Em 24 de fevereiro de 1956, a Congregação decidiu manter a designação de Leme como regente de Economia Política. Cf. 1ª Sessão da Congregação, 17 fev. 1954, Atas das sessões da Congregação, Livro 15, p. 87; 2ª Sessão da Congregação, 24 fev. 1956, Atas das sessões da Congregação, Livro 17, p. 2. 54 Leme, em defesa de um dos polos da contradição para a existência do equilíbrio. O interesse econômico proporcionado pela propriedade privada seria, assim, uma espécie de mal necessário, a ser apaziguado pelo direito. 93 Tomar em consideração o interesse coletivo, é atitude que o direito sempre adotou, reconhecendo a necessidade de cooperação, sem a qual não haverá vida social; e se atualmente se observam reformas jurídicas feitas ou em andamento, nada mais representam do que a preocupação em se restabelecer o equilíbrio social, que exige, para todos os homens, um mínimo de bem estar, aquele a que têm direito todos os seres humanos, delas privados pelo predomínio das forças egoísticas. 94 Dessa forma Lino Leme buscou sustentar a ideia inicial de seu discurso, segundo a qual os bacharelandos, durante seus estudos, teriam visto “como o direito organiza a vida social, dando-lhe a estabilidade, que a mantém”. Neste sentido, adverte: “Falar em transformações orgânicas ou sociais, é recordar que elas resultam do princípio da solidariedade, e, pois, da cooperação. Sem ela não se fará o produto; é ela que lhe dá valor, e não o trabalho individual, como pretendeu Marx.” 95 Entretanto, nos parece que o preconceito ideológico impediu o professor de Economia Política de considerar com a devida precisão dois aspectos elementares do pensamento do principal crítico da Economia Política. Em primeiro lugar, para Marx é principalmente o trabalho social, não o trabalho individual, que gera valor: [...] a lei geral da valorização só se realiza completamente para o produtor individual tão logo ele produza como capitalista, empregue muitos trabalhadores, ao mesmo tempo, pondo assim em movimento, desde o início, trabalho social médio. Mesmo não se alterando o modo de trabalho, o emprego simultâneo de um número relativamente grande de trabalhadores efetua uma revolução nas condições objetivas de trabalho. 96 Em segundo lugar, é justamente o conceito de cooperação que permite a Marx compreender a magnitude das transformações da produção capitalista e, pois, o processo de valorização do capital: A forma de trabalho em que muitos trabalham planejadamente lado a lado e conjuntamente, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes, mas conexos, chama-se cooperação. [...] Se o processo de trabalho é complicado, a simples massa dos que trabalham juntos permite distribuir as diferentes operações entre diferentes braços e, portanto, 93 Cf. Lino de Moraes LEME. Discurso de paraninfo, pronunciado pelo Exmo. Sr. Professor Lino de Moraes Leme, aos bacharelandos de 1955. Revista da Faculdade de Direito, v. 50, 1955, p. 275-7. 94 Ibidem, p. 277. 95 Ibidem, p. 272. 96 Karl MARX. O capital: crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 258. 55 executá-las simultaneamente, e em virtude disso encurtar o tempo de trabalho necessário para fabricar o produto global. [...] Em comparação com uma soma igual de jornadas de trabalho isoladas individuais a jornada de trabalho combinada produz maiores quantidades de valor de uso, diminuindo por isso o tempo de trabalho necessário para produzir determinado efeito útil. [...] Ao cooperar com outros de um modo planejado, o trabalhador se desfaz de suas limitações individuais e desenvolve a capacidade de sua espécie. 97 Mesmo destituída de fundamentos científicos, a crítica moral e ideológica não deixava de surtir efeitos e criar um ambiente hostil ao marxismo. Nele, muitas atenções se voltavam para saber quem sucederia definitivamente o Professor Emérito na cátedra de Economia Política da FD-USP. Mas para alguns não se tratava de mera curiosidade: a disputa pela ocupação deste espaço animou preconceitos e vivos debates, da preparação à conclusão do concurso, inclusive quando um candidato marxista e comunista ousou se inscrever. Procedimentos polêmicos, suspeitas e disputas acirradas A primeira polêmica surgiu quando o presidente do Conselho Regional de Economistas Profissionais encaminhou ofício ao então Diretor da Faculdade de Direito, Braz de Souza Arruda, solicitando a modificação do edital do concurso para professor catedrático de Economia Política, para que fossem admitidos os bacharéis ou doutores em Ciências Econômicas, nos termos da lei federal 1.411, de 1º de agosto de 1951. Ao receber a solicitação dos economistas, o diretor encaminhou o assunto para o Conselho TécnicoAdministrativo (CTA) da Faculdade, que decidiu por incumbir o prof. Teotônio Monteiro de Barros Filho de emitir um parecer. Diante da posição favorável de Barros Filho ao atendimento do pedido do Conselho de Economistas, aprovou-se por unanimidade que o edital do concurso fosse considerado sem efeito, para que a Congregação resolvesse o assunto. A questão tratada no CTA em 15 de dezembro de 1953 veio a ter um desfecho somente em sessão do dia 25 de maio de 1954 da Congregação. Na ocasião, três posições se consolidaram. A mais restritiva, que impedia a participação de economistas, foi defendida por Lino Leme e apoiava-se na lei estadual nº 3023 de 15 de julho de 1937, que regia a Faculdade de Direito e exigia do candidato a professor catedrático a apresentação, no ato da inscrição, de “diploma de bacharel ou doutor em direito, ou tratando-se de medicina legal, diploma de doutor em medicina, conferido por faculdade brasileira, oficial ou equiparada”. A posição que concordava com o parecer solicitado pelo CTA, permitindo a inscrição de economistas, foi 97 Ibidem, p. 259-62. 56 defendida por Cesarino Júnior, com base na lei federal 1.411 de 1º de agosto de 1951, que dispunha sobre a profissão de Economista e facultava “aos bacharéis em Ciências Econômicas a inscrição dos concursos para provimento das cadeiras de Estatística, de Economia e de Finanças, existentes em qualquer ramo de ensino técnico ou superior e nas dos cursos de ciências econômicas.” Expressando a posição mais aberta, Siqueira Ferreira defendeu que fosse permitida a inscrição de todos quantos apresentem diploma de curso superior, onde se tenha lecionado a disciplina em concurso nos termos do decreto federal 19.851, e 11 de abril de 1931, segundo o qual o candidato deveria “apresentar diploma profissional ou científico de instituto onde se ministre ensino da disciplina a cujo concurso se propõe, além de outros títulos complementares referidos nos regulamentos de cada instituto”. Aparentemente, porém, Ferreira ignorou que o artigo onde consta este item afirma que este seria o requisito mínimo, devendo o candidato “atender a todas as exigências instituídas no regulamento do respectivo instituto universitário”. A fragilidade jurídica de sua proposta parece ter sido fundamental para receber 16 votos contrários e apenas o seu voto favorável. Ainda que a lei federal 1.411/51 revogasse todas as disposições em contrário – o que incluía o item citado da lei estadual 3023/37 evocado por Leme, dando sustentação jurídica à posição de Cesarino Júnior – a proposta de se permitir a inscrição dos economistas foi aprovada por uma maioria apertada, com dez votos favoráveis e sete contrários.98 Diante do resultado, Lino de Moraes Leme fez constar em ata sua declaração de voto, apresentando as seguintes razões para a sua decisão: 1. Não é licito à Congregação dispensar na lei; no caso, o requisito de o candidato ser bacharel ou doutor em direito, como exige o Regulamento. 2. A lei invocada se aplica aos estabelecimentos federais. A nossa Universidade se rege por seus Estatutos e pelo Regulamento, expedido com base neles. 3. O que a lei federal exige, em relação aos estabelecimentos equiparados é o provimento das cátedras por concurso. Quem deve ser admitido a inscrição, para ele, é a lei estadual que o diz. 4. Com efeito: é a lei estadual que estabelece os requisitos a ser exigidos para ingresso ao funcionalismo público estadual. 99 Note-se que o que está em discussão não é somente a pertinência ou não de ter economistas participando da formação de juristas – algo caro para a tradição das Arcadas em termos de ensino de Economia Política – mas, no limite, o confronto entre distintas interpretações sobre o federalismo brasileiro. Afinal, estava em questão qual dos entes da República, o estado ou a 98 Cf. Ata da 1ª sessão da Congregação, 17 fev. 1954, Atas das sessões da Congregação, Livro 15, p. 87; Cf. Relatório das atividades da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (1953), p. 549; Ata da 5ª sessão da Congregação, 25 mai. 1954, Atas das sessões da Congregação, Livro 16, p. 18. 99 Ata da 5ª sessão da Congregação, 25 mai. 1954, p. 18. 57 União, tinha a prerrogativa legislativa a respeito da matéria. Ademais, cabe notar que a lei estadual havia sido assinada em 1937 pelo então governador José Joaquim Cardoso de Melo Neto, recém-homenageado como professor emérito quando se discutia a questão, enquanto a lei federal vinha assinada por Getúlio Vargas, cuja reputação na FD-USP já era alvo de duro questionamento há três meses de seu suicídio. Duas semanas depois, Pascoal Barbosa, que cursava o segundo ano do doutorado no Largo do São Francisco, enviou carta a Caio Prado Júnior informando-lhe o pleito dos economistas e a decisão da Congregação, bem como o incentivando – na verdade, o pressionando – a inscrever-se no concurso: O pessoal está certo de que você se inscreverá. E, por outro lado, tenho “espalhado”, na Faculdade que você irá concorrer ao concurso. Acredito que você deverá se inscrever. De notar que não há nenhum “peixe” da congregação. Não há, sequer, docente livre da cadeira. 100 De fato, não havia docentes livres de Economia Política na Faculdade, que poderiam receber tratamento diferenciado por parte dos membros da banca examinadora. Odilon de Araújo Grellet, um dos inscritos, era docente livre de Direito Civil e obteve a sexta e penúltima posição ente os candidatos, o que, a princípio, revelaria o acerto da análise de Barbosa de não haver “peixe” da Faculdade. Contudo, mesmo diante da suposta ausência de privilegiado, ele alertava seu amigo para as dificuldades que enfrentaria: “Não tenhamos ilusão: não darão, tudo indica, a você a cadeira. Uma docência livre, porém, você terá chance de ganhar...”, considerou. Caio Prado Júnior estava ciente das dificuldades e era um conhecedor do ambiente das Arcadas, em que prevalecia uma aversão ao marxismo e ao movimento comunista, do qual fazia parte. Não foi por acaso, portanto, que enfrentou obstáculos já no ato de inscrição. O prazo havia se encerrado no dia 4 de outubro de 1954. No dia seguinte, a Congregação se reuniu e verificou que haviam sido recebidas as inscrições de sete candidatos: José Pinto Antunes, Odilon Grellet, Roberto Pinto de Souza, Caio Prado Jr., José Gláucio Veiga, João Paulo de Almeida Magalhães e José Luis de Almeida Nogueira Porto. Uma série de exigências eram 100 Carta de Pascoal Barbosa a Caio Prado Júnior, 7 jun. 1954, código CPJ-CP-BARB005, Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (AIEB). O inteiro teor da carta pode ser visto no Anexo 3. Em suas memórias, Elias Chaves Neto, que viria a ser editor-chefe da Revista Brasiliense, afirma: “Companheiros de Caio Prado Júnior insistiam para que ele se apresentasse ao concurso aberto pela Faculdade de Direito de São Paulo para a cadeira de Economia Política. Os comunistas sabiam que lutando contra o imperialismo lutavam pela solução dos problemas do nosso povo; mas o povo disto não tinha compreensão. Era preciso explicar; explicar no que consistia o imperialismo e porque o imperialismo era responsável pelo atraso e miséria de amplas camadas de nossa população. Caio Prado Júnior aceitou a incumbência”. Elias CHAVES NETO. Minha vida e as lutas de meu tempo: memórias. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977, p. 139. 58 requeridas pela lei estadual 3023/37, que apesar de não prevalecer no caso da inscrição dos economistas, estava sendo aplicada na realização do concurso. Junto com a petição, o candidato deveria apresentar certificado de reservista do Exército, prova de cidadania brasileira, título de eleitor, recibo de pagamento da taxa de inscrição, atestado médico, entre outros documentos. Depois de verificar se os candidatos cumpriam com tais requisitos e decidir sobre a idoneidade moral de cada um deles, passou-se a votação separada para cada concorrente, decidindo por aceitar ou rejeitar as respectivas inscrições, conforme previsto na lei. Cinco tiveram suas inscrições aceitas por unanimidade pelos 14 membros da Congregação presentes. Os outros dois eram José Glaucio Veiga, que recebeu 3 votos contrários e 11 favoráveis, e Caio Prado Júnior, que recebeu 5 votos contrários e 9 favoráveis. Mais de um terço dos votantes foi contrário à sua inscrição, o que demonstra a animosidade que, de antemão, já se antepunha diante da mera possibilidade de que Prado Júnior concorresse à vaga de professor catedrático na Faculdade de Direito. 101 A mesma sessão da Congregação que validou as inscrições dos candidatos deliberou sobre a composição da banca examinadora. A lei estadual 3023/37 estipulava que deveria ter cinco membros a comissão responsável por estudar os títulos e teses apresentadas pelos candidatos, acompanhar as provas, classificar os habilitados e indicar à Congregação o candidato a ser provido do cargo, bem como propor para a livre docência aqueles que ela assim entendesse. Dois membros deveriam ser designados pela Congregação, dentre os seus membros, e três pelo Conselho Técnico-Administrativo, devendo estes ser professores de outras instituições de ensino ou profissionais especializados de notória competência. Neste sentido, a Congregação escolheu como examinadores do concurso para professor catedrático de Economia Política os professores Lino de Moraes Leme e Teotonio Monteiro de Barros Filho, tendo Honorio Monteiro como suplente. 102 Entre 5 de outubro de 1954 e 31 de maio de 1955, por algum motivo que desconhecemos, Barros Filho se retirou da comissão e foi substituído por Honório Monteiro, deixando vaga a suplência. Diante da situação, Miguel Reale, então Diretor da Faculdade de Direito, propôs incluir a eleição de um novo suplente na pauta da sessão seguinte da Congregação, o que foi aprovado. Contudo, aproveitando o ensejo, o professor Siqueira Ferreira – o mesmo que anteriormente havia defendido que se deveria aceitar inscrições de 101 102 Cf. Ata da 9ª sessão da Congregação, 5 out. 1954, Atas das sessões da Congregação, Livro 16, p. 27. Ibidem, p. 28. 59 todos que apresentassem diploma de curso superior onde se tenha lecionado Economia política – fez uso da palavra para levantar um questionamento: [...] uma vez que é trazido a debate o concurso para provimento da cadeira de Economia Política, devo declarar que estranhei que, sendo um dos candidatos professor da Faculdade de Direito de Belo Horizonte, tenha o Conselho TécnicoAdministrativo convidado para examinadores justamente dois professores desse estabelecimento. Acresce que fui informado que um desses professores conquistou a cátedra aprovado por Comissão de que fazia parte o atual candidato. Peço mesmo ao Sr. Diretor que, se possível, me esclareça a respeito dessa informação que me foi dada pois ignoro se corresponde ou não à verdade. 103 Em relação ao candidato, Siqueira Ferreira se referia a José Pinto Antunes, que bacharelou-se em Direito na Faculdade de Direito de São Paulo na mesma turma de Caio Prado Júnior, em 1928, e assumiu a cátedra de Direito Industrial e Legislação do Trabalho na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, em 1941. Em relação ao examinador, não se sabe se fazia referência a Alberto Deodato ou Oscar Dias Corrêa, ambos da Faculdade de Direito de Minas Gerais, escolhidos pelo CTA para compor comissão examinadora. De qualquer modo, Miguel Reale confirmou as informações recebidas por Ferreira. Contudo, a maioria da Congregação não se deixou abalar pela revelação: diversos professores se manifestaram considerando que não havia impedimento em um professor examinar outro que, anteriormente, o examinou. O terceiro professor de outra instituição a se incorporar na comissão foi Edgar Luis Schneider, da Faculdade de Direito do Rio Grande do Sul.104 Logo se vê que não estavam de todo dissipadas as suspeitas de que poderia sim haver um “peixe”, que não era professor da casa, mas nela obteve o título de bacharel. Isso talvez explique porque as notas atribuídas a Pinto Antunes pelos três professores de outras instituições tenham sido significativamente maiores que as notas dadas pelos professores da casa que finalmente compuseram a Comissão Examinadora, e porque esse padrão inverteu-se na avaliação do segundo colocado, Luís de Almeida Nogueira Porto. 105 Conforme solicitação de Reale, a sessão seguinte da Congregação escolheu um novo suplente: o professor Mário Masagão. Definidos os cinco membros da Comissão Examinadora e seu suplente, foi marcado para o dia 5 de novembro daquele ano o início do concurso.106 Mas novos percalços impediram que tais deliberações se concretizassem: 103 Ata da 3ª sessão da Congregação, 31 mai. 1955, Livro 16, p. 52. Cf. Ibidem. 105 As notas dos candidatos constam na Ata da 6ª sessão da Congregação, 25 jun. 1956, Livro 17, p. 42-5. 104 106 Cf. Ata da 6ª sessão da Congregação, 25 jun. 1955, Livro 16, p. 63. Caio Prado Júnior recebeu carta assinada pelo secretário da Congregação, Flávio Mendes, informando a data do início do concurso e a composição da 60 Honório Monteiro e o recém-escolhido Mário Masagão solicitaram à Congregação que fossem dispensados da comissão. Alegando motivos de saúde, Monteiro foi dispensado, mas para seu lugar foi escolhido Masagão, a quem a Congregação decidiu encaminhar um apelo para que aceitasse a decisão.107 O apelo não surtiu efeito, e Waldemar Ferreira, segundo colocado na votação, foi solicitado a assumir a vaga como titular da comissão e se preparar para a arguição. Contudo, W. Ferreira informou à Congregação, em sessão de 4 de outubro, que em função de seus afazeres docentes, sobretudo o estudo de fontes e bibliografia para o ensino de História do Direito Nacional no curso de doutorado, não teria tempo suficiente para analisar as teses dos sete concorrentes nos poucos dias que os separavam do início do concurso. Somado a isso, mesmo disposto a aceitar a incumbência caso se prorrogasse a data para o ano seguinte, havia um novo impedimento nesta alternativa: sua aposentadoria compulsória estava prevista para os primeiros dias de dezembro, fato que recomendava sua substituição em definitivo. A Congregação aceitou ambas as suas recomendações: substituí-lo e adiar o início do concurso – para que o novo examinador dispusesse de tempo para se dedicar ao trabalho, certamente. Com isso, decidiu-se adiar o concurso para junho do ano seguinte. Concorrendo com outros onze professores – inclusive Mário Masagão que surpreendentemente, mesmo depois de todo o exposto, recebeu um voto, e Mário Reale, diretor da Faculdade, que recebeu quatro votos – Goffredo da Silva Telles Júnior foi votado por onze membros da Congregação e, assim, escolhido o novo membro da Comissão Examinadora, seguido por Ataliba Nogueira, que obteve 5 votos e assumiu a suplência. 108 Estava definitivamente formada a banca que iria examinar os candidatos: Lino de Moraes Leme e Goffredo da Silva Teles Jr., eleitos pela Congregação, e Edgar Luis Schneider, Alberto Deodato e Oscar Dias Corrêa, escolhidos pelo Conselho TécnicoAdministrativo. Mas os problemas não haviam se encerrado, pois a questão legislativa não havia sido de todo superada. Se diante do pedido dos economistas a legislação federal havia prevalecido, isso não significava que as bases legais do concurso haviam sido integralmente resolvidas. A partir de proposta do professor Luis Eulálio de Bueno Vidigal, decidiu a Congregação designar um grupo de professores para estudar com urgência qual a lei aplicável ao concurso, Comissão Examinadora. Cf. Carta da Faculdade de Direito à Caio Prado Júnior, 24 jun. 1955, código CPUSPFD002, AIEB. 107 108 Cf. Ata da 8ª sessão da Congregação, 05 ago. 1955, Livro 16, p. 76 Ata da 9ª sessão da Congregação, 4 out. 1955, livro 16, p. 79. Novamente, Caio Prado recebeu correspondência informando a composição da Comissão Examinadora e a nova data do início do concurso. Cf. Carta da Faculdade de Direito à Caio Prado Júnior, 6 out. 1955, código CPJ-CP-USPFD003, AIEB. 61 se a federal ou a estadual. Jorge Americano, Miguel Reale e Bueno Vidigal ficaram responsáveis de emitir parecer sobre o assunto e o concurso ficou de ser realizado trinta dias depois, ou seja, a partir do dia 9 de junho.109 Confrontando os textos da lei estadual nº 3.023/37 e do decreto federal nº 19.851/31, e considerando que cabe ao estado estabelecer, nos dispositivos regulamentares dos institutos equiparados, o processo de concurso para provimento de suas cátedras, e que não se pode negar a União o poder de legislar sobre a mesma matéria, desde que o faça por entender que as suas normas constituem bases ou diretrizes da educação nacional, concluiu-se que a legislação federal deveria regular a aprovação do parecer da comissão examinadora, enquanto a legislação estadual regularia as formalidades de declaração de vacância de cadeira, publicação de editais, prazo de inscrição dos candidatos, documentos exigidos, composição da comissão examinadora e provas do concurso. 110 Houve divergência, revelando interpretações distintas a respeito das competências da União e dos estados em matéria legislativa. Vicente Ráo, apoiou-se no preceito constitucional de que compete à União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional e de que entre os princípios a serem adotados na legislação do ensino está a exigência do concurso de títulos ou provas para o provimento das cátedras no ensino superior. Assim, só por lei federal poderiam ser disciplinadas as matérias relativas aos requisitos a serem preenchidos pelos candidatos e ao processo a ser observado nos concursos. Argumentou Ráo que apenas a legislatura federal pode complementar as normas constitucionais da União que não forem autoexecutáveis, não sendo os estados competentes para legislarem livremente e esse respeito, o que poderia resultar na inobservância ou burla da exigência constitucional caso isso fosse permitido. De acordo com a Constituição, os estados teriam poderes para legislação supletiva e complementar, mas não concorrente, indicando a primazia da lei federal sobre a estadual. Arrematando sua declaração de voto, argumentou o professor que assim tem decidido o Tribunal Federal de Recursos e o Supremo Tribunal Federal. 111 Apesar de Cesarino Júnior e Siqueira Ferreira se colocarem ao lado de Vicente Ráo, a maioria das intervenções no debate seguiram o parecer. Uns afirmavam que a Constituição Federal permitia variantes regionais no sistema de ensino, enquanto outros consideraram que se deveria recorrer à lei federal apenas nos casos omissos, havendo ainda quem evocasse a 109 Cf. Ata da 3ª sessão da Congregação, 8 mai. 1956, livro 17, p. 21. 110 Cf. Ata da 4ª sessão da Congregação, 29 mai. 1956, livro 17, p. 32. Ibidem, p. 33. 111 62 tradição da Faculdade, lembrando que assim se faz de 1938, para argumentar que a aprovação do parecer se impunha. Passando-se à votação, o parecer foi aprovado por treze votos a dois, observando-se a abstenção de S. Ferreira. Em seguida, foram definidos os temas para a prova escrita.112 Assim como os demais candidatos, Caio Prado Júnior já havia sido convocado a comparecer à Faculdade de Direito no final da tarde do dia 29 de maio para receber a relação dos pontos para a prova escrita do concurso. 113 Que os temas da Economia Política tenham sido menos foco de polêmica que a legislação a ser adotada na realização do concurso é um indício de que a Congregação da Faculdade de Direito estava mais atenta aos procedimentos administrativos do concurso que aos critérios teóricos e científicos que balizariam o julgamento e a seleção dos candidatos. Por um lado, isso pode demonstrar que era resguardada autonomia teórica e científica a Comissão Examinadora. Por outro, pode evidenciar interesse em induzir a seleção por outros meios que não os restritamente relacionados à avaliação das monografias, dos títulos, da arguição e da prova escrita dos candidatos. Avaliação e resultados: economia ou política? Desde junho de 1954 a Congregação havia definido que o Salão Nobre da Faculdade deveria ser utilizado para a realização do concurso para professor catedrático de Economia Política – sem unanimidade, diga-se de passagem.114 O concurso teve início com a realização de prova escrita pelos candidatos no dia 9 de junho e encerrou-se no dia 25, com a leitura das provas, a decisão da Congregação e o anúncio dos resultados. A arguição de Caio Prado Júnior estava agendada para o dia 13 de junho de 1956, às 14 horas. 115 Segundo Elias Chaves Neto: O concurso foi um acontecimento. Na sala João Mendes da Faculdade de Direito de São Paulo uma multidão se apinhava: estudantes, intelectuais, curiosos, as famílias dos candidatos, todos ávidos de ver como o conhecido escritor e exdeputado comunista defenderia uma cultura sobre a qual já tinham suas ideias formadas... 116 112 113 Ibidem. Cf. Carta da Faculdade de Direito à Caio Prado Júnior, 22 mai. 1956, código CPJ-CP-USPFD004, AIEB. A lista de temas para a prova escrita pode ser vista integralmente no Anexo 4. Chama a atenção a quantidade e a amplitude de temas. 114 Cf. Ata da 6ª sessão da Congregação, 7 jun. 1954, livro 16, p. 20. 115 Cf. Carta da Faculdade de Direito à Caio Prado Júnior, 8 jun. 1956, código CPJ-CP-USPFD008, AIEB. 116 Elias Chaves NETO, Minha vida e as lutas de meu tempo, p. 141. 63 Entre o público, havia quem estivesse interessado em ouvir o candidato movidos por interesses investigativos: até mesmo agentes do DOPS acompanharam sua arguição. Caio Prado Júnior vinha sendo investigado desde 1935 pelo menos, quando foi preso por ocasião do levante comunista. Caio Prado Jr. participava ativamente das mobilizações da Aliança Nacional Libertadora (ANL) naquele ano, fazendo discursos em comícios, publicando folhetos, organizando reuniões e concedendo entrevistas à imprensa. Então com 28 anos de idade, era vice-presidente da seção paulista da ANL.117 Foi detido no Rio Grande do Sul em 27 de novembro daquele ano, acusado de ter se reunido na sede do jornal A Platéa com o médico José Maria Gomes e o advogado Danton Vampré e de ser portador de ideias extremistas. Segundo o correspondente em Porto Alegre do periódico O Jornal, havia sido preso, “a pedido da polícia paulista, o sr. Caio Prado, membro da Ação Libertadora de São Paulo e que aqui se encontrava a passeio”.118 Caio Prado Júnior ficou preso até meados de 1937, primeiro no presídio Maria Zélia e depois no Paraíso.119 Nova prisão veio em 1948. Depois de ter publicado um manifesto com outros parlamentares pecebistas que tiveram cassados seus mandatos, Caio Prado Jr. foi detido. Passados aproximadamente dois meses de reclusão, prestou depoimento na 2ª vara criminal ao juiz Elias Cruz Martins. De acordo com reportagem da Folha da Manhã, depois de declarar ser o seu próprio advogado no processo, alegou que desde que foi preso “não teve nenhuma informação segura sobre a autoridade que ordenou a prisão e os motivos dela”. Depois, evocou artigos da Constituição para responsabilizar a autoridade policial “pela ação ilegal praticada contra o depoente, não apenas prendendo-o e mantendo-o preso sem ordem legal, como deixando de comunicar ao juiz competente a prisão efetuada”. Para Caio Prado, a denúncia não passava de “mera perseguição política” e seria obscura, “pois o promotor tirou conclusões em desacordo com o texto do manifesto”.120 O habeas-corpus foi concedido no dia 17 de junho daquele ano e o recurso contra a prisão preventiva decretada por Martins foi considerado procedente. Tomada a decisão, na noite do mesmo dia, os advogados João 117 O documento de sua detenção assinalava que o acusado era presidente do Diretório Estadual da ANL. Cf. Lincoln SECCO. Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, p. 51. Caio Prado lembra que foi “um dos dirigentes da Aliança em São Paulo, como vice-presidente. O general Miguel Costa era o presidente, mas nunca atuou muito.” “É preciso deixar o povo falar”. Entrevista, p. 307-8. 118 Prisões efectuadas em Porto Alegre, O Jornal, Rio de Janeiro, 29 nov. 1935, p. 7. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/expo/caioprado/index.htm>. Acessado em: 15 fev. 2013. 119 Cf. Paulo Teixeira IUMATTI, Caio Prado Júnior: uma trajetória intelectual. São Paulo, Brasiliense, 2007, p. 31-2; Lincoln SECCO. Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, p. 50-1. Sobre a militância de Caio Prado Júnior na ANL, indicamos a análise de MARTINEZ, A dinâmica de um pensamento crítico, p.238-51. 120 Concluído o interrogatório dos signatários do manifesto comunista, Folha da Manhã, São Paulo, 1 jun. 1948, p. 5. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/expo/caioprado/index.htm>. Acessado em: 15 fev. 2013. 64 Bernardes da Silva e Rio Branco Paranhos foram ao quartel da 1ª Companhia Independente da Força Pública acompanhados do escrivão do Tribunal de Justiça e restituíram a liberdade dos detidos. 121 Certamente, suas passagens pelas celas pesaram no julgamento de sua idoneidade moral e foram decisivas para que recebesse os cinco votos contrários à aceitação de sua inscrição no concurso. Afinal, exigia-se que no ato de inscrição os candidatos apresentassem folha corrida do juízo criminal da justiça local e da polícia. Tanto para uma parcela da Congregação quanto para o DEOPS, a ficha criminal de Caio Prado Júnior recomendava tratamento especial. Assim, por determinação da chefia do serviço secreto do DOPS, um de seus agentes assistiu à arguição do investigado e escreveu um breve relatório das discussões, que dá especial atenção às opiniões de Caio Prado em relação ao marxismo, o socialismo e o capitalismo, e encerra com uma observação de que comunistas da Faculdade e também não vinculados a ela estiveram presentes no Salão Nobre, mas não se manifestaram durante a prova.122 Ser comunista era uma questão de polícia, não de política. A imprensa também se fez presente, colhendo informações para matéria veiculada no dia seguinte em O Estado de S. Paulo. Afirmou o jornal que a prova despertou interesse inusitado nos círculos jurídicos de São Paulo – resultando em enorme assistência, que deixou lotado o Salão Nobre da Faculdade – porque Caio Prado Júnior era “dirigente de prol do extinto Partido Comunista Brasileiro e de se ter inscrito no concurso com uma monografia que reflete suas ideias políticas”. O texto do candidato, então, “sofreu cerradas críticas, do ponto de vista do fundo e de forma, dos cinco membros da comissão examinadora”. Insistindo na noção de que dissertação era “uma decorrência de suas convicções políticas”, O Estado de S. Paulo informava que Caio Prado Júnior posicionava-se “contra as aplicações de capital estrangeiro no Brasil, a favor do monopólio estatal do comércio exterior, e de uma reforma agrária, com a modificação do estatuto da propriedade fundiária”.123 Em suma, era tudo o que um liberal clássico do Brasil da década de 1950 rechaçava. 121 Na ocasião, foram libertados: Caio Prado Júnior, Celestino dos Santos, Mario de Souza Sanches, Milton Caires de Brito, Roque Trevisan e João Talbo Cadorniga, Mario Schemberg, Armando Mazzo e Nestor Veras. Cf. Postos em liberdade os ex-parlamentares comunistas, Folha da Manhã, São Paulo, 8 jun. 1948, p. 5. Disponível em: <http://bndigital.bn.br/expo/caioprado/index.htm>. Acessado em: 15 fev. 2013. 122 Cf. Dossiê 50-Z-013 (430), fundo DEOPS, APESP. O relatório de investigação do DOPS sobre o exame oral prestado por Caio Prado Jr. no concurso encontra-se integralmente transcrito no Anexo 5. 123 O Estado de S. Paulo, 14 jun. 1956, p. 11. 65 Só não podemos dizer que a historiografia é unânime em considerar que Caio Prado não tornou-se catedrático por motivos políticos em função de algumas, digamos, abstenções. Francisco Iglésias foi talvez o primeiro a apresentar esta interpretação: É conhecido o conservadorismo, senão o reacionarismo das escolas de direito, mais vivo na de São Paulo. [...] Para essa congregação, era inconcebível um comunista como professor de Economia Política. Caio foi desafiado a fazer o concurso por companheiros do partido, bem como por amigos intelectuais não-comunistas, na suposição de ser chegado o momento de quebrar a rigidez intolerante. Aceitou submeter-se à provocação. Para o concurso escreveu tese bastante arrojada – Diretrizes para uma política econômica brasileira. Não podia ser aprovado. Disputando com vários outros candidatos, não tiveram a coragem de reprová-lo: não lhe deram o cargo de catedrático, mas o título de livre-docente. 124 Em depoimento prestado aos ouvintes da II Jornada de Ciências Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp), realizada de 26 a 28 de maio de 1988 em Marília, Heitor Ferreira Lima reproduziu a narrativa de Iglésias. Mais tarde, ambos os autores foram as referências de Paulo Teixeira Iumatti ao afirmar que a tentativa de se tornar professor catedrático de Economia Política malogrou em função do conservadorismo da Faculdade, “que não admitiria um professor de economia com seus posicionamentos políticos”. Lincoln Secco também traça a mesma narrativa do episódio: Caio Prado Júnior “obteve o título de livre-docente mas não a cadeira como professor (por razões políticas)”. Entretanto, apresenta como referência o livro de memórias de Elias Chaves Neto, que apesar de tratar do concurso nada diz a respeito de seu resultado. Por sua vez, escrito em coautoria, o trabalho de Luiz Bernardo Pericás e Maria Célia Wider é o que mais reúne fontes primárias e também um dos mais recentes sobre Caio Prado Júnior. Os autores abordam o concurso com base nas matérias de O Estado de S. Paulo, mas não ensaiam nenhuma explicação para o fato de que o candidato não venceu a disputa pela cadeira. Em trabalho anterior, Wider também havia discorrido sobre o episódio sem indicar os motivos que levaram Caio Prado a ser preterido como titular da disciplina.125 Como temos demonstrado, são fortes e praticamente irrefutáveis os indícios de que houve um julgamento político dos candidatos na escolha do novo professor catedrático de Economia Política. Reforçam este argumento alguns trechos das reportagens sobre a arguição Francisco IGLÉSIAS. “Um historiador revolucionário”. In: Caio PRADO JÚNIOR. Caio Prado Júnior: história. São Paulo: Ática, 1982, p. 19-20. 124 Cf. Heitor Ferreira LIMA. “Caio Prado e seu tempo”. In: Maria Angela D’INCAO (org.). História e ideal: ensaios sobre Caio Prado Júnior. São Paulo: Editora UNESP; Brasiliense; Secretaria de Estado da Cultura, 1989, p. 21; Paulo Teixeira IUMATTI, Caio Prado Júnior: uma trajetória intelectual, p. 177; Lincoln SECCO, Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, p. 101; Luiz Bernardo PERICÁS e Maria Célia WIDER, “Caio Prado Júnior”. In: Luiz Bernardo PERICÁS e Lincoln SECCO (orgs.). Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados. São Paulo: Boitempo, 2014, p. 202; Maria Célia WIDER, Caio Prado Jr.: um intelectual irresistível. São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 17. 125 66 do candidato vencedor, José Pinto Antunes. Uma das matérias indica que Antunes, “definindo sua posição no campo da Economia Política, declarou ser neo-liberal, fazendo profissão de fé de sua convicção liberal”.126 Uma outra, publicada no dia seguinte à sua arguição, afirma que essa é uma posição “que já deixara antever ao dedicar sua monografia aos professores Cardoso de Melo Neto, Pierre Fromont e René Courtin, agradecendo a estes a ‘sua convicção liberal’”.127 Como prefácio de sua monografia, Pinto Antunes escreveu o que poderia ser considerado um verdadeiro manifesto anticomunista e antisoviético. Contrapondo-se à “ditadura”, ao “totalistarismo” e ao “autoritarismo” do regime de Moscou, não hesita em afirmar que “nossa tese econômica se enquadra na filosofia de vida liberal”; que o “liberalismo econômico é a democracia na ordem econômica”; que seu texto é uma “tese liberal”; que “nós somos convictamente liberais”; e que nas páginas seguintes seriam dadas “as razões dessa convicção”. 128 O resultado do concurso foi definido pela Congregação em sessão do dia 25 de junho. José Pinto Antunes foi aprovado, tomou posse como professor catedrático de Economia Política em 9 de agosto de 1956 e lecionou na Faculdade de Direito até falecer no dia 13 de abril de 1975, tendo sido seu diretor no início dos anos 1970.129 Obteve média geral 9,2 no concurso, a mesma que o segundo colocado, o economista José Luís de Almeida Nogueira Porto, que apresentou monografia intitulada Contribuição para a teoria do lucro. Cabe notar que Nogueira Porto era bacharel em direito formado na turma de 1937 da FD-USP e neto de José Luiz de Almeida Nogueira, professor de Economia Política da Faculdade de Direito homenageado na aula inaugural de 1953, a quem dedicou sua monografia. Ficou em terceiro lugar, com a tese A teoria moderna do crescimento econômico e o problema do desenvolvimento, o bacharel em direito e doutor em economia João Paulo de Almeida Magalhães, com média geral 8,95.130 Note-se, portanto, que os candidatos que mais ameaçaram Pinto Antunes não dependeram da votação da Congregação que reconheceu os termos da lei nº 1.411/51 e garantiu a inscrição de economistas. Apesar do empate entre os 126 O Estado de S. Paulo, 26 jun. 1956, p. 12. O Estado de S. Paulo, 12 jun. 1956, p. 12. 128 Jose Pinto ANTUNES. A produção sob o regime da empresa: as razões da iniciativa privada – economia e direito. São Paulo: Edição Saraiva (3ª Ed.), 1964, p. XVIII-XIX. O prefácio à primeira edição encontra-se integralmente transcrito no Anexo 7. 129 Em sua homenagem foi fixada uma placa na parede do pátio das Arcadas (Figura 10). Atualmente, sua passagem pelo Largo do São Francisco como catedrático também pode ser lembrada a partir de seu retrado no Museu da Faculdade (Figura 11). 130 As médias gerais dos candidatos constam na Ata da 6ª sessão da Congregação, 25 jun. 1956, Livro 17, p. 425. 127 67 dois primeiros colocados, a Comissão Examinadora, em seu parecer, indicou José Pinto Antunes para a cátedra, o que foi aceito pela Congregação em votação apertada: 4 votos favoráveis e 3 contrários. A baixa votação – apenas sete membros – se justificava pela definição da lei estadual 3.023/37 de que não poderiam votar os membros da Congregação que compuseram a banca examinadora, e de que poderiam votar apenas os membros que tivessem assistido integralmente às provas do concurso, tendo sido o baixo comparecimento motivo de debates na Congregação.131 De qualquer modo, se por um lado foi aceita a indicação dos examinadores para a cátedra, o mesmo não se pode dizer sobre a livre-docência. A Comissão Examinadora habilitou no concurso por unanimidade de votos os candidatos José Pinto Antunes, João Paulo de Almeida Magalhães, José Glaucio Veiga, José Luis de Almeida Nogueira Porto e Roberto Pinto de Sousa; e por quatro votos contra um, os candidatos Caio Prado Junior e Odilon de Araujo Grellet. Devidamente habilitados, todos os que não obtiveram a cátedra foram indicados a se tornar livre docentes. Porém, na Congregação, em relação à habilitação, Caio Prado Júnior recebeu quatro votos contrários e três favoráveis. E no que diz respeito à livre docência, obteve cinco votos contrários e apenas dois favoráveis. Mesmo sob os protestos de Vicente Ráo, na votação do parecer obedeceu-se à lei estadual, segundo a qual os candidatos habilitados no concurso e propostos para a livre docência teriam rejeição ou aprovação, um a um, mediante maioria simples dos votos. Portanto, de acordo com a ata da sessão da Congregação que definiu o resultado do concurso, Caio Prado Júnior não deveria obter a livre docência. Note-se que, por exigência legal, a mesma foi lavrada, lida e assinada na mesma sessão, o que nos assegura de que o resultado da votação nela inscrito corresponde ao ocorrido na reunião.132 Mas se é assim, porque a imprensa divulgou a informação de que todos os demais candidatos foram habilitados e receberam o título de livre docente? Por que no relatório anual da Faculdade de Direito referente às atividades de 1956 consta o nome de Caio Prado Júnior como membro do corpo docente da Faculdade, na condição de livre-docente? E por que no mesmo relatório não consta o nome de João Paulo de Almeida Magalhães? Por que consta no relatório que Caio Prado Júnior colou grau de doutor em Ciências Jurídicas e Sociais no dia 5 de setembro daquele ano? Por que, na mesma data, o Diretor da Faculdade, Alvino Lima, emitiu a portaria nº 13/22 nomeando o “doutor” Caio Prado Júnior livre-docente da Cadeira 131 132 Cf. Ibidem, p. 37-45. Cf. Ibidem, p. 37-42. 68 de Economia Política? Em suma, o que aconteceu entre a votação na Congregação e a divulgação dos resultados do concurso, para que as informações de documentos oficiais da Faculdade sejam tão contraditórias? Ademais, resta uma última pergunta: se Caio Prado Júnior obteve apenas um voto contrário à habilitação entre os membros da comissão examinadora, por que Lincon Secco diz que Goffredo da Silva Telles Júnior deu o voto decisivo a favor de Caio Prado Júnior, evitando que ele fosse reprovado? 133 Infelizmente, não temos respostas. É possível que tenham lhe conferido o título de livre docente para evitar acusações de que a Faculdade, autoproclamada defensora da liberdade, havia retaliado um candidato por motivos ideológicos. Podem ter levado em conta a ideia de que há inimigos que são mais perigosos mortos do que vivos... Mas na medida em que não temos evidências a respeito, estas são apenas hipóteses a espera de novas pesquisas. De todo modo, este foi certamente um concurso controverso. Membros da Congregação chegaram a sugerir a possibilidade de que ele fosse anulado.134 Caio Prado Júnior encontrava-se envolto por disputas que ultrapassavam, de longe, o campo da Economia Política. Entretanto, foi neste terreno que buscou responder às retaliações que sofreu. Tratou de estudar as monografias de seus concorrentes e, em diálogo crítico com as principais correntes do pensamento econômico dos anos 1950 no Brasil e no mundo, pôs-se a escrever Esboço dos fundamentos da teoria econômica. Os livros em que, até então, o autor mais profundamente desenvolveu sua formulação conceitual sobre o desenvolvimento eram textos de combate, que refletiam o pensamento engajado de um intelectual militante. 133 Cf. O Estado de S. Paulo, 26 jun. 1956, p. 12; Folha da Manhã, 26 jun. 1956, p. 17; Relatório das atividades da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, 1956; Lincoln SECCO. Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, p. 101. Em suas memórias, o prof. Telles Jr. afirma que entre 1956 e 1980 participou de quarenta e quatro Comissões Julgadoras de candidatos à cátedra e à livre-docência, bem como aos títulos de doutor e mestre, e apresenta uma lista de candidatos por ele examinados e aprovados, entre os quais se encontra Caio Prado Júnior, ao lado de José Pinto Antunes, José Luiz de Almeida Nogueira Porto, João Paulo de Almeida Magalhães, Gláucio Veiga e Odilon de Araújo Grellet. Chama a atenção a ausência de Roberto Pinto de Souza. Cf. Gofredo TELLES JÚNIOR. A folha dobrada: lembranças de um estudante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004, p, 543-4. 134 Cf. Ata da 6ª sessão da Congregação, 25 jun. 1956, Livro 17, p. 40. 69 3. HISTORIOGRAFIA E ECONOMIA POLÍTICA Tempo e análise econômica Caio Prado Júnior já era um intelectual renomado quando se preparava para inscrever-se no concurso para a cátedra da Faculdade de Direito da USP. Em 1953 foi lançada a 3ª edição de História econômica do Brasil (1945), a 4ª edição de Formação do Brasil Contemporâneo (1942) e 3ª edição de Evolução política do Brasil (1933) – desta vez acrescida de textos sobre a cidade de São Paulo, estudos históricos e estudos demográficos, sob o título Evolução política do Brasil e outros estudos.135 Intelectual renomado, mas não unânime. Pelo contrário, despertava polêmica. Inclusive em sua família. Nascido em 1907, em São Paulo, no seio de uma família rica e tradicional importante, ao optar pelo comunismo e tornar-se militante do PCB ocorreu, conforme destacou Florestan Fernandes, “uma quebra de lealdade, uma ruptura com a classe a que pertencia”; por “se devotar ao movimento revolucionário mais temido e odiado”, ele “converteu-se em um traidor da classe.” 136 Sua filha certa vez afirmou que “havia uma sanção da família muito grande a ele; gente que não frequentava a casa da minha avó enquanto ele estivesse presente.” 137 Ainda assim, circulava com desenvoltura pelos ambientes intelectuais. Em 1954, Caio Prado recebeu convite de Paulo Duarte138, então presidente da Sociedade Paulista de Escritores (SPE), para participar do Congresso Internacional de Escritores, uma iniciativa da Comissão do IV Centenário da cidade de São Paulo. Na ocasião, foi um dois oito escritores escolhidos por votação pela Comissão Organizadora do Congresso para debater com Romulo Gallegos o tema “O Velho Mundo visto pelos americanos” 135 139 ; tema que ocupa lugar importante nas reflexões de Caio Prado Jr. Cf. Caio Prado JÚNIOR. Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Brasiliense, 1953, p. 2-3. Florestan FERNANDES. “A visão do amigo”. In: Maria Angela D’INCAO (org.). História e ideal: ensaios sobre Caio Prado Júnior. São Paulo: Editora UNESP; Brasiliense; Secretaria de Estado da Cultura, 1989, p. 33-4. 137 Yolanda Cerquinho PRADO. Entrevista a Paulo Teixeira Iumatti. AIEB-USP. Apud Paulo Teixeira IUMATTI. Caio Prado Júnior: uma trajetória intelectual, p. 129. 138 Em 1948, em função de um movimento reivindicatório dos trabalhadores do jornal O Estado de S. Paulo, Paulo Duarte havia demitido Elias Chaves Neto, primo e amigo de Caio Prado Júnior que em 1955 se tornou editor-chefe da Revista Brasiliense, uma iniciativa editorial de Caio Prado. Sobre este episódio, ver Elias CHAVES NETO. Minha vida e as lutas de meu tempo, p. 95-100. Sobre a Revista Brasiliense ver Fernando Papaterra LIMONGI. “Marxismo, nacionalismo e cultura: Caio Prado Jr. e a Revista Brasiliense”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 5, n. 2, p. 27-46, 1987; Paula BIEGUELMAN. A Revista Brasiliense e a expressão teórica do nacionalismo econômico brasileiro. In: Maria Angela D’INCAO (org.). História e ideal, p. 449-74; e Ângela Maria SOUZA. O Brasil de Caio Prado Júnior nas páginas da Revista Brasiliense (19551964). Dissertação de Mestrado, São Paulo, PUC-SP, 2004. A análise dos artigos de Caio Prado Júnior publicados na Revista Brasiliense em muito contribuiriam para os nossos propósitos de compreender seu conceito de desenvolvimento, mas em função dos limites deste trabalho, preencheremos esta lacuna em pesquisas futuras. 139 Cf. Carta de Paulo Duarte a Caio Prado Júnior. São Paulo, 6 jun. 1954, código CPJ-CP-SPES001, AIEB-USP. No Congresso Internacional de Escritores estava prevista a presença de Claude Lévi-Strauss para tratar do tema 136 70 sobre o desenvolvimento, na medida em que compõe o quadro mais geral das relações entre o centro e a periferia do capitalismo. Mas não era apenas entre os intelectuais vinculados às ciências humanas e sociais que o autor circulava. Neste período, Caio Prado transitava também no ambiente em que predominavam economistas – que, como vimos, cada vez mais se destacavam e constituíam um campo específico do conhecimento. Meses depois de finalizado o concurso, em dezembro de 1956, foi convidado a compor o Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio para debater os “problemas nacionais” ao lado de nomes como Eugênio Gudin, Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e San Thiago Dantas, para citar apenas alguns dos mais conhecidos. Nas palavras de Basílio Machado Neto, buscava-se compor uma assembleia com “unidade na variedade”.140 A menção a figuras tão díspares do ponto de vista teórico confirma o intento. Contudo, ainda que se verificasse uma heterogênea composição ideológica, entre seus conselheiros economistas predominavam os neoliberais. 141 Segundo Bieschowsky, a corrente neoliberal do período, que incluía Gudin e Bulhões Define-se por contraste com os desenvolvimentistas e compreende os economistas que defendiam a prioridade da livre movimentação das formas de mercado como meio para atingir a eficiência econômica. Não necessariamente se opunham abertamente à industrialização e, muitas vezes, diziam-se favoráveis a alguma diversificação industrial. Sua marca característica, contudo, era a oposição, ou pelo menos omissão, quanto à propostas desenvolvimentistas. [...] Os economistas neoliberais preocupavam-se, primordialmente, em defender o sistema de mercado, fórmula básica de eficiência econômica. Eram, portanto, primordialmente liberais. O prefixo ‘neo’ tem um significado muito preciso: representa o fato de que os liberais brasileiros, em sua maioria, passavam a admitir, na nova realidade pós1930, a necessidade de alguma intervenção estatal saneadora de imperfeições de mercado, que, segundo reconheciam, afetavam economias subdesenvolvidas como a brasileira. 142 A terminologia é da própria época, como atesta a formulação de José Pinto Antunes: [...] admite-se, no sistema liberal, a intervenção do Estado na atividade econômica. E para acentuar essa atitude, muitos liberais se denominam, a sim mesmos, neoliberais ou intervencionistas liberais. Outros, ainda, se chamam “O Novo Mundo visto pela Europa”, autor com quem Caio Prado Júnior polemizou no trabalho O estruturalismo de Lévi-Strauss, escrito entre 1970 e 1971, na prisão, e publicado em livro, depois de negada a sua publicação na revista francesa La Pensée. 140 Participavam também: Gustavo Corção, Edmundo Macedo Soares e Silva, Glycon de Paiva, Seabra Fagundes, Temístocles Cavalcanti, Silvio Fróes de Abreu, Carlos Medeiros Silva, Adroaldo Junqueira Aires, Hermes Lima, Luiz Simões Lopes, Antonio Camilo de Oliveira, Antonia Viana de Souza, Dario de Almeida Magalhães, Edmundo Barbosa da Silva, José Augusto Bezerra de Medeiros, Manoel Azevedo Leão e Marcial Dias Pequeno. Cf. Carta de Basílio Machado Neto a Caio Prado Júnior. Rio de Janeiro, 27 dez. 1956, código CPJ-CP-CNC001, AIEB-USP. 141 Cf. Ricardo BIELSCHOWSKY. Pensamento econômico brasileiro, p. 369. 142 Ibidem, p. 33-5. 71 intervencionistas de funcionamento, porque aceitam a intervenção do Estado para melhor funcionamento da própria liberdade de iniciativa e organização. 143 De qualquer modo, o predomínio dos neoliberais não impediu Caio Prado Júnior de aceitar o convite e tornar-se membro do Conselho Técnico da Confederação no biênio 19561958, o que lhe valeu agradecimentos polidos e elogiosos de Machado Neto pelo “nobre teor de sua contribuição aos nossos trabalhos” e pela “colaboração de tão alta categoria” ao término do referido período. 144 As diversas cartas de que recebeu em meados de 1957 agradecendo o envio de seu livro Esboço dos fundamentos da teoria econômica atestam que Caio Prado esforçou-se para difundir sua mais nova obra entre seu círculo de amizades e contatos. Entre as respostas obtidas, encontra-se a de Eugênio Gudin, de setembro daquele ano, em que se justificava de ainda não ter lido o livro por estar ocupado “com uma conferência da Ass. Economia Internacional no fim de janeiro, de minha responsabilidade”, agradecendo ao final “a oferta de Esboço de Teoria Econômica, que lerei na minha volta com muito interesse.”145 As relações que o autor estabeleceu com os demais conselheiros parecem ter sido, portanto, realmente cordiais. Não nos enganemos: a amplitude das relações e canais de diálogo de Caio Prado não implicava concessões ideológicas. Mesmo sem sectarismos, sem corresponder a barreiras intelectuais e valorizando o pluralismo político e ideológico, “ele não se vergava e não quebrava”.146 Atesta-o a própria atitude de oferecer a ninguém menos que Eugênio Gudin, um dos principais defensores da livre iniciativa e das leis de mercado, um exemplar do livro que pretende demonstrar a inadequação da chamada Economia Política ortodoxa como base teórica de uma política econômica que permitisse aos países subdesenvolvidos “romperem com o círculo vicioso em que se encontra engajada sua economia” e “superarem o estatuto em essência e fundamentalmente colonial de sua economia, e se reestruturarem em bases propriamente nacionais”.147 A crítica de Prado Júnior é contundente: A teoria econômica ortodoxa, [...] quando transposta para os países subdesenvolvidos, resulta em suas consequências normativas e práticas na 143 José Pinto ANTUNES. A produção sob o regime da empresa, p. 27. Carta de Basílio Machado Neto a Caio Prado Júnior. Rio de Janeiro, 23 dez. 1958, código CPJ-CP-CNC003, AIEB-USP. Os textos das conferências e debates das reuniões do Conselho no referido biênio foram publicados no boletim Carta Mensal. Contudo, seu estudo excederia os limites da presente pesquisa. 145 Carta de Eugênio Gudin a Caio Prado Júnior. 7 set. 1957, código CPJ-CP-GUD001, AIEB-USP. 146 Florestan FERNANDES. A visão do amigo, p. 30. 147 Caio PRADO JÚNIOR. Esboço dos fundamentos da teoria econômica. São Paulo: Brasiliense, 1957, p. 2112. Daqui em diante identificaremos esta obra simplesmente pela sigla EFTE. 144 72 manutenção das economias subdesenvolvidas em sua condição de elementos periféricos e complementares daquele sistema. É que a teoria ortodoxa se funda se não no “livre jogo dos fatores naturais” (que seria a livre ação de todos os indivíduos participantes das atividades econômicas, situação essa que já hoje pertence ao passado), na ação de interesses privados representados em primeiro e principal lugar por estas imensas e poderosas organizações econômicas e financeiras que são os trustes internacionais. No plano de um teoria dessas, as economias subdesenvolvidas não passam e não podem passar de campo de ação daqueles trustes, na qualidade de fornecedores dos produtores primários com que os mesmos trustes transacionam, operam e produzem; bem como de mercados suplementares e marginais para essa produção.148 Francisco Iglesias é um dos primeiros comentadores de Caio Prado a indicar que se evidencia em seu pensamento “a necessidade para os periféricos de uma teoria econômica que seja expressão autêntica de suas experiências, fundada pois em seu processo histórico”.149 Para João Antônio de Paula, porém, o autor não estava sozinho. Seria preciso inserir as contribuições de Caio Prado Júnior neste sentido como manifestações de uma época na qual foi redescoberto que não eram leis naturais e inexoráveis que promoviam a desigualdade econômica política e social entre os países, mas assimetrias e desigualdades construídas historicamente a partir de relações econômico sociais. Nas palavras do autor: Esse tempo, marcado pela urgência e pelo compromisso, foi tanto o da eclosão de várias perspectivas críticas – que buscaram apontar os limites do pensamento econômico convencional, a tradição liberal-neoclássica, em dar conta do fenômeno assim batizado de subdesenvolvimento – quanto da busca de instrumentos teóricos e práticos, técnicos e políticos, capazes de superá-lo mediante a construção do desenvolvimento econômico-social como processo de universalização dos frutos do progresso científico e tecnológico. 150 Trata-se, portanto, de formulações em comum com as obras de Gunnar Myrdal, Albert Hirschman, W. Arthur Lewis, Raul Prebisch e Celso Furtado, todas elas divergentes em relação à ortodoxia do pensamento econômico de então, que desconsideravam as peculiaridades dos diferentes desenvolvimentos históricos de países e regiões periféricas e subdesenvolvidas. 151 Reconhecidamente influenciado pela obra de Keynes – que segundo Golçalves teria trazido de volta à teoria econômica o elemento tempo, atravessando a barreira artificial e juntando história e teoria – Celso Furtado considera que o desenvolvimento econômico entende-se como processo histórico, que não se esgota pela capacidade explicativa das 148 Ibidem, p. 223-4. Analisaremos mais detidamente os fundamentos e significados desta conclusão do autor no próximo capítulo. 149 IGLÉSIAS, Francisco. Um historiador revolucionário, p. 37. DE PAULA, João Antônio. Caio Prado Júnior e o desenvolvimento econômico brasileiro, p. 3. 151 Cf. Ibidem, p. 3. 150 73 categorias puramente econômicas. Assim evidencia-se por que suas primeiras obras privilegiam a história: L’Economie Coloniale Brasiliene (1948), tese de doutoramento apresentada na Universidade de Paris; A economia brasileira (1954); e a mais conhecida Formação econômica do Brasil (1959). Este economista afirmou, inclusive, que se uma teoria do desenvolvimento deve ser explicada pelo processo de acumulação de capital, deve-se identificar os elementos específicos do processo histórico que estabeleceram as formas de distribuição e utilização da renda, os sistemas de organização da produção, enfim, e não por meio de categorias abstratas com pretensões à universalidade.152 Há, aqui, um importante ponto de contato entre os pensadores da Comissão Econômica para a América latina (CEPAL) e Caio Prado Júnior. Celso Furtado passou a integrar os quadros da CEPAL a partir de 1949 e entrou em contato com uma escola de pensamento político e econômico liderada pelo argentino Raul Prebisch, que o marcou de maneira profunda e definitiva.153 O triângulo se fecha quando Caio Prado cita e considera como um “grande acerto” a afirmação de Prebisch de que “uma da falhas mais sérias de que padece a teoria econômica geral, contemplada da periferia, é seu falso sentido de universalidade”. 154 Por outro lado, no pensamento econômico brasileiro, não era ponto pacífico a noção de que Keynes conjugava o elemento tempo à sua teoria econômica. Em sua dissertação para o concurso, José Gláucio Veiga, que ficou em penúltimo lugar, endossava a então recente crítica do economista Paul Sweezy a Keynes por “não reconhecer a historicidade do presente”. Neste sentido, afirmou que a teoria keyneseana seria na verdade “atemporal, portanto, estacionária”. Enquanto, por um lado, “a exposição marxista está construída, substancialmente, na perspectiva temporal”, considera que “as categorias econômicas portam um carimbo histórico” e, portanto, “o capitalismo é processo histórico”; por outro lado, “para Keynes, o capitalismo não é um processo histórico”. 155 Cf. José Sérgio Rocha de Castro GONÇALVES. “Celso Furtado: pensamento e ação”. In: FURTADO, Celso. Teoria e política do desenvolvimento econômico. São Paulo, Abril Cultural, 1983, p. IX e XVIII. (publicada originalmente em 1967). Ricardo BIELSCHOWSKY (O ciclo ideológico do desenvolvimentismo, p. 132-79) e Guido MANTEGA (A economia política brasileira. São Paulo: Pólis; Petrópolis: Vozes, p. 32-47) também destacaram a relação entre Celso Furtado e a história. 153 Cf. José Sérgio Rocha de Castro GONÇALVES. “Celso Furtado: pensamento e ação”, p. XIII. 154 Raul PREBISCH. O desenvolvimento econômico da América latina e seus principais problemas. Revista Brasileira de Economia, set. 1949, p. 54. Apud EFTE, p. 213. Esta mesma citação tinha sido feita em Diretrizes para uma política econômica brasileira. São Paulo, 1954, p. 53-4, obra doravante designada DPEB. 155 José Gláucio VEIGA. Revolução keyneseana e marxismo. Recife, 1954, p. 6, 51 e 71-2. A referência de Sweezy que Veiga apresenta é a seguinte: Paul M. SWEEZY. “Keynes, the economist”. In: Seymour E. HARRIS (ed.) The new economics: Keyne’s influence on theory ans public policy. New York: Alfred A. Knopf, 1952, p. 102-9. 152 74 A princípio, questão da temporalidade nos estudos econômicos parece importar pouco para outro candidato, João Paulo de Almeida Magalhães, então chefe da seção de Análises e Pesquisas do Departamento econômico da Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e doutor em ciências econômicas pela Faculdade de Direito da Universidade de Paris, que ficou melhor posicionado no resultado do concurso, alcançando o terceiro lugar. Segundo Bieslchowsky, ele compunha a chamada corrente desenvolvimentista do setor privado, que propugna uma industrialização com proteção estatal ao capital industrial nacional. A partir de meados dos anos 1950, Magalhães tornou-se um dos principais economistas da CNI e colocou-se a serviço do órgão em oposição às políticas ortodoxas de estabilização, propostas principalmente por Gudin e Bulhões, que eram percebidas pela CNI como portadoras de recessão.156 Em sua monografia, apesar de valorizar a análise dinâmica, “que só teve início quando foi aperfeiçoada uma teoria capaz de apreender as mutações da realidade econômica”, não descarta o papel da estática, que “é a parte da economia em que o tempo não é incluído de modo essencial”. O candidato acreditava que “haverá sempre determinados fenômenos, ou certos modos de encarar estes fenômenos para os quais o fator tempo terá apenas uma influência secundária.” Nestes casos, a introdução deste fator “seria, pois, uma complicação inútil.” Mas Magalhães era adepto da perspectiva dinâmica em economia. O problema seria justamente como equacionar a influência da história nas variações econômicas. Em sua avaliação, à época era dominante a noção de que seria possível e necessário separar dados constantes e variáveis econômicas, resultante da distinção entre uma linha de causalidade econômica, regida pelo determinismo, e outra, de causalidade histórica, que não interessa ao economista. Nesta concepção, o economista se dedicaria a pesquisas em um mundo artificialmente fechado, não se interessando ou considerando como dados constantes as estruturas e as instituições. Para Magalhães, seria um problema adotar uma visão muito geral das flutuações econômicas, sob o risco de se inserir em “um enorme campo oscilante, o da história total”, podendo-se “ligar, assim, a teoria econômica à filosofia da história”. O problema dos limites da ciência economia viria à baila, portanto, na medida em que fosse adotada certa perspectiva da dinâmica global que “transforma eventualmente todos os dados em variáveis”. 157 156 Cf. Ricardo BIELSCHOWSKY. O ciclo ideológico do desenvolvimentismo, p. 100. João Paulo de Almeida MAGALHÃES. A teoria moderna do crescimento econômico e o problema do desenvolvimento. Rio de Janeiro, 1954, p. 9-19. A respeito da relação entre economia e história, cabe mencionar uma perspicaz observação de Eric Hobsbawm: “É plausível que os economistas possam concordar quanto ao valor da história para sua disciplina, mas não que os historiadores concordem quanto ao valor da economia para a sua. Em parte, isso se deve ao fato de que a história abarca um campo muito mais amplo. Como vimos, uma 157 75 Magalhães, para quem “a dinâmica global e a dinâmica parcial podem e devem existir lado a lado”, parecia estar plenamente consciente do problema. Daí sua sugestão de que as noções de dinâmica global que buscam incluir a dinâmica dos sistemas, e não apenas a dinâmica dentro dos sistemas, devesse “ser substituída por uma outra, que conceituaria a dinâmica global como aquela que estuda não apenas o movimento das variáveis econômicas, mas também das estruturas”. Contudo, o economista não extraiu daí todas as consequências, pois afirmava que “a dialética das classes parece ser desnecessária para um estudo puramente econômico da dinâmica das estruturas”. 158 A análise que Pierre Vilar faz da contribuição teórica de Marx sobre os limites de aplicação dos modelos econômicos nos ajuda a compreender melhor a questão: Ele [Marx] pensou que se a objetivação do subjetivo existe dentro do econômico, não há motivo para que os outros tipos de interesse humano – do mais sórdido ao mais elevado – não se manifestem também, entrando em combinação e em luta, numa objetivação nos fatos que constituem simultaneamente a racionalidade e a necessidade da história. Deste modo, tudo o que é humano, no espaço e no tempo, pode passar a fazer parte da análise científica. 159 Portanto, se quisesse ser consequente no propósito de captar o movimento das estruturas, Magalhães teria de repensar a própria formulação e aplicação de teorias e modelos econômicos: Em particular, se os modelos econômicos abstratos surgem perturbados por fatores “exógenos”, não há que ter pressa, como fazem os economistas “puros”, em relegar esse “exógeno”, precisamente como “histórico”, para o campo do “contingente”. Mesmo ele pode ter a sua necessidade interna, no interior de um modelo mais complexo. E se as “leis” econômicas conhecidas pelos clássicos não são universais nem no espaço nem no tempo, isso deve-se ao fato de vigorarem dentro de um contexto – técnico, institucional, psicológico – suficientemente estável, é certo, para formar uma “estrutura”, mas de modo nenhum eterno. Existe portanto uma ciência da dimensão histórica, que é precisamente a ciência destas estruturas, mas que o é também do seu nascimento, da sua transformação e do seu desaparecimento. 160 desvantagem óbvia da economia como matéria que lida com o mundo real é o fato de que ela seleciona como “econômicos” alguns e apenas alguns aspectos do comportamento humano e deixa os demais para outrem. [...] A história, por outro lado, não pode decidir excluir nenhum aspecto da história humana a priori, embora optando de tempos em tempos por se concentrar em alguns e negligenciar outros. Com base na conveniência ou necessidade técnica, os historiadores tenderão a se especializar [...]. Porém, basicamente, toda história aspira àquilo que os franceses chamam de ‘história total’.” Eric J. HOBSBAWM. “Historiadores e economistas: II”. In: Sobre história. p. 157. 158 Ibidem, p. 18-21 e 42. 159 Pierre VILAR. “A história depois de Marx”. In: Desenvolvimento econômico e análise histórica. Lisboa: Editorial Presença, 1982, p. 220. Artigo originalmente publicado em Revue de l’enseignement supérieur, n. 4445, 1969, p. 15-26. 160 Ibidem, p. 220-1. 76 Tanto para Pierre Vilar como para Caio Prado Júnior, é a mudança que interessa, ou melhor, a tensa relação entre continuidade e mudança, as permanências e transformações no tempo e no espaço, o devir histórico engendrado pelas interações humanas. Afinal, tomar em consideração o fator tempo “nos põe em guarda contra todo o imobilismo, todo o ‘estruturalismo’ no sentido restrito do termo, contra qualquer aplicação de fórmulas invocadas sub specie aeternitatis”. 161 Economia na dialética da história Na busca por uma abordagem de conjunto da economia brasileira, para o que seria necessário um ponto de vista diferente do proporcionado pela teoria econômica ortodoxa, Caio Prado Júnior afirma que estaria em jogo “o próprio método geral e clássico de tratamento das relações econômicas”. Neste tratamento correria “uma deformação que tem raízes profundas”, que dizia respeito à posição em que a economia se colocava como ciência, considerando “as categorias econômicas, e não o sistema de relações humanas em que tais categorias se configuram”. Assim, se fazia necessário considerar as categorias econômicas “em função e como expressão de tais relações nelas disfarçadas”. Sem isso, escaparia o essencial, ou seja, “o sistema geral e fundamental de certo tipo de ações e de relações entre os homens, isto é, as de natureza econômica, de que tais categorias são apenas expressão conceitual e abstrata.” Ao analisar e interpretar a realidade brasileira, o desafio consistiria em fazer com que as categorias que exprimem os fatos econômicos adquirissem seu real conteúdo, o que não seria alcançado pelos métodos da economia clássica, que seriam inadequados para esse fim. Para tanto, seria necessário adquirir uma perspectiva própria: “esse ponto de vista é o da história, onde os fatos econômicos naturalmente se relacionam entre si e com o conjunto da existência da coletividade considerada”.162 Os fatos econômicos são essencialmente dinâmicos, e as situações em que se configuram e onde vamos analisá-los, representam sempre o termo de um processo, um momento apenas, em si insignificante e privilegiado unicamente por ser o último de uma série anterior onde se gerou e onde adquire a individualidade e particularidade que o caracterizam. Só aquele processo que se revela através da história e na sua perspectiva, nos pode dar assim a compreensão do que representa Pierre VILAR. “Introdução”. In: Desenvolvimento econômico e análise histórica, p. 8. DPEB, p. 13-9. “Não se trata certamente de ‘inventar’ uma ciência econômica nova e original, e sim utilizar o que nos proporciona a experiência teorizada de outros povos e feita em Ciência, na constituição de uma Economia que seja expressão teórica de nossa experiência própria”. Ibdem, p. 53. 161 162 77 e significa realmente um fenômeno econômico, permitindo-nos com isso penetrarlhe o dinamismo e dirigí-lo para os fins que nos interessam. 163 Neste sentido, a partir do diagnóstico de que “a ausência de uma suficiente perspectiva histórica” tem embaraçado o progresso das linhas de pesquisa e interpretação econômica que vinham se desenvolvendo no Brasil, Caio Prado Júnior faz “uma referência especial” à corrente do pensamento econômico liderada por Raul Prebisch, “porque ela tem sem dúvida o mérito de colocar os problemas dos países latino-americanos em termos novos e que escapam das habituais concepções da Economia clássica”. Reconhece, ademais, que Prebisch propõe a análise do desenvolvimento dos países latino-americanos em termos de “processo” – introduz, pois, o fator tempo em sua análise, vale dizer. “É assim num plano em princípio pelo menos histórico, que a Teoria do Desenvolvimento dos países subdesenvolvidos propõe os problemas estruturais de economias de nosso tipo, isso é, que se encontram num estágio rudimentar de progresso capitalista”. Entretanto, o autor considera sensível a insuficiência da perspectiva histórica da corrente teórica de Prebisch, isso porque em seu conjunto se acentuam os fatores do tempo presente que constituem empecilho ao desenvolvimento. 164 Não recua suficientemente no tempo, ou lhe faz apenas referências ocasionais, o que é decisivo para limitar-lhe as perspectivas, pois daí resulta que a teoria, depois de apontar, com grande segurança aliás, os fatores que estão na base do desequilíbrio econômico dos países subdesenvolvidos, fica limitada praticamente a registrá-los, e não os explica em sua essência, de maneira adequada e com vistas à remoção deles. Restringe-se à consideração estática de uma situação dada, e que embora analisada e interpretada muitas vezes com grande penetração [...] não abre perspectivas. 165 Tal crítica parte do entendimento de que, como quaisquer outros, os fatos econômicos “não se explicam por si, e sim por aquilo que os precedeu; ou antes, pelo processo que os engendrou”. Isso seria a perspectiva histórica em economia.166 Como não leva em devida conta tal perspectiva, como é insuficiente neste aspecto, a chamada Teoria do Desenvolvimento [...] se coloca num ponto de vista estático, que é o do equilíbrio presente da economia dos países subdesenvolvidos e dos fatores atualmente nela em jogo. Não considera assim o que produziu aquele equilíbrio e condiciona portanto os fatores nele atuantes. Escapa por isso à sua perspectiva o sentido e valor de muitos elementos que dinamicamente considerados tomam um aspecto bem diferente daquele que em si apresentam. [...] Em suma, a Teoria do Desenvolvimento [...] não utiliza senão muito insuficientemente a experiência histórica desses países subdesenvolvidos. E não o faz sobretudo porque, segundo penso, ainda se deixa 163 DPEB, p. 5. Cf. Ibidem, p. 21-2 165 Ibidem, p. 22-3. 166 Ibidem, p. 29. 164 78 levar pelos métodos clássicos da Economia Política. Taís métodos consistem essencialmente numa visão estática dos fatos econômicos e fora do conjunto histórico a que pertencem. 167 Não surpreende, portanto, que Caio Prado Júnior tenha criticado Formação econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, na bibliografia comentada das edições de História econômica do Brasil (1945) posteriores à publicação da obra seminal de Furtado. Em seu comentário, Prado Jr. considerou-a uma “interpretação sobretudo monetária da história econômica” e, no sentido de evidenciar a insuficiência da perspectiva histórica da obra, cita uma passagem da introdução, na qual o autor informa o leitor de que o campo específico do estudo é simplesmente a “análise dos processos econômicos e não a reconstituição dos eventos históricos que estão por trás desses processos”.168 Ora, como vimos, para o historiador é justamente aí que reside a explicação para os fenômenos econômicos. Do mesmo modo, como crítico dos economistas que postulavam “sem maior indagação crítica a ideia de uma progressão, dentro do sistema capitalista, unilinear e homogênea” – na qual os países “se distribuiriam por diferentes níveis de desenvolvimento que se escalonam numa trajetória econômica que todos acompanham ou devem acompanhar”, ainda que com ritmos distintos mas qualitativamente semelhantes, “de natureza e caráter igual” – Caio Prado Júnior tinha em mira Raul Prebisch e os economistas da CEPAL, Celso Furtado aí incluído, obviamente. Na medida em que considerava que a Economia Política “desenvolvida na obra dos economistas ortodoxos não passa geralmente de uma análise da ‘renda nacional’”; e na medida em que buscava desconstruir a noção de “progresso econômico” mensurável pela renda nacional per capita; deliberadamente ou não, ele dialogava com um artigo do economista paraibano publicado pouco antes. 169 Do ponto de vista econômico, desenvolvimento é, basicamente, aumento do fluxo de renda real, isto é, incremento da quantidade de bens e serviços, por unidade de tempo, à disposição de determinada coletividade. Trata-se, portanto, de conceito relacionado com elementos quantificáveis. [...] O objeto central da análise econômica consiste no estudo do fluxo da renda social. 170 167 Ibidem, p. 55-6. Caio Prado JÚNIOR. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1969, p. 335. Creditamos a Lincoln SECCO, em Caio Prado Júnior: o sentido da revolução, p. 167, a menção à esta bibliografia comentada. 169 Cf. EFTE, p. 180 e 189 170 Celso FURTADO. “O processo histórico do desenvolvimento”. In: Desenvolvimento e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Contraponto; Centro Internacional Celso Furtado, 2009, p. 105-6. O livro foi originalmente publicado em 1961, e o capítulo em questão foi originalmente publicado na Revista Econômica Brasileira, jan.mar., 1955. Preocupado em medir o “fluxo da renda social”, para “comparar os produtos de duas comunidades” – no caso a Grã-Bretanha e os Estados Unidos – o parâmetro que Furtado utiliza é justamente a renda per capita, calculada tanto com os preços relativos de um país como do outro. Cf. Ibidem, p. 105-6. 168 79 Tratava-se, porém, de concepção relativamente disseminada, que pode ser encontrada em outros autores, entre eles, os concorrentes de Caio Prado Júnior no concurso da FD-USP. João Paulo de Almeida Magalhães, por exemplo, afirma que “se o problema do desenvolvimento é o de um aumento da renda ‘per capita’ e se o aumento desta renda se faz através do crescimento e é inerente a ele, segue-se que o problema do desenvolvimento enquadra-se no estudo geral do crescimento.” 171 Por sua vez, José Pinto Antunes dizia em sua monografia: “O grande problema, dizia já um economista, não é dividir o bolo, mas aumentar o bolo...”. Referia-se, provavelmente, ao francês Henri de Man. E como o problema seria o tamanho do bolo, “para a ordem pública, o melhor regime produtivo será aquele que maior quantidade de utilidades possa oferecer à satisfação dos desejos do maior número de pessoas”.172 Era problemática, segundo Caio Prado, a consideração do desenvolvimento por análises puramente quantitativas e mensuráveis simplesmente pela renda nacional dos países em consideração. Em suma, a teoria corrente do desenvolvimento considera apenas o aspecto quantitativo desse desenvolvimento (a “quantidade” de progresso econômico), sem dar maior atenção às diferenças qualitativas do desenvolvimento, a saber, o tipo ou categoria de situação ou de evolução econômica em que se enquadra cada país ou grupo de países. 173 Esta consideração de Caio Prado Júnior não significa qualquer desprezo à importância da quantificação para a análise e a escrita da história. A esse respeito, ele viria a explicitar sua opinião precisamente apenas em 1975. Diante do crescimento da “literatura que se rotula de ‘quantitativa’”, afirmou o seguinte: Os dados numéricos, as estatísticas trazem sem dúvida, como sempre trouxeram quando disponíveis, contribuição capital para a elaboração historiográfica. Mas isso como informação adicional, complementação e auxiliar certamente precioso dessa elaboração; e não como elemento fundamental, base e norma metodológica em que assentasse e de onde partisse elaboração. 174 Seria preciso muito mais que repertórios de dados quantitativos, por mais abundantes e rigorosos que sejam para elaborar o conhecimento histórico. O essencial “consiste em compreender esses dados e o que está por detrás deles; alcançar o seu conteúdo e sentido 171 João Paulo de Almeida MAGALHÃES. A teoria moderna do crescimento econômico..., p. 94. José Pinto ANTUNES. A produção sob o regime da empresa, p. 9. 173 EFTE, p. 189. 174 Caio Prado JÚNIOR. História quantitativa e método da historiografia. Debate e crítica, n. 6, jul. 1975, p. 1. 172 80 profundo, e aquilo que representam”. 175 Se, por um lado, foi apenas em 1975 que o autor discorreu sobre a relação entre a crítica ao mero quantitativismo e a historiografia, por outro, a exposição das bases filosóficas sobre a qual assentam aquele pensamento remontam a 1952, quando publicou Dialética do conhecimento. O mecanicismo da concepção metafísica da qualidade, buscando enquadrar os fatos e, assim, conceituá-los em relações expressas pela numeração resultaria numa concepção quantitativa do Universo, que “se choca evidentemente com a mais elementar experiência humana, que ao contrário dela apresenta uma Realidade cambiante e de feições largamente variadas e variáveis. É o mundo das qualidades, cuja existência concreta se impõe a cada passo da vida e experiência humana.” 176 Aplicada aos fatos humanos, a “deformação quantitativa” resulta num esquema em que a história humana se reduz exclusivamente a um crescimento (progresso) ou diminuição (regresso, decadência); e os fatos sociais constituem exclusivamente ‘grandezas’[...]. Numa história como essa não há transformação propriamente; o mecanismo é sempre o mesmo: ele poderá funcionar num ou noutro sentido, para diante ou para trás; mais ou menos rapidamente; terá inclusive suas paradas. Mas o funcionamento se desenrola sempre idêntico a si mesmo. 177 Diferentemente de tal concepção, Caio Prado Júnior postula, a partir da dialética de Hegel, a noção de que a quantidade é um momento por meio do qual se passa para o relacionamento das qualidades, particularmente para a passagem de uma para a outra. A observação da História à luz da transformação dialética da quantidade em qualidade diferente da anterior daria, assim, “a chave explicativa do essencial da dinâmica dos fatos sociais, da sucessão histórica e da transição de uma situação para outra”; o que permite abrir perspectivas para o entendimento de que “é precisamente do crescimento ou desenvolvimento de uma situação que resulta a nova situação que a virá substituir”. A passagem de uma qualidade para outra, ou no caso de uma situação histórica para outra, se processaria em função de um fator ou momento: “o aspecto negativo da própria qualidade anterior; isto é sua quantidade ou antes medida, aspecto que suprimindo-a, dá origem a nova qualidade emergente”. Daí o aspecto essencialmente revolucionário que Caio Prado Júnior atribui à interpretação dialética da História: “Cada um dos momentos dessa história, cada uma de suas fases ou situações traz no seu seio a transformação que a destruirá; transformação que não vem do seu exterior, que não é diferente dela própria, mas é ela mesma no seu desenvolvimento.” As revoluções que assinalam o transcurso da evolução humana seriam, assim, os momentos decisivos em que a 175 Ibidem, p. 2. Caio Prado JÚNIOR. Dialética do conhecimento. São Paulo: Brasiliense, 1963, t. II, p. 429-32. 177 Ibidem, p. 433. 176 81 medida limite é ultrapassada e se realiza o salto qualitativo: “o instante no qual uma situação pré-existente alcança seu desenvolvimento máximo, e quando em consequência esse desenvolvimento se transforma em nova situação contrária à anterior.” 178 Como se vê, em Caio Prado Júnior, o conceito de desenvolvimento não se limita à noção de crescimento econômico e, portanto, não se define por critérios quantificáveis. Aliás, à medida que aprofundamos nossa análise, fica cada vez mais evidente que a compreensão do desenvolvimento escapa mesmo aos limites da economia política e penetra em cheio nas questões inerentes à teoria da história. A economia, ou mais precisamente, o desenvolvimento econômico, assim como todos os aspectos da vida humana, deveria, assim, ser considerado na dialética da história. Neste sentido, muito provavelmente, Caio Prado Júnior concordaria com o raciocínio de Hobsbawm, no qual supõe-se que “divorciada da história, a economia é um navio desgovernado e os economistas sem a história não têm muita noção de para onde o navio navega”. Segundo o historiador inglês, a parte da economia que às vezes se arroga o monopólio de definir o objeto, sempre foi vítima da história, que estimula uma grande dose de presunção quando a economia parece estar transcorrendo por um período de prosperidade. Daí o alerta: “Se a economia não pretende permanecer vítima da história, constantemente tentando aplicar seu estojo de ferramentas, geralmente com atraso, a desenvolvimentos de ontem que se tornaram suficientemente visíveis para dominarem a cena de hoje, ela precisa desenvolver ou redescobrir essa perspectiva histórica.” 179 Teoria e prática na história Há um extenso e polêmico debate na literatura a respeito do marxismo de Caio Prado Júnior. Para uns, trata-se de um “marxismo estranho”; outros o consideram um legítimo representante do “marxismo de matriz comunista”; há ainda quem ressalte seu êxito em promover a “nacionalização” ou “tradução” do marxismo no Brasil. 180 Ainda assim, parece 178 Ibidem, p. 435-8. Foi principalmente Jorge Grespan que nos chamou a atenção para este aspecto do tratamento dialético que Caio Prado Júnior dá ao desenvolvimento histórico. Cf. Jorge GRESPAN. A teoria da história de Caio Prado Júnior: dialética e sentido. Revista do IEB, São Paulo, n. 47, p. 57-74, set. 2008. Sobre a dialética em Caio Prado Júnior, ver também Sérgio SCHAEFER. A lógica dialética: um estudo da obra filosófica de Caio Prado Júnior. Porto Alegre: Movimento; Faculdades Integradas de Santa Cruz do Sul, 1985. 179 Eric J. HOBSBAWM. “Historiadores e economistas: I”. In: Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 136-56. Sobre o “marxismo estranho”, ver Raimundo SANTOS. Caio Prado Júnior na cultura política brasileira. Rio de Janeiro: Mauad; FAPERJ, 2001. Sobre o “marxismo de matriz comunista”, ver André KAYSEL. Dois encontros entre o marxismo e a América Latina. São Paulo: Hucitec, Anpocs; Fapesp, 2012. Sobre a “nacionalização” do marxismo, ver Bernardo RICUPERO. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no 180 82 haver um consenso: mesmo que uns destaquem mais sua trajetória intelectual e outros seu perfil militante, é certo que este personagem da história brasileira foi um sujeito que não se limitava a interpretar o mundo, agia para transformá-lo. Em sua crítica ao marxismo de Louis Althusser, escrita na mesma ocasião e circunstância em que produziu seu trabalho sobre LéviStrauss, fez referência às hoje conhecidas Teses sobre Feuerbach181, texto no qual Marx delineia seu conceito de práxis: A questão de atribuir ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas sim uma questão prática. É na práxis que o homem precisa provar a verdade, isto é, a realidade e a força, a terrenalidade do seu pensamento. A discussão sobre a realidade ou a irrealidade do pensamento – isolado da práxis – é puramente escolástica. (...) Os filósofos só interpretaram o mundo de diferentes maneiras; do que se trata é de transformá-lo. 182 Apesar da menção tardia (1971), Caio Prado parecia carregar em sua vida cotidiana este elemento essencial do marxismo desde os primeiros contatos com o materialismo histórico dialético. E o levou também para sua obra. Assim, destaca que o objetivo de Esboço dos fundamentos da teoria econômica é “situar o fato econômico e a teoria que dele se ocupa, na confluência precisamente destes dois elementos que compõem em conjunto o verdadeiro objeto da Economia, a saber: de um lado, a ação que constitui propriamente o fato, e de outro, o pensamento que conduz a ação e inspira a teoria orientadora da prática”. 183 Os fatos econômicos, ou melhor, os processos econômicos, inseridos na história e constituintes, portanto, dos fenômenos sociais em sua integralidade, são simultaneamente produzidos e observados pelos sujeitos históricos: “o homem é ao mesmo tempo ator e espectador”. Como agente, dá origem aos fatos e processos; como espectador, observa, pensa e considera, produzindo o conhecimento e a ciência. Aparentemente, existiriam duas qualidades possíveis de se distinguir no homem: o indivíduo pensante e o indivíduo agente. A esfera subjetiva poderia, pois, ser exterior à esfera objetiva e dela separada. Contudo, “os fatos e o conhecimento deles interferem constantemente uns nos outros, e nunca se podem isolar inteiramente entre si”. O que há é uma mútua interação entre objetividade e subjetividade: “os fatos sociais não se concebem sem o conhecimento desses mesmos fatos; Brasil. São Paulo: Departamento de Ciência Política da USP. Fapesp, Editora 34, 2000. Sobre a “tradução” do marxismo, ver Lincoln SECCO, Tradução do marxismo no Brasil: Caio Prado Júnior. In: PINHEIRO, Milton (org.) Caio Prado Júnior: história e sociedade. Salvador: Quarteto, 2011. 181 Cf. Caio PRADO JÚNIOR. O estruturalismo de Levy-Strauss. O marxismo de Althusser. São Paulo: Brasiliense, 1971, p. 108. 182 Karl MARX. Teses sobre Feuerbach. In: Karl MARX; Friedrich ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 99-103. 183 EFTE, p. 11. 83 tanto quanto o conhecimento dos fatos sociais não se concebe sem esses fatos que através da experiência que proporcionam aos indivíduos, proporcionam também aquele conhecimento”. As instituições e relações econômicas, que se originam em práticas estimuladas por certas necessidades, apesar de puramente empíricas a princípio, foram em algum momento concebidas, sistematizadas e transformadas em normas de ação. Os problemas colocados pela vida prática são, assim, traduzidos em pensamento que então passam da esfera subjetiva para a objetiva e se tornam prática e fato econômico. A soma, conjugação e composição de ações individuais resultam, portanto, nos processos econômicos mais amplos e complexos. Por isso, não é possível isolar a esfera objetiva da subjetiva. 184 Em síntese, nas palavras de Pierre Vilar, seria preciso penetrar na subjetividade dos homens “para chegar a uma concepção objetiva das relações entre o objetivo e o subjetivo, última etapa da confluência de ciência e filosofia”. Para tanto, seria essencial “estar firmemente convicto de que o objetivo e o subjetivo se criam recíproca e continuamente, dialeticamente, pois se trata da mesma relação que liga matéria e espírito”.185 Objetividade e subjetividade participam combinadas da elaboração da ciência e da teoria econômica, que resulta da proposição de problemas práticos derivados da ação. Neste sentido, toda teoria econômica tem uma natureza pragmática, se prende às circunstâncias de ordem prática. Por mais abstrato que seja o plano em que se coloca, a ciência econômica, como qualquer outra, “constitui sempre uma teorização e sistematização mais ou menos adequada e completa da experiência humana que antecede e acompanha sua elaboração”, Por isso, jamais pode ser “total e absoluta, com princípios e leis aplicáveis generalizadamente a todos os tempos e lugares”.186 Ou seja, tanto as relações e processos econômicos como o pensamento elaborado a partir deles e para conduzir ações solucionem os problemas deles decorrentes, tudo isso acontece no tempo e se desenvolve na história. Assim se compreende a crítica de Caio Prado Júnior à “economia vulgar”, que enquadra o que chamam de “fator psicológico” como elemento externo à sua sistemática. Mesmo reconhecendo que alguns economistas têm empreendido esforços para levar em consideração o “fator psicológico” em seus modelos, ele considera que “os resultados tem sido praticamente nulos”. Seu alvo principal era a escola marginalista, que define o valor dos bens 184 Cf. EFTE, p. 13-20 Pierre VILAR. “História social e filosofia da história”. In: Desenvolvimento econômico e análise histórica, p. 190. Artigo originalmente publicado em AA. VV., L’histoire et l’historien. Paris: Fayard, 1964, p. 44-62. 186 EFTE, p. 213. 185 84 a partir de um fator subjetivo, sua utilidade. A capacidade de satisfazer as necessidades humanas seria, assim, o parâmetro do valor, e como a necessidade é uma característica subjetiva, a utilidade e o valor dos bens variariam de acordo com o indivíduo que a consomem. 187 Segundo Caio Prado, o marginalismo “procura derivar os fatos econômicos, e em última análise explicá-los na base de um esquema psicológico que se propõe como elemento irredutível e último, como um dado primordial e espontâneo da natureza humana”. Contudo, o problema não é apenas este, pois sobre tal subjetivismo “o marginalismo constrói uma ‘mecânica’ econômica em que o homem e sua consciência desaparecem para darem lugar ao autômato rigidamente determinado pelos mecanismos econômicos: mercado, preços, volume monetário etc.”. Nem os keyneseanos, escapariam desta interação entre subjetivismo e mecanicismo econômico, uma vez que substituem os tipos econômicos dos neoclássicos por faculdades psicológicas, como a propensão para consumir ou a preferência pela liquidez. Ao se assentar a Economia na Psicologia, incorre-se no equívoco de partir a análise da separação das esferas subjetiva e objetiva. Contudo, sendo o homem em sua integralidade um ser pensante porque agente e agente porque pensante, “nem a Psicologia pode excluir o agente, nem a Economia o pensante”. 188 Por fim, cabe dizer que apesar de muitas formulações teórico-metodológicas terem sido aprofundadas e explicitadas apenas no livro de 1957, o que reforça a tese de que ele é uma espécie de acerto de contas, na monografia de 1954 elas já estavam presentes: Cingindo-me aos fatos humanos e econômicos de que me ocupo aqui, aquela mudança da quantidade do desenvolvimento em qualidade ou tipo de desenvolvimento não ocorre e não pode ocorrer, como a experiência histórica evidencia, senão através de uma recomposição do sistema geral em que se processa o desenvolvimento; e a transposição dele para outro plano e sistema. Recomposição e transposição essas que não constituem eventualidades decorrentes espontaneamente e necessariamente da evolução econômica “natural”, no sentido de um determinismo mecânico além da consciência e ação intencional dos indivíduos dela participantes. E em todo caso, uma tal transformação se fará tanto mais suavemente e com menos choques e desperdício de energias, quanto maiores forem aquela consciência, compreensão e intencionalidade acertadamente orientada. Em outras palavras, na medida em que os indivíduos participantes do processo deixarem de ser unicamente atores de sua história e vida coletiva, para se fazerem também os seus autores. 189 Do mesmo modo que a questão do desenvolvimento penetra em cheio na história, consciência, intenção e ação devem penetrar em cheio no problema do desenvolvimento 187 Cf. Paulo SANDRONI (et. al.). Dicionário de economia. São Paulo: Abril Cultural, 1985, p. 256. EFTE, p. 24-5. Para uma apreciação mais detida de Caio Prado Júnior a respeito da preferência pela liquidez e a propensão para consumir de Keynes, ver Ibidem, p. 126-8. 189 DPEB, p. 155-6 188 85 econômico. Assim, no próximo capítulo estudaremos o modo como Caio Prado Júnior conjuga as categorias do desenvolvimento econômico e a análise do processo histórico. 86 4. DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E ANÁLISE HISTÓRICA Produção e consumo Expressão do antagonismo entre capital e trabalho, a contradição entre a anarquia da produção e a apropriação capitalista, evidenciada brilhantemente por Marx, foi assim descrita por Caio Prado Júnior: A produção existe e somente pode existir em função do consumo; embora no capitalismo essa função não se integre no dinamismo do sistema que não visa atender o consumo dos indivíduos, e sim proporcionar lucro para os detentores do capital. Reside nisso a grande contradição do sistema capitalista que não se apoia e fundamenta naquilo precisamente que lhe dá vida e o faz possível. Noutras palavras, o capitalismo não regula seu funcionamento por aquele fator que fundamentalmente lhe condiciona a existência, a saber, o consumo final dos bens econômicos. Seu princípio regulador essencial e imediato é o lucro [...] Resulta daí a tendência permanente para o desequilíbrio entre a produção e o consumo. Isto é, um excesso de capacidade produtiva, estimulada pela perspectiva de lucro, com relação à capacidade de consumo, cujo desenvolvimento é retardado por uma distribuição desfavorável de poder aquisitivo. Essa tendência para o desequilíbrio se observa facilmente neste fato conhecido e sempre recorrente no curso de toda a história do capitalismo, e que é a superprodução. 190 Em síntese, portanto, “o fato de a capacidade de consumo não acompanhar o desenvolvimento da capacidade de produção, constitui característica orgânica do sistema capitalista e irremediavelmente o compromete”. 191 Apesar de Caio Prado ser evidentemente adepto da análise de Marx sobre a contradição fundamental do capitalismo, João Antônio de Paula enxerga no autor uma explícita vocação eclética, pois não hesitava em reconhecer certa validade – limitada, é certo – às teses keynesianas e estaria adotando o ponto de vista da centralidade do mercado interno no processo de desenvolvimento econômico, o que teria significado inserir certas teses keynesianas na interpretação marxista da realidade econômica brasileira, como a do predomínio da categoria da demanda.192 Cesar Mangolim de Barros, por sua vez, apesar de não traçar a mesma identificação de Prado Jr. com algumas teses keynesianas, considera que ele teria uma “fixação mercadocêntrica” que o impediria de perceber que não é a demanda do consumidor que impulsiona o desenvolvimento do capitalismo. Segundo Barros, o autor não teria se dado conta de que mesmo mantendo vastas parcelas da população em gritantes níveis 190 EFTE, p. 92. Grifo nosso. Ibidem, p. 98. 192 João Antônio DE PAULA. Caio Prado Júnior e o desenvolvimento econômico brasileiro, p. 6-7. 191 87 de pobreza e miséria, o capitalismo no Brasil desenvolve-se criando tanto um mercado interno para as camadas altas e médias da população como um mercado intercapital que propiciavam as condições para a acumulação e reprodução de capital. 193 Entretanto, Barros parece minimizar, relativizar ou mesmo passar desapercebido pelas inúmeras considerações de Caio Prado Júnior de que é o lucro e, pois, a acumulação de capital, não o consumo, que constituem a mola mestra ou motor do capitalismo. Considerações estas que incluem, por exemplo, junto à afirmação de que “é essencialmente do lucro que se forma o capital invertido na produção” e que isso constitui um traço característico do sistema capitalista, uma citação direta de Marx: “é falso ver na produção capitalista o que ela não é, a saber, uma produção que tem por fim imediato o gozo ou a produção de meios de gozo para o capitalista. Esquece-se totalmente com isso o caráter específico dessa produção”. 194 De todo modo, é preciso reconhecer que Caio Prado Júnior oscila entre a superprodução e o subconsumo como principal contradição capitalista. Em outra passagem, ele afirma que o “verdadeiro mal que aflige o capitalismo” seria o “subconsumo”, que “por força do próprio funcionamento normal do sistema, não acompanha o desenvolvimento da produção, resultando daí um desequilíbrio latente que se resolve periodicamente, e cada vez com mais gravidade, em crises de superprodução e prolongados períodos de recessão.” 195 É justo dizer que produção e consumo, o excesso de um e a insuficiência de outro, constituem a dialética unidade dos contrários no capitalismo. Toda e qualquer avaliação de um desenvolvimento econômico onde prevalece o modo de produção capitalista deve considerar esta peculiaridade. O problema se prolonga na medida em que se passa a refletir a respeito da predominância, nesta contradição, de um polo sobre o outro. Guido Mantega e Maria Moraes consideram que na segunda metade dos anos 1960 havia uma quase unanimidade entre os setores de oposição à ditadura militar quanto às graves consequências econômicas que trariam o permanente estrangulamento do mercado interno, o que deixa entrever a existência da aceitação geral das teses subconsumistas, desenvolvidas na virada do século por Rosa Luxemburgo e por vários reformistas que, de ângulos variados, procuraram fazer a crítica aos esquemas marxistas de reprodução do capital. A grosso modo, as teses subconsumistas afirmam que a produção capitalista estaria fadada a enredar-se numa contradição fundamental: à medida em que se expande às 193 Cf. BARROS, Cesar Mangolim. Desenvolvimento e revolução no pensamento de Caio Prado Júinor. Ipech Digital, n. 1, 2007. 194 Karl MARX. Le Capital. Paris, 1928, X, p. 177. Apud EFTE, p. 83. 195 EFTE, p. 131. O grifo em “superprodução” é nosso. 88 custas da pauperização da classe operária, a produção capitalista, mesmo tendo lucros crescentes, priva-se do principal mercado consumidor de seus produtos. [...] [No caso do] subconsumismo no Brasil, essa tese baseava-se na falsa premissa de que as classes populares constituíam o grosso do mercado consumidor, quando na verdade este era formado, em grande parte, pela própria classe capitalista (seja sob a forma de demanda de bens de capital, seja sob a forma de demanda de consumo duráveis) e pela parcela mais abastada da classe média. 196 Atualmente, esta crítica é amplamente aceita. E ao menos em parte, ela cabe ao pensamento de Caio Prado Júnior nos anos 1950. Seu alinhamento às teses de Rosa Luxemburgo sobre a expansão do capitalismo é evidente. Para esta marxista, nas condições históricas de acumulação de capital ao longo da formação do capitalismo, a relação do capital com seus entorno não capitalista não se limitaria às relações comerciais, mas à expansão contínua e acelerada do seu modo de produção a estas áreas, destruindo as formações economias previamente existentes, até que todo o mundo se tornasse capitalista, situação na qual o capitalismo encontraria seu ponto de saturação. Nas palavras da própria autora: O capitalismo é a primeira forma econômica capaz de propagar-se vigorosamente: é uma forma que tende a estender-se por todo o globo terrestre e a eliminar todas as demais formas econômicas, não tolerando nenhuma outra a sua lado. Mas é também a primeira que não pode existir só, sem outras formas econômicas de que alimentar-se; que, tendendo a impor-se como forma universal, sucumbe por sua própria incapacidade intrínseca de existir como forma de produção universal. O capitalismo é, em si, uma contradição histórica viva; seu movimento de acumulação expressa a contínua resolução e, simultaneamente, a potencialização dessa contradição. 197 Caio Prado, por sua vez, elabora a questão da seguinte maneira: Pode-se dizer que o capitalismo se desenvolveu à custa do não-capitalismo. O que assegurou a estabilidade a longo prazo, e o desenvolvimento do sistema foi originariamente a instituição de relações capitalistas de produção em substituição a outro tipo de relações que as precedeu; e em seguida a extensão e aprofundamento das mesmas. As forças propulsoras essenciais do capitalismo não se encontram no interior do sistema, mas fora dele, no seu exterior e terreno circundante em meio do qual e a custa de que o sistema se desenvolveu. 198 Na fase inicial de expansão do sistema capitalista, a produção que não era absorvida pelo consumo final, o era pelo consumo de bens de produção induzido pelas inversões. Portanto, se de um lado o subconsumo inerente ao funcionamento do capitalismo proporciona seu desequilíbrio, por outro “aquele desequilíbrio se corrige pela ação de fatores gerais e 196 MANTEGA, Guido; MORAES, Maria. A economia política brasileira em questão (1964-1975). São Paulo: Editora Aparte, s/d, p. 16. 197 Rosa LUXEMBURGO. A acumulação do Capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo. São Paulo: Nova Cultural, 1988, t. II, p. 98. 198 EFTE, p. 106. 89 exteriores que assegurando um fluxo crescente de inversões, restabelecem o equilíbrio entre a capacidade de produção e a de consumo”. 199 Privilegiando a observação da contradição do capitalismo pela perspectiva do subconsumo, Caio Prado conclui que o problema a ser resolvido e justamente o do consumo. Assim, na polêmica a respeito do desenvolvimento econômico brasileiro do pós-guerra que colocava de um lado aqueles que punham ênfase no aparelhamento material das atividades produtivas e no planejamento da economia brasileira para alcançar este fim, e de outro lado os defensores de medidas para promover o processo de capitalização, em função da carência de capitais; nesta polêmica, o autor considerava que apesar da existência de uma divergência de fundo ambas as tendências davam prioridade “ao aspecto particular da produção e da produtividade”. Apesar de afirmar que “essas questões não podem ser excluídas de qualquer solução a ser dada, no momento atual, aos problemas brasileiros”, ele tinha reservas em relação ao pouco ou nenhum destaque que nesta discussão é dado, sem a consideração preliminar, conjunta ou no mesmo plano à “questão do consumo e do mercado”. Neste sentido, Caio Prado afirma que, no caso do Brasil, “entre os dois polos do mecanismo econômico, a produção e o consumo, a oferta e a procura, escolheria o segundo como ponto de partida e baliza do assunto”. Daí seu elogio parcial à “essência do keynesianismo”, que seria “provocar o que pela lei de Say deveria resultar automaticamente da produção, isto é, o mercado para ela”. 200 Embora as condições do Brasil sejam tão profundamente distintas daquelas para as quais teorizaram e medicaram os economistas da “revolução keyneseana”, essa “revolução” e a autoridade que traz no seu bojo podem servir entre nós pelo menos para facilitarem o deslocamento do ponto de vista de muitos economistas e orientadores da política econômica do país, da questão da produção para a do consumo; o que no Brasil, e nas condições atuais é particularmente importante [...] 201 Assim, se em 1954, sob a influência das teses keyneseanas, Caio Prado Júnior assume o “estímulo ao consumo” como “ponto de partida” e “prática essencial” de uma teoria econômica “a ser elaborada para nossas condições, nossos fins e propósitos”, já em 1957, mesmo sem abrir mão desta perspectiva para a realidade brasileira, o pêndulo tende ao 199 Ibidem, p. 105-6. DPEB, p. 192-7. Georges Tapinos ressalta a ambiguidade da fórmula “a oferta cria sua própria procura”, uma vez que há passagens da obra de Jean-Baptiste Say em que se atribui à demanda a responsabilidade de todo o equilíbrio econômico. Cf. Georges TAPINOS. “Prefácio”. In: Jean-Baptiste SAY. Tratado de Economia Política. São Paulo: Nova Cultural, 1986, p. 10. Atualmente, salvo engano, seria difícil encontrar economistas que concordassem com essa observação de Tapinos. 201 DPEB, p. 197. 200 90 ceticismo quando se trata do sistema capitalista. Isso porque a ação do Estado, que deveria “suprir a deficiência do mecanismo econômico capitalista” que não se realiza espontaneamente, “não vai e não pode ir muito longe” na restituição do equilíbrio econômico, uma vez que “o Estado não é uma entidade que vive fora e além do sistema econômico”. 202 Em suma, a intervenção do Estado no sentido de compensar o desequilíbrio entre a produção e o consumo, substituindo o consumidor e inversos privados quando a ação destes se mostra insuficiente, não tem e não pode ter influência decisiva. Poderá contemporizar, suavizar a incidência das crises e depressões, adiar o desenlace, manter em equilíbrio precário e cada vez mais difícil de sustentar. Mas não eliminará as raízes do mal. 203 Se de um lado a ação do Estado não seria capaz de superar a contradição entre produção e consumo, por outro, igualmente incapaz seria a tentativa do capitalismo monopolista de subverter a função demanda-produção em produção-demanda, ou seja, a tendência, nesta fase do desenvolvimento histórico do capitalismo de “tomar a produção como dado inicial, e a ela conformar o consumo”. A partir de uma “política de vendas”, a chamada “produção trustificada do capitalismo” – na qual a concentração e a centralização de capitais induziram a formação de trustes e grandes empresas monopolistas que controlam parte expressiva da produção – teria por objetivo “menos satisfazer uma demanda espontânea e preexistente, que provocar essa demanda”. O controle da produção proporcionaria, em tese, o domínio também do consumo e o “livre jogo dos fatores naturais” abriria espaço para execução de “planos conscientes e pensadamente estabelecidos”, através dos quais seria possível “realizar o ajustamento da produção e do consumo, e o equilíbrio econômico”. Entretanto, esta seria uma “situação extrema que de fato não se chega a realizar plenamente, nem é realizável no regime capitalista, pois implica uma só vontade e portanto um interesse homogêneo, o que não é e nunca será o caso naquele regime”. Afinal, se por um lado “o elemento ‘concorrência’ que compõe toda a atividade do antigo capitalismo liberal, assume feição nova em que se acentua cada vez mais um elemento de planificação”; por outro lado, do que se trata é de uma “planificação naturalmente desconexa porque se trata efetivamente de vários planos, um para cada empresa, e por isso chocando-se e se contrariando em muitos pontos”. 204 Não há pois, para o conjunto da economia, unidade de vistas, de esforços, de ação. O equilíbrio entre produção e consumo que as empresas realizam no papel e que procuram traduzir nos fatos, é perturbada pela multiplicidade dos planos e 202 Ibidem, p. 199-200; EFTE, p. 179-81. EFTE, p. 184. 204 Ibidem, p. 166-77. 203 91 divergência de interesses. Essas perturbações são mais ou menos graves. Em 192930 desencadeiam a maior crise da história. 205 Assim, longe de constituírem solução ao problema, os monopólios o agravam. Na medida em que a centralização e a concentração de capitais permitem uma ainda maior produção e produtividade e a “política de vendas” mostra-se incapaz de proporcionar o mercado suficientemente amplo para a realização do capital, a crise torna-se ainda mais grave. José Pinto Antunes parece se preocupar igualmente com o problema da concentração de capital, mas sua ótica é obviamente, muito distinta. Ela que poderia se dar de quatro formas: o “aumento natural”, em que a prosperidade dos negócios permite a ampliação da empresa; a “fusão” de empresas por compra ou conjugação; a concentração “por participação financeira”, em que uma empresa compra a maioria das ações de outras; e a “cartelização”, ou seja, a aliança parcial e limitada entre empresas. Para todos os casos, trata-se de algo positivo: “As concentrações das empresas são, em princípio, de interesse público”, pois a produção em larga escala que é proporcionada “acarreta a baixa no custo da produção e, por sua vez, a possibilidade da baixa do preço de venda”. O raciocínio fica ainda mais interessante: “todo processo que propicie o abaixamento do custo de produção é de interesse geral e fator que reforça o fundamento da ordem pública”. 206 Por quê? Simples: [...] todas as vezes que o progresso técnico das empresas consegue baratear o produto, em virtude do rebaixamento do custo de produção, uma grande parte da sociedade, até então de desejos insatisfeitos, é beneficiada com a transformação e de aquieta, comumente abandonando as reivindicações contra a ordem social ou perdendo a energia inicial de luta. 207 Abordamos esta questão não para revelar o caráter de classe da teoria econômica de José Pinto Antunes, ou não apenas para isso, mas principalmente para mostrar uma visão oposta sobre as relações entre produção e consumo. Para este autor, “a liberdade na procura do maior lucro e o consequente reconhecimento da propriedade dos excessos da produção ao próprio consumo são fatores decisivos para o equilíbrio difícil, mas necessário, entre a produção parcial e o consumo geral”.208 A equação se inverte: haveria mais consumo que produção. Na passagem a seguir, torna-se explicito antagonismo de posições entre o marxismo de Prado Júnior e o liberalismo de Pinto Antunes: 205 Ibidem, p. 177. José Pinto ANTUNES. A produção sob o regime da empresa, p. 135-6 207 Ibidem, p. 136. 208 Ibidem. Grifo nosso. 206 92 [...] enquanto o consumo é de todos (todos comem) a produção é de poucos – a dos homens válidos, que ainda precisam de descansos periódicos e nem sempre todos os capazes trabalham. Então, é sobre os poucos produtores que repousa o problema da ordem econômica, pois cabe a eles a produção maior que o próprio consumo, a fim de que, com as sobras, alimentemos a grande maioria dos que comem (consomem) e não produzem. 209 Logo, sendo o problema a subprodução e o superconsumo, a “produção sob o regime da empresa”, ou seja, o capitalismo, seria o processo produtivo mais adequado, pois “assegura a maior produtividade”, realizando da melhor maneira “a finalidade social de toda a produção, que é satisfazer o maior número possível de desejos humanos”. 210 Por suas bases teóricas, tal perspectiva não seria capaz de reconhecer que a transformação histórica proporcionada pelo capitalismo, que impulsionou o desenvolvimento das forças produtivas de modo exponencial. Se a produção de excedentes nas formações econômicas anteriores era um objetivo a ser permanente alcançado, no capitalismo ela tornouse uma constante. Mas a abundância não eliminou a escassez. E para Caio Prado Júnior, o problema é a posição do Brasil nesta transformação. Como os momentos iniciais da formação do Brasil se processaram como parte de um “conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu”; como no “seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial”; como é com um “objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras”; 211 então se justificaria a atenção privilegiada sobre o mercado na análise histórica do desenvolvimento econômico brasileiro. Estado e mercado Caio Prado Júnior chega aos anos 1950 com uma concepção já formada sobre o papel do comércio e o mercado na formação do Brasil. Elaborou-a no clássico Formação do Brasil contemporâneo (1942) e a utilizou ao longo da vida: “A análise da estrutura comercial de um país revela sempre, melhor que a de qualquer um dos setores particulares da produção, o caráter de uma economia, sua natureza e organização. Encontramos aí uma síntese que a 209 Ibidem, p. XXI-XXII. Esta formulação consta no prefácio da 2ª edição da monografia de José Pinto Antunes, ou seja, a primeira publicada em livro, datado de 1º de janeiro de 1957. Aqui a utilizamos por sintetizar melhor a tese que consta em outras passagens do texto apresentado ao concurso. 210 Ibidem, p. 245. 211 Caio PRADO JÚNIOR. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942, p. 16-26. 93 resume e explica.” 212 Como indicou Florestan Fernandes em 1988, Caio Prado Júnior “não se impôs uma revisão crítica”, uma vez que “estava convicto da veracidade de suas descobertas e do seu retrato da evolução histórica do Brasil e de outras sociedades periféricas e marginais”.213 A monografia apresentada à FD-USP foi marcada por tal convicção. O Brasil viveu no curso de toda sua história, e ainda vive em função das flutuações de mercados longínquos que podem fazer a sua fortuna ou miséria, sem que ele nada possa dizer na matéria. Somos obrigados a sofrer passivamente as vicissitudes de uma conjuntura completamente estranha; e sempre fomos com relação aos fenômenos econômicos que nos tocam mais de perto, como o primitivo em frente aos acontecimentos meteorológicos que comandam soberanamente e sem recurso a sua própria integridade física. 214 As tempestades econômicas invariavelmente assolavam o Brasil. Entretanto, devemos registrar que Caio Prado Jr. não pensava unilateralmente a presença marcante da esfera da circulação e do mercado externo no desenvolvimento histórico brasileiro. Para Pedro Cezar Dutra da Fonseca, o autor teria sido “precursor da Teoria da Dependência ao afirmar que são os processos sociais internos os responsáveis pela dinâmica histórica, e que, primordialmente, configuram seu sentido.” 215 De modo análogo, afirma Antonio Carlos Mazzeo que mesmo reconhecendo a presença “de certo superdimensionamento do papel da esfera da circulação [...], lembramos que o fundamental da análise caiopradeana não é apresentar a esfera da circulação desconectada da esfera produtiva”.216 A dependência externa, digamos, se internaliza: “a economia brasileira se organizou e evoluiu em função do comércio externo; mais particularmente, da exportação de produtos primários”. Consequentemente, “tudo mais que nela se encontra é acessório e deriva direta ou indiretamente daquele setor fundamental, isto é existe para ampará-lo e o manter em funcionamento”.217 A interação dialética entre o interno e o externo seria uma das virtudes metodológicas do autor. Maria Odila Leite da Silva Dias nos indica o modo como Caio Prado desenvolve sua análise, que considera uma “manifestação magistral da tão propugnada história global, que desafia as forças dos historiadores, dedicados a reconstruir totalidades expressivas do 212 Ibidem, p. 226. (grifo nosso) Florestan FERNANDES. Os enigmas do círculo vicioso. In: PRADO JR. Caio. História e desenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1999, p. 7. 214 DPEB, p. 43 215 Pedro Cezar Dutra da FONSECA. Homenagem a Caio Prado Jr. Análise Econômica, ano 8, n. 14, nov. 1990, p. 151-55 (grifo nosso). 216 Antonio Carlos MAZZEO. “O Partido Comunista na raiz da teoria da Via Colonial do desenvolvimento do capitalismo”. In: Antonio Carlos MAZZEO; Maria Izabel LAGOA (orgs.). Corações Vermelhos: os comunistas brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003, p. 164. 217 DPEB, p. 59. 213 94 passado”. Para ela, a busca pela especificidade e a diversidade de formas sociais é o princípio norteador de seu trabalho de “remontar ao passado, devassar o vir a ser das formações sociais do Brasil tanto nas relações de dependência internacional, quanto e sobretudo, no seu contexto nacional, interiorizadas nas subordinações regionais.” 218 As desigualdades do território nacional se fazem gritantes em virtude da maneira como aquela dependência do mercado externo afetou os diferentes núcleos produtivos e populacionais. Assim, a complexidade da estrutura econômica brasileira deve-se não é apenas o convívio íntimo entre o pauperismo e o luxo, a abundância e a escassez, pois é preciso “acrescentar-lhe ainda a confusão em que se apresenta a distribuição geográfica” de formas econômicas de contraste chocante. Diferentemente do “ritmo irregular e espasmódico que o país em conjunto não pôde acompanhar”, em uma evolução mais regular elas pertenceriam a épocas muito afastadas entre si. Mas esta não seria a realidade brasileira: “A nossa história ainda é, por isso, em muitos casos, uma atualidade”. Assim, a julgar pelos critérios e categorias da economia clássica, pode-se dizer que o Brasil é “uma colcha de retalhos”. 219 Descontinuidades espaciais entrelaçaram-se com continuidades temporais: Não somente o nosso curto passado, como também e sobretudo a unidade e uniformidade de nossa evolução, não interrompida por fatores intervenientes de monta e perturbadores do ritmo normal do desenvolvimento, permitem-nos hoje acompanhá-la num desdobramento linear nitidamente marcado. Aliás a nossa história, e particularmente a nossa história econômica, é antes uma sucessão de episódios muito semelhantes, de ciclos que se repetem monotonamente no tempo e no espaço. E continuam repetindo-se. 220 Trata-se da reiteração de um círculo vicioso. Produção e consumo, oferta e procura ocorrem no mercado, e “o traço distintivo mais profundo da economia brasileira” é a dualidade de mercado. Não apenas a distinção entre mercado interno e mercado externo, o que se verifica em qualquer país, mas a “duplicidade de mercados bem separados um do outro e nitidamente configurados”. Tendo a economia brasileira se formado para atender o mercado exterior, a ocupação e povoamento de seu território, bem como a organização de sua estrutura produtiva, obedeceram a este impulso. 221 Temos assim, de um lado, o mercado externo, em função do qual se organiza e processa a economia brasileira; e doutro, o interno, que deriva e se constitui por força da atividade produtiva orientada para aquele primeiro setor. Daí a Maria Odila Leite da SILVA DIAS. “Impasses do inorgânico”. In: Maria Angela D’INCAO (org.). História e Ideal, p. 382. 219 DPEB, p. 6-17. 220 Ibidem, p. 30. 221 Ibidem, p. 107-8. 218 95 importância secundária e subordinada do mercado interno em confronto com o externo; importância essa que não se mede unicamente por dados quantitativos, mas que se exprime sobretudo qualitativamente. Não é possível observar o mercado brasileiro, nem mesmo abordar a análise de qualquer aspecto da nossa economia, sem a prévia consideração daquela duplicidade estrutural que cinde o mercado brasileiro e as atividades produtivas do país em setores distintos e nitidamente demarcados; e sem estar atento para a dependência direta ou indireta, mas sempre próxima, do mercado interno com relação ao externo. 222 Esta circunstância que atravessa a história brasileira gerou um problema crônico: com uma economia estruturada para exportar produtos primários, o atendimento do mercado interno de produtos manufaturados deveria ser feito mediante importações. Para fazê-las, seria necessário divisas, que não são obtidas senão a partir das exportações daquelas matérias primas e produtos primários. A posição dominante dos compradores do centro capitalista nas posições chave do comércio e das finanças internacionais, bem como a instabilidade dos preços das mercadorias no mercado externo resultaria na deterioração progressiva dos termos de troca no comércio internacional em prejuízo da periferia capitalista e dos países subdesenvolvidos. Caio Prado Júnior credita a Raul Prebisch e à CEPAL esta abordagem da situação. 223 Entretanto, o problema do circulo vicioso é mais profundo. Na medida em que o capitalismo dos países centrais se desenvolveu, o inerente e permanentemente estimulado progresso científico e avanço da técnica produtiva ampliaram a participação do capital fixo em detrimento do capital variável na composição orgânica do capital, gerando a queda tendencial da taxa de lucros. Afinal, o desenvolvimento econômico no capitalismo caminha para uma redução relativa da demanda por força de trabalho e, portanto, para a redução da massa de mais valia extraída. Assim, os capitais acumulados que já não tinham as mesmas perspectivas de reprodução em suas fronteiras buscaram “uma brecha escapatória: é a válvula que se abre para o exterior do sistema”. Os países da periferia capitalista assumem então o papel de “eventual área de expansão capitalista e de inversões destinadas a assegurar o equilíbrio econômico do sistema”. 224 Entretanto, estas inversões não sanaram os desequilíbrios nem no centro nem na periferia do sistema. Na perspectiva dos países subdesenvolvidos, há um problema básico nestes investimentos estrangeiros destinados a instalar de filiais e empresas subsidiárias 222 Ibidem, p. 108-9. Cf. Ibdem, p. 96-7; EFTE, p. 203-4. 224 EFTE, p. 186. As questões abordadas neste parágrafo se encontram detalhadamente desenvolvidas nos capítulos 5 e 6 da referida obra. 223 96 visando se aproximar do mercado consumidor e com isso garantir melhores posição competitiva e facildiades de vendas, bem como aproveitar o menor preço da força de trabalho.225 Inversões desse tipo – a que devemos acrescentar outras de efeitos mais graves ainda que são as de natureza comercial e sobretudo financeira – determinam logo que adquirem certo vulto, e por efeito dos pagamentos externos a que dão lugar sem um correspondente e compensador aumento dos meios de satisfazer tais pagamentos, situações de crônico e frequentemente agudo desequilíbrio do balanço de contas externas dos países subdesenvolvidos. Desequilíbrio esse que atua como fator limitante das próprias inversões, pois reduz e torna essencialmente precária a capacidade daqueles países de saldar regularmente seus débitos internacionais. 226 Mas é apenas um lado da questão. Soma-se a ele, o fato estatisticamente comprovado em International Capital Movements in the Interwar Period (1949), de que “as inversões estrangeiras em países coloniais e semicoloniais” foram sobretudo em atividades ligadas às produção primária de artigos de exportação, que representa o “reforço que o capital financeiro internacional traz ao sistema colonial de países do nosso tipo”. 227 Para reforçar seu argumento, Caio Prado Júnior se apoia no economista Ragnar Nurkse: O capital estrangeiro em países subdesenvolvidos dirigiu-se para as indústrias extrativas cuja produção foi destinada a países industriais adiantados [...] As inversões estrangeiras em vez de desenvolverem as economias de países agrícolas, serviram para enrijecerem e fortalecerem o sistema sob o qual esses países se especializaram na produção de matériasprimas e gêneros alimentícios para exportação. 228 Neste sentido, a modernidade, ao invés de contribuir para superar, reitera e reforça a estrutura agrária herdada da colônia. Com a profundidade com que o problema do desenvolvimento brasileiro se coloca sua resolução, não poderia se dar termos parciais: “É pela base que se há de solucionar o nosso caso, arrancando definitivamente o país do círculo vicioso em que há séculos e desde o início da colonização se acha empenhada a sua vida. E isso representa uma nova perspectiva pata todos brasileiros”. 225 229 Segundo Caio Prado, no Brasil, “o capitalismo, ou antes os fatores de Cf. Ibidem, p. 194-5. Ibidem, p. 195. 227 DPEB, p. 87-8 228 Ragnar NURKSE. Problemas da formação de capitais em países subdesenvolvidos. Revista Brasileira de Economia, dez. 1951, p. 118. Apud DPEB, p. 88. 229 DPEB, p. 51. 226 97 que resulta ou poderia resultar o capitalismo brasileiro, não derivam do desenvolvimento próprio das forças produtivas do país e da decomposição do sistema econômico vigente”.230 Impôs-se mais por contingência estranhas ao país, e não resultou da maturação de fatores próprios; e o que é mais, constituídos em função e oposição ao sistema econômico brasileiro, isto é, sistema de país periférico e de economia complementar. Pode-se dizer que o capitalismo entre nós “acrescentou-se” ao sistema existente e que vinha de muito antes. Ou se preferirem, esse sistema ajustou-se mais ou menos convenientemente a um novo tipo de relações que forças estranhas lhe impuseram. 231 Se o capitalismo se sobrepôs à economia colonial, será sobre as bases do capitalismo dependente e periférico, no qual se observa a flagrante desproporção entre as necessidades da população e os estreitos limites impostos ao desenvolvimento das forças produtivas, que se assentará uma estrutura de novo tipo: [...] uma economia propriamente nacional em que se entrosem e articulem diretamente entre si aquelas necessidades do país e as suas forças produtivas; em que a produção e o consumo se integrem num conjunto e unidade onde evoluam paralela e harmonicamente, sem serem condicionados, cada qual do seu lado, pelo fator estranho de um mercado externo em que a oferta e a procura independem deles. [...] uma atividade produtiva que se estruture e desenvolva em função das necessidades próprias do país, capaz por conseguinte de mobilizar toda a sua população válida, e portanto de transformar aquelas necessidades em demanda efetiva e estímulo daquela mesma produção. Uma produção em suma condicionando o consumo, e este último condicionando a produção. 232 A orientação geral do desenvolvimento econômico deverá, pois, “atender ao problema fundamental dos países subdesenvolvidos”, que é justamente “libertá-los da posição periférica que ocupam no sistema internacional do capitalismo, posição essa onde se encontram os fatores profundos de perturbação de sua vida econômica”. Trata-se, com isso, de fazê-los “reestruturarem sua economia em bases nacionais”. Neste sentido, “elevar os baixo padrões de vida da grande massa da população”233 faz parte de um horizonte estratégico: a integração econômica do Brasil a partir da formação de um amplo mercado interno. Sem perder de vista as ligações com o sistema capitalista internacional em formação, Caio Prado Júnior observava a relação de complementaridade e subordinação com o mercado interno, visto como virtualidade de uma futura integração nacional. O nacional assumiria uma conotação econômica, a eventual satisfação das necessidades básicas do povo, e se referiria a uma organização da produção que, opostamente à Colônia, teria por finalidade o bem-estar da 230 Ibidem, p. 78 Ibidem, p. 78-9. 232 Ibidem, p. 160. 233 EFTE, p. 221. 231 98 população brasileira.234 A construção da nação, como expressão do tempo histórico no qual seu significado foi concebido e utilizado, seria a construção do Estado-nação, uma delimitação de espaço e uma integração de regiões em função do triplo movimento “produção-circulação-consumo”, que institui e é instituído pela industrialização moderna. Isso teria significado a primazia do mercado na esfera econômica, sendo o espaço econômico da nação moderna construído internamente. 235 Se há no sistema colonial brasileiro uma articulação entre seus elementos constitutivos, que cria um todo social orgânico, existe também, como vimos, uma desarticulação entre a produção, voltada para fora, e o consumo da maior parte da população, elemento inorgânico do sistema. Em contraste com os países capitalistas centrais, onde a produção, de forma geral, criou o consumo, no Brasil e em países como o nosso, havia uma desarticulação entre produção e mercado interno, por ter sido o externo o mercado principal. Assim, Caio Prado Júnior pensa a relação entre Colônia e Nação em uma perspectiva dialética, ou seja, não apenas de oposição. Reconhece, portanto, que apesar de todos os seus problemas e gostando disso ou não, foi no passado colonial brasileiro que se inscreveram os fundamentos da nacionalidade e seria a partir dele que se poderia seguir em direção contrária.236 Mas isso não seria possível caso a economia permanecesse sob a égide do “livre jogo dos fatores naturais”, como diz Caio Prado Júnior, pois este é justamento um dos elementos fundamentais da reiteração do circulo vicioso. Ao Estado caberia, portanto, libertar a ação da iniciativa privada das contingencias e limitações impostas pelos desajustes e desequilíbrios da economia colonial, “libertar as forças anticolonialistas já presentes no interior da atual estrutura econômica do país” e possibilitar a “estruturação de uma economia nacional”. 237 O comércio exterior e suas variações, como vimos, tem dimensões e consequências importantes Cf. Maria Odila Leita da SILVA DIAS. “Impasses do inorgânico”, p. 385 e 390. “Economia colonial e economia integrada nacionalmente, eis o binômio que define os limites (passado e futuro) do capitalismo periférico”. Sérgio SILVA. “A crítica ao capitalismo real”. In: Maria Angela D’INCAO (org.). História e Ideal, p. 304. 235 Cf. Marcia Barbosa Mansor D’ALESSIO. História e Historiografia: inquietações em torno do conhecimento histórico. 2011, Tese (Livre Docência em História) Departamento de História da EFLCH da Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, p. 83. 236 Cf. RICUPERO, Bernardo. Caio Prado Jr. e a nacionalização do marxismo no Brasil, p. 140, 155 e 133-4. Ao assumir a Colônia como um pressuposto para a construção da Nação, Prado Jr. nos mostra que assimilou uma célebre passagem de Marx: “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.” MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. In: O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 21. 234 237 DPEB, p. 236-7. 99 para a estrutura econômica do país. Seu desenvolvimento industrial é em grande medida estimulado pela necessidade de substituir com a produção interna o que por falta de divisas não é mais possível obter da importação. Para fazê-lo, porém, faz-se necessário importar equipamentos e bens de produção, contribuindo para tornar mais agudas as contradições e embaraços da economia. O controle de tarifas alfandegárias, quotas de importação e demais medidas emergenciais e circunstanciais, além de insuficientes, contribuem no mais das vezes para perturbar ainda mais a economia. Neste sentido, o monopólio estatal do comércio e das transações financeiras com o exterior em geral proporcionaria um verdadeiro controle das contas externas do país e, assim a destinação conveniente das importantes divisas obtidas com as exportações. 238 Mas afinal, como as diferentes categorias do desenvolvimento econômico se conjugam ao esforço da análise histórica? Até o momento, temos visto Caio Prado Júnior reiterar com insistência o inverso: a contribuição da história para a análise do desenvolvimento econômico. Portanto, como o autor estabelece a relação recíproca? No período que estamos analisando (1954 e 1958), a leitura de Caio Prado Júnior sobre a história brasileira não era aceita pela linha dominante em seu partido, o PCB. Afinal, não trabalhava com a tese de que havia resquícios feudais no país a serem demovidos para dar espaço ao desenvolvimento capitalista industrial. Em 1933, ainda aos 26 anos de idade, dizia: “Podemos falar num feudalismo brasileiro apenas como numa figura de retórica, mas absolutamente não para exprimir um paralelismo que não existe entre nossa economia e a da Europa Medieval”.239 Sua crítica à estratégia comunista que ficou conhecida como etapismo – crítica esta que desenvolveu no debate sobre o balanço da derrota de 1964 em A revolução Brasileira (1966) – provém da leitura da formação histórica brasileira de que nunca houve feudalismo no Brasil. Com isso, rejeitava a interpretação daqueles que chamou de “pseudomarxistas”, segundo a qual a humanidade em geral e cada país em particular deveria passar por etapas sucessivas em uma evolução histórica que se processaria invariavelmente até dar afinal no socialismo. 240 238 EFTE, p. 200-21. Caio PRADO JÚNIOR. Evolução política do Brasil. São Paulo: Empresa Gráfica “Revista dos Tribunais”, 1933, p. 27. 240 Cf. Idem. A revolução brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1966, p. 38-9. 239 100 O fio histórico que liga 1933 a 1966 passa por 1954, mas não pela via da crítica ao pensamento dominante no PCB. Aliás, em meados dos anos 1950 Caio Prado ainda opera com uma concepção dual da formação econômica brasileira. Mas seu dualismo não confronta feudalismo e capitalismo, e sim colônia e nação.241 O que nos interessa mais diretamente, porém, é que sua crítica ao etapismo pecebista assemelha-se metodologicamente de sua crítica a outra espécie de concepção etapista de desenvolvimento, esta vinculada às teorias econômicas convencionais. Nas palavras do autor: “O mais grave da interpretação unilinear e simplista do desenvolvimento brasileiro, tal como ele se apresenta nas concepções mais correntes, é que ela se enquadra num plano prefixado pelo desenvolvimento da economia europeia e dos Estados Unidos”. 242 Seu alvo é a CEPAL, cujos economistas a ela vinculados, em sua opinião, tem uma noção de desenvolvimento como simples difusão da técnica industrial moderna. Por isso o autor se põe a criticar o raciocínio de Raul Prebisch de que esta propagação tem início na Grã-Bretanha, espalha-se pela Europa, alcança os Estados Unidos, manifesta-se no Japão e chega então aos países periféricos. Portanto, de acordo com o economista argentino: “Examinando de perto, verifica-se que o desenvolvimento econômico dos países que formam a periferia constitui uma nova fase de propagação universal dos novos métodos da técnica produtiva, ou melhor, no processo de desenvolvimento orgânico da economia mundial”. 243 Portanto, Caio Prado Júnior critica a noção de progressão predeterminada na história para os diferentes países e o faz a partir do entendimento de que o desenvolvimento das forças produtivas destes países e seu consequente crescimento quantitativo não são sinônimos de desenvolvimento. Como vimos, em sua opinião, desenvolvimento da capacidade produtiva sem a correspondente capacidade de consumo resulta em profunda desarticulação. Apesar desta originalidade que o afasta tanto da matriz desenvolvimentista quanto do comunismo influenciado pelo industrialismo, Caio Prado Júnior não está de todo “Devemos notar muito bem o dualismo que observamos na economia brasileira, a saber, de um lado o sistema colonial que nele prevalece; doutro e esboçando-se no interior daquele sistema, novas formas econômicas que apontam na direção de um desenvolvimento diferente daquele que sempre tivemos no passado. Essa distinção é essencial para se ter um panorama adequado da economia brasileira e para nele se orientar, pois doutro modo resulta a ilusão, tão frequente na observação e interpretação de nossa economia, que podemos passar como que automática e espontaneamente de uma para outra linha de desenvolvimento [...]”. DPEB, p. 169. A superação do dualismo no pensamento econômico e social brasileiro teve seus primeiros esboços em Caio Prado Júnior, mas somente a partir de 1966, quando o autor considera que o setor atrasado, ao invés de impedir, estimula o desenvolvimento do setor moderno por meio da superexploração da força de trabalho. Cf. A revolução brasileira, p. 97, 106. 242 Ibidem, p. 71. 243 Raul PREBISCH. Interpretação do processo de desenvolvimento econômico. Revista Brasileira de Economia, mar. 1951, p. 8. Apud DPEB, p. 170. 241 101 desvinculado da noção de mudanças históricas por etapas. Particularmente, não se afasta da ideia de que tais transformações teriam as forças produtivas como fator decisivo. Mais uma vez, recorremos às permanências dos pressupostos contidos nas teses apresentadas em 1933. Em Evolução política do Brasil, o autor considera que a emancipação política do país teria resultado de seu desenvolvimento econômico, que fez ceder o regime de colônia que o impedia de avançar: “é a superestrutura política do Brasil-Colônia que, já não correspondendo ao estado das forças produtivas e à infraestrutura econômica do país, se rompe, para dar lugar a outras formas mais adequadas, às novas condições econômicas e capazes de conter a sua evolução”. 244 Em 1954, ao ser arguido no concurso para a cátedra de Economia Política da FD-USP, agentes do DOPS tomavam notas. Mesmo levando em conta eventuais imprecisões pontuais, dificilmente poderíamos contestar que o sentido geral do relato a seguir de fato corresponde em linhas gerais ao que Caio Prado Jr. defendeu: No correr dos trabalhos, afirmou Caio Prado Jr. que, pela tese da concentração dos capitais, os Estados Unidos se encontravam no seu mais absoluto desenvolvimento, onde as propriedades se concentravam nas mãos de poucos particulares e que, por este fato, encontravam-se os Estados Unidos mais próximo do que o Brasil do regime socialista, pois, bastava que o Estado substituísse os particulares na direção das empresas privadas. Esta facilidade não seria possível no Brasil, como não esta sendo possível na China, pois, estes ainda não chegaram a tal ponto de desenvolvimento. 245 Note-se que o parâmetro fundamental para definir a possibilidade de determinada formação social seguir rumo ao socialismo é o nível de desenvolvimento de suas forças de produção. Tal capacidade de produção deveria encontrar seu mercado para a efetivação do consumo para então, o capital se realizar e reiniciar seu ciclo em patamar superior. Na época da “concentração de capitais” do “capitalismo trustificado”, os EUA buscariam isso com a exportação de capitais, enquanto o Brasil deveria seguir caminho próprio, formando seu mercado interno de massas. 244 Caio PRADO JÚNIOR. Evolução política do Brasil, p. 91. A semelhança com a formulação de Marx é aqui evidente e foi sem dúvidas deliberadamente incorporada em sua análise da Independência brasileira: “Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então. De forças evolutivas das forças produtivas que eram, essas relações convertem-se em entraves. Abre-se então uma época de revolução social. A transformação que se produziu na base econômica transforma mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura”. Karl MARX. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008, p. 47-8. Depois de notar esta semelhança, tivemos contato com o artigo de Bernardo Ferreira, que também a destaca. Cf. Bernardo FERREIRA. Do Brasil colônia de ontem ao Brasil nação de amanhã: “revolução da Independência” e história do Brasil em Caio Prado Jr. DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 51, n. 2, 2008, p. 497. Agradecemos à professora Maria Fernanda Lombardi Fernandes pela indicação desta referência. 245 Relatório de investigação do DOPS sobre o exame oral prestado por Caio Prado Jr. no concurso à cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da USP. Dossiê 50-Z-013 (430), fundo DEOPS, APESP. 102 Produção e consumo, Estado e mercado são forças históricas colocadas em movimento pelos sujeitos históricos, dotados de consciência e poder de decisão. Portanto, a história também se faz por meio das decisões econômicas. No caso do Brasil e dos países subdesenvolvidos, a análise econômica se encontrava, em 1957, diante de dois caminhos por onde se engajar e se propor uma teoria e uma prática: integrando-se ao sistema internacional do capitalismo e sofrendo as contingências daí decorrentes, ou libertando-se desse sistema e estruturando uma economia própria e nacional. Contudo, não se trata de decisões apenas econômicas: “A decisão entre esses dois caminhos pertence a fatores políticos e sai do terreno estrito da Economia”.246 Entra no terreno da História. A consciência que os indivíduos adquirem de seu eventual destino orienta as suas ações em uma ou outra direção e configura o sentido da ação e dos fatos sociais. O sentido assume, então, a conotação de significado e a consciência que os sujeitos tem dele ganha força social na medida em que se exprime como norma de ação. O sentido da mudança histórica deixa de ser, assim, uma força cega e passa a ser um valor compartilhado por sujeitos históricos.247 246 247 EFTE, p. 224. Jorge GRESPAN. A teoria da história em Caio Prado Jr.: dialética e sentido, p. 69 103 CONSIDERAÇÕES FINAIS Interpretando a concepção de Caio Prado Júnior sobre o marxismo e a dialética, Lincoln Secco afirma que “sua teoria está toda entranhada na narrativa histórica”. Note-se que entre o artigo homônimo publicado em 2010 e o texto de onde extraímos esta citação, de 2011, Secco adiciona a palavra “toda” na mesma formulação, reforçando a indissociabilidade entre teoria e historiografia no pensamento do autor.248 Não se trata de afirmar que toda a concepção teórico-metodológica de Caio Prado encontra-se em sua narrativa histórica, uma vez que em diversos artigos, trechos de livros e até mesmo livros inteiros – como as obras filosóficas que escreveu nos anos 1950 ou a crítica que teceu ao estruturalismo francês no início dos anos 1970 – o autor discorreu sobre as questões epistemológicas, conceituais, teóricas e metodológicas que balizam seu pensamento. Trata-se, na verdade, de indicar que é na tensa e dinâmica relação entre teoria e historiografia que poderemos encontrar o caminho para a compreensão do pensamento caiopradiano em sua unidade e totalidade. É no método de investigação e nas suas implicações para a produção da narrativa histórica que se manifestam concretamente a lógica dialética. Assim, Jorge Grespan afirma que, para Caio Prado Júnior, a interpretação da história não é arbitrária, ela deve traduzir o sentido real no movimento próprio do pensamento, em um autodinamismo dialético, devendo expressar não apenas o redomínio de uma das forças em luta, mas a luta mesma das forças opostas, da qual resulta um sentido sempre mutável.249 A relação entre a economia política do desenvolvimento e a análise da história em seu devir constitui elemento indispensável na formulação conceitual de Caio Prado Júnior sobre o desenvolvimento. Ainda assim, em Caio Prado Júnior é pronunciada a tendência a explicar a história a partir e por meio dos processos econômicos e, pois, utilizando-se das categorias de análise econômica. Isso poderia obstaculizar o objetivo de finalmente construir a tão almejada “história total”. Mas aquela tendência, jamais chega a termo se observarmos o conjunto da obra historiográfica de Caio Prado Júnior: história política, história social, história da filosofia, história e geografia etc.; múltiplas perspectivas são lançadas sobre a História pelo olhar de historiador de Caio Prado. Ao lado do economista, do filósofo, do sociólogo e do geógrafo, a qualidade de historiador somente pode se destacar na medida em que é a análise Cf. Lincoln SECCO. Tradução do marxismo no Brasil: Caio Prado Júnior. Mouro: Revista Marxista – Núcleo de Estudos d’O Capital. São Paulo, ano 1, n. 2, jan. 2010. Idem, Tradução do marxismo no Brasil: Caio Prado Júnior. In: PINHEIRO, Milton (org.) Caio Prado Júnior: história e sociedade. Salvador, Quarteto, 2011, p. 61. 249 Cf. Jorge GRESPAN. A teoria da história de Caio Prado Júnior, dialética e sentido, p. 71. 248 104 da realidade em sua totalidade no tempo que predomina em seu pensamento. Obviamente, as interações dos homens, seres sociais, para a produção e reprodução de sua vida material no espaço e no tempo, tem grande relevância, senão prioridade mesmo, nas narrativas que produziu. Mas como agentes e pensantes, os seres sociais, relacionados entre si pelas complexas interações humanas, não se reduzem à vida material por eles forjada. As forças históricas são múltiplas. Como homem de ação, Caio Prado Júnior não tomou consciência disso retirando e lendo os livros das estantes. O conselho dado aos 60 anos de idade a jovens formandos é de quem soube observar muito bem as experiências que a vida lhe proporcionou: “Estou seguro que deixando de estudar nos livros, para estudarem no grande livro da vida, vocês continuarão voltados para o ideal de um Brasil melhor, habitado por um povo mais feliz”. 250 250 Discurso de paraninfo da turma de 1967 da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas (FCEA/USP), 7 de mar. 1967, código CPJ-CA012, AIEB-USP. 105 REFERÊNCIAS Bibliografia ASSOCIAÇÃO dos docentes da USP, O controle ideológico na USP (1964-1978). São Paulo: Adusp, 2004 ALMEIDA. Lúcio Flávio Rodrigues. “Insistente desencontro: o PCB e a revolução burguesa no período 1945-64”. In: Antonio Carlos MAZZEO; Maria Izabel LAGOA (orgs.). Corações Vermelhos: os comunistas brasileiros no século XX. São Paulo: Cortez, 2003. ALMEIDA JÚNIOR. Antônio Mendes. Do declínio do Estado Novo ao suicídio de Getúlio Vargas. In: FAUSTO, Boris (dir.). 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Almeida Nogueira e a cadeira de Economia Política na Faculdade de Direito. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, v. 48, 1953. ________. Uma escola de civismo. Revista da Faculdade de Direito, v. 49, 1954. 117 ________. Discurso de Agradecimento do Professor Dr. J. J. Cardoso de Melo Neto, à homenagem que lhe prestou a Congregação da Faculdade conferindo-lhe o Título de Professor Emérito. Revista da Faculdade de Direito, v. 49, 1954. NOGUEIRA, José Luis de Almeida. Curso didáctico de economia política ou sciencia do valor. São Paulo: Graphica São José, 1936. Resoluções e documentos do Partido Comunista do Brasil (PCB) III Conferência Nacional do PCB, 15 jul. 1946. In: CARONE, Edgar. O PCB. São Paulo: Difel, 1982, (v. 2, 1943 a 1964), p. 65-71. Manifesto de Janeiro, jan. 1948. In: CARONE, Edgard. O PCB, São Paulo: Difel, 1982, (v. 2, 1943 a 1964), p. 72-89. Manifesto de Agosto, ago. 1950. In: CARONE, Edgar. O PCB. 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Souto Maior (FD-USP) § 20/05, segunda-feira, das 19h às 22h § Local: Sala da Congregação, Faculdade de Direito da USP, 1º Andar, Prédio Histórico 2) Caio Prado Jr: Contribuições à História Econômica e ao Direito Econômico - Lincoln Secco (FFLCH-USP) 251 - Gilberto Bercovici (FD-USP) § Mediador: Marcus Orione (FD-USP) § 22/05, quarta-feira, das 19h às 22h § Local: Sala da Congregação, Faculdade de Direito da USP, 1º Andar, Prédio Histórico 3) Caio Prado Jr. e o Pensamento Brasileiro - Alexandre de Freitas Barbosa (IEB-USP) - Rubem Murilo Leão Rêgo (IFCH-UNICAMP) § Mediador: Alessandro Octaviani (FD-USP) § 24/05, sexta-feira, das 19h às 22h § Local: Sala da Congregação, Faculdade de Direito da USP, 1º Andar, Prédio Histórico 252 4) Caio Prado Jr.: da Formação à Revolução Brasileira - Rodrigo Ricupero (FFLCH-USP) - Angélica Lovatto (UNESP) § Mediador: Marcus Orione (FD-USP) § 28/05, terça-feira, das 19h às 22h § Local: Sala da Congregação, Faculdade de Direito da USP, 1º Andar, Prédio Histórico 251 252 Lincoln Secco não compareceu ao Ciclo de Debates por motivos de trabalho. Neste dia, em função do tamanho do público presente, os debates foram transferidos para um auditório da Faculdade de Direito. 119 Anexo 2 USP presta homenagem ao historiador Caio Prado Jr. 253 A Universidade de São Paulo nunca contou com o historiador Caio Prado Jr. em seu quadro de professores. Ontem, ela se redimiu do equívoco no ano em que comemora 50 anos de existência, prestando-lhe uma homenagem. Uma das salas do Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas foi batizada com seu nome. Para homenagear Caio Prado Jr., que confessou estar emocionado com o reconhecimento do seu trabalho e com a presença de amigos, estiveram presentes o sociólogo Florestan Fernandes, os professores Edgard Carone, Fernando Antônio Novaes, Simão Matias, Aziz Simão, Carlos Guilherme Mota, Antônio Cândido, o senador Severo Gomes, o historiador Eduardo Maffei, o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro, entre outros. O ex-dirigente do Partido Comunista Brasileiro e o publicitário Carlito Maia enviaram congratulações. O sociólogo Florestan Fernandes pediu o reconhecimento da obra de Caio Prado Jr., para ele um pioneiro, “um intelectual da raiz do cabelo à ponta do pé”, que soube aliar a criatividade intelectual, a audácia política (foi deputado pelo PCB) ao trabalho sistemático. Lembrou ainda seu trabalho ligado a diversas áreas, entre a geografia, sociologia, história, economia, além de analista dos aspectos políticos da sociedade brasileira. Fernandes sugeriu ao Departamento de História da USP que promova uma análise mais profunda de sua obra. O professor Antônio Cândido elogiou a bravura e o inconformismo do historiador que, aliados ao seu sendo da realidade “o levaram a conhecer o Brasil como poucos”. O professor de História Moderna Fernando Antônio Novaes observou que, com a tendência de retomar o estudo a historiografia atual, não só a obra como a bibliografia de Caio Prado Júnior devem ser retomadas. “Há um consenso de que sua obra é um marco. Mas sugiro aos estudiosos que precisem seu lugar no contexto da geração de 30, na historiografia brasileira e na história do marxismo americano. A melhor homenagem que se pode prestar é refletir sobre sua obra.” Ainda, o professor Edgard Carone ressaltou a visão do historiador, para quem a sociedade é analisada com um todo. E o professor Aziz Simão, da geração de Caio Prado, citou sua obra “Formação do Brasil Contemporâneo” e “Evolução política do Brasil”, como trabalhos significativos. “Caio Prado sempre foi um homem sereno, cortês. Se me dissessem que era um bolchevique eu não acreditaria. Ele tinha um espírito democrático que acompanha todo o seu trabalho”, disse, fazendo rir uma plateia lotada de jovens. No final, Caio Prado Júnior só foi capaz de agradecer às homenagens. “Essas coisas todas que disseram me tocaram muito, é minha vida. Estou muito emocionado”, disse. 253 Folha de S. Paulo, 2 mar. 1984, p. 23. 120 Anexo 3 ADVOCACIA CÂNDIDO TEOBALDO DE SOUZA ANDRADE RAIMUNDO PASCOAL BARBOSA HELIO FIORILLO Meu caro amigo Caio Prado: Está, agora, aberto o concurso para a Cátedra de Economia Política, na nossa Faculdade de Direito. Junto, lhe envio a página do Diário Oficial que publica o edital respectivo. O concurso fora, anteriormente, suspenso, em virtude do recurso feito pelos economistas, os quais se julgavam com direito à inscrição, sem apresentar o título de bacharel ou doutor em direito. Foram atendidos e, conforme você poderá notar da leitura do edital, têm eles direito à inscrição, com a simples apresentação do título de economista. O pessoal está certo de que você se inscreverá. E, por outro lado, tenho “espalhado”, na Faculdade que você irá concorrer ao concurso. Acredito que você deverá se inscrever. De notar que não há nenhum “peixe” da congregação. Não há, sequer, docente livre da cadeira. Não tenhamos ilusão: não darão, tudo indica, a você a cadeira. Uma docência livre, porém, você terá chance de ganhar... Temos que vencer estas “barreiras”, pois não acreditamos em “ilegalidade”. Fiz o primeiro ano do curso de doutorado e fui plenamente aprovado, principalmente nas duas cadeiras nas quais apresentei teses, cuidando de assuntos ligados aos princípios que adoto para explicar o destino social do mundo. E os mestres (Mota Filho e Basileu Garcai [sic]), nem sequer tocaram no assunto. Discordaram de outras coisas... Portanto, prepare-se. Algum esclarecimento procure o Flávio Mendes (creio que você o conhece). É pessoa muito distinta e amigo meu. Um abraço do Pascoal Barbosa 7.6.1954 PRAÇA DA BANDEIRA, 40 - 5º PAVIMENTO – CONJUNTO 5-D CAIXA POSTAL, 538 – TELEFONES 34-9367 E 35-1299 SÃO PAULO 121 Anexo 4 CONCURSO DE ECONOMIA POLÍTICA Pontos para a prova escrita 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. Classificação das doutrinas econômicas contemporâneas. Das flutuações e dos ciclos econômicos. A especialização das funções econômicas. A política econômica e a técnica na produção. O problema da unificação do mercado mundial. Os principais fatores do desequilíbrio econômico. O salário, o valor e os sistemas monetários. Os preços, a concorrência e os monopólios. Teorias sobre a variação entre os diversos ramos de renda, e crítica às mesmas. Protecionismo e livre câmbio. O equilíbrio econômico do consumidor, e suas variações. A produtividade do capital. Os custos e as rendas. O funcionamento das sistemas monetários e o mecanismo do câmbio. A concentração da indústria. O custo de produção decrescente nas grandes empresas. O desenvolvimento dos mercados internos. A força de defesa da economia nacional. O capitalismo comercial e a sua teoria. Os preços e os mercados. Popança e inversão – hipóteses, objetivos, oportunidades, comparações. Equilíbrio econômico interno e internacional. Interpretações orgânicas das crises, após a 2ª guerra mundial. A evolução dos fenômenos econômicos. A produção e o consumo. A conjuntura econômica nacional. SECRETARIA DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 29 de maio de 1956. Flavio Mendes - Secretário - 122 Anexo 5 254 Ilmo. Sr. Delegado Chefe do “S.S” DOPS. Prezado senhor: Cumprindo determinações dessa Chefia, assisti ao exame oral verificado ontem, dia 13, na Faculdade de Direito de S. Paulo quando concorria à cátedra de Economia Política o bacharel Caio Prado Junior, e do observado tenho a informar o seguinte: Inicialmente, Caio Prado Junior foi examinado pelo professor Correia, de Minas Gerais, quando confessou claramente que era comunista e que acreditava piamente nas doutrinas de Karl Marx. Durante seu exame fez diversas considerações do atual regime da União Soviética, afirmando que o socialismo era consequência natural do capitalismo e que não havia necessidade de forçar nenhuma conjuntura para se chegar a tal fim. No correr dos trabalhos, afirmou Caio Prado Jr. que, pela tese da concentração dos capitais, os Estados Unidos se encontravam no seu mais absoluto desenvolvimento, onde as propriedades se concentravam nas mãos de poucos particulares e que, por este fato, encontravam-se os Estados Unidos mais próximo do que o Brasil do regime socialista, pois, bastava que o Estado substituísse os particulares na direção das empresas privadas. Esta facilidade não seria possível no Brasil, como não esta sendo possível na China, pois, estes ainda não chegaram a tal ponto de desenvolvimento. Ao ser arguido pelo catedrático Gofredo da Silva Telles Jr., que apresentou questões relativas à metafísica e dialética, houve forte discordância de opiniões, pois, como se sabe Gofredo da Silva Telles Jr. é elemento reconhecido como integralista, e não poderia haver acordo de doutrinas. O exame findou aproximadamente às 20,45 hrs., tendo sido o último examinador o catedrático Lino Leme, que fez diversas considerações vernaculares da tese apresentada. O prazo regulamentar findou quando o examinando fazia justificações técnicas de seu trabalho. O salão nobre da Faculdade apresentava-se com inúmeros elementos comunistas da Faculdade e também estranhos a ela. Durante a prova não houve manifestação alguma da parte dos comunistas. Era o que tinha a informar. 254 Relatório de investigação do DOPS sobre o exame oral prestado por Caio Prado Jr. no concurso à cátedra de Economia Política da Faculdade de Direito da USP. Dossiê 50-Z-013 (430), fundo DEOPS, APESP. 123 Anexo 6 Concurso para provimento da cadeira de Economia Política255 Despertou grande interesse nos círculos jurídicos, a arguição, ontem, do candidato Caio Prado Júnior – Os trabalhos de hoje. Com a arguição do candidato Caio Prado Júnior prosseguiram ontem os trabalhos do concurso para o provimento da cátedra de Economia Política, da Faculdade de Direito. Pelo fato de ser o candidato dirigente de prol do extinto Partido Comunista Brasileiro e de se ter inscrito no concurso com uma monografia que reflete suas ideias políticas, a prova despertou inusitado interesse nos círculos jurídicos desta Capital. Perante enorme assistência, que lotava o salão nobre da Faculdade, iniciaram-se os trabalhos às 15 horas, prolongando-se até cerca de 21 horas. A monografia do sr. Caio Prado Júnior, intitulada “Diretrizes para uma política econômica brasileira”, sofreu cerradas críticas, do ponto de vista do fundo e de forma, dos cinco membros da comissão examinadora, professores Dias Correa, Alberto Deodato, Edgard Schneider, Godofredo Silva Teles e Lino de Moraes Leme. Em seu trabalho, que é uma decorrência de suas convicções políticas, o sr. Caio Prado Júnior aponta como principal diretriz para uma política econômica brasileira a estruturação dos mercados, a política dos mercados. Todavia, esclarece o autor que não foi seu objetivo traçar, na monografia, um programa para a política de mercados, apresentando apenas indicações esquemáticas e exemplos, mais ou menos coordenados, que pretendem unicamente oferecer alguns aspectos concretos daquela política. Para o sr. Caio Prado Jr. nas circunstâncias atuais da economia brasileira, qualquer modificação substancial da sua linha de evolução depende, principalmente, do deslocamento da base em que ela ainda assenta, e que é o mercado externo, para o mercado interno. Nessas condições, tratase de organizar esse mercado, pois falta-lhe ainda estrutura suficiente e substância; e de tê-lo constantemente em vista na planificação e orientação de qualquer política econômica. O objetivo que se deve ter em mira, sempre, é construir no Brasil uma nova estrutura econômica que em todas as suas partes se harmonize para a realização do fim a que realmente se deve destinar: produzir para a satisfação das necessidades dos indivíduos que dela participam e a fazem funcionar. Segundo o sr. Caio Prado Jr., a transformação do sistema de nossa economia não é e não pode ser fruto de um processo espontâneo e sim, há de se realizá-lo por meio de uma política expressamente orientada com conhecimento dos fins que se objetivam. Ela importa, assim, numa ação deliberada sobre os fatos da vida econômica e social e numa intervenção muitas vezes profunda, porque as circunstâncias em jogo são de vulto, no dinamismo daqueles fatos. Falando sobre as implicações 255 O Estado de S. Paulo, 14 jun. 1956, p. 11. 124 jurídicas disso, afirma o sr. Caio Prado Jr. que, fundamentalmente, não se trata de modificações substanciais de nossa estrutura jurídica, isto é, das relações de propriedades e, particularmente, da propriedade privada dos meios de produção, em que se funda o regime atualmente em vigor no Brasil. Mesmo porque, diz o sr. Caio Prado, a política econômica por ele preconizada o é dentro das relações capitalistas de produção. O sr. Caio Prado Júnior manifesta-se, em sua dissertação, contra as aplicações de capital estrangeiro no Brasil, a favor do monopólio estatal do comércio exterior, e de uma reforma agrária, com a modificação do estatuto da propriedade fundiária, cujo titular deverá ser aquele que efetivamente inverta na exploração da terra o seu trabalho e os seus recursos. No plano políticojurídico, a destruição do atual sistema colonial da economia brasileira requererá uma nova estruturação jurídico-legal das novas relações econômicas que se propõem no processo de transformação do sistema colonial. A destruição do sistema colonial, com a liberação das forças anticolonialistas já presentes no interior da atual estrutura econômica do País, não será obra para o sr. Caio Prado Júnior, das forças do socialismo, que apenas se esboçam entre nós, mas sim, ainda das próprias forças do capitalismo, configuradas, politicamente por um proletariado industrial em franco desenvolvimento, por um campesinato já esboçado e por uma burguesia industrial e comercial livre de compromissos para com o imperialismo e capital financeiro internacional, bem como de contingentes e da pressão desse capital. Na opinião do sr. Caio Prado Jr. por força das circunstâncias dominantes na economia brasileira, a ação das forças econômicas impulsionadas pelo livre jogo da iniciativa particular e condicionadas unicamente pelos estímulos do interesse individual imediato não são suficientes para superar as contingencias do sistema colonial e não se encaminharão para a reestruturação da economia brasileira na base de um capitalismo nacional. Diz, ainda nessa ordem de ideias, que a insuficiência e a inconveniência desse livre jogo da iniciativa particular deixada a si própria (e cuja expressão políticojurídica é o liberalismo) e se observa particularmente bem porque o processo de contradições do sistema colonial se precipitou no setor das relações financeiras internacionais, onde as restrições à liberdade de transações – intercâmbio comercial e troca de moeda – mostram que os fatos foram mais fortes que os preconceitos e oposições do liberalismo. Todavia, o sr. Caio Prado Júnior diz que isso não implica um intervencionismo do Estado que exclua a iniciativa privada e a ela se substitua. Julga o sr. Caio Prado Júnior que não é administrativamente nem politicamente que se realizará a reforma do atual sistema colonial da economia brasileira. Não há condições para isso, nem econômicas nem muito menos políticas. “Supor por exemplo – diz ele – que seja possível no Brasil e nas circunstâncias atuais um regime socialista com a entrega a órgãos estatais da responsabilidade pela 125 direção e manejamento total das forças produtivas do País, é se não fantasia de visionário, certamente maneira disfarçada de entravar as reformas que desde já se impõem e que não precisam aguardar um socialismo ainda irrealizável.” Os trabalhos de hoje Prosseguirão hoje, os trabalhos do concurso, às 14 foras, com a arguição do bacharel Gláucio Pinto Veiga256, que apresentou monografia intitulada “Revolução keyneseana e marxismo”. 256 O jornal se refere, na verdade, a José Gláucio Veiga. 126 Anexo 7 Prefácio à 1ª edição 257 Stálin, decidindo sobre os projetos do manual oficial de economia soviética, que lhe foram apresentados, definiu, em documento datado de 21 de abril de 1952, como sendo característico fundamental da sociedade socialista a “garantia da máxima satisfação das necessidades materiais e culturais, sempre crescentes, de toda a sociedade, por meio do ininterrupto aumento e aperfeiçoamento da produção, segundo uma técnica superior.” Ora, se assim fosse, não existiria diferença entre a economia soviética e a liberal, porque esta também visa à maior e melhor satisfação dos desejos humanos, materiais e culturais, pelo aperfeiçoamento continuado da técnica produtiva. Seriam ambas idênticas, como economias do bemestar. A distinção fundamental entre uma economia e outra está no fato de o liberalismo considerar atingível aquele objetivo pela iniciativa privada, por conseguinte, de forma natural, pelo livre jogo dos interesses pessoais que, por fim, coincidem com o coletivo. Por isso, ao Estado cabe somente presidir a esse processo produtivo individualista, para que o interesse pessoal não degenere em egoísmo, a liberdade, em licença ou luta destruidora de energias produtivas. E maior intervenção estatal somente se justifica quando é omissa. Insuficiente ou inadequada a iniciativa privada. No socialismo, isto é, na economia soviética, não se deposita confiança na atividade do indivíduo, porque ele é tido como psicologicamente corrompido pelo capitalismo. O homem que aí está, dizem, deixado na sua liberdade de iniciativa, não realiza o bem comum, ao contrário, sacrifica tudo ao seu interesse pessoal. Segue-se então, a consequência política – é necessário que os privilegiados senhores do ideal comunista, preliminarmente, se apoderem de tudo e de todos, a fim de condicionarem o meio social para a parturição do homem novo, a quem, então, poderá ser restituída a liberdade integral e anárquica, característica da uma sociedade sem Estado ou comunitária. Assim, também, a economia obedece ao plano construtivo geral, enquadrada em ordens sucessivas deste Poder revolucionário, porque criador de uma ordem totalmente nova, até pela psicologia individual dos elementos humanos que a formarão. Enfim, a distinção fundamental entre socialismo-soviético e capitalismo está no problema da liberdade. O liberalismo respeita e exalta a pessoa humana pelos atributos que caracterizam a sua dignidade. Desse modo, põe confiança na sua liberdade de ação. O sovietismo, ao contrário, descrê da dignidade do homem atual e pensa fazê-lo de novo, ao modelo psicológico do seu Estado-Pedagogo. 257 O Estado de S. Paulo, 14 jun. 1956, p. 11. 127 Daí o fato de a concepção democrática, de aplicação imediata, caracterizar o liberalismo na ordem política; daí, também, a ditadura, o governo totalitário, o autoritarismo, em uma palavra – o Estado-Providência ser a realidade nos países sob o signo da foice e do martelo. No liberalismo político todos são iguais, imediatamente iguais. No regime soviético a elite governante ainda educa e prepara o povo para a igualdade, porque somente o homem novo, feito à imagem dos homens do Poder, possuirá as condições psicológicas para gozar da liberdade e igualdade generalizadas; a democracia será a forma futura da convivência social, mas, por enquanto, é regime impróprio para essa humanidade feita de homens corruptos. São duas filosofias de vida, contraditórias pelos próprios princípios. A nossa tese econômica se enquadra na filosofia de vida liberal. Somente em um mundo livre é a empresa instrumento eficiente da produção. A liberdade política condiciona a liberdade econômica. O liberalismo econômico é a democracia na ordem econômica. E a Produção sob o regime da Empresa constitui a forma avançada do liberalismo econômico, condicionado pelas liberdades públicas. Trata-se, pois, de tese liberal. Liberal em economia e política, porque a liberdade é uma só. E nós somos convictamente liberais. Nas páginas seguintes, daremos, também, as razões dessa convicção. Não faz muito tempo, há pouco mais de vinte anos, ninguém ousaria, sem ápodos generalizados, confessar a sua crença nas excelências da liberdade. Mas a experiência sofrida pelos povos escravizados pelos Estados totalitários fez renascer, na doutrina e no coração dos homens, a confiança nas instituições livres e o seu amor por elas. E na economia, igualmente, já começam todos a confiar na liberdade como condição da maior e melhor produção. A liberdade, assegurada a todos por igual, dignifica e disciplina; também é fecunda na criação de riquezas. O ultra-antigo é, bem assim, o ultramoderno. Voltou à moda o credo liberal. Assiste-se já, no mundo democrático, à “aurora de um novo liberalismo” econômico. Lorena, no Estado de S. Paulo, em 1º de julho de 1953 J. Pinto Antunes 128 129 IMAGENS Figura 1: Sala Caio Prado, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, batizada com o nome do autor em 1º de março de 1984. 130 Figura 2: Vitral central da escadaria da Faculdade de Direito da USP (térreo), de Conrado Sorgenicht, representando o antigo convento franciscano, demolido para a construção do novo prédio da Faculdade. 131 Figura 3: Vitral central da escadaria da Faculdade de Direito da USP (1º andar), de Conrado Sorgenicht, representando a missa que é considerada o marco de fundação de São Paulo, criado a partir de pintura de Oscar Pereira da Silva, pertencente ao Acervo do Museu Paulista/USP. 132 Figura 4: Vitral lateral esquerdo da escadaria da Faculdade de Direito da USP (1º andar), de Conrado Sorgenicht, representando o Pátio do Colégio. 133 Figura 5: Vitral lateral direito da escadaria da Faculdade de Direito da USP (1º andar), de Conrado Sorgenicht, representando a Partida das Monções, criado a partir de pintura de José Ferraz de Almeida Júnior, pertencente ao acervo do Museu Paulista/USP. 134 Figura 6: Vitral central da escadaria da Faculdade de Direito da USP (2º andar), de Conrado Sorgenicht, representando o grito da Independência, criado a partir de pintura de Pedro Américo, pertencente ao acervo do Museu Paulista/USP. 135 Figura 7: Monumento aos acadêmicos de direito mortos em 1932, de Adriana Janacópolus. No bloco de mármore que serve de suporte a um busto de voluntário, lê-se os seguintes versos de Tobias Barreto: “Quando se sente bater / No peito heroica pancada, / Deixa-se a folha dobrada / Enquanto se vae morrer.” Em seu verso, estão gravados os nomes dos estudantes que tombaram: José Maria de Azevedo, Cezar Penna Ramos, José Preisz, Argemiro Alves Sylvestre, Ary Carneiro Fernandes, Nelio Baptista Guimarães e Hermes de Oliveira Cezar. 136 Figura 8: Placa afixada em um das paredes do saguão de entrada, oferecida pelo Instituto Argentino-luso-brasileño de Cultura de Santa Fé, em homenagem à Faculdade de Direito de São Paulo. 137 Figura 9: Placa alusiva ao movimento de 1932, gravada com poema de Ibrahim Nobre, afixada em uma das pilastras do pátio das arcadas e inaugurada nas festividades de 9 de julho de 1957. 138 Figura 10: Placa afixada em uma das paredes do pátio das Arcadas, em homenagem à José Pinto Antunes. 139 Figura 11: Retrato de José Pinto Antunes, na parede do Museu da Faculdade de Direito.