Do colégio santo antônio à Universidade Federal de São João DelRei: caminhos e descaminhos de sua trajetória (1909-2002)
Alessandra dos Santos Vale1
Gisele Francisca da Silva1
Jordana Regina da Silva Benevides1
Wilma Aparecida de Lima Eleuterio1
Maria Aparecida Arruda2
Resumo
A história da Universidade Federal de São João del-Rei nos remete ao início do
século XX com a fundação do Colégio Santo Antônio pela Ordem dos Frades
Franciscanos Menores. Com a transferência do Colégio Santo Antônio para Belo
Horizonte, sua sede é transferida para a Fundação Municipal de Ensino
Superior em São João del-Rei, que, juntamente com a Faculdade Dom Bosco de
Ciências, Letras e Filosofia, fundada pelos Padres Salesianos em 1940, viria a
constituir-se, mais tarde, na Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei –
FUNREI e, posteriormente, UFSJ. Temos por objetivo analisar dentro de uma
perspectiva historiográfica educacional a constituição dessa instituição, desde a
fundação do Colégio Santo Antônio.
Palavras – Chave: História – Trajetória – Educação
Abstract
The history of the São João del-Rei Federal University sends us to the beginning
of the century XX with the foundation of the Colégio Santo Antônio for the
Order of the Smaller Franciscan Friars. With the transfer of the Colégio Santo
Antônio for Belo Horizonte, your thirst is transferred for the Municipal
Foundation of higher education in São João del-Rei, that, together with
University Dom Bosco of Sciences, Letters and Philosophy, founded by Priests
Salesianos in 1940, it would come to constitute her, later, in the Foundation of
São João del-Rei higher education–FUNREI and, later, UFSJ. We have for
objective to analyze inside of a perspective educational historiográfica the
constitution of that institution, from the foundation of the Colégio Santo
Antônio.
Key words: History–Path–Education
Acadêmicas do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de São João del-Rei, emails:
[email protected]; [email protected];
[email protected]
2
Professora do Departamento das Ciências da Educação da Universidade Federal de São João
del-Rei, Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, email: [email protected]
1
2
Introdução
O presente trabalho tem por objetivo analisar a trajetória da
Universidade Federal de São João del-Rei desde a criação do Ginásio Santo
Antônio, instituição escolar, fundada por frades de origem holandesa da Ordem
dos Franciscanos Menores que atendeu no período de 1909 a 1972, alunos da
cidade de São João del-Rei e de todo o país com formação voltada para o
primário, secundário e “ginasial”, até a consolidação da Universidade Federal
de São João del-Rei, em 2002. A reconstrução da história social, política,
econômica, religiosa e cultural de instituições educacionais se apresenta como
uma forma coerente de se articular aspectos influentes na educação com seu
contexto histórico.
Partindo do conceito de organização formativa, ou seja, de que cada
sociedade possui uma organização informal (inserção de jovens nos costumes e
tradições da sociedade adulta), ou formal (na instrução intelectual e
profissional), concebe-se que “o processo educacional é sempre social na medida em
que está ligado ao desenvolvimento produtivo, social e político de determinada formação
histórica...” (NORONHA, 1998, p. 29.)
Nesse sentido, o surgimento de instituições de ensino se destacam por
sua relevância e organização – diferenciada e hierarquizada – a fim de manter
os grupos que detêm o poder de decisão em determinadas sociedades.
Denotam que a estrutura social dos mesmos tendem a ser mais diferenciados
por fatores relacionados à organização social, econômica, técnica e política,
formando nos âmbitos político-religioso e técnico profissional um quadro de
intelectuais encarregados de dirigir a sociedade.
A Universidade Federal de São João del-Rei tem presente em sua história
a influência de duas instituições de ensino, o Colégio Santo Antônio e o Colégio
São João.
Fundadores do Colégio São João, os padres da Ordem Salesiana não
limitaram sua prática educativa apenas ao ginasial e ao secundário. Com a
finalidade de formar professores habilitados para atuar no ensino secundário, a
ordem cria, em 1948, o Instituto de Filosofia e Pedagogia, primeira instituição
de ensino superior de São João del-Rei. Para a presente análise estabeleceu-se
alguns marcos considerados mais significativos aos intentos deste trabalho. O
primeiro, datado em 1909, foi o de fundação do Colégio Santo Antônio pelos
frades holandeses da Ordem Franciscana. Segue-se a este a criação do Colégio
São João, pelos Padres Salesianos, em 1940 e a criação do Instituto de Filosofia e
Pedagogia, em 1948. O Colégio São João funcionou, como colégio de aplicação,
paralelo ao Instituto de Filosofia e Pedagogia, cuja finalidade era a formação
docente para atender aos colégios da região.
3
Do Instituto de Filosofia e Pedagogia, a instituição transforma-se em
Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, com aula inaugural em
09 de março de 1954.
Outro acontecimento importante, ocorrera em 1972, quando o Colégio
Santo Antônio foi transferido para Belo Horizonte, sendo suas dependências
transferida para a Fundação Municipal de Ensino Superior de São João del-Rei,
vindo a constituir-se, em 1987, da Fundação de Ensino Superior de São João delRei – FUNREI. Em 2002 a Fundação é federalizada, transformando-se em
Universidade Federal de São João del-Rei.
Para a reconstrução dessa trajetória foi realizado levantamento
bibliográfico sobre o assunto, análise de fontes documentais, artigos e
periódicos de ex-alunos do Colégio Santo Antônio, documentos disponíveis no
Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa, localizado na cidade de
Barbacena (livros e crônicas), atas e fotografias sobre o Colégio São João. Foram
analisadas também, atas do arquivo da UFSJ, registros iconográficos relativos
aos dois colégios, bem como jornais e periódicos de época como o Correio, A
Tribuna, O Porvir, pertencentes ao acervo da Biblioteca Municipal Baptista
Caetano d`Almeida.
Este trabalho constitui-se como a primeira parte de uma ampla pesquisa.
Nela, estamos descrevendo detalhadamente a origem e trajetória do colégio
Santo Antônio, a fim de posteriormente analisarmos os marcos de sua história
que foram decisivos na institucionalização da Fundação de Ensino Superior de
São João del-Rei - Funrei, posteriormente Universidade Federal de São João delRei - UFSJ.
O desenvolvimento desta pesquisa, que encontra-se em andamento,
revela-se complexo e bastante fecundo, tendo em vista o entendimento de
alguns fenômenos que, em seus caminhos e descaminhos, colaboraram para a
existência da UFSJ.
Contexto de fundação e consolidação do Colégio Santo Antônio
No ano de criação do colégio Santo Antônio, funcionando ainda como
externato, em São João del-Rei (1909) o Brasil vivenciava a República Velha ou
República das Oligarquias (1889-1930).
A sociedade brasileira no período da República Velha viu-se comandada
pela burguesia cafeeira que durante 36 anos alternou-se no poder entre
mineiros e paulistas, tornando-se então conhecida como Política do Café com
Leite (em alusão às principais produções dos dois estados).
4
Durante o século XIX e estendendo-se por boa parte do século XX,
expandiu-se a industrialização do país. O Sudeste apresentava-se como uma
região privilegiada para a expansão da indústria e, além disso, nele
concentrava-se boa parte da população do Brasil.
Com a decadência da República Velha culminada com a “revolução” de
1930 (que foi um momento de contestação à hegemonia cafeeira) o Brasil
vivenciou a chamada “Era Vargas”.
A economia mineira, até início dos anos 60 foi predominantemente rural.
Com o crescimento econômico e a expansão da indústria, a atividade pecuária,
e a atividade industrial constituíram a base econômica do estado.
São João del-Rei apresentava grande prestígio social, econômico, político
e cultural. Mesmo com a decadência da mineração que no final do século XVII,
a cidade encontrou no comércio e em outras atividades a sua base econômica.
Graças ao desenvolvimento econômico da cidade, São João del-Rei
tornou-se no século XIX um pólo econômico regional. Destaca-se neste período
a fundação, em 1860, da primeira Casa Bancária Mineira, além da inauguração
da Estrada de Ferro Oeste de Minas, em 1881, ano que por duas vezes fez-se
presente na cidade o Imperador Dom Pedro II.
O século XX marca o auge da economia são-joanense. A cidade contava
com um montante de indústrias variadas que alavancavam a economia da
região. De acordo com BRAZIL, sobre as indústrias na cidade de São João delRei:
“...dentro das indústrias exploradas na cidade encontram-se: 2 fábricas de
tecidos com 9540 fusos – 252 teares e 600 operários ; 2 outras montandose com magnífico aparelhamento, denominados: ‘tecelagem S. João Bôsco’
e ‘ Fração Tecelagem Mattozinhos’; 3 fábricas de meias; 5 fábricas de
móveis; 3 fábricas de maças alimentícias; 3 fábricas de balas e caramelos;
2 fábricas de bebidas; 5 fábricas de artefactos de folhas de flandres; 5
fábricas de preparados para torlette; 2 fábricas de malas e arreios de sola;
2 fábricas de artefactos de ferro. Fábricas ainda: de banho; calçados;
sabão; biscoitos, ladrilhos, gelo; colchões; manteiga”(1936, p. 229).
Confirmando a hegemonia comercial e cultural da cidade houve a
inauguração de quatro grandes estabelecimentos de ensino, de alunos internos
e externos que marcaram o século XX. Foram eles: a Escola Normal Nossa
Senhora das Dores, o Ginásio Santo Antônio, o Instituto Padre Machado e o
Colégio São João.
Assim, a caracterização básica dos alunos do colégio Santo Antônio
desde a sua fundação, tendo em vista que o colégio era particular, compunhase, basicamente, por alunos pertencentes à elite agrária, em geral, filhos de
5
fazendeiros e também por filhos de profissionais liberais, que viam na formação
dada pelo colégio a chance de seus filhos ocuparem, futuramente, funções de
maior poder dentro da hierarquia social.
A instrução em São João Del-Rei
A instrução em São João del-Rei até a vinda dos frades franciscanos para
a cidade, ficava a cargo de um pequeno grupo escolar fundado pelas
professoras D. Augusta Eliza da Costa Moreira e D. Maria Porsina da Costa
Moreira. Alguns autores como Tirado e Viegas afirmam que um dos aspectos
que contribuíram para a vinda dos freis holandeses para São João del-Rei foi o
“refinamento cultural” da população são-joanense:
Certamente os freis, cuja irmandade sempre foi ligada à educação, logo
perceberam que São João del-Rei possuía todas as qualidades para a
criação de uma escola: uma forte tradição religiosa, a tranqüilidade de
uma cidade do interior e o refinamento cultural da população, propiciado
pela época do ouro nas Minas Gerais. (Tirado, 1998, p.5)
Identificamos como tendência nesses relatos históricos a atribuição de
demasiada ênfase em poucos sujeitos, apenas os que possuíam prestígio seja
político, econômico ou social, caráter tipo do paradigma positivista, que é
insuficiente para a análise histórica pretendida. No entanto, nos apoiamos
nessas referências em busca das informações das quais precisamos, porém,
adotando uma postura diferente, tomando a história como uma produção
coletiva, dos homens em seu tempo.
Segundo VIEGAS (1954, p. 49): “desde tempos afastados de sua existência,
teve esta cidade, em todas as suas etapas, bonançosa estrela a guiá-la na esfera da
educação”. No fim do século XVIII a vila de São João del-Rei alocava a primeira
escola secundária da capitania. Em 1827 foi discutido no parlamento que a sede
de uma das universidades a serem construídas fosse em São João del-Rei, com
preferência sobre São Paulo.
Na década de 1830 foi ministrado aqui um curso de belas artes. “Aliás, o
ensino de filosofia, de moral e de retórica começou nessa ocasião a ministrar-se na vila
(..)” (Viegas, 1954, p. 50). Outras instituições foram enumeradas por este autor
como uma escola de farmácia, o colégio Duval, o “Externato” (continuação da
antiga aula régia em latim); o colégio São José (seguiu-se ao colégio Duval); o
colégio da Conceição. Estes estabelecimentos tinham como objetivo “preparar a
mocidade para os cursos superiores”. Em 1881 foi criado o colégio João dos
Santos. O governo provincial em 1883 criou a Escola Normal para moças. E na
6
última década deste século foi instituído o colégio Maciel e o colégio de São
Francisco, além do colégio Travanca e o colégio Nossa Senhora das Dores.
Já no século XX, em 1909, foi criado o instituto São Geraldo. Neste
mesmo ano foi fundado o Ginásio Santo Antônio. Ainda de acordo com Viegas,
“algumas centenas de moços preparados neste estabelecimento nobilitam as
diferentes carreiras liberais a que se dedicaram e maior número, em várias
outras esferas de trabalho, também dignificam suas profissões” (p.54).
Desde a sua elevação a vila, São João del-Rei passou por uma trajetória
no que concerne à instrução, marcada pelo estabelecimento de várias escolas,
que segundo os autores da época, fizeram com que a população de São João
del-Rei fosse intelectualmente privilegiada, fator que teria contribuído para a
escolha desta cidade para receber os freis holandeses e acolher o Colégio Santo
Antônio. Reafirmando tal caráter, BRAZIL afirma:
A instrução em São João del-Rei, que tem uma população de 25000
habitantes, pouco mais ou menos é, pode-se affirmar, uma das mais bem
diffundidas no Estado. Até hoje, julho de 1936, como estatística que
temos, em mãos, contava o município 10 estabelecimentos de ensino, com
183 professores, accusando 7350 alunos de matrícula com uma
freqüência média de 6600 estudantes. (1936, p. 229)
Inserido neste contexto sócio político nacional que o Colégio Santo
Antônio foi de externato em 1909, passando a internato em 1914 e a um dos
melhores e maiores educandários do Brasil, já gozando de suas amplas
instalações, em 1930.
A chegada dos frades franciscanos em São João Del-Rei e a fundação do
colégio
Os primeiros passos para a edificação do colégio (posteriormente
elevado a Ginásio Santo Antônio) foi dado quando aportaram no Brasil, com
destino a Ouro Preto, os primeiros frades de origem holandesa, em 1899. A
vinda desses frades para São João del-Rei foi empreendida pelo Monsenhor
Gustavo Ernesto Coelho, então vigário da cidade, e posteriormente professor do
colégio, com o intuito de fortalecer a assistência espiritual prestada aos fiéis da
cidade.
O primeiro frade a chegar em São João del-Rei foi o Frei Patrício Meijer
(1867-1925), seguido, meses depois, de seu conterrâneo, mais tarde fundador do
Albergue Santo Antônio, Pe. Frei Cândido Vroomans. Embora São João del-Rei
7
já contasse com escolas de orientação católica, como o Liceu São Gerardo,
dirigido pelo professor Antônio Augusto Ribeiro Campos e o Colégio Nossa
Senhora das Dores, dirigido por freiras, os frades fundaram o colégio a fim de
cuidar da educação dos jovens, preservando os doutrinários católicos. Os
próprios padres relataram estes acontecimentos:
Cousa mui simples, pois, e de todo conforme ao instituto que abraçaram,
era pensarem os padres Franciscanos, que em 1904 se estabeleceram em
S. João del Rey em fundarem um colégio no qual ensinassem à juventude,
que, entregue a professores indifferentes em matéria religiosa ou
francamente hostis à Egreja catholica, facilmente perde a fé, e, não raras
vezes, se torna zombadora de doutrinas e usos catholicos. Preservar deste
perigo a mocidade foi o fim que se propuseram os fundadores
(Franciscanos, 1926, p. 5).
Em 1905, no casarão da Rua da Prata de número 34, com quatro hectares
de terreno anexo, onde funcionara por muitos anos o colégio da professoras D.
Augusta Eliza da Costa Moreira e D. Maria Porsina da Costa Moreira, teve
início a história do Ginásio Santo Antônio. Com a chegada de outros freis da
Holanda, em 1909 é fundado o Grupo Escolar Católico.
Casarão da Rua da Prata.
Primeiro
prédio
onde
funcionou o Colégio Santo
Antônio, em 1914.
Era um belo e amplo casarão colonial(...). Ali nasceu no ano de 1912 o
ginásio e depois o Colégio Santo Antônio. Assim, a cidade contava agora
com dois educandários dirigidos por religiosos: o colégio Nossa Senhora
das Dores, para moças, fundado em 1898 e dirigido pelas filhas de São
Vicente de Paula, e, o aqui referido Ginásio Santo Antônio, para moços,
dirigidos pelos padres franciscanos. (Tirado, 1987, p.3)
8
No ano de 1914 com o prestígio alcançado em toda a região e com a
chegada de pedidos para matrículas vindas de todo o país, foi inaugurado o
internato.
Era de prever que, em futuro não muito remoto, se havia de realizar esta
aspiração. Resolveu, pois, ao fim de alguns annos, a directoria abrir o
internato. Empreza de muita monta, para quem de tão poucos meios
dispunha. Era insufficiente o edifício, corriam as ferias, escasseava o
tempo; mas nem o zelo conhece o impossível, nem as difficuldades
intimidam ânimos resolutos (Franciscanos, 1926, p. 7).
Diante do rápido crescimento do colégio e do decorrente aumento de
sacerdotes docentes e da contratação de professores seculares1, fez-se
necessário, com a aprovação do Ver. Padre Comissário Provincial Pe. Frei Júlio
Berten, a construção de um novo prédio que serviria de dormitório e de
refeitório “que sattisfizesse às exigências, e fosse o primeiro pavilhão de um novo
collegio a se edificar quando as circunstancias o permitissem.” Os freis descrevem,
com riqueza de detalhes em um livro escrito em 1926, em decorrência do
aniversário do colégio, suas novas dependências:
É um vasto edificio de dois andares, medindo 33 metros de comprimento,
18 de largura e 17 a altura. O primeiro andar é divido em dous salões,
servindo um de sala de jantar, o outro de dormitório dos menores; o
segundo andar todos é um único salão, tendo as dimensões acima
indicada; é o dormitório dos maiores (Franciscanos, 1926, p. 7).
Antes do ano de 1922 o então diretor do colégio Pe. Frei Estevão
Lucassen adquiriu uma nova casa ao lado do velho prédio, que anteriormente
funcionou por vários anos o Hospício Jerusalém, dirigida pelos padres
franciscanos da Terra Santa, para abrigar o curso preliminar.
Em 1924, com o incessante crescimento do colégio, teve início, com
recursos vindos da Holanda, a construção de um novo pavilhão, com planta do
arquiteto Dr. Luiz Moraes, e construído pelo também arquiteto e construtor do
9
primeiro pavilhão Luiz Bacarini, sendo inaugurada em 1930. Após a conclusão
do novo pavilhão, o primeiro casarão que servira de sede para o colégio foi
demolido.
A estrutura física do colégio constava de amplas salas de aula,
laboratórios, capelas, biblioteca, sala de lazer, gabinete dentário, farmácia,
barbearia, refeitório, dormitórios, salão nobre, quadra de esportes, campo de
futebol, além de um cinema que funcionava no teatro do ginásio.
Novas instalações do Colégio inauguradas em 1930
Vista aérea do Colégio Santo Antônio em 1931
Sendo como é, a leitura dos bons autores, poderoso adminuculo para a formação
do espírito dos jovens, desde o começo do internato formou-se uma bilbiotheca para o uso
dos alumnos, que atualmente conta perto dos mil volumes (Franciscanos, 1926, p. 13).
Como o ginásio era de rapazes, foi feito, em 1915, um convênio com o
Governo Federal criando uma Linha de Tiro, que conferia caderneta reservista
aos estudantes através de um curso de instrução militar.
É o amor à Pátria um sentimento innato ao homem. Cultivado, faz
prodígios, e inspira os grandes feitos heróicos das nações... Não pode,
pois, ser completada a educação que nos moços não desenvolva esse
sentimento, e não os habilite para o cumprimento d’esse dever
(Franciscanos, 1926, p. 14).
10
Através dos escritos acima se pode observar o culto ao amor à Pátria nas
práticas educativas existentes no Colégio Santo Antônio, caráter típico da
educação da época, na qual, um dos objetivos no que se refere, por exemplo, ao
ensino de História, era a “construção de uma identidade nacional, o estímulo
aos sentimentos patrióticos e a exaltação da história da nação2”. Reafirmando
tal aspecto está o fato de os alunos do colégio também cursarem as aulas de
Tiro, e de acordo com o que foi mencionado anteriormente, São João del-Rei
possuía uma Força Federal tradicional e com participações nos cenários
nacional e internacional.
Alunos se preparando para o desfile de 7 de setembro de 1945.
Methodo e programa: o ensino no Colégio Santo Antônio
Os métodos e programas de ensino atinham-se não somente na educação
moral, cívica e religiosa, mas também na preparação do aluno para ocupar
“altos cargos e postos da nação” (Tirado, 1987).
O ideal de um collegio não pode ser absolutamente fazer com que o maior
número possível de alumnos, todos os annos, passem nos exames; deve
ser educar os moços para homens fortes, preparando-os para as luctas da
vida, administrando-lhes, principalmente, um grande amor aos estudos
sérios (Franciscanos, 1926, p. 12).
11
Com um corpo docente formado por professores sacerdotes e professores
leigos, chamados lentes seculares, segundo TIRADO, o ensino no Colégio Santo
Antônio se fundamentava nos “princípios da moderna Pedagogia”. A partir de
1916 o colégio Santo Antônio passa a seguir o programa de ensino do Colégio
Pedro II3, da então capital Federal, contando assim, com bancas de avaliação
advindas do referido colégio. Mais tarde, o ginásio passa a constituir suas
próprias bancas, sob a inspeção do Ministério da Educação.
Nota-se a partir das citações feitas pelos freis que o ensino idealizado por
eles priorizava a formação profissional dos alunos
O resultado satisfactorio dos exames finaes, e dos vestibulares nas escolas
superiores do paiz, tem mostrado o acerto desse modo de agir. Assim, nas
Escolas de Medicina, de Direito e Polytechnica de Belo Horizonte,
e na Escola de Minas de Ouro Preto os ex-alumnos manteen o bom nome
do Gymnasio Santo Antonio pelas classificações honrosas obtidas nos
exames vestibulares (Franciscanos, 1926, p. 15).
Corpo docente do Colégio Santo Antônio em 1952, composto por frades franciscanos,
professores seculares, militares e normalistas.
12
O programa seguido pelo colégio se dividia em três cursos: O primário,
constando de 03 anos de estudos, registrado na Secretaria do Interior do estado
de Minas Gerais; O complementar com 01 ano de estudos e o gymnasial,
constando de 06 anos de estudos, sendo que o 6º ano era facultativo. Tal
programa seguia as propostas impostas pelo governo para a educação na época.
Observa-se também, por se tratar de um colégio religioso, o rigor exigido pelos
Padres professores para com a disciplina, os horários e a dedicação aos estudos.
Todas as atitudes do aluno eram informadas aos pais através dos boletins
escolares.
As aulas de educação física eram obrigatórias a todas as turmas do
colégio. Denominadas pelos freis como gymnastica, serviam para além de
fortalecer o físico e para a Educação Moral contribuir no sentido de oferecer aos
alunos uma certa confiança em si mesmos, fazendo com que perdessem o medo
do espaço e de “perigos imaginários”.
A religião era uma constante na educação dos jovens alunos do ginásio
sendo que havia um sacerdote que não lecionava no colégio prestando
atendimento espiritual aos mesmos.
Como a religião é o fundamento da moral e da educação desde o princípio
a directoria do Gymnasio se esforçou por dar aos alumnos uma sólida
instrucção e educação religiosas... Todos os dias os alumnos assistem ao
Santo sacrifício da Missa na Capela do Gymnasio; de noite, acabam
estudo, de novo se reúnem na capella para as orações da noite (Padres
Franciscanos, 1926, p. 19).
A educação religiosa no ginásio não se restringia às aulas de religião, ou
às palestras ministradas, retiros e orações. Dentro da instituição passou a
funcionar desde 1924 o Collegio Seraphico, destinado à educação de futuros
Frades Franciscanos, dirigido pelos mesmos frades que lecionavam no ginásio.
O referido colégio, após um ano de funcionamento, foi transferido para
Divinópolis, constando de um prédio, previamente construído para esse fim.
Cumpre salientar que faziam parte do currículo do ginásio disciplinas
como música, sendo fundada pelos alunos e professores a banda de música
“Lyra São Francisco” chamada pelos alunos de “A Furiosa” que segundo
13
registros da época apresentava excelente nível musical. Além da música, era
lecionada ainda, aulas de artes cênicas, quando, em ocasiões especiais eram
apresentadas peças teatrais.
Ufsj: desdobramentos para a sua institucionalização
Na segunda metade da década de sessenta do século XX, os novos
padres que chegaram à província de Santa Cruz (à qual pertence a Comunidade
Franciscana de São João del-Rei) externavam a vontade de extinguir o internato,
uma vez que se dedicavam à ação pastoral, contrariando os frades mais antigos.
Mas um acontecimento imprevisível acabaria com o Colégio Santo
Antônio de forma trágica: o tradicional colégio foi incendiado devido a um
curto circuito na alfaiataria acarretando o fim do Ginásio. As conseqüências
foram desastrosas, os estragos foram graves. No ano seguinte funcionaria
Banda de música “Lyra São Francisco” chamada pelos alunos de “A Furiosa”
apenas o externato. A ordem Franciscana alegava não ter mais recursos para a
reconstrução do prédio e para o funcionamento do internato. Além disso, a
manutenção do ginásio estava cada vez mais difícil e era mais escasso o número
de jovens frades que quisessem lecionar. Devido a isso, o Pe. Frei Erardo Veen,
decidiu doar o prédio ao Estado de Minas Gerais.
A fundação Municipal, voltada para o ensino superior reivindicou a
posse do prédio às autoridades, obtendo êxito, com a proposta de que a Escola
Estadual Cônego Osvaldo Lustosa funcionasse em suas dependências por 02
anos e absorvesse as turmas do Ginásio Santo Antônio do último ano, ou seja,
em 1972. A turma do 3º ano científico ficaria ainda sob a responsabilidade do
Colégio Santo Antônio.
Em 1972 o colégio Santo Antônio termina sua trajetória. Mas os freis
Jordano, Metelo e Seráfico continuaram exercendo o magistério na Escola
Estadual Cônego Osvaldo Lustosa que em 1975 retornou ao prédio situado no
bairro Guarda Mor.
Passado algum tempo os frades decidiram construir na parte da frente
do antigo ginásio um novo convento – hoje Matriz de Nossa Senhora de
Lourdes e residência dos Freis – que ocupa o lugar onde outrora se situava o
primeiro prédio que abrigou o Colégio Santo Antônio.
A Fundação Municipal resolveu conservar a imagem de Santo Antônio,
que resistira ao incêndio, na fachada principal, denominando assim o prédio de
Edifício Santo Antônio. Em 1972 a Fundação Municipal cria, no prédio que
14
havia pertencido ao Colégio Santo Antônio, a FACEAC – Faculdade de Ciências
Econômicas, Administrativas e Contábeis de São João del-Rei e a FAEIN –
Faculdade das Engenharias de Operação, tendo como instituição mantenedora
a Prefeitura Municipal de São João del-Rei.
Posteriormente, no ano de 1986, a junção dos cursos existentes na
Faculdade Dom Bosco, dos Padres Salesianos com a FAEIN e a FACEAC
designaram a federalização da instituição, que passou a ser denominada
FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del-Rei, instituída pela Lei
Federal nº. 7555/86.
Com a ampliação da FUNREI e incorporação de novos cursos, no ano de
2002, vê-se, finalmente, a consolidação da Universidade Federal de São João
del-Rei.
Considerações finais
Podemos perceber, através do exposto, que a história da educação de São
João del-Rei está fortemente marcada pela cultura, tradição e religiosidade
incutidas pelos Frades professores, que pregando na sua base de formação os
princípios éticos, morais, educacionais e sociais, constituíram um forte alicerce
que sustentou a criação da Universidade Federal de São João del-Rei.
Nota-se ainda que a presença salesiana em São João del-Rei, a exemplo
dos frades franciscanos que fundaram o colégio Santo Antônio, e
posteriormente ampliaram as expectativas educacionais da cidade criando a
Faculdade Dom Bosco de Ciências, Letras e Filosofia, foram imprescindíveis à
educação são-joanense. Tal história, ainda em processo de análise documental e
reconstrução, fará parte da segunda etapa deste trabalho.
A UFSJ possui atualmente 19 cursos de graduação, dois de pósgraduação stricto sensu e no momento 2 especializações, tendo mantido os
cursos pertencentes às instituições que lhe originaram. Recentemente, em
regime de comodato foi incorporado à UFSJ, o terceiro campus: Tancredo Neves
– CTAN, além de um Centro Cultural.
Referências bibliográficas
ARRUDA, Maria Aparecida. Origem da Universidade Federal de Viçosa:
Modernidade, Agricultura de exportação e importação de modelos (1922-1970).
15
BRAZIL, Raymundo Pereira. Minas Geraes na grandeza do Brasil. Belo Horizonte:
Gráphica Queiroz Breyner Ltda, 1936, 675 p.
BUARQUE, Cristovam. A Aventura da Universidade. São Paulo: Editora da
Universidade Estadual Paulista; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.
CUNHA, Luiz Antônio. Qual Universidade. São Paulo: Cortez: Autores
Associados, 1989, 87p.(Coleção Polêmicas do Nosso Tempo, vol.31).
CUNHA, Luiz Antônio. A Universidade Crítica: o ensino superior na república
populista. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1983, (Coleção Educação em
questão).
FRANCISCANOS, Padres. O Gymnasio Santo Antônio dos Padres Franciscanos em
S. João d’El-Rey. Notas Históricas. 1 de fevereiro de 1914 – 1 de agosto de 1926.
Typ. Commercial – S. João d’El-Rey, 1926.
NORONHA, Olinda Maria. História da universidade. In Revista da Apropucc.
Ano 1 nº. 1 vol. Out./1998, p. 29-33.
ORSO, Paulino José. O surgimento tardio da Universidade Brasileira. Disponível no
site http://www.bibli.fae.unicamp.br/etd/art01. Acesso em 24 de novembro
de 2004.
PAIVA, Vanilda. Um século de Educação Republicana. In: Revista Pro-Posições,
vol. 12, julho/1990.
SOARES, Maria Susana Arrosa. (Cord). A educação Superior no Brasil. Brasília:
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior 2002.
TIRADO, Abgar Campos. Colégio Santo Antônio: a história do ouro. Jornal dos
Estudantes, nº 13 e 14, ano 1. São João del-Rei. Maio/1987.
VIEGAS, Augusto. Notícia de São João del-Rei. Belo Horizonte: Imprensa Oficial
de Minas Gerais, 2ª ed. 1953, 232 p.
VIEIRA, Evaldo A. O Republicanismo e a Educação. In: Revista Pro-Posições, vol.
12, julho/1990.
O ensino secundário na primeira república do Brasil. Disponível no site:
http://www.accio.com.br/Nazare/1946/sum-his.htm. Acesso em 24 de
novembro de 2004.
II Encontro dos ex-alunos do ginásio Santo Antônio e comemoração dos 90 anos
de sua fundação. Periódico comemorativo dos 90 anos do ginásio. São João del-Rei
1999.
1
Ecles. Diz-se de eclesiástico(s) que participa(m) do século (10), da vida civil (em oposição
àquele(s) pertencente(s) a uma ordem religiosa).
16
2
In: FONSECA, Thaís Nívia de Lima e.“Ver para compreender”: arte, livro didático e a história da
nação. In: SIMAN, Lana Mara de C.; FONSECA, Thaís Nívia de Lima e (Orgs.) Inaugurando a história
e construindo a nação: discursos e imagens no ensino de História. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p. 91
a 177.
3
Durante o Império, o ensino secundário esteve quase sempre nas mãos de particulares. Como não havia
grande procura, o número de escolas era suficiente para atender a demanda que havia na época.
Em 1837 o Ministro do Império Bernardo Pereira de Vasconcelos apresentou ao Regente Pedro de Araújo
Lima uma proposta para a organização do primeiro colégio secundário oficial do Brasil. Pereira de
Vasconcelos acreditava que a instrução pública seria melhor do que a particular, que se mostrava
inadequada, por ser oferecida em salas precárias e por professores mal preparados.
O Colégio de Pedro II, cuja primeira sede se situa na atual Avenida Marechal Floriano, no centro do Rio
de Janeiro, originou-se do Seminário dos Órfãos de São Pedro, criado em 1739, por Frei de Guadalupe,
"para criação de meninos nas costas da igreja de São Pedro". Recebeu diversos nomes: Seminário de São
Joaquim, e Imperial de São Joaquim até receber a denominação de Colégio de Pedro II. Transformou-se
em Instituto de Ensino Secundário pelo decreto de 2 de dezembro de 1837.
Download

Do colégio santo antônio à Universidade Federal de São João Del