01 a 15 de abril de 2010
O freelancer
er Marcelo Gotti
diz que trabalhar
abalhar em casa
permite maiorr concentração nas
tarefass do repórter.
Página
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Ano 4 - Nº 59 - Faculdade de Jornalismo - PUC-Campinas - 1 a 15 de Abril de 2010
1
FOTO: LAÍS VEDOVATO
Campinas ganha diário gratuito
Adriana Ramos e Rafael Stina, no Woolly Bully, estão entre os casais que procuram casas noturnas
para dançar em Campinas, cidade que oferece poucas opções para quem curte a arte. Página 8
“A cerveja brasileira é muito ruim”
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Capa do M
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Repro
FOTO: NATHÁLIA BRAGION BRUNELLLI
Roteiro para quem gosta de dançar
O jornal internacional “Metro”,
que existe em 21 países e possui edições regionais em São Paulo, Santos e ABC paulista, está chegando
em Campinas. Como na capital do
Estado, será distribuido de segunda a sexta-feira, gratuitamente, nos
cruzamentos das principais ruas da
região central. A publicação, com
tiragem de 30 mil exemplares, terá
tamanho compacto, o que facilita a
leitura em ônibus. Resultado de uma
associação dos grupos Metro Internacional e Bandeirantes, o novo
jornal quebra jejum de 14 anos sem
concorrência de mídia impressa na
cidade, desde que o “Correio Popular” comprou “Diário do Povo”.
Página 4
Corpos doados são
úteis por até 30 anos
Ao menos um cadáver não reclamado por familiares é mensalmente
destinado a instituições de ensino
e pesquisa da região de Campinas,
onde são estudados por até três décadas. A doação é cercada por cuidados éticos e restrições legais.
Página 7
ACOMPANHE O SAIBA+
FOTO: R. MIKELLI LACIS
PORTAL:
http://www.saibamaisnet.
com.br/
EMAIL:
saibamaiscampinas@gmail.
com
O físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e recém-homenageado
com o título de cidadão campineiro, abre guerra contra as cervejarias nacionais. Página 5
TWITTER:
http://twitter.com/jornalsaibamais
2
01 a 15 de abril de 2010
CARTA AO LEITOR
Notas
Por um jornalismo plural
ROMEU
EU CALDEIRA
MARCELLO CARVALHO
No dia 29 de maio, o professor
Luiz Paulo Rouanet, da PUC-Campinas, lança seu novo livro Paz, justiça e tolerância no mundo contemporâneo, às 16 horas, na Livraria
Cultura do Shopping Iguatemi. A
obra reúne artigos publicados pelo
autor desde 2000, além de dois inéditos, que discutem questões sobre
justiça, educação, meio-ambiente e
política na sociedade moderna.
FOTO: ROMEU CALDEIRA
Luiz Paulo Rouanet lança
ça livro
Prêmio Saiba+/RAC
Projeto em fotojornalismo
vence Prêmio Bosch
No dia 17 de março foram divulgados os nomes vencedores do Prêmio Saiba+/RAC de Jornalismo
Laboratorial, em quatro categorias.
Na categoria capa, os vencedores
foram os então estudantes Leonardo dos Anjos Miguel, Luciano
Giuliani e João Paulo Munhoz. A
recém-formada Maurem de Cássia
Ribeiro venceu em crônica; e Gustavo Stivali Teixeira foi premiado em
fotograa e reportagem, dividindo a
última com o colega Tiago Toledo.
Os alunos do curso de Jornalismo Lana Torres, Fábio Bonilho e
Maíra Vincentim venceram o Prêmio Bosch de Jornalismo versão
2009, com o trabalho de conclusão
de curso (TCC) em fotojornalismo
intitulado “Mãos Azuis – uma fábula
fotográca sobre Toritama, a capital
do jeans”, orientado pelo professor
Celso Luiz Bodstein. Com o prêmio,
os alunos receberam uma bonicação no valor de R$ 1 mil.
“O maior jornal do mundo”. É esse
o slogan universal do jornal que vai circular em Campinas, cidade que agora
terá o periódico “Metro”, distribuído
em 21 países e 150 cidades.
É este o tema da reportagem que
o Saiba + jornal laboratório da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas traz na página 5, onde explicamos
como vai funcionar sua implantação na
cidade e abrimos uma discussão sobre
este novo modelo de negócio: o de
acesso gratuito à informação impressa.
O modelo faz com que toda a receita do jornal provenha exclusivamente
da publicidade, sem que o leitor participe como um dos agentes nanciadores
das informações que recebe, estratégia
que desperta uma discussão sobre os
compromissos de jornais e jornalistas.
A rigor, um jornal não pode apenas
se preocupar com os anunciantes simplesmente porque estes o nanciam,
mas deve se comprometer também
com o leitor, produzindo informação
de qualidade, com isenção e boa apuração.
A segurança nanceira não exime
uma boa publicação de seu papel social e o leitor, apesar de não pagar nada
pelo produto, tem que se sentir contemplado por ele.
A chegada do Metro em Campinas
estimula a concorrência, já que a cidade
até então conta com apenas um grupo
gerador de jornalismo impresso, e agita
os repórteres na busca pela informação
exclusiva o furo de reportagem. A
vontade de dar a notícia em primeira
mão certamente fará com que se desenvolvam novos olhares sobre a sociedade local. O beneciado será a população, agora com uma opção de escolha.
Mas não será sem qualidade e credibilidade que esse novo modelo de negócio vingará. Antes do êxito econômico, o importante será a preservação do
bom jornalismo. É exatamente isso que
procuramos reetir nesta edição 57 do
Saiba +, que ainda nos coloca à mesa
um outro bom tema em torno do qual
podemos discutir a questão da qualidade: a cerveja, a velha paixão nacional
que foi colocada no banco dos réus por
um dos maiores intelectuais brasileiros.
Estes e outros temas são o que de
melhor poderíamos oferecer. A todos,
uma boa leitura.
CRÔNICA
Jornada vai debater a importância do repórter
Nos dias 18 e 19 de maio, a próxima edição da Jornada de Estudos de
Jornalismo, promovida pela Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, terá
como tema a importância do repórter nos dias atuais. O tema gira em torno
da discussão “o jornalismo muda, se desenvolve com novos meios, como a
internet, porém a presença do bom repórter na cobertura jornalística continua
indispensável”.
Jornalismo terá
especialização em política
Copa motiva curso de
jornalismo esportivo
“Política e mídia jornalística” é
nome de curso de extensão a ser oferecido pelo professor Artur Araújo,
junto com Ricardo Alécio, autor da
coluna Xeque-Mate, do Correio Popular, com o propósito de instruir
alunos a partir da dinâmica do jornalismo especializado em política:
da redação aos departamentos de
assessoria de imprensa. O curso tem
previsão de início em 29 de maio,
prolongando-se até 26 de junho.
Com a proximidade da Copa
do Mundo na África do Sul, a Faculdade de Jornalismo da PUCCampinas pretende criar um curso
de extensão em jornalismo esportivo, tendo o intuito de explorar
os conhecimentos sobre os mecanismos das grandes coberturas.
O curso tem previsão de início
entre maio e junho, a ser ministrado pelo professor Luiz Roberto
Saviani Rey.
Dacom participa de Momento Cultural
FOTO: ROMEU CALDEIRA
O Diretório Acadêmico de Comunicação (Dacom), administrado pelas alunas Carla Puttini e Milena Welsh (foto
ao lado), participará de um momento
cultural apresentado durante a Jornada
de Jornalismo. O evento, organizado
pela Faculdade de Artes Visuais, terá
exposições de obras artísticas como pinturas, além de apresentações de dança,
todas produzidas por alunos dos cursos
de Comunicação.
A arquitetura do instante
DANIEL SERRANO
As sirenes foram de teatro (três toques antes do espetáculo), mas houve
poesia na implosão da velha rodoviária
de Campinas, muito pelo fato de seu
início ter praticamente coincidido com
seu m. Em matéria de edicação, seria excesso de rigor negar o rótulo de
instante àqueles dois segundos de um
domingo. Houve quem tenha contemplado, às 11:02 de um m de março,
uma esquisita transformação: a rodoviária permaneceu sólida, é verdade, mas
passou de construção a escombro, e liquefez-se na paisagem visual da cidade.
Não é inteiramente correto armar
que o haikai é uma forma de poesia.
Na tradição japonesa, o terceto é antes
uma prática espiritual; a arte de capturar um instante fugaz e de xá-lo em
palavras de maneira simples e objetiva.
Bashô agrou o voar de um inseto (A
libélula,/ Sem conseguir se agarrar/ A
uma folha de capim.)*; Issa, um ladrão
meio inofensivo (A lua da montanha/
Gentilmente ilumina/ O ladrão de o-
res)*. Os campineiros ltraram a tradição: abriu-se mão da simplicidade a
implosão teve a exuberância das grandes destruições , mas manteve-se o
instantâneo.
Foi fugaz o movimento que tombou a velha rodoviária. Dele, restaram
apenas haikais particulares. Do sujeito
que o acompanhou ao vivo, o som e
a poeira; do que o assistiu pela TV, a
multiplicidade de perspectivas; ao que
tinha a rodoviária como vizinha, sobrou talvez um espelho quebrado; do
que se mudou há tempos, não será surpreendente constatar que a memória
reproduz, meio esfumaçado, um correcorre apressado de pernas e de rodas.
Não era uma boa rodoviária, essa
nossa velha. Se produziu poesia ao cair,
foi por oposição à prosa relatorial que
ostentava quando ativa, digna apenas
de gurar numa hipotética brochura de
capa marrom de uma prateleira empoeirada: “Antologia pessoal do provincianismo”.
* Traduções de Edson Kenji Iura
FRASES DA EDIÇÃO 57
“Quando Jesus nasceu, a estrela de Belém guiou os três Reis Magos até ele. É
evidente que se tratava de uma nave espacial em operação”. (De Raul Paschoal,
professor de um curso de Realidade Ufológica em Campinas)
***
“A gente vai conversando, tentando perceber se aquilo é realmente um chamado
de Deus, e não uma ilusão da pessoa”. (Da Irmã Ana, superiora do convento das
carmelitas em Campinas, sobre as aspirantes à vida religiosa)
SAIBA+ (GRATUITO) NAS BANCAS
Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Linguagem e Comunicação (CLC): Diretor: Pof. Dr. Rogério E.
R. Bazi; Vice-Diretora: Profa. Maura Padula; Diretor da Faculdade: Prof. Lindolfo
Alexandre de Souza. Tiragem: 2.000. Impressão: RAC.
Editor-chefe e Professor Resp.: Prof. Dr. Carlos Alberto Zanotti (MTb 17.463)
Capa: Ricardo Traldi Dias
Endereço: CLC - Campus I - Rod. D. Pedro, Km 136 Cep: 13086-900
E-mail: [email protected]
Panetteria Di Capri: R. Maria Teresa Dias da Silva, 530; Banca do Ademir: Praça 30
de dezembro (B. Geraldo); Banca do Português: Próx. Varejão Oba (B. Geraldo); Banca Barão: Av. Albino J.B.Oliveira,1.480 (ao lado City Bank); Banca Central: Av. Santa
Isabel, 20; Padaria Alemã: Av. Dr. Romeu Tórtima, 285; Banca Rio das Pedras: R.
Maria T. Dias da Silva s/n; Banca do Mineiro: R. Benedito Alves Aranha, 201; (ao lado
da Matriz de Santa Isabel); Banca Frutaria: R. Maria T. Dias da Silva, 790; Banca do
Alemão: R. General Osório esq. c/ Francisco Glicério; Banca da Bia: R. Dr.Thomas Alves; Banca da Mara: Av. Francisco Glicério (em frente ao Correio e Telégrafos); Banca
do Léo: Av. Dr. Romeu Tórtima, 283; Banca Riviera: Av. Cel. Silva Telles, 37; Banca
Lagoa: Av. Heitor Penteado, Portão 1; 100% Vídeo Cidade Universitária; Banca do
Guará; Banca Rosário: Largo do Rosário; Café Regina: R. Barão de Jaguara, 1.032;
Banca Cidade Universitária: R. Ruberley Boareto da Silva, 1015. Em Itatiba: Banca
Palu: Av. Vinte e Nove de Abril, 80.
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01 a 15 de abril de 2010
LAÍS VEDOVATO
Trabalhar em casa, ter liberdade para fazer os próprios
horários, se ver livre de chefes... Ao se deparar com essa
liberdade, ser freelancer (ou
frila, como a atividade é conhecida no Brasil, expressão
do inglês free lancer) parece
uma condição funcional perfeita para jornalistas, mas exige
muita disciplina e competência
para administrar o trabalho.
Freelancer é o empreendedor autônomo que oferece
seus serviços a diferentes empresas, ou guia seu trabalho
por projetos e atende clientes
de forma independente, podendo trabalhar como prestador de serviços ou como
empresa. Quem atua nessa
área deve apresentar características como pontualidade,
compromisso com o cliente,
aprimoramento constante, dinamismo, empreendedorismo
e otimismo, segundo Penélope
Rosa, 50 anos, jornalista freelancer que trabalha em casa há
4 anos com projetos sociais e
de cultura. De acordo com ela,
não se deve car pensando na
possibilidade de não dar certo,
“porque aí não dá mesmo”.
A atividade também exige
que o interessado saiba lidar
bem com a instabilidade funcional, já que o prossional
pode ganhar muito em um
mês e nada no outro; pode trabalhar muito em uma semana,
e nada na outra. “Já trabalhei
20 horas seguidas, como também trabalhei só 2 horas em
uma semana”, lembra o criador do site carreirasolo.org e
do podcast falafreela.com.br,
Mauro Graça do Amaral, de
36 anos, freelancer de conteúdos de web há 13 anos, hoje
dono de sua própria produtora, a ContémConteúdo (www.
contemconteudo.com).
“Fica difícil
planejar alguma
compra a longo
prazo”
Como não tem carteira
assinada, conseqüentemente
o prossional do ramo não
tem direitos trabalhistas como
FGTS, férias, décimo terceiro
salário e vencimento garantido
no nal do mês. “Fica difícil
planejar alguma compra a longo prazo, já que não é possível
saber se vou ganhar a mesma
coisa daqui seis meses”, diz
Bárbara Axt, 31, jornalista free
lancer há 8 anos. Há 2 anos, é
frila em Londres e tem em seu
currículo uma reportagem de
capa para a “Superinteressante”, da Editora Abril.
Marcelo Gotti, freelancer
do site Futebol Interior há 7
anos, mas que também tem
trabalho xo na área, acredita
que ser autônomo e registrado
são atividades complementares. “O freelancer seria uma
renda a mais no nal do mês,
mas é importante ter um trabalho xo com carteira assinada”.
Ao contrário do empregado
xo, o freelancer pode traba-
“Eu vivo de frila”
O jornalista sem carteira assinada pode desfrutar
de mais liberdade, mas precisa ter foco e disciplina
para sobreviver na área
FOTOS: LAÍS VEDOVATO
estar sempre buscando novas ideias seguidas de ação. O
freelancer empreendedor faz
uso da própria capacidade de
combinar recursos produtivos,
como capitais, matéria-prima
e trabalho, para a realização
de obras, prestando serviços
destinados a satisfazer necessidades.
Além disso, é preciso buscar clientes e ter um bom planejamento nanceiro para se
sustentar no começo, comprar
equipamentos básicos para o
homeofce: computador, gravador, câmera fotográca, telefone... “Quem nos contrata
tem que, em princípio, pagar
os telefonemas, o deslocamento e livros que tenhamos que
comprar. Mas esse reembolso
só vem lá na frente, junto com
o pagamento”, adverte Bárbara Axt.
“No início é
difícil, mas a
gente pega
o jeito”
Penélope: “É preciso ter disciplina”; abaixo, Marcelo Gotti, da área esportiva
“Aumenta a concentração”, diz Amaral
A ausência de um chefe
pode ser positiva para o andamento da matéria. “Não
tem aquela tensão de entregar o texto e o chefe mudar
tudo só porque é chefe, ou
ouvir sermão se você atrasou
5 minutos”, comemora Penélope. O freelancer esportivo Marcelo Gotti acrescenta
que outro ponto positivo é
poder escolher o ambiente
e condições de trabalho que
favorecem o prossional.
O carreira-solo tem a
condição de fazer seu próprio horário para torná-lo
mais exível. Penélope garante que, quando está cansada, para, faz um café, ouve
música - faz atividades que
no trabalho não são permirmitidas. Bárbara Axt também
bém
pensa assim: “Eu pre
ero
trabalhar em casa, com meus
horários, cuidando da minha
inha
vida. Posso fazer outras coisas quando a concentração
ação
acaba, e volto logo depois,
pois,
renovada”.
Nestes casos, há o lado
negativo também, já que
ue é
fácil car disperso com
m os
deveres da casa e ter que
ue car a noite toda trabalhanando. “No começo, eu não
ão
conseguia separar o trabalho da casa, do cachorro, do gato e do
lhar para mais de uma empresa
ao mesmo tempo. Axt argumenta que, ao dedicar 100%
do tempo a um único empregador e este resolver demitir
os funcionários, o empregado
passa de um ganho de 100%
para 0% de uma hora para outra. “Se a pessoa trabalha para
cinco editoras, a chance de as
lho”, diz Penélope.
Outro aspecto negativo
apontado para a atividade é o
isolamento. Quando não se
tem colegas de trabalho, não
há trocas de informações e
ideias que possam contribuir
para o desenvolvimento do
projeto. “Se não car atento, você pode ‘sair do ar’ ou
‘sair do mercado’, por car
muito tempo no seu homeofce”, alerta Amaral. Gotti,
ao contrário, acredita que o
isolamento pode ser benéco, pois “aumenta o grau de
concentração”.
Esperar as férias e evitar
calotes são outras questões para as quais é
necessário ter paciência e atenção. Folga,
só existe quando o
cliente também está
de folga; e calote
só se toma se
o empregador for um
picareta.
“Trabalhei
para uma
revista
que não queria me pagar de
jeito nenhum, mas depois
que eu descobri o e-mail do
dono da empresa e, quando
mandei uma mensagem para
ele, o dinheiro apareceu na
minha conta”, informa Amaral. Barbara Axt também
já trabalhou para empresas
grandes, como as editoras
Abril e Globo, e garante que
é impossível levar calote de
empresas assim.
Penélope arma que a
atividade é uma boa saída
para quem busca um emprego no mercado de trabalho
e não encontra. Para ela, ser
freelancer é muito melhor
do que ser empregado.
“A chance de ter uma
boa renda é melhor
do que para trabalhadores de empresas”, arma a
freelancer, que
ganha, em média, R$ 3 mil
por mês.
cinco terem problema de caixa
é mínima”, arma.
tornar um freelancer é ter uma
formação técnica bem sólida.
Depois, pesquisar ou matricular-se em disciplinas de empreendedorismo, que ensinam
como estar sempre motivado
pela autorrealização, ter desejo
de assumir responsabilidades,
independência, assumir novos
desaos e, principalmente,
“... reembolso
só vem junto
com o
pagamento”
O primeiro passo para se
Não conhecer a fundo as
publicações para as quais prestar serviço torna mais difícil
manter-se na ativa por muito
tempo, uma vez que, ao não
se encaixar nos padrões que a
publicação pede, não há mais
a procura pelo serviço. Desse
modo –adverte Penélope– é
preciso saber muito bem o que
os editores querem, e mandar
sugestão de pautas até acertar.
“No início é difícil, mas com
o tempo a gente pega o jeito”,
assegura.
Já Bárbara Axt arma que,
no começo, tomava a iniciativa
de enviar sugestões de pautas, mas depois de um tempo
os editores passaram a contar
com os serviços dela e sempre
ligam para saber se está disponível. “Mas chegar nesse estágio exige tempo e dedicação”.
O ideal para frilas em jornalismo é conhecer bem o
mercado editorial, uma vez
que, a partir daí, será possível
moldar sua formação para ser
a melhor solução na área em
que presta serviços. Segundo
Bárbara, é importante um pouco de foco, já que grande parte do trabalho do freelancer é
fazer contatos, saber quem são
as pessoas importantes em determinadas áreas e manter uma
boa relação com os clientes.
“No meu caso, isso signicava ganhar a conança dos
editores de revista”, diz.
A rotina precisa ser revestida de disciplina. Lista de
tarefas e hora de trabalho religiosamente cumprida são detalhes com os quais é preciso
ter muita atenção. Penélope,
pela manhã, faz suas produções, e à tarde freqüenta reuniões com os clientes.
Enquanto isso, para Vera
Longuini, dona da empresa
Ateliê da Notícia, cada dia é
uma surpresa, já que a programação do dia depende dos
clientes. “Se eles me ligam e falam que precisam de uma reunião, eu tenho que desmarcar
tudo e ir”.
4
01 a 15 de abril de 2010
Na penúltima quinta-feira
de março, Campinas conheceu uma amostra do que será o
novo jornal diário que, a partir
de data não revelada até o fechamento desta edição do Saiba+, circulará gratuitamente
com pelo menos 30 mil exemplares distribuídos em locais
de grande circulação de pedestres e de veículos na cidade. O
“Metro”, que existe com este
mesmo modelo de negócio em
outros 20 países e possui alcance superior a 20 milhões de
leitores diários, é fruto de uma
parceria dos grupos Metro Internacional (pronuncia-se Métro) e Bandeirantes de Comunicação, rede nacional que atua
tradicionalmente no ramo de
rádio e televisão.
A circulação inaugural ocorreu sem alarde, com manchete
de capa revelando que a cidade
gera 43 novos empregos por
dia. Também na primeira página já foi possível perceber que
as redações espalhadas pelos
diversos países onde o jornal
possui sucursais irão abastecer
a publicação local, com temas
de alcance internacional, como
a luta vitoriosa que o ciclista
americano Lance Armstrong,
de 38 anos, travou contra o
câncer.
Na manhã do dia 18, quando o jornal circulou com edição experimental, o motorista
Danilo Braga foi uma das pessoas que recebeu um dos 40
mil exemplares entregues por
gazeteiros trajados de verde
em alguns semáforos da cidade. Ele disse ter achado boa a
publicação, especialmente por
ser de graça. Na manhã seguinte, procurou pela segunda
edição, mas não a encontrou.
“É que a edição do dia 18 não
foi a do lançamento do jornal,
mas sim o marco zero, um teste”, informou a editora da versão campineira do jornal, Zezé
de Lima, que deixou o “Correio Popular” para abraçar o
novo emprego.
Paulo Rodrigues, porteiro
de um prédio da região central
da cidade, também viu o jornal
“Metro” e, como leitor assíduo
dos jornais que circulam na cidade, disse que gostou da ideia
de ter mais um jornal para ler,
mas somente se este vier para
acrescentar algo de novo. “Os
jornais de Campinas são cópia
um do outro”, disse.
O jornalista da rádio CBN
Marco Massiarelli, que também pegou um exemplar nas
ruas, se disse satisfeito ao ver
que Campinas ganhará um
novo diário: “É importante a
vinda de um jornal que seja de
outro grupo, porque a cidade
está engessada com jornais de
uma mesma empresa”.
A primeira edição circulou
com 16 páginas, das quais apenas quatro destinadas exclusivamente à cidade de Campinas. O expediente, por falha
na revisão, veio com dados do
“Metro” distribuído na região
do ABC (Santo André, São
Bernardo do Campo e São Caetano, municípios da grande
O primo rico chegou
Campinas ganha jornal diário gratuito, resultado da parceria dos grupos
Bandeirantes de Comunicação e Metro Internacional, que possui 20 milhões de
leitores nos 21 países onde circula
Gratuidade
como
negócio
FOTO: NÁDIA MACEDO
CAPAS: DIVULGAÇÃO
NÁDIA MACEDO
São Paulo), onde existe desde
outubro de 2009.
Ao folhear o jornal, a professora da disciplina Produção
Editorial, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas,
Cecília Toledo, disse que as
páginas destinadas a Campinas pareciam “mais pesadas”
visualmente do que as destinadas às demais editorias. A
docente ressaltou ainda que,
através da capa, já é possível
perceber a intenção de o jornal manter uma imagem ecologicamente correta, pois no
lado esquerdo da primeira página vêm anotadas na vertical
as seguintes informações: “O
Jornal Metro é impresso em
papel FSC, garantia de manejo orestal responsável, e com
tinta ecológica elaborada com
matérias-primas bioderivadas e
renováveis pela gráca Plural”
e “Recicle a informação: passe
este jornal para outro leitor”.
No Brasil, o “Metro” é uma
joint venture, ou seja, uma associação de empresas, do Grupo
Bandeirantes de Comunicação
com o Metro Internacional.
Não é à toa que, em Campinas,
a redação do novo periódico
está instalada na sede do Grupo Band na cidade, que ca
no alto do Jardim São Gabriel,
bairro da região sul.
Além de Zezé, outra exfuncionária do “Correio Po-
A professora Rose Bars, com
edição experimental do “Metro” de
Campinas; e capas da publicação
em Atenas, Hong Kong, Lisboa,
París e Nova York
pular”, a jornalista Rose Guglielminetti, pediu demissão
para atuar no novo empreendimento. O jornal, que nasceu
na Europa e segue o modelo
de periódico gratuito com
grande crescimento nos primeiros anos do século XXI, já
está presente em países, como
Estados Unidos, Grécia, China, Itália, Equador, Canadá e
França. No Brasil, o jornal é
distribuído de segunda a sexta-feira na capital paulista, em
Santos e no ABC.
A chegada do jornal em
Campinas, segundo o diretor
comercial do “Metro São Paulo”, Oscar Osawa, faz parte do
projeto de expansão nacional
desse veículo. Osawa revelou,
ainda, que o projeto é circular em Campinas com 40 mil
exemplares no início, devendo
se estabilizar em 30 mil diários
na sua fase de consolidação.
Segundo a editora, Zezé
de Lima, o jornal vai circular
como em São Paulo, de segunda a sexta no período da
manhã, sendo distribuído nos
cruzamentos das principais
ruas e avenidas de Campinas.
O jornal “Metro”, segundo
Oscar Osawa, tem como intuito proporcionar ao leitor uma
leitura rápida: “Nosso jornal é
compactado, montado e produzido para ser lido em 20 minutos”, arma.
Osawa diz que a linha editorial do Metro é “dar apenas
a essência de cada notícia”,
sem a preocupação de publicar
grandes reportagens. “Nossos
jornalistas são, na média, mais
experientes do que os de outros jornais, pois é muito mais
difícil fazer um resumo da notícia do que explicar um fato
em uma página inteira”, raciocina ele.
MERCADO
Segundo a professora Flailda Brito Garboggini, pesquisadora da Faculdade de Publicidade e Propaganda da
PUC-Campinas, a chegada do
Metro é vista de forma positiva
pelo mercado publicitário. “Até
agora, não tínhamos nenhum
jornal de assuntos gerais que
tivesse circulação gratuita, a
exemplo do que há muitos anos
já ocorre nos países europeus”.
Apesar do fator positivo
destacado pela docente, Flailda imagina que esta novidade
pode ser prejudicial aos jornais
locais. “O Metro, como um
jornal gratuito, vai prejudicar,
de certa forma, as vendas dos
jornais da cidade, e poderá
diminuir o interesse do leitor
pelas publicações pagas. E, diminuindo o interesse do leitor,
também diminui o interesse
por parte dos anunciantes.”
Embora não seja uma novidade, a distribuição gratuita de jornais intensicou-se
nos primeiros anos do século XXI, como uma resposta
ao avanço da internet e ao
seu conteúdo disponibilizado gratuitamente. Segundo
a professora de Jornalismo
Impresso e Jornalismo On
Line, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas,
Rose Bars, este modelo de
negócio começou na Europa, com o intuito de manter
índice alto de circulação, garantido pela distribuição em
locais com grande uxo de
pessoas, como as estações
de metrô em Paris, Londres
ou Madri.
Segundo a professora
Rose, o objetivo central é
garantir a verba publicitária
para cobrir a ausência de receitas com assinaturas e venda em bancas. “A audiência
é a ‘arma’ para esses jornais
conquistarem anunciantes”,
explica.
Rose diz ainda que a tendência do formato tablóide
para esse tipo de publicação
deve-se aos locais em que
geralmente são lidos. “Eles
são feitos para uma leitura
rápida, voltados geralmente
para a prestação de serviços;
são coloridos e no formato
tablóide ou germânico para
facilitar o manuseio pelo
passageiro do metrô ou do
ônibus urbano”.
Segundo Rose, apesar
de ser uma tendência com
rápido crescimento neste
século na Europa, o jornal
gratuito não funcionou muito bem nas vezes em que já
foi experimentado no Brasil.
“Dos gratuitos lançados no
Estado de São Paulo, poucos sobreviveram. O que
mais tem fôlego é o ‘Metro’,
que começou na capital e
que agora chega a Campinas”.
Tendo em vista a gratuidade do jornal como tendência, Rose Bars ressalta
não acreditar que o modelo
gratuito venha em substituição ao modelo existente de
circulação paga. “É apenas
uma tendência”, sugere.
Quando questionada sobre os jornais gratuitos que
a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) lançou há
alguns anos, Rose lembra
que das Gazetas de Ribeirão Preto, de Piracicaba e do
bairro Cambuí, apenas a última permanece gratuita.
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01 a 15 de abril de 2010
O intelectual e a cerveja
O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que coleciona títulos e honrarias decorrentes de atividades
no ensino superior e de serviços prestados ao país, lança-se a uma batalha
contra a má qualidade da bebida mais consumida no Brasil
FOTOS: R. MIKELLI LACIS
R. MIKELLI LACIS
“A cerveja: bebendo gato
por lebre”. Foi com este título
que o físico Rogério Cezar de
Cerqueira Leite, 78 anos, uma
das maiores autoridades brasileiras em energia, publicou artigo na página 3 da “Folha de
S.Paulo”, em 18 de dezembro
do ano passado, comprando
briga com a gigante nacional da indústria cervejeira,
a Ambev. Em entrevista ao
Saiba+, este professor emérito da Unicamp, rodeado pela
maior discoteca de música
clássica do Brasil, instalada em
seu escritório, lamentou que
as autoridades brasileiras não
se preocupem com a qualidade da bebida alcoólica mais
consumida no país, que coloca o Brasil em quarto lugar no
ranking dos maiores fabricantes mundiais do produto.
“Sou um cervejeiro bastante dedicado”, confessou Cerqueira Leite, que recorreu a
um expediente muito simples
para criticar a má qualidade da
cerveja brasileira: fez os cálculos entre o volume de bebida
fabricada no país
aís (10 bilhões
de litros anuais)
s) e o volume
de cevada utilizada
zada pelos fabricantes (400 mil toneladas).
Segundo ele, o resultado
nem de longe aponta para
um produto de boa qualidade. E reiterou o que já havia
escrito no jornal:
al: “A cerveja
brasileira - com
m pequenas e
honrosas exceções
ões - é como
pão de forma: mata a sede,
mas não satisfaz
az o paladar
exigente”.
Doutor em Física pela
Universidade de Paris,
Cerqueira Leite
te já trabalhou e contribuiu
ribuiu em
diversos países
es como
França, Estados
os Unidos
e Inglaterra. Dentre prêmios e títulos que recebeu,
se destacam a Ordem Nacional do Mérito da França e a
Cátedra da Universidade
niversidade de
Montreal (Canadá),
adá), além do
título de cidadão
dão campineiro
que conquistouu no último dia
18 de março, na Câmara Municipal. Em seuu currículo, ainda constam participações
rticipações em
missões estrangeiras
geiras a serviço
da Presidência da República,
quando elaborou
ou acordos de
cooperação em
m tecnologia
industrial. Além
m de professor emérito da Unicamp,
é um
i
dos fundadores da Academia
Paulista de Ciências, membro
da Organização das Nações
Unidas e membro do conselho editorial do jornal “Folha
de S. Paulo”.
Ao justicar a publicação
do artigo, o físico confessou
que houve certa dose de egoísmo no ato de escrever sobre
Cerqueira Leite lamenta que as maiores cervejarias nacionais banalizem seus produtos
Ping-pong com Cerqueira Leite
Ping-po
Qual a melhor
m
cerveja
na sua opinião?
opini
que eu mais conA cerveja qu
sumiria, se eencontrasse no
Brasil, talvez fosse a Guinness, da Irlanda,
mas não
Irla
essa em lata que se vende
por aqui.
Das cervejas
cerve nacionais,
alguma seria
seri a melhor?
A Stella A
Artois, quando
entrou no Brasil,
e ainda viB
nha com a fórmula
de fora,
f
era razoável,
razoável mas agora ela
está muito ruim.
ru
Alguma história
curiosa
h
relacionada com
c cerveja?
Chegando num país, eu
sempre experimento
as cerexper
vejas locais. L
Lembro-me, por
exemplo, do m
meu sofrimento
imenso no Irã,
Ir onde passei
três semanas ssem beber, porque
q lá não se pode consumir
bebida alcoólica.
É uma
alcoó
questão de vvida ou morte.
Absolutamente
proibido.
Absolutamen
Quando peguei
pegu o avião pra
sair do Irã, sentei
e logo pedi
se
que me viesse
viess uma cerveja.
um assunto aparentemente
sem importância. “Gosto de
cerveja e quero ter à nossa disposição uma cerveja de qualidade”. No entanto no Brasil,
segundo ele, isso está cando
cada vez mais difícil. Para Cerqueira Leite, há uma “atitude
muito pouco construtiva” das
grandes cervejarias nacionais
que, para baratearem seus pro-
dutos e concorrerem no mercado, diminuem consideravelmente a qualidade da bebida.
Para conseguirem diminuir
os custos, uma das práticas é
a opção por ingredientes de
qualidade inferior. Seria o caso
da cevada, geralmente substituída em grande parte por
milho ou arroz, ingredientes
mais baratos. O lúpulo, que
E me disseram “não”, pois
ainda estávamos no espaço
aéreo iraniano. Foi um sofrimento. Na Rússia, quanto
estive pela primeira vez, a
cerveja era tão ruim, mas tão
ruim, que dava até pra car
feliz bebendo a Heineken
brasileira.
Sempre gostou de cerveja?
Eu bebia mais vinho, antigamente, do que cerveja.
Hoje em dia, bebo mais cerveja, porque um bom vinho
custa muito caro. No Brasil,
encontrar um bom vinho
não é fácil. E a cerveja, você
tolera mais. Eu sou até capaz de beber uma cerveja
nacional quando vou a um
bom restaurante e não tem
outra cerveja, mas faço isso
com muito sacrifício.
Bebe cerveja com que
freqüência?
Meu médico me proibiu
mais do que três garrafas
por dia.
Então está ótimo!
Depende da vontade.
além de dar sabor à cerveja é
ser o conservante natural da
bebida, é também de má qualidade, o que faz com que seja
necessário adicionar estabilizantes e antioxidantes articiais. O resultado é a fabricação de cervejas cada vez mais
homogêneas o que torna difícil
qualquer diferenciação ou escolha por parte do consumidor.
Em resposta ao seu artigo
na “Folha”, um representante da Anheuser-Busch Inbev,
proprietária da AmBev, argumentou, também em artigo
no jornal, que a cerveja produzida no Brasil é condizente
com o clima do país, sendo
assumidamente mais leve e refrescante, mas nem por isso de
má-qualidade. Mas Cerqueira
Leite contestou: “o grande
problema é que o brasileiro
acaba se acostumando com
essa homogeneidade quanto
ao sabor da cerveja”.
Para exemplicar sua preocupação com a homogeneização, o físico recorreu a
uma outra bebida, o vinho,
em torno do qual as pessoas
buscam uma diferenciação,
um paladar mais sosticado,
esforço que reúne produtores
e consumidores. Já com a cerveja, teria sido criada uma atitude muito passiva por parte
do consumidor, que “vai aceitando qualquer porcaria que
aparece”. Segundo Cerqueira
Leite, “fazem um bocado de
propaganda e o consumidor
vai bebendo. Já não tem mais
paladar, ele não procura nada.
Vai se criando uma coisa homogênea, tudo igual”.
Em sua opinião, o problema também é cultural, pois
faltaria ao brasileiro uma cultura cervejeira. Cerqueira Leite contou que nos EUA, até 40
anos atrás, quando se chamava uma pessoa de wine drinker
(bebedor de vinho), ela estava
sendo rebaixada na escala de
degustadores, pois a preferência era para whisky, bebida identicada à época com o
que havia de mais requintado.
“Mas a cultura hoje é outra:
no Brasil, beber vinho, por
exemplo, é bonito, e muitos
consideram que beber cerveja é uma atitude vulgar”. Isso
gera falta de interesse do brasileiro em conhecer cervejas
diferentes, mais sosticadas e
de qualidade superior, diz ele.
À pergunta se consome
ou não alguma das cervejas
nacionais, Cerqueira disse
que já fez algumas tentativas,
mas sempre com o mesmo
resultado: depois de algum
tempo que estão no mercado,
elas perdem qualidade, seja
por questões de competência
técnica ou porque as marcas
foram adquiridas e mudaram suas políticas industriais.
“Cansei de fazer essas experiências. Eu tenho uma geladeira só para cervejas. Fica
dedicada exclusivamente pra
cerveja. Nela, entraria cerveja nacional, eu não tenho
preconceito. Muito pelo contrário. Compraria. Mas as experiências que z não foram
muito boas”, lamentou.
6
01 a 15 de abril de 2010
Chico Xavier ganha lme e novela
no centenário de seu nascimento
FOTO: NARA LUIZA DO AMARAL DIAS; ILUSTRAÇÃO: SHIAU SHOTS
BEATRIZ JORGE e
NARA LUIZA DO AMARAL DIAS
No ano em que comemoram o centenário de nascimento do médium Chico Xavier,
o mais cultuado de seus inspiradores brasileiros, os adeptos
do espiritismo –que somam
quase 40 mil em Campinas–
festejam o lançamento de um
longa-metragem e de uma novela na Rede Globo de Televisão sobre a vida deste mineiro
de Uberaba, marcada para estrear no próximo dia 12. Dirigido por Daniel Filho, o lme
teve pré-lançamento no luxuoso Teatro Municipal de Paulínia, no último dia 23, exibido
para 1.350 convidados.
Para o jornalista Clayton
Levy, médium no Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas, as duas produções deverão estimular a expansão do
espiritismo no país, onde seus
seguidores somam 2,3 milhões, segundo última pesquisa do IBGE. De acordo com
ele, Francisco Cândido Xavier
(o Chico, como se tornou conhecido) teve grande importância no movimento espírita,
ajudando a desmisticar a religião e reduzir o preconceito
em torno da doutrina. “Hoje,
o espiritismo já é mais aceito,
sendo até objeto de estudos
acadêmicos”, disse.
Therezinha Oliveira, coordenadora de estudos e divulgação doutrinária do Centro
Alan Kardec, referindo-se à
origem da religião, diz que “a
doutrina foi passada dos espíritos aos homens, através dos
médiuns”. Segundo ela, a doutrina partiu das manifestações
dos espíritos e que seu fundador, o francês Allan Kardec,
teria coletado tais manifestações e vericado que a doutrina tinha conseqüências morais
que, para ele, estavam implícitas com a religião. “Costumamos dizer: estudar Kardec
para viver Jesus”, completa.
Ao explicar a doutrina,
Therezinha diz que, para os
espíritas, o ser já existe antes de “encarnar”, expressão
que designa ocupar o corpo.
“Quando aquele corpo se desenvolve, permite ao espírito
se expressar, se manifestar na
sua totalidade. Essa é a grande
diferença com as demais religiões. Acreditamos que preexistimos. Quando o corpo morre,
nós continuamos existindo”.
“No espiritismo a gente
não tem imagem, não tem sacerdote. É uma coisa pessoal,
você liga ou desliga; você sente ou não sente. Não adianta
alguém tentar fazer por você.
Nós somos livres diante de
Deus e não precisamos de ninguém em particular para nos
ligar a Deus; somos criações
dele”, explica.
Morreu pobre,
tendo escrito
451 livros
Therezinha, do Centro Kardec: “Quando o corpo morre, o espírito permanece vivo”
O médium, segundo a Semiótica
Doutora em Comunicação e Semiótica
pela PUC-SP, a pesquisadora Magali Oliveira
Fernandes, autora do livro “Chico Xavier: um
herói brasileiro no mundo da edição popular”,
arma que cada trabalho que surge sobre o
médium “realimenta o mito do herói” que ele
deixou inscrito na cultura brasileira. Em parte,
o fenômeno se deveria ao grande sincretismo
religioso que existe no país. Ela não descarta
a hipótese de que o médium, com o tempo,
ganhe a condição de santo. A seguir, principais trechos da entrevista que concedeu ao
Saiba+.
Chico Xavier foi criado por pais católicos,
pobres, tendo terminado apenas o primário. Como ele se tornou um dos personagens mais inuentes do espiritismo?
“Depois do lançamento de seu primeiro livro
psicografado, em 1932, Chico já era um “divisor de águas” para o movimento espírita em
formação no país. O livro lançado na forma
de versos e com assinaturas de vários poetas
brasileiros era algo inovador num período em
que o repertório francês era a grande referência para os adeptos daqui. Por outro lado,
Chico provocava impacto por ser, ele mesmo,
um homem muito simples. Daí em diante, ele
foi se rmando com um projeto pessoal de
solidariedade, independentemente da religião.
E isso, a meu ver, colaborou para sua consagração como um tipo de herói brasileiro.”
produções contribuem para a difusão do
espiritismo?
“Cada trabalho novo que surge para contar
uma história do personagem Chico Xavier vai
realimentar o mito, a saga do herói. E o espiritismo brasileiro faz parte desse movimento,
como referência, não como m.”
Pode-se falar de Chico Xavier como um
mito, então?
“O mito Chico Xavier se expressa através das
várias narrativas que vão sendo elaboradas
por meio das biograas do protagonista (em
livro, lmes...), bem como de sua obra. Um
mito em tempo e espaço urbanos, expressando-se e reformulando-se de modo extremamente enriquecedor do ponto de vista social e
cultural. Não coube no meu trabalho de pesquisa saber se era verdade ou não o que ele fazia. O que me interessou foi o acontecimento
que o envolve e que se manifesta em textos,
escutas e tantas outras expressões, no âmbito
das ciências humanas.”
Em sua opinião, pessoas de outra formação religiosa entendem e respeitam as
crenças difundidas por ele?
“Há uma espécie de canonização de forma
muito espontânea e, vamos dizer assim, de
forma bem popular, que o faz “santo” em
muitos dos segmentos religiosos no país. Já
ouvi uma vez na rua alguém dizer: “Rezei
hoje pedindo ao Chico Xavier que me ajudasCom o centenário de nascimento do mé- se...”. Frases como essa vão se tornando cada
dium, houve um boom de produções a seu vez mais comuns, e não estão necessariamenrespeito, especialmente no cinema. Estas te vinculadas a uma religião especíca.”
A espírita, que trabalha no
Centro há 50 anos, aponta algumas diferenças entre a doutrina que abraça e a religião
católica. “Para os espíritas, não
existem os chamados anjos e
demônios. São todos espíritos
mais ou menos desenvolvidos.
A lei é de caridade, no sentido
de amor, em todos os aspectos
da vida. Então, não tem sentido a idéia de inferno. Porque
Deus quer que a gente perdoe,
mas Ele não perdoaria?”, arma Therezinha.
Para os espíritas –confor-
me disse–, o corpo é só uma
veste, que permite ao espírito
se expressar. Quando o corpo
morre, o espírito permaneceria
vivo, só que em outras dimensões. O tempo para reencarnar
dependeria das experiências e
ligações que teve em vida.
Ao longo dos 92 anos
em que viveu, até morrer em
2002, Chico Xaver escreveu
451 livros, com mais de 30
milhões de cópias vendidas.
Ainda assim, morreu pobre.
Filho do operário João
Cândido Xavier e da doméstica Maria João de Deus,
Chico nasceu na cidade de
Pedro Leopoldo. Ingressou
no espiritismo após “obsessão” (ação insistente de um
espírito sobre outro) sofrida por uma de suas irmãs.
O quadro levou a família a
recorrer ao casal de espíritas José Hermínio Perácio e
Carmem Pena Perácio para
resolver o problema.
“Essa dona Carmen Perácio viu sobre o Chico uma
cascata de livros. Ele não tinha escrito nada ainda, mas
já estava ali. Era um modo
de os espíritos passarem a
ideia de que ele ia receber as
mensagens. Estava programado, seria a tarefa dele”,
conta Therezinha Oliveira.
Chico Xavier iniciou seu
trabalho mediúnico aos 17
anos e passou a psicografar
mensagens, inclusive textos literários que –segundo
acreditam os éis– seriam
ditados por escritores falecidos, como Humberto
de Campos e Castro Alves.
“Ele era um moço sem
cultura maior. Fez, quando
muito, escolinha de interior.
Mas começou a receber os
espíritos que escreviam literariamente. Castro Alves
é maravilhoso através dele.
Esse livro chamou a atenção
de todo mundo. O Agripino
Grego dizia assim: ‘Bom,
se o livro não é de espíritos, então tem um lugar na
Academia de Letras para o
Chico’”, recorda-se Therezinha.
A psicograa chegou a
causar problemas a Chico
Xavier. Quando começou
a receber mensagens que
seriam de Humberto de
Campos, que morreu (ou
“desencarnou”, para os espíritas) em 1934, a família
do escritor entrou com um
processo, sem sucesso, contra o médium, querendo o
recolhimento das obras ou
o recebimento dos direitos
autorais. Chico Xavier nunca recebeu nada pelos livros
que publicou, tendo doado
tudo para a caridade.
7
01 a 15 de abril de 2010
Uma última missão
DANIEL SERRANO
PROCESSO DE DOAÇÃO TEM
REGULAMENTAÇÃO DETALHADA
A lei nº 8.501, de 30 de
novembro de 1992, que regulamenta a doação de cadáveres não reclamados, proíbe
que corpos resultantes de ação
criminosa sejam doados. A
restrição engloba não apenas
os crimes comprovados, mas
situações em que há suspeitas
ou divergências no motivo da
Menos de 1% dos cadáveres que dão entrada na Divisão Funerária da
Setec não são reclamados por parentes ou responsáveis, o que
totaliza média de 6 corpos mensais; destes, apenas um
é doado para instituições de ensino e pesquisa, onde
permanece em estudos por até 30 anos
FOTO: DANIEL SERRANO
DEPOIS DE ANOS, CORPO É
FOTOS: LANA TORRES
Uma observação atenta nos
comunicados de falecimentos
que a Setec publica eventualmente no “Correio Popular”
leva o leitor à seguinte advertência: “O Serviço Funerário
Municipal informa: encontrase na Câmara Fria do Necrotério do Cemitério Pq. N. S. da
Conceição o cadáver abaixo relacionado e não reclamado até
a presente data, o qual será doado a universidade para estudos ou pesquisas cientícas”.
O cadáver em questão ca
disposto na câmara fria do
cemitério Parque Nossa Senhora da Conceição, próximo
ao Campo dos Amarais, com
capacidade para acomodar até
26 corpos. Para aproximar-se
dos restos mortais, percorrese um corredor, de não mais
que três metros de largura,
que une duas salas utilizadas
para necropsia. De cada lado
do ambiente, na parede, estão
posicionadas duas caixinhas de
cor acinzentada que mostram,
por meio de um visor digital,
a temperatura no interior das
câmaras.
Mantidos a cerca de 5°C, os
cadáveres têm sua conservação
assegurada, além de poderem
ser submetidos a necropsia de
última hora, caso novamente
necessária, sem qualquer tempo de espera. Temperaturas
muito inferiores tornariam inviáveis os exames imediatos,
dada a necessidade de aguardar
um descongelamento.
De acordo com Erivelto
Luis Chacon, analista técnico
da Divisão Funerária da Setec
(Serviços Técnicos Gerais),
a capacidade da câmara fria,
única de propriedade da instituição, está de acordo com as
necessidades. Em uma terçafeira do mês de março, 18 dos
26 espaços estavam ocupados.
Todos aqueles cadáveres tinham em comum o fato de
não terem sido reclamados,
mas apenas três seriam doados
a faculdades para ns de estudo e pesquisa.
SEPULTADO POR INSTITUIÇÃO
Erivelto Chacon diante da câmara fria do Cemitério dos Amarais: espaço para 26 corpos
morte, como em acidentes de
trânsito. Em Campinas, onde
há entre 600 e 650 óbitos por
mês, apenas 1% dos cadáveres
não são reclamados. “Uma média de seis cadáveres por mês
cam sem ser reclamados”,
calcula Chacon, que adverte:
“Só que, desses seis, cinco são
de morte violenta”. Em média,
portanto, apenas um cadáver
por mês quase sempre do
sexo masculino segue para
doação.
Ao se vericar um óbito não reclamado, o cadáver
panhada do nome do cadáver
em questão, sempre que identicado, seguido de seus dados
pessoais e descrições físicas,
além das circunstâncias do óbito. A nota precisa ser publicada dez vezes dentro do prazo
de um mês, período em que o
corpo, já injetado pela universidade, permanece na câmara
fria do Serviço de Vericação
de Óbitos. Terminadas as publicações, o corpo é nalmente
transportado pela Setec à instituição beneciada, que arcará
com os R$ 104,00 de despesas
com transporte e R$ 1,2 mil
com as publicações veiculadas
pelo jornal.
Ao receber o corpo, a faculdade ca responsável pelo
registro de consignação do
cadáver aos seus laboratórios.
Não será imediatamente, contudo, que o corpo poderá ser
utilizado para estudo. Durante outros 60 dias, ele deve ser
resguardado. De acordo com
Erivelto Chacon, todo esse
processo garante um longo
período para que famílias possam resgatar o cadáver ainda
íntegro. “São pouquíssimos
os casos, depois de cumprido
esse período, em que as famílias aparecem. Nesses 24 anos
que estou aqui, se tive meia
dúzia de cadáveres reclamados
por familiares após a doação,
foram muitos”, assegura.
é enviado para a câmara fria
e lá permanece por 15 dias,
prazo legal para que a família
reclame a posse do corpo sem
necessitar de um alvará judicial. Encerrado o período, o
Serviço de Vericação de Óbitos de Campinas consulta um
banco com 24 instituições de
ensino cadastradas (todas no
estado de SP, cinco em Campinas), respeitando um rodízio. A partir do momento em
que a faculdade manifesta o
interesse, deve agendar um dia
para “injetar o cadáver”, pro-
cedimento que consiste em
substituir o sangue por uma
substância (frequentemente
formol) capaz de conservar
suas estruturas. Em seguida, o
corpo é fotografado e tem suas
impressões digitais recolhidas,
o que auxilia em um eventual
reconhecimento tardio.
NOTIFICAÇÕES DURANTE
30 DIAS EM JORNAL
A noticação de falecimento padrão da Setec, quando
publicada em jornal, é acom-
Um cadáver conservado
adequadamente pode contribuir para os estudos por um
período de 20 a 30 anos, garante o professor Everardo
Magalhães Carneiro, chefe do
Departamento de Anatomia,
Biologia Celular, Fisiologia e
Biofísica da Unicamp, uma das
instituições cadastradas na Setec. Em entrevista por e-mail
ao Saiba+, Carneiro armou
que “a demanda é baixa, visto
que os cadáveres são utilizados
durante muitos anos, sendo
compatível o número de doações às necessidades de ensino”.
O Departamento de Anatomia daquela universidade
conta atualmente com cerca de
30 cadáveres, utilizados para
ns didáticos por áreas como
Medicina, Enfermagem, Biologia, Farmácia, Fonoaudiologia e Educação Física. Quando
não mais puderem contribuir
com os estudos, será no Cemitério da Saudade, no jazigo
da instituição de ensino, que o
cadáver terá seus despojos sepultados.
Homenagem de alunos virou placa na Anatomia
Foi ao nal do segundo
ano de Medicina, ao concluírem o curso de Anatomia, que
os estudantes da Unicamp
Matheus de Oliveira Laterza
Ribeiro e Vinícius Trindade
Gonçalves, ambos com 20
anos, tomaram a iniciativa de
redigir uma homenagem aos
cadáveres que haviam sido
parte de seus estudos.
Retomando uma tradição
antiga, os dois expressaram gatidão àqueles que chamaram de
“mestres inominados, em cujo
momento de despedida da vida
não tiveram lágrimas derramadas sobre sua fronte, desprezados pela humanidade”.
A homenagem nasceu de
uma ideia de toda a turma
XLVI e acabou imortalizada
em uma placa vermelha no andar térreo do Departamento
de Anatomia.
“É importante a gente
manter essa tradição de respeito ao cadáver, porque é através
dele que a gente aprende todas
as nossas bases anatômicas,
que vão dar fundamento para
o nosso trabalho médico daqui
para frente”, justica-se o estu-
dante Vinícius, reconhecendo
a importância que têm aqueles
corpos para a produção do conhecimento cientíco.
A inauguração da placa se
deu no nal de 2009, durante
uma cerimônia ecumênica na
própria sala de Anatomia, na
qual não faltaram música e poesia. “A gente improvisou: colocamos uma mesa, alguns ar-
ranjos de ores e trouxeram
o capelão do Hospital de Clínicas para ler uma mensagem
religiosa, falar algumas palavras”, conta Matheus. “Eles
são nossos primeiros mestres.
São mestres que, mesmo não
lecionando diretamente, são
essenciais na nossa formação
acadêmica e pessoal”, pondera o acadêmico.
8
01 a 15 de abril de 2010
ANA PAULA
MENEGHETTE ZANOBIA e
NATHÁLIA BRAGION
BRUNELLI
Forró, samba, salsa e dança dos anos 50, em ambientes
tematicamente decorados, reúnem toda semana centenas de
pessoas que saem para dançar
em baladas animadas com música ao vivo em Campinas. Para
alguns freqüentadores, a dança
que ali praticam não se trata
apenas de diversão, mas de um
ritual que poupa dinheiro com
psicólogos ou com academias
de ginástica.
O local mais procurado
para dançar forró em Campinas é a Cooperativa Brasil,
instalada numa propriedade
que, por fora, tem a aparência
de uma chácara. Ao entrar, o
visitante depara-se com um
barracão decorado com bandeirinhas e balões, com luzes
coloridas, tudo no melhor estilo nordestino, onde se abriga
o maior ambiente para dançar
forró na Região Metropolitana
de Campinas.
Criada no ano de 1996, a
Cooperativa Brasil foi fundada por sete estudantes da
Unicamp, que buscavam um
espaço barato e divertido, que
resgatasse o folclore brasileiro.
Atualmente, a casa é comandada por apenas dois sócios: Luiz Fernando da Costa
Dias e Rogério Zanaga. Luiz
conta que a preocupação da
Cooperativa não é só cultural, mas também com o meio
ambiente. A prova são a reciclagem das latinhas de refrigerante e cerveja consumidas
nos eventos ali promovidos, e
as poucas luzes acesas, que evitam o desperdício de energia e
que, ao mesmo tempo, dão um
toque de aconchego ao local.
São detalhes que diferenciam
este dos demais pontos de
dança em Campinas.
A casa funciona todas as
sextas-feiras e oferece uma
programação com bandas
tradicionais de forró, como o
Trio Virgulino, com pelo menos 40 anos de estrada. O público é bastante diversicado,
de todas as idades. Entre os
mais tímidos, os movimentos
são contidos, já os mais extrovertidos só abandonam o forró quando a música acaba.
Ildemar Cassonatto, freqüentador da Cooperativa há
dois anos, diz que encontrou
no forró uma espécie de terapia para relaxar e esquecer os
problemas do dia-a-dia, além
de ser uma forma de fazer novos amigos.
Christian Domingues e
Néia Castilho, que praticam
o forró há cerca de um ano,
fazem uma dupla que dá um
show à parte na pista de dança. Néia, que já havia estudado
dança de salão, conta que preferiu o forró por considerá-lo
um ritmo “mais quente e envolvente”.
SAMBA
Protegida por uma imagem
de Iemanjá, a Casa São Jorge,
FOTOS
TOS: NATHÁLIA BRAGION BRUNELLI
Adriana Ramos e Rafael
Stina, à esquerda: anos
50 no Woolly Bully ;
e Fernanda Masotti e
Rafael Borrego: salsa
no Rudá Bar
O mapa da dança em Campinas
cujo nome advém do padroeiro da cidade do Rio de Janeiro,
possui um estilo próprio. Um
ambiente decorado, porém
não convencional de uma boate, com luzes e globos espelhados, remete ao subúrbio do
Rio de Janeiro, com mesas que,
ao longo da noite, vão perdendo espaço para os pés que se
empolgam com o tocar do
pandeiro.
O samba toma conta e o
público, de cerca de 250 pessoas que costumam lotar a casa,
dança ali mesmo, na frente dos
músicos que se apresentam
diante de uma parede colorida,
tendo ao fundo a imagem do
mestre Cartola.
Fundada no ano de 2002,
o casa apresenta uma programação diversicada, incluindo
forró, samba rock e dança latina, mas tem como forte, desde
sua criação, o samba. Em três
dias da semana –quarta, sexta
e domingo– este ritmo tem
presença garantida na Casa
São Jorge, com um público diferente a cada dia. As quartas
são típicas de universitários;
nas sextas, os casais predominam; e o domingo é considerado “dia de todos”, pois a casa
ganha uma população mixada.
De acordo com a gerente,
Marina Domene, a Casa foi
eleita por três anos consecutivos –2007, 2008 e 2009– pela
“Veja Campinas” como o
melhor lugar para se dançar
na cidade. A Casa São Jorge
organiza projetos para divulgar novos músicos da MPB e
também outros estilos, como a
música de Olinda.
Entre todos os atrativos da
casa, a dança é o que realmente
chama o público, como o casal
Camila Rocha e Paulo Bussalo,
que freqüenta o espaço há dois
anos, pela variedade de ritmos
e a qualidade do som ao vivo.
Leandro Costa é freqüentador assíduo desde a inauguração e fala que a Casa São Jorge
é seu lugar predileto nas noi-
tes, pois une música, cultura e
arte, além do ambiente propício para dançar.
ONDE SE
LOCALIZAM
SALSA
Inaugurado em setembro
de 2005, o Rudá Bar é o local
freqüentado pelos amantes da
dança latina. Segundo um dos
proprietários, Guilherme Pierrotti, o bar não tinha inicialmente a proposta de ser um
espaço de dança, mas a estrutura do ambiente, um grande
galpão pouco iluminado, com
mezanino e um palco, fez com
que o público fosse ao local
com o propósito de dançar. As
várias mesas espalhadas fazem
com que os mais retraídos quem de olho em cada passo
executado por aqueles que se
deixam levar pela música.
Com uma programação variada, o Rudá apresenta, todas
as sextas-feiras, show de música latina, incluindo salsa, merengue e chá-chá-chá. A idéia
da noite latina surgiu pela falta de locais em Campinas que
dessem espaço para o ritmo e
à grande demanda de público
por este tipo de dança.
Hoje, o bar recebe muitos
latinos de outros países que
vivem no Brasil e que encontram ali uma oportunidade de
matar a saudades da cultura
deixada para trás.
O mexicano Rafael Borrego, por exemplo, freqüenta o
bar há mais de um ano e diz
que a forma de dançar salsa
no Brasil é semelhante à do
seu país. Sua parceira de dança, Fernanda Masotti, sai de
sua casa na cidade de Jundiaí
para se divertir ao som caliente
da salsa, pois lá não encontra
este estilo.
Além dos imigrantes, o
Rudá recebe pessoas que estudam os ritmos latinos em academias de dança.
Para aqueles que não sabem dançar mas têm vontade
de aprender, o espaço apresen-
ta um diferencial: aulas gratuitas uma hora antes de o show
começar.
ANOS 50
Um carro atravessando a
parede: é assim a entrada do
Woolly Bully, em Vinhedo, local onde, ao som dos Beatles
e Elvis Presley, os adeptos da
dança dos anos 50 se encontram.
O proprietário, Kadú Galvão, sempre foi um admirador
do estilo e começou organizando festas tematizadas nos
anos 50. Com o tempo, ganhou dinheiro suciente para
construir e inaugurar o Woolly
Bully, no ano de 1994. Hoje,
é considerado, no Brasil, o
maior bar nessa categoria. As
palavras Woolly e Bully, do
inglês, signicam lã e encrenqueiro respectivamente.
Segundo Kadú, a junção
dos termos faz referência aos
“bad boys” da época, que usavam jaquetas de lã com mangas de couro e iniciais da escola bordadas.
O local oferece uma viagem
de volta ao passado. Ao entrar,
o visitante depara-se com uma
das roupas do gurino de Elvis envolta em uma redoma de
vidro e uma decoração rica em
detalhes. Chão quadriculado
em preto e branco, cadeiras
coloridas e, na parede azul e
rosa, retratos, como o da diva
Marilyn Monroe e inúmeros
objetos compõem o cenário típico da
época.
Mesmo quem não vivenciou o período clássico do
rock contagia-se com o clima
retrô. O público é variado,
abrange desde os mais jovens
até os que se encontram na
faixa dos 50 anos. Muitos entram totalmente na atmosfera
dos anos 50 e vão a caráter:
boina, cintos, saia rodada, maquiagem forte, olhos delineados pelo lápis preto e batom
vermelho.
As garçonetes, vestidas
com gurino da época, ao
mesmo tempo que servem os
hambúrgueres acompanhados de fritas e Coca e Cola,
no estilo american diner, dançam no meio da pista, para
animar o ambiente e chamar
o público para dançar.
Adriana Ramos, freqüentadora há 12 anos do local,
conta que conheceu seu marido, Rafael Stina, numa das
noites no Woolly Bully. Desde
então, formam uma dupla imbatível na categoria Anos 50.
A professora de dança
Ivana Camargo diz que sempre gostou desse tipo de dança, tanto que ia até São Paulo
para poder dançar o ritmo.
Foi no Woolly Bully que ela
ganhou destaque na pista e,
atendendo a pedidos, resolveu dar aulas do ritmo.
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