01 a 15 de abril de 2010 O freelancer er Marcelo Gotti diz que trabalhar abalhar em casa permite maiorr concentração nas tarefass do repórter. Página ági g na 3 Ano 4 - Nº 59 - Faculdade de Jornalismo - PUC-Campinas - 1 a 15 de Abril de 2010 1 FOTO: LAÍS VEDOVATO Campinas ganha diário gratuito Adriana Ramos e Rafael Stina, no Woolly Bully, estão entre os casais que procuram casas noturnas para dançar em Campinas, cidade que oferece poucas opções para quem curte a arte. Página 8 “A cerveja brasileira é muito ruim” ong etro de H Capa do M : o çã u d Repro FOTO: NATHÁLIA BRAGION BRUNELLLI Roteiro para quem gosta de dançar O jornal internacional “Metro”, que existe em 21 países e possui edições regionais em São Paulo, Santos e ABC paulista, está chegando em Campinas. Como na capital do Estado, será distribuido de segunda a sexta-feira, gratuitamente, nos cruzamentos das principais ruas da região central. A publicação, com tiragem de 30 mil exemplares, terá tamanho compacto, o que facilita a leitura em ônibus. Resultado de uma associação dos grupos Metro Internacional e Bandeirantes, o novo jornal quebra jejum de 14 anos sem concorrência de mídia impressa na cidade, desde que o “Correio Popular” comprou “Diário do Povo”. Página 4 Corpos doados são úteis por até 30 anos Ao menos um cadáver não reclamado por familiares é mensalmente destinado a instituições de ensino e pesquisa da região de Campinas, onde são estudados por até três décadas. A doação é cercada por cuidados éticos e restrições legais. Página 7 ACOMPANHE O SAIBA+ FOTO: R. MIKELLI LACIS PORTAL: http://www.saibamaisnet. com.br/ EMAIL: saibamaiscampinas@gmail. com O físico Rogério Cézar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e recém-homenageado com o título de cidadão campineiro, abre guerra contra as cervejarias nacionais. Página 5 TWITTER: http://twitter.com/jornalsaibamais 2 01 a 15 de abril de 2010 CARTA AO LEITOR Notas Por um jornalismo plural ROMEU EU CALDEIRA MARCELLO CARVALHO No dia 29 de maio, o professor Luiz Paulo Rouanet, da PUC-Campinas, lança seu novo livro Paz, justiça e tolerância no mundo contemporâneo, às 16 horas, na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi. A obra reúne artigos publicados pelo autor desde 2000, além de dois inéditos, que discutem questões sobre justiça, educação, meio-ambiente e política na sociedade moderna. FOTO: ROMEU CALDEIRA Luiz Paulo Rouanet lança ça livro Prêmio Saiba+/RAC Projeto em fotojornalismo vence Prêmio Bosch No dia 17 de março foram divulgados os nomes vencedores do Prêmio Saiba+/RAC de Jornalismo Laboratorial, em quatro categorias. Na categoria capa, os vencedores foram os então estudantes Leonardo dos Anjos Miguel, Luciano Giuliani e João Paulo Munhoz. A recém-formada Maurem de Cássia Ribeiro venceu em crônica; e Gustavo Stivali Teixeira foi premiado em fotograa e reportagem, dividindo a última com o colega Tiago Toledo. Os alunos do curso de Jornalismo Lana Torres, Fábio Bonilho e Maíra Vincentim venceram o Prêmio Bosch de Jornalismo versão 2009, com o trabalho de conclusão de curso (TCC) em fotojornalismo intitulado “Mãos Azuis – uma fábula fotográca sobre Toritama, a capital do jeans”, orientado pelo professor Celso Luiz Bodstein. Com o prêmio, os alunos receberam uma bonicação no valor de R$ 1 mil. “O maior jornal do mundo”. É esse o slogan universal do jornal que vai circular em Campinas, cidade que agora terá o periódico “Metro”, distribuído em 21 países e 150 cidades. É este o tema da reportagem que o Saiba + jornal laboratório da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas traz na página 5, onde explicamos como vai funcionar sua implantação na cidade e abrimos uma discussão sobre este novo modelo de negócio: o de acesso gratuito à informação impressa. O modelo faz com que toda a receita do jornal provenha exclusivamente da publicidade, sem que o leitor participe como um dos agentes nanciadores das informações que recebe, estratégia que desperta uma discussão sobre os compromissos de jornais e jornalistas. A rigor, um jornal não pode apenas se preocupar com os anunciantes simplesmente porque estes o nanciam, mas deve se comprometer também com o leitor, produzindo informação de qualidade, com isenção e boa apuração. A segurança nanceira não exime uma boa publicação de seu papel social e o leitor, apesar de não pagar nada pelo produto, tem que se sentir contemplado por ele. A chegada do Metro em Campinas estimula a concorrência, já que a cidade até então conta com apenas um grupo gerador de jornalismo impresso, e agita os repórteres na busca pela informação exclusiva o furo de reportagem. A vontade de dar a notícia em primeira mão certamente fará com que se desenvolvam novos olhares sobre a sociedade local. O beneciado será a população, agora com uma opção de escolha. Mas não será sem qualidade e credibilidade que esse novo modelo de negócio vingará. Antes do êxito econômico, o importante será a preservação do bom jornalismo. É exatamente isso que procuramos reetir nesta edição 57 do Saiba +, que ainda nos coloca à mesa um outro bom tema em torno do qual podemos discutir a questão da qualidade: a cerveja, a velha paixão nacional que foi colocada no banco dos réus por um dos maiores intelectuais brasileiros. Estes e outros temas são o que de melhor poderíamos oferecer. A todos, uma boa leitura. CRÔNICA Jornada vai debater a importância do repórter Nos dias 18 e 19 de maio, a próxima edição da Jornada de Estudos de Jornalismo, promovida pela Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, terá como tema a importância do repórter nos dias atuais. O tema gira em torno da discussão “o jornalismo muda, se desenvolve com novos meios, como a internet, porém a presença do bom repórter na cobertura jornalística continua indispensável”. Jornalismo terá especialização em política Copa motiva curso de jornalismo esportivo “Política e mídia jornalística” é nome de curso de extensão a ser oferecido pelo professor Artur Araújo, junto com Ricardo Alécio, autor da coluna Xeque-Mate, do Correio Popular, com o propósito de instruir alunos a partir da dinâmica do jornalismo especializado em política: da redação aos departamentos de assessoria de imprensa. O curso tem previsão de início em 29 de maio, prolongando-se até 26 de junho. Com a proximidade da Copa do Mundo na África do Sul, a Faculdade de Jornalismo da PUCCampinas pretende criar um curso de extensão em jornalismo esportivo, tendo o intuito de explorar os conhecimentos sobre os mecanismos das grandes coberturas. O curso tem previsão de início entre maio e junho, a ser ministrado pelo professor Luiz Roberto Saviani Rey. Dacom participa de Momento Cultural FOTO: ROMEU CALDEIRA O Diretório Acadêmico de Comunicação (Dacom), administrado pelas alunas Carla Puttini e Milena Welsh (foto ao lado), participará de um momento cultural apresentado durante a Jornada de Jornalismo. O evento, organizado pela Faculdade de Artes Visuais, terá exposições de obras artísticas como pinturas, além de apresentações de dança, todas produzidas por alunos dos cursos de Comunicação. A arquitetura do instante DANIEL SERRANO As sirenes foram de teatro (três toques antes do espetáculo), mas houve poesia na implosão da velha rodoviária de Campinas, muito pelo fato de seu início ter praticamente coincidido com seu m. Em matéria de edicação, seria excesso de rigor negar o rótulo de instante àqueles dois segundos de um domingo. Houve quem tenha contemplado, às 11:02 de um m de março, uma esquisita transformação: a rodoviária permaneceu sólida, é verdade, mas passou de construção a escombro, e liquefez-se na paisagem visual da cidade. Não é inteiramente correto armar que o haikai é uma forma de poesia. Na tradição japonesa, o terceto é antes uma prática espiritual; a arte de capturar um instante fugaz e de xá-lo em palavras de maneira simples e objetiva. Bashô agrou o voar de um inseto (A libélula,/ Sem conseguir se agarrar/ A uma folha de capim.)*; Issa, um ladrão meio inofensivo (A lua da montanha/ Gentilmente ilumina/ O ladrão de o- res)*. Os campineiros ltraram a tradição: abriu-se mão da simplicidade a implosão teve a exuberância das grandes destruições , mas manteve-se o instantâneo. Foi fugaz o movimento que tombou a velha rodoviária. Dele, restaram apenas haikais particulares. Do sujeito que o acompanhou ao vivo, o som e a poeira; do que o assistiu pela TV, a multiplicidade de perspectivas; ao que tinha a rodoviária como vizinha, sobrou talvez um espelho quebrado; do que se mudou há tempos, não será surpreendente constatar que a memória reproduz, meio esfumaçado, um correcorre apressado de pernas e de rodas. Não era uma boa rodoviária, essa nossa velha. Se produziu poesia ao cair, foi por oposição à prosa relatorial que ostentava quando ativa, digna apenas de gurar numa hipotética brochura de capa marrom de uma prateleira empoeirada: “Antologia pessoal do provincianismo”. * Traduções de Edson Kenji Iura FRASES DA EDIÇÃO 57 “Quando Jesus nasceu, a estrela de Belém guiou os três Reis Magos até ele. É evidente que se tratava de uma nave espacial em operação”. (De Raul Paschoal, professor de um curso de Realidade Ufológica em Campinas) *** “A gente vai conversando, tentando perceber se aquilo é realmente um chamado de Deus, e não uma ilusão da pessoa”. (Da Irmã Ana, superiora do convento das carmelitas em Campinas, sobre as aspirantes à vida religiosa) SAIBA+ (GRATUITO) NAS BANCAS Jornal laboratório produzido por alunos da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas. Centro de Linguagem e Comunicação (CLC): Diretor: Pof. Dr. Rogério E. R. Bazi; Vice-Diretora: Profa. Maura Padula; Diretor da Faculdade: Prof. Lindolfo Alexandre de Souza. Tiragem: 2.000. Impressão: RAC. Editor-chefe e Professor Resp.: Prof. Dr. Carlos Alberto Zanotti (MTb 17.463) Capa: Ricardo Traldi Dias Endereço: CLC - Campus I - Rod. D. Pedro, Km 136 Cep: 13086-900 E-mail: [email protected] Panetteria Di Capri: R. Maria Teresa Dias da Silva, 530; Banca do Ademir: Praça 30 de dezembro (B. Geraldo); Banca do Português: Próx. Varejão Oba (B. Geraldo); Banca Barão: Av. Albino J.B.Oliveira,1.480 (ao lado City Bank); Banca Central: Av. Santa Isabel, 20; Padaria Alemã: Av. Dr. Romeu Tórtima, 285; Banca Rio das Pedras: R. Maria T. Dias da Silva s/n; Banca do Mineiro: R. Benedito Alves Aranha, 201; (ao lado da Matriz de Santa Isabel); Banca Frutaria: R. Maria T. Dias da Silva, 790; Banca do Alemão: R. General Osório esq. c/ Francisco Glicério; Banca da Bia: R. Dr.Thomas Alves; Banca da Mara: Av. Francisco Glicério (em frente ao Correio e Telégrafos); Banca do Léo: Av. Dr. Romeu Tórtima, 283; Banca Riviera: Av. Cel. Silva Telles, 37; Banca Lagoa: Av. Heitor Penteado, Portão 1; 100% Vídeo Cidade Universitária; Banca do Guará; Banca Rosário: Largo do Rosário; Café Regina: R. Barão de Jaguara, 1.032; Banca Cidade Universitária: R. Ruberley Boareto da Silva, 1015. Em Itatiba: Banca Palu: Av. Vinte e Nove de Abril, 80. 3 01 a 15 de abril de 2010 LAÍS VEDOVATO Trabalhar em casa, ter liberdade para fazer os próprios horários, se ver livre de chefes... Ao se deparar com essa liberdade, ser freelancer (ou frila, como a atividade é conhecida no Brasil, expressão do inglês free lancer) parece uma condição funcional perfeita para jornalistas, mas exige muita disciplina e competência para administrar o trabalho. Freelancer é o empreendedor autônomo que oferece seus serviços a diferentes empresas, ou guia seu trabalho por projetos e atende clientes de forma independente, podendo trabalhar como prestador de serviços ou como empresa. Quem atua nessa área deve apresentar características como pontualidade, compromisso com o cliente, aprimoramento constante, dinamismo, empreendedorismo e otimismo, segundo Penélope Rosa, 50 anos, jornalista freelancer que trabalha em casa há 4 anos com projetos sociais e de cultura. De acordo com ela, não se deve car pensando na possibilidade de não dar certo, “porque aí não dá mesmo”. A atividade também exige que o interessado saiba lidar bem com a instabilidade funcional, já que o prossional pode ganhar muito em um mês e nada no outro; pode trabalhar muito em uma semana, e nada na outra. “Já trabalhei 20 horas seguidas, como também trabalhei só 2 horas em uma semana”, lembra o criador do site carreirasolo.org e do podcast falafreela.com.br, Mauro Graça do Amaral, de 36 anos, freelancer de conteúdos de web há 13 anos, hoje dono de sua própria produtora, a ContémConteúdo (www. contemconteudo.com). “Fica difícil planejar alguma compra a longo prazo” Como não tem carteira assinada, conseqüentemente o prossional do ramo não tem direitos trabalhistas como FGTS, férias, décimo terceiro salário e vencimento garantido no nal do mês. “Fica difícil planejar alguma compra a longo prazo, já que não é possível saber se vou ganhar a mesma coisa daqui seis meses”, diz Bárbara Axt, 31, jornalista free lancer há 8 anos. Há 2 anos, é frila em Londres e tem em seu currículo uma reportagem de capa para a “Superinteressante”, da Editora Abril. Marcelo Gotti, freelancer do site Futebol Interior há 7 anos, mas que também tem trabalho xo na área, acredita que ser autônomo e registrado são atividades complementares. “O freelancer seria uma renda a mais no nal do mês, mas é importante ter um trabalho xo com carteira assinada”. Ao contrário do empregado xo, o freelancer pode traba- “Eu vivo de frila” O jornalista sem carteira assinada pode desfrutar de mais liberdade, mas precisa ter foco e disciplina para sobreviver na área FOTOS: LAÍS VEDOVATO estar sempre buscando novas ideias seguidas de ação. O freelancer empreendedor faz uso da própria capacidade de combinar recursos produtivos, como capitais, matéria-prima e trabalho, para a realização de obras, prestando serviços destinados a satisfazer necessidades. Além disso, é preciso buscar clientes e ter um bom planejamento nanceiro para se sustentar no começo, comprar equipamentos básicos para o homeofce: computador, gravador, câmera fotográca, telefone... “Quem nos contrata tem que, em princípio, pagar os telefonemas, o deslocamento e livros que tenhamos que comprar. Mas esse reembolso só vem lá na frente, junto com o pagamento”, adverte Bárbara Axt. “No início é difícil, mas a gente pega o jeito” Penélope: “É preciso ter disciplina”; abaixo, Marcelo Gotti, da área esportiva “Aumenta a concentração”, diz Amaral A ausência de um chefe pode ser positiva para o andamento da matéria. “Não tem aquela tensão de entregar o texto e o chefe mudar tudo só porque é chefe, ou ouvir sermão se você atrasou 5 minutos”, comemora Penélope. O freelancer esportivo Marcelo Gotti acrescenta que outro ponto positivo é poder escolher o ambiente e condições de trabalho que favorecem o prossional. O carreira-solo tem a condição de fazer seu próprio horário para torná-lo mais exível. Penélope garante que, quando está cansada, para, faz um café, ouve música - faz atividades que no trabalho não são permirmitidas. Bárbara Axt também bém pensa assim: “Eu pre ero trabalhar em casa, com meus horários, cuidando da minha inha vida. Posso fazer outras coisas quando a concentração ação acaba, e volto logo depois, pois, renovada”. Nestes casos, há o lado negativo também, já que ue é fácil car disperso com m os deveres da casa e ter que ue car a noite toda trabalhanando. “No começo, eu não ão conseguia separar o trabalho da casa, do cachorro, do gato e do lhar para mais de uma empresa ao mesmo tempo. Axt argumenta que, ao dedicar 100% do tempo a um único empregador e este resolver demitir os funcionários, o empregado passa de um ganho de 100% para 0% de uma hora para outra. “Se a pessoa trabalha para cinco editoras, a chance de as lho”, diz Penélope. Outro aspecto negativo apontado para a atividade é o isolamento. Quando não se tem colegas de trabalho, não há trocas de informações e ideias que possam contribuir para o desenvolvimento do projeto. “Se não car atento, você pode ‘sair do ar’ ou ‘sair do mercado’, por car muito tempo no seu homeofce”, alerta Amaral. Gotti, ao contrário, acredita que o isolamento pode ser benéco, pois “aumenta o grau de concentração”. Esperar as férias e evitar calotes são outras questões para as quais é necessário ter paciência e atenção. Folga, só existe quando o cliente também está de folga; e calote só se toma se o empregador for um picareta. “Trabalhei para uma revista que não queria me pagar de jeito nenhum, mas depois que eu descobri o e-mail do dono da empresa e, quando mandei uma mensagem para ele, o dinheiro apareceu na minha conta”, informa Amaral. Barbara Axt também já trabalhou para empresas grandes, como as editoras Abril e Globo, e garante que é impossível levar calote de empresas assim. Penélope arma que a atividade é uma boa saída para quem busca um emprego no mercado de trabalho e não encontra. Para ela, ser freelancer é muito melhor do que ser empregado. “A chance de ter uma boa renda é melhor do que para trabalhadores de empresas”, arma a freelancer, que ganha, em média, R$ 3 mil por mês. cinco terem problema de caixa é mínima”, arma. tornar um freelancer é ter uma formação técnica bem sólida. Depois, pesquisar ou matricular-se em disciplinas de empreendedorismo, que ensinam como estar sempre motivado pela autorrealização, ter desejo de assumir responsabilidades, independência, assumir novos desaos e, principalmente, “... reembolso só vem junto com o pagamento” O primeiro passo para se Não conhecer a fundo as publicações para as quais prestar serviço torna mais difícil manter-se na ativa por muito tempo, uma vez que, ao não se encaixar nos padrões que a publicação pede, não há mais a procura pelo serviço. Desse modo –adverte Penélope– é preciso saber muito bem o que os editores querem, e mandar sugestão de pautas até acertar. “No início é difícil, mas com o tempo a gente pega o jeito”, assegura. Já Bárbara Axt arma que, no começo, tomava a iniciativa de enviar sugestões de pautas, mas depois de um tempo os editores passaram a contar com os serviços dela e sempre ligam para saber se está disponível. “Mas chegar nesse estágio exige tempo e dedicação”. O ideal para frilas em jornalismo é conhecer bem o mercado editorial, uma vez que, a partir daí, será possível moldar sua formação para ser a melhor solução na área em que presta serviços. Segundo Bárbara, é importante um pouco de foco, já que grande parte do trabalho do freelancer é fazer contatos, saber quem são as pessoas importantes em determinadas áreas e manter uma boa relação com os clientes. “No meu caso, isso signicava ganhar a conança dos editores de revista”, diz. A rotina precisa ser revestida de disciplina. Lista de tarefas e hora de trabalho religiosamente cumprida são detalhes com os quais é preciso ter muita atenção. Penélope, pela manhã, faz suas produções, e à tarde freqüenta reuniões com os clientes. Enquanto isso, para Vera Longuini, dona da empresa Ateliê da Notícia, cada dia é uma surpresa, já que a programação do dia depende dos clientes. “Se eles me ligam e falam que precisam de uma reunião, eu tenho que desmarcar tudo e ir”. 4 01 a 15 de abril de 2010 Na penúltima quinta-feira de março, Campinas conheceu uma amostra do que será o novo jornal diário que, a partir de data não revelada até o fechamento desta edição do Saiba+, circulará gratuitamente com pelo menos 30 mil exemplares distribuídos em locais de grande circulação de pedestres e de veículos na cidade. O “Metro”, que existe com este mesmo modelo de negócio em outros 20 países e possui alcance superior a 20 milhões de leitores diários, é fruto de uma parceria dos grupos Metro Internacional (pronuncia-se Métro) e Bandeirantes de Comunicação, rede nacional que atua tradicionalmente no ramo de rádio e televisão. A circulação inaugural ocorreu sem alarde, com manchete de capa revelando que a cidade gera 43 novos empregos por dia. Também na primeira página já foi possível perceber que as redações espalhadas pelos diversos países onde o jornal possui sucursais irão abastecer a publicação local, com temas de alcance internacional, como a luta vitoriosa que o ciclista americano Lance Armstrong, de 38 anos, travou contra o câncer. Na manhã do dia 18, quando o jornal circulou com edição experimental, o motorista Danilo Braga foi uma das pessoas que recebeu um dos 40 mil exemplares entregues por gazeteiros trajados de verde em alguns semáforos da cidade. Ele disse ter achado boa a publicação, especialmente por ser de graça. Na manhã seguinte, procurou pela segunda edição, mas não a encontrou. “É que a edição do dia 18 não foi a do lançamento do jornal, mas sim o marco zero, um teste”, informou a editora da versão campineira do jornal, Zezé de Lima, que deixou o “Correio Popular” para abraçar o novo emprego. Paulo Rodrigues, porteiro de um prédio da região central da cidade, também viu o jornal “Metro” e, como leitor assíduo dos jornais que circulam na cidade, disse que gostou da ideia de ter mais um jornal para ler, mas somente se este vier para acrescentar algo de novo. “Os jornais de Campinas são cópia um do outro”, disse. O jornalista da rádio CBN Marco Massiarelli, que também pegou um exemplar nas ruas, se disse satisfeito ao ver que Campinas ganhará um novo diário: “É importante a vinda de um jornal que seja de outro grupo, porque a cidade está engessada com jornais de uma mesma empresa”. A primeira edição circulou com 16 páginas, das quais apenas quatro destinadas exclusivamente à cidade de Campinas. O expediente, por falha na revisão, veio com dados do “Metro” distribuído na região do ABC (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano, municípios da grande O primo rico chegou Campinas ganha jornal diário gratuito, resultado da parceria dos grupos Bandeirantes de Comunicação e Metro Internacional, que possui 20 milhões de leitores nos 21 países onde circula Gratuidade como negócio FOTO: NÁDIA MACEDO CAPAS: DIVULGAÇÃO NÁDIA MACEDO São Paulo), onde existe desde outubro de 2009. Ao folhear o jornal, a professora da disciplina Produção Editorial, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, Cecília Toledo, disse que as páginas destinadas a Campinas pareciam “mais pesadas” visualmente do que as destinadas às demais editorias. A docente ressaltou ainda que, através da capa, já é possível perceber a intenção de o jornal manter uma imagem ecologicamente correta, pois no lado esquerdo da primeira página vêm anotadas na vertical as seguintes informações: “O Jornal Metro é impresso em papel FSC, garantia de manejo orestal responsável, e com tinta ecológica elaborada com matérias-primas bioderivadas e renováveis pela gráca Plural” e “Recicle a informação: passe este jornal para outro leitor”. No Brasil, o “Metro” é uma joint venture, ou seja, uma associação de empresas, do Grupo Bandeirantes de Comunicação com o Metro Internacional. Não é à toa que, em Campinas, a redação do novo periódico está instalada na sede do Grupo Band na cidade, que ca no alto do Jardim São Gabriel, bairro da região sul. Além de Zezé, outra exfuncionária do “Correio Po- A professora Rose Bars, com edição experimental do “Metro” de Campinas; e capas da publicação em Atenas, Hong Kong, Lisboa, París e Nova York pular”, a jornalista Rose Guglielminetti, pediu demissão para atuar no novo empreendimento. O jornal, que nasceu na Europa e segue o modelo de periódico gratuito com grande crescimento nos primeiros anos do século XXI, já está presente em países, como Estados Unidos, Grécia, China, Itália, Equador, Canadá e França. No Brasil, o jornal é distribuído de segunda a sexta-feira na capital paulista, em Santos e no ABC. A chegada do jornal em Campinas, segundo o diretor comercial do “Metro São Paulo”, Oscar Osawa, faz parte do projeto de expansão nacional desse veículo. Osawa revelou, ainda, que o projeto é circular em Campinas com 40 mil exemplares no início, devendo se estabilizar em 30 mil diários na sua fase de consolidação. Segundo a editora, Zezé de Lima, o jornal vai circular como em São Paulo, de segunda a sexta no período da manhã, sendo distribuído nos cruzamentos das principais ruas e avenidas de Campinas. O jornal “Metro”, segundo Oscar Osawa, tem como intuito proporcionar ao leitor uma leitura rápida: “Nosso jornal é compactado, montado e produzido para ser lido em 20 minutos”, arma. Osawa diz que a linha editorial do Metro é “dar apenas a essência de cada notícia”, sem a preocupação de publicar grandes reportagens. “Nossos jornalistas são, na média, mais experientes do que os de outros jornais, pois é muito mais difícil fazer um resumo da notícia do que explicar um fato em uma página inteira”, raciocina ele. MERCADO Segundo a professora Flailda Brito Garboggini, pesquisadora da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas, a chegada do Metro é vista de forma positiva pelo mercado publicitário. “Até agora, não tínhamos nenhum jornal de assuntos gerais que tivesse circulação gratuita, a exemplo do que há muitos anos já ocorre nos países europeus”. Apesar do fator positivo destacado pela docente, Flailda imagina que esta novidade pode ser prejudicial aos jornais locais. “O Metro, como um jornal gratuito, vai prejudicar, de certa forma, as vendas dos jornais da cidade, e poderá diminuir o interesse do leitor pelas publicações pagas. E, diminuindo o interesse do leitor, também diminui o interesse por parte dos anunciantes.” Embora não seja uma novidade, a distribuição gratuita de jornais intensicou-se nos primeiros anos do século XXI, como uma resposta ao avanço da internet e ao seu conteúdo disponibilizado gratuitamente. Segundo a professora de Jornalismo Impresso e Jornalismo On Line, da Faculdade de Jornalismo da PUC-Campinas, Rose Bars, este modelo de negócio começou na Europa, com o intuito de manter índice alto de circulação, garantido pela distribuição em locais com grande uxo de pessoas, como as estações de metrô em Paris, Londres ou Madri. Segundo a professora Rose, o objetivo central é garantir a verba publicitária para cobrir a ausência de receitas com assinaturas e venda em bancas. “A audiência é a ‘arma’ para esses jornais conquistarem anunciantes”, explica. Rose diz ainda que a tendência do formato tablóide para esse tipo de publicação deve-se aos locais em que geralmente são lidos. “Eles são feitos para uma leitura rápida, voltados geralmente para a prestação de serviços; são coloridos e no formato tablóide ou germânico para facilitar o manuseio pelo passageiro do metrô ou do ônibus urbano”. Segundo Rose, apesar de ser uma tendência com rápido crescimento neste século na Europa, o jornal gratuito não funcionou muito bem nas vezes em que já foi experimentado no Brasil. “Dos gratuitos lançados no Estado de São Paulo, poucos sobreviveram. O que mais tem fôlego é o ‘Metro’, que começou na capital e que agora chega a Campinas”. Tendo em vista a gratuidade do jornal como tendência, Rose Bars ressalta não acreditar que o modelo gratuito venha em substituição ao modelo existente de circulação paga. “É apenas uma tendência”, sugere. Quando questionada sobre os jornais gratuitos que a Rede Anhanguera de Comunicação (RAC) lançou há alguns anos, Rose lembra que das Gazetas de Ribeirão Preto, de Piracicaba e do bairro Cambuí, apenas a última permanece gratuita. 5 01 a 15 de abril de 2010 O intelectual e a cerveja O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, que coleciona títulos e honrarias decorrentes de atividades no ensino superior e de serviços prestados ao país, lança-se a uma batalha contra a má qualidade da bebida mais consumida no Brasil FOTOS: R. MIKELLI LACIS R. MIKELLI LACIS “A cerveja: bebendo gato por lebre”. Foi com este título que o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, 78 anos, uma das maiores autoridades brasileiras em energia, publicou artigo na página 3 da “Folha de S.Paulo”, em 18 de dezembro do ano passado, comprando briga com a gigante nacional da indústria cervejeira, a Ambev. Em entrevista ao Saiba+, este professor emérito da Unicamp, rodeado pela maior discoteca de música clássica do Brasil, instalada em seu escritório, lamentou que as autoridades brasileiras não se preocupem com a qualidade da bebida alcoólica mais consumida no país, que coloca o Brasil em quarto lugar no ranking dos maiores fabricantes mundiais do produto. “Sou um cervejeiro bastante dedicado”, confessou Cerqueira Leite, que recorreu a um expediente muito simples para criticar a má qualidade da cerveja brasileira: fez os cálculos entre o volume de bebida fabricada no país aís (10 bilhões de litros anuais) s) e o volume de cevada utilizada zada pelos fabricantes (400 mil toneladas). Segundo ele, o resultado nem de longe aponta para um produto de boa qualidade. E reiterou o que já havia escrito no jornal: al: “A cerveja brasileira - com m pequenas e honrosas exceções ões - é como pão de forma: mata a sede, mas não satisfaz az o paladar exigente”. Doutor em Física pela Universidade de Paris, Cerqueira Leite te já trabalhou e contribuiu ribuiu em diversos países es como França, Estados os Unidos e Inglaterra. Dentre prêmios e títulos que recebeu, se destacam a Ordem Nacional do Mérito da França e a Cátedra da Universidade niversidade de Montreal (Canadá), adá), além do título de cidadão dão campineiro que conquistouu no último dia 18 de março, na Câmara Municipal. Em seuu currículo, ainda constam participações rticipações em missões estrangeiras geiras a serviço da Presidência da República, quando elaborou ou acordos de cooperação em m tecnologia industrial. Além m de professor emérito da Unicamp, é um i dos fundadores da Academia Paulista de Ciências, membro da Organização das Nações Unidas e membro do conselho editorial do jornal “Folha de S. Paulo”. Ao justicar a publicação do artigo, o físico confessou que houve certa dose de egoísmo no ato de escrever sobre Cerqueira Leite lamenta que as maiores cervejarias nacionais banalizem seus produtos Ping-pong com Cerqueira Leite Ping-po Qual a melhor m cerveja na sua opinião? opini que eu mais conA cerveja qu sumiria, se eencontrasse no Brasil, talvez fosse a Guinness, da Irlanda, mas não Irla essa em lata que se vende por aqui. Das cervejas cerve nacionais, alguma seria seri a melhor? A Stella A Artois, quando entrou no Brasil, e ainda viB nha com a fórmula de fora, f era razoável, razoável mas agora ela está muito ruim. ru Alguma história curiosa h relacionada com c cerveja? Chegando num país, eu sempre experimento as cerexper vejas locais. L Lembro-me, por exemplo, do m meu sofrimento imenso no Irã, Ir onde passei três semanas ssem beber, porque q lá não se pode consumir bebida alcoólica. É uma alcoó questão de vvida ou morte. Absolutamente proibido. Absolutamen Quando peguei pegu o avião pra sair do Irã, sentei e logo pedi se que me viesse viess uma cerveja. um assunto aparentemente sem importância. “Gosto de cerveja e quero ter à nossa disposição uma cerveja de qualidade”. No entanto no Brasil, segundo ele, isso está cando cada vez mais difícil. Para Cerqueira Leite, há uma “atitude muito pouco construtiva” das grandes cervejarias nacionais que, para baratearem seus pro- dutos e concorrerem no mercado, diminuem consideravelmente a qualidade da bebida. Para conseguirem diminuir os custos, uma das práticas é a opção por ingredientes de qualidade inferior. Seria o caso da cevada, geralmente substituída em grande parte por milho ou arroz, ingredientes mais baratos. O lúpulo, que E me disseram “não”, pois ainda estávamos no espaço aéreo iraniano. Foi um sofrimento. Na Rússia, quanto estive pela primeira vez, a cerveja era tão ruim, mas tão ruim, que dava até pra car feliz bebendo a Heineken brasileira. Sempre gostou de cerveja? Eu bebia mais vinho, antigamente, do que cerveja. Hoje em dia, bebo mais cerveja, porque um bom vinho custa muito caro. No Brasil, encontrar um bom vinho não é fácil. E a cerveja, você tolera mais. Eu sou até capaz de beber uma cerveja nacional quando vou a um bom restaurante e não tem outra cerveja, mas faço isso com muito sacrifício. Bebe cerveja com que freqüência? Meu médico me proibiu mais do que três garrafas por dia. Então está ótimo! Depende da vontade. além de dar sabor à cerveja é ser o conservante natural da bebida, é também de má qualidade, o que faz com que seja necessário adicionar estabilizantes e antioxidantes articiais. O resultado é a fabricação de cervejas cada vez mais homogêneas o que torna difícil qualquer diferenciação ou escolha por parte do consumidor. Em resposta ao seu artigo na “Folha”, um representante da Anheuser-Busch Inbev, proprietária da AmBev, argumentou, também em artigo no jornal, que a cerveja produzida no Brasil é condizente com o clima do país, sendo assumidamente mais leve e refrescante, mas nem por isso de má-qualidade. Mas Cerqueira Leite contestou: “o grande problema é que o brasileiro acaba se acostumando com essa homogeneidade quanto ao sabor da cerveja”. Para exemplicar sua preocupação com a homogeneização, o físico recorreu a uma outra bebida, o vinho, em torno do qual as pessoas buscam uma diferenciação, um paladar mais sosticado, esforço que reúne produtores e consumidores. Já com a cerveja, teria sido criada uma atitude muito passiva por parte do consumidor, que “vai aceitando qualquer porcaria que aparece”. Segundo Cerqueira Leite, “fazem um bocado de propaganda e o consumidor vai bebendo. Já não tem mais paladar, ele não procura nada. Vai se criando uma coisa homogênea, tudo igual”. Em sua opinião, o problema também é cultural, pois faltaria ao brasileiro uma cultura cervejeira. Cerqueira Leite contou que nos EUA, até 40 anos atrás, quando se chamava uma pessoa de wine drinker (bebedor de vinho), ela estava sendo rebaixada na escala de degustadores, pois a preferência era para whisky, bebida identicada à época com o que havia de mais requintado. “Mas a cultura hoje é outra: no Brasil, beber vinho, por exemplo, é bonito, e muitos consideram que beber cerveja é uma atitude vulgar”. Isso gera falta de interesse do brasileiro em conhecer cervejas diferentes, mais sosticadas e de qualidade superior, diz ele. À pergunta se consome ou não alguma das cervejas nacionais, Cerqueira disse que já fez algumas tentativas, mas sempre com o mesmo resultado: depois de algum tempo que estão no mercado, elas perdem qualidade, seja por questões de competência técnica ou porque as marcas foram adquiridas e mudaram suas políticas industriais. “Cansei de fazer essas experiências. Eu tenho uma geladeira só para cervejas. Fica dedicada exclusivamente pra cerveja. Nela, entraria cerveja nacional, eu não tenho preconceito. Muito pelo contrário. Compraria. Mas as experiências que z não foram muito boas”, lamentou. 6 01 a 15 de abril de 2010 Chico Xavier ganha lme e novela no centenário de seu nascimento FOTO: NARA LUIZA DO AMARAL DIAS; ILUSTRAÇÃO: SHIAU SHOTS BEATRIZ JORGE e NARA LUIZA DO AMARAL DIAS No ano em que comemoram o centenário de nascimento do médium Chico Xavier, o mais cultuado de seus inspiradores brasileiros, os adeptos do espiritismo –que somam quase 40 mil em Campinas– festejam o lançamento de um longa-metragem e de uma novela na Rede Globo de Televisão sobre a vida deste mineiro de Uberaba, marcada para estrear no próximo dia 12. Dirigido por Daniel Filho, o lme teve pré-lançamento no luxuoso Teatro Municipal de Paulínia, no último dia 23, exibido para 1.350 convidados. Para o jornalista Clayton Levy, médium no Centro Espírita Allan Kardec, de Campinas, as duas produções deverão estimular a expansão do espiritismo no país, onde seus seguidores somam 2,3 milhões, segundo última pesquisa do IBGE. De acordo com ele, Francisco Cândido Xavier (o Chico, como se tornou conhecido) teve grande importância no movimento espírita, ajudando a desmisticar a religião e reduzir o preconceito em torno da doutrina. “Hoje, o espiritismo já é mais aceito, sendo até objeto de estudos acadêmicos”, disse. Therezinha Oliveira, coordenadora de estudos e divulgação doutrinária do Centro Alan Kardec, referindo-se à origem da religião, diz que “a doutrina foi passada dos espíritos aos homens, através dos médiuns”. Segundo ela, a doutrina partiu das manifestações dos espíritos e que seu fundador, o francês Allan Kardec, teria coletado tais manifestações e vericado que a doutrina tinha conseqüências morais que, para ele, estavam implícitas com a religião. “Costumamos dizer: estudar Kardec para viver Jesus”, completa. Ao explicar a doutrina, Therezinha diz que, para os espíritas, o ser já existe antes de “encarnar”, expressão que designa ocupar o corpo. “Quando aquele corpo se desenvolve, permite ao espírito se expressar, se manifestar na sua totalidade. Essa é a grande diferença com as demais religiões. Acreditamos que preexistimos. Quando o corpo morre, nós continuamos existindo”. “No espiritismo a gente não tem imagem, não tem sacerdote. É uma coisa pessoal, você liga ou desliga; você sente ou não sente. Não adianta alguém tentar fazer por você. Nós somos livres diante de Deus e não precisamos de ninguém em particular para nos ligar a Deus; somos criações dele”, explica. Morreu pobre, tendo escrito 451 livros Therezinha, do Centro Kardec: “Quando o corpo morre, o espírito permanece vivo” O médium, segundo a Semiótica Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, a pesquisadora Magali Oliveira Fernandes, autora do livro “Chico Xavier: um herói brasileiro no mundo da edição popular”, arma que cada trabalho que surge sobre o médium “realimenta o mito do herói” que ele deixou inscrito na cultura brasileira. Em parte, o fenômeno se deveria ao grande sincretismo religioso que existe no país. Ela não descarta a hipótese de que o médium, com o tempo, ganhe a condição de santo. A seguir, principais trechos da entrevista que concedeu ao Saiba+. Chico Xavier foi criado por pais católicos, pobres, tendo terminado apenas o primário. Como ele se tornou um dos personagens mais inuentes do espiritismo? “Depois do lançamento de seu primeiro livro psicografado, em 1932, Chico já era um “divisor de águas” para o movimento espírita em formação no país. O livro lançado na forma de versos e com assinaturas de vários poetas brasileiros era algo inovador num período em que o repertório francês era a grande referência para os adeptos daqui. Por outro lado, Chico provocava impacto por ser, ele mesmo, um homem muito simples. Daí em diante, ele foi se rmando com um projeto pessoal de solidariedade, independentemente da religião. E isso, a meu ver, colaborou para sua consagração como um tipo de herói brasileiro.” produções contribuem para a difusão do espiritismo? “Cada trabalho novo que surge para contar uma história do personagem Chico Xavier vai realimentar o mito, a saga do herói. E o espiritismo brasileiro faz parte desse movimento, como referência, não como m.” Pode-se falar de Chico Xavier como um mito, então? “O mito Chico Xavier se expressa através das várias narrativas que vão sendo elaboradas por meio das biograas do protagonista (em livro, lmes...), bem como de sua obra. Um mito em tempo e espaço urbanos, expressando-se e reformulando-se de modo extremamente enriquecedor do ponto de vista social e cultural. Não coube no meu trabalho de pesquisa saber se era verdade ou não o que ele fazia. O que me interessou foi o acontecimento que o envolve e que se manifesta em textos, escutas e tantas outras expressões, no âmbito das ciências humanas.” Em sua opinião, pessoas de outra formação religiosa entendem e respeitam as crenças difundidas por ele? “Há uma espécie de canonização de forma muito espontânea e, vamos dizer assim, de forma bem popular, que o faz “santo” em muitos dos segmentos religiosos no país. Já ouvi uma vez na rua alguém dizer: “Rezei hoje pedindo ao Chico Xavier que me ajudasCom o centenário de nascimento do mé- se...”. Frases como essa vão se tornando cada dium, houve um boom de produções a seu vez mais comuns, e não estão necessariamenrespeito, especialmente no cinema. Estas te vinculadas a uma religião especíca.” A espírita, que trabalha no Centro há 50 anos, aponta algumas diferenças entre a doutrina que abraça e a religião católica. “Para os espíritas, não existem os chamados anjos e demônios. São todos espíritos mais ou menos desenvolvidos. A lei é de caridade, no sentido de amor, em todos os aspectos da vida. Então, não tem sentido a idéia de inferno. Porque Deus quer que a gente perdoe, mas Ele não perdoaria?”, arma Therezinha. Para os espíritas –confor- me disse–, o corpo é só uma veste, que permite ao espírito se expressar. Quando o corpo morre, o espírito permaneceria vivo, só que em outras dimensões. O tempo para reencarnar dependeria das experiências e ligações que teve em vida. Ao longo dos 92 anos em que viveu, até morrer em 2002, Chico Xaver escreveu 451 livros, com mais de 30 milhões de cópias vendidas. Ainda assim, morreu pobre. Filho do operário João Cândido Xavier e da doméstica Maria João de Deus, Chico nasceu na cidade de Pedro Leopoldo. Ingressou no espiritismo após “obsessão” (ação insistente de um espírito sobre outro) sofrida por uma de suas irmãs. O quadro levou a família a recorrer ao casal de espíritas José Hermínio Perácio e Carmem Pena Perácio para resolver o problema. “Essa dona Carmen Perácio viu sobre o Chico uma cascata de livros. Ele não tinha escrito nada ainda, mas já estava ali. Era um modo de os espíritos passarem a ideia de que ele ia receber as mensagens. Estava programado, seria a tarefa dele”, conta Therezinha Oliveira. Chico Xavier iniciou seu trabalho mediúnico aos 17 anos e passou a psicografar mensagens, inclusive textos literários que –segundo acreditam os éis– seriam ditados por escritores falecidos, como Humberto de Campos e Castro Alves. “Ele era um moço sem cultura maior. Fez, quando muito, escolinha de interior. Mas começou a receber os espíritos que escreviam literariamente. Castro Alves é maravilhoso através dele. Esse livro chamou a atenção de todo mundo. O Agripino Grego dizia assim: ‘Bom, se o livro não é de espíritos, então tem um lugar na Academia de Letras para o Chico’”, recorda-se Therezinha. A psicograa chegou a causar problemas a Chico Xavier. Quando começou a receber mensagens que seriam de Humberto de Campos, que morreu (ou “desencarnou”, para os espíritas) em 1934, a família do escritor entrou com um processo, sem sucesso, contra o médium, querendo o recolhimento das obras ou o recebimento dos direitos autorais. Chico Xavier nunca recebeu nada pelos livros que publicou, tendo doado tudo para a caridade. 7 01 a 15 de abril de 2010 Uma última missão DANIEL SERRANO PROCESSO DE DOAÇÃO TEM REGULAMENTAÇÃO DETALHADA A lei nº 8.501, de 30 de novembro de 1992, que regulamenta a doação de cadáveres não reclamados, proíbe que corpos resultantes de ação criminosa sejam doados. A restrição engloba não apenas os crimes comprovados, mas situações em que há suspeitas ou divergências no motivo da Menos de 1% dos cadáveres que dão entrada na Divisão Funerária da Setec não são reclamados por parentes ou responsáveis, o que totaliza média de 6 corpos mensais; destes, apenas um é doado para instituições de ensino e pesquisa, onde permanece em estudos por até 30 anos FOTO: DANIEL SERRANO DEPOIS DE ANOS, CORPO É FOTOS: LANA TORRES Uma observação atenta nos comunicados de falecimentos que a Setec publica eventualmente no “Correio Popular” leva o leitor à seguinte advertência: “O Serviço Funerário Municipal informa: encontrase na Câmara Fria do Necrotério do Cemitério Pq. N. S. da Conceição o cadáver abaixo relacionado e não reclamado até a presente data, o qual será doado a universidade para estudos ou pesquisas cientícas”. O cadáver em questão ca disposto na câmara fria do cemitério Parque Nossa Senhora da Conceição, próximo ao Campo dos Amarais, com capacidade para acomodar até 26 corpos. Para aproximar-se dos restos mortais, percorrese um corredor, de não mais que três metros de largura, que une duas salas utilizadas para necropsia. De cada lado do ambiente, na parede, estão posicionadas duas caixinhas de cor acinzentada que mostram, por meio de um visor digital, a temperatura no interior das câmaras. Mantidos a cerca de 5°C, os cadáveres têm sua conservação assegurada, além de poderem ser submetidos a necropsia de última hora, caso novamente necessária, sem qualquer tempo de espera. Temperaturas muito inferiores tornariam inviáveis os exames imediatos, dada a necessidade de aguardar um descongelamento. De acordo com Erivelto Luis Chacon, analista técnico da Divisão Funerária da Setec (Serviços Técnicos Gerais), a capacidade da câmara fria, única de propriedade da instituição, está de acordo com as necessidades. Em uma terçafeira do mês de março, 18 dos 26 espaços estavam ocupados. Todos aqueles cadáveres tinham em comum o fato de não terem sido reclamados, mas apenas três seriam doados a faculdades para ns de estudo e pesquisa. SEPULTADO POR INSTITUIÇÃO Erivelto Chacon diante da câmara fria do Cemitério dos Amarais: espaço para 26 corpos morte, como em acidentes de trânsito. Em Campinas, onde há entre 600 e 650 óbitos por mês, apenas 1% dos cadáveres não são reclamados. “Uma média de seis cadáveres por mês cam sem ser reclamados”, calcula Chacon, que adverte: “Só que, desses seis, cinco são de morte violenta”. Em média, portanto, apenas um cadáver por mês quase sempre do sexo masculino segue para doação. Ao se vericar um óbito não reclamado, o cadáver panhada do nome do cadáver em questão, sempre que identicado, seguido de seus dados pessoais e descrições físicas, além das circunstâncias do óbito. A nota precisa ser publicada dez vezes dentro do prazo de um mês, período em que o corpo, já injetado pela universidade, permanece na câmara fria do Serviço de Vericação de Óbitos. Terminadas as publicações, o corpo é nalmente transportado pela Setec à instituição beneciada, que arcará com os R$ 104,00 de despesas com transporte e R$ 1,2 mil com as publicações veiculadas pelo jornal. Ao receber o corpo, a faculdade ca responsável pelo registro de consignação do cadáver aos seus laboratórios. Não será imediatamente, contudo, que o corpo poderá ser utilizado para estudo. Durante outros 60 dias, ele deve ser resguardado. De acordo com Erivelto Chacon, todo esse processo garante um longo período para que famílias possam resgatar o cadáver ainda íntegro. “São pouquíssimos os casos, depois de cumprido esse período, em que as famílias aparecem. Nesses 24 anos que estou aqui, se tive meia dúzia de cadáveres reclamados por familiares após a doação, foram muitos”, assegura. é enviado para a câmara fria e lá permanece por 15 dias, prazo legal para que a família reclame a posse do corpo sem necessitar de um alvará judicial. Encerrado o período, o Serviço de Vericação de Óbitos de Campinas consulta um banco com 24 instituições de ensino cadastradas (todas no estado de SP, cinco em Campinas), respeitando um rodízio. A partir do momento em que a faculdade manifesta o interesse, deve agendar um dia para “injetar o cadáver”, pro- cedimento que consiste em substituir o sangue por uma substância (frequentemente formol) capaz de conservar suas estruturas. Em seguida, o corpo é fotografado e tem suas impressões digitais recolhidas, o que auxilia em um eventual reconhecimento tardio. NOTIFICAÇÕES DURANTE 30 DIAS EM JORNAL A noticação de falecimento padrão da Setec, quando publicada em jornal, é acom- Um cadáver conservado adequadamente pode contribuir para os estudos por um período de 20 a 30 anos, garante o professor Everardo Magalhães Carneiro, chefe do Departamento de Anatomia, Biologia Celular, Fisiologia e Biofísica da Unicamp, uma das instituições cadastradas na Setec. Em entrevista por e-mail ao Saiba+, Carneiro armou que “a demanda é baixa, visto que os cadáveres são utilizados durante muitos anos, sendo compatível o número de doações às necessidades de ensino”. O Departamento de Anatomia daquela universidade conta atualmente com cerca de 30 cadáveres, utilizados para ns didáticos por áreas como Medicina, Enfermagem, Biologia, Farmácia, Fonoaudiologia e Educação Física. Quando não mais puderem contribuir com os estudos, será no Cemitério da Saudade, no jazigo da instituição de ensino, que o cadáver terá seus despojos sepultados. Homenagem de alunos virou placa na Anatomia Foi ao nal do segundo ano de Medicina, ao concluírem o curso de Anatomia, que os estudantes da Unicamp Matheus de Oliveira Laterza Ribeiro e Vinícius Trindade Gonçalves, ambos com 20 anos, tomaram a iniciativa de redigir uma homenagem aos cadáveres que haviam sido parte de seus estudos. Retomando uma tradição antiga, os dois expressaram gatidão àqueles que chamaram de “mestres inominados, em cujo momento de despedida da vida não tiveram lágrimas derramadas sobre sua fronte, desprezados pela humanidade”. A homenagem nasceu de uma ideia de toda a turma XLVI e acabou imortalizada em uma placa vermelha no andar térreo do Departamento de Anatomia. “É importante a gente manter essa tradição de respeito ao cadáver, porque é através dele que a gente aprende todas as nossas bases anatômicas, que vão dar fundamento para o nosso trabalho médico daqui para frente”, justica-se o estu- dante Vinícius, reconhecendo a importância que têm aqueles corpos para a produção do conhecimento cientíco. A inauguração da placa se deu no nal de 2009, durante uma cerimônia ecumênica na própria sala de Anatomia, na qual não faltaram música e poesia. “A gente improvisou: colocamos uma mesa, alguns ar- ranjos de ores e trouxeram o capelão do Hospital de Clínicas para ler uma mensagem religiosa, falar algumas palavras”, conta Matheus. “Eles são nossos primeiros mestres. São mestres que, mesmo não lecionando diretamente, são essenciais na nossa formação acadêmica e pessoal”, pondera o acadêmico. 8 01 a 15 de abril de 2010 ANA PAULA MENEGHETTE ZANOBIA e NATHÁLIA BRAGION BRUNELLI Forró, samba, salsa e dança dos anos 50, em ambientes tematicamente decorados, reúnem toda semana centenas de pessoas que saem para dançar em baladas animadas com música ao vivo em Campinas. Para alguns freqüentadores, a dança que ali praticam não se trata apenas de diversão, mas de um ritual que poupa dinheiro com psicólogos ou com academias de ginástica. O local mais procurado para dançar forró em Campinas é a Cooperativa Brasil, instalada numa propriedade que, por fora, tem a aparência de uma chácara. Ao entrar, o visitante depara-se com um barracão decorado com bandeirinhas e balões, com luzes coloridas, tudo no melhor estilo nordestino, onde se abriga o maior ambiente para dançar forró na Região Metropolitana de Campinas. Criada no ano de 1996, a Cooperativa Brasil foi fundada por sete estudantes da Unicamp, que buscavam um espaço barato e divertido, que resgatasse o folclore brasileiro. Atualmente, a casa é comandada por apenas dois sócios: Luiz Fernando da Costa Dias e Rogério Zanaga. Luiz conta que a preocupação da Cooperativa não é só cultural, mas também com o meio ambiente. A prova são a reciclagem das latinhas de refrigerante e cerveja consumidas nos eventos ali promovidos, e as poucas luzes acesas, que evitam o desperdício de energia e que, ao mesmo tempo, dão um toque de aconchego ao local. São detalhes que diferenciam este dos demais pontos de dança em Campinas. A casa funciona todas as sextas-feiras e oferece uma programação com bandas tradicionais de forró, como o Trio Virgulino, com pelo menos 40 anos de estrada. O público é bastante diversicado, de todas as idades. Entre os mais tímidos, os movimentos são contidos, já os mais extrovertidos só abandonam o forró quando a música acaba. Ildemar Cassonatto, freqüentador da Cooperativa há dois anos, diz que encontrou no forró uma espécie de terapia para relaxar e esquecer os problemas do dia-a-dia, além de ser uma forma de fazer novos amigos. Christian Domingues e Néia Castilho, que praticam o forró há cerca de um ano, fazem uma dupla que dá um show à parte na pista de dança. Néia, que já havia estudado dança de salão, conta que preferiu o forró por considerá-lo um ritmo “mais quente e envolvente”. SAMBA Protegida por uma imagem de Iemanjá, a Casa São Jorge, FOTOS TOS: NATHÁLIA BRAGION BRUNELLI Adriana Ramos e Rafael Stina, à esquerda: anos 50 no Woolly Bully ; e Fernanda Masotti e Rafael Borrego: salsa no Rudá Bar O mapa da dança em Campinas cujo nome advém do padroeiro da cidade do Rio de Janeiro, possui um estilo próprio. Um ambiente decorado, porém não convencional de uma boate, com luzes e globos espelhados, remete ao subúrbio do Rio de Janeiro, com mesas que, ao longo da noite, vão perdendo espaço para os pés que se empolgam com o tocar do pandeiro. O samba toma conta e o público, de cerca de 250 pessoas que costumam lotar a casa, dança ali mesmo, na frente dos músicos que se apresentam diante de uma parede colorida, tendo ao fundo a imagem do mestre Cartola. Fundada no ano de 2002, o casa apresenta uma programação diversicada, incluindo forró, samba rock e dança latina, mas tem como forte, desde sua criação, o samba. Em três dias da semana –quarta, sexta e domingo– este ritmo tem presença garantida na Casa São Jorge, com um público diferente a cada dia. As quartas são típicas de universitários; nas sextas, os casais predominam; e o domingo é considerado “dia de todos”, pois a casa ganha uma população mixada. De acordo com a gerente, Marina Domene, a Casa foi eleita por três anos consecutivos –2007, 2008 e 2009– pela “Veja Campinas” como o melhor lugar para se dançar na cidade. A Casa São Jorge organiza projetos para divulgar novos músicos da MPB e também outros estilos, como a música de Olinda. Entre todos os atrativos da casa, a dança é o que realmente chama o público, como o casal Camila Rocha e Paulo Bussalo, que freqüenta o espaço há dois anos, pela variedade de ritmos e a qualidade do som ao vivo. Leandro Costa é freqüentador assíduo desde a inauguração e fala que a Casa São Jorge é seu lugar predileto nas noi- tes, pois une música, cultura e arte, além do ambiente propício para dançar. ONDE SE LOCALIZAM SALSA Inaugurado em setembro de 2005, o Rudá Bar é o local freqüentado pelos amantes da dança latina. Segundo um dos proprietários, Guilherme Pierrotti, o bar não tinha inicialmente a proposta de ser um espaço de dança, mas a estrutura do ambiente, um grande galpão pouco iluminado, com mezanino e um palco, fez com que o público fosse ao local com o propósito de dançar. As várias mesas espalhadas fazem com que os mais retraídos quem de olho em cada passo executado por aqueles que se deixam levar pela música. Com uma programação variada, o Rudá apresenta, todas as sextas-feiras, show de música latina, incluindo salsa, merengue e chá-chá-chá. A idéia da noite latina surgiu pela falta de locais em Campinas que dessem espaço para o ritmo e à grande demanda de público por este tipo de dança. Hoje, o bar recebe muitos latinos de outros países que vivem no Brasil e que encontram ali uma oportunidade de matar a saudades da cultura deixada para trás. O mexicano Rafael Borrego, por exemplo, freqüenta o bar há mais de um ano e diz que a forma de dançar salsa no Brasil é semelhante à do seu país. Sua parceira de dança, Fernanda Masotti, sai de sua casa na cidade de Jundiaí para se divertir ao som caliente da salsa, pois lá não encontra este estilo. Além dos imigrantes, o Rudá recebe pessoas que estudam os ritmos latinos em academias de dança. Para aqueles que não sabem dançar mas têm vontade de aprender, o espaço apresen- ta um diferencial: aulas gratuitas uma hora antes de o show começar. ANOS 50 Um carro atravessando a parede: é assim a entrada do Woolly Bully, em Vinhedo, local onde, ao som dos Beatles e Elvis Presley, os adeptos da dança dos anos 50 se encontram. O proprietário, Kadú Galvão, sempre foi um admirador do estilo e começou organizando festas tematizadas nos anos 50. Com o tempo, ganhou dinheiro suciente para construir e inaugurar o Woolly Bully, no ano de 1994. Hoje, é considerado, no Brasil, o maior bar nessa categoria. As palavras Woolly e Bully, do inglês, signicam lã e encrenqueiro respectivamente. Segundo Kadú, a junção dos termos faz referência aos “bad boys” da época, que usavam jaquetas de lã com mangas de couro e iniciais da escola bordadas. O local oferece uma viagem de volta ao passado. Ao entrar, o visitante depara-se com uma das roupas do gurino de Elvis envolta em uma redoma de vidro e uma decoração rica em detalhes. Chão quadriculado em preto e branco, cadeiras coloridas e, na parede azul e rosa, retratos, como o da diva Marilyn Monroe e inúmeros objetos compõem o cenário típico da época. Mesmo quem não vivenciou o período clássico do rock contagia-se com o clima retrô. O público é variado, abrange desde os mais jovens até os que se encontram na faixa dos 50 anos. Muitos entram totalmente na atmosfera dos anos 50 e vão a caráter: boina, cintos, saia rodada, maquiagem forte, olhos delineados pelo lápis preto e batom vermelho. As garçonetes, vestidas com gurino da época, ao mesmo tempo que servem os hambúrgueres acompanhados de fritas e Coca e Cola, no estilo american diner, dançam no meio da pista, para animar o ambiente e chamar o público para dançar. Adriana Ramos, freqüentadora há 12 anos do local, conta que conheceu seu marido, Rafael Stina, numa das noites no Woolly Bully. Desde então, formam uma dupla imbatível na categoria Anos 50. A professora de dança Ivana Camargo diz que sempre gostou desse tipo de dança, tanto que ia até São Paulo para poder dançar o ritmo. Foi no Woolly Bully que ela ganhou destaque na pista e, atendendo a pedidos, resolveu dar aulas do ritmo.