abril 2003
Um jornal pau-pra-toda-obra
2
teatro em debate
Volksfarra
com dinheiro público
Woizeck no Brasil
Em três novas versões
Novo colunista
Tersites de
Souza desce o
sarrafo
Chico de Assis
O que não fazer
ao escrever
para teatro
O coletivo na dramaturgia
Autores debatem o
teatro como disputa
de pensamento
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Nossos endereços
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Nos últimos anos se difundiu, entre os
grupos de teatro de São Paulo, um
modo de escrita teatral baseado na
colaboração próxima entre o
dramaturgo e a equipe de encenação.
Neste processo, o texto não precede
os ensaios, mas surge (ou é
reinventado) a partir do trabalho dos
atores e da pesquisa de palco.
Aparentado com os métodos de
criação coletiva dos anos 70, mas
diverso quanto a objetivos estéticos e
quanto ao trato literário da palavra,
esse modo de escrita tem sido chamado
de “processo colaborativo” ou
“dramaturgia em processo” por alguns
de seus praticantes. Cinco dramaturgos
ligados aos grupos que editam O
SARRAFO se reuniram para um debate
sobre a escrita teatral coletivizada:
Fernando Bonassi, Hugo Possolo, Luís
Alberto de Abreu, Reinaldo Maia e
Sérgio de Carvalho. O encontro foi
registrado e organizado por Aline
Meyer, e contou com a participação da
atriz Míriam Rinaldi e com a mediação
do jornalista Valmir Santos.
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 VERSÕES DE
Três novas versões de Woyzeck, de Georg Büchner (1813-1837) serão publicadas no
Brasil nos próximos meses. Sobre esta peça do Romantismo Alemão, Anatol Rosenfeld
escreveu: "Surge, talvez pela primeira vez, o herói negativo, que não apenas hesita
(como Hamlet), mas que em vez de agir é coagido; o indivíduo desamparado, desenganado pela história ou pelo mundo." A tradução de Christine Roherig será publicada pela
editora Cosac&Naify ainda no primeiro semestre de 2003. Foi ela que serviu de base
WOIZECK
para a encenação de Cibele Forjaz, com dramaturgia de Fernando Bonassi. A tradução
de Tércio Redondo surgiu num trabalho de doutoramento em Literatura Alemã na USP.
Sairá em livro pela editora Hedra, em edição bilingüe, com lançamento em maio no
Memorial da América Latina. Já a peça Zé, de Fernando Marques é uma adaptação livre
em versos, feita a partir da tradução de João Marschner. Foi lida em final de março pelo
grupo Folias D'Arte, e será publicada em maio pela editora Perspectiva.
TRADUÇÃO DE CHRISTINE RÖHRIG
TRADUÇÃO DE TÉRCIO REDONDO
ZÉ – ADAPTAÇÃO EM VERSO DE FERNANDO MARQUES
3. PRAÇA. BARRACAS. LUZES.
III – BARRACAS. LUZES. POVO
Cena 5 - A feira. Tendas. Luzes. Povo
HOMEM VELHO com criança que dança.
Canta:
HOMEM VELHO (com uma criança dançando, canta):
(O Velho canta e a Criança dança
ao som do acordeom. A música é
o Tema do Fim)
Nesse mundo nada é seguro
Todos morrem um dia
É esse o nosso futuro!
WOYZECK: Heia! Upa! Pobre homem, velho
homem! Pobre criança! Criancinha! Upa Maria, quer que te carregue? Pra poder comer,
um homem tem... Mundo idiota! Mundo belo!
APRESENTADOR numa barraca: Meus senhores e minhas senhoras, aqui irão se apresentar o cavalo astronômico e o pequeno canalhinho, prediletos de todas as academias
da Europa e membros de todas as sociedades intelectuais; prevêem tudo das pessoas:
idade, quantos filhos, tipo de doenças... Com
um tiro, fica numa perna só! Tudo educação,
tem uma lógica animal, ou melhor, uma animalidade bem lógica! Não se trata dum indivíduo quadrúpede como muita gente é, descontando o honorável público. Entrem! Será
a representação, o acontecimento dos acontecimentos e logo terá início. Meus senhores!
Meus senhores! Vejam a criatura como Deus
a fez: nada, coisa alguma. Agora vejam a arte:
de pé sobre duas patas, veste casaco e calça e tem espada!
Vejam os progressos da civilização. Tudo progride, um cavalo, um macaco, um canalhinho. O macaco já é soldado, ainda não é muita coisa, degrau mais baixo dos seres humanos! Comece a apresentação! O princípio do
princípio.
WOYZECK: Quer ver?
MARIE: Por mim. Deve ser bonito.Uma gente
esquisita... mulheres de calça...
Os originais de Woyzeck compostos de cinco folhas manuscritas, encontrados em forma de
fragmentos, foram publicados pela primeira vez
trinta e oito anos após a morte de Büchner, em
1875, com o título equivocado de “Wozzeck”.
Se por um lado trabalhar com fragmentos
pode gerar equívocos, polêmicas e inúmeras
versões “derradeira e definitivas” por outro, gera
possibilidades incontáveis e permite uma aproximação ao atual, ao hoje, ao agora.
São tantos os caminhos, que podemos pensar até que o material encontrado pode não ter
sido um material inacabado do qual Büchner
ainda pretendia fazer um todo. Pode ser que ele
tenha escrito intencionalmente diversas seqüências de uma mesma história que ao se desenrolarem se tornam independentes. Como disse o
dramaturgo alemão Heiner Müller: “Uma dramaturgia que não se pretende objetiva, mas sim
calcada na extrema subjetividade e no inacabado, que não pretende contar uma história de
maneira linear mas incluir na narrativa o fator
modificador do pensamento, em que o interesse subjetivo surge com ela e se transforma em
parte integrante da história. Uma dramaturgia
em que as contradições não são descritivas mas
ativas, motoras e pulsantes”.
No mundo tudo é passageiro.
Toda a gente tem de morrer;
Disso não se pode esquecer!
WOYZECK. Eta, gente! Pobre homem, o velhinho! Pobre criança, o menininho! Ei, Marie, e se eu te carregasse? A gente deve... para poder comer. Mundo louco! Mundo belo!
SALTIMBANCO (numa barraca). Meus senhores, minhas senhoras, aqui se vêem o cavalo astronômico e o
pequenino canalho , mui estimados de todos os potentados da Europa e membros de todas as academias
de ciência. Tudo adivinham: a longevidade, quantos filhos, as doenças; atiram com a pistola, equilibram-se
com uma só perna. Tudo educação! Eles têm uma razão animal, ou melhor, uma animalidade racional; não
são imbecis como muitas pessoas, excetuando-se, é
claro, o distinto público aqui presente. Entrai. Principiase a representação, o começo do começo terá imediatamente o seu início. Meus senhores, meus senhores!
Vede a criatura, como Deus a fez: sem nada, nada
mesmo. Vede agora o que faz o engenho humano: a
criatura anda ereta, usa calças e casaca, e porta uma
espada! Vede o progresso da civilização. Tudo progride. - Ei, cavalo! Ei, macaco! Ei, canalho! O macaco já é
um soldado - o que não quer dizer muita coisa - o degrau mais baixo do gênero humano! Comecemos a representação! Que se comece pelo começo.
WOYZECK. O que você acha?
MARIE. Vamos? Deve ser bem divertido. As franjas
dele, e a mulher, ela usa calças!
Hoje, incorporado ao cânone literário, Woyzeck ainda
provoca espanto e inquietação. Escrito em 1836, por um
jovem de 23 anos, o texto seria ignorado por seus contemporâneos, para ser cultuado, no final do século, pelos
naturalistas. Sua novidade residia na combinação de elementos inteiramente novos que revolucionavam a forma
dramática.
Ao contrário do drama clássico, baseado em simetrias
e equivalências no diálogo, e na manutenção das unidades de tempo, lugar e ação, Woyzeck compõe-se de uma
sucessão de cenas curtas, alheias a uma clara seqüência
temporal, com personagens que integram um mundo fragmentário, destituído de uma ordem superior que lhe confira
sentido e organização. No lugar do duelo verbal, protagonizado por personagens de elevada estatura social, ele traz
ao primeiro plano a figura do proletário, que fala o dialeto
das classes populares. Além disso, a afeição que Büchner
nutria pelo povo, sua familiaridade com seus usos e costumes, renderam a Woyzeck a incorporação de diversas canções e estórias, que comentam a ação, antecipando o teatro épico de Bertolt Brecht.
Nos anos que se seguiram à sua publicação, Woyzeck seria descoberto por Gerhart Hauptmann e Frank Wedekind, tornando-se desde então peça-chave para a literatura e o teatro modernos. Arthur Schnitzler e Hugo von
Hofmannsthal, passando por Rilke e Brecht, até Thornton
Wilder e Heiner Müller, todos pagam tributo ao fragmento
que antecipou a obra dos naturalistas e da modernidade
no século XX. A ópera Wozzeck, de Alban Berg, o filme de
Werner Herzog, com Klaus Kinski, no papel principal, e
montagens criativas para o palco, como a de Friedrich Dürrenmatt, atestam as inúmeras possibilidades de leitura e
de desenvolvimento da peça inacabada de Büchner, que
se tornou o drama mais encenado do repertório teatral alemão em todo o mundo.
Velho (cantando)
- No mundo não há consistência
Todos vamos morrer
Sabemos muito bem
Vamos morrer
Sabemos bem
No fundo não há consciência
Logo vamos passar
Fazemos muito bem
Vamos passar
Fazemos bem
Zé
- Ei, olhe! Pobre homem, pobre velho.
Pobre criança, lhe serve de espelho.
Preocupações e festas!
Maria
- Se os loucos
têm razão, nós é que somos malucos!
Que belas figuras, nem acredito.
Ah, mundo engraçado, mundo bonito!
(Os dois seguem até onde está o
Charlatão de Feira)
Charlatão (diante de uma tenda,
com sua mulher vestindo calças e
um macaco fantasiado)
- Meus senhores, meus senhores!
Reparai na criatura
como Deus do céu a fez:
é coisa muito pequena,
é praticamente nada.
Meus senhores, meus senhores,
agora vede a cultura:
anda sobre os próprios pés,
usa calças e jaqueta
e traz até uma espada!
O macaco é militar;
ainda não é grande coisa,
mais baixo degrau da espécie.
Macaco, faça uma vênia!
Isso, agora mande um beijo.
(O macaco toca trombeta)
Vede, ele sabe tocar!
Sim, ele aos poucos melhora.
Aqui, nesta mesma praça,
vereis cavalos do Quênia
e passarinhos do Tejo,
favoritos das cabeças
coroadas da Europa.
Revelam tudo aos mortais:
idade, filhos, doenças.
Vinde, que vai começar!
Zé
- Você gosta da conversa?
Maria
- Por mim... Usam belas roupas.
As dele são federais
e as calças dela, imensas!
Parece espetacular.
(Os dois entram na tenda)
O texto de base foi a tradução da peça de Georg Büchner, feita por João
Marschner e publicada pela Ediouro (Woyzeck e Leonce e Lena. Rio de Janeiro:
Ediouro, s/d).
Três das quatro canções já haviam sido utilizadas na montagem de Woyzeck
dirigida por Tullio Guimarães, em Brasília, em 1996 (montagem da qual participei
como compositor e cantor), tendo sido reaproveitadas aqui.
Para a revisão do texto, vali-me de Georg Büchner e a Modernidade, livro de
Irene Aron (São Paulo: Annablume, 1993). Além de estudar em detalhe A Morte de
Danton e Woyzeck, a autora traduz vários trechos das peças diretamente do alemão, o que me possibilitou cotejar suas soluções para Woyzeck com as de João
Marschner. Há dúvidas quanto à exata ordem das cenas, segundo a disposição
que Büchner teria dado a elas - o autor deixou quatro manuscritos inacabados do
texto, de acordo com Fernando Peixoto, autor de Georg Büchner - A Dramaturgia
do Terror (São Paulo: Brasiliense, 1983). Segui a ordem adotada por Marschner,
que difere bastante da apresentada por Irene Aron com base nas obras completas de Büchner, editadas por Werner R. Lehmann (Hamburgo: Christian Wegner
Verlag, vol. I, 1967, vol. II, 1971). Existem várias edições da peça (a primeira delas
é de 1879), o que também pode explicar as diferentes versões. Depois de terminada a primeira redação do trabalho, tive acesso a uma segunda tradução integral de Woyzeck, feita por Mário da Silva, em cópia xerográfica cedida pelo ensaísta e professor Eudinyr Fraga. De novo, há diferenças na ordem das cenas e em
detalhes do texto com relação ao trabalho de Marschner. A peça foi rebatizada
como Lua de Sangue, tendo sido encenada por Ziembinski em 1948, no Rio de
Janeiro (quando se dá a estréia do texto no Brasil, com Maria Della Costa no
papel de Maria e o próprio diretor no papel de Woyzeck). Mais recentemente,
pude ler a tradução de Christine Röhrig, inédita em livro. Para a última redação,
consultei as três traduções integrais do texto. Reitero, afinal, não se tratar aqui de
tradução em verso, mas de adaptação em verso, feita com alguma liberdade a
partir da peça publicada pela Ediouro.
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