ALTERAÇÕES NA BIOMASSA MICROBIANA E NO pH DO SOLO APÓS APLICAÇÃO DE CINZA DE BIOMASSA E CULTIVO DE PASTAGENS ANUAIS 1 1 Hanisch, A.L.* ; Fonseca, J.A. 1 Pesquisadores da Epagri Estação Experimental de Canoinhas, Canoinhas-SC-Brasil. e-mail: [email protected] RESUMO: O objetivo deste experimento foi avaliar o efeito da aplicação de cinza de biomassa sobre o pH e a biomassa microbiana do solo. Utilizou-se delineamento experimental em blocos casualizados, com quatro repetições e seis tratamentos: 0, 40, 80, 120 e 160 t/ha de cinza de biomassa, mais um tratamento referência apenas com calcário dolomítico. Todas as doses foram incorporadas ao solo por preparo convencional. Após a aplicação dos tratamentos foram semeadas na área as culturas da aveia branca (Avena sativa) no inverno do milheto (Pennisetum glaucum) no verão. Para analisar os efeitos da cinza de biomassa sobre a biomassa microbiana e sobre o pH foram realizadas amostragens em duas datas: dezembro de 2012 e junho de 2013, na camada de 0-20cm de profundidade. Não foram encontrados efeitos dos tratamentos sobre a biomassa microbiana em nenhuma data. Houve efeito linear das doses de cinza de biomassa para o pH do solo, sendo que com a dose de 40 t/ha ocorreu o mesmo efeito sobre o pH que na dose recomendada de calcário, na primeira avaliação. Os resultados indicam que é possível a utilização da cinza de biomassa como produto corretivo do solo, com aumento do pH do mesmo até a dose de 120 t/ha, sem prejuízo à biomassa microbiana do solo em área com cultivos de pastagens anuais. Palavras-chave: acidez do solo, aveia, indicadores microbiológicos, milheto CHANGES IN SOIL MICROBIAL BIOMASS AND PH AFTER APPLICATION OF BIOMASS ASH IN ANNUAL PASTURE CROP ABSTRACT: The objective of this experiment was to evaluate the effect of biomass ash on pH and microbial biomass in the soil. Was used a randomized block design with four replications and six treatments: 0, 40, 80, 120 and 160 t/ha of biomass ash, plus a reference treatment with dolomitic limestone. All doses were incorporated into the soil by conventional tillage. After the treatments application were sown in the field of culture in winter oat (Avena sativa) and pearl millet (Pennisetum glaucum) in the summer. To analyze the effects of biomass ash on microbial biomass and the pH samples were taken from two dates: December 2012 and June 2013, in the 0-20 cm depth layer. No effects on the microbial biomass were found in any date. There was a linear effect on soil pH and with the dose of 40 t/ha biomass ash had the same effect as the recommended dose limestone in the first evaluation. The results indicate that the use of biomass ash as corrective ground product with the same pH increase until a dose of 120 t / ha subject to microbial biomass in an area with annual pasture crop is possible. Key Words: soil acidity, oat, microbiological indicators, pearl millet INTRODUÇÃO A cinza de biomassa é o produto resultante da queima de biomassa florestal em caldeiras como parte da matriz energética do setor de papel e celulose no Brasil. Sua disposição adequada no ambiente é uma preocupação constante por parte do setor e entre as possibilidades está seu uso como condicionador do solo e como fonte de nutrientes para cultivos de hortaliças, espécies florestais e pastagens (DAROLT et al., 1993; SILVA et al., 2009; HANISCH e FONSECA, 2014). Sua utilização como fertilizante tem contribuído para melhoria das características químicas do solo, com elevação dos teores de K, P, Ca e S com a aplicação de doses até 10 t/ha do produto, sem, no entanto, alterar o pH do solo (HANISCH e FONSECA, 2014). Maeda et al. (2008) por outro lado observaram elevação do pH com a aplicação de doses acima de 40 t/ha. Com a maior disponibilidade desse produto em SC atualmente, o foco do setor tem sido o uso da cinza leve de biomassa também como fonte de corretivo de solo. Apesar da cinza de biomassa ser um produto pobre em nitrogênio, as alterações que ocorrem no solo após a sua aplicação podem influenciar a atividade biológica de microorganismos do solo, sendo ainda pouco avaliadas em condições de campo. Para Chaer & Tótola (2007), os indicadores microbiológicos podem ser de grande importância na avaliação precoce de eventuais efeitos adversos do manejo sobre a qualidade do solo, o que permite a adoção antecipada de medidas corretivas ou de controle, além de permitir identificar o que ocorre com o sistema de manejo em curso, ou seja, se contribui para aumentar ou diminuir a sustentabilidade do sistema de produção. Considerando-se a possibilidade de uso de quantidades mais elevadas do produto com o propósito de corretivo de solo, este experimento buscou avaliar o efeito da aplicação da cinza de biomassa em áreas cultivadas com pastagens anuais sobre o pH no solo e sobre as alterações na atividade microbiana. MATERIAL E MÉTODOS O experimento foi realizado no município de Papanduva, SC (26º22’17”S; 50º16’17”W; altitude de 800 m; clima Cfb), em um Cambissolo. Foi utilizado delineamento experimental de blocos completos casualizados, com quatro repetições e seis tratamentos compostos por cinco doses de cinza de biomassa: 0, 40, 80, 120 e 160 t/ha (equivalentes a 0, 44, 88, 133 e 185% da recomendação pelo iSMP para elevar o pH do solo a 5,5) mais um tratamento referencial apenas com calcário dolomítico para a mesma recomendação. A área experimental foi formada por parcelas de 5x5 m. Alguns atributos da cinza de biomassa (em g/kg): C orgânico= 40; N= 0,4; CaO= 41; MgO= 23; K2O= 29; P2O5= 9; PRNT= 11%; pHágua= 10,2. A cinza foi incorporada ao solo através de preparo convencional até a profundidade de 20 cm, em junho de 2012. Logo após a aplicação dos tratamentos foi semeado aveia branca (Avena sativa) cv. IPR 126, que permaneceu em livre crescimento até o florescimento pleno, quando foi cortada e retirada da área. Em novembro de 2012 foi semeado milheto (Pennisetum glaucum) cv. comum, que foi manejado sob cortes, sempre que as plantas atingiam altura entre 60-80 cm. O solo foi amostrado em dezembro de 2012 e em junho de 2013. Em cada época foram coletadas cinco sub-amostras por parcela, na camada de 0-20 cm, as quais formaram uma amostra composta por parcela, que foi imediatamente acondicionada em isopor contendo gelo, sendo encaminhadas para análise da biomassa microbiana do solo (BMS) estimada pelo método da respiração induzida pelo substrato (LIN e BROOKES, 1996), em sistema estático. No momento das coletas da análise biológica de solo foram realizadas amostragens na mesma profundidade para determinação do phágua. (TEDESCO et al., 1995). Os dados foram submetidos à análise de normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk e variância pelo teste F utilizando-se os programas R e Sisvar e, quando constatada diferença entre tratamentos ao nível de 5% de probabilidade do erro, foi realizada análise de regressão, utilizando-se os modelos que melhor se ajustaram aos dados e ao fenômeno investigado. Para comparação entre as doses de cinza de biomassa e o tratamento referência, foi realizado teste de Tukey para comparação de médias ao nível de 5%. RESULTADOS E DISCUSSÃO A cinza de biomassa foi efetiva em aumentar o pH do solo, sendo que na primeira avaliação houve efeito linear sobre o pH, que aumentou em média 0,2 pontos a cada 40 t de cinza de biomassa. A dose recomendada, de produto seco, em função da PRNT da cinza de biomassa para elevar o pH do solo a 5,5 foi estimada em 90t/ha. No entanto, seis meses após aplicação, foi observado com a dose de 40 t/ha de cinza o mesmo efeito sobre o pH que o do tratamento referência com calcário dolomítico (Figura 1). Esse resultado se deve em parte ao baixo teor de matéria orgânica da cinza de biomassa utilizada neste trabalho (em torno de 4%), que por sua vez é resultado do processo de queima da biomassa de uma forma mais eficiente, restando um produto final com maior conteúdo mineral e consequentemente, maior reatividade no solo. A tendência linear de aumento do pH do solo a partir da doses de 40t/ha da cinza leve de biomassa evidencia a eficiente ação do produto como corretivo. Para Darolt et al. (1993) a elevação do pH do solo com o uso da cinza de biomassa pode ser atribuído principalmente à liberação de carbonatos pela reação da cinza com o solo, o que indicaria que quantidades crescentes de cinza aplicadas ao solo provavelmente permaneceriam reagindo com o tempo. Esse fato pode ser confirmado na segunda avaliação realizada aos 12 meses após a aplicação do produto, em que nas doses acima de 120 t/ha o pH do solo manteve-se em valores semelhantes ao observado com a aplicação do calcário (Figura 1). Não foram verificadas diferenças significativas nas taxas de biomassa microbiana do solo com a aplicação das doses de cinza de biomassa em nenhuma das duas datas de avaliação (Figura 2). Embora tenham sido utilizadas doses altas do produto, a cinza de biomassa causou um nível de impacto bastante baixo à microbiota do solo, inclusive ao longo do tempo, uma vez que as taxas observadas em todas as doses do produto foram muito próximas às obtidas ao tratamento controle com o uso do calcário dolomítico (Figura 2), produto aceito universalmente no processo de melhoria da qualidade do solo. De acordo com Cardoso et al. (2009) o C da biomassa microbiana é o atributo mais sensível às alterações impostas ao solo, o que possibilita avaliar a contribuição das práticas de manejo adotadas nos diferentes sistemas de cultivo, bem como perturbações sofridas pelos mesmos. De acordo com esse conceito é possível inferir que a aplicação da cinza de biomassa em doses até 160 t/ha não causou perturbações significativas na camada de 0-20 cm de solo a ponto de alterar negativamente as condições existentes em relação à biomassa microbiana. CONCLUSÃO Os resultados indicam que é possível a utilização da cinza de biomassa como produto corretivo do solo, com aumento do pH do mesmo até a dose de 120 t/ha, sem prejuízo à biomassa microbiana do solo em área com cultivos de pastagens anuais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CARDOSO, E. L. et al. Atributos biológicos indicadores da qualidade do solo em pastagem cultivada e nativa no Pantanal. Pesquisa Agropecuária Brasileira, Brasília, v. 44, n. 6, p. 631-637, 2009. CHAER, G. M.; TÓTOLA, M. R. Impacto do manejo de resíduos orgânicos durante a reforma de plantios de eucalipto sobre indicadores de qualidade do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 31, n. 6, p. 1381-1396, 2007. DAROLT, M.A. et al. Cinza vegetal como fonte de nutrientes e corretivo de solo na cultura da alface. Horticultura Brasileira, Brasília, v.11, n.1, p.38-40, 1993. HANISCH, A.L.; FONSECA, J.A. Efeito da adubação com cinza de biomassa sobre uma pastagem de Hemarthria altissima cv. Flórida cultivada em solo ácido. Revista Agropecuária Catarinense, Florianópolis, v.26, n.3, p.74-80, 2014. LIN, Q.; BROOKES, P.C. An evolution of the substrate induced respiration method. Soil, Biology & Biochemistry, v. 31, n.14, p.1969-1983, 1999. MAEDA, S. et al. Resposta de Pinus taeda à aplicação de cinza de biomassa vegetal em Cambissolo húmico, em vaso. Pesquisa Florestal Brasileira, Curitiba, n.56, p.43-52, 2008. SILVA, F.R. et al. Cinza de biomassa florestal: alterações nos atributos de solos ácidos do Planalto Catarinense e em plantas de eucalipto. Scientia Agraria, Curitiba, v.10, n.6, p.475482, 2009. TEDESCO, M. J. et al. Análise de solo, plantas e outros materiais. 2.ed. UFRGS: Depto. de Solos. Porto Alegre, 1995. 174p. 6.0 6.0 Ŷ=4,9+0,16X R2=0,94 Ŷ=5,15+0,0025X R2=0,65 5.8 pH do solo - Jun 13 pH médio do solo - Dez12 5.8 5.6 5.4 5.2 5.6 5.4 5.2 5.0 5.0 0 40 80 120 160 0 40 Cinza de biomassa (t/ha) 80 120 160 Cinza de biomassa (t/ha) 70 70 60 60 BMS (mgC-CO2/kg de solo seco ) - Jul13 BMS (mgC-CO2/kg de solo seco ) - Dez12 Figura 1. Valor de pH do solo, seis (●) e doze (■) meses após a aplicação de cinza de biomassa no solo. (○) calcário. ns = não significativo 50 40 30 20 Ŷ=ns 10 0 50 40 30 20 10 Ŷ= ns 0 0 40 80 120 Cinza de biomassa (t/ha) 160 0 40 80 120 160 Cinza de biomassa (t/ha) Figura 2. Valores de biomassa microbiana do solo (BMS) seis (●) e doze (■) meses após a aplicação de cinza de biomassa no solo. (○) calcário. ns = não significativo.