UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS ANGU DE SANGUE: ESPAÇO URBANO, EXCLUSÃO SOCIAL E VIOLÊNCIA EM MARCELINO FREIRE. ROSANA MEIRA LIMA DE SOUZA Recife, Agosto de 2012 ROSANA MEIRA LIMA DE SOUZA ANGU DE SANGUE: ESPAÇO URBANO, EXCLUSÃO SOCIAL E VIOLÊNCIA EM MARCELINO FREIRE. Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Letras/Teoria da literatura da Universidade Federal de Pernambuco. Orientadora: Profª. Drª. Sônia Lúcia Ramalho de Farias RECIFE 2012 Catalogação na fonte Andréa Marinho, CRB4 – 1667 S719a Souza, Rosana Meira Lima de Angu de sangue: espaço urbano, exclusão social e violência em Marcelino Freire / Rosana Meira Lima de Souza. – Recife: O Autor, 2012. 100p.; 30 cm. Orientador: Sônia Lúcia Ramalho de Farias. . Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Pernambuco, CAC. Letras, 2012. Inclui bibliografia. 1. Teoria da Literatura. 2. Espaço na Literatura. 3. Violência. 4. Medo. 5. Freire, Marcelino. I. Farias, Sônia Lúcia Ramalho de (Orientador). II. Titulo. 809 CDD (22.ed.) UFPE (CAC2013-43) Aos meus pais, Cristovam Meira de Souza e Rosa Maria Alves de Lima. “Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a pensar e refletir”. Michel Foucault AGRADECIMENTOS Agradeço a todos aqueles que contribuíram, da participação singela a mais efetiva, para minha formação acadêmica. A todos os funcionários e professores da graduação e pós-graduação em Letras da UFPE, fazendo-se necessária a lembrança de alguns nomes: Sônia Lúcia Ramalho de Farias, professoraorientadora, pela paciência e colaboração, desde os tempos da graduação, para o meu ingresso no trabalho científico. Sem a sua presença, nada disso seria possível. Segundo, Antony Cardoso Bezerra, pelo exemplo como pessoa e amigo; professor e pesquisador. Por fim, aos professores Anco Márcio Tenório Vieira e André Senna, pela disponibilidade e aconselhamentos. Agradeço aos amigos que fizeram dessa jornada um percurso mais significativo, dentre eles: Joelma Santos, Hugo Lopes, Lucas Antunes Oliveira, Poliana Barbosa Martins de Oliveira, Newton de Castro Pontes e, em especial, a Thiago da Camara Figueredo, amigo com quem pude dividir angústias e vitórias, e a todos os demais amigos para os quais me fiz ausente a fim de concluir este objetivo. Agradeço aos meus pais, irmãos e familiares pelo incentivo e suporte emocional. Em especial ao meu pai, Cristovam Meira de Souza, por ter me apontado o estudo como caminho da superação pessoal e profissional. As minhas duas mães: Rosa Maria Alves de Lima e Severina Ramos Alves de Lima com quem sempre pude contar nos momentos difíceis e a minha irmã, Regina Meira Lima de Souza. Ao meu esposo, Antonio Aureliano Sousa Pereira de Oliveira, meu porto seguro, por ter acreditado em mim muito mais do que eu mesma, nunca me deixando desistir, amigo e companheiro de todas as horas, com quem eu divido essa conquista. Agradeço, também, ao CNPq, pela concessão do apoio que permitiu a realização deste trabalho. RESUMO Esta dissertação analisa alguns contos participantes da obra Angu de Sangue, de Marcelino Freire, procurando empreender uma leitura caracterizada, sobretudo, como um contradiscurso em relação às observações predominantes que, sobre a obra do respectivo autor, estabelece a fortuna crítica contemporânea. A partir da percepção do espaço urbano, da violência e da segregação social como elementos recorrentes na literatura brasileira, procuramos perceber como o referido autor reconfigura esta tendência. Para a efetivação da tal proposta, tomamos por base a ensaística de Alexandre Faria, os estudos de Michel Foucault sobre o conceito de heterotopia, além das definições de Teresa Caldeira a respeito dos “discursos do medo” e das “falas do crime”. Todos utilizados como parâmetro sociocultural para a identificação de possíveis produções de sentido na referida obra. Palavras-chave: Marcelino Freire; Angu de Sangue; espaço urbano; violência; discursos do medo; heterotopia. ABSTRACT This dissertation examines some of the stories participants of the book Angu de Sangue, by Marcelino Freire, looking to realized a reading that is characterized, mainly, as a differentiated observation in relation to the establishes by the contemporary criticism about the work of this author. Through the perception of urban space, violence and social segregation as recurrent elements in Brazilian literature, it understands how that author reconfigures this inclination. For the realization of this proposal, it bases on the essays by Alexandre Faria, Michel Foucault's studies about the concept of heterotopia and the definitions of Teresa Caldeira about the "discourse of fear" and "speech crime". All sociocultural parameters used to identification of the productions of meaning in that work. Key-words: Marcelino Freire; Angu de Sangue; urban space, violence, discourses of fear; heterotopia. Sumário INTRODUÇÃO.............................................................................................................9 1. AUTOR, FORTUNA CRÍTICA E MOMENTO CONTEMPORÂNEO......................12 1.1 Marcelino Freire: o engajamento literário e suas implicações críticas............12 1.2 Oralidade e testemunho como propriedades narrativas na representação de subjetividades nos contos de Marcelino Freire. ....................................................18 1.3 Representação das minorias e momento contemporâneo..............................27 2. ESPAÇO URBANO E HETEROTOPIA..................................................................38 2.1 O crescimento urbano e a ‘cidade desgastada’. .............................................39 2.2 O espaço heterotópico e os discursos do medo..............................................45 3. A INTERPRETAÇÃO DO ANGU URBANO...........................................................52 3.1 “Angu de Sangue” e a centralidade do espaço urbano ...................................52 3.2 A cidade-angu: subtraída e desterritorializada ................................................63 3.3. “O Caso da Menina” ou os encontros-confrontos urbanos.............................69 3.4 “Volte outro dia” e o espaço urbano heterotópico............................................78 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................92 REFERÊNCIAS..........................................................................................................97 9 INTRODUÇÃO Investigar a obra de Marcelino Freire é igualmente se debruçar sobre uma vasta fortuna crítica a respeito do trabalho desse autor. A maioria dessas leituras, ou pelo menos as aqui inseridas como forma de exemplificação, estão ávidas em exigir uma fidelidade entre discurso literário e social, alicerçadas, sobretudo, em um princípio interpretativo cujo objetivo é submeter a apreciação da obra a questões de natureza político-ideológica. Esse tipo de julgamento busca uma autenticidade representativa por parte do literário, exigindo a efetivação de certas formas discursivas predominantes, concebidas como representações do real ou verdadeiro. Tais avaliações são, de certa forma, influenciadas pelo perfil assumidamente “engajado” do pernambucano. Ao evidenciar sua opinião sobre diversas questões sociais, tanto em relação à literatura e à cultura, quanto a outros acontecimentos que circulam na mídia, Freire passa a ser um agente empenhado em satisfazer certa ausência intelectual a que se refere Santiago (2004), e que neste trabalho usaremos como parâmetro de discussão: a do escritor que, assumindo o lugar de cidadão culto, supre aparentemente o silêncio daqueles que não possuem uma base educacional ou instrumental para expor suas insatisfações e indignações. Isso é enfatizado também em razão das características da produção freiriana: seus contos são, quase em sua totalidade, construídos a partir de vozes narrativas demarcadas socialmente; ou seja, os narradores-personagens presentes em seus contos estão significativamente atrelados ao lugar que os mesmos ocupam no contexto extraliterário. Essas posições sociais serão, na maioria dos contos, aquelas menos privilegiadas, própria de grupos discriminados, como negros e homossexuais. Apesar de enfatizar a intenção de fugir desse discurso de teor “panfletário” (VASCONCELOS, 2007, p. 98), a combinação desses elementos que envolvem a produção de Freire (a postura de intelectual engajado somado à representação das minorias sociais) responde muito significativamente às condições socioculturais brasileiras, estimulando as referidas abordagens críticas preocupadas em ouvir aquilo que o autor tem a dizer; ávidas em encontrar nas obras marcas de representações genuínas dos elementos sociais. Como exemplo desse tipo de 10 análise, podemos citar o trabalho da pesquisadora Liana Vasconcelos (2007), ao interpretar “Muribeca”, sobre o qual afirma que a voz narrativa da catadora de lixo no conto apresenta um tom duvidoso e incômodo ocasionado principalmente porque o autor: [...] com sua vida inegavelmente digna, empresta mais uma vez discurso a uma personagem que não tem voz na vida real. A vítima social toma as rédeas do seu destino, no texto: resolve, direciona. Mas o discurso parece fora do lugar, já que quem se propõe a falar por ela, é legitimado, tem voz [...] seria efetivo se fosse um discurso real. (VASCONCELOS, 2007, p. 100.). Constitui-se, portanto, como um dos objetivos deste percurso dissertativo, elaborar uma compreensão de alguns contos da obra Angu de Sangue, ancorada em fundamentos analíticos diversos dos utilizados como base para esta leitura que nos serviu de exemplo. Nossa postura não adota um contraponto teórico firmado na imanência da literatura em relação ao seu contexto, mas no entendimento de que, enquanto elaboração cultural, a arte mantém um diálogo imprescindível com a realidade da qual participa, sem subentender um vínculo determinante entre aspectos histórico-sociais e ficcionais. Assim, estaremos sempre atrelados ao pressuposto de que, como construção mimética, o trabalho artístico – mesmo quando pretende uma observação rigorosa da realidade – atua no sentido de deformá-la ou transfigurá-la. (CANDIDO, 2008, p. 22.) Assim, durante nossa trajetória dissertativa, partiremos do princípio de que essa ênfase na representação das minorias sociais corresponde ao diálogo com certa inclinação caracterizadora da literatura brasileira contemporânea: a de ser filha “da cidade” e possuir suas “raízes fortemente arraigadas em solo urbano” (FARIA, 1999, p. 29). Desse modo, as vozes narrativas em Angu de Sangue estão atreladas a este aspecto, uma vez que elas configuram o discurso de personagens deslocados e inadaptados à dinâmica injusta e excludente das grandes cidades. A catadora de lixo, o assaltante, o mendigo, os moradores de favela; todas personagens que problematizam a segregação e a divisão dos espaços urbanos nas grandes 11 metrópoles. Estas últimas serão configuradas em toda a sua fragmentação e ilegibilidade, porque configuradas tendo as relações de conflito – tanto dos diferentes sujeitos com o espaço como destes entre si – em primeiro plano. O modelo descritivo de exposição do espaço perde espaço para um cenário constituído, sobretudo, a partir dos encontros-confrontos que as rotas urbanas confusas e céleres impõem a seus habitantes. Por isso, a fim de efetivarmos o nosso processo de estudo, iniciaremos com um a explanação sobre os principais aspectos enfatizados pela ensaística a respeito da obra em questão, observando informações como o projeto artístico do escritor, as temáticas e aspectos formais mais enfatizados pelos analistas e a indissociável relação que estes fatores possuem com a representação do espaço urbano. Após elegermos a urbanidade como elemento central de nossa investigação, utilizaremos o conceito de heterotopia desenvolvido por Foucault (1975) para demonstrar como esta urbanidade percebida a partir de um parâmetro negativista – porque também associada a definições como subtração e desterritorialização –, está agregada a uma mudança de perspectiva histórico-social-ideológica a respeito das cidades. Perceberemos, por fim, como a predominância desse espaço urbano desgastado na ficção de Marcelino Freire não se trata de um aspecto pontual e exclusivista, mas recorrente na contemporaneidade na qual o escritor está inserido. Sua obra mantém um diálogo com os “discursos do medo” e as “falas do crime”, definições desenvolvidas por Caldeira (2003) na reflexão a respeito dos modelos discursivos dominantes que, de certa forma, justificam e reorganizam as composições oficialmente estabelecidas dos espaços urbanos coletivos. Essas reestruturações ou contestações ocorrem, principalmente, devido ao não acolhimento – por parte dos padrões oficiais – de todas as diferentes subjetividades que atuam na constituição das cidades. Logo, a narrativa de Marcelino Freire, ao selecionar os respectivos discursos, possibilita a produção de sentidos que problematizam os muros imaginários que delimitam os espaços nas cidades contemporâneas; estas serão analisadas não como mero reflexo da realidade, mas enquanto metonímia para relações de violência, mendicância e desreconhecimento do outro, constituindo um imaginário de medo, opressão e instabilidade. 12 1. AUTOR, FORTUNA CRÍTICA E MOMENTO CONTEMPORÂNEO. 1.1 Marcelino Freire: o engajamento literário e suas implicações críticas. “Eu descobri que eu escrevo não porque eu quero falar. Mas porque eu quero escutar. Eu sei e procuro escutar. [...] Essas minorias sempre me cercaram. Eu tenho um ouvido atento para elas” (VACONCELOS, p. 98, 2007.) O fragmento acima é parte de entrevista concedida por Marcelino Freire ao extinto site Leia Livro em 2006; nela, o escritor responde a perguntas feitas por internautas. Embora reduzido, o trecho pode ser utilizado como um pretexto conveniente à introdução de um processo discursivo que procurará entender, resumidamente, em que consiste o projeto artístico do autor para – de forma mais ampla – perceber como sua concepção sobre o trabalho literário dialoga com uma tendência estético-ideológica própria à fase que lhe é contemporânea1. Este percurso permitirá, ademais, compreender não somente este momento da produção literária brasileira, mas também as leituras que sobre tais aspectos empreende a fortuna crítica. A colocação de Freire faz-se adequada, porque, ao revelar a motivação de sua escrita, evidencia aspectos importantes desta propensão que aqui desejamos analisar. O primeiro deles diz respeito justamente a este “motivo” pelo qual se escreve que, segundo nosso autor, não advém de uma necessidade individual de falar, expressar-se, fazer-se ouvir; pelo contrário, sua escrita surge do desejo de escutar. Ou seja, se a ação de falar subentende um agir em causa própria, colocar-se, posicionar-se, ao afirmar que escuta, o escritor atribui a si a 1 O que não subentende – é importante ressaltarmos – uma relação de adequação entre projeto artístico e obra, uma vez que estamos atrelados à corrente teórica que entende a segunda (obra literária) como realidade segunda; ou seja, embora vinculada ao seu contexto de produção, é capaz de produzir as mais diversas significações, impossíveis de serem controladas pelo autor ou analista. A obra literária efetiva-se a partir da anulação ou transgressão da realidade, é o “como se” estabelecido através de um “jogo” imprevisível (ISER, 1996). 13 função de mediador, veículo, porta-voz. O papel é de intermediário, pois o escutar não é passivo. Aquilo que “atentamente procura-se escutar” serve como matéria para a fala que atua; atua não mais a cargo de quem se manifesta diretamente, mas por aqueles que foram ouvidos devido a uma possível sensibilidade aguçada do escritor. Estas a quem o escritor serve de intermédio são, Freire deixa claro, as minorias (sendo menor, neste caso, o acesso a determinados direitos sociais, porque frequentemente, esses grupos menos favorecidos são maiores em relação ao número de cidadãos classificados como tal). Quando afirma possuir um ouvido “atento” para tais grupos, Freire deixa implícito o fato de os mesmos não poderem ou não serem capazes de se fazer ouvir pelo uso da própria voz (pelo menos não para a sociedade como um todo), visto que a capacidade de ouvir exige certa acuidade; benefício desfrutado por quem por essas vozes são “cercados”. É significativo compreender, ainda, em relação aos dois segmentos sociais antagônicos (minoria/maioria, excluídos/privilegiados) ser ao segundo que o escritor sente pertencer; tanto que pelos primeiros ele é “cercado”. Não pode fazer parte da minoria, pois o cerco é o invólucro, o contorno do centro; centro onde se encontra o escritor, com seu papel social bem delimitado, fazendo uso da posição e capacidade de divulgação desfrutada por suas palavras para permitir ao outro o direito de falar, mesmo de forma indireta. No presente, alguns fatores contribuem para ampla propagação e acesso a esta perspectiva freiriana sobre a sua produção literária. Entre alguns deles está a extensão do uso da Internet, por meio da qual uma grande parcela de escritores divulga trabalhos não apenas literários, mas também nos moldes de artigos e resenhas de teor opinativo sobre temáticas diversas2. Marcelino Freire é personagem atuante na rede, onde mantém atualmente o seu segundo blog, o Ossos do Ofídio, utilizado para tornar conhecidos além dos seus trabalhos e os de outros escritores, a agenda dos eventos artísticos dos quais participa (ou não) como 2 Para um aprofundamento do tema, ver CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad. Reginaldo Camello Corrêia de Moraes. São Paulo: UNESP e Imprensa Oficial, 1999. 14 convidado e organizador. O espaço contém material de teor variado: desde poemas e contos, passando por apreciações críticas sobre peças de teatro, álbuns musicais, filmes e livros recém-lançados, até comentários sobre assuntos cotidianos. Dentre toda a multiplicidade, não deixam de serem recorrentes em suas atualizações, redações que problematizam a atividade de escritor, através de argumentos defensores de um texto literário livre de rebuscamentos da linguagem, espontâneo, que, em contrapartida, faça uso – como diz o autor – “da palavra do mendigo”, procurando ouvir o que este murmura, boceja, fabula; logo ali, “na boca do viaduto”.3 Ou seja, uma escrita literária que, de acordo com Freire, deve distanciar-se do sublime, a fim de se aproximar das problemáticas cotidianas vivenciadas principalmente em terreno urbano. Isso materializado, como subentende a metáfora acima, através de um texto sujo, impactante, sobrevivente: configurando em suas linhas apenas o extremamente necessário para existir. Fora do ambiente virtual, a atuação aparentemente engajada do escritor também se desenvolve por meio de sua presença em eventos e feiras literárias. Nestes encontros, são notórias as performances interpretativas realizadas por Marcelino Freire na leitura de seus contos4. Em tais exibições, o escritor dá voz ao texto literário, executando um discurso em primeira pessoa representante, como afirma Aguiar (2010), de expressões coletivas sufocadas, através de personagens que experimentam a ansiedade de se fazerem ouvir, falar. Grande parte destas vozes possui bem demarcado no texto ficcional o lugar que ocupam na sociedade. Isto é, a encenação efetuada nos contos dificilmente pode distanciar-se da ideia de que estes “relatos sufocados” dialogam com “queixas” de grupos sociais resistentes a alguma forma de exclusão, seja de raça, gênero ou classe social. É recorrente, quando comenta sobre a motivação que influencia a escolha das temáticas presentes em seus contos, Freire afirmar que “escreve para se vingar”; e como 3 FREIRE, Marcelino. Palavra de mendigo. Disponível em:<http://marcelinofreire.wordpress.com/2012/04/02/palavra-de-mendigo/.> Acessado em: 05 de Abril de 2012. 4 FREIRE, Marcelino. Trabalhadores do Brasil. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Tes1GKmA0_k&feature=related >. Acesso em: 12 de Abril de 2011. 15 complementa Frota, “faz isso utilizando a voz da rua. A dor e o sofrimento alheio. Aos berros. Os personagens contam suas próprias histórias ou as revelam em diálogos e interpelações” (2009, p.1.) Se o exposto até o momento parece evidenciar características ideológicas5 próprias à atuação do escritor em análise, não é parte de nosso objeto de estudo, no entanto, assumir uma postura investigativa baseada na possível determinação que tais aspectos fossem capazes de exercer na configuração do texto literário. Estamos, pois, distantes de uma atitude interpretativa fundamentada no princípio de que seriam as obras de arte consideradas epifenômenos da sociedade, como questiona Costa Lima, funcionando como “‘documentos’ da ‘realidade’, capazes por si de dizerem desta” (2002, p. 662). Assim, a finalidade deste percurso discursivo não é verificar possíveis adequações que a obra possa manter em relação às perspectivas do escritor que a produz, como se fosse a primeira (obra literária) espaço onde informações sobre a realidade extratextual mantivessem um estatuto de realidade; ficando para o estudioso, ademais, a função de explicar a sociedade através da literatura. Nossa leitura sobre esse perfil “empenhado” de Marcelino Freire – principalmente no que respeita ao entendimento de que o trabalho literário é, sobretudo, espécie de instrumento divulgador dos “gritos e das queixas” dos segmentos sociais subalternos, já que “as pessoas bem sucedidas não o interessam, porque estas, segundo o autor, não teriam dor ou aperreio” (FROTA, 2009, p. 3, grifos nossos) – pretende examinar de que forma este julgamento sobre a literatura dialoga com certa tendência da produção brasileira contemporânea. Para, posteriormente, apurar modos a partir dos quais a respectiva propensão satisfaz a abordagens críticas interessadas em submeter a leitura da obra à interpretação de aspectos mais gerais que dizem respeito a um entendimento sobre a sociedade. Tais estudos concebem as obras como divulgadoras de certa visão de mundo, enfatizando uma possível função representacional da literatura. O que consiste em, como explica Carrol, admitir que esta apresente ou torne evidentes as características de algo externo, de um espaço ou contexto diverso do estritamente 5 O termo ideologia é utilizado, nesse caso, como conjunto de ideias capazes de justificar ações individuais ou de um determinado grupo. 16 literário; ao produzir a figura de uma realidade, seja psicológica, social, particular ou historicamente reconhecida (apud Lima, 1974, grifos nossos). Freire, ao expor o respectivo posicionamento como escritor, deixa perceber nas entrelinhas do seu discurso um traço ideológico (por alguns momentos e várias razões) persistente no percurso literário brasileiro: aquele em que o escritor incorpora a função de intelectual representante da sociedade e sua obra, por consequência, passa a ser encarada como material divulgador de ideias, denúncias e posturas políticas. Tal tendência é analisada por Silviano Santiago, cujo ensaio compõe o livro O Cosmopolitismo do Pobre (2008). Segundo ele, esta perspectiva assumida por determinados escritores perante seus trabalhos pode ser considerada recorrente em alguns segmentos participantes da produção literária brasileira: certo compromisso com o social do qual não é fácil isentar-se. Para o ensaísta, em países como o Brasil – onde se vivenciam carências econômicas e educacionais refletidas significativamente no baixo número de leitores – o escritor não é capaz de abster-se da idealização de que sua obra pode exercer uma importante função no campo sociopolítico, mesmo considerando o restrito alcance que esta possa chegar a ter. Por poucos que sejam os atingidos pela literatura, ela deverá cumprir seu papel persuasivo através de temáticas comprometidas com as mazelas e deficiências da sociedade na qual se insere. É como se as especificidades de uma realidade social falha não permitissem à arte; com todo prestígio que lhe é reservado, mesmo para uma minoria; abrir mão do poder de conscientização e convencimento que esta ainda é capaz de suscitar. Assim explica Santiago, valendo-se de uma metáfora bastante feliz, quando afirma ser o nosso sistema literário semelhante a um rio subterrâneo, “que corre da fonte até a foz sem tocar nas margens que, no entanto, o conformam” (2008, p. 64). Sendo as margens os não leitores ou as minorias referidas por Freire; pois, apesar de serem motivação e temática representada em sua obra, não chegam a ser seus consumidores. Seria a carência deste público determinante, de certa forma, do tratamento concedido à literatura na sociedade? Para o ensaísta citado, se o valor dado à produção escrita ainda é limitado, isso se deve à escassa exploração da leitura. Os escritores, em consequência, acreditam serem suas produções instrumentos para 17 essa realidade de recepção da arte literária modificar-se. A literatura torna-se objeto e instrumento ao mesmo tempo: objeto de apreciação literária e instrumento comprometido com as melhoras – qualitativas e quantitativas – de acesso ao texto. Essa natureza híbrida, que alia estética a comprometimento político, dá à parcela da literatura brasileira uma forma literária que Santiago (2008) define como anfíbia. Em textos onde se evidencia a recorrência à representação das vozes dos menos favorecidos, das injustiças e problemáticas sociais. Com isso, não se subentende que este posicionamento politizado, em defesa de causas específicas, comprometa o tratamento dado ao estético. São esses dois elementos – estético e político – conjugados na forma a partir da qual a literatura se configura; até porque, conclui o nosso analista, é difícil não se autoclassificar como visionário em um país como o Brasil; julgando-se como visionário, aquele que possui visões – tanto literárias quanto políticas – de que as respectivas situações socioeconômicas e educacionais tendem a melhoras. Este posicionamento visionário, no entanto, situa-se em primeiro plano para análises críticas que, além de evidenciar certa referencialidade atribuída à literatura, focalizam suas interpretações em questões concernentes à realidade fomentada pelo texto literário. No caso de Marcelino Freire, a explícita adesão a temáticas vinculadas aos problemas experimentados por grupos desfavorecidos, concretizada através da preferência em representar aquelas vozes “feridas pela revolta, amargas, difíceis e duras de suportar” (Castello, 2008) atende a abordagens que associam a literatura à função ideológica de apontar situações de exclusão. Isto é, se a obra é entendida como figuração do real, haverá uma discussão valorativa a levar em consideração a concepção de realidade retratada no plano fabular. Esses estudos procuram respaldar as produções que de alguma forma distanciam-se, como explica Coutinho, de uma tradição “eurocêntrica falocrática e racista que privilegiou certas vozes em detrimento de outras por razões político-hegemônicas” e passam, em contraposição, a “contemplar aquelas vozes até então silenciadas” (2001, p.292). Assim, segundo o respectivo viés analítico, para que cumpra a sua função político-ideológica, a obra literária deve revelar aspectos sociais não ressaltados pelas manifestações artísticas que acatam aos valores sociais tidos por dominantes. 18 Na exploração do texto literário, essas leituras tendem, sobretudo, a observar a legitimidade representativa que as obras são capazes ou não de manter com esta realidade priorizada na narrativa. Em relação a Freire, por exemplo, parte significativa da fortuna crítica selecionada – como será aprofundado no decorrer do nosso estudo – destaca a eficiência dos recursos utilizados pelo escritor na composição de suas personagens, como também na figuração de elementos como a violência urbana, procurando observar se estas configurações cumprem sua “missão” em revelar situações de exclusão. Tais leituras procuram, assim, atribuir uma função pragmática à literatura, como se a esta coubesse a capacidade comunicativa de atuar diretamente sobre a realidade. Estas posturas deixam de considerar a obra literária como um produto da mímesis (Lima, 2003). Ou seja, enquanto manifestação estética atua indiretamente sobre a realidade, uma vez que entre essas duas instâncias (obra x realidade) são necessárias mediações que invalidam apreciações estritamente sociológicas a respeito dos seus significados. 1.2 Oralidade e testemunho como propriedades narrativas na representação de subjetividades nos contos de Marcelino Freire. Marcelino Freire possui cinco livros de contos publicados: Angu de Sangue (2000), o primeiro deles, seguido por Balé Ralé (2003), Contos Negreiros (2005) – esse vencedor do prêmio Jabuti em 2005 –, Rasif: mar que arrebenta (2008) e Amar é Crime (2010) o mais recente. A locução utilizada para definir estas obras, ao considerar tratar-se de livros “de contos”, pode ser problematizada, caso levemos em consideração a classificação que seus conteúdos recebem já em seu primeiro contato com o público. Com exceção de seu trabalho inaugural, Angu de Sangue, aos demais é dada designação diversa: em Balé Ralé existem “18 improvisos”; os contos negreiros são intitulados no sumário como “cantos”; os de Rasif são “cirandas, cirandinhas”; enquanto em Amar é Crime o que temos são “pequenos romances”. Esta multiplicidade presente não apenas na denominação das narrativas freirianas, como também em particularidades constitutivas de seus textos (como 19 veremos adiante), são interpretadas por críticos que enfatizam certa indeterminação relacionada à tentativa de incluir as produções do escritor em colocações rígidas no que respeita à fixação em um gênero literário específico. Essas leituras apontam o fato de estarem os textos do pernambucano em zonas intermediárias, situados entre o conto e a poesia e de apresentarem características que os aproximam da crônica ao perfil popular dos cordéis. Entre algumas dessas apreciações está a de Ítalo Oligari (2010), cujo estudo busca analisar os traços estilísticos responsáveis por fazerem com que os contos de Marcelino Freire desafiem, segundo ele, os limites do conto moderno6. Tais recursos seriam, principalmente, aqueles cuja utilização garante certa musicalidade ao encadeamento da narrativa. Aliterações, assonâncias e rimas internas proporcionariam uma acentuação diferenciada à leitura destes textos, favorecendo as familiares encenações em “voz alta” efetivadas pelo autor. A comparação com o poema e a literatura cordelista dá-se, sobretudo, em razão desta faculdade que a ficção freiriana possui de ser recitada, “contada” para o público. Como acontece, por exemplo, em “Trabalhadores do Brasil”, “canto” participante dos Contos Negreiros, que se assemelha a uma lamentação, uma ladainha. O conto é todo produzido por meio de palavras com forte nasalização sonora, a criar um efeito capaz de facilitar a execução cantada de suas frases: “Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?” (FREIRE, 2010, p. 19). Esta musicalidade textual evidencia-se, ainda, através das perguntas e interpelações que o narrador em primeira pessoa direciona ao leitor. Muitos dos contos do escritor expõem estas construções – como “A ponte o horizonte”, “Darluz” e “Leão das cordilheiras” em Balé Ralé (2003), além de “Totonha” em Contos Negreiros (2010), apenas para citar alguns – que funcionam, para Oligari (2010), como espécies de refrãos ou estribilhos, propiciadores de certo movimento de ida-e-volta; repetição parecida com as que encontramos nos textos “cantados” dos repentistas 6 Para o pesquisador, os contos freirianos rompem com as características que, segundo ele, seriam próprias aos contos modernos, tornando-se próximos de uma tendência pós-moderna. Esses aspectos relativos à constituição do gênero, no entanto, não são parte de nosso objeto de estudo. 20 nordestinos. Fragmentos do tipo: “posso saber?”, “ó, ó, o que eu vim fazer?”, “pergunto: o quê”, “por quê?” encontrados em “A ponte o horizonte”, especialmente nas finalizações dos parágrafos, são um bom exemplo desta prosa rimada. Ou as excessivas repetições do fonema /é/ em “Zé”, “o que você é?”, “pois, é”, “ele não quer”, a criarem uma tonalidade específica para “Leão das cordilheiras” (FREIRE, 2003, p. 27, 69-71). “Totonha” também serve de exemplificação destes recursos, onde verificamos a repetição de palavras com o fonema /m/ e a rima em ‘for’, ‘superior’ e ‘ensinou’, que garantem a mesma musicalidade, como observado em: “Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo da linguagem superior. Deus quem me ensinou” (FREIRE, 2010, p 80). As metáforas musicais empregadas para fazer referência aos contos de Marcelino Freire não são, portanto, irrelevantes. Os “cantos” negreiros podem ser considerados uma alusão aos conhecidos cânticos próprios de alguns grupos étnicos africanos. Essas odes correspondiam a lamentações “cantadas”, executadas pelos escravos ao exercerem o trabalho forçado. Uma espécie de analogia às lamentações e queixas que poderiam ser aquelas realizadas pelos negros que vivenciam problemáticas diferentes na atualidade, como os negros trabalhadores em “Trabalhadores do Brasil”, aqueles que são os moradores da favela em “Solar dos Príncipes”, ou o rapaz que teme não concluir o curso na faculdade, na qual entrou pelo regime de cotas, em “Curso Superior”. As “cirandas, cirandinhas” em Balé Ralé (2003) que remontam à dança e à música criadas pelas mulheres de pescadores no Nordeste brasileiro, assim como em Amar é crime (2010) cujo “romance” em seu sentido vulgar – conforme dicionário Aurélio – pode ser uma “composição poética narrativa do romanceiro popular nordestino”. Logo, esta musicalidade presente na narrativa freiriana seria a tradução de uma oralidade recriada a partir de elementos distintivos de alguns grupos sociais, em especial aqueles que experimentam circunstâncias discriminatórias, por serem nordestinos, negros e pobres. Este atributo torna-se, assim, de acordo com Almeida (2012), responsável por levar a que tais contos sejam interpretados como a objetivação do sofrimento através da oralidade. 21 Essa musicalidade estaria diretamente relacionada à representação da oralidade destes segmentos sociais priorizados pelas narrativas do escritor. Um texto escrito que se deseje próximo às falas daqueles sujeitos que – para Barbosa – se configuram como vozes de personagens que são “restos” fragmentados pela forçada adaptação ao universo, também fragmentado e violento, da experiência urbana (FREIRE, 2000, p. 12). Estes personagens, sem vez e voz no mundo real, ganham direito à existência, principalmente através das falas que executam. Pois não há, nas tramas da narrativa, intervalos descritivos para que estes tipos sejam apresentados. É através da lamentação cantada, da ladainha e da cantoria que eles são introduzidos ao leitor, constituindo-se muito mais como vozes do que corpos; tais quais, como na definição de Stigger: “tornando-se seres quase espectrais, presentes somente a partir do momento que fazem uso da palavra. Parecendo ser na fala, em última instância, que encontram significado para as suas vidas” (2001, p. 16). Uma das formas de realização desta oralidade se dá por meio das interlocuções sem respostas presentes na composição das vozes narrativas. Os personagens narradores estabelecem um diálogo com o leitor, evidenciado por meio dos questionamentos dirigidos a este, principalmente, em tom de indignação, como faz a catadora de lixo em “Muribeca”; protagonista que vai se compondo ao longo das perguntas enunciadas: É a vida da gente esse lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho? E o meu marido o que vai fazer? (FREIRE, 2000, p. 23). Outra maneira de produzir este sentido de oralidade se concretiza no uso das interjeições, que parecem afrontar ainda com mais veemência o leitor, com interpelações semelhantes a uma provocação, como se fosse o receptor, de certa forma, responsável pelos problemas que afligem a voz narrativa. O que acontece, 22 por exemplo, no conto “Nação Zumbi”, presente em Cantos Negreiros (2010), em que o narrador não aceita o fato de ser impedido de vender seu próprio rim. A narrativa problematiza certa contradição de alguns direitos civis, que parecem assegurar bens a uns em detrimento de outros, já que a venda do órgão garantiria à personagem uma opção que o distanciasse de uma situação de miséria: Por que não cuidam deles, ora essa? O rim é meu ou não é? Até um pé eu venderia e de muleta eu viveria. Na minha. Um olho enxerga por dois ou não enxerga? Se é pra livrar minha barriga da miséria até cego eu ficaria. Fácil é denunciar, cagar regra e caguetar. O que é que tem? O rim não é meu bando de filho da puta? Cuidar da minha saúde ninguém cuida. [...] meu rim ia salvar uma vida, não ia salvar? Diz, não ia salvar? Perdi dez mil, e agora? (FREIRE, 2010, p. 53-55, grifos nossos). Em “Vanicléia”, também em Contos Negreiros (2010), esses recursos criam ares de uma cumplicidade a ser exigida do leitor pela voz narrativa; esta representa uma prostituta a relatar as formas de violência que vivenciou nas ruas e que agora, contraditoriamente, as experimenta em seu casamento: “U-hum. Agora é ter que aguentar esse bebo belzebu. O que ele me dá? Bolacha na desmancha. Porrada na canela. [...] Qual é a minha esperança com esse marido barrigudo, eu grávida? Que leite ele vai construir? Homem? U-hum. Não vale um tostão pelas bandas daqui. [...] quanto vale ele ali na praça, na praça? Pergunta, pergunta. A vida dele é me chamar de piranha e de vagabunda. E tirar sangue de mim. Cadê meus dentes? Nem vê que eu to esperando criança. Agora disso, ninguém tem ciência. Ninguém dá um fim (FREIRE, 2010, p. 41-42, grifos nossos). 23 Outras leituras interessadas em evidenciar aspectos caracterizadores do trabalho de Marcelino Freire acrescentam à observação deste traço de oralidade a conceituação de que seus contos configuram-se, principalmente, como testemunhos. A qualificação dá-se devido à preponderância nestas narrativas deste discurso em primeira pessoa que, segundo tais apreciações críticas, procura revelar o máximo de fidelidade na representação das personagens enunciativas. Ferraz (2009) é uma das ensaístas que destaca a respectiva qualificação, além de outras discussões, como as de Patrocínio (2009), Castello (2008) e Teixeira (2008) preocupadas, também, em salientar como este procedimento narrativo é responsável por caracterizar tais depoimentos enquanto os mais próximos possíveis da realidade tematizada no texto literário. O próprio uso dos termos testemunho ou depoimento já indica certa ambiguidade na ficção, devido à natureza do conteúdo nomeado. Pois ambos possuem significados atrelados à noção de veracidade, de busca de reconstituição exata dos fatos. No intuito de compreender a imprecisão que o uso da definição pode provocar no campo literário, Ferraz recorre a Seligmann Silva (2003), cujo estudo amplia a análise sobre os relatos em tom testemunhal, e ressalta que: A noção de testemunho passa pelo sentido jurídico e histórico da palavra, situando um discurso tanto no campo das leis, como no campo histórico. O testemunho tem, portanto, uma forte ligação política, visto que por meio deles as transgressões podem ser avaliadas e a lei aplicada. Por isso a palavra testemunho também se liga ao sentido de denúncia social (2009, p. 31). Em seu estudo a ensaísta admite que as observações de Silva (2003) estão concentradas em testemunhos de vítimas de guerra, prisioneiros e outros tipos de marginalizados, ligados ao sentido jurídico e histórico. Ferraz (2009) acrescenta serem do seu interesse, não estes relatos reais, mas aqueles que são transpostos da experiência de vida para a experiência ficcional. Na ficção, portanto, o uso do tom testemunhal parece conciliar o universo do não verdadeiro, do inventado, com um 24 sentido de proximidade com um real. Quando os sujeitos representados expressamse sem o intermédio de um narrador observador, diminui-se a distância entre o leitor e a voz enunciativa; dá-se ênfase, nas tramas do texto, à configuração destas subjetividades e aos modos de interpretar os eventos do enredo. A individualidade e a relação que a personagem mantém com o universo sociocultural transfigurado no texto tornam-se mais imediatas. Patrocínio (2009) explicita ser por meio deste formato testemunhal que se estruturam muitos dos contos freirianos; e que os mesmos são assertivos em revelar situações de exclusão vivenciadas por uma parcela significativa da população brasileira. Justifica que a composição narrativa em primeira pessoa, ao fazer uso da fala da personagem (efeito reforçado pela tentativa de reconstituir elementos orais) instaura um entendimento diferenciado sobre as minorias sociais, por oferecer ao leitor uma percepção que se deseja próxima do objeto representado. Isso, por meio de uma elaboração discursiva que configura o outro a partir de seu próprio contexto, ao produzir uma fala desejosa em compreender as situações narradas e utilizar a perspectiva dos sujeitos que as vivenciam. A produção literária de Marcelino Freire apresenta não poucos exemplos de contos cuja voz narrativa problematiza o “estar” em sociedade, contestando as limitações, carências e especificidades próprias do lugar social ocupado. Dentre os contos analisados e utilizados para exemplificação da respectiva característica, além dos que já citamos, alguns dos mais referidos são: “Muribeca” em Angu de Sangue (2000), “Esquece” e “Totonha” em Contos Negreiros (2005) e “Da Paz” em Rasif (2008). Em todos os três textos há um narrador em primeira pessoa a dar o testemunho de sua vivência; que não consiste, no entanto, em uma experiência particular, mas em um relato representativo de um grupo, uma coletividade. Ou seja, as problemáticas tematizadas nesses monólogos – expostas em tom de revolta, resignação, ironia ou dor – estão atreladas aos tipos sociais que estes personagens representam. São eles, respectivamente: a catadora de lixo ao reivindicar a permanência no lixão do qual sobrevive; o assaltante a convidar-nos a enxergar outro tipo de violência, a violência instituída, diferente da praticada por ele; a mulher analfabeta a rejeitar o saber valorizado socialmente e a moradora da favela ao renunciar a uma paz incompatível com a sua realidade. 25 Ao considerarem, no entanto, propriedades como a oralidade e o testemunho enquanto prevalecentes nos trabalhos de Marcelino Freire, os estudos críticos selecionados mostram que tais elementos se baseiam, sobretudo, numa noção de legitimidade representativa relacionada à configuração destas minorias sociais nas tramas do texto literário. Essas análises, quando enfatizam a existência desses protagonistas revelados em primeira pessoa e enquanto conjugados com aspectos orais próprios de suas subjetividades, apontam, em especial, a habilidade que a constituição de tais vozes enunciativas possui de “revelar” situações de exclusão. É como se os recursos narrativos utilizados pelo autor fossem hábeis em chegar ao cerne do que verdadeiramente são as identidades participantes destes grupos minoritários. E, desse modo, julgar ser possível, não apenas que uma forma discursiva permita o acesso direto à realidade, mas também, a existência desta autenticidade subjetiva, no sentido do que problematiza Sarlo (2007), a respeito de uma “supervalorização identitária” recorrente na América Latina, após a derrocada de muitos dos regimes ditatoriais da década de 70. Para exemplificação do respectivo posicionamento crítico, acrescentamos a colocação de Castello, ao destacar a preferência freiriana “pelas vozes estridentes e sem esperança que parecem perfurar a mente de quem as ouve”: Marcelino incorpora essas vozes — aceita-as como são, por mais medonhas e repulsivas que pareçam —, e se oferece como um transmissor. Seu trabalho é o do editor que depura, procura relações ocultas, alija fraudes, desenha o possível. Ele atua como um browser, instrumento que habilita seu leitor a navegar por um vasto oceano de vozes, a acessar vozes hospedadas nas mais distantes profundezas, e ainda assim retornar à superfície. [...] Não é fácil se oferecer como um aparelho de captação e transmissão dos farrapos da voz humana. Aceitar a brutalidade e o sofrimento do outro, acolher (em vez de afastar). E fazer disso escrita (2008, p. 2-3, grifos nossos). Nestas avaliações, sobre as quais desejamos criar um contraponto, a forma narrativa de delegar voz aos respectivos personagens é entendida, principalmente, 26 como uma capacidade autoral de “traduzir” as queixas e lamentações destes tipos selecionados do contexto social; baseadas, portanto, na compreensão do discurso literário como via de acesso à realidade empírica. Ao escritor são dadas denominações como as de “transmissor” ou “instrumento”. Enquanto ao texto literário estão atreladas interpretações centradas na proximidade que tais métodos composicionais são capazes de suscitar, como expõe Patrocínio (2009) – em resposta à teorização elaborada por Margery Fee (1985) em Who can write the other?7 – ao defender ser possível, sim, a criação de estratégias hábeis em transformar estas subjetividades no principal sustentáculo do processo de articulação do produto discursivo com o outro a ser representado. Ainda segundo o mesmo estudo, Freire é competente na formulação destes artifícios, pois sabe colocar-se no lugar destes outros, ao expressar uma linguagem literária semelhante à fala popular e criar, por fim, uma essência produtiva fundamentada na incessante busca de “um experimento literário capaz de abarcar a singularidade de personagens que vivenciam situações limites em seus cotidianos”. Se, no entanto, em torno deste entendimento, recai parte das leituras preocupadas em interpretar a representação dos sujeitos marginalizados nos contos de Marcelino Freire, julgamos necessário ensaiar um contradiscurso problematizador de algumas das perspectivas subjacentes a tais análises. Nossa indagação concentra-se em dois principais aspectos relativos a esses estudos: o primeiro deles incide sobre a legitimidade exigida pela crítica na construção das personagens freirianas, ao apontar os recursos garantidores da oralidade e do tom testemunhal, como procedimentos habilidosos em desvelar ao leitor a verdadeira essência daqueles sujeitos representados. O segundo contesta certa atribuição pragmática que estas avaliações parecem solicitar do texto literário, por considerar ser sua função a de “revelar” possibilidades de compreensão das relações de poder envolvidas nas questões sociais. Nossas ressalvas fundamentam-se, respectivamente, na contestação de certa “pureza identitária” (Sarlo, 2007), sobre a qual se inclinam 7 Esse estudo reivindica e problematiza certa ‘legitimidade representativa’ quando membros de um determinado grupo tentam expor ou tutorear a fala de outros grupos distintos. “Poderia o branco falar pelo negro; ou o homem pela mulher?” são alguns dos questionamentos levantados pela autora, que se baseiam, sobretudo, na crença da ‘pureza identitária’ referida por Sarlo (2007). 27 alguns destes discursos críticos contemporâneos, defensores de uma valorização das subjetividades; como também no respaldo de que o discurso literário deve ser entendido, sobretudo, como uma construção mimética, no sentido teorizado por Costa Lima em seus diversos trabalhos a respeito do tema. 1.3 Representação das minorias e momento contemporâneo. Na produção literária brasileira, principalmente no período mais recente, a partir dos anos de 1990, ganham destaque obras cujas vozes narrativas enfocam temáticas voltadas para a violência caracterizadora da experiência urbana de grupos marginalizados socialmente. Dentre elas, estão aquelas que chegam a gerar contradições a respeito da distinção entre ficção e realidade, porque produzidas por escritores pertencentes às mesmas categorias sociais selecionadas no texto literário; ou melhor, aqueles conhecidos, como explica Pires, por serem oriundos da “cultura periférica”, por se esforçarem em afirmar suas experiências sem a mediação de quem sempre falou por eles (2011, p. 61). A ensaísta cita dois exemplos que, segundo ela, demonstram uma mudança de perspectiva nas letras nacionais: são eles, Cidade de Deus (1997), autoria de Paulo Lins, e Capão Pecado (2000), de Ferréz. Ambos romances configuram tramas situadas, respectivamente, na favela carioca de mesmo nome e em um bairro periférico da cidade de São Paulo, o Capão Redondo. No primeiro, são tematizadas as transformações vivenciadas pelo antigo conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e do domínio do tráfico de drogas nos anos 90. Já Capão Pecado conta a história de um garoto cujo sonho é ser escritor. Juntamente com a trama, são configuradas as experiências cotidianas do Capão Redondo, acompanhadas de elementos como miséria, violência, drogas e mortes. Em algumas das leituras selecionadas sobre os dois trabalhos, a atuação tanto de Paulo Lins quanto de Ferréz é ressaltada por serem os dois autores considerados vozes “legitimadas” a discutir questões referentes ao lugar a que pertencem; sendo, portanto, “autênticas” na formulação de suas obras (PIRES, 28 2011, p. 61). Estas, então, seriam salientadas, em razão de seus autores constituírem-se como sujeitos aptos em prestar testemunho de suas vivências. Ainda exemplificando esta perspectiva de análise, temos, em complementação ao discurso de Pires (2011), o que diz Susana Moreira de Lima, em seu ensaio O espaço social da voz, no qual faz observações sobre os dois romances, afirmando, primeiramente, que em sua obra, Paulo Lins Mostra, do lado de dentro, o que é uma favela. A narrativa é feita com a voz da marginalidade. O autor fez parte desse lugar, mas precisou pertencer a outro grupo, a universidade, para falar daquele com legitimidade de escritor. [...]. É interessante observar que a linguagem usada é a das pessoas da favela em grande parte do texto, diálogos, vozes narrativas da favela, mas a ficção é construída também com a voz narrativa da elite, às vezes com pequenos cacoetes, hipercorreção, denotando uma leve impressão de estar pouco à vontade com a linguagem adotada (LIMA, 2011, p. 103). Percebemos, através do comentário de Lima, a fundamentação de que as experiências do autor seriam responsáveis por certo caráter verídico da obra, principalmente no que respeita à representação de aspectos considerados próprios à favela, já que esta é vista do “lado de dentro”, com a fala utilizada pela comunidade, a confundir-se, na obra, com a variação linguística própria dos grupos elitizados. Este perfil duplo da linguagem é, segundo a apreciação, marca direta dos distintos convívios do escritor: na favela e na universidade; o que deixa perceber, ainda, uma sensação de desconforto com as expressões adotadas, como se o discurso transparecesse um sentimento de menor pertencimento por parte do autor em relação ao seu lugar de origem. Seguindo os mesmos alicerces de análise, Lima comenta Capão Pecado, acentuando a capacidade, desta e de outras produções do autor, de utilizar uma linguagem específica ao grupo a que pertence e retratar, não só a “voz da favela” paulistana, mas também, as ideias e a cultura que permeiam a vida de seus integrantes, ou, como coloca o próprio Ferréz: 29 [...] para nos certificar de que o povo da periferia/favela/gueto tenha sua colocação na história e não fique mais quinhentos anos jogado no limbo cultural de um país que tem nojo de sua própria cultura [...] para representar uma cultura autêntica de um povo composto por minorias, mas em seu todo uma maioria. E temos muito a proteger e a mostrar [...] principalmente num país colonizado até os dias de hoje, onde a maioria não tem representatividade cultural e social (Ferréz apud Lima, 2011, p. 105). O trecho transcrito é parte do que foi chamado de Manifesto de abertura do movimento Literatura Marginal, do qual Marcelino Freire também foi participante. A expressão disseminou-se no cenário cultural contemporâneo, através de edições especiais da revista Caros Amigos, intituladas Literatura Marginal: a cultura da periferia, publicadas nos anos de 2001, 2002 e 2004. A designação passou a ser utilizada para caracterizar a produção de autores que experimentam situações de marginalidade – social, editorial, jurídica – e trazem para o campo literário os termos, os temas e a linguagem “igualmente marginais” (NASCIMENTO, 2006, p. 1). Os critérios de classificação do movimento são condizentes com as políticas de valorização das minorias sociais e servem como exemplificação para a tendência crítica apontada – pelo fato de as barreiras de pertencimento ao grupo serem definidas, fundamentalmente, a partir da vinculação do autor (e por consequência, segundo tais parâmetros, da obra) a questões relacionadas ao reconhecimento das classes menos favorecidas. Se, portanto, – segundo as referências citadas –, o decurso dos acontecimentos históricos fez emergir, nas últimas décadas, a necessidade de se voltar o olhar para grupos sociais distintos dos que até então ocupavam lugares sociais privilegiados, na esfera literária brasileira revelou-se um discurso valorativo em relação às produções interessadas em representar certos segmentos minoritários. Principalmente aqueles cuja segregação é oriunda de um crescimento urbano desordenado, carente de políticas públicas que possibilitassem um desenvolvimento mais igualitário, como são os casos, por exemplo, de mendigos, 30 meninos de rua e moradores de favela. Tais discursos fundamentam apreciações críticas empenhadas em cotejar, como já observado, uma legitimidade representativa destes sujeitos, cuja concretização faz-se mais efetiva através do formato testemunhal. Testemunho que, no entanto, gera problematizações sobre conceitos como o de certa “pureza” a revelar-se através do texto literário; sobretudo, quando este é produzido pelos “escritores-personagens” citados por Graciano (2011), capazes de “transpor” para a narrativa as mesmas vivências da realidade empírica. Tais posicionamentos consideram a prática do discurso – seja ela qual for, concretizada através do testemunho ou não – categoria capaz de dar conta do real de forma totalizante, como ressalva White (2008) ao defender uma desconfiança sobre a realidade, já que esta se configura como entidade linguisticamente constituída. Sendo, portanto, problemático para os estudos históricos, este princípio de “legitimidade irrestrita” conferido aos testemunhos – em razão desta “carga de verdade” que os acompanham. Para os estudos literários, por sua vez, ele é também passível de contestações, porque subentende a literatura como entidade representacional; isto é, enquanto instrumento responsável por manifestar a “verdade” ou a “essência” da exterioridade eleita como núcleo do mundo (CARROL apud LIMA, 1981, p. 217). A contraposição que o nosso trabalho procura efetivar em relação a este foco dos estudos críticos está – além do distanciamento de uma disposição sociológica e pragmática sobre a literatura – na vinculação mantida entre a representação das minorias sociais e outros dois elementos configurados na obra de Marcelino Freire: a violência e o espaço urbanos. A conexão faz-se proveitosa, em razão da relação de significância presente entre as três categorias. Os segregados presentes na narrativa freiriana são, principalmente, segregados do ambiente citadino; seja esta exclusão física ou simbólica. Além disso, em muitos de seus contos, o lugar social ocupado pelas personagens funciona como motivação para os diversos tipos de violência vivenciados nas tramas. O espaço da cidade torna-se o local onde – embora as barreiras existam tanto de forma substancial, quanto simbólica e convencionalmente estabelecida –, não é possível a anulação dos encontros inesperados destes sujeitos díspares, nos termos de Süssekind (2005). Ao se defrontarem, cada uma dessas parcelas, antagônicas entre si passam a reivindicar, 31 ora a modificação dos modos de organização fixados, ora a permanência destes. E é por meio de tal disputa que as várias formas de violência ganham concretude no plano fabular. Não são poucos os contos do autor válidos como exemplificação para o exposto no parágrafo anterior. Em Angu de Sangue (2000), o prefácio de Barbosa já nos adianta ser a violência apresentada como significado dos contos, originada de uma duplicidade que só intensificam seus valores: “é, por um lado, a violência da existência urbana em que se agitam as personagens e, por outro, a violência de adaptação a que são forçadas” (BARBOSA apud FREIRE, p. 12). O que se revela em “Muribeca”, cuja voz narrativa exige com veemência a conservação do lixão onde os seus pares sobrevivem, reafirmando as fronteiras que os separam do restante da cidade e, expondo, com certo sarcasmo, a violência que prescinde a desumanidade de sua sobrevivência. Tom semelhante encontra-se em “Volte outro dia”, onde o mendigo ao bater insistentemente na porta do narrador-personagem parece desafiar os limites instituídos entre este, o homem que possui uma “vida moderna” (FREIRE, p. 40), e aquele, o indivíduo (mendigo) que o invoca e lhe vem expor a residência como “a ferida da rua” (p. 41); persistente, cheirando a “mijo”, provoca o protagonista a manifestar, no seu discurso de não comprometimento, a violência implicada na indiferença ante os problemas alheios. O mesmo se verifica em demais obras do escritor, como em Contos Negreiros (2005), no conto “Solar dos príncipes”; bastante citado pela crítica, enfatiza a inversão de papéis das personagens – os negros moradores de favela e os moradores de um condomínio de classe média – serve como tema para a reflexão a respeito da delimitação espacial existente entre as diferentes classes. Os habitantes do morro, em semelhança ao que fazem os “malandrões” do condomínio, pegam uma câmera para filmar o estilo de vida dos moradores, com o intuito de saber “[...] como é viver com carros na garagem, saldo, piscina, computador interligado. Dinheiro e sucesso. Festival de Brasília. Festival de Gramado”. Os cineastas, no entanto, não são tratados da mesma forma amigável como tratam os gringos e turistas, abrindo as portas do morro para eles que vêm conhecer o samba do morro, vê-los rebolarem e lhe tomarem a coca-cola (FREIRE, 2005, p.25). 32 O urbano em Marcelino Freire, portanto – ao menos preliminarmente, como problematização inicial de um processo discursivo – parece configurar-se como o espaço onde as práticas que o estabelecem8 são marcadas pelo signo da violência. Característica que, no entanto, não se constitui de modo isolado quando relacionada ao momento literário em que as obras do autor estão inseridas. A representação das relações conflituosas e conflitantes próprias de muitos dos grandes centros urbanos brasileiros faz-se presente em parcela significativa de nossas produções contemporâneas; tanto que estudos como o de Ferreira Cury (2007), por exemplo, chegam a fundamentar suas análises levando em conta a premissa de que esta ficção tem suas raízes fortemente arraigadas no solo urbano. Tal feição, segundo a ensaísta, acompanha a substituição ao perfil socioeconômico anterior do país – predominantemente rural – e concretiza-se por meio de produções culturais insistentes na encenação de um espaço urbano revelado através de “uma cidade muitas vezes desgastada, cujo tecido social encontra-se rompido; metáfora da impossibilidade de reconstituição de uma identidade positiva do país”. Ou seja, nas obras onde a urbanidade é reconfigurada, essa cidade em ruínas de que fala a pesquisadora, apresenta-se mediante representações: Da pobreza e da marginalidade, do mundo das drogas e da prostituição, personagens migrantes, o universo dos marginais e dos excluídos dão a tônica a tais produções. Expressam, contudo, diferenças que se configuram no espaço simbólico, com variações nas suas estratégias narrativas, nas vozes enunciativas que privilegiam, embora sob o denominador comum da temática da violência, da crueldade (2007, p.9 – 10). É a violência em suas formas distintas, a revelar-se por meio do que Pinto define como novas geografias narrativas. As tramas, em parcela de nossa produção ficcional, dão representatividade às grandes metrópoles como palco prevalecente, compondo uma urbanização do imaginário que, embora recente, parece-nos 8 Em conformidade com a definição de Michel de Certeau que concebe o espaço como “lugar praticado” (1998, p. 202). 33 irreversível (PINTO apud CURY, 2007). O espaço da cidade assume um caráter performático de encenação; e assim, não se constitui como simples atmosfera para o desenvolvimento da narrativa, pois se configura a partir de movimentos céleres em cenas rápidas, sob o olhar de narradores também submetidos à rapidez de suas representações. Tais textos, ainda segundo o mesmo ensaísta, procuram figurar esta velocidade através de uma narrativa concisa, condensada, que chega a desafiar os limites do gênero ao qual pertencem; concretizada, por exemplo, no miniconto9, variação que instaura uma espécie de “poética do acontecimento”; ao funcionar como uma “metáfora da velocidade com que circulam os seres, as mensagens, os objetos, os textos nas sociedades contemporâneas” (2007, p. 138). Para que a defesa da tendência não seja expressa sem confirmações, a pesquisadora inclui em sua análise obras correspondentes ao modelo destacado. De acordo com ela, entre os muitos contos e romances da atual literatura brasileira, são boas referências desta propensão, além dos textos “instigantes e fortes” de Marcelino Freire e Marçal Aquino – “que numa prosa rápida e cortante, acentuam um traço de denúncia social em suas narrativas” –, os romances Eles eram muitos cavalos (2005) e O mundo inimigo (2005), de Luiz Ruffato; as cento e trinta e sete micronarrativas em Passaporte (2001), de Fernando Bonassi; ou ainda os vinte e dois contos instantâneos que compõe A coleira no pescoço (2006), de Menalton Braff. Sendo, portanto, o movimento e a velocidade características importantes quanto à significação do urbano, a reflexão sobre o modo como este é representado nas narrativas contemporâneas pode estar atrelada, também, ao deslocamento efetuado por suas personagens. Dalcastagnè (2003) sugere a referida proposta, fundamentada também em Michel de Certeau (1998), cuja concepção interpreta o espaço como lugar praticado; resultado, portanto, dos passos que o tecem, o amoldam. 9 Assim, segundo seu estudo, acompanhar a trajetória destes sujeitos Um exemplo desta espécie de variação do gênero está em Os cem menores contos brasileiros do século (2004), organizado por Marcelino Freire e que contem narrativas curtas, com no máximo um ou dois parágrafos, caracterizadas, sobretudo, pela forte denúncia social. 34 representados, nos permitiria estabelecer uma espécie de “mapa imaginário”, capaz de fazer-nos entender como o urbano é reconfigurado neste momento da literatura brasileira. De acordo com a ensaísta, a trajetória destas personagens fornece, entre outros aspectos, elementos para a produção de cidades fortemente marcadas pela decadência e segregação. Isso, porque para muitos dos indivíduos figurados nestas narrativas, ocupar o ambiente citadino consiste em contentar-se com os restos ou as margens deste espaço, como as favelas, os lixões, os bairros decadentes. Quando habitam o lugar “que lhes cabe” dentro do plano ficcional, a mobilidade de tais personagens passa a ser associada ao desrespeito às fronteiras invisíveis, segmentadoras do território próprio a cada uma das classes sociais. Em algumas produções literárias, tais limites são significativamente configurados, como é o caso dos exemplos já citados em Marcelino Freire, nos contos: “Muribeca”, “Volte outro dia” e “Solar dos príncipes”, onde a transposição das barreiras e os encontros fortuitos no espaço da cidade desencadeiam manifestações de violência. Regina Dalcastagnè, no estudo do referido pressuposto, analisa algumas obras, como as de Paulo Lins e Luiz Ruffato que, segundo ela, seriam exemplificadoras desta tendência. No caso de Lins, seu romance Cidade de Deus (1997) configura esta segregação urbana, concentrando-se na existência das pessoas que vivem cercadas, porque sujeitas ao confinamento dos muros invisíveis da favela. O espaço de movimentação das personagens torna-se restrito dentro da relação existente entre a favela e a cidade, ou “asfalto”: A cidade aparece como consumidora da droga, que quer distância de seus fornecedores, mas também como objeto de desejo, ainda que nunca pronunciado, dos moradores da favela. Os traficantes são donos do lugar e de muito dinheiro – mas o dinheiro não basta para comprar o acesso à cidade. Eles não entram em bancos, nem em shoppings, não vão ao cinema nem frequentam restaurantes, sequer podem circular por suas ruas (2003, p. 21). Existem, portanto, duas cidades dentro da mesma cidade do Rio de Janeiro e a transposição das fronteiras que as separam não acontece sem manifestações de 35 violência física ou simbólica. Em Eles eram muitos cavalos (2005), de Ruffato, os grupos antagônicos que habitam a cidade de São Paulo encontram-se com mais frequência. Toda a trama do romance desenrola-se em um único dia, precisamente demarcado, 9 de maio de 2000 e é apresentada por meio de 69 pequenos textos, que demonstram perspectivas de diferentes personagens sobre o espaço recortado; personagens que são, sobretudo, migrantes forçados a difícil adaptação à babel paulistana. De acordo com Dalcastagnè, quase todas as histórias que compõem o enredo situam seus protagonistas a partir “daquilo que eles consomem, do que sonham consumir e mesmo do que não poderão consumir jamais” (2003, p.21). A fronteira simbólica, neste caso, é traçada pelo critério de acesso aos bens de consumo. A tentativa de diluição destas marcas segregacionistas ocorre, na obra, através de conflitos motivados pela forçada tentativa de suprimento destas carências. São os sequestros relâmpagos ou os assaltos no semáforo, por meio dos quais estes diferentes mundos se cruzam e a violência se instaura. Portanto, se é a representação da paisagem urbana, como afirma Süssekind, dominante na narrativa brasileira contemporânea, sua composição efetiva-se, fundamentalmente, por meio de um imaginário do medo e da violência (2005, p. 65). Sentimentos que, nas tramas do texto literário, estão associados aos “encontros” propiciados pelo ambiente da cidade; um “encontrar” mais próximo à ideia de “ir de encontro”, “esbarrar”, “chocar-se com”, já que acontece em desrespeito às barreiras físicas – como os muros do condomínio de classe média em “Solar dos Príncipes” – e que não deixam de ser também simbólicas, como se configura em “Da Paz” – onde a moradora do morro, cujo filho está morto, reafirma a diferença existente entre ela e aqueles que estão “lá em baixo” em passeata pela paz, por esta não se adequar a sua realidade: “paz é coisa de rico”; “a paz nunca vem aqui no pedaço. Reparou?”; “eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá em baixo. Carregando na avenida a minha ferida” (FREIRE, 2008, p. 25 – 28). São encontros a subentenderem confrontos, em razão das diferenças socioeconômicas e culturais, discriminatórias dos segmentos que dividem o espaço das cidades. Dessa forma, o espaço urbano é estabelecido nestas narrativas como espaço fraturado, instável e ao mesmo tempo invasivo, cerrado, carente de alternativas de fuga. Ou seja, uma cidade tão fragmentada quanto opressora. 36 Tânia Pellegrini (2008) em seus estudos sobre a ficção brasileira contemporânea aprofunda esta questão a respeito da representação do espaço urbano. Para ela, as cidades presentes nas narrativas atuais tornam-se menos cenário de realização dos eventos ficcionais, para confundir-se com as manifestações que reconfiguram o sentido de conflito predominante na leitura do espaço. A urbanidade, com suas práticas de violência e segregação, transformamse em um único “corpo vivo”, cujas personagens são “apenas parte, a parte vital, porém mais frágil [...], cujas vozes são as menos audíveis na turbulência das ruas sem nome”. Esse corpo vivo, criado pela ficção, deixa de ser locus amenus, a funcionar como pano de fundo para idílios e aventuras e passa a figurar como locus horrendus, tradutor “das especificidades econômicas sociais e políticas nesse início de século tão cheio de presságios de todas as dimensões” (2008, p. 34). Os grandes centros urbanos, enquanto entidades físicas, moldadas pelas diferentes práticas nelas estabelecidas, operam como reconfiguração de um “lugar de opressão”. Assim, todas as possíveis caracterizações deste ambiente urbano passam a ser substituídas pelas relações de dominação em seus diversos níveis: social, traduzindo a exclusão da maior parte dos indivíduos do sistema que ela [a ficção] representa; político, traduzindo a centralização do exercício de poder em benefício de poucos; ideológico, traduzindo a reiteração constante de normas e valores que oprimem o sujeito, cerceando sua realização pessoal e afetiva; estético, traduzindo linguisticamente os códigos da urgência, da violência e do medo que determinam o ritmo da cidade ( 2008, p. 33 – 34, grifos nossos). No âmbito estético, estes códigos “da urgência, da violência e do medo” fazem-se presentes, não apenas por meio do perfil conciso e condensado – metáfora do movimento e da velocidade, como já apontado; mas também através de certa “imposição representacional”, desejosa em configurar de forma quase explícita, a guisa de documento, os elementos realçados, enquanto critério interpretativo das metrópoles brasileiras. Ao analisar os modos a partir dos quais a experiência 37 urbana é produzida no texto literário, Flora Süssekind confirma que tal tendência concretiza-se, sobretudo, por meio de uma prosa onde se multiplicam os relatos testemunhais e as histórias de vida. As matérias destes testemunhos diretos estão vinculadas às contradições do urbano, e aos percursos que permitem o registro de um cotidiano violento e excludente, principalmente aquele vivenciado nas periferias das grandes cidades do país (2005, p. 61). Como forma de exemplificação, seu trabalho cita algumas obras, entre as quais estão: Capão Pecado (2000), de Férrez · e Por que não dancei (2000), autoria de Esmeralda do Carmo Ortiz. Ambas são obras possuidoras de certa feição autobiográfica, pois evidenciam uma inclinação neodocumentalista, preocupada em intensificar a relação existente entre o ficcional e as vivências da realidade. Em relação às condições de produção de cada uma delas, Férrez é também morador do bairro Capão Redondo, selecionado como ambiente para a sua narrativa; enquanto que no livro de Ortiz, as experiências da personagem relacionam-se, no plano extraliterário, com aquelas sofridas pela escritora ex-moradora de rua. Esse tipo de produção literária constitui, ainda segundo a ensaísta, em uma espécie de “gênero-modelo” do que seriam as obras marcadas pela referida determinação representativa, que parecem produzir uma espécie de registro, cujo objetivo consiste na máxima proximidade entre o narrado e a matéria urbana enfocada. 38 2. ESPAÇO URBANO E HETEROTOPIA As formulações feitas no capítulo anterior nos permitem perceber que, não somente o projeto artístico do escritor Marcelino Freire, como também as análises empreendidas a respeito do seu trabalho (ao menos pela fortuna crítica aqui selecionada) enfocam a representação das minorias sociais como aspecto característico central de suas produções. Esses grupos marginalizados teriam em comum o fato de serem produto dos modelos injustos de convivência e organização urbanas. Além das duas perspectivas apontadas, o movimento artístico do qual Freire afirma ter feito parte, o Literatura Marginal, endossa – como marca comum de toda sua multiplicidade – as temáticas cuja abordagem recai sobre a experiência urbana violenta dos segregados sociais. Em tais obras, como nas de Freire, esse perfil evidencia-se textualmente através das marcas de oralidade, do formato testemunhal e dos discursos em primeira pessoa desejosos em garantir uma proximidade entre sujeito representado e representação literária. Se esta inclinação de parte da produção contemporânea é capaz de servir, como já observado, a interpretações interessadas em identificar padrões de adequação entre obra e realidade, propomos uma leitura voltada não apenas para a explicação de elementos externos, mas para a consideração de que diferentes processos discursivos, tanto sociais quanto literários, contribuíram para essa feição urbana na contemporaneidade. Urbano – como será visto – menos recente do que a vinculação da tríade: minorias sociais, violência e espaço. Ou seja, a cidade é cenário comum na literatura brasileira, diferentemente do sentido fraturado e negativo que ela recebe nas obras do autor em questão (este sim, um entendimento mais atual, muito embora não possa ser considerado um aspecto pontual e exclusivista). Embora o espaço urbano seja elemento anterior e recorrente nas nossas letras, o diálogo com certas transformações socioculturais permite o distanciamento de uma concepção uniforme e genuína a respeito do mesmo. Passa a predominar a perspectiva que o concebe como entidade heterotópica, porque se esgotam as referências sociais capazes de engendrar a Utopia. Antes de verificarmos como a obra de Marcelino Freire está atrelada a esta compreensão 39 desgastada da cidade, passemos à explicitação dos conceitos de heterotopia e discursos do medo; ambos importantes para o entendimento da cidade ‘em decadência’ representada por este segmento da nossa literatura. 2.1 A configuração urbana brasileira e a leitura da ‘cidade desgastada’. Este espaço narrativo experimentado pela ficção contemporânea brasileira – segregado e conflituoso, carente de alternativas, senão as marcadas pela violência – não corresponde a uma interpretação pouco frequente a respeito da urbanidade, caso levemos em conta algumas especificidades de nosso percurso histórico-socialliterário. A referida característica dialoga – não subentendendo aqui um vínculo determinista – com os modelos dos grandes centros populacionais hoje partilhados, cuja disseminação iniciou-se ainda durante o século XX. Nesse período, a cidade, como supõe Lèfebvre (apud FARIA, 1999), passa a constituir-se como um direito; uma espécie de exigência, tornando a experiência urbana inevitável, necessária; entendida como forma de organização humana inovadora e eficiente. Assim, à medida que a industrialização do país avança, dá-se a transformação do modelo territorial rural brasileiro para o urbano. Consequentemente, os trabalhadores rurais, destituídos de recursos de sobrevivência migram para as cidades, tornando-se assalariados. Desencadeia-se então, um longo movimento histórico migratório da mão-de-obra do campo para os grandes centros. Esta mudança irá definir a natureza do espaço urbano e da sociedade brasileira. As cidades passam a crescer em ritmo acelerado, organizando-se ao longo de territórios segregados e excludentes, responsáveis por separar os grupos minoritários privilegiados, das camadas populares majoritárias menos favorecidas. Posteriormente, esses locais “apartados” do restante do ambiente privilegiado – as invasões, favelas, loteamentos, cortiços – iniciam uma composição significativa e desordenada do espaço urbano. Esse decurso migratório é explicado, em parte, pela transição de um modelo agropecuário-exportador para outro, no qual indústria e mercado interno tornam-se mais dinâmicos. A acumulação do capital na região centro-sul do país, 40 sobretudo em São Paulo, impõe diferenças socioeconômicas severas entre as várias partes do território brasileiro. Daí o êxodo para o sul/sudeste, principalmente dos habitantes do Nordeste. Essas características do nosso processo de urbanização influenciam o desgaste dos padrões de exigência idealizados no início da fomentação de tais modelos de cidade. Quando o referido padrão de organização deixa de atender às perspectivas, passando a configurar um ambiente de contradições e desigualdades, é estabelecida uma compreensão sobre as megalópoles pautada no desgaste deste conceito de excelência anteriormente aspirado. Assim, a partir dos anos de 1980, com a elevação do desemprego, da violência e consequentemente, de sentimentos como o medo e a insegurança nos grandes centros urbanos brasileiros, irromperamse diversas operações de proteção, caracterizadas por medidas de exclusão e restrições ao espaço urbano. Essas ações, tanto do ponto de vista simbólico quanto material, reforçaram, segundo Caldeira (2000), a produção de uma classificação social baseada em significados como “perda” e “decadência”, fundamentada em valores dicotômicos de “bem” e “mal”. Essa perspectiva concretiza-se, por exemplo, através da criminalização simbólica de certos grupos sociais marginalizados, como pobres, negros e nordestinos (CALDEIRA, 2003, p. 10); evidenciada, sobretudo, nos discursos que os responsabilizam pelas problemáticas estabelecidas no panorama da convivência social. Esses pareceres expõem a face deste cenário geral de insegurança e medo que gradativamente apresenta-se como realidade crucial no cenário global contemporâneo. Presente no cotidiano das pessoas, na mídia, nas discussões. Repercutindo nas organizações sociais, por engendrarem segregações nas relações interpessoais; por cercearem direitos fundamentais da pessoa humana, distorcendo ou invertendo significados. Nos grandes centros urbanos são utilizadas tecnologias excludentes, capazes de produzir os enclaves responsáveis por garantir o distanciamento em relação aos grupos majoritários menos favorecidos. Ou seja, aqueles valores implicados numa perspectiva democrática, como acolhimento, respeito às diferenças, solidariedade, liberdade, igualdade de direitos, cedem lugar à 41 fragmentação, ao desreconhecimento10 (CALDEIRA, 2000), ao desrespeito à justiça e aos direitos individuais. O entendimento sobre a urbe, portanto, estará comumente atrelado a dois polos significativos: o da perfeição, associado a valores como racionalidade e progresso próprios da Modernidade (momento que assiste à promoção destes conceitos) e, em sentido diverso, o do inferno, cuja simbologia funciona como representação das relações de convivência e sobrevivência nas cidades contemporâneas. Segundo Renato Gomes (1999), a quem pertence à utilização dos termos acima, embora opostas, as duas acepções não se anulam. Enquanto a perfeição está associada à Utopia – Utopia dissipada, uma vez que deixa de existir como certeza no horizonte de expectativas de quem vivencia o urbano -; o inferno corresponde ao imediatismo característico de um tipo de experiência fortemente ancorada ao presente – já que passa a inexistir qualquer tipo de crença em um futuro mais ameno. O momento é o da desesperança e a percepção do urbano acontece, principalmente, através das lentes da violência. São as “falas do crime” que, de acordo com Caldeira (2000), estão presentes não apenas nos diálogos da maioria dos cidadãos, independente da classe social, como também nos discursos veiculados pela mídia. Essa perspectiva atua sobre a produção de um horizonte sociocultural fundamentado no medo e na insegurança. O urbano como cenário dominante, do qual não se pode fugir; por isso, obrigatório; ao mesmo tempo em que é também terrível; labirinto sem saídas. A literatura, ao configurar-se como atividade conectada às particularidades de seu contexto histórico-social, irá – por meio de suas variadas representações – produzir múltiplos sentidos e compreensões a respeito desta cidade desgastada. A arte não ignora esta insistência urbana e a literatura passa, como supõe Faria (1999), a ser “filha” desta cidade. Sabendo, ademais, que esta encenação do espaço não corresponderá a mero processo imitativo, constituindo simples cópia de uma realidade já existente, faz-se significativa uma apreciação crítica preocupada em interpretar 10 estas metrópoles ficcionalizadas pelo trabalho narrativo. Neologismo empregado por Caldeira (2000), em substituição ao termo ‘desconhecimento’. Tais 42 considerações tornam relevante o olhar sobre a obra de Marcelino Freire. Primeiramente, em razão do diálogo possível de se estabelecer entre o seu trabalho e outros também preocupados em ressignificar estes “traços infernais” característicos das grandes cidades. Em segundo lugar, pelo fato de sabermos que, embora a contemporaneidade privilegie este entendimento da cidade como cidadeproblema, enfatizando o desgaste dos ideais de desenvolvimento moderno, o fazer literário particulariza-se, sobretudo, pela capacidade de criação de novos mundos ou mundos possíveis como alternativas para a realidade que lhes serve de referência (ISER, 1999), não se esgotando simplesmente na exposição dos problemas sociais urbanos. Deste modo, embora a ensaística contemporânea aponte os anos 90 como um período de destaque para obras cujas vozes narrativas enfocam temáticas voltadas à violência caracterizadora do espaço urbano, percebemos – com auxílio do que desenvolve Faria (1999) – ser a urbanidade um assunto relevante ,sobretudo, em razão da generalidade que lhe cabe no panorama produção literária brasileira. Conforme o estudioso citado, quando observamos toda a diversidade presente no percurso caracterizador de nossas publicações – evidenciada desde trabalho efetivado por Antonio Candido (1986) – , percebemos que a presença da metrópole é capaz de produzir uma fisionomia comum em toda a multiplicidade de tendências que marca a respectiva ficção; ou como explica o próprio Faria: Esta fisionomia comum – a metrópole contemporânea -, paradoxalmente, é o que permite coexistirem várias tendências, de diversas pessoas escrevendo na mesma língua, e, simultaneamente, joga por terra qualquer convenção que permita estabelecer uma literatura nacional. A expansão das cidades brasileiras [...] é característica da maneira compulsória pela qual se pretende modernizar o país, sem que essa modernização reflita as reais necessidades da sociedade (FARIA, 1999, p. 25). 43 Assim, mais do que uma inclinação recente, a presença do cenário urbano em nossa literatura permite a identificação de um tronco comum a um conjunto de obras pertencentes a tendências tão divergentes. Se, como afirma Candido (1986), as produções brasileiras assemelham-se quase que unicamente devido a língua em que são escritas, a insistência da cidade será outro elemento responsável por estabelecer mesmo que uma parca unidade a toda pluralidade. Fazendo uso de colocação de Faria (1999), podemos afirmar, então, que “a cidade está em toda parte”. A expressão nomeia um dos tópicos da obra do referido crítico e exemplifica de forma eficiente este perfil de nossa literatura. Perfil predominante, porque vinculado à disseminação dos grandes centros brasileiros. Disseminação baseada, no entanto, em um processo forçado de modernização, deixando em segundo plano uma reflexão a respeito das carências primordiais de seus habitantes. Se, portanto, é a partir da década de 70 que a urbanização do país sofre um processo maior de radicalização, será ainda no fim da década anterior que uma percepção negativa da cidade passa a ser experimentada. Além do mais, esse sentimento torna-se mais consistente devido ao forte processo de repressão e censura regulamentado pela ditadura militar a qual o país encontrava-se submetido. Haverá como explica Faria (1999), mesmo de forma moderada, uma adesão dos movimentos culturais às correntes de manifestações antimodernas originadas durante os anos 60. São as respectivas tendências as responsáveis pela disseminação de valores pautados na degradação do ideal de metrópole anteriormente apresentado. É nesse momento que o Brasil experimenta a descrença na Utopia da cidade como sistema idealizado, fundamentado em uma perspectiva racional, pautado no progresso: [na década de 70] momento de vertiginoso crescimento urbano, agravado pela injusta distribuição de renda [...] expôs à franca decadência os mecanismos de controle das relações sociais. Abremse as feridas do homem e da metrópole, revelando uma ampla geografia humana pautada pela solidão, pela violência, por diversas outras formas de privação e exclusão, contra as quais, os intelectuais 44 e os artistas já não dispõem das armas que caracterizam a denúncia e a resistência que marcaram os anos 60. Resta-lhes apenas descrevê-las, hiperbolizá-las, incorporá-las à própria linguagem, numa atitude muito mais de exposição que de contestação (FARIA, 1999, p. 26). A produção brasileira dará continuidade a um processo de contestação e negação da modernidade iniciado ainda nos anos 60 com os movimentos de contracultura. Muitas obras de nossa literatura passam a dialogar com esta visão, apoiadas em uma interpretação do espaço urbano enquanto entidade fragmentada e dispersa. A desordem definidora das cidades subtrai possibilidades de compreensão baseadas em conceitos como unidade ou perfeição. Desse modo, a ausência dos ideais anteriormente edificados dá início às manifestações pósutópicas e, por consequência, pós-modernas de leitura da realidade. A literatura, nos termos de Faria (1999), torna-se “filha” dessa cidade, lugar sobre o qual é difícil desviar o olhar. Ao considerarmos toda a pluralidade da ficção brasileira, a representação do urbano – não apenas na função de cenário ou ambiente, mas conforme será observado em “Angu de Sangue”, como condição para a própria criação narrativa – torna-se, como já dito, aspecto capaz de configurar um tronco comum nesta multiplicidade característica de nossa produção. Tal presença irá ocorrer, contraditoriamente, na medida em que falta, na ausência. Ou melhor, a urbanidade ‘está’ enquanto experiência do que ‘deixou-de-ser’ (ou nunca foi) e do que ‘não-será’; como vivência da qual se subtrai qualquer tipo de perspectiva e que, consequentemente, não permite experiências de fuga. É a cidade carente de utopias, contrapondo-se ao modelo de convivência prático e racional idealizado pela modernidade (FARIA, 1999). Ao passo que para este último momento as organizações urbanas estavam ligadas a sentidos como avanço e progresso, na contemporaneidade tais valores serão substituídos pela descrença de quem assiste a um desenvolvimento caracterizado por fortes desigualdades sociais. 45 2.2 O espaço urbano heterotópico concretizado através dos discursos do medo. Tais problematizações a respeito do compartilhamento dos espaços iniciamse, segundo Foucault (1975), ainda durante a Era Moderna. Para o filósofo, enquanto na Idade Média predominava um conjunto hierarquizado de lugares, onde cada coisa pertencia a um sítio específico, após a descoberta efetivada por Galileu Galilei, tal fixidez perderá espaço para a constituição do conceito de infinitude. Ou seja, a substituição do modelo de pensamento geocêntrico contribui para a perda da noção de imobilidade, uma vez que a nossa morada deixa de ser o centro de tudo, para tornar-se uma partícula à deriva do universo. A estabilidade das coisas passa, portanto, a ser relativizada, tornando-se, agora, um ponto em movimento. O espaço será uma entidade aberta e os lugares, ao perder a fixidez, acabam por se dissolver. Essas descobertas e mudanças de perspectivas alteram as anteriores noções sacralizadas dos espaços; a concepção de extensividade da Terra cederá lugar à consciência do seu posicionamento. Juntamente com este conceito de posição surgirão questionamentos sobre a disposição correta das coisas e dos seres, tendo em vista que as justificativas sagradas não são mais suficientes. Portanto, de acordo com Foucault (1975), a Modernidade assiste – além do problema do aumento populacional e a preocupação se, em um futuro distante, haverá lugar para todas as pessoas –, a uma inquietação a respeito das relações de vizinhança, tipos de armazenamento, circulação, marcação e classificação dos elementos humanos. Assim, a localização/posicionamento deixa de ser entendida como elemento isolado, para constituir-se a partir do seu relacionamento com localizações diversas. Um determinado sítio apenas efetiva-se enquanto tal, em razão da relação que opera entre os outros dos quais se distingue. Desse modo, como muitas destas localizações são incompatíveis entre si, essa série de relações que se efetivam, acabam por construir um espaço heterogêneo, formado por sítios irredutíveis uns aos outros, incapazes de se sobre impor. Sendo os espaços externos materializados através da justaposição de tais diferenças, que não se resumem à unidade, não existirá para Foucault (1975) cultura desprovida de heterotopia. O conceito de heterotopia está, portanto, relacionado à 46 pluralidade de espaços existentes na sociedade moderna. É um tipo de classificação espacial que valoriza a presença de múltiplas formas de representação conflitantes em uma mesma área ou que percebe a superposição de espacialidades com dinâmicas competitivas em conflito. Logo, a heterotopia desestabiliza a ordem utópica organizada e controladora na medida em que “desvela mundos plausíveis e fragmentários porque percebidos através de espaços justapostos e superpostos uns aos outros” (FOUCAULT, 1975, p. 7). Enquanto a utopia está associada a sítios sem “lugar real”, à sociedade concebida de forma aperfeiçoada, a heterotopia refere-se aos lugares reais; aos “contra-sítios utópicos”: as utopias realizadas, onde todos os sítios reais de uma cultura podem ser encontrados, onde existe a possibilidade de tais sítios serem representados, contestados, invertidos (FOUCAULT, 1975). Faz-se relevante compreender que o sentido de localização utilizado para definir o espaço heterotópico ultrapassa o conceito de posicionamento físico. A ideia de lugar aqui adotada está relacionada à noção de entidade constituída através de diferentes práticas. Não se configura como uma estrutura fechada em si, além de não ser mero vão onde se localizam indivíduos e coisas, mas, lugar em que convergem diferentes vivências. Assim, os dois tópicos associam-se às distintas formas de conceber, entender e vivenciar os espaços. Dependendo do lugar social ocupado pelo sujeito, ele fará uso de um discurso específico sobre o posicionamento/lugar que ocupa na sociedade. A cidade será, por conseguinte, um espaço discursivo. Abrigo onde se situam muitos e distintos enunciadores/enunciados, localizados em distintas posições. Desse jogo de enunciações que é constituída uma congruência de vários sujeitos que enredam a trama discursiva de uma cidade. Portanto, a ideia de heterotopia não vem estabelecer uma oposição rígida, dicotômica entre um antes e um depois, utópico versus heterotópico. Ou melhor, desejamos esclarecer que não existe uma ultrapassagem de fronteiras, entre um mundo concebido como utópico, para em seguida (devido a mudanças históricas), passar a organizar-se como heterotópico. De acordo a teoria desenvolvida por Foucault (1975) os espaços heterotópicos sempre existiram nas sociedades ocidentais, no entanto, as modificações tornam-se relevantes quando as diferenças 47 entre os sujeitos não são mais entendidas e justificadas de forma pacífica. Assim, a partir da constatação de que o sujeito é constituído pelas práticas discursivas que efetua (FOUCAULT, 1995), passa-se igualmente ao entendimento sobre quais discursos cada um dos deles representa ou assume enunciar, mesmo de forma inconsciente. Portanto, como define Foucault em As palavras e as coisas (1995), identificar-se enquanto um e não ‘o outro’ é estar sempre ocupando um lugar na ordem dos discursos. É assumir um posto na sociedade e atuar levando em conta esse posicionamento que lhe cabe. Logo, o espaço, deixando de ser compreendido como realidade preexistente e inquestionável, passa a ocupar a posição de construto social, entidade estabelecida a partir dos discursos (ou práticas) daqueles que o vivenciam. Torna-se, dessa forma, tão diverso quanto forem as diferentes individualidades a experimentá-lo e, a partir desse contato, estabelecer suas significações específicas – ressaltando o fato de tais individualidades poderem coincidir, revelando concepções de espaço comuns entre pessoas de um mesmo grupo (FOUCAULT, 1975). O espaço será, então, lugar construído pelo jogo de identidades, histórias, memórias atreladas a determinadas subjetividades e igualmente capaz de influenciá-las. Há todo um dinamismo eficiente em promover uma inter-relação entre indivíduos e localidades, além destas últimas entre si, uma vez que se compõem a partir das diferenças instituídas: um lugar é o que é para determinado sujeito ou grupo, porque não o é para outro. Assim, enquanto a utopia solicita uma sociedade configurada de forma aperfeiçoada; ou como explica Foucault (1975), “virada ao contrário” – uma vez que este ‘outro lado’ representa o espelhamento ‘em perfeição’ do ‘lado de cá’– a heterotopia será a materialização das vivências físicas, dos “espaços reais”, “contrasítios onde as utopias se realizam” (p. 14). Uma, a fantasia do que se pretenderia ser; a outra, a experiência capaz de inverter e contestar tais idealizações. Essa versão aperfeiçoada criada pela utopia estaria atrelada a um discurso dominante responsável por sustentar e justificar as formas de organização espacial prevalecentes. Este último será, para Valverde (2009) – ao explicar a teoria de Foucault (1975) –, condizente com as formas de delimitação estabelecidas pelo controle do Estado e pelo poder público. A perspectiva heterotópica, em sentido contrário, considera a multiplicidade de discursos que vivenciam o espaço das 48 cidades, sejam eles predominantes ou não. Muitos destes serão caracterizados pela “inversão, suspensão ou neutralização” dos discursos considerados “oficiais”: Se Foucault definia a utopia como um “espaço irreal” (imaterial), que perpassa todos os outros, promovendo um arranjo harmônico, a heterotopia, por sua vez, seria um espaço concreto no qual todas as representações se encontrariam presentes, causando contestações, fragmentações e inversões de regras devido aos seus conflitos. [...] nem o poder público, nem outro ator são capazes de definir um arranjo coeso para o espaço heterotópico. (VALVERDE, 2009, p.1011). Nesse sentido, particularidades dos contextos sóciohistóricos de convivência irão influenciar uma percepção heterotópica ou não em relação às conceituações sobre o espaço. É o que ocorre, por exemplo, com o processo de radicalização urbana de nosso país – momento que dialoga com mudanças significativas concernentes aos modos de representação até então dominantes nas manifestações artísticas brasileiras. De acordo com o que desenvolve Faria (1999), em sua etapa inicial – ainda influenciadas pelos ideais de progresso e suas certezas –, as ações de urbanização do início de século XX serão marcadas pela crença de que a substituição de nossos cenários de convivência (do agrário/rural para o urbano) representa a concretização da organização geográfica ‘por excelência’, das formas aprimoradas de compartilhamento dos espaços coletivos, da praticidade e facilidade dos padrões de comportamento. Predominava a convicção nos avanços científicos, tecnológicos e industriais como ferramentas para a institucionalização da ‘terra prometida”, da cidade utópica, porque irreal, embora desejada. “Arranjo harmônico” cuja realização encontrava-se em expectativas futuras. No entanto, ao passo que tais modificações ocorrem, agravam-se as desigualdades sociais consequência de um progresso materializado “à revelia de uma participação sociocultural mais ampla” (FARIA, 1999, p. 25). Os anteriores padrões de idealização entram em desgaste “justamente no momento em que o mundo se torna eminentemente urbano” (GOMES, 1999, p.2). As formas de organização institucionalmente concebidas 49 passarão a ser contestadas pelos grupos minoritários excluídos que as próprias não foram capazes de agregar. Por isso, o espaço heterotópico prevê “contestações, fragmentações e inversões de regras” (VALVERDE, 2009, p. 10-11); em razão da inclusão forçada, da convivência com tipos de relação e compartilhamentos não planejados nos anteriores projetos de execução das cidades. Ou planejados com o intuito de manter a separação entre grupos e classes sociais distintas. Ação um tanto inviável na dinamicidade com que se concretizam os espaços urbanos. Nestas condições, o espaço urbano passa a ser entendido como heterotópico quando se torna evidente a percepção de que as divergências socioeconômicas são claras ao ponto de desestabilizar um imaginário pautado na perfeição, mesmo que esta seja apenas uma promessa, uma utopia. É o que ocorre, por exemplo, com o conceito de “democracia disjuntiva” desenvolvido por Teresa Caldeira (2000). Para a socióloga, o cenário de violência característico da urbanidade brasileira contemporânea determina uma experiência apenas nominal ou sugestivamente política em relação à democracia. A essa se atribui o adjetivo “disjuntiva”, porque, segundo ela, “embora o Brasil seja uma democracia política e embora os direitos sociais sejam razoavelmente legitimados, os aspectos civis da cidadania são continuamente violados” (CALDEIRA, 2000, p. 343). Assim, embora a ideia de democracia seja estabelecida socialmente, ela pode não funcionar de forma igualitária para os diferentes grupos sociais, produzindo formas diversificadas de concebê-la, dependendo do lugar social ocupado pelo sujeito. Ao progresso, muitas vezes avaliado a partir de critérios exclusivamente financeiros, estão atrelados problemas como o crescimento desordenado das cidades, as ocupações habitacionais clandestinas, a ausência do poder público na assistência aos migrantes, através de políticas públicas que garantam o desenvolvimento igualitário para a população. Todo esse panorama produz um crescimento contraditório, sobre o qual novas tecnologias urbanas surgem proporcionalmente à miséria, ao desemprego e à violência. Essas especificidades da realidade urbana brasileira influenciaram a produção de um horizonte sociocultural fundamentado, sobretudo, em discursos voltados para a abordagem de aspectos relacionados à violência. É como se esta percepção do urbano acontecesse, principalmente, através das lentes da violência. São as “falas do crime” que, segundo Caldeira (2000), estão presentes 50 não apenas nos diálogos da maioria dos cidadãos, independente da classe social, como também nos discursos veiculados pela mídia. As “falas do crime” serão, portanto, uma construção discursiva a funcionar como espécie de justificação para os modelos de comportamento urbano nos quais a democracia não é capaz de atuar. Será a fala sobre o crime, o medo e a violência que, em geral, justificará distanciamentos, enclaves e, por outro lado, também os reproduzirão. Ela estará em várias referências. Entre elas as de caráter étnicoraciais, preconceitos, estereótipos socioculturais e demais “referências negativas aos pobres e marginalizados” próprias de uma sociedade fragmentada (CALDEIRA, 2000, p. 8). Para a analista, esse falar do crime sugere a tentativa de uma reorganização simbólica de uma sociedade desestruturada pela ascendência do crime e de outros processos de transformação social desencadeados em nosso país. Dessa forma, se por um lado nossos espaços urbanos são organizados por preceitos democráticos responsáveis por regular a vida das pessoas, por outro, existe uma contraordenação alternativa, não estabelecida institucionalmente, capaz de ‘virar ao avesso’ esta composição conceitualmente determinada. Ou seja, uma vez que para Caldeira (2000) apenas a verbalização da noção de democracia não é eficiente em garantir, na dinâmica das convivências, o direito dos diferentes grupos e individualidades, haverá uma “inversão de regras” a expor a fragilidade de sua efetivação. Tais contestações são justificadas pelos “discursos do medo” ou as “falas do crime” que ainda segundo a mesma estudiosa, reordenam esta ‘desregulação’ do legalmente estabelecido. Uma exemplificação do exposto pode ser feita da seguinte forma: quando certas formas de segregação são interpretadas como manutenção da segurança, mesmo que estas rompam com o preceito de compartilhamento dos espaços públicos. Segregações simbólicas também exemplificam essa separação: quando determinados grupos não são bem aceitos em espaços ou ajuntamentos próprios a grupos distintos, ou quando os evitam por sentirem sua segurança ameaçada. Assim, tais formas discursivas: 51 Simplificam e encerram o mundo [...] organizam a paisagem urbana e o espaço público, moldando o cenário para as interações sociais que adquirem novo sentido, organizam as estratégias cotidianas de proteção e reação que tolhem os movimentos das pessoas e restringem seu universo de interações (CALDEIRA, 2000, p. 9). As “falas do crime” serão responsáveis, então, pelo mantenimento de uma multiplicidade de concepções a respeito do espaço. Elas permitem a coexistência de interpretações conflitantes sobre um mesmo elemento, no caso, a cidade. De um lado o oficialmente estabelecido, o espaço urbano ideal, previsto enquanto entidade organizada e regulamentada pelo Estado; de outro, os discursos e práticas capazes de por este engendramento primeiro sob questão. 52 3. A INTERPRETAÇÃO DO ANGU URBANO. Explicitados os conceitos de heterotopia e dos discursos do medo, passaremos a terceira parte de nosso estudo com o objetivo de entender quais formas de sentido a obra de Marcelino Freire, nesse caso Angu de Sangue, estabelece mediante estas compreensões vigentes a respeito da realidade urbana. Para tanto, iniciaremos a interpretação do conto de mesmo nome, tendo por base o estudo narratológico desenvolvido por Mieke Bal (2002). Tal ancoragem visa demonstrar de que modo os elementos constitutivos desta narrativa organizam-se de maneira a evidenciar certa relevância semântica atribuída ao espaço urbano. Enquanto elemento suplementar à significação da trama, o cenário citadino assume a função de lugar autorizado para diferentes manifestações de violência. Esta última, como veremos, concretiza-se, sobretudo, a partir dos encontros-confrontos estabelecidos neste palco de heterotopias em disputa. Heterotopia que se manifesta através de uma configuração urbana subtraída, desterritorializada, porque os discursos do medo responsáveis por interpretar a cidade não mais conferem a possibilidade de pensá-la mediante a ideia de unidade. 3.1 “Angu de Sangue” e a centralidade do espaço urbano. Em “Angu de Sangue”, conto homônimo à obra, um assalto à mão armada é apresentado ao leitor prontamente, em um único golpe, antes mesmo de sua primeira frase ser assimilada por completo: “quando o bandido entrou em meu carro, eu pensava em Elisa, nervoso, tentava esquecer o inferno que foi a nossa briga” (FREIRE, 2000, p. 69). Este evento, servindo de motim para o desenrolar do enredo, não surge sozinho. No trecho transcrito, o narrador autodiegético nos revela que a atitude inesperada utilizada pelo bandido ao entrar no seu veículo também é a mesma a interromper as lembranças da briga recentemente travada com Elisa, personagem com quem o narrador mantém um relacionamento amoroso. 53 Introduzidos, esses dois episódios irão, em quase todo o conto, disputar a vez no relato feito pela voz em primeira pessoa. Isso porque há, na forma como os acontecimentos são expostos, a constante sobreposição de um fato ao outro. Atormentado pela rememoração daquilo que veio demarcar o fim de seu relacionamento, nossa (até então) vítima é interrompida pela inesperada abordagem. As recordações referentes à sua desavença conjugal confundem-se, na narrativa, com os comandos dados pelo assaltante. Em diversos momentos as enunciações podem estar atreladas a qualquer um dos dois eventos, gerando uma confusão proposital que intenta, através desse encadeamento, metaforizar o clima de transtorno e aflição presente na cena a se desenvolver: “Calma, procurei manter a calma. Isto não está acontecendo. A gente não se toca quando o coração está parando. Quando não tem mais saída a vida a dois – eu e aquele homem estranho” (FREIRE, 2000, p. 70). No trecho, a expressão “vida a dois”, geralmente utilizada em alusão a relacionamentos afetivos, é seguida pelo fragmento “eu e aquele homem estranho”. A associação – enfatizada pelo uso do sinal de travessão, neste caso sugerindo um sentido de ligação ainda mais imediato – além de propiciar uma quebra de expectativa sobre o já dito, confere ao conto uma composição tumultuada, salientando o teor de violência do respectivo evento. Este recurso, utilizado em todo o texto, pode ser percebido na passagem a seguir, cujas interrogações, a princípio direcionadas ao invasor, exigem uma atenção maior do leitor quando fazem inesperada menção à ex-companheira: “eu já não te dei tudo? O que quer? O que eu tenho mais para oferecer? Se ela me deu toda a sua vida ao amanhecer? Se me amou como nenhuma outra mulher?” (FREIRE, 2000, p. 70-71, grifos nossos). O segmento acima também revela a dificuldade em satisfazer os interesses do bandido. O encontro inesperado iniciado em um sinal de trânsito na cidade de São Paulo terá algumas etapas posteriores a esta primeira abordagem. Ordenando à vítima para manter o controle da direção, seguindo em alta velocidade, o crime assemelha-se ao que os noticiários de televisão convencionam chamar de “sequestro relâmpago”. O narrador-personagem (cujo nome não saberemos) é levado a um caixa eletrônico para fazer a retirada de uma quantia de dinheiro maior 54 do que aquela existente em mãos; “Você (Elisa) está em tudo”; no relato, a obsessão pela lembrança de Elisa continua a ser destacada a partir do recurso já citado: Pediu a senha, gritou um, dois, três. A senha, Elisa. A vida não vale a lei, não vale a pena. O país é uma prisão para mim. Perpétua. Nas casas, nas ruas, nos caixas eletrônicos. Você está em tudo, depois de você eu não tenho mais nada a perder. Por você eu daria o meu sangue. A senha. Por você eu até mataria. A senha, porra. (FREIRE, 2000, p. 70). Ainda descontente com o valor usurpado, o ladrão pretende dar continuidade ao roubo no apartamento da vítima. É neste momento que a relação de domínio inverte-se e o indivíduo, até então subjugado às ordens do outro, passa – veladamente – a assumir o controle da situação. Não admitindo de forma alguma o acesso a sua residência, resolve ser mais conveniente irem à casa de Elisa; e por que não? “Ali, logo ali. [...]. Seria uma desculpa para vê-la dormir. Para pedir perdão. O ladrão ficou me olhando, o revolver na mão, drogado. Ele parecia ter ficado sensibilizado” (FREIRE, 2000, p. 71). É após esta decisão, a caminho do local desejado, que os dois eventos (briga com Elisa e assalto), aos poucos, deixam de apresentar-se desordenadamente, alternando-se na fala do narrador, intercalando-se ora um ora o outro fato na trama e passam a ocupar uma duração mais demarcada na narrativa. Ou seja, as referências a Elisa eram introduzidas como lembranças de uma desavença recente e memórias soltas de um relacionamento que chegara ao fim. Essas recordações, antes inseridas como uma espécie de interrupção do relato principal (assalto), tornam-se mais explícitas, preenchendo uma parcela mais significativa da fala do narrador. Com a respectiva mudança, detalhes sobre o episódio da briga começam a ser esclarecidos: ‘Vai logo, porra, porra, porra. ’ Vaca. ‘Cadê a vaca? ’ Vaca? Também chamei Elisa de vaca, puta, escrota. Hoje me arrependo. Eu estava 55 fora de mim. Dentro de mim havia alguma coisa. Algum demônio que mexia. Alguma mudança incontrolável (FREIRE, 2000, p. 72). As enunciações anteriormente vinculadas à mulher possuíam um tom afetuoso exagerado, com frases clichê, bem próximo ao que nos arriscamos em caracterizar como melodramático: “Não sou rico, mas sou dono do seu coração”; “Você está em tudo [...]”; “[...] ela me deu toda a sua vida ao amanhecer [...] me amou como nenhuma outra mulher [...]” (FREIRE, 2000, p. 69, 70, 71). No excerto acima, no entanto, percebem-se alterações nesta feição, a deixar pistas sobre o teor de violência presente na briga do casal. A rememoração prossegue, até a revelação de que a discussão, ocorrida momentos antes no apartamento, culminou na morte de Elisa, assassinada pelo seu companheiro, agora a lamentar e amargar o arrependimento pela violência cometida. Segue-se, assim, uma surpresa para o leitor após esta descoberta: aproveitando-se do momento de sobressalto do assaltante diante da cena do crime, o assassino (até então concebido como vítima) lança mão da mesma arma utilizada contra a mulher e inesperadamente atira contra o bandido: Fui mais rápido – atirei no desgraçado. Só foi alcançar o gatilho. O mesmo tiro. Com o mesmo revólver que deixei largado. Que matei Elisa, Meu Deus, que matei Elisa. O bandido tinha o rosto de Elisa, tinha roubado o rosto de Elisa. O maldito merecia, merecia. O maldito, um tiro na cara. Merecia. (FREIRE, 2000, p. 72). Com este desfecho, pode-se salientar que em “Angu de Sangue” as três personagens estão vinculadas umas às outras pelos atos de violência sofrida ou praticada. Nas duas relações, Elisa versus narrador e narrador versus assaltante, é a ação de matar a responsável pelo desenlace das ligações existentes. Na primeira, embora a atitude oposta – de amar – possa ter sido experimentada: “se me amou 56 como nenhuma outra mulher?” (FREIRE, 2000, p.71, grifos nossos), é pela hostilidade que a convivência se desfaz. Já na segunda, a brutalidade inicia e encerra a conexão. Todas as personagens são vítimas de algum tipo de crime, mas apenas Elisa é somente vítima; entre narrador e bandido o jogo de dominação inverte-se e a agressão torna-se recíproca. Se o tema da violência prevalece como centro norteador de tais eventos nas tramas do conto, observar a relação que cada um deles mantém com o espaço representado na narrativa permite verificar diferenciações significativas entre estes dois conflitos, assim como a associação estabelecida entre estes mesmos locais e o modo como o narrador-personagem os experimenta. Ambos os diálogos constituemse como processos válidos para a configuração de sentidos relevantes ao entendimento do texto. O semáforo na cidade de São Paulo e o apartamento de Elisa funcionam como ambientes opostos, simbolizando, respectivamente, o público e o privado. A forma conflituosa citada, através da qual os acontecimentos são levados ao conhecimento do leitor, está vinculada, de alguma maneira, a estes distintos espaços onde cada fato ocorreu. Como também quando nosso narrador rememora o desentendimento com Elisa: encontra-se nas ruas da cidade, embora seu pensamento constantemente retorne à companheira (o que como veremos adiante, subentende o apartamento onde o conflito do casal acontece). Mesmo sendo a obra de Freire (2000) constituída com a quase total ausência de momentos descritivos, esta referência à alteração dos ambientes na narrativa pode ser importante, não no que diz respeito à tentativa de reconstituição destes sítios, mas na compreensão das interpretações possíveis de serem motivadas a partir desta relação entre espaço – como elemento narrativo – evento e narrador, no sentido afirmado por Bal, explicando que “the question of how space is experienced by the character in relation to whom it is presented is more important than generalizing answers” [questionamentos sobre como o espaço é experimentado pela personagem, assim como questionamentos sobre a apresentação deste mesmo espaço são mais importantes do que respostas generalizadoras] (2002, p. 137). No intuito de concretizar este processo de leitura, observaremos primeiramente o confronto espaço versus evento narrativo. Como já esboçado no 57 parágrafo anterior, acreditamos ser possível uma analogia entre os atos criminosos presentes na trama e o local onde cada um deles acontece; ademais, consideramos importante o fato de os dois lugares existentes no texto possuírem um valor social divergente – a residência, culturalmente concebida como recinto capaz de proporcionar abrigo, ambiente de refúgio e diretamente relacionado à privacidade, contrapõe-se ao centro da cidade de São Paulo, que poderia ser qualquer outra cidade grande, comumente atrelado à insegurança, poluição, trânsito caótico e estilo de vida estressante. Ambos, no entanto, são sítios de violência. Violência a assumir perfis diversificados, em correspondência com os locais onde ocorrem. Enquanto a abordagem contra o motorista classifica-se socialmente como um crime recorrente aos espaços públicos urbanos, o assassinato de Elisa assume feições de violência doméstica, com agressões físicas e verbais, em que o parceiro comete um assassinato com elementos bem próximos aos de um crime passional. A técnica literária adotada por Marcelino Freire é frequentemente comparada ao testemunho, por estudos como o de Ítalo Oligari (2010), ao destacar a preponderância de vozes discursivas em primeira pessoa cujos relatos estão centrados em aflições individuais ou coletivas. Estas narrações, com fortes marcas de oralidade, assemelhando-se a “falas”, não se atêm, como confirma Almeida (2012), a descrições minuciosas, por se concentrarem na representação dos atuais “desmantelos” da sociedade. Tal narrativa, sem consentir pausas para o “palco” dos acontecimentos ser apresentado ao leitor, torna-se extremamente veloz, acelerada. O que, ainda assim, não garante a caracterização do espaço como simples “frame, a place of action” [cenário, lugar destinado ao desenrolar da ação] (BAL, 2002, 136); ele passa a configurar-se também como tema ou assunto da trama, quando consideramos o fato de o evento assalto, por exemplo, para se constituir na categoria de assalto apresentada ao leitor, é preciso haver a contribuição do elemento espaço como suplemento caracterizador. Esclarecendo: ‘o assalto apenas se constitui como o tipo de assalto que é por acontecer onde acontece’. Quando ambos – evento e espaço – associam-se no conto, cria-se um lastro de semelhança com crimes desta natureza, próprios aos centros urbanos: as frequentes abordagens realizadas por bandidos, ao se aproveitarem dos momentos de imobilidade dos veículos nos sinais de trânsito, além dos ‘famosos’ sequestros relâmpagos, cada vez 58 mais noticiados pelo jornalismo policial e bastante temidos pela classe média. O centro da cidade de São Paulo não é, portanto, mero suporte para a encenação do acontecimento; apresenta-se como matéria narrativa, é “tematizado”, estando, por vezes, sujeito a leituras preocupadas em submeter estas representações a modos interpretativos atentos em identificar correspondências entre obra e contexto social. No que concerne à violência sofrida por Elisa, a sua associação com o local apartamento, permite à ação ser entendida como representação de uma espécie de atentado classificado socialmente como “violência doméstica”. É importante continuar ressaltando ser a residência mais um elemento responsável por conferir esta carga de significado ao ato. Os dois – evento e espaço – funcionam novamente como matéria caracterizadora de cada uma das violências configuradas no conto “Angu de Sangue”. O centro da cidade e o apartamento de Elisa são, portanto, cenários a suplementar o sentido dos eventos dramatizados na trama. São apresentados, no entanto, através do célere movimento empreendido pela voz narrativa, que dinamicamente transita entre o externo versus interno; o público versus privado. Longe de constituírem-se como espaços “retratados”, expostos em seus pormenores, construindo uma espécie de visão paisagística, são, por fim, palco para atos de violência. É por meio do signo da violência que estes espaços são lidos, podendo ser utilizados como exemplificação para a argumentação de Tânia Pellegrini sobre um possível perfil da literatura brasileira contemporânea: Hoje, a ficção urbana faz com que as cidades ultrapassem seus horizontes originais de representação, pois ela funciona como uma tradução de uma espécie de lugar de opressão, nos seus múltiplos níveis [...], traduzindo linguisticamente os códigos da urgência, da violência e do medo que determinam o ritmo da cidade grande (PELLEGRINI, 2008, p. 33 – 34). 59 Retomando o examinado até o presente, observamos que o signo da violência transforma-se no principal código interpretativo utilizado para a leitura do espaço urbano. No caso de Angu de Sangue, a este locus citadino contrapõe-se a morada de Elisa, mantendo, como dito anteriormente, o jogo de oposição motivado pelo sentido partilhado socialmente por cada um destes ambientes. Além disso, a maneira como os eventos organizam-se na trama de Freire – por meio de certa intercalação desordenada, cujo efeito parece metaforizar o clima de conflito e confronto entre as personagens – suscita, também, um olhar atento ao processo a partir do qual os respectivos eventos relacionam-se com os espaços a lhes servir de cenário na narrativa. Este primeiro olhar, pelo menos preliminarmente, demonstrounos, como explicitado nos parágrafos anteriores, serem estes sítios – embora distantes de um formato descritivo, preocupado em “retratar” ou “representar” a realidade o mais fielmente possível – possuidores de uma função relevante na composição e caracterização dos acontecimentos dramatizados no conto. Nosso próximo passo será, a partir de agora, perceber outros sentidos complementares aos originados por esta primeira relação; contrapondo, neste segundo momento, narrador e espaço, verificando a forma a partir da qual o primeiro relaciona-se com e experimenta o segundo, percebendo as significações promovidas por esta leitura. Ou seja, ao invés de tomarmos estes parâmetros culturais – de certa forma utilizados como significados generalizadores para a definição de espaço público e privado – como modelos para análise de suas representações no respectivo conto, buscaremos, em acréscimo a estas primeiras observações, entender quais sentidos podem ser aferidos ao analisarmos o modo como o narrador experimenta estes locais dispostos na obra. Parado ao sinal de trânsito, nosso narrador encontra-se “do lado de fora”. Fora do local do crime que acabara de cometer contra a amante, embora enclausurada, “por dentro”, esteja a recordação a Elisa. É esta a lembrança interrompida pelo assaltante. Este é invasivo, ofensivo, pertence à rua, ao externo. É a sua presença a responsável por fazer com que a cidade não se constitua mais como ambiente de fuga ou liberdade: “Nem tive tempo de fugir do ladrão, nem de escapar daquele pensamento. Preso no sinal de trânsito” (FREIRE, 2000, p. 69, grifos nossos). Existirá, portanto, um duplo cárcere: a consciência da personagem é 60 cárcere dos pensamentos que a atormentam, enquanto o centro de São Paulo tornase cárcere ao impedir o direito de “ir e vir”, em razão da violência urbana. Violência responsável por fazer do espaço público, subentendido como lugar de escape para os problemas privados do narrador, torne-se “... uma prisão para mim. Nas casas, nas ruas, nos caixas eletrônicos. Você está em tudo, depois de você eu não tenho mais nada a perder”. (FREIRE, 2000, p. 70, grifos nossos). A cidade é a prisão cuja constituição agrega tanto os problemas de ordem pessoal, quanto os de ordem social; “você está em tudo”; este espaço confunde-se com os pensamentos atormentados da voz narrativa, pois vistos sob sua ótica, configuram-se como clausura para a personagem a partir destes dois vieses distintos. Este sentido de aprisionamento – tanto no que diz respeito ao ambiente da cidade, quanto no que concerne às lembranças a atordoarem o narradorpersonagem – é sugerido em outros trechos do conto, por exemplo, quando afirma ser o país “uma prisão”; quando deseja não voltar “mais para esse mundo”, ou, ademais, quando lamenta o fato de o bandido ter adiado a sensação de liberdade pretendida ao entrar em contato com as ruas do grande centro: “[...] se eu, na verdade, estava querendo perambular por aí, me largar por aí, numa aventura. Perigosa”. No tocante à angústia causada por suas aflições pessoais, outra tentativa de fuga é cogitada, quando solicita “faça-me qualquer coisa, atira-me de dentro, livre-me dessa agonia” (FREIRE, 2000, p. 70, 71). Percebe-se, portanto, na relação estabelecida entre o narrador-personagem e o ambiente urbano, ser este último concebido como espaço capaz de proporcionar a fuga dos problemas privados, não fossem as particularidades próprias a este local, como, neste caso, a violência manifestada através do “sequestro relâmpago”. Em oposição a este espaço citadino está a residência de Elisa, onde os dois homicídios da trama acontecem. Ainda de acordo com Mieke Bal (2002), quando há uma movimentação considerável das personagens através de locais distintos ao longo da narrativa, além de evidenciar-se uma dinamicidade em relação à configuração dos respectivos ambientes, estes por vezes assumem – um perante o outro – uma acepção inversa. Deste modo, explica a estudiosa, dois tipos de conexões podem ser sugeridas em face deste relacionamento entre personagem e 61 espaço: o primeiro pode estar situado em um lugar onde experimenta a segurança, em contraposição a outro, fora ou distante deste, sobre o qual a sensação seria de perigo. A oposição, segundo Bal (2002), irá garantir esta significação. À moradia, como espaço interior, comumente atribui-se o sentido de estabilidade, amparo, enquanto “o lado de fora” é associado à incerteza, insegurança; podendo também haver a inversão destes valores, já que estas apreciações não são fixas, mas produzidas através da associação destes elementos que compõem o texto literário. Em relação a Angu de Sangue, como as ruas do centro de São Paulo supõem um itinerário de fuga para o narrador, ao apartamento, em contrapartida, atribui-se o sentido de confinamento, coibição. A moradia de Elisa é o lugar onde os conflitos e brigas do casal acontecem, sendo por isso percebida como lugar confuso, desordenado. Sua apresentação se dá através de um dos poucos momentos descritivos do conto: Acendi a sala destroçada, revirada, jogada num abismo. Minha nossa! Os móveis como espelhos quebrados. Travesseiros espumados. Paredes manchadas. Parecia que tinha passado por ali uma quadrilha, um redemoinho, uma rajada de balas (FREIRE, 2000, p. 72). Destacamos, portanto, através da correlação entre elementos constitutivos da narrativa – como espaço, evento e narrador –, a importância que o primeiro deles desempenha como suplemento caracterizador e responsável por garantir significações relevantes à leitura da obra. As correspondências estabelecidas deixam perceber uma compreensão sobre o urbano pautada principalmente no entendimento de que este se constitui como palco de confrontos e espaço autorizado para a expressão da violência. O ambiente citadino frustra a tentativa de libertação do narrador, devido às adversidades concebidas como próprias à configuração deste espaço, como a ação criminosa do sequestro. Esta coação – contra aquele a ocupar o espaço da cidade – faz-se generalizada a ponto de modificar e interferir em suas escolhas individuais. Os problemas públicos e privados 62 encontram-se, confundem-se entre si, criando uma relação de interferência capaz de apaziguar suas fronteiras diferenciadoras. No conto, esses limites tornam-se ainda menos marcados, porque o conflito particular vivenciado pelo narrador também pertence ao rol de atos de crime. Ou seja, a experiência da violência representa-se tão ilimitada a ponto de estar presente nas duas esferas existentes: tanto no relacionamento mais íntimo vivenciado pelo narrador como naquele a manifestar-se em instância pública. O espaço urbano será, portanto, o cenário onde estes dois setores entram em conflito; onde um encontro inesperado entre pessoas com interesses divergentes motiva o início de uma disputa. Ele é representado como o lugar onde as diferenças afrontam-se, em que cada um luta por sua parcela de sobrevivência. E é a violência, como já dissemos, o cerne de ambas as vontades, a forma a partir da qual os conflitos principiam e chegam ao fim, cabendo à cidade o papel não apenas de espectadora, mas também de anfitriã destes confrontos, pois, parecem ser tais adversidades os elementos responsáveis por determinar a natureza e a configuração deste espaço, já que são através delas que o respectivo ambiente nos é apresentado. O conto de Freire, dessa forma, reúne elementos capazes de representar uma urbanidade constituída através de uma perspectiva que a fragmenta. A cidade dividida, onde cada diferença ocupa seu respectivo lugar; onde o inevitável encontro não deixa de pressupor o confronto. Espaço em que os interesses privados das personagens confundem-se com os problemas do espaço público, criando uma miscelânea no jogo narrativo capaz de fazer dos opostos (público x privado; externo x interno) um todo cujas partes, obrigadas a se agregarem, se juntarem em um mesmo angu, sobrevivem e se identificam através violência. Violência capaz de fazer do “lado de dentro” e do “lado de fora” um só cenário escolhido para vivenciar a mesma trama, unificada, por exemplo, quando o assaltante – depois de morto – “rouba” o rosto de Elisa: “o bandido tinha o rosto de Elisa” (FREIRE, 2000, p. 72). É neste movimento de lá e cá que o palco do espaço urbano torna-se o lugar “sem saída”, espécie de labirinto a fazer uso das mesmas armadilhas para que os 63 fugitivos, como o nosso narrador-personagem, retornem, através de seu deslocamento cíclico, ao mesmo lugar onde tudo iniciou: Corri até o quintal. Liguei o carro, sumi até o próximo semáforo. Foi quando um homem estranho se aproximou, vejo que ele está malintencionado, vai querer entrar no meu carro, aproveitar que o sinal está fechado, Elisa, vai querer acabar outra vez com a minha vida (FREIRE, 2000, p. 74). 3.2 A cidade-angu: subtraída e desterritorializada Embora identificada a importância assumida pelo espaço na composição de “Angu de Sangue”, o aspecto que neste momento desejamos destacar revela, de algum modo, um paradoxo: o espaço urbano faz-se influente no conto à medida que falta; enquanto espaço ausente. Assim, como a afirmação parece ser extremamente contraditória, diante da análise recém-efetivada, passemos para uma explicitação mais detalhada de tal conclusão. A ausência está atrelada, primeiramente, à configuração da cidade conforme extensão física demarcada. Ou seja, não há no texto, como já observado em certo momento de nossa leitura, a presença da cidade a partir de um modelo descritivo de constituição cenográfica, como se esta fosse palco, elemento de fundo para a efetivação da trama. Em sentido oposto ao que ocorre em certas novelas realistas – onde, segundo explicação de Bal (2002), a linearidade da fábula é interrompida para a inserção de atributos caracterizadores, compondo uma paisagem semelhante à forma fotográfica de percepção -, no texto de Marcelino Freire o território ocupado pela cidade não é explicitamente delimitado, observável. Apresenta-se, portanto, enquanto ambiente desterritorializado (SUSSEKIND, 2005), cujo conceito – como veremos – ultrapassa o âmbito da figuração espacial, para instituir significados relevantes à compreensão da representação do urbano na literatura brasileira contemporânea. 64 Uma vez destituído de território, distante da concepção de espaço conforme materialidade física, quais serão os elementos capazes de fazer do espaço urbano categoria perceptível e imprescindível à leitura? A São Paulo da obra concretiza-se mediante os eventos vivenciados pelo narrador-personagem, em concordância ao que afirma Certeau (1998), sobre ser a cidade lugar produzido a partir das práticas nele efetivadas. São surpresas, decisões repentinas, pensamentos distorcidos, lembranças a sobreporem presente e passado. Por meio delas, a cidade vai estabelecendo-se como entidade dispersa; cidade-angu, cuja desordem não permite a fuga da vítima-assassina. Segundo Pellegrini (2008), é o espaço lido predominantemente a partir de manifestações que reconfiguram o sentido de conflito urbano. Conflitos responsáveis por produzir um locus horrendus sem aparência definida; massa amorfa diluída, carente de fronteiras capazes de distinguir seus limites, tanto que o público e o privado interpõem-se, restando ao primeiro a faculdade de – por meio da violência que se lhe faz própria – induzir os fatos na narrativa. No entanto, é relevante saber por que seriam estes eventos e não outros aqueles a motivar a disposição do espaço urbano como cenário para o plano fabular. Os fatos componentes do conto permitem que esta cidade ficcional dialogue com uma concepção contemporânea de metrópole fundamentada nos discursos do medo e do crime. Portanto, dentre os modos possíveis de perceber a cidade, predominam em “Angu de Sangue” as lentes que a configuram como entidade marcada pela violência em suas mais variadas manifestações. Segundo Caldeira (2000), esta compreensão faz-se intensa e fortemente disseminada na sociedade brasileira, em razão do caos característico da sobrevivência nas grandes cidades. Conforme se tornam estas falas do crime o discurso interpretativo dominante a respeito desta urbanidade desordenada, as São Paulo ou outros tantos grandes centros recriados pela literatura estarão longe de figurarem uma completude e até mesmo uma imparcialidade na trama literária. Assim, se atentarmos para o diálogo estabelecido entre o fazer literário e as formas vigentes de compreensão da realidade – onde não está subentendida uma relação determinista –, podemos refletir sobre as produções de sentido que o 65 trabalho de Marcelino Freire é capaz de estabelecer em relação a este espaço urbano perceptível, principalmente, mediante o signo da violência. Em primeiro lugar, esta imagem deteriorada das cidades atuais é contemporânea de um período que não mais vivencia os valores utópicos anteriormente arraigados à noção de desenvolvimento urbano. Segundo Faria (1999), a disparidade social própria ao crescimento de muitas grandes cidades minou a manutenção dos ideais de progresso alimentados pelo período moderno. A certeza de vivenciar um espaço urbano coerente e compartilhado – possível, sobretudo, devido aos avanços tecnológicos e industriais –, será substituída pela simbologia da cidade babélica, infernal e carente de alternativas, senão aquelas marcadas pela violência (p.29). Por consequência, esta urbanidade negativa – porque destituída das convicções racional e progressista comuns aos seus projetos de fundação – será problematizada pela literatura brasileira contemporânea. Tal processo realiza-se mediante a dificuldade em representar uma cidade carregada de distorções. É como se a gravidade da experiência urbana garantisse uma natureza ilegível às metrópoles. Lugares carentes de historicidade e de marcas capazes de particularizálos, pois as distinções por meio das quais seriam percebidos são corrompidas pelo cotidiano turbulento que os configuram. Logo, em “Angu de Sangue” observamos um centro urbano que, apesar de apontado como sendo São Paulo, não possui traços suficientes para assegurar-lhe identificação. Seus elementos caracterizadores coincidem com aqueles reservados a qualquer outro sítio urbano. A violência, o medo, a impossibilidade de fuga serão alguns dos signos dominantes quando esta metrópole ficcional é configurada. Eles passam a ser seus elementos definidores, anulando a apresentação de uma cidade singular. Por isso, sua desterritorialização está também associada à perda de especificidade. Isto é, a cidade fictícia não pode ser percebida como a cidade, pois a imprecisão que acompanha sua definição física relaciona-se à inexistência de unidade e originalidade capazes de tornar esta paisagem, em alguns aspectos, diferente das outras. Portanto, o percurso efetivado pela personagem poderia ter acontecido na capital do Rio de Janeiro ou em Recife. Na sociedade onde a utopia da cidade perfeita foi subtraída do horizonte de expectativas, os eventos violentos parecem ser 66 suficientes para a produção deste ambiente indeterminado. No nosso conto eles estão dispostos no decorrer da rota executada pelo narrador. Constitui-se, desta maneira, como espaço-tempo (FARIA, 1999), porque sua presença coincide com a duração da trajetória do assassino em fuga. A percepção corrompida do sujeito durante o itinerário irá oferecer as pistas para a composição da paisagem urbana por parte do leitor. Inicia com um assalto ao sinal de trânsito. Um semáforo qualquer, como em qualquer outro grande centro; “apenas mais um” assalto à mão armada, segundo a banalização dos atos criminosos subentendida nos discursos do crime (CALDEIRA, 2000). Os indivíduos envolvidos nesta primeira ação não possuem nomes próprios. Seres genéricos a dramatizar uma situação igualmente genérica. Apenas Elisa possui identidade; no entanto, ela não se encontra fisicamente na cena “corriqueira”; existe enquanto lembrança de seu algoz. Este aspecto nos revela que essa cidade indefinida também não permite a singularidade dos seus habitantes. O peso de sua imprecisão opera a anulação das personagens que a vivenciam. A constatação nos leva a reafirmar a importância do espaço urbano como eixo significativo do conto. Ou seja, mesmo que este se organize em torno de uma voz narrativa em primeira pessoa, produzindo uma espécie de recordação ou fluxo descontínuo de memória, essa aparente “pessoalidade” revela muito pouco sobre o indivíduo. A fala da personagem cede à corporificação da cidade; a impetuosidade dos fatos nos impede de saber sobre o sujeito. As recordações difusas associadas ao relato sobre o assalto demonstram a figuração de um espaço urbano subjetivo, cuja subjetividade é responsável, no entanto, por reforçar o perfil ambivalente e transicional (SÜSSEKIND, 2005) do espaço urbano. Deste modo, conforme se faz a percepção deste narrador indeterminado, exclusiva durante o processo de formalização do conto, não caberá uma visualização da cidade a partir de um referencial único ou um ponto de mira fixo. A urbanidade em “Angu de Sangue” desenha-se através de constante movimento. Movimento compelido, indesejado, frustrador da fuga; cujo sentido não incorpora exatidão; é ambíguo, impreciso, em razão do peso exercido pela violência urbana na desconstituição da personagem. Assim, o protagonista da trama abandona a posição de mero observador de um espaço a ser apresentado. Não há mais, como supõe Faria (1999) a possibilidade histórica (e até mesmo formal) de estruturação da paisagem segundo os critérios 67 modernos. O que não faz da matéria urbana elemento tênue. Ela torna-se hierarquicamente mais evidente, uma vez que determina (enquanto sequestro) as tomadas de decisão na trama. Deste modo, essa cidade imprescindível e persistente é, ao mesmo tempo, indefinida; compõe-se ao longo da apreensão de um narrador também submetido aos mesmos processos de indeterminação e perda de identidade. Constituída como espécie de cidade-crime, pouco sabemos dos sujeitos que a ocupam, senão que a violência igualmente particulariza e delimita suas ações. Portanto, ao falarmos desta materialidade por meio da qual a urbanidade se configura, podemos afirmar ser tal essência a mesma a alicerçar o todo incerto que caracteriza a voz narrativa. Em “Angu de Sangue”, ambos – narrador e cidade -, possuem natureza semelhante. Isto, em razão da condição de fluidez desta última, a garantir-lhe a capacidade de infiltrar-se pelos elementos que compõem os fios e enlaces da trama. Diluída, porque não possui fronteiras demarcatórias. Está dentro e fora, como se indivíduo e cidade fossem um único elemento. Tanto que assim como a metrópole, o narrador também é duplo, ambivalente. A ferocidade urbana o torna desconhecido, pouco confiável. No inicio do conto assume o papel de vítima, para no desfecho – a fim de dar continuidade a sua escapatória – revelar-se como assassino. Assim, a personagem nos surpreende. É dificultoso compreendê-la e aceitá-la, de forma análoga ao que ocorre com esta cidade desterritorializada. Concluímos (ao menos preliminarmente) nossa abordagem, sintetizando os aspectos relevantes à apreciação crítica que neste momento estamos a desenvolver. A feição desterritorializada que caracteriza a representação do espaço urbano em “Angu de Sangue” dialoga, como já observado, com uma compreensão pós-utópica a respeito do modelo de vida nas cidades contemporâneas (FARIA, 1999). O caos em que resultou a idealização moderna das metrópoles, igualmente influenciou o desgaste dos valores a partir dos quais a cidade era pensada. Se anteriormente una, completa e exata, seu entendimento agora está atrelado a definições que enfatizam sua fragmentação, incompletude e ilegibilidade. Fazendo uso dos termos de Renato Gomes (1999), ao referir-se às Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, podemos afirmar que a perfeição dá lugar ao inferno. Este último qualifica- 68 se, sobretudo, por não oferecer a possibilidade de perspectivas futuras; está fortemente atrelado ao presente e aos elementos cruéis que o configuram. As obras que interpretam o ambiente urbano por meio destes traços infernais podem ser incluídas no grupo classificado por Alexandre Faria (1999) como literatura de subtração. Delas, segundo o estudioso citado, subtraem-se todos os aspectos relacionados ao imaginário da cidade perfeita, como a procurada pelo imperador Kublai Khan, no texto de Calvino. A esperança e a utopia foram corrompidas e com elas as noções de ambiente urbano compartilhado e organizado, assim como as marcas identitárias exclusivas e singulares da própria cidade e dos habitantes que a experimentam. Apagados os traços responsáveis por particularizar a cidade, além daqueles que permitiam pensá-la enquanto cenário de amena convivência, resta ao fazer literário problematizar esta indefinição – e os conflitos a ela agregados – através da representação de um espaço urbano diluído, fluido, transitório, ambíguo, descontínuo; qualificado pela imprecisão de formas e de fronteiras; ambiente, portanto, desterritorializado. Tentar configurar esta cidade fragmentada é – como supõe Faria – se propor a ler o ilegível, o que aponta para a impossibilidade de representação da cidade enquanto cenário mimético da narrativa: não é mais possível uma geografia à Balzac, ou mesmo como a apresentada pelo alto modernismo. Constata-se o desaparecimento da cidade enquanto presença encorpada da narrativa (1999, p. 41). Este é o mesmo desaparecimento verificado em “Angu de Sangue”; fazendo-nos concluir que, no conto de Marcelino Freire, o espaço desterritorializado, infiltrado e enleado ao longo da trama, permite-nos classificá-lo como uma “narrativa de subtração”. Dela subtraem-se não somente a cidade como “presença encorpada”, mas os ideais socioculturais antes responsáveis pela representação de um espaço urbano enquanto “cenário mimético”. O narrador exime-se da função de oferecer ou 69 apresentar a cidade, para colocar-se como um “detector de ausências” (FARIA, 1999, p. 41). Se, no entanto, a cidade faz-se ausente segundo alguns critérios, a violência – por meio das ações e discursos que a simbolizam – será espécie de metonímia para o urbano, ocupando o vazio e garantindo a existência dos vestígios necessários à apreensão da metrópole ficcional. Tais deduções, contudo, não esgotam a interpretação a respeito da configuração do espaço urbano na ficção freiriana. Como o nosso estudo visa a um entendimento que vá além da mera inserção da obra do autor em uma tendência estético-cultural específica, os conceitos de subtração e desterritorialização serão utilizados como eixos norteadores para as leituras que se seguem. Estas, ao percorrer as “cidades sem respostas” (FARIA, 1999, p. 42), pretendem identificar quais ‘lugares possíveis’ os referidos vestígios são capazes de produzir, ao mesmo tempo em que atentam para os sentidos desvelados a partir do não explicitado. Ou seja, constatar a quais significados as lacunas estão atreladas; o que nos diz o ilegível. Ademais, considerando o fato de não caber ao momento pós-utópico as certezas da uni-cidade, compreender que outras possibilidades de pensar o urbano, a produção de Marcelino Freire acrescenta à diver-cidade da literatura brasileira contemporânea. 3.3. “O Caso da Menina” ou os encontros-confrontos urbanos. Se até o momento “Angu de Sangue” nos apresentou um espaço urbano desterritorializado, subtraído e violento, que novas produções de sentido e perspectivas sua leitura acrescenta à produção literária contemporânea e às concepções de cidade com as quais dialoga? A fim de avançarmos em uma discussão objetiva e fecunda, faremos uma breve organização didática das três características apontadas. Ora, diante do que foi anteriormente comentado, concluímos estarem os dois primeiros aspectos (desterritorialização e subtração) atrelados à noção de ausência. Ausência de um espaço urbano coerente e geograficamente representado, porque subtraído o panorama sociocultural capaz de 70 acolher significativamente outros modelos de configuração espacial, antes predominantes. Por sua vez, o signo da violência corresponde às sobras da cidade ilegível. As lacunas deixadas pela inexistência de um espaço físico legível e completo serão ocupadas pelas práticas conflitivas que passam a caracterizar o urbano. Como já observado, a violência torna-se metonímia deste espaço-cenário. Atua em sua substituição, em razão da influência que exerce na compreensão a respeito das cidades brasileiras contemporâneas. Evidencia-se, portanto, uma combinação de vazio versus vestígio, responsável por compor o jogo significativo capaz de fazer a metrópole ficcional perceptível aos leitores. Assim, aproximando-se do segundo componente, que corresponde às ruínas desta cidade pós-utópica, percebemos ser o termo ‘violência’ incompatível com um uso generalizado, cuja tendência seria tomá-lo como o ‘todo’ das diversas relações urbanas que podem ser deste modo classificadas. Configurada como cidade-crime, em razão destes vestígios-violência que a representam, qual violência e, portanto, qual espaço urbano os contos de Marcelino Freire fazem vir à tona? A análise dos contos selecionados para a efetivação deste estudo demonstrou que a segregação socioeconômica e a transposição das fronteiras (físicas ou simbólicas) que a mantém são os principais ingredientes selecionados para a concepção deste espaço ficcional. Quando estas barreiras, que parecem fazer parte da própria natureza organizacional do ambiente urbano, não são respeitadas, as diversidades encontram-se e, assim, evidenciam-se os interesses divergentes das distintas partes. É o que ocorre em “Angu de Sangue”. O bandido e o assassino de Elisa diferenciam-se pelas necessidades imediatas que possuem (um, o ganho do assalto, o outro, a fuga do crime). O encontro expõe a oposição, o conflito concretiza-se e com ele, a violência urbana. Deste modo, ‘encontrar’ é por à mostra os contrastes, abrindo espaço para a efetivação do confronto. Interessante perceber ainda, que, embora a violência seja resultado da diferença de lugar social ocupado pelas personagens, ela torna-se, ao mesmo tempo, elemento homogeneizador11. Os dois 11 Caldeira (2003), ao refletir sobre os discursos do medo, constata que a violência, além de ser elemento organizador dos discursos sociais, também organiza o próprio espaço urbano, uma vez que esta se torna a justificativa para a segregação social e para a delimitação dos espaços na cidade. 71 atores são considerados criminosos. Igualam-se através das ações ilícitas praticadas. O assalto (como colocado no tópico 3.1) como um problema público a interromper a fuga do problema/crime privado (em razão de o crime ter ocorrido no âmbito doméstico). No entanto, a violência encerra a separação; o pessoal e o social aproximam-se através dela, confirmando o já comentado processo de descaracterização do espaço e dos indivíduos que dele participam. Essa problematização a respeito dos encontros-confrontos por meio dos quais a violência urbana concretiza-se, pode ser utilizada como parâmetro interpretativo para a leitura de “O Caso da Menina”. Esse conto, todo construído por meio de um diálogo em discurso direto, sem a interferência de um narrador que organize o embate entre as duas personagens, apresenta-se por meio de uma cena, em que uma delas – a mãe –, insistentemente, pede para que a outra – o homem que estava a caminho do trabalho –, fique com sua filha de apenas dois dias de vida: “Quero lhe dar a criança [...] quero que o senhor leve ela pra casa” (FREIRE, 2000, p. 92). A ausência do narrador-observador e, por consequência, dos verbos de elocução que de alguma maneira orientam o leitor durante o desenvolvimento das falas, permite a produção de um texto rápido, onde as colocações de cada um dos sujeitos passam a construir uma espécie de jogo de ping-pong, em que a afirmação de um gera a contra-afirmação do outro, como num vai-e-vem, metáfora do conflito a se estabelecer entre os dois: – Minha senhora... – A sua cara. – A minha cara? – Sim, a do senhor. – Minha senhora, a senhora quer dinheiro, não é? – Não. – 1 real pro leite? – Não. – 5 reais? – Não, não. Quero que o senhor leve ela pra casa. 72 – Eu? – É. Pr’onde o senhor tá indo agora? – Eu? Tava indo pro trabalho. – Ótimo. Leve ela. – Hã? – Para o escritório. – Como? [...] (FREIRE, 2000, p. 92). Do mesmo modo como o assaltante interrompe o narrador-personagem ao sinal de trânsito, a mulher com o bebê nos braços interpela o sujeito a caminho do escritório. O texto dialogado imprime a mesma celeridade e desordem características dos pensamentos tumultuados e da interposição das falas nas colocações do companheiro de Elisa na primeira narrativa. Em “O Caso da Menina”, a rapidez com que se dá a conversa entre as personagens (não só pela concisão das frases, mas também pela troca de turnos frequentes, até a finalização do conto) enfatiza a configuração de um espaço urbano conturbado, onde aqueles que nele sobrevivem estão submetidos às suas instabilidades e surpresas. As personagens estavam sujeitas aos encontros inesperados que a cidade é capaz de suscitar. Suas rotas são suspensas pelo outro, cujo papel social constituído no texto, funciona como uma forma de personificação de problemas recorrentes à urbanidade: o ladrão, a violência12 e a mãe a miséria, a pobreza. Diante da mulher a lhe oferecer o recém-nascido – como um vendedor insistente, destes contratados para abordar os transeuntes nas ruas, diante das lojas, demonstrando produtos, amostras grátis e folhetos promocionais – o 12 Neste momento deixamos um pouco de lado a problematização de que no conto Angu de Sangue essa violência constitui-se como via de mão dupla, já que o sujeito que sofre o assalto é também praticante de um crime. Como esse aspecto já foi analisado no tópico anterior, aqui está sendo omitido para dar espaço a outras observações. 73 comportamento do sujeito é de incompreensão, perplexidade e revolta: “– Meu Deus do Céu, não acredito”; “– Não, isso só pode ser palhaçada”; “– A senhora tá biruta”. Da perspectiva desta personagem, o encontro figura-se como espécie de coação, ameaça; de forma que a sua postura, na maioria das colocações, é defensiva. O senhor procura, durante a discussão, proteger-se da “oferta” da mulher, colocar-se do outro lado; do lado que garante o amparo à tentativa de envolvimento forçado. Através das negações e dos questionamentos carregados de espanto, ele efetiva a separação, mantendo-se fora do contexto da mãe e da filha: “Não entendi”; “– Eu?”; “– Pra mim?”; “– Como é que é?”; “– Não, não gosto”; “– Não, não tenho”; “– Não acredito, não pode ser”. (FREIRE, 2000, p. 91 – 95). Em sentido contrário a esta postura, a ofertante procura impor uma proximidade entre o senhor e a menina, ora apelando para a sensibilização ante as características do bebê, ora criando laços de semelhança entre o homem e a criança, à maneira de quem tenta oferecer uma mercadoria: “– Bonitinha, bonitinha”; “– A sua cara”; “– Meu Deus, olhe só, ela tá rindo”; “– É. Veja que belezinha” (FREIRE, 2000, p. 91 – 95). Esse diálogo irá confundir-se com a própria estrutura do conto; constituição de um movimento de acusação versus defesa sobre o qual a criança figura como a parte indesejada, cuja responsabilidade nenhuma das parcelas deseja tomar para si. Para a genitora, a miséria é o critério que legitima a sua atitude: “[...] Ela pode morrer se o senhor não levar ela embora”; “– A menina precisa comer”. Ou seja, na sociedade experimentada pela personagem, parecem não existir normas responsáveis por rechaçar sua ação. Ao Estado, como forma de organização e regulação da vida das pessoas, não cabe interferir em sua decisão, já que ausente como provedor de uma existência mais digna. Na concretização do gesto, sua postura é de naturalidade quando, por exemplo, oferece soluções simples e rápidas aos obstáculos colocados pelo interlocutor. Para este último, de quem a indignação contrasta com a espontaneidade da mãe, há sim uma ordem estabelecida capaz de restringir a doação inesperada. O contexto social configurado a partir de sua perspectiva possui princípios reguladores, revelados quando oferece um ou cinco reais para o leite (caso sejam a pobreza e a fome patrocinadoras da desordem, o homem oferece o dinheiro para que “um estado de normalidade” volte a ser estabelecido); ou a questionar pelo pai da criança: “- E o pai dela, porra?” 74 (demonstrando a crença em uma organização familiar, em que a figura paterna atua como provedora da segurança e dos recursos financeiros); e por fim, esgotadas as investidas anteriores, ao ameaçar chamar a polícia (corroborando sua confiança na presença de um Estado regulador dos conflitos sociais). Percebemos, portanto, que o lugar social experimentado pelos indivíduos funciona, no conto, como o atributo chave para a diferenciação das personagens. Como a sociedade vivenciada por cada uma das partes não é a mesma, na turbulência da cidade, o encontro irá evidenciar a diferença de perspectivas, a estranheza e o desentendimento representados por um diálogo entre partes que parecem não falar a mesma língua: “– Hã?”; “– Não entendi”; “– Eu?”; “– Como?”; “– O quê?”; “– Como é que é?”. Para o senhor o espaço socializado deixa de efetivar-se apenas como o caminho para o escritório, para ser o ambiente capaz de proporcionar a invasão de sua privacidade, ou os obstáculos que frustram seus interesses mais imediatos; lugar de organização frágil, aonde subitamente, um outro o vem interpelar com seus problemas, como a tentar demonstrar sua parcela de responsabilidade perante as mazelas da sociedade. No horizonte de expectativas da mãe, a rua é a possibilidade para “dar sumiço” à criança, cuja realidade não parece oferecer vias alternativas a esta, como quando diz que a filha “nasceu para morrer”. Ou quando, como forma de argumentação, diante da resistência do homem, sugere: – Jogue ela no lixo. – O quê? – Faça isso. Jogue ela no lixo. – No lixo? – Num bueiro. – Bueiro? – É. (FREIRE, 2000, p. 93-94). 75 Ora, sabe-se que “lixo” e “bueiro” representam, tanto cultural, quanto estruturalmente, no sistema de organização das cidades, os lugares reservados ao recolhimento daquilo que não se deseja; locais cuja funcionalidade está atrelada à ideia de desaparecimento. Ao “bueiro” enquanto via de escoamento pode-se aferir também o sentido de “sumidouro”, “lugar onde somem as coisas”, em oposição à noção de “nascedouro”; confirmando a expectativa da mãe em relação à filha “nascida para morrer”; para a qual parece não haver espaço, sendo necessário, por isso, que seja levada, descartada. A criança em “O caso da menina” completa, assim, o formato triangular por meio do qual parecem organizar-se as disputas nos contos de Freire. Em semelhança ao que ocorre em “Angu de Sangue”, o recémnascido – ao modo de Elisa-, funciona como espécie de elemento imparcial: não chega a colaborar ativamente, mas torna-se imprescindível ao confronto. Os dois contos têm nesta terceira personagem uma vítima que, não apenas motiva o desencadeamento dos fatos, como também representa a responsabilidade da qual fogem tanto o companheiro de Elisa, quanto a mãe do bebê (uma vez entendida a atitude do primeiro como um álibi, para fazer com que a execução do crime recaia sobre o assaltante). Desse modo, os textos até o momento submetidos à análise corroboram a perspectiva conflitiva, baseada no encontro-confronto instaurador da violência no espaço urbano. Embora em “Angu de Sangue” identifiquemos o uso da primeira pessoa, diferente do diálogo em segunda pessoa apresentado por “O caso da menina”, as duas estruturas evidenciam a tensão narrativa que o combate entre seres diferentes (por que submetidos a necessidades, posições sociais e visões de mundo diferenciadas) é capaz de suscitar. Este aspecto nos permite afirmar o caráter essencialmente polifônico que tais composições estabelecem, já que estruturadas a partir do confronto entre as ideias-força que fundamentam a atitude de cada um dos personagens em face do mundo: os diferentes pontos de vista tendem não para a unificação, mas para a coexistência, 76 vivendo ‘em tensão na fronteira com a ideia de outros, com a consciência de outros’ (BAKHTIN, 1981, p. 77). A polifonia concretiza-se, portanto, na maneira como cada sujeito expõe seu ponto de vista específico; manifestando, segundo Bakhtin (1981), não apenas o que ele é no mundo, mas “acima de tudo, o que o mundo é para a personagem e o que ele é para si mesmo” (p.39). Assim, a sociedade responsável por fazer a mãe acreditar na legitimidade de sua doação, não é a mesma a testemunhar a indignação do sujeito receptor da oferta. A cidade experimentada pelas duas personagens não é coincidente, como não coincidem os discursos por meio dos quais elas efetivam suas vivências. No momento em que estas perspectivas divergentes disputam a cena no conto, transformam-se em metáfora não apenas para o conflito, como também para a multiplicidade inerente ao entendimento sobre o espaço urbano na contemporaneidade. Sendo, talvez, desnecessário ressaltar a dependência de uma característica sobre a outra, já que a disputa torna-se incompatível com a ideia de unidade ou igualdade. Ou seja, enquanto entidade desterritorializada e carente de identidade, o ambiente urbano torna-se, consequentemente, isento de qualquer singularidade. É múltiplo, plural, polifônico. Cenário configurado a partir das diversas vozes que nele exercem suas práticas de sobrevivência. Assim, estas posturas discursivas não chegam a ser acolhidas, porque, na verdade, fundamentam a matéria através da qual a metrópole se constitui. Elas não ‘estão’ na cidade; ‘são’ a própria cidade. Por isso, pensá-la subentende pensar o encontro; na mesma medida em que este se aproxima do sentido de confronto. Em concordância com Faria (1999), a cidade deixa de ser elemento meramente espacial, para representar a presença física do outro. Não reconhecê-lo implica igualmente desconhecer e ir de encontro à cidade. Nesse sentido, a estrutura dialógica presente nos contos freirianos – seja em segunda ou primeira pessoa – destaca certo desejo de comunicação não realizada. No primeiro caso, o formato performático de exposição das falas, à maneira de uma dramatização, abre mão da figura de um narrador, que de acordo com Gobbi (2002), 77 seria responsável por sancionar valores ou privilégios às colocações das personagens. Logo, em “O caso da menina”, a cena desenvolve-se sem a evidência de nenhuma das partes. O desentendimento se instaura, cabendo ao leitor organizar – para que assim compreenda – os vestígios deixados pelas vozes em confronto. Em “Angu de Sangue”, a predominância da perspectiva do narrador-personagem não obstrui a audição das vozes do assaltante e de Eliza. O próprio narrador as pronuncia, convocando direta ou implicitamente os discursos dos outros dois sujeitos, como em uma espécie de diálogo imaginário, cujo principal objetivo seria estabelecer comunicação entre as partes. Esta comunicação, no entanto, não se efetiva, porque os indivíduos, postos em confronto, não chegam a se reconhecer. Para tanto, seria necessário colocar-se no lugar do outro e, deste modo, assumir seu ponto de vista. Contudo, o que ocorre nas narrativas é justamente o oposto: o desentendimento dar-se, especialmente, pela tentativa de manutenção dos espaços sociais. Portanto, se determinada vertente contemporânea pensa o espaço urbano, sobretudo, mediante o signo da violência, nos contos de Marcelino Freire, ela realizar-se-á através do estranhamento dos indivíduos perante a cidade e destes entre si. Não há como sentir-se parte de uma metrópole sem identidade. Como não consigo me reconhecer na cidade, igualmente não reconheço o outro que também a ocupa. O desconhecimento influencia o medo e, com ele, a sensação de ameaça. Habitar um sítio urbano é, por isso, considerar-se constantemente intimidado, ao mesmo tempo em que faz uso de estratégias para manter sua proteção. Logo, o encontro-confronto configura-se como elemento chave para a compreensão do urbano na obra de Freire. É a partir do encontro que as tentativas de evitá-lo evidenciam-se. As personagens procuram manter o isolamento, a segregação, as fronteiras sociais, já que o contato com o diferente não propicia o espelhamento, e por consequência, a continuidade. Este é o motivo a fazer com que, nas duas narrativas do autor, o enredo seja tomado por uma conflitiva busca de compreensão. O incomunicável dá o tom à trama. Assim, não consigo entender a cidade, do mesmo modo que não entendo os meus pares. As ‘respostas’ foram subtraídas e a urbanidade tornou-se ilegível. Representando, desta forma, menos unidade e mais 78 múltipla-cidade13; polifônica. Formada por fragmentos que não dialogam entre si; confrontam-se. Nenhuma utopia e sim, como teoriza Foucault (1995), heterotopia. Pois, enquanto a primeira remete ao espaço ideal, perfeito e, por conseguinte, irrealizável, esta última caracteriza-se pela sobreposição, em um único espaço real, de vários sítios – pela própria natureza – incompatíveis; concretizando-se enquanto “desordem que faz cintilar os fragmentos de um grande número de ordens possíveis na dimensão” (FOUCAULT, 1995, p. 8). 3.4 “Volte outro dia” e o espaço urbano heterotópico. Todos os aspectos até então observados nos levam à constatação de que, na ficção freiriana (ou pelo menos na parcela aqui submetida à análise), o espaço urbano é representado, essencialmente, enquanto espaço heterotópico. Tal característica – como sabemos – não constitui fator específico da obra do autor, nem ao menos da Geração 90, da qual ele afirma fazer parte. No que respeita a configuração do espaço, o trabalho de Marcelino Freire irá dialogar com um contexto sociocultural mais amplo, cujos passos iniciais ocorreram juntamente com o processo de transformação vivenciado por nossa sociedade, principalmente, nas décadas de 60 e 70. Esse período assiste a uma significativa modificação das relações geográficas nas grandes cidades brasileiras. É, sobretudo nesta época, que se intensificam muitos dos fluxos migratórios do interior do país para os centros urbanos em crescimento. Influenciadas por uma modernidade ainda que tardia em relação ao resto do mundo, nossas paisagens sofrem uma acelerada modificação em nome do progresso, que se dá, no entanto, à revelia das essenciais necessidades da população. Tornando-se cada vez mais urbanos, nossos espaços passam a ser palco de desigualdades sociais muito bem demarcadas – uma vez que datam deste momento o início da incorporação da violência e do tráfico de drogas nos já existentes morros da cidade Rio de Janeiro, além da expansão e surgimento 13 O jogo de palavras foi inspirado na caracterização feita por Faria (1999) dos termos unicidade e diver-cidade. 79 de muitas das precárias comunidades improvisadas em palafitas no Recife, apenas para citar alguns exemplos. Logo, tais décadas serão as principais testemunhas do agravamento das más condições de convivência urbana no Brasil, cuja causa mais relevante considerada será a carência de políticas públicas capazes de proporcionar às minorias sociais menos favorecidas uma igualitária participação no desenvolvimento do país. Esse cenário social é suficiente para que nossas manifestações culturais – como quaisquer outras, vinculadas às particularidades sócio-históricas do contexto a que estão submetidas – passem a se posicionar negativamente diante dos valores associados aos ideais de prosperidade da época. Segundo Faria (1999) são ainda sob a égide do movimento modernista do início do século que, nos anos 60, certas ambições tornam-se fortemente contestadas pelos movimentos artísticos conhecidos como de contracultura. Já nos anos 70, de acordo com o mesmo estudioso, quando a urbanização atinge um processo de corporificação cada vez mais intenso (coincidindo com a opressão e a perseguição ideológica levada a cabo pelo regime militar), esta postura intensifica-se revelando, sobretudo, o esgotamento “do projeto de modernidade pelo qual passa a própria cidade enquanto espaço idealizado dentro de uma perspectiva racional e em função do progresso” (FARIA, 1999, p. 26) 14 . É assim que o espaço urbano, conforme se converte em elemento imprescindível na percepção da realidade – tendo em vista a sua hegemonia enquanto modelo de organização dos cenários e das relações pessoais na maioria das nossas cidades –, torna-se, em contrapartida, alvo de negação por alguns segmentos artísticos. Negação que não irá subentender uma rejeição da representação do urbano nestas obras; mas a renúncia da leitura dominante, cujo cerne estaria na busca da “terra prometida”, da cidade Utópica que ainda viria a ser. Na literatura brasileira tais fatores conjugam-se, aos poucos, para estabelecer uma mudança significativa na feição do que era produzido até aquele presente. Ao acolher esta posição de recusa em relação ao moderno, muitas criações abandonam 14 Importante ressaltar que a referida discussão não confunde a Modernidade, em seu sentido mais amplo, enquanto modificação de pensamento iniciada no século XIX e o movimento modernista brasileiro, cuja efetivação data do ano de 1922. 80 a atribuição de que seriam elas, as obras literárias, instrumentos responsáveis em desvelar as marcas “genuínas” do país, a fim de que, deste modo, fossem as divulgadoras de uma identidade nacional há muito ambicionada. Ou seja, à medida que as expectativas quanto à implementação desta recente urbanidade deixam de ser atendidas, se enfraquece o entusiasmo anterior nutrido pela tentativa de criar uma visão organizada do Brasil, a partir, por exemplo, da construção de personagens cuja evolução, direcionada para um objetivo claro, passaria “a limpo” a nossa história: [...] Nos romances da década de 70, em função dos fatos políticos que aqui ocorreram, a expectativa de uma história linear será substituída pela ideia de um tempo caótico, de uma situação surrealista, onde a “marcha redentora” cede lugar à resistência na clandestinidade. [...] A ênfase recairá na denúncia, na tentativa de compreensão de um presente adverso e obscuro [...]. Vemos então surgirem novos personagens, perdidos nos próprios ideais, nos sonhos que se estilhaçam (FIGUEIREDO apud FARIA, 1999, p. 27). A ficção brasileira irá vivenciar uma circunstância de quebra de compreensões subjugadas a conceitos como unidade e uniformidade para deixar vir à tona a valorização da fragmentação e da ruptura com quaisquer concepções exclusivistas. É nesse sentido que tais obras se voltam para este “estilhaçamento” das pretensões universais do moderno, promovendo os primeiros indícios de uma “ainda difusa pósmodernidade” (FARIA, 1999, p. 28). Desse modo, tornam-se incoerentes para a época não apenas aquelas concepções ideológicas ligadas a um juízo monolítico de nação, como, de modo mais amplo, a crença em qualquer ideologia. Este tempo será, portanto, expectador da perfeição e dos sonhos dilacerados, sobre os quais irá se debruçar a nossa literatura. Será, assim, por meio da problematização deste projeto de uma identidade nacional que se abre nosso precedente para a discussão em torno do conceito de espaço heterotópico. Isto, porque, conforme a ausência da primeira torna-se mais evidente, também se faz mais notória a impossibilidade de propor “alguma unidade à 81 diversidade de escritas que, por acaso, estão na mesma língua” 15 . No entanto, se a literatura brasileira dedica-se a questionar certa autenticidade nacional, a multiplicidade produtiva decorrente deste aspecto não abole a possibilidade de constatar que ela nos reserva ao menos um aspecto em comum: o de ser literatura urbana (FARIA, 1999, p. 22-23). Ou melhor, o espaço urbano pode ser considerado (sem desejar, nesse caso, forçar uma conclusão simplista) causa e ao mesmo tempo consequência de um período de modificações em que atua como protagonista. Enquanto modelo de organização geográfica implantado de forma compulsória e excludente, influencia a transgressão dos valores social-político-culturais dominantes, ao passo em que se constitui como cenário inevitável em nossas narrativas; espécie de condição imprescindível à criação literária. Poderíamos então apresentar a urbanidade como elemento capaz de impor uma característica comum a toda variedade das produções contemporâneas? Segundo Faria (1999), apenas em parte, pois esta cidade a funcionar como ambiente para as mais diversas tramas dificilmente será a mesma. Entidade ilegível, sem marcas exclusivistas presentes em sua configuração, ela passa a ser compreendida como instituição discursiva. Não haverá mais a cidade, por determinados elementos identificada com a nação, mas tantas quantas forem as vozes ou perspectivas que a vivenciam. Esta se torna, portanto, uma modificação significativa para a superação do olhar moderno a respeito de espaço urbano. Tal entendimento, fundamentado, sobretudo no conceito de utopia, justificava-se pelo desejo de compartilhar – mesmo que em algum futuro longínquo – um ambiente coerente e harmônico, graças aos recentes avanços tecnológicos e industriais. A utopia seria, então, a promessa. Não estaria baseada em um mundo “real” ou possível, pois se constitui como produto da imaginação; fundamentada em um tipo de organização controladora, a ideia de utopia utiliza, para a efetivação da divisão dos espaços, critérios como o de sacralização de certos ambientes. É capaz de criar posicionamentos e hierarquias sociais sem “lugar real”, “inexistentes institucionalmente” (FOUCAULT, 1995, p 13), 15 É importante ressaltar que esta diversidade de produção não é considerada, na obra de Alexandre Faria, característica exclusiva das produções contemporâneas, já que o mesmo não deixa de citar que este aspecto foi observado ainda em 1870, por Franklin Távora, como demonstra a partir de observação de Antonio Candido (1986). 82 porque apoiada na manutenção de uma compreensão una sobre a sociedade. É a partir da incompatibilidade desta noção com as efetivas situações de convivência estabelecidas na coletividade, que a cidade deixa de ser tomada como mera delimitação geográfica, para constituir-se enquanto demarcação que, antes de tudo, produz subjetividades. Isto é; o fato de ser julgada como entidade discursiva considera igualmente que esta não estará apoiada apenas no discurso utópico dominante, mas nos diferentes discursos, das diferentes classes e individualidades que participam da cidade e que nela efetivam suas práticas; não apenas de sobrevivência, como também de interpretação deste mesmo espaço. Ou seja, a cidade será – como afirmamos em outros momentos deste estudo – lugar praticado (CERTAU, 1998). Ora, sendo o discurso uma prática, um atuar sobre o mundo e viável graças à interação com outros, a quem influencia e sobre os quais é influenciado (BAKHTIN, 1981), determinada versão do urbano – ligada a certa subjetividade ou identidade de um grupo específico – estará em constante interferência sobre tantas outras versões e por elas também sendo afetada. Desse modo, o espaço urbano transforma-se em um lugar de múltiplas vozes, em uma rede de interdiscursos. É por meio desta dinâmica que a cidade efetiva-se como espaço heterotópico. Heterotópico porque o referido conceito está associado, segundo Foucault (1975), a justaposição de espaços incompatíveis. Estes diversos espaços irão corresponder às diversas identidades dos sujeitos ou aos diferentes discursos que cada indivíduo produz, a partir do posicionamento social que lhe cabe. Com isso, a heterotopia consegue desestabilizar a ordem utópica controladora e mantenedora dos espaços sociais, quando passa a considerar também como participante de tal multiplicidade, perspectivas até então excluídas do processo de constituição do espaço urbano. Ao invés da sólida unidade antes estabelecida, o que toma lugar agora é o movimento, a interferência das vozes-identidades-discursos umas sobre as outras. Nesta constante interposição, o sujeito deixa de ser mero espectador do ambiente no qual está inserido, para atuar como produtor de suas próprias significações. Não mais um único sujeito que “diz” da cidade unívoca e determinada, mas o encontro de várias vozes em conflito que tomam a cena para narrar o urbano. Urbano que será, 83 portanto, heterotópico, em razão destas diversas posições discursivas que o configuram. Marcelino Freire pode ser considerado, desse modo, herdeiro de um contexto sociocultural em que a perspectiva urbana dentro dos moldes modernos não se faz mais possível ou coerente. O que não pressupõe afirmar uma interferência direta e determinista do período de transição citado, com o trabalho do nosso autor; contudo, as características assumidas pela literatura brasileira na segunda metade do século XX influenciam um modo de produção até então vigente: Na cidade [...] cada vez mais se tornam ilegíveis as marcas de uma nação. O espaço urbano, enquanto significante, como qualquer outro espaço humano (BARTHES, 1987, p. 181), impõe-se com seu discurso, fazendo com que o artista, cada vez mais, abandone seu lugar de autor e se torne leitor e intérprete, pois a cidade construída pelo discurso possibilita visões diversas [...] (GOMES, 1994, p. 24). E nesta iniciativa a cidade é percebida na sua mais completa ilegibilidade. [...] as diferentes leituras da cidade, as distintas experiências urbanas refletem-se em diversos discursos literários que confirmam a já mencionada polifonia urbana, na qual os dois elementos estão inevitavelmente intimamente urbano, e relacionados: urbano porque polifônico se porque legitima na multiplicidade de vozes que legitimam a cidade [...] (FARIA, 1999, p. 29, grifos do autor). Poderíamos, portanto, concluir que Freire participa de uma contemporaneidade cuja vocação está na experimentação de uma diversidade já iniciada. Tal tendência é capaz de reter poucos aspectos comuns; considerando-se como o principal deles a impossibilidade de fugir ao urbano, acompanhada da também impossibilidade de crer que esta cidade pertence a alguma nação específica – uma vez que a consciência de uma identidade nacional passa a ser demitida de nosso entendimento histórico (PORTELA apud FARIA, 1999, p. 29). Serão, assim, 84 incorporadas à metrópole a qual não pertencem – e que igualmente não pertence a nação alguma e a todas ao mesmo tempo – que as personagens construídas pelo pernambucano disputarão a vez e a voz pela sobrevivência. Estas cidades sem vínculos indenitários, ilegíveis enquanto lugares exclusivos, se tornam heterotópicas, porque esgotadas as possibilidades sócio históricas de configuração do espaço singular e idealizado. A obra Angu de Sangue é deste modo herdeira de um período em que só se faz coerente uma cidade enquanto abrigo onde se situam distintos enunciadores localizados em distintas posições (FOUCAULT, 1975). Estas diferentes vozes a dizer sobre a cidade compõem-se no trabalho de Marcelino Freire como pronunciamento daqueles sujeitos que – devido a um processo de organização socioeconômica e geográfica excludente – não ocupariam a função de declarantes de suas vivências, caso a concepção de espaço adotada pela obra em questão não fosse heterotópica. Eles são – como visto nas leituras até então efetivadas neste capítulo – os criminosos (assaltantes ou passionais) e a mãe, que ao rejeitar a filha quebra igualmente com a concepção fortemente sacramentada na sociedade ‘da maternidade acima de todas as coisas’. Ou seja, passa-se a assumir, como explica Valverde (2009), uma abordagem espacial capaz de conferir uma interpretação plural da sociedade, ao considerar atores e fenômenos que antes seriam descartados em razão de seu caráter marginal e apolítico. Estes sujeitos irão proferir a cidade a partir das experiências espaciais que este lugar lhes oferece. Como a ocupação realizada por cada um deles não se dá de forma vazia e homogênea (BACHELARD, 1960), a heterogeneidade/heterotopia emerge, tornando a interação entre os diversos um fenômeno gerador de múltiplas significações. Em “Volte outro dia”, assim como nos demais contos analisados, a configuração deste espaço urbano heterotópico faz-se evidente em virtude do confronto estabelecido entre as personagens, cuja principal motivação é a busca da inversão dos lugares sociais até então estabelecidos. No conto citado, o espaçocenário não chega a ser propriamente as ruas de um grande centro, mas será um problema urbano (que a elas parece ser quase inerente) o desencadeador do início da trama. O narrador-personagem – responsável por pronunciar além da sua fala, a do outro com quem estabelece conflito – encontra-se em sua residência, quando um 85 mendigo lhe bate à porta. A narrativa inicia-se com a frase certa e persistente do pedinte: “voltar outro dia eu não volto, pensou o mendigo à minha porta” (FREIRE, 2000, p. 39). Esta insistência será o eixo através do qual se desenrolam os acontecimentos. É por meio dela que se concretiza a superposição das diferentes espacialidades, tornando evidente uma característica própria aos espaços marcados pela heterotopia. As personagens podem ser consideradas ‘espacialidades distintas’ em razão da dissemelhança com que cada uma delas concebe o lugar pelo qual disputam. Na fala do narrador/morador revela-se o sentido inerente ao ambiente casa. Este irá coincidir com a significação comumente aceita a respeito da moradia, tomada de forma mais generalizada na sociedade como lugar que possibilita privacidade e reclusão. Tal valor ou função atribuído à residência passa a ser ameaçado devido à presença perseverante do pedinte: Ficou ali, como se não me visse ou visse. E precisei argumentar que não tinha sobre de feijão, nem pão, nem carne. Que não fui o supermercado, que a geladeira estava em estado de grades. Não se convenceu. Repetiu amargo: não volto outro dia. Amanhã não pode” (FREIRE, 2000, p. 39). Sua teimosia transforma-se em uma espécie de ‘ferida’ a corromper o que antes seria apenas a individualidade isenta e estranha a algum tipo de compartilhamento por parte do morador. Para este último, a atitude do visitante gera forte sobressalto, incentivado pela certeza de que não é obrigado a dividir sua vida/espaço com o outro: Comecei a ficar explosivo. Ele fixo para mim, parecia cometer suicídio à minha porta. Coletivo. Juntar todos os pedintes da rua. 86 Vá ao vizinho. Leve sua oração, seu roupão, seu mijo de cabelos. Os dentes mordidos. Um pão. (FREIRE, 2000, p. 39). No discurso do residente fica claro a incompatibilidade experimentada entre o seu modelo de vida e os problemas sociais que a personificação do pedinte representa. Enquanto este vivencia a fome como carência de condições elementares de sobrevivência (por exemplo, moradia e alimentação), no estilo de vida do segundo, o “hoje, não tenho” está associado a uma rotina desorganizada que o impede de efetivar obrigações simples, como ir ao supermercado. Assim, as necessidades de um contrastam com a do outro, quando atentamos ao fato de que as duas não se encontram em um mesmo nível de gravidade, embora seja deste modo que o narrador o coloque. O conto consegue construir, até certo ponto, uma áurea de ironia em relação à postura do narrador-personagem ao sugerir certa banalidade em suas argumentações de defesa. Mesmo irritado e indignado com a situação de incapacidade diante do indigente, a problemática do morador restringe-se a não possuir os ‘restos’ ou ‘sobras’ condizentes com as necessidades do mendigo: “catei nos bolsos as moedas sem valor. Nenhuma” (FREIRE, 2000, P. 39). Ou seja, sua exasperação existe devido à inexistência daquilo que ‘não serve mais’; do que ‘precisa ser jogado fora’; algo ‘sem valor’ capaz de estabelecer uma relação de semelhança com um indivíduo também invalidado socialmente, composto por ‘restos’. Em contraposição à sua revolta está a imobilidade do sujeito à porta; inerte, consistente e certo de sua solicitação. A solidez de sua presença desestabiliza o morador, criando um desequilíbrio entre as indigências de cada um, e os diferentes enfrentamentos diante delas. Deste modo, a estabilidade e constância, mesmo inseridas em uma situação de miséria, transmitem uma assombrosa serenidade hábil em desestabilizar a recusa; pelo fato de que esta é motivada, principalmente, pela incapacidade de se aproximar do lugar do outro. Isto é, às sobras das quais o outro precisa ele não tem acesso, porque inserido em uma situação bem mais cômoda. Apesar disso, sua reação é de irritação, conferindo certa comicidade à futilidade de seus pretextos. 87 Estas desigualdades, tanto dos contextos de sobrevivência quanto no modo de encará-los, garantem a dinamicidade comum ao espaço heterotópico. O morador esforça-se em manter a integridade de sua residência; para ele, ameaçada pela presença do mendigo e sua postura corrosiva; figurada no conto quando, por exemplo, lhe oferece um copo com água: “(depois de beber a água, guardou o copo na caixa que trazia, sem cerimônia, parafusada de náilon e remendos). Tudo bem, o que é um copo, hein?” (FREIRE, 2000, p. 40). O outro aparece para intimidar, subtrair. O copo pode, contudo, ser levado; afinal, a expressão ‘o que é um copo?’, confirma que este figura no rol das coisas insignificantes passíveis de serem possuídas pelo pedinte. Ao voltarmos a falar sobre a residência, percebemos que o empenho empregado pelo narrador pode ser comparado com a observação de Foucault (1975) a respeito da dessacralização dos espaços na contemporaneidade. Segundo o filósofo, embora uma concepção heterotópica tenha sido capaz de romper com a consolidação de certas localizações, a dicotomia público versus privado é um fator que se mantém. A casa seria o espaço inviolável, competente na proteção contra as intempéries externas da urbanidade. Por isso, não deixa de ser igualmente elemento participante da constituição de um espaço heterotópico. Isto porque, ainda utilizando-se de Foucault (1975), ela seria espécie de compensação reduzida do caos presente do lado de fora. Desta forma, sendo a cidade lugar onde, por exemplo, predominam a sujeira e o desrespeito às regras de boa convivência, a moradia irá funcionar como ambiente de reclusão onde tal desequilíbrio seria reparado. Atua na composição da heterotopia, portanto, por ser o espaço incluído em outro mais amplo (nesse caso, a cidade); por possuir regras e características que o diferenciam do externo; porque não é passível de livre acesso. Ao mendigo não é permitida a entrada, pelo fato de ser um estranho. Logo, por meio da residência evidencia-se a separação entre os dois sujeitos. Dentro de um mesmo espaço urbano estão incluídas regiões que funcionam como discernentes da posição conferida a cada um deles: aquele que possui o privilégio de ocupar uma casa, para quem existe uma ordem social estabelecida (em semelhança ao ocorrido em “O caso da menina”, quando um dos personagens apela para fatores que demonstram a sua convicção na existência de um Estado organizador das leis e dos problemas sociais), revelada ao sugerir, delicadamente, que “a polícia anda sondando o bairro. 88 Que nenhum cidadão é obrigado a servir o próximo. Quando não tem. Quando não quer. Quando não está a fim de emprestar bondade a Deus” (FREIRE, 2000, p. 40). Diferente do outro, habitante das ruas, sobre quem não operam endereço ou localização; para quem o Estado – uma vez que não oferece melhores condições de sobrevivência – não está autorizado a impor as limitações de suas regras de conduta. O que torna o pedinte pouco preocupado com a ‘inconveniência’ de sua solicitação: ‘quer agora’, ‘amanhã não pode’. Assim, as duas personagens protagonizam uma disputa pelo espaço. Espaço que, como observado até então, não possui o mesmo significado para ambas. Por causa da desigualdade a partir da qual são entendidas, estas espacialidades – a rua e a residência – promovem uma relação conflitiva, motivada tanto pela proximidade de suas localizações, quanto pela frágil divisa a se estabelecer entre elas. A ação trivial de ‘abrir a porta’ gera a superposição dos dois sítios, ocasionando uma interrelação que, da mesma forma que ressalta as diferenças, também contribui para certa ‘contaminação’ ou influência entre tais partes. Portanto, as desigualdades evidenciam-se, por exemplo, no esforço do narrador em manter a inviolabilidade de seu território, a separação, o não compartilhamento: Rua, rua, gritei. RUA. Natural que ele tenha se envergado para sorrir. Que tenha rido de mim, com todos os paralelepípedos. Ri para acompanhar, fazer boa-fé, simpaticamente dizer que ele fosse armar o circo noutro lugar. (FREIRE, 2000, p. 40). Em contraposição à postura do narrador de expulsá-lo da frente de sua casa, o pedinte ri “com todos os paralelepípedos”, imagem que reforça o sentido de pertencimento deste com a rua, como se fossem uma só matéria, contribuindo para a impossibilidade de este estar em outro lugar. Encontrá-lo, nesse caso, será tão certo quanto olhar para o lado de fora; uma ‘mazela’ urbana da qual a casa deve ser resguardada. Por outro lado, interno e externo também se tornam semelhantes, não apenas pelo ‘rir juntos’, mas também na medida em que peculiaridades do ‘lado de 89 fora’ passam a caracterizar o ‘lado de dentro’. No momento da narrativa em que o mendigo se vai, aspectos antes atrelados a sua fisionomia e ao seu cheiro, confundem-se com a aparência da casa: Mas, será mesmo que ele desapareceu? Fui pelo escuro, tateando fôlego. O cheiro de mijo era do meu banheiro. O cortinado da sala precisava ser lavado. O tapete cheio de pelo de cachorro. Ele realmente não estava. (FREIRE, 2000, p. 41, grifos nossos). A semelhança se efetiva por meio desta associação entre as condições de abandono e imundície do mendicante e os elementos internos da casa da personagem. Esse processo de proximidade/distanciamento faz parte da caracterização de um espaço narrativo heterotópico. É nesta dinâmica que se efetiva um cenário contraditório e problematizador dos sentidos e funções sociais comumente aceitos. Justapondo formas de representação conflitantes em um mesmo palco, a heterotopia torna-se capaz de desestabilizar certos discursos dominantes responsáveis por interpretar como coesas, formas injustas de delimitação geográfica, seja ela física ou simbólica. Quando submete o espaço aos distintos interesses das personagens, a narrativa não apenas o desnaturaliza, como também deslegitima uma percepção unívoca e essencialista a respeito da cidade. Esta passa a ser o lugar do conflito, cuja constituição se dá, principalmente, a partir da negação (ISER, 1999) de um parâmetro sociocultural que concebe os espaços coletivos como locais de convivência. Ou seja, embora utopicamente (FOUCAULT, 1975) as cidades tenham sido organizadas com o intuito de promover relações de compartilhamento, do ‘viver com’, uma concepção heterotópica sugere o contrário. Tais interações estariam mais condizentes com um ‘viver apesar de’; uma vez que predominam, de acordo com Caldeira, nas regras de ordenação das espacialidades urbanas, “padrões de diferenciação social e segregação” (2000, p. 211). Assim, mesmo que esta cidade compartilhada não esteja presente, ela funciona como lastro de semelhança para a configuração de outra, em que os sentidos de comunidade não podem ser recuperados. Logo, enquanto lacuna ou realidade subentendida, a 90 cidade ideal permanece, servindo de motivação para a produção (LIMA, 2003) da cidade-conflito. Esta última irá nos oferecer uma nova perspectiva, tanto em relação aos padrões de perfeição comumente objetivados para os espaços públicos, quanto no que respeita à reflexão sobre os modelos de isolamento e separação propostos pelos ordenamentos urbanos. Desta forma, o embate ou conflito torna-se elemento chave para a leitura dos contos freirianos. Ele sugere relações de oposição diversificadas, responsáveis por significações imprescindíveis à construção da realidade ficcional em Angu de Sangue. Com o intuito de organizar e condensar o que foi exposto até o momento, podemos afirmar que tais contrastes seriam: 1) lado de dentro x lado de fora, ou público x privado, que na medida da diferenciação, constroem também um tipo de igualdade. Serão os espaços discursivos que, ao se interseccionarem, influenciamse, ao mesmo tempo em que deixam evidenciar o incomum; o que não pode ser reduzido à mesma natureza: a casa, enquanto cenário capaz de garantir a existência do privado e a proteção contra o público. Nela, estão presentes as noções de preservação e segurança: “a polícia anda sondando o bairro”; como também da preservação dos direitos e da cidadania: “que nenhum cidadão é obrigado a servir o próximo. Quando não tem. Quando não quer” (FREIRE, 2000, p. 40). A rua, como metonímia para o urbano, torna-se o lugar da sobrevivência; é invasível, ocupável: “ele continuava lá, absurdo. Sem comer não iria para lugar nenhum” (FREIRE, 2000, p. 40). É, do mesmo modo, o urbano das alternativas: “o mendigo finalmente ganhou outro caminho. O estômago do mundo” (FREIRE, 2000, p. 41), porque este lugar não atendia às suas solicitudes, é melhor fazer outra escolha, procurar outros meios de assegurar sua subsistência. 2) a resistência x defesa, a fundamentar a postura das duas personagens. O mendigo, para quem a esmola é um direito fundamental e inalienável, o momento é o presente. “Não quer outro dia. Amanhã não pode” (FREIRE, 2000, p. 39). Sua fome é urgente, não pode ser adiada; daí seu posicionamento insistente, a necessidade da solução imediata. Para quem procura proteger-se, livrar-se da solicitação, o momento favorável seria o do ‘amanhã’; um amanhã incerto; significando muito mais um adiamento do que um fiel compromisso ou promessa de atendimento à solicitação do outro. E por fim, 3) utopia x heterotopia. A primeira, enquanto ausência contribui para a configuração e 91 entendimento da segunda. Ou seja, o espaço heterotópico somente pode ser entendido enquanto tal, na medida em que se contrapõe à forma utópica de entendimento das cidades. 92 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS As análises efetivadas no capítulo precedente nos autorizam a concluir que em Angu de Sangue não apenas o elemento urbano atua enquanto parcela essencial na construção do todo significativo, mas o quão fracionado é o valor de tal ocorrência. Sua relevância se dá, mais especificamente, enquanto ausência. Ou seja, há menos uma configuração espacial da cidade, apresentada ao longo de características específicas, capazes de constituir um cenário e muito mais a apresentação do que esta cidade deixou de ser em razão da violência. No entanto, sendo a importância assumida por esta urbanidade desgastada um evento recorrente em nossa literatura, que outras produções de sentido a obra de Marcelino Freire acrescentaria às letras brasileiras? Além do mais, que contribuições esse estudo agrega a uma obra já bastante assediada por diversos trabalhos críticos contemporâneos? Ora, a investigação de uma produção recente nos coloca diante da problemática do diverso, de uma multiplicidade de interpretações que não foram totalmente consolidadas ou amadurecidas. Esta inconstância encontra-se não apenas na ensaística, como também nas próprias obras, uma vez que compartilhar do mesmo tempo presente inclui não possuir o privilégio do olhar externo. Ou seja, não perceber a existência de uma tendência como um processo iniciado e acabado. A leitura faz-se no contínuo, quando modificações ainda podem estar sendo processadas, tanto por autores quanto por críticos e teóricos. O referido cenário não nos impede, contudo, de estabelecer um critério comum para o trabalho de Freire e outras obras aqui citadas apenas en passant. Se há a possibilidade de identificar uma generalidade nessa literatura, ela será o urbano, pois o que está em questão é constatar a diversidade de uma produção literária que guarda pelo menos um aspecto em comum: o de ser literatura urbana, o que, de forma mais profunda, significa tomar a 93 cidade não apenas como cenário ou ambiente, mas como condição para a própria criação literária (FARIA, 1999, p. 23.) Esse “ser literatura urbana”, significa que a cidade não é simples palco para a efetivação dos acontecimentos narrativos, mas requisito da própria criação literária. Tal característica surge juntamente com uma “urbanização acelerada e desumana, devida a um processo industrial [...], motivando a transformação das populações rurais em massas miseráveis e marginalizadas” (CANDIDO, 1986, p. 201.) Esta predominância urbana, no entanto, não será a mesma no decorrer de todo esse processo sócio-histórico-literário. De espaço idealizado e emblema para a propagação de valores modernos, como racionalismo e progresso, a cidade tornase, por volta da década de 70, emblema do fragmentário, do caótico e do obscuro. Onde anteriormente imperava a afirmação de uma identidade nacional – própria de uma cultura originada a partir de fortes influencias externas, preocupada em afirmarse como corpo autêntico – surgirá uma cidade sobre a qual as marcas de uma nação parecem ilegíveis. Tal modificação não ocorre no texto literário enquanto mero reflexo das condições de seu contexto de inserção. O que se modificam são as maneiras de interpretar e conceber a realidade e não necessariamente o real propriamente dito – já que nossa atuação sobre este subentende uma prática social, um constructo efetivado somente a partir de um processo discursivo (BLINKSTEIN, 2001.) Assim, podemos afirmar que o período no qual Marcelino Freire está inserido opera uma releitura destes discursos pós-utópicos iniciados na segunda metade do século XX. O que se torna aspecto diferenciador de sua obra (como de outras com as quais ela estabelece diálogo mais imediato), em relação às outras que a antecedem e sobre ela exercem influencia, será a problematização do espaço urbano enquanto fragmentação motivada, sobretudo, pelas diferentes subjetividades em disputa pela sobrevivência na cidade. Como confirma a própria apresentação da obra, feita por prefácio de João Alexandre Barbosa, ao afirmar que as vozes narrativas de seus contos 94 são, quase em sua totalidade, vozes de personagens que são restos (no sentido literal e no figurado) da experiência rural, estilhaçados pela forçada adaptação ao universo, também ele, estilhaçado e violento da experiência urbana [...] por uma lado, a violência da existência urbana em que se agitam as personagens e, por outro, a violência de adaptação a que são forçadas essas mesmas personagens (BARBOSA, 2000, p. 12) Desse modo, o espaço urbano em Angu de Sangue será aquele da pluralidade. Esta resulta das diversas individualidades que ao vivenciarem o urbano produzem cada uma delas, variadas expectativas sobre um mesmo lugar. Tal diferenciação é produzida pelo critério da diferença socioeconômica e da exclusão social. As personagens Freirianas são, em sua maioria, vozes representativas de grupos cujo posicionamento na sociedade sofre algum tipo de segregação ou estão à margem de certos direitos que deveriam ser garantidos pelo Estado. É relevante o fato de tais sujeitos narrativos, em razão de alguma carência experimentada, estabelecerem nos contos uma constante disputa. Disputa em que o espaço funciona como elemento principal, tornando-se metonímia de outros elementos característicos da experiência urbana como fome, crime, mendicância e abandono. É através desse combate que a cidade contemporânea ganha concretude no plano fabular. Deixando de ser demarcação física, espécie de pano de fundo onde os fatos ocorrem, o espaço urbano define-se por meio das rotas traçadas por estas individualidades a se contrapor, revelando o confronto com o outro, que [...] pode ser compreendido de forma abrangente como o confronto com a própria cidade. Melhor explicando: a cidade, enquanto espaço representativo da alteridade, através de seus múltiplos níveis discursivos [...] deixa de ser elemento meramente espacial para representar a presença física do outro (FARIA, 1999, p. 78.) 95 Os caminhos efetivados proporcionam o encontro com o outro com quem não se estabelece uma relação de reconhecimento. Isso, porque neste contado está subentendido o encontro com a própria cidade. Cidade ilegível, carente de aspectos que a particularizem ou identifiquem. Ao acompanharmos os passos desses sujeitos representados em Angu de Sangue percebemos que os caminhos traçados conduzem sempre ao encontro. Estes deixam bem demarcadas as barreiras ou os “muros” simbólicos (CALDEIRA, 2000) capazes de instituir as diferenças. Nos três contos analisados nenhuma das personagens é capaz de estabelecer comunicação com seus pares. O desreconhecimento se dá, principalmente, porque cada uma delas está insistentemente inserida na compensação de suas próprias necessidades. O urbano torna-se, assim, o lugar reservado para o suprimento das expectativas, das ações vis ou das satisfações mais básicas: a fuga, a entrega do filho, a saciedade da fome. Também nos três contos nenhuma dessas buscas será compensada. No embate, os personagens solicitantes não alcançam seus objetivos. Por isso, o estabelecimento da chave de leitura do encontro-confronto é tão significativa para a leitura de Marcelino Freire. A cidade é acima de tudo, o lugar dos encontros inesperados, entre seres que pela centralidade na sobrevivência não se reconhecem, não se entendem ou comunicam. Estabelece-se, então, o confronto. Novamente a cidade será, prioritariamente, o espaço autorizado para a violência que se institui enquanto desejo de resistir. No espaço urbano, no entanto, não importando os apelos; as solicitações não serão atendidas. Tais características nos permitem entender o espaço ficcional em Angu de Sangue como essencialmente heterotópico. As individualidades divergentes correspondem às espacialidades que cada sujeito passa a representar. Suas relações de vizinhança não são pacíficas; enfatizam o estado fragmentado, difuso por meio do qual o espaço configura-se. Não mais um espaço em unidade, percebido a partir de um modelo discursivo dominante, mas o espaço em toda a sua multiplicidade. Multiplicidade atrelada à polifonia característica deste ambiente, onde várias vozes atuam ao mesmo tempo. Exigindo, cada uma delas, a predominância de sua perspectiva em relação ao relato. Evidenciada através do formato dialógico e dramatizado por meio do qual se constroem. 96 Por fim – sem a pretensão de termos esgotado as possibilidades de significação da obra – concluímos que em Angu de Sangue o espaço urbano será o espaço das barreiras físicas e dos muros invisíveis. Em Freire a particularidade da configuração espacial está nos encontros-confrontos, nas rotas traçadas, nos discursos do medo que proporcionam formas diferenciadas de concretização da paisagem. Nossa leitura procurou tomar aspectos formais do texto que enfatizam a dinâmica no espaço heterotópico, além de perceber os parâmetros socioculturais, não como reflexos ou recorte fidedigno da realidade, mas como diálogo atuante na produção de novos sentidos, férteis em estabelecer significados e problematizações a respeito da cidade angu, múltipla, confusa e violenta. 97 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, Cristiano Motta. Ontem, hoje e os outros: ficção brasileira e tempo presente. 2010. Dissertação (Mestrado em Teoria da Literatura) – Programa de Pósgraduação em Letras, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2010. ALMEIDA, Márcio. A moral oral na era digital. Acessado em: <http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=5271>. Acessado em: 18 de Janeiro de 2012. BAKTHIN, Mikhail. 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