WINGSUIT
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Asas do desejo
Os melhores pilotos de wingsuit
do mundo – vertente do base
jump em que o atleta salta usando
um macacão que permite a ele
planar mais tempo no ar, antes de
abrir o paraquedas – se reuniram
recentemente na Pedra da Onça, no
Espírito Santo, para o World Wingsuit
Race, o primeiro campeonato da
modalidade realizado no Brasil
Por Mario Mele
fotos Alexandre Cappi
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Jason moledzki
ludovic woerth
“Eu tenho asas”
Rob Heron e dan Vicary
pilOtOs de wingsuit sÃO ReCOnHeCÍVeis pelas asas que costumam ter
tatuadas no corpo; geralmente em boa parte das costas, às vezes também
no pescoço e braços. “sinto-me como um homem que tem a capacidade de
voar, não com as próprias asas, claro, mas com um macacão bem legal”, diz
o brasileiro gui pádua, que, além de ter sido o organizador do world wingsuit
Race, que rolou durante o Carnaval na pedra da Onça, no espírito santo,
competiu no evento (terminou em 26º na classificação geral de 32 atletas).
para ele, o par de asas que tem gravado da lombar à nuca é uma forma de
expressão. Já o canadense Rob Heron possui uma coruja de asas abertas
tatuada no pescoço que, segundo ele, tem a ver com seu próprio estilo de vida.
“ela é testemunha do equilíbrio entra a vida e a morte, aquele momento em que
tentamos, com sabedoria, nos livrar das coisas que nos oprimem”, filosofa.
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Fora do script
Os pilotos de wingsuit noruegueses
Jokke Sommer, 26, e Alexander Polli,
27, são os melhores do mundo em
voos de aproximação, em que os
atletas passam rente a rochedos e
árvores (como o desta foto, do piloto
norueguês Frode Johannessen). Eles
não competiram no World Wingsuit
Race, que teve categorias em que
eram disputadas velocidade, precisão
e distância, mas vieram ao Brasil se
divertir e prestigiar os amigos que
estavam inscritos. Quando se encerrava
a última bateria do dia, eles eram
levados de helicóptero cerca de 1,5
quilômetro céu acima para, vestidos
com seus wingsuits, fazerem saltos
de aproximação na Pedra da Onça,
prolongando ao máximo a queda livre.
Os dois já foram pilotos de motocross
e são hoje os representantes mais
notáveis da vertente mais radical do
wingsuit — tanto que seus vídeos no
YouTube costumam passar de 1 milhão
de acessos. “Não acho que vou além
de meus limites”, diz Alex, que não
curte competições. “Penso muito
no que farei no céu enquanto ando,
escovo os dentes, tomo banho. É uma
meditação na qual me imagino no
controle de cada situação.”
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No fio da navalha
É QuAse umA OFensA diZeR a um base jumper que seu esporte é um dos mais arriscados do mundo.
mas, infelizmente, a cruel estatística da modalidade se manifestou na pedra da Onça: a base jumper
argentina stel moix, que não competia no world wingsuit Race, entrou para a lista fatal. não era a
primeira temporada de stel no lugar, mas naquele dia sua saída foi instável, e ela provavelmente bateu
a perna em uma rocha saliente e perdeu o controle do corpo, despencando mais de 500 metros. A
argentina foi a primeira vítima fatal da pedra da Onça. O campeonato foi suspenso no dia trágico.
na manhã seguinte, antes de as baterias recomeçarem, o organizador do wwR, gui pádua, acendeu
incensos, enquanto os competidores formaram um grande círculo e, de mãos dadas, rezaram para prestar
homenagem à colega. por precaução, no próximo ano será proibido não competidores saltarem da pedra
da Onça durante os dias em que o campeonato rolar.
em mAiO dO AnO pAssAdO, o britânico gary Connery (nas
duas fotos abaixo)gravou seu nome na história do wingsuit de
maneira espetacular. em um ato cautelosamente planejado, ele
saltou de um helicóptero a 750 metros de altura e, depois de um
voo perfeito de wingsuit, aterrissou em 18.600 caixas de papelão
empilhadas ao longo de cem metros. Foi o primeiro pouso de
wingsuit sem paraquedas bem-sucedido da história. Aos 42
anos, esse britânico que soma mais de 400 saltos de base jump
ficou famoso depois desse salto e até participou da cerimônia
de abertura da Olimpíada de 2012. gary, porém, não se vê como
celebridade. “Vim ao Brasil para participar de minha segunda
competição de wingsuit e para estar ao lado de pessoas com
objetivos parecidos.” gary ficou em 16º na geral. sua melhor
colocação foi um sétimo lugar na prova de distância.
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O importante é competir
Na final da modalidade “speed” (velocidade), que definiria
o piloto mais rápido do World Wingsuit Race, estavam na briga
o húngaro Vic Kovats (foto acima) e o francês Ludovic Woerth
(à esquerda). Como aconteceu durante toda a competição, os
dois largaram simultaneamente e, lado a lado, mergulharam
paralelos à face vertical da Onça para, em seguida, se
projetarem à frente, em direção a uma faixa de 150 metros de
extensão esticada no chão a 900 metros da base da pedra.
Quando sobrevoam a linha, estão a cerca de 150 metros
do chão. É quando acionam — ou comandam, na linguagem
técnica — o paraquedas para aterrissar em cima, ou o mais
próximo que puderem, de um tapete de 15 metros quadrados.
Por segurança, a regra obriga os competidores a um voo de
no mínimo 20 segundos entre a abertura do paraquedas e
o pouso, para evitar rasantes. Na final, Vic, cujo apelido é
Fearless (destemido, em inglês) não cumpriu os 20 segundos
obrigatórios e foi desclassificado. “Na Suíça, os campeonatos
não são assim”, dizia o competidor, visivelmente irritado com a
eliminação. O adversário não deixou barato. “Não abrirei mão
da regra. Nunca ganhei nessa categoria, quero muito a vitória”,
disse Ludovic, que se consagrou campeão na categoria “speed”
e oitavo na geral.
Os pilotos do World Wingsuit Race também disputaram
a categoria “distância”, cujo desafio era voar o mais longe
possível (levando em conta os 20 segundos de paraquedas
aberto). O vencedor absoluto do campeonato foi o norueguês
Espen Fadnes, que teve a melhor média (sexto em distância,
sexto em velocidade e terceiro em precisão). “Trabalho como
cinegrafista aéreo, e gosto de competir”, disse Espen, que
quando criança pulava da sacada para dentro da piscina. Ele
levou para casa US$ 1.500 de premiação.
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A itAliAnA ROBeRtA mAnCinO (à esquerda) e a norteamericana lori Butz (abaixo) eram as únicas mulheres na
competição. O wingsuit não tem muitos representantes do sexo
feminino, mas isso não parece ser um problema. “A questão
não é ser homem ou mulher, é ter habilidade e coragem para
voar”, diz Roberta. “Os homens até podem ser um pouco mais
velozes, já que são mais pesados. mas o legal de dividir a rampa
de decolagem com outras garotas é que, às vezes, queremos
falar sobre outros assuntos que não wingsuit.” Roberta tem
feito a lição de casa, e no world wingsuit Race levou o 13º lugar,
deixando caras bem experientes para trás.
Wingsuit não é esporte (só) de macho
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Brasil bem na fita
A geografia é um ponto a favor para a Europa ter
o maior número de base jumpers adeptos do wingsuit.
Mas o World Wingsuit Race mostrou que há brasileiros
competindo no mesmo nível de noruegueses, franceses
e alemães. O paulista Hugo Langel (à direita), o carioca
Fernando Motta e o niteroiense Gabriel Lott fizeram
bonito, mostrando técnica e habilidade com a roupa de
morcego. “Decidi ir à competição de última hora, porque
sabia que as despesas com a viagem seriam altas e não
sou patrocinado por nenhuma marca”, disse Gabriel,
que apesar de voar de wingsuit há apenas um ano ficou em
terceiro na colocação geral. “Cheguei na frente de muitos dos
meus ídolos, como Gary Connery e Rob Heron.”
Hugo, quarto colocado na geral, já saltou nos Estados Unidos,
Suíça, Noruega, Espanha, Itália e França, mas esta foi sua
primeira competição oficial. “Ser o terceiro mais veloz do
evento me abriu os olhos. Agora quero treinar para o tour na
Europa.” Em dezembro, Fernando passou 19 dias treinando na
Pedra da Onça e fez 31 saltos. “Também explorei lugares como
as Torres de Bonsucesso, entre Teresópolis e Nova Friburgo,
e a Pedra da Gávea, todas no Rio de Janeiro”, diz. “Dois dias
antes da competição decidi usar uma ‘asa’ nova, porque me
senti confiante com ela.” Às vezes é bom arriscar: Fernando,
que voa de wingsuit com frequência há apenas três meses, foi
campeão na categoria “distância”.
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