WINGSUIT 28 Go Outside Asas do desejo Os melhores pilotos de wingsuit do mundo – vertente do base jump em que o atleta salta usando um macacão que permite a ele planar mais tempo no ar, antes de abrir o paraquedas – se reuniram recentemente na Pedra da Onça, no Espírito Santo, para o World Wingsuit Race, o primeiro campeonato da modalidade realizado no Brasil Por Mario Mele fotos Alexandre Cappi www.gooutside.com.br Go Outside 29 WINGSUIT Jason moledzki ludovic woerth “Eu tenho asas” Rob Heron e dan Vicary pilOtOs de wingsuit sÃO ReCOnHeCÍVeis pelas asas que costumam ter tatuadas no corpo; geralmente em boa parte das costas, às vezes também no pescoço e braços. “sinto-me como um homem que tem a capacidade de voar, não com as próprias asas, claro, mas com um macacão bem legal”, diz o brasileiro gui pádua, que, além de ter sido o organizador do world wingsuit Race, que rolou durante o Carnaval na pedra da Onça, no espírito santo, competiu no evento (terminou em 26º na classificação geral de 32 atletas). para ele, o par de asas que tem gravado da lombar à nuca é uma forma de expressão. Já o canadense Rob Heron possui uma coruja de asas abertas tatuada no pescoço que, segundo ele, tem a ver com seu próprio estilo de vida. “ela é testemunha do equilíbrio entra a vida e a morte, aquele momento em que tentamos, com sabedoria, nos livrar das coisas que nos oprimem”, filosofa. 30 Go Outside Fora do script Os pilotos de wingsuit noruegueses Jokke Sommer, 26, e Alexander Polli, 27, são os melhores do mundo em voos de aproximação, em que os atletas passam rente a rochedos e árvores (como o desta foto, do piloto norueguês Frode Johannessen). Eles não competiram no World Wingsuit Race, que teve categorias em que eram disputadas velocidade, precisão e distância, mas vieram ao Brasil se divertir e prestigiar os amigos que estavam inscritos. Quando se encerrava a última bateria do dia, eles eram levados de helicóptero cerca de 1,5 quilômetro céu acima para, vestidos com seus wingsuits, fazerem saltos de aproximação na Pedra da Onça, prolongando ao máximo a queda livre. Os dois já foram pilotos de motocross e são hoje os representantes mais notáveis da vertente mais radical do wingsuit — tanto que seus vídeos no YouTube costumam passar de 1 milhão de acessos. “Não acho que vou além de meus limites”, diz Alex, que não curte competições. “Penso muito no que farei no céu enquanto ando, escovo os dentes, tomo banho. É uma meditação na qual me imagino no controle de cada situação.” www.gooutside.com.br Go Outside 31 WINGSUIT No fio da navalha É QuAse umA OFensA diZeR a um base jumper que seu esporte é um dos mais arriscados do mundo. mas, infelizmente, a cruel estatística da modalidade se manifestou na pedra da Onça: a base jumper argentina stel moix, que não competia no world wingsuit Race, entrou para a lista fatal. não era a primeira temporada de stel no lugar, mas naquele dia sua saída foi instável, e ela provavelmente bateu a perna em uma rocha saliente e perdeu o controle do corpo, despencando mais de 500 metros. A argentina foi a primeira vítima fatal da pedra da Onça. O campeonato foi suspenso no dia trágico. na manhã seguinte, antes de as baterias recomeçarem, o organizador do wwR, gui pádua, acendeu incensos, enquanto os competidores formaram um grande círculo e, de mãos dadas, rezaram para prestar homenagem à colega. por precaução, no próximo ano será proibido não competidores saltarem da pedra da Onça durante os dias em que o campeonato rolar. em mAiO dO AnO pAssAdO, o britânico gary Connery (nas duas fotos abaixo)gravou seu nome na história do wingsuit de maneira espetacular. em um ato cautelosamente planejado, ele saltou de um helicóptero a 750 metros de altura e, depois de um voo perfeito de wingsuit, aterrissou em 18.600 caixas de papelão empilhadas ao longo de cem metros. Foi o primeiro pouso de wingsuit sem paraquedas bem-sucedido da história. Aos 42 anos, esse britânico que soma mais de 400 saltos de base jump ficou famoso depois desse salto e até participou da cerimônia de abertura da Olimpíada de 2012. gary, porém, não se vê como celebridade. “Vim ao Brasil para participar de minha segunda competição de wingsuit e para estar ao lado de pessoas com objetivos parecidos.” gary ficou em 16º na geral. sua melhor colocação foi um sétimo lugar na prova de distância. 32 Go Outside O importante é competir Na final da modalidade “speed” (velocidade), que definiria o piloto mais rápido do World Wingsuit Race, estavam na briga o húngaro Vic Kovats (foto acima) e o francês Ludovic Woerth (à esquerda). Como aconteceu durante toda a competição, os dois largaram simultaneamente e, lado a lado, mergulharam paralelos à face vertical da Onça para, em seguida, se projetarem à frente, em direção a uma faixa de 150 metros de extensão esticada no chão a 900 metros da base da pedra. Quando sobrevoam a linha, estão a cerca de 150 metros do chão. É quando acionam — ou comandam, na linguagem técnica — o paraquedas para aterrissar em cima, ou o mais próximo que puderem, de um tapete de 15 metros quadrados. Por segurança, a regra obriga os competidores a um voo de no mínimo 20 segundos entre a abertura do paraquedas e o pouso, para evitar rasantes. Na final, Vic, cujo apelido é Fearless (destemido, em inglês) não cumpriu os 20 segundos obrigatórios e foi desclassificado. “Na Suíça, os campeonatos não são assim”, dizia o competidor, visivelmente irritado com a eliminação. O adversário não deixou barato. “Não abrirei mão da regra. Nunca ganhei nessa categoria, quero muito a vitória”, disse Ludovic, que se consagrou campeão na categoria “speed” e oitavo na geral. Os pilotos do World Wingsuit Race também disputaram a categoria “distância”, cujo desafio era voar o mais longe possível (levando em conta os 20 segundos de paraquedas aberto). O vencedor absoluto do campeonato foi o norueguês Espen Fadnes, que teve a melhor média (sexto em distância, sexto em velocidade e terceiro em precisão). “Trabalho como cinegrafista aéreo, e gosto de competir”, disse Espen, que quando criança pulava da sacada para dentro da piscina. Ele levou para casa US$ 1.500 de premiação. www.gooutside.com.br Go Outside 33 WINGSUIT A itAliAnA ROBeRtA mAnCinO (à esquerda) e a norteamericana lori Butz (abaixo) eram as únicas mulheres na competição. O wingsuit não tem muitos representantes do sexo feminino, mas isso não parece ser um problema. “A questão não é ser homem ou mulher, é ter habilidade e coragem para voar”, diz Roberta. “Os homens até podem ser um pouco mais velozes, já que são mais pesados. mas o legal de dividir a rampa de decolagem com outras garotas é que, às vezes, queremos falar sobre outros assuntos que não wingsuit.” Roberta tem feito a lição de casa, e no world wingsuit Race levou o 13º lugar, deixando caras bem experientes para trás. Wingsuit não é esporte (só) de macho 34 Go Outside Brasil bem na fita A geografia é um ponto a favor para a Europa ter o maior número de base jumpers adeptos do wingsuit. Mas o World Wingsuit Race mostrou que há brasileiros competindo no mesmo nível de noruegueses, franceses e alemães. O paulista Hugo Langel (à direita), o carioca Fernando Motta e o niteroiense Gabriel Lott fizeram bonito, mostrando técnica e habilidade com a roupa de morcego. “Decidi ir à competição de última hora, porque sabia que as despesas com a viagem seriam altas e não sou patrocinado por nenhuma marca”, disse Gabriel, que apesar de voar de wingsuit há apenas um ano ficou em terceiro na colocação geral. “Cheguei na frente de muitos dos meus ídolos, como Gary Connery e Rob Heron.” Hugo, quarto colocado na geral, já saltou nos Estados Unidos, Suíça, Noruega, Espanha, Itália e França, mas esta foi sua primeira competição oficial. “Ser o terceiro mais veloz do evento me abriu os olhos. Agora quero treinar para o tour na Europa.” Em dezembro, Fernando passou 19 dias treinando na Pedra da Onça e fez 31 saltos. “Também explorei lugares como as Torres de Bonsucesso, entre Teresópolis e Nova Friburgo, e a Pedra da Gávea, todas no Rio de Janeiro”, diz. “Dois dias antes da competição decidi usar uma ‘asa’ nova, porque me senti confiante com ela.” Às vezes é bom arriscar: Fernando, que voa de wingsuit com frequência há apenas três meses, foi campeão na categoria “distância”. www.gooutside.com.br Go Outside 35