Estudo Experimental da Ventilação e do Comportamento Térmico de uma Cobertura em Telha Cerâmica com Beiral Ventilado e Sub-telha Luís Pedro Rodrigues Almeidaa, João António Esteves Ramosa, Pedro Lourençob Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria a Umbelino Monteiro S.A. b Resumo— Os métodos tradicionais utilizados na construção, envolvendo soluções não sustentáveis e novos regulamentos na área do desempenho térmico e ambiental dos edifícios têm proporcionado o desenvolvimento de novos projectos com incorporação de tecnologias passivas. Neste artigo é apresentada uma estratégia de construção de cobertura ventilada desenvolvida pela empresa Umbelino Monteiro, S.A. O estudo foi concebido para analisar o desempenho térmico da cobertura através da avaliação das transferências de calor nas diferentes camadas do telhado. Para tal, foi projectada e construída uma célula de teste, testada sob as condições exteriores com a monitorização das condições climatéricas, onde se realizaram diversos ensaios de modo a comparar o fluxo de calor nas diferentes camadas da cobertura. Observando os resultados, verifica-se que a utilização de telhado revestido em telha cerâmica apresenta capacidade de armazenar uma quantidade significativa do fluxo de calor que o atravessa. Verifica-se uma redução significativa das transferências de calor entre a telha cerâmica e a placa sub-telha realçando a importância de uma caixa-de-ar ventilada numa cobertura. Palavras-chave— Fluxo transiente de calor, telhado com beiral ventilado, ventilação natural da cavidade, telha cerâmica, tecnologias passivas de construção. I. INTRODUÇÃO Nos últimos anos, com o crescente custo relacionado com o consumo de energia e a maior sensibilidade da população para as questões relacionadas com a eficiência energética e ambiental, a conservação de energia em edifícios tem incentivado o desenvolvimento de diversas soluções que proporcionam o consumo de energia de forma sustentável. Para promover a eficiência energética dos edifícios foi introduzida em 2002 a Diretiva 2002/91/CE relativa ao desempenho energético de edifícios tendo sido reformulada em 19 de maio de 2010, com a Diretiva 2010/31/UE. No caso Português a transposição da Diretiva levou a adotar o Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE), (Decreto-Lei n.º 80/2006), essencialmente para os edifícios de habitação. A partir de 1 de Dezembro de 2013 com a entrada em vigor do Decreto-Lei nº 118/2013 foram revogados os seguintes diplomas: DecretoLei n.º 78/2006, Decreto-Lei n.º 79/2006 (RSECE) e o Decreto-Lei n.º 80/2006 (RCCTE). O Decreto-Lei nº 118/2013 prevê o reforço prioritário de estratégias passivas que contribuam para melhorar o desempenho térmico dos edifícios durante o Verão. Sabe-se que a cobertura constitui um dos principais elementos da envolvente opaca dos edifícios onde a escolha dos materiais e a implementação de tecnologias passivas adequadas determinam a performance térmica de um edifício. Na incorporação de tecnologias passivas na concepção de uma cobertura deve-se considerar as condições exteriores não como agentes externos indesejáveis, mas sim como recursos úteis na contenção dos requisitos de energia no aquecimento ou arrefecimento de um edifício. O clima de Portugal é caracterizado por elevadas amplitudes térmicas entre dias amenos e noites com forte arrefecimento. As amplitudes térmicas interferem no conforto térmico dos edifícios e dificultam o planeamento de soluções que garantam a eficácia durante todo o ano. É ainda caracterizado por valores significativamente altos de radiação solar, principalmente no Verão, originado elevadas temperaturas nas superfícies do telhado. O sobreaquecimento do revestimento da cobertura durante a incidência solar pode causar condições térmicas indesejadas nos edifícios. As coberturas em Portugal são tipicamente inclinadas e revestidas com telhas cerâmicas fazendo parte do património edificado Português. No entanto, este tipo de solução por vezes apresenta diversas anomalias, tais como, colonização biológica, defeitos no isolamento térmico, cor e desníveis inadequados [1]. Outro problema está associado a defeitos no sistema de ventilação, dando-se-lhe pouca importância e muitas vezes desconhecendo-se as suas vantagens. Uma das soluções passivas consiste na construção de coberturas ventiladas que diminuam a transferência de calor através do telhado, diminuindo os gastos a nível energético, e consequentemente o aumento do conforto térmico do edifício. As coberturas ventiladas podem ser definidas como um sistema de proteção cuja principal característica é a existência de uma caixa-de-ar, resultante do afastamento entre o revestimento e a placa inferior. A caixa-de-ar promove movimentos ascendentes de ar proveniente tanto do gradiente de densidade induzida pela diferença de temperatura no ar na caixa-de-ar, ou então pela pressão do vento. Este fluxo de ar ajuda a eliminar uma parte significativa do calor transmitido a partir do telhado, nos dias de verão com maior intensidade de radiação solar. Nos últimos anos são vários os estudos experimentais realizados com o objetivo de quantificar o comportamento térmico de coberturas. Nos ensaios experimentais em regime dinâmico, os investigadores desenvolveram diversas células de teste constituídas por um pequeno compartimento, na maior parte dos casos construído em alvenaria e integrando uma cobertura [2-11], tal como realizado no presente estudo. Estes estudos são de extrema importância para se quantificar as características dos elementos construtivos dos edifícios no desenvolvimento de novos projetos de construção sustentável. II. TIPOLOGIA DAS COBERTURAS INCLINADAS Na generalidade, uma cobertura inclinada em telha cerâmica integra principalmente a telha cerâmica como revestimento, uma estrutura secundária que sustenta o revestimento (ripas e contra ripado), materiais isolantes e uma estrutura resistente que suporta a totalidade da cobertura. Uma tipologia de cobertura que permite garantir as condições de conforto térmico do desvão da cobertura é caracterizada pela colocação do isolamento sob a telha cerâmica com o beiral ventilado (Fig. 1.a). Recentemente, uma nova estratégia construtiva aplicada principalmente na reabilitação de coberturas inclinadas, consiste numa tipologia que utiliza placas sub-telha que permitem reforçar a estanquidade da cobertura com elevada capacidade de isolamento e ainda apresenta a capacidade de favorecer a ventilação da estrutura devido à sua configuração ondulada (Fig. 1.b). Membrana Impermeável Ripa Isolamento térmico Ripa metálica longo do período de medição, nas estações da primavera e verão. A construção do protótipo foi realizada no Campus 2 da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Leiria, nas seguintes coordenadas geográficas de +39° 44´, -8° 49´. A célula de teste foi construída e orientada ao quadrante sul, de forma a optimizar os ganhos solares. A. Célula de Teste: Desenho e Construção A célula de teste representa um protótipo modelo em escala reduzida de uma habitação típica com sótão e cobertura ventilada. Apresenta uma estrutura em parede simples de alvenaria com sótão separado pela colocação de isolamento XPS de 4 cm no desvão da cobertura, permitindo o enquadramento de uma solução preconizada com objetivo do estudo das flutuações térmicas do desvão da cobertura. A cobertura é composta por duas placas sub-telha Nartutherm aplicadas diretamente sobre as paredes de alvenaria. O protótipo foi construído com uma área de aproximadamente de 4,67 m2 e com cobertura de 2,5 metros de comprimento e 30% de inclinação (Fig. 2). Placa Sub-Telha Naturtherm Fig. 1. Soluções estruturais construtivas de coberturas com beiral ventilado. a) Isolamento sob a telha; b) Isolamento integrado em placa sub-telha. Uma cobertura ventilada consiste numa estrutura que funciona com uma caixa-de-ar ventilada desde o beirado até à cumeeira, integrando diversas estratégias de ventilação na fixação e no suporte do revestimento. Destaca-se a fixação mecânica do beiral através de grampos metálicos apropriados, sem qualquer tipo de argamassa que possa obstruir a entrada e a saída do ar e dificultar a sua ventilação. A estrutura de suporte do revestimento exterior é constituída por ripas perfuradas permitindo assegurar a circulação de ar na totalidade da área sob a face interior da telha. O escoamento do ar no interior da caixa-de-ar é originado por convecção natural, que é aquecido pela ação do calor ganho pela radiação solar na telha. Para potenciar a circulação do ar são ainda aplicadas telhas ventiladoras no telhado. Na execução da cumeeira é aplicada uma membrana impermeável e ventiladora, com telhão assente sobre remate, suportado e fixo mecanicamente [12-13]. Fig. 2. Representação esquemática da célula de teste. III. CASO DE ESTUDO Neste artigo pretende-se desenvolver uma metodologia de forma a caracterizar o regime dinâmico da transmissão de calor de uma cobertura inclinada com beiral ventilado e subtelha instalado pela empresa Umbelino Monteiro S.A. Para tal, recorreu-se à construção de uma célula de teste que permitiu analisar o comportamento dinâmico, revelado pelo perfil de temperatura e de humidade ao longo do tempo, quando sujeita a ciclos diários de ganhos solares e de arrefecimento nocturno. A metodologia aplicada para a avaliação das trocas de calor deste tipo de solução consistiu na elaboração de equações de balanços de energia para as diferentes camadas construtivas e no tratamento estatístico de todos os resultados obtidos ao A célula de teste foi construída em parede simples de alvenaria de tijolo térmico e sobre a mesma aplicado um revestimento de argamassa (reboco) para auxiliar a parede de alvenaria a cumprir as suas funções, em particular estanquicidade à água. As placas sub-telha Naturtherm foram fixas mecanicamente no topo da parede de alvenaria (Fig.3). A placa sub-telha Naturtherm apresenta excelentes propriedades de isolamento térmico devido à espuma de poliuretano rígido que contém agregado à placa de cimento reforçado. O acabamento da superfície inferior é composto por uma folha de alumínio, o que proporciona uma barreira anti-vapor. A estrutura de suporte do revestimento exterior é constituída por ripas metálicas perfuradas que permite assegurar a circulação de ar na totalidade da cobertura sob a face interior da telha. integrados é alimentado por energia solar que envia os dados para a consola Vantage Pro2™. Fig. 3. Aplicação da placa sub-telha Naturtherm. Destaca-se a fixação mecânica do beiral através de grampos metálicos apropriados, sem qualquer tipo de argamassa que possa obstruir a entrada e a saída do ar e impedir a sua ventilação (Fig. 4). Fig. 6. Estação meteorológica (Wireless Vantage Pro2™ Plus). Fig. 4. Pormenores de fixação das telhas cerâmicas. a) execução do beiral ventilado com grampo apropriado; b) fixação da telha com grampo especial. Na execução da cumeeira foi aplicada uma membrana impermeável e ventiladora, com telhão assente sobre remate, suportado e fixo mecanicamente como ilustrado na Fig. 5. Para potenciar a circulação do ar foi aplicada uma telha ventiladora no telhado. Os remates laterais e as meia-telha foram fixos mecanicamente e com mástique. Na medição da temperatura e humidade relativa do ar na caixa-de-ar da cobertura utilizaram-se registadores LogTag, com uma precisão de 0.1%HR e 0.1°C/°F. O LogTag é um registador, robusto, de pequena dimensão e auto-suficiente, sensível à temperatura e a humidade do ar com elevada capacidade de memória. Os LogTag foram configurados para obter registo contínuo de dados em intervalos de amostragem de 5 minutos. Os LogTag foram instalados em vários locais da caixa-de-ar da cobertura e no interior do desvão não ventilado. Fig. 7. Sensores de temperatura e humidade relativa do ar (LogTag® HAXO-8). Fig. 5. Execução da cumeeira. a) execução da estrutura de suporte. b) aplicação da membrana impermeável e fixação mecânica do telhão. B. Instrumentação utilizada e sistema de aquisição de dados Para estudar o comportamento térmico dinâmico da célula de teste, nomeadamente o comportamento da cobertura foi utilizado um conjunto de instrumentação que permite a recolha de dados importantes no desenvolvimento desta investigação. A principal vantagem da avaliação do comportamento térmico das envolventes opacas de edifícios em regime dinâmico consiste no estudo de um edifício em função de uma determinada região climática. Nesta investigação foi utilizada a estação meteorológica Wireless Vantage Pro2™ Plus composta por um conjunto de sensores integrados, instalada junto da célula de teste Fig. 6. Inclui sensores de temperatura e humidade do ar, pluviómetro, anemómetro e sensores de radiação solar. As medições foram registadas a cada 5 minutos e enviadas para a consola Vantage Pro2™. O sistema de transmissão de dados wireless do conjunto de sensores Durante os ensaios experimentais, utilizaram-se dois instrumentos de medição multifuncional (Texto, 435) para se registar a temperatura superficial dos materiais e a velocidade do fluxo de ar na caixa-de-ar. Nesta investigação foram utilizados sensores de temperatura (termopares) que determinam a temperatura média superficial da face superior do revestimento cerâmico e da temperatura das faces superficiais correspondente à caixa-de-ar. O termopar possui um sistema de triplo sensor, podendo ser utilizado de -20 a +70 °C, com exactidão de ±0.1. A sonda de medição de molinete utilizada no registo da velocidade fluxo do ar na caixa-de-ar tem um diâmetro de 60 mm, podendo ser utilizado a uma temperatura de 0 a +60 °C, com exactidão de ±(0.1 m/s +1.5% do v.m.). Fig. 8. Sonda de superfície. Fig. 9. Sonda de medição molinete. C. Metodologia experimental A caixa-de-ar de uma fiada de telhas da cobertura foi instrumentada com placas LogTag, com espessamentos similares entre si de 0,6 metros de comprimento, como esquematizado na Fig.11. Com base na combinação dos mecanismos de transferência de calor, a formulação do modelo de cálculo permitiu a quantificação das transferências de calor associadas ao revestimento cerâmico, a caixa-de-ar ventilada, e ainda, o cálculo do balanço energético para a placa sub-telha, permitindo assim determinar a energia transmitida em regime transiente para cada camada construtiva. Os sensores colocados na cobertura estão espaçados similarmente entre sim com o objetivo de se desenvolverem balanços de energia e criar um modelo matemático das transferências de calor resultantes para este tipo de cobertura. Nas figuras seguintes apresentam-se fotografias da instalação dos registadores LogTag e da instalação dos termopares com o objetivo de se obter o registo da temperatura superficial dos materiais e do ar da caixa-de-ar da cobertura ao longo do tempo. Fig. 12. Instalação do anemómetro de velocidade na caixa-de-ar. A experiência foi conduzida entre Maio e Julho, nas estações da primavera e verão. D. Mecanismos de transferência de calor na cobertura ventilada O mecanismo de transferência de calor do sistema de telhado ventilado apresenta-se ilustrado na Fig. 13. O desempenho térmico do telhado foi analisado em função de dois volumes de controlo como esquematizados na Figura. Fig. 10. Instalação dos registadores LogTag e dos termopares. Na Fig. 12 são apresentadas fotográficas da instalação do anemómetro de velocidade com o objetivo de se obter o registo da velocidade de fluxo de ar que se desenvolve naturalmente na caixa-de-ar da cobertura ao longo do tempo. Fig. 13. Mecanismos de transferência de calor na cobertura ventilada. Fig. 11. Sensores de temperatura e humidade relativa do ar (LogTag® HAXO-8). Para uma determinada intensidade de radiação solar incidente sobre o revestimento, parte do fluxo de calor é absorvido pela superfície e a restante parte refletida para o exterior, tal que: (1) O fluxo de calor emitido pelo revestimento para o meio envolvente depende da sua temperatura superficial, ,eo fluxo de calor perdido por convecção para o ar exterior à temperatura depende do coeficiente de convecção, . O fluxo de calor transmitido para o revestimento cerâmico pode ser obtido por um balanço de energia definido por um volume de controlo na superfície exterior do revestimento, resumindo-se à seguinte equação: ̇ ( ) (6) O calor transmitido para o desvão da cobertura é determinado através da equação de transferência de calor desde o ar na caixa-de-ar até ao ar no desvão da cobertura: (( ) ) (7) O valor do coeficiente de transmissão térmica ( ) para a placa sub-telha é fornecido pelo fabricante pelo que a transferência de calor é calculada pelo produto entre o coeficiente de transmissão térmica e a variação entre a temperatura média do ar da caixa-de-ar e a temperatura do ar no desvão, . (2) O termo representa o fluxo de calor que é absorvido por condução para o interior do revestimento cerâmico, por unidade de área. O termo representa a capacidade do revestimento em diminuir o impacto da radiação solar e de reduzir o fluxo de calor transmitido estando diretamente relacionado com o fluxo de calor radiativo, emitido para o exterior pela superfície, e com o fluxo de calor convectivo, trocado com o ar exterior. Assim, o termo é calculado pela seguinte equação: ( ) IV. ANÁLISE E APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS A. Análise das transferências de calor através das telhas cerâmicas Apresentam-se os resultados da transferência de calor ocorrida para o revestimento cerâmico durante o dia 15 de Junho calculado de acordo com o balanço energético apresentado na equação (5). Os dados meteorológicos para o dia 15 de Junho são apresentados na Tabela 1. (3) Verifica-se que o balanço de energia para a superfície do revestimento cerâmico representado pelo volume de controlo, VC(1) é caracterizado pelo total de fluxo de calor recebido, , e o total do fluxo de calor perdido. Sintetizando, o balanço de transferência de calor para a superfície do revestimento cerâmico pode ser representado como ilustrado na seguinte equação: (4) A transferência de calor através do revestimento cerâmico está diretamente relacionada com a diferença de temperatura, a espessura, a resistência térmica e a capacidade calorífica do material cerâmico. A conservação de energia para o revestimento cerâmico pode ser representada pelo seguinte balanço de energia. (5) O calor acumulado, , resulta da diferença entre a quantidade de fluxo de calor que entra, e da quantidade de fluxo de calor que sai da telha cerâmica, . A transferência de calor para o ar que flui através da caixa-de-ar está diretamente relacionada com a transmissão de calor da superfície quente do revestimento cerâmico por convecção para o ar da caixa-de-ar. O ar por sua vez, transfere o calor para a superfície da sub-telha provocando uma variação da sua temperatura superficial. Acontece ainda fluxos de calor entre a superfície interior do revestimento e a superfície da sub-telha em contato com o ar da caixa-de-ar. Verifica-se que balanço de energia para a caixa-de-ar representado pelo volume de controlo, VC(2). A potência calorífica que é transportado pelo ar da caixa-de-ar é determinada em função do caudal volúmico do escoamento ( ̇ ), massa específica e capacidade calorífica do ar através da seguinte equação: Tabela 1- Dados meteorológicos no dia 15 de Junho. Temperaturas °C Média 18,51 Máxima 23,40 Mínima 14,80 Tempo Durante a incidência solar verifica-se que apresenta capacidade de armazenar uma quantidade significativa do fluxo de calor que o atravessa. Verifica-se que o fluxo de calor máximo armazenado dá-se por volta das 11h, sendo que a partir deste registo a sua capacidade de armazenamento térmico apresenta uma redução significativa até ao ponto que começa a verificar-se a dissipação de algum do fluxo de calor armazenado. O fluxo de calor que entra no revestimento cerâmico, , apresenta valor máximo quando a intensidade da radiação solar, , é mais elevada. A quantidade de fluxo de calor que passa para o ar da caixa-de-ar, , resulta da subtracção entre a quantidade de fluxo de calor captada pelo revestimento , pelo fluxo de calor acumulado, . Fig. 14. Comparação entre o fluxo de calor que entra no revestimento e o acumulado. No que se refere as propriedades opticas do revestimento, verifica-se que uma parte da energia solar é refletida para o meio envolvente, . Fig. 15. Comparação entre o fluxo de calor que entra para a telha cerâmica e o devolvido para a envolvente exterior. B. Análise dos perfis de temperatura ao longo da caixa-de-ar e do desvão da cobertura Seguidamente apresentam-se os resultados mais significativos e elucidativos que evidenciam o comportamento térmico da cobertura ventilada revelado pelos perfis de temperatura ao longo da caixa-de-ar e no desvão correspondente ao dia 20 de Junho, em função das condições meteorológicas. Os dados meteorológicos são apresentados na Tabela 1. Tabela 2- Dados meteorológicos no dia 20 de Junho. Temperaturas °C Média 13,38 Máxima 20,00 Mínima 5,70 Tempo Dos resultados obtidos constata-se que os dias apresentam elevadas amplitudes térmicas exteriores destacando-se uma amplitude térmica com uma diferença de 14,3ºC. No entanto, a temperatura do desvão não acompanhou o forte arrefecimento nocturno apresentando um comportamento térmico favorável e expressivo. ºC W/m2 35 1200 30 1000 25 800 20 600 15 400 10 5 200 0 0 00 02 04 07 09 12 14 16 19 21 Hora Legenda: T(1): Temperatura na caixa-de-ar [ºC] T(2): Temperatura na caixa-de-ar [ºC] T(3): Temperatura na caixa-de-ar [ºC] T(Exterior): Temperatura no exterior [ºC] T(Desvão): Temperatura do desvão [ºC] R(Solar): Radiação Solar [W/m2] (1) (2) Fig. 16. Desempenho térmico da cobertura para o dia 20 de Junho. (3) A cobertura apresenta uma favorável contenção das oscilações de temperatura derivadas do arrefecimento nocturno. Os ganhos térmicos diários e a dissipação lenta do calor durante o forte arrefecimento nocturno contribuiu para a contenção do calor interior no desvão, mantendo-o a uma temperatura relativamente superior à temperatura exterior. Isso significa que a cobertura apresenta capacidade de contenção das oscilações de temperatura derivadas do arrefecimento nocturno face á inércia térmica associada à massa da placa sub-telha Naturtherm. Esta nova estratégia de construção de coberturas ventiladas e isoladas reduz as perdas térmicas devido à resistência térmica proporcionada pelo isolamento e a massa dos elementos da cobertura que permite manter um edifício quente durante o período nocturno. C. Estudo da ventilação natural da caixa-de-ar e análise da transferência de calor através da caixa-de-ar e da placa subtelha Na Tabela 3 apresenta-se o resumo das temperaturas máximas do ambiente exterior, da superfície interior da telha cerâmica e do ar da caixa-de-ar para o dia 30 de Junho. Observa-se que para o dia analisado a temperatura máxima do ambiente envolvente da célula de teste apresenta temperaturas máximas de 37,9°C. Tabela 3- Resumo das temperaturas máximas do exterior, da superfície interior da telha cerâmica e do ar da caixa-de-ar para o dia 30 de Junho. Variáveis Condições Superfície Interior Caixa-de-ar Meteorológicas da Telha Tmáx. (°C) 37,9 62,1 49,95 Registo (Hora) 14h25min 14h25min 14h35min Verifica-se que a velocidade da caixa-de-ar foi mais elevada quando a radiação solar foi mais intensa. (m/s) 0,8 Medição - 30/05/2013 (w/m2) 1200 0,6 900 0,4 600 0,2 300 0 00 04 09 14 V(Caixa-de-ar) 0 19 Tempo(h) Radiação solar Fig. 17. Análise do perfil de velocidade do ar na caixa-de-ar. Fez-se ainda a análise do fluxo de calor dissipado por ventilação natural através da caixa-de-ar e do fluxo de calor transferido através da placa sub-telha Naturtherm, como apresentado nas Fig. 18 e 19. Analisando a Fig. 18, observa-se uma redução da temperatura da superfície interior da telha cerâmica, ou seja quando o fluxo de calor transportado através da caixa-de-ar aumenta. Na Fig. 19, verifica-se que a transferência de calor através da placa sub-telha aumenta com o aumento da temperatura superficial interior da telha cerâmica, . No entanto, observa-se uma redução do fluxo de calor transmitido para o desvão através da placa sub-telha quando o fluxo de calor transportado por ventilação natural através do escoamento do ar na caixa-de-ar aumenta. conjunta do revestimento cerâmico e da caixa-de-ar ventilada na crescente atenuação do fluxo de calor para o interior à medida que a intensidade da radiação solar aumenta. Durante o arrefecimento nocturno verifica-se uma inversão das temperaturas das superfícies com uma variação de temperatura entre as superfícies de aproximadamente 3,5ºC, variação esta praticamente constante nesse período de tempo. Assim, durante o arrefecimento nocturno a caixa-de-ar ventilada pode ser favorável durante os dias mais quentes, refrescando a cobertura. V. CONCLUSÃO Fig. 18. Comparação do fluxo de calor dissipado por ventilação natural, em função da temperatura superficial interior da telha cerâmica, . , Fig. 19. Comparação da transferência de calor dissipada por ventilação natural, e da transferência de calor para o desvão , em função da temperatura superficial interior da telha cerâmica, . D. Comparação das temperaturas superficiais da caixa-de-ar Através da análise da Fig. 20, verifica-se uma expressiva diferença entre as temperaturas superficiais da caixa-de-ar. Observam-se duas situações relevantes que influenciam o comportamento térmico de uma cobertura com caixa-de-ar com beiral ventilado e sub-telha, apresentando-se a seguinte análise. Durante as horas de incidência solar, verifica-se uma progressiva variação da diferença entre as temperaturas superficiais da caixa-de-ar, isto é, da superfície interior do revestimento cerâmico e da superfície exterior da placa subtelha Naturtherm, atingindo um máximo que coincide com o máximo do ciclo diário de radiação solar incidente sobre o revestimento cerâmico. A variação de temperatura entre as duas superfícies é aproximadamente de 12ºC (Fig. 20). A diferença de temperatura prova a importância da acção A estratégia de construção de coberturas ventiladas investigada neste artigo pretende aprofundar o conhecimento do comportamento térmico de uma cobertura com beiral ventilado e sub-telha. Este estudo permite quantificar o seu desempenho térmico através da avaliação das transferências de calor nas diversas camadas construtivas e da ventilação natural na caixa-de-ar. Com o planeamento de uma célula de teste, construída e testada sob condições exteriores foi determinante para o registo de temperaturas do ar no desvão não ventilado e nas diversas superfícies e materiais da cobertura, de modo a se poder avaliar as trocas de calor respectivas. Durante a análise do comportamento térmico concluiu-se que nos dias de fraca intensidade solar, a cobertura apresenta capacidade de absorver parte da radiação solar contribuindo para a contenção das oscilações de temperatura derivadas do forte arrefecimento nocturno, face à sua inércia térmica associada a massa da sub-telha. Concluiu-se ainda que os ganhos térmicos diários e a dissipação lenta de calor durante forte arrefecimento nocturno contribuem para a contenção do calor interior do desvão mantendo-o a uma temperatura superior à temperatura exterior. Durante os dias mais quentes obtiveram-se óptimas inércias térmicas com expressivos amortecimentos térmicos da ordem dos 20ºC e atrasos térmicos superiores a 3 horas. Da análise e interpretação dos resultados das transferências de calor através do revestimento cerâmico, permitiu concluir que a telha cerâmica apresenta capacidade de armazenar uma quantidade significativa do fluxo de calor que o atravessa. A quantidade de energia armazenada ocorre nas primeiras horas da incidência solar, quando a temperatura do revestimento cerâmico se encontra próximo da temperatura ambiente. A telha cerâmica apresenta ainda boas propriedades opticas, concluindo-se que parte da energia solar é devolvida para o meio envolvente. Fig. 20. Comparação da variação das temperaturas superficiais da caixa-de-ar em função da radiação solar incidente. Concluiu-se ainda que as transferências de calor por condução entre a caixa-de-ar e o desvão da cobertura aumentam com o aumento da temperatura da telha cerâmica. No entanto, observa-se uma redução da transferência de calor por condução quando a transferência de calor por ventilação natural aumenta. Isto significa que o calor acumulado se dissipou através da caixa-de-ar para o exterior. Conclui-se que a ventilação natural é fulcral na redução dos extremos de temperatura do ar e das superfícies da caixa-dear originando a redução das transferências de calor por condução para o desvão da cobertura. AGRADECIMENTOS Os autores desde artigo agradecem à empresa Umbelino Monteiro, S.A. pelo interesse manifestado no desenvolvimento do trabalho e pela pronta disponibilidade na construção da cobertura da célula de teste e à empresa Prélis, S.A., a disponibilidade do tijolo térmico e da mão de obra para a construção de estrutura de alvenaria da envolvente exterior vertical. Por último, à Escola Superior e Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico de Leiria pela disponibilização do espaço fornecido para a construção da célula de teste. 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