CENTRO DE ESTUDOS DE HISTÓRIA E CARTOGRAFIA ANTIGA SÉRIE SEPARATAS 1 6 6 A C o m i s s ã o e a C a r t o g r a f i a de C a r t o g r a f i a P o r t u g u e s a Antiga Por LUÍS DE ALBUQUERQUE Director do Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga do Instituto de Investigação Científica e Tropical INSTITUTO DE INVESTIGAÇÃO CIENTIFICA TROPICAL LISBOA —1985 Separata da Revista do Instituto Geográfico e Cadastral—n.° 3 A COMISSÃO DE CARTOGRAFIA E A CARTOGRAFIA PORTUGUESA ANTIGA * Luís de Albuquerque Director do Centro de Estudos de História e Cartografia Antiga do Instituto de Investigação Científica Tropical ABSTRACT The first centenary of the «Instituto de Investigação Científica Tropical», formerly «Comissão de Cartografia» was celebrated in 1983. The text, here published, was read in the session commemorating the date and it pretends to realize a brief history of the first times of the Portuguese Cartography (XV-XVII centuries). In this sense, we try to determine, as well as possible, the probably date of the draught of the first Portuguese maps; to define their characteristics and the transformations they suffered; to show how the cartographic works were multiplied in Portugal, during the XVI century, in a handicraft way which sometimes was kept within the tradition of a family; and finally, how in the XVII century The Portugueses Cartography of the great maritime and terrestriál áreas stagnated to give place to a local topographic or hidrographic cartography. On the other hand, we try to show, in the text, how the Portuguese Cartography had great influence in the revision of the Ptolemy ideas, mainly in which the orient was concerned, moreover, how the insertion of latitude scales in traditional maps, which is to be found from the beginning of the XVI century, lead to the crisis of the Cartography of the epoch, only resolved by the introduction of new cartographic representation technics. So, this explanation has the intention of showing that the primitive Portuguese Cartography, without introducting revolutionary technics, was very useful to the navy of every country navigating * Conferência proferida na Sessão Solene Comemorativa do 1.° Centenário do Instituto de Investigação Científica Tropical. Lisboa, Novembro de 1983. through the open sea, till the middle of the XVII century; it gave precious Information to geographers and erudits, it raised serious problems which led to a future evolution of the cartographic works. Shortly: The Cartography of those times has a significative part in the whole gift the Portuguese discoveries legated to the Humankind. Sondado para falar nesta sessão comemorativa do centenário do aparecimento de uma instituição que, pela força evolutiva dos organismos com vitalidade, veio dar lugar ao grande Centro de trabalho científico que é hoje o Instituto de Investigação Científica Tropical, de imediato acedi à solicitação, mas estou certo de que o fiz com um entusiasmo imprudente. De facto, se bem julgo, o que de mim se exigia nestas circunstâncias, seria que traçasse o bosquejo deste século de actividades, século em que, passo a passo, um cada vez maior número de domínios científicos foi alargando os horizontes, as perspectivas e também as responsabilidades da inicialmente chamada Comissão de Cartografia, precursora do Instituto. Ora essa tarefa já foi levada a termo, e com excepcional brilho, pelo meu colega Doutor Alexandre Lobato, que possue um conhecimento profundo do tema e deu ao seu trabalho um correcto desenvolvimento. , Ficando-me, por conseguinte, vedada tal via para as reflexões que desejaria submeter à apreciação de Vossas Excelências, poderia ainda, e penso que com alguma oportunidade, analisar, de um modo sucinto, a década imediatamente anterior a 1883; foi esse o período em que vários países europeus, desejosos de não perder a maré de expansão colonial no continente africano, aí se lançaram à conquista de largas parcelas de terreno, retalhando o continente em zonas de domínio, de acordo com as suas capacidades de mobilização ou com os seus caprichos. Portugal que, depois da independência do Brasil, concentrara as suas atenções nas vastas e prometedoras terras de África a que tinha acesso, não dispunha de possibilidades para se antecipar a intromissões que, em alguns casos, lesavam claramente direitos apenas baseados em frágeis e discutíveis razões históricas. Procurando defender o que ainda era possível salvar, o governo do rei D. Luís oficializou a constituição de expedições a África, e procurou criar os meios para que elas se realizassem, muito embora tivesse deparado com a dificuldade que representava o desentendimento entre alguns sobre quem recaía a responsabilidade do projecto. A história dos preparativos para a exploração portuguesa de grandes áreas da África Austral, em que estiveram envolvidos Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto, é sem dúvida aliciante, mas ainda há bem pouco tempo o Engenheiro Gabriel Mendes, 4 utilizando valiosa documentação inédita, traçou o minucioso quadro desses árduos trabalhos, por vezes entremeados de ressentimentos pessoais e de divergências políticas. O estudo do Engenheiro Gabriel Mendes é extremamente preciso, muito completo nas informações que presta, e conclusivo; decerto cometeria um erro imperdoável se ousasse percorrer aqui idêntico caminho. É de notar porém, que estas expedições de reconhecimento de grandes espaços inexplorados do Continente, sobre as quais o governo português reclamava prioridades quanto a direitos de soberania, não se limitaram a definir com rigor as características orográficas do terreno, a recolher informações etnológicas, a registar observações magnéticas e de coordenadas geográficas, e a anotar muitos outros dados de carácter científico que os exploradores estavam em condições de coligir. Retomando a experiência que no século XVIII permitira a Portugal defender, com algum êxito, os limites territoriais do Brasil, cedo se reconheceu que era urgente proceder à cobertura cartográfica de todos os territórios que, segundo a política de Lisboa, constituiam zonas de expansão natural do nosso país, de acordo com documentos de arquivo e de chancelarias, explorados pelo 1º Visconde de Santarém meio século antes, durante o seu exílio de miguelista em Paris. Assim surgiu, como é bem sabido, a Comissão de Cartografia que tão relevantes trabalhos levou a termo no quadro da missão para que foi criada. Parece-me ser agora oportuno referir esta significativa particularidade: a decisão, finalmente tomada em 1883, no sentido de através de provas cartográficas cientificamente preparadas, ficar testemunhada a amplitude dos direitos coloniais portugueses em África, aproxima-se, quanto a interesses e a resultados, das medidas que nos séculos XV e XVI se tomaram, através igualmente de meios cartográficos, para documentar a extensão das navegações desse tempo. Esta confluência de procedimentos não é de modo algum fortuita. Para se cartografar com correcção um espaço marítimo, uma ilha ou uma linha de costa, era necessário, já no século XV, visitar esses lugares, estimar distâncias e proceder, pelo menos, a observações magnéticas; no século XIX, para se desenhar uma qualquer faixa do interior africano, exigia-se que o cartógrafo dispusesse de vários dados fornecidos por alguém que lá se deslocasse e fizesse diversas observações bem mais complexas do que as pedidas aos seus antepassados de Quatrocentos ou de Quinhentos. A Cartografia caucionava um direito de prioridade, no primeiro caso; e um direito de posse, no segundo. Tal convergência de actividades e de objectivos, ressalvadas as diferenças entre os procedimentos técnicos que a eles presidiam, conduz-nos tendencialmente aos temas tratados pelo Centro de Estu5 dos, que no Instituto tenho a honra de dirigir. Com efeito, embora hoje as preocupações do Centro já se tenham alargado e diversificado, compete-lhe sobretudo e fundamentalmente o estudo da Cartografia Antiga, e muito em especial a portuguesa ou a que com esta de perto se relaciona. Sendo assim, vou dedicar algumas considerações aos primórdios da Cartografia Portuguesa, acreditando deste modo remeter-me aos limites que me estão naturalmente marcados, pelos objectivos desta sessão comemorativa. Embora Armando Cortesão, no volume segundo da sua História da Cartografia Portuguesa, se declare convencido de que já no decurso do século XIV se desenhavam cartas náuticas em Portugal, todas as referências que se podem reunir sobre o assunto apontam que o início da Cartografia portuguesa se verificou por meados do século imediato. Aquela opinião do sábio historiador é liminarmente de rejeitar, porque, a ser como pretendeu, mal se compreenderia que entre 1420 e 1430 o Infante D. Henrique tivesse mandado contactar o cartógrafo Jácome de Maiorca, filho do célebre Abraão Cresques, autor de um famoso planisfério, hoje guardado na Biblioteca Nacional de Paris; e depois tivesse promovido a vinda para Portugal daquele já idoso cartógrafo, e, ao que parece, com boas recompensas monetárias. E não há qualquer razão para pôr em dúvida que Jácome exerceu o ofício de «mestre de fazer cartas de marear» em Portugal, e aqui devia ter sido pioneiro da Cartografia ligada às navegações, pois Duarte Pacheco Pereira declara peremptoriamente que ele transmitiu os seus conhecimentos «àqueles de que os que em nosso tempo vivem aprenderam» a desenhá-las. Admitiu também Armando Cortesão que a carta apresentada pelos delegados portugueses no concílio de Basileia, em 1435, para defesa dos supostos direitos do rei de Portugal à posse das Canárias, fosse uma carta portuguesa e porventura já resultante dos ensinamentos do judeu maiorquino. É de presumir que fosse antes catalã (a cartografia com esta origem representava bastante bem o arquipélago), pois um estudo recente e muito cuidado de Charles Verlinden mostra, com fundamento numa leitura atenta da Crónica da Guiné, que «não há absolutamente nenhuma razão para acreditar que existissem cartas portuguesas antes das duas mencionadas num documento» da Chancelaria de D. Afonso V «e em dois passos dos capítulos 76 e 78» da obra de Azurara. No documento, datado de 22 de Outubro de 1443, e subscrito em Penela pelo Infante D. Pedro, regente do reino, alude-se à inicia- tiva que D. Henrique tomara de enviar navios à costa africana situada para além do Cabo Bojador, até então completamente ignorada pela Cristandade; e adianta-se que o segundo príncipe referido mandara depois «fazer carta de marear» dessa costa. O documento também informa que em duas viagens, das quinze até então realizadas, os navegadores tinham trazido para Portugal 38 cativos; confrontando esta informação com os dados a tal respeito fornecidos nos dois já citados capítulos da Crónica da Guiné, pôde Verlinden verificar que, mediante certas hipóteses aceitáveis, as informações coincidem, e, desse modo, concluir: «Parece portanto correcto que 1443 seja o ano em que foi estabelecida a carta de marear, pois as viagens em que foram trazidos os cativos a que se faz referência no documento, tiveram lugar em 1441 e 1443.» Como quer que seja, desses primeiros exemplares da Cartografia portuguesa, cuja existência o diploma afonsino e Azurara parecem abonar, e de outros que certamente se lhes seguiram até a década de 1480-1490, nenhum chegou ao nosso tempo. Para Armando Cortesão a mais antiga carta portuguesa conhecida, que datou de 1485, seria a carta atlântica de Pedro Reinei, hoje guardada nos Arquivos Departamentais de Gironde. Este exemplar em pergaminho oferece a particularidade de uma parte da costa africana, a partir do castelo da Mina e até o Cabo do Padrão (assinalado, aliás, com uma cruz), ter sido desenhada sobre o continente, na área do Sara, inteiramente desligada do restante esboço. Relacionando este pormenor com a primeira viagem de Diogo Cão, cuja cronologia submeteu a uma arguta revisão, e notando que o cartógrafo ainda representou a bandeira mourisca na cidade de Málaga, pôde aquele sábio historiador inferir o ano indicado como sendo a provável data da conclusão deste precioso monumento cartográfico. Todavia, em 1968 tornou-se conhecida uma carta arquivada na Universidade de Yale, com a assinatura de Jorge de Aguiar e a data de 1492, e que também representa sobre o espaço saraniano o desenho da costa africana além da Mina, embora em muito menor extensão do que na carta de Pedro Reinei. Esta circunstância põe naturalmente o problema de se saber se esta última não será mais moderna do que a supôs Armando Cortesão, e só o estudo comparativo e minucioso das duas cartas, que atenda a outras particularidades, pode dar uma resposta à dúvida; mas esse estudo ainda está por fazer. No entanto, se é inegável que a Cartografia portuguesa do século XV se iniciou em data muito anterior a 1485, também é certo que foi sem dúvida bem mais numerosa que os escassos cinco espécimes dela sobreviventes parecem indicar. A prova indirecta da existência de muitas outras cartas portuguesas, hoje perdidas, residirá no facto de alguns cartógrafos estran7 geiros, antes de 1490, terem esboçado nos seus desenhos a costa ocidental africana de acordo com a toponímia portuguesa. O italiano Cristoforo Soligo, por exemplo, em duas cartas incluídas num atlas da British Library, representa as escalas da primeira viagem de Diogo Cão; e o mapa mundo de Henricus Martellus Germanus, de que existem várias cópias, datáveis de 1489 até 1492, completa as informações sobre a viagem daquele navegador com dados toponímicos para o Sudoeste, o Sul e o Sudeste africanos, até o limite atingido por Bartolomeu Dias. Outros casos análogos, embora menos expressivos, podiam ser ainda apontados. Se tais dados não provam em absoluto, como afirmou Armando Cortesão, que todos esses cartógrafos tivessem recorrido a protótipos portugueses, deve considerar-se ao menos como altamente provável que assim tenha acontecido; na verdade, é bem claro que se tornava muito mais prático obter uma carta portuguesa, e depois copiá-la, ou adaptá-la, do que levar para distantes oficinas de cartógrafos os dados que possibilitariam a construção das cartas com aquelas características. O pleno desenvolvimento da Cartografia portuguesa apenas começa a estar bem documentado para o século XVI, que é, na verdade a sua «época dourada», como gostava de dizer Armando Cortesão. Logo do início do século (1502) existe ainda hoje um magnífico planisfério, designado habitualmente por «planisfério Cantino» (foi o italiano Alberto Cantino quem o comprou em Lisboa para o Duque de Ferrara), que é um dos mais famosos exemplares da colecção de cartas portuguesas de Quinhentos: nele se representou a parte já reconhecida da costa do Brasil; a península Indochinesa, traçada a partir de informações recolhidas no Oriente, mas exageradamente alongada quase até o trópico de Capricórnio; um pouco perfeito desenho da costa da China; e um muito satisfatório contorno da África. A carta atlântica de Pedro Reinei, de c. 1504, que cronologicamente se segue ao planisfério, oferece como particularidade de muito interesse a inserção de uma escala geral de latitudes, sendo a segunda carta conhecida em que tal sucede; a mais antiga que apresenta essa informação geográfica é anónima e datável de c. 1500. A escala de latitudes, que os cartógrafos passaram a representar nos seus desenhos, veio a ter grande influência na evolução da Cartografia, como mais adiante hei-de dizer. Suspendo a enumeração das mais importantes cartas portuguesas de Quinhentos, que seria aqui descabida. Mas saliento que, a partir do início desse século, proliferaram as oficinas de Cartografia em Portugal. Por vezes numa família sucediam-se os cartógrafos de mérito, pois os filhos e os netos iam aprendendo dos seus ascendentes a arte de desenhar cartas; podem apontar-se como exemplos as —8— «dinastias» dos Reinei, dos Homem e dos Teixeira (esta entrando pelo século XVII), de que conhecemos belíssimos exemplares de atlas ou de mapas, na sua quase totalidade ricamente iluminados. Por outro lado, os cartógrafos portugueses de então, contando-se decerto entre os mais capazes de dar uma ideia cartográfica correcta do mundo conhecido, foram objecto de cobiça por parte das autoridades responsáveis pelas navegações de outros países. Só para dar alguns exemplos direi que Jorge Reinei trabalhou em Sevilha, que Diogo Ribeiro esteve ao serviço de Espanha, onde construiu os seus famosos planisférios, entre 1520 e 1532; que Diogo Homem desenhou em Inglaterra um atlas por encomenda da Rainha Maria; e que Bartolomeu Velho foi cosmógrafo do Rei de França, embora por um curto lapso de tempo, em virtude da sua morte prematura. É corrente dizer-se que a Cartografia portuguesa entrou em declínio a partir do início do século XVII, por não ter sabido adaptar-se a novas técnicas que passaram a presidir à elaboração das cartas. No meu modo de ver tal afirmação pecará por excessiva: nem a estagnação da Cartografia portuguesa desse tempo significa a ruína inevitável e próxima, nem há vislumbres precoces de alterações técnicas significativas nas escolas cartográficas estrangeiras desse tempo. Todavia, e para além dessa discutível decadência, deve ser dito que, durante o século de Seiscentos, as oficinas cartográficas portuguesas se interessaram por trabalhos diferentes dos que exclusivamente produziam no século anterior, e a um nível que não lhes diminuiu o prestígio. Neste sentido, é de referir, em primeiro lugar, o traçado topográfico, a que os cartógrafos então procederam, de cidades e de fortalezas de todo o espaço de ocupação portuguesa no Brasil, em África e no Oriente; Pedro Barreto de Resende e João Teixeira Albernaz (refiro-me ao primeiro cartógrafo deste nome) deixaram explêndidos trabalhos deste género cartográfico, destinados em qualquer dos casos, à ilustração do Livro das Plantas das Cidades e Fortalezas do Estado da índia Oriental, de António Bocarro; igualmente cuidado e mais antigo uns dez ou quinze anos, é o conjunto de desenhos do mesmo género devidos a Manuel Godinho de Erédia, que se inclue no Livro de Plataforma das Fortalezas da índia. Em segundo lugar deve ser assinalado o facto, porventura ainda mais importante, de os cartógrafos desse tempo se terem dedicado à construção de levantamentos hidrográficos, e neles terem com frequência alcançado um rigor que decerto ultrapassa o dos já de si excelentes desenhos que D. João de Castro traçou ou mandou traçar para acompanhar dois dos seus roteiros. Só ao cartógrafo João Teixeira Albernaz, há pouco referido, devemos duas monumentais colecções de cartas hidrográficas do Brasil, que se integram em dois volumes manuscritos muito semelhantes. —9— A Ainda hoje existem mais de trezentas obras resultantes da actividade de cartógrafos portugueses de um período aproximado de dois séculos. Aquele número elevado justificaria, só por ele, a celebridade da escola cartográfica a que tais espécimes pertencem. Celebridade, no entanto, nem sempre significa valor, e é de justiça reconhecer que a Cartografia portuguesa dos séculos XV a XVII também é valiosa, e por mais de uma razão. Limitar-me-ei a falar aqui dos três principais motivos que contribuíram para a sua repercussão. É bem claro, em primeiro lugar, que a partir pelo menos do último quartel de Quatrocentos, e durante aproximadamente um século, as cartas portuguesas divulgaram na Europa áreas geográficas de que até então não havia qualquer conhecimento, ou de que só existiam notícias difusas ou erradas. Quem se der ao trabalho de comparar a representação do Oriente no planisfério de Abraão Cresques, desenhado em 1375, com a da mesma área no planisfério dito de Cantino, deparar-se-á com diferenças abissais. Na verdade, com o traçado do judeu maiorquino, confuso e completamente alheio à realidade, no qual apenas se reconhece o Oriente pela representação de factos ou de personagens citados em diversas narrativas, contrasta visivelmente a relativa pureza do traçado de toda a costa africana, da costa indica da Arábia e da península Indostânica, que podemos admirar na carta portuguesa. Os acentuados erros desta apenas se verificam naquelas áreas acerca das quais o cartógrafo não pôde dispor de informações devidas aos navegadores seus compatriotas, traçando então o desenho a partir de dados fornecidos por pilotos orientais, como acontece nos já aludidos casos da Indochina e da China, ou a partir de esboços da cartografia ptolomaica, como se verifica na forma rectangular do Golfo Pérsico. Cláudio Ptolomeu, de resto, só se tornara conhecido na Europa Ocidental na segunda década do século XV, quando chegou a Itália o original grego, então designado pelo nome de Cosmographia, e rapidamente se divulgou a versão latina que dele fez Giacomo d'Angelus. O interesse por esta obra da geografia descritiva foi enorme, como comprovam as sete edições que teve entre a de Vicência, de 1475 (e em que apenas se imprimiu o texto) até a de Roma, em 1490 (todas as seis últimas com as tábuas). Subitamente, porém, os editores mostraram-se desinteressados da reedição da obra, que só voltou a ser impressa dezassete anos mais tarde, reiniciando-se, com essa nova edição, também de Roma, o enorme entusiasmo que pelo livro se havia manifestado durante o lapso de tempo que as sete primeiras edições cobrem. É natural que nos interroguemos sobre o motivo que deu lugar a este hiato de tantos anos, considerado por muitos historiadores da — 10 — cartografia e da geografia como misterioso, se não mesmo inexplicável. Foi Armando Cortesão quem propôs para tal facto uma explicação engenhosa, que me parece de aceitar sem reservas. Para a expôr, começarei por lembrar que se conhecem hoje cinquenta e seis cópias medievais manuscritas, em grego e em latim, desta obra de Ptolomeu; a maioria delas, insere, além do texto, cartas ou tábuas que o ilustram; de um modo geral, porém, pode-se dizer que é nítida a imperfeição de tais desenhos representativos de áreas, de ilhas e de países. Não causa, por consequência, qualquer surpresa que, num manuscrito latino da Cosmographia, datado de 1427, a par da tábua tradicional e bastante errada da Escandinávia, o colector do códice, que decerto conhecia bem essa região, tivesse inserido uma «tabula nova», com a representação muito mais rigorosa daquela península do Norte da Europa. Baseado neste facto, Cortesão admitiu que a hesitação dos impressores em colocar ao alcance do público, através de novas edições, uma obra de aceitação garantida, terá resultado da circunstância de na Europa se divulgarem cada vez mais notícias, e em grande parte devidas aos relatos dos exploradores portugueses, sobre terras e mares totalmente desconhecidos de Ptolomeu, ou que, embora dele conhecidos, se apresentavam com uma configuração muito diferente da que o alexandrino lhes dera. Para compensar essas lacunas e esses erros havia que acrescentar «tabulae novae» às tradicionais vinte e sete da Cosmographia, como, na verdade, veio a ser feito. Na edição de 1507 já se estamparam seis cartas de tipo completamente distinto das restantes, e mais um planisfério actualizado, que o cartógrafo flamengo Ruysh desenhou, com evidentes informações oriundas de Portugal. Esta prática continua a ser usada nas edições posteriores, nomeadamente na de 1513, que entre as suas tábuas novas apresenta uma do Atlântico, com as costas das Américas (chama Terra Incógnita à América do Sul), duas dedicadas à África e outra ao Oceano Indico, sendo estas últimas claramente influenciadas pelos contornos do planisfério «de Cantino». E é a partir desta edição que a Cartografia de fundamentos práticos interfere, de maneira irreversível, na Cartografia de raiz erudita. Ter contribuído para revolucionar a Cartografia ptolomaica não e pequeno mérito para a Cartografia portuguesa dessa época; e eis aqui a primeira razão que me leva a pensar que ela, logo nos primeiros tempos da sua existência, teve grande projecção e se tornou famosa. Contudo, há outros motivos que reforçam essa ideia. Já aqui aludi ao facto de cartógrafos portugueses terem sido atraídos para Espanha, para França e para Inglaterra; o seu número foi certamente muito superior ao dos quatro exemplos citados, e tenho por muito provável que, além dos trabalhos que isoladamente apresentaram, alguns deles criassem escola nos países em que se exilavam. Nenhuma prova temos da existência de tais escolas, directamente orientadas por cartógrafos portugueses, sendo certo que elas também podiam surgir através do simples conhecimento de cartas portuguesas, que se podiam estudar e copiar ou adoptar sem os esclarecimentos de qualquer técnico do país de origem. Os especialistas inclinam-se a aceitar ter sido assim que surgiu a chamada «escola de Dieppe», representada por mais de duzentas cartas manuscritas, que são, segundo o historiador Roger Hervé, de «inspiração nitidamente lusitana», pois, como acrescenta, copiam, com maior ou menor rigor, «o modelo ou padrão das cartas de Portugal, a grande potência marítima desse tempo». Embora afastando-me do meu propósito inicial, não resisto à tentação de lembrar que há hoje vários historiadores empenhados no estudo aprofundado de algumas cartas «de Dieppe», por estarem persuadidos (e uso de novo palavras de Hervé) de que elas poderão provar o «descobrimento fortuito da Austrália e da Nova Zelândia por navegadores espanhóis e portugueses, entre 1521 e 1528». Já para o final do século XVI, quando a Cartografia holandesa começou a desenvolver-se e a ter grande difusão através de cartas impressas, os novos meios de reprodução não enjeitaram a experiência dos cartógrafos portugueses. No Teatrum Orbis Terrarum de Abraão Ortelius há mapas gravados sobre desenhos do cartógrafo português Luís Teixeira, nomeadamente uma carta do arquipélago dos Açores e uma outra do Japão; e na edição de 1606 do seu Atlas, Jacobus Hondius inclui uma carta da ilha do Ceilão, gravada sobre desenho original de Cipriano Sanches, que foi várias vezes reeditada depois. Luís Teixeira deve ter mantido relações assíduas com Ortelius, pois este editou-lhe, separadamene, uma carta da Ilha Terceira, que, não só pela exactidão do seu traçado, mas também pela sua beleza de conjunto, bem merece as reproduções que dela têm sido feitas. Devo acrescentar que, quando cito estes exemplos, não tenho a pretensão de enumerar todos nem os mais significativos casos de transferência da Cartografia portuguesa para o estrangeiro; eles foram escolhidos ao acaso. De resto, a análise exaustiva desse fenómeno peregrino, através da cópia rigorosa ou da simples adaptação dos modelos em Portugal produzidos, nunca foi tentada senão em alguns poucos casos concretos. No entanto, para se fazer uma ideia do volume de que tal transferência se reveste bastará dizer que uma prospecção superficial acerca do modo como se repercutiu na Europa o esboço do planisfério de Cantino, revelou que, só até meados do século XVI, ele foi copiado ou imitado pelo menos em dezanove cartas. Estou seguro de que o estudo comparativo da toponímia, necessariamente muito demorado e até hoje só empreendido em casos que se podem considerar excepcionais, decerto aumentaria de modo substancial o número que pôde ser apurado a partir dos desenhos. Por motivos completamente diferentes a Cartografia portuguesa dos séculos XV e XVI foi a responsável involuntária pela crise que 12 desabou sobre a arte de desenhar cartas náuticas e geográficas, exigindo a revisão da técnica tradicional aplicada na sua construção, e determinando a abertura do caminho que havia de conduzir a uma Cartografia matemática. Para bem se compreender o modo como esta intervenção se processou, é necessário ter-se presente que a carta portuguesa inicial continuava, do ponto de vista técnico, a respeitar os princípios e a seguir os meios a que se recorria no traçado das cartas mediterrânicas; que estas eram desenhadas pelos cartógrafos a partir de rumos magnéticos verdadeiros, aliás representados de quarta em quarta em todas elas, e de distâncias marítimas estimadas, em que, como escreveu Fontoura da Costa, «era soberana a fantasia do piloto», pois até 1570 foi desconhecida qualquer aparelhagem para medir a velocidade do navio; e que, por último, tais desenhos não pressupõem o conhecimento e o uso de qualquer sistema de projecção, seja ele o de Marino de Tiro (que ninguém sabe ao certo o que fosse) ou qualquer sistema cilíndrico mais ou menos fantasiosamente concebido para permitir a configuração que encontramos em todas as cartas náuticas de qualquer origem, até já bem entrado o século XVI. Este último aspecto da problemática que a arte da Cartografia levanta tem sido o mais controverso, e o que mais deu oportunidades a teorias e afirmações sem qualquer base legítima. Não é aqui o momento adequado para voltar a essa polémica sempre renovada, a despeito dos estudos amadurecidos que António Barbosa dedicou ao delicado tema, há quase meio século. Estou persuadido, e de acordo com o que ele procurou mostrar, que a técnica do desenho da carta náutica desse tempo é apenas a extensão indevida a grandes áreas dos processos usuais no que hoje se chama «Cartografia expedita», ou seja, a Cartografia a que habitualmente se chega no levantamento de pequenas parcelas de terreno por processos elementares (orientação pela bússola e medida de distâncias a passo, por exemplo), quando não se exige grande rigor ou quando se não dispõe para o efeito de meios de maior precisão. Acontece, porém, que tendo sido introduzidas observações astronómicas na navegação atlântica, cedo se terá reconhecido que a carta não respondia satisfatoriamente às exigências do novo modo de navegar. Quando, por volta de 1462, Diogo Gomes comparou alturas da Polar, tomadas com o quadrante, e achou que «isso era melhor do que a carta», como ele diz, estava a pôr pela primeira vez em causa uma Cartografia que na verdade era deficiente para a nova navegação já em prática. Poucos anos depois da observação de Diogo Gomes iniciou-se a determinação de latitudes a bordo, e os cartógrafos, como O anónimo autor do planisfério de 1502, ou como Pedro Reinei na carta de c. 1504, passariam a introduzir nos seus desenhos uma escala de latitudes, que nada tinha a ver com os princípios seguidos para se chegar ao seu traçado. As deficiências das cartas tradicionais para a navegação por latitudes ou por alturas viriam a ser, de resto, bem conhecidas dos pilotos; no seu Tratado da Agulha de Marear, datado de 1514, João de Lisboa diz claramente que elas não serviam para o moderno tipo de náutica, que os pilotos portugueses praticavam; escreveu ele que, pelo facto dos seus colegas andarem sempre a corrigir as bússolas de maneira que a ponta Norte da agulha se dirigisse para o Norte geográfico no lugar de observação, acabavam por achar «todas as cartas falsas por uma quarta ou duas»; e continua: «...para se isto haver de emender, era necessário navegar pela verdade (ou seja: com base em observações de latitude) ainda que, na carta, enquanto não for emendada, não navegareis senão pelo costumado, porque com o falso se há-de navegar o falso, e com o verdadeiro, o verdadeiro». Se não erro, este passo significa que, enquanto se não procedesse à revisão da Cartografia, deviam os pilotos navegar junto à costa pelo método de rumo e estima, embora o soubessem incorrecto do ponto de vista geográfico, em virtude de ser para a sua aplicação que a carta de que dispunham fora construída. Tenho motivos para crer que esta anotação, incluída num texto sobre a agulha de marear, dava conta de factos de há muitos anos bem conhecidos. Com efeito, a referida carta atlântica de Pedro Reinei, datável de c. 1504, apresentava junto à Terra Nova uma escala oblíqua de latitudes, pela qual se deviam guiar os navegadores que demandassem aquela área, deixando de lado a escala geral daquela coordenada geográfica, traçada no desenho sobre o Atlântico, como já disse. Esta escala oblíqua de Reinei, depois adoptada por outros cartógrafos, também foi motivo de acesas discussões entre os historiadores da Cartografia, mas parece estar hoje fora de dúvida que Reinei sabia que a declinação magnética atingia valores muíto fortes nas proximidades da costa da América do Norte, não ignorava que as indicações da agulha se não harmonizavam com as da escala geral de latitudes, e removeu a dificuldade introduzindo essa graduação compensadora das deformações dos contornos das linhas costeiras traçadas pelas técnicas cartográficas em uso. Decorridos vinte e quatro anos sobre a redacção dos reparos de João de Lisboa, o grande D. João de Castro, no decorrer da sua primeira viagem para a índia, em que se dedicou interessadamente à observação dos fenómenos do magnetismo natural, foi levado a ocupar-se também dos erros das cartas híbridas de que os marinheiros dispunham; o futuro vice-rei da índia estudou, em especial, as causas da distância excessiva que na carta separava a costa Sul do Brasil do Cabo da Boa Esperança: isso obrigara os pilotos a exagerarem de modo arbitrário a estimativa das suas singraduras diárias, para assim acompanharem os excessos dos desenhos. Submetendo o problema a — 14 — uma análise criteriosa, Castro pôde explicar de maneira correcta a razão daquela e outras anomalias do mesmo tipo que podiam ser apontadas nas cartas náuticas, e o seu esclarecimento também se baseia no desacerto que existia entre rumos magnéticos e rumos geográficos. Além disso Pedro Nunes, no Tratado em Defensão da Carta de Marear, de 1537, diz-nos que naquele tempo havia a tendência para obviar aos erros cartográficos pelo recurso a pomas ou globos, embora o uso destes estivesse proibido por uma antiga determinação real, nunca revogada, até onde se sabe. Todavia, o cosmógrafo não se esqueceu de observar que os construtores de globos adoptavam procedimentos cujos resultados conduziam a lapsos de certo modo opostos aos assinalados nas cartas; por conseguinte, não se podiam lançar neles rumos, «e assim (segundo as palavras irónicas de Nunes) fica tudo bem borrado, posto que nos tais globos haja muito ouro e muitas bandeiras, elefantes e camelos, e outras coisas iluminadas, fica também o Levante tão feio no globo como na carta, e fora de suas rotas no globo, mas não na carta». A carta, apesar dos seus defeitos, era, por consequência, preferível à solução das pomas. Os erros destas e das cartas faziam-se sentir sobretudo no Levante, ou seja, nas terras que confinavam com o Mediterrâneo. Assim, Roma tinha na carta a latitude de 46°, quando na verdade se situa no paralelo dos 41.° 30'; Alexandrina ficava na carta em 36°, quando a sua latitude correcta é de 30° 58'; e assim por diante, ou, como diz Nunes, «e por esta arte todos os mais [lugares] estão situados em falsas alturas». A causa destas disparidades era a que já ficou apontada, e implicava também erros de longitudes, que o cartógrafo não refere; na realidade, a carta do Mediterrâneo fora traçada a partir dos dados fornecidos pela técnica de navegar nele praticada, não podendo, por isso, conformar-se com uma escala de latitudes posteriormente introduzida; acrescia que a introdução dessa escala nem sequer fora feita a partir de valores da coordenada para lugares adjacentes a esse mar interior. Os navegadores mediterrânicos continuaram, por rotina, a usar os processos de navegação que vinham do século XIV; e as cartas em que se apoiavam mantêm-se de tal modo fiéis a um modelo fixo, que Nordenskiõld chegou a defender a ideia de que todas procediam de um protótipo comum, a que chamou «portulano-normal». O mistério da permanência desse modelo cartográfico até ao século XVIII, sem sofrer modificações fundamentais, só pôde ser explicado com recentes estudos de paleomagnetismo, aliás ainda em curso. Efectivamente, as deformações geográficas do traçado, enquanto se mantivesse inalterada a arte de navegar, só poderiam ser notadas quando a variação secular da declinação magnética atingisse valores — 15 — apreciáveis; e sabe-se hoje que esse desvio não sofreu alterações de mais de um ou dois graus, para qualquer lugar da bacia mediterrânica, no decurso de mais de três séculos. Eis o motivo pelo qual não houve necessidade de alterar as normas que norteavam os cartógrafos na delineação dos seus desenhos. Não poderei dar por findas estas considerações sobre a Cartografia portuguesa antiga, sem aludir a uma outra questão que preocupou Pedro Nunes naquele mesmo tratado. Quero referir-me ao problema do traçado da linha que, numa carta, devia representar uma singradura de rumo constante e não coincidente com um círculo máximo, também chamada linha loxodrómica; as linhas deste tipo seriam sempre «curvas e singulares» nas cartas então em uso, segundo diz o cosmógrafo, e com todo o fundamento. Nunes mostra ter conhecimento de que todas as loxodrómicas se apresentariam como espirais, convergentes para o pólo mais próximo, em qualquer poma representativa do globo terrestre; e chega até a pensar que seria o recurso a globos a maneira mais prática de representar as linhas de igual rumo; nesse sentido, chegou a propor, na versão latina do seu texto, a construção de um quadrante flexível que, aplicado à poma, facilitaria o desenho daquelas curvas. No entanto, não conseguiu obter a solução do problema que o preocupava no plano, glória que havia de caber ao cartógrafo flamengo Gerard Kremmer ou Mercator que, como é bem sabido, encerrou definitivamente a questão com a grande carta de 1569, em que apresenta um sistema de projecção chamado de «latitudes crescidas». É de notar, em todo o caso, que até o final do primeiro quartel do século XVII a engenhosa solução de Mercator não teve repercussões; a Cartografia de origem portuguesa continuou a dominar, mesmo entre os pilotos dos Países Baixos, que só encontraram como alternativa o recurso a semi-globos, já admitidos por Pedro Nunes, mas que ganharam novo alento depois da edição de um pequeno folheto de Adriaen Veen, publicado em 1597 e consagrado ao que ele chamou a «carta globosa». •* Não oferece dúvidas que, nesta resumida digressão pela Cartografia portuguesa dos séculos XV a XVII, não aprofundei alguns problemas importantes e terei até porventura omitido qualquer alusão a vários outros de grande interesse. Tenho perfeita consciência de ter caído em involuntárias deficiências, mas também reconheço que não devia ir mais além. Como justificação, seja-me permitido lembrar aqui que o grande especialista do tema, o erudito Doutor Armando — 16 — Cortesão, tendo-se proposto escrever para o Instituto de Investigação Científica Tropical uma História da Cartografia Portuguesa, até o final do segundo volume dessa obra incompleta somente pôde estudar as cartas portuguesas do século XV; e que o sábio Almirante Teixeira da Mota, que com Cortesão ombreava nos conhecimentos e largos anos dirigiu o Centro de Estudos de Cartografia Antiga, apenas se considerava habilitado a pronunciar-se a fundo sobre alguns aspectos da História das cartas portuguesas. Discípulo, que sou, desses dois grandes Amigos lamentavelmente desaparecidos, procurei seguir-lhes o bom exemplo, não me aventurando a falar para além do que mais aprofundadamente estudei. Desejaria, no entanto, que esta exposição tivesse ao menos tido a virtude de mostrar que a primitiva Cartografia portuguesa, sem introduzir técnicas revolucionárias, foi de uma insubstituível utilidade para a Marinha de todos os povos que navegaram o «grande mar Oceano» até meados do século XVII; forneceu informações preciosas a geógrafos e eruditos; e levantou sérios problemas que implicaram a posterior evolução dos trabalhos cartográficos. Ou seja: que a Cartografia daquele tempo tem a sua parte significativa no muito que os descobrimentos portugueses legaram à Humanidade! Ultrapassado esse ciclo histórico, transformou-se e veio a ser principalmente uma Cartografia de áreas continentais, que se cumpria através de operações topográficas levadas a termo com o recurso às técnicas mais modernas. Essa transformação, iniciada ainda no século XVI por Fernando Álvares Seco, e continuada logo por João Baptista Lavanha, só avultou com particular relevo no início do século XVIII, quando um grande número de oficiais engenheiros trabalharam, como já disse, no Brasil, para delimitarem com o rigor possível os territórios sobre os quais o governo de Lisboa exercia ou pretendia exercer uma tutela administrativa, Esse período de intenso trabalho de engenheiros geógrafos na América portuguesa, só foi interrompido com a independência do Brasil; todavia, quando os condicionalismos políticos o exigiram, as actividades do mesmo tipo seriam intensificadas em África, e com particular significado depois de instituída a Comissão de Cartografia, há precisamente cem anos. Foi através de trabalhos por ela realizados em sucessivas campanhas que se fez a Topografia e a Cartografia das colónias portuguesas de então. Não duvido que a grande tradição da Cartografia portuguesa, ao menos pelo incentivo que representava, tenha contribuído para o enorme alcance desses trabalhos. Seja-me permitido apenas lembrar, que Armando Cortesão, um dos nossos maiores historiadores da história da Cartografia, foi também um dos obreiros do levantamento da ilha de S. Tomé, onde trabalhou sob as ordens de Gago Coutinho, por 1917. — 17 — Assim se enlaça a Comissão de Cartografia, de que o Instituto procede, com as grandes escolas cartográficas portuguesas de Quinhentos. Possa esta aproximação histórica iluminar sempre, como tem iluminado, a linha e o objectivo dos trabalhos a que hoje nos devotamos, com todo o interesse e toda a dedicação de que somos capazes. 18 —