1
DOSSIER BEIRA 1 – JC
coluna
DIALOGANDO por
João CRAVEIRINHA
JORNALISTA
Uma incursão na História recente dos Municípios de Moçambique (1/3)
Série de 3 apontamentos seguidos, iniciada no nº 1122 do jornal “O Autarca” de 31 Julho 2006; Segunda -feira.
DRENAGEM E SANEAMENTO
DA CIDADE DA BEIRA E DA REGIÃO SUBURBANA
(The Beira Sewerage and its Surroundings Drainage)
As imagens de arquivo não mentem. São do período compreendido
entre 1962 a 1967 e localizadas na Beira colonial. A partir de 1960 a
Fevereiro de 1962, houve um Estudo de um Plano Director Geral
para a Cidade da Beira – Aruângua kuSena. Consistia em dois
grandes vectores, a saber: 1º. – DRENAGEM E ENXUGO DA ZONA SUBURBANA.
2º. - DRENAGEM E SANEAMENTO DA ZONA URBANA.
Foram projectos elaborados na Direcção Geral de Obras Públicas e
Comunicações do Ministério do “Ultramar” de Portugal. Concluídos
em Fevereiro de 1962 e aprovado pelo Conselho Superior de Obras
Públicas e pelo Ministro do Ultramar, Prof. Dr. Adriano Moreira.
Responsável geral pela equipa de Engenheiros do Ministério do
“Ultramar” –, o emérito Prof. Eng.º Celestino da Costa (hoje jubilado
com cerca de 93 anos). Orienta e coordena uma equipa de
brilhantes Engenheiros e Consultores Técnicos –, uns veteranos,
outros jovens inovadores formados com distinção.
O Prof. Eng.º Celestino da Costa foi o autor do Planeamento Geral
da Drenagem e Saneamento Urbano e o Eng.º Carlos Quintanilha
2
Góis autor do projecto da Drenagem e Enxugo da Zona Suburbana;
- O Especialista do grupo, em Engenharia Sanitária e Serviços de
Urbanismo e Habitação – o Eng.º Manuel F. Neto Valente, Chefe da
Secção do Ministério do Ultramar em Lisboa, onde se executou o
projecto para a Beira – Moçambique: - Outros Engenheiros coautores do detalhe das Redes Urbanas de Drenagem e
Saneamento, Sistema Elevatório e Interceptor geral, Emissários,
Postos de Bombagens, Estações Elevatórias, foram: - Eng.ª Mª
Emília C. Carvalho, Eng.º Alberto Campilho Gomes e o Eng.º Jaime
Simões Cordeiro. Uma elite portuguesa de Engenheiros.
___________
Imagens da década de 1960 das Obras de Drenagem e Saneamento
da Cidade da Beira e da Região Suburbana
Construção da Estação Elevatória nº2. Fase anterior – Estação Elevatória nº2: vista interior do 1º Piso
com as bombas maiores e uma das menores
_______________________
Valores
parciais
dos
trabalhos:
Zona
suburbana:
…14.949.760$60. Zona Urbana: -…143.268.354$39 em escudos
portugueses antigos (entre 20$00 a 40$00 o dólar americano na
altura).
Empreitada posta a concurso em Moçambique pela Câmara
Municipal da Beira, em Março de 1962, subscrita pelo seu
Presidente, Comandante João Alberto Costa Soares Perdigão. A
obra foi adjudicada em Junho de 1962 (intervalo de 3 meses).
Empresa Empreiteira da obra; a Construtora do Tâmega (CT) de
Amarante (Portugal). A Fiscalização a cargo da Câmara Municipal
da Beira (C.M.B) “que para o efeito contratou técnicos e montou a
respectiva brigada”, chefiada pelo Eng.º Jaime Simões Cordeiro.
Em Julho seguinte deu-se início às obras de Drenagem e Enxugo
da Zona Suburbana (mais precária e de demografia maioritária
africana e núcleos asiáticos). Eventualmente, seria dada prioridade
ao Subúrbio, para evitar a propagação de problemas de saúde para
a cidade – cimento da Beira, aonde residia com mais regalias e
3
melhor infra-estruturas de instalações a população europeia
minoritária (menos de metade da população suburbana).
Prazo da empreitada: 5 anos. Origem dos Investimentos: Governogeral de Moçambique –, Comparticipação da CMB –, Financiamento
do Empreiteiro (CT) –, CFM (Caminhos de Ferro de Moçambique) –,
Imposto público de serviço.
Valores parciais da adjudicação da obra, em escudos antigos: Zona
suburbana: - …21.121.834$00. Zona Urbana: -…133.225.873$90.
Se calcularmos 1 US Dólar a 20 / 40 escudos…façam as contas
quanto seria hoje com esses valores com a correcção monetária
(inflacionária) de 44 anos.
___________
Actual Praça do Município da Beira em imagem da década de 1960.
_______________
Portugal Imperial, sem Uniões Europeias auto – financiava os seus
projectos de modernização em África ainda que dentro de uma
perspectiva colonial. Funcionava. Do que exploravam em África,
havia algum retorno de modernização às suas Colónias Africanas
em particular mais para Moçambique e Angola. Investimento
tecnológico em alguns aspectos superior aos efectuados em
Portugal – sede europeia. O mito de outros “Portugais” no
imaginário colectivo português.
O laboratório experimental da Engenharia Portuguesa, situado sem
dúvida em África, na Oceânia – Timor e mesmo na Ásia (Macau). A
antiga Índia “portuguesa” (Goa, Damão e Diu), perdida, ao integrar
a União Indiana.
Uma coisa é certa, os portugueses, deixaram obra feita! (Continua
no próximo número). Jornal O Autarca da Beira nº 1122 (parte 1) de 31 Julho
2006 segunda – feira (e ZOL – zambezia.co.mz )…
♦♦♦
4
DOSSIER BEIRA 2 – JC
coluna
DIALOGANDO por
João CRAVEIRINHA
JORNALISTA
Uma incursão na História recente dos Municípios de Moçambique (2/3)
Série de 3 apontamentos seguidos iniciada no nº 1122 do “O Autarca” de 31 Julho 2006; Segunda -feira.
TODA A BEIRA VIROU SUBÚRBIO
DRENAGEM e SANEAMENTO da CIDADE da BEIRA
(The Beira Sewerage and its Surroundings Drainage)
Imagem de Desaguadouro da Beira em 1967 após 5 anos de Obras de
Drenagem e Saneamento da Cidade da Beira e da Região Suburbana: Descarga de Cheia por uma das bocas em baixa-mar vista por Jusante
(direcção por onde correm as águas para o mar)
_________________________________________
As causas da actual situação de degradação da Beira poderiam ser
resumidas em CINCO pontos: 1. - A Independência de Moçambique
em 1975 (Independência que não está em causa, mas o que se fez
dela); 2. - Os extremismos oportunistas de militantes “ad hoc” da
Frelimo, na Beira (1974/1975); 3. - A fuga de técnicos europeus e
outros (1974 / 1975 / 1976 em diante); 4. - A Penalização da Beira
pela Frelimo, durante os 16 anos de Guerra, devido ao espírito de
“revolta” da sua população (1976 / 1992); 5. - A incompetência total
5
(anterior) no Município da Beira, na gestão da coisa pública, “RES –
PUBLICA”, que também provocaria a progressiva degradação do
sistema de “DRENAGEM e SANEAMENTO da CIDADE da BEIRA
e da REGIÃO SUBURBANA (The Beira Sewerage and its
Surroundings Drainage)”, entre aspas, como vinha intitulado na
capa da apresentação do Projecto em 1967 .
É que se esqueceram que -TECNOLOGIA NÃO TEM IDEOLOGIA
–, e há regras a cumprir e uma delas é a MANUTENÇÃO. Quando
estas regras são destruídas é o descalabro total. Daí a ruptura
actual ao sistema inovador então existente na Cidade da Beira –,
das Estações Elevatórias para Drenagem das águas equilibrando
as inundações – se hoje funcionassem evitariam as bolsas de água
actualmente existentes, um pouco por toda a Cidade da Beira,
sobretudo nos subúrbios com as inevitáveis malárias, cóleras,
disenterias e todas as enfermidades afins consequências do
enfraquecimento do sistema imunológico do organismo humano.
___________
Imagem de 1966 após Obras de Drenagem e Saneamento
da Cidade da Beira e da Região Suburbana
Desaguadouro Suburbano da Beira de ligação com o Canal A,
atravessando a Cidade.
____________
A Obra na cidade da Beira, foi feita. Estudo e Projecto da Drenagem
e Saneamento da Beira de 1960 a 1962. Início da execução da
Empreitada de 1962 a 1967. Projecto apresentado em Luanda
(Angola), em 1969, como paradigma da Moderna Engenharia
Mundial na área. Prelecção integrada nas “2as Jornadas de
Engenharia e Arquitectura do Ultramar” em Maio e Junho (1969).
Comunicação feita pelo Eng.º Jaime Simões Cordeiro.
A exploração da rede de saneamento da cidade da Beira teve início
em 15 de Dezembro de 1966 com a ligação ao primeiro prédio.
Empreitada concluída em Outubro de 1967, na altura, Presidente da
6
Câmara Municipal da Beira (CMB), “o deputado da Nação”, Dr. José
Domingos Janeiro Neves. Calculado um período máximo de 30
anos com o sistema de saneamento da altura para servir uma
população citadina em crescimento de 25 mil / 35 mil habitantes
com projecção até 121 mil habitantes em 3 décadas. Portanto o
sistema geral de Drenagem e Saneamento de então duraria até
1997 com a manutenção regular por pessoal moçambicano e
português. Evidentemente nessa cifra de 1967 não está incluída a
população do subúrbio (90 / 100 mil hab.?!), nem os 40 mil turistas
“rodesianos” da antiga Rodésia de Ian Smith que “invadiam”
periodicamente as praias do Macúti, Ponta Gea e toda a cidade
Beirense, com lugares de lazer “for whites only” (para brancos
somente).
Hoje a Beira conta com cerca de 350 mil habitantes de população
fixa podendo atingir eventualmente 500 mil habitantes no global
com a população flutuante. Duas ou três vezes mais que o previsto
em 1962.
Esquecendo os ismos ideológicos actuais, pode se considerar pela
qualidade da obra, ter sido orientada por uma verdadeira elite da
engenharia (portuguesa), mesmo pelos padrões de tecnologia de
hoje. Funcionava? O que é certo é que funcionava e funcionou de
1967 até 1974 / 75/ 76, declínio da manutenção regular das
estações elevatórias que aliviava a Beira dos seus resíduos líquidos
excedentes, drenando o pantanal onde a cidade com muito esforço
foi erigida. O elevado nível freático (águas subterrâneas) da Cidade
da Beira e entupimento das valas de escoamento, serão
provavelmente, as causas principais dos quintais suburbanos
alagados quase permanentemente na ocorrência de chuvas
intensas acrescidas das marés. A infiltração da concentração do lixo
e dejectos dos aterros poderá provocar contaminação dos níveis
freáticos por onde circula a canalização da rede de abastecimento
de água potável à população. A CÓLERA na BEIRA, CONTINUARÁ
INEVITÁVEL, SEM A SOLUÇÃO URGENTE da questão da
DRENAGEM e SANEAMENTO da CIDADE da BEIRA e da
REGIÃO SUBURBANA. E essa questão não depende somente
da Edilidade da Cidade da Beira. No fundo é uma questão
Política.
Da História colonial de Moçambique, a interacção do Governo
Central de Portugal em Lisboa, através do Ministério do “Ultramar”,
na articulação com as Edilidades – Câmaras Municipais coloniais,
merecia estudo. Com humildade e distanciamento ideológico,
7
poderia servir para se aprender algo. (termina no próximo
Dialogando). Jornal O Autarca da Beira nº 1123 (parte 2) -1 Setembro 2006
terça-feira (e ZOL – zambezia.co.mz)
♦♦♦
DOSSIER BEIRA 3 – JC
coluna
DIALOGANDO por
João CRAVEIRINHA
JORNALISTA
Uma incursão na História recente dos Municípios de Moçambique (3/3)
Série de 3 apontamentos seguidos, iniciada no nº 1122 do jornal “O Autarca” de 31 Julho 2006; Segunda -feira.
Imagem: Vista geral da cidade da Beira atravessada pelo rio Chiveve
O
CHIVEVE
8
DRENAGEM e SANEAMENTO da CIDADE da BEIRA e da
REGIÃO SUBURBANA (The Beira Sewerage and its
Surroundings Drainage)
CONCLUSÃO
…” A data de 20 Agosto de 1887, assinalava a chegada das
primeiras forças portuguesas, desembarcadas num local
denominado «Chiveve», com o fim de instalarem o Comando Militar
de Aruângua.” (Ler mais da História da Beira num próximo Dialogando, na
proximidade da comemoração a 20 de Agosto 2006, dos 99 para 100 anos da
Cidade em 2007).
Do RIO CHIVEVE – o que foi dito em 1969 em… Angola.
…”Na caracterização geral da cidade, um traço hidrofisionómico avulta, marcando tradicionalmente a Beira desde a
hora da fundação: o Chiveve. Trata-se de uma linha de água com
cerca de 4 quilómetros de desenvolvimento sinuoso, cujo leito
molhado chega a ter quase 200 metros de largura nas marés altas,
constituindo nessas ocasiões, em plena cidade, mancha aquática
de inspiração veneziana.
É de longa data a polémica entre as gentes beirenses
sobre o destino a dar ao Chiveve. Uns defendem obstinadamente a
ideia do "Group One", cujos planos preconizavam em seu lugar um
sistema de lagos artificiais; outros preferem a sua conversão em
jardim público e parque arborizado, dando desse modo à cidade a
frescura verde e a sombra que lhe falecem; e há ainda quem opine
pelo seu arrasamento ou aterro à custa de dragados da barra,
oferecendo-se mais essa zona à urbanização e à construção. Ponto
comum nas três correntes é a relutância geral pelo Chiveve tal
como é, nódoa pardacenta e lodosa no coração da cidade.
Ante tal clima de divergências, que o Plano de
Urbanização não esclarecia suficientemente, os problemas da
drenagem e do saneamento foram solucionados como se o Chiveve
não existisse, passando a drenagem própria do esteiro a
constituir problema isolado e independente do projecto geral
executado.
O papel desempenhado por essa linha de água em dezenas
de anos ao serviço da drenagem expedita e do saneamento
improvisado de boa parte da Beira, se bem que relevante nos
benefícios enquanto a cidade foi pequena, tornou-se notório nos
malefícios quando a cidade cresceu e seus prédios passaram a
lançar nele cargas poluidoras cada vez mais volumosas,
produzindo forte contaminação de suas águas e margens. Os
efluentes sépticos das fossas domici11árias e, em muitos casos,
até dejectos "in natura", tiveram durante quase cem anos o
Chiveve por vazadouro.” Excerto da Comunicação do Engenheiro Jaime
Simões Cordeiro, nas 2as Jornadas de Engenharia e Arquitectura do Ultramar, em
Luanda (Angola) em Maio / Junho de 1969.
9
____________
Imagens da década de 1960 das Obras de Drenagem e Saneamento
da Cidade da Beira e da Região Suburbana
Construção da Estação Elevatória nº 4 e descida
do Anel Gigante de Betão. (Segunda fase).
__
__
Estação Elevatória nº4: vista interior do 3º Piso com
o quadro eléctrico e os motores de 52 cavalos e os
compressores. (Fase posterior avançada).
_______________
Os trabalhos de Drenagem e Saneamento da Beira e Subúrbios,
implicaram o Levantamento exaustivo da: - Situação Geográfica;
Física; Política e Económica; Altimetria; Geologia; Climatologia;
Pluviometria e Hidrologia. Todas disciplinas do âmbito da
Engenharia Geográfica e de Planeamento Físico. Contemplado o
Impacto ao Meio – ambiente num enquadramento da Arquitectura
Urbana.
___________
Cidade da Beira: Imagens da década de 1960
Canal A II ao meio da Av. Almirante Sarmento
Rodrigues, Posto de Bombagem nº11. (Actual
Av. 24 de Julho)
__
__
__
Outro ângulo do Canal A II depois de 3 dias de
chuvas intensas. A Manutenção e a Educação Cívica
evitava entupimentos dos canais de escoamento.
_____________
A cidade da Beira (e subúrbio) foi calculada para uma população
residente muito inferior a 200 mil habitantes.
10
Obviamente, em Moçambique, os recursos utilizados para
edificação das Cidades foram em primeiro lugar para o benefício da
“imigração” de colonos europeus vinda de Portugal.
A Independência em 1975, na 1ª fase, provocou uma explosão
demográfica para a Beira – cimento. Na 2ª fase a “Guerra civil” –
MNR ou RNM – Renamo, versus Governo, provocou
deslocamentos populacionais que “invadiriam” a cidade e os
subúrbios. A rondar o meio milhão de habitantes a actual Beira e
“surroundings” (arredores ou subúrbios), criou uma autêntica
“calamidade” artificial ao nível da falta de salubridade –, higiene e
profilaxia (prevenção), colocando a população da Cidade e
Subúrbios como focos permanentes de epidemias e contágio na
Saúde Pública.
O Progresso da Beira e a melhoria da qualidade de vida da sua
população, dependem sem dúvida da Reabilitação do Sistema
de “DRENAGEM e SANEAMENTO da CIDADE da BEIRA e da
REGIÃO SUBURBANA (The Beira Sewerage and its
Surroundings Drainage)”. Sistema Projectado brilhantemente
por uma elite de Engenheiros Portugueses. Fez exactamente 44
anos (2006 – 1962).
É para isto que serve a História: - Avaliar o que foi bem feito e
aprender. (FIM). Jornal O Autarca da Beira nº 1124 (parte 3 e última) -2 Setembro
2006 quarta-feira (e ZOL – zambezia.co.mz)
Download

DRENAGEM E SANEAMENTO DA CIDADE DA