ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA DEPARTAMENTO DE ESTUDOS CAEPE 2011 MONOGRAFIA (CAEPE) A Governança de Tecnologia da Informação na Administração Pública Federal e seus Reflexos para o Exército Brasileiro Código do Tema: 19/321 Cel Com Fortunato Menezes da Silva FORTUNATO MENEZES DA SILVA A GOVERNANÇA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA FEDERAL E SEUS REFLEXOS PARA O EXÉRCITO BRASILEIRO Trabalho de Conclusão de Curso - Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia. Orientador: Cel R1 Heleno Moreira Rio de Janeiro 2011 C2011 ESG Este trabalho, nos termos de legislação que resguarda os direitos autorais, é considerado propriedade da ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA (ESG). É permitida a transcrição parcial de textos do trabalho, ou mencioná-los, para comentários e citações, desde que sem propósitos comerciais e que seja feita a referência bibliográfica completa. Os conceitos expressos neste trabalho são de responsabilidade do autor e não expressam qualquer orientação institucional da ESG Biblioteca General Cordeiro de Farias Silva, Fortunato Menezes da A Governança de Tecnologia da Informação na Administração Pública Federal e seus reflexos para o Exército Brasileiro / Coronel de Comunicações Fortunato Menezes da Silva – Rio de Janeiro: ESG, 2011. 51 f.: il. Orientador: Cel R1 Heleno Moreira Trabalho de Conclusão de Curso – Monografia apresentada ao Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra como requisito à obtenção do diploma do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE), 2011. 1. Tecnologia da Informação. 2. Governança de TI. 3. Processo de Transformação. I. Titulo … ao Nosso Senhor Jesus Cristo, Divina presença a me guiar os passos, Autor e Consumador da minha fé. "Quem sou eu, SENHOR? e qual é a minha casa, para que me tenhas trazido até aqui?.[...] trataste-me como a um homem ilustre. [...] riquezas e glória vêm de diante de ti, e tu dominas sobre tudo, e na tua mão há força e poder; e nela está o engrandecer e o dar força a tudo. Agora, pois, ó Deus nosso, graças te damos. (Rei Davi, de Israel, I Livro das Crônicas) AGRADECIMENTOS A Deus, “o Altíssimo, a quem pertence a magnificência, o poder, a honra, a vitória, a majestade e tudo quanto há nos céus e na terra. […] Aquele que tem domínio sobre o reino dos homens, e a quem quer constitui sobre ele”. (Antigo Testamento). Aos meus pais, que vislumbraram uma estrela brilhante no meu futuro e não mediram esforços para que ela se tornasse realidade. À minha querida esposa Isabel, mulher virtuosa, idônea, plena de amor, paciência e compreensão, pela agradável companhia e incondicional apoio prestado durante esta jornada profissional, em todas as dimensões em que foi possível se expressar. Aos meus queridos filhos Isabelle e Fellippe, pelo amor demonstrado, mesmo à distância, pelas palavras de incentivo e pela maturidade das iniciativas, o que deu tranquilidade aos pais durante essa jornada. À Igreja Memorial Batista de Brasília, verdadeira família, pelo apoio espiritual. Ao meu irmão e amigo Cel Callai, pela presteza das respostas às minhas solicitações e contribuições sempre bem vindas. Ao Corpo Docente da ESG pelos novos conhecimentos que induzem a maiores reflexões sobre o destino do nosso Brasil, particularmente ao companheiro Cel R1 Heleno Moreira, pela camaradagem e pertinentes observações durante o processo de orientação da monografia. Finalmente, agradeço aos amigos da Turma "Segurança e Desenvolvimento", do Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra, no ano de 2011, pelo agradável convívio, particularmente durante as viagens, visitas e trabalhos em grupo, com destaque para o Grupo Delta. “Se seus sistemas e processos estão ultrapassados, você terá de mudar o modo como pensa sobre TI e como implementar processos digitalizados.” […] “Mais importante, você terá que liderar a transformação para uma empresa com conhecimento em TI.” (Conhecimento em TI, de Peter Weill & Jeanne W. Ross) RESUMO Esta monografia trata da governança de tecnologia da informação como um dos fatores necessários à eficiência e eficácia do processo de transformação do Exército Brasileiro, que pretende modernizar seus sistemas e transportar-se para a era digital. O objetivo deste estudo é mostrar que o êxito desse processo é dependente dos mecanismos daquela governança, tomando como ponto de partida o diagnóstico elaborado pelo Controle Externo em auditorias realizadas no âmbito do governo, nos últimos cinco anos. Além de considerar a experiência profissional do autor como oficial de Comunicações, a metodologia aplicada amparou-se numa pesquisa bibliográfica e documental embasada em dois relatórios do Tribunal de Contas da União sobre governança de Tecnologia da Informação (2007 e 2010), do modelo Control Objectives for Information and related Technology (COBIT), versão 4.1 (INFORMATION TECHNOLOGY GOVERNANCE INSTITUTE, 2007) e das obras “A Terceira Onda” (Alvin Toffler, 2001) e “Conhecimento em TI” (Peter Weill e Jeanne W. Ross, 2010). O estudo aborda como principais tópicos a governança de TI, o processo de transformação do Exército e a organização com “Conhecimento em TI” (Ibidem). Finalmente, faz uma análise crítica do nível de governança existente no Exército, abordando os avanços e retrocessos institucionais na área de TI. A conclusão aponta para a necessidade preliminar de elaboração de um plano estratégico específico de TI e do efetivo envolvimento do Alto-Comando na composição do Conselho Superior de TI do Exército. Palavras chave: Tecnologia da Informação. transformação. Governança de TI. Processo de ABSTRACT This monograph refers to the Information Technology (IT) Governance as one of the essential factors to reach efficiency and effectiveness on the process of transformation of the Brazilian Army, which intends to modernize its systems and transport itself to the new Digital Era. The objective of this study is to demonstrate that the success of this process depends on mechanisms of the aforesaid governance, taking as a starting point the diagnosis elaborated by the External Control in audits taken place in the scope of government over the last five years. In addition, it should be taken in consideration the professional experience of the author as a Signal Officer, as well as the methodology applied, which was founded on a bibliography and documental research based in two reports of the Tribunal de Contas da União about Information Technology Governance (2007 e 2010), the Control of Objectives for Information and related Technology (COBIT) framework, version 4.1 (Information Technology Governance Institute, 2007) and other works as „‟The Third Wave‟‟ (Alvin Toffler, 2001) and „‟Knowledge in IT‟‟ (Peter Weill and Jeanne W. Ross, 2010). The study deals with as main topics the IT Governance, the process of transformation of the Brazilian Army and „‟Knowledge in IT‟‟ organization (Ibidem), addressing the institutional progresses and retrogrades on the IT area. The conclusion leads towards the preliminary need of elaboration of a specific strategic plan of IT and the effective involvement of the High-Command on the composition of the Army‟s IT Steering Committee. Keywords: Information Technology. IT Governance. Transformation process. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO........................................................................................... 11 2 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 GOVERNANÇA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO …....................... CONCEITOS ADOTADOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA FEDERAL... A IMPORTÂNCIA DA TI E DA SUA GOVERNANÇA …............................. CONTROLE EXTERNO DA GOVERNANÇA DE TI ................................... HISTÓRICO DA GOVERNANÇA DE TI NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A GOVERNANÇA DE TI NO EXÉRCITO .................................................... 14 14 15 18 22 25 3 PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DO EXÉRCITO ............................ 33 3.1 ASPECTOS DO PROCESSO QUE EVIDENCIAM A IMPORTÂNCIA 34 DA GOVERNANÇA DE TI ........................................................................... 3.1.1 Vetor Doutrina …....................................................................................... 34 3.1.2 Vetor Educação e Cultura ….................................................................... 36 3.1.3 Vetor Gestão Corrente e Estratégica ….................................................. 36 4 ORGANIZAÇÃO COM CONHECIMENTO EM TI ….................................. 38 4.1 PROPOSTAS …......................................................................................... 40 5 CONCLUSÃO .....................…................................................................... 41 REFERÊNCIAS …....................................................................................... 44 LISTA DE ABREVIATURAS ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas APF - Administração Pública Federal BDCP - Base de Dados Corporativa de Pessoal BRASSCOM - Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação C&T – Ciência e Tecnologia C2 Cmb - Comando e Controle em Combate C4IVR - Sistema de Comando e Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento CADS - Curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas CBD - Curso de Banco de Dados CCOMGEx - Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica do Exército CDCiber - Centro de Defesa Cibernética do Exército CDS - Centro de Desenvolvimento de Sistemas CEGE - Comitê Executivo de Governo Eletrônico CGSI - Curso de Gestão de Sistemas de Informações CGTI - Curso de Gestão de Tecnologia da Informação CIE - Centro de Inteligência do Exército CIGE - Centro Integrado de Guerra Eletrônica do Exército CISL - Comitê de Implementação do Software Livre CITEx - Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx) CMA – Comando Militar da Amazônia CML - Comando Militar do Leste CMNE - Comando Militar do Nordeste CMO - Comando Militar do Oeste CMP - Comando Militar do Planalto CMSE - Comando Militar do Sudeste COBIT - Control Objectives for Information and related Technology COTIM - Conselho de Tecnologia da Informação da Marinha CPEx – Centro de Pagamentos do Exército CRC - Curso de Redes de Computadores CT&I - Ciência, Tecnologia e Inovação CTPED - Curso de Tecnologia de Processamento Eletrônico de Dados DCT - Departamento de Ciência e Tecnologia DCT - Departamento de Ciência e Tecnologia DCTA - Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial DCTIM - Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha DGP - Departamento-Geral do Pessoal DMCEI - Diretoria de Material de Comunicações, Eletrônica e Informática DOM - Diretoria de Obras Militares DTCEA - Departamento de Controle do Espaço Aéreo DTI - Diretoria de Tecnologia da Informação da Aeronáutica EB - Exército Brasileiro EBCORP - Base de Dados Corporativa do Exército Brasileiro EGTI - Estratégia Geral de Tecnologia da Informação EME - Estado-Maior do Exército END - Estratégia Nacional de Defesa E-PING - Padrões de Interoperabilidade de Governo Eletrônico FA - Forças Armadas GSI - Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República iGovTI - índice de Governança de Tecnologia da Informação IN - Instrução Normativa ITGI - INFORMATION TECHNOLOGY GOVERNANCE INSTITUTE MD - Ministério da Defesa MPOG - Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão NuCDCiber – Núcleo do Centro de Defesa Cibernética do Exército ODF - Open Data Format ODG - Órgão de Direção Geral ODS - Órgão de Direção Setorial OGU - Orçamento Geral da União OM - Organização Militar OPIP - Órgãos Pagadores de Inativos e Pensionistas OPUS - Sistema Unificado do Processo de Obras PEG – Programa de Excelência Gerencial PGP - Gestão por Processos PIB - Produto Interno Bruto PR - Presidência da República QGEx – Quartel-General do Exército. SAF - Secretaria da Administração Federal SC2FTer - Sistema de Comando e Controle da Força Terrestre SCT - Secretaria de Ciência e Tecnologia SecCTM - Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha SE-EB - Sistema de Excelência no Exército Brasileiro SEF - Secretaria de Economia e Finanças SEFTI - Secretaria de Fiscalização de Tecnologia da Informação SGBD – Sistema Gerenciador de Banco de Dados SGE/BSC - Sistema de Gestão Estratégica / Balanced Scorecard SIAPPES - Sistema Automatizado de Pagamento de Pessoal SiCaPEx - Sistema de Cadastramento do Pessoal do Exército SIG - Sistema Integrado de Gestão SIGADEx - Sistema Informatizado de Gestão Arquivística e Documental do Exército SIMATEx - Sistema de Material do Exército SIP - Seção de Inativos e Pensionistas SIPLEx - Sistema de Planejamento do Exército SiPPes - Sistema de Pagamento de Pessoal do Exército SISFRON - Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras SISP - Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática SLTI - Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação SPED - Sistema de Protocolo Eletrônico de Documentos STI - Secretaria de Tecnologia da Informação TC - Tecnologia da Comunicação TCU - Tribunal de Contas da União TI - Tecnologia da Informação TIC - Tecnologia da Informação e Comunicações 11 1 INTRODUÇÃO “A Terceira Onda faz mais do que simplesmente acelerar os fluxos de informação; ela transforma a profunda estrutura de informação de que dependem nossas ações diárias.” (TOFFLER, ALVIN. A Terceira Onda, 25. ed. Rio de Janeiro: Record. p.164, 2001) É incontestável o fato de que as tecnologias da informação (TI) provocaram uma revolução na era industrial e conduzem o mundo para a era do conhecimento, produzindo um grande volume de acontecimentos inusitados. Uma vez que reduziu distâncias espaciais e temporais, com uma velocidade surpreendente, essa era digital trouxe vários benefícios acompanhados de sérias dificuldades: diante da automatização de processos, dos novos modos de se comunicar, da intensificação das relações em diversos níveis e do aperfeiçoamento da capacidade de gestão administrativa e operacional, confrontam-se o aumento do fluxo de informações, a dificuldade de discernimento, o controle de gastos, os riscos associados e a divergência entre os objetivos atingidos e os resultados esperados. Visando superar os óbices apresentados por essa nova realidade, as organizações têm envidado esforços de toda ordem para controlar e dirigir os processos. Na verdade, o que se deseja é obter a capacidade de atingir os objetivos de negócios, aproveitando as oportunidades, contornando os riscos inerentes, aliando a otimização dos investimentos à velocidade requerida pela era da informação. No setor público, a preocupação principal é realizar essa tarefa observando os princípios constitucionais, particularmente os da economicidade e da legalidade. Para isso, o Tribunal de Contas da União (TCU) vem realizando levantamentos, que revelam a existência de grandes desafios relacionados à governança de Tecnologia da Informação (TI) na Administração Pública Federal (APF), ressaltando aspectos referentes ao planejamento estratégico, à segurança da informação, à estrutura de pessoal de TI, ao desenvolvimento de sistemas e a auditorias (TCU, 2007, 2010). Vários problemas foram identificados, merecendo recomendações específicas daquela Corte de Contas, para todo o poder público, com base em referenciais consagrados, de melhores práticas de aceitação internacional. O Exército, instituição interessada na excelência gerencial, participou dos levantamentos, tendo obtido um resultado favorável em comparação com os demais órgãos. Contudo, uma vez que pretende ingressar na era do conhecimento, vivencia 12 um processo de transformação que exigirá um esforço institucional sem precedentes, diante dos novos sistemas e estruturas, que vão desafiar hábitos arraigados e barreiras departamentais existentes, com fluxos de informação cada vez maiores e mais intensos (TOFFLER, 2001). Este trabalho pretende abordar a seguinte questão: em que medida a governança de TI pode contribuir para a consecução dos objetivos do processo de transformação do Exército Brasileiro? Para nortear a pesquisa, estabeleceu-se como objetivo geral estudar esse processo e verificar que a sua eficácia é diretamente proporcional à adoção dos critérios e modelos de governança de TI. À luz dos mecanismos supracitados, foram relacionados quatro objetivos específicos, a saber: Verificar o resultado das ações do Controle Externo no âmbito da administração pública federal. Verificar a situação do Exército referente à TI. Identificar os aspectos do processo de transformação que evidenciam a importância da governança de TI. Descobrir qual o nível de conhecimento sobre TI necessário a uma organização que pretende entrar na Sociedade do Conhecimento. O referencial teórico constitui-se de dois levantamentos sobre governança de TI realizados pelo TCU (2007 e 2010) e da obra “Conhecimento em TI” de Peter Weill & Jeanne W. Ross (2010). A fim de atingir um melhor entendimento do trabalho proposto, esta monografia está organizada em cinco capítulos, incluindo a introdução (capítulo 1) e as considerações finais (capítulo 5). No capítulo 2 serão apresentados uma visão geral da governança de TI, os principais conceitos em vigor, a importância da TI e da sua governança, as ações do Controle Externo relacionadas ao tema, um breve histórico da governança de TI na administração pública e a respectiva situação do Exército. O Capítulo 3 abordará o processo de transformação do Exército, estudando três vetores: Doutrina, Educação e Cultura e Gestão Corrente e Estratégica, de onde serão extraídos os aspectos que evidenciam a importância da governança de TI na transição da Instituição da era industrial para a era do conhecimento, também chamada de era digital ou sociedade da informação (EME, 2010). 13 No Capítulo 4 serão discutidos as principais características de uma organização com “Conhecimento em TI” (WEILL & ROSS, 2010, p.1), relacionandoas com o Exército Brasileiro. São também apresentadas propostas de medidas necessárias ao aperfeiçoamento e ao exercício de uma eficiente governança de TI no Exército Brasileiro, a fim de concluir o processo de transformação com eficácia. 14 2 GOVERNANÇA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO “Onde não há conselhos fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito.” (Provérbios) Governança de Tecnologia da Informação (TI) é um tema de importância estratégica crescente, que vem despertando a atenção dos agentes econômicos em todo o mundo, principalmente empresas e governos, tendo em vista a magnitude dos valores financeiros envolvidos, a característica pervasiva e ubíqua da TI nos diferentes setores da sociedade e o impacto que ela causa nas relações interpessoais, nas atividades das organizações, enfim na governança corporativa. Embora seja relevante, é um conceito ainda desconhecido por atores envolvidos no setor público. No Brasil, a importância desse tema pode ser avaliada pela amplitude das ações do Tribunal de Contas da União, traduzidas pela adequação de sua estrutura organizacional, em 2006, e a realização de levantamentos específicos, no âmbito da APF (TCU, 2007 e 2010), com nítidas repercussões para todos os órgãos públicos, particularmente o Exército Brasileiro, que se encontra em processo de transformação institucional (EME, 2010). 2.1 CONCEITOS ADOTADOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA FEDERAL Tecnologia da Informação (TI) é o termo que designa o conjunto de recursos necessários para realizar a gestão da informação, atividade caracterizada pelas etapas de aquisição, processamento, armazenamento e difusão das informações (ABNT, 2009). Conforme classificação do Information Technology Governance Institute (ITGI), os recursos de TI abrangem aplicativos, informações, infraestrutura e as pessoas, que viabilizam a existência e o funcionamento de sistemas de informações e serviços. (ITGI, 2007, grifo nosso). Embora já definido em norma técnica 1 (ABNT, 2009, apud TCU, 2010), TI é um conceito cujo significado ainda guarda certa ambiguidade. Algumas vezes, envolve apenas os recursos relacionados à tradicional área de informática, em outras, envolve também os da área de comunicações (telecomunicações). A sigla TI abarca também as expressões “Tecnologia da Comunicação (TC)” e “Tecnologia da 1 ABNT. NBR ISO/IEC 38500:2009 – Governança corporativa de tecnologia da informação. 15 Informação e Comunicação (TIC)”, entendimento que é claramente expresso nos levantamentos realizados pelo Controle Externo (TCU), acrescentando que os termos TI e TIC se equivalem, sendo sinônimos (Ibidem). Embora isto ocorra, os termos comunicações e TI são tratados de modos distintos, tanto pelo setor público quanto pelo setor privado, o que será abordado mais adiante. Outros conceitos importantes estão ligados à ubiquidade e pervasividade, características básicas inerentes à TI que a fazem presente em toda a organização, influenciando cada uma das decisões organizacionais, conferindo à governança de TI o atributo de fazer parte da governança corporativa. É o que se pode verificar na visão da Secretaria de Fiscalização de Tecnologia da Informação (SEFTI) do TCU 2: Governança corporativa é o sistema pelo qual as organizações são dirigidas e controladas. Pode ser entendido como o conjunto de ações e responsabilidades exercidas pela alta administração da empresa, órgão ou entidade, com o objetivo de oferecer orientação estratégica e garantir que os objetivos sejam alcançados, com simultânea gerência de riscos e verificação de que os recursos são utilizados de forma responsável. Governança de TI ou governança corporativa de TI é o sistema pelo qual o uso atual e futuro da TI é dirigido e controlado. Significa avaliar e direcionar o uso da TI para dar suporte à organização e monitorar seu uso para realizar os planos. Inclui a estratégia e as políticas de uso da TI dentro da organização. A governança de TI é de responsabilidade dos executivos e da alta direção, consistindo em aspectos de liderança, estrutura organizacional e processos que garantam que a área de TI da organização suporte e aprimore as estratégias e objetivos da organização (TCU, 2010. p.101, grifo nosso). 2.2 A IMPORTÂNCIA DA TI E DA SUA GOVERNANÇA As características básicas inerentes à TI já seriam suficientes para aquilatar a sua importância e concluir sobre a sua influência em todas as expressões do poder nacional. Preliminarmente, os indícios apontam para a predominância da expressão econômica, no entanto, existem bases consistentes que ampliam esse entendimento e identificam outros fatores relevantes, que podem ser constatados. Segundo Walton Alencar Rodrigues, ministro-presidente do TCU, “A TI é o verdadeiro motor das organizações modernas podendo tanto impulsioná-las muito adiante como emperrar o seu progresso” 3 (TCU, 2008, p. 5). Entre outros aspectos, esta afirmação tem suporte nas várias evidências identificadas nas auditorias de TI realizadas na administração pública federal. 2 3 Levantamento de governança de TI 2010. Glossário. Sumários Executivos. Levantamento acerca da Governança de Tecnologia da Informação na Administração Pública Federal. 2008. 16 Em seguida, é preciso destacar que TI é uma função de governo, prevista em lei 4 e abrangida pela função Administração 5, sendo, portanto, alvo permanente das atenções do Controle Externo. Por conta disso, o TCU vem realizando levantamentos e constatando a necessidade de maior controle referente a essa função, tendo em vista o seu aspecto estratégico e o expressivo crescimento da sua despesa associado à dificuldade de identificar as despesas com precisão 6: Do estudo [...], concluiu-se que a estrutura do OGU [Orçamento Geral da União] não permite a identificação precisa dos gastos efetuados pela APF em TI por não conter classificações orçamentárias específicas para todos os tipos de bens e serviços relacionados ao domínio de tecnologia da informação, assim como pela dispersão desses dispêndios nas ações finalísticas e de apoio de cada órgão ou entidade, restando sem identificação parcela significativa dos gastos em TI. A despeito das restrições encontradas, verificou-se que os gastos identificáveis em TI executados pela APF cresceram de 4,2 a 6,5 bilhões de reais, de 2002 a 2006. O estudo indica que o montante real dos gastos em TI pela APF supera o valor mensurado. Os dados levantados revelaram, também, uma predominância dos gastos de TI em serviços. (TCU, 2008, não paginado, grifo nosso). O Relatório do TCU 7 sobre as contas do governo da República, no, exercício de 2008, também registra: “a segunda maior subfunção realizada foi 'Tecnologia da Informação' com 7% do total das 'Subfunções Administrativas' ”, equivalente ao empenho de R$ 4.859.000.000,00 (quatro bilhões e oitocentos e cinquenta e nove milhões de reais) (TCU, 2009, p. 234). Apenas para comparar, a função Comunicações empenhou R$ 531.000.000,00 (quinhentos e trinta e um milhões de reais), enquanto que Ciência e Tecnologia empenhou R$ 5.225.000.000,00 (cinco bilhões, duzentos e vinte cinco milhões de reais) (Ibidem, p. 80). Assim, a garantia da aplicação judiciosa de recursos “se torna cada vez mais importante, tendo em vista que somente na Administração Federal o gasto em TI ultrapassa seis bilhões de reais por ano [...]” (TCU, 2008, p. 2)8. Entretanto, outros aspectos vão além das questões orçamentárias, estando diretamente relacionadas ao papel da governança de TI na segurança e na eficácia governamental, pois “a governança adequada da área de TI na Administração Pública Federal promove a proteção de informações críticas e contribui para que as organizações atinjam seus objetivos institucionais.” (Ibidem). 4 5 6 7 8 Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964. Portaria nº 42, de 14 de abril de 1999, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Acórdão nº 371/2008-TCU. Relatório e pareceres prévios sobre as contas do governo da República: Exercício de 2008 - TCU. Acórdão nº 1603/2008-TCU. 17 Em outro relatório, o TCU relembra a relevância do fator econômico, mas também ressalta o caráter estratégico ampliado pela expressão política 9: a importância da governança de TI no âmbito da APF pode ser aquilatada tanto pela estimativa de gastos em TI para 2010, que é de cerca de R$ 12,5 bilhões, quanto por sua importância estratégica, ao ser amplamente utilizada na condução de políticas públicas suportadas por um orçamento federal de R$ 1,86 trilhão [...]. (TCU, 2010, p. 6, grifo nosso) Para o setor privado, no que concerne ao setor de tecnologia da informação, os aspectos econômicos são aqueles que merecem maior destaque, pois carregam grandes promessas de lucro, apesar de atreladas a problemas complexos. Isto pode ser constatado no estudo elaborado pela Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom) veiculado pelo site da Revista Veja: A Associação [...] (Brasscom) acaba de divulgar números expressivos sobre a área, revelando que, em 2010, o setor movimentou mais 85 bilhões de dólares. É o equivalente a quase 5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. O estudo, elaborado pelo centro de pesquisas IDC, aponta ainda que, se o segmento de telecomunicações for adicionada ao “bolo”, o total pula para 165,69 bilhões, alcançando quase 10% do PIB. A meta para 2020 (sem ajuda de telecomunicações) é elevar o peso do setor para 6,5% do PIB, com faturamento de 200 bilhões de dólares”, [...]. As oportunidades são imensas, mas os desafios também são grandes. O país precisa reduzir os custos da mão de obra, porque eles consomem em torno de 70% das receitas das empresas”, [...]. Os números revelam ainda um detalhe importante. Do faturamento total do setor, 98,5% (ou 163,3 bilhões de dólares) são provenientes do mercado interno. As operações internacionais foram responsáveis por apenas 2,39 bilhões de dólares. No mundo, o setor de TI aliado à área de telecomunicações chegou a 1,5 trilhão de dólares. A cifra deve duplicar até 2020. […] (REVISTA VEJA, 2011, não paginado, grifo nosso). Essa informação confirma a constatação do TCU em seus levantamentos e corrobora as afirmações de que “os gastos com a tecnologia da informação continuarão aumentando em quase todas as empresas”, segundo Weill & Ross (2010, p.13). Porém, as expectativas são alvissareiras e envolvem todas as expressões do poder nacional: maior faturamento para as empresas do setor, novas oportunidades de emprego de mão de obra e maior potencial cientifico e tecnológico, o que pode ser muito favorável ao desenvolvimento da indústria nacional de defesa e, consequentemente, ao aumento do produto interno bruto. Contudo, questões consideradas relevantes em passado recente deverão estar presentes nas mesas de negociação de expressão política, tais como: 9 Levantamento de governança de TI 2010. 18 formulação de políticas públicas para incentivo ao crescimento do setor; redução de impostos e tarifas de importação que impactam os custos de produção e o acesso às tecnologias de informação; proteção da propriedade intelectual; flexibilização das leis trabalhistas; existência de um marco regulatório claro e transparente. (Jornal O Estado de São Paulo, 2004). Por sua vez, o Information Technology Governance Institute (ITGI), entidade de referência internacional em governança de TI, destaca em seu modelo 10: a necessidade da avaliação do valor de TI, o gerenciamento dos riscos relacionados à TI e as crescentes necessidades de controle sobre as informações são agora entendidos como elementos-chave da governança corporativa. Valor, risco e controle constituem a essência da governança de TI. (ITGI, 2007, p.7, grifo nosso). Como pode ser constatado, as características básicas da TI, o seu caráter de função de governo, a complexidade das questões envolvidas entre os setores público e privado, a magnitude dos recursos empregados nas esferas governamentais e a tendência de crescimento da sua despesa alimentam as expectativas do empresariado e projetam a real dimensão da importância da governança de TI como instrumento essencial da governança corporativa, particularmente no âmbito da administração pública federal. 2.3 CONTROLE EXTERNO DA GOVERNANÇA DE TI Continuando com o ministro-presidente Walton Alencar Rodrigues, após destacar a importância da TI, ele ressalta o papel preponderante do TCU como indutor do aperfeiçoamento do nível da gestão pública, tendo em foco que “Um dos grandes desafios da Administração Pública Federal na atualidade é a elevação do seu grau de governança” (TCU, 2008, p. 5). Depois, afirma que a governança de TI é essencial para conseguir o aperfeiçoamento dessa área e informa os motivos que levaram o TCU a modificar a sua estrutura, nos seguintes termos: A dimensão estratégica da tecnologia da informação (TI), a complexidade de sua gestão, o aumento dos gastos públicos com TI na administração pública e a quantidade crescente de denúncias e representações sobre aquisições nessa área, levaram, no final de 2006, à criação da Secretaria de Fiscalização de TI (Sefti). (Ibidem). 10 Control Objectives for Information and related Technology (COBIT) 4.1. ed. 2007. 19 Logo após, estabelece o propósito do novo órgão e as demandas que exigem a consistência do trabalho a empreender: A Sefti tem por finalidade fiscalizar a gestão e o uso de recursos de TI pela Administração Pública Federal (APF) e induzir melhorias na governança de TI e, conseqüentemente, sua modernização e aperfeiçoamento. Para tanto, é necessário se obter informações acerca da situação da governança de TI na APF para identificar corretamente o quê e como fiscalizar e aumentar a eficiência e eficácia de suas ações. (Ibidem). Desde então, o TCU vem realizando auditorias relacionadas à Tecnologia da Informação no âmbito da APF, destacando-se as seguintes decisões: Acórdão nº 435/2007, que autorizou a realização de levantamentos para “coletar informações acerca dos processos de aquisição de bens e serviços de TI, de segurança da informação, de gestão de recursos humanos de TI, e das principais bases de dados e sistemas da Administração Pública Federal.” (TCU, 2007). Acórdão nº 371/2008, sobre levantamento dos gastos em TI na APF e referência de preços nas aquisições de bens e serviços de TI. (TCU, 2008). Acórdão nº 1603/2008 e Acórdão nº 2.308/2010, ambos sobre governança de TI no âmbito da APF (TCU, 2008, 2010). O Acórdão nº 1603/2008, baseado no levantamento realizado em 2007, revelou a existência de várias lacunas relacionadas às áreas de foco da governança de TI, tais como, planejamento estratégico, comitê diretivo, estrutura de pessoal, segurança da informação, desenvolvimento de sistemas e auditoria, entre vários outros aspectos. (TCU, 2008). Quanto ao planejamento estratégico de TI, o critério adotado estabelece que “deve indicar os projetos e serviços de TI que receberão recursos, os custos, as fontes de recursos e as metas a serem alcançadas” (Ibidem, p. 5), acrescentando que isto “Deve ser uma atividade regular e os documentos resultantes devem ser aprovados pela alta administração” (Ibidem). Entretanto, foi constatado que a grande maioria (59%) das instituições declarou não realizar este planejamento, contrariando a norma que o encara como “essencial para que as organizações possam identificar e alocar corretamente os recursos da área de TI de acordo com as prioridades institucionais e com os resultados esperados” (Ibidem, p. 7), e considera que a sua inexistência ”leva ao enfraquecimento das ações e da própria área de TI devido à descontinuidade dos projetos e conseqüente insatisfação dos usuários e resultados abaixo do esperado.” (Ibidem, grifo nosso). 20 Grave, também, foi a constatação de que 68% declarou não possuir o comitê diretivo multissetorial responsável por decidir sobre as estratégias de TI, “o que demonstra a pouca importância dada à participação de todos os setores da organização nas decisões estratégicas de TI” (Ibidem), sendo realçado que “A existência do comitê diretivo de TI, aliada aos planejamentos estratégicos institucionais e de TI, constitui instrumento valioso no direcionamento dos investimentos de TI e no combate ao desperdício de recursos.” (Ibidem, grifo nosso). O pior desempenho foi percebido nas questões sobre segurança da informação, constatando-se a inexistência de controles adequados em TI, como uma política correspondente, ausente em 64% dos casos. Situação análoga se verificou em relação ao plano de continuidade de negócios e à gestão de mudanças, prejudicados pela maioria de respostas negativas, sendo ambos relacionados diretamente com a disponibilidade dos serviços de TI (TCU, 2008). Assim, além das diversas recomendações proferidas no Acórdão e a fim de orientar os órgãos nessa área, o TCU elaborou a "Cartilha de Segurança da Informação” (Ibidem). Quanto ao desenvolvimento de sistemas de informação, mais da metade (51%) declarou não possuir metodologia e a gestão de níveis de serviço ainda é pífia, apenas 11% a consideram nos serviços prestados internamente, e somente 26% o fazem para os serviços contratados (Ibidem). Outros aspectos também deixaram muito a desejar, entre os quais se incluem o processo formal de contratação de TI e a gestão dos respectivos contratos, que na maioria dos casos não exige a transferência de conhecimento dos prestadores de serviço aos servidores públicos (Ibidem). A circunstância agravante desse quadro é a constatação de que 60% das instituições pesquisadas não realizaram auditorias de TI nos cinco anos anteriores ao levantamento e os que realizaram não o fizeram de modo contínuo, o que prejudica o aperfeiçoamento da governança de TI (Ibidem). É importante destacar que o Exército ainda não possui comitê diretivo nem plano estratégico de TI em conformidade com as exigências do Acórdão em tela. Por sua vez, o Acórdão nº 2.308/2010 baseou-se no “Levantamento de Governança de TI 2010”, que revelou a ocorrência de leve progresso em relação à 2007, porém mostrou que a preocupante (TCU, 2010). situação da governança de TI na APF ainda é 21 Uma vez que o TCU (2010, p. 36) considera a adoção de indicadores de gestão “uma prática que contribui para o aperfeiçoamento da gestão pública e consequente melhoria da prestação dos serviços públicos”, nesse levantamento, a SEFTI introduziu uma inovação para avaliar as instituições pesquisadas. Baseada em fórmula própria, criou o índice de governança de TI (iGovTI) e obteve o seguinte resultado (Ibidem, p. 37): Estágio Índice iGovTI Distribuição Inicial 0,0 a 0,39 57% Intermediário 0,4 a 0,59 38% Aprimorado 0,6 a 0,84 5% Quadro 1: Distribuição das instituições respondentes por estágio de governança. Fonte: Tribunal de Contas da União Segundo a SEFTI, A métrica de governança adotada no presente levantamento, denominada iGovTI, combina elementos de três fontes: (a) o Cobit 4.1, já citado, que é adotado mundialmente para avaliação de governança de TI; (b) o Gespública, com avaliações anuais, é adotado no Brasil como modelo de excelência em gestão pública; (c) o levantamento de governança realizado pelo TCU em 2007, que resultou no Acórdão nº 1.603/2008-TCUPlenário. Optou-se pela combinação dessas três fontes como forma de melhorar a sustentação do método adotado e de acelerar o seu amadurecimento. (Ibidem) Após uma análise crítica do relatório, o Tribunal determinou à SEFTI que “desenvolva ações de estímulo à conscientização da alta administração das instituições que compõem a Administração Pública Federal acerca do tema 'Governança de TI' ” (Ibidem, p. 37), e à Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação, do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (SLTI/MPOG) recomendou “que no âmbito de suas respectivas áreas de atuação” (Ibidem, p. 44) 9.1.1. orientem as unidades sob sua jurisdição, supervisão ou estrutura acerca da necessidade de estabelecer formalmente: (i) objetivos institucionais de TI alinhados às estratégias de negócio; (ii) indicadores para cada objetivo definido, preferencialmente em termos de benefícios para o negócio da instituição; (iii) metas para cada indicador definido; (iv) mecanismos para que a alta administração acompanhe o desempenho da TI da instituição; 9.1.2. normatizem a obrigatoriedade de a alta administração de cada instituição sob sua jurisdição, supervisão ou estrutura estabelecer os itens acima; (Ibidem). Do exposto, verifica-se que as recomendações do Controle Externo, desde 2007, não surtiram o efeito desejado no âmbito da administração pública federal. 22 2.4 HISTÓRICO DA GOVERNANÇA DE TI NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA Muitas iniciativas foram adotadas no âmbito do poder público, no entanto serão citadas apenas as principais, que estão relacionadas diretamente ao Poder Executivo. Em 1994, por meio de decreto 11 , foi criado o Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática (SISP), na esfera da APF, tendo como órgão central a Secretaria da Administração Federal (SAF) da Presidência da República, com a ressalva de que as Forças Armadas são participantes facultativos do sistema (BRASIL, 1994). Posteriormente, por lei 12 , a SAF foi substituída pelo MPOG, que passou a gerir esse sistema por meio da SLTI, com a responsabilidade de propor as orientações de governança de TI para o setor público (BRASIL, 2003). Em 2000, foi criado o Comitê Executivo de Governo Eletrônico (CEGE) 13 , “com o objetivo de formular políticas, estabelecer diretrizes, coordenar e articular as ações de implantação do Governo Eletrônico, voltado para a prestação de serviços e informações ao cidadão” (BRASIL, 2000, não paginado), sendo as atribuições de Secretaria-Executiva exercidas pelo MPOG, que provê apoio ao comitê por meio da SLTI (BRASIL, 2000). Em 2003, no âmbito do CEGE, foram criados 8 (oito) Comitês Técnicos 14 : Inclusão Digital, Gestão de Sítios e Serviços On-line, Integração de Sistemas, Infraestrutura de redes, Gestão do Conhecimento e Informação Estratégica, Governo para Governo, Sistemas Legados e Licenças de Software e Comitê de Implementação do Software Livre [CISL] (BRASIL, 2003, não paginado) O Ministério da Defesa e o Comando de cada Força têm representantes nesses comitês, notadamente no CEGE e no CISL 15 . Este último congrega várias comunidades virtuais onde se destaca a Comunidade SPED, referente ao Sistema de Protocolo Eletrônico desenvolvido pelo Exército. Em 2005, no âmbito do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática (SISP), a SLTI institucionalizou, via portaria normativa, os Padrões de Interoperabilidade de Governo Eletrônico (e-Ping), cuja arquitetura 11 12 13 14 15 Decreto nº 1.048, de 21 de janeiro de 1994. Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003. Decreto de 18 de Outubro de 2000. Decreto de 29 de Outubro de 2003. Comitê de Implementação do Software Livre (CISL) 23 define um conjunto mínimo de premissas, políticas e especificações técnicas que regulamentam a utilização da Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) no governo federal, estabelecendo as condições de interação com os demais Poderes e esferas de governo e com a sociedade em geral. (MPOG, 2005, não paginado) Em 2007 e 2008 o TCU realizou levantamentos sobre governança de TI na APF e expediu acórdãos com recomendações aos diversos órgãos e entidades da APF, acerca da situação da gestão e do uso de TI, com destaque para o Acórdão 1603/08, onde configurou-se a elevada vulnerabilidade no trato da segurança da informação (TCU, 2008). Em consequência, atendendo à determinação do TCU, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) expediu Instrução Normativa (IN) referente ao tema, com a liberação gradual de normas complementares. (GSI, 2008) 16. Nesse contexto, o MPOG expediu a IN nº 04 serviços de TI, e a Portaria nº 11 17 , sobre contratação de 18 , que aprovou a Estratégia Geral de TI (EGTI), cujo objetivo é estabelecer as bases para a transição entre a situação atual de gestão dos ambientes de informática do Executivo Federal – heterogênea e em geral vulnerável, conforme apontado no Acórdão 1603/08 – e o pleno cumprimento da Instrução Normativa nº 04/2008-MPOG. (MPOG, 2008, não paginado). Esses atos normativos constituiriam os alicerces para o modelo de governança do SISP, servindo inicialmente como contrato de objetivos entre os integrantes do sistema para alcançar a necessária eficiência do ambiente de TI. (Ibidem). Ainda em dezembro de 2008, foi instituída a Estratégia Nacional de Defesa que considera os setores cibernético, espacial e nuclear como de importância estratégica, imprescindíveis para a defesa nacional (BRASIL, 2008). Em 2010, o TCU realizou novo levantamento sobre governança de TI na APF, concluindo que houve melhoras, mas que ainda há espaço para aperfeiçoamentos (TCU, 2010). O MPOG expediu instrução, dispondo sobre o processo de contratação de Soluções de Tecnologia da Informação pelos órgãos do 16 17 18 Instrução Normativa nº 01-GSI/PR, de 13 de junho de 2008, sobre Segurança da Informação e das Comunicações na Administração Pública Federal, direta e indireta. Instrução Normativa nº 04, de 19 de maio de 2008, sobre o processo de contratação de serviços de TI pela Administração Pública Federal, direta, autárquica e fundacional. Portaria nº 11, de 30 de dezembro de 2008, sobre a Estratégia Geral de Tecnologia da Informação (EGTI), no âmbito do Sistema de Administração dos Recursos de Informação e Informática (SISP). 24 Poder Executivo Federal, integrantes do SISP, revogando a IN nº 04, de 2008 19. Em 2011, a SLTI lançou a primeira versão do Guia para a criação e funcionamento do Comitê de TI, em conformidade com a EGTI e com os Acórdãos nº 1603/2008 e 2308/2010, para orientar os órgãos da APF na adoção dos mecanismos de governança de TI ( MPOG, 2011). No âmbito do Ministério da Defesa, o histórico da governança de TI registra a evolução das estruturas de TI, com alterações bastante recentes e que foram estabelecidas de modo diferenciado, em cada Força, conforme pode ser verificado no quadro a seguir: Função/Subfunção Comunicações (Telecomunicações) Tecnologia da Informação Ciência e Tecnologia Marinha Conselho de TI da Marinha (2007) e Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM)(2008) Exército Aeronáutica Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DTCEA) (2001) Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) (2005) Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha (SecCTM) (2008) Diretoria de Tecnologia da Informação da Aeronáutica (2010) Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (2009) Quadro 2: Estruturas do nível estratégico dos Comandos das Forças Armadas referentes à Tecnologia da Informação e à Ciência, Tecnologia e Inovação. Fonte: Comando da Marinha, Comando do Exército, Comando da Aeronáutica Em 2005, o Exército extinguiu a Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) e a Secretaria de Ciência e Tecnologia (SCT), fundindo-as num único órgão setorial, o Departamento de Ciência e Tecnologia 20 , para tratar simultaneamente de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) e Tecnologia da Informação (BRASIL, 2005). As outras Forças adotaram uma posição diversa, criando órgãos setoriais específicos para tratar dessas funções de governo. Desde 2007, a Marinha possui um órgão consultivo, composto pelo Almirantado, que decide sobre as questões referentes à governança de TI: o 19 20 Instrução Normativa nº 04, de 12 de novembro de 2010, sobre o processo de contratação de Soluções de TI pelos órgãos integrantes do SISP, do Poder Executivo Federal, Decreto nº 5.426, de 19 de abril de 2005. 25 Conselho de Tecnologia da Informação da Marinha (COTIM) (AMARO, 2010). Em decorrência da modernização e reestruturação do setor de TI, em 2008, foi criada a Diretoria de Comunicações e Tecnologia da Informação da Marinha (DCTIM) 21 , reunindo em um único órgão especializado a orientação da governança de TI na Força (MB, 2010). Porém, CT&I é tratada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Marinha (SecCTM) (Idem, 2011) 22 . Na Aeronáutica, CT&I encontra-se na esfera de atribuição do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), criado em 2009, enquanto que TI é apropriadamente tratada pela Diretoria de Tecnologia da Informação (DTI), criada em 2010 (COMAER, 2009, 2010) 23 . 2.5 A GOVERNANÇA DE TI NO EXÉRCITO Ao longo do tempo, para conduzir de modo adequado as questões referentes à TI, o Estado-Maior do Exército (EME) assumiu vários posicionamentos traduzidos na aprovação de diretrizes, elaboração de instruções, normas e metodologias relacionadas ao tema. Contudo, a área de tecnologia da informação do Exército é marcada por situações de avanço e retrocesso e isto se deve, em boa parte, ao fato de ser essa uma área onde a palavra de ordem é mudança, o que exige continuamente a necessidade de adaptação das estruturas e da cultura institucionais. Em 1997, um fato marcante para o então Ministério do Exército foi a criação da Secretaria de Tecnologia da Informação (STI), órgão de direção setorial constituído por transformação da Vice-Chefia de Comunicações, Eletrônica e Informática (BRASIL, 1997) 24 . A Secretaria iniciou suas atividades tendo-lhe subordinados o Centro Integrado de Telemática do Exército (CITEx), o Centro de Desenvolvimento de Sistemas (CDS), a Diretoria de Material de Comunicações, Eletrônica e Informática (DMCEI) e o Centro Integrado de Guerra Eletrônica do Exército (CIGE), atual Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica (CCOMGEx) (CDS, 2011). Como citado anteriormente, em 2005, o Exército extinguiu a Secretaria 21 22 23 24 Boletim de notícias, de 18 de janeiro de 2010, do Comando da Marinha. Portaria nº 115/MB, de 31 de março de 2008. Decreto nº 6.834, de 30 abr. 2009, e Decreto nº 7.069, de 20 jan. 2010. Decreto nº 2.425, de 17 dez. 1997, revogado pelo Decreto nº 5.426, de 19 abr. 2005, que criou o DCT, pela fusão STI-SCT. 26 de Tecnologia da Informação (STI) dando lugar ao Departamento de Ciência e Tecnologia (BRASIL, 2005). Uma vez definida a estrutura, verificou-se a necessidade de especialização de recursos humanos, para cumprir a missão nas condições mais favoráveis, o que foi feito, em 1999, com a expedição de portarias, criando os cursos, discriminados a seguir 25: Portaria nº 120 -EME, de 17 de dezembro de 1999: cria o Curso de Tecnologia de Processamento Eletrônico de Dados (CTPED); Portaria nº 121 -EME, de 17 de dezembro de 1999: cria o Curso de Gestão de Sistemas de Informações (CGSI); Portaria nº 122 -EME, de 17 de dezembro de 1999: cria o Curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas (CADS); Portaria nº 124 -EME, de 21 de dezembro de 1999: cria o Curso de Banco de Dados (CBD); Portaria nº 125 -EME, de 21 de dezembro de 1999: cria o Curso de Redes de Computadores (CRC); Portaria nº 126 -EME, de 21 de dezembro de 1999: cria o Curso de Gestão de Tecnologia da Informação (CGTI). (EB, 2000, não paginado). No que se refere à Segurança da Informação, o EME expediu Portaria, aprovando as Instruções Gerais de Segurança da Informação para o Exército Brasileiro (IG 20-19), em conformidade com as orientações governamentais constantes de políticas e diretrizes de TI, para a APF 26 (BRASIL, 2001). Com relação ao desenvolvimento de sistemas, as situações de avanço e retrocesso também se fizeram presentes. Até 2002, alguns projetos de sistemas de informação relacionados à atividade de comando e controle foram desenvolvidos e descontinuados, sendo o caso dos projetos PAMO e RUVICHÁ 27 , (LEAL, 2002, p.66), que não chegaram a ser implantados institucionalmente. Atualmente, está sendo desenvolvido o Projeto Comando e Controle em Combate (C2 Cmb), “a principal ferramenta de software para apoiar o Sistema de Comando e Controle da Força Terrestre (SC2FTer)”, cujo software encontra-se na versão 4.0 (Beta 5). (CDS, 2011). Outro caso emblemático é o Sistema de Material do Exército (SIMATEX) 28: 25 26 27 28 Boletim do Exército n° 01, de 7 jan. 2000. Criação dos Cursos CTPED, CGSI, CADS, CBD, CRC e CGTI. Portaria nº 483, de 20 set. 2001. Boletim do Exército nº 39, de 28 set. 2001. Projeto PAMO - sistema de Processamento Automático de Mensagens Operacionais. Projeto RUVICHÁ - sistema operacional de comando, controle, comunicações e inteligência. SIMATEX. Portaria nº 017-EME, 8 mar. 2007. Boletim do Exército nº 011, 16 mar. 2007. p.10. 27 um sistema corporativo de desenvolvimento contínuo e evolutivo, [...], que busca, por meio da utilização de recursos de tecnologia da informação, integrar processos, procedimentos, métodos, rotinas e técnicas, destinadas à produção de conhecimentos com qualidade e oportunidade necessários ao controle automatizado e ao gerenciamento de todos materiais no âmbito do Exército Brasileiro.(EME, 2007, não paginado) Como resultado da definição desse “sistema corporativo de desenvolvimento contínuo e evolutivo” (Ibidem), o SIMATEX sofreu várias alterações, desde a sua implantação, em 2000, e ainda não foi concluído. Outro fato marcante ocorreu em 2004. Uma auditoria do TCU identificou irregularidades no Sistema Automatizado de Pagamento de Pessoal (SIAPPES), acarretando a expedição do Acórdão 782/2004-TCU-Primeira Câmara, que recomendou a modernização do sistema existente, tendo em vista os seguintes aspectos registrados no relatório da auditoria: insuficiência de segurança do sistema; estrutura organizacional inadequada; falta de segregação de funções; treinamento insuficiente do pessoal técnico; ausência de políticas de segurança, de regulamentação formal e de plano de contingências; descontrole no acesso aos sistemas e às instalações; ausência de análise de relatórios de acesso; tratamento impróprio de arquivos de backup; inexistência de controle de versões de programas e de alterações nas bases de dados. (TCU, 2004, não paginado). Em consequência, várias providências foram adotadas para corrigir os problemas identificados, conforme registra a tomada de contas anual de 2006. (CPEx, 2007). Além disso, um novo sistema foi desenvolvido para substituir o SIAPPES. Incorporando mecanismos de segurança de alta confiabilidade, o Sistema de Pagamento de Pessoal do Exército (SiPPes), que encontra-se em fase de implantação, estará totalmente integrado à base de dados corporativa do Exército (CDS, 2011). Quanto à integração de sistemas, é de conhecimento amplo no público interno que os sistemas corporativos e específicos dos órgãos de direção setorial, na sua grande maioria, foram configurados para atender a necessidades e objetivos dos níveis estratégico e gerencial e, por não gerarem relatórios de interesse do nível tático, são inservíveis para as Organizações Militares (OM). Essa realidade impôs às unidades a criação de pequenos sistemas paralelos para o gerenciamento local dos mesmos dados, acarretando multiplicidade de sistemas específicos semelhantes, acarretando graves problemas de consistência das bases de dados. Uma solução para este problema surgiu, em 2007, com o estabelecimento do Sistema de Excelência no Exército Brasileiro (SE-EB), como suporte às decisões 28 do Comandante e do Alto-Comando do Exército (EB, 2007). Conforme a Portaria instauradora, o SE-EB abrange quatro projetos principais: “Sistema de Gestão Estratégica / Balanced Scorecard (SGE/BSC); Sistema Integrado de Gestão (SIG); Gestão por Processos (PGP); e Consolidação do PEG-EB” 29. (EB, 2007, não paginado). O projeto SIG tem o objetivo de implantar um sistema nos órgãos da alta administração, “visando a integrar os sistemas corporativos existentes no Exército, utilizando inicialmente áreas piloto” (Ibidem). No entanto, a envergadura do projeto aliada à inexistência de um comitê diretivo de TI institucional contribuíram para que a sua implementação não ocorresse com a velocidade desejada: a diretriz de implantação foi aprovada um ano depois 30 e os resultados mais expressivos só apareceram em 2010, em consequência de uma reunião multissetorial decisiva, realizada em 2009, para definir o tipo de software a ser utilizado, se proprietário ou de fonte aberta. Dessa reunião participaram oito oficiais generais e representantes do EME, incluindo este autor, e dos órgãos de direção setorial (ODS) diretamente interessados, a saber: o Departamento-Geral do Pessoal (DGP), a Secretaria de Economia e Finanças (SEF), o DCT e o CDS (Informação verbal) 31. Após a concepção básica do projeto SIG, a sua abrangência e a expectativa da alta administração, de agilizar a implementação, confrontaram as recomendações da orientação normativa (IN 04/MPOG), que preconiza o uso preferencial do software livre, e que, caso fossem adotadas, demandariam maior tempo para a entrega do produto final. Assim sendo, naquela reunião, três linhas de ação foram identificadas e apresentadas aos oficiais generais que optaram pela proposta baseada em software proprietário, decisão levada à consideração do Chefe do EME. (Ibidem). Este fato deixou manifesta a necessidade da existência de um Conselho Superior de Tecnologia da Informação no Exército. A diretriz de implantação citada elegeu como área piloto a de pessoal, permitindo também a inclusão de Obras Militares e Patrimônio (EB, 2008). Desde então, o Exército vem priorizando o Sistema de Pessoal do Exército, que a partir do mês de outubro de 2011, disponibilizará o novo Sistema de Cadastramento do 29 30 31 Portaria nº 220, de 20 de abril de 2007. Boletim do Exército n. 17, 27 abr. 2007, p.13. PEG-EB - Programa de Excelência Gerencial do Exército Brasileiro. Portaria nº 385, de 9 de junho de 2008. Boletim do Exército n. 24, 13 jun. 2008, p.9. Reunião realizada no auditório da 7ª Subchefia do EME. Brasília. 2009. 29 Pessoal do Exército (SiCaPEx) 32, “a única porta de entrada” para a Base de Dados Corporativa de Pessoal (BDCP), (EB, 2011, não paginado), o que contribuirá sensivelmente para a consistência das informações armazenadas. Para o DGP, “BDCP: é a base de dados unificada, constituída pelo conjunto de informações de todo o pessoal vinculado à Força, da ativa e das SIP/OPIP, administrada pelo Departamento-Geral do Pessoal (DGP)” (Ibidem, grifo nosso) 33 . Há destaque também para o Projeto EBCORP. Segundo o CDS A Base de Dados Corporativa do Exército Brasileiro (EBCORP) representa um avanço significativo para a organização, uma vez que disponibiliza para todos os seus usuários, distribuídos pelo território nacional e exterior, uma base de dados única de pessoal, material, e outras categorias de informação, eliminando problemas de duplicidade de informação em bases de dados diferentes, e consequentemente, diminuindo inconsistências e fornecendo dados de qualidade para todos os níveis de decisão. (CDS, 2011, não paginado, grifo nosso). Nesse contexto, também se inclui o Sistema Unificado do Processo de Obras (OPUS), um sistema de apoio à decisão que visa dar suporte às várias atividades relacionadas às obras e serviços de Engenharia, perpassando todos os níveis institucionais, envolvendo os órgãos do Sistema de Obras Militares (OPENGEO, 2009). Conforme a empresa OpenGEO, Todos os módulos são capazes tratar informações georreferenciadas. Todos os componentes (bibliotecas, softwares, SGBDs, etc) utilizados no desenvolvimento da solução são de código aberto (software livre). Os conceitos que fundamentaram a forma de desenvolvimento do sistema OPUS são tão avançados que influenciou diversos outros projetos no Governo Federal, dando uma grande visibilidade para os trabalhos da Diretoria de Obras Militares (DOM). (OPENGEO, 2009, não paginado) Também, deve receber destaque o Projeto Certificação Digital, cujo objetivo é implantar uma Infraestrutura de Chaves Públicas “para dar agilidade e segurança à comunicação oficial, bem como, presunção de validade jurídica às transações eletrônicas e documentos eletrônicos do EB” (CDS, 2011, não paginado). No que diz respeito ao gerenciamento eletrônico de documentos, atualmente existem vários sistemas em funcionamento, caracterizados pela falta de documentação e de interoperabilidade. Entretanto, encontra-se em avançado estágio de desenvolvimento, no CDS, o Sistema Informatizado de Gestão Arquivística e Documental do Exército (SIGADEx), que permitirá, entre outras vantagens, a padronização de procedimentos operacionais e a eficiente troca de 32 33 Portaria nº 581, de 12 de setembro de 2011. Boletim do Exército nº 37, 16 set. 2011. p.13. SIP - Seção de Inativos e Pensionistas; OPIP - Órgãos Pagadores de Inativos e Pensionistas. 30 documentos entre organizações, por meio de um de seus módulos, o Sistema de Protocolo Eletrônico de Documentos (SPED) (CDS, 2011). Quanto à orientação governamental referente ao Software Livre, o Plano de Migração para Software Livre 34 , já na sua 4ª versão, apresenta dificuldade de implementação efetiva, conforme retratado pela tabela 1, e isto deve-se à existência de sistemas corporativos e específicos, utilizados pelo escalão superior, que são executados apenas em plataformas proprietárias, o que vem causando dificuldades às organizações militares que buscam atingir às metas estabelecidas. Tabela 1: Situação do Plano de Migração do Exército (em setembro de 2011). SITUAÇÃO CMA35 CMNE CMO CML CMSE CMP QGEx Total Migração finalizada 9,78 12,35 9,52 7,09 7,89 10,81 7,89 9,33 Em andamento 46,74 70,37 71,43 48,23 55,26 89,19 42,11 60,48 Não informada 43,48 17,28 19,05 44,68 36,84 0,00 50,00 30,19 Fonte: Comando do Exército (Departamento de Ciência e Tecnologia). Outro fato digno de nota diz respeito à implantação do setor cibernético. Em junho de 2009, o Comandante do Exército expediu uma Portaria 36 Reservada, instituindo o setor cibernético no Exército Brasileiro. Manifestou, também, ao escalão superior, a intenção da Força prover a OM encarregada de desenvolver a capacitação cibernética, conforme preconiza a Estratégia Nacional de Defesa, e que o Exército fosse reconhecido como a principal instituição responsável pela condução do setor cibernético, no âmbito da Defesa (EB, 2010). Em consequência, o Ministro da Defesa (BRASIL, 2009) 37 atribuiu ao Exército essa responsabilidade e o Comandante do Exército expediu duas Portarias,38 criando o Centro de Defesa Cibernética do Exército (CDCiber) e ativando o seu Núcleo (Nu CDCiber) (EB, 2010). 34 35 36 37 38 Portaria nº 011-DCT, de 29 de março de 2010. Boletim do Exército nº 17, de 30 de abril de 2010. CMA – Comando Militar da Amazônia; CMNE - Comando Militar do Nordeste; CMO - Comando Militar do Oeste; CML - Comando Militar do Leste; CMSE - Comando Militar do Sudeste; CMP Comando Militar do Planalto; e QGEx – Quartel-General do Exército. Portaria nº 003-RES, de 29 de junho de 2009. Portaria Ministerial nº 014-MD, de 29 de novembro de 2009. Portaria nº 666, de 4 de agosto de 2010, que criou o CDCIBER, e Portaria nº 667, de 4 de agosto de 2010, que ativou o NuCDCiber. Boletim do Exército nº 31, 6 ago. 2010. Disponível em: <http://www.sgex.eb.mil.br/sistemas/be/boletins.php>. Acesso em: 20 ago. 2011. 31 No que se refere à política de governo eletrônico, em 2009, o Exército tornou-se signatário do Protocolo Brasília, instrumento legal que preconiza a adoção do padrão Open Data Format (ODF) para intercâmbio de documentos digitais entre os órgãos de governo, o que constitui um importante passo em direção à melhoria da eficiência dos processos de TI na Força 39. Quanto aos resultados do Controle Externo referente às ações de TI, em maio de 2010, o Exército recebeu o relatório de governança de TI (TCU, 2010), contendo os resultados individuais e comparativos da Instituição, no âmbito da APF, em que o Exército alcançou o índice de governança de TI (iGovTI) = 0,52, posicionando-se no estágio intermediário, acima da média geral (iGovTI = 0,39), dentre 265 Instituições. O resultado institucional apresentado fundamentou-se apenas nas respostas declarativas obtidas por meio do questionário do levantamento. No entanto, por determinação contida no Acórdão Nr 2.308 / 2010 TCU - Plenário, as informações continuarão a ser atualizadas pela SEFTI com base em dados complementares ou à medida que se obtenham evidências que possam ensejar mudanças em algum aspecto avaliado (Ibidem). O fato mais recente relacionado à área de TI, e de grande importância institucional, tanto no aspecto operacional quanto administrativo, com nítida repercussão para o setor governamental, refere-se ao desenvolvimento do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON). Segundo o DCT 40, o SISFRON é um sistema de Comando e Controle, Comunicações, Computação, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (C4IVR) que visa dotar o EB dos meios necessários para exercer o monitoramento e o controle contínuo e permanente de áreas de interesse no Território Nacional, particularmente da faixa de fronteira terrestre brasileira. (DGP, 2011, não paginado). Concluindo parcialmente, percebe-se que o Exército tem investido esforços consideráveis na construção de sua plataforma digitalizada, o que pode ser constatado pela envergadura e abrangência dos projetos e sistemas em desenvolvimento, como C2CMB, SIPPES, SIG, SiCaPEx, EBCORP, OPUS, Certificação Digital, SPED, SISFRON, e SIGADEx. Embora o EME venha se posicionando favoravelmente para enfrentar as questões correlatas, a área de TI tem experimentado movimentos de avanços e retrocessos. A responsabilidade pelo 39 40 Disponível em: <http://www.governoeletronico.gov.br/noticias-e-eventos/noticias/presidente-lula-dizque-brasil-sera-o-paradigma-do-uso-de-software-livre-nomundo/?searchterm=Protocolo%20Bras%C3%ADlia>. Acesso em: 20 ago. 2011. Informativo InfoDCT n° 01. Edição de Agosto de 2011. 32 setor cibernético deverá exigir maior consistência estrutural e cultural da instituição que ainda não possui um Comitê diretivo para as ações de TI e nem um Plano Estratégico de TI, conforme a orientação do TCU e do modelo de boas práticas, consagrado internacionalmente. 33 3 PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DO EXÉRCITO Trata-se, portanto, de um processo que proporcionará condições para levar o Exército ao patamar de força armada de país desenvolvido e ator mundial, capaz de se fazer presente, com a prontidão necessária, em qualquer ponto da área de interesse estratégico do Brasil. (EME, 2010, p. 44) Desde junho de 2010, encontra-se em implantação o processo de transformação do Exército, que tem a finalidade de modernizar os sistemas da Instituição, reestruturá-la dentro dos limites orçamentários e conduzi-la para a era digital. Esse processo foi estimulado pelo advento da Estratégia Nacional de Defesa e, além da expressão militar do poder nacional, contou com a participação de diversos setores da sociedade, valendo-se das contribuições de vários especialistas, civis e militares, no Brasil e no exterior, e de experiências de outras nações, como Chile e Espanha (EME, 2010). Com a finalidade de orientar o planejamento das atividades relacionadas ao processo em questão, o Chefe do Estado-Maior do Exército expediu uma Portaria 41, estabelecendo um cronograma geral com três fases: (Ibidem) preparação (até 31 de dezembro de 2011); experimentação e implantação (até 31 de dezembro de 2014); transformação propriamente dita (a partir de 1º de janeiro de 2015). Para atingir o objetivo colimado, o EME elegeu seis vetores: “Doutrina; Preparo e Emprego; Educação e Cultura; Gestão de Recursos Humanos; Gestão Corrente e Estratégica; C&T e Modernização do Material; e Logística”, sendo estes os “eixos que orientarão todas as ações relativas ao Processo de Transformação” (EME, 2010). Sintetizando a orientação geral, o EME estabeleceu: Em suma, a tarefa a empreender será a de retirar o Exército da era industrial, transformando-o em uma instituição da era da informação. Assentado sobre ferramentas de tecnologia da informação (TI), deverá ter o caráter de um grande sistema de gestão do conhecimento. (EME, 2010, p.31, grifo nosso). Dessa forma, o Exército enfrentará o desafio da transformação que deverá impactar a sua estrutura administrativa e a cultura institucional. 41 Portaria nº 075-EME, de 10 de junho de 2010. Aprova a Diretriz de implantação do Processo de Transformação do Exército Brasileiro. Boletim do Exército nº 024, de 12 de junho de 2010. 34 3.1 ASPECTOS DO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO QUE EVIDENCIAM A IMPORTÂNCIA DA GOVERNANÇA DE TI Como já foi visto, as características intrínsecas da TI a tornam indispensável à governança corporativa, projetando-a em todos os setores da organização. Tendo em vista o escopo deste trabalho, serão destacados apenas alguns vetores da transformação. 3.1.1 Vetor Doutrina No que diz respeito a este vetor considerado o “motor da mudança do Exército”, (EME, 2010, p. 14), o documento registra a seguinte avaliação: Nossa doutrina, em geral, respalda-se em concepções ultrapassadas. Não incorporou conceitos próprios dos conflitos contemporâneos, tais como: proteção do combatente; minimização de danos colaterais sobre as populações e o meio-ambiente; a opinião pública como importante fator para a vitória; superioridade de informações; o domínio da "consciência situacional", a presença de atores não governamentais e outros conceitos, passíveis de domínio a partir do uso de equipamentos e de sistemas com elevado padrão tecnológico incorporado (EME, 2010, p. 31. grifo nosso). Diante dessas concepções obsoletas, há que se observar as abordagens de autores que afirmam “Se seus sistemas e processos estão ultrapassados, você terá de mudar o modo como pensa sobre TI e como implementar processos digitalizados.” (WEILL & ROSS, 2010, p.30). Esses autores afirmam ainda a necessidade de envolvimento da alta administração: “Mais importante, você terá que liderar a transformação para uma empresa com conhecimento em TI.” (Ibidem, p.31). Ratificando esse argumento, o Brigadeiro Covarrubias, do exército do Chile, (apud EME, 2010), pontifica que entre os pontos marcantes da transformação pretendida figuram a interoperabilidade e a gestão da informação, conceitos dependentes dos recursos de TI. Paralelamente à argumentação desses especialistas e estendendo um pouco mais a questão, faz-se necessário analisar dois conceitos ainda não incorporados pela doutrina em vigor: consciência situacional e superioridade de informação, (EME, 2010): Consciência situacional é a capacidade de receber, processar e difundir eficazmente volume significativo de informações, com a finalidade de sobrepujar, durante as operações, a capacidade de reação dos oponentes. 35 […] Superioridade de informação: Capacidade de obter, analisar, processar e difundir os dados necessários para a obtenção do conhecimento sobre a situação no tempo oportuno. É fundamental para a conquista e manutenção da iniciativa no emprego das demais capacidades operacionais (EME, 2010, p.46). Comparando os conceitos, constata-se sem muita dificuldade que eles abrigam em sua essência a ideia de desmassificação, o que significa maior individualidade, cujos reflexos diretos são o aumento do volume e da troca de informações (TOFLER, 2001). Este aumento é o que explica “por que estamos nos tornando uma 'sociedade da informação' “ (Ibidem, p.172). Em consequência, “as pessoas e as organizações anseiam continuamente por mais informação e todo o sistema começa a pulsar com fluxo de dados cada vez mais alto” (Ibidem). Assim, a necessidade de informação é diretamente proporcional ao nível de individualização das pessoas ao nosso redor (Ibidem) e é nesse contexto que se insere o “combatente do futuro” 42 , cerne do Programa Combatente Brasileiro do Futuro (COBRA), de vertente científica e tecnológica, destinado a equipar o Exército a partir de 2014. (EME, 2010). Aqueles dois conceitos abrigam também a noção de capacidade preditiva, pois “Uma organização, por exemplo, deve poder predizer (mais ou menos) como outras organizações reagirão à mudança, se quiserem planejar seus próprios movimentos sensatamente. E o mesmo se aplica aos indivíduos” (TOFLER, 2001). Aqui, encaixa-se o Projeto do Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON). Com relação à opinião pública, TOFLER (2001) já sinalizava que a informação é matéria prima da Terceira Onda, isto é, da era da informação, na qual o Exército pretende ingressar, e que “A nova importância da informação leva a conflito pelo controle de dados empresariais – batalhas sobre a revelação de mais informação ao público” (Ibidem, p. 239). Para confirmar este vaticínio, atualmente encontra-se em tramitação no Congresso Nacional um projeto referente à Lei geral de acesso à informação, 43 , que terá como um dos impactos a necessidade de adequação das estruturas institucionais, a fim de atender às consultas sobre 42 43 combatente do futuro: expressão motivacional com a finalidade de sintetizar as qualidades e capacidades de um soldado, considerado individualmente, apoiado por estruturas eficazes de alta tecnologia que combinam sistemas de informação, armas, mobilidade e proteção (EME, 2010, p. 45, grifo nosso). Projeto de Lei da Câmara nº 41, de 30 de abril de 2010, de autoria do Deputado Reginaldo Lopes. 36 informações disponíveis, para os públicos internos e externo. Neste caso, novamente, avulta de importância a governança de TI, pois “A governança eficaz de TI minimiza a burocracia e as políticas disfuncionais” (WEILL & ROSS, 2010, p.88). Seja como for, tanto para prever as situações quanto para tratar os atores de modo individual, ou ainda, para adaptar-se às demandas sociais, há necessidade de sistemas confiáveis, que permitam aos centros de comando e controle a eficaz gestão da informação, a interoperabilidade entre os agentes envolvidos, a consciência situacional e a superioridade de informação, parâmetros intrinsecamente ligados à governança de tecnologia da informação. 3.1.2 Vetor Educação e Cultura Neste aspecto “Há que se incutir nos militares a preocupação com a permanente atualização e a consciência de que o domínio de novas tecnologias será condição básica para o êxito profissional.” (EME, 2010, p.36). Aqui, é importante destacar que o desdobramento natural dessa orientação será, outra vez, um fluxo maior de informações e considerável emprego de meios de TI, demandando maior capacidade de gestão. 3.1.3 Vetor Gestão Corrente e Estratégica Quanto a este vetor sobressaem as necessidades de racionalizar as despesas de custeio, com vista na obtenção de maior capacidade de investimento; aumentar a eficiência do SIPLEX como ferramenta de planejamento, implementação e controle das estratégias, empregando ferramentas de TI no controle diário da execução das estratégias setoriais. assegurar a capacidade de execução e controle dos projetos constantes da Estratégia Braço Forte; dar visibilidade aos projetos em andamento; modernizar os métodos de gestão administrativa; criar a mentalidade de melhoria contínua, bem como valorizar a administração por projetos e por processos; consolidar conhecimentos e experiências e desenvolver métodos e ferramentas de gestão adequados ao Exército. (EME, 2010, p.38-39, grifo nosso) Para atender a essas demandas, vislumbra-se a obrigatoriedade da adoção de medidas estruturais e sistêmicas, com abrangência de todos os níveis, tais como: 37 reestudar a Estrutura Organizacional da Alta Administração do Exército, com pensamento sistêmico; proporcionar à estrutura de gestão do EME a capacidade de atuar como órgão central de um sistema de gestão estratégica, responsável pelo controle da interação sistêmica dos ODS; criar estrutura de TI capaz de fornecer insumos em tempo real para o centro de controle dos grandes projetos da Estratégia Braço Forte; prosseguir na consolidação do Sistema de Gestão do Exército; estabelecer foco nos métodos de gestão por projeto e processos, com ênfase na execução (Ibidem, p.39) Tudo isso significa altos investimentos em recursos de TI que necessitam de direcionamento judicioso, controle e monitoramento, a médio e a longo prazos, o que pode ser garantido pela aderência às boas práticas de governança de TI, que abrangem o planejamento estratégico institucional e de TI, o comitê diretivo, o gerenciamento de incidentes, a análise de riscos, a segurança da informação e a auditoria externa, entre outros mecanismos. 38 4. ORGANIZAÇÃO COM CONHECIMENTO EM TI “Os novos sistemas vão desafiar todos os velhos hábitos dos executivos, as hierarquias, as divisões do papel sexual, as barreiras departamentais do passado” (TOFFLER, ALVIN. A Terceira Onda, 25. ed. Rio de Janeiro: Record. p. 196, 2001) Para alcançar o nível das empresas da era digital, a instituição precisa se transformar em organização com “conhecimento em TI.” Esta afirmação se ampara nas pesquisas de Weill & Ross (2010), como se verá, a seguir. Segundo esses autores, “O conhecimento em TI é uma característica de empresas e de seus gerentes refletida na habilidade de usar a TI para de forma consistente elevar a performance da empresa” (Ibidem, p. 23). Adicionalmente, afirmam que “As empresas com conhecimento em TI não são necessariamente empresas de alta tecnologia” (WEILL & ROSS, 2010, p. 24). Para o Exército estas constatações são bastante pertinentes, uma vez que se encontra empenhado na tarefa de retirar-se da era industrial, transpondo-se para a era da informação (EME, 2010). Concordam também esses pesquisadores que “o conhecimento em TI compensa”, pois as organizações com essa característica “são 20% mais lucrativas do que seus concorrentes” (WEILL & ROSS, 2010, p. 14). Para a administração pública, isto pode significar aplicação do princípio da economicidade, ao obter a racionalização de despesas e maior capacidade de investimento, uma das necessidades identificadas pelo EME (2010). “Mas as empresas que tem conhecimento em TI se distinguem de outras em razão do desenvolvimento e do uso de uma plataforma de processos digitalizados” (WEILL & ROSS, 2010, p. 23), sendo que Uma plataforma digitalizada é um conjunto integrado de processos de negócios eletrônicos e de tecnologias, aplicativos e dados que suportam esses processos. […]. O propósito de uma plataforma digitalizada é desligar as pessoas de processos que são mais bem realizados por máquinas. (Ibidem) Quanto a isso, o Exército está bem direcionado, pois algumas iniciativas adotadas buscam atender ao propósito supracitado, com destaque para os projetos SIG, EBCORP, SIPPES, Certificação Digital, SIGADEx, OPUS e SISFRON. Entretanto, o Exército, ainda, não possui formalmente um comitê diretor na alta administração responsável pelas ações e investimentos de TI, conforme orientação 39 do TCU, o que constitui sério risco, pois “Se os altos gerentes não aceitarem a responsabilidade pela TI, a empresa, inevitavelmente, jogará seus investimentos em TI em milhares de iniciativas táticas sem um impacto significante nas capacidades organizacionais” (Ibidem, p. 27). Prosseguindo com esses autores, “todas as empresas, até certo nível, precisam de uma plataforma digitalizada para operar eficazmente” (Ibidem, p. 88), no entanto A única maneira de produzir uma plataforma digitalizada [...] é planejar os direitos e deveres decisórios sobre a TI para que as decisões diárias sobre esta apoiem as metas estratégicas da empresa. Caso contrário, a TI está destinada a tornar-se um obstáculo ao sucesso em longo prazo. (Ibidem) Os autores aduzem ainda que governança de TI significa “estrutura de uma empresa sobre os direitos e deveres decisórios de TI” (Ibidem, p. 88) e que para alcançar a governança eficaz de TI, “as empresas precisam alocar os direitos e deveres decisórios para pelo menos cinco decisões” (Ibidem): Princípios da TI. [...] Arquitetura da corporação: refere-se ao projeto da plataforma digitalizada da empresa. [...] Infraestrutura da TI. [...] Necessidades comerciais e entrega de projetos. [...] Investimento em TI e priorização. (Ibidem) Nessa direção, argumentam que “Os mecanismos de governança de uma empresa esclarecem como cada uma das cinco decisões será tomada e quem será responsabilizado” (Ibidem, p. 89). Finalmente, os pesquisadores Weill & Ross concluem, Se os altos executivos não liderarem o esforço para se tornarem empresas com conhecimento em TI, suas empresas nunca chegarão lá. A plataforma digitalizada não se materializará e a TI cumprirá apenas as promessas isoladas. (Ibidem, p. 121) Portanto, para transportar o Exército para a dimensão da Sociedade do Conhecimento, superando concepções obsoletas, é necessário transformá-lo em uma organização “com conhecimento em TI”, iniciando com a criação do Conselho de Tecnologia da Informação do Exército, integrado pelo Alto-Comando. 40 4.1 PROPOSTAS Medidas necessárias ao aperfeiçoamento e ao exercício de uma eficiente governança de TI no Exército Brasileiro, a fim de concluir o processo de transformação com eficácia: Criar um Conselho de TI do Exército, decisor para ações e investimentos de TI, integrado pelos membros do Alto-Comando do Exército, a fim de dar respaldo às decisões e suporte à consecução dos objetivos estratégicos institucionais, à semelhança da Marinha do Brasil que possui esta estrutura desde 2007. Criar um Comitê Técnico de TI em apoio ao Conselho, integrado por oficiais superiores especialistas dos ODS, coordenados pela Seção de Comando e Controle e TI da 2ª Subchefia do EME. Criar um Comitê Gestor de Segurança da Informação e das Comunicações, com integrantes do EME (2ª Subchefia) e oficiais especialistas dos ODS e Centro de Inteligência do Exército (CIE), conforme orientado pelo GSI/PR. Adotar de forma gradual, no âmbito do EB, a EGTI preconizada pelo MPOG para a APF, a fim de apoiar o processo de transformação do Exército. Alterar o Sistema de Planejamento do Exército (SIPLEx) de modo a contemplar um Plano Estratégico de TI específico, que consolide as necessidades de TI de todo o EB. Desenvolver rigorosas medidas no sentido de que todas as OM no EB efetivem o Plano de Migração para Software Livre. 41 5 CONCLUSÃO “Os novos sistemas vão desafiar todos os velhos hábitos dos executivos, as hierarquias, as divisões do papel sexual, as barreiras departamentais do passado ” (TOFFLER, ALVIN. A Terceira Onda, 25. ed. Rio de Janeiro: Record. p. 196, 2001) O Exército pretende transformar-se numa instituição da Sociedade do Conhecimento. (EME, 2010). É sabido que essa é a era da informação, a era digital, onde a Tecnologia da Informação desempenha um papel preponderante, o de motor das organizações modernas, que pode contribuir tanto para o avanço, como para o retrocesso. (TCU, 2008). E isto exatamente é o que acontece com as instituições que não aderem com firmeza aos mecanismos da governança de TI. Os levantamentos realizados pelo TCU, identificou que a maior parte das instituições pesquisadas necessita formalizar seu Plano Estratégico de TI e criar o comitê decisor para as ações e investimentos de TI, relacionados à segurança da informação, desenvolvimento de sistemas e auditoria, entre vários outros aspectos. (TCU, 2008). As recomendações do Controle Externo retrataram a situação bastante heterogênea da governança de TI na APF, destacando a segurança da informação como o aspecto mais crítico, o que constitui grave vulnerabilidade à estrutura governamental e requer medidas consistentes para a gestão estratégica da tecnologia da informação. O Governo Federal tem estimulado a Administração Pública por meio de políticas, diretrizes e instruções normativas, expedidas pelo Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Atos administrativos recentes do TCU e do MPOG evidenciam a importância da governança de TI e o seu caráter estratégico, traduzido na necessidade de compromisso da alta administração com a tomada de decisão, a responsabilização, as medidas e o monitoramento dos resultados. O Exército vem adotando, paulatinamente, legislações e procedimentos alinhados com as orientações do Governo Federal. No que diz respeito à governança de TI, já atingiu um índice elevado em comparação a outros órgãos do governo federal, no entanto, não é suficiente para imprimir a velocidade necessária à caminhada institucional em direção à Sociedade da informação. 42 Assim sendo, o EB necessita aperfeiçoar os mecanismos com os quais conduz suas ações na área de TI, sendo necessária a adoção de instrumentos recomendados nos acórdãos e instruções normativas, que permitirão a melhoria dos processos, o desejável alinhamento com o poder público e a transição para a era do conhecimento. Para isso, o Exército precisa mudar o modo de pensar a TI, uma vez que ela domina as dimensões do destino pretendido pela Instituição, ao final do processo de transformação. A criação do comitê diretivo de TI permitirá o alinhamento da Força à eficaz governança de TI e sinergia na efetivação do Plano de Migração para Software Livre, estimulado pela adesão ao Protocolo Brasília, que prioriza a adoção de padrões abertos. A padronização do formato de documentos eletrônicos permitirá a continuidade do acesso aos documentos no futuro, independente da evolução tecnológica. Facilitará a interoperabilidade entre as instituições, evitando que o EB fique virtualmente isolado e contribuirá com a necessária redução de custos e eficaz governança de TI. Ao iniciar este trabalho, estabeleceu-se a seguinte questão: verificar em que medida a governança de TI pode contribuir para a consecução dos objetivos do processo de transformação do Exército Brasileiro. Assim sendo, este estudo tem o objetivo geral de estudar o processo de transformação do Exército e verificar que a eficácia desse processo é diretamente proporcional à adoção dos critérios e modelos de governança de TI. Para isso, foram relacionados quatro objetivos específicos, que nortearam as investigações baseadas no referencial teórico, constituído primordialmente de dois levantamentos de governança de TI realizados pelo Tribunal de Contas da União, nos últimos cinco anos, e da obra “Conhecimento em TI” de Peter Weill & Jeanne W. Ross. Primeiramente, procurou-se verificar o resultado das ações do Controle Externo no âmbito da administração pública federal. Nesse item, foi verificado que o MPOG e o GSI/PR, estimulados pelas recomendações do TCU, expediram várias portarias e instruções normativas relacionadas à governança de TI. Ao verificar a situação do Exército, segundo objetivo, verificou-se que a Instituição encontra-se no nível intermediário (iGovTI) = 0,52), mas que os desafios da transformação exigem a transposição para o nível avançado, com a maior celeridade possível. 43 Quanto ao terceiro objetivo, identificar os aspectos do processo de transformação que evidenciam a importância da governança de TI, observou-se que os novos conceitos doutrinários a serem incorporados (superioridade de informações e consciência situacional) repousam fundamentalmente na capacidade de gestão, que depende totalmente de recursos de TI. Além disso, constatou-se que as necessidades do vetor gestão estratégica, podem ser plenamente atendidas com a adoção de mecanismos da governança em tela. A questão final foi descobrir qual o nível de conhecimento necessário a uma instituição que pretende entrar na sociedade do conhecimento. Este objetivo foi atingido ao constatar-se que para isso é preciso tornar-se uma organização com “Conhecimento em TI” (WEILL & ROSS, 2010). Para alcançar o objetivo geral, conclui-se que a governança de TI é imprescindível para o êxito institucional do Exército no seu processo de transformação, uma vez que se tornará dependente de recursos tecnológicos fundamentados em redes e sistemas por onde fluirá a quase totalidade da informação necessária ao exercício do comando e controle. Governança de TI, portanto, constitui-se no conceito primordial que deverá ser obrigatoriamente considerado pela alta administração do Exército no processo de transformação em curso. Caso seja desconsiderado, objetivos colimados. não poderá atingir os 44 REFERÊNCIAS AMARO, Marisa de Oliveira Santos. Evolução da Governança de Tecnologia da Informação na Marinha do Brasil. Rio de Janeiro. 2010. Disponível em: <http://introti.wikispaces.com/file/view/TI+na+Marinha.pdf>. Acesso em: 27 ago. 2011. BRASIL. 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