Correio dos Açores www.correiodosacores.info Domingo, 28 de Abril de 2013 Director: Américo Natalino Viveiros - Director-Adjunto: Santos Narciso Diário fundado em 1920 por José Bruno Carreiro e Francisco Luís Tavares Ano 93 n.º 2785 - Preço: 0,70 Euros É POSSÍVEL VENDER OS AÇORES MESMO COM CHUVA NINA ANDRADE SILVA AFAMADA ARQUITECTA DE INTERIORES EM PONTA DELGADA Nina Andrade Silva tem um rico currículo. É uma reconhecida arquitecta de interiores com uma brilhante carreira internacional, premiada dezenas de vezes pelas suas decorações de hotéis, de alta qualidade e originalidade, em vários países asiáticos e europeus, está neste momento em São Miguel, onde vai realizar um projecto de um hotel. Pela sua experiência e conhecimento do mundo e, sobretudo, pelo seu talento, o “Correio dos Açores” foi conhecer e falar com Nina Andrade Silva que diz sentir-se a meio do planeta quando está nos Açores. pág.s 3 e 4 EM PONTA DELGADA SÓ COM A AJUDA DE DEUS E DOS OUTROS Desemprego deixa famílias na miséria Mesmo no centro da cidade, há quem viva em casas de renda sem condições, há quem não consiga pagar a renda por inteiro há dois anos e quem não sabe como vai ser “o agora”. Pessoas revoltadas com a vida que, de um momento para o outro, deu uma reviravolta e as atirou para o desemprego e para uma vida onde, apesar de tentarem, não conseguem vislumbrar uma luz ao fundo do túnel. Têm idade demais para serem escolhidos para novos empregos mas são novos demais para serem reformados. pág.s 17 a 19 ARMAZÉNS JACINTO EM EXPANSÃO AEROPORTO DE SANTANA Fiados são uma dor de cabeça O primeiro da ilha de São Miguel A empresa começou em nome individual em 1995, mas depressa passou do centro da cidade para os Valados e agora para a Ribeira Grande. pág. 8 A história do antigo aeródromo de Santana conta-se em poucas linhas, mas importa referenciar a importância que teve o primeiro aeroporto da ilha de S. Miguel. pág. 6 Nova Série 18 - Detetores de presença e movimento O futuro e a economia ao seu alcance Parceiro: electro req ue tim Azores Parque Rua Eng. Rolando de Sousa Lima, n.º100 9500-694 Ponta Delgada Tel. 296 383 408 / 934 434 336 s.a. www.eletrorequetim.pt www.finder.pt 455€ MÁQUINAS DE LAVAR DE ALTA PRESSÃO Máquina de lavar de excelente qualidade Mangueira tela aço com 10 metros Pressão de trabalho 30-120 bares Pressão máxima de 135 bares Visite-nos! Azores Park - Ponta Delgada Correio dos Açores, 28 de Abril de 2013 entrevista 3 Arquitecta de Interiores da Madeira vai fazer hotel temático em Ponta Delgada Nina Silva diz: “Nos Açores sinto-me mais no meio do planeta” “Eu viria aos Açores para estar à chuva…”, as palavras saem com tal convicção de Nina Andrade Silva que é impossível não acreditar. Ela é uma arquitecta de interiores, natural e residente na Madeira, com vários prémios internacionais. Há dias, clientes de São Miguel contactaram-na para o seu atelier trabalhar um tema para o interior de um novo hotel de cidade em Ponta Delgada. E ela aceitou logo. E, da primeira vez que veio a São Miguel, era impensável não ver, aliá tão perto, a lagoa das Sete Cidades que sempre fez parte do seu imaginário de criança. Para Nina Silva, logo que chegou a São Miguel, ficou com a sensação de que os Açores “estão mais no meio do planeta”. Correio dos Açores – É uma arquitecta portuguesa no mundo global… Nina Andrade Silva – Completamente do mundo. Ando sempre de um lado para o outro. Agora vim de Qualalampur, na Malásia e estive no Dubai. Fiquei dois dias em Lisboa e fui para a Colômbia e para o Perú e, depois de mais dois dias em Lisboa, vim para os Açores… A sua base é em Lisboa? A minha origem é o Funchal. Eu sou madeirense. Comecei por criar um gabinete na Madeira com mais dois sócios. A única casa que tenho – porque faço questão de ter uma casa só – é na Madeira. Tenho de ter um sítio onde pertenço e o meu coração pertence à Madeira e o resto vivo de hotel. Vou vivendo de hotel de um lado para o outro. De vez em quando visita a sua casa? Sim, de vez em quando visito a minha casa. Já tenho saudades de casa. Quando criou o seu primeiro gabinete no Funchal? O gabinete já tem 20 anos. Primeiro criei com mais dois sócios uma loja no Funchal que se chama ‘Esboço Interiores’. Nós fazíamos interiores e fazíamos decoração. A seguir, a parte de arquitectura de interiores e o atelier Nina Andrade Silva tem cerca de 10 anos. É há dez anos que se dá a sua internacionalização? Vai-se dando porque, entretanto, com a loja ‘Esboço Interiores’ eu viajava muito para comprar as peças. Fomos expondo as nossas peças em vários sítios do mundo. E, a seguir, apareceu o atelier para fazermos mais a parte de arquitectura. E eu também pinto, crio móveis, eu faço uma data de coisas. Não pára… Não (sorriso). Ao longo dos últimos dez anos obteve vários prémios… Sim, tivemos muitos prémios. Já tinha antes, quando havia apenas o ‘Esboço Interiores’. Foi devido a um prémio que tivemos em Londres que começamos a fazer mais trabalho internacional. E, entretanto, praticamente todos os hotéis de design que temos feito têm sido premiados. Já representámos a Europa, já representámos a América. Fazemos questão de fazer o melhor que sabemos. E, pelo meio, veio parar a São Miguel… Sim, houve uns clientes dos Açores que me contactaram. Foram ao nosso atelier de Lisboa, disseram que Nina Andrade Silva, natural da Madeira, está nos Açores para projectar um novo projecto hoteleiro queriam fazer um hotel em São Miguel e perguntaramPode-se vender chuva a turistas? nos se pretendíamos fazer a arquitectura de Pode-se. Eu adoro chuva. Porque é que interiores e se queríamos vir aos Açores. E o turismo tem de ser de sol. Eu não vejo cá estamos. porquê. Quando eu cheguei cá o meuc liente recebeu-me e disse: “Nina, hoje está mau Uma nova unidade hoteleira numa tempo…”,e eu respondi-lhe: “Eu não acho. altura em que o turismo nos Açores não Eu adoro chuva”. está muito famoso… Imagina uma pessoa que vive num país Àh, com este hotel, não tenho dúvidas onde há muito sol, com certeza que gosta de que o turismo açoriano estará famoso. Vai estar aqui (hotel da Caloura) com chuva, a ser muito bonito. É uma unidade hoteleira beber um chá e a ver o mar. Não há nada diferente. Acho que vai haver turistas suficimelhor do que isso. Eu não queria sol neentes para este hotel. nhum. Acredita que eu, actualmente, não queria sol. Já tive sol na Ásia, já tive sol na Ao longo da sua actividade tem estaColômbia, já tive sol no Perú e estou encando ligada ao turismo. Deverá conhecer as tada com esta chuva. Adoro. dificuldades porque está a passar o turismo açoriano. Como se pode dar a volta Já correu meio mundo. Com os a este sector? Açores tão perto e ainda não tinha vindo Cada vez mais as pessoas falam dos em férias… Açores. Sempre que vou ao estrangeiro falo O que é que falta para criar nos Açores Eu viajo muito a trabalhar. Eu ando o da Madeira, falo dos Açores, falo de Portumundo inteiro a trabalhar e nunca me tingal. Sou como uma embaixadora de Portu- uma dinâmica de maior fluxo turístico? Já tinha estado duas vezes nos Açores, ham chamado aos Açores para trabalhar e gal. mas apenas nos aeroportos. Esta é a primeira desta vez aconteceu. Eu estava agora na Malásia e estava a vez que visito a ilha de São Miguel. Ainda Nunca pensou passar umas férias nos explicar que a minha casa era em frente ao agora, os meus clientes deram, comigo, uma Açores? oceano Atlântico e eles ficavam espantaAdorava, mas vou ser sincera. Rarados. “Huháu, uma ilha em frente ao oceano volta pela cidade e é impressionante o que Atlântico”. Como, para nós, uma ilha em vi. Demos a volta pelas igrejas, conventos e mente estou na Madeira. Raramente vou a frente ao Pacífico achámos Uháu, para eles museus e é arrepiante. É uma coisa fantásti- casa e, portanto, os dias que tenho de férias, uma ilha em frente ao Atlântico também é ca. Estou há poucas horas aqui e já estou a vou a casa. Ao contrário das outras pessoas Uháu. Na realidade, as pessoas sempre que- adorar os Açores. Amanhã (sábado) vamos à que querem sair de casa, eu quero ir a casa. lagoa das Sete Cidades que é uma coisa que Vou à Madeira, ao Porto Santo e quero ver rem o que não têm. Aqui nos Açores estamos a quatro horas tenho na cabeça desde criança. Portanto, eu os meus amigos de criança. Quero ver a de Boston. E esta paisagem é incrível, o mar, vou conhecer uma coisa que sempre tive na minha casa, quero ver as minhas coisas. (continua na página 4) o verde, é impossível não querer vir aqui… cabeça. Acho que vai ser fantástico. 4 entrevista Correio dos Açores 28 de Abril de 2013 “Os Açores são poesia... Se não temos sol vendemos chuva” (continuação da página3) Por passar três dias em São Miguel vai assumir-se como embaixadora açoriana… De certeza que vou. Aliás, sou uma embaixadora de Portugal. O Senhor Presidente da República deu-me a comenda da Ordem do Ifante D. Henrique por eu levar Portugal ao mundo. Portanto, a minha obrigação – e não é só por obrigação – é levar Portugal ao mundo. Isso, para mim, é fantástico porque eu adoro o meu país. Não há lugar como a nossa casa. E Portugal é a minha casa. Sente-se em casa nos Açores? Sinto-me em casa. Eu sou uma pessoa que estou sempre a viajar. Claro que, com o respeito que tenho por todos os povos porque quero também que eles tenham por mim, somos muito diferentes uns dos outros. E, nos Açores somos portugueses, somos todos iguais, mais coisa menos coisa. É claro que as pessoas são diferentes mas a nossa base é Portugal. Somos todos irmãos. Quando cheguei aos Açores senti algo de diferente. Sou madeirense e noto que a Madeira está mais perto da costa. E os Açores estão mais afastados. Aqui sinto-me mais no meio do planeta. É uma sensação diferente e eu acho fantástico… Está mais no meio do mar… Sim, é isso. E hoje o meu cliente estava a explicar-me que as ilhas têm cores e que a ilha de São Miguel é a ilha verde. Se isso for bem transmitido lá para fora, imagina o meio do Atlântico onde não há mais nada à volta a não ser mar em que as ilhas são cores, que uma é de flores, outra é de pedra… Está a fazer poesia… Olhe, os Açores são poesia. Temos tudo para ser fantásticos. Não falta nada. É só ter orgulho na nossa terra e saber vender aquilo que ela é. Eu peguei no calhau na Madeira e do calhau fiz coisas. Hoje em dia tenho prémios internacionais com uma simples pedra do calhau porque assumi as coisas que estavam ao meu pé. E eu entendo que é isso que se tem de fazer. Estava aí preocupado porque diz que, por vezes, o tempo não é sol. Se não é sol, vende-se chuva. É verdade. Eu adoro e, com certeza que, como eu, há muitas mais pessoas que adoram a chuva. Qual a mensagem que uma arquitectura de interiores pode dar a uma sociedade como a açoriana onde a arquitectura de interiores ainda não está enraizada? Como tudo na vida, é preciso alguém começar. E talvez sejamos nós que cá viemos dar uma ajuda. É sempre assim: As coisas vão-se mantendo e, em certo momento, alguém faz uma coia diferente e os outros são obrigados a melhorar o seu produto. E eu entendo que, quando aparecer um produto especial, os outros vão ter que avançar. Por exemplo, este hotel que temos aqui é muito bonito. Acho este hotel muito agradável. Já tem aqui um interior. Já alguém fez este interior. É diferente. O nosso trabalho é mais design puro. Nós criamos peças únicas. Nós desenhamos as nossas peças. Por isso é que os nossos hotéis têm sido premiados. Desenhamos os nossos sofás, desejamos os nossos móveis, desehamos tudo, não compramos a outras pessoas. Daí que cada peça nossa é uma coisa especial. É feita para aquele local. Por exemplo, o caso deste cliente dos Açores: O cliente vem connosco e fala que tem um tema para fazer um hotel. Nós fizemos o hotel Teatro no Porto. Havia um antigo teatro e fizemos lá um hotel que se chama ‘Hotel Teatro’. E criamos dentro do hotel um teatro e fizemos uma homenagem ao Filipe Lá Féria. Em Bogotá, como tem ouro e esmeraldas, o hotel que fizemos é todo baseado em ouro e esmeraldas. No Funchal, o design foi baseado no vinho e na história da Madeira. Portanto, há sempre uma história dentro dos hotéis que fazemos. É sempre uma coisa especial. Qual o tema do hotel em Ponta Delgada? Não lhe posso dizer (sorriso). Vou-lhe dizer um dia, mas agora não! Se tivesse de fazer um hotel nos Açores, qual era o tema que escolheria? Daria ao hotel o tema que os meus clientes estão a dar. (sorriso). Fez uma pergunta bem feita a ver se eu caio. Mas eu não posso dizer-lhe. Mas é um tema bonito. Vai ser uma coisa muito boa para os Açores. Os Açores têm tantos artistas, tantos escritores, tantas pessoas famosas que nasceram nos Açores que têm de ser homenageadas. Já está a dar uma pista… (Sorriso)… Fundação ‘Garota do Calhau’ ajuda Crianças madeirenses Tem filhos?… Não, como é que quer que tenha filhos com esta vida? Mas, eu tenho uma fundação na Madeira e há muitas pessoas que eu ajudo. É a Fundação ‘Garota do Calhau’ na Madeira e tenho filhos que nunca mais acaba. O que é a ‘Garota do Calhau’? Antigamente, na Madeira, os garotos da rua eram conhecidos como os garotos do calhau. Eram miúdos que andavam de pé descalço nas praias. E a forma como andavam estes miúdos era a liberdade total para mim. E eram miúdos que precisavam de mais algumas coisas e eu sempre pensei que um trabalho tem estado ligado a fundações. Já propôs uma ideia como esta ao cliente de São Miguel? Já e o cliente aderiu completamente. Por cada pessoa que fique no hotel, parte da receita é para ajudar uma fundação nos Açores. E eu pretendo, também, desenhar umas jóias e vou leiloar para ajudar pessoas mais necessitadas nos Açores. É um projecto que procuro sempre desenvolver onde quer que faça um trabalho. O turismo e João Carlos Abreu Da ilha de São Miguel, Nina Andrade Silva vai a Lisboa, regressa à Malásia de onde volta à Colômbia num trabalho que a leva a outros países. A partir de agora tem mais uma razão para pensar nos Açores seja qual for o espaço que ocupe, em cada momento, no planeta.” dia, quando crescesse, iria ajudar estas pessoas. Pensei sempre em criar uma coisa de melhor para eles. E, então, fiz uma colecção de pintura (os meus quadros fazem parte da colecção Berardo e tenho quadros espalhados pelo mundo). E, então, parte dos quadros é para ajudar a Fundação. Também tenho uma colecção de móveis que se chama ‘Garota do Calhau’. São móveis de pedra. Há dois anos ganhei o prémio para a melhor peça de design em Londres com um móvel destes. E, pronto, este ano criei a Fundação e esta é uma das coisas que quero fazer com muita força. Por exemplo, o último hotel que fiz em Lisboa, o Hotel da Figueira é uma figueira enorme que começa na base do hotel e vai até lá cima. Foi feito um acordo com o dono do hotel para que um euro por cada pessoa que fica lá hospedado se destine a ajudar a fundação. E este protocolo foi assinado com a ‘Garota do Calhau’; com a fundação ‘O Gil’, da Margarida Pinto Correia; e com a fundação ‘Reis com Coroa’ da Catarina Furtado. O euro por cada cliente, no fim do ano, é dividido pelas três fundações. Na Colômbia desenhei uma jóia e foi feito um leilão e a verba que se atingiu foi para ajudar uma fundação no país. No Brasil ajudei na construção de uma escola. Todo o meu João Carlos Abreu está, de que forma para o turismo na Madeira? Ele é uma pessoa brilhante. Foi, é e será sempre uma pessoa brilhante. A Madeira tem a imagem do João Carlos Abreu. Sempre teve. Aliás, o João Carlos é uma pessoa que, mesmo não estando actualmente no turismo, limpou e recriou a zona velha da cidade. Hoje, a zona velha do Funchal é a rua de Santa Maria e esta rua voltou a ser fantástica, cheia de restaurantes. A câmara municipal do Funchal criou uma comissão de que o João Carlos, eu e outras pessoas faziam parte para dar uma nova dimensão á zona velha. O João Carlos tomou as rédeas àquilo e, de facto, melhorou muito, muito, a zona velha da cidade. Falta um João Carlos Abreu ao turismo açoriano? Não lhe posso dizer se falta. Os Açores têm tudo para serem um sítio fantástico para o turismo. Do pouco que eu vi, esta chuva, este descanso aqui, isto é impossível, não existe. Isto é fantástico. Eu adoro. Uma das maneiras de vender os Açores é com esta chuva e com este mar que é brilhante e há pessoas que gostam disto. Eu vinha para aqui para estar nesta chuva. Quando começa a trabalhar no hotel dos Açores? Estou sempre a trabalhar. Tenho o meu Ipad e tenho o meu atelier em Lisboa. Estou sempre em contacto com os arquitectos. É, portanto, uma mulher das novas tecnologias. Trabalha em rede… Exactamente, tem de ser. Não tenho outra hipótese. E, depois, tenho uma equipa fanástica comigo. É uma equipa fabulosa que já sabe como é que eu penso e como é que eu gosto das coisas e, todos juntos, fazemos uma boa equipa. Não tenho dúvidas nenhuma. Ainda hoje estava aqui no hotel e estávamos a trabalhar para a Malásia. Tudo o que a sua empresa desenvolve tem o seu toque pessoal? Tudo. Não sai nada sem o meu toque pessoal. Isto é impossível. Tem de ser. É como numa casa. O casal pode ter muitos filhos mas tem de haver um pai para mandar na casa. E eu sou uma espécie de pai e mãe do atelier. Tem de ser porque as pessoas vêm à procura do meu gosto. João Paz