0 16º CONGRESSO BRASILEIRO DOS CONSELHOS DE ENFERMAGEM JORDANA CRISTINA SANTOS DA SILVA HUMANIZAÇÃO E TRABALHADORES DA SAÚDE: A FORMAÇÃO ACADÊMICA NESTE PROCESSO DE CONSTRUÇÃO VITÓRIA 2013 1 1. INTRODUÇÃO O trabalho em saúde apresenta uma crescente desvalorização no que se refere às condições de emprego e de trabalho, representando repercussões negativas em seus executantes. Considerase a negação ou omissão quanto aos direitos constitucionais1, com degeneração dos vínculos e precarização dos ambientes e das condições de trabalho somadas às dificuldades do âmbito da organização e das relações sociais em contextos de gestão ainda tradicional, verticalizado e hierarquizado.2 Saúde é direito dos usuários do sistema de saúde, mas também dos que prestam a assistência. Profissionais sob agressão verbal, moral, física, psíquica e das condições nos ambientes de trabalho deparam-se com a contradição de uma assistência baseada na ética, cautela, respeito e humanização, enfraquecida pelo desgaste das relações no trabalho. A desumanização existente nos serviços de saúde resulta de uma combinação de problemas estruturais com posturas alienadas e burocratizadas dos trabalhadores deste setor.3 Desumanizações seriam, nesse sentido, condições inadequadas do ambiente de trabalho, discriminação, pressão moral, ameaça/agressão verbal, violência física, entre outros aspectos que desvalorizam o valor humano da pessoa. Ventura et al.(2012, p. 893) destaca que o enfermeiro geralmente busca o sucesso prático além do sucesso instrumental, preocupando-se com o sentido que as ações de saúde têm para usuários como indivíduos e estas têm para o coletivo. Ancora-se assim, o exercício real de cidadania: o enfermeiro, dentro de um contexto multidisciplinar, necessita se considerar sujeito de direitos e permitir assim, por meio de suas ações e do respeito ao outro, que os demais também a exerçam. Por meio de alianças, fortalece este exercício e possui dessa forma, potencial para desempenhar um papel singular na defesa do direito da saúde e da vida e pode liderar este processo de ação em meio a tantas dificuldades e desigualdades, em um contexto que por alguns é considerado impossível. 4 Nesta abordagem, percebe-se que com o passar dos anos, os profissionais da saúde, incluindo a Enfermagem, vêm perdendo o seu brilho em atuação, considerando as características atuais do trabalho em saúde. Configuram-se possibilidades e constrangimentos impostos aos trabalhadores da saúde, com reflexos evidentes na forma de realizar o trabalho, no ideário e na subjetividade dos trabalhadores com diferentes repercussões na saúde. 5 2 O serviço em saúde é muitas vezes é mecânico, aquém da capacidade, desvalorizado e as condições de trabalho, configuram-se em inadequações, fazendo com que trabalhadores sintam-se infelizes e explorados, logo, adoecendo. Como na linha de produção fordista, datado do início do século XX, não há espaço para reflexão, autogestão do ambiente de trabalho e estes sujeitos se moldam em “estranhos”, alienados. Vivencia-se e são “criados” em um ambiente brutal e a tendência natural é ser bruto e/ou brutalizado. As reflexões instigam, conforme retrata Hennington (2009, p.6): “Como não se deixar capturar por esse cenário tantas vezes perverso e que se constrói desde a nossa formação? Existe saída? Eis aqui o desafio posto.” 5 A Política Nacional (PNH) aborda humanização como valor intrínseco do SUS, partindo dos seguintes princípios: transversalidade, indissoabilidade entre atenção e gestão, entre clínica e política com autonomia e protagonismo dos sujeitos envolvidos, sejam estes gestores, trabalhadores da saúde ou usuários. Parte de conceitos e dispositivos que visam à reorganização dos processos de trabalho em saúde, propondo transformações em duas vertentes interligadas: eixo da atenção, que são formas de produzir e prestar serviços à população; e eixo da gestão, baseado nas relações sociais, que envolvem trabalhadores no momento que interagem com seus pares e sua clientela, resultando um trabalho mútuo e contínuo.6 Ainda nesse sentido, a Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador (PNSST) foi desenvolvida de modo articulado e cooperativo pelos Ministérios do Trabalho, da Previdência Social e da Saúde com objetivo de garantir que o trabalho, base da organização social e direito humano, seja realizado em condições que contribuam para a melhoria da qualidade de vida, da realização pessoal e social, sem prejuízo para saúde, integridade física e mental dos trabalhadores.7 A humanização da assistência à saúde não se concretiza se estiver unicamente centrada em fatores motivacionais externos ou somente no usuário. 8 Barckes et. al (2006, p.222) aponta que a humanização, muito mais que um artifício, uma técnica ou apenas uma intervenção significa: “[...] estreitar as relações inter-profissionais, que possibilitem aos trabalhadores reconhecer a interdependência e a complementariedade de suas ações, permitindo que o coração, junto a razão, se manifeste nas relações de trabalho.” 9 3 As reflexões realizadas reforçam a necessidade de que a temática Saúde do Trabalhador e Humanização façam parte do currículo dos cursos da saúde, para que os acadêmicos sejam estimulados a pensar sobre a própria saúde desde o início da vida acadêmica, e este futuro trabalhador seja inserido já com essas reflexões desde o seu universo inicial de construção. Assim estimulados, é possível que incorporem ações de proteção de saúde no cotidiano de seu trabalho10, em uma prática inata, a partir de uma pré-formação adquirida e refletida. Observase que esta prática, quando existe, muitas vezes é imposta por uma situação de melhoria, queixosa ou até mesmo, por adequação a uma ótica política. Portanto, neste trabalho pretendeu-se conhecer a percepção dos universitários do último ano de formação acadêmica do curso de Enfermagem, relacionados aos de Medicina e Odontologia sobre suas motivações, no contexto da humanização para trabalhadores da saúde, considerando-se a característica emancipadora e transformadora que há na formação acadêmica e a necessidade de preparo dos futuros profissionais de saúde para o cuidado de si e de seus pares, como condição precedente para o desenvolvimento da assistência. 2. METODOLOGIA Trata-se de um estudo descritivo para o qual foi usada uma abordagem quantitativa, resultado da monografia de graduação em Enfermagem da autora. A pesquisa foi realizada no Campus de Ciência da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo nos cursos: Enfermagem, Medicina e Odontologia, dado as reformulações propostas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais - DCN (Conselho Nacional de Educação - CNE/ Câmara de Educação Superior CES nº 1.133/2001). As DCN têm como ideário básico a flexibilização curricular, permitindo ao graduado enfrentar as rápidas mudanças do conhecimento e seus reflexos no mundo do trabalho. Desde a sua aprovação, os currículos devem ser propostos de modo a contemplar, para cada curso, o perfil acadêmico e profissional. O perfil do profissional de saúde definido nas diretrizes é de um indivíduo com formação generalista, técnica, científica e humanista, com capacidade crítica e reflexiva. Uma das ações desencadeadas a partir desta articulação foi o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde) que busca integrar a formação de graduação e as necessidades da atenção à saúde, na direção apontada pelas DCN, englobando, inicialmente, os cursos de Enfermagem, Medicina e Odontologia. 11,12 4 Obteve-se uma amostra de 140 acadêmicos, sendo a estratificação destes em 38 da Enfermagem, 60 da Medicina e 42 de Odontologia. O tamanho da amostra foi calculado por proporção baseando-se no tamanho da população de 190 acadêmicos concluintes do último ano, conforme dados disponibilizados pelos colegiados dos respectivos cursos, considerando uma precisão de 4% e uma significância de 95%. Foram abordados assim, os seguintes períodos: Enfermagem, 7º e 8º, Medicina, 11º e 12º e Odontologia, 8º e 9º períodos. O critério de inclusão para participação do estudo foram estes acadêmicos serem universitários do último ano de formação acadêmica e profissional e por estes estarem já em campo de estágio, inseridos no processo de trabalho de diversas unidades de saúde (hospitais, unidades básicas de saúde, unidades de pronto atendimento e ambulatórios). Os outros cursos da área da saúde foram excluídos por serem novos na universidade, não possuírem turmas concluintes e não ser contemplados inicialmente pelo Pró-Saúde. Foi utilizado um instrumento auto-preenchível com questões semi-abertas elaborado pela autora que abordava: 1) motivações diante atividades remuneradas realizadas na graduação e ao curso; 2) conhecimento sobre humanização e saúde do trabalhador da saúde; e 3) desumanizações sofridas/ presenciadas. Para avaliar a adequação do instrumento aos objetivos do estudo e identificar possíveis dificuldades dos acadêmicos em preenchê-los, foi realizado a validação previamente à coleta de dados. Observou-se a dificuldade em alguns universitários que queriam marcar mais de uma alternativa em alguns itens, porém foi explicitado que as assertivas que dispunham dessa opção estavam destacadas na sua respectiva questão, ressaltando que as que não estavam, era para ser uma escolha do mais relevante de forma pessoal de todos os itens. Utilizou-se o pacote estatístico para Ciências Sociais - SPSS versão 17.0. O tratamento e análise estatística dos resultados se deram por estatísticas descritivas (número absoluto e percentual) para a caracterização da amostra. Para os cruzamentos entre questões (que envolvem variáveis categóricas), a técnica estatística utilizada foi a comparação entre proporções. A hipótese a ser testada é de que duas determinadas proporções são iguais, quando se tem um p-valor menor que 0,050 rejeita-se esta hipótese. Foram consideradas todas as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, previstas a partir da aprovação (N.º CEP 092/11) pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Espírito Santo, além da privacidade dos sujeitos da amostra, atribuindo-os uma numeração progressiva, garantindo sigilo absoluto. A 5 assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE, sendo este um dos critérios para a participação no estudo, foi solicitada ao acadêmico. 3. RESULTADOS A Tabela 1 destaca-se que 45,7% (n=64) dos alunos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, escolheram seus respectivos cursos pela preferência. Questionados sobre o gosto do curso, 74,29% (n=104) afirmaram que gostam muito do que fazem. Tabela 1 – Caracterização da escolha e gosto do curso realizado em Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis n % N % N % n % Oportunidade 5 13,2 2 3,3 3 7,1 10 7,1 Aptidão 5 13,2 24 40,0 16 38,1 45 32,1 Preferência 19 50,0 28 46,7 17 40,5 64 45,7 Salário profissional 0 0,0 2 3,3 0 0,0 2 1,4 Status social 0 0,0 2 3,3 0 0,0 2 1,4 Pressão Familiar 1 2,6 2 3,3 0 0,0 3 2,1 Não sei 8 21,1 0 0,0 6 14,3 14 10,0 Muito 25 65,79 50 83,33 29 69,05 104 74,29 Um pouco 8 21,05 6 10,00 9 21,43 23 16,43 Não muito 4 10,53 2 3,33 2 4,76 8 5,71 Não 1 2,63 0 0,00 0 0,00 1 0,71 Não sei 0 0,00 2 3,33 2 4,76 4 2,86 TOTAL 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 Por que escolheu esse curso? Gosta do que faz? 100,0 De acordo com a Tabela 2, observa-se que 68% (n=96) dos acadêmicos do último ano de graduação declararam ter ouvido falar sobre a PNSST e 79% (n=109) sobre a PNH, sendo durante as aulas o momento da vida acadêmica que ouviu falar sobre humanização, com 52,9% das respostas (n=74). Ao serem questionados sobre para quem deveria ser as ações de 6 humanização, 79,3% (n=111) afirmaram que devem ser uma prática para usuários e profissionais de saúde. Tabela 2 – Caracterização do conhecimento sobre humanização, saúde do trabalhador e seu determinante dos acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % N % n % n % Já ouviu falar sobre a Política Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador - PNSST? Sim 33 86,8 36 60,0 27 64,3 96 68,6 Não 5 13,2 24 40,0 15 35,7 44 31,4 Já ouviu falar sobre a Política Nacional de Humanização - PNH? Sim 37 97,4 37 61,7 35 83,3 109 77,9 Não 1 2,6 23 38,3 7 16,7 31 22,1 Se já ouviu falar sobre humanização, foi em qual momento de sua vida acadêmica? Antes de cursar medicina /enfermagem/odontologia Durante o curso, em Palestras Durante o curso, com Colegas 2 5,3 8 13,3 0 0,0 10 7,1 20 52,6 12 20,0 13 31,0 45 32,1 10 26,3 3 5,0 4 9,5 17 12,1 Durantes as aulas 29 76,3 17 28,3 28 66,7 74 52,9 9 23,7 9 15,0 1 2,4 19 13,6 1 2,6 8 13,3 0 0,0 9 6,4 3 7,9 4 6,7 0 0,0 7 5,0 4 10,5 1 1,7 2 4,8 7 5,0 0 0,0 13 21,7 5 11,9 18 12,9 Durante o estágio curricular /internato, com professores Durante o estágio curricular /internato, pela instituição Durante o estágio curricular /internato, com outros Profissionais Durante o estágio Extracurricular Não ouviu falar 7 Tabela 2 – Caracterização do conhecimento sobre humanização, saúde do trabalhador da saúde e seu determinante dos acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, VitóriaES, 2011 (continuação) As ações de humanização devem ser uma prática: Para os usuários do SUS 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Para os profissionais de saúde 4 10,5 12 20,0 10 23,8 26 18,6 Para usuários e profissionais de saúde 34 89,5 45 75,0 32 76,2 111 79,3 Para o médico 0 0,0 2 3,3 0 0,0 2 1,4 Para o enfermeiro/equipe de enfermagem 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Para o dentista/odontólogo 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Não sei o que são ações de humanização 0 0,0 1 1,7 0 0,0 1 0,7 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 TOTAL Na Tabela 3 observa-se que usuário é representado para estes futuros profissionais da saúde como uma vida que merece cuidados, em 64,3% (n=90) das respostas. Tabela 3 – Caracterização do que representa o usuário para acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % n % n % n % O que representa o usuário para você? Instrumento de trabalho 0 0,0 1 1,7 1 2,4 2 1,4 Instrumento de Aprendizagem 0 0,0 16 26,7 6 14,3 22 15,7 Vida que merece cuidados 30 78,9 30 50,0 30 71,4 90 64,3 Algo que atrapalha minha rotina de trabalho 0 0,0 1 1,7 0 0,0 1 0,7 Sujeito que só reclama 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 2,6 0 0,0 0 0,0 1 0,7 0 0,0 1 1,7 1 2,4 2 1,4 Outro - Objeto de trabalho que merece cuidados Outro - Fonte de aprendizado, desenvolvimento de técnica e renda 8 Tabela 3 – Caracterização do que representa o usuário para acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 (continuação) Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N O que representa o usuário para você? Outro - Pessoa que está 0 pedindo ajuda Instrumento de trabalho, 6 Aprendizagem Instrumento de trabalho, aprendizagem / Vida que 1 merece cuidados TOTAL 38 % n % n % n % 0,0 1 1,7 0 0,0 1 0,7 15,8 9 15,0 4 9,5 19 13,6 2,6 1 1,7 0 0,0 2 1,4 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 Quanto ao grau de interesse com as ações de humanização no ambiente de estágio, destaca-se na Tabela 4 que 41,4% (n=58) futuros trabalhadores da saúde afirmam serem interessados, das práticas de humanização para os usuários. Evidencia-se também que 17,9% (n=25) são muito interessados e 22,9% (n=32), bastante interessados neste segmento. Ressalta-se que 40,7% (n=57) são interessados nestas ações para os trabalhadores da saúde, com 21,4% (n=30) sendo muito interessados, e 21,4% (n=30) bastante interessados. Tabela 4 – Caracterização dos graus de interesse em ações de humanização para acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % n % n % n % Grau de interesse com ações de humanização para os usuários no seu ambiente de estágio? Muito interessado 15 39,5 6 10,0 4 9,5 25 17,9 Bastante interessado 11 28,9 9 15,0 12 28,6 32 22,9 Interessado 9 23,7 33 55,0 16 38,1 58 41,4 Pouco interessado 3 7,9 7 11,7 10 23,8 20 14,3 Nada interessado 0 0,0 5 8,3 0 0,0 5 3,6 9 Tabela 4 – Caracterização dos graus de interesse em ações de humanização para acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 (continuação) Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % n % n % n % Grau de interesse com ações de humanização para trabalhadores da saúde no seu ambiente de estágio? Muito interessado 12 31,6 12 20,0 6 14,3 30 21,4 Bastante interessado 12 31,6 8 13,3 10 23,8 30 21,4 Interessado 11 28,9 28 46,7 18 42,9 57 40,7 Pouco interessado 3 7,9 11 18,3 7 16,7 21 15,0 Nada interessado 0 0,0 1 1,7 1 2,4 2 1,4 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 TOTAL A Tabela 5 demonstra as principais desumanizações sofridas/e presenciadas pelos graduandos na instituição de estágio para com os profissionais de saúde. Observou-se que a principal foi a ameaça/agressão verbal, com 57,9% (n=81) das respostas, sendo prevalente entre Enfermagem, 59,7% (n=22) e Medicina, 78,3% (n=47). É importante destacar que 60,7% (n=85) dos acadêmicos também assinalaram que não sofreram/presenciaram acidentes de trabalho por condições inadequadas do ambiente de trabalho. Tabela 5 - Caracterização das principais desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % n % n % n % Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou violência física na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Sim 3 7,9 10 16,7 4 9,5 17 12,1 Não 35 92,1 50 83,3 38 90,5 123 87,9 Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou ameaça/agressão verbal na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Sim 22 57,9 47 78,3 12 28,6 81 57,9 Não 16 42,1 13 21,7 30 71,4 59 42,1 10 Tabela 5 - Caracterização das principais desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 (continuação) Enfermagem Medicina Odontologia Geral Variáveis N % n % n % n % Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou pressão moral na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Sim 14 36,8 43 71,7 7 16,7 64 45,7 Não 24 63,2 17 28,3 35 83,3 76 54,3 Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou discriminação na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Sim 10 26,3 27 45,0 5 11,9 42 30,0 Não 28 73,7 33 55,0 37 88,1 98 70,0 Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou acidente de trabalho por condições inadequadas do ambiente de trabalho na instituição de estágio? Sim 15 39,5 30 50,0 10 23,8 55 39,3 Não 23 60,5 30 50,0 32 76,2 85 60,7 TOTAL 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 O principal responsável pelas desumanizações, de acordo com a Tabela 6 foram os familiares do usuário, com 38,6% (n=54) das respostas, com um p-valor de 0, 000 onde se observou maior proporção nos que sofreram ameaça/agressão verbal (Tabela 7), em destaque pelos acadêmicos de Medicina, com 66,7% do total (n=40). Os graduandos de Enfermagem e Medicina identificaram como principal responsável o pessoal da instituição, referido como o Médico, com 36,8% (n=15), e 25,0% (n=15), do 20,7% (n=29) (Tabela 6), assumindo um pvalor de 0,005 para ameaça/agressão verbal, onde se observou maior proporção (Tabela 7). Cabe destacar que não houve respostas prevalentes na Odontologia em nenhuma das desumanizações apontadas, observadas também com a assertiva “não sofri/presenciei desumanização” da Tabela 6, dado os 47,6% (n= 20) das 23,6% (n=33) das respostas. 11 Tabela 6 - Caracterização dos responsáveis pelas desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Responsáveis n % n % n % n % Familiares do usuário 11 28,9 40 66,7 3 7,1 54 38,6 Trabalhador externo à instituição 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Público (todas as outras pessoas que não relacionadas com o usuário) 2 5,3 1 1,7 3 7,1 6 4,3 Pessoal da instituição – Médico 14 36,8 15 25,0 0 0,0 29 20,7 Pessoal da instituição - Técnico de Enfermagem/Enfermeiro 6 15,8 0 0,0 0 0,0 6 4,3 Pessoal da instituição – Professor 2 5,3 0 0,0 2 4,8 4 2,9 1 2,6 0 0,0 4 9,5 5 3,6 1 2,6 0 0,0 0 0,0 1 0,7 1 2,6 1 1,7 0 0,0 2 1,4 Outro - Refeitório impróprio 0 0,0 1 1,7 0 0,0 1 0,7 Não sofri/presenciei desumanizações 5 13,2 8 13,3 20 47,6 33 23,6 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 Pessoal da Instituição – Recepcionista Pessoal da Instituição - Diretor da UBS Outro - Condição inadequada para acompanhar paciente e do ambiente de trabalho TOTAL Tabela 7 – Cruzamentos entre ameaça/agressão verbal com responsável pela desumanização segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou ameaça/agressão verbal na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Responsáveis Sim Não *p-valor Geral n % n % N % Usuário 38 46,9 18 30,5 56 40,0 0,075 Familiares do usuário 42 51,9 12 20,3 54 38,6 0,000 Trabalhador externo à instituição 0 0,0 0 0,0 0 0,0 - Público (todas as outras pessoas que não relacionadas com o usuário) 4 4,9 2 3,4 6 4,3 0,992 Pessoal da instituição – Médico 24 29,6 5 8,5 29 20,7 0,005 Pessoal da instituição - Técnico de Enfermagem/Enfermeiro 5 6,2 1 1,7 6 4,3 0,382 Pessoal da instituição – Professor 1 1,2 3 5,1 4 2,9 0,392 12 Tabela 7 – Cruzamentos entre ameaça/agressão verbal com responsável pela desumanização segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 (continuação) Nos períodos de estágio, sofreu ou presenciou ameaça/agressão verbal na instituição de estágio para com os profissionais de saúde? Responsáveis Sim Não *p-valor Geral n % n % N % 2 2,5 3 5,1 5 3,6 0,722 6 7,4 27 45,8 33 23,6 0,000 Outro - Refeitório impróprio 2 2,5 0 0,0 2 1,4 - Não sofri/presenciei desumanizações 1 1,2 0 0,0 1 0,7 - 81 100,0 59 100,0 140 100,0 - Pessoal da Instituição – Recepcionista Outro - Condição inadequada para acompanhar paciente e do ambiente de trabalho TOTAL *Valor de p: comparação entre proporções As reações dos acadêmicos apontadas frente às desumanizações, observado na Tabela 8, foi a de “procurar ajuda de outros profissionais da instituição”, com 29,3% (n=41) das respostas. “Não tomar nenhuma medida”, com 25,0% (n=35) também é ressaltado. Tabela 8 - Caracterização da reação às desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Enfermagem Medicina Odontologia Geral Reações n % n % n % n % Não tomei nenhuma medida 12 31,6 12 20,0 11 26,2 35 25,0 Tentei fingir que não tinha acontecido 0 0,0 6 10,0 0 0,0 6 4,3 Conversei com a pessoa e resolvi 7 18,4 9 15,0 6 14,3 22 15,7 Conversei com a pessoa e não resolvi 5 13,2 8 13,3 0 0,0 13 9,3 Disse aos amigos/família 5 13,2 5 8,3 1 2,4 11 7,9 Disse a um colega 7 18,4 6 10,0 1 2,4 14 10,0 6 15,8 18 30,0 5 11,9 29 20,7 2 5,3 1 1,7 0 0,0 3 2,1 10 26,3 11 18,3 20 47,6 41 29,3 Comuniquei ao meu responsável na instituição Procurei ajuda do departamento do meu curso Procurei ajuda de outros profissionais 13 Tabela 8 - Caracterização da reação às desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 (continuação) Enfermagem Medicina Odontologia Geral Reações Relatei à instituição Processei judicialmente o agressor Outro: Não estava envolvido/Não era comigo TOTAL n % n % n % n % 1 2,6 0 0,0 0 0,0 1 0,7 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 1,7 0 0,0 1 0,7 38 100,0 60 100,0 42 100,0 140 100,0 Os acadêmicos referiram, de acordo com a Tabela 9 não denunciar ou falar do incidente por achar que “era inútil”, com 20,6% (n=22) das respostas. Tabela 9 - Caracterização da não denúncia às desumanizações sofridas segundo acadêmicos de Enfermagem, Medicina e Odontologia, Vitória-ES, 2011 Se NÃO denunciou ou falou do incidente, porque não o fez? Curso Enfermagem n % Medicina n % Não sofri/presenciei 16 48,5 19 36,5 6 27,3 41 38,3 Não achei importante 2 6,1 5 9,6 6 27,3 13 12,1 Senti-me envergonhado(a) 0 0,0 0 0,0 1 4,5 1 0,9 Senti-me culpado(a) 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 Tive medo das consequências 0 0,0 1 1,9 1 4,5 2 1,9 Era inútil 3 9,1 15 28,8 4 18,2 22 20,6 Não soube a quem denunciar 7 21,2 10 19,2 3 13,6 20 18,7 Não estava envolvido/Não era comigo 3 9,1 1 1,9 0 0,0 4 3,7 Não achei importante / Era inútil 0 0,0 0 0,0 1 4,5 1 0,9 Senti-me envergonhado(a) / Tive medo das consequências 1 3,0 0 0,0 0 0,0 1 0,9 Era inútil / Não soube a quem denunciar 0 0,0 1 1,9 0 0,0 1 0,9 Não achei importante / Era inútil / Não soube a quem denunciar 1 3,0 0 0,0 0 0,0 1 0,9 TOTAL 33 100,0 22 100,0 52 100,0 Odontologia n % Total n % 107 100,0 14 4. DISCUSSÕES 4.1. MOTIVAÇÕES FRENTE AO CURSO REALIZADO Nas condições que envolvem a escolha do curso, Bulcão e Sayd (2003) realizaram uma pesquisa que identificou inúmeras expressões de lamentação e indignação em face da progressiva deterioração da imagem do médico, se comparada ao grande prestígio social desfrutado no passado. A perda de prestígio social da profissão médica é associada ao grande número de escolas médicas que formam, o que desvalorizaria o profissional em termos de mercado,13 fato também observado com maior destaque na profissão de Enfermagem. Nos ambientes de prática, o aluno passa a vivenciar algumas dificuldades e adversidades da vida profissional, envolvendo maior dedicação e responsabilidade por parte dos acadêmicos, e habilidades profissionais começam a ser solicitadas, ainda que com currículo extenso, cuja identidade profissional começa a ser construída. Erdmamn et. al (2009) aponta que os alunos Odontologia, Medicina e Enfermagem destacam como motivador de carreira a possibilidade de estabilidade financeira.14 Vivencia-se assim, um período em que há necessidade de mudanças profundas no aparelho formador dos profissionais da saúde8, porque o atual, individualista e antropocêntrico, não atende mais às necessidades das pessoas nem do processo de trabalho em saúde, no qual todos anseiam por satisfação salarial contrastadas com as possibilidades de reserva de mercado existentes. 4.2. CONHECIMENTO SOBRE HUMANIZAÇÃO E SAÚDE DO TRABALHADOR DA SAÚDE Silva (2011) aponta que é importante ter uma disciplina específica para a humanização, e que essa temática atravesse todas as abordagens teóricas e práticas do processo ensinoaprendizagem. A autora retrata que não há uma disciplina específica que aborde o tema em questão, o mesmo sendo mencionado de uma forma vaga e superficial. 15 A realidade observada diante as práticas é que os universitários não só desconhecem a PNH em suas abordagens, mas também desconhecem questões importantes relacionadas à segurança e saúde do trabalhador, refletidas na “imaturidade” dos profissionais que se formam. 16 Ferreira (2005), entretanto, aponta que muitos profissionais de saúde, apesar do desconhecimento da PNH, em algumas situações incorporam a humanização em sua prática. 8 15 É importante destacar, nessa perspectiva que é alarmante o fato de que 31% (n=44) futuros trabalhadores da saúde declaram não ter ouvido falar sobre a PNSST. Questiona-se: como o trabalhador deixa a graduação desconhecendo os seus direitos quanto trabalhadores, dados as peculiaridades do trabalho da saúde? Na perspectiva da formação integral do estudante, a universidade deve ser o local de formação em todos os eixos, não somente o assistencial, mas como também o que garante seguridade de sua prática. Atualmente, ainda se observa a formação de profissionais centrada no modelo biomédico e tecnicista,15, 17, 28 sem considerar ou considerando muito pouco as políticas públicas vigentes, como a PNH. É possível observar que, em vez de uma matriz curricular flexível, na qual os componentes se inter-relacionam como proposto pelo currículo integrado e pelas DCN, o que se encontra é uma proposta grade curricular rígida e previamente estabelecida. Apesar do caráter amplo da PNH, a tentativa de implantação desta política se restringe a ações isoladas como melhoria nas condições dos espaços físicos e circulação de pessoas, realização de grupos com pacientes portadores de alguma patologia ou treinamento de funcionário encarregados da recepção com o objetivo de melhorar o atendimento aos usuários dos serviços.19 O tocante reforçado aqui não é o “para quem”, mas a finalidade do que se faz. Qual seria a finalidade de uma política voltada unicamente para o usuário ou unicamente para o trabalhador? As ações devem ser simultâneas e com múltiplas faces, baseado no princípio da respeitabilidade dos envolvidos. A humanização não pode ser tomada somente como um princípio, mas se é proposta como política é porque sua efetividade não se faz enquanto proposta genérica e abstrata. 18 Demandam a revisão das práticas cotidianas com ênfase na criação de espaços de trabalho menos alienantes que valorizem a dignidade do trabalhador e do usuário.20 Goulart et. al (2010) destaca que os profissionais (e também futuros profissionais!) não se encontram em condições de garantir um atendimento humanizado, tendo em vista que, quase sempre, são submetidos a processos de trabalhos mecanizados que os limitam na possibilidade de se transformar em pessoas mais críticas18 e assim, começam a pensar unicamente em questões para si, refletidas no seu modo de fazer, rígido e desumano. Alves et. al (2009) assinala que no contexto da educação para profissionais de saúde, visualizar o eixo humanístico significa romper com estruturas fragmentadas dos cursos, com disciplinas isoladas e não integradas, inserção tardia deste na prática e utilização de 16 metodologias de ensino baseadas somente na transmissão de conteúdos.24 A dicotomização esbarra a uma tendência humanizadora para todos os atores, que prejudica a associação crítica ao longo da graduação; iniciando com a teoria desarticulada com a prática, que serve pouco para o futuro e depois resulta em profissionais pouco reflexivos e meros “tocadores” de serviços.16, 17, 23 Na perspectiva da formação integral do estudante, para o trabalho em saúde, como já destacado, o professor necessita desenvolver habilidades pedagógicas voltadas à incorporação de metodologias de ensino-aprendizagem que favoreçam a troca, a construção do conhecimento e o protagonismo dos estudantes na apropriação de saberes científicos, éticos e políticos, como fomenta também a PNH. Nessa ótica, a PNH avança com a dimensão do trabalhador, como figura central também do trabalho em saúde, com o pressuposto de construção do seu processo de trabalho, gestão participativa e condições de trabalho adequadas. Destacou-se nesta pesquisa que futuros profissionais da saúde se interessam pela humanização. Klock et al. (2006) afirma que o trabalhador é fundamental para a concretização do processo de humanização na atenção em saúde. Somente poderemos ter a concretização desta Política de Humanização se o trabalhador for acolhido, cuidado e educado em condições de trabalho dignas, éticas e humanas. 25 A humanização se instala como parte do sujeito e não como algo que ele deve fazer, mas como algo que é próprio de sua pessoa e sua história. 26 Bernardi (2010) aponta que alguns trabalhadores não dão vazão à sua própria potência ou por medo de críticas, repressões ou por não acreditar que podem contribuir com a própria mudança, 27 visto a face do se interessar frente a do se fazer. Pode-se incluir nessa perspectiva, a relação entre o comportamento profissional e a formação pessoal. Dificilmente um profissional terá posturas humanizadas, compreendendo também graus de interesse, se não tiver uma história familiar e social com formação semelhante. A importância de um conhecimento prévio e uma formação adequada da personalidade é igualmente válida para o profissional responsável pela formação, isto é, os docentes.22 17 4.3. PRINCIPAIS DESUMANIZAÇÕES SOFRIDAS/PRESENCIADAS PELOS ACADÊMICOS E CONDUTA PÓS-EVENTO A racionalização, a mecanização e a burocratização excessiva do trabalho em saúde impedem a capacidade crítico-criativa dos trabalhadores e são desumanizantes. 28 A falta de condições técnicas, de atualização, de recursos materiais e humanos, além da existência de processos não resolutivos da atenção em saúde ou a forma desrespeitosa com que muitos profissionais se relacionam tornam o ambiente de trabalho desumano. Ameaça/agressão verbal reflete com as carências de não haver leitos, nem trabalhadores suficientes para a demanda; nem sempre as necessidades dos usuários/familiares e trabalhadores são satisfeitas e os materiais e equipamentos são insuficientes ou inexistentes para a complexidade do sistema, sem mencionar as relações verticais e autoritárias de gestão, desumanizando o processo de cuidar e interferindo negativamente na saúde do trabalhador.18, 28 Constitui-se assim, nesses incidentes, abusos e agressões que os trabalhadores sofrem em circunstâncias relacionadas com seu trabalho e que põe em perigo, implícita ou explicitamente, sua segurança, seu bem-estar e sua saúde.18 O fato de 60,7% (n=85) abordarem não sofrerem/presenciarem acidentes de trabalho instiga ao fato que 31,4% (n=44) não ouviram falar sobre a PNSST (Tabela 2), apesar de não apresentar diferenças estatisticamente significantes entre os percentuais (p-valor 0,278). Como identificar o sofrimento ou a presença de um acidente de trabalho diante do desconhecimento? Percebe-se que a maioria dos trabalhadores subnotificam os acidentes de trabalho sofridos, ora por medo de alguma consequência nas suas relações de trabalho, ora por desconhecimento, ora por não achar importante. Conforme abordado na literatura, a subnotificação dos acidentes de trabalho na área de saúde é preocupante. Segundo Napoleão et al. (2000), esta é decorrente principalmente da avaliação do profissional de que a situação ou lesão ocorrida não é de risco,29 ou seja, não é acidente. Os profissionais que lidam, direta ou indiretamente, com a saúde dos usuários preocupam-se muito com a assistência oferecida, priorizando o seu conforto e bem-estar, e pouco com os riscos inerentes à execução de suas atividades. 30 Pensa-se nisto quando a maioria dos graduandos referem o usuário como vida que merece cuidados, associado ao que é enfatizado pela maioria dos cursos de formação em saúde, destoando com a fundamentação de que o trabalhador deve ser priorizado simultaneamente como elemento fundamental para 18 humanização da assistência,9 voltando à atenção gestora, política e institucional, entendendose também as universidades. Estas questões são cruciais e devem ser pensados pelos gestores, trabalhadores, próprios usuários, seus familiares e pelos espaços de formação. No entanto, a despeito das demandas da formação em saúde, sobra pouco espaço durante a graduação para que o acadêmico divida ou expresse suas emoções, e quando este aparece, não é feito por vergonha. Muitas vezes, o futuro profissional tem que escondê-las, por receio de ser “acusado” de ser muito frágil, sensível, “mole” e, por tanto, “não ser vir para ser médico”16 ou qualquer outro profissional da saúde. Os valores do professor são parte da formação do estudante. Os acadêmicos aprendem não apenas através de modelos – observação e assimilação do exemplo ou padrões – mas também através de seu envolvimento no ambiente da universidade. 13 Assim, aponta-se o currículo oculto13, que faz com que o acadêmico aprenda a partir de modelos e valores docentes. Tendenciosamente pode assumir duas posturas: acostumar-se com as ameaças/agressões morais, ressaltado como principal desumanização sofrida/presenciada, tornando natural a reprodução dessa postura ou indignar-se, adoecer-se, até mesmo criar um “desgosto” precoce pela profissão. Protesta-se: como cobrar uma assistência humanizada, quando o próprio processo de formação não é? Lima e Souza (2010) abordam problemas éticos durante a formação relacionados a embaraços e dificuldades no relacionamento entre professores e acadêmicos e entre os próprios docentes, que se apresentam muitas vezes alheios e despreocupados quanto ao comportamento ético e humanizado, principalmente na formação em Medicina.22 Destaca-se a resposta do “Médico” como um dos principais responsáveis pelas desumanização sofridas/presenciadas, mas verifica-se que muitos destes não são professores, e possuem abordagem de preceptoria/tutoria, na qual, geralmente, não há uma formação pedagógica no desenvolver das potencialidades humanas dos acadêmicos. Em dimensões mais amplas, a própria instabilidade e adversidades habituais no trabalho da saúde, relacionado à infra-estrutura, salários, vínculos, direitos, burocracia excessiva, subvalorizações, mobilizam-se e desestabilizam os investimentos e interesses (profissionais, subjetivos e afetivos) dos trabalhadores, incessantemente provocados e desafiados, resultado em diferentes tipos de atitudes: de negação, de recuo, resistência, superação, improvisação. 31 19 Uma questão preocupante na formação desses futuros profissionais é a dificuldade encontrada para integrá-los por meio de seus currículos, com a finalidade de promover maior convivência, troca de conhecimentos e respeito ao saber alheio, e facilitar o aprendizado do trabalho em equipe25 como é proposto pela a PNH. Deslandes (2004) destaca que não se muda uma cultura de assistência unicamente com capacitações dirigidas aos profissionais. 32 Porém, certamente, um investimento sério na formação (inclusive desde a graduação) pode, de fato, fortalecer ideias outrora consideradas utópicas ou fora do âmbito e do papel da assistência. 18 Problemas desumanizantes mais comumente destacados durante a formação acadêmica estiveram àqueles relacionados a erros de colegas, falta de comportamento humanizado de professores para com usuários, problemas no relacionamento professor-aluno, falta de integração entre profissionais, problemas com outros trabalhadores, problemas com a biossegurança e, finalmente, o dilema entre agir produtivamente e humanamente diante de trabalhadores, usuários, professores e colegas. 8 A PNH constitui-se na oportunidade de resgatar o verdadeiro sentido da prática profissional, o valor do seu trabalho e do trabalhar em equipe e a busca pelo aprimoramento das relações que estabelecem entre si, com os usuários e com a gestão 9. Fontana (2010) aponta os desafios encontrados para a prática humanizadora: os aspectos relacionados à ambiência desfavorável, ao desinteresse/desmotivação e comodismo de alguns profissionais e ao absenteísmo, o que reforça a importância de boas condições de trabalho tanto físicas, de relações inter-pessoais, como de acesso e de resolutibilidade para que se efetive a humanização do cuidado ao usuário e ao trabalhador.28,33 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Verificou-se no presente estudo que a maior parte dos acadêmicos do último ano de graduação de Enfermagem, Medicina e Odontologia já ouviu falar sobre a PNSST e a PNH, fato que foi prevalente durante as aulas dos referidos cursos em conclusão . Relatam que as práticas de humanização deveriam ser para profissionais de saúde e usuários, sendo interessado para ambos. Os graduandos também escolheram o curso pela preferência e gostam muito do que fazem. 20 A principal desumanização sofrida/e presenciada pelos graduandos na instituição de estágio para com os profissionais de saúde foi a ameaça/agressão verbal, sendo os principais responsáveis, os familiares do usuário e os médicos da instituição, levando a não “tomar nenhuma medida” pós-evento por achar que “era inútil” A maioria dos acadêmicos também assinalaram que não sofreram/presenciaram acidentes de trabalho por condições inadequadas do ambiente de trabalho. Conclui-se que há necessidade de estudos que compreendam a prática dos profissionais que se formam e como deveriam ser estas práticas, de acordo com as necessidades do país. Não como estratégia política, mas, como estratégia de fortalecimento de cidadania do trabalhador para garantia dos direitos dos usuários. Pode ser ousado ou utópicco refletir e/ou sugerir mudanças num contexto político desgastado, mas, abster-se de contribuir sugere acomodação. Transpor e transformar à luz humanização pressupõe muito mais do que estabelecer políticas, contudo, devem-se agregar valores novos aos já consolidados internamente no sujeito. É um grande desafio para a implementação de medidas humanizadoras na área da saúde, tanto no âmbito assistencial como no âmbito trabalhista, onde dessensibilização e o despreparo dos trabalhadores, por consequência de uma carência na formação acadêmica, geram um desconforto nas relações interpessoais. A falta de conhecimento a respeito dos direitos como trabalhadores e das práticas de humanização observada com graduandos dos referidos cursos (Enfermagem, Odontologia e Medicina) atrela-se a uma formação acadêmica estruturada na inflexibilidade de uma matriz curricular existente. Dessa maneira, não dá conta de apresentar alternativas perante o saber e o se fazer, ressaltado na ausência da capacidade do enfrentamento da realidade com uma visão crítica e reflexiva, voltada para a necessidade de humanização e valorização do sujeito que trabalha. Busca-se, portanto, que a universidade contribua com seu papel formador de cidadania, porém, na construção destes futuros trabalhadores em pessoas preparadas de fato para encarar as mudanças emergentes em um espaço de trabalho mais humano de se relacionar. 21 6. REFERÊNCIAS 1. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 17 ed., São Paulo: Saraiva; 1997. 2. SANTOS-FILHO, Serafim Barbosa. Valorização do Trabalhador da Saúde. 2007. In: SANTOS-FILHO, Serafim B; BARROS, M. Elizabeth Barros, MEB. Trabalhador de Saúde, Muito Prazer! Protagonismos dos trabalhadores na gestão do Trabalho em Saúde. Um olhar sobre o trabalho em saúde nos marcos teóricos-políticos da saúde do trabalhador e do HumanizaSUS. Ed. 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