8 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho artigo Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho: Uma nova rede de cooperação em ergonomia entre Universidade – Empresas – Sociedade Simone de Cássia Silva, Pedro Felipe de Abreu Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 1. INTRODUÇÃO O O objetivo da ergonomia é alterar os sistemas de trabalho, por meio da modificação dos modus operanti, para adequá-los às características, habilidades e limitações dos trabalhadores com vistas ao seu desempenho eficiente, confortável e seguro e, concomitantemente, agregar valor ao desempenho global do sistema ser humano-tarefa-ambiente. A inadequação dos postos de trabalho à população de trabalhadores constitui um problema social importante com reflexos nas questões de requalificação, saúde e economia. Segundo Santos e Zamberlan (1992), a “ergonomia tem como finalidade conceber e/ou transformar o trabalho de maneira a manter a integridade da saúde dos operadores e atingir objetivos econômicos. Os ergonomistas são profissionais que têm conhecimento sobre o funcionamento humano e estão prontos a atuar nos processos projetuais de situações de trabalho, interagindo na definição da 167 168 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica organização do trabalho, nas modalidades de seleção e treinamento, na definição do mobiliário e ambiente físico de trabalho”. Para se desenvolver projetos de aplicação da metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) é necessário o apoio de uma estrutura laboratorial para favorecer o estudo em uma dimensão implícita, considerando a atividade como elemento central para instrumentalizar o desempenho dos sistemas de produção nas empresas, cujo objetivo é atingir um funcionamento estável em qualidade e produtividade. A análise dos postos de trabalho tem o intuito de identificar as possíveis causas de deficiências que o processo pode causar aos colaboradores e, acredita-se que, para a economia regional. Para a identificação das origens das causas de deficiências na saúde empresarial, torna-se necessária uma análise detalhada das condições ambientais, técnicas e organizacionais do trabalho, bem como o comportamento do ser humano no desenvolvimento de suas atividades. Uma das formas de compatibilizar os sistemas técnico e social é a visão antropocêntrica da ergonomia, a qual privilegia as mudanças organizacionais e as mudanças no conceito de produtividade, a partir da qualidade de vida no trabalho. Para o incremento do Produto Interno Bruto (PIB), no contexto das pequenas e médias empresas, torna-se relevante a inserção de iniciativas em inovação tecnológica, na economia do conhecimento voltada para o oferecimento de boas condições de trabalho, do ponto de vista ergonômico, buscando a criação de valor sustentável a partir dos ativos intangíveis que influenciam o próprio trabalhador, como: ambiente, tarefa, posto, meios de produção, organização do trabalho, as relações entre produção e salário etc., que devem permear e conectar interativamente a universidade, as empresas e a sociedade como um todo. Para que tais iniciativas ocorram com efetividade dentro do contexto supra-citado, faz-se necessário o alinhamento de uma rede de cooperação entre universidade e pequenas e médias empresas foco do estudo, exercendo a universidade um papel de conector e animador dessa rede, estimulando a inovação, a solução de problemas e a melhoria contínua e, por conseqüência, minimizando o hiato das interfaces do tecido econômico-social. As relações interinstitucionais entre Universidade - Empresas - Sociedade podem ser redesenhadas para criarem condições de crescimento econômico por meio do desenvolvimento da troca e conversão do conhecimento acerca das boas práticas em ergonomia. O alinhamento das ações dos integrantes desta rede deve concentrar-se principalmente no compartilhamento e transferência de Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho conhecimento técnico e, na operacionalização de estratégias de operações, tanto de forma corretiva - melhorias em sistemas já existentes - quanto de maneira prospectiva - melhorias nos sistemas de trabalho em fase de concepção e projeto. Essa cooperação pode ocorrer com o aperfeiçoamento da utilização dos recursos nos diversos ambientes de trabalho, através da atuação de um conector como o Laboratório de Ergonomia, do Núcleo de Engenharia de Produção, estruturado na Universidade Federal de Sergipe (LabErgon/UFS). Outro ponto forte da proposta, a abordagem da mesma em conformidade com as diretrizes do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), dentro do Programa de Promoção da Inovação Tecnológica nas Empresas, uma das ações de C,T&I, cuja meta é: “Desenvolver um ambiente favorável à dinamização do processo de inovação tecnológica nas empresas visando a expansão do emprego, da renda e do valor agregado nas diversas etapas de produção. Este é um dos objetivos desta proposta aqui descrita, que estimula a inserção de um maior número de pesquisadores no setor produtivo, a difusão da cultura da absorção do conhecimento técnico e científico e a formação de recursos humanos para inovação. No escopo do projeto ainda, está proposto a implementação da metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) em empresas da Rede de Petróleo e Gás do estado de Sergipe, que prioriza aplicação de pesquisa nos Arranjos Produtivos Locais. O MCT incentiva Programas de Cooperação Universidade-Empresa por meio do Apoio à Cooperação entre Empresas e Instituições Científicas e Tecnológicas - ICTs. É explicitado no projeto que o LabErgon/UFS oferece recursos científicos à concepção e ao uso de novas tecnologias, equipamentos, ferramentas e novos modelos gerenciais para a melhoria das condições humanas de trabalho nos diversos processos produtivos, bem como produtos, além de prestar apoio pedagógico na formação de discentes e aproximar novos pesquisadores a UFS, desenvolve e colabora em projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) na área de Engenharia III, com vistas ao oferecimento de boas condições de trabalho para o aprimoramento do desenvolvimento territorial. Os projetos cooperativos de PD&I envolvem parcerias entre empresas e ICTs, em que se incluem Universidades e Institutos de Pesquisa. O principal foco de tais projetos reside na interseção entre demandas do setor produtivo por novas ou melhores tecnologias (em produtos, processos e serviços) e ofertas de conhecimento científico construído por equipes especialistas no País. Em cooperação, empresas e ICTs poderão reduzir custos da produção, diminuir o 169 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 170 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica risco da inovação tecnológica, ampliar significativamente a produção científica e a competitividade das empresas”. Esses projetos têm sido apoiados por meio de Chamadas Públicas e Editais, financiados pelos Fundos Setoriais, executados pelos órgãos do Ministério da Ciência e Tecnologia (CNPq e FINEP). Portanto, entende-se que propostas alinhadas a estas estratégias da União poderiam trazer benefícios à ciência e sociedade. Os materiais desenvolvidos e difundidos pelo MCT aduzem a importância de se trabalhar como estratégia a realização de projetos cooperativos entre ICT e empresas, voltando-se para apoiar pequenas e médias empresas no desenvolvimento de produtos e processos inovadores. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Ergonomia A ergonomia é uma disciplina relativamente recente, e ao longo do tempo apresentou várias definições que foram influenciadas pela visão dos ergonomistas. A Associação Internacional de Ergonomia (IEA) apresentou, em meados de 2000, a seguinte definição que é referência internacional: A Ergonomia (ou Fatores Humanos) é uma disciplina científica que visa a compreensão fundamental das interações entre os seres humanos e outros componentes de um sistema, e a profissão que aplica princípios teóricos, dados e métodos com o objetivo de otimizar o bem-estar das pessoas e o desempenho global dos sistemas. No Brasil foi criada uma Norma Reguladora em Ergonomia (NR17) que “visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente”. Na mesma norma, as condições de trabalho são definidas como “aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de trabalho, e à própria organização do trabalho”. Atualmente, a ergonomia é vista como um estudo científico transdiciplinar, que interage com a biologia humana, a medicina do trabalho, a ciência cognitiva, Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho a psicologia do trabalho, a sociologia do trabalho e a ciência da gestão relacionando o ser humano com o sistema. Porém, de acordo com SILVA (2008): [...] a transdicisplinaridade pode favorecer a compreensão dos benefícios da aplicação das recomendações ergonômicas na rotina dos trabalhadores e, conseqüentemente, nos resultados globais da organização, no contexto da inovação organizacional, advindo da interação entre empresa e instituições de ensino/pesquisa. Quanto à especialização, a ergonomia apresenta de três áreas específicas, a saber: Ergonomia física; cognitiva e organizacional A ergonomia física trata das características anatômicas, antropométricas, fisiológicas e biomecânicas do homem em relação à atividade, observando a postura de trabalho, a manipulação de objetos, os movimentos repetitivos, os problemas osteo-musculares, o leiaute do posto de trabalho, a saúde e segurança. A ergonomia cognitiva trata dos processos mentais, como memória, percepção, raciocínio e respostas motoras numa relação homem e os componentes do sistema, observando os processos de decisão, o desempenho especializado, a interação homem-máquina, a confiabilidade humana e o estresse profissional. A justificativa para os estudos relacionados com a ergonomia cognitiva pauta-se na assertiva de que os problemas mais graves e lesionantes do trabalho geralmente são fundamentalmente biomecânicos, devendo uma atenção especial ao tópico em questão, visto que, segundo Vidal e Carvalho (2008) a ergonomia cognitiva enfoca o ajuste entre habilidades e limitações humans às máquinas, a tarefa, ao ambiente, observando o uso de certas faculdades mentais, aquelas que nos permitem raciocinar e tomar decisões no trabalho. A ergonomia organizacional trata da otimização dos sistemas sociotécnicos, estrutura organizacional, regras e processos, onde se observa a comunicação, a gestão do coletivo, a concepção do trabalho e dos horários, a ergonomia comunitária e o trabalho cooperativo (FALZON, 2007). Segundo Falzon (2007), o ergonomista possui quatro categorias de conhecimentos que são utilizados em situação de ação, são elas: 171 172 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica • Os conhecimentos gerais sobre o ser humano em ação • Os conhecimentos metodológicos • Os conhecimentos específicos e • Os conhecimentos eventuais. Dessa forma, percebe-se que o ergonomista é habilitado a atuar em qualquer ação, sendo esta prevista ou eventual. A metodologia mais comumente utilizada é a Análise Ergonômica da Tarefa (AET), que, segundo Santos (2001): procura estudar o trabalho não só na sua dimensão explícita (tarefa), conforme definido pela engenharia de produção, mas, sobretudo, na sua dimensão implícita (atividades), característica do conhecimento tácito do pessoal de nível operacional. Conforme observa Silva (2008), a AET na dimensão implícita “considera a atividade como elemento central para instrumentalizar o desempenho dos sistemas de produção, objetivando atingir um funcionamento estável em qualidade e quantidade”. Portanto, cabe ao ergonomista implementar ações que minimizem os riscos à saúde e segurança do trabalhador, aumentando a auto estima, a produtividade e minimizando as perdas econômicas da região. 2.2 Gestão do Conhecimento, Inovação, Interação Universidade-Empresa e Redes A Gestão do Conhecimento procura compreender, a partir dos recentes avanços nas tecnologias de informática e de telecomunicações, e das conclusões das teorias sobre criatividade e aprendizado individual e organizacional, de que maneira os investimentos nesta área podem de fato aumentar a capacidade de gerar, difundir e armazenar conhecimento de valor para as empresas. Gasparetto (2006) ressalta que as organizações que se constituírem como organizações de aprendizagem e que descobrirem como despertar a capacidade de aprender das pessoas em todos os níveis da organização, obterão sucesso e conseguirão manter-se no mercando competitivo. Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Segundo Murray (2004), gestão do conhecimento é uma estratégia que transforma bens intelectuais da organização – informações geradas pelos seus processos e o talento de seus colaboradores – em maior produtividade, novos valores e aumento da competitividade. O objetivo principal da gestão do conhecimento é tornar acessível o conhecimento para que as pessoas possam utilizá-los no momento oportuno, para ajudar não somente na execução de tarefas e tomadas de decisão, mas também no processo de geração de idéias e inovação das empresas. O conhecimento é informação trabalhada por pessoas e pelos recursos computacionais, gerando cenários, simulações e oportunidades (IATROS, 2005). Seguindo este mesmo raciocínio Aranha (1992) afirma que todo conhecimento pressupõe o sujeito que quer conhecer o objeto a ser conhecido (como por exemplo, as mídias digitais que estendem e ampliam a capacidade de conhecer e ser conhecido). Glasersfelt (1988) argumenta que todo conhecimento está relacionado à ação e que as idéias não têm valor se não forem transformadas em ações que reconstroem de alguma forma o mundo em que se vive. A economia centrada na era do conhecimento desloca, segundo Lastres (1999), o eixo da riqueza e do desenvolvimento de setores tradicionais para setores de tecnologia e inovação. Pode-se a firmar que a atual economia requer um perfil de trabalhador capaz de pensar, raciocinar, decidir e de partilhar conhecimentos, contribuindo, desta forma, para o processo de inovação da empresa na qual está inserido. O conhecimento é visto como elemento diferenciador, gerando vantagem competitiva nas organizações modernas. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997, p. 83) com relação à criação do conhecimento: “a essência da estratégia está no desenvolvimento da capacidade organizacional de adquirir, criar, acumular e explorar o domínio do conhecimento”. Por outro lado, a crescente necessidade de investimento em tecnologia torna-se uma causa de sobrevivência para a indústria. Nota-se que o acesso à tecnologia geralmente é difícil e, muitas vezes, inviável para grande parte dos empresários. Neste contexto, a cooperação entre a universidade e o setor produtivo tem se destacado como importante mecanismo para estimular tal capacidade nas empresas, pela transferência de conhecimento científico. O resultado dessa prática é o conseqüente avanço tecnológico e inovação, principalmente nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, onde a globalização intensificou as dificuldades para o crescimento industrial (França, 2001). 173 174 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica A interação universidade-empresa é um processo que pode gerar benefícios bilaterais, apesar das dificuldades decorrentes desse relacionamento. ¿Uma das principais vantagens desta relação está no fato das universidades auxiliarem as empresas na busca por competitividade, apoiando a pesquisa e desenvolvimento nas empresas fomentando a inovação tecnológica (França, 2001). Sendo assim, a transferência, para o setor produtivo, de tecnologias geradas em centros de pesquisa, universidades, institutos e em outras empresas é de suma importância para o aumento da competitividade empresarial em busca de novos mercados e da própria sobrevivência destas no mercado interno e externo. Neste contexto a interação entre esses segmentos surge como um mecanismo poderoso para o acesso à tecnologia, porém precisa ser estrategicamente incentivada para se obter resultados expressivos. De acordo com GOEDERT (1999), a estruturação de uma rede não implica necessariamente em ganhos monetários. Ela poderá influenciar o desenvolvimento sócio-econômico de uma região, preservar a função ecológica e aumentar a qualidade de vida, indiretamente, dos indivíduos pertencentes à rede. Para LIPNACK e STAMPS (1994) as principais razões para as organizações atuarem em rede são: •marketing: venda em conjunto, pesquisas de mercado, marca conjunta, serviços de exportação e avaliação das necessidades comuns; • treinamento: habilidades básicas, gerais e específicas; •recursos: aquisições conjuntas, armazenagem conjunta, coordenação de fornecedores, equipamentos especializados e serviços profissionais • P&D: desenvolvimento em conjunto de produtos/serviços, de processos, compartilhamento de pesquisa e inovações e transferência e difusão de tecnologias •pesquisa: programa de qualidade, padronização, benchmarking e compartilhamento de padrões internos. O entendimento sobre as relações comportamentais inter ou intraorganizacionais, segundo TORNARTKY E FLEISHER (1990), tem sido limitado nos estudos Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho que envolvem o processo de inovação. Para os mesmos a relação é vista como uma atividade voluntária, uma vez que os mesmos são focados para a análise de redes de trabalho de indivíduos dentro de uma especialidade científica. Segundo os autores, as relações devem ser analisadas sob a ótica das metas, papéis, regras, hipóteses e expectativas sobre comportamento e resultados. Nesta perspectiva, pessoas, em uma determinada organização, utilizam um amplo vocabulário social, econômico, técnico, político - para descrever o que está ocorrendo. De acordo com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE (2005), INOVAÇÃO é entendida como a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas. Para Mattos et al. (2008), INOVAÇÃO ORGANIZACIONAL “é a adoção ou desenvolvimento de novos métodos de organização e gestão, no local de trabalho ou nas relações da empresa com o mercado, fornecedores ou distribuidores”. Assim é tratada a proposta do projeto de Ergonomia. Além de se fomentar a INOVAÇÂO ao longo de toda proposta, com vistas a “processos”, como ressaltado pelo MCT, OCDE, Mattos et al., atenções foram dadas aos resultados esperados pelo projeto quanto aos impactos de inovação: •formação de agentes com perfil adequado para implementar técnicas inovadoras em ergonomia e segurança do trabalho em processos inovadores; •possibilidade de privilégios de propriedade intelectual, prevendo-se a participação dos pesquisadores e bolsistas envolvidos no projeto nos ganhos econômicos resultantes da exploração da tecnologia/conhecimentos gerados; •disseminação da cultura do empreendedorismo inovador, com base tecnológica na área de Ergonomia; e •estímulo ao uso de novas metodologias aplicadas em Ergonomia, adotando-se o conceito de inovação organizacional. A transferência de tecnologia a partir de um estreitamento de relações entre universidade e empresa tem sido tema central de constantes debates e 175 176 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica pesquisas. Isso se dá pela necessidade de entendimento em compreender o que essa relação envolve o que está sendo e o que deve ser transferido, e de que forma esse processo deve ocorrer (tanto no ambiente provedor, quanto do receptor). Essa compreensão possibilita que o processo seja desenvolvido de forma apropriada, atingindo seu principal objetivo que é subsidiar as empresas a se manterem competitivas no mercado possibilitando ao país um desenvolvimento tecnológico sustentável. Finalmente ressalta-se a importância que tem todos os componentes do processo de transferência, como por exemplo: a informação e a infra-estrutura necessárias para que a transferência de conhecimento ocorra entre os setores. Dar a efetiva importância às partes que compõem o todo fará com que o processo se desenvolva em harmonia e cada detalhe passa a ser pensado e valorizado, correspondendo às expectativas dos envolvidos. 3. Uma aplicação da Teoria - Resultados e Discussões O estudo apresentado foi realizado em uma das empresas da Rede de Petróleo e Gás de Sergipe, a qual chamamos de Empresa 1, na atividade de preparação do produto, pela qual três funcionários são responsáveis. A seguir se apresentam duas atividades críticas da preparação do produto, sua análise organizacional, a AET e a análise ambiental. 3.1. Análise das Condições Organizacionais de Trabalho 3.1.1. Dados referentes à repartição de funções entre os diferentes postos de trabalho A atribuição de funções é documentada através das Ordens de Serviço, que define responsabilidades e observações relativas à Saúde, Segurança e Meio Ambiente de cada funcionário. Não há rodízio de funções. Recomenda-se enriquecer o trabalho com base no rodízio de funções em toda a empresa devido às melhorias nas condições físicas e organizacionais de trabalho advindas, entre elas: redução da monotonia e da fadiga, aumento da motivação e da satisfação com o trabalho, maior comprometimento do funcionário, reconhecimento profissional e aprendizado de todo sistema organizacional. Durante o levantamento de informações sobre os microprocessos da empresa por meio de entrevistas não estruturadas, os trabalhadores envolvidos no Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho processo de produção afirmaram atuar indistintivamente em qualquer etapa da fabricação do produto. A partir desta informação conclui-se que há grande probabilidade de existir nestas circunstâncias ambiguidade de papéis. Contudo, a partir das observações das atividades, percebeu-se a divisão clara de tarefas entre os três funcionários. De fato, em atividades repetitivas e de baixo nível de complexidade, foi observado e é recomendado o rodízio de tarefas entre os funcionários de modo principalmente a minimizar o desgaste físico (como será discutido na Análise Ergonômica do Trabalho). 3.1.2. Dados referentes ao arranjo físico das máquinas e sistemas de produção O leiaute adotado é do tipo funcional, onde as máquinas ou postos de trabalho são agrupados segundo o tipo de operação que realizam e as peças ou componentes movimentados em lotes de um setor para o outro (MONDEN apud LUZZI, 2004). Considerando que são os mesmos funcionários que executam todas as atividades de preparação do produto, a distribuição dos setores ao longo do galpão é inadequada, pois exige movimentação frequentes dos trabalhadores a distâncias relativamente longas. Além disso, a análise pelo Diagrama de Fluxo permitiu identificar que o leiaute adotado não obedece a sequencia de tarefas da produção, como se pode observar a Figura 1. Figura 1: Leiaute atual da produção Uma alternativa (Opção 1) é realizar uma melhoria de leiaute de modo a posicionar os setores conforme a sequencia do fluxo de materiais em produção e tornar adjacentes áreas de maior movimentação entre si, como a de armazenagem 177 178 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica de bombonas com água industrial e a área de produção e desta a de lavagem. Esta recomendação está esquematizada na Figura 2. Figura 2. Leiaute proposto da produção Outra alternativa (opção 2) é utilizar mecanismos para reduzir o esforço durante as movimentações de material, já que as distâncias serão mantidas, como a paleteira elétrica apresentada na Figura 3. Figura 3. Paleteira elétrica 3.1.3. Dados referentes à estrutura das comunicações As comunicações no processo de produção são feitas de modo informal, por meio de linguagem falada e gestual. Verifica-se a troca constante de informações tanto entre os funcionários que executam as atividades quanto entre estes e os Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho que supervisionam, possibilitando a intervenção imediata nos processos, especialmente tratando-se de procedimentos de segurança na produção. Na atividade de preparação do produto, a comparação imediata entre os tempos de produção registrados e os tempos da produção em curso pode identificar desvios importantes no processo, como eficiência no funcionamento da bomba, por exemplo. Na área administrativa, observam-se meios informais de comunicação de forma oral ou escrita (e-mail, principalmente), havendo ainda documentos formais sobre a forma de relatórios, registros e ordens de produção. A comunicação informal é importante para proporcionar um intercâmbio intenso e rápido de informações entre os funcionários, contudo, recomenda-se a adoção de meios formais (documentados) em situações onde se faz importante o registro e controle das informações. Inclui-se a necessidade de adoção de indicadores de desempenho das metas operacionais, puxadas pelas tarefas dos operadoresnas estruturas de comunicações. 3.1.4. Dados referentes aos métodos e procedimentos de trabalho Os métodos e procedimentos de trabalho na preparação do produto não permitem muita flexibilidade visto que a ordem de preparação da solução é fixa. A rotina é determinada pelo planejamento da produção, de acordo com as entregas previstas. Os treinamentos executados visam a transmitir informações quanto aos procedimentos de segurança, qualidade e meio ambiente na execução das tarefas, embutindo-se neste aspecto o aprendizado sobre o processo de produção. As adequações são fruto de conhecimentos adquiridos na prática da atividade. Observadas as questões de segurança, os modos de fabricação de um novo produto são modelados pelo exercício de sua fabricação, acompanhada de perto pelos funcionários de direção e gestão. Na administração, não existe uma rotina rígida, algumas tarefas permitem a determinação de quando e como executar, outras devem seguir modelos documentais já adotados e prazos de execução predefinidos. O mapeamento dos métodos de execução é determinado pelos procedimentos operacionais do sistema de gestão integrada. Ainda pautando-se nas formas de melhoria da organização do trabalho, recomenda-se que todo funcionário recém-contratado pela empresa seja submetido, pelo menos durante quinze dias, a um regime de rodízio de funções, de forma a ocupar todas as funções da empresa neste período. Tal medida proporcionará o conhecimento de todos os processos existentes na empresa. 179 180 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica 3.1.5. Dados referentes às modalidades de execução do trabalho Existem normas quanto aos horários de entrada e saída e intervalo de almoço para todos os funcionários. Em relação ao processo de produção, não são fixadas pausas para descanso, as quais são observadas pela característica do processo produtivo, que exige um período de espera em cada lote para “circulação” do produto (refere-se ao tempo necessário para homogeneização da mistura). Neste período, os trabalhadores ficam circulando pela empresa, ou simplesmente em pé junto ao tanque de sucção, devendo sempre um deles estar atento ao nível do tanque, que deve ser controlado pelo acionamento da bomba. Devido ao esforço físico observado (que será discutido na Análise Ergonômica de Tarefas) e da temperatura da área de produção (que será apresentada nas Condições Ambientais de Trabalho), pautando-se no anexo 3 da NR15, recomenda-se um intervalo de 15 minutos de descanso a cada 45 minutos de trabalho em processo de produção. Nas atividades administrativas, quando estas envolverem entrada de dados em computador, deve-se proporcionar uma pausa de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados. Tais pausas têm por objetivo a recuperação da fadiga muscular ocasionada pelas atividades, promovendo o atendimento às necessidades fisiológicas dos funcionários, levantar, andar e promover o contato social com os colegas de trabalho. Estes intervalos devem ser enriquecidos com atividades de ginástica laboral e, para os trabalhadores da produção, proporcionar a adoção da postura sentada, em oposição à em pé exercida durante todo o processo. 3.1.6. Dados referentes às modalidades de planificação e de tomada de decisão A estrutura hierárquica da empresa é horizontalizada, havendo contato formal e informal entre diretores e subordinados para tomada de decisões, sendo a responsabilidade da decisão do funcionário de maior hierarquia. A aproximação (física e organizacional) entre gestores e operadores permite a tomada conjunta de decisões ao longo do processo produtivo em virtude das comunicações informais existentes. De fato a decisão é do funcionário de maior hierarquia, mas “o subordinado, uma vez tendo liberdade para expor seus pensamentos perante superiores, poderá sentir-se mais participativo” (SCHULER SOBRINHO, 2005). Assim, a alta participação do trabalhador nas decisões sobre o seu próprio trabalho contribui para que este trabalhe mais motivado. Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho 3.2. Componentes do sistema ser humano – tarefa – ambiente Execução: Operador de Produção e Assistente de Produção Frequência da atividade: Mediante demanda Origem da Demanda: Planejamento da Produção Destino da Demanda: Controle de Qualidade Onde fazer: Área de Produção Figura 4. Fluxograma de atividades: Preparação do Produto B = indica fluxograma de Atividades do Controle de Qualidade Análise ergonômica de tarefas críticas da preparação do produto Análise Ergonômica de Tarefas: Preparação do Produto Origem da Demanda: Planejamento da Produção Destino da Demanda: Controle de Qualidade Atividade 1 O que fazer? 1. Buscar bombonas com matéria-prima MP007. Quem faz? Assistente de Produção Quando fazer? Mediante Demanda Como fazer? 1.1. Acomodar bombona no carro transportador 1.2. Inclinar carro transportador 1.3. Transportar até a área de produção Onde fazer? Área de armazenamento de água industrial Com o que fazer? Carro transportador 181 182 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Análise ergonômica de tarefas críticas da preparação do produto 1.1.1. O assistente posiciona os garfos do carro transportador sob a bombona de 260 kg. Eleva o encaixe móvel localizado na haste vertical do carro a 52 cm do piso até o encaixar na borda superior da bombona, a 90 cm, de modo a mantê-la estável, estendendo o braço direito e inclinando um pouco a coluna para frente. Durante toda a atividade de preparação do produto, os funcionários usam os seguintes equipamentos de proteção individual: luvas de borracha nitrílica, avental impermeável, botas impermeáveis em PVC, óculos de segurança. 1.2.1. Coloca um dos pés (geralmente o esquerdo) sobre um suporte localizado na parte superior do carro a 31 cm de altura e pressiona para baixo (dando um pequeno salto), este movimento, acompanhado do de puxar o suporte para mãos em direção ao seu próprio corpo, deixa o carrinho inclinado. O carro possui 134 cm de altura. 1.3.1. Anda aproximadamente 11m empurrando o conjunto (carro e bombona) com os membros superiores levemente flexionados e as mãos mantidas a 87 cm do piso. São transportadas 10 bombonas, deixadas enfileiradas ao lado da área de produção. Análise ergonômica de tarefas críticas da preparação do produto 1.1.1.1. Pode-se usar a paleteira elétrica recomendada nas condições organizacionais para realizar esta movimentação de bombonas. 1.2.1.1. Não executar salto no momento de inclinar o carrinho. 1.3.1.1. Alteração do leiaute para aproximar área de armazenamento de água industrial da área de produção. 1.2.1.2. e 1.3.1.2. Pode-se usar a paleteira elétrica recomendada nas condições organizacionais como alternativa às recomendações 1.2.1.1. e 1.3.1.1 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Atividade 2 O que fazer? 2. Depositar MP007 no tanque de sucção Quem faz? Operador de Produção e/ou Assistente de Produção Quando fazer? Onde fazer? Mediante Demanda 2.1. Aproximar bombona do tanque de sucção. 2.2. Succionar conteúdo da bombona com mangueira. 2.3. Retirar bombona 2.4. Transportá-la a área de água industrial. Área de Produção Com o que fazer? Carro transportador e/ou Mangueira conectada a uma bomba Como fazer? Diagnóstico ergonômico: 2.1.1. O operador de produção encaixa e transporta a bombona em movimento idêntico ao descrito no item 1.1 e aguarda por cerca de quatro minutos em pé junto a área de produção a atividade de sucção do líquido. 2.2.1. Assistente de produção encaixa uma ferramenta metálica na tampa da bombona e gira-a cerca de duas vezes no sentido anti-horário com o braço esquerdo. Retira a tampa, colocando-a sobre a bombona. Introduz a mangueira na bombona elevando um pouco os membros superiores. Liga a bomba acionando uma chave liga-desliga localizada a 1,55m a sua esquerda e a 1,22 de altura, fazendo uma rotação de tronco para esquerda, braço esquerdo abduzido e completamente esticado. Aciona o dispositivo com a ponta dos dedos. Inclina a bombona para a esquerda para retirar todo liquido. Acompanha a existência de água na bombona observando um visor localizado na bomba, flexionando o pescoço, atentando-se ao ruído emitido. Desliga a bomba, retira a mangueira e afasta a bombona segurando-a pela borda superior. 2.3.1. O operador de produção pega a bombona que foi afastada do tanque de sucção e, segurando-a pela borda superior e com movimentos circulares, move a bombona para fora da área de produção. 2.4.1. O operador de produção leva a bombona movimentando-a inclinada, segurando-a pela borda superior e executando movimentos circulares. Por vezes coloca a bombona na horizontal e chuta-a para o fundo do galpão. O piso da área encontra-se molhado (risco de escorregamento e contaminação). Há valas de contenção de liquido em caso de vazamento apenas junto às paredes do galpão. Recomendações Ergonômicas: 2.1.1.1. e 2.4.1.1.Levar uma bombona com a paleteira elétrica (recomendada nas condições organizacionais) ao local de armazenamento enquanto aguarda o esvaziamento de outra bombona. 2.2.1.1. Aproximar chave liga-desliga do posto de trabalho onde a bombona é esvaziada. 2.2.1.2. Colocar visor de líquido a altura de 1,5m (altura dos olhos funcionário). 2.3.1.1. OK 2.4.1.2. Existe dispositivo de contenção de líquido, tipo calha, nas margens do galpão onde ocorre a produção. Contudo, recomenda-se complementar colocando este dispositivo também em torno da área de produção, para reduzir a dispersão do produto até a sua retenção. 183 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 184 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Atividade 3 O que fazer? 3. Buscar matéria-prima MP1302. Quem faz? Operador de Produção e/ou Assistente de Produção Quando fazer? Onde fazer? Mediante Demanda 3.1.Retirar embalagem de transporte. 3.2.Encaixar paleteira no palete. 3.3. Elevar conjunto 3.4. Transportar até a área de produção Área de matéria-prima Com o que fazer? Paleteira. Como fazer? Diagnóstico ergonômico: 3.1.1. O assistente de produção corta a embalagem plástica com uma faca comum e retira-a. Flexiona a coluna e apoia-se em apenas um dos pés para alcançar o outro lado da pilha de sacos. 3.2.1. O operador de produção busca a paleteira e encaixa os garfos no palete. 3.3.1. Flexiona e estende o membro superiores repetidamente (27 vezes) segurando no apoio para mãos da haste da paleteira. No momento de maior flexão o suporte fica a 1,15m do piso e na maior extensão, a 72 cm. 3.4.1. O operador de produção puxa o conjunto (1000 kg só de matéria-prima) de costas para o percurso enquanto o assistente de produção empurra o conjunto com os membros superiores estendidos e corpo inclinado para frente. Recomendações Ergonômicas: 3.1.1.1. Circular em torno da pilha para retirar a embalagem de modo a evitar a flexão da coluna. 3.2.1.1. OK 3.3.1.1. e 3.4.1.1. Substituir a paleteira de elevação manual por uma de elevação elétrica, como o modelo indicado na Figura 5. Figura 5. Modelo de substituição da paleteira de elevação manual por elétrica Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Atividade 4 O que fazer? 4. Depositar MP1302 no tanque de sucção Quem faz? Operador de Produção Quando fazer? Como fazer? Onde fazer? Mediante Demanda 4.1. Pegar saco 4.2. Colocá-lo sobre a borda do tanque. 4.3. Depositar conteúdo 4.4. Misturar no tanque Área de Produção. Com o que fazer? Manual Diagnóstico ergonômico: 4.1.1. O operador de produção pega o saco pelas extremidades com as mãos e apoia-o sobre os dedos e antebraço. Faz rotação de tronco, flexão da coluna e, dependendo da altura da pilha e localização do saco, efetua alguns passos, conforme pode ser observado na Figura 5. Ressalta-se que o funcionário alega sentir dores na região lombar em períodos de produção intensa, onde são produzidos até três lotes do produto por dia. 4.2.1. Ergue-o até a borda do tanque (89 cm de altura) flexionando os membros superiores. 4.3.1. Corta a extremidade do saco voltado para dentro do tanque com uma faca. Deixa o saco na vertical para descida do produto. Deposita o saco vazio em um tanque destinado aos resíduos. Obs.: Para os três itens anteriores serão apresentadas mais a diante a análise postural pelo método RULA e a análise do Limite de Peso Recomendado pela equação NIOSHI. 4.4.1. Enquanto a matéria-prima é depositada, o assistente de produção mistura a solução com um bastão plástico, executando movimentos circulares com os membros superiores no sentido anti-horário, inclina o tronco para frente e se apoia sobre a perna direita, um pouco a frente da esquerda. Movimenta-se ao redor do tanque. Aciona periodicamente a bomba, deslocando-se cerca de 2 passos, estendendo os membros superiores e acionando a chave liga-desliga com a ponta dos dedos Recomendações Ergonômicas: 4.1.1.1. Usar dispositivo permita maior elevação (mesa elevadora de palete.), como a plataforma de elevação hidráulica da Figura 6. Aproximar conjunto do tanque de sucção. 4.2.1.1. e 4.3.1.1. OK Obs.: Para os três itens anteriores serão apresentadas mais a diante a análise postural pelo método RULA e a análise do Limite de Peso Recomendado pela equação NIOSHI, resultando no detalhamento de recomendações. 4.4.1.1. Substituição da mistura manual por mistura através de agitador mecânico. Obs.: Para o item anterior será apresentada mais a diante a análise postural pelo método RULA, resultando no detalhamento das recomendações. 185 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 186 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Atividade 5 O que fazer? 5. Buscar matérias-primas MP1804 e MP105 Quem faz? Operador de Produção Quando fazer? Como fazer? Mediante Demanda 5.1. Colocar sacos de matéria-prima sobre plataforma 5.2. Transportar até a área de produção Onde fazer? Área de matéria-prima Com o que fazer? Plataforma de transporte Diagnóstico ergonômico: 5.1.1. Flexão da coluna para pegar saco de 50 kg sobre palete a 20 cm do piso e colocá-lo sobre o palete. Coloca o saco na horizontal apoiando as extremidades sobre as mãos. Devido ao caráter corrosivo do composto, usa máscara respiradores com filtro para gases ácidos e vapores orgânicos. 5.2.1. Puxa o conjunto (palete e paleteira) pelo apoio para mãos da paleteira. Extensão do membro superior direito. Recomendações Ergonômicas: 5.1.1.1. Flexionar os joelhos para alcançar o saco. 5.2.1.1. Alteração do leiaute para aproximar área de matéria-prima da área de produção. Alternativamente, pode-se reduzir o esforço muscular com o uso da paleteira elétrica, conforme foi apresentado na da Figura 3. Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Figura 6. Rotação do tronco e flexão da coluna Figura 7. Mesa Elevadora de Palete 187 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 188 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Atividade 6 O que fazer? 6. Depositar MP1804 e MP105 no tanque de sucção Quem faz? Operador de Produção Quando fazer? Mediante Demanda Como fazer? 6.1. Pegar matéria-prima MP1804 no palete 6.2. Pesar 6.3. Depositar matéria-prima MP1804 no tanque 6.4. Pegar matéria-prima MP105 no palete 6.5. Depositar matéria-prima MP105 no tanque de sucção Onde fazer? Área produção Com o que fazer? Manual Diagnóstico ergonômico: 6.1.1. Flexiona a coluna, pega o saco e coloca-o na vertical. Retira-o do palete e coloca ao lado da balança, ainda com a coluna flexionada. Usa uma pequena barra de ferro para fragmentar os cristais de matéria-prima. 6.2.1. Usando um respirador para gases ácidos, posiciona o balde sobre a balança e corta o saco com uma faca, com a coluna flexionada. Ergue-se um pouco e despeja vagarosamente o conteúdo do saco no balde, observando o peso no display digital da balança. 6.3.1. Ergue-se totalmente e move-se cerca de três passos em direção ao tanque. Flexiona os membros superiores para depositar conteúdo do balde no tanque. 6.4.1. Flexiona a coluna, pega o saco com as mãos, posiciona-o na vertical sobre o palete e corta-o com uma faca. 6.5.1. Ergue-se e, com uma rotação de tronco, apóia o saco sobre a borda do tanque e despeja vagarosamente o conteúdo dentro do tanque. Recomendações Ergonômicas: 6.1.1.1. e 6.4.1.1. Idem 4.1.1.1 - Usar dispositivo que permita maior elevação (mesa elevadora de palete.). Fragmentar cristais com o saco sobre o palete. 6.2.1.1. Cortar com o saco sobre o palete. Flexionar os joelhos para alcançar o balde. 6.3.1.1. OK 6.5.1.1. Aproximar palete do tanque de sucção. Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho O que fazer? Quem faz? Quando fazer? Como fazer? Onde fazer? Com o que fazer? Atividade 7 7. Elevar ao tanque de mistura Assistente de Produção Mediante demanda 7.1. Acionar bomba 7.2. Fragmentar resíduos de matéria-prima sólida Área de produção Manual Diagnóstico ergonômico: 7.1.1. Aciona a bomba em intervalos irregulares, conforme nível do líquido no tanque de sucção. Desloca-se cerca de 2 passos, estendendo os membros superiores e acionando a chave liga-desliga com a ponta dos dedos. 7.2.1. O assistente de produção usa uma peneira, imerge-a na solução, coleta partículas grandes de material sólido e pressiona com a mão para fragmentá-las. Permanece de pé junto ao tanque de produção por cerca de cinco minutos. Tronco inclinado para frente e pescoço flexionado Recomendações Ergonômicas: 7.1.1. Aproximar o dispositivo liga-desliga do posto de trabalho. 7.2.1. Deve-se evitar que o funcionário mantenha um contato tão direto com o produto. O uso do agitador mecanizado, proposto como alternativa de substituição da mistura manual dispensará a execução desta atividade visto que o equipamento é capaz de fragmentar de modo mais eficiente às partículas da matéria-prima. Atividade 8 O que fazer? Quem faz? Quando fazer? Como fazer? Onde fazer? Com o que fazer? 8.Circulação do Produto Assistente de Produção e/ou Operador de Produção. Mediante demanda 8.1. Acompanhar vazão 8.2. Preparar bombonas para retirada do produto Área de produção Manual Diagnóstico ergonômico: 8.1.1. Aguardam aproximadamente 30 minutos de mistura em pé. Atentam-se para os ruídos da bomba e para o nível de líquido no tanque para acionar chave e ajustar vazão. 8.2.1. Manuseiam as bombonas vazias inclinadas da área de armazenagem até enfileirá-las próximo a balança. Recomendações Ergonômicas: 8.1.1.1. Colocar na área de produção assentos de material lavável para evitar contaminação. Usar este período para proporcionar a posição sentada e realização de ginástica laboral. 8.2.1.1. OK 189 190 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica A análise preliminar das posturas de trabalho durante a preparação do produto apontou a necessidade de verificações mais completas. Optou-se pela adoção de uma análise postural pelo método RULA e pela aplicação da equação NIOSHI para calcular os limites de peso recomendáveis em levantamento e transporte manual de carga. A seguir são apresentados os dados para a análise ergonômica da tarefa. Análise pelo Método RULA Operador de produção: atividade de deposição de matéria-prima: Figura 8. Deposição de matéria-prima Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Braço – 3: braço flexionado aproximando-se de um plano perpendicular ao tronco ao nível do ombro. Antebraço – 2: movimento de flexão do antebraço. Punho – 1: punho reto. Giro de punho – 1: não há giro de punho. Acréscimos: Postura repetitiva: +1 Carga maior que dez quilos: +3 Resultado total do Grupo A: 7 Pescoço – 1: posição normal. Tronco – 5: tronco flexionado até quase a horizontal, havendo ainda flexão lateral. Pernas – 1: pés apoiados. Acréscimos: Postura repetida : +1 Carga maior que dez quilos: +3 Resultado total do Grupo B: 9 191 192 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Análise Ergonômica da Tarefa: Nível 4 – escore final sete indica que deve ser realizada uma investigação e mudanças imediatas. Os riscos ergonômicos que a tarefa apresenta estão relacionados ao levantamento de peso com os membros superiores, a repetitividade da tarefa e a redução na altura da pilha ao longo da atividade. A pilha de sacos da matéria-prima no início da atividade é de 87 cm, quase ao mesmo nível do tanque de deposição (89 cm) e a altura compatível com o alcance do trabalhador em pé, sem exigir flexão de coluna ou membros inferiores (99 cm= altura do cotovelo em pé). Nesta situação, há movimentação dos membros superiores e deslocamento ao redor do palete, se necessário. Contudo, a medida que o material é depositado, a altura da pilha se reduz, chegando a um mínimo de 20 cm, postura crítica usada na análise postural pelo RULA. Koemer e Grandjean (2005) alertam para o fato de que, “se uma pessoa se curva até que a parte superior do corpo fique praticamente na horizontal, então o efeito de alavanca impõe uma pressão muito grande nos discos da coluna lombar”, o que, com o tempo, pode levar a intensas dores nesta região do corpo. Recomenda-se utilizar um mecanismo de elevação do palete que possibilite ao operador aumentar a altura da pilha à medida que deposita os sacos. Há necessidade também de aproximar o palete do tanque de sucção e reduzir a altura deste. As alturas de trabalho devem ser tais que o palete e a borda do tanque estejam no mesmo nível. Assistente de produção: atividade de mistura manual Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Figura 9. Operador realizando mistura manual Braço – 4: flexão de braço até acima do nível do ombro. Antebraço – 2: flexão de antebraço. Punho – 2: extensão do punho. Giro de punho – 1: não há giro de punho. Acréscimos: Postura estática : +1 Não há carga: 0 Resultado total do Grupo A: 5 193 194 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Pescoço – 1: pescoço pouco flexionado. Tronco – 2: tronco pouco flexionado. Pernas – 2: eleva constantemente um dos pés do chão. Acréscimos: postura estática : +1 Não há Carga: 0 Resultado total do Grupo B: 4 Análise Ergonômica da Tarefa: Nível 3 – escores finais cinco ou seis indicam que deve ser realizada uma investigação e mudanças deverão ser realizadas em um curto prazo. O assistente de produção mistura a solução com um bastão plástico cilíndrico, executando movimentos circulares com os membros superiores no sentido anti-horário. Inclina o tronco para frente e apóia-se sobre a perna direita, um pouco a frente da esquerda, movimenta-se ao redor do tanque. Aciona periodicamente a bomba, deslocando-se cerca de dois passos, rotacionando o tronco, abduzindo o braço e acionando a chave liga-desliga com a ponta dos dedos. A atividade é repetitiva e o esforço muscular exigido aos membros superiores aumenta de acordo com o aumento da densidade da solução que é misturada. Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho A atividade manual pode ser substituída por um agitador mecanizado. Se o tanque onde a mistura manual é executada for mantido fixo, pode ser utilizado um agitador mecanizado conforme a Figura 10. Figura 10: Agitador mecânico fixo Se o tanque continuar a ser utilizado para outras finalidades, exigindo a retirada do mesmo do local onde é executada a mistura, pode-se optar por um agitador mecanizado suspenso por uma haste fixa, como o da Figura 11. Figura 11. Agitador mecânico suspenso 195 196 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica As empresas fornecedoras destes equipamentos afirmam que normalmente são dimensionados especificamente para cada caso, podendo ser fornecidos com várias faixas de potência, rotação, comprimento de haste e tipos e diâmetro de hélices, sendo estas configurações especificadas dependendo das características do produto agitado. A densidade e a viscosidade do produto que será agitado, além do fator de tipo de agitação (homogeneização, dissolução, suspensão de sólidos, etc.) influenciam diretamente no dimensionamento do equipamento, sendo imprescindíveis estas informações para um bom e eficiente dimensionamento do equipamento. As informações necessárias para o dimensionamento envolvem: dimensões, volume útil e volume total do tanque; densidade e viscosidade do produto; peso, volume e tamanho dos sólidos (quando aplicável); qual a finalidade da agitação e forma de fixação do equipamento. Análise do Levantamento de Pesos pela Equação NIOSH: A equação de NIOSH (Nacional Institute for Occupacional Safety and Health – EUA) foi desenvolvida para calcular o peso limite recomendável em tarefas repetitivas de levantamento de cargas. Refere-se a tarefa de apanhar uma carga e deslocá-la para depositá-la em outro nível, usando as duas mãos. Neste estudo, a equação é utilizada para análise do peso do levantamento de sacos de MP1308, inicialmente na condição mais crítica de levantamento e posteriormente nas condições recomendadas. A equação estabelece um valor de referência de 23 kg, que corresponde a capacidade de levantamento, no plano sagital, de uma altura de 75 cm do solo, para um deslocamento vertical de 25 cm, segurando uma carga a 25 cm do corpo. Esse valor é multiplicado por seis fatores de redução: LPR = LC x HM x VM x DM x AM x FM x CM LC: constante de carga (23) HM: fator de distância horizontal VM: fator de altura DM: fator de deslocamento vertical AM: fator de assimetria FM: fator de freqüência CM: fator de pega Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho Nas condições de trabalho analisadas, estes fatores assumem os seguintes valores: HM = 0,83 (H = 30 cm, ou seja, carga a 30 cm do corpo) VM = 1 (V = 20, ou seja, altura da carga 20 cm do piso) DM = 0,88 (D = 69, ou seja, deslocar a carga de uma altura de 20 cm a uma altura de 89 cm) AM = 0,71 (A= 90°, ou seja, ângulo de rotação do corpo). FM = 0,91 (média de 2 levantamentos por minuto durante um período inferior a uma hora) CM = 1 (boa pega) LPR = 23 x 0,83 x 1 x 0,88 x 0,71 x 0,91 x 1 = 10,85 kg, Ou seja, nestas condições, significa que a pessoa pode levantar aproximadamente 10,85 kg sem sofrer danos músculo-esqueléticos. Calculando-se o índice de levantamento (carga / LPR), encontramos o valor de 2,30. Um índice de levantamento entre 1 e 3 indica aumento moderado do risco. Os métodos de execução da atividade precisam ser modificados. Nesse caso, as recomendações já apresentadas melhorariam as condições de levantamento de carga. Ratificando-as: instalação de mesa elevadora de palete, diminuição do ritmo de repetição da atividade, revezamento de tarefas com o outro operador, evitar torção no levantamento de cargas. Análise das condições ambientais de trabalho • Dados referentes ao ambiente térmico • Dados referentes ao ambiente acústico • Dados referentes ao ambiente lumínico • Dados referentes ao ambiente vibratório • Dados referentes à qualidade do ar 197 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 198 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica Variáveis Real Recomendação Norma Temperatura (°C) 32,8 23 a 26 °C ISO9241 Umidade (%) 62,5 40 a 80 % ISO9241 Iluminância (lx) 985,3 750 lx NBR 5413 Ruído (dB) – bomba desligada 59,1 Até 65dB NR17 Ruído (dB) – bomba ligada 72,9 Até 65dB NR17 IBUTG (Assistente de Produção) IBUTG Médio Metabolismo Médio Recomendação Norma 28,83 °C 167 Kcal/h 30,8 NHO-06 IBUTG (Operador de Produção) IBUTG Médio Metabolismo Médio Recomendação Norma 29,29°C 237,97 29,10 °C NHO-06 As recomendações para as condições ambientais são: Análise das condições ambientais de trabalho Temperatura: A circulação natural do ar não é satisfatória, a vestimenta é de algodão relativamente espessa e o uso dos equipamentos da segurança aumenta a sensação térmica, nota-se excesso de suor na pele e nas roupas dos funcionários. A temperatura medida foi de 32°C e, de acordo com a ISO 9241, a faixa de temperatura aceitável é entre 23 e 26°C. Tais observações levam a considerar o ambiente térmico desfavorável. Além disso, não há bebedouro na área de produção, o que obriga os funcionários a entrarem no escritório administrativo para reposição de líquido. Como a temperatura deste ambiente é em média 25°C , a entrada e saída repentinas pode levar a transtornos fisiológicos advindos de choque térmico. Atividades físicas realizadas no calor fazem com que a capacidade muscular fique reduzida, o rendimento decaia e a atividade mental se altera, apresentando no trabalhador uma perturbação da coordenação sensório-motora. Diante das condições expostas, recomenda-se a adoção de sistema de ventilação artificial, com fluxo de ar voltado para os trabalhadores e a colocação de bebedouro no galpão onde ocorre a produção. Iluminância: A iluminação do galpão é feita por meio de iluminação natural (pela presença de portas amplas) e artificial (por meio de lâmpadas fluorescentes suspensas). A iluminação é uniformemente distribuída, notando-se sombra Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho significativa apenas na parte do galpão atrás do tanque de mistura devido à altura deste. O mostrador digital da balança situa-se nesta região, mas a presença de sombra é até favorável, pois os valores são luminosos e a presença de luz direcionada poderia provocar ofuscamento e dificuldade de leitura. A medição quantitativa indicou uma iluminância média no posto de trabalho de 985,3 lx, índice acima dos parâmetros da NBR 5413 (300 a 750 lx), considerando para o caso analisado a iluminação geral para áreas de trabalho e tarefas com requisitos visuais normais. Pode-se eliminar o excesso de iluminância, enquadrando-a no parâmetro indicado, havendo uma economia no consumo de energia, optando-se por lâmpadas de menos potência, maior espaçamento entre si, e sequências de luminárias com acendimento independente, possibilitando que recebam maior índice de iluminância apenas as áreas de maior solicitação Ruído: Há duas situações acústicas distintas que se alternam em intervalos irregulares de tempo ao longo da preparação do produto: com a bomba ligada (72,9 dB) e com a bomba desligada (59,1 dB). A situação com a bomba ligada revela um nível de ruído superior ao indicado para conforto acústico pela NR17: 65 dB. As recomendações são: posicionar a bomba na parte externa do galpão, afastando, assim, a fonte de ruído, e adotar o uso de protetor auricular. IBUTG: O gasto metabólico encontrado para o operador de produção indica a existência de sobrecarga térmica, pois o IBUTG encontrado (29,29°C) foi levemente superior ao limite de tolerância da NHO06 (29,1°C). Para reverter esta situação, além das medidas recomendadas para alcançar uma situação de conforto térmico – alínea a, o que reduzirá o IBUTG – acrescenta-se a necessidade de colaboração do assistente de produção nas atividades do operador de produção, o que poderá ser proporcionado com a adoção de misturador mecânico como alternativa a mistura manual. A adoção das recomendações ergonômicas para adequação de melhores posturas de trabalho contribuirão para reduzir o gasto metabólico de ambos. Agentes Químicos: Quanto às matérias-primas sólidas, no tocante à manipulação para produção, nota-se a formação de uma pequena quantidade de particulado sólido no ar durante a deposição. Na pesquisa de campo, observou-se o uso de luvas de borracha nitrílica, avental impermeável, botas impermeáveis, óculos de segurança e, apenas pelo operador de produção durante a deposição 199 200 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica da matéria-prima MP1804, uso de respirador purificador de ar tipo filtro químico com filtro para gases ácidos. Há chuveiro de emergência e lava-olhos, assim como a lavagem de luvas e equipamentos que entraram em contato com o produto. Indica-se como recomendações o uso de máscara facial durante toda a preparação do produto, selecionando o filtro adequado às características das matérias-primas e do produto final e uso de uniforme de mangas compridas. O diagnóstico das disfunções evidentes ao sistema ser humano - tarefa – ambiente foi realizado em quatro empresas integrantes da Rede de Petróleo e Gás do estado de Sergipe, no ano de 2009. Este estudo é complementado por observações, fotografias, análise da planta da obra e distribuição do mobiliário para avaliação do fluxo de movimentos e fluxo informacional. Ressalta-se que o sucesso da Rede de Cooperação em Ergonomia entre a Universidade Federal de Sergipe, as empresas vinculadas à Rede de Petróleo e Gás, a Fundação de Amparo à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe e Sociedade resultou na continuidade das ações embarcando no projeto a inserção de outras empresas da Rede de Petróleo e Gás de Sergipe. 5. CONCLUSÃO Os resultados validam os pressupostos da importância e necessidade de intervenção ergonômica nas empresas, a fim de se minimizar as causas de afastamento dos trabalhadores por acidentes de trabalho, aumentando sua produtividade e o bem estar no ambiente organizacional. Verificou-se que com a atuação de uma nova rede de cooperação em ergonomia entre Universidade – Empresas – Sociedade foi possível alcançar a formação de agentes com perfil adequado para implementar técnicas inovadoras em ergonomia e segurança do trabalho em processos inovadores; aprimora-se a possibilidade de privilégios de propriedade intelectual, prevendo-se a participação dos pesquisadores e bolsistas envolvidos em um projeto nos ganhos econômicos resultantes da exploração da tecnologia/conhecimentos gerados na Universidade; pode-se disseminar a cultura do empreendedorismo inovador, com base tecnológica na área de Ergonomia; e estímulou-se o uso de novas metodologias aplicadas em Ergonomia, adotando-se o conceito de inovação organizacional. Assim, o objetivo do trabalho foi atingido, pois corrobou-se que pela intervenção conjunta de agentes de fomento em cooperação é possível alterar os Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 Inovação em processos para a Análise Ergonômica do Trabalho sistemas de trabalho das organizações para adequá-los às características, habilidades e limitações dos trabalhadores adicionando-se valor ao desempenho global do sistema ser humano-tarefa-ambiente. Um projeto cooperativo de ergonomia constitui a solução de um problema social com reflexos nas questões de requalificação, saúde e economia da região. A aplicação das recomendações ergonômicas advindas da Análise Ergonômica do Trabalho pretende dotar o trabalhador de condições que levem a uma qualidade de vida no trabalho, a qual tem estreitas relações com a qualidade de vida extra-trabalho. Agindo sobre o trabalhador, unidade celular de uma organização, favorecendo seu posto de trabalho com melhores condições, leva, quando em conjunto todos os postos de trabalho da organização, a uma melhoria do sistema produtivo como um todo, com consequência em um maior controle sobre o processo e redução de falhas. Atenta-se ainda a importância da redução dos índices de acidentes de trabalho, afastamentos, absenteísmos e insatisfação com o trabalho, analisando-se os prejuízos financeiros oriundos destes fatores, como recurso a proporcionar a saúde financeira da organização e a possibilidade de maiores investimentos públicos e privados em inovação dos sistemas produtivos. De acordo com Ilda (2005), às vezes é necessário adotar certas soluções de compromisso. Isso significa fazer aquilo que é possível, dentro às restrições existentes, mesmo que não seja a alternativa ideal. Essas restrições geralmente recaem no domínio econômico, prazos exíguos ou, simplesmente, atitudes conservadoras. De qualquer forma, o requisito mais importante, ao qual não se devem fazer concessões, é o da segurança do operador, pois não há nada que pague os sofrimentos, as mutilações e o sacrifício de vidas humanas. Para o desenvolvimento deste projeto com a aplicação da metodologia da Análise Ergonômica do Trabalho (AET) foi necessário o apoio de uma estrutura laboratorial (LabErgon/UFS) que favoreceu o estudo em uma dimensão implícita, considerando as atividades operativas como elemento central para instrumentalizar o desempenho dos sistemas de produção nas empresas vinculadas à Rede de Petróleo e Gás do estado de Sergipe, cujo objetivo é atingir um funcionamento estável em qualidade e produtividade, em favor à saúde e satisfação dos trabalhadores. A análise dos postos de trabalho em todas as empresas estudadas identificou as causas de deficiências que os processos operativos podem causar aos colaboradores e, acredita-se que, para a economia regional. Foi possível a identificação das origens das causas de deficiências na saúde empresarial, detalhando-se 201 202 Simone de Cássia Silva; Pedro Felipe de Abreu; Aline França de Abreu D.O.I.: 10.7198/8-5782-2293-2-08 CAPACITE: Exemplos de Inovação Tecnológica as condições ambientais, técnicas e organizacionais do trabalho, bem como o comportamento do ser humano no desenvolvimento de suas atividades diárias. Comprova-se com este projeto que uma das formas de compatibilizar o sistema técnico-social é a visão antropocêntrica da ergonomia, a qual privilegia as mudanças organizacionais no conceito de produtividade, a partir da qualidade de vida no trabalho. A rede de cooperação em ergonomia entre Universidade – Empresas – Sociedade favoreceu também o apoio pedagógico na formação dos discentes da Universidade Federal de Sergipe, orientado para desenvolver um programa de iniciação científica em Ergonomia. Também foi possível se identificar o conhecimento técnico específico requerido pelas empresas que visam a oferta de melhores condições de trabalho desenvolvendo e colaborando em projetos de pesquisa e inovação tecnológica na área de Ergonomia, com vistas à difusão do conhecimento em técnicas ergonômicas Na relação de cooperação entre Universidade – Empresas – Sociedade, a transferência de conhecimento é o elemento fundamental na melhoria da competitividade da empresa ou da melhoria da qualidade de vida da sociedade mediante a captação, interiorização, propagação e utilização do conhecimento adquirido junto à Universidade. Todos os resultados esperados pelo projeto foram atingidos em virtude da formação de uma rede sólida de cooperação em ergonomia no Estado de Sergipe com a participação da Universidade Federal de Sergipe, das empresas vinculadas à Rede de Petróleo e Gás, da Fundação de Amparo à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe e Sociedade. 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