98 4.1.2 Se Liga Bocão – TV Itapoan Em 07 de janeiro de 2008, José Eduardo aparece no programa Balanço Geral na TV Itapoan (retransmissora da TV Record na Bahia) para anunciar oficialmente sua saída da TV Aratu. No ar, José Eduardo faz um longo discurso afirmando que sua presença na TV Itapoan atende a uma vontade de Deus, exalta Raimundo Varela como apresentador e faz o seu marketing pessoal em um discurso sensacionalista e com um forte apelo religioso: “não sei nem se eu vou conseguir falar, mas vamos lá. Deus quis que eu viesse pra Record” (a música “If you Remember me”, trilha sonora do filme “O Campeão” acompanha a fala do apresentador atribuindo à cena a idéia de vitória conquistada com muita luta e após uma longa trajetória). “Deus quis que eu viesse pra essa televisão. Deus não gosta de injustiça. Deus um dia iluminou um cara e esse cara foi Raimundo Varela. Sabe por que Deus iluminou esse cara? Por que foi esse cara que me trouxe pra televisão e esse cara que me trouxe pra televisão me ensinou uma coisa na vida, ele me disse uma vez na casa dele. Zé, parece que nós somos proibidos de gostar do povo. Ele é o responsável por eu estar na televisão. A esse cara, um dia em 1989, a televisão tem guardada essas imagens aqui, me trouxe pra Record, fiquei 5 anos nessa televisão. Quase 20 anos depois eu volto a Record e eu tenho dois motivos fundamentais pra tá hoje aqui com Raimundo Varela. Eu quero pedir desculpas a vocês por que eu tô emocionado, porque eu sabia que um dia eu ia jogar nessa seleção. Eu sabia que um dia eu ia fazer parte da maior seleção de profissionais da TV baiana. E eu quero dizer ao povo da Bahia, gente eu to de volta agora ao vivo e a cores aqui na Record, quinze pra uma da tarde. Eu vou dizer uma coisa a vocês. É difícil pra dedéu você lutar pelo povo. (eleva o tom da voz, e caminha em direção à câmera com o dedo apontado para o telespectador). É difícil! (repete enfaticamente) Olha o que eu passei e hoje eu estou na Record é porque o cara lá de cima gosta (referindo-se a Deus). Eu tenho que agradecer só a uma pessoa, (a produção coloca a música “Jesus Cristo, Jesus Cristo, Jesus Cristo eu estou aqui”) a esse cara (apontando para cima – Raimundo Varela com os olhos vermelhos expressa uma feição emocionada). “Gente eu queria que todo mundo levantasse por favor por que aqui eu to na minha casa (convida a platéia a se levantar). Deus me botou aqui e eu tenho a honra de dizer o seguinte, Varela, a casa é sua, o microfone é seu, você comanda o povo e você tem um aliado com você a partir de hoje.” (José Eduardo, 07/01/08) 99 No texto verbal de José Eduardo acima transcrito, a palavra Deus foi repetida seis vezes, dentro de um contexto em que o apresentador diz estar representando uma escolha divina. Esta imagem de ser superior vai ser ainda mais avivada pelo apresentador dentro da TV Itapoan. A constante referência a Deus além de ser uma estratégia de aproximação com o público, se justifica dentro desta emissora devido ao caráter religioso que a Rede Record apresenta. A Rede Record é propriedade da Igreja Universal do Reino de Deus cujo número de fiéis e acumulação de capital tem representado um rápido crescimento. Atualmente, a Igreja Universal liderada pelo bispo Edir Macedo é proprietária de diversos veículos de comunicação – imprensa especializada, rádios e redes de televisão em canais VHF (Rede Record) e UHF (Rede Mulher). Figura 12: Edição 07/01/08 – assinatura do contrato de José Eduardo com a TV Itapoan. O contrato entre José Eduardo e a Rede Record é assinado no programa Balanço Geral com a presença de Fabiano de Freitas, Diretor Executivo da TV Itapoan e testemunho de Raimundo Varela. Neste momento, José Eduardo caminha em direção à câmera e diz: “deixa eu mandar um recado pra um cidadão aqui, oh. O senhor ligou pra mim hoje por volta de dez pro meio dia (mostrando o celular). Eu não vou dar seu nome hoje porque eu vou consultar meus advogados. Eu só vou lhe dizer uma coisa, se você não gostou da minha vinda pra cá é porque agora seu prédio desabou. O negócio é o seguinte bicho, você é político, siga sua carreira. Se eu vou lhe incomodar só Deus sabe. Foi o povo que me colocou aqui, agora não me ligue (nesse momento dirige-se para Varela e diz que este senhor que telefonou, o questionou sobre a parceria que Bocão e Varela estavam formando) “você não acha que é injusto você e Varela num programa de televisão? E nós? E nós o diabo! Vá pro raio que o parta (desabafa José 100 Eduardo atirando o braço para cima num gesto de quem não se importa). Seu texto também objetiva construir a idéia da forte parceria que José Eduardo e Raimundo Varela estão formando e que esta união tem sido uma ameaça aos políticos devido a popularidade destes dois comunicadores, especialmente por se tratar de um ano de eleição, bem como aos outros programas concorrentes de horário. Figura 13: Assinatura do Se Liga Bocão na TV Itapoan. Em 14 de janeiro de 2008, o Se Liga Bocão estréia na TV Itapoan, emissora concorrente. Ao mudar de emissora, o programa passa por uma reestruturação. O tempo de exibição continua sendo de 1 hora de duração, de segunda à sexta-feira, deixando de ser reprisado aos sábados e é dividido em cinco blocos com duração variável entre eles. A composição do cenário segue o mesmo padrão anterior, TV de plasma, onde são exibidas as matérias e apresentados os quadros ao vivo, a pequena bancada que serve de apoio para o apresentador e de suporte para as entrevistas no estúdio e a marca do programa grafada na parede de fundo do estúdio. A grande novidade do programa é que o cenário é também ambientado por um auditório que vai construir para o Se Liga Bocão uma nova situação interativa. Figura 14: Imagem do cenário e do auditório do programa. 101 Posicionando-se sempre de pé e deslocando-se por meio do estúdio, o apresentador José Eduardo explora com mais intensidade os movimentos corporais e as angulações das imagens. Recorta sua fala dirigindo-se para diferentes câmeras que lhe apresentam closes em diferentes ângulos. O deslocamento do apresentador dentro do estúdio, os gestos, o tom da voz, a valorização de suas expressões corporais, o uso dos pronomes pessoais (o que eu vi hoje, você dona de casa, cadê você prefeito?), são recursos utilizados para estabelecer uma relação direta com as pessoas, ao mesmo tempo em que o apresentador busca potencializar um grau de intimidade com o telespectador: “eu amo vocês” (José Eduardo falando com as pessoas em visita ao subúrbio – 15/01/08). “Minha gente, você que tá em casa. Primeiro dia do programa e eu vim aqui no subúrbio. O povo me quer aqui no subúrbio”. (15/01/08). Figura 15: Edição 16/01/08 – Imagem de expressões de José Eduardo mostrando raiva, tristeza e indignação. O apresentador envolve-se com os fatos noticiados e transmite para o telespectador seus sentimentos de raiva, tristeza e revolta, sofrendo com as mesmas angústias que atormentam o telespectador. O que o leva a um posicionamento de estar do lado do povo e em busca de medidas que solucionem os problemas que afligem a sociedade. Esta emoção que carrega na voz e os comentários tecidos acerca dos diversos assuntos abordados no programa ganham boa parte do seu tempo de transmissão. No dia 15/01/08, José Eduardo levou 2 minutos e 25 segundos falando sobre uma matéria que chamaria a seguir. A matéria teve 2 minutos e 83 segundos de duração e, após sua exibição, o apresentador levou mais 2 minutos e 18 segundos comentando sobre o assunto: “olha presta atenção nesse caso. Eu não quero nem falar nesse caso porque é tão macabro que eu acho que não acontece nessa terra. É tão macabro o que eu vou mostrar agora que se dependesse de mim eu nem mostrava. É tão pesado meu amigo 102 dono de casa, minha amiga. É pra botar no ar essa matéria mesmo? (cria o suspense) O negócio é o seguinte. Presta atenção nesse caso. Um garoto de 14 anos de idade, 14 anos de idade. Veja bem, 14 anos de idade. (repete três vezes para enfatizar) De repente o garoto anda pela rua, pra cima e pra baixo, um cidadão chama ele dá emprego, dá bala e se apaixona por esse garoto. Gente do céu, o pior não é isso, o pior foi o que esse cidadão fez com a família e fez com o garoto. O crime é tão macabro que eu não tenho coragem de falar pra você minha amiga. (fala próximo à câmera colocando as mãos na boca e na cabeça). O assassino matou o garoto de 14 anos e decepou o pênis do garoto. Eu por mim, sinceramente, eu não colocava essa matéria no ar, mas já que aqui é o cotidiano da vida... solta a matéria” (Edição de 15/01/08). A preparação que o apresentador faz antes de exibir a matéria já constrói uma atmosfera de horror. Relata, a partir do seu julgamento pessoal, o crime hediondo que foi praticado destacando os aspectos que ele considera mais chocantes, atribuindo à notícia um juízo de valor, com verdades absolutas e excluindo qualquer possibilidade de diálogo que conteste seu ponto de vista. Uma posição fundamentalista cujos dogmas do apresentador são impostos ao telespectador. José Eduardo continua sendo o mediador principal e a possuir certa autonomia e destaque na condução do programa. É José Eduardo quem decide o momento para a entrada do quadro ao vivo, a retirada de uma matéria do ar enquanto ela está sendo exibida, muitas vezes interfere na pauta da produção quando aparece um caso interessante no ao vivo o apresentador imediatamente anuncia que fará uma matéria sobre aquele assunto e isso acontece também no seu programa de rádio quando José Eduardo traz para TV uma situação inicialmente discutida por ele na rádio Transamérica. Tal postura é também observada no modo de falar durante o programa. O mediador não utiliza o telepromper e usa o improviso nas suas enunciações. Embora o apresentador tenha controle na produção e condução do programa. O uso dos efeitos sonoros e a repetição de imagens feitas durante toda a exibição do Se Liga Bocão independem de sua prévia autorização, salvo os momentos em que o próprio apresentador solicita que reprisem uma imagem ou o som da caixa registradora quando vai mostrar a contagem do chumaço de dinheiro ao anunciar o quadro “Saia do sufoco”. Assim como na primeira versão do programa, algumas vezes as imagens são repetidas em meio à fala do apresentador forçando-o a interromper o que está sendo dito para comentar, mais uma vez, sobre as imagens que estão no ar. 103 Na TV Itapoan, o apresentador recebe todo o suporte que precisa da emissora para posicionar-se como a pessoa que ajuda o povo. Logo na edição de estréia, a fala emocionada e vitoriosa de Raimundo Varela e de Fabiano de Freitas declaram que passaram um ano e meio lutando para trazer José Eduardo para a TV Itapoan. A ligação do presidente da Rede Record de São Paulo, Alexandre Raposo na edição de estréia (14/01/08) reforça o prestígio que o apresentador José Eduardo recebe no seu novo espaço de trabalho. É uma forma de valorizar a nova aquisição feita pela emissora e ao mesmo tempo mostrar o poderio tecnológico da Rede Record: “eu tô aqui via satélite assistindo você em São Paulo... continue aí lutando pelo povo. Essa escola da TV Itapoan é uma escola que dá liberdade pra trabalhar da forma que se tem de trabalhar. Trabalhar pelo povo. Dar voz àqueles que realmente precisam falar Zé.” Declara Alexandre Raposo. A data da estréia do Se Liga Bocão na TV Itapoan coincide com o dia do aniversário do apresentador José Eduardo. Aproveitando a ocasião, Raimundo Varela faz uma homenagem ao seu atual parceiro. A entrada de José Eduardo no estúdio é acompanhada pela música de Zezé de Camargo e Luciano “Olha ele aí” que marcou a presença do apresentador no programa Se Liga Bocão, desde a edição anterior veiculada na TV Aratu. Depoimentos emocionados como o da mãe de José Eduardo, a presença de seu pai no estúdio e as lágrimas de Raimundo Varela compõem a abertura do programa neste dia. Toda essa produção valoriza a aquisição da emissora, demonstra o carinho e acolhimento a José Eduardo, e dá destaque, inclusive, à emissora como uma escola que forma bons profissionais ao mostrar imagens antigas de José Eduardo, no início de sua carreira fazendo entrevistas esportivas na TV Itapoan, uma espécie de ‘filho pródigo’ que retorna para sua casa, fez exaltar ainda mais a figura do apresentador José Eduardo. Ao mudar de emissora, o programa Se Liga Bocão, embora conserve o mesmo nome e a mesma promessa de ser um espaço aberto para a participação popular reunindo “jornalismo social, denuncia e entretenimento” como anuncia no site1, apresenta um formato um pouco diferente do que era veiculado na TV Aratu, configurado por estratégias distintas de modo de endereçamento, a começar pela estrutura do estúdio do programa que agora inclui a participação do público no auditório. Em todas as edições do programa, o apresentador José Eduardo interage com a platéia, entrevista as pessoas que foram assistir ao programa, muitas delas 1 www.seligabocao.com.br 104 comparecem para fazer seu apelo e o auditório representa mais um espaço de participação do povo no Se Liga Bocão. José Eduardo continua a assumir uma postura contestadora e polêmica dentro do programa. Características já conhecidas pelo público a partir da história do apresentador dentro do campo midiático. É ele quem media a relação entre o programa, os telespectadores, os convidados, os repórteres e os demais profissionais envolvidos. Desse modo, o programa se constrói na condição de posicionar o radialista e apresentador José Eduardo como uma figura central dentro do Se Liga Bocão, aquele que conduz as entrevistas, as matérias, as intervenções humorísticas e quem primeiro estabelece um pacto2 com a audiência. A característica de “explosivo” que o site do Se Liga Bocão usa para descrever José Eduardo é um modo de demarcar o estilo de apresentador que o programa busca ter. Na TV Itapoan, José Eduardo mantém a mesma estratégia de aproximação com o público posicionando-se como uma voz oficial e autorizada pelo programa, José Eduardo tem o papel de conduzir as notícias, prender a atenção do telespectador e realizar as entrevistas com as pessoas que participam do programa nas entradas ao vivo. Cabe a ele também, assumir o papel de benfeitor da população. Nas matérias em que o povo é beneficiado com a promoção “Saia do Sufoco” e recebe a visita de José Eduardo em sua casa, é a figura do apresentador que é associada a atitude de ajudar as pessoas, não a do programa Se Liga Bocão. Nas participações populares ao vivo, as pessoas pedem ajuda a José Eduardo, não ao programa. E, dessa forma, José Eduardo legitima sua imagem como a de um benfeitor do povo. No seu texto verbal, José Eduardo promete ter compromisso com a verdade e apresenta-se como um escolhido e enviado por Deus. Esta referência a Deus é bastante intensificada na versão do programa veiculado na TV Itapoan: “eu digo que eu não sou Jesus. Eu sou enviado dele com esse programa pro povo.” (José Eduardo - 17/01/08). “Agora sim, com a força de Deus, com a organização de Jesus Cristo e com o povo comigo vinte e quatro horas é só apertar o botão e se organizar e pedir pra lapear.” (José Eduardo – 21/05/08). Seu texto verbal expressa o status hierarquicamente superior que José Eduardo assume junto ao povo. Percebe-se, muitas vezes, um posicionamento 2 O pacto é estabelecido entre o programa e sua audiência por meio de uma série de acordos tácitos que irão orientar o telespectador sobre o que ele pode esperar do programa (GOMES, 2004). Esses acordos são construídos a partir de uma relação entre o gênero do programa jornalístico e com as especificidades de cada subgênero. Nos programas estudados nesta dissertação, são analisadas as relações que estes programas estabelecem com algumas premissas básicas do jornalismo (verdade, objetividade, relevância, serviço público, responsabilidade social, etc). 105 exacerbado acerca do seu papel enquanto comunicador ao se posicionar como aquele que detém o poder de reclamar junto às autoridades e intervir em prol da população. Pode-se dizer, portanto, que o apelo retórico e argumentativo presente nos comentários do apresentador associado à sua habilidade enquanto orador e ao uso de uma linguagem coloquial e incisiva aparece como uma estratégia de estabelecer uma relação de credibilidade com o telespectador. Além disso, José Eduardo, em sua fala, posiciona-se ao lado do povo, preocupado em ajudar a resolver os problemas da maioria da população que não se vê assistida e nem ouvida. O mediador estaria se posicionando como um porta-voz do povo, disposto a intervir em nome da população. Esse posicionamento em prol do povo, ajuda na construção de uma relação de empatia e confiança entre o mediador e o telespectador: “agora deixa comigo hein, deixa comigo que o Bocão tá no ar. Pra desespero de alguns e a tranqüilidade do povo dessa terra que eu amo tanto” (José Eduardo - 15/01/08). “Minha gente muita paz, terça-feira hein é o segundo dia meu na Record, agora o pau quebra, a verdade nua e crua, a realidade da vida” (José Eduardo em 15/01/08). A segunda versão do programa preserva muitas marcas da edição anterior, estas, entretanto, ganharam nova roupagem. Continua a tratar da mesma temática abordada na versão anterior, mas com novos personagens e novas frases de efeito. Um desses personagens é o repórter “Mão Branca” responsável pelas gravações nas delegacias e cuja imagem mostrada é apenas da sua mão calçada com uma luva branca. Com uma voz impostada, o repórter conversa com o acusado usando um tom irônico, dá conselhos e encerra sua participação com a pergunta: “o fumo entrou?”. Figura 16: Edição 19/05/08 - Imagens de mão branca na delegacia. 106 Figura 17: Edição 15/01/08 – quadro “Saia do sufoco”. José Eduardo visitando a sorteada e sendo recebido por uma multidão. Figura 18: Edição 15/01/08 – José Eduardo “lapeando” o dinheiro que será entregue à moradora sorteada para o quadro “Saia do sufoco”. Em lugar do quadro “o Bocão em minha casa” (TV Aratu), a segunda versão do programa estreou o quadro “Saia do Sufoco” que é anunciado várias vezes no dia ao mostrar o apresentador contando as notas de cinqüenta e cem reais de um chumaço de dinheiro que será entregue por José Eduardo pessoalmente a um morador do subúrbio sorteado no programa. Ao contar o dinheiro o som da caixa registradora e a música “Vamos Lapear”3 compõem a ambientação da cena: “eu quero dar um recado importante pro povão que tá em casa hein?! Saúde, educação e dinheiro no bolso. É isso que tem que acontecer. A partir de hoje, meu irmão, não tem conversa. É mil paus que eu vou levar na sua casa, mil paus por dia. Detalhe no dinheiro” (anuncia o apresentador olhando para a câmera e pedindo imagens em detalhe no chumaço de notas de dinheiro que está em sua mão). “É tudo muito bonitinho: tijolo, cimento, mas eu vou levar dinheiro. Saúde, educação e grana” (14/01/08 – José Eduardo fazendo uma alusão crítica ao quadro “Quero Bocão em minha casa” exibido anteriormente no 3 “Vamos lapear/ vamos escancarar/ na Record/ Bocão/ se liga nele/ Bocão/ se liga nele/ Bocão/ se liga nele/ Bocão/ se liga nele/” (2 vezes). 107 programa quando era veiculado na outra emissora de TV). O quadro começou anunciando a quantia de um mil reais em dinheiro e passou a oferecer dois mil reais, sendo R$1500,00 para o morador sorteado e R$500,00 para o vizinho: “agora as oncinhas aumentaram, são dois mil reais hein! Mil e quinhentos para o morador sorteado e quinhentos reais para o seu vizinho” (19/05/08 – anuncia José Eduardo enquanto conta o chumaço de dinheiro). No dia anterior à visita, o nome do morador e do bairro é anunciado. José Eduardo convoca o povo para esperá-lo nas ruas com cartazes expressando seus pedidos, alguns destes cartazes são recolhidos pelo apresentador que promete atender ao que está sendo pedido. Com isso, oferece mais um incentivo para garantir uma concentração de pessoas a sua espera. Ao final do programa, o apresentador sai do estúdio direto para o bairro anunciado, as imagens mostram o carro no estacionamento pronto para a visita e o trajeto de carro e a pé da equipe de José Eduardo é mostrado no dia seguinte da visita. Figura 19: Edição 21/05/08 – José Eduardo visita o Bairro do Pau Miúdo para entregar o prêmio de dois mil reais à sorteada da promoção “Saia do sufoco”. Nas ruas, moradores do bairro seguram cartazes com pedidos a Bocão e vibram com sua presença. 108 “Eu estou saindo daqui agora pra ir na Liberdade. ALÔ TRAVESSA 2 DE JULHO, Nº 4, LIBERDADE. Olha o carro tô saindo agora, num vou nem almoçar (mostra imagens do carro no estacionamento aguardando ele sair da emissora). Vou comer um pão com queijo aqui e me picar. Travessa 2 de julho, nº 4 Liberdade. Pára a Liberdade aí. (apela o apresentador) É agora que eu vou. A vencedora foi Raiane Gonzaga de Andrade. Leve seu cartaz também que eu vou lhe dar uma televisão. Leve o seu cartaz que eu vou lhe dar uma televisão (repete). Mil reais, hein, 500 você vai dividir com a vizinha. (15/01/08)... Esse quadro é fantástico, eu tive o aval da diretoria, seu Fabiano e eu vou continuar levando dinheiro na sua casa. Eu hoje tô levando dinheiro na casa de dona Raiane Gonzaga de Andrade, Travessa 2 de julho, nº 4 Liberdade. O cartaz mais bonito vai levar uma televisão.” A chamada feita ao longo da semana para a população se preparar para a visita do Bocão no bairro tem um efeito de aglomerar muitos moradores da comunidade à espera do apresentador. Muitas pessoas vão para as ruas com cartazes e pedidos para o José Eduardo. Percebe-se que o direcionamento é sempre em nome de José Eduardo e não do programa Se Liga Bocão, o poder legitimado pelo povo e conferido à figura do apresentador perpassa sua associação ao programa. Assim, como voz oficial do Se Liga Bocão, José Eduardo está sempre construindo uma relação de credibilidade com a audiência ao visitar pessoalmente a casa do morador sorteado, a dar voz às pessoas e ao se colocar como alguém realmente preocupado com as mazelas sociais e imbuído da missão de minimizar o sofrimento do povo. Durante a visita de José Eduardo e sua equipe no bairro do morador sorteado a letra da música escrita especialmente para o quadro constrói uma idéia do apresentador como um “prefeito” do subúrbio que traz mais melhorias para o bairro do que tem feito a própria prefeitura para a cidade. São duas músicas produzidas para o quadro, a cada visita uma delas é usada na edição. A letra da primeira música diz: “Bocão se liga nele/ Eu te disse que ele é/ ele é um cabra bom/ Acende a esperança/ sintoniza na Record/ Engenho Velho tá melhor/ sintoniza na Record/ A Caixa D´Água tá melhor/ sintonize na Record/ E o Cabula tá melhor hein?/ Sintoniza na Record/ Mas quem precisa tá melhor/ sintoniza na Record/” A outra música passa a mensagem de que José Eduardo está sempre pronto e disposto a ajudar o povo que não encontra apoio em outros lugares, a letra diz: “Se você quer fazer venha falar com Zé Eduardo na Record/ ele não te deixa só/ ele te estende as mãos/ Se você não sabe mais o que fazer/ bateu em portas e não encontrou solução/ venha falar com Zé Eduardo na Record/ ele não te deixa só/ 109 ele tem bom coração/ Se liga Bocão porque aqui é o programa do povão/ Se liga Bocão foi o primeiro na rádio e televisão/”. Esse quadro revela a popularidade de José Eduardo e mostra como ele já se tornou uma celebridade para o povo. O frisson que a presença do apresentador causa nos moradores do bairro ajuda a validar a noção de visibilidade midiática (FREIRE FILHO, ANO, p. 61). Figura 20: Edição 20/05/08 – José Eduardo no quadro “Saia do sufoco” sendo escoltado pela polícia militar e recebido pelos moradores do bairro. O povo é visto no programa a partir de uma ótica populista como “uma formação homogênea e indivisível, como um corpo coletivo portador de anseios, opiniões e interesses transparentes e comuns, o povo ora é identificado, em termos socioeconômicos, como a classe trabalhadora, ora é definido, de um ponto de vista etnológico, como o segmento que melhor preserva o espírito e a unidade da raça ou da nação. O monolítico perfil populista do povo determina os antagonistas a serem combatidos: o grande poder econômico, a elite cultural, os estrangeiros, as minorias, entre outros” (FILHO, ANO, p. 66). Seguindo esse pensamento, tem-se no programa uma clara busca por expressar a voz dos oprimidos, mas sem a real pretensão de mudar a realidade, os valores e o modo de vida tradicionais dessas pessoas. O que se reforça sempre é afirmação da condição opressiva do povo, deixando-os cientes desta realidade. Além do quadro “Saia do Sufoco” outro novo quadro que integra a nova versão do programa é o “Quero meu amor de volta” que tenta promover a reconciliação entre casais separados. Para participar deste quadro, as pessoas se inscrevem e a equipe do programa acompanha um dos parceiros ao encontro do outro. Toda a conversa entre os dois é mostrada. Os enquadramentos normalmente são fechados focando a expressão no 110 rosto de cada um com o objetivo de flagrar o nervosismo e a emoção do casal. Ao longo da semana, o apresentador vai exibindo trechos do quadro, criando um suspense e uma curiosidade com relação ao desfecho da situação. Figura 21: Vinheta do quadro “Quero meu amor de volta” Figura 22: Edição 21/05/08 – Emoção de Silvana no quadro “Quero meu amor de volta”. Na edição do dia 19 de maio de 2008, José Eduardo começa a falar sobre a história de Silvana, uma garota que vai ao encontro do seu ex-namorado pedir para reatar o compromisso com ele: “já já, não sei se eu quero colocar hoje o quadro da Silvana”, afirma o apresentador. Trechos do quadro são exibidos três vezes neste dia e o apresentador interage com o auditório e o telespectador de casa perguntando a opinião deles se o ex-namorado de Silvana irá aceitá-la de volta. No dia seguinte (20/05/08) novamente trechos do encontro de Silvana com o ex-namorado são mostradas, mas o quadro completo só é exibido no outro dia, em 21 de maio de 2008. Neste dia, José Eduardo pede a participação do telespectador: “será que a Silvana conquista o seu amor de volta? Você é quem vai ligar. Liga aí, 99653011”, envolve também o auditório dizendo “quem acha que Gleidson aceita Silvana de volta levanta a mão”, pergunta ao auditório. Para criar mais suspense, o apresentador pede que trechos da gravação da conversa de Silvana com o namorado sejam exibidas e, no meio delas, José Eduardo 111 grita interrompendo a exibição: “pára! Pára! Olha, já já o quadro de maior sucesso da TV brasileira. O Brasil inteiro quer saber se Silvana vai ter o seu amor de volta”. Com isso, tenta prender a atenção do público e envolvê-los na história que será contada. A interatividade dentro do programa busca construir um envolvimento ativo entre as pessoas que estão do outro lado da tela e assim, no dizer de João Freire Filho (2007), “a televisão supostamente deixa de lado a ‘pureza unilateral’ da sua comunicação, para se tornar a plataforma democrática de múltiplos diálogos, colaborações e inter-relações, restituindo ao antigo pólo receptor a condição plena de sujeito” (FREIRE FILHO, 2007, p.71) O quadro “Bafafá” conduzido pela repórter Liana Cardoso e construído a partir da briga entre vizinhos reflete bem a proposta do programa. Os temas tratados neste quadro envolvem brigas, desentendimentos e bate-boca entre vizinhos. A montagem do quadro é feita, basicamente, a partir da discussão entre as pessoas, quase não existe edição ou texto em off. A repórter assume um papel sensacionalista fazendo com que as pessoas expressem seus desafetos e intrigas. Neste quadro, a participação da repórter se limita a mediar discussão entre os vizinhos e provocar o bate-boca entre eles. Além desses quadros, o programa lança promoções periódicas como: “transformação do bocão”4, “chá de quarto novo”5, “chá de bebê”, dentre outros que premiam os telespectadores que se inscrevem na promoção. O apelo popular e o modo de interpelação da audiência foram mantidos no novo formato do programa Se Liga Bocão. A todo instante, o apresentador convida a população para participar do programa através de e-mails, telefone e carta, o número do telefone, site e email são creditados na tela. A interpelação do público é feita também para os quadros ao vivo e para que se reúnam no bairro que o apresentador vai visitar para presentear a sorteada da promoção “Saia do sufoco”. 4 Anúncio da promoção: “Você pode ter um dia princesa com tudo que você sempre sonhou, para mudar seu visual. Só Bocão pode fazer isso por você. Você vai ter direito a tudo que uma mulher merece. Será um dia inteiro no Salão Estação da Beleza para você mudar suas unhas, dá uma refinada em seu cabelo e ainda terá direito a massagem. Inscreva-se agora em nossa promoção e boa sorte!”. Site: www.seligabocao.com.br 5 Não perca no Se Liga Bocão das 13h às 14h15, a promoção “Chá de Quarto Novo” com as lojas Maia. Você liga agora para o número (71) 9965-3011 e já está concorrendo a uma mobília completa para seu quarto. A entrega será realizada dia 12 de julho, sábado. Não perca tempo, ligue até dia 11.07 e concorra. Site: www.seligabocao.com.br 112 No dia 17/01/08, ao comentar sobre a matéria de uma mulher desmaiando ao receber policiais em sua residência com o mandado de prisão para o seu neto, o Se Liga Bocão mostra a mesma imagem 12 vezes, enquanto convoca o telespectador a esperar a exibição da matéria completa: “não mude de canal, fique aqui. Nossa equipe foi hoje de manhã na casa dessa senhora. Já, já eu vou contar a história. (imagens da mulher desmaiando) você vai saber já, já a história do neto dela... toda a verdade do desespero e dor dessa senhora.” A exaustiva repetição de imagens é uma estratégia comum em todas as edições do programa, elevando o aspecto sensacionalista e dramático que se busca imprimir ao assunto noticiado. Com esse artifício também, o programa ganha tempo, passa cerca de dez minutos abordando e comentando um mesmo assunto sem apresentar nenhum elemento novo, apenas descrevendo o que as imagens já estão mostrando. O discurso maniqueísta do apresentador José Eduardo é uma marca muito forte no endereçamento do programa. Os aspectos identificados nesta análise demonstram que o apresentador José Eduardo se legitima como uma figura central do programa, como uma pessoa superior – “escolhido por Deus”, como o próprio apresentador se descreve – e este posicionamento lhe confere um status de ser ele a pessoa capaz de solucionar os problemas da população, as solicitações do povo vem em seu nome (não em nome do programa). O seu texto verbal não o coloca como um interlocutor do povo que vai levar ao conhecimento das autoridades às questões trazidas pela população, mas como aquela pessoa habilitada – por Deus – para resolver os problemas das pessoas menos favorecidas, como aquele que detém o poder e a autoridade de levar condições mais dignas para a população que necessita e, principalmente, como aquele que efetivamente atende aos apelos da população levando dinheiro, dando presentes, viabilizando atendimentos médicos para tratamento de doenças, serviços jurídicos, etc. É dessa forma que o pacto sobre o papel do jornalismo se apresenta no programa Se Liga Bocão. O programa se constrói a partir da idéia de ser um jornalismo de denúncia, mas também estabelece com a audiência uma relação assistencialista e populista em que se posiciona como instância capaz de prestar atendimento à população menos assistida nas diversas áreas (médica, jurídica, social, etc.) preenchendo, assim, as lacunas deixadas pelas instituições públicas. Do mesmo modo, o programa é extremamente fundamentalista, constrói-se através de verdades absolutas que seguem os dogmas defendidos pelo programa e seu apresentador. E assim, as notícias recebem um 113 enquadramento que segue um posicionamento pré-intencionado e carregado de dramaticidade e melodrama. O “outro” é sempre o “outro”, diferente de quem está no lado de quem conduz o programa e assim, o apresentador José Eduardo, confortavelmente, assume o papel de julgar, inocentar ou condenar a atitude deste “outro”. E neste caminho, o programa vai se construindo com base em um sensacionalismo exacerbado usada como estratégia para atrair e prender a atenção do telespectador. A principal estratégia de comunicação do programa está no foco dado ao aspecto político do mesmo: o caráter populista. O Se Liga Bocão é o programa que atende aos apelos da população e que está atuando na melhoria dos bairros periféricos da cidade em lugar das autoridades oficialmente investidas dessa obrigação. As lacunas deixadas pelos poderes públicos, os problemas que afligem a população mais carente de Salvador e o sofrimento do povo são elementos fundamentais na construção do discurso do programa. É mostrando os problemas vividos pela população de menor poder aquisitivo que o Se Liga Bocão, na figura do apresentador José Eduardo, justifica o endereçamento construído pelo programa de ser a solução que tanto o povo precisa. Mais do que as autoridades oficiais, prefeito, juiz, delegado, é o programa Se Liga Bocão que está sempre de portas abertas para receber, ouvir e atender às demandas do povo. Vale relembrar o trecho de uma das músicas compostas especialmente para o Se Liga Bocão que descreve bem este sentimento endereçado pelo programa: “se você não sabe mais o que fazer/ bateu em portas e não encontrou solução/ venha falar com Zé Eduardo na Record/ ele não te deixa só/ ele tem bom coração/”. Outra música, expressamente, infere para a população que as melhorias dos bairros da periferia da cidade são conseqüência do trabalho do programa, afinal, é a equipe de produção do Se Liga Bocão que está atenta para os problemas sociais, são eles que visitam os bairros, abrem espaço para a população fazer sua denúncia, leva dinheiro para os moradores dos bairros, presenteiam a população e garantem, com isso, a melhoria da vida das pessoas que participam do programa. Por isso o apelo presente em outra música usada para o programa “Engenho Velho tá melhor/ sintoniza na Record/ A Caixa D´Água tá melhor/ sintoniza na Record/ E o Cabula tá melhor hein?/ Sintoniza na Record/ Mas quem precisa tá melhor/ sintoniza na Record/”. A atuação do apresentador José Eduardo não se limita ao estúdio do programa, ele vai às ruas, visita os bairros, conversa e abraça o povo, acompanhado de seguranças e presenteando os telespectadores com prêmios e dinheiro constrói seu momento de 114 celebridade. Sua atuação no quadro “Saia do Sufoco” o equipara a de um político em pleno período de campanha, sendo que José Eduardo, não só visita o bairro e aproximase das pessoas, mas dá dinheiro ao povo, o que o faz ser ainda mais reverenciado pelas pessoas da comunidade que visita. Essa postura assemelha-se ao personagem do empresário e apresentador Silvio Santos que lançou, na TV, esta prática de dar dinheiro ao povo causando sempre um frenesi na platéia. Afinal, ao contrário do rótulo de ‘promessa’ que acompanha a figura de um político, José Eduardo vai à casa do morador(a), não para prometer, mas para entregar-lhe um prêmio em dinheiro. As imagens repetidas diversas vezes dessa visita dentro do programa, destacando a emoção e a festa que o povo faz ao receber José Eduardo no bairro, a alegria dos moradores que irão receber o dinheiro do programa e assim poder pagar suas dívidas, comprar comida e “sair do sufoco” atribuem credibilidade ao apresentador, conferindo-lhe a imagem de uma pessoa que não só “promete”, mas que efetivamente, “cumpre” o que diz. A rotina de produção do Se Liga Bocão diz muito sobre o modo como o programa lida com os critérios de noticiabilidade. Ou seja, a escolha do assunto que merece tratamento jornalístico dentro do programa, o tema que possui valor como notícia e o que determina o valor-notícia dentro do Se Liga Bocão não se baseia, necessariamente, naqueles caminhos defendidos dentro do campo jornalístico e que pensam a atualidade, revelação pública e interesse público. Os temas pautados no Se Liga Bocão, embora muitos deles não conflitam com as premissas de noticiabilidade jornalísticas, não são pautados a partir dessa preocupação. Existe sim uma preferência por assuntos polêmicos, por situações de conflitos, brigas de vizinhos (quadro Bafafá), crimes, escândalos, acontecimentos bizarros e temas ligados à violência e outras atrocidades de um modo geral. Como bem desenvolve Traquina (2005) ao apresentar suas considerações sobre os valores-notícia, estes percorrem desde o processo de seleção dos acontecimentos até a elaboração da notícia, ou seja, acompanham todo o processo de produção jornalística. Desse modo, o valor-notícia diz respeito aos critérios que os jornalistas utilizam na seleção dos acontecimentos (valor-notícia de seleção na definição de Mauro Wolf, 2003) e a seleção dos elementos incluídos ou não dentro do processo de construção da notícia (valor-notícia de construção). Nesta última classificação leva-se em consideração a dramatização e o enquadramento dado à notícia.