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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO
MESTRADO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO – CAMPO RELIGIOSO BRASILEIRO
DISSERTAÇÃO
CIDADE PRESÉPIO EM TEMPO DE PAIXÃO
UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA DAS RELAÇÕES ENTRE RELIGIÃO,
PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO EM TIRADENTES
Oswaldo Giovannini Júnior
Juiz de fora – 2002
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E LETRAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIA DA RELIGIÃO - MESTRADO
CIDADE PRESÉPIO EM TEMPO DE PAIXÃO
UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA DAS RELAÇÕES ENTRE RELIGIÃO,
PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO EM TIRADENTES
Oswaldo Giovannini Júnior
Dissertação apresentada ao curso de Mestrado do Programa de Pós-graduação
em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial para obtenção do grau de mestre.
Orientador: Prof. Dr. Marcelo Ayres Camurça
Juiz de fora – 2002
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FICHA CATALOGRÁFICA:
GIOVANNINI, Oswaldo Jr. – CIDADE PRESÉPIO EM TEMPO DE PAIXÃO. UMA
ANÁLISE
ANTROPOLÓGICA
DAS
RELAÇÕES
ENTRE
PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO EM TIRADENTES.
RELIGIÃO,
Juiz de Fora,
UFJF, Mestrado em Ciência da Religião, 2002
Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Juiz de Fora.
Referências:
1-Antropologia cultural
4- Turismo
2- Ciência da religião
5- Religião
3- Patrimônio cultural
6- Ritual
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OSWALDO GIOVANNINI JUNIOR
CIDADE PRESÉPIO EM TEMPO DE PAIXÃO. UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA
DAS RELAÇÕES ENTRE RELIGIÃO PATRIMÔNIO CULTURAL E TURISMO EM
TIRADENTES
Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de mestre no Curso de
Mestrado em Ciência da Religião.
Banca Examinadora:
Prof. Dr. Marcelo Ayres Camurça (UFJF)
Prof. Dr. Edimilson de Almeida Pereira (UFJF)
Prof. Dr. Carlos Alberto Steil (UFRS)
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Dedicatória:
Nadir, Oswaldo, Rosenilha, Jasmine e Lume.
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Agradecimentos:
Aos amigos, companheiros, informantes e professores
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RESUMO:
Estudo realizado na cidade de Tiradentes, Minas Gerais, a respeito das relações simbólicas e sociais
entre a religião tradicional local, representada por seus agentes populares e pela Igreja, a instituição do
patrimônio cultural, seu conceito e implicações e o contexto turístico, sua movimentação econômica e seus
agentes. Trata-se de uma análise que tem como fonte teórico-metodológica a antropologia cultural,
privilegiando sua tradição semiológica e interpretativa. Como recurso técnico foram utilizados, a observação
participante, entrevistas em profundidade e questionários quantificáveis, de acordo com a necessidade de
abordagem de campo. No entanto, como se trata de um mestrado interdisciplinar (Ciência da Religião) não
faltou estudos históricos e filosóficos de apoio, tendo como centro articulador de todo problema a vivência
religiosa, seus símbolos e as relações que implicam. O problema girou, então, em torno de perceber a
dinâmica sócio-cultural que se estabelece no encontro de visões-de-mundo e ethos diferenciados, de
significações diversificadas para os mesmos significantes, tomando como acontecimento privilegiado a
Semana Santa. Igrejas, imagens e rituais adquirem sentidos diversos ao mesmo tempo e locais. Estes sentidos
são formulados de forma a combinar ou opor estruturas de significado, sejam elas histórica, mítica ou de lazer
e consumo, respectivamente representada por patrimônio cultural, religião e turismo. Enfim, trata-se de
observar o jogo dinâmico das instituições e dos sujeitos envolvidos no processo de atribuição de significado e
de exercício do uso destes objetos, além das relações que estabelecem entre si, seguindo um ato hermenêutico
de tentativa de compreender uns aos outros. Forma-se, assim um sistema de comunicação onde cada um pode
tomar contato com uma cultura diferente, ao mesmo tempo em que conhece mais a sua própria. Enfim, o
interstício onde se encontram estas três instâncias permite uma experiência extraordinária, capaz de projetar
os homens, programada ou inusitadamente a um defrontar-se consigo mesmo num defrontar-se com o outro.
RÉSUMÉ :
Une étude réalisée dans la ville de Tradentes, Minas Gerais, au sujet des relations symboliques et sociales
entre la religion traditionnelle locale, representée par ses agents populaires et par l’Église, l’institution du
patrimoine culturel, son concept et ses implications et le contexte touristique, son mouvement économique et
ses agents. Il s’agit d’une analyse qui a comme recours théorique et methodologique l’anthropologie
culturelle, privilégiant sa tradition semiologique et interprétative. Comme recours technique ont été utilisés,
l’observation participante, des entretiens en profondeur et des questionaires quantifiables, selon la nécessité
d’abordage du champs. Cependant, comme il s’agit d’une maîtrise interdisciplinaire ( Science de la religion)
n’ont pas fait défaut des études historiques et philosophiques d’appui, ayant comme centre articulateur de
tout le problème la pratique religieuse, ses symboles et les relations qu’ils impliquent. Le problème alors a
tourné autour de la perception de la dynamique socio-culturelle qui s’établit dans la rencontre de visions-dumonde e ethos diversifiés pour les mêmes significants, prenant comme événement privilégié la Semaine
Sainte. Églises, statues et rituels atteignent un sens divers au même moment et aux mêmes endroits. Ces sens
sont formulés de manière à arranger et opposer des structures de signifié, quelles soient historiques,
mythiques ou de loisir et d’usage, respectivement représentées par la patrimoine culturel, la religion ou le
tourisme. Enfin, il s’agit d’observer le jeu dynamique des institutions et des sujets concernés dans le
processus d’attribution de signifié et d’exercice d’utilisation de ces objets, en plus des relations qu’ils
établissent entre eux, suivant un acte herméneutique de tentative de conprendre les uns aux autres. Il se forme
ainsi un système de comunication dans lequel chacun peut prendre contact avec une culture différente , en
même temps qu’il connaisse mieux la sienne propre. Enfin, l’interstice où se renccontrent ces trois instances
permet une expérience extraordinaire, capable de projeter les hommes, de manière programmée et inusitée à
un vis -à-vis avec soi-même dans un vis -à-vis avec l’autre.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO : A Cidade Presépio..............................................................................
CAPÍTULO PRIMEIRO: Tiradentes, sua história e seu presente, um problema
antropológico.......................................................................................................
?? Devoções, reformas, patrimônio e turistas. Aspectos da formação do
catolicismo, do patrimônio cultural e do turismo em Tiradentes............
?? Tiradentes na atualidade..........................................................................
?? Apresentação do problema......................................................................
CAPÍTULO SEGUNDO: Os mesmos objetos, os sentidos diversos .............................
?? A religião tradicional...............................................................................
?? O Patrimônio Cultural..............................................................................
?? O turismo..................................................................................................
CAPÍTULO TERCEIRO: Semana Santa, um teatro de fé...............................................
?? Nos passos da tradição e da história.........................................................
?? A Semana Santa .......................................................................................
?? Polifonia e silêncio diante do senhor morto..............................................
?? Reinvenção da Tradição............................................................................
?? Semana Santa 2001....................................................................................
CAPÍTULO QUARTO: Alinhavando o tecido social.......................................................
CONCLUSÃO: Tempo de Paixão.....................................................................................
BIBLIOGRAFIA:..............................................................................................................
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A CIDADE PRESÉPIO.
No centro da praça, em um grande canteiro circular, à sombra de uma árvore de
porte altivo, uma manjedoura com o menino. Ao seu lado a mãe, o pai, e mais afastados,
alguns animais. Não estão em fuga nem se escondendo em uma estrebaria distante. Estão
expostos em praça pública, na área central da pequena cidade já faz 25 dias. Todos os anos
estão ali, aos olhos de homens, crianças, mulheres, idosos, turistas, moradores e nativos,
comerciantes padres e beatas. São admirados e apreciados, às ve zes louvados por um coral
de crianças de alguma escola ou por músicos que passam pela cidade, enriquecendo o
cenário e consagrando o momento como espetáculo.
Os animais são recortados em latão e pintados a óleo. São formas muito comuns em
alguns ateliers da cidade e costumam ser vistos de vários tamanhos em lojas ou enfeitando
jardins de pousadas. Os artistas plásticos que chegaram em Tiradentes, e que ainda vêm
chegando, têm como inspiração a cidade, com sua cultura bicentenária, seu casario e sua
cultura rural. Mas não somente animais de roças e quintais são reproduzidos como
artesanato típico, também são motivo de inspiração, os santos e suas imagens.
O presépio armado no Largo das Forras, todos os anos, é de autoria de um artista
plástico paulista, há muitos anos radicado na cidade. Em sua oficina pode-se notar presente
uma arte que se inspira na cultura local, mas que não se resume a ela e a transforma em
objetos com uma impressão mais autêntica. É um estilo que mistura tudo, galinhas, santos,
divinos e corpos, refazendo cenários e personagens, com um olhar urbano de quem chegou
de outro contexto. Muito comum, é a confecção de bonecas com faces esculpidas em
madeira ou moldadas em papel machê, sendo o corpo apenas uma armação de madeira,
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arredondada. Não só bonecas, alguns santos são também reproduzidos através desta técnica.
A inspiração para esta criação foram justamente os “santos de roca”, imagens de santos
católicos muito comuns no século XVIII e que ainda estão presentes nas igrejas de
Tiradentes e são adoradas, principalmente nas procissões. As “imagens de roca” são figuras
com faces e mãos esculpidos e com uma armação de madeira como corpo, com um
enchimento de pano, tendo os membros articulados para que possa ser coberta por suas
vestes apropriadas.
A Virgem e São José da praça também são feitos seguindo este estilo. São “imagens
de roca” expostas na praça central de Tiradentes, anunciando a chegada do final de ano e
dos festejos natalinos, onde se comemora o nascimento do menino Deus. Mas estas
imagens de santos não são veneradas, nem carregadas em procissão, não se reza aos seus
pés, nem se beija suas mãos. Não estão envoltas em nenhuma aura de mistério e nem em
panos, túnicas ou qualquer tipo de vestimenta. O santo está nu, despido de sua sacralidade,
como um artefato de arte, diante de uma multidão de passantes a apreciar a criatividade do
artista.
De fato não foi este presépio, na praça central de Tiradentes que lhe garantiu a
alcunha Cidade Presépio. Esta foi uma expressão surgida na imprensa de Belo Horizonte,
provavelmente, tratando de caracterizá-la como uma cidade pequena e aconchegante, com
suas casinhas antigas espalhadas pelas ruas contorcidas, tendo a igreja ao alto como destino
de todos. Este nome lhe cai bem até como referência de sua cultura altamente religiosa.
Porém, se religiosos são os tiradentinos, não é o Natal a época mais importante, mas a
Semana Santa. O nascimento do menino é louvado, mas o sacrifício do Cristo é o momento
mítico mais celebrado.
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Em tempo de Paixão o menino que se encontrava no presépio rodeado por santos
nus, já está crescido, é um homem de barbas e cabelos longos, de face sofrida e
ensangüentada. É um santo vestido, cheio de significações transcendentes, misterioso e
reverenciado. Às vésperas da Semana Santa a imagem de Jesus carregando a cruz para
cumprir sua paixão, é levada, durante a calada da noite, para um local escondido na Igreja e
vestido por uns poucos homens. Longe dos olhos de crianças e mulheres o santo, de roca,
tem suas vestes respeitosa e sigilosamente trocadas.
Mesmo não sendo as mesmas imagens, vale a comparação cênica entre dois
momentos distintos e complementares, que se opõem, mas se compatibilizam na formação
de uma sociedade cheia de contradições e mutações. A Cidade Presépio vista e pensada no
tempo de comemoração da Paixão, é repleta de significações variadas, tendo os mesmos
objetos como centro das preocupações. No caso dos santos, por exemplo, podem guardar
tanto o mistério do destino da vida e da morte, quanto o espetáculo vivido e explícito da
arte humana.
Esta variedade de significações convivendo no mesmo espaço e tempo, num
contexto de uma pequenina cidade no interior de Minas, é que me impulsionou nesta
aventura etnográfica. Ao longo do texto o leitor poderá notar que se trata mesmo de uma
aventura, uma viagem realizada pelo arriscado caminho da dinâmica social com suas
oposições, contradições, inversões, conciliações, estruturas e performances.
A história bicentenária, a beleza, a diversão, a religião, o consumo. O patrimônio
histórico tombado e protegido, o assédio de turistas de muitas origens e uma religião
tradicional, cunhada desde os tempos barrocos. Difícil e intrincado objeto que guarda uma
variedade de formulações significativas de objetos, pessoas e fatos e que as mistura e
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ritualiza, criando situações dinâmicas e cheias de sentido. Visões-de-mundo e sentimentos
tantas vezes contraditórios, que orientam pessoas e instituições no navegar pelas águas
desta história.
Confesso de antemão minhas dificuldades e inapetências diante da complexidade
das relações que resolvi observar. Mais complexa ainda, esta tarefa se tornou, quando
resolvi valer-me não somente da inspiração sociológica e antropológica, mas também
histórica, filosófica e fenomenológica, de acordo com a tendência interdisciplinar do curso
de Ciência da Religião. O presente trabalho é fruto de dissertação defendida para a
obtenção do título de mestre em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de
Fora, sob orientação do professor doutor Marcelo Camurça. O esforço em conjugar as
várias disciplinas, tendo a antropologia como centro articulador, muitas vezes levou a
superficialidades, que pela limitação de tempo e de instrumentos, nem sempre foram
superadas.
Se esse trabalho alcançou densidade teórica e reflexiva, isto se deveu ao meu
esforço etnográfico de envolvimento e coleta de dados, reunindo fatos, cenários, pessoas e
discursos, o que me deu segurança e empatia para tentativas de maior criatividade e
generalização. Foi com agudeza apaixonada que dediquei três anos de minha vida a esta
cidade (de 2000 a 2002), mergulhando a uma boa profundidade na sua cultura, através do
convívio, às vezes amável, às vezes ríspido, com homens, mulheres e crianças que fazem
sua história atual.
Foram realizadas mais de vinte entrevistas em profundidade, perfazendo um total
aproximado de sessenta horas de fita transcrita e foram aplicados cem questionários a
turistas em vários pontos da cidade. Muitas festas e rituais observados e registrados por
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fotografia e filme, constantemente revistos e analisados. Participei ainda de inúmeras
reuniões de associações e de projetos culturais na cidade, além de reunir mais de 50
números de jornais e revistas , tanto locais quanto de outras procedências, tendo a cidade ou
o turismo religioso como tema. Tudo isto foi objeto de minhas reflexões e um número
reduzido, mas significativo destes dados poderão ser apreciados nesta obra.
Tentarei expor, a princípio, um pouco da história da cidade, caracterizando sua
realidade contemporânea, para possibilitar a construção de meu problema teórico. Trabalhei
meus estudos no sentido de identificar os discursos preponderantes ligados ao patrimônio
cultural, à religião e ao turismo, apontando suas contradições, oposições e combinações na
dinâmica da convivência de pessoas e instituições de procedências diversas. Estes
personagens são construídos em meio à ação e à dinâmica ritual e simbólica, sendo esta o
ponto alto do trabalho, pois articula contexto e estrutura com a iniciativa dos sujeitos
históricos locais. O momento social onde estas articulações foram observadas com mais
intensidade foi a Semana Santa, período em que se comemora a Paixão e a Ressurreição de
Jesus Cristo. Esta época é uma das mais importantes para o calendário religioso local, mas
também do calendário turístico, e ainda, é em torno destas festas religiosas que aquilo que
se chama de patrimônio cultural se inflama de vida e significado. Por fim, tento expor
como, através de várias iniciativas, pessoas e grupos se organizam para controlar seu
destino e construir seu mundo real e significativo. Para isso considerei projetos culturais
realizados por moradores, tiradentinos e instituições locais e não locais, como o Projeto
Reviver, realizado pela Escola Basílio da Gama, a restauração da igreja Matriz de Santo
Antônio, sob administração da Fundação Roberto Marinho e a orientação do IPHAN e
reuniões em torno das propostas do Projeto Monumenta, encaminhado pelo Ministério da
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Cultura. Assim, confrontando e costurando discursos, rituais e acontecimentos, pretendo
apresentar uma das muitas facetas possíveis de serem observadas na realidade cultural de
Tiradentes hoje, mas sem deixar de projetar o olhar para o homem e a cultura de modo
geral, acreditando estar empreendendo uma reflexão que será útil para pensar outras
cidades e outras paixões.
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CAPITULO PRIMEIRO:
TIRADENTES - SUA HISTÓRIA E SEU PRESENTE, UM PROBLEMA
ANTROPOLÓGICO.
Os primeiros habitantes da região, onde encontraram as primeiras e mais
importantes minas de ouro no Estado de Minas Gerais, foram os índios Cataguases. Antes
do ouro, estas terras eram conhecidas pelos bandeirantes como País dos Cataguás e, em
seguida, como Minas dos Cataguás. Considerados belicosos, provavelmente travaram
grandes batalhas com os bandeirantes que começaram a chegar no final do século XVII. O
rio que passa pela cidade de Tiradentes, um dos maiores da região das Vertentes, é
conhecido como rio das Mortes, provavelmente por causa das inúmeras mortes que
ocorreram nos confrontos em suas margens, tanto entre bandeirantes e índios como entre
paulistas e emboabas na famosa batalha que definiu a exploração do ouro na região.
Após a descoberta das primeiras pepitas de ouro na região de Sabará e em seguida
de Ouro Preto, na última década do século XVII, formou-se um importante caminho das
minas até São Paulo, sendo o Rio das Mortes uma importante referência. Onde hoje é o
município de Santa Cruz de Minas, localizado entre São João Del Rei e Tiradentes,
instalou-se, em meados de 1701, por iniciativa de Tomé Portes Del Rei, um entreposto
comercial por onde passavam mercadorias de todo tipo a caminho das minas. Este local era
chamado Porto Real, ou Porto da Passagem, ainda hoje conhecido pelos habitantes da
região como Porto.
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O ouro não tardou a ser descoberto e, por empreendimento de João de Siqueira
Afonso, foi encontrado em um local que chamou de Ponta do Morro, ao pé da Serra de São
José, num ribeirão que ficou conhecido como Santo Antônio. Estabeleceu,
“ali, com seus escravos e outros companheiros o arraial com mesma denominação
(Santo Antônio), pouco tempo depois conhecido como Arraial Velho, em 1718
elevado à categoria de vila (São José Del Rei, hoje Tiradentes)”.(GUIMARÃES,
1976: 17)
Antes de alcançar a condição de Vila, no alto de um elevado, por volta de 1710
começaram a construção de uma capela, devotada a Santo Antônio, a qual viria a se
constituir como a Matriz de Santo Antônio. Uns 600 metros, morro acima, iniciaram a
construção, em 1775, do Santuário da Santíssima Trindade, por iniciativa de um ermitão,
onde até hoje é local de vultuosa romaria. Em uma rua abaixo da Matriz instalou-se, em um
casarão, o poder civil da Vila, o Senado da Câmara. O mesmo prédio, posteriormente, foi
utilizado como fórum e hoje abriga a Câmara de Vereadores. Na mesma rua, em seguida,
numa encruzilhada conhecida como “Quatro Cantos”, foi construído um sobrado, que
pertenceu à família Ramalho e hoje abriga o IPHAN e a Banda e orquestra Ramalho, criada
em 1860, responsável até o presente por abrilhantar as festas religiosas, principalmente da
Semana Santa. Seguindo a rua da Matriz chega-se ao Chafariz, construído em 1749, em
forma de capela, onde se encontra uma imagem de São José de Botas. Neste trecho da
cidade, somado à rua direita que vai do sobrado Ramalho até ao largo das Forras, onde se
encontra a Prefeitura, e a Rua do Sol, que vai da Igreja Matriz até à Casa do Padre Toledo,
ao lado da Igreja de São João Evangelista, concentrava -se, em seus primórdios o espaço de
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poder, em oposição ao espaço da produção. Este ficava, principalmente, situado nas
margens do Ribeirão Santo Antônio e do Rio das Mortes (GUIMARÃES, 1976)
Esta área descrita citada acima, forma a parte mais importante em termos do
conjunto arquitetônico tombada pelo IPHAN, sendo ainda hoje, o espaço de concentração
do poder público e religioso. O chamado centro histórico, formado por este conjunto, é
também o local de concentração das festas religiosas realizadas na Semana Santa, por onde
passam as procissões. Ao longo deste caminho encontram-se pequenas construções em
forma de capela, chamadas de Passinhos, usados somente no período das comemorações da
Paixão, simbolizando, através de pinturas em seu interior, os passos da Paixão de Cristo.
Completando o circuito religioso, tem-se ainda importante referência religiosa, a
Igreja de Nossa Senhora das Mercês, construída em 1769, no largo das Mercês, um pouco
afastada da praça principal, a qual é importante referência religiosa. Esta igreja é sede da
Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês, antiga Irmandade dos homens pardos. A
Irmandade dos homens brancos e ricos era a do Santíssimo Sacramento, responsável pela
construção da Matriz, provavelmente já existia em 1710. Já a igreja de Nossa Senhora do
Rosário foi construída por Irmandade de mesmo nome, composta por homens negros,
também no século XVIII, localizada na rua direita, em cujo largo acontece a cerimônia do
Encontro das Imagens de Nossa Senhora das Dores e de Nosso Senhor dos Passos, na
procissão dos Passos.
Sabe-se que muito ouro foi encontrado na Vila de São José, tanto que possibilitou a
construção de um templo até hoje considerado grandioso, como a Igreja Matriz. Abriga,
aproximadamente, cerca de 480 quilos de ouro, sendo considerada a segunda igreja mais
rica do Brasil. Além do ouro guarda muitos objetos de prata e principalmente um trabalho
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artístico muito sofisticado. Considerada importante exemplar da arquitetura barroca, sendo
seu interior todo ornado em estilo rococó, representa uma fase primeira do barroco mineiro.
Estiveram presentes em sua elaboração artistas importantes como Aleijadinho, responsável
pelo desenho da fachada e Manoel Víctor de Jesus, que executou as pinturas no interior. A
igreja foi construída em um elevado, necessitando de um aterramento para nivelar o piso,
dado seu volume avantajado. Construída de taipa de pilão, pau-a-pique e adobe, a igreja é
uma construção bastante sólida, porém fragilizada nos tempos atuais, o que a fez alvo de
uma importante restauração entre os anos 2000 e 2001, cujo processo é também parte da
minha pesquisa.
Com o declínio do ouro, houve um esvaziamento da cidade e, posteriormente, o
desmembramento de seu território que ia de Conselheiro Lafaiete até Barbacena. Viveu,
então, um longo período de decadência, mantendo-se em função da exploração agrícola,
basicamente para subsistência, e da produção de artesanato, em madeira, tecidos, cerâmica
e prata. Produzia também melado, aguardente e fubá, que comercializava em cidades
vizinhas. No século XIX houve uma tentativa frustrada de exploração subterrânea de ouro
por uma Empresa inglesa. Em 1860, passou a ser cidade e no ano seguinte começou a
funcionar a Estrada de Ferro Oeste Minas, garantindo-lhe um certo fôlego como rota
comercial. Mas sua história nunca passou pela industrialização, como foi o caso de São
João Del Rei, preservando assim um estilo de construção quase homogêneo, datado do
século XVIII e XIX, pelo menos o pouco que sobrou ao abandono, ao êxodo e à ação do
tempo (PELLEGRINI, 2000 e GUIMARÃES, 1976).
A Vila de São José também foi palco da ação dos inconfidentes, tendo em Padre
Toledo uma figura de referência. Mas é conhecida principalmente por seu filho mais
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famoso, José Joaquim da Silva Xavier, nascido na Fazenda do Pombal, hoje município de
Ritápolis. Em 1889, com a proclamação da República, mudaram o nome da antiga vila para
Tiradentes, em função do herói e mártir da liberdade.
Devoções, reformas, patrimônio e turistas.
Aspectos da formação do catolicismo, do patrimônio cultural e do turismo em Tiradentes.
Se, por um lado, Tiradentes é uma cidade em que se pode detectar várias práticas e
crenças diferentes, a predominância na história e na atualidade é do catolicismo. Espíritas,
evangélicos, umbandistas e esotéricos têm uma presença mais discreta na cidade, não só
porque os católicos são maioria, mas porque o tipo de catolicismo que impera é pouco
tolerante.
Dos primeiros habitantes da região, os índios, quase nada restou em termos de
herança cultural, e a religião que se cunhou na região talvez tenha nada, ou quase nada
destas etnias. Ainda hoje o imaginário dos habitantes locais é povoado por “espíritos” e
“almas penadas”, esta crença talvez tenha vindo do catolicismo popular europeu, mas é
possível que tenha se enriquecido pela cosmologia indígena e africana.
Do negro escravo, aparentemente, pouco ficou até o presente. Ainda se ouve falar de
velhos feiticeiros de pele escura, por um lado, por outro, alguns dizem que as igrejas têm
muitos símbolos de religião africana. Provavelmente, com o declínio do ouro, muitos
negros escravos foram levados para o Vale do Paraíba para trabalhar nas lavouras do café,
permanecendo poucos negros na localidade. As congadas não estão mais presentes há
muitos anos e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos também não
existe mais. Mas o fato é que estas pesquisas, da presença da religião negra e índia, ainda
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estão por serem feitas. De fato, o que predomina é o catolicismo trazido pelos portugueses e
bandeirantes que aqui se fixaram, em função do comércio e da descoberta do ouro.
O catolicismo em terras brasileiras iniciou-se pelas ordens missionárias com o
objetivo de evangelizar os povos que aqui habitavam. Em Minas Colonial, é sabido que,
desde o início da exploração do ouro, ele esteve presente. Celebravam missas, quando
sacerdotes havia, e construíam Igrejas logo que iniciavam algum arraial. O catolicismo que
veio dar no Brasil nos sécs XVI e XVII é um catolicismo familiar português de elementos
medievais, muito marcado pela contra reforma. Segundo Pierre Sanchis (SANCHIS, 2000:
2), o catolicismo português era uma religião de aldeia. Nesse catolicismo era muito
presente a questão das romarias, das procissões e das imagens, que eram feitas com o
propósito de provocar fortes emoções, impressionando o povo e remetendo-o ao sagrado
através de fortes expressões artísticas, demonstrando o poder de Deus e da Igreja Católica,
e contrapondo-se à reforma protestante.
Em Minas Gerais, a partir de 1771, foi proibida a entrada de ordens religiosas pela
Coroa, sob a alegação do risco de contrabando de ouro e diamante. Assim, formou-se um
catolicismo muito marcado pela presença leiga, representada principalmente pelas
Irmandades. Estas tinham dupla função, religiosa e social, promoviam devoções
particulares e garantiam o amparo aos membros durante a vida e, na morte, um
sepultamento digno. Expressavam um status social específico, pois se formavam de acordo
com a posição social dos membros. Irmandades dos pretos, dos homens pardos e a dos
brancos ricos (BOSCHI, 1976). Mas a proliferação de paróquias preocupava tanto a Igreja
quanto a Coroa, as quais se uniram, pela instituição do Regime do Padroado. Através deste,
a Santa Sé, romana, concedia à coroa de Portugal o controle sobre a religião nas novas
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terras, sobre as paróquias em franco nascimento e conseqüentemente, sobre o catolicismo
leigo. Assim, este poder dava ao Rei a possibilidade de melhor administrar o fluxo das
riquezas exploradas na região. Unindo em suas mãos o poder religioso e político
(HOORNAERT,1996).
No século XIX, implantou-se no país um movimento de reforma, alavancado pelos
bispos, que pretendiam separar as funções da Igreja do poder imperial. Efetivaram a
“aplicação da reforma tridentina e assumiram o controle da vida religiosa do
povo” (AZZI, 1977: 126)
Este movimento consolidou-se com a República, quando a Igreja se separou
definitivamente do Estado. Assim, o episcopado implantou o controle sobre a vida católica
do povo e “romanizou” suas expressões de culto. Os padres passaram a ter mais poder nas
paróquias e as igrejas passaram a pertencer à Cúria, sendo motivo de muitos conflitos nas
cidades em que as Irmandades tinham uma atuação mais pungente. Os Bispos reformadores
trabalharam para impor seu controle sobre os leigos e suas formas de associação, as
Irmandades,
“...a tônica do catolicismo brasileiro desloca-se do leigo para o bispo, da religião
familiar para a religião do templo, das rezas para a missa, do terço para os
sacramentos. Passa a uma religião de pouca presença dos leigos, a não ser em
funções subalternas e desligadas da realidade terrena” (BEOZZO, 1977: 748).
Talvez mais transformador que a Reforma “romanizadora” tenha sido o Concílio
Vaticano II. Segundo Steil:
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“especialmente os primeiros anos do Concílio Vaticano II foram marcados por uma
onda iconoclasta que varreu de muitas igrejas as imagens dos santos. Em nome de
uma fé esclarecida, a devoção aos santos passou a ser vista como uma
manifestação alienada de um catolicismo tradicional que deveria ser erradicado”
(STEIL, 1997: 85).
Enfim, o catolicismo que se formou na cidade de Tiradentes foi influenciado por
todas estas intervenções institucionais, porém não se converteu a elas por completo e
forjou-se uma devoção bem característica, preservando rituais que vêem desde a chegada
do homem católico na região. Nos 300 anos de sua presença, nota-se a permanência de uma
religiosidade familiar, de origem lusitana, com forte devoção às imagens de santos,
marcada pela arte sacra barroca, com predominância leiga em suas organizações
(Irmandades). Porém, está presente também, uma forte influência do período da
“romanização”, estando ainda repleto de rituais tridentinos, os quais se combinam com as
diretrizes do concílio Vaticano II, principalmente na reformulação da liturgia. Enfim, é um
catolicismo que combina elementos residuais de várias épocas da história desta instituição
no Brasil (FRANCO, 1995).
Em muitas cidades do país ainda existem Irmandades e Confrarias, que se
organizam de várias formas e prestam serviços religiosos e ou sociais diversificados. Em
Tiradentes (também em outras cidades do século XVIII) elas ainda se estruturam de forma
semelhante ao passado, cuidando de igrejas, que elas mesmas construíram há mais de
duzentos anos, realizando festas, procissões e atendendo aos membros associados em suas
necessidades, principalmente nos ofícios de morte. Esta tradição religiosa, com vínculos
mais sólidos e antigos, é reproduzida pelas Irmandades e pelas pessoas que as compõem.
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As Irmandades, em Tiradentes, ainda mantém muito das suas características
originais, refletindo o catolicismo leigo, realizando as festas de santo e contratando padres
para os sermões. São elas: Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade de Nossa
Senhora das Dores e São João Evangelista, Arquiconfraria de Nossa Senhora das Mercês,
Irmandade da Santíssima Trindade e Confraria de Nosso Senhor dos Passos. Todas têm
suas próprias igrejas, com exceção da última que se limita a um altar lateral na Matriz. Se
na maior parte do país houve a substituição destas por outras associações de cunho mais
espiritual, como o Apostolado da Oração e as Conferências Vicentinas, em Tiradentes, as
Irmandades permaneceram, passando a conviver com estas outras.
No século XIX inúmeros conflitos ocorreram entre hierarquia e Irmandades em
processos na Justiça Civil pelo Brasil. Em 1893, por exemplo, no Maranhão, a Irmandade
de Nossa Senhora da Conceição entrou com um processo contra o bispo de São Luís, o qual
ganhou no Tribunal a posse da igreja (BEOZZO, 1977). Hoje, em Tiradentes, se por um
lado, igrejas e passinhos pertencem à Cúria, não ficou esquecido o poder das Irmandades e
os conflitos com o pároco são uma constante. O presidente da Irmandade do Santíssimo
Sacramento, de Tiradentes, afirma esta polêmica quanto à propriedade destes bens:
“E tem outra coisa, o órgão é da Irmandade do Santíssimo, porque o padre tá por
conta da igreja, mas aquilo lá é nosso, o senhor sabe disso, né. Eu te mostro o
estatuto, foi comprado em 1788 pela Irmandade do Santíssimo em Portugal. O sino
da Matriz foi comprado em 1710 em nome da Irmandade do Santíssimo
Sacramento, pode subir lá para você vê. O começo da Matriz também é da
Irmandade do Santíssimo, a construção é de 1710.”
24
Com relação ao controle político da paróquia, o pároco afirma ser de grande
dificuldade lidar com a diversidade de grupos religiosos, principalmente com as
Irmandades, que, peculiarmente nesta cidade, se apresentam em número demasiado e
pressionam para exercer seu poder dentro de determinado domínio. Dizia o padre na
entrevista:
“A paróquia de Santo Antônio de Tiradentes, ela é diferente de todas as paróquias
de São João Del Rei... A realidade aqui é outra, devido ao número excessivo de
Irmandades... Lidar com Irmandades não é muito fácil não, o padre para trabalhar
com Irmandades tem que ter um jogo de cintura bem maior, ele tem que trabalhar
com isso porque senão dá atrito mesmo. Porque a Irmandade, normalmente, não
são todos, mas os membros da Irmandade é como se fosse uma igreja particular
deles”.
O presidente da Irmandade do Santíssimo Sacramento reforça a existência deste
conflito e reafirma os supostos direitos da Irmandade, aguçando a disputa pelo poder dentro
da paróquia. Dizia ele:
“A relação nossa é péssima, o padre não aceita nada que a gente fala. Inclusive nós
vamos ter uma reunião agora dia 3,...o negócio vai pegar fogo... Em 99 ele vendeu
um terreno e não falou com ninguém. Depois que vendeu é que falou com a
Irmandade...quer dizer que a Irmandade não manda em nada não?”
Mas a questão do uso e da apropriação de igrejas e objetos religiosos não se limita à
disputa entre paróquia e Irmandades. Com a institucionalização do Patrimônio Histórico
Brasileiro passaram a ter um pertencimento muito peculiar, pelo menos conceitualmente,
sua posse se estendeu a toda nação brasileira. Através da criação de um projeto de lei, pelo
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Governo de Getúlio Vargas em 1937, aquilo que seria julgado como símbolo da nação,
passaria da posse particular para um pertencimento e reconhecimento geral, de todo
brasileiro. Desta forma,
“os bens, uma vez que passam a representar o país (a nação), tornam-se seus
documentos de identidade, passando a ser guardados e estudados por um corpo de
especialistas”,
que o elevariam à categoria de depósito da identidade do povo brasileiro. A
institucionalização desta idéia tinha o interesse de proclamar uma
“sólida identificação com a expressão de um todo nacional” (LOPES, 2001: 67).
É comumente aceita a idéia de que a instituição do Patrimônio Cultural Brasileiro
foi motivada graças ao trabalho desenvolvido pelo movimento modernista das primeiras
décadas do século XX. A estas pessoas ocorria uma preocupação com as artes populares,
reconhecendo sua importância histórica e cultural para a recuperação de uma tradição. O
projeto modernista pretendia combinar passado e presente, recuperando a tradição, mas sem
perder o
“fluxo da vida moderna, o progresso industrial e de urbanização, cosmopolitismo,
tônica e inspiração do modernismo” (MARIANI, 1999: 159).
Estas propostas culturais e artísticas se entrelaçavam com um projeto político
nacionalista dos anos 30, buscando a construção de uma modernidade nacional. Tanto
Estado Novo quanto agentes culturais e a própria sociedade necessitavam explicitar melhor
a identidade desta nação que queria se formar sobre suas próprias bases. Desta forma era
necessário delinear um projeto que garantisse um lugar para o registro da memória popular
26
nacional. Assim, no decreto-lei no. 25 de 1937, que organiza a proteção ao patrimônio
histórico, incluía móveis e imóveis de valor histórico, bibliográfico, etnográfico, artístico e
ainda paisagens naturais, criando assim possibilidades para o reconhecimento de elementos
artísticos e culturais, de origem popular ou erudita que fossem significativos para a
construção de uma identidade nacional. O que se constituiu, oficialmente no Brasil como
patrimônio cultural foram ícones, prédios, objetos, manifestações culturais, acidentes
geográficos, entre outros, considerados depositários de uma memória de interesse geral, a
fim de construir e solidificar uma identidade nacional.
A iniciativa foi do então ministro da saúde e educação Gustavo Capanema, que
encomendou a Mário de Andrade um anteprojeto de lei para a proteção do Patrimônio
Cultural Brasileiro, confiando a Rodrigo de Mello Franco de Andrade a criação do “Serviço
de Proteção do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional” (SPHAN), o qual seria elevado à
categoria de Instituto mais tarde (IPHAN). Colaboravam com ele importantes intelectuais,
como Manuel Bandeira, Lúcio Costa, Carlos Drumond de Andrade, Afonso Arinos. Os
esforços se concentravam, então, na proteção dos bens patrimoniais do país, através de uma
legislação própria, realizando tombamentos, formando um corpo técnico, restaurando,
revitalizando e salvaguardando os bens arquitetônico, urbanístico, documental e etnográfico
das obras de arte e bens móveis.
Nesses anos de atuação o instituto realizou um constante trabalho de fiscalização,
proteção, identificação, restauração e preservação de monumentos, sítios, bens móveis e
estendendo ainda os cuidados com acidentes geográficos importantes. Conta hoje com uma
legislação minuciosa sobre os usos e a conservação destes bens, a qual pode ser aplicada
pelos serviços de uma estrutura institucional ampla e de grande penetração, contando com
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superintendências regionais e sub regionais, museus, parques históricos, etc. Toda sua
estrutura trabalha para a preservação de edifícios tombados, conjuntos urbanos, sítios
arqueológicos, mais de um milhão de objetos, incluindo acervo museológico, volumes
bibliográficos, documentação arquivística e registros fotográficos, cinematográficos e
videográficos. E ainda conta com vários monumentos culturais e naturais considerados pela
Unesco Patrimônio da Humanidade, evidenciando, assim, a importância internacional que
adquirem, tanto estes bens quanto o trabalho da instituição.
Além do IPHAN, atuam em Tiradentes, na área de preservação, outros institutos e
fundações, sejam estaduais, municipais ou de iniciativa privada. Em Tiradentes estão
presentes, além do IPHAN, o IEPHA (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e
Artístico), o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), a Fundação Rodrigo de
Melo Franco, hoje sob administração da UFMG, todas com sede local. Acrescenta-se ainda,
com participação em várias ações na cidade, a Fundação Roberto Marinho e uma ong local,
a SAT (Sociedade Amigos de Tiradentes), que desenvolve, desde 1980, ações muito
significativas através do trabalho voluntário de seus membros, na preservação do
patrimônio e na valorização da cultura e da qualidade de vida da cidade.
A SAT é uma entidade sem fins lucrativos que muito atuou na recuperação de
prédios e que formou o núcleo de pessoas, misto de nativos, moradores e não residentes na
cidade, responsável por levar à frente número significativo de iniciativas. Atuou, em
trabalho conjunto com o IPHAN, na restauração de prédios, inclusive casas não tombadas,
ajudou a criar a corporação de artesãos, organizando e encaminhando-os a feiras em vários
estados do país, e elaborou vários textos sobre a cidade e seus elementos culturais e
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artísticos, publicados em jornais de Belo Horizonte. Dentre sua produção literária destacase um jornal de circulação pela cidade, o “In Confidências”.
Com o tombamento do conjunto arquitetônico e outros objetos, com as iniciativas
de restauração e preservação, a cidade passou a ser mais conhecida pela sociedade
brasileira mais ampla. Sua divulgação nos meios intelectuais e posteriormente nos meios de
comunicação de massa a transformou em uma cidade turística. Assim, além da forte
presença do catolicismo em sua cultura tradicional e do status de Patrimônio Nacional, a
pequena Tiradentes passou a ser assediada por pessoas de várias partes do país e do mundo,
com interesses tanto culturais como de lazer.1
Tiradentes, até o início da década de 80, vivia praticamente das fábricas de prata,
além de agricultura de subsistência ou esparsos viajantes. Nessa época a cidade só contava
com duas pousadas e um restaurante. A oferta de emprego eram as oficinas, o poder
público, as cidades vizinhas e o trabalho na roça. A principal fonte da economia local, a
prata, vendida principalmente para São Paulo, Bahia, Rio, locais de romaria e etc, entrou
em declínio, levando vários empresários locais à falência.
Coincidentemente, na mesma
época, ampliou-se o fluxo de pessoas de fora para a cidade. Tanto turistas quanto pessoas
que viriam morar ou desenvolver projetos culturais ligados às artes. Essa época foi marcada
por algumas iniciativas que fizeram com que a cidade se movimentasse culturalmente, tanto
no sentido de preservar o acervo histórico e recuperar a memória, quanto divulgar sua
riqueza cultural. Destaca-se a vinda pioneira de Ives Alves, John Parsons, Paulo André,
1
Talvez pudesse considerar que os primeiros turistas mais importantes do século XX em visitação a Tiradentes tenham sido um grupo de
modernistas. Foi justamente em um Sábado de aleluia, do ano de 1924, que Tarcila do Amaral, Mário e Osvald de Andrade, Blasie
Cendras e outros, passaram pela pequena vila de São José, então Tiradentes. Viajavam pela “Minas antiga”, São João Del Rei,
Congonhas, Ouro Preto, desenhando, escrevendo, conhecendo e se divertindo. Dois anos depois de realizada a Semana de Arte Moderna
em São Paulo, passaram por estas terras, “descobrindo” sua cultura sua arte e seu povo. Talvez esta viagem tenha dado o tom a um
turismo que estaria em sua gênese embrionária, contribuindo para a configuração de um tipo de turista que ganharia a cidade nos tempos
contemporâneos. Sobre as viagens destes modernistas pelo Brasil e pelas cidades de Minas, ver Mário de Andrade, 1976.
29
entre outros, e a instituição da Sociedade Amigos de Tiradentes, apontada como a maior
responsável pela guinada no sentido da preservação e divulgação da cidade. Sua
importância é destacada por Luiz Cruz, ex-presidente da associação:
“Eu acho que a SAT tem um papel assim tão importante, que a história da
preservação mesmo, a história contemporânea de preservação de Tiradentes
começa a partir de 1980, né. Ela foi tão importante que da própria inspiração da
equipe da SAT, que ajudou a preservar o núcleo histórico, que o IPHAN criou a sua
equipe de obras... até hoje prestando trabalho especializado não só aqui em
Tiradentes, mas atendendo a cidades onde tem monumentos também tombados.”
Um dos fundadores da SAT, Ives Alves era uma pessoa ligada à mídia, diretor da
Rede Globo Minas em Belo Horizonte, então a divulgação da cidade foi ampla e muito
ligada à Rede Globo de Televisão. Talvez por isso tenha havido um grande interesse na
realização de uma série de filmagens, tomando a cidade como cenário e a população como
figurante. Destacam-se as minisséries “Memorial Maria Moura” e “Hilda Furacão”.
Também
ocorreram
produções
cinematográficas
como
“Menino
Maluquinho”.
Concomitantemente, a cidade começava a ser assediada por empresários, intelectuais e
artistas, muitos deles ligadas à televisão ou a órgãos de ação cultural, os quais não só
passeavam, ou trabalhavam na cidade, como também adquiriam imóveis, seja para se
estabelecerem no local ou para passarem férias e feriados.
Como efeito da ação destas pessoas e entidades e da realização destes projetos,
Tiradentes saiu do ostracismo e da decadência, arquitetônica e econômica, e inaugurou uma
nova era em sua história, totalmente vinculada ao turismo e à cultura do Patrimônio. Hoje
Tiradentes depende quase totalmente do turismo. Não só a economia, mas também a
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cultura, estão intimamente relacionadas a ele. Se o turismo teve seu impulso há uns vinte ou
vinte e cinco anos atrás, teve um impulso mais contundente em meados da última década do
século XX, quando ocorreu um boom de eventos e estabelecimentos comerciais.
Ao
longo
do ano muitos eventos de massa são organizados na cidade, como a “Mostra de Cinema”
em janeiro, o Carnaval, o “Encontro de Motoqueiros” em junho, o “Festival de
Gastronomia” em agosto, sem falar dos eventos menores, mais elitizados, e os eventos
tradicionais religiosos. Tudo isso, então, vem acompanhado, é claro, de um intenso fluxo de
pessoas, algumas vezes maior que o suportado pela cidade.
Tiradentes na atualidade
Segundo o censo de 1995 do IBGE, a cidade contava com uma população de 5.234
habitantes, sendo que em 2000 este número teve crescimento pouco significativo, subiu
para 5.755 habitantes. Porém, constata-se facilmente que boa parte da população residente
na cidade, proveniente de outras localidades, não respondeu ao censo populacional no local,
impedindo uma informação mais precisa. O número de estabelecimentos comerciais, como
lojas e restaurantes, cresceu nestes poucos anos vertiginosamente, em função da quantidade
de turistas que afluem anualmente. O número de novas construções de casas e pousadas é
visível. Para se ter uma idéia deste fluxo, é possível que hoje a cidade tenha mais de 100
pousadas e hotéis, sendo que em 1996 havia 65 estabelecimentos.
O centro histórico é de dimensões bem restritas, como se pôde observar na
descrição anterior, porém a cidade vem crescendo no entorno, surgindo novos loteamentos
e bairros, os quais atendem tanto à população de fora que vem morar na cidade, quanto à
própria população local que passou a ser deslocada do centro para a periferia. A maior parte
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das casas do centro, hoje, é ocupada, ou por pessoas de fora, como casa de passeio ou
segunda residência, ou como estabelecimentos comerciais, lojas, pousadas e restaurantes.
A cidade vem sendo reconfigurada, tanto estrutural como culturalmente. À
população original são acrescentadas pessoas de várias proveniências e, de tempos em
tempos, a cidade é tomada por grande quantidade de turistas dos mais diversos perfis. Sua
economia, em função desta indústria, tem um movimento financeiro razoável, nem sempre
com eqüitativa distribuição de renda, porém garante trabalho à população. Os prédios
históricos estão bem preservados e a cidade está sempre recebendo recursos para os
cuidados com o Patrimônio Arquitetônico. Por outro lado, falta atendimento médicohospitalar e há problemas de saneamento e abastecimento de água. Também existem alguns
problemas de relacionamento entre nativos e novos moradores, políticas públicas mal
implementadas e conflitos de interesses entre grupos da cidade. Em função das
transformações mais recentes, Tiradentes vive em uma ebulição cultural cheia de rupturas e
continuidades, de encontros e desencontros.
Dois movimentos, percebo, levam a um desentendimento e a conflitos mais
desgastantes para a vivência da comunidade maior que se formou. O primeiro é o
descompasso
entre
visões
de
mundo
diferentes
que
geram
desentendimentos
e
desencontros. A Semana Santa de 2000 foi um bom exemplo desse processo, quando os
rituais religiosos tradicionais sofreram interferências em virtude da realização de alguns
eventos para o lazer do turista. O segundo, é que o turismo e a divulgação do nome da
cidade pela imprensa às vezes cria situações que fogem ao controle da população e das
instituições.
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O carnaval de 2001 também é exemplo desse processo. A cidade ne sse ano foi
assediada por um número extremo de pessoas, maior do que podia comportar. Multidão de
jovens tomados por uma animação carnavalesca muito próxima ao que poderia se pensar
em termos de Salvador ou Recife, porém entre as pequenas e frágeis paredes de Tiradentes.
Sem infra-estrutura para receber esse contingente de foliões, a cidade virou um caos. O
resultado foi muita bagunça, destruição, sujeira e violência, fato este que apavorou o
pessoal da cidade e também os turistas mais românticos.
Com a penetração intensa de pessoas de fora que se mudam, constroem, compram
casa, montam pousadas, a cidade se diversifica e formam-se pequenos guetos com
fronteiras às vezes fluidas, às vezes bem demarcadas que dividem e fragmentam a cidade.
As pessoas já não se conhecem tanto, podem passar anos vivendo na pequena cidade e
nunca se verem. Esta realidade é contrária àquilo que tradicionalmente o tiradentino viveu
até então. Mas as coisas vão caminhando até situações mais negativas, como a presença
crescente da violência, do álcool e das drogas. Soma-se a isso um clima de esquizofrenia
por causa desta “partição”, que cria uma geração de jovens e adolescentes um tanto
desnorteados, entre a tradição arraigada de pais e avós e a mudança das relações sociais, de
trabalho e principalmente culturais de valores e padrões.
Diante deste quadro, muitas iniciativas caminham no sentido de preservar certas
tradições, além de prédios e objetos antigos, bem como resolver problemas de infraestrutura e compatibilizar história, cultura e turismo. As iniciativas não caminham somente
neste sentido, mas creio ser o predominante e o mais interessante de ser observado neste
momento. Assim formam-se grupos de voluntários como o “Grupo dos Anjos”, iniciativa
que nasceu de um curso promovido pelo IPHAN para ensinar como se conservar peças
33
antigas das Igrejas e que vem tentando resgatar a festa de Nossa Senhora do Rosário.
Alguns professores da UFMG desenvolveram o projeto “Revitalização do Patrimônio
Imaterial do Campo das Vertentes”, que fala da tradição das Irmandades e de culinária. O
grupo de Bombeiros Voluntário realiza, há mais de nove anos, um trabalho de educação
ambiental para a preservação da Serra de São José. Além dos já citados: Projeto Reviver,
promovido pela Escola Basílio da Gama e o Projeto de Revitalização da Igreja Matriz de
Santo Antônio, realizado em parceria entre o IPHAN, a Fundação Roberto Marinho e o
BNDES. Enfim, através de projetos como estes a população se organiza para resolver seus
problemas estruturais e culturais. Esses momentos se tornam fóruns privilegiados para
vislumbrar a realidade de modo geral, as estratégias de ação e os acordos entre os vários
grupos nas decisões locais.
Alguns destes projetos se mostram interessantes para explicitar certos problemas
enfrentados pela cidade, retratando a realidade local atual, em termos de relações sociais e
acontecimentos. Observando-os, pode-se perceber a forma como a comunidade se organiza
para as tomadas de decisão e gerenciamento de recursos, interagindo vários grupos, pessoas
e instituições com visões de mundo diferentes. Muitos deles tornam evidente como
decisões políticas, econômicas e culturais são tomadas com a presença e a intervenção de
pessoas e instituições não locais.
Em março de 2001 foi realizada na cidade uma Oficina de Planejamento
Participativo, como parte do projeto Monumenta, concebido e encaminhado pelo Ministério
da Cultura, utilizando recursos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), da
iniciativa privada local e de prefeituras. O projeto pretendia atender às necessidades das
cidades, envolvendo as suas áreas de preservação, trabalhando no sentido de recuperação de
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logradouros, conservação do patrimônio, apoio à iniciativa privada, promoção turística,
planos e projetos.
Como este projeto tinha a pretensão de criar um canal de comunicação direta entre
Ministério da Cultura e população local, formou-se a Oficina de Planejamento
Participativo, onde a comunidade, devidamente representada, poderia expor suas
necessidades e os possíveis caminhos para encontrar soluções.
A Oficina, em Tiradentes, durou quatro dias de trabalho intenso e teve em seus
representantes membros de entidades locais, a Consultora jurídica da UCG (Unidade
Central de Gerenciamento, ligada ao MINC), um moderador que organizava a oficina,
representantes de uma empresa de consultoria de Belo Horizonte, contratada pela prefeitura
em parceria com o Ministério, e pessoas do grupo de apoio do IPHAN de Ouro Preto.
Enfim, nove representantes locais e 5 não locais, mas que acabam por se vincular à cidade
de algum modo, o que indica uma rede de relações, de poder decisório, ampla, não limitada
ao território da cidade. Outra observação é que, das aproximadamente 15 pessoas que
passaram por ali, quatro eram nativas, cinco de outras cidades e 6 moradores, de outras
origens, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Inglaterra. É importante esclarecer
que este não era um fórum de decisões exatamente, não era um conselho da prefeitura ou
um órgão público, mas uma comissão formada para discutir os problemas da cidade e tentar
formular projetos para solucioná-los, na expectativa de administrar uma polpuda verba que
viria do BID. As decisões passariam pela prefeitura em acordo firmado com o Ministério da
Cultura. A prefeitura é atualmente administrada por um empresário local nascido em São
João Del Rei e o Secretário de turismo é um dono de pousada, vindo de São Paulo e que
tem muito peso nas decisões locais, uma vez que a cultura e o meio ambiente estão ligados
à sua secretaria. A câmara dos vereadores é dominada por pessoas da cidade, as decisões
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todas passam por ela, sendo composta, na sua maioria, por pequenos empresários e
comerciantes locais.
A oficina partiu da afirmação de um problema central a ser resolvido em função do
qual se realizaria o projeto: “patrimônio cultural urbano em mau estado de conservação”.
Gerou na reunião um debate que se pode resumir entre estas duas preocupações: o risco da
perda de turistas, principalmente o turista cultural, interessado em conhecer e fruir desse
patrimônio urbano e o risco da perda de referências culturais por parte da população local,
nativos e moradores.
Foi falado durante a reunião, na necessidade de restaurar alguns prédios, como os
passinhos, realizar obras no córrego Ribeiro Santo Antônio, que passa no meio da cidade e
está totalmente poluído por causa do esgotamento sanitário, obras no calçamento das ruas,
ampliar a iluminação subterrânea, reformar praças e logradouros. No meio desta
efervescência de propostas, já no segundo dia de realização da oficina, na medida em que
definiam como prioridade obras públicas e restaurações de prédios, houve uma interrupção
para esclarecimentos sobre as intenções do Governo e do Bid. Dizia o representante da
UCG:
“_ Em Tiradentes, com relação a obras públicas, não haverá, porque Tiradentes já
tem uma estrutura, então o projeto será voltado mais para os outros”.
Alguém da platéia perguntou:
“_ Mas quem acha isto?”
“_ O BID ...
projetos de obras de restauração não entra – respondeu o
representante da UCG. Entra gestão, fortalecimento institucional do município,
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atualização da legislação, treinamento, formação profissional, cultura de
preservação, atividades econômicas...culturais, ...turística...”
Fica evidente a tentativa de interferência de instituições nacionais e até
internacionais, no desenvolvimento de ações na cidade. Um programa que já vem de fora
direcionado para certas ações, o que evidencia a realidade multilocal de Tiradentes. Não é
somente uma cidade assediada por turistas de todos os lados, as decisões administrativas
também envolvem interesses de grupos de fora. Uma pequena cidade no interior de Minas
Gerais onde ainda predomina uma cultura rural, e que vem sendo elevada a relações não
somente nacionais, mas internacionais.
Parafraseando Canclini (2000) que afirma ter, a América Latina, vivenciado o
modernismo antes da modernização, Tiradentes vive a globalização antes de passar pela
modernidade. Se, há algumas décadas, era uma cidade à margem do processo de
modernização, industrialização e urbanização do país, hoje deu um salto para estabelecer
relações muito contemporâneas. Muito comum, é ouvir das pessoas que moram na cidade
comparações com cidades européias, Londres, Veneza, Paris e etc:
“Na Inglaterra também é assim...” ou “Veneza é uma beleza, mas o canal também
tem um cheiro horroroso...”.
Outro indício dessa internacionalização é a culinária. Ao mesmo tempo em que
existem restaurantes de fundo de quintal, mais na zona rural, que utilizam técnicas de
armazenagem de alimentos, como costela de porco guardada na lata de gordura, na cidade
proliferam restaurantes de comida chinesa, italiana, portuguesa, francesa e árabe. Mesmo o
festival de gastronomia, muito concorrido, tem como tema a cozinha internacional, com
chefes de cozinha vindo de várias partes do país e do mundo.
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Em meio a essa cultura globalizada, presente na culinária, na arte, nas relações interpessoais, na presença de instituições, a cidade não modernizou sua infra-estrutura urbana,
nem suas relações políticas. Não dispõe de uma legislação eficiente, não tem plano diretor,
nem leis definidas de uso do solo, nem código de postura. Mesmo a arrecadação municipal
não é eficiente e a maioria do comércio não paga os impostos corretamente à prefeitura,
fazendo com que a indústria do turismo gere renda apenas para os proprietários. As eleições
ainda seguem o modelo coronelista de voto de cabresto e se divide entre famílias rivais
tradicionais. Apesar de apresentar, aos poucos, mudanças, só nas últimas eleições para
prefeito é que alguns dos novos moradores resolveram transferir seus títulos. Talvez seja
uma tendência, a reconfiguração política, mas é algo para o futuro.
Dentro dessa realidade paradoxal que se formou, a cidade se divide basicamente
entre dois tipos de pessoas, os tiradentinos e os “ets” (extra-tiradentes). Esta classificação
foi forjada pelos nativos e estabelece fronteiras entre aqueles que são nascidos na cidade e
aqueles que foram morar lá a partir das duas últimas décadas. Também são categorias,
criadas pelo povo, para classificar aqueles que se aproximam mais do modo de vida deles e
são mais bem aceitos e aqueles que se posicionam mais em conflitos com a cultura
tradicional, sendo que “et” se tornou um termo pejorativo. Eu mesmo, que vivi na cidade
por três anos, tanto fui chamado de “et” como de tiradentino, dependendo da situação em
que me encontrava. Outras pessoas podiam passar mais de 10 ou 20 anos que sempre
seriam considerados “ets”.
O conflito intercultural é evidente, os novos moradores, ou “ets”, que na sua maioria
chegam de cidades grandes e são intelectualizados, perdem logo o romantismo e se
defrontam com a dureza do povo matuto. Querem recriar seu mundo naquele local que
todos consideram privilegiado. Não querem animais soltos pelas ruas, querem um
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calçamento certinho para circular com seus carros importados, reclamam da mão de obra,
de garçons, cozinheiras e camareiras, que não têm instrução, nem classe, nem sabem falar
inglês. Ora, até bem pouco tempo, a atividade predominante era a lida na roça. Do sujeito
que sempre lidou com vacas e cavalos muitas vezes exigem que fale inglês, se vista bem e
saiba lidar com “grã finos”, servir vinhos importados de mais de cem dólares para
embaixadores, etc.
Preocupado com este problema, dizia, durante a oficina, um dono de pousada, há
mais de 20 anos na cidade:
“_ O rapaz do segundo grau que sai do grupo ele está equipado pra quê?... O moço
que sai do grupo escolar pra mim é um mistério, não sei, não conheço (perceba aqui
os distanciamentos entre moradores e nativos)... Quando eu vejo um ou outro que
seria material para o meu hotel eu descubro que ele sabe muito pouco, que não está
preparado.”
Falta de sintonia também aparece entre as instituições. Uma das participantes da
oficina do Projeto Monumenta, dizia que um dos problemas em termos dos trabalhos de
conservação do patrimônio na cidade é:
“_ A falta de sintonia entre as instâncias municipal, estadual e federal, ... na
verdade o IPHAN tem uma base, tem os objetivos que ele adota, a prefeitura, ela é
um outro compartimento e o IEPHA um terceiro compartimento...não é só uma
questão de legislação, a gente tá falando de afinar mesmo o trabalho, trabalhar em
grupo alguma vezes...”.
Este ponto me parece interessante, pois evidencia que os problemas de conflitos,
divisões e disputas de espaços são muito significativos. A cidade se divide em guetos,
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sejam definidos por bairros, procedência, vínculos institucionais e familiares, opção sexual,
religiosa ou profissional. Intelectuais, gays, peões, artistas, beatas, comerciantes e etc, tanto
se separam na sua vida quotidiana quanto se misturam nas festas públicas, tanto fazem
alianças políticas e desenvolvem trabalhos em parceria, quanto criam disputas, num jogo
dinâmico e intrincado que às vezes perturba a cabeça dos mais acostumados a relações
sólidas e estáveis. As pessoas da cidade tanto estabelecem relações estáveis, principalmente
as familiares, quanto relações passageiras, principalmente com turistas. Entre as turísticas e
as familiares, há uma série de possibilidades de relações, as quais podem passar pelo
trabalho, pela diversão ou pela religião entre outras.
As relações entre turistas e moradores em geral tendem a ser mais fluidas e se
aproximam da caracterização feita por Bauman. Considerando o turista como uma
metáfora, para pensar relações contemporâneas marcadas pela fluidez e instabilidade,
afirma ser uma figura que resume a relutância em fixar relações e identidades:
“Os turistas que valem o que comem são os mestres supremos da arte de misturar
os sólidos e desprender o fixo” (BAUMAN,1998: 114).
Seja considerado não como metáfora de relações contemporâneas, mas como uma
experiência, o turismo, contribui, pela sua inerente característica de mobilidade, para
intensificar os mecanismos dinâmicos existentes nas sociedades com as quais entra em
relação, ou acrescentando-as a elas. Tiradentes não foge desta influência e, participando do
jogo dinâmico proposto, não somente pela realidade turística, mas pela realidade múltipla
onde está em questão também o conceito e a ação relativa ao patrimônio cultural, se
configura pela convivência entre os relacionamentos e identidades volúveis e aqueles que
se esforçam por manter a estabilidade e a fixação através da tradição e mesmo da história.
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O fato concreto que mais evidencia esta mobilidade é o deslocamento do nativo que
antes ocupava o centro da cidade, o centro histórico, e passou aos poucos a migrar para a
periferia da cidade. Na oficina do Projeto Monumenta este processo social era analisado
com bastante interesse. A preocupação gravitava em torno do uso comercial predominante
de prédios antes residenciais, a desocupação dos moradores e a conscientização e
valorização do patrimônio. Vejamos o debate que se segue:
Representante do IPHAN de Ouro Preto (baiana):
“...a população, há 25 anos atrás não reconhecia o valor histórico dela (das casas),
associava o patrimônio à pobreza, né ... via o patrimônio como um empecilho ao
progresso, um empecilho da melhoria da qualidade de vida.”
Representante do IHGB (tiradentino):
“... só mudou uma coisa, perceberam que podem ganhar dinheiro com o
patrimônio... Se tem valor histórico ou não tem, continua o mesmo ... já mudaram
todos daqui (do centro). Se custa 120 mil uma casa dá pra comprar cinco casas no
bairro...”
Dono de pousada (carioca):
“... se o sujeito não tem dinheiro para manter a casa, não falta um paulista rico
querendo comprar e manter a casa, é uma lei de mercado... é um negócio meio
desagradável e que aconteceu em quase todas as casas, menos em meia dúzia e vai
acabar acontecendo na cidade inteira. Em Parati já não tem um caiçara morando
em Parati, mora fora...”.
Representante do IPHAN de Tiradentes:
41
“... a importância que é que deve-se incentivar a permanência da comunidade
local, do pouco que ainda tem em Tiradentes, porque isso é uma coisa muito séria esse
esvaziamento do cidadão tiradentino desse centro onde estão suas raízes... Agora,
a gente precisa sim de desenvolver mecanismos que evite as perdas de raízes
culturais.”
Os depoimentos são esclarecedores dos fatos, mas o que gostaria de realçar é que, se
por um lado, o esvaziamento da comunidade do centro histórico gera um problema de perda
de raízes de memória e desorientação da cultura e das relações sociais, por outro, estas
mesmas pessoas criam outra comunidade em outros lugares, com uma cultura modificada,
combinando, criativamente mobilidade e tradição.
Sabe-se
que
os
caminhos
das
procissões,
tradicionalmente
costumam
ter
correspondência com o traçado de ruas e com as disposições das casas, sendo um privilégio
importante tê-la passando em frente a uma residência. Contam que uma procissão, a de São
Francisco deixou de circular pelo centro, pois estava já quase totalmente ocupado por
pessoas de fora e aqueles que organizavam esta festa já estavam no bairro Cascalho. Assim
mudaram seu trajeto e hoje ela só se realiza no bairro.
Outro caso foi o da realização, no ano 2000, pela primeira vez, de uma procissão no
Bairro Mococa, que é um dos bairros mais recentes da cidade, todo habitado por
tiradentinos. Na festa da Santíssima Trindade, realizada em junho, fazem uma procissão no
final da festa, dando uma volta no centro da cidade. Uma semana depois, após as últimas
comemorações e o leilão de gado, realizaram novamente aquela mesma procissão, porém
pelo bairro. Foi um pedido dos moradores se tornou motivo de muito orgulho para eles.
Teve gente que dizia que era um sonho o fato de uma procissão passar em frente de sua
42
casa, para que pudesse enfeitar as janelas e a rua, esta foi uma grande oportunidade. Isto é
um indício claro de que as posições estão mudando e as pessoas vão, juntamente com as
novas relações sociais e espaciais, recriando sua cultura e reordenando seus símbolos
religiosos.
Outro indicador da tensão mobilidade/fixação é o dilema que se instala na definição
de ações culturais, seja quanto à preservação do patrimônio arquitetônico e da tradição local
ou quanto à necessidade de promoção turística e comercial de eventos. A diretora do
IPHAN de Tiradentes dizia:
“_ Existem eventos que contribuem para depredar o patrimônio e não há seleção e
organização adequada... a partir do momento que a cidade se sofisticou nos
últimos anos, gerou uma demanda maior de promoção que gerou os grandes
eventos... Então, tem que ver o que está querendo pra cidade, pra identidade dela.
Se você tá querendo resgatar eventos tradicionais... trabalhar o carnaval quando
você tem uma grande demanda, planejar e normatizar isto, ou não, eu vou querer
prá Tiradentes um carnaval bucólico de bandinhas como era...”
O dilema se aprofunda quando se trata da definição do que deve ser mais valorizado
na cidade, um evento que traz dinheiro ou um evento que preserve as raízes culturais do
povo? Como compatibilizar isso? Brandão faz um comentário bem interessante sobre Ouro
Preto, com relação a este tipo de contradição:
“Que códigos e interesses regulam trocas onde justamente a diversidade de
produtos e intenções de consumo parece ser o desafio a um lugar de cultura e
turismo em que uma uniformidade regida pelo primado do tradicional é um suposto
básico? Ora, para que Ouro Preto seja efetivamente um lugar de história e cultura
43
atraente, é indispensável que preserve uma tradição autêntica, algo que conote a
peculiaridade de sua cultura em sua história. Mas, para que as pessoas reais de
Ouro Preto possam realizar concretamente seus desejos e para uma quantidade
maior de pessoas de fora queira estar em Ouro Preto, é necessário que esse lugar
consagrado se abra àquilo que invade e profana o que lhe parece ser mais
peculiar” (BRANDÃO, 1979: 70).
Dentro deste paradoxo preservação/profanação, os grupos e as pessoas envolvidas
nas ações não chegam a um acordo conclusivo, pois, de uma forma ou de outra, há uma
tendência de compatibilização, o que faz aproximar as opiniões de tiradentinos e “ets”, sem,
no entanto, chegar a um consenso. Durante um debate na oficina um dono de Pousada,
membro da SAT (inglês), dizia:
“... coisas natalinas, folia dos reis, seresta, que podia ser um grande atrativo
turístico, não tem mais seresteiro... e tem auto-falante, e tem muita coisa que não
tem nada a ver com Tiradentes, que estão abafando os eventos culturais.”
Diretora do IPHAN de Tiradentes:
“ uma coisa séria é resgatar as referências culturais do cidadão tiradentino nessas
manifestações, nesses eventos, que é diferente de você tá divulgando isso, fazendo
investimento turístico. Diferença entre está fazendo uma festa do Rosário pro
turista vê... ou uma festa do Rosário para o cidadão tiradentino resgatar suas
referências. Isto é extremamente sério, porque cê vê hoje, Serro que é uma cidade
que tinha uma festa do Rosário... está ficando toda descaracterizada, toda
modificada pela questão turística... São duas coisas diferentes que têm de ser
tratadas de forma diferente.”
44
Outro dono de pousada, membro a Associação Comercial (carioca):
“o que vocês têm contra em divulgar os eventos tradicionais... Um evento de massa
como o carnaval vai trazer dinheiro, vai trazer gente, e tal, mas sempre vai ser uma
coisa com um objetivo completamente diferente de uma congada...”
Artesã (tiradentina):
“o problema da nossa cidade é isto, os grandes eventos são muito divulgados, os
pequenos eventos da cidade não são divulgados. Eles são encostados. Pastorinhas,
festa junina, congada, folia, então tudo isto, pra voltar a acontecer na cidade tem
que ser divulgada porque, ela caiu no abandono... Então estas pequenas... tá
caindo... antigamente tinha festa... quadrilha, que é tradição da cidade, que deve
ser recuperada, divulgar... pra voltar...”
Percebe-se, neste diálogo, que pessoas de fora e de dentro podem tanto criar
oposições de acordo com suas visões de mundo, como confluência. Isto é observado no
caso do inglês que quer ver na cidade as serestas e as folias de reis e a artesã que gostaria
que voltassem as festas juninas. Por outro lado, esta mesma tiradentina acredita que é o
turismo o mecanismo capaz de tal motivação, o mesmo turismo que leva ao risco, apontado
pela diretora do IPHAN, de perda das raízes culturais. Assim, a realidade da cidade se
apresenta complexa e contraditória, difícil de ser pensada por todos.
Acredito que os problemas enfrentados por Tiradentes extrapolam em muito as
questões ligadas ao patrimônio e a seus recursos. A cidade é bem preservada tem um
turismo rico e durante todo o ano, não falta emprego, etc. Mas vive um desequilíbrio
cultural causado pela realidade dinâmica. Os recursos muitas vezes sobram, os projetos e
45
eventos são tantos que os moradores não dão conta de ir a todos, mas paira no ar um clima
de insatisfação. O problema não é a falta de recursos, como apontam ou falta de pessoal
qualificado e legislação, mas acho que se trata de um problema cultural mais profundo em
que há uma grande diversidade de visões de mundo e formas de relacionamento. Se,
elaboram um sistema de comunicação, este é vasado por interferências e contradições, estas
passam por concepções estéticas, valorativas, religiosas e históricas. É uma nova sociedade
que vem nascendo correndo todos os riscos de um parto difícil onde nem sempre doutores e
parteiras se entendem.
Apresentação do Problema
Tendo proporcionado ao leitor uma visualização da realidade social tiradentina, na
qual insere o presente trabalho, desde os processos históricos até o cotidiano atual, faz-se
necessário emergir as questões teóricas que estão implicadas em tal contexto. Trata-se de
um estudo realizado sob a orientação das reflexões da antropologia cultural, porém, tendo
como elemento empírico articulador, a manifestação religiosa, seus rituais e suas crenças.
Se esta já é um objeto clássico de tal disciplina, a qual se enverga diante de ritos e mitos
vividos e pensados por uma sociedade, a fim de buscar compreender interpretativamente os
processos simbólicos e sociais, mais central se torna a religião, enquanto objeto de estudo,
quando
as
reflexões
em
torno
dessa
manifestação
são
enriquecidas
pela
interdisciplinaridade proporcionada pela Ciência da Religião.
Trata-se, então, de pensar a cultura, entendida esta como um sistema simbólico que
expressa e constrói o ethos e a visão-de-mundo (GEERTZ, 1978), através da experiência
religiosa (ritos e mitos). No caso da sociedade que observo, trata-se de buscar acessar um
46
contexto sócio-cultural, marcado pela pluralidade de visões-de-mundo, pela pluralidade de
significações e emoções, que envolvem um mesmo conjunto de objetos, sendo este de
cunho originariamente religioso.
Meu estudo pretende abarcar uma multiplicidade de sentidos, porém, centrando o
foco na experiência dos agentes sociais, vivenciada dentro de um contexto marcado pela
religião católica. Mito, história, consumo e lazer, fontes de sentido para as experiências
proporcionadas respectivamente pela religião, pelo patrimônio e pelo turismo, são
articulados, tanto por instituições como por pessoas, para dar sentido a objetos construídos
originariamente em função de um objetivo religioso. São igrejas, imagens, celebrações que
adquirem vários significados, às vezes oponentes, às vezes complementares.
Tiradentes, como foi visto, é uma cidade que concentra, em um espaço pequeno,
uma efervescência cultural bastante original, interpenetrando-se pessoas e instituições de
várias origens sociais e culturais, tornando-se um espaço privilegiado para o estudo sobre as
relações entre visões-de-mundo e sentimentos diversificados.
De início, neste sistema de interação entre diferentes narrativas e experiências,
mostra-se a oposição entre “pessoas de fora” e “pessoas de dentro”. Esta oposição é usada
por Brandão, a respeito de Ouro Preto, classificando cerimônias de acordo com os agentes
que promovem e o público a que são destinadas (BRANDÃO, 1989). Porém, tal
classificação, apesar de tentadora, pode ser um tanto reducionista, obscurecendo certos
processos mais complexos, os quais exigem raciocínio mais sofisticado.
O contexto é formado por uma diversidade de personagens de difícil classificação.
Poder-se-ia pensar em enumerá-los a fim de traçar uma tipologia seguindo alguns critérios
de oposições:
47
- pessoas de dentro / pessoas de fora
- turistas / nativos
- pessoas de fora que circulam temporariamente / pessoas de fora que migram para
Tiradentes / pessoas de presença intermitente / nativos que migram e retornam
temporariamente ou definitivamente
- pessoas de dentro de vivência religiosa e tradicional / pessoas de fora com
interesse no lazer e no consumo
- de origem local ou multilocal
- tradicional ou moderno
Entretanto, diante da diversidade de tipos concretos, certamente, qualquer
pesquisador se perderia na proliferação de classificações e seria impossível traçar um
quadro de suas relações cotidianas. Daí é necessário pensar em alguns critérios lógicos, que
possam orientar tanto à observação quanto à reflexão, capazes de ir além das oposições
tipológicas, mas sem deixar de considerar sua ocorrência.
A oposição entre “de dentro” e “de fora” é algo patente, são categorias a principio
inconfundíveis pela questão da autoctonia, e em um outro nível, pelas representações que
fazem de si e dos outros. Porém, as características que as definem não se limitam ao
nascido e não nascido. Como já afirmei acima, considerar alguém como “et” ou tiradentino,
nativo ou turista, pode ser algo mais flexível do que o imperativo da origem, podem variar
de acordo com posturas, relacionamentos e interesses. Parecem se definir melhor pela sua
maneira de ser e pensar e pelas relações que estabelecem na cidade. Pergunto, então, se uns
e outros possam ser melhor compreendidos como tipos ideais, no sentido weberiano, como
48
categorias analíticas com ação e sentido específicos, mas que se apresentam de modos
variados na experiência concreta? 2
Poderia pensar, então, na construção de dois tipos básicos, para efeitos analíticos, o
nativo e o turista. O nativo, tipicamente, professando uma religiosidade tradicional,
depositando nas igrejas, santos e procissões um significado de caráter absoluto, sagrado. O
turista, geralmente originário de cidades grandes, e que possui razoável poder aquisitivo,
bem como certo nível intelectual, viajando até esses lugares principalmente pelo seu valor
histórico e cultural. Ficaria, assim, evidente uma realidade onde símbolos de devoção
religiosa podem adquirir outro sentido, o de patrimônio cultural. Como lembra Brandão, os
templos viram museus e os museus viram templos (BRANDÃO, 1989).
Entretanto, esse “deslocamento de significado” (CÉZAR, 1984), do sagrado ao
secular e vice-versa, não é um movimento executado somente pelo turista, também é feito
pelo nativo. De modo inverso, do secular para o sagrado é um deslocamento feito por
muitos turistas que pude observar. Não o fazem sincronicamente, os primeiros para um lado
e os últimos para o outro, mas a realidade apresenta uma ordenação de sentidos mais
intrincada. Tais personagens fazem surgir um universo simbólico complexo, onde a
compreensão do mundo e a ação nele se devem, não a sistemas fechados e estanques, mas
permeáveis a uma circulação de sentidos.
Aquela tipologia, caracterizada por oposições do tipo turista e nativo, de dentro e de
fora, parece ter um papel necessário para que se reconheça uma realidade evidente,
marcada por oposições, sociais e simbólicas, mas, enveredar por ela, dentro deste contexto
2
"A sociologia constrói conceitos de tipo e procura regras gerais dos acontecimentos... ela se distancia da
realidade, servindo para o conhecimento desta da forma seguinte: mediante o grau de aproximação de um
fenômeno a um ou vários desses conceitos torna-se possível classificá-lo quanto ao tipo." (WEBER 1995:
414).
49
complexo, permite a permanência do risco de uma proliferação de tipos classificatórios.
Além disso, pensar o contexto onde religião, turismo e patrimônio histórico se
interpenetram, a partir da configuração de tipos lógicos polares, talvez não contribua de
modo eficiente para perceber aquilo que de fato trata este trabalho, a dinâmica das
elaborações de sentidos e das relações sociais que configuram esta sociedade.
A saída, então, seria pensar, seguindo o raciocínio de Steil, em “estruturas de
significados” que podem ser manipuladas de diferentes formas na construção das
significações e na definição de ações, uns frente aos outros e estes frente aos objetos,
prédios, igrejas, imagens, monumentos, celebrações, eventos e etc. A atribuição de um
sentido mais cultural, artístico ou histórico, a determinado evento ou objeto, ou um sentido
mais econômico ou, ainda, um sentido religioso, sagrado, é uma atitude que se deve a
estruturas de valores que apresentam, ao nível empírico, fronteiras mais ou menos fluidas.
Este conceito se mostra mais interessante para pensar as articulações das ações com sentido
que os sujeitos realizam em seu cotidiano, do que partir de personagens ideais que estariam
como pontos opostos num continuum, no caso, o nativo e o turista. Para observar melhor a
fluidez de uma circulação de sentidos, é mais esclarecedor pensar em estruturas de
significados que se articulam com muitas possibilidades de arranjos. Lógicas que
“emergem em determinadas situações, dando aos eventos diferentes configurações
e sentidos” (STEIL, 1998: 4).
Compreendo estas estruturas de significado como sistemas lógicos formulados
histórica e socialmente, possuindo certa estabilidade no tempo e que podem estar
concentradas, cristalizadas ou expressas em instituições e ou pessoas, mas que, no entanto,
na vida concreta, se reconfiguram em virtude de vivências e combinações, permitindo a
50
circulação, ou seja, a passagem de um sentido ao outro, sua coexistência ou as negociações
entre visões divergentes.
Quando um tiradentino fala que realiza uma procissão tanto pela fé quanto pela arte
ou pela história que nela se concentra, ou um turista afirma visitar a igreja, ora por um
motivo de avaliação histórica e fruição artística, ora por um sentido místico, ou quando em
grupo, discutindo sobre os eventos, saltam do religioso para o espetáculo, do
mercadológico para o estético ou histórico, não fazem diferente do feiticeiro nambikwara
observado por Levi Straus. Seu personagem indígena estava entre duas motivações
possíveis, seja ela o contato com a outra tribo, ou o vôo pelas asas do trovão, uma da ordem
histórica, política, contingente, outra da ordem da certeza, do sobrenatural.
“Duas eventualidades não mutuamente exclusivas... logicamente incompatíveis,
mas nós admitimos que uma ou outra possa ser verdadeira, segundo o caso...
passamos igualmente de uma a outra, segundo a ocasião e o momento”.
Enfim, estas interpretações, históricas, religiosas, artísticas ou econômicas, não são
“evocadas pela consciência individual ao termo de uma análise objetiva, mas antes
como dados complementares, reclamadas por atitudes muito fluidas...” (LEVI
STRAUSS, 1989: 198).
Se, por um lado, estão em jogo estes sistemas de representação, mais ou menos
definíveis e visíveis, por outro, suas articulações levam as pessoas e as instituições,
presentes dentro desse jogo, a estruturarem um “sistema de comunicação”, o qual permite
que se realizem trocas simbólicas e materiais, bem como negociações e disputas.
51
Novamente recorro a Steil, desta vez em seu trabalho sobre a romaria de Bom Jesus
da Lapa (STEIL, 1986: 2). O termo, “sistema de comunicação”, tem como pretensão tentar
compreender um evento em que diversos atores se relacionam, colocando em questão
aspectos de múltiplas visões de mundo. A formação do que entendo como “sistema de
comunicação”, a partir da leitura da obra de Steil, possibilita às pessoas entrarem em
contato com sua cultura e reinventá-la, valendo-se de rituais e discursos como
“instrumental lingüístico” para pensar suas relações sociais, e permitem interagirem com
experiências culturais diferentes. Longe de estabelecer um consenso, tal sistema cria uma
“arena de disputas” onde os atores se relacio nam com os mesmos objetos, porém refazendo
significados, dando origem a situações ora inusitadas e conflitantes, por vezes harmônicas e
equilibradas.
Pensando em termos das influências dos processos de globalização na vivência
religiosa, Enzo Pace também afirma ser mais interessante deslocar a atenção da análise da
função de cada religião, na sua especificidade e territorialidade, para o modo como
constituem sistemas de comunicação, ou sistemas simbólicos, que permitem aos indivíduos
colocar em relação a realidade local com a perspectiva global. No nosso caso, a experiência
simbólica realizada pelo turista, em sua passagem por Tiradentes, o permite pensar não
somente a cultura do tiradentino que toma a forma de um outro, mas também a sua própria
cultura e pensar nela em termos de suas relações mais extensas. Não somente o turista tem
uma vivência que não se limita a um território definido, mas moradores e nativos também
participam do contato com culturas e sociedades diversas. Tiradentes é uma cidade, como
já foi observado, que guarda um duplo, tanto é cosmopolita quanto provinciana. Assim
52
sendo, tal sistema de comunicação forma, não só uma arena de encontros e disputas com
um outro, mas uma via de trânsito de mão dupla, do eu para o outro e vice-versa.
Uma vez definido quais serão os instrumentos utilizados na reflexão sobre as
relações entre personagens diversos e suas elaborações simbólicas, resta esclarecer o
ambiente em que estas se apresentam de modo mais efervescente. Perguntaria então em
quais circunstâncias da vida social poderia observar este sistema de comunicação em
ebulição, de tal modo que possibilitasse uma reflexão profunda acerca das relações entre os
homens e destes com o mundo? Em algum ponto de sua obra Geertz afirmava ser
importante, para as reflexões da antropologia, o estudo de casos específicos na medida em
que permitissem uma reflexão ampliada acerca do entendimento humano, ou seja,
compreender como o balinês se relaciona com o amor, a violência e a morte, é importante
não somente para interpretar uma cultura particular, mas interpretá-la tratando de temas
universais capazes de pensar processos comuns a toda humanidade. Que seja, então, a
antropologia uma ciência que trata do homem particular para alcançar o homem universal.
No caso de Tiradentes, acredito que o ambiente particular onde história, religião e
turismo se entrelaçam, proporciona uma reflexão sobre como os homens do mundo
contemporâneo constroem seus símbolos e suas relações sociais, mas também como se
defrontam com a sua existência. Minha hipótese é que, se o turismo é um fenômeno
contingente definido pelo lazer e a consciência histórica é uma visão de mundo que coloca
o homem diante de seus processos materiais, por outro lado o encontro com a religião
coloca esses homens diante das imagens de uma outra dimensão, o sagrado, intangível e
transcendente. Desta forma, as experiências mais contingentes se defrontam com as
53
experiências mais transcendentes que têm a ver com os destinos da vida e da morte. Se a
religião pode ser vista como um
“sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas, penetrantes e
duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de
conceitos de uma tal ordem de existência geral...” (GEERTZ, 1978: 104, 105),
então seu estudo particular pode encaminhar reflexões de grande amplitude acerca das mais
profundas emoções humanas. Mesmo que as motivações e disposições que estabelecem não
sejam tão duradouras como afirma Geertz, jamais deixarão de ser penetrantes e profundas.
A partir daí, reafirmo que o aspecto privilegiado da vida social a ser enfocado é a
experiência religiosa, porém não como um fenômeno em si, mas em relação com o turismo
e o patrimônio histórico. Acredito que este recorte possibilita, evidenciar processos sociais
locais, os quais também são vividos de modo similar em outros lugares do país e do mundo,
e refletir sobre um imaginário que remete o homem a relações para além do mundo material
e contingente, pensando na experiência religiosa como um momento profundo que coloca o
homem diante dos mistérios de sua existência.
Para desenvolver a problemática deste estudo, que traz a religião como o elemento
articulador, escolhi a época da Semana Santa, com suas celebrações e seus eventos
culturais, como um momento privilegiado de observação. É uma época em que, nesta
pequena vila, concentra-se um maior número de pessoas em função de interesses culturais,
religiosos, artísticos, etc. Não por coincidência, essa é a época mais importante em termos
de calendário das celebrações locais. Assim, mostrou-se como evento ideal para observar
como se dão as articulações de sentido e de relações, pelo fato de apresentá-las em um
54
momento exaltado, ritualizado, onde o jogo simbólico é mais evidente. Diria, com Marcel
Mauss, que se trata de um fato social total, onde
“exprimem-se ao mesmo tempo e de uma só vez, toda espécie de instituições”,
ou, mesmo que não sejam todas e ao mesmo tempo, pelo menos um número significativo
de relações, podendo caracterizar como um fenômeno multidimensional. Não que seja um
evento totalizador, mas através dele se pode perceber a sociedade se manifestando. Assim,
a Semana Santa é, para o presente trabalho, o foco empírico central, em torno da qual
gravitam observações e entrevistas da etnografia realizada.
Na Semana Santa se pode observar o turismo, a religião e o Patrimônio em franca
relação, aparecendo como um acontecimento expressivo das oposições e conciliações
cotidianas, da circulação de sentidos e das combinações de estruturas de significado.
Desta forma, o núcleo tratado pelo problema que formulo, é a forma como os
diversos personagens presentes em Tiradentes, manipulam e formulam estruturas de
significado em torno de objetos que compõem a religião local, ou seja, quais são as lógicas
de pensamento que turistas, nativos, moradores e instituições se utilizam para entrar em
contato com rituais, templos e imagens. Como elaboram diversos discursos no encontro de
festas, procissões e igrejas, o que permite
“entrar em contato com o núcleo da tradição, reinventando-a” (STEIL, 1986: 11)
em várias direções. Buscando pensar não somente o que distingue cada personagem em
foco, mas principalmente as interpretações que cada um faz do outro, esclarecendo assim
como pensam sua própria existência.
55
Nas situações marcadas pelo encontro de pessoas de visões-de-mundo diferentes,
mais do que traçar tipologias de personagens e relações, mostra-se interessante perceber
como elas estabelecem um diálogo na busca de uma interpretação mútua. Pensando com
Sheleirmarcher, perguntaria:
“quem poderia conviver com pessoas espiritualmente distintas sem que se
esforçasse entender entre as palavras, como nós lemos entre as linhas dos escritos
inteligentes e densos...” ? (SCHLEIERMACHER, 1999: 33).
No encontro entre turistas, nativos, “ets”, agentes culturais, comerciantes, empresários e
religiosos, de várias procedências sócio-culturais, e entre estes e os objetos, a história e a
tradição, forma-se um sistema de comunicação onde se estabelece um diálogo que mais do
que caminhar em direção a um consenso sobre um determinado objeto, pretende a
compreensão do outro e de si mesmo. Um diálogo onde
“não se procura o entendimento sobre um tema, já que os conteúdos objetivos do
diálogo não são mais que um meio para conhecer o horizonte do outro”
(GADAMER, 1997: 453).
A idéia de diálogo para Gadamer parte do princípio de que há um deslocamento do
sujeito em direção a um objeto, que pode ser um outro homem, uma tradição, uma
consciência histórica ou uma obra de arte, numa tentativa interpretativa que se dá dentro de
um horizonte aberto. Alarga-se o seu próprio para se integrar a um outro, numa “fusão de
horizontes”. Nesse processo hermenêutico, o círculo se fecha na medida em que o sujeito
realiza um constante olhar para si mesmo, num esforço de aumentar as possibilidades de
compreensão. Para Gadamer a experiência do encontro com um texto, é orientada por
56
opiniões prévias, ou pré-conceitos, originados numa história própria, os quais são
constantemente revistos, num olhar atento para si tanto quanto para o outro.
Percebo que na base dos sentidos, formulados dentro deste círculo hermenêutico,
existem duas estruturas básicas de pensamento, o mito e a história. Duas visões de mundo
paradigmáticas que servem de referência para turistas, nativos, moradores e instituições,
elaborarem sentidos diversos, que atribuirão aos mesmos objetos e tradições. A diferença
entre pensamento mítico e histórico pode ser pensada da seguinte maneira: o primeiro, tem
uma finalidade, a pretensão de compreender o universo em sua totalidade, criando um
sistema significativo do âmbito da certeza; o segundo no sentido do pensamento científico,
pelo
seu
caráter
desinteressado
e
fragmentado,
um
conhecimento
baseado
em
documentações (tende a relativisar) (LEVI STRAUSS, 1989).
História e mito são tomados como duas maneiras de pensar, articuladas para dar
sentido a igrejas, imagens, procissões. É esse sentido que define e representa as ações e,
portanto, afasta ou aproxima, coloca em relação ou oposição. É na medida da definição do
sentido que dão aos objetos e fatos religiosos e históricos que as pessoas se reconhecem e
se relacionam, estabelecendo um “sistema de comunicação”.
Se, por um lado, muitos turistas se mostram mais interessados no patrimônio, no
lazer e numa cultura professadamente laica e profana, do que numa experiência religiosa
admitida, por outro, o tema da religião, da Igreja Católica, da religiosidade popular e da
época colonial e seus símbolos, são pensados o tempo todo, criando oportunidades para
refletir sobre suas próprias experiências e, através disso, descobrir sentimentos e idéias
antes não tão evidentes em seu cotidiano. Assim, encontramos pessoas que redescobrem
sua religiosidade e outras que descobrem seu lado profano, uns que experimentam o
57
sagrado por meio da história, outros que compreendem a história por meio do sagrado. Mas
se sua motivação é puramente secular e seu interesse é histórico-cultural, ou de puro lazer,
o que haveria de extraordinário que permitiria a transposição a uma outra? O turismo e o
Patrimônio Cultural seguiriam a tendência da secularização, focalizando os rituais como
espetáculos, ou as igrejas como museu, apresentando os eventos como momentos e espaços
dessacralizados? Ou será que o turista e o agente cultural, ligado às instituições de proteção
ao patrimônio, apelam para a fé e a importância do sagrado, tendo de fato uma experiência
religiosa?
Dizem que história e religiosidade espreitam o visitante em cada canto, de fato, mas
o que garante a condição material de sua expressão são objetos de alcance artístico. Desde a
pintura e escultura barrocas e o rococó das igrejas às cerimônias religiosas, tudo se reveste
de arte. Fé, emoção estética e razão são colocadas em relação, mito, história e arte, são
elementos, não só presentes, mas definidores de templos e atos litúrgicos. É na articulação e
no diálogo entre o conteúdo mítico, uma interpretação racional e uma experimentação
estética, que o conjunto simbólico em questão, culto, imagens, templos, ganha densidade e
sentido para turistas, nativos e moradores. Enfim, talvez pudesse ousar a hipótese de que
esse contexto possibilita uma experiência cultural especial, que coloca em relação fé e
razão na forma de história e mito, motivada por uma fruição artística, a qual permite a
passagem de uma à outra. Por conseguinte, creio que a divisão moderna entre as instâncias
não se resolve, mas se estabelece uma fronteira de indefinição mantendo-se como elemento
central e estruturante dos eventos (STEIL, 1986).
Não diria que há uma afirmação de um moderno e secular sobre um tradicional
religioso, nem o contrário, mas, nesse encontro de diversidades, há uma relação de
58
afirmação e contestação mútuas. Esse feixe de relações multi-local proporciona, ao nativo,
um encontro com valores e visões modernas que são divulgados sob uma experiência
diferente que o turista tem do objeto religioso, ao mesmo tempo em que permanece em
contato com um sistema de símbolos e idéias que se remetem ao tecido social local. O
“deslocamento de significado”, do religioso para o cultural, ou vice-versa, pode levar a
situações conflitantes, provocando reações de ruptura ou de acirramento das estruturas da
tradição, ou a momentos que traduzem uma tentativa de conciliação. Haveria, assim, uma
tensão, um vai e vem, entre os dois pólos, história e mito, permitindo um trânsito que se
expressa em uma experiência, religiosa ou não, que ajuda a todos a pensarem na cultura do
outro e na sua própria.
Através do mito ou da razão, do religioso ou do espetáculo, do mítico ou do
estético, sacralizado ou secularizado, de uma forma moderna ou pré-moderna, todos se
mobilizam para entrar em contato com a tradição. No contato com esta tradição, que pode
ser tanto contingente, enquanto parte de uma história, e ou absoluta, como coisa sagrada,
dependendo do sentido, esses sujeitos, tentam definir suas identidades e suas relações.
Enfim, torna-se ao problema central que é o jogo que se desenrola quando pessoas
de cultura e origem diferentes se encontram. Compreende-se que turistas, tiradentinos, “ets”
e instituições estão em contato com um mesmo objeto e que se valem da história e da
religião como formas de dar sentido ao mundo e a suas ações, combinando-as de maneiras
diversas. É nesse processo simbólico que definem e representam suas relações mais
concretas, que vão desde a ocupação de espaços físicos até o monopólio de valores morais.
Compreendo que enveredar por esta escolha, onde se faz necessário observar tanto
oposições estanques quanto circulações fluidas, é caminhar sobre um terreno pantanoso e
59
cheio de armadilhas. Eis, então o desafio deste estudo. Observar uma sociedade plural e
dinâmica, de uma fluidez que parece muitas vezes escoar por entre os dedos, mas que tem
também um lado marcado por relações estáveis, capazes de impor estruturas rígid as às
relações ou significações. Maior ainda se torna tal desafio, quando me proponho observar
as formulações de sentido, rígidas ou fluidas, em interação, proporcionando um quadro ao
estilo das telas de Boschi, com personagens medievais, que mais parecem seres mutantes
em um drama profundo de uma existência cheia de mistério.
Muito mais fácil seria de fato enveredar pelos caminhos estáveis da funcionalidade
e da estrutura. Muito charmoso seria pensar que existe um sistema puramente fluido onde
todos se comunicam, se entendem ou desentendem pacificamente. Mas não é esta a
realidade que observei e vivi em minha convivência de mais de três anos na cidade de
Tiradentes. É um contexto mais complicado e movediço que minha vã capacidade literária
daria conta de expressar, mesmo assim arrisco-me a penetrar bravamente neste mundo real
de coerências e contradições.
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CAPITULO SEGUNDO:
OS MESMOS OBJETOS E OS SENTIDOS DIVERSOS.
Sabe-se que, certa tradição antropológica, influenciada pela lingüística de Saussure,
tratou de definir símbolo pela sua dupla composição, significado/significante. Para este
lingüista, segundo Leach,
“o signo é uma entidade única com duas facetas, tal como os dois lados de uma
folha de papel: (1) a imagem sonora (em francês significant, o ‘significante’) e (2) o
conceito (fr – signifié, o ‘significado’)” (LEACH, 1971: 26).
Assim, se o objeto sensível é o significante, o conceito dado a este objeto, a
formulação e a incorporação de sentido a ele, é o significado. Todo e qualquer objeto, ato
ou acontecimento, só pode ter existência para uma cultura na medida em que é inserido
significativamente em um sistema (LEVI STRAUSS, 1989). Porém, dentro de uma mesma
sociedade podem coexistir, em determinados momentos, vários sistemas significativos,
capazes de atribuir sentidos diversos aos mesmos objetos.
É o caso da Semana Santa em Tiradentes. Dentro da pluralidade de agentes, visões
de mundo, emoções e experiências, presentes neste contexto, observo que igrejas,
celebrações e imagens, são significantes, não portadores de somente um significado
religioso, mas alvo de uma multiplicidade de conceituações. A atribuição de conceitos, de
sentido, a estes objetos sensíveis, depende de sistemas logicamente construídos, as
estruturas de significado.
Neste capítulo, pretendo buscar compreender quais as fontes de sentido
predominantes são manipuladas pelas pessoas em questão, sejam nativos, turistas e
61
moradores da cidade de Tiradentes, no processo de atribuição de significado a igrejas e
peças sacras, a ações, rituais ou não, e a acontecimentos. A questão que se coloca neste
momento é a seguinte: quais são e de onde provém estes sentidos variados? Como são
formuladas as estruturas de significado, por quem, ou o quê, para serem colocados à
disposição dos sujeitos na formulação de suas construções simbólicas? Como estes sujeitos
se utilizam destas formulações, opondo-as ou combinando-as?
Como afirmei anteriormente, as estruturas de significado são elaborações lógicas
construídas histórica e socialmente, mais ou menos cristalizadas em pessoas ou instituições,
mas que são manipuladas das mais diversas formas diante das experiências, construindo
sentidos os mais diversos. Faz-se necessário esclarecer como estas estruturas vão aflorando
de várias formas nos discursos de alguns personagens, garantindo assim a objetos e eventos
um lugar dentro de um sistema de significação.
No caso de Tiradentes observo três instâncias predominantes onde se formulam
estas estruturas: o patrimônio, a religião e o turismo. Estas três instâncias possuem por um
lado instituições bem definidas, como IPHAN e Igreja Católica, ou mais difusas, como
tradição e mercado, mas também existem enquanto formulações individuais, como é o caso
de lideranças da comunidade, as quais podem ser lideranças religiosas, intelectuais ou
familiares.
O fato é que os personagens desta arena estão constantemente ativando estas
estruturas de significado para dar sentido a objetos e rituais, porém em seus processos de
interiorização e objetivação, às vezes opõem estas estruturas diversas, às vezes as
combinam. Isto evidencia que estas estruturas não são excludentes, não são estruturas
62
impermeáveis, mas se dão a um “gradiente de circulação” (SANCHIS, 1993) possibilitando
combinações diversas.
Outra questão importante de se pensar, quando se fala em estruturas de significado,
é que não basta captar os discursos específicos sobre determinados objetos, é necessário
uma interpretação mais densa da formulação destas lógicas de sentido. Daí ser importante
caracterizar cada instância ou vivência, no caso a religião católica de Tiradentes, o
patrimônio cultural que aí se formou e o turismo que está presente. É importante atentar
para o fato de que esta caracterização é uma interpretação de determinados discursos e
atitudes observadas dentro de um determinado recorte, e não pretende uma formalização
definitiva.
Parto da hipótese de que os sentidos podem ser enumerados, resumidamente, da
seguinte forma: 1-A Igreja fornece o sentido original do mito, expresso literalmente no
evangelho e afirma o poder da instituição, revestida de representação divina, vivenciando
um conflito de poder com as irmandades e com grupos que intencionam dar outros usos aos
prédios religiosos 2-o povo católico tradicional da cidade vivencia e reafirma o sentido
religioso e tradicional familiar que os objetos representam, porém não formam um
consenso, abrindo espaço para a penetração de outros sentidos, como cultural e econômico;
vivenciam uma mística que se define por uma fé que passa por relações sociais íntimas,
familiares, de amizades, com antepassados e com os santos. 3-As instituições ligadas à
preservação do acervo histórico e cultural fornecem um sentido histórico que enfoca a
memória e a identidade local e nacional. 4-o turismo enquanto fenômeno, enquanto
contexto, introduz nesse meio uma nova forma de visualizar os objetos de origem religiosa,
os quais são, objetos de consumo, em última instância, para o lazer do turista.
63
Não estou, desta forma, compartimentando visões-de-mundo, mas esforçando-me
em aglutinar tendências para melhor visualização da dinâmica.
A religião tradicional
Abordando, primeiramente, a religiosidade do povo católico de Tiradentes,
verifiquei que, nos depoimentos, tanto do pároco, quanto das lideranças leigas, emergem
discursos que enfatizam as seguintes perspectivas.
Primeiramente, abordando nas entrevistas a questão dos usos e sentidos das Igrejas,
destaca-se o reforço do sentido sagrado que, embora seja enfatizado em alguns momentos é
relativizado em outros, evidenciando divergências impostas por situações contingentes ou
pela não concordância automática entre os fiéis.
Em segundo lugar, abordarei a questão da referência ao mito da Paixão. Como se
trata de um estudo realizado em torno da Semana Santa, o mito da Paixão de Cristo será o
enfoque. Por um lado é o mito fundante do cristianismo e sua rememoração é o rito mais
importante no calendário litúrgico católico, realizando uma das festas mais importantes da
cidade. Por outro lado, a experiência que o povo de Tiradentes faz deste mito, é bastante
reveladora da sua vivência religiosa. Iremos perceber, ao longo das entrevistas e dos
sermões que é fundamental para a experiência mística a referência discursiva e
dramatúrgica do mito.
Uma terceira questão é o caráter socializante atribuído à religião. No meu entender,
é essencial na religiosidade local a formação e afirmação de uma rede de relações, que vai
desde a família, passa pela Irmandade e pela paróquia e extrapola a realidade empírica,
remetendo o homem, através de um imaginário bem construído e afirmado, a uma realidade
que abrange o transcendente, seja na figura dos antepassados, seja na figura dos Santos e
64
mesmo de Deus. Parece que tudo está dentro de um mesmo eixo social, mesmo que este
eixo seja imaginário. Compreendo com Mauss que a sociedade se funda no estabelecimento
de relações de reciprocidade. Acredito ser este um caminho para interpretar a relação com o
Santo e com Deus, baseado em oferecer sacrifício, pedir graças e milagres e retribuir com
devoção e homenagem.
Através da análise de sermões realizados na Semana Santa em Tiradentes, por
vários sacerdotes, e de entrevista feita com o pároco local, pude constatar que os discursos
de representantes da Igreja gravitam principalmente em torno das seguintes questões: a
valorização do sagrado, principalmente em meio à pluralidade de visões e o reforço do mito
cristão da Paixão.
Quanto à valorização do sagrado, nota-se por parte do sacerdote local e daqueles
que participam da Semana Santa, uma preocupação em afirmar este sentido em meio a uma
pluralidade de significações. Muitas vezes chegam a identificar o turismo com aquilo que
chamam de profano, como oposição ameaçadora do sentido que pretendem consagrar.
Vejamos o depoimento do padre:
“acontece muitas vezes de, por exemplo, nós temos uma custódia aqui de prata, de
16 quilos de prata, muito bonita a custódia, ela é pesada e pra sair com ela, o
Santíssimo sai na procissão e tal, né e muitas vezes acontece de um turista que fica
encantado com a custódia: _ mas que peça, que coisa extraordinária! E o
Santíssimo que está ali dentro, pra ele não tem valor nenhum. ... O turista que vibra
com a peça, com a imagem, mas normalmente fé não tem. Tem turista que vem a
Tiradentes que tem fé... mas tem outros que não. Tem outros que vem para olhar a
arte, e é isto que de certa forma não agrada muito as pessoas que estão
65
participando da procissão não, sabe? Mas o povo daqui de Tiradentes já estão
convivendo com o turismo há muitos anos e sabe que o turista é assim mesm o, né,
então não dá aquele choque não, cada um na sua, dá para conviver bem... Mas
ultimamente eu tenho feito uma campanha aqui em Tiradentes com as pessoas
que participam da igreja, das missas, pra poder ter um cuidado muito grande para
não esvaziar o sagrado. Aqui em Tiradentes só pensa em atrair turista e que a
cidade fica cheia de turista o dia todo, o tempo todo porque com isso todo mundo
ganha, mas... Então a primeira coisa que se deve fazer é pensar no sagrado, o
profano é segundo, terceiro lugar, né. Então isso aí tem tido um atrito muito
grande. Quem pensa só no turismo, no ganhar dinheiro e escuta isto acha ruim. ...
Olha, este lugar aqui é sagrado, a igreja, foi feita há quase trezentos anos atrás não
é pra fazer concerto, isto é teatro que faz. Então a igreja não pode encenar teatro.
O sagrado tem que continuar sagrado. A igreja é o lugar onde se faz a
manifestação do sagrado e não pode se tornar profano, e isto tá muito grave aqui
em Tiradentes, por influência de gente de fora que não tem talvez esta cultura
religiosa, nem essa sensibilidade religiosa e gente daqui de Tiradentes que só tá
pensando em dinheiro, porque tem pousada tem hotel e pensa nisso.”
Apesar deste discurso sacralizador, sabe-se que, tanto a Igreja Matriz quanto a do
Rosário e do Bom Jesus, são utilizadas, sob autorização do padre, para exposições de arte e
concertos musicais. Interrogado sobre isso, ele alega que muitas vezes, dependendo da
situação não há problema nenhum, afinal, é importante não radicalizar as opiniões sob o
risco de fanatizar:
66
“ Mas para poder fazer uma exposição de arte é bonito, né. Mas por eu estar
mostrando para o povo que a igreja é lugar de sagrado, por este lado o povo não
está aceitando muito que se faça exposição lá, porque lá é igreja. Até certo ponto
eu estou gostando disso, né porque quando você tenta resgatar o sagrado no
coração da pessoa e ela aceita, é bonito, pra mim é bonito, eu tô ganhando terreno,
eu, a igreja, e tudo, estamos crescendo muito, isto é importante, né. Mas lá, a
exposição que acontece lá, nós permitimos a exposição de coisas assim que não dê
choque. Por exemplo, uma exposição de quadros. Quadros normalmente são
quadros de pinturas de santo, de paisagem, de igreja, né, nós tivemos lá uma
exposição de cerâmica que também não agride. Mas agride e não agride, porque
quem tem essa sensibilidade e quer que ela cresce e cultive, né..., mas ao mesmo
tempo esta sensibilidade religiosa pode se tornar um fanatismo. Então a gente tem
que ter cuidado porque de repente a pessoa fala que não pode entrar uma pessoa
dentro da igreja com o guarda-chuva na mão porque é pecado, aqui não é lugar
disso, também não é por aí, não pode ir nem num extremo nem no outro, né. Então
algumas coisas dá pra fazer.
... Eu já falei nas missas, e falo todo dia, que dá para a gente fazer concerto de vez
em quando, não tem problema não.
O concerto é feito no Vaticano, em diversas catedrais no mundo e tudo. Porque um
concerto com música sacra, um concerto de órgão, de piano, alguma coisa assim,
não agride, então onde as pessoas se comportam normalmente, não sentam lá
escutando o concerto fumando ou tomando cerveja... Mas aqui já chegou uma
67
época que nós permitimos fazer concerto e teve gente que fumou lá dentro da
igreja, turista, pessoa que vê a igreja como uma casa qualquer, né.
Seu depoimento parece um pouco contraditório, uma vez que está repleto de pode e
não pode, agride e não agride, ou até certo ponto, ou ainda remete ao Vaticano e outras
igrejas onde acontecem concertos para se justificar. O fato é que naquele mencionado jogo
de combinações de estruturas de significado, onde as ações e discursos parecem contrariar a
lógica, fica bem entendido que a manipulação dos sentidos podem variar de acordo com as
situações e os interesses de cada momento. Voltando a Levi Strauss, o xamã nwambiquara
pode voar nas asas do trovão ou fazer negociações políticas com a tribo vizinha ao mesmo
tempo. Da mesma forma o padre pode falar nos sermões que é profano um concerto em
uma igreja, mas permiti-lo, se não for agressivo, e angariar mais rendimentos para a
paróquia, transitando do nível da certeza para o nível da contingência dependendo da
situação em que se encontra.
Essa questão do resgate do sagrado que o padre afirma, foi mais realçado
recentemente em função de certos acontecimentos que tendiam a diversificar o uso dos
templos religiosos. Vem vindo num movimento crescente, de alguns anos para cá o
aumento da diversidade de usos destes prédios e por isso as pessoas que gravitam em torno
deles e que têm interesses, sejam culturais ou econômicos, vêem pressionando para ampliálos. A reforma da Igreja Matriz de Santo Antônio talvez seja o ponto culminante desta
pluralidade e por isso gerou um clima de disputa e desconfiança que levou o padre e parte
da comunidade católica a desencadear uma campanha pró-sagrado na cidade.
Padre:
68
“... isso vem se manifestando como um conflito assim normal, né, mas agora tá
complicando, porque tá complicando, por causa da reforma da Matriz. Porque a
Matriz de Santo Antônio é o coração de Tiradentes, né.
...Então acho que cabe ao padre, cabe à igreja alertar, isso é sagrado, tem que
respeitar. Se não tiver alguém que fale assim, isso acaba, porque a gente observa
na Matriz que tem gente que entra dentro da matriz é igual entrar dentro de um
salão de baile, tanto faz para a pessoa, se não tiver alguém que fale, ôpa, aqui não
é assim...como é que fica, vai acabar. Então é dever da igreja do padre, das pessoas
que têm este conhecimento não deixar que o sagrado deixe de ser sagrado.
... Então se a igreja não gritar e tal e insistir, acaba, de repente sagrado e profano
não existe mais, põe no liqüidificador e misturou tudo.”
Este discurso do sagrado, ou melhor, da necessidade de garantir o sentido sagrado
dos objetos, que na ocasião da entrevista prevalecia, se torna mais exaltado principalmente
diante da pluralidade. Porém, nota-se que isto nasce não só do momento que se está
vivendo, mas da necessidade do próprio povo. É parte do povo que cobra do padre esta
garantia, ao mesmo tempo em que este começa a perceber que ele tem que afirmar este
sentido para garantir espaço e seus adeptos. A Igreja Católica, de um modo geral, não está
tão preocupada com estas questões, uma vez que não existe um movimento oficial, por
parte da sua hierarquia, no sentido de traçar diretrizes para as paróquias que vivenciam este
tipo de problema. Talvez porque o sagrado, para a Igreja pós Vaticano II, não esteja em
peças de madeira ou igrejas antigas. A sacralização destes objetos é feita pela fé do povo e
não pela Instituição. Daí o conflito que surge ser muito mais com esta fé popular. O padre,
no caso, está administrando a vivência desta fé, participando e animando-a a partir da
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cultura do povo, tornando-se para ele um problema com relação ao qual deve tomar uma
posição contundente. Por outro lado, existe na cidade uma disputa pelos usos dos prédios
religiosos, assim, a campanha desencadeada garante à paróquia mais legitimidade no
controle destes. As questões que estou levantando relativas à reforma da Matriz serão mais
esclarecidas no último capítulo, por enquanto só nos interessa o modo como estes discursos
são proferidos.
É interessante lembrar que as festas religiosas da época colonial eram
“as únicas formas de expressão social da população... O aspecto social é inerente à
festa religiosa. Ela incluía danças e representações de mistérios, música e fogos de
artifício, quermesse, jogos e comidas típicas.” (AZZI, 1977: 132).
As igrejas eram usadas tanto para a expressão artística quanto para eleições
políticas. A multiplicidade de usos e a continuidade entre o que se poderia considerar
sagrado e secular, ou profano, era uma constante. Tanto a expiação e o moralismo quanto a
festa eram expressões fundamentais do catolicismo colonial. As Irmandades, suas festas e
suas igrejas eram os únicos espaços sociais disponíveis ao povo para expressarem-se social
e artisticamente, seja pela música, pela pintura ou escultura. Haja vista a produção nessa
área que ainda se encontra nos templos do século XVIII (HOORNAERT, 1979). Desde a
época medieval as igrejas eram usadas para outras finalidades festivas, mas com a reforma
Tridentina começou haver restrições.
Se por um lado a Reforma Tridentina tratou de separar o sagrado do profano, e o
Concílio Vaticano II reprimiu ainda mais estas manifestações sincréticas do catolicismo
popular, por outro lado, o que é proposto em Tiradentes em termos de arte na igreja é bem
diferente do que acontecia em tempos passados. O desenvolvimento histórico da relação
70
entre fé e arte mostra o quanto estas foram separadas. Se para Santo Agostinho e Santo
Tomás de Aquino a arte era uma dádiva de Deus, a modernidade tratou de cindir a religião
da estética (BASTOS, 1974). O fato de haver uma demanda hoje na sociedade em
reaproximá-las de alguma forma e a dificuldade que o pároco apresenta em lidar com esta
demanda, em virtude do risco de dessacralização, evidencia o quanto estas fronteiras estão
sendo diluídas e o quanto elas insistem em continuar rígidas.
Mesmo o povo católico tradicional, que contraria a proposta de arte na igreja, vive
mergulhado em uma manifestação religiosa fortemente marcada pela dramaticidade. As
procissões são grandes encenações na rua com direito a banda de música e coral entoando
músicas barrocas de compositores locais. Porque sua arte pode estar conciliada à fé nas
procissões e nas igrejas e os produtores culturais da cidade são criticados por realizarem
concerto, usando das mesmas músicas barrocas, fora da hora das funções? Será que é
porque o público é o turista, será que é pela cobrança de ingresso? Ou será porque estes
eventos não são revestidos pelo caráter mítico como no caso dos ofícios religiosos?
Para o católico tiradentino, pude observar, o chamado ao mito cristão,
principalmente da Paixão de Cristo é um elemento fundamental em seus rituais. A própria
teatralização, a música e as esculturas das igrejas contribuem para recontá-lo. Por isso
acredito que o que balisa, enfim, este conflito é o defrontar de duas estruturas de
significado, uma secular e outra sagrada, as quais, poderemos notar mais ainda nos
depoimentos
seguintes,
tanto
se
opõem
quanto
se
combinam.
Tentemos,
então,
compreender um pouco mais sobre do que trata esta evocação mítica para o religioso
tradicional de que falo. Talvez possa, por conseguinte, compreender melhor as relações que
estabelecem entre estas lógicas.
71
O chamado ao mito está muito presente durante os sermões. Não só é uma tendência
por parte dos sacerdotes, mas é também uma exigência do povo que se interessa muito mais
pelas estórias que eles contam do que por temas sociais ou ligados à Campanha da
Fraternidade. O discurso ligado mais ao mito, recontando os fatos originais promove muito
mais a mística no povo e lhe garante mais sentido ao ritual.
Um elemento muito comum nos sermões, que tem muito a ver com a fé do povo da
cidade, é a composição do binômio identificação-sacralização com relação à imagem que
sai em procissão e que ocupa o altar das igrejas. Alguns trechos dos sermões, realizados
durante a cerimônia da procissão da prisão de Jesus, são bem esclarecedores nesse sentido.
É interessante observar que este ritual da prisão de Jesus é todo encenado, assim como a
Santa Ceia e sua morte na cruz, este último ritual chamado de Descendimento da Cruz.
Vejamos o trecho do sermão que narra a encenação:
“Bonita esta procissão que juntos realizamos. Caminhamos no escuro, caminhada
difícil no meio destas pedras, na escuridão quando estamos encarnando o que Jesus
passou naquelas noites sofridas lá no horto das Oliveiras. É esse o cálice que Jesus
vai beber, o cálice da amargura para nossa salvação e Jesus sente fraco diante
desta realidade, deste cálice que está próximo a beber, se sente como um homem
como nós, sentia tristeza bastante para morrer”
O que interessa, por hora nesta passagem é a identificação entre o devoto e a
imagem, entre o homem e Jesus, ambos filhos de Deus. Tal identificação expressa nas
palavras “estamos encarnando o que Jesus passou” está sendo vivenciada ritualmente em
uma encenação nas ruas da cidade. Enquanto o padre professa a homilia, os fiéis se
projetam na imagem ali presente e vivenciam um pouco do drama contado pelo mito da
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Paixão de Cristo. Desta forma, pode-se observar que a religião vivida em Tiradentes, num
encontro entre o discurso mítico proferido pelos sacerdotes e a fé popular marcada pela
materialidade, promove uma relação com os objetos religiosos, no caso a imagem, de uma
intimidade definida pela sacralização e pela identificação/projeção.
A preocupação com a sacralização está bem ilustrada no depoimento do presidente
da Irmandade do Santíssimo Sacramento, narrando uma discussão que teve com o padre:
“...Padre é um absurdo, Cristo tá lá pregado na cruz e tá tendo exposição, nego lá
de bermuda, pelado, boné, chapéu.
Eu falei com o padre: o senhor alugar a igreja pra fazer concerto?... é um
absurdo.”
O uso econômico e cultural, segundo revela o depoimento, é de iniciativa do próprio
padre e não agrada a muitos fiéis. Quanto à cobrança na porta da Igreja, para visitação,
afirma que:
“Muita gente saiu da Irmandade por causa de cobrar para entrar na Matriz:: _ Uai
padre, mais não pode cobrar pra entrar na Matriz, lá é casa de Deus. ...”
Mas esta postura quanto ao uso econômico não é um consenso. O povo da cidade
também formula um sentido para os objetos em questão, no caso os prédios que formam o
patrimônio histórico, também em torno do que eles podem representar em termos
financeiros. Um irmão da Arquiconfraria das Mercês, comerciante, fala da importância em
se preservar o patrimônio, em virtude do que ele pode representar em termos de recursos
para as pessoas da cidade:
73
“Porque se não preservar nós vamos viver de que? Nossos filhos? Hoje nós tamos
vivendo praticamente em função do turismo.... Se não preservar mais como será
daqui a 20 anos ... talvez não estejamos aqui mais, mas nós temos filhos... Então
tem que preservar porque o futuro é promissor, o futuro é nosso, nós temos que
ganhar, temos que viver, e viver do que estamos vivendo hoje, do turismo.
E ainda confirma que parte da população mudou o olhar com relação à Matriz em
função do turismo:
“a nossa igreja aqui, a Matriz, ela virou um ponto de comércio, ela é um comércio.
Ela vende um produto dela, a beleza, ela é vendida. Porque se paga para entrar, a
partir do momento que paga tem alguém vendendo alguma coisa, então essa igreja
já virou um comércio, o que tem ao redor dela é um comércio. Então mudou, aquele
ideal, antigamente a pessoa ia até à Matriz com fé, com devoção, com prazer.”
Ele acredita que não há impedimento em usar a Igreja para outros fins que não o
religioso, seja cultural ou financeiro:
“Se você tiver como levar o povo na igreja, você pode usar o corpo da igreja para
isso. Eu não sou contra, como também não sou contra a pessoa chegar ali e cobrar.
Eu não sou contra fazer um concerto, uma exposição. Desde que seja uma
exposição ética... Você não vai fazer uma exposição de quadros eróticos dentro da
igreja ... Já o concerto tem a ver muito, a acústica da igreja é uma coisa fantástica
...É lindo, é gratificante, eu mesmo já participei de vários concertos
a
Matriz.
Inclusive tenho um filho que já participou de recital na Evangelista, na época em
que estudava música.”
74
Mesmo a festa da Semana Santa é vista por ele também em seu sentido econômico e
espetacular, sem perder o sentido religioso:
“Eu acho que o turista compõe, precisamos fazer uma Semana Santa mais bonita,
porque é um produto também que nós vendemos.”
Num outro dia, este mesmo entrevistado me dizia que o turista que vem de uma
cidade grande não tem oportunidade de participar de uma cerimônia como a procissão, por
isso é importante que venha e participe, pois tem um sentido religioso nisto também.Outros
tiradentinos confirmaram que conheceram turistas que alcançaram graças relativas à saúde
e que sempre voltam a Tiradentes nessa época. Assim, turismo, devoção, espetáculo e renda
não são fatores sempre excludentes na mentalidade local. O trânsito é evidente bem como a
diversidade de opiniões.
Há uma constante na valorização do uso sagrado, mas sem radicalismo, abrindo
precedentes para se negociar, dependendo da circunstância. O que mais incomoda é a
questão do pudor sexual que se expressa numa pequena polêmica. Uma tiradentina dizia:
“Eu acho assim, vamos supor, a igreja do Bom Jesus ela foi restaurada com fundos
das exposições. Eu como católica eu não aprovo, mas já entra nessa daí, eu não
desaprovo desde que forem fazer coisas que respeitem o local sagrado. Já teve uma
exposição lá que não satisfez, o povo ficou meio bravo...”
Outra tiradentina presente a interrompeu para dizer:
“Teve um artista que colocou uma de quadro lá, tinha coisa que não tinha nada a
ver com a igreja. Mas se for olhar esse lado também as igrejas antiga, igual a
nossa, aqui tem estátuas de nu, não é. Eu acho assim, a nudez tem de ser vista de
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todos os lados, da parte da arte, não só da parte do sexo também não. Foi gritante,
o pessoal tava comentando, né ... Você não tá gravando não né...uai que que é
isso... uai se as beatas ouvi isso aí me matam. ... Não, porque se você for olhar o
teto da igreja a pintura do Santíssimo, nossa! A quantidade de coisa que tem ali. Se
for olhar por esse lado. Quer dizer, não é nada demais colocar ... Se você olhar as
pinturas das igrejas tem muita coisa que é gritante. Ela olha pro outro lado, aí eu
não sei, né eu não acho nada demais...”
Enfim, estes depoimentos apontam para a relativização quanto aos usos culturais e
econômicos. Jamais colocam em segundo plano o uso sagrado, mas é possível conciliar
com outros usos. Conciliar ou opor, este é o debate entre os tiradentinos católicos. Não
existe um consenso, tanto o acirramento de uma visão sacralizadora, quanto sua
combinação com uma visão econômica, artística ou histórica são colocadas em debate no
dia-a-dia da comunidade. Se uns enrijecem o pensamento, no sentido de uma afirmação
única do sentido sagrado, estruturado pelo mito, em detrimento do sentido cultural,
econômico ou artístico, estruturado por uma visão histórica, contingente, outros se
esforçam em combinar ambas as lógicas. O turismo é uma realidade, a cobrança uma
necessidade, o concerto ou a exposição um prazer, mas o sagrado é a finalidade última das
igrejas. Combinam as estruturas lógicas, porém elaborando uma hierarquização, onde o
sagrado, o mito, ocupa uma posição proeminente. Pode fazer exposição, mas não pode virar
museu, pode até, para uns, expor o nu, mas não pode agredir o pudor e a moral. Para uns
pode fazer concerto, cobrar na entrada, mas a igreja sempre será uma igreja.
Outro ponto fundamental para se compreender a vivência religiosa do povo
tiradentino é a relação da religião com a família. É importante considerar no discurso do
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povo sobre a religião a importância da realização da fé pela via das relações familiares.
Dizia o irmão da Irmandade das Mercês:
“A religião é importante. Meu pai foi tesoureiro da paróquia de Bom Jesus do
Matozinhos. Então automaticamente aonde ele vai você vai. Se ele ia à igreja ele ia
à missa, então a gente ia, ele colocava a gente no caminho. Naqueles anos o filho
era mais obediente. Então se você consegue levar toda sua família na igreja,
depois, se você não for eles irão.”
A realização de uma família bem equilibrada depende por sua vez da religião, uma
vez que a fé garante a estabilidade e a felicidade do grupo. Se, de um lado a fé se realiza
pela família a boa relação entre seus membros depende desta fé. Assim, estabelece uma
troca entre sagrado e boas relações sócio-familiares:
“Porque a Deus você só pede, pouco se agradece. Um dia você pede saúde, outro
dia dinheiro, a melhora de uma pessoa amiga, outro dia você pede perdão. Então
isso tá envolvido na família aquilo que você constitui.”
Observa-se que a vivência da religião passa por relações sociais, de um lado a
importância da família e de outro as relações de solidariedade entre os irmãos de uma
confraria. Na entrevista com o presidente da Irmandade do Santíssimo, ele falou sobre as
obrigações dos irmãos. Não tem muitas prescrições morais, ou se as tem, as flexiona, o que
é de fato obrigação é a participação ritual e o trabalho para a igreja:
“Eu cobro sim, ir à missa, vestir opa... terço, reunião, a principal coisa... tá no
estatuto. Missa terço e procissão são obrigações nossa do dia a dia. A partir do
momento que você é irmão do Santíssimo tem que seguir alguma coisa na igreja.”
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Este dado é interessante com respeito à questão da solidariedade. Tanto nos
estatutos quanto em livros de adoração ao Santíssimo desta Irmandade, encontrei muitas
referências a obrigações com a oração e reflexões sobre o sofrimento. Dentre 5 direitos do
irmão, 3 são relativas a sepultamento. Em apenas um momento encontrei nestes livros a
palavra solidariedade:
“Oração final – Finalizando o encontro de hoje, lembramos que assumimos o
compromisso de realizar um gesto concreto importante do compromisso desta
adoração, que tal, uma visita a um antigo irmão desta Irmandade que esteja
afastado. Incentive ele a mudar, demonstre para ele solidariedade, tragam de volta
para a irmandade tenho certeza que este vai ser dos melhores gestos seu, tenho
certeza que Deus vai ficar muito feliz com isto.”
Solidariedade, no caso, aparece como barganha para levar de volta à Irmandade o
irmão afastado, e não uma ajuda mútua e generalizada.
Parece-me que a solidariedade também é um preceito importante no catolicismo
vivido por este povo, mas tem uma certa circunscrição, a Irmandade. Entre os irmãos de
uma confraria há um compromisso de fidelidade e auxílio mútuos. A questão que se coloca
é se esta solidariedade também se amplia para quaisquer outras pessoas de fora deste
círculo.
José Maria Neves (1999: 181) escreve que no século XVIII, os músicos, por não
terem irmandade específica eram acolhidos por outras, para que pudessem praticar suas
devoções, no caso a Santa Cecília principalmente e para que “organizassem suas
obrigações”, sejam elas, “caridade e socorro solidário”. Ora, pergunto, dentro das
irmandades seria o único lugar em que um cristão poderia “organizar” atos solidários?
78
Seria então um espaço social onde se praticava, e ainda pratica, uma relação de
reciprocidade vertical, com o santo, e horizontal, com o irmão (de irmandade)? Prevalece
ainda hoje uma religião marcada por um espaço restrito de solidariedade, a família ou a
Irmandade? Será um tipo de religião fundada em relações de reciprocidade, seja com o
“irmão” ou familiar e com o Santo?
Observo este depoimento e penso que, para certas, pessoas é uma mística marcada pela
troca com Deus. Dizia o presidente da Irmandade do Santíssimo Sacramento:
“Como é que cê vai comer e beber se você não trabalha, como é que vai ter o pão
de cada dia se você não trabalha. Então a mesma coisa é a igreja, se Deus está te
dando força e saúde para você trabalhar, cê tem que ter um dia para dedicar para
Deus. Eu, ou Sábado ou Domingo eu tô na igreja. Porque Deus me dá tudo, eu
tenho tudo na vida, tudo que eu quero eu tenho. Eu só não tenho riqueza, porque
riqueza eu não quero nunca, riqueza, carro novo, beleza...”
Eu perguntei a ele se tinha alcançado muitas coisas depois que começou a participar
da Irmandade.
“Depois que você passa a dedicar uma parte de sua vida pra igreja, prá Deus,... A
partir do momento que cê passa a seguir uma religião, passa a fazer umas
caridades, a vida da gente muda muito. Minha vida mudou muito de uns tempos prá
cá. Esse terreno que eu tenho, eu tô querendo há muitos anos. Eu pedi a Deus, a
única coisa que eu quero é uma casinha na beira do rio... tá lá pronta. Eu tenho
obrigação de agradecer a Deus a toda hora, de rezar e fazer bem pros outros. Tem
gente que tem tanta coisa na vida e não vê que é Deus que te deu. Nada vem de
moleza não...”
79
A questão da caridade, que aqui é mencionada, está relacionada à reciprocidade com
Deus, prestação e contraprestação. Assim, seja na família, seja dentro da Irmandade, seja na
relação com o sobrenatural, a religião se afirma como uma realização de relações sociais, as
quais são marcadas por uma reciprocidade. Por isso, arrisco-me em dizer que está presente
em Tiradentes uma religiosidade definida por relações sociais entre os homens e entre estes
e os seres sobrenaturais.
No depoimento de um confrade da Confraria dos Passos fica clara esta continuidade
entre os homens e os antepassados já falecidos, mas sempre presentes. Nesse caso ele fala
da assistência e da presença do espírito do pai nas decisões cotidianas:
“Meu pai nunca morreu prá mim, meu pai nunca morreu. Tá sempre do meu lado,
Pergunto muita coisa prá ele... penso comigo mesmo: Pô pai me dá uma luz aí
para ver o que eu vou arrumar, me dá uma luz aí. Se eu seguir é porque eu acho
que o senhor tá me guiando, o senhor é que está me encaminhando. E graças a
Deus deu tudo certo. Tudo que ele me encaminhou eu consegui...”
Interessantes são as estórias sobre a procissão de almas. Contam que antiga mente,
até uns vinte anos pra cá havia procissão de almas pela cidade ou na roça. Elas vinham de
madrugada, vestidas de branco com velas na mão. Não havia ninguém nas ruas, só dava
para espiar de longe. Contam que uma senhora, muito curiosa resolveu abrir a janela
enquanto passavam, uma alma veio e pediu que guardasse vela, pois no dia seguinte
pegaria. Ela guardou no meio de suas roupas, mas sem desconfiar que era um espírito. No
dia seguinte foi pegar um vestido para usar e viu que a vela não era vela, mas uma “canela”
de defunto. Casos como esses são comuns, algumas pessoas ainda acreditam, outras não.
Um homem de uns 86 anos me disse que depois que começou o turismo isso tudo foi
80
acabando, “foi espantando os assombração”. Mas, o fato é que fica evidente esta
continuidade entre os mundos e que, de uma forma ou de outra, continua sendo
representado.
Sobre esta continuidade escreve Riolando Azzi:
“No mundo religioso popular não existe separação nítida entre os fiéis da
terra, os santos do céu e as almas que estão na região dos mortos... Como amigo o
santo atende aos pedidos que lhes são feitos, o que coloca o cristão na obrigação
de cumprir as promessas feitas. Se o santo não for honrado, possivelmente se
sentirá ofendido e não faltarão os castigos... Também os mortos continuam
presentes na família. Nunca se deve olvidar as orações pelas almas, muitas das
quais continuam errantes por promessas não cumpridas. É necessário auxiliar
essas almas penadas. Do contrário, elas podem prejudicar, de alguma forma, os
vivos.”
(AZZI, 1977).
Essa rede de relações que se forma, ampliada, desde os antepassados, passando
pelos filhos, pais e avós, até santos, Deus e outros entes, acredito formar a base da
religiosidade tiradentina. Para que esta rede se forme e se mantenha existe um sistema de
prestação e contraprestação, sem o qual não se sustentaria. Concordo com Mauss quando
ele afirma que os espíritos dos mortos e os deuses são os primeiros seres com os quais os
homens realizam trocas. São os verdadeiros proprietários das coisas, com os quais seria
mais perigoso não trocar e mais seguro trocar. Nesse sistema de reciprocidade entra a
promessa e o recebimento, a devoção e a graça, a lembrança da memória e a presença
fortalecedora, entra principalmente o sacrifício e a garantia de uma vida mais segura e
saudável.
81
O Patrimônio Cultural
Sem querer definir o que é patrimônio cultural, sabe-se que sua significação
vocabular aponta para aquilo que é de herança comum. A significação que adquire para a
sociedade brasileira é fruto de todo um desenvolvimento histórico e uma interação cultural
entre várias visões de mundo e experiências sociais. Pretendo explicitar, sem querer esgotar
o assunto, como, ao longo do trabalho de vários intelectuais e técnicos, forjou-se um
discurso capaz de garantir aos cidadãos, tiradentinos ou não tiradentinos, um conceito de
patrimônio cultural responsável por fornecer a pessoas e instituições uma referência
intelectual para se pensar igrejas, celebrações e imagens de uma outra forma que não seja
somente a religiosa. A idéia de patrimônio cultural insere, sem dúvida, uma perspectiva não
mítica, mas histórica, na medida em que atribuem aos objetos não um sentido religioso,
mas secular, como portadores de uma identidade, seja ela local ou nacional.
Em decorrência, aponto também para o duplo viés que esta significação adquire
quando se fala em identidade. De um lado, os bens considerados patrimônio são portadores
de uma identidade geral, nacional, por outro remetem a uma cultura específica e local, ou
seja, são objetos que remetem tanto à existência de uma diversidade quanto de uma
unidade. Se, para Toledo,
“...a busca da preservação de nossa identidade cultural é o objetivo primeiro de
toda política de preservação dos bens culturais” (TOLEDO, 1984: 31),
para Gilberto Velho notamos que este objetivo ganha uma outra conotação:
“Uma sociedade moderna, complexa e heterogênea, como a brasileira, caracterizase pela coexistência, mais ou menos harmoniosa, de diferentes tradições e visões de
82
mundo. A constatação das diferenças, da diversidade e, eventualmente, das
contradições não implica em desconhecer a existência de um sistema sócio-cultural
mais abrangente, vinculado à própria idéia de nação” (GILBERTO VELHO, 1984:
38)
Se o objetivo inicial da instituição do Patrimônio foi garantir uma identidade
nacional, ao longo dos debates e reflexões travados durante sua história, o conceito foi
ampliado, inclusive graças à presença de antropólogos neste processo, passando também a
incluir a idéia da diversidade cultural. Mesmo porque, como diz Velho, é característica de
tal sociedade a diversidade. Enfim, seguindo esta concepção, a construção da identidade do
cidadão brasileiro passa pelo reconhecimento de que o outro é o outro e é ele mesmo. Para
o brasileiro, percorrer seu território e se defrontar com outras vivências, outras visões de
mundo, ou seja, outras culturas, significa defrontar-se com a sua própria.
Outra questão importante a ser abordada, na construção destes discursos,
fornecedores de sentido, foi que a ampliação do conceito de patrimônio cultural não se
limitou à inclusão da diversidade, mas também dos bens chamados imateriais e populares.
Para esclarecer esta noção passemos um pouco ao desenvolvimento destes debates.
Nos primeiros anos da atuação do IPHAN houve um obscurecimento oficial com
relação à cultura popular, sendo a maioria dos tombamentos referentes apenas a uma
suposta arte erudita, de valor plástico e histórico, havendo uma resistência na inclusão nos
livros de Tombo, de obras de feição popular. Nota-se que havia uma polarização entre arte
erudita e arte popular, pelos próprios livros de Tombo, gozando, a primeiro de certo
privilégio.
83
A partir dos anos 70 as manifestações artísticas e culturais populares começaram a
ganhar mais espaço entre o conjunto de bens que representavam a identidade nacional.
Houve uma reorientação da política do instituto, muito influenciada pela ação de Aloísio
Magalhães3 , resultando na mobilização de comunidades em torno de seus valores e
tradições, desde o artesanato até celebrações. Para o idealizador do antigo CNRC (Centro
Nacional de Referência Cultural) e que foi Diretor Nacional do IPHAN em 1979,
“existem uma vasta gama de bens – procedentes sobretudo do fazer popular – que
por estarem inseridos na dinâmica viva do cotidiano não são considerados como
bens culturais nem utilizados na formulação das políticas econômicas e
tecnológicas. No entanto, é a partir deles que se afere o potencial, se reconhece a
vocação e se descobrem os valores mais autênticos de uma nacionalidade”
(MAGALHÃES, 1997: 24).4
A questão girava agora em torno de conceder o mesmo estatuto às manifestações
populares que às belas artes, promovendo-se assim um alargamento da identidade nacional.
Assim, as fronteiras entre erudito e popular se atenuaram possibilitando um reconhecimento
da estética popular. Um exemplo interessante foi o tombamento dos ex-votos do Santuário
de Bom Jesus do Matosinhos em Congonhas em 1981. Segundo o parecer de Lélia Gontijo
Soares, eles
3
Deve ser lembrado que Aloísio, um dos maiores responsáveis por essa guinada do patrimônio, passou muitas
vezes por Tiradentes, chegando a apoiar vários projetos desenvolvidos pela SAT para a recuperação da
memória local.
4
Sobre as tendências dos discursos presentes nas diretrizes do IPHAN, é interessante citar a análise de José
Reginaldo Gonçalves (1996). Em “A Retórica da Perda”, este autor sintetiza duas vertentes representadas por
Rodrigo de Mello Franco e outra por Aloísio Magalhães. Enquanto o primeiro se preocupava com as tradições
e com a identidade nacional, o segundo, imbuído de um pensamento mais antropológico, enfocava as
identidades particulares, inaugurando um pensamento diferente dentro da instituição, que vai ser decisivo na
ampliação do conceito de Patrimônio Cultural no Brasil.
84
“possuem alto valor artístico e documental, por constituírem expressão de duas
estéticas: a erudita e a popular, a se manifestarem num mesmo sítio e numa
ordenação cronológica contínua, pelo espaço de 300 anos” (SOARES, 1999: 170).
O patrimônio não mais estaria restrito àquilo que garante a unificação de uma
identidade nacional, mas tendo relativizado esta postura, convida-se aos grupos diversos a
deixar sua marca na identidade do país, valorizando a memória de cada um, dentro de um
contexto mais geral. Assim, o que importa não é mais aquilo que garante uma só
identidade, mas preservar aquilo que garante a identidade de cada grupo.
Estes grupos mais à margem da história oficial, possuem crenças e valores
transmitidos oralmente e possuem uma identidade própria, com sistemas simbólicos nem
sempre acessíveis às elites. Esta proposta de identificar rituais, locais e objetos a partir de
seu contexto particular foi o que possibilitou o primeiro precedente em termos de
tombamento na história do patrimônio, o tombamento do Terreiro de Casa Branca, em
Salvador. Ficou reconhecido que a sociedade é mais abrangente e diversificada do que
supunha uma visão tradicional do patrimônio.
Enfim o que está em jogo é um processo de reconhecimento de identidades, seja de
grupos específicos circunscritos em suas histórias particulares, seja da própria nação que é
formada pela interação destes grupos minoritários. A garantia da diversidade se apresenta
assim como a garantia daquilo que nos identifica, a própria diversidade.
85
Segundo Gilberto Velho5 , depois do tombamento do terreiro de Casa Branca, outras
iniciativas foram tomadas, a respeito da memória dos imigrantes, casa de colonos, casas de
chá em São Paulo, criando possibilidade, embora limitada, de aplicar uma
“perspectiva antropológica a uma visão tradicional de tombamento. Então hoje em
dia tem uma grande discussão que está surgindo...em termos do fortalecimento de
um outro conceito além do de tombamento...que é a idéia do registro. Registrar
algum quadro, alguma situação, algum fenômeno de ordem cultural que seja
importante para a memória de algum grupo significativo ...”
Em 1988 incluía-se na constituição federal o artigo 216:
“Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e
imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à
identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade
brasileira.”
Mas só em 1997 realizou-se em Fortaleza o “Seminário Patrimônio Imaterial:
Estratégias e Formas de Proteção”, do qual participaram representantes de diversas
instituições públicas e privadas. Seu objetivo era de elaborar diretrizes para a proteção ao
patrimônio cultural, tendo como trato especial os bens de origem popular e de natureza
imaterial.
Em agosto de 2000, o Presidente da República, Fernando Henrique, através de
decreto presidencial, instituiu o Registro do Patrimônio Cultural Brasileiro, a pedido do
então ministro da Cultura, Francisco Weffort. Este, em carta ao presidente, afirma que o
tombamento é
5
Em conferência proferida na ABA 2000
86
“inadequado à preservação de bens e manifestações de caráter processual e
dinâmico...não cabe proteção legal de caráter restritivo... e sim instrumentos de
identificação, valorização e apoio que favoreçam sua permanência ... A inscrição
de um bem em um dos Livros de Registro terá sempre como referência sua
relevância para a memória, a identidade e a formação da sociedade brasileira,
assim como sua continuidade histórica, tomada aqui no melhor sentido de tradição,
isto é, de práticas culturais que são constantemente reiteradas, transformadas e
atualizadas, mantendo para o grupo um vínculo do presente com o seu passado.”
Compreender este processo de construção deste conceito do que é o patrimônio
cultural, desenvolvido por intelectuais e políticos brasileiros, é interessante para perceber a
abrangência das ações e interesses desta instância no caso de Tiradentes. Se, por um lado a
cidade tem uma grande área de preservação arquitetônica, por outro é muito assediada
também em função de aspectos culturais simbólicos que se referem a saberes e devoções.
Nestes estão incluídos o artesanato, a culinária e, principalmente, o que nos interessa de
fato, a religião com seus rituais que guardam uma história de quase trezentos anos. Desta
forma, esta discussão conceitual forma um manancial de idéias que servem de referência
para instituições e pessoas formularem seus pensamentos sobre prédios, objetos e rituais
presentes na Semana Santa em Tiradentes.
Em entrevista com a diretora do IPHAN em Tiradentes, ela afirmava ser objetivo da
instituição a preservação do patrimônio, entendendo este
“no sentido mais amplo da palavra... pegando até o patrimônio imaterial... tudo
que diz respeito ao patrimônio artístico ao cultural...”,
tendo como missão,
87
“identificar, proteger e conservar”
este patrimônio.
Além de se apoiarem em um discurso intelectualizado, teórico, apoiado nas ciências
humanas, os profissionais e os institutos ligados à preservação dos bens considerados
patrimônio cultural também se valem de uma perspectiva mais técnica que orienta sua ação
mais objetiva. A diretora do IPHAN em Tiradentes chamava atenção para um grande
conjunto de informações disponíveis, no instituto e para a presença de um
“corpo técnico altamente qualificado e multidisciplinar, onde você tem
profissionais com alta qualificação técnica que pode estar sempre colaborando no
sentido de preservar e conservar este patrimônio como um todo, e a fiscalização.
Na medida em que exerce a fiscalização o Iphan está colaborando efetivamente
para a proteção...”
Este discurso técnico sobre prédios e objetos religiosos transparece comumente nas
revistas e boletins do IPHAN: “Notícias do Patrimônio”; “Boletim Informativo do
Patrimônio” e “Informativo do Ministério da Cultura”. É notório, pelo menos nos dias de
hoje uma preocupação muito grande com questões técnicas por parte dos profissionais que
atuam mais diretamente. Possuem uma linguagem própria com muita carga de tecnicidade e
um raciocínio e uma preocupação do mesmo nível, possuem um verdadeiro dialeto, como é
comum em profissões especializadas como economistas e sociólogos. Em seus textos, as
igrejas e obras de arte sacra, que predominam como tema e são alvo de atuação dos
institutos, são tratadas absolutamente de forma técnica e sóbria. Não fazem apelos
turísticos, pouco tempo perdem com argumentos históricos ou de identidade, como em
geral se deve mais a políticos e intelectuais, talvez por sua obviedade. Muito menos fazem
88
algum discurso religioso ou mesmo romântico, como nos apelos de reportagens turísticas.
Por vezes, também elaboram discursos políticos no sentido de informar ou chamar atenção
sobre fatos que exigem organização de comunidades ou articulações políticas e busca de
verbas, etc. Estas evidências contribuem para a constituição de um sentido ainda mais
secularizado de objetos originariamente religiosos. Exemplo:
“Forro da Igreja do Bom Jesus do Matosinhos em restauração – Com projeto e
supervisão técnica da 13ª SR, e recursos destinados pela UNESCO, no valor
aproximado de R$ 60 mil, estão sendo realizados trabalhos de restauração no forro
da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, de Congonhas. O forro da nave, onde
encontra-se pintura de João Nepomuceno Correia e Castro, datada de fins do
século XVIII, cobrindo uma área de 140 m2, encontrava-se em acentuado estado de
deterioração ... A policromia apresentava sujidades generalizadas ... foram
realizados inicialmente a proteção dos retábulos ... E a restauração constou da
refixação da policromia, utilizando-se adesivo adequado à técnica da pintura ...”6
Observando as notícias trazidas pelos boletins confirma-se a grande preferência
existente no Brasil pela conservação de prédios religiosos, ou melhor, católicos, e
monumentos civis. Se existem exceções, são limitadas, pois a maioria maciça das notícias e
fotografias, que aparecem nesses boletins, são de templos e objetos de arte deste gênero.
Isto é uma recorrência pelo menos em Minas Gerais e evidencia que a tendência pluralista
de ampliação do conceito de Patrimônio Cultural e da conseqüente ação de preservação
ainda está longe de ser uma realidade preponderante.
6
Boletim do IPHAN, junho/julho, 2000
89
O que mais interessa destacar no discurso em torno do que seja Patrimônio Cultural
é, primeiro, a dimensão histórica e técnica que adquirem os espaços e celebrações
religiosas. Segundo, a identificação com culturas específicas, tradicionais de elite ou
populares,
no
sentido
de
elaborar
uma
identidade
nacional.
A
tendência
mais
contemporânea observada nos discursos dos órgãos de proteção do Patrimônio que
compreende a nação brasileira formada por uma diversidade cultural, aponta para uma
busca do encontro com o eu e com o outro. Esta identificação passa pela ampliação do
conceito de patrimônio, incluindo não somente prédios e objetos, mas também cerimônias e
festas. Assim, as devoções, os rituais, as celebrações da religiosidade católica tradicional de
Tiradentes são também fonte de formulação da identidade de todos os brasileiros, tendo
esta eficácia principalmente para aqueles que visitam a cidade, ou seja, os turistas.
O turismo
A cidade de Tiradentes oferece uma série diversificada de atrativos turísticos. O
patrimônio arquitetônico, a Serra de São José com suas cachoeiras, a culinária, as festas e
os festivais, cada um deles atraem um público diferenciado, fazendo do turismo um
acontecimento muito complexo quando visto em sua totalidade. Para enfocar sua relação
com os aspectos religiosos, tema que proponho para este trabalho, decidi fazer um recorte,
limitando o turista que viaja na época da Semana Santa. Faz-se necessário traçar uma
caracterização do tipo de turista que freqüenta Tiradentes, tomando como foco principal
esta época, a fim de perceber as articulações simbólicas que faz, seu modo de pensar e suas
emoções, acerca dos objetos religiosos, igrejas, imagens e passinhos e das celebrações e
90
rituais realizados pelo povo católico da cidade, a comemoração da paixão de Cristo, as
procissões, as missas e os autos.
Comparando os dados de algumas fontes7 com a observação realizada por esta
pesquisa pode-se constatar que, o turista que visita Tiradentes hoje, provém de várias partes
do país, mas principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, capitais mais
próximas. Os visitantes de cidades vizinhas também são de bom número, porém não
causam um impacto em termos de movimentação cultural ou de mobilização de
equipamentos, passam rapidamente pela cidade, por ocasião de uma ou outra festa. São de
várias faixas etárias, dependendo do tipo de viagem que realizam e da época. Crianças e
adolescentes costumam visitar através de excursões colegiais em dias de semana, pessoas
idosas organizam grupos de terceira idade fora de temporada ou às vezes em feriados mais
longos, em geral passam rapidamente pela cidade. O grupo que mais visita a cidade,
permanece mais dias e participa mais de eventos, é da faixa de 20 a 40 anos. A maioria
significativa de renda média a elevada e de formação escolar de nível superior.
Para uma caracterização mais generalizada compararei os dados de três
levantamentos, um realizado por uma pesquisa coordenada pelo Sebrae em 1996, outro por
Pellegrini em 20008, e a minha realizada em 2000 e 2001, independente das metodologias
usadas, apresentam alguns dados comparáveis. O dados de Pellegrini foram colhidos no
período de fevereiro a março, abrangendo o carnaval, os do Sebrae em julho de 96 e os que
recolhi, no período da Semana Santa de 2000 e 2001.9
7
( Américo Pelegrine Filho, Prefeitura, e jornais locais)
idem
9
Para abordar o turista a fim de entrevistá-lo, coletando depoimentos elucidativos a respeito de suas
características e sua visão de mundo, foi necessário recorrer a uma metodologia quantitativa, aplicando
questionários breves. Estes se apresentaram eficientes em boa parte do trabalho, uma vez que este personagem
8
91
É consenso das três fontes que a maioria dos turistas provém da região sudeste,
apresentando um percentual baixo de outros estados e de outros países, apesar deste número
vir crescendo aos poucos. Se em julho de 96 e em janeiro de 2000 a maioria dos visitantes
vinha de Minas, segundo Pelegrini, constato que na Semana Santa a maior parte veio do
Rio, 30%, de SP, 25% e de Minas 18%, sendo que apenas 8% de Belo Horizonte. Acredito
que não indica uma mudança no quadro ao longo do tempo, mas uma mudança dentro de
um calendário local. É mais comum a presença de mineiros de Belo Horizonte no período
de janeiro e julho, do que nos feriados, quando cariocas e paulistas preferem vir a Minas.
Outro dado interessante é o nível de escolaridade. Já se sabe que o turista,
freqüentador da cidade, possui razoável poder aquisitivo e bom nível escolar, mas minha
pesquisa quantitativa apresenta números mais detalhados. Pude verificar que 72% dos
turistas têm estudo superior, sendo que 4% destes com mestrado ou doutorado, 18% têm
segundo grau, sendo boa parte ainda adolescente. 81% dos formados variam entre
psicólogos, professores, economistas, arquitetos e empresários. Entre os profissionais
aparecem, ainda, médicos, engenheiros, funcionários públicos e advogados.
Quanto às fontes de informação do turista sobre a cidade, predominou como na
pesquisa de Pellegrini a informação de amigos, porém um dado se coloca digno de
observação mais apurada. Das minhas entrevistas, 40% se informaram da cidade por meio
de amigos, 21% através de revistas e jornais, 14% por meio de livros, 7% de TV, 2% de
escola e 3% por meio de empresas de turismo. Nota-se, então, que contra os 40% que se
informaram por meio de amigos, somando-se os que utilizaram jornais, revistas e livros,
é fugidio e avesso, na maior parte das vezes, a entrevistas em profundidade. Assim foram aplicados 100
pequenos questionários, cujas respostas serviram tanto para quantificações eficazes para a caracterização do
tipo de turista que freqüenta a cidade nesta época, quanto para coletar algumas opiniões mais pessoais e
significativas.
92
42% se informaram através destes meios literários. Este dado é um ótimo indicador, pois
aponta para o fato de que, se os amigos são boa fonte de informação, no caso do turista que
vem a Tiradentes na Semana Santa, os meios literários também são muito procurados.
Estes dados, recolhidos através de entrevistas, por 100 questionários aplicados pela
cidade, em pousadas, na porta da igreja Matriz e na praça do Largo das Forras, são
indicadores detalhados daquilo que se sabe pela convivência na cidade, que o turista possui
alto nível de escolaridade e de informação e bom poder aquisitivo. Moradores de grandes
cidades, estão inseridos em uma cultura urbana, industrializada, com acesso a informações
intelectualizadas. Se por um lado, é notório a motivação de lazer e de consumo, por parte
do turista, o que está em sua própria definição, por outro lado, constata-se também, que seu
lazer passa pela cultura, ou melhor, pelo conhecimento, nesse caso o conhecimento
histórico, compondo-se ainda de uma experiência estética, esteja a arte nos prédios e igrejas
ou em ateliers e lojas, muito visitados.
Na pesquisa de Pellegrini, ele constatou que 54% dos entrevistados se declararam
estar na cidade por motivo de lazer, além de 10% sugestionado pelo canaval. Em minhas
pesquisas acreditei ser desnecessário argüir diretamente ao turista tal questão, uma vez que
por definição o turista realiza lazer. O próprio autor, citado acima, afirma que
“como turista entende-se toda pessoa que se desloca de seu local de residência
permanente por mais de 24 horas, efetuando pernoite, sem exercer atividades
remuneradas na localidade de destino” (PELLEGRINI, 2000: 127)
Entretanto não é da minha intenção buscar um conceito definitivo de turismo,
apenas apontar algumas constatações que possam iluminar reflexões neste sentido. Valorizo
este conceito ligado ao lazer porque estou preocupado com aquele turista que acrescenta à
93
cidade esta dimensão, percebendo os templos, rituais e monumentos, fundamentalmente,
com um sentido que passe pelo lazer e pelo consumo.
Diante de toda observação que se pode fazer dos turistas andando pela cidade,
entrando e saindo de prédios e bares e restaurantes, parados na praça observando as
crianças, relaxadamente sentados na grama do morro São Francisco, curtindo a paisagem,
não tem como definir o turismo senão de outra forma,
“é uma atividade de lazer, que pressupõe seu oposto, isto é, um trabalho
regulamentado e organizado” (URRY, 1996:17).
O turista, predominantemente, está em busca de lazer em um momento e um local
diferente, colocado em oposição ao local cotidiano marcado pela rotina do trabalho.
Indo mais além, acompanharia o raciocínio de Steil, segundo o qual, o mais
importante para se perguntar sobre o turista não é o motivo que o levou a realizar tal
deslocamento para tal local, mas sobre quais seriam as estruturas de significado que carrega
para vivenciar essa experiência. Admitindo, então, que lazer e consumo são elementos
elucidativos das estruturas de significado às quais essas pessoas recorrem, pergunto: como
se articulam simbolicamente, lazer, religião e patrimônio cultural para acrescentar sentido
aos objetos e eventos religiosos com os quais se defronta em sua experiência de viagem a
Tiradentes? Acredito que este sentido se forma através de conceitos construídos no seu
local de origem, articulado à experiência no local da visita.
Entrevistando os viajantes, pude constatar que, apesar das variações, o objeto de
consumo de interesse é fundamentalmente um conjunto de coisas. Os turistas que visitaram
Tiradentes, com os quais pude travar contato no período de minha pesquisa, procuravam ir
94
a bares, restaurantes, lojas, ateliers, praças, igrejas e rituais. Afirmando o aspecto de busca
de lazer e conforto alguém respondia:
“gostei muito das igrejas e monumentos , porém gostei mais dos restaurantes e da
pousada”.
Outros diziam ter gostado mais de igrejas e rituais, outros ainda privilegiaram as praças e
eventos. Ressaltavam alguns elementos em associação, “estilo arquitetônico, preservação
da história, da religião e dos costumes”, a “Beleza arquitetônica carregada de história.”
Buscando uma generalidade nas respostas, o que ficava evidente é que a maioria curtia uma
“ ambientação, ... uma atmosfera”, muitas vezes uma atmosfera histórica, “ do século XIX
...”.
Lembro-me que, em uma outra data, conversava com um turista sobre uma festa
gastronômica realizada em Agosto, o “Festival de Gastronomia”, onde eu perguntava se no
Rio de Janeiro também não tinha acesso a essas coisas. Ele me respondeu:
“mas no Rio não tem esse clima, esse charme que tem Tiradentes, comer uma
comida dessa qualidade estando em Tiradentes é o grande barato”.
O importante é estar em Tiradentes, andar por Tiradentes, consumir a cidade, o conjunto, o
clima, o “chique” de Tiradentes:
“Adoro andar por toda Tiradentes...”.
No festival de cinema, em janeiro, também se percebe um pouco este sentido de
conjunto. Dizem ser uma das melhores mostras de cinema do circuito nacional, pois oferece
um ambiente de cenário e, sendo um lugar pequeno, todos podem se encontrar com
facilidade, ao contrário da cidade grande. A possibilidade, aí expressa, de capturar todo um
95
mundo que ali se encontra de uma só vez, é como olhar para uma “Cidade Presépio”, diante
da qual o apreciador tem a impressão de tê-la toda nas mãos, num sentimento de totalidade
e harmonia.
Consumir o conjunto, isso é o que garante uma experiência satisfatória, mas o que
leva este turista a formular tal idéia, como construiu em seu imaginário a intenção de viajar
para Tiradentes para fruir a sensação de um conjunto de coisas articulado? Mas antes é
preciso responder: que conjunto é este? Este conjunto seria composto, segundo nos mostra
a realidade e os depoimentos por: igrejas, bares, restaurantes, praças, rituais e shows, e
ainda, a “amabilidade das pessoas”, a “beleza arquitetônica”, a “história concentrada”, a
“beleza e a emoção da arte barroca”, a “tradição do povo”, a “memória...”
Se o lazer, evidenciado na freqüência a bares restaurantes e pousadas confortáveis é
o ponto de partida da motivação, o conjunto arquitetônico é o cenário. Se prédios, ruas e
monumentos provenientes do século XVIII e XIX formam a referência espacial, a tradição
do povo, sua arte e suas festas, dão ao cenário a alma viva, capaz de provocar as emoções
mais profundas, garantindo uma experiência que une passado e presente, memória e
afetividade.
Assim, a articulação promovida entre cultura material e imaterial, na linguagem do
patrimônio, forma o conjunto de uma sociedade local à qual se acrescenta um dado externo,
o lazer e o conforto disponibilizado ao visitante. Este é o conjunto.
A partir destas considerações formulo uma pergunta mais específica: qual o sentido
que o turista atribui aos objetos componentes deste conjunto, em questão, os objetos
religiosos, sejam eles: rituais e igrejas, que são, no final de contas, os objetos que articulam
todo o contexto analisado? Se o conjunto arquitetônico é o cenário, seu centro é a Matriz de
96
Santo Antônio, o principal atrativo. Se a vivência social do povo e os símbolos de sua
tradição é a alma, a religião católica, pelo menos na Semana Santa, é sua expressão mais
importante. Então seria melhor perguntar desta forma: como o turista, que viaja a
Tiradentes na Semana Santa, construiu em seu imaginário a idéia de consumir, ou fruir,
confortavelmente, de um conjunto formado por bares, pousadas, igrejas, festas e rituais
religiosos?
Para responder então ao problema formulado acima, procurarei enfocar algumas
emoções e idéias mais gerais presentes nos depoimentos colhidos. As celebrações da
Semana Santa trazem, a princípio, uma lembrança. Lembrança de tempos de infância, de
parentes passados ou de uma cidadezinha do interior na qual o indivíduo foi criado antes de
ir para a cidade grande, ou ainda de uma experiência religiosa que teve em um tempo
passado.
As procissões remetem
“à época em que participava destes eventos”,
ou
“à uma emoção muito grande. Trazem de volta todos os sentimentos vivenciados
na infância.”
Ou ainda:
“já segui procissões e fui devoto quando criança. É um tempo de boas
recordações”... época de minha infância, formação em colégio de freis católicos”.
A lembrança de um momento já vivido nos leva a crer que, estar em Tiradentes
nessa época e participar dos rituais religiosos, muitas vezes é rememorar uma história de
97
vivência religiosa ou familiar. Esta experiência saudosista aponta, no meu entender, para
uma concepção de que ali se pode experimentar um passado religioso, que hoje se atualiza
não pela mesma experiência mística que os fiéis locais vivem, de devoção aos santos, de
cumprimento de rituais fidedignos a uma tradição local. Mas uma experiência, religiosa ou
não, que passa por uma consciência histórico-cultural, pertencente não só ao indivíduo mas,
articulada à concepção de que existe uma tradição que é patrimônio da sociedade brasileira.
A fé que o turista proclama, ao ser interrogado, não é semelhante à do nativo, mas
sua idéia de Deus e de religião movimenta outros significados, outra experiência mística.
Para os turistas entrevistados, Deus não é uma figura concreta, materializada e projetada em
uma imagem, a crença não está circunscrita a uma instituição e a um ritual rigidamente
elaborado. Deus é muito mais próximo de uma força cósmica e a religião tem muito mais a
ver com elaborações individuais.
Tal pensamento acerca da idéia de um Deus cósmico, uma energia indefinível, está
explícito no depoimento de um turista que se diz católico não praticante:
“Penso em Deus como o Ser Maior. Ele está presente em todos nós, enfim ele está
presente em todo o universo. Ele não nos desampara desde que saibamos colocá-lo
em nossas vidas.”
Em outro depoimento:
“Para mim, religião é respeitar o universo e compreender que fazemos parte de um
todo. Jesus é a energia que tem o poder de equilibrar este todo. Não tenho nenhuma
devoção, procuro agir em busca deste equilíbrio”
Assim, a fala dos turistas entrevistados exprime a compreensão de um sagrado
98
“disperso e disponível em todo e em qualquer lugar, o sagrado encontrar-se-ia,
segundo esta concepção livre de qualquer monopólio...” (LEILA AMARAL,
2001:153).
Pelo menos livre de um monopólio institucional, senão individual. Não totalmente livre de
“toda e qualquer identidade fixa no espaço e no tempo” , como podem ser classificadas as
práticas e concepções que ficaram conhecidas como Nova Era, uma vez que se identificam,
ali, naquele momento, com um tipo de religiosidade, a popular católica tradicional, mas
sem vivê-la da mesma forma. Acrescentam a ela uma identidade própria, não fixa, volúvel
de fato, mas organizada dentro de um tempo e local históricos.
A religião católica é vista, pelos entrevistados, com reservas e críticas, porém tais
críticas se referem mais à dependência ou imposições institucionais com relação à vivência
da religião. Acreditam, segundo a maior parte dos depoimentos, que a religião é algo vivido
pelo indivíduo e que a mediação e o controle institucional é algo relativo, desnecessário
para realizar esta experiência e elaborar valores que irão reger comportamentos.
“Creio na religiosidade inerente a todo ser humano”.
Outro depoimento de um católico, relativiza a instituição:
“a católica é boa, mas tem gente que está dentro e não segue direito, não é a
religião que está errada, mas algumas pessoas. Deus é esse mundo todo, essa
beleza, essas árvores, é bondade amor e justiça, é sabedoria...o importante é
praticar o bem, viver bem...”
O depoimento abaixo é mais expressivo:
99
“Sobre a religião católica? Aí é a fé. É um direito das pessoas de optarem por uma
instituição religiosa. Eu sinceramente acho que qualquer institucionalização muito
grande da religiosidade, muito ruim.
Este último se diz taoísta, para ele:
“o que importa, o que é sagrado, é a generosidade, é a fraternidade ... não sei o
que é Deus, não tenho a menor idéia, com certeza não é o pai de Jesus Cristo.”
A religião para o turista em foco, segue uma tendência contemporânea de
individualização da crença e liberação institucional, algo muito analisado ultimamente
acerca do comportamento religioso em tempos de “globalização” e “Nova Era”. Como
afirma Enzo Pace:
“A religião é liberada do controle institucional, passando à gestão da livre
iniciativa individual, uma nova fonte de imaginação simbólica. No círculo
místico que se forma (várias práticas) entre províncias de significado religioso, de
áreas culturais diferentes, a síntese visível é feita pelo indivíduo e por seu grupo a
que pertence” (PACE, 1980: 39).
A percepção da diminuição das estruturas institucionais fortes passa pela idéia de
um processo histórico vivido pela humanidade, onde a secularização, no sentido de
diminuição do alcance destas forças é indício de evolução e a instituição dogmática um
indício de decadência. Como afirma um turista:
“...a igreja católica é decadente em seu processo histórico e dogmático ... Religião
é conjunto dogmático, Deus é energia cósmica que envolve todos seres vivos ou
100
inertes, não tenho devoções, na vida o mais importante são os valores ... o amor é
absolutamente sagrado e o mais importante sentimento da raça humana.”
Então eu pergunto, o que estas pessoas estão fazendo ali, visitando igrejas e
participando de procissões onde se carrega o filho de Deus personificado em uma imagem
concreta, diante da qual as pessoas se projetam e vivenciam uma dimensão de sacrifício?
Para Brandão, o turista não tem nenhum interesse religioso, não experimenta
nenhuma espécie de motivação mística:
“...o que se busca entre as igrejas, que valem mais como museus ou monumentos, é
uma espécie rara e diversa de cultura que como eventos, lugar ou objeto, acreditase que tenha preservado os valores e os símbolos de nossa história. Uma cultura
guardiã, portanto, de nossa própria identidade nacionaL” (BRANDÃO, 1989:4)
Mas insisto na pergunta: porque escolher as igrejas barrocas e as procissões do
catolicismo popular tradicional como expressão dessa identidade nacional? Sem querer
enveredar em uma discussão com aqueles que formularam as idéias acerca do patrimônio
brasileiro procuro um outro caminho menos pisado. Penso que a escolha destes bens, no
processo de fruição em questão, passa de fato por uma idéia de identidade nacional sim, e
também pessoal, mas sua escolha motiva mais do que a fruição de um espetáculo ou uma
experiência puramente racional.
Em conversa com uma jornalista, em janeiro de 2000, ela comentava, sentada no
adro da igreja, em meio a uma oficina de cinema, a respeito da beleza do interior do templo.
Havia visitado pela primeira vez uma igreja destas com um guia. Sempre que freqüentara as
cidades históricas detia-se apenas à “curtição”. Emocionou-se com o guia, sua fala e seu
101
interesse, como se ele estivesse fazendo uma pregação para ela. Disse que começou com
assuntos pouco importantes e foi aprofundando aos poucos, revelando alguns mistérios da
obra barroca, referindo-se aos significados das esculturas, disposições e etc. Falou dos
pelicanos e da fertilidade e da fênix e a entrega. Mas encaminhou o passeio com a intenção
de atingir um objetivo que era uma tela com o Cristo crucificado, na parte lateral da igreja.
“_ Você já reparou no rosto dele? – dizia ela. É negro, só o rosto. Aquilo me
emocionou. Saímos dali e sentamos em um bar e discutimos o assunto por um bom tempo, e
o significado daquela peça, a questão da escravidão, o guia que também era negro, essas
coisas, toda essa história da época colonial que está representado lá.”
Perguntei se ela se emocionava pelo significado ou pela arte em sua manifestação
estética?
“Pelo significado. Não gosto muito da arte barroca, é muito forte, dramática,
muito sofrimento, muito confuso...”
Perguntei, então se acreditava em Deus?
“Muito! – disse com ar expressivo. Já fui marxista, atéia e existencialista,
lia Sarte... hoje vejo diferente. Acredito em Deus que pode ser muitas coisas... para
mim é o sentido da vida e do mundo...”
Perguntei a ela se, quando sentiu que havia compreendido o significado daquela
tela, teve algum sentimento religioso. Ela disse:
_Sim, naquele momento senti a presença de Deus...
Então, mesmo que a pessoa não tenha motivo religioso para entrar numa igreja, ela
pode de algum modo desencadear estruturas de significado não seculares, talvez tocando-se
102
por um sentimento místico, transportando-a para uma região imaginária de mistério,
fazendo-a experimentar o sagrado, pelo fascinium ou pelo tremendum (OTTO, 1985). E faz
isso não dentro de uma concepção compartimentada das instâncias em jogo, mas
articulando história e religião, lazer e emoção.
Uma turista dizia que entrar na Matriz era como entrar em um outro mundo,
transcendente. Sua maior riqueza, que não tem na igreja do Bonfim e na São Francisco em
Salvador, as quais têm mais soberba, é que chama para o transcendente. Perguntei a ela se
era por causa da arte. Respondeu:
“Por causa da expressão... Arte tem, no mundo inteiro, mas expressar o
transcendente desta forma é muito difícil. Daria para passar uma vida aqui dentro, cada
detalhe... Eles (os artistas) tocam o transcendente... O transcendente os toca e o Espírito
Santo estava com eles, e ainda aí está; senão não durava tanto tempo sua expressão.”
Percebe-se como vai da arte para o sagrado, quando afirma a capacidade de
transcendência que os artistas tiveram ao esculpir as talhas e por outro lado como ela vai do
transcendente para a história, responsabilizando o Espírito Santo por manter a expressão
cunhada por aqueles durante tanto tempo. Historiciza o transcendente e sacraliza o
contingente.
Poderia me perder na quantidade de depoimentos que colhi nesse sentido, na
quantidade de expressões que observei, emoções, choros e risos, admiração e conflito,
medo diante das formas barrocas ou sensação de transcendência e presença de “algo
Maior”. De outro lado, também não foram poucos os risos de deboche ou as interpretações
puramente racionais ou até a insatisfação de um crente que entrou e não encontrou a
luzinha vermelha do Santíssimo, só viu um borrão de ouro.
103
O turista vivencia o contato com uma tradição religiosa, realizando ou não uma
experiência dessa natureza, quase sempre por meio de uma noção de história e de cultura e
identidade nacional, como já afirmei. Mesmo os mais fervorosos comentavam da história
concentrada nas igrejas e rituais. Mesmo a experiência mística da jornalista, passou por
conceitos e categorias racionais, a história de Minas Colonial e as questões ligadas ao
sofrimento do negro escravizado. Ao se emocionar e sentir a presença de Deus na visão de
um Cristo negro, mostrada por um guia negro, ela juntou tudo, consciência histórica
identidade brasileira e sagrado.
É interessante observar que dos 100 questionários aplicados aos turistas, 64% deles
se disseram católicos e apenas 14%, ou não responderam ou assumiram não terem nenhuma
religião. Enquanto a maioria tinha algo a dizer sobre o que pensa de Deus e da religião,
apenas 6% afirmaram que as igrejas de Tiradentes têm prioritariamente importância
religiosa. A maior parte disse que elas têm, principalmente, uma importância histórica e
artística, 58%. O restante se dividiu em uma opinião ainda mais interessante: 35%
afirmaram que sua importância é histórica, artística e religiosa, ao mesmo tempo, sem
hierarquizar. Assim, de acordo com esses percentuais e com as observações, católico ou
não, tendo ou não uma experiência religiosa, mística, o turista sempre, ou na maioria das
vezes, tem uma experiência de contato com a história e com a arte. Dificilmente um turista,
mesmo um religioso, padre ou freira, entra em uma destas igrejas somente para orar, nestes
dias de feriado. A idéia de patrimônio histórico e cultural está nelas, muitas vezes, mais
embutida que a idéia do sagrado. Já observei padres e freiras andando pelos templos
observando seus aspectos históricos e artísticos e até interpretando seus símbolos bíblicos,
104
mencionando determinada época da igreja ou costume, sem se preocuparem com orações
ou genuflexões.
O caso dos 33% que não estabeleceram uma escolha única, preponderante, entre
religião, arte ou história na importância que atribuem às igrejas, pode indicar que esse
turista se interessa por um conjunto, a arte, a fé, seja do povo ou de si próprio, e a história.
Mesmo o uso das igrejas, como espaço para exposições de arte e ou concertos musicais,
que apresenta controvérsias entre moradores e nativos, aparece nos depoimentos dos
turistas como compatíveis.Alguns dizem ser totalmente errado e que elas não foram feitas
para isso, porém é mais comum ouvir algo do gênero:
“maravilhoso. Todas deveriam se propor a isso”
ou então:
“perfeito, adorei o concerto barroco em uma igreja barroca. Eu acho perfeito...já
vi vários. Mas aí, também, de qualquer maneira a gente tem que tá sempre voltado
para o motivo do patrimônio que você tá fazendo o concerto, né. Não vai fazer um
concerto de rock, mas um concerto de música barroca, de ópera”.
O ambiente é tido como propício para a realização de uma atividade cultural de
natureza não religiosa, contando que seja coerente com a criação de um ambiente
harmonioso, não contrastante ou polêmico. Este uso artístico é
“ótimo, reaviva a utilização da igreja”
ou seja, amplia o uso, diversificando o sentido dos prédios que não são somente religiosos,
mas carregam também a possibilidade de outros conceitos.
105
Uma opinião me chamou a atenção quanto a esta questão dos usos diversificados
das igrejas. Teve um turista que afirmou ser a igreja uma
“obra de religiosos feita para homens religiosos”.
Porém o mesmo informante disse:
“Fantástico, Concertos na era atual nos faz lembrar que esses praticamente
nasceram dentro das igrejas renascentistas... A evolução da arte do ocidental veio
em paralelo ao processo religioso. Ouvir Bach em uma igreja Barroca, é como
ouvir Bossa nova em Ipanema ou Jazz em Nova Orleans.”
Se numa primeira fala, tende a considerar o templo casa de fiéis, num segundo
momento, historiciza o espaço, ampliando aquilo que é local e concreto, “igreja feito por
religiosos para religiosos”, para um patamar abstrato da história da música, comparando
com situações totalmente seculares e globais, como a Bossa nova em Ipanema e o Jazz em
Orleans. Esta transposição, do local concreto para o universal abstrato parece ser uma das
formas com que se estrutura o pensamento do turista.
Porém mais importante que pensar de forma universal, é pensar de forma universal
com uma cabeça conscientemente nacional. Se, o sentido artístico e histórico está presente
em seu pensamento, também está a idéia da religiosidade tradicional. Não houve quem
dissesse que o uso religioso, da tradição popular fosse indevido, o que pode parecer óbvio.
Mas o que não é óbvio foi a forma como trataram esta tradição religiosa:
“fascinante, fico encantada, parece que tudo aqui dá mais certo”.
“procuro ver a crença das pessoas, fico impressionado com a fé”.
“A fé popular sempre nos remete a uma emoção profunda”.
106
Uma relação de fascínio e admiração para com a religiosidade do povo. Boa parte
deles participavam de algum momento dos rituais. Uma admiração que passa pela tentativa
de se valer de uma religiosidade popular tradicional
“como recursos simbólicos reinterpretados para enfrentar problemas relativos à
ordem social em termos do contexto global.”10
A idéia de patrimônio é uma estrutura de significados fundamental para que as
pessoas mais antenadas com culturas internacionais não percam suas identidades e o fio
condutor da meada de sua história. Por isso, ir a Tiradentes e lembrar de épocas da infância,
de experiências pessoais passadas, ou considerar estas formas religiosas tradicionais como
portadoras da memória de um povo, é sintonizar uma vivência individual com uma idéia de
patrimônio e memória coletiva à idéia de pertencimento a uma nação:
“E importante preservar o patrimônio porque é a nossa memória”.
“O patrimônio histórico enriquece o desenvolvimento do conceito de pátria.”
“A tradição é algo fundamental para se evitar a decadência de uma sociedade.”
Entretanto, de acordo com Halbwachs,
“a memória coletiva existe enquanto elemento vivenciado...é no ato de reviver a
tradição que a memória é alimentada, reativada.”
Nesse sentido, só é possível falar de uma memória nacional na medida em que se
vive a tradição de uma nação, Então, se indivíduos urbanos, modernos, vão à cultura
popular para reviver uma tradição que os remete a uma idéia de nação, isto parece irreal,
como critica Renato Ortiz:
10
Leila Amaral, curso ministrado na UFJF - 1999
107
“Enquanto a memória coletiva é rememorizada pelo grupo, a memória nacional é
racionalmente construída...O nacionalismo não é pois o prolongamento dos valores
populares, mas um discurso cujo significante é a memória coletiva popular”
ORTIZ, 1980: 61).
Se o significante é a memória popular, no caso a tradição religiosa dos tiradentinos,
o significado remete aos conceitos que os turistas construíram na vivência de suas próprias
histórias. É na ressignificação da tradição de um outro que a cultura de um próprio ganha
densidade e sentido. Se a cultura popular é realmente patrimônio nacional, não me cabe o
questionamento. No presente, interessa como, a tal significante, é acrescentado um ou
vários significados, mesmo que façam referência a uma outra realidade, no caso as histórias
pessoais de cada turista, ou à uma realidade globalizada em que se vive, e diante da qual,
necessitam de afirmar uma identidade, por mais irreal que esta identidade possa parecer.
Flagrei, um dia, uma conversa entre um turista, um engenheiro químico que
trabalhava na Petrobrás e vivia mais no exterior que no Brasil e um senhor de uns 86 anos,
tiradentino, lavrador aposentado. Ele mostrava para o engenheiro um ramo de arnica, que
usam para enfeitar a igreja na época da quaresma, é também usada na medicina caseira para
hematomas, mas não pode ser usado em ferimentos pois arde muito. Conversavam assim:
_Remédio bom, é remédio do mato. – dizia seu Joaquim.
_Exatamente. – concordava o engenheiro.
_...do jeito que tá vindo esses remédios pra gente bebê, tá matando muita gente. Eu
que tô com 86 anos, nunca tomei remédio.
_O senhor sempre fez a medicina...
_É, da horta, nóis planta remédio...
108
_Isso vai passando de pai pra filho?
_É.
_Isso é uma coisa que tem que ser preservada, nós estamos sendo invadidos por
remédios estrangeiros...- disse o engenheiro.
_É
_Uma lição de casa que eu aprendi aqui em Tiradentes. Arnica, eu não conhecia,
um remédio natural, um excelente cicatrizante, um remédio natural, indolor, de
graça, que a natureza nos fornece e não pede nada em troca, somente preservá-la.
Deve-se observar o seguinte, o significado que o engenheiro dá ao remédio
extrapola o sentido do tiradentino, ele remete a relações do país com empresas
farmacêuticas multinacionais e com a consciência ecológica. Faz o discurso do doutor que
aprende com o povo, mas duvido que um dia vai usar arnica, se usar vai “xingar” todas as
gerações do lavrador, pois entendeu errado o que o outro falou e pensa que é um
cicatrizante... Na tentativa de compreender um ao outro, dentro de um sistema de
comunicação, geram mal entendidos, mas mal entendidos que podem ser produtivos, na
medida em que satisfazem à necessidade de construção de suas próprias identidades,
olhando ao outro, mesmo que de modo enviesado, olham a si mesmos.
Mas patrimônio, religião e arte também são objetos, dentro de um contexto de busca
de prazer, de lazer e consumo. Procissões e celebrações se tornam eventos culturais,
verdadeiras obras de arte dignas da apreciação dos turistas:
“Os rituais religiosos são de extrema beleza”.
“Igrejas, procissões e prédios são todos belíssimos”.
109
Nesse ponto sou levado a concordar com Brandão, pelo menos no que tange certos
casos, de que
“...igrejas históricas esvaziam-se de rotinas religiosas, enquanto recuperam
símbolos e objetos artísticos e arquitetônicos de um passado de lugar de religião
como espetáculo de cultura” (BRANDÃO, 1989: 60).
Muitos visitantes guardam um certo respeito silencioso, mas não tratam o lugar
como sagrado. Nos rituais que descreverei a seguir muitos turistas se posicionam como uma
platéia de espectadores assistindo a um desfile, como qualquer evento artístico ou lúdico da
cidade. Mas nunca é demais lembrar que o meu estudo caminha no sentido de perceber
estas variedades, contradições e circulações de sentido, nesse caminho às vezes busco
regularidades, às vezes contradições.
De um ângulo mais geral percebe-se, mesmo dentro de uma diversidade de
encontros com a história, a tradição e o sagrado, que podemos encontrar algumas
regularidades ou tendências, na medida em que olhamos de modo mais distanciado.
Inclusive com a ajuda de uma metodologia quantitativa. Mas algumas reflexões só podem
ser feitas quando nos aproximamos mais pessoalmente de alguém e envolvemos um pouco
mais em sua história de vida. Tal técnica é mais fácil de ser aplicada quando se trata dos
moradores da cidade, pois o turista é muito mais fugidio, porém algumas situações me
permitiram uma ou outra aproximação mais densa. Um desses casos, que ilustra bem a
tendência da vivência múltipla do conjunto de sentidos e eventos oferecidos na pequena
cidade, é o de Fábio.
Fábio se encontrava em Tiradentes pela terceira vez, já viera com os pais e com
amigos. Desta vez estava acompanhado de sua namorada e pela primeira vez em uma
110
Semana Santa. Fábio é católico. Há seis anos passa este período com um grupo de jovens
em uma casa de retiros, vivenciando orações e dinâmicas de convívio pessoal, meditações,
etc. Desta vez preferiu ir a Tiradentes. Porque? Vejamos nossa conversa:
Eu: Que lugar freqüentou ou pretende freqüentar?
Fábio: Quero ver as igrejas e museus, dá uma subida na serra, quero ir a São João,
fazer um passeio de Maria Fumaça, que já fiz há anos, ver o comércio. Ficar um
pouquinho na praça, ir a bares e restaurantes, é isso.
Até aqui parece um depoimento bastante genérico, pretende visitar a cidade como
um todo, nenhuma nem outra coisa a mais, pretende curtir o conjunto com sua namorada,
como já falamos de outros turistas. Lazer e consumo estão muito claros como prerrogativas
iniciais.
E: Que lugares mais gostou, ou está gostando?
F: Gosto muito desta igreja (Matriz) e gosto muito das cerimônias, procissões,
essas com capelinhas (passinhos) também eu adoro.
E: Já assistiu outras procissões?
F: Não, vou assistir hoje.
Mesmo tendo uma motivação igual à de todos os turistas, Fábio tem uma
preferência, também muito comum, as igrejas e os rituais. Só que, até aqui, pode ser uma
atitude comum, com um olhar totalmente secular de lazer e fruição artística, porém, por
detrás desta fruição tem uma história de vida, uma vivência religiosa. Ambas transparecem,
colocando, às nossas vistas, algo esclarecedor sobre muitas das pessoas que circulam por
Tiradentes. História, arte e religião são pensadas e sentidas ora juntas, ora separadas, numa
111
relação tensa e complementar. Dependem do momento, do sentimento, da situação, para
que estas instâncias sejam combinadas, associadas ou dissociadas.
E: Na sua opinião qual a importância principal das igrejas? Histórica, artística,
religiosa...Elege alguma?
F: As três. Não consigo eleger nenhuma, não consigo dissociar história de religião
e de arte. Hoje, certamente a religiosa pela data, das outras vezes que eu vim
certamente histórica, mostrar pros meus amigos isso tudo aqui, hoje é religiosa....
Agora estou vindo aqui com uso histórico, pra olhar novamente, questão histórica
mesmo. Agora amanhã eu queria vir buscar algo, ficar um tempo aqui dentro,
rezar, ai tem aquele lance de você ter que pagar, ter todos os turistas em volta,
acho que não encontro tanta paz assim, entendeu.
Sua visão da religião do povo é contornada por uma aura romântica, ressaltando o
senso de comunidade, uma harmonia, uma vivência do sagrado e da comunidade que já não
se encontra mais na cidade grande e por isso digna de fruição, de admiração. Mais do que
um motivo para ir a Tiradentes, este sentimento, descrito logo abaixo, se refere a uma
concepção de seu próprio mundo, construído dentro dele e que aflora diante do mundo do
outro, que também é um pouco o dele também. Aí as estruturas de significado que mobiliza
ganham mais evidência. Conceitos, categorias, e experiência imediata, combinam-se para
formar uma visão de mundo.
E: Que tipo de sentimento você experimenta diante das práticas litúrgicas que você
presenciou, hoje estava na missa.
F: De comunidade, de fazer parte de uma comunidade, mesmo sendo de fora.
112
E: Alguma emoção diferente de assistir à missa aqui, com cantos barrocos, uma
igreja, a história e a arte?
F: Esse senso de comunidade é muito diferente do que tem numa cidade grande. O
pessoal vai na missa, vai por si só, não se conhece, diferente daqui que todo mundo
se conhece, um olha pro outro, uma cumplicidade, o senso de comunidade aqui tem
outra conotação. É diferente, muito bom.
E esse sentido romântico que carrega consigo, conferindo cores à comunidade,
emoções ao casario, contornos às igrejas, esse mundo imaginário para o qual se remete, o
contato fluido e etéreo com a história, a arte e o sagrado, desperta em si uma emoção de
harmonia e confluência. Falando do outro, fala de um ideal de vida que carrega, o qual,
naquele momento, o faz pensar o mundo como um conjunto de coisas em associação, uma
visão holística do universo onde se encontra naquele momento.
E: E sobre a religiosidade popular?
F: Em teoria é a mesma religião que a minha, né, mas eles vivem de uma maneira
diferente. Mais mergulhados, pelo que eu vi das pessoas, daqui, as senhoras de
luto, acho que elas vivem muito mais do que o que a gente vive numa cidade
grande. Onde a gente tem dias para ser religioso e tem dias para ser um cidadão
comum. Eu acho que aqui não existe essa dissociação tão grande. Eu acho ótimo
não existir essa dissociação. Lá tem épocas do ano para ser religioso, você tem
natal, páscoa, pentecostes, datas específicas, né, que você vai à igreja, você festeja.
Aqui não, as pessoas aqui realmente vivem um calendário litúrgico de modo
saudável. Legal.
113
Se a inexistência dessa dissociação da qual fala, da vivência local, é real, não
interessa, o fato é que numa experiência tão momentânea que teve, só poderia fazer um
discurso tão significativo se estivesse, na realidade, se projetando idealmente, mais que
compreendendo ao outro. Aí, mais um modo importante de estruturar o pensamento e os
sentimentos do turista que observei, o projetar-se idealmente na busca do outro, que é no
limite uma busca de si mesmo. Como num círculo hermenêutico, a tentativa de interpretar o
outro acaba por tornar evidente muito mais o modo como formula seus pensamentos e
sentimentos.
E: Você é católico, não é?
F: Tento viver a religião... fui católico a vida inteira, fiz milhares de encontros,
Semana Santa, essa é a primeira Semana Santa em 6 anos que não faço retiro,
primeira vez que estou tentando viver sozinho. Tentar fazer uma preparação para
viver um pouco sozinho mesmo, sem precisar de muito intermediário, sem muito
padre, sem muita igreja. Eu pegar a bíblia, eu ter a minha interpretação... acho que
a igreja exagera nesse zelo. Acho que o zelo tem que ser um passo inicial para
depois você atingir sua maturidade religiosa.
Enfim, interpreto a vivência de Fábio como uma experiência simbólica onde,
através de uma viagem de lazer e consumo, busca principalmente a si mesmo. Seja no
encontro superficial com o outro, e tem que ser superficial, sob o risco de desmanchar sua
visão de mundo, sua fantasia, sua estrutura simbólica e estragar sua viagem, seja na busca
de uma individualidade coibida pela experiência católica dentro de padrões institucionais
impostos pela igreja e pelos sacerdotes. Está ali em Tiradentes, encontrando a si mesmo, ao
lado de alguém que ama, sua namorada, buscando seu próprio ser no encontro com a
114
tradição profunda do catolicismo popular de Tiradentes, ao mesmo tempo rompendo com o
catolicismo institucional de formação Jesuítica, que vive no Rio de Janeiro, mas fazendo
toda esta viagem com o conforto de uma boa pousada e o glamour de restaurantes refinados
e bares afrodisíacos.
Enfim, posso agora enumerar sinteticamente os elementos componentes do
pensamento do turista, elucidando a forma como atribui sentido a igrejas e rituais em
Tiradentes. Volto, para tanto à pergunta formulada anteriormente: como o turista, que viaja
a Tiradentes na Semana Santa, construiu em seu imaginário a idéia de consumir, ou fruir,
confortavelmente, de um conjunto formado por bares, pousadas, igrejas, festas e rituais
religiosos?
Os rituais presenciados durante a Semana Santa remetem o turista a uma
experiência pessoal passada, é uma identificação e um reconhecimento de sua própria
história na vivência do outro. Segundo, pode ter uma experiência religiosa que passa por
uma construção racional que tem a ver com a história e o patrimônio enquanto identidade
nacional. Assim combina estruturas, história e sagrado, não o mesmo mito cristão vivido e
significado pelo religioso tiradentino, mas valendo-se de uma religiosidade elaborada em
outras bases. Terceiro, faz do local algo para se pensar o geral, alcançando uma outra
dimensão do conceito de patrimônio, a identidade nacional. Pensa a si mesmo e a sua nação
dentro de um contexto mais amplo, vendo a realidade específica de uma tradição, Quarto,
uns misturam mais o sentido religioso com o histórico, porém outros misturam menos e têm
somente uma experiência artístico-cultural, não sendo tomados por nenhuma emoção
mística, mesmo aqueles que são religiosos ou fiéis podem participar da Semana Santa em
Tiradentes somente pelo sentido histórico ou artístico. De uma forma ou de outra é uma
115
recorrência o romantismo que permite manter a fruição necessária para a realização do
lazer.
Jornais e Revistas
Constatei, anteriormente, que o turista é influenciado por jornais e revistas. Por isso
vale a pena explorar um pouco esta literatura, no sentido de percebê-la como fonte de
elaboração de estruturas de significados e ao mesmo tempo como reprodutora das
percepções que turistas e produtores do turismo elaboram da vivência religiosa popular.
No dia 10 de Setembro de 2000, como encarte do Jornal do Brasil, foi publicado a
nível nacional um catálogo em forma de revista intitulado: “Roteiros da Fé Católica no
Brasil”. Uma produção da Embratur, associada ao Ministério do Esporte e Turismo e ao
Jornal do Brasil.
A revista apresenta um roteiro de mais de 50 pontos de devoções e festas religiosas
no Brasil que reúnem grande número de pessoas. Todas as cerimônias são de origem
católica e predominam as romarias e festas de santos. Não se trata de uma publicação
religiosa e sim de interesse turístico e econômico, mapeando diversos pontos espalhados
pelo país a fim de motivar o movimento de turistas através deles. No entanto, o apelo dos
textos não se restringe ao lazer e ao consumo, que a meu ver caracterizam o comportamento
turístico, mas também se valem de motivos religiosos. Logo na primeira página diz assim:
“Viver as cerimônias divinas é como um milagre que todos podem celebrar.
Participe. Vá com fé. Vá com Deus.”
116
Destaca-se primeiramente o caráter inclusivo da sentença, “todos podem celebrar”,
ou seja a universalização de cultos e festas de origens locais, antes restritas a um público
específico e que agora “todos podem participar”, não importando a origem. O apelo
religioso não se refere a uma fé específica, mas à uma genérica experiência com o sagrado,
“cerimônias divinas”. No entanto, apesar dessa face religiosa universalizada, lê-se no pé da
página: “consulte seu agente de viagens.”
Mesmo com o apelo à fé, fica claro que o alvo é o turista de classe média ou alta,
em condições de procurar um agente de viagens. Consagra-se, mesmo assim, o caráter
econômico de uma indústria que se prepara para receber este novo tipo de consumidor,
aquilo que na própria revista chamam de “turista religioso”.
Em entrevista de Juliana Gouthier, Caio Carvalho da Embratur diz:
“’Estamos transformando esta matéria prima em produto’. A idéia é utilizar a
estrutura existente, estimulando a profissionalização e a qualificação da indústria
turística para melhor aproveitar este nicho que movimenta, no mínimo, 6 bilhões
por ano, segundo cálculos do presidente da Embratur”.11
Por outro lado, Dom Eugênio Salles, que também deu entrevista à revista, afirma
uma opinião, sem dar à matéria um tom polêmico, enfocando outro aspecto diferente da
manifestação:
“As peregrinações hoje em dia correm o risco de exploração comercial, que
oferece viagens muito cômodas, hotéis de luxo, ocasião de despesas supérfluas.
Assim, deturpa-se o sentido religioso de tal prática.”12
11
12
Roteiros da Fé Católica, 2000 - p. 10
idem - p. 9
117
Mas a revista, que não tem profundas preocupações conceituais, confunde, em sua
totalidade de reportagens e propagandas, duas manifestações diferentes, a peregrinação e o
turismo. Numa entrevista a uma romeira ela afirma que
“vem é pagar promessa. Não tem nada de lazer ou turismo, é romaria mesmo”
13
Sem querer render na exploração destas conceituações, o que interessa é apresentar
as várias imagens construídas em torno de tal comportamento e das manifestações
religiosas. Se por um lado trata-se de eventos religiosos que proclamam a dimensão do
sacrifício e da fé, por outro ganham uma dimensão de consumo, sendo visto pelo seu lado
de mobilização de pessoas, equipamentos e dinheiro. Mas o que leva de fato a uma
apreciação pela maior por parte destes órgãos, e empresas, é que estas manifestações
religiosas vêm ganhando um conceito mais profundo e apelador, capaz de conciliar estas
duas dimensões. No editorial, escrito por Teodomiro Braga e Juliana Gouthier, fica muito
claro que a atenção voltada para uma experiência religiosas popular tradicional, elevada nos
últimos anos como portadora da verdadeira cultura brasileira.
“As festas religiosas estão entre as mais fortes expressões da cultura brasileira. É
impressionante a quantidade e a diversidade de celebrações que acontecem por
esse Brasil afora... Com esta revista, uma parceria com o Ministério do Esporte e
Turismo e a Embratur, o Jornal do Brasil mostra um pouco desse mundo rico e
cheio de vida, convidando seus leitores a uma viagem especial, impregnada pela
religiosidade do nosso povo. É uma viagem pelo que há de mais vigoroso na nossa
cultura, revelando a forte presença da fé católica, manifestada em romarias,
peregrinações, devoções aos Santos e Santas e outras tantas invocações divinas
13
idem
118
carregadas de emoção, de vida. Nesses roteiros ... é impossível não se encantar
com a beleza e a riqueza de cada comunidade. É a nossa tradição, a nossa cultura,
a nossa vida. Com eles você pode redescobrir um Brasil muito mais rico e
envolvente, um Brasil que se revela pela alma cristã do seu povo.”14
Enfim, o que interessa é o encantamento com a beleza dos rituais, a descoberta do
Brasil e de seu povo. Mas quem irá realizar esta descoberta? Ora, o leitor do Jornal do
Brasil, na maior parte intelectualizado, residente em grandes cidades, de certo poder
aquisitivo que lhe permite viajar, capaz de compreender que estas manifestações
tradicionais são aspectos reveladores da alma do povo brasileiro. Nesse aspecto, este
público alvo desta revista deve ser um turista capaz de pensar em termos amplos o conceito
de patrimônio cultural brasileiro.
A revista prossegue apresentando várias reportagens sobre várias festas de grande
porte pelo país. Como um catálogo turístico, apresenta reportagem sobre as festas, com
mapas, personagens e fotos, sua história e indicações turísticas de equipamentos,
denominado “dicas e serviços” - distâncias, hotéis, restaurantes, lojas para compras e
telefones úteis. E ainda aparecem algumas propagandas como: “Arquitetura Religiosa –
projetos e reformas de igrejas e capelas”. Tem até receita de pratos típicos e simpatias
como “Nove pães de Jesus Cristo”.
Em um artigo, Carlos Melles, Ministro do Esporte e Turismo, afirma que a revista,
foi feita com a cooperação da Embratur e da Arquidiocese da cidade do Rio de Janeiro, na
mesma direção do editorial, enfoca o tema conciliando as diversas visões, construindo um
argumento encompassador. Segundo ele a revista pretende
14
idem - p. 4
119
“valorizar as cerimônias, preservando seu conteúdo religioso. Ao peregrino,
oferecemos a informação que lhe seja útil: a descrição das cerimônias, locais e
monumentos religiosos. Ao turista prestamos a informação turística propriamente
dita, como alternativas de acesso, hospedagem, alimentação. ... Assim, estaremos
também criando empregos, melhorando a renda das pessoas e cidades que têm na
fé seu potencial turístico. ... buscamos gerar condições para que possa crescer o
fluxo de turismo e ao mesmo tempo estamos preservando fração significativa de
nossa herança cultural e de nossa fé. Estaremos contribuindo para a preservação
do patrimônio histórico, artístico e cultural associado a esses destinos religiosos ...
O lançamento dos ‘Roteiros da Fé Católica’ não é, pois, apenas um
reconhecimento das raízes e vontades culturais dos brasileiros. É um investimento
no setor de turismo...e uma contribuição significativa para a preservação do legado
que nos foi deixado por nossos ancestrais.”15
Este estilo de discurso, que pretende encompassar o econômico e o religioso, é
interessante, pois pode ser visto em muitas outras situações, seja provindo do nativo
religioso, como pude observar em depoimentos acima, como também no discurso da
Fundação Roberto Marinho como veremos mais adiante e ainda em diversas outras ações
que englobam iniciativas conjuntas de instituições seculares e religiosas. É claro que se
trata de um discurso conciliador, sendo necessário ponderar que não é um terreno livre de
disputas e conflitos.
Se “Roteiros da Fé” apresenta o turismo em torno das manifestações religiosas
tradicionais em uma dimensão nacional, outros jornais, encartes e revistas de circulação
15
idem - p. 44
120
mais limitada na Zona da Mata, grande fornecedora de turistas para Tiradentes, enfoca esta
cidade especificamente, seguindo tendência parecida.
O Jornal TRIBUNA DE MINAS, de Juiz de Fora, do dia 5/ 4/ 00 em seu caderno
semanal de turismo, Boa Viagem, trouxe uma reportagem sobre a Semana Santa em Minas
Gerais. Este caderno, trazia reportagens semanais sobre turismo no mundo todo. Boa parte
delas era dedicada a eventos e locais religiosos em várias partes do Brasil e do mundo.
Tanto locais de peregrinação, como festas religiosas de grande monta e beleza, as quais se
tornavam atração turística. Cobriam festas desde Conceição de Ibitipoca até o Japão.
Este número em questão trazia a seguinte manchete:
“Semana Santa – Tradição preservada em Minas – Ruas de pedra decoradas e
janelas enfeitadas com toalhas bordadas para as procissões mudam a paisagem das
cidades históricas”.
Em seu texto se podia ler:
“A religiosidade, forte característica de Minas Gerais, faz da Semana Santa uma
das épocas mais interessantes para visitar as cidades históricas. Em São João del
Rei, Tiradentes, Ouro Preto e Mariana, a programação dos dias santos oferece
cerimônias emocionantes, que convidam à participação e reflexão. São missas,
procissões e encenações que enchem de vida as ricas igrejas barrocas e as típicas
ladeiras de pedra. O casario colonial ganha uma dose a mais de beleza com as
decorações feitas pelos moradores. As janelas, ornamentadas com toalhas
bordadas com motivos que remetem à Páscoa, conferem cores novas à paisagem.”
121
A fé do outro se transforma em produto típico, que dentro de um ambiente turístico
é objeto de consumo, mas pode servir de veículo para o visitante entrar em relação com o
sagrado. Esteja este sagrado onde estiver.
Uma coisa característica dos discursos do turismo é a não separação das instâncias.
História, fé, beleza, lazer, estão articulados num mesmo, e talvez seja esta articulação é que
dê a eficácia ao discurso. O turista tem a garantia de comprar um pacote completo, viaja de
trem ao passado, se emociona com as cerimônias, se encanta com a beleza da igreja e de
quebra pode ir a um bom restaurante degustar um bom vinho, com direito à escolha, de
comida mineira, italiana, francesa, chinesa, etc. Nos jornais também está explícita a idéia de
consumir Tiradentes em seu conjunto, a possibilidade de misturar as estruturas de
significado, mito, religião e lazer, como já venho demonstrando nos depoimentos e o
privilégio de estar fazendo tudo isso em uma “roça globalizada”.
Chega a ser explícita a oferta do pacotão:
“Além de participar e se emocionar com os eventos religiosos da Semana Santa em
Minas Gerais, é possível hospedar-se em hotéis e pousadas que remetem ao Brasil
Colônia. Instalados em casarões e sobrados, preservam a arquitetura, a decoração
e o típico café da manhã, farto em pães, bolos, queijos e geléias. A sensação é de se
estar em pleno séc XVIII. Nas ruas, os museus e as igrejas contam a história dos
ricos tempos do Ciclo do Ouro. Através das obras de Aleijadinho e das pinturas de
Ataíde, aprecia-se toda a suntuosidade da arte barroca.”
O apelo romântico fica bem evidente na matéria do encarte do mesmo jornal,
“Cidades de Minas”. Uma série de encartes apresentados acompanhando o Jornal Tribuna
de Minas, Juiz de Fora, uma coleção de 1998, sendo que um dos suplementos tratava da
122
cidade de São João Del Rei e de Tiradentes. Um romantismo que se traduz pelo seu sentido
anti-moderno, de um possível, imaginário, retorno a uma época idealizada:
“O casario colorido, a magnífica Matriz de Santo Antônio e as várias igrejas e
capelas conspiram contra a modernidade. O núcleo histórico é retrato vivo da
integridade colonial... Exemplar preservado das antigas cidades mineiras,
Tiradentes parece saída de um túnel do tempo ...” 16
Entretanto o texto da revista não mantém o romantismo o tempo todo, segue boa
parte contando a história da cidade, os fatos mais importantes com datas e personagens
apresentando dados de forma sóbria e objetiva. É interessante observar o projeto gráfico
destas revistas que chamam muita atenção para estes quesitos, dando possibilidade ao leitor
pouco interessado nos detalhes, de acompanhar a reportagem através de imagens e dizeres
resumidos, fotos, desenhos e cores vivas. Estes pequenos textos de maior destaque são mais
fluidos fáceis de ler e romantizados:
“A pacata cidade de Tiradentes, um dos menores municípios mineiros, não sofreu
os efeitos colaterais do progresso”.
“Passear pelas ruas de Tiradentes é imergir na história, admirar nossos artistas,
impressionar-se com a coragem dos negros... É imaginar homens e mulheres em
trajes de época andando pelas ruas, apeando de seus cavalos, conversando nas
esquinas. Como numa cidade cenográfica, imagens de nosso faroeste colonial:
tropeiros atravessando a serra, aventureiros cobiçando ouro, inconfidentes
tramando levantes...” 17
16
17
Cidades de Minas, 1998 – p. 27
idem - p. 31
123
É claro que o turista que vai a Tiradentes não sai à procura dessas figuras
imaginárias do “nosso faroeste colonial” Mas, sem dúvida, vai ficar muito frustrado se na
viagem se defrontar com uma realidade crua e dura, e ficará muito satisfeito se realizar pelo
menos um pouco de sua fantasia. Tome a forma que tomar, seja seu olhar realista ou
fantástico, vai buscar sempre entrar em contato com um passado alhures, que de certa
forma contribuirá para pensar e viver o seu presente esteja localizado em que parte do
mundo for.
124
CAPÍTULO TERCEIRO:
SEMANA SANTA, UM TEATRO DE FÉ.
Neste capítulo pretendo descrever os rituais presentes na Semana Santa de
Tiradentes, os quais condensam simbolicamente a vivência dessa sociedade apresentada no
capítulo primeiro, com sua realidade diversificada, onde os sujeitos, em um jogo dramático,
acionam lógicas de significado específicas, seja o mito, a história, a arte, o lazer, porém,
combinando-as, ou opondo-as (capítulo segundo), representando em suas performances a
vivência cotidiana da cidade, balizada pela religião, pelo turismo e pelo patrimônio cultural.
Não somente durante as celebrações da paixão de Cristo, mas também em outras
festas ao longo do calendário católico tradicional tiradentino, as procissões são
acontecimentos rituais aglutinadores da fé e da organização dos cultos religiosos. Ocupam
o maior espaço das celebrações e reúnem o maior número de pessoas, além de caminharem
pelas ruas envolvendo ainda mais a cidade. Azzi confirma que as procissões e as devoções
são as
“expressões mais comuns do catolicismo tradicional... de origem lusitana e
medieval...” (AZZI, 1977:131)
Na maioria das entrevistas foi afirmada, pelos fiéis, sua centralidade. Segundo o
presidente da Irmandade do Santíssimo Sacramento, trata-se do evento religioso mais
importante, sendo que a principal procissão é aquela que sua Irmandade organiza, a da
Ressurreição e a de Corpus Crist. Assim, cada grupo ou irmandade é responsável pela
realização de uma, ou mais de uma, procissão específica. Sua organização é de competência
leiga e seu aspecto central é a devoção ao santo, carregado no andor ao centro do cortejo.
125
Cada Irmandade ou grupo de leigos esforça-se para abrilhantar mais o cortejo pelo
qual é responsável. Faz parte da estrutur a das procissões a rivalidade e a disputa por lugares
de destaque, uma vez que sua dimensão social evoca a possibilidade de prestígio dentro da
comunidade.
“Em vista do seu aspecto social, muitas vezes nas procissões há rivalidades e
espírito de competição por um maior destaque religioso, seja da parte de
indivíduos, seja das mesmas confrarias religiosas.” (AZZI, 1977: 131).
Tal rivalidade não é característica exclusiva da Tiradentes de hoje, mas sempre
existiu entre as Irmandades em outros lugares, desde a época colonial. Ela se manifestava,
também na construção dos templos. A suntuosidade das construções e dos elementos
artísticos e sua posição nas vilas se deviam a poder e riqueza.
“A impressionante suntuosidade do século XVIII... não revela tanto a riqueza da
sociedade senão o conflito nela existente... exprimiam os anseios de dignidade,
valorização e respeito do povo...” (HOORNAERT, 1979:387).
Nas procissões, tal rivalidade se expressava
“disputando o direito de precedência...” (BEOZZO, 1977: 747).
O estudo das mudanças e conflitos sobre este direito pode dar boas pesquisas sobre
os privilégios de grupos sociais, tanto sobre a época setecentista quanto sobre a atual. 18
Constatado que a procissão é um ritual articulador do catolicismo tiradentino,
envolvendo as Irmandades, as devoções às imagens de santos, as promessas, as missas e os
18
Sobre a questão da ordem de precedência e a correspondência de status social ver Fritz Teixeira Salles,
Sueli Franco Campos e Afonso Ávila
126
sermões, acredito que, descrevendo-as e analisando-as estarei, enfocando a maior parte dos
elementos do catolicismo local em seu conjunto. Somente durante a quaresma, no período
daquilo que chamam de Comemorações da Paixão, ocorrem 10 procissões pelas ruas da
cidade, uma procissão interna, o translado do Santíssimo Sacramento e a Via Sacra todas as
quartas e sextas feiras do período. Ao longo do ano, durante outras festas de outros Santos,
as procissões continuam tomando posição de destaque, comprovando sua preponderância
dentre os rituais católicos da cidade.
As procissões em seus primórdios, na Europa, tinham o caráter de grandes
espetáculos de rua, incluindo pequenos autos dentro dos cortejos, referindo-se sempre a
fatos míticos do catolicismo (SANCHIS, 1983). Hoje, em Tiradentes, seu sentido continua
sendo o de um grande teatro, superposto à narrativa mítica. Através da dramatização cênica
representa, ao mesmo tempo, um mito católico e uma realidade local, garantindo uma
originalidade na maneira como os atores se dispõem e dialogam dentro desse teatro de fé.
Assim, desde os preparativos, até o cortejo em si, tudo o que acontece tem uma
significação, da elaboração de figurinos e cenário até a definição dos espectadores, tudo
participa da composição, como em uma peça de teatro. É na forma como ela se compõe e se
apresenta é que posições sociais e visões-de-mundo são representadas e percebidas.
A Semana Santa é o momento mais importante do calendário litúrgico católico, já
que conta seu mito mais importante, a morte e ressurreição de Cristo. O filho de Deus que
se tornou homem, de acordo com o projeto divino, para redimir os homens de suas falhas e
ofensas. Este mito bíblico remete à
“concepção metafísica que permite apresentar o universo como o grande teatro da
luta incessante entre o Bem e o mal” (AZZI, 1987:102).
127
Somente Deus é o princípio de todas as coisas, sendo o bem a verdadeira ordem da
realidade e o mal consistindo em uma sub ordem. Os passos da paixão, representados na
Semana Santa, mostram os passos terrenos de Jesus na confirmação do projeto de Deus de
salvar a humanidade pelo sofrimento e morte de seu Filho, reintegrando o homem na graça
divina.
A seqüência de procissões e celebrações, em torno da Paixão, em quase todas
cidades católicas brasileiras, acompanha a ordem da narração do mito, a começar pelo
Domingo de Ramos, que narra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, passando pela sua
prisão, crucificação, até a Ressurreição. No entanto, em Tiradentes, e também em São João
Del Rei, a procissão dos Passos e do Encontro, a qual narra a subida de Jesus ao Calvário,
que em todos os lugares se realiza na Quarta-feira Santa, ocorre duas semanas antes. Esta
tradição é uma herança do catolicismo lusitano e chegou à cidade pelos primeiros
portugueses que ali habitaram.
A Festa de Passos foi abolida da liturgia oficial da Igreja Católica após o Concílio
Vaticano II, que pretendia homogeneizar as práticas católicas e eliminar boa parte das
devoções populares, juntamente com a festa de Nossa Senhora das Dores, precedida pelo
Setenário. A procissão dos Passos ainda é realizada, em outras cidades do país, no período
estrito da Semana Santa, ou seja, na semana da comemoração da Paixão realizada por toda
Igreja Católica. Porém, estas festas foram mantidas em Tiradentes de acordo com um
calendário tradicional com a seqüência de rituais tradicionais. É interessante observar,
nessas festas, a presença da influência de vários períodos da história do catolicismo no
Brasil, desde a influência lusitana, passando pelas determinações Tridentinas da reforma e
também do Vaticano II.
128
Contam os realizadores da Festa de Passos que alguns padres e fiéis já tentaram
mudar a data, para coincidir com o calendário litúrgico oficial, mas isso não foi feito,
mantendo a tradição, às vezes a duras custas, uma vez que houve época em que o ritual
ficava esvaziado. Houve uma época em que a procissão era pouco freqüentada, para se
manter a tradição tomaram algumas iniciativas, inclusive de escrever em jornais sobre sua
importância cultural e histórica.
Uma pesquisa histórica sobre a manutenção da procissão nesta data, quando houve
uma mudança geral na liturgia de toda a Igreja, bem como sobre os elementos residuais de
cada época histórica, pode se apresentar interessante, mas aqui interessa mais enquanto esse
fato apresenta um motivo atual para estar em oposição ao restante das celebrações. Mesmo
sendo uma festa em contigüidade à Semana Santa, em calendários de festas da cidade e no
Guia Informativo da Diocese de São João D’el Rei (1990: 103) aparece como um evento à
parte. A hipótese cogitada é primeiro que, sendo rituais contíguos, em termos de narrativa
mítica, podem ser também em termos de narrativas sociais e segundo, por estarem em
oposição, na medida em que cortam a narrativa, mudando sua ordem, pode ser um bom
indício para se pensar oposições sociais e simbólicas atuais.
Uma vez que a Semana Santa é, além de um momento religioso, um momento
turístico, se a religião e a festa são uma reunião oportuna para a sociedade ser pensada
idealmente, então, nos eventos em torno dessa celebração, ou vista por um outro ângulo,
desse feriado, as culturas em foco, da tradição local e do fenômeno tur ístico e do
patrimônio cultural, estão articulando, simbolicamente, aquilo que vivem concretamente e
diariamente.
129
Como já foi mencionado, para vários autores, Pierre Sanchis, Roberto Da Mata,
Jaques Heers, Teixeira Sales, Beozzo, dentre outros, as procissões são rituais religiosos e
sociais onde está presente a representação de uma hierarquia, tanto religiosa quanto social.
Esta hierarquia segue uma “ordem de precedência” segundo a qual as Irmandades e
autoridades se classificam pelas posições que ocupam no cortejo de acordo com a
aproximação do objeto relíquia ou da imagem do santo. Na procissão do enterro realizada
na Sexta feira da paixão, em São João Del Rei, estudada por Sueli Franco,
“Verificamos que, ainda hoje, as procissões significam local de afirmação social e
demonstração de status para a população. ... A distinção espacial repetida a cada
ano preserva, de certa maneira, a hierarquia social herdada dos setecentos e revela
a estratificação desta sociedade contemporânea. Os membros da Irmandade do
Santíssimo são os únicos que levam o esquife do Senhor Morto. Por sua vez, os
homens ilustres são os únicos que carregam as lanternas que ladeiam o andor.
A
fixidez das posições deixa entrever vínculos com as formas societárias atuais,
herdadas do período colonial.” (franco, 1995: 149).
Tais rituais poderiam ser definidores simbólicos de espaços sociais. Contudo, mais
do que compreendê-los como rituais imbuídos da função de reforçar e discriminar status
social, seria mais adequado pensar a procissão como um “comentário metassocial”19 sobre
distribuições hierárquicas. Poderia entender essas procissões não por uma função de
classificação social e espacial, mas como apresentação de discursos sobre como os grupos
estão, ou deveriam estar, sendo dispostos. No caso de Tiradentes os grupos que me
19
Clifford Geertz na sua compreensão sobre a briga de galos na Indonésia (1978: 317)
130
interessa são os tiradentinos, as Irmandades, os turistas, e as instituições, sejam religiosas
ou artístico-culturais.
Se colocar a procissão de Senhor dos Passos, que ocorre antes da Semana Santa
propriamente dita, em contraposição à procissão do Senhor Morto que acontece na Sextafeira da Paixão, ponto alto do feriado, pelas diferenças e semelhanças que apresentam,
posso dizer que estão, dentro daquele “sistema de comunicação”, elaborando diferentes
narrativas sobre como devem ser definidas as relações entre nativos e turistas, entre os “de
fora” e os “de dentro”, a partir de sua inserção no ritual. Tal inserção dependerá do sentido
dado ao objeto religioso, resultante da manipulação das estruturas de significado em vigor,
história, arte, religião e lazer.
Com este recorte ritual, o período das celebrações da Paixão, tomando como
referência principal a Festa de Passos e suas procissões e a Sexta Feira da Paixão com a
procissão do Senhor Morto, pretendo visualizar algumas das formas como se expressa,
nesta sociedade, a articulação entre estes três elementos, o turismo, o patrimônio e a
religião.
A partir dessas considerações, posso afirmar que a procissão do Senhor dos Passos
traz uma narrativa em que predomina uma visão de mundo caracterizada pela religiosidade
tradicional de Tiradentes, digamos, uma visão de mundo nativa, ou pelo menos uma delas,
e na procissão do Senhor morto, durante o feriado, a narrativa local é transpassada de tal
forma por elementos de fora, que a estrutura do evento se modifica. Assim são duas
representações contíguas, por fazerem parte de um mito maior, mas que se opõem na
medida em que conjugam, de diversas maneiras, atores e visões de mundo, representando,
131
ou melhor, tecendo comentários sobre as várias e dinâmicas formas de uma realidade
complexa marcada por encontros, desencontros, combinações e inversões.
Nos Passos da História e da Tradição
Em 1721 foi fundada a Irmandade de Nosso Senhor dos Passos, devotada à imagem
deste. Tal imagem, certamente trazida de Portugal, ficava na Capela do Bom Despacho, em
um arraial entre a antiga Vila de São José e o Porto da Passagem, o Arraial do Córrego. Em
1727 tal imagem foi transladada para a Matriz de Santo Antônio
“por ocasião de uma grande seca, quando se fez novena e procissão do mesmo
Senhor para pedir a Deus chuva para molhar a terra. Desta época em diante a
Irmandade se transferiu para a Matriz e no ano seguinte se dá providência para
construir um altar para a imagem do Senhor” (RODRIGUES, 1996).
Hoje a Confraria de Nosso Senhor dos Passos é uma associação religiosa que só se
reúne para a realização da festa. São os responsáveis pelo evento desde sua preparação.
Desde a organização dos objetos rituais, velas, lanternas, tochas, paramentos, a túnica que
irá vestir a Imagem com sua cabeleira natural e etc, até a preparação do andor e seu
translado pelas ruas. Pude observar estes rituais por dois anos seguidos e sua descrição se
torna fundamental para pensar seu processo e seu sentido.
Tudo começa com um momento interessante, quando, na véspera da procissão do
Depósito, alguns homens se reúnem na igreja, durante a noite soturna e silenciosa da cidade
e trocam a roupa da Imagem. Ela fica em um altar lateral da igreja Matriz, vestida com uma
túnica e uma cabeleira velhas.
132
Os homens se dirigiram para lá com a túnica nova e vários outros acessórios
cuidadosamente preparados para a festa. A imagem foi colocada em um andor em cima de
uma mesa, belíssima, de um semblante algo impressionante, de olhos penetrantes, quase
real, quase comovente. Apenas um deles subiu no andor e começou a despi- la, da velha
túnica, movimentando os braços articulados com o cuidado de um respeito sacral misturado
a uma consciência histórico-artística de quem realmente sabe o valor da peça de mais de
duzentos anos. Retirou as roupas de baixo, comentou sobre os enchimentos que precisavam
ser trocados, pois já completavam uns 15 anos. O santo foi todo vestido com roupas novas,
bem preparadas, lavadas e reformadas e as velhas foram guardadas. Colocaram a peruca
nova, com seus cachos recém preparados em um salão de cabeleireiro e em seguida a coroa
de espinho. Por último colocaram a cruz de madeira de uns dois metros e meio de
cumprimento, a qual simboliza o martírio definitivo de Cristo, símbolo máximo do
cristianismo.
No dia seguinte entraram em cena mulheres e crianças. Trouxeram arnica,
manjericão e rosmaninho, ervas aromáticas usadas no período da quaresma para enfeitar e
perfumar o andor e a igreja. Durante todo o dia, em horários regulares, as seis, doze e
quinze horas, os sinos dobraram anunciando as celebrações do dia. O sino da igreja das
Mercês toca chamando a imagem que irá descer em procissão, em seguida o sino da Matriz
responde. Componente ritual importante o dobre do sino, lento, avisa de um falecimento, é
sino de morte. Se um sino assim é tocado em um dia comum, todos na cidade sabem que
morreu alguém. Este tipo de dobre é tocado durante todas as festas da Paixão, com exceção
para o Domingo de Ramos que celebra um momento alegre, até a procissão da prisão, onde
começa o sofrimento de Jesus e o Domingo de Ressurreição.
133
Durante os preparativos do andor a igreja se encontra aberta e grupos de turistas
entram e saem constantemente. São grupos de excursão, casais, famílias, duplas, gays,
estrangeiros e brasileiros, professores e alunos, velhos e jovens, religiosos e leigos. Não é
feriado, nem dia de visitação intensa, se destacam não pela quantidade, mas pela
diversidade.
Pude observar um grupo de estudantes que entrou na igreja chamando a atenção de
todos, a professora explicava coisas sobre a riqueza da igreja, o douramento e a diferença
com outras mais pobres. Como uma aula expositiva em campo, fez as devidas conexões
com a história da exploração do ouro em Minas. Professora e alunos notaram e
demonstraram insatisfação quanto ao luto dos altares, velados com um pano roxo em
virtude da quaresma e comentaram que poderiam ter vindo em outra ocasião se soubessem
da existência dessa tradição.
Turismo, religião e história se cruzam todo o tempo, às vezes um ocupando o lugar
do outro. No momento, a devoção e o sinal de luto dos altares atrapalhavam a visitação dos
viajantes e a aula de história da professora paulista. Bem que podia ter aproveitado a
ocasião e complementado sua aula contando da tradição popular, mas percebe-se que neste
caso preponderava uma visão mais unilateral do processo. Outros turistas, sem a menor
noção do que estava acontecendo perguntavam aos nativos que arrumavam o santo se
haveria um casamento aquela noite.
Sábado à noite realizaram a procissão do Depósito, levando a imagem da Matriz
para a igreja das Mercês. A imagem saiu da igreja guiada por confrades da Confraria de
Nosso Senhor dos Passos, vestindo terno preto, carregando lanternas de prata e o andor. Os
sinos dobraram, marcando o ritmo do caminhar, abrilhantado pela Banda Ramalho.
134
Puxando a procissão, ia um carro da polícia com as luzes acesas, guardando certa distância.
A procissão estava sendo liderada por dois castiçais grandes de madeira, um de cada lado, e
ao meio, um crucifixo também velado com um pano dourado. Formando as alas, à frente as
beatas, carregando velas, a maioria usando uma faixa vermelha aos ombros (estas eram do
Apostolado da Oração). Quase todos carregavam velas às mãos. Os irmãos do Santíssimo
Sacramento levavam lanternas, caminhando junto ao padre com uma Custódia de prata
portando uma relíquia da Santa Cruz, cobrindo-o com o Pálio. Eram seguidos, ao meio,
entre as filas, por vários coroinhas, alguns com turíbulos incandescentes e velas. A certa
distância apontou o centro da procissão, o andor com a imagem de Senhor dos Passos
cercado pelas lanternas, envolta por um velário roxo. A mesma fila certinha da frente se
prolongava até fechar com o coral, que nesse dia não canta na rua, somente na igreja, todos
de preto, por fim, a banda tocando a marcha fúnebre de Manoel Dias de Oliveira
(compositor tiradentino, barroco, setecentista).
A procissão desceu a rua do Sol, passando pela igreja do Evangelista, cujos sinos
também foram dobrados. O clima era de extrema solenidade e respeito, característica que o
assemelha a um ato fúnebre. O cuidado dos confrades, em todo o processo de carregar o
andor, também é marcante. Seis pessoas carregam, se revezando ao longo do caminho e
levando, com uma das mãos, barras de madeira, com ponta de metal, usadas para descansar
o andor, parando de vez em quando devido ao peso. Seu caminhar é objetivo e mais
acelerado por esse motivo, por sinal muito enfatizado, fazendo parte do drama. Paravam,
descansavam, alguns se revezavam e quando a procissão chegava a certa altura, um deles, à
frente, dava o comando para seguirem, batendo no andor três vezes.
135
A procissão seguia solene e ritmada, hora se movendo, hora parando e aguardando o
equilíbrio do corpo “arrastando que nem cobra” pelas ruas seculares, estreitas e contorcidas,
calçadas por grandes pedras desniveladas. Pouco antes de chegar na praça, perto da
prefeitura, mais ou menos a meio caminho entre as duas igrejas, avistava-se um segundo
grupo de pessoas, carregando velas, do outro lado da cidade. É a Irmandade das Mercês
ostentando suas opas brancas que, pertencentes à outra igreja, vinham encontrar-se com a
procissão, para que lhes fosse passado o andor com a imagem e levado em seguida para ser
depositado em seu templo. Era um momento de silêncio absoluto, literalmente, só ouvindo
o burburinho da passagem do andor, que pela solenidade, reforçava o tom sagrado. Marca,
este ato, uma divisão de territórios entre as duas Irmandades, que historicamente, como já
foi falado, guardam relações competitivas.
O povo seguia sua caminhada alcançando o largo das Forras, é lá que se viam os
primeiros turistas da noite. No ano de 2000, havia uns poucos, que rodeavam a praça com
seus cães e suas pipocas. Os bares fecham suas portas. Os turistas ficavam totalmente de
fora do cortejo e se relacionavam como meros espectadores, e espectadores inusitados.
Eram turistas eventuais, não esperados como serão os da Semana Santa, mas que estão
sempre pelas ruas da cidade. A maioria deles não esperava a procissão, que os surpreendia.
Chegando no adro à porta da igreja, a imagem se volta para o povo, um confrade
sobe no andor para dobrar o braço da cruz e entra na igreja de costas para o altar, onde, ao
chegar, é desvelada e incensada, enquanto orquestra e coro entoam “Popule Meus”. Fim da
cerimônia, as pessoas relaxam e desordenadamente se encaminham em assalto às flores,
arnica e manjericão do andor.
136
No dia seguinte, domingo de manhã realizaram a segunda procissão, a Rasoura, em
torno da igreja. Antes tiveram que preparar novamente o andor com as ervas, pois foram
todas retiradas na noite anterior. Todo o trabalho recomeçava, com o mesmo cuidado nos
detalhes e no arranjo das plantas. Mais rosmaninho era jogado pelo chão e manjericão
chegava pelos ombros das pessoas.
Naquele ano, quando o sino começou a tocar, anunciando a cerimônia, saiu, de
repente lá de dentro da igreja, um confrade das mercês que, aflito, gritou para os sineiros
diminuírem o ritmo do dobre. Estava mais acelerado do que o correto, de acordo com a
tradição.
“A semana santa tem um ritmo lento que precisa ser respeitado, não pode tocar
assim.”
Mais tarde descobriram que entre os sineiros havia um rapaz de São João Del Rei que,
supostamente, teria sido o responsável pelo ultraje.
Todos prontos, em seus lugares, retomava-se o tom solene e o padre, desta vez um
convidado de fora da cidade, começava a incensar a imagem, enquanto o coro,
acompanhado de instrumentos, violinos e flautas, cantava. Em seguida saíram da igreja já
formando fila para a procissão. As crianças, meninas e coroinhas com seus turíbulos, vão à
frente, seguidas pelas mulheres. A banda começava a tocar enquanto saia a imagem. O
braço era arrumado e iniciava-se a procissão, desta vez tendo o andor carregado pelos
membros da confraria das Mercês, acompanhados pelas lanternas, apesar de ser dia,
vestindo terno preto por baixo da túnica branca. A imagem do Senhor dos Passos
contornava a igreja por fora, a qual é cercada pelo cemitério, exclusivo da irmandade. Os
confrades dos Passos, sem terno e meio sem poder mexer no andor não deixavam de
137
acompanhar atentos, cercando de cuidados. O andor para entrar na igreja, novamente se
virava para o público. Por último vinha o padre, bem paramentado, carregando a relíquia e
acompanhado do pálio, carregado pelos irmãos das Mercês.
Na igreja celebrava-se a missa, sem sermão e com muita música. Executavam
composições de músicos da região, que viveram em séculos passados, Pe José Maria
Xavier, inclusive seu famoso Ofício de Trevas, e Manoel Dias de Oliveira. Ao final da
missa o ritual de sempre, beijar a túnica do santo e pegar as plantas. Saindo da igreja um
clima alegre, de alívio e tranqüilidade, próprios de uma bela manhã de domingo. Todos se
encaminharam para suas casas e se reuniram para o almoço. As famílias caminhavam com
um explícito ar de nostalgia, este, diria, próprio de um dia de finados com muito sol. Uma
mistura de saudade, dos que já passaram, e alegria, por partilhar do presente com os seus.
Na noite do mesmo dia começava tudo de novo. O andor era enfeitado com flores e
ervas novamente. O mesmo cuidado, a mesma disposição para arrumar tudo. Colocavam
quatro focos de luz atrás da palmas para iluminar a imagem e seu rosto. A energia seria
fornecida por meio de uma bateria de carro escondida no andor, o que aumentava seu peso.
Alguns personagens eram acrescentados no ato da noite. Da igreja das Mercês saíram
meninas e meninos vestidos de anjos e garotos segurando velas atrás do andor,
paramentados como os confrades. Ao mesmo tempo, da igreja de São João Evangelista saia
a procissão carregando a imagem de Nossa Senhora das Dores, acompanhada por dois
jovens representando José de Arimatéia e Maria Madalena, como no mito bíblico.
Às seis horas tocaram os sinos da Matriz chamando o cortejo, seguido pela resposta
vinda da outra igreja. Na medida em que escurecia o povo ia saindo da igreja, à frente do
138
cortejo o pendão com a inscrição S P Q R20 . Seguiam as beatas iniciando a fila, enquanto o
povo se aglutinava lentamente em duas colunas, na medida em que começava a se
movimentar, puxando o fio e desenrolando o novelo de pessoas. Esta noite acompanhava
uma pequena multidão, pelo menos em proporções locais. Seguiam ao meio, primeiro os
anjos, os coroinhas e turíbulos a incensar a noite, os irmãos do santíssimo, das Mercês e
levando o andor e as lanternas a Confraria dos Passos, usando uma opa roxa, por cima do
terno preto, seriam os únicos a carregar o andor desta vez. Atrás seguiam os garotos com
traje similar e mais distante o padre. Por fim, abrilhantando, a Banda Ramalho. O coro
desta vez seguia à margem, se adiantando até o próximo Passo. Dois garotos carregavam o
“rabecão” do seu Joaquim, um velhinho que zelava pela igreja. Os músicos iam formando o
coral silenciosamente e com seriedade atentavam para o comando gesticulado da regente.
Do outro lado da rua os turistas e alguns moradores, já avisados, se reuniam emparelhando,
na expectativa. A procissão parou quando a imagem chegou à frente da pequena
construção. Descansavam do peso, os carregadores do andor, com seus bastões, porém
atentos para manter o equilíbrio. Os padres se adiantavam e incensavam dentro do Passo, o
qual guarda a tela pintada com o seu tema, iluminado por velas. Enquanto isso o coro
cantava o Moteto 21 de Passos.
O cortejo prosseguia subindo as ruas, vigoroso em seu ritmo solene, exibindo um
contraste de brilhos prata e ouro com o preto e o roxo das túnicas, tendo o céu estrelado de
lua fina como fundo de seu cenário de fé, em harmonia com a emanação melódica dos
instrumentos de metal, envolvendo as pessoas que caminhavam pelos sete passos da dor.
20
Inscrição em latim, “salve o povo que é romano”, que costumava acompanhar o exército romano ou seus
cortejos. O povo de Tiradentes criou outra versão para a expressão: “Senhor dos Passos Quer Rapadura”.
21
Pequena oração cantada em latim.
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Enquanto isso a procissão com a imagem da mãe, tradicionalmente seguida pelas
mulheres, aguardava, em frente à igreja de Nossa Senhora do Rosário, juntamente com
mais uma pequena multidão que se apertava em volta do largo, em frente à cadeia e pelo
passeio. Acho que a cidade quase toda compareceu, uns fervorosos, outros passeando,
alguns que foram “pelo menos para rir da cara dos outros”, como me confessou um rapaz.
Quem não foi, certamente não pôde ou tinha seus motivos também religiosamente
significativos.
A outra procissão chegou com a imagem e parou a uns dez metros da outra,
enquanto em frente à igreja, em um púlpito armado para a ocasião, se posicionava o padre
para proferir o sermão. As luzes dos lampiões, pouco poderosas, traziam mais clima para a
noite, os andores tinham suas próprias luzes e o padre, sem foco, ficava apagado ao fundo,
ouvindo-se apenas sua voz. As pessoas atentas chegavam a chorar, sabe-se lá por quais
pensamentos.
Na medida em que o padre falava, os andores se aproximavam, obedecendo às suas
palavras, até ficarem frente a frente, auge da cena. Em seguida ficavam um ao lado do
outro, e a imagem de Jesus passava à frente e a de sua Mãe a acompanhava logo atrás com
seu andor perfumado de rosas pelas ruas tortuosas da cidade.
Iam de Passo em Passo, repetindo a reverência. O andor pesava nas ladeiras e o suor
escorria nos rostos já retorcidos pela força que faziam os homens. Na última subida, pela
rua da Matriz, caminhavam ao som do sino dobrado, subiam até o adro pelas escadas, a
parte mais difícil para quem levava o peso das imagens, da cruz e da virgem. Lá em cima,
com o povo aglomerando, as imagens se viraram para todos por alguns instantes, como
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atores ao final do último ato. Entraram na igreja e os padres encerraram a cerimônia, é claro
seguida pelo assalto dos fiéis às imagens e suas flores.
Percebe-se, a partir dessa descrição, que a Festa do Senhor dos Passos, juntamente
com a de Nossa Senhora das Dores, é estruturada por pelo menos três elementos
fundamentais: a contrição, marcada pela reclusão, pelo ritmo solene e pelo silêncio; o foco
primordial na tradição, herdada dos antepassados; e a definição de espaços simbólicos.
A reclusão, no sentido de velar, encerrar, faz parte de alguns momentos importantes,
como o sigiloso gesto de vestir a Imagem de roca que é velada na primeira procissão, a do
Depósito, e os altares cobertos por um pano roxo. Essa atitude é importante para gerar um
clima de mistério em torno da veneração, o que realça seu caráter sagrado. O ritmo,
garantido pelos sinos das igrejas, com seu dobre fúnebre, marca o andamento solene dos
cortejos, chamando atenção para uma atitude de sofrimento e tristeza.
O silêncio está presente desde o preceito de que não se pode falar durante a
cerimônia até a pouca informação e divulgação da festa, que não chega principalmente ao
turista. Nota-se que os turistas presentes na cidade nem sequer desconfiavam, pelo menos
neste ano, de que passaria pelas ruas uma procissão tão solene e exuberante.
Uma passagem ocorrida no ano de 2001, às vésperas da festa, é interessante para
percebermos este gesto e alguns conflitos que acabam surgindo com moradores não
nativos, que por sinal raramente se mostram presentes nestas horas. O ocorrido foi durante
a reunião da oficina do projeto Monumenta, um diálogo entre um “ET”22 e um nativo que
organiza a festa. Vejamos:
22
No dizer dos nativos tiradentinos, são os moradores não nascidos na cidade, os “extra-tiradentes”.
141
Eu havia perguntado ao tiradentino o que ele achava da inclusão da festa do Senhor
dos Passos em um calendário municipal de divulgação de eventos que propunham formular
dentro do projeto. Ele respondeu:
“Nesse calendário não quero divulgar a festa não, a gente divulga pouco de
propósito.”
O “et” comentou baixinho:
“este povo é muito metido a besta”.
Percebeu que o tiradentino estava com um folheto da festa dos Passos e o interpelou para
dar uma olhada, o qual perguntou a este se ia à procissão.
“ET”: “Acho a imagem do Senhor dos Passos um horror, uma coisa mórbida, que
não me dá a menor vontade.”
Tiradentino: “... elas foram feitas para impressionar mesmo”
ET: “Não, pois é, mas eu detesto, é uma coisa mórbida. Horrível, não adianta você
falar que é do século 4, 13, 12, 18 ... pô, um cadáver, cadáver só o do Lenim e olhe
lá, e tá embalsamado.”
Tiradentino: “o mineiro é muito afeito a ...”
ET: “Quer dizer que isto aqui não é pra falar pra ninguém, né? Mas eu vou
disfarçado, de boné, de boné não pode, mas enfim, óculos escuros. Lá você não vai
me dedurar não, né?”
Tiradentino: “...mas esse negócio eu não tenho muito interesse em divulgar não,
senão fica igual à procissão do enterro...”
142
Há uma “valorização ética do silêncio” (SODRÉ, 1994:9), representada na atitude
contrita proclamada pela tradição, que permeia as relações mais concretas da vida
cotidiana, tanto entre os nativos como entre nativos e turistas, vividos como num jogo de
mostrar e esconder.
Outro fato interessante, ocorrido há alguns anos, foi o da recusa por parte da
Confraria dos Passos em ceder a imagem para que a Rede Globo filmasse a abertura da
minissérie “Hilda Furacão”. Segundo um dos confrades, responsável pela preparação do
santo:
“A Globo só põe a mão naquela imagem se eu estiver morto.”
Ora, ele sabia que, se a bela cerimônia fosse transmitida a nível nacional, em horário
nobre, certamente o assédio seria imenso. Assim reserva-se lugar ao silêncio e ao mistério,
e desta forma o espaço de um discurso marcado pela tradição e pela evocação do equilíbrio
social, conduzindo os que estão de fora, pelo jogo do silêncio, a posar discretamente como
um observador digno de seu valor.
A procissão é um ritual que, narrando um mito bíblico, superpõe, através de sua
representação dramática, uma tradição vivida e definida localmente. Mais do que
simplesmente falar da Paixão e morte do filho de Deus, o tiradentino, pela lembrança de
seus antepassados e da herança cerimonial que deixaram, está vinculando-se à tradição,
evocando e afirmando preceitos morais e uma visão do seu mundo social que serão
fundamentais na ordenação de suas relações. Mas não só é uma lembrança do passado ou
uma afirmação da tradição, é um jeito próprio de pensar e viver o presente.
143
A Confraria dos Passos, responsável pela festa, não é composta por autoridades
civis ou religiosas, mas são filhos, netos, parentes ou herdeiros de algum modo, de homens
que, por décadas, cumpriram o mesmo ritual. Como disse um confrade, as pessoas vão pela
fé também, mas principalmente para lembrar de seus pais que já faleceram. A segunda
cerimônia, a Rasoura, é uma procissão em torno da igreja, onde também se encontra o
cemitério da Irmandade, como foi descrito, lugar mais do que propício para se lembrar os
mortos.
É importante consagrar, a cada ano, os gestos rituais que fazem as cerimônias, desde
o vestir a imagem longe dos olhos curiosos e a preparação de ervas aromáticas no andor,
até na relação distanciada com o clero, mero funcionário da festa, assim como era no século
XVIII. Nessas lembranças afirmam-se valores e aprendizados passados de pai para filho
através de gestos, palavras e exemplos de vida. Em algumas entrevistas confirmou-se como
um valor social o costume de falar comedidamente. Esses valores que foram passados pelos
pais e avós não eram à base de repressão forçada, mas através de uma conversa sutil e
delicada, própria de quem é contrito e silencia mais do que fala. Nessa evocação da tradição
reafirma-se o silêncio, enfocando como um preceito importante na regulação do
comportamento social.
O terceiro ponto que chama a atenção nas procissões é a definição de espaços nos
rituais. Cada uma das pessoas, ligadas diretamente à produção das cerimônias, tem a sua
função e o seu lugar definido no cortejo, na maior parte das vezes definidos por herança.
Cada Irmandade tem o seu território, cada personagem, padre, coroinha, andor,
carregadores de velas e lanternas, banda e coro, tem uma posição correta. Paralelamente,
são formadas duas filas uniformes que acompanham o núcleo, formado por aqueles. Nelas,
144
as pessoas se dispõem com mais liberdade, mas não aleatoriamente. Nota-se que alguns
procuram caminhar em pontos mais ou menos definidos. As beatas costumam ir à frente,
puxando a procissão, os mais devotos e emocionados, em geral, caminham junto ao andor e
os mais relapsos e que não estão muito interessados em entrar na igreja, ou que gostam de
ouvir a banda, sugestivamente podem vir a escolher os últimos lugares. Isso lembra
Roberto da Mata que anuncia as procissões no Brasil como rituais de
“características conciliadoras, pois seu núcleo é formado das pessoas que
carregam
a
imagem
do
santo,
e
tais
pessoas
estão
rigidamente
hierarquizadas...Entretanto, o núcleo é formado e seguido por um conjunto
desordenado de todos os tipos sociais” (DAMATTA, 1983: 51),
deixando, então, para a massa do povo certa margem de liberdade de disposição. Digo certa
liberdade, porque apesar de poderem escolher pontos, não rigidamente definidos
horizontalmente, transversalmente é impossível seu deslocamento durante a caminhada. E
ainda, creio que, por trás desse preceito, pode estar a idéia de que essas colunas, formadas
pelo povo, são como que alicerces sobre os quais se ergue, simbolicamente, a autoridade da
tradição e do sagrado. A regra mais importante é que as pessoas se disponham de tal
maneira que não se rompa a uniformidade do cordão e que o ritmo não seja quebrado,
caminhando andor e colunas em harmonia e equilíbrio. A simetria alcançada, somada às
contorcidas ruelas por onde passa e ao contraste entre o luto das roupas e o brilho das
lanternas, assemelha-se demasiado às esculturas e pinturas barrocas com seus rococós e
seus contrastes. É a representação ordenada e harmônica de uma sociedade no encontro de
seus valores e sua identidade mediante a reverência à tradição e ao transcendente.
145
Diferente da procissão do enterro em São João Del Rei, as procissões em Tiradentes
não têm uma definição social de status tão bem construídas. A cidade vive uma realidade
diferente e as mudanças sociais em sua história impediram que propagasse até os dias de
hoje as hierarquias mais antigas, embora haja uma nítida permanência de grupos familiares
que se perpetuam no controle de algumas Irmandades e rituais. A chegada do turismo, a
grande interferência do Patrimônio e a movimentação cultural alteraram e alteram a
configuração social. Sua vivência atual é muito dinâmica e pessoas saem ou entram nas
Irmandades de forma mais flexível. No entanto mesmo que as hierarquias sociais não
estejam evidentes nas procissões, elas não deixam de expressar a realidade social, pelo
contrário, mais à frente voltarei ao assunto da dinâmica social expressa no simbolismo
ritual quando for falar de como os mesmos rituais se modificam de um ano ao outro.
Um espaço constitutivo da procissão, não abordado por Da Matta, mas que está
presente particularmente em Tiradentes, é o espaço da platéia. Se o povo acompanha o
cortejo formando colunas periféricas ordenadas, os turistas, que não se arriscam a penetrálas, margeiam aleatoriamente, às vezes andando, às vezes parados aguardando em frente
aos Passos, ao redor das praças por onde passa, ou próximos a bares e pousadas que cerram
as portas em sinal de respeito. Mas essa disposição programada só ocorre no segundo dia,
quando já estão sabendo das celebrações, pois a procissão do Depósito é feita com tanto
silêncio e mistério que os surpreende na rua, os quais, na maioria, estão mal informados.
Pelo menos isto foi o que aconteceu em 2000. Alguns se espantavam, outros se
emocionavam e faziam reverência, enquanto outros ficavam ávidos por uma fotografia.
Assim, ao turista era reservado um lugar, que não é desprezível, mas aparece como um
componente vital do drama, o de espectador, que desperta no grupo uma vaidade
146
importante para sua auto-estima, quando percebe que sua história e tradição são
valorizadas. História que, em seu imaginário, não pertence ao IPHAN, à humanidade ou ao
Brasil, mas a ele, tiradentino, homem comum, lavrador, charreteiro, barbeiro, confrade, etc.
Mas, o que interessa é que, diante do culto, o turista, genericamente falando, se
posiciona como público de um espetáculo histórico-cultural que faz renascer, diante de seus
olhos, uma época passada da sociedade, ao mesmo tempo em que, por vezes, relembra o
próprio passado, quando na infância ou juventude via ou participava das procissões que
ocorriam em alguma cidadezinha do interior. Em uma entrevista, um turista, nascido no
interior de Minas, mas que morava no Rio desde criança, se emocionou a ponto de verter
lágrimas, coisa atípica para quem está passeando, falando da procissão que assistiu e das
lembranças que lhe vinham de seus pais já falecidos. Certamente em uma coisa turista e
nativo entram em acordo, nesse nível simbólico, quando a lembrança e a nostalgia tomam
conta de um e de outro, mesmo que por caminhos diferentes.
A Semana Santa
Gostaria de ilustrar mais a descrição, apresentando cada dia da Semana Santa, suas
celebrações e procissões mais importantes.
Domingo de Ramos
A procissão do Domingo de Ramos, também chamada de Procissão do Triunfo,
muito agrada aos moradores de Tiradentes. É uma procissão festiva que comemora o triunfo
de Jesus entrando em Jerusalém, poucos dias antes de ser preso e condenado. Marca,
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liturgicamente, o início da comemoração da Paixão, evidenciando a contradição dos homens
que primeiro o receberam em louvação e depois o crucificaram.
Como na cidade as comemoração iniciam antecipadamente, a procissão de Ramos se
apresenta como um momento de alívio entre a festa de Passos e de Dores e a Paixão
propriamente dita. Os sinos repicam alegremente, as pessoas estão contentes e a manhã
surge com céu claro anunciando um dia ensolarado. A banda caminha pelas ruas tocando
dobrados, alegres entremeando canções religiosas atuais como “A Barca”. O cortejo se
estrutura como sempre, com alas bem organizadas perifericamente, trazendo ao centro o
padre acompanhado de figurantes, Jesus montado em um burrico e seus doze apóstolos
vestidos de túnicas de cetim coloridas. Todo o povo carrega ramos de aricanga, palma
colhida nas redondezas para serem bentos. Dizem que em dias de tempestade devem ser
queimados para espantar o perigo de raios e ventos fortes.
Poucos turistas já estão pelas ruas na manhã deste domingo. A festa se faz muito
“caseira”. Apenas alguns, por causa do barulho da banda, ousam apontar nas janelas das
pousadas ao longo do caminho. No entanto, nota-se uma presença considerável de
fotógrafos acompanhando principalmente o final do cortejo, quando vai entrando na Matriz
de Santo Antônio, seu destino, para a celebração da Santa Missa, acompanhada pela
orquestra e pelo coral que abrilhantam a festa com músicas barrocas coloniais. Os sinos
repicam todo o tempo em sinal de alegria e homenagem ao triunfo do Filho de Deus. Ao
término, as pessoas se retiravam para suas casas, em geral em grupos, ou passavam pela
praça para um último passeio, antes do almoço familiar de confraternização. Era um dia
feliz, ao contrário dos outros. Comparável a ele só o Domingo de Ressurreição. Mas estes
dias estão longe de serem apoteóticos. O clímax de fato é reservado à Sexta feira da Paixão
148
com a procissão do enterro, a qual marca o sacrifício definitivo, tema maior destas
celebrações, pelo menos de acordo com a interpretação que faço da experiência local. O
catolicismo tradicional em Tiradentes, através da celebração da Paixão de Jesus realça o
caráter do sofrimento e da morte, como um resíduo de uma cultura setecentista, o
tiradentino persiste na
“forma barroca de ver o mundo exaltando o trágico e a morte...O gosto pelo
espetáculo de natureza trágica, que povoou a sensibilidade ... do homem do século
XVIII, matem -se e reflete, desta maneira, a persistência de elementos culturais”.
(FRANCO, 1995: 103 e 119)
Segunda Feira Santa
Segunda feira é o dia da procissão de Jesus até o monte das Oliveiras, onde sofrerá o
suplício. Desta vez, saem da Matriz com uma das imagens dos Passos da Paixão que ficam
guardadas na sala dos Sete Passos e caminham até à Igreja das Mercês. A imagem, de túnica
branca e manto vermelho é altiva e de boa fisionomia. Estava acompanhada dos mesmos
figurantes do dia anterior. Os sinos tocavam badaladas festivas. A procissão seguia ordenada
sob a lua quase cheia. O crucifixo que abria o cortejo já estava coberto pelo pano roxo, as
fisionomias retomavam, gradativamente, o ar denso de sacrifício e seriedade. Na Igreja a
cerimônia, acompanhada de sermão, ocorria com as luzes da igreja apagadas, somente com
velas e algumas lanternas acesas. Estava sendo encenado um pequeno auto no altar,
representando o sofrimento de Jesus, proferindo as mesmas falas bíblicas.
Terça Feira Santa
149
Enquanto a imagem de Jesus, a mesma do dia anterior, saía da igreja das Mercês,
guardas centuriões e outros figurantes vestindo túnicas brancas e carregando tochas acesas,
partiam da igreja Matriz. Quando os dois cortejos se encontraram no adro da igreja do
Rosário, representando a prisão de Jesus, ocorreu o sermão do padre que falou sobre o mito
e a entrega do Cristo, consciente de que iria ser morto e o fazia de boa vontade e livre
arbítrio.
Esta cerimônia é particularmente interessante, pois se trata de uma encenação
bastante original. Enquanto o padre pronunciava suas palavras, os figurantes iam
encenando. Os centuriões se aproximavam, Judas se apresentava e beijava a imagem,
alguém lhe punha uma corda em volta do pescoço e os centuriões acompanhavam os
carregadores do andor, simbolizando o aprisionamento. Se quando a imagem saiu das
Mercês a banda tocava dobrado e o sino era festivo, ao aprisionarem Jesus, inverteram e
passaram a anunciar o clima de tristeza e contrição, com sino de morte e toque de marcha
fúnebre.
Quarta feira da Paixão
Este é o dia em que normalmente, pela lógica da história que se encena, se daria os
Sete Passos da Paixão de Jesus em direção ao calvário, uma vez que fora preso no dia
anterior, acompanhado do encontro com sua mãe Maria. No entanto, esta cerimônia já
ocorreu 15 dias antes, durante a festa de Passos. Então nesse dia, realizavam uma via sacra,
organizada pela Irmandade do Santíssimo Sacramento. É uma cerimônia, litúrgica, mas que
tem pouca presença da comunidade. Apareciam mesmo aqueles mais diretamente
envolvidos e os mais beatos. Seguiam em uma caminhada sem a ordenação da procissão,
rezando e cantando músicas mais atuais, em português, sem banda ou orquestra ou coro de
150
músicos. Rezavam com o padre a cada parada, nas janelas de moradores onde montavam
pequenos altares para as orações. A maior parte dessas casas é de moradores locais, os
poucos que ainda restam pela rua Direita e rua da Matriz. É interessante que evidencia a
importância do trajeto pelas portas das casas dos fiéis, motivo este já bem conturbado, uma
vez que a maioria maciça destas ruas históricas centrais está, hoje, ocupada pelo comércio
ou por pessoas de fora que mantém casa de descanso e de férias. Após o percurso
finalizaram a cerimônia na igreja Matriz.
Quinta feira Santa
A cidade já se movimentava à espera dos turistas, e ou à espera das celebrações. O
auto-falante da igreja Matriz anunciava os avisos do dia: inauguração do teatro do
restaurante Teatro da Vila no sábado, convidando a comunidade, a celebração do Lava-pés
que ocorreria às oito horas da noite... música.
Muitos carros nas ruas, muitos de Tiradentes mesmo, transportando mercadorias
para bares e restaurantes e outros levando rosmaninho para as igrejas. Aos poucos iam
chegando os turistas e a cidade se preparava para recebê-los. O povo trabalhava pintando
paredes, alguns bares terminavam suas reformas, as pousadas estavam terminando de serem
limpas e abertas e os artesãos trabalhando nas praças.
Na quinta feira não se realiza propriamente procissão. A cerimônia central é a
encenação do Lava-pés, para a qual preparavam belissimamente a igreja, com muitas flores
no altar e uma grande mesa toda enfeitada e posta com frutas, jarras e cálices de cristal,
onde se daria a encenação da última ceia após a missa. O único cortejo do dia é o translado
do Santíssimo Sacramento pela igreja. Dariam uma volta com o Santíssimo dentro da
151
custódia de prata pela igreja, seguindo do altar para a sacristia e a capela onde seria velado
toda a noite.
Polifonia e silêncio diante do Senhor Morto
A Sexta-feira da paixão, até bem pouco tempo, e ainda hoje para alguns, era época
de total abstinência e silêncio. Não se ligava rádio ou televisão, não se falava alto, nem
abriam os bares, ninguém trabalhava e nem casa se varria. Até hoje tem muita gente que
nem sai de casa nesse dia. As cerimônias começavam tarde da noite, o Descendimento da
Cruz era feito dentro da igreja e o cortejo ganhava as ruas silenciosamente, já por volta da
meia-noite, tudo no maior respeito e contrição. Pelo que lembram os nativos, era ainda mais
solene que a procissão dos Passos. Hoje, esta última parece ser a depositária mais
importante desse respeito e da lembrança da tradição e da fé. Antes da Semana Santa
propriamente dita, muitos nativos contrastavam uma procissão à outra, dizendo que é
completamente diferente e que o respeito e a tradição estão mesmo marcados é na festa dos
Passos e no Setenário das Dores, sendo que na outra, a quantidade de pessoas muda a
configuração do ato. Conforme dizia o tiradentino do debate exposto anteriormente, hoje
em dia procuram não divulgar muito a Festa de Passos para que não fique igual ficou a
Procissão do Enterro.
Na Sexta feira, Semana Santa do ano 2000, o Santíssimo já estava exposto e sua
capela enfeitada. Alguns poucos devotos rezavam e comentavam o sacrifício alimentar que
cada um estava fazendo. Pela igreja Matriz passava uma grande quantidade de turistas, ao
mesmo tempo em que os fiéis começavam os preparativos para a procissão do Senhor
Morto, ponto alto das celebrações, aguardado também por turistas.
152
A imagem fica em um altar na lateral direita da igreja, coincidentemente no lado
oposto do altar do Senhor dos Passos. Os responsáveis por arrumá-la em seu esquife, não
são de uma única Irmandade específica, mas fazem este trabalho há muitos anos, é uma
tradição, todo ano são as mesmas pessoas que trabalham em um ou outro momento das
celebrações. Se, em festas de santo as funções cabem à Irmandade, como a festa de Nossa
Senhora das Mercês, ou a festa de Nosso Senhor dos Passos, na Semana Santa todas se
juntam para realizar o ritual. Mas na “comissão da Semana Santa”, formada para esta
época, cada um tem, tradicionalmente, um papel. Uns fazem a procissão da prisão, outros o
lava-pés, outros cuidam da procissão do enterro, e assim por diante. Acontece de uns
pretenderem interferir no trabalho dos outros, justificando que não está correto ou que tem
ficado muito feio nos últimos anos, mas qualquer tipo de crítica ou interferência leva a
conflitos entre eles. A disputa pelo monopólio do simbólico é constantemente afirmada.
Os preparativos para o cortejo foram feitos à tarde, com a Igreja cheia de turistas.
Levantaram o pano roxo que velava o altar, retiraram uma imagem, depois outra, até chegar
à de Jesus crucificado. Subiram no altar e, sob a expectativa da platéia de turistas,
desmontaram-na da cruz. A imagem não é de roca, mas tem os braços articulados,
retiraram-na do altar e desceram-na até o esquife forrado, a pouco, de arnica e manjericão,
formando um fofo colchão de aroma penetrante. Enquanto os turistas se aglomeravam.
Levaram o esquife para o altar principal para acabar de ajeitá-lo. Levantaram uma tumba,
ao centro da igreja, para tentar colocar a cruz da adoração da tarde de pé. Os turistas,
curiosos, se aglomeravam mais ainda, todos queriam ver se tinha mesmo alguém enterrado
ali. Resolveram fechar a tumba. Diante do assédio, o zelador passou uma corrente, meio
improvisada, na entrada da nave e pediu para que se retirassem os que ainda tentavam uma
153
última informação ou olhadela. A escultura se mostra belíssima em seus detalhes
anatômicos e ferimentos, chocante pela expressão de sofrimento, reforçada pelos longos
cabelos naturais espalhados no colchão de arnica.
Mais tarde, após a rápida Adoração da Cruz, voltaram aos preparativos para a
cerimônia da noite. O esquife terminou de ser ornamentado com um véu, sempre com a cor
roxa tradicional. Uma cruz foi erguida na frente do adro, de fora do templo, com um lençol
branco em volta e para ela se dirigiram com a imagem do Senhor Morto. Alguns homens,
com uma habilidade adquirida com o tempo, envolveram a imagem com o lençol enquanto
outros a levantaram até o alto e parafusaram os braços na cruz. Alguns turistas observavam
o cuidado com que seguravam a peça e comentavam sua beleza, seus traços anatômicos e
suas características barrocas. Todos que passavam se interessavam pelos preparativos,
perguntando e aguardando a tão comentada Procissão do Enterro.
A procissão da noite de sexta-feira é tradicionalmente acompanhada por uma legião
de figurantes representando personagens bíblicos. Os que iriam representá-los se
aprontavam na sacristia ao lado da igreja Matriz, por volta de 18:00 horas, sendo que o
sermão estava marcado para as 20:00 horas. Na cerimônia chamavam um por um, pelo
nome de quem vestia e pelo nome do personagem, entravam inicialmente os apóstolos e
depois os outros, posicionando um ao lado do outro na grade do adro, defronte para a
multidão.
O cenário estava composto também por centuriões, pelo coro, todos vestidos de
preto, acompanhados por Verônica que entoaria o plangente, a imagem de Nossa Senhora
das Dores que também acompanha o esquife e ao centro do adro, de frente para o público, a
imagem de Jesus crucificado ladeado pelos dois ladrões. Num púlpito, armado ao lado
154
direito, o pregador realizaria o sermão do Descendimento. No ano 2000, havia também,
compondo o ritual, um cinegrafista de uma rede de TV e dois integrantes de uma equipe de
filmagem, que pretendiam gravar o canto de Verônica.
O sermão, como sugere a tradição, falava da paixão de Cristo, da herança que a
Igreja carrega de representá-lo na Terra, de situações do cotidiano da sociedade, até
encaminhar para a teatralização da descida da imagem da cruz. O pregador falava da coroa
de espinhos, do cravo da mão direita, do cravo da mão esquerda e dos pés, enquanto dois
homens vestidos de branco, representando José de Arimatéia e Nicodemos, ao lado da cruz,
sobre uma escada, obedecendo à fala, iam desprendendo a imagem e descendo-a até o
esquife. Embaixo o santo era acomodado com carinho e delicadeza. Algumas passagens do
sermão podem ilustrar essa representação teatral do mito bíblico articulado à reflexão sobre
a vida cotidiana:
“...Nazareno, rei dos judeus... a mão direita de Jesus, aquela mão que só
abençoava, aquela mão que só praticou o bem, que só distribuiu tantos benefícios,
curando todos aqueles que lhe recorriam. Desprendendo esta mão direita,
Nicodemos está lembrando a todos nós que devemos praticar o bem, está nos
lembrando todos os nossos pecados ... que nós tenhamos a coragem de vencer
nosso pecado de omissão para nos colocar a serviço de Deus e dos irmãos, porque
assim Maria irá nos ajudar a vencer nossas faltas...” 23
Após o sermão, Verônica entoou o lírico em latim, “Ó Vós Omnis”, ao desenrolar
lentamente o retrato de Cristo e expor à multidão. Ao fundo, um céu de noite escura e a
23
Bispo Dom Waldemar – 2000)
155
Matriz iluminada, compondo um cenário espetacular, minuciosamente construído. Porém,
nessa noite, acima de sua cabeça, coberta pelo véu, havia um enorme microfone branco e
peludo. Pertencia à “primorosa” equipe de filmagem, a qual acompanharia a procissão.
O esquife se preparava para sair e as pessoas se agitavam para posicionarem na
procissão. Momento difícil que pensei não dar certo, afinal havia uma grande multidão
assistindo à cerimônia e todos queriam acompanhar o cortejo. Porém, contrariando minhas
expectativas, as pessoas foram aos poucos se posicionando e formando as colunas,
seguindo uma cruz envolta a um pano branco, carregada pelos irmãos do Santíssimo
Sacramento. No meio iam andando os anjos, depois os personagens bíblicos com seus
figurinos e alegorias, mais atrás os centuriões e o esquife carregado pelos homens de
branco e cobertos pelo pálio. Os homens com o esquife, parados ao lado da Matriz,
grandiosa ao alto e o tom solene da banda causavam a mesma tocante impressão fúnebre da
procissão dos Passos.
Foi descendo a rua do Sol, em direção à próxima parada, a igreja de São João
Evangelista, onde Verônica cantou novamente. A procissão seguiu em direção à rua direita.
Antes que ela chegasse, podia ver as pessoas se aglomerando em pé ou sentados em
improvisados camarotes, conversando e andando de um lado para o outro, sem a menor
cerimônia. Os carros apinhavam as ruas e sobrava pouco espaço para o esquife. Outros
personagens desse espetáculo apareciam no meio da rua com câmeras, luzes, claquetes,
monitores e outros aparatos cinematográficos. Era a equipe de filmagem com aquela
desenvoltura que só tem quem está familiarizado com um set. Encontrei casualmente com
um confrade dos Passos e o comentário não foi outro:
“Um desrespeito...”
156
Mais, interessante ainda estava por vir, a procissão se aproximava e notávamos que
em uma ala próxima havia um cego sendo guiado por uma mulher, após passar pelas
câmeras voltou-se com a moça e, com os óculos às mãos, perguntou onde estava a
produção para que lhe pagassem o cachê. Dizem que em outro momento também inseriram
um homem bêbado esbarrando nas pessoas que formavam as colunas.
O Cortejo passou em frente ao Centro Cultural seguindo para a igreja de Nossa
Senhora do Rosário onde Verônica cantaria pela terceira vez. Neste recinto estava
acontecendo, desde o dia anterior, um festival de Jazz com várias bandas, era uma das
grandes atrações turísticas da cid ade naquele ano. Suas portas estavam fechadas em sinal de
respeito à procissão, mas a música corria solta lá dentro. Vindo de lá, ouvia-se as palmas,
enquanto Verônica terminava seu plangente. Não esperou que esfriasse o corpo do público
que acompanhava ou apreciava a procissão e abriu-se novamente para sua festa.
A atmosfera religiosa de contrição e silêncio ficou parcialmente dissolvida e o
sentido fervoroso do drama contagiou-se pelo sentido histórico, tendendo mais a um
espetáculo artístico-cultural que de fé. É um dia de festa, brincadeiras e arte, entre um
desses eventos incluía-se a procissão, como era declarado por alguns turistas. Um casal
discutia se iria à procissão, pois ele era católico e ela protestante, mas argumentavam que
era um evento cultural e por isso deveriam ir. Acabaram chegando a um acordo, resolveram
“dar uma sapeada”, como diziam, ao invés de acompanhar. Boa parte dos turistas
“sapeava”, ou seja, entravam e saiam das filas do cortejo à sua vontade e com toda
liberdade. Ao contrário dos espaços definidos na procissão dos Passos, as pessoas
circulavam com desenvoltura e sem cerimônia. Se atos e expectativas de uns estavam
carregados por um sentido secularizado, de lazer ou artístico, podia-se observar o fervor
157
com que alguns turistas caminhavam junto ao cortejo. Alguns deles eu já havia notado
dentro da igreja no dia do lava-pés, orando como bons católicos. Observei uma família que
acompanhou a procissão com velas nas mãos, mas não chegou ao fim da celebração. Logo
depois do Centro Cultural abandonaram o grupo de fiéis e se voltaram para o evento
musical. Era notório, entre os que demonstravam certo fervor, a posição de independência
com que participavam dos ritos. Tinham liberdade para entrar e sair na hora que bem
entendessem, não se vertendo a preceitos ou dogmas, mas vivendo sua experiência religiosa
com certa individualidade. Se participar do cortejo era importante, fixar-se nele não era
tanto. Porém, mesmo estes que participavam religiosamente do evento interferiam em seu
percurso costumeiro, fazendo com que modificasse a estrutura organizada da procissão,
numa penetração transversal.
A ordem e o equilíbrio enfatizado na procissão dos Passos deu lugar à
desorganização e ao inusitado. O espaço simbólico, antes tão definido, agora era disputado
por pessoas de fora do círculo social local, que não se incomodavam de entrar e sair,
“sapeando” de acordo com suas próprias vontades. Muitos nativos, fervorosos, ficavam de
fora e observavam, invertendo a posição com o turista, a ritualização de uma renovada
realidade social, da qual já não tem mais tanto controle. Esse espaço simbólico certamente
tem correspondência com espaços concretos disputados a cada dia entre os “de dentro” e os
“de fora”, desde espaços físicos, como moradia e comércio a espaços sociais de decisão e
organização política.
Mas não se trata somente de inversão, e sim de uma pluralidade de discursos, é uma
multiplicidade de falas, onde se inclui a de outros tiradentinos que se relacionam com o
evento de outros modos. Um dos organizadores dessa cerimônia me dizia, minutos antes,
158
que se admirava ao ver tanta gente presente e se orgulhava pelo fato da cidade ser palco de
uma oportunidade única dada ao turista. Com ele seguiam muitos outros, talvez admirando,
talvez disputando espaço, do mesmo modo como dentre os turistas não havia uma
homogeneidade de pensamento, como disse, alguns carregavam velas e oravam, uns
acompanharam até o fim, outros trocaram suas velinhas já diminutas por latinhas geladas de
cerveja.
O cruzamento de rituais que aconteceu, principalmente entre festival de Jazz e
procissão, leva a refletir sobre o sentido cultural e artístico do turista, que por vezes se
consagra em detrimento do sagrado enfatizado pelo católico tradicional, o espetáculo de fé
transformou-se em espetáculo comum, lugar de diversão e descontração. Mais uma vez
lembro-me de Da Matta que contrapunha esses dois rituais, que aqui se completam, não
sem conflito, representando, em atos simbólicos, uma realidade social marcada pela tensão
de valores e comportamentos gestados em contextos sócio -culturais diferenciados.
Apontava, este autor para
“uma dicotomização entre os acontecimentos altamente ordenados (cerimônias,
solenidades...funerais) dominados pelo planejamento e pelo respeito (expresso pela
continência verbal e gestual) e os eventos dominados pela brincadeira, diversão
e/ou licença, ou seja, situações em que o comportamento é dominado pela liberdade
decorrente da suspensão temporária das regras de uma hierarquização
repressora.” (DA MATTA, 1983: 38).
No contexto, os dois eventos estão presentes ao mesmo tempo e de acordo com o
sentido atribuído pelas pessoas podem ser experimentados como complementares ou
dicotômicos, formando um
159
“campo de aproximação e compatibilização de contrários” (SANCHIS, 1983: 16).
Esses fatos descritos, de forma diferente da outra procissão em que evidencia um
discurso mais homogêneo, aumentam as escalas de comunicação, emergindo discursos,
hora separados e intransigentes, hora fundidos e complementares, compondo uma grande
polifonia de significados. A história, a arte, a fé e o lazer, experimentados de maneira
diferente por cada grupo, turistas, forasteiros, comerciantes, pesquisadores, cinéfilos, etc.,
perpassam suas falas, definindo-as e colocando-as em relação, ora se opondo e
contradizendo, ora promovendo uma “iluminação recíproca”, como diz Bakitin, uma
realidade híbrida, onde:
“Pessoas e coisas têm suas fronteiras enfraquecidas e participam do drama
carnavalesco da morte do mundo antigo e do nascimento do novo”.
Ocorria uma
“orientação mútua, uma interação, uma iluminação recíproca das línguas... As
línguas fixavam direta e intensamente as suas faces mútuas: cada uma se
reconhecia a si mesma, as suas possibilidades como os seus limites, à luz da outra.
Essa delimitação das línguas fazia-se sentir em relação a cada coisa, cada noção,
cada ponto de vista.
...A consciência viu-se na fronteira das épocas e das concepções do mundo, pôde...
sentir com cuidado o seu ‘hoje’ tão diferente da véspera, as suas fronteiras e
perspectivas. Essa orientação e iluminação recíproca... revelou subitamente
quanto do antigo estava morto e quanto nascera de novo. A época contemporânea
160
tomava consciência de si mesma, via o seu próprio rosto” 24 (BAKHITIN, 1996:
410, 412, 413).
Como venho mostrando, uma realidade dinâmica e multifacetada como a da cidade
de Tiradentes não pode estar se expressando em seus momentos festivos, rituais, de outra
forma a não ser através de ambigüidades. Se em algumas situações fala mais alta a tradição,
a família, expressando relações sólidas que ali foram construídas ao longo de anos, em
outras, a polifonia ganha as ruas e trazem à tona a expressão de relações sociais instáveis e
contraditórias.
Pergunto-me como, dentro desse contexto instável de tantos cruzamentos que vem
sendo descrito, enxergar os rituais como
“representações coletivas estáveis e duradouras” (Durkheim, 1989)
Será que em anos anteriores também havia equipes de filmagem interferindo nas
procissões? Ou se diante da indignação da população, nos anos posteriores seriam
permitido tantos carros atravessando as ruas e um festival de jazz competindo com o canto
de Verônica?
Reinvenção da Tradição
No jornal local, Inconfidências, lia-se no mês seguinte à Semana Santa o texto:
24
Bakhitin, 1996 – p. 410, 412 e 413.Pela interpretação de Hannerz (1997) o conceito de hibridismo de
Bakhtim esclarece mais nosso problema: “Imagino que para Bakhtin, a hibridez representava antes de tudo a
coexistência de duas línguas, duas consciências lingüisticas, mesmo dentro de uma única fala, comentando
uma a outra, desmascarando-se mutuamente, criando contradições, ambigüidades, ironias”
161
“Procissão do Enterro, considerações sobre fatos lamentáveis.
Nos tempos de antanho a Sexta-feira Santa... era dia de absoluto silêncio...
...Falei disso... para mostrar o contraste com os dias de hoje e registrar o meu
veemente protesto com o que vi nesta Sexta-feira Santa, em Tiradentes.
Nunca assisti a uma Procissão da Paixão com tanto desrespeito e bagunça. É triste
constatar que, infelizmente, quem queria ver um ato tradicional e piedoso viu o que
relatei.
Espero que no próximo ano as autoridades municipais e religiosas se unam para
que a nossa velha tradição na Sexta-feira Santa seja melhor organizada e
respeitada.” (RODRIGUES, 2000)
Na oficina do projeto Monumenta, às vésperas da Semana Santa do ano seguinte
debatiam o tema. Um arquiteto comentava:
“Ano passado, um evento tradicional mais importante que tem na Semana Santa, a
procissão... fizeram um evento aqui no Centro Cultural...”
Artesã tiradentina:
“Eu tentei tirar aquele evento e não consegui... Andei com aquele programa a
cidade inteira, tentei e não teve jeito de tirar, chegou na hora uma pouca
vergonha...”
Outro tiradentino:
“pareceu provocação, foi um absurdo”
162
Poderia citar uma série de depoimentos demonstrando a insatisfação das pessoas
sobre as interferências e os cruzamentos da procissão de Sexta feira Santa do ano 2000. Em
decorrência, espalhou pela cidade uma preocupação com os rumos que a realidade plural
estava tomando, desde a invasão do carnaval até as incongruências da Semana Santa.
Assim, várias iniciativas foram surgindo como tentativas de compreender a nova realidade
que se forjava na cidade mais a fundo e buscar certas referências para orientar ações no
sentido de amenizar os dramas e os conflitos. Umas foram ações conscientes em busca da
tradição, outras mais inconscientes, outras tentativas de dirimir conflitos e compatibilizar o
crescimento do turismo com seus ganhos econômicos com a tradição local. Outras ainda,
com intenção explícita e declarada de proteção do patrimônio em trabalho conjunto com a
população, que só faziam ampliar o “gradiente de diferenciação”.
Procurei observar estes fatos na busca de respostas para minhas perguntas.
Compreendi pelo menos que, numa realidade dinâmica, contraditória, onde os atores sociais
estão vivendo uns tão próximos dos outros, só se pode pensar em interpretar símbolos e
rituais, seus significados e suas performances com um olhar que o considere dentro de uma
existência
no
tempo,
com
possibilidades
de
se
apresentar
de
formas
variadas,
principalmente porque estão em jogo negociações e disputas, mas que possuem, no limite,
uma estrutura lógica que os organiza. Mesmo que esta lógica não seja única, mas uma
combinação, às vezes contraditória, de várias lógicas, e nem estável, podendo ser movediça
sem deixar de ser estruturante.
Observei estes rituais por dois anos consecutivos, e pude observar algumas
mudanças, inserindo em meus relatos arranjos diferentes nos mesmos rituais. Àquelas
procissões mais estáveis, foram inseridos elementos novos, de outras procedências, para
163
aquelas penetradas pela transversalidade, foram tomadas providências de estabilização.
Mas as estruturas lógicas que abordei, patrimônio, lazer e religião tradicional, continuaram
se interpenetrando.
Antes de descrever as diferenças de um ano para outro, é interessante compreender
melhor como a população, ou parte dela, se mobilizou ao longo do ano para repensar suas
tradições inseridas neste contexto dinamizado pela realidade turística. Fato interessante,
exemplar, que ajuda a pensar este caso, é um projeto de educação implementado pela
Escola Estadual Basílio da Gama, o Projeto Reviver. É uma iniciativa de ação pedagógica e
cultural concebida e desenvolvida por professores e alunos da escola de ensino fundamental
da cidade, freqüentada, na sua maioria, por crianças e adolescentes de famílias nativas.
Sendo um projeto formulado pelos próprios tiradentinos, destinados a eles mesmos,
torna-se interessante sua apresentação para ilustrar como encaram seus problemas de
dentro, sem interferências externas e como traçam rumos em busca de soluções,
apresentando, assim, o modo como vêem sua realidade e quais referências se valem para
conduzi-la. Interessa, nesse caso a avaliação que fazem das relações entre nativos e turistas,
tendo como articulador o jovem estudante e como voltam seu olhar para sua história e
tradição na busca de soluções para os conflitos culturais existentes, tentando conciliar a
convivência com o turismo, a consciência da preservação e as tradições que vêem de
família.
A escola detectou que um de seus maiores problemas era a evasão escolar. Segundo
o diretor, Geraldo Xisto da Silva, chegaram
“à conclusão que era porque o aluno não tinha aquela bagagem de valores que um
cidadão tiradentino deveria ter. A partir do momento que o aluno valorizasse mais
164
a cidade, o meio ambiente a cultura, as tradições que Tiradentes tem muito, ele ia
gostar mais da escola, ele não ia sair da escola.”
Elaboraram então um projeto “voltado para a história”, um projeto que
“resgata os valores históricos e culturais que o menino deveria ter e não tem.”
O projeto começou a ser executado no final do ano 2000. Em cada época do ano,
carnaval, Semana Santa e etc, programavam um subprojeto, dentro da intenção de recuperar
a história e a tradição local, como o próprio nome indica, Reviver, reviver a tradição, os
valores, a cultura local. Nas palavras do diretor da escola:
“...a gente tá conseguindo, resgatando esses valores que realmente estão perdidos.
Tudo isso a gente vai influenciar, o menino vai ter um espírito de conservação do
meio ambiente, né uma vez que ele valoriza, que ele tem uma bagagem, que é um
cidadão, vai valorizar o turista, que é a fonte de renda principal da cidade. Que é
uma contradição muito grande porque nós temos muitos meninos aqui que a fonte
de renda deles é o turista. São charreteiros, meninos que trabalham com lojas,
vendem alguma coisa. Nosso público está muito ligado ao turismo. Esperamos que
o menino valorize mais os monumentos de Tiradentes que não tem valor nenhum
para menino. De repente a gente tem menino aqui que nunca pisou no museu, até
então tinha menino que não sabia quem foi Basílio da Gama.”
Em fevereiro e março fizeram o sub projeto sobre o carnaval. Fizeram um estudo
sobre os carnavais antigos: “essa coisa das marchinhas, que não existe mais”. Envolveram
as famílias e a comunidade em geral, fazendo entrevistas e montando um bloco para
desfilar no carnaval. Um bloco com máscaras e estandartes, no estilo daquilo que julgaram
165
ser tradicional, na tentativa de resgatar o passado e a história dos costumes da cidade. Dizia
o diretor da escola:
“Esse projeto vai além dos muros da escola. O objetivo principal é o aluno, mas
desde o principio ele já foi elaborado para se transpor além os muros da escola.
Então a gente tem que envolver de todo jeito a comunidade. Para a Semana Santa a
gente pegou a formação das irmandades. A gente convida pessoas para fazer
palestras e põe o menino trabalhando com a comunidade. No carnaval eles
fizeram entrevistas com pessoas mais velhas sobre os carnavais antigos. Os
meninos foram para rua investigar. Eles elaboravam as perguntas, tendo a
orientação do professor. Iam na casa de fulano e entrevistavam. O aluno vai atrás
da comunidade. E a cidade toda fica sabendo do projeto e acaba envolvendo, várias
pessoas procuram saber. “
Fizeram homenagens também a algumas pessoas da cidade que achavam relevantes,
condecorando-os com uma “medalha da inconfidência”.
“Pessoas que de certa forma contribuíram com o desenvolvimento cultural, social,
histórico e político de Tiradentes. O menino ia eleger alguém da cidade juntamente
com os pais. Cê vê, de repente o menino elegeu uma parteira, que ele nunca
conheceu, que já morreu há vários anos. Porque o pai disse: ó fulana era pessoa
muito boa e tal .”
Da mesma forma como homenagearam pessoas simples do povo, como uma
parteira, lembraram-se de pessoas de fora que contribuíram ou contribuem para o
desenvolvimento da cultura e o turismo de hoje, como Ives Alves e o atual secretário de
turismo, o que evidencia uma tentativa de compatibilização. Mas uma compatibilização sob
166
os olhos da tradição. Os objetivos do projeto vão girando em torno do resgate da tradição,
passando inclusive pela religião. O projeto Reviver é não somente uma tentativa de reviver
uma cultura do passado, mas refazer uma cultura na atualidade que compatibilize estas
coisas, turismo, patrimônio e tradição. Um movimento de “reinvenção da tradição”
(HOBSBAWN, 1997).
Dizia ele:
“Nós vivemos do turismo aqui em Tiradentes, não há uma indústria que gere
emprego, os empregos aqui são relacionados ao turismo. O cidadão tiradentino de
forma geral não valoriza o turismo. E de certa forma a cidade vai perdendo o
contato com o bom turista, aquele turista que realmente vai fazer com que a cidade
cresça. ... Tem festivais que fogem ao controle da população de Tiradentes. Tem
que controlar isso.”
Tiradentes é uma cidade que tem alguns problemas quanto à saúde, educação e
distribuição de renda, como qualquer cidade do país. Mas o que lhe é próprio se refere a
problemas de ordem identitária, ou seja, a dificuldade de lidar com o diferente, os conflitos
culturais causados pela realidade turística que estou apresentando. Então, muitos problemas
que acontecem na cidade, logo o nativo culpa ao turismo e principalmente ao morador de
fora, que traz esta diversidade para o cotidiano mais próximo e ainda rivaliza com o
tiradentino, seja nas disputas políticas, de prestígio e econômicas. Quantas vezes já ouvi de
nativos:
“Se pudéssemos fechávamos a cidade, mas existe o direito de ir e vir...”
ou como disse uma tiradentina entrevistada:
167
“Já já vão mandar no que é nosso, se pudesse a gente punha isso aqui nas costas e
carregava, mas não tem jeito de tirar. Eu se pudesse carregava, se pudesse
carregava a Serra de São José, se pudesse carregava o chafariz, a Matriz, é nosso,
nós temos o direito, é nosso”
Há uma insatisfação com esta nova realidade, mas uma insatisfação que surge não
somente por causa das ambigüidades, mas é por causa da dificuldade em lidar com ela, e é
esta dificuldade que gera problemas de ordem psicológica e social. No caso dos
adolescentes, por exemplo, a dificuldade gira em torno do conflito de valores que recebem
de parentes mais velhos, em casa e o que observam na rua, o que gera uma contradição que
extrapola o conflito entre o novo e o velho, mas que passa pela questão da auto-estima,
como podemos observar através do depoimento do diretor da escola:
“Essa questão do turista, essa rejeição, essa forma que é o turista lá e o jovem
aqui, entendeu, eu acho que não existe muito entrosamento talvez seja pelo
seguinte, o jovem não confia no potencial que eles têm de comunicar, de se
relacionar bem com o turista, esconde assim de certa forma né, entra para o casulo
e não aparece. E de repente a gente vê aqui na escola. Jovens e adolescente que
poderia dar show, entendeu. Desde uma conversa com o turista até uma
apresentação de teatro. Mas há sim esse afastamento, essa repulsa. ...não tem um
entrosamento que nossos jovens poderiam mostrar, o tiradentino mesmo, afinal a
cidade é nossa, né. Se tem alguém que tem que se destacar, se tem alguém que tem
que mostrar alguma coisa boa somos nós.”
168
Talvez a revitalização e o resgate cultural, mais do que um resgate de fato, seja uma
tentativa de recuperar esta auto-estima perdida em função de uma ampliação do universo
sócio-cultural. Segundo Xisto o projeto se chama Reviver
“porque estamos resgatando, desenterrando culturas que praticamente já estavam
sumidas, o nome não podia ser melhor”.
Resgatar esta cultura supostamente perdida é um olhar para si, num movimento de
auto valorização. O que fazem não é viver como os antigos viviam, mas valorizar a cultura
que se cunhou localmente, mas que agora se insere em uma sociedade multilocal. E nesse
sentido, os rituais religiosos são um momento em que a cidade se reconhece e se olha com
olhos que lhe pertencem.
Na época das comemorações da Paixão de Cristo o Colégio organizou dois eventos,
uma exposição sobre Irmandades, festas e procissões e uma Via-sacra pela cidade,
acompanhando os passinhos, com a ajuda do padre e de um historiador. Nessa Via-sacra
história e religião também dividiam o mesmo espaço. Os meninos percorreram o mesmo
caminho da Procissão de Passos, numa segunda-feira pela manhã, fazendo a meditação dos
Sete Passos, com a ajuda do pároco, e com a ajuda de um historiador, que por sinal é da
Confraria dos Passos, compreendiam a história da cidade, dos passinhos e da arte e
arquitetura barrocas.
A exposição sobre as Irmandades contou com palestras de Presidentes de
Irmandades, com teatro organizado pelo alunos contando “causos”, estórias místicas e
lendas, como as estórias sobre Encomendação das Almas que eram acompanhadas pela
presença de seres sobrenaturais. A exposição sobre as Irmandades contou com fotos antigas
de procissões e pequenas imagens de santos que são réplicas daqueles carregados na
169
procissão. Contou com cartazes antigos e vestimentas de santos guardados por moradores
antigos que organizam as festas. Participaram pais e avós de crianças, muito orgulhosos do
trabalho dos meninos. Parecia uma festa familiar e religiosa.
Fizeram alguns cartazes falando de como deveria ser a Semana Santa, de como era
antigamente, baseada em depoimento dos mais velhos. Em vários cartazes enfatizavam os
preceitos de Sexta-feira da Paixão que todos deveriam seguir, tais como: não ligar o rádio,
não varrer casa nem trabalhar, não falar alto, não tomar bebida alcoólica e etc.
A cidade, então, se mobiliza de várias formas para garantir espaço para sua tradição,
valores e preceitos religiosos em meio à diversidade. São ações e palavras que pretendem
criar na cidade uma situação, um clima, de respeito e consideração por valores tradicionais.
Enfim, as pessoas se mobilizam para melhorar as relações, respeitando o outro, o
diferente que chega, mas exigindo deste uma atitude semelhante. Tentando compreender o
outro que chega cada vez mais perto, cada vez mais dentro, seja de suas casas, seja de seus
rituais, mas tentando compreendê-lo com seu olhar próprio, e buscando este modo de olhar
na tradição. É uma reinvenção da tradição, adaptando-a à uma realidade nova, valendo-se
dela para orientar o presente.
Semana Santa 2001
Os Passos de 2001
Como já mencionei anteriormente, observei os rituais por alguns anos consecutivos
e pude perceber como se modificam, acrescentando ou retirando elementos importantes.
Passarei a relatar alguns fatos ocorridos no ano seguinte, 2001, em ambas as procissões
170
polares, do Enterro e de Passos, para pensar a dinâmica do ritual. Para a procissão de
Passos vou partir da verificação dos três elementos que considerei essenciais ao rito, sejam
eles: a contrição, marcada pelo ritmo solene e pelo silêncio, o foco na tradição e a definição
dos espaços.
A reclusão na hora de vestir o santo foi mantida, mas com muito custo. Uma vez
que estava acontecendo a reforma da Matriz, o santo não pôde ser vestido lá, então tiveram
que arrumar um caminhão baú para transportar a imagem, na madrugada, para outra igreja
de onde sairia a procissão do Depósito, assim ninguém veria o santo antes de estar vestido.
Também não foi fácil manterem distante as mulheres e as crianças, o ritual vem sendo cada
vez mais assediado e o número de pessoas que trabalha está aumentando, por isso, aumenta
a curiosidade, mas continuam garantindo a rigidez. Neste caso, mesmo com a interferência
da reforma da igreja o preceito se manteve.
Porém, o ritmo dos sinos das igrejas não foi o mesmo. Mudanças sutis, mas
mudanças. Em São João Del Rei a procissão de Passos é feita com os sinos em ritmo
frenético, ao contrário de Tiradentes. Por isso, no ano anterior, a presença de um sineiro de
São João alterou um dobre de sino. Nesse ano a presença de pessoas de São João foi maior,
os sinos bateram um pouco mais rápido e a eles foi acrescentado um “pom pom” de tecido
amarrado ao badalo, como fazem na cidade vizinha.
Anteriormente enfatizava-se que era uma festa marcada por uma tradição
localmente definida, o que permanece relativamente. Um dos confrades de Passos que faz
essa festa há uns 50 anos, mora em São João Del Rei. Ele e seus filhos vêm todos os anos a
Tiradentes para participar da procissão. Este ano resolveu trazer um ônibus junto com ele.
Convidou outra Irmandade de lá, muito tradicional, a Ordem Terceira de Nossa Senhora do
171
Carmo, para participar do cortejo. A procissão modificou-se um pouco, pois este grupo
participou com suas vestes de freis e freiras, caminhando entre as alas, dando um outro
aspecto ao conjunto. Na procissão do Depósito, chegaram a pegar no andor, próximo à
igreja das Mercês, fato que causou indignação em alguns membros da Confraria dos
Passos. No dia da Procissão dos Passos houve grande discussão na sacristia, pois os irmãos
das Mercês e os irmãos do Carmo, de São João Del Rei, queriam começar o trajeto
carregando o andor. Só resolveram depois que o “confrade mor” dos Passos declarou:
“só carrega andor quem tiver com opa roxa”.
Ou seja, os homens da Confraria dos Passos.
Em 2002, esse conflito ficou ainda mais acirrado e quase deu briga de verdade. Uma
disputa pelo monopólio do santo entre tiradentinos e entre estes e São Joanenses. Até aí um
fato bem típico desses rituais, os conflitos entre Irmandades, como já foi notado, originário
de épocas bem remotas. Sabe-se que, por dados históricos, os lugares ocupados nas
procissões garantem prestígio social e religioso aos participantes, então pergunto: o que há
de novo nessa festa, que até alguns anos atrás precisava procurar pessoas para carregar o
andor, e agora disputam entre um número cada vez maior este privilégio? Se já teve época
em que só saíram 8 pessoas carregando a imagem e era com muita dificuldade que
garantiam a realização da festa, agora existem mais de 50 homens disputando espaço?
Certamente a festa vem ganhando prestígio, e não somente entre os tiradentinos,
mas nota-se que também entre turistas. Se em 2000 o cortejo surpreendia o turista nas ruas
que nem imaginava sua ocorrência, em 2001 notava-se que esperavam a procissão em
vários locais pela cidade, chegando, alguns, a participarem da caminhada até o final. Em
2002 não faltaram comentários sobre isso, muitos turistas, que se interessam em ver ou
172
participar de um ritual mais organizado e tradicional estão preferindo esta época que a
Semana Santa. Não será de estranhar se um dia outro observador passar pela cidade, daqui
há alguns anos, e notar a mesma transversalidade nessa procissão que notei na procissão do
Enterro. Afinal, estamos tratando de uma cidade dinâmica.
Quem sabe a Festa de Passos não irá se candidatar ao Registro de Patrimônio
Imaterial Brasileiro? Só de cogitarem esta possibilidade não lhe garante a presença da
transversalidade, onde religião, tradição local e definições históricas não locais se cruzam
na atribuição de sentido?
Não era somente o maior número de turistas que se notava neste dia, também saíram
às ruas mais moradores, tiradentinos e “ets”, donos de pousada e restaurantes, sempre
carregando algum turista junto deles. Também podia-se ver no largo do Rosário carrocinhas
de cachorro quente, refrigerante, cerveja, vendedores de milho e algodão doce. Consumo,
lazer e espetáculo começam a ganhar espaço nesta festa.
Sexta feira santa
Mas e o que aconteceu então com a sexta feira da Paixão, com a tão comentada
procissão do Enterro?
No ano 2001, na sexta feira, de dia, as ruas estavam bem cheias, muitos carros,
casais e famílias, como no ano anterior. À tarde flagrei uma situação interessante no centro.
Dois carros de turistas equipados com grandes caixas de som tocando o famoso “Bonde do
Tigrão”, cercado por algumas “cachorronas” dançando funk. Pouco depois de terem aberto
suas portas e começado o “baile”, dois policiais chegaram e acabaram com a festa. Sexta
feira da paixão não pode ouvir música alta. Pensei que voltariam mais tarde, mas pude
observar que o decorrer do dia as rua s foram ficando cada vez mais calmas. Não houve
173
festival de Jazz, o Centro Cultural nem sequer abriu no feriado, nenhuma programação
paralela, somente procissão à noite, nada de festas, a não ser os bares de sempre. Em um
deles anunciava música ao vivo em um cartaz:
“Hoje à noite som com Big Charles. Depois da procissão”.
Na Matriz os mesmos devotos do ano anterior já preparavam para a procissão da
noite. A imagem já estava no esquife e passavam as roupas para os 58 figurados. Desta vez
as imagens estavam no quarto dos Sete Passos que ficava fechado, não foi como no ano
passado. A adoração da cruz às três horas foi feita na Igreja do Evangelista. Havia muitos
turistas na missa, todos muito respeitosos e participando da celebração. Lembrei-me de
Brandão novamente:
“Participar das cerimônias rituais da Semana Santa em Ouro Preto significa vivêlas como uma rara ‘experiência de cultura’. ... Se para os devotos do lugar a festa
vale como culto, e o sinal dele é a dor; para o turista o culto vale como festa e o
símbolo dela é a alegria da rara novidade. Seguirão eles prescrições? comungarão
no domingo? ...Farão festas, irão aos bares, curtição...”
Ninguém reza ali, e seria muito estranho que um turista católico se ajoelhasse
diante do altar, embora alguns esparramem pelo peito um em nome do pai
envergonhado mais do que fervoroso.” (BRANDÃO, 1989: 61).
Em Tiradentes, pelo menos naquele ano, os turistas não só se ajoelharam como
também comungaram e participaram da missa até o fim, embora houvesse os que somente
“sapeavam” no templo. O fato é que não se pode fazer afirmações generalizadas e
estanques e nem se pode dizer, pela observação de um ano somente que as coisas são
174
“assim ou assado”. De fato, é um lugar do encontro de múltiplos sentidos, os quais podem
variar ano após ano.
A procissão transcorreu bem, mudando o trajeto em função da Igreja em reforma,
fato este que gerou muita reclamação. Havia muita gente de fora, mas não tinha clima para
o cruzamento de ritual como no ano passado. Os carros, que de dia tomavam as ruas por
onde iria passar o cortejo, foram todos retirados, aumentaram o policiamento e nada estava
fora do lugar. Antes da cerimônia os policiais estavam aflitos atrás dos donos dos
automóveis. Perguntei a um deles se conseguiriam retirá-los todos. Ele me disse que estava
difícil, mas tinham que conseguir de qualquer jeito. O problema era encontrar os donos,
pois não podiam anunciar em auto-falantes ou rádios, pois na Sexta Feira da Paixão isso
não era permitido. Como nos preceitos antigos anunciados nos cartazes do projeto Reviver
e no artigo do jornal:
“Os sinos e os órgãos das igrejas deixavam de tanger, ouvia-se apenas o ruído
soturno e rouco do ranger das matracas... não se ligavam rádios, não se abriam os
bares, não se falava alto pelas ruas. Tudo tinha um ar soturno de reverência.”
(RODRIGUES, 2000).
É certo que os bares se abriram, mas não houve festival de música, houve som ao
vivo, mas depois da procissão, era dia de festa sim, mas só nos bares na parte baixa da
cidade, nas ruas por onde passava a procissão “tudo tinha um ar soturno de reverência”. Até
o largo do Rosário, na rua Direita tinha pouca gente. Porém não faltou quem dissesse:
“Já é hora de montarem umas arquibancadas para a gente ver melhor a
procissão”.
175
E quanto à presença de filmadoras, claquetes e etc? Só vi a minha, pequenina.
Quanto ao filme que fizeram no ano anterior? Ninguém sabia dar notícia, só fiquei sabendo
que a produtora mandou pedir mil desculpas, pois não sabia que causaria tantos problemas.
Coincidência ou não, nunca mais vi a coordenadora do Centro Cultural Ives Alves, aquela
que programou o festival de jazz, soube depois que estava morando em Mariana...
Poderia, então, diante de tal dinamicidade ritual, buscar uma conclusão pensando a
partir da idéia de performance de Victor Turner. Se pudermos compreender performance
ritual como um desempenho na articulação entre representação e estrutura social, entre o
ser social e o ator ritual, diria que as procissões da Semana Santa em Tiradentes, formam
um conjunto ritual onde os atores se esforçam por representar simbolicamente uma
cosmologia que acreditam, naquele momento, ser a mais adequada para equilibrar as forças
sociais em ação ou ao contrário, romper com elas. Sendo que, cada representação não
encontra uma correspondência unívoca na estrutura das relações sociais, mas expressa um
comentário possível acerca de relações possíveis. Sejam estas relações sociais ou
transcendentais.
“Ritual e teatro envolvem processos liminares e têm um aspecto de metacomentário
social.”
Tais comentários desenvolvem, em momentos de conflito uma
“ação pública de regulação ... o resultado pode ser a paz e a normalidade ou um
cisma.” (Turner, 1990).
Assim, tanto a Festa de Passos, quanto a Procissão do Enterro, enquanto ação
pública de um comentário possível sobre uma realidade, podem se configurar como um
“armazém de possibilidades”, contribuindo para regular a sociedade no sentido de voltar-se
176
para a tradição como forma preponderante na construção de uma cosmologia, quanto
podem levar ao cisma com esta tradição, num voltar-se para a elaboração de um olhar
diferenciado, inovador, sobre a realidade da cidade. Como momentos liminares, podem
ainda, variavelmente, dependendo da performance, do desempenho em articular os
processos em jogo, provocar conciliações ou rupturas entre pessoas, instituições e
estruturas lógicas de pensamento.
Os rituais não são simplesmente imitações da estrutura social, principalmente dentro
de uma sociedade diversificada, composta por turistas de vários tipos, tiradentinos com
várias visões e disputas, “ets” de várias procedências, instituições religiosas e seculares,
locais ou multilocais. Assim, seus rituais só podem produzir
“versões que tentam nomear significado ao padrão de crise (pode se ler dinâmica)
particular da própria sociedade ... Cada performance se torna um registro, um
meio de explicação” (turner, 1990),
entre tantos possíveis.
A inter-relação entre ser e representar não forma um padrão infinito cíclico e
repetitivo, mas está mais próximo de um espiralando, respondendo a invenções e mudanças
propostas pela realidade dinâmica que se apresenta. Por isso é que só se pode interpretar os
rituais descritos acima, na medida em que abarque um recorte diacrônico onde esta espiral
pode ser notada, uma vez que de ano a ano mudam-se os discursos e as performances, de
acordo com aquilo que os protagonistas pretendem dizer ou interferir na realidade.
Se Tiradentes é um caldeirão efervescente de possibilidades, os rituais que
dramatizam essa ebulição também tendem a se apresentar como dinâmicos e variados. No
177
entanto pergunto: não existiria uma estrutura mais ou menos estável e comum capaz de
fazer com que não haja um dilaceramento desta sociedade, provocando um caos
incontrolável? Seria apenas um equilíbrio de forças capaz de controlar uma explosão
caótica de conseqüências funestas? Não existiria um sentido mais subjacente costurando
tantos personagens e tantas significações, o qual levaria pessoas de cosmologias tão
diversas a conviverem em tão pequeno espaço físico e social?
178
CAPÍTULO QUARTO:
ALINHAVANDO O TECIDO SOCIAL.
Neste quarto capítulo, vou tentar realizar a difícil tarefa de costurar todos estes
retalhos que a realidade sócio cultural fornece, de forma muitas vezes desconexa, e que
venho apresentando. Partirei de um fragmento do sermão proferido por um seminarista25 na
cerimônia do Descendimendo realizada no ano de 2001, onde o pregador, em seu discurso,
enfocava vários aspectos presentes no contexto tiradentino. Abordava o mito celebrado nas
festas, sua relação com a realidade, os mecanismos de projeção, substituição e
identificação, a Igreja como representante do Divino, o entrelaçar da arte, com a história e a
religião e suas rupturas, a valorização do sagrado e a disputa pelo monopólio do simbólico
representada nos vários usos da igreja Matriz.
“...Saí do pai e vim ao mundo, outra vez deixo o mundo e vou para o meu pai.
Aquele que volta ao pai leva consigo a humanidade como mistério da vida e da
morte. Em nome de cada ser humano o abandono nas mãos do pai. É a salvação
para quem se sente abandonado, até mesmo por Deus. O grito de Jesus é o nosso
grito, a oração de Jesus é a nossa oração, a morte de Jesus é a nossa morte. Só
assim poderemos também exclamar: onde está oh morte a sua vitória, onde está oh
morte o seu ferrão? Graças a Deus que nos dá a vitória por Jesus Cristo. ...
25
Neste ano, 2001, a paróquia não contratou um pregador de fora, por falta de dinheiro. Resolveram convidar
um seminarista que já atuava no município em uma comunidade rural. Como no sermão do Descendimento, o
sermão da Prisão também foi realizado por um seminarista local. É interessante observar que falta dinheiro
para realizar uma Semana Santa mais sofisticada, uma vez que a comunidade é que financia com suas
pequenas doações. O apoio do comércio e da prefeitura é reduzido e mesmo a arrecadação dos ingressos das
visitações à igreja não é empregado nesse fim. Se o turismo local movimenta uma soma grande de dinheiro
nessa época, mesmo em função do evento religioso, estes recursos não são a ele repassados, não há um
investimento orientado, o que indica que é um acontecimento não totalmente mercantilizado.
179
Encerra-se ali a missão de Jesus e começa a missão da Igreja. Ela nasce como
testemunho do mistério pascal, definitivamente travada na história humana. Esta
Igreja que nasce do mandamento de Jesus. Essa mesma igreja que está presente
nesta terra há quase trezentos anos. Construída por nossos antepassados para a
glória de Deus. Se nós olharmos a história da nossa paróquia de Tiradentes, 436
quilos de ouro, a primeira em arte barroca do Brasil, a segunda mais rica do
Brasil. É preciso meus queridos irmãos, que esta igreja que é histórica, dela parte
as suas tradições. Não podemos deixar que seja transformada simplesmente em
espaço cultural, mas que conserve a tradição, o amor com que aqueles homens do
passado a construíram para a maior glória de Deus. Para homenagear aquele que
morreu por nós na cruz e que ressuscitou. Nós vivemos meus irmãos em um mundo
marcado pela ausência de Deus. A missão principal desta matriz é revelar Deus, é
fazer com que a humanidade se encontre com Deus e se encontre com Jesus Cristo
e sobretudo onde os irmãos possam se encontrar.”
São muitos os elementos a serem trabalhados interpretativamente, comparando fatos
e discursos, portanto peço ao leitor um pouco de paciência, pois abordarei vários
acontecimentos parte por parte. Começarei pela seguinte colocação que norteou a
preocupação básica do discurso do pregador:
“Não podemos deixar que seja transformada (a Matriz) simplesmente em espaço
cultural...”
Esta frase se refere ao drama vivido na cidade com relação à reforma da Matriz de
Santo Antônio, explicitando a existência de um conflito em termos dos usos e dos sentidos
que foram postos em jogo durante este processo.
180
A igreja Matriz de Santo Antônio, que teve suas obras iniciadas em 1710 pela
Irmandade do Santíssimo Sacramento, como já foi mencionado no primeiro capítulo,
passou, entre os anos de 2001 e 2002, por um processo de restauração em virtude do
comprometimento de suas fundações. Um problema de estrutura, ocorrido em função de
infiltração que ameaçava principalmente a torre direita, onde se encontra o sino maior da
igreja e que poderia levar a baixo todo o frontispício. Para o projeto de restauração foi feita
uma parceria entre IPHAN, Fundação Roberto Marinho e Banco Nacional de
Desenvolvimento (BNDES), com o apoio do Ministério da Cultura. O projeto apresentado
à comunidade no início do processo, em 28 de janeiro de 2001, consistia em reestruturar a
fundação, construir um sistema de drenagem por todo o terreno da igreja, restaurar o
madeirame e telhas do telhado, renovar a parte artística e ainda promover um envolvimento
com a comunidade, no sentido de realizar um trabalho conjunto, incluindo também a
educação e a conscientização desta, na intenção de não limitar o projeto à restauração, mas
garantir um envolvimento da comunidade para que pudesse haver sustentabilidade e
durabilidade nos cuidados com o prédio.
Percebe-se que a mentalidade propagada pelos órgãos que lidam com a preservação
do patrimônio, é desenvolver projetos que garantam o envolvimento da comunidade e a
sustentabilidade, ou seja, a garantia de que, depois que a restauração fosse concluída, as
pessoas que usufruem o monumento trabalhem no sentido de, organizadamente, garantir
uma conservação auto-financiada por um fundo monetário. Tal proposta estava também no
projeto Monumenta e em outras realizações como a Construção do Centro Cultural Ives
Alves.
181
Várias medidas, então, precisariam ser tomadas para que este trabalho em conjunto
fosse realizado com sucesso. Primeiramente, tinha o problema da escavação em torno da
igreja para refazer a fundação e a perfuração de canaletas pelo terreno para a construção do
sistema de drenagem. Tal empreendimento contou com diversos problemas, por se tratar,
todo o terreno, tanto dentro quanto fora da igreja, de cemitério. Dentro da igreja um
problema arqueológico, pois havia ossadas muito antigas, fora da igreja um conflito com a
comunidade, pois é um cemitério ainda em uso.
A Segunda medida seria explicar à comunidade como a obra, de grande
complexidade, se realizaria. Tarefa também difícil, uma vez que a maior parte do povo
trabalha na construção civil na cidade e demorou um bocado para aceitar a tecnologia
inovadora proposta.
O terceiro problema era o de organizar a comunidade para pensar no uso futuro da
Igreja, o que passaria primeiro pelo destino que dariam ao prédio após a restauração e
segundo pela administração de um fundo financeiro que governaria sua conservação.
Começo por expor esta última questão. Acredito que ela é de grande interesse para
compreendermos o problema abordado nesta pesquisa, que trata dos usos e sentidos dos
prédios e objetos, que são, ao mesmo tempo, de interesse religioso e histórico e artístico.
Tomei como referência para esta exposição, as reuniões que se organizaram para realizarem
estas discussões. Nesses momentos de assembléia, pode-se perceber claramente como são
difíceis as negociações entre grupos que carregam estas visões diferenciadas, a religiosa e a
histórico-cultural, ou artística. São pessoas, ligadas a segmentos, com interesses
particulares, que se defrontam para decidirem quais são os usos mais legítimos que deverão
vigorar após a reforma, orientadas principalmente pela forma como percebem o objeto.
182
Cada um atribuindo um significado diverso a um mesmo significante e negociando o uso
que darão a ele. Esta é a comunidade que se forma em Tiradentes: a procedência multilocal,
a disputa pelo controle do simbólico, a multiplicidade de sentidos, e a múltipla pertença (no
sentido de propriedade) dos objetos.
A primeira reunião realizada, dia 28 de janeiro, foi convocada pela Fundação,
responsável pelo projeto, para a apresentação deste à comunidade. Nesta, estavam presentes
alguns representantes, ou supostos representantes de instituições locais, como na oficina do
Monumenta. A maioria do povo não foi chamada, quase ninguém ficou sabendo e imperou
um tom mais “culturalista” com relação à concepção da Igreja e aos usos que deveria ter. O
padre ficou preocupado com o rumo das coisas e resolveu levantar uma campanha na
cidade para a defesa do sentido do sagrado (vide entrevista). Convocou toda a comunidade
a comparecer numa próxima reunião, onde o povo tiradentino o ajudaria na defesa da
Matriz enquanto igreja carregada pelo seu sentido religioso.
Nisso o “circo foi armado”. Surgiu um boato. Circulou pela cidade a notícia de que
a Fundação iria tomar a Igreja do povo e transformá-la em museu. Sobre a formação do
boato analisarei mais adiante, vejamos por hora os fatos.
Houve então uma segunda reunião, quando o centro cultural ficou lotado. O povo
compareceu em massa, pois foi chamado nas missas pelo padre e partiu em “defesa da
igreja”, como diziam. A confusão foi grande e a briga ampla, entre irmandades, católicos,
comerciantes, artistas, Fundação, líderes culturais e etc. Até então, nessas reuniões, era
sugerido que a igreja abrigasse mais eventos culturais, concertos, autos de natal,
casamentos, missas em latim com paramentos do século XVIII, com o objetivo de ampliar
o uso do prédio, que é também um patrimônio cultural além de religioso, para atrair mais
183
turistas para a cidade e constituir o fundo que seria utilizado na conservação posterior da
igreja.
Muitas outras reuniões se seguiram a estas, fossem para tratar dos usos da igreja ou
para fazer relatórios sobre o andamento do projeto e das comissões que se formaram, a
comissão de obras e a comissão de remoção dos túmulos. Em tais reuniões era notório o
bom domínio dos agentes da Fundação, sua boa articulação e mesmo habilidade na
condução e no convencimento. Do lado da platéia, um povo (que se entitulava o povo
católico de Tiradentes) radical em suas opiniões firmes, e muito desconfiado. O pessoal que
vem dessas instituições para organizar o povo, traz suas propostas muito bem formuladas e
possuem uma habilidade muito grande. Por outro lado, demonstram um desconhecimento a
respeito da realidade da cidade e seus problemas mais profundos, o que dificulta muitas
vezes os processos. Não existem grandes projetos para a cidade, com movimentação de
recursos de grande valor, que partam realmente da população local, em geral são projetos
formulados em alguma grande cidade distante, por técnicos que muitas vezes não
conhecem a fundo as pessoas do lugar. Este tipo de iniciativa é interessante para trabalhar a
confluência entre grupos e pessoas, mas infelizmente têm pouco sucesso pela postura
“pedagógica” com que vêem e tratam as pessoas. “Pedagógica” no sentido em que
assumem a postura, nós ensinamos e eles aprendem, nós temos os contatos e o dinheiro,
eles a necessidade e a carência. Este tipo de postura costuma esbarrar no orgulho do povo,
gerando dificuldades de comunicação e desconfiança.
Com relação à formação do fundo e do conselho que gerenciaria este fundo, uma
concepção idealizada sem a discussão com a comunidade ali presente, pré concebida,
provocou descontentamento por parte do padre e da comunidade católica ali presente. A
184
Fundação queria participar de alguma forma desse conselho, pelo menos indicando nomes,
mas o padre e o povo não queriam a presença de ninguém que fosse de fora da cidade, pois
achavam que Tiradentes está sendo invadida, e nem pessoas que não fossem da comunidade
católica, pois acreditavam que queriam transformar a igreja em museu.
Dizia um agente da Fundação:
...na nossa primeira reunião quando trouxemos o assunto da restauração da igreja
Matriz, que a Fundação Roberto Marinho e o BNDES, vieram a Tiradentes para
restaurar a Matriz, buscando sua manutenção após a restauração, a exemplo do
que fizemos aqui no Centro Cultural. Então, aqui o Centro Cultural ele tem um
conselho que é responsável pelas decisões das coisas que acontecem aqui dentro.
...Acho que a paróquia da igreja Matriz deve isto tanto à Fundação Roberto
Marinho quanto ao BNDES.”
Padre:
“ mas aqui (Centro Cultural) não é religioso”
Agente da Fundação:
“que estão investindo um dinheiro enorme para a restauração, tanto que todas
estas idéias que nós tamos conseguindo realizar ... estão sendo feitas pelo esforço
de duas instituições que são Fundação e Banco. Eu acho que vocês estão sendo um
pouco ingratos em decidir que ninguém mais participe a não ser a população de
Tiradentes e os paroquianos. Acho que tem que colocar isso na balança porque não
é toda hora que a Fundação e o Banco vai e vem.
185
Eu disse foi o seguinte, que o esforço que nós estamos fazendo, o investimento que
nós estamos fazendo, seria uma coisa cordial da parte de vocês, permitirem que nós
participássemos, não pessoalmente, mas indicássemos pessoas para estar nesse
conselho”
Tiradentina:
“não, isso não”
Agente da Fundação:
“não me parece isso democrático. Eu já expliquei isso uma vez, nós temos milhares
de igrejas no Brasil e nós escolhemos Tiradentes...
As duas instituições decidiram vir a Tiradentes fazer isso porque acharam que era
importante, porque temos interesse em ver esta igreja durar por mais cem anos.
Então por isso que nós estamos insistindo nesta questão do fundo. Porque nós
entendemos que, não basta nós realizarmos esta obra agora e ir embora, porque
nós sabemos que vai se estragar de novo, por outros exemplos que nós tivemos em
vários lugares do Brasil. Então, a questão da manutenção da igreja depois das
obras é importantíssimo e talvez mais importante do que as obras propriamente
ditas. Porque senão daqui a cinco anos vocês vão tá chamando de novo a Fundação
e o Banco pra fazer isso. Então eu acho que este é o ponto e por isso eu acho que as
instituições merecem um voto de confiança. É uma questão de respeito mútuo, que
nós temos participado desse momento importante, também fôssemos convidados a
participar do futuro..”.
186
O primeiro ponto a ser pensado, é a dificuldade em aceitar, não especificamente a
participação da Fundação Roberto Marinho, grupo com o qual a cidade sempre manteve
boas relações, mas a participação de não tiradentinos e não católicos. O que estava
chegando como proposta de fora era, não somente a idéia de uso ampliado, mas a mudança
em relações tradicionais na organização das atividades da igreja. Algo de moderno estava
sendo proposto e este algo se confrontava com relações sociais tradicionais. A formação de
um conselho esbarrava na estrutura clerical da Igreja, por um lado, e por outro, nas
responsabilidades de zelo do templo, tarefa vitalícia passada de parente para parente. 26
A formação do fundo chegou a ser consenso, mas o conselho que administraria o
fundo, apesar de aceito, marcou a polêmica sobre sua composição. Disse o padre:
“Então nossa preocupação é a seguinte, que nessa comissão tenha pessoas de
Igreja. Ontem eu conversei com Dom Waldemar e fiquei preocupado... Então
pessoas que vão administrar a Matriz sejam primeiramente católicas... se a pessoa
não é católica e só fala de fora, tá errado. Não tô fazendo discriminação aqui não,
cada um segue o caminho que quiser, mas eu não posso administrar a igreja dos
crentes lá embaixo. Quero dizer o seguinte: que nós aqui não vamos admitir
pessoas estranhas lá dentro. São pessoas daqui de Tiradentes que vão formar esta
comissão para administrar a Matriz. Nós não vamos pegar uma pessoa estranha
para fazer parte lá dentro...”
Agente da Fundação:
26
Para esclarecer melhor este último ponto, todas as igrejas no interior de Minas, não só em Minas, têm uma
dupla administração, a do pároco, oficial e legal e a de pessoas ou grupos, Irmandades como na Igreja das
Mercês, ou pessoas de uma família, responsáveis pelos cuidados com a igreja e com a qual mantém uma
relação quase de posse, assumindo “cargos” vitalícios, é uma tradição.
187
“Nós não falamos em administrar a Matriz, o problema da administração da Matriz
é do senhor com a paróquia, um assunto da comunidade católica ligada à Matriz de
Santo Antônio.
Quem seria membro do fundo? ...vocês indiquem quatro, o restante dos
tiradentinos
indiquem quatro ...A pessoa pode não ser católica mas ser honesta,
digna, solidária, ter princípios democráticos e ser um cidadão, e ser capaz de
respeitar o pensamento de todos... que saibam ouvir, que tenham sensibilidade,
respeitar a opinião contrária, que sejam vistas como pessoas capazes de cooperar,
e também tem um lado prático, que sejam pessoas capazes de articular e conseguir
recursos para organizar um auto de natal, trazer uma orquestra sinfônica e assim
por diante, fazer contato em SãoPaulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e tudo mais
... este conselho vai prestar conta todo mês e se alguma coisa for feita na igreja
não é o fundo ou o conselho do fundo que vai decidir... vai consultar a paróquia. Se
a paróquia quiser ela autoriza... o conselho não tem autoridade legal para se impor
à paróquia.”
Então, a formação do conselho deveria seguir prerrogativas modernas como eleição,
ao contrário da tradição, como no caso do zelador da Matriz, uma função que, além de
vitalícia, passa de parente para parente.
Agente da Fundação:
“Então neste comitê, neste conselho, que inclusive não deve ser vitalício, deve
mudar de ano em ano ou de dois em dois anos, pra dar oportunidade pra outros ser
responsável por, permanentemente estar buscando recursos... prestando conta
...apresentando os problemas”
188
Em seguida outros valores também modernos como espírito público e diálogo
democrático...
“...honestidade, espírito público, capacidade de diálogo, de respeitar o ponto de
vista do outro para não transformar o conselho num ambiente de disputa, vai
transformar o ambiente do conselho num ambiente de cooperação, relações de
amizade e cooperação. Pode ter divergência, ...mas ter capacidade de
entendimento, isso é que é fundamental, espírito público, para que amanhã se
alguém entrar no conselho e não corresponder à nossa expectativa, substitui a
pessoa porque ela tem uma conduta inadequada... Vamos ser prudente, a
honestidade, o espírito público, a capacidade de ouvir o outro, de interagir,
responsabilidade de encaminhar...
Se fosse um conselho só da paróquia, já tem, então ativa a irmandade, ativa as
pastorais. Mas e na hora que precisar de apoio? Se faz um conselho só católico tá
excluindo quem não é, tá excluindo quem não é muito católico, tá excluindo gente
de espírito público de grandeza moral, que tem espírito de solidariedade...E se
vocês fossem exigir da Fundação que pra ela ajudar tivesse que ser católica?”
Imagine, se falar com seu Joaquinzinho que é o “zelador mor” da igreja (hoje já
muito velho e substituído por um sobrinho) de espírito público, interação, ou eleição?
Certamente ele nem entenderia do que se tratava o assunto, ou pelo menos faria de
desentendido. Sobre as disputas? A cidade é cheia delas, cada um controla um espaço, uma
igreja, uma cerimônia ou uma festa e é só abrir uma brecha, seja por doença ou morte que
começam as disputas para ver quem assume o lugar. Certamente, dentro de toda essa
polêmica sobre o que deveria ser feito com a igreja e sua administração, muitos interesses
189
pessoais, de prestígio e poder estavam em jogo, embutidos na defesa da cultura ou do
sagrado.
O debate continua. Agente da Fundação:
“Vamos supor que seja católico, escolhido por quem?”
Tiradentina:
“Por nós paroquianos”
Agente da Fundação:
“Então pra quê criar o conselho se tem a irmandade. Então a irmandade cria o
fundo. Quer coisa melhor para representar a paróquia que a irmandade? Nós
estamos perdendo até tempo em discutir isto. Transforma a irmandade em conselho
e a irmandade opera o fundo. Agora quando tiver problema a irmandade
resolva... não venha chamar a Fundação.
A Fundação Roberto Marinho não está fazendo isso pros católicos. A Fundação
Roberto Marinho não pode definir uma religião melhor que a outra... Estamos
fazendo isso porque a igreja é um monumento histórico e um monumento religioso.
Todo cidadão brasileiro tem o direito de respeitosamente colaborar... Esse
monumento não é qualquer monumento é uma igreja e temos que respeitar isso...
Acho que a Fundação Roberto Marinho tem uma postura moderna, porém uma
modernidade negociada com a tradição. Não se trata de dessacralizar, mas, respeitando o
sagrado, abrir espaço para a realização do secular, artístico, cultural. Dizia o agente da
Fundação:
190
Então nos momentos em que não houver a função religiosa, com a concordância da
paróquia... haverá um auto de natal, um coral, música sinfônica, uma apresentação
no órgão ou o que seja, desde que a paróquia concorde. O que foi proposto com
todo respeito.
Em primeiro lugar é uma Igreja, e com uma missão religiosa, isso em primeiro
lugar. Qualquer coisa que ameace essa missão religiosa não deverá ser acolhido,
porque não será boa. Em segundo lugar respeitar a comunidade chamada
paróquia, qualquer atividade além da missão religiosa... terá que ter primeiro a
concordância da paróquia na sua representação.”
Joatan Vilela Berbel, secretário de música do Ministério da Cultura, em entrevista a
um boletim do Projeto de Restauração e Revitalização Religiosa e Cultural do Santuário de
Nossa Senhora do Carmo (novembro de 2001), em Mariana, afirma claramente um tipo de
proposta, semelhante à defendida pela Fundação na reuniã o:
“O patrimônio cultural criado por esta relação fé-arte é um ativo cultural que
sempre esteve disponível. A diferença é que hoje se compreende melhor o valor
deste ativo, que não é somente para a prática religiosa, mas também tem seu valor
estético, seu interesse cultural mais amplo que atrai a atenção de visitantes pela sua
expressividde e beleza estética. O processo de restauração e revitalização de um
patrimônio cultural tem como objetivo o seu uso de forma mais ampla e, portanto,
com o envolvimento de grupos que não sejam exclusivamente de interesse religioso,
como foi na sua origem.... estamos ... desenvolvendo a atenção para o turismo,
implementando novas atividades geradoras de emprego e renda para a região.”
191
Este discurso ajuda a entrelaçar parte do problema, a relação entre Patrimônio
cultural, arte, religião e turismo, pois traduz, resumidamente, a concepção que certos órgãos
de proteção ao patrimônio têm hoje sobre esta relação. Para estes, é necessário garantir a
proteção dos monumento s religiosos, porém é necessário ampliar seu uso para toda uma
sociedade não católica. Por outro lado, não é considerado somente como um “ativo
cultural”, mas também como um bem econômico, capaz de gerar riqueza para a população
e para a sua própria manutenção. Este é um discurso que entrelaça os vários sentidos dos
prédios e norteia as ações das pessoas envolvidas com sua proteção destes bens, nos
processos de negociação com paróquias e comunidades. Se para eles parece um
pensamento óbvio e sensato, bem elaborado do ponto de vista lógico, e que agrada a boa
parte das comunidades, não somente de Tiradentes como de outros lugares, porque outra
parte do povo é tão reticente em aceitá-la?
Gostaria de destacar o fato de que as opiniões aqui expostas, na descrição das
reuniões em torno da reforma da Matriz, não correspondem a todos os tiradentinos, seria
incoerência minha, uma vez que já antecipei a inexistência de um consenso entre eles.
Somente destaco aqui estas opiniões para efeito de análise.
Observe que o Projeto Reviver, descrito anteriormente, tende muito mais a uma
articulação entre tradição, patrimônio e turismo do que as opiniões presentes nestas
reuniões da Fundação com a paróquia. A tradição revista, repensada e recriada, abordada
naquele projeto, se apresenta de forma diferenciada da tradição arraigada e radicalizada que
aparece na “defesa da igreja”. Se, observo a negociação por um lado, observo o acirramento
das diferenças por outro. Num contexto em que a cultura se forja, hoje, por determinantes
multilocais, como verifiquei na oficina do projeto Monumenta, os tiradentinos tendem, por
192
um lado a recriar suas tradições combinando-as com a realidade turística e do patrimônio,
como está expresso no Projeto Reviver. Por outro lado, também há uma tendência em
acirrar as diferenças, vertendo-se de forma radical à tradição, como é o caso evidenciado
nas reuniões da Reforma da Matriz.
Se alguns segmentos da população local tendem a negociar e combinar, outros
procuram afirmar as oposições entre pessoas “de dentro” e pessoas “de fora”, numa atitude
de desconfiança:
Tiradentina:
“Sabe o que está acontecendo em nossa cidade, eu vou te explicar o que está
acontecendo em nossa cidade... porque infelizmente Tiradentes tá sendo dominado,
tá de acordo com aquela música, “tá tudo dominado”. Então o povo
agora não
está aceitando isso mais. E a Matriz vai formar uma comissão?, vai.... O que
nós
tiradentinos queremos é que nós possamos administrar as nossas coisas, porque
nós estamos sendo colocados para o escanteio. A realidade de Tiradentes é
esta, o tiradentino está sendo encostado, e isso não pode continuar acontecendo.
Então nós católicos não vamos aceitar isso... O povo está desconfiado com o que
anda acontecendo, com o desrespeito ao tiradentino. Então tendo este desrespeito
ao tiradentino, ele está com medo, está recuando, não está aceitando mais, então tá
partindo, olha, o tiradentino hoje, da era de hoje, ele está partindo para, dá-se a
impressão que vai ter uma revolução. O exemplo está aí, com essa... da Matriz,
falar que vai virar museu, que vão tornar dono da igreja. O povo não está
aceitando e não vai aceitar. Tá tomando uma coisa que é do tiradentino que por
direito pertence a ele. Isso aqui é uma herança nossa, se é uma herança nossa,
193
gente! Se é uma herança nossa, nós somos donos e é isso que não querem aceitar e
tem por obrigação de aceitar.”
Por este depoimento, percebe-se que certos tiradentinos não aceitam a negociação
proposta pelos órgãos de proteção e restauração do patrimônio, inc luindo, neste caso, a
ação da Fundação Roberto Marinho, porque acreditam que estão querendo usurpar de seus
direitos de propriedade e decisão. Nesse caso, não compreendem a ampliação do direito de
uso destes monumentos, não compreendem o que significa o Patrimônio Nacional, com seu
caráter de duplo pertencimento.
Agente da Fundação:
“Quando este monumento tem uma importância local fundamental, tem uma
importância estadual, nacional e até internacional.
Em momento algum, ninguém propôs que a igreja deixe de ser igreja, muito pelo
contrário, seja católico ou não, tendo ou não tendo religião. Todas as propostas
foram de que a igreja tem que continuar uma igreja. Porém é possível, além do uso
religioso, que é o mais importante que é a razão de ser da Igreja Matriz de Santo
Antônio.”
Mas este discurso, consoante com o discurso do patrimônio apresentado no capítulo
primeiro, da valorização da identidade local na busca da identidade nacional, não convence
a todos. A desconfiança continua como se pode observar na fala de outro tiradentino:
“Eu tenho uma tia, que é a tia Joana que todo mundo adora em Tiradentes que
falou: vai na reunião, que tão querendo roubar a Matriz, então a gente tem que ver
194
né, tem suspeita ... A verdade é que tem muita gente atrás da cortina, atrás dessas
especulações, atrás desses comentários, a gente fica preocupado ...”
O que aconteceu, afinal, o que ficou decidido sobre estes problemas levantados pela
população, não é o que nos interessa no presente. O desfecho do conflito não vem ao caso.
Se a Fundação pretendia ou não transformar a Matriz em Museu ou roubá-la dos
tiradentinos é uma questão talvez sem resposta, mas o que interessa é perceber quais os
esquemas simbólicos estão sendo articulados em meio ao conflito. Quais as estruturas de
significado estão sendo manipuladas num patamar subjacente ao conflito explícito. Como
se estrutura o jogo cosmológico que possibilitou o surgimento de tal preocupação: “estão
roubando nossa Matriz”?
Ajuda a esclarecer esta pergunta, uma primeira correlação entre o debate transcrito e
o sermão do Descendimento, a questão dos usos da igreja. No sermão o pregador conclama
o povo:
“...que conserve a tradição, o amor com que aqueles homens do passado a
construíram para a maior glória de Deus.”
A oposição tradição/museu, ou melhor, tradição herdada pelos antepassados/uso
cultural proposto pelos de fora, nos leva a pensar que o problema não é exatamente o uso
diversificado, que faz parte da história da igreja e que continua ocorrendo sob autorização
do pároco, mesmo em meio ao conflito. O problema subjacente pode ser traduzido pela
disputa entre uma visão-de-mundo localmente construída e uma outra gestada em um outro
lugar, seja ele fora da Igreja Católica e ou fora de Tiradentes. O que perturba de fato não é
o uso, mas quem comanda o uso. Assim, a mesma lógica que está presente nas procissões,
quando estas tratam da ordem de precedência, também está presente no conflito em torno
195
do que vai ser feito com a Matriz. Se naquelas, pessoas e grupos disputam um lugar dentro
de um cortejo, que pretende declarar à assistência quem é superior e tem mais poder,
garantindo assim uma posição no ritual que pode lhe aferir mais prestigio social, no caso da
igreja, a disputa se dá em termos de quem irá ser o responsável pelas decisões em torno dos
usos do prédio, quem vai aparecer à frente, para uma assistência local e multilocal. Haja
visto a divulgação ampla que é feita da cidade, envolvendo mídia e turismo. Quem vai
aparecer na televisão quando houver uma reportagem? Fato que pode garantir prestígio,
poder e acesso a bens materiais. Ambas estão inseridas em um jogo de poder. A Fundação
de fato não se interessa somente pela cultura do país, mas também em realizar um
marketing cultural. Nesse caso, ordem de precedência e markheting guardam certa
similaridade. Será que às pessoas católicas e ao padre também só interessa a preservação do
sagrado? Qual é o seu sagrado? Aquele proclamado pelo seminarista, aquele controlado
pela Igreja Católica:
“Encerra-se ali a missão de Jesus e começa a missão da igreja. Ela nasce como
testemunho do mistério pascal, definitivamente travada na história humana. Esta
igreja que nasce do mandamento de Jesus. Essa mesma igreja que está presente
nesta terra há quase trezentos anos.”
Defender o sentido da Igreja garante para fiéis e sacerdotes a proeminência da
“glória de Deus” sobre as “coisas dos homens”, mas também garante prestígio e o controle
sobre o dinheiro de ingressos dos turistas para a manutenção da paróquia. Isto me leva a
pensar em um problema conceitual que está no debate travado pelas ciências da religião.
Como pensar em um conceito de religião somente a partir do sagrado, do misterium
196
tremendum (OTTO, 1985), diante deste quadro onde o mito da paixão de Jesus não se
separa de uma amplitude social, política e econômica que a religião abarca?
No imaginário de parte do povo tiradentino não era somente a Fundação que estava
querendo se apropriar de alguma coisa. Enquanto os “peões” da obra cavavam o solo, de
antigos e novos túmulos para construir canaletas de drenagem, ouvia-se pelas ruas, pelos
bares e nos fundos das casas à beira de velhos fogões, histórias sobre misteriosos homens
de preto em carros luxuosos que paravam em frente à igreja para carregar tesouros ali
escondidos. Não contavam mais estórias de assombração ou procissão de almas que
acompanhavam as Encomendações realizadas no período da quaresma, há muito tempo,
“uns vinte anos”, como me disse um tiradentino de 86 anos, não se vêem mais. Lembre-se
que vinte anos coincide com o início do processo de mudança da cidade. Hoje, as velhas
almas vestidas de branco dão lugar a homens vestidos com ternos pretos andando pelas ruas
em carros imponentes. Essas estórias mostram quanto do velho está morto e quanto ainda
sobrevive (BAKHITIN, 1996).
Isto me lembra uma passagem em que Otávio Velho conta sobre uma cidadezinha
no Pará, em que foi visto grande número de carros pretos, atravessando uma estrada.
Provavelmente parte da comitiva presidencial em direção a Marabá para a inauguração da
Transamazônica. Surgiu, então a notícia de que eram vampiros que ofereciam bombons às
crianças para agarrá-las e chupar seu sangue. Otávio nesta estória conta que, para o
imaginário local
“o mal vem de fora, na figura dos vampiros e dos carros pretos” (OTÁVIO
VELHO, 1995: 19)
Cita Paul Ricoeur:
197
“’A idéia de que algo quase material que infecta de fora, que contamina mediante
propriedades invisíveis, possui uma riqueza simbólica, um potencial de
simbolização que se atesta através da própria sobrevivência desse símbolo, sob
formas cada vez mais alegóricas.’” (OTÁVIO VELHO, 1995: 21).
Volto ao sermão e, inspirado por estas estórias, tentarei interpretar a pergunta que
ele coloca:
“O grito de Jesus é o nosso grito, a oração de Jesus é a nossa oração, a morte de
Jesus é a nossa morte. Só assim poderemos também exclamar: onde está oh morte a
sua vitória, onde está oh morte o seu ferrão?”
A morte, momento de ruptura, sinal de “desfazimento” de um mundo ordenado.
Morte humana superada pelo sacrifício de Jesus que, pela Graça de Deus, reordena o
cosmos e possibilita ao homem participar da sua superação. A morte vem de fora da ordem
divina, vem da ordem do mal. O mal vem de alhures, como o desequilíbrio ou a quebra da
ordem celestial, criada por Deus. Como diz Azzi, que citei no capítulo anterior sobre o mito
da Paixão:
“concepção metafísica que permite apresentar o universo como o grande teatro da
luta incessante entre o Bem e o mal” (AZZI, 1987: 102).
Deus é a verdadeira ordem da realidade, enquanto o mal representa a quebra dessa
ordem.
De fato os rituais de Tiradentes pretendem apresentar esse grande teatro da luta
entre o bem e o mal. Tais rituais não são somente uma apresentação espetacular, mas
possuem eficácia. Como na descrição do parto realizado pelo xamã (LEVI STRAUSS,
198
1989), representar o mistério da morte e ressurreição significa, para o fiel, realizar a
superação da morte e garantir a boa ordem do universo onde o mundo terreno está em
contigüidade com o mundo divino. Quebrar este ritual, interferir nos detalhes materiais dos
símbolos que utiliza nessa representação, pode significar para ele a impossibilidade da
realização do projeto de Deus no qual ele se acha incluído.
Dizia o sermão:
“Não podemos deixar que seja transformada simplesmente em espaço cultural, mas
que conserve a tradição, o amor com que aqueles homens do passado a
construíram para a maior glória de Deus. Para homenagear aquele que morreu por
nós na cruz e que ressuscitou. Nós vivemos meus irmãos em um mundo marcado
pela ausência de Deus. A missão principal desta Matriz é revelar Deus, é fazer com
que a humanidade se encontre com Deus e se encontre com Jesus Cristo e
sobretudo onde os irmãos possam se encontrar.”
“Roubar a Matriz” pode querer dizer muito mais para o tiradentino do que
simplesmente uma disputa entre povo católico e Fundação Roberto Marinho, mas pode
querer chamar atenção para o risco de perda dos elementos rituais que garantem eficácia na
manutenção da ordem cósmica. E aqui me refiro a um cosmo que não é somente
transcendente, após a morte, mas um cosmo onde mundo dos homens, no caso, mundo dos
tiradentinos, e mundo dos santos, Jesus, Nossa Senhora e Deus, coincidem. Representa,
este conflito, o risco que enfrentam a cada dia de ruptura com a ordem social, tradicional e
sagrada sobre a qual construíram suas certezas e sua cidade.
199
A partir dessas considerações teria subsídio para responder à questão da definição
de religião que passe tanto pelo social quanto pela mística? Não me atreveria a tanto, uma
vez que não é o objetivo do presente trabalho. Mas, poderia pensar com Max Weber que
“o modo de vida determinado religiosamente é, em si, profundamente influenciado
pelos fatores econômicos e políticos”
Mas não compreendo, concordando com este autor, que religião seja uma simples
função, que represente a ideologia, ou um reflexo de uma situação social material vivida
por um grupo. Segundo Weber:
“por mais incisivas que as influências sociais ... possam ter sido sobre uma ética
religiosa ... ela recebe sua marca ... em primeiro lugar de sua anunciação e
promessa”.
Embora estas possam ser reinterpretadas se
“ajustando às necessidades da comunidade religiosa”. (WEBER, 1995: 310, 312)
Sou levado a crer que o discurso do sagrado, no caso estudado, tem a ver com um
ajuste entre “fontes, anunciação e promessa” e a situação colocada por um contexto
dramático, marcado pela disputa e pela mudança, em que se encontra tal comunidade.
Elevam a Deus a luta em defesa de seu patrimônio particular, concebido como pertencente
a Tiradentes e que os de fora, turistas, “ets”, Fundações e etc fazem questão de afirmar que
é nacional, dando a eles, seja à Matriz, seja à tradição religiosa, outras significações que
extrapolam os limites de sua localidade.
De acordo com a interpretação histórica de Hoonaert (1989):
200
“A impressionante suntuosidade do século XVIII... não revela tanto a riqueza da
sociedade senão o conflito nela existente... é que elas exprimiam os anseios de
dignidade, valorização e respeito do povo.”
Concordando com Sueli Franco, que existem resíduos da cultura do século XVIII,
presentes em Tiradentes, muito ajudaria a idéia de Hoornaert quanto à questão dos “anseios
de dignidade, valorização e respeito do povo”. Constatado que o contexto é de conflito, de
disputa, pelo simbólico e pelo poder que representa, o que está em jogo, no final das contas,
tanto para “tiradentinos radicais” quanto para “tiradentinos conciliadores”, é a dignidade.
Seja ela entendida como auto-estima, no caso expresso pelo Projeto Reviver, seja ela
entendida como garantia da herança, como no caso da “revolução” de que fala a tiradentina
no depoimento acima. No limite, diria que, o que está em jogo é a própria garantia da
existência, seja ela compreendida em seu plano social, seja compreendid a em seu plano
transcendental. Se no imaginário do povo está em risco todo um cosmos, o que poderia
garantir sua continuidade estruturada, ou reestruturada, é a afirmação da “dignidade,
valorização e respeito”. Perder a dignidade no caso, se traduz pela perda de si mesmo e de
sua herança, de seu orgulho e de suas propriedades, de seu valor e de sua riqueza, enfim
perder a dignidade é despir-se da cultura e desta forma da própria humanidade. Arriscandose assim a perder não somente relações sociais e familiares, mas com santos e deuses.
Arrisca-se a perder seus símbolos e perder-se em meio a tantas possibilidades de
significação. Enfim, o risco da perda da dignidade é o risco da perda da cultura, os
“programas culturais”, dos quais é “desesperadamente dependente”, para ordenar seu
comportamento e garantir sua existência, como diria Geertz (1978:96).
201
No caso do tiradentino, radical ou não, a dignidade, a valorização e o respeito, estão
expressos tanto nas posições ocupadas na ordem de uma procissão, quanto na expressão
“dar show para um turista”, ou fazer parte do Conselho da Matriz. O depoimento do diretor
da Escola é bem ilustrativo nesse sentido:
“Jovens e adolescente que poderia dar show, entendeu. Desde uma conversa com o
turista até uma apresentação de teatro... Mas não tem um entrosamento que
nossos jovens poderiam mostrar, o tiradentino mesmo, afinal a cidade é nossa, né.
Se tem alguém que tem que se destacar, se tem alguém que tem que mostrar alguma
coisa boa somos nós.”
A transversalidade observada nos rituais, onde a estrutura da tradição é transpassada
ora pela estrutura do turismo, ora pela estrutura do patrimônio cultural e a interferência de
órgãos e pessoas ligadas a estas últimas nas decisões sobre os destinos da cidade, são as
geradoras da dinâmica social aqui apresentada. As múltiplas significações, que orientam os
vários usos dos mesmos objetos, se confrontam, levando a oposições ou combinações
variadas, gestando não uma única gramática estruturante, mas uma pluralidade de línguas
em relação, estruturando os eventos de modo movediço.
Esta pluralidade representa, para o tiradentino, por um lado, uma ameaça à sua
cultura, como acabamos de ver, levando-o a diversas atitudes de auto proteção. Por outro
lado, como numa faca de dois gumes, é também vista como um reforço ou incentivo das
próprias tradições locais. Seja na medida em que afirma que o turista compõe a Semana
Santa, seja na busca de reconhecimento dos seus rituais como patrimônio nacional, seja no
reconhecimento que a divulgação de uma festa popular pode ajudar a resgatá-la. Se alguns
agentes religiosos não querem que a Festa de Passos seja divulgada, para não ser assediada
202
demasiadamente, outros querem que haja a divulgação de outras festas para valorizá -las. A
mesma tiradentina que falava em fazer uma “revolução” porque estão “dominando”
Tiradentes, dizia:
“Pastorinhas, festa junina, congada, folia, então tudo isto, pra voltar a acontecer
na cidade tem que ser divulgada porque, ela caiu no abandono... Então estas
pequenas... tá caindo... antigamente tinha festa... quadrilha, que é tradição da
cidade, que deve ser recuperada, divulgar... pra voltar.”
Estas idas e vindas nos depoimentos e a constante referência à preservação, seja de
prédios, seja de bens imateriais, seja de tradiç ão, cultura e etc, apesar da constatada
dinamicidade e pluralidade da realidade, me remete novamente à última pergunta do
capítulo anterior: esta realidade dinâmica, geradora de situações críticas e incoerentes, não
provocaria um dilaceramento da sociedade se não existisse uma estrutura mais ou menos
estável, mais subjacente controlando um possível caos? Ou seria apenas um equilibrar-se
constante entre forças sociais divergentes que garantiria o mínimo de estabilidade social?
Existe uma motivação estruturante que faz com que tantos personagens diferentes possam
se interessar em dividir o mesmo espaço? Haveria um habitus, no sentido de Bourdieu, que
embora permita a dinâmica, a fluência e as oscilações, mantém uma estrutura
estabilizadora? Como
“sistemas de disposições duráveis,...como princípio gerador e estruturador das
práticas e das representações que podem ser reguladas e regulares sem ser o
produto da obediência a regras...”. (BOURDIEU, 1983: 61).
É uma pergunta de difícil resposta, diante da qual não posso fazer mais do que
apontar algumas pistas para pensá-la. Acredito que, para pensar a dinâmica e a estrutura ao
203
mesmo tempo, seria interessante aprofundar em cada experiência específica e em seguida
colocá-las em relação. Para depois observar se existe uma disposição comum e
condicionante como um princípio. Desta forma gostaria de retomar às características
preponderantes de cada instância analisada, seja o turismo, a religião e o patrimônio para
esgotar, dentro das minhas possibilidades, seus sentid os mais subjacentes.
Volto ao sermão do seminarista para pensar mais um pouco sobre um mecanismo
estruturante da religiosidade tradicional católica de Tiradentes, a identificação/projeção.
Dizia ele:
“O grito de Jesus é o nosso grito, a oração de Jesus é a nossa oração, a morte de
Jesus é a nossa morte.”
Nessa frase, que serve de referência para minhas interpretações, mas também em
muitos depoimentos dos fiéis, nativos, e que está ritualizado nas procissões, na teatralização
do mito e no ato de carregar o andor, como apontei nos capítulos precedentes, há uma clara
representação de um mecanismo simbólico que garante a eficácia dos símbolos religiosos
da devoção popular do povo de Tiradentes. Sejam eles, a projeção, a identificação e a
substituição.
Na análise de Gómez, sobre a Semana Santa em Andalucia, afirma que no encontro
dos fiéis com a imagem de Jesus, ocorre uma transferência individual e coletiva. Ver a
imagem não é algo banal ou de fruição estética, mas uma experiência de estar cara a cara,
onde acontece algo entre a pessoa e a imagem, trata-se de um diálogo que revira o mundo
interior,
204
“movimiento interior que se explica em recuerdos de personas, em situaciones, em
apuros, en necesidades y em problemas, y que se visualiza em las lágrimas que
salen a los ojos, em um silencio que emociona a la persona”. (GÓMEZ , 1993)
Como no depoimento de um tiradentino sobre o Senhor dos Passos:
“O senhor dos Passos pra mim é uma das melhores coisas que aconteceu na minha
vida, depois a minha família”.
Existe um mecanismo de projeção fazendo com que a imagem se encarregue das
profundidades da existência dos devotos. E isso vale para as imagens específicas do lugar,
sendo que outras imagens do Senhor dos Passos, como de São João Del Rei, por exemplo,
não trazem a mesma eficácia simbólica. Através da imagem e do mito narrado e
representado, o tiradentino é conduzido a um tempo mítico, onde ele pode se identificar
com Jesus e projetar nele suas dificuldades e seu sofrimentos. Como no depoimento, em
que um devoto fala do peso do andor. Perguntei a ele, que havia carregado o andor de
Nossa Senhora da Dores em uma procissão com imensa dificuldade, porque fazia tanto
sacrifício, de onde retirava tamanha vontade para fazer aquilo e ele me respondeu com
lágrimas nos olhos:
“Acho que quando você tem a condição de agradecer, acho que você tem que
entrar de corpo e alma... você não pode ser questionado de forma nenhuma de
cansaço, de dor, de peso, sabe, de calçamento, nada pode te tirar daquele objetivo
seu que é agradecer, que é pagar, sabe... você não tem como pagar uma graça
alcançada, mas tem como pelo menos oferecer um pouco de trabalho. Então a gente
quando entra em uma procissão e vai participar, você tem um motivo especial, cada
205
um carrega um motivo especial, cada um carrega um problema e você
tem
que
passar esse problema.
Então quando você chega numa procissão, igual eu falei... então às vezes quando
tenho a oportunidade de pegar o andor, como o de Nossa Senhora das dores, se eu
tenho a oportunidade, então é ali que eu entrego para Deus, o sacrifício, o
sacrifício que eu estou fazendo, mas também recebi, recebi muita graça, todo ano
recebo uma graça, todo ano eu recebo uma glória. ... Então a gente... é vitorioso,
ter um filho na faculdade. A gente tá feliz, é mais uma graça alcançada. Então
quando cê tá ali na procissão, com garra, tá pesado? Tá, dá prá ir? Vamos. O
ombro aqui do lado, feriu aqui, entendeu? É pra ir, vamo embora, é pra subi a
ladeira, vamo subi, tem que ir porque Deus ajuda demais a gente, favorece muito.
E emociona, a emoção é uma coisa... não tem uma máquina para você medir, como
você não tem uma máquina de medir a dor, não tem uma para medir emoção...,
você sente, quando termina, eu me sinto aliviado, o alívio físico, do peso que você
tira do ombro, porque o andor é pesado, mas parece que a alma fica pura, ela fica
renovada. O espírito fica livre, sabe, fica em paz, suave. A gente sabe que vão vir
barreiras pela frente. Então você tá preparado para enfrentar aquela dificuldade
que vier, e ela vem, hoje ou amanhã, você sabe que vem uma dificuldade pela
frente, uma doença, a situação financeira, um atrito da família, isso vem. Então
você tem que tá renovado com Deus para poder segurar essa carga. Então quando
você sentir que ela tá pesando, pesando, então é como lá na procissão, você
carrega e você também passa um pouco desse peso pra Deus. Deus é infinito, é sem
limite, então ele absorve esse peso seu, absorve essa carga sua e te dá vitalidade, te
206
dá força, te dá orientação, te dá luz, te dá caminho, todo esse bem que a gente
precisa para constituir família...
Outras festas virão, outras pessoas irão carregar outros andores. Eu carrego o
andor das Dores, então ali é uma hora e depois você tem o resto do ano para pedir,
alcançar e passar para Deus, para a Virgem Maria, Jesus Cristo, de todas as
formas você passa. Então é muito pouco, mas não estamos deixando de fazer.”
É interessante, entre outras coisas, observar que a relação de reciprocidade com
Deus ou com os Santos guarda uma diferença fundamental da relação com os homens. Na
relação com os homens a retribuição é na medida da oferta, ou como no Potlach (MAUSS,
1974), pode ser maior para garantir um status, na relação com Deus a oferta d’Ele é muito
maior que a retribuição do homem, pois Deus é infinito.
A projeção e a identificação com a imagem são possíveis pela própria natureza do
símbolo que permite viver situações como se fizesse parte de um universo unido, contínuo,
como se seu mundo terreno fizesse parte do mundo divino. É identificando-se com Jesus,
através da imagem que o tiradentino se sente participando desse mundo transcendente. É
projetando no Senhor dos Passos e em Nossa Senhora das Dores o peso de sua existência,
que ele garante a possibilidade de solução dos seus problemas. Mas só é possível essa
relação de dom e contra dom, onde ele se sacrifica para receber a graça ou alcançar a
realização de um pedido ou promessa, na medida em que essa projeção se transforma em
uma substituição.
Projeção e identificação são dependentes de um terceiro, a substituição, seja do
indivíduo, seja da comunidade, por aquele que irá ser sacrificado. O nativo se sacrifica
carregando o andor, identificando-se com a imagem, ao mesmo tempo em que projeta nela
207
sua vida, suas alegrias e frustrações, mas só garante a eficácia, na medida em que afirma
que é incomparável seu sacrifício ao sacrifício de Jesus, ao que Ele pode fazer pelo devoto.
Assim, o sacrifício se torna a base de seu ritual, mas somente na medida em que a maior
vítima é Jesus, que caminha para o calvário ao lado da mãe. A mãe, celebrada no Setenário
com suas “sete infinitas dores” e que estava sofrendo ao ver o filho sendo crucificado no
alto do Monte Horeb, de onde o tiradentino retirou o corpo e depositou-o no esquife, para
cerimoniosamente, caminhar pelas ruas de sua cidade em tom solene de um funeral.
Ritualiza desta forma, todos os anos, o sacrifício do cordeiro que depois renasce, mostrando
a este devoto que a vida não tem limites para a graça divina. Com a ressurreição, também
ritualizada nas procissões e na missa de domingo, fecha-se o ciclo onde a vida vence a
morte, onde o homem unido ritualmente através de seus símbolos, vence as barreiras entre
o eu e o totalmente outro, mergulhando no tempo e no espaço ilimitado do sagrado.
Pelos depoimentos já expostos, como já mencionei anteriormente, a experiência
religiosa do tiradentino é marcada por uma relação de reciprocidade, no sentido maussiano
do termo, para além do sentido simplesmente utilitário.
Alba Zaluar, entre outros autores, comenta a relação entre o santo e o devoto:
“O significado cosmológico das festas... só fica bem entendido quando sabemos
que as festas são parte de um sistema de reciprocidade com as divindades do
cosmos construído socialmente pelos homens.”
Segundo ela, os homens estabelecem uma relação de prestação e contraprestação,
expressos na relação entre promessa e milagre, entre pedido e proteção, revelando
“características das relações sociais dos homens entre si.
208
O interesse sociológico nesse sistema reside também na homologia que se pode
estabelecer entre o mundo espiritual e o mundo social criados pelo homem.”
Para esta autora as relações sociais passariam a fazer parte de um universo maior
sendo legitimadas por eles:
“representavam num plano simbólico as relações idealizadas entre os que podiam
assumir os diversos papéis de controlador dos recursos – o protetor e os seus
dependentes” (ZALUAR, 1974: 79, 94, 98).
Mas tal idéia vai contra ao que venho tentando enfocar, os símbolos não são meras
expressões ou imitações da vida social, com a função legitimadora. Assim, vale a crítica de
Paula Montero a tal argumento:
“uma festa não é conseqüência de algo externo, mas tem um sentido em si”
(MONTERO, 1999).
Mas como tentar pensar um sentido em si para a festa se ela se liga tanto às relações
sociais que fazem parte de sua realização? Como pensar então, e isso é o que me interessa,
a relação com o santo, não como mera “imitação”, como diz Turner, das relações de troca
da vida social se tanto a ela se assemelham? Acredito que o pensamento de Weber,
transcrito anteriormente, elucida teoricamente este problema, no entanto gostaria de
avançar mais com o depoimento de uma tiradentina sobre a experiência da graça alcançada.
No caso abaixo, a graça alcançada por sua mãe não foi uma dádiva, mas uma
oportunidade de ofertar a Deus algo que desejava, um capricho para Deus e não um
benefício como dinheiro ou saúde para ela própria, o que complica o argumento projetivo
de Zaluar. Vejamos a história:
209
“Ouve esta: tem um Cristo no trono, não tem (igreja da Santíssima Trindade)? E ela
(sua mãe) tinha muita vontade de enfeitar o trono de palmas vermelhas. E ela
colhia esmola pra comprar, naquele tempo a igreja era pobre. Quando, no ano que
ela morreu, em 1990, minha irmã arcou com a responsabilidade de mandar vir de
São Paulo umas palmas vermelhas. Foi colocada as palmas vermelhas na sextafeira, palmas vermelhas todas fechadas. No Sábado à noite as palmas estavam
todas abertas, vermelhinho o trono. Acabada a novena ela falou pro Nilzio
Barbosa, o Nilzio Barbosa perguntou pra ela: ô dona Maria tá satisfeita? Tô, se eu
morrer de hoje pra amanhã, eu tô vendo o Cristo no meio da palma vermelha que
era meu sonho vê. Ela acabou de falar isso, ela nunca mais entrou na igreja.
Entrou assim, porque ela passou por lá no Sábado ... aliás, no Sábado já saiu de lá
com uma dorzinha no estômago. No Domingo ela não foi à novena, na Terça feira
ela internou e morreu na Quinta, mas o prazer ela teve. É uma graça muito grande
é, não pra mim, foi pra ela que ela queria ver a igreja ornamentada ...É isso aí, foi
muito, mas muito sério ... ela tinha muita fé no Pai Eterno...”
Então este depoimento complica a visão utilitarista da idéia de graça alcançada ou
milagre, mas confirma a idéia de reciprocidade como estabelecimento de uma relação. No
caso foi uma graça poder oferecer, pois assim estreitaria os laços com o “Pai Eterno”, a
“Santíssima Trindade”, que é uma devoção especial dos tiradentinos. Não recebeu saúde
nem dinheiro, pelo contrário, mas morreu feliz por poder ofertar. Ora, que reciprocidade é
esta que se faz gratuitamente sem a expectativa da retribuição? Para Levi Strauss, o sentido
de reciprocidade está em uma
210
“forma que permite integrar imediatamente a oposição do eu e do outro”. (LEVI
STRAUSS, 1989: 39).
Assim, ao oferecer as palmas vermelhas, pouco antes de morrer, dona Maria teve uma
experiência do sagrado, sem nenhuma referência imediata da sociedade, sentindo-se em
relação direta com o totalmente outro. Seu sacrifício, projetado no sacrificado maior que
era Cristo, lhe possibilitou a “alucinação simbólica” de que os dois mundos estavam em
continuidade.
Pensando com Bataille:
“O princípio do sacrifício é a destruição... a destruição que o sacrifício quer
operar não é o aniquilamento. O ‘que o sacrifício quer destruir na vítima é a
coisa... os laços de subordinação reais de um objeto.”
Retira o objeto (na minha interpretação dona Maria) do mundo das coisas e passa-o ao
mundo que é transcendente.
“O sacrificador tem necessidade do sacrifício para se separar do mundo das
coisas” (BATAILLE, 975: 37).
Este crê-se pertencente ao mundo do mito e dos deuses e retira a vítima do reduzido
estado de coisa para, a intimidade deste mundo divino. Assim, pode-se pensar que o autoflagelo, no caso de carregar o andor, o auto-sacrifício de oferecer flores gratuitamente,
coloca a pessoa em um duplo estado, o de vítima e o de sacrificador. O devoto realiza uma
dupla operação, de identificação/projeção, se sacrifica “um pouco”, como dizem,
carregando o pesado andor de Jesus, e de substituição, levando-o ao calvário para o
211
sacrifício dEle, ou enfeitando um altar com palmas vermelhas, oferecimento, mas um altar
onde Ele está sacrificado na cruz, substituição, elevando-se, o devoto, ao mundo divino.
Para Duvignaud, a máscara ou o gesto teatral implica numa comunicação que coloca
as pessoas em um círculo não real. Todos sabem que por traz do disfarce existe um homem,
mas como diz um homem “milhoficante”, da mesma forma, todos em Tiradentes sabem que
por detrás do Senhor dos Passos existe uma imagem de madeira entalhada. Mas, tudo
acontece como se esta imagem pudesse ser real. Eis aí o sentido do mistério ao vestir a
imagem de roca, ninguém, a não ser os “iniciados”, podem ver o santo “nu”, o enchimento
e a articulação dos braços de madeira, garantindo assim maior ilusão diante da imagem.
Desta forma, esta teatralização é, acompanhando o autor,
“Invocar uma atitude, um comportamento, uma pessoa imaginária, é criar uma
realidade supra-real que se torna real pela comunicação que ela implica e pela
mensagem recebida... Os personagens, disfarçados das cerimônias ou das festas
(pode-se ler: as imagens), representam uma oportunidade, uma eventualidade de
mudança da ordem das coisas ou do mundo, recordam a realidade do virtual ou do
possível em uma ordem estabelecida que parece ignorá-lo.”
Por isso, voltando à questão da reforma na Matriz, manipular os objetos ou locais
sagrados, rituais de uma forma diferente que não a tradicional, ou por mãos que não as
mesmas de sempre, é uma ameaça de perder o maior tesouro, um tesouro virtual do
possível, parafraseando Duvignaud. O ritual repetido a cada ano, minuciosamente realizado
é mais que
“uma representação da cultura. Um sonho organizado adquire aí nitidez”.
“Roubar a Matriz”, remete para além do medo da mudança social, ou econômica,
212
mas o medo da perda de uma tradição que garante a eficácia dos ritos. A representação
daquilo que é dito nos mitos extrapola a mera encenação e exige mais do que a ilustração,
“arrebata a sociedade inteira contra as ameaças, a negação coletiva da natureza
destruidora, criativa e agresssiva... perseguição do incansável diálogo com um
cosmo cujas manifestações, análogas às do Eu, estimulam nos homens”
Mas análogas à de um eu conhecido e não um outro eu trazido de fora. Análogas a
um tipo específico de trato com o simbólico, realizado por pessoas familiares e não por
estranhos que podem levar a cabo
“a capacidade singular de inventar e de imaginar, de usar disfarces para investir
contra a eterna resistência do mundo”. (DUVIGNAUD, 1983: 90 e 91)
Mas alguém poderia inquirir se realmente é tão dramática assim esta história, afinal
é só uma reforma em uma igreja do século XVIII. Porém, na minha opinião, o imaginário
local ficou muito mais aguçado diante do tipo de reforma que foi feito. Como dizia no
início, o problema da igreja era de estrutura, uma infiltração de água em seus alicerces. Mas
de onde poderia ter vindo esta água? Na análise técnica dos engenheiros e arquitetos do
IPHAN, o causador do problema foi o cemitério em torno da igreja. Tinham, então que
mexer não somente em uma igreja do século XVIII, mas em uma tradição de quase 300
anos de se enterrar os mortos perto do templo. A intenç ão inicial era remover todo o
cemitério, depois, por causa da pressão do povo aceitaram em remover apenas os corpos
enterrados onde passaria o sistema de drenagem. O fato gerou grande indignação,
principalmente nas pessoas que tinham seus “entes queridos” enterrados ali. Os fatos
ocorridos em torno da remoção dos corpos e os depoimentos colhidos merecem uma
dissertação à parte. No momento só interessa na medida em que faça entender que a
213
reforma mexeu com os sentimentos mais profundos dos tiradentinos. Entre eles, o amor
pelos familiares que já se foram e o drama do mistério da morte. Desencavar mais de 40
túmulos não é somente uma obra de engenharia, é aguçar ao máximo o desejo de saber o
que existe nas profundezas da terra e acima nos píncaros celestes. Ora, este não é o maior
drama da existência humana? A simplicidade técnica dos funcionários envolvidos na
administração da obra, por mais respeito que eles tivessem, não os deixava entrever pelas
treliças da cultura do outro, que estavam lidando com sentimentos muito complicados,
principalmente em uma sociedade marcada por uma cultura sui generis na sua relação com
a morte. Não os deixava ver que o problema da desconfiança para com a Fundação ou
qualquer um que viesse de fora, fossem vestidos de preto, verde ou amarelo, era por causa
de uma cosmologia que ia além da polêmica sobre se deveria ou não realizar um concerto
na Matriz.
Diante da relação com a morte houve iniciativas, por parte destes técnicos que
comprovavam este seu desconhecimento. Chegaram a plantar árvores cercando o cemitério
para esconder o que acreditavam atrapalhar a estética da igreja. Será que eles não sabem
que o cemitério faz parte da história da cultura barroca local, que vem desde os setecentos?
Ou será que sua dificuldade em lidar com a morte é que era maior que a dos nativos? Será
que a impossibilidade destas instituições e pessoas modernas de experimentar a alucinação
simbólica que nos fala Duvignaud e encarar a morte como uma passagem entre céu e terra,
rompendo com os limites da natureza humana é que os levava a tais atitudes? Perguntas
alucinantes que, por hora, ficarão sem respostas.
A proposta do capítulo não alcança tais reflexões, mas fatos e perguntas apontam
para esclarecer esse contraditório e intrincado feixe de relações que vão passando pela
214
cidade, deixando um rastro de dúvidas, não só em mim, mas em moradores, funcionários de
instituições, religiosos e turistas. Ah, bem lembrado, e os turistas nisso tudo? Como disse
na proposta do capítulo, a intenção era articular, costurar toda a realidade, portanto vamos a
eles.
O turista raramente sabia de tudo que estava acontecendo, nessas “coxias” do
patrimônio e da Semana Santa tiradentina. Mas na sua forma de interagir também
significava e, acredito eu, também alucinava de alguma forma diante destes símbolos que
não são poucos. Nem poucos, nem simples, os símbolos do barroco são muitas coisas, mas
principalmente provocativos, instigantes, ou como disse um nativo, “foram feitos para
impressionar”. Impressionar e colocar o homem no limite do drama da finitude.
Brandão dizia que o sentido do turista, na Semana Santa em Ouro Preto, não ia além
do histórico-cultural e que estava lá não mais que um espectador diante de um evento
teatral. Eu contestei, analisando o caso de Tiradentes e afirmei que, pelo menos em muitos
casos, extrapolava este sentido racional e estético e era tocado de alguma forma, ou
acionava outras estruturas de significado que provocavam nele uma experiência mais
profunda, às vezes religiosa.
Renato Ortiz também complica meu raciocínio e afirma, pensando no caso de Nova
Jerusalém, onde se representa a paixão de Cristo, que não se apresenta nenhum conflito
entre os agentes do turismo e da religião:
“...a história sagrada se reduz ao puro espetáculo teatral... a obra não é mais
sentido em seu ‘valor de culto’, é apreciada unicamente em seu aspecto de
exposição. Falar nessas condições em elemento numinoso seria pura contradição; o
público não se situa mais na posição de recolhimento, mas sim no pólo oposto, o da
215
diversão. ...não se trata, como antes, de uma evasão mística, na qual o indivíduo se
perde, se aniquila diante da potência do ‘tremendum mysterium’ ... As
manifestações religiosas são assim coisificadas, elas perdem o sentido sagrado,
tornando-se produtos mecanicamente distribuídos pela indústria cultural”.
(ORTIZ, 1980: 59).
Claro que cada caso deve ser pensado dentro de seu contexto, porém não me
parecem eventos tão díspares, e não posso deixar de considerar sua opinião. Não considero
que seja uma generalidade a experiência do sagrado que pude notar no depoimento de
certos turistas, com certeza a interpretação que o autor faz vale também para muitos deles,
como também demonstrei em várias passagens. De fato, não contesto sua idéia de que o
religioso passa, nessas ocasiões a ser encarado sob um duplo aspecto, o de mercadoria e o
de coisa sagrada. Eu diria até que pode haver triplos ou quádruplos aspectos como venho
tentando construir. No entanto me interessa, no momento, mais abordar aquelas situações
em que a circularidade de sentido se faz mais presente e que o sujeito pode passar de uma
significação, emocionalmente ou racionalmente construída à outra. Daí sou levado a pensar
com Leonildo Campos que o teatro pode ser visto também com um outro olhar, inspirandose nos gregos, carregado de um
“...sentido de recolhimento... onde se podiam ouvir histórias e pensar nas
realidades fundamentais da vida humana”.
Para esse autor,
“Teatro e religião são processos sociais em que as coisas intangíveis se revestem
de tangibilidade, e às visíveis, se atribuem valores invisíveis. Ambos se alimentam
da necessidade humana de encontrar, além do visível, uma razão que dê sentido às
216
ações sociais e um objetivo pelo qual se possa viver e até morrer”. (CAMPOS,
1997: 65).
Pensando desta forma, pode-se perceber como o turista, mero expectador ou
coadjuvante provisório da teatralização ritual da Semana Santa em Tiradentes, pode passar
de uma apreciação puramente cultural ou de lazer, ao encontro de uma experiência do
intangível, onde sua vida também faz parte da encenação da luta do homem frente aos
limites da natureza, experimentando, como o tiradentino, uma “alucinação simbólica”
capaz de colocá-lo diante de um mundo continuamente integrado ao divino. Mas se é fato,
esta vivência, certamente não é como a do nativo. Acredito que, mesmo passando pelo
processo de projeção e substituição, não siga os mesmos passos do devoto tiradentino no
alcance com o invisível.
Seguindo as pistas das entrevistas que realizei, segundo as opiniões que colhi sobre
Deus e religião, expostas no segundo capítulo, faço minha interpretação. Se por um lado, o
católico tradicional de Tiradentes projeta-se na imagem e a entrega ao sacrifício, o turista se
projeta no devoto e o observa enquanto sacrificado. Outras experiências, narradas por eles,
me levam a pensar nesta hipótese. Lembro-me de um deles que dizia ter fretado uma “van”
com uns amigos, em Curitiba, para ir à Aparecida do Norte em época de romaria. Narrava,
impressionado, o sacrifício dos devotos que carregavam pedras ou caminhavam com os
joelhos esfolados. Um outro contava da experiência que teve durante o Círio de Nazaré,
quando desceu da sacada confortável, onde se encontrava, para sentir um pouco aquela
massa pujante de pessoas que se engalfinhavam para tentar colocar a mão no cordão. Em
Tiradentes muitos turistas observam de longe, outros entram e saem da procissão, outros
acompanham até o fim, rezam, comungam, chegam a inverter suas posições com os
217
nativos, ou compartilhar dela. Mas o que o leva, enfim a sair da posição de espectador e
mergulhar na experiência do outro? O que leva enfim ao turista sair de si e impregnar-se da
alteridade? Será que tem a ver com os mesmos impulsos do antropólogo? Talvez esteja
certo Steil que fala da necessidade de encontrar consigo mesmo, falar de si mesmo ou ver a
si mesmo no encontro com o outro.
“...é também a tradição de todos que vivemos a experiência de uma sociedade
moderna que se institui incorporando a sua com -tradição ...num exercício de
estranhamento e mergulho...” (STEIL, 1996: 390).
Esse estranhar e mergulhar, interpreto como a representação de um processo fluido
em que o outro é o outro e o eu ao mesmo tempo. Não seria este movimento possível em
virtude então de um mecanismo de projeção/identificação? Esta mesma identificação é uma
das características do discurso do patrimônio, onde o brasileiro constrói sua identidade no
encontro com um outro brasileiro que vive uma cultura diversa da sua, no caso a cultura
popular, mas ao mesmo tempo a mesma, a cultura de uma nação. Aqui, na representação do
turista, patrimônio e religião se misturam, se conciliam na elaboração de suas
representações, de seus significados mais subjacentes.
Mas, se o outro é o “carneiro imolado”, que é o eu do turista? Para responder ouso
ainda um pouco mais e inspiro-me em Gianni Vattimo, que, interpretando Heideger e
Girard, faz certas considerações sobre a questão do sacrifício. A idéia de vítima sacrificial
como traço natural do sagrado presente na Bíblia, Jesus Cristo como vítima perfeita, que
com seu sacrifício de valor infinito satisfaz a necessidade de justiça de Deus para o pecado
de Adão, é uma leitura é errada, segundo Girard. Ele não encarna para ser vítima à ira de
218
seu Pai, mas para liquidar o nexo entre a violência e o sagrado. É morto por ser intolerável
tal revelação a uma humanidade radicada em tradições violentas da religião.
Eu penso que a mensagem do sacrifício está ainda presente no cristianismo popular,
ao contrário, tal concepção de religião como sacrifício não faz parte da construção
cosmológica do moderno e erudito turista que freqüenta Tiradentes nessa época. Pelo
contrário, ele pode alcançar o sagrado independente de seu sacrifício, pois, em seu discurso,
Deus não é para ele um Deus que exige o sacrifício. Ele pode atingir o sagrado sem a
mediação da instituição, visão subjetiva da religião, seja através do consumo e do lazer ou
da história. Assim, na sua posição autônoma e confortável, o turista religioso, por meio de
uma consciência histórica, marcada pela idéia de patrimônio, projeta no devoto popular a
vivência de um passado vivido por ele e sua sociedade, quando se concebia religião pelo
traço do sacrifício violento. A partir daí sacrifica o nativo e não a si mesmo, quando o
considera uma vítima que se auto flagela, e que por isso, encarna essa religião do passado,
do sacrifício, afirmando para si mesmo ter superado esta cosmologia, dando lugar a uma
nova visão da religião, livre das estruturas dogmáticas e da violência. Onde Deus é “energia
cósmica” que se realiza em todo indivíduo e em todos os seres da natureza. Assim, torna os
rituais da Semana Santa em Tiradentes um espetáculo capaz de contar ao homem
contemporâneo o fim desse tipo de religiosidade, marcada pelo traço natural (violento,
apelativo, dramático e cheio de concretude) do sagrado.
219
TEMPO DE PAIXÃO.
A dimensão do sacrifício é uma vivência marcante para os personagens em questão,
permanecendo significados antigos ou elaborando novos. Por um lado, Paixão é um
sentimento que guarda mágoa e sofrimento, por outro, é um vivo entusiasmo por alguma
coisa. No encontro da cultura popular com o turismo e o patrimônio histórico, entusiasmo e
sofrimento se encontram e negociam atitudes, visões de mundo e significados. Em tempo
de Paixão, celebrando a santa semana cristã, festejando o feriado prolongado, admirando a
riqueza e a diversidade da arte e da história brasileira, estes personagens refazem suas
vivências e identidades, suas imaginações e tradições, no seu encontro se iluminam
mutuamente e, parafraseando Bakhitin, revela-se o quanto do antigo havia morrido e o
quanto nascia de novo.
A Paixão do cristianismo não é um fim, mas um recomeço, é um refazer das
relações sociais, das emoções, das tradições. O sentido duplo da paixão, sofrimento e
entusiasmo, morte e renascimento, da forma como interpretei sua experiência na Semana
Santa em Tiradentes, leva-me a pensar que o encontro da cultura popular com a indústria
cultural e com a cultura erudita, pode traduzir-se em sacrifício e morte da primeira, mas
também, pode reverter-se em entusiasmo e renascimento. Nesse caso, nascimento e morte
não são oposições, mas complementos, ou melhor, podem ser tanto opostos quanto
complementares. A paixão é uma disposição que ultrapassa os limites da lógica e, da forma
como apresentada, pode ajudar-nos a renovar lógicas antigas e vê-las nascer de novo,
compreendendo de forma renovada os encontros dos homens e suas culturas pelo mundo.
220
Enfim, poderia resumir este encontro de turismo, patrimônio e religião popular da
seguinte forma:
A religião católica de Tiradentes fornece elementos para a elaboração de uma estrutura de
significados marcada principalmente pelos mecanismos de identificação/projeção, o qual
permite a articulação da idéia central do sacrifício, dando assim ao devoto a possibilidade
de pensar o mundo terreno em contigüidade com o mundo dos deuses. O conceito de
patrimônio cultural contribui para a construção de uma lógica significativa, onde objetos
sensíveis, igrejas, imagens e rituais, adquirem um sentido para além do religioso, são
representantes de um conjunto de elementos que ajudam a compor a identidade nacional,
considerando seu caráter diverso, enfocando a especificidade local articulada a uma
generalidade nacional. Historiciza assim a experiência religiosa tradicional e realiza a
ruptura entre o mundo material e transcendental. O turismo é uma realidade, onde podem
ser mobilizados certos elementos significativos, articulados em uma lógica onde o outro é
também o eu e sobre o qual, num processo de identificação, permite acessar, ou não, a uma
experiência mística em profundidade. A experiência religiosa, que muitas vezes vivencia,
difere da vivida pelo outro, movimentando elementos trazidos da vivência do turista em seu
local de origem. Pelo seu caráter de consumo, o turismo proporciona experiência única, às
vezes surpreendente, onde o sujeito pode misturar vários sentidos, sejam religiosos ou
culturais, míticos ou históricos, ressignificando-os, em busca da satisfação pessoal, numa
prática de lazer próxima ao que Kant definiu como a experiência do belo,
“um acordo no jogo interno das emoções” (PASCAL, 1983).
Porém, ao contrário da lógica kantiana, beleza, religião, mercado, história, razão e emoção,
podem estar articuladas juntas em um grande pacote de viagem.
221
Se o patrimônio se vale da religião tradicional popular para construir seu objeto,
uma arte que concentra a identidade da nação e da comunidade ao mesmo tempo, o
tiradentino se relaciona com suas instituições concebendo-as como faca de dois gumes, que
tenta controlar. Se o tiradentino católico, na busca de sua tradição tenta reinventá-la ou
reforçá-la, mantendo a possibilidade de compreender o mundo dos homens em
continuidade com o mundo dos santos, pela lógica simbólica do sacrifício, o turista que
visita a cidade na Semana Santa tem oportunidade de experimentar, em sua representação, a
história local, a história nacional e a sua própria, podendo ter experiências místicas, no
processo de identificação com o devoto que, pela articulação da lógica do patrimônio, pode
ser o outro e pode ser ele mesmo.
Com toda esta intrincada exposição de significados e projeções, poderia arriscar,
apenas arriscar, uma resposta quanto à questão de haver uma estrutura única subjacente que
articula todas as dinâmicas, o princípio que sobrevive e sempre emerge, dando sentido a
todo
um
quadro
contraditório
e
multifacetado,
um
habitus
que
conforma
os
comportamentos mesmo permitindo as rupturas.
Pergunto novamente: que cultura está por detrás deste emaranhado de símbolos e de
formas cuidadosamente esculpidas no cotidiano da cidade de Tiradentes? Que talha é esta
que às vezes se mostra tão clara e transparente, às vezes tão escura e nebulosa?
Uma
sociedade sustentada por colunas tortuosas e espiraladas, que parecem caminhos sinuosos
em direção ao infinito transcendente e sagrado, ao mesmo tempo, projetam a grandiosidade
da existência de encontro ao mundo material e profano. Suntuosa em sua aparência, sutil
em seus detalhes, esta cultura que se esconde e se mostra por me io de tocatas e fugas, deixa
222
um sentimento de finitude e infinitude diante da imaginação humana, num sobe e desce de
montanhas e ladeiras já pisadas por tantos homens do passado. Uma cultura onde
“o antagonismo vai aflorar, numa simultaneidade de simplicidade e requinte,
triunfalismo e comedimento, erudição e rusticidade ... é a instância onde o conflito
toma forma, e, portanto se dissolve enquanto conflito ... na junção do patético,
solene,
pesado e austero ... com a graciosidade, leveza, calor e intimidade
(NEVES, 1986:135).
Uma cultura que forma um habitus e transparece em performances teatrais, artísticas,
rituais, musicais, escultóricas e vivenciais, comumente nomeada de barroco mineiro.
Enfim, as setas apontam para uma resposta possível: é possível falar de estruturas,
regularidades e tendências mesmo dentro de uma observação que privilegia a dinâmica.
Esta, inclusive, pode ser mais bem visualizada na medida em que se definem estruturas de
significado mais ou menos regulares. Entretanto, se falo em identificar uma estrutura
cultural capaz de congregar, organizar e aglutinar atores sociais, com ethos e visão-demundo diferenciados, é porque a compreendo como uma estrutura movediça. Parafraseando
Bourdieu, posso admitir que existem estruturas estruturantes na medida em que estas
também são desestruturantes, movimentando não somente as relações sociais, mas também
a si mesmas. Como a idéia expressa em uma coluna barroca da igreja São Francisco em São
João Del Rei. De um lado pode ser observado como uma coluna aprumada e de outro lado
como uma curva. Se os eventos e as relações sociais necessitam de estruturas, estas não são
vigas imóveis, eretas e fixas, mas curvilíneas e mutantes.
Esta cultura barroca, aqui caracterizada, talvez indefinível, guarda, no limite um
elemento estruturante e comum a qualquer forma de combinação, reestruturação ou
223
performance. Seja ele: o defrontar-se com a existência humana. De uma forma ou de outra,
turismo, religião e patrimônio cultural são mecanismos sociais e simbólicos que colocam o
homem diante de si mesmo, e o faz numa atitude de um profundo defrontar-se com o outro,
seja este outro um homem, uma obra de arte ou o transcendente.
Finalizo sem terminar, encerro esta fase de elaboração e abro a fase de discussão,
ciente de que não cheguei ao fim, ao esgotamento. Contudo, é possível uma satisfação, a
esperança de que estas páginas possam servir para pensar os casos similares que
encontramos espalhados por nosso território. Não são poucas as situações hoje em dia em
que turismo e religião, ou turismo e patrimônio, ou religião e patrimônio, ou cultura
popular e erudita, se relacionam intrincadamente e tentam direcionar os destinos das
sociedades.
Acredito, esperançosamente, que não somente sirva como reflexão para fatos
semelhantes, mas também possa contribuir para pensar o homem e sua cultura de forma
geral e ampla. Principalmente as questões relativas à produção da cultura, a formação e
mutação de significados presentes em sistemas simbólicos abertos e complexos. Espero que
meu sacrifício não tenha sido em vão e a dificuldade de pensar dinâmica e estrutura,
performance e relação social, conjuntamente, tentando não negá-las, mas expressar a
realidade, sirva para cientistas sociais, que estudam a religião, o turismo, o patrimônio e a
cultura popular, como subsídio empírico para a elucidação de questões tão complexas, com
as quais lidamos, cobertos mais de dúvidas do que de certezas.
Este trabalho não acaba aqui, mas recomeça. Lanço, senão para a comunidade de
leitores, pelo menos para mim mesmo, o desafio de continuar tentando interpretar situações
plurais, de insterstícios, onde grupos e sentidos diversos se encontram em interseção. Não
224
somente patrimônio, turismo e religião popular podem ser estudados em seu encontro
dinâmico, mas pode também, e este é o recado, ser esta uma forma, arriscada, mas
proveitosa de se pensar a cultura brasileira. Vale a pena investigar manifestações culturais
ou religiosas, populares ou eruditas, não em sua existência específica, mas em sua
existência em relação. Assim, pode-se pensar em estudar o catolicismo popular, ou em
estudá-lo em sua relação com o turismo. Da mesma forma pode-se pensar em estudar
qualquer religião em si mesma, ou em estudá-las em relação com dimensões da economia,
política e da indústria cultural, ou mesmo suas articulações com outras formas religiosas.
Não estou propondo um método nem uma novidade, mas defendendo o esforço daqueles
que não se rendem às facilidades das análises estanques e fechadas, cheias de limitações e
recortes definidos rigidamente. Pode-se dizer que minha dissertação mais que contribuir
com a perspectiva de uma macro teoria/metodologia, pretende reforçar a idéia de que
precisamos estar sempre relativizando e abrindo fronteiras, sem discriminações e
compartimentações.
225
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