Vítor Luís Gaspar Rodrigues*
Catarina Madeira Santos"
Fazer a guerra nos trópicos: aprendizagens e
apropriações
Estado da índia e Angola, séculos XVI e XVIII
A meu parecer Vossa Alteza devia sempre de prover a índia de navios pequenos pera andarem qua [...] e assy
também nam consentir tantas naos na India e tam grandes porque as grandes nam servem de nada senam os
homens andarem pomparosos nellas e apodrecerem e matarem a gente com trabalho. Navios pequenos e navios
de remos estes fazem a bem de feito e acheguam se a terra cada vez que querem, [...] que as naus grandes [...]
se he pera se fazer espanto j a agora nos entendem, melhor he poucas velas e corregidas que as muitas, e nam
trazem gente pera as poder navegar'".
Sendo estas unicamente as minhas vistas, e tendo a fortuna de explicar-me com oficiais tão hábeis, não limito
a sua deliberação, conhecendo a preciosidade do tempo, que se não pode trabalhar em meses de aguas, pelos
imensos palhagais, e que mudando as circunstâncias, em toda a parte, são muito mais invariáveis, nos génios
pertinazes dos Negros, cuja forma de peleja se deve atender forçosamente, e procurar dela a respectiva vantagem,
sem nos ligarmos aos exemplos citados nas Memórias do Marechal de Saxã de Turena e de Montecucolli.... 2
* Investigador Auxiliar do Instituto de Investigação Cientifica Tropical (Portugal).
Bolseira Pós-Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia, 110 Instituto de Investigação Científica Tropical e na École des
Hautes Études en Sciences Sociales.
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Fazer a guerra nos trópicos: aprendizagens e
apropriações
Estado da índia e Angola, séculos XVI e XVIII
Vítor Luís Gaspar Rodrigues
Catarina Madeira Santos
2
P a r e c e não ser novidade para ninguém que o vocábulo "guerra" remete, como
qualquer outro, para um conceito culturalmente construído e pode querer dizer muita coisa, dependendo do
tempo e do espaço a que se refere e é aplicado. Reconhecer a polissemia do termo, e portanto a diversidade
das maneiras de conceber e fazer a guerra, pode ser um primeiro passo para distinguir a presença de
diferentes tipos e níveis de conflitualidade. Tratando-se aqui de analisar o fenómeno da guerra naquele
que foi o espaço do Império Português — a que chamámos guerra nos trópicos — a consciência dessa
diversidade torna-se não só operatória como indispensável, uma vez que os militares portugueses precisaram
de se confrontar com civilizações que encaravam a guerra e faziam a guerra seguindo múltiplos padrões e
cumprindo funções sociais muito distintas.
Nesta comunicação optámos por analisar, em conjunto, as maneiras de fazer a guerra no Estado da índia,
durante o século XVI, e em Angola no XVIII, de forma a evidenciar como, num e noutro caso, a guerra, no
quadro do Império, só pôde ser empreendida na sequência de um processo de aprendizagens e adaptações,
quer da parte portuguesa, quer da parte dos vários poderes locais. Na verdade, o nosso objectivo foi não
só o de aprofundar a singularidade de cada um dos casos, mas também o de, a partir dessas configurações
singulares, generalizar e daí extrair uma argumentação de carácter mais lato, cujas conclusões possam,
eventualmente, ser reutilizáveis para outras geografias3. Face àquilo que se passava no Portugal Metrópole,
parece ser possível afirmar a existência de uma diferença específica nas formas de governar o Ultramar e
de fazer a guerra no Ultramar. Quer dizer, a hipótese que aqui levantamos, a partir destes estudos de caso,
é a de que, ao longo do Antigo Regime colonial, se verificou uma adaptação local/tropical daquilo que
eram cânones ocidentais e que se pretendia exportar como cânones universalistas; e, mais, que foi essa
adaptação que garantiu a operacionalidade da colonização, uma vez que trouxe consigo o reconhecimento
e a apropriação daqueles saberes locais (indianos, africanos ou índios) sobre os mais variados níveis da
prática humana. Assim, do nosso ponto de vista, a diferença que é específica da maneira de fazer a guerra
no ultramar reside na incorporação dos saberes locais sobre a guerra. Nos dois textos que apresentamos
em epígrafe, um para o Estado da índia, no século XVI e outro para Angola no século XVIII, os militares,
instalados no terreno (no litoral do Índico ou Pacífico, e no vasto sertão angolano) proclamam a inutilidade
dos saberes e das técnicas militares da Europa e reclamam a necessidade de aprender com os povos locais,
apropriando-se dos saberes endógenos da guerra.
Aliás, alguma bibliografia mais recente, tem sublinhado que o que é característico da colonização de
Antigo Regime é uma certa plasticidade (articulação/tradução/transcrição), no sentido em que a obediência,
que supõe a exportação do modelo metropolitano, admite a sua adaptação4.
Poder-se-á pensar que uma problemática deste tipo, pela sua amplitude, está para além das propostas
deste colóquio - Jornadas Setecentistas - em princípio interessado em centrar-se no século XVIII e no
que de específico terá trazido à reforma do governo do Império. Mas, como se verá já de seguida, começar
por invocar o Estado da índia, quinhentista, num colóquio sobre o século XVIII, e só depois descrever as
formas de fazer a guerra em Angola, nessa centúria, pode ajudar a pensar as continuidades/persistências/
resistências das formas de governo no Ultramar. É que, na verdade, o carácter reformista da segunda metade
do século XVIII não significou uma ruptura abrupta, admitiu transacções e formas de compromisso entre
soluções de governo do passado e do presente e o que dá para perguntar é se não foi, muitas vezes, por essa
via, das persistências e ou permanências do Antigo Regime, e o que é específico dele - a tal plasticidade
- que se operou a sobrevivência do Império, que se operou, afinal, a sobrevivência do Império possível, não
só no século XVIII mas, também, e estamos a pensar sobretudo em África, no XIX, até se iniciar a chamada
colonização formal.
A orientalização da guerra
Vinte anos decorridos após a chegada da armada de Gama à costa ocidental indiana é possível perceber,
através da passagem acima transcrita, as profundas transformações entretanto operadas no interior da
estrutura militar naval portuguesa no Oriente. O texto, da responsabilidade de D. Ayres da Gama, capitão
de Cananor e um profundo conhecedor das "coisas da guerra da índia"5, insere-se no quadro de uma vasta
polémica surgida entre os principais responsáveis do Estado a propósito do tipo (de remos ou vela e alto
bordo) e da tonelagem dos navios de guerra a utilizar no oceano Índico.
Longe iam os anos em que os portugueses, graças à eficaz utilização das suas tripulações, dos seus
navios de alto bordo e do seu parque de artilharia, haviam introduzido no Índico uma nova táctica de
combate naval que lhes permitiu, num curto espaço de tempo (menos de dez anos), assenhorearem-se do
domínio do mar, com o consequente controlo das principais rotas oceânicas. Seguindo à risca as directivas
emanadas de Lisboa6, os navios passaram, em situação de combate, a estar dispostos em coluna e não lado
a lado, abandonando-se a prática tradicional do ataque frontal com a intenção de abalroar o adversário
para em seguida se proceder à abordagem. O objectivo final, não era já, como outrora, e a exemplo do que
era prática corrente entre as potências orientais, decidir a contenda através de um combate corpo a corpo,
praticado à espada e rodela (escudo) nos convés dos navios, mas antes proceder à aniquilação do inimigo
através de um combate efectuado à distância, que conjugava a manobra dos navios com o efeito destrutivo
das suas peças de artilharia. Assim procuravam não só salvaguardar as suas esquadras dos ataques em massa
das numerosas frotas orientais - sempre muitíssimo mais numerosas e com um grande número de homens a
bordo, mas constituídas por embarcações muito mais pequenas e frágeis mas também resguardar o mais
possível as suas tripulações e homens de armas, dado o seu reduzidíssimo número e a impossibilidade da
sua substituição em virtude da distância a que estavam das bases7.
Graças a essa superioridade técnica e táctica e ao facto de não existir no oceano Índico uma verdadeira
potência militar naval que se lhes opusesse, os portugueses puderam, com recurso também a uma hábil
política de alianças locais que aproveitou as fracturas existentes entre os diferentes reinos, passar a dominar
as suas principais rotas comerciais e bem assim os principais pontos estratégicos em terra, com excepção
de Ádem.
O estabelecimento dessa "rede", como apropriadamente lhe chamou Luís Filipe Thomaz 8 , suportada
por um conjunto significativo de fortalezas costeiras entretanto erigidas - Cochim, Goa, Malaca e Ormuz,
para apenas falarmos nas principais -, desde logo acentuou a escassez do que Gilberto Freire designou
de "capital-homem" 9 , conduzindo, no que à índia diz respeito, à adopção, por parte da Coroa, de uma
política de miscibilidade, cujo expoente máximo coincidiu com a governação de Afonso de Albuquerque.
Este, com efeito, promoveu até à saciedade a realização de uniões matrimoniais com mulheres locais,
preferencialmente muçulmanas ou brâmanes, porque, como ele próprio afirmava, "sam castas e retraídas
em suas casas e no modo de seu viver", ao contrário das hindus de castas inferiores que eram dadas à prática
da poliandria10. A sua política consistiu em dar a todos os homens de armas portugueses, que aceitassem
casar com mulheres muçulmanas ou hindús, um cavalo e algumas terras das que haviam sido confiscadas
aos muçulmanos. Esses homens assumiam o estatuto de casados, tendo-lhes sido concedido mais alguns
privilégios, entre os quais a possibilidade de se recusarem a embarcar para expedições militares, sobretudo
as mais longínquas, por forma a poderem exercer um oficio em permanência e, naturalmente, a defenderem
a fortaleza em que se encontrassem".
Acentuava-se, assim, o processo de interpenetração cultural e social iniciado logo após os primeiros
contactos quando, em virtude do reduzido número de efectivos portugueses presente no Oriente, os seus
responsáveis se apressaram a servir do potencial humano dos diferentes reinos com quem se foram aliando.
Na verdade, a incorporação de tropas locais, escravos de peleja, ou simples remadores, nas suas armadas
data do início da sua chegada ao Malabar, com eles tendo aprendido a adaptar-se não só ao tipo de técnicas
e práticas de guerra utilizadas em torno da área lacunar de Cochim, mas deles recebendo também todo um
vasto manancial de informações de carácter geográfico, económico e político, que lhes permitiu afrontar
com êxito o Samorim de Calecute12. No Malabar, como mais tarde no Concão, em particular na ilha de Goa,
essa associação com as forças locais, sobretudo com os hindús, revelar-se-ia decisiva, a eles lhes cabendo
a guarda dos passos e da terra firme, ou das fortalezas, tarefas que desempenhavam enquadrados pelos
casados.
Os portugueses começaram, assim, desde muito cedo, a incorporar toda uma série de técnicas e tácticas
de combate naval utilizadas pelos marinheiros e soldados orientais, sobretudo as praticadas no interior dos
rios - caso por exemplo do uso correntes ou de estacadas colocadas no seu leito para parar a progressão
dos navios contrários -, ou junto da costa, terrenos onde aqueles se movimentavam com grande à-vontade
em virtude do menor calado dos seus navios e por utilizarem, em regra, pequenos navios mistos de remo
e vela. Importa notar, no entanto, que se tratou de um processo complexo e multidireccionado que acabou
igualmente por produzir alterações profundas no seio das estruturas militares navais locais, uma vez que
os seus responsáveis tudo fizeram para equipar as suas frotas com artilharia (pequenas bocas de fogo numa
primeira fase)13. Em paralelo adoptaram também várias técnicas defensivas usadas pelos portugueses, como
foi o caso da construção de "cuberías calafetadiças" - pequenas caixas calafetadas com breu e depois cheias
de água - destinadas a minorar os efeitos devastadores das panelas de pólvora e das setas incendiárias,
responsáveis muitas vezes pela destruição dos navios em combate14.
A incorporação gradual de um cada vez maior número de navios mistos de remos e velas e com
menores dimensões resultou ainda da conjugação de uma série de outros factores como, por exemplo, a
necessidade de adaptarem as suas armadas aos condicionalismos físicos do oceano Índico. Com efeito, as
suas águas tranquilas, aliadas à existência de zonas de calmarias e à necessidade de navegar junto da costa
ou mesmo no interior dos rios, conjugavam-se para que os navios de remo começassem a ser utilizados cada
vez em maior número pelas forças da Coroa no Oriente. Como refere Saturnino Monteiro, "tanto na costa
indiana, como no golfo Pérsico ou no estreito de Malaca, onde o mar era geralmente chão, o vento fraco,
entrecortado por períodos de calmaria, os pontos de apoio abundantes, as barras difíceis e pouco profundas,
e onde o inimigo, habitualmente, se refugiava dentro dos rios", algumas das principais vantagens dos navios
de alto-bordo, a saber, a maior resistência, autonomia, o superior poder de fogo e a maior velocidade com
vento, diluíam-se bastante tornando imperiosa a crescente utilização de navios movidos a remos, de menor
calado e com fundo chato15.
Por outro lado, com o aumento gradual do número de fortalezas em seu poder e, sobretudo, com a
duplicação da área ocupada que importava controlar, o "Estado da índia" passou a necessitar de um número
cada vez maior não só de homens, mas também, e em especial, de navios. Essa necessidade acentuou-se,
sobretudo, a partir do momento em que as forças muçulmanas do Malabar e Insulíndia enveredaram por uma
estratégia de desgaste das armadas portuguesas que passava por evitar confrontos navais em mar aberto,
optando por praticar a guerra próximo das costas ou nos estuários dos rios, em moldes muito próximos dos
de uma verdadeira "guerra de guerrilha", com os seus paraus e catures16 a lançarem ataques furtivos para de
seguida, e rapidamente, se recolherem a terra ou se resguardarem no interior inacessível dos seus rios.
Esta mudança de estratégia por parte dos potentados orientais, que enveredaram por uma acção
de desgaste das forças portuguesas, acentuou-se a partir dos últimos anos da década de 1510, muito
contribuindo para acelerar o processo de adaptação das armadas portuguesas à realidade asiática, como
o comprova o aumento do número de armadas mistas anualmente aparelhadas. Paralelamente, começou
também a acentuar-se a tendência para a proliferação de navios mais pequenos, sobretudo ao nível das
armadas de guarda-costa, entendidos como o único meio para parar os pequenos paraus que "navegando no
rolo do mar" escoavam a pimenta malabar17.
Ao "Estado da índia" interessava possuir navios baratos e fáceis de construir e de manter, e que
tivessem também tripulações e chusmas de remeiros reduzidas, de forma a diminuir os gastos e a evitar
os problemas de abastecimento logístico18. Daí que os seus responsáveis tivessem apostado claramente em
dotar as suas armadas com um grande número de fustas, bergantins e catures, ou seja, pequenos navios de
remos e velas, que se caracterizavam por serem rápidos, manobreiros, de pouco calado e de fácil navegação
mesmo quando em situação de calmaria ou de ventos contrários, predicados que não possuíam quer os
navios de alto-bordo quer as galés que até aí vinham sendo utilizadas.
Esta tendência para a "orientalização do poder naval português" irá acentuar-se a partir da década
de 1530, graças sobretudo à crescente incorporação de pequenos navios locais nas armadas portuguesa,
conseguida com recurso ao processo de apresamento, razão pela qual a partir dessa data os navios de remo
de pequeno porte vão estar presentes maioritariamente em quase todas as armadas portuguesas estacionadas
no Índico. Este facto muito contribuiu para acentuar a adopção de uma série de práticas de guerra naval
utilizadas no Oriente, passando-se cada vez mais a decidir os combates à abordagem e não, como outrora,
com recurso à artilharia apoiada na manobra do navio.
Na verdade esses vasos de guerra, dada a sua pequena arqueação e menor robustez, não estavam
preparados para utilizar artilharia de grosso calibre, uma vez que o recuo das peças no momento do disparo
podia provocar não só danos irreversíveis ao nível do casco e dos mastros, mas também o desequilíbrio do
navio, provocando o seu afundamento. Para além disso, tratando-se de navios mais pequenos, o número
de peças com que eram equipados era substancialmente menor, reduzindo-se no caso das fustas a uma
bombarda de calibre médio (falcão) e três berços, e no das galeotas a três bombardas de calibre médio
e alguns berços. Perante a impossibilidade de os seus navios poderem afundar, ou mesmo parar, os seus
contrários a tiro de artilharia, os combates em coluna vão desaparecer praticamente, sendo substituídos
pelo tradicional choque frontal seguido da abordagem. Os confrontos navais vão passar a consistir numa
primeira salva de artilharia, lançada com o intuito de semear o pânico nas forças adversárias levando-as
a desorganizarem-se, após o que se seguia o embate frontal das duas frotas, seguido da abordagem feita à
espada e à rodela ou à lançada, e onde as panelas de fogo desempenhavam também um papel decisivo.
Esta táctica de combate, que se adequava muito melhor ao tipo de mentalidade guerreira da fidalguia
e bem assim da generalidade dos homens de armas presentes no Oriente, vai então passar a ser utilizada
regularmente contra as forças orientais quer no Índico quer nos mares do Sul, assistindo-se, pelo contrário,
a uma intervenção cada vez mais reduzida das bocas de fogo durante as batalhas navais.
A orientalização das armadas portuguesas, que se irá acentuar gradualmente ao longo da segunda
metade do século XVI, implicou, a prazo, a redução drástica do número de navios de alto-bordo a operar no
Oriente como vasos de guerra e conduziu, por arrastamento, à rarefacção de técnicos de construção naval e
de tripulações com conhecimentos para operar com este tipo de navios. Este facto, aliado à já referida perda
de importância do papel da artilharia na resolução dos combates, foi igualmente responsável pela regressão
registada ao nível da concepção dos navios de alto-bordo portugueses, que, ao invés de se tornarem mais
rápidos, manobreiros e com maior poder de fogo, como veio a suceder com os das armadas inglesas e
holandesas, foram transformados em verdadeiras fortalezas flutuantes com altos castelos à proa e à popa.
O "Estado da índia" ao invés de potenciar os elementos inovadores que possuía em termos tecnológicos,
técnicos e tácticos, à data da sua chegada ao Índico e que lhe valeram uma rápida afirmação militar nos
primeiros anos da centúria, acabou, por força das razões que apresentamos, por adaptar as suas estruturas
navais à realidade asiática, factor que lhe permitiu assegurar a sua supremacia naval no Oriente ao longo de
todo o século XVI, mas que seria determinante para a sua subalternização política e militar após a entrada
em cena das potências norte-europeias. Melhor apetrechadas tecnicamente viriam, a exemplo do que os
portugueses haviam feito no passado, a adoptar uma série de técnicas e tácticas de combate naval que muito
contribuíram para a sua rápida afirmação.
A africanização da guerra
No século XVIII, contrariando o que tinha sido defendido por T. Hobbes (.Léviathan, 1660), tomava
corpo a ideia de que a paz, e não a guerra corresponderia ao estado natural do homem. A paz é a tranquilidade
de que usufrui uma sociedade política, quer no interior, através da boa ordem que reina entre os seus
membros, quer no exterior, pela boa inteligência que guia a sua relação com os outros povos. A conquista
far-se-ia menos pela guerra, e mais pela agricultura, a indústria ou a religião. A noção de conquista
aproximava-se, assim, da noção de civilização, tal como ela foi formulada no século XVIII. E, sendo assim,
o processo civilizacional, uma vez bem lançado, seguiria a sua própria dinâmica e acabaria por se impor
às sociedades visadas. A civilização far-se-ia a si mesma". Por tudo isto, a guerra seria sempre um último
recurso no processo de colonização e não a via, por excelência, para a imposição do domínio colonial, já
que a civilização acabaria por conduzir ao desestruturar das sociedades africanas, tanto nas suas relações
económicas e sociais, quanto nos seus valores culturais específicos.
É certo que, desde o século XVI, em Angola, aliás como no Estado da índia, o domínio territorial
articulara as guerras, e as grandes batalhas, com os tratados de vassalagem, muitas vezes na sequência
da deposição e eleição de um novo chefe20. Uma conquista, em moldes americanos, não se adaptara às
possibilidades da Coroa Portuguesa. Aquele tipo de tratados, por mais ficcionais que fosse, remetia o
tratamento dos chefes locais e, neste caso, dos sobas africanos, para as relações de tipo diplomático. A
especificidade do século XVIII não estará, portanto, na utilização dos meios diplomáticos e de persuasão
como substitutos das guerras, mas na maneira de pensar a paz como instrumento de conquista. Estamos no
período em que os teóricos da arte militar valorizavam a guerra indirecta, isto é, a possibilidade de vitória
militar evitando o confronto em batalha, denunciando e fazendo sobressair aquele que não passaria do
"edifício quimérico da glória do conquistador"21. Ainda quando da guerra resultassem triunfos retumbantes,
nada compensava a perda e o sacrifício de muitos dos seus membros. As próprias vitórias causavam
feridas profundas que só a paz poderia curar. Este repensar das funções da guerra foi acompanhado da
profissionalização dos seus agentes, manifesta em todas as reformas do Conde de Lippe (1762).
Assim como aconteceu na índia, em Angola, desde o século XVI, verificou-se o confronto entre
os teóricos e os práticos da guerra, confronto resultante de uma incontornável africanização da guerra.
Era esta especificidade que já tinha conduzido Cadornega a concluir: "(...) as guerras de Angola não tem
comparação com as do Mundo todo (...)"22. No século XVIII, as novas aquisições teóricas transportadas
pelos governadores para Angola precisaram integrar essa circunstância africana e o know how dos militares
instalados no terreno".
A guerra em Angola fazia-se pela terra adentro, envolvendo o sertão, os seus caminhos, e as ciladas
escondidas, daí i) a importância da infantaria, ii) a preponderância da guerra terrestre, e iii) a especificidade
da constituição dos exércitos.
A infantaria tornou-se o corpo de guerra, por excelência, e dentro da infantaria, aquilo a que Thornton
chamou "light infantry"24. Segundo os regulamentos, a partir de 1754, o regimento da cidade de Luanda
deveria ser composto por dez companhias, de 60 soldados cada uma, incluindo aqui a companhia de
Benguela, perfazendo um total de 600 homens, fora os oficiais25. Mas, a máquina de guerra precisava
abranger, ainda, um contingente de homens ligados à abertura dos caminhos e à espionagem. Batedores,
observadores, descobridores das ciladas, africanos práticos do terreno e das línguas locais, seguiam nas
margens dos exércitos, em marcha, captando informações26. A cavalaria, apesar do impacto aterrador que
possuía sobre os africanos, não teve condições para vingar, como componente decisiva, uma vez que os
cavalos dificilmente sobreviviam ao clima27. Sem nunca deixar de ser mencionada e considerada, a sua
participação nos cenários de guerra foi bastante variável. Quanto à guerra naval, e apesar de, durante muito
tempo, a defesa colonial da monarquia portuguesa ter sido pensada e praticada dentro de uma concepção
puramente naval (desde logo porque era a vantagem tecnológica num império maioritariamente marítimo
que garantia sucesso) ela era naturalmente marginal em Angola. No Oriente, e mesmo na África Oriental,
existia uma cultura marítima vivaz, já na costa ocidental, apesar dos rios Zaire e Cuanza, e da presença dos
axiluanda, pescadores de Luanda, residentes nas suas ilhas, essa cultura estava longe de estruturar as relações
de conflito. Portanto, em Angola, quando se fazia a guerra fazia-se a guerra terrestre, maioritariamente
suportada na infantaria.
A constituição dos exércitos coloniais fugia a um padrão uniforme e as tácticas empregues denunciavam,
muitas vezes, a adopção da cultura militar local. Elias Alexandre, na sua História de Angola (1787-1799),
quando se ateve numa longa exposição da guerra do Bailundo (1774-1776) descreveu, com perplexidade,
exércitos "compostos de miscelânicas corporações: de diversas armas " e "dirigidos por diferentes costumes
aos da Europa..."28. Proporcionalmente, o número de soldados pagos era muito inferior ao dos homens
africanos recrutados localmente. A fragilidade de um corpo de exército pago ficava reforçada pela falta
endémica de fardas e o montante baixo dos soldos, em comparação com o que se praticava no Brasil,
por exemplo29. Os soldados, pagos, eram muito mal pagos, o qué os colocava em situação de pobreza,
sujeitos à caridade alheia, e disponíveis à deserção, para o mato, onde acabavam por conseguir subsistir.
Os regimentos, em Angola, raramente eram compostos pelo número de companhias que a letra da lei
estipulava30. Os pagamentos irregulares e consequente deserção, de forma a angariar meios de subsistência,
explica aliás que, apesar da idéia de exército permanente, dificilmente se possa daí induzir a existência de
um corpo profissionalizado31. A extrema vulnerabilidade do soldado europeu ao clima tropical, ainda para
mais numa época em que os efeitos terapêuticos do quinino não se haviam feito sentir, explica a elevada
mortalidade. A isso juntava-se a sua origem, muitos deles degredados, e impreparação, mais as constantes
deserções a partir dos presídios para as terras dos sobas circundantes. A superioridade e preponderância
das tropas indígenas resultavam assim da sua melhor adaptação às condições do meio, e às condições
bacteriológicas.
A articulação entre os tratados de vassalagem e a participação dos chefes africanos nas guerras permitia
ao exército colonial dispor de um vasto contingente de homens angariados nas sociedades africanas. O
recrutamento da guerra preta exigia a participação dos sobas avassalados, mais os respectivos macotas que
aliciavam os filhos de acordo com regras de mobilização que escapavam, necessariamente aos princípios
da Europa, assentes na idéia de especialização e profissionalização das funções militares. As lógicas do
parentesco e as razões da dependência e da lealdade, estavam na base do exercício desse poder dos sobas
ou macotas sobre os seus subordinados. Por essa razão, a constituição numérica de cada companhia de
africanos apresentava-se bastante variável. Ao invés de obedecer a uma norma geral, estava relacionada
com as ligações de dependência que cada macota, chefe da companhia, mantinha com os seus homens,
produzindo assim corpos desiguais na sua composição e coesão32.
A participação dos sobas nos Conselhos de Guerra realizados durante as campanhas militares, em pleno
sertão, resultava na assinatura de termos, onde constavam ao lado das assinaturas dos oficiais portugueses as
assinaturas, sob a forma de cruz na frente do nome, desses chefes africanos e seus principais dignitários. Aí
fica patente a importância ocupada pelas concepções africanas da guerra e dos seus melhores conhecedores,
os próprios chefes africanos. Foi o que se passou na guerra contra os Dembos do Norte, em 1790, quando os
Dembos33 aliados dos portugueses tomaram parte activa e vital nas decisões de estratégia. Sendo primeiro
perguntado aos dembos e sobas se estavam prontos a seguir na coluna, para onde fossem nomeados,
conforme o projecto e ordem do governador Barão de Moçâmedes, disseram unanimemente que a decisão
estava errada e que não se devia seguir, alegando exemplos similares. Ouvidos, de seguida, os oficiais
portugueses responderam que embora a sua obrigação fosse obedecer cegamente às ordens do seu general,
sabendo-se que os exércitos em África, sem o auxílio dos africanos, se perdiam infalivelmente, votavam
que, não sendo da vontade dos sobas, não se podia fazer o proposto pelo Governador de Angola34.
Entre os agentes da preparação da guerra estava também o tendala, figura do protocolo africano
desde cedo incorporado na administração colonial35. Os quilambasi6 e os quimbares*1, agentes africanos
da guerra, são também integrados nas forças portuguesas. A movimentação dos exércitos implicava a
participação alargada dos carregadores, para transporte de mantimentos e munições. Estes aumentavam
consideravelmente o número de homens incorporados no exército e a questão da preparação e condução
das cargas complicava ainda mais os preparativos. Em média um exército de cinco mil armas poderia levar
entre um e dois anos a ser preparado. A este contingente africano somavam-se as crianças e as mulheres que
voluntariamente acompanhavam os homens.
Tornar a guerra eficiente em Angola conduzia inevitavelmente a um afastamento da "prática e disciplina
das nações polidas", da Europa, para usar os termos que recorrentemente aparecem na documentção
administrativa que circulava entre o Conselho Ultramarino, os Ministros dos Negócios Ultramarinos e os
Governadores de Angola, ao longo de toda a segunda metade do século XVIII.
As estratégias africanas de guerra vêm a ser instrumentalizadas pelos militares portugueses, em
confrontos no sertão. A prática de queimar as banzas, de forma a assegurar a destruição dos lugares do
poder africano, e os campos de lavoura, para causar a fome, foi empregue com muita frequência pelos
exércitos coloniais38.
Um exame das armas utilizadas nas guerras de Angola não pode ignorar, evidentemente, os apetrechos
indígenas, em consequência mesmo do emprego de regimentos de africanos. A coexistência, num mesmo
exército, de homens oriundos de culturas tão diversas, convocava a coexistência tecnológica, pelo uso
simultâneo de armas de fogo de origem europeia e armas brancas tradicionais africanas. A arma mais
importante dos Ambundo e dos seus vizinhos, consistia no arco com flechas; as machadinhas de guerra, as
armas, por excelência dos Imbangala
(Mbangalaf.
O processo de africanização da guerra ia mais longe no momento da batalha. Longe da "guerra regulada e
orgânica" da Europa, a implicar obediência e prudência, o africano combatia com base numa táctica de
dispersão, dando espaço para a manobra individual, o valor ou coragem pessoal. A agilidade física e habilidade
dos soldados da África central, impressionou e desconcertou os militares europeus. Elias Alexandre consegue
dar uma imagem quase cinematográfica desses episódios: "cada um sem regra de uniformidade, salta já hum já
a outro Lado, volta em roda, abaixa-se, Levanta hum braço, curva hua perna, fazendo mil vizagens, e no meio
destes equilíbrios dispara a sua arma; atira a sua seta; e descarrega os seus golpes, sem dar tempo a que por causa
da imobilidade, seja o alvo de algum tiro"40.
Já um texto de carácter etnográfico, datado de 1908 sobre o Distrito de Benguela, oferece a mesma
descrição: "Todos estes povos não têm táctica de guerra. Atiram isoladamente ou caem em avalanche sobre
o inimigo, quando o tomam de surpresa"41.
Elias Alexandre acrescentava ainda que esta "táctica estabelecida, desordenada e confusa" encerrava
os mesmos fins que a do "Grande Frederico da Prússia"42. O argumento de legitimação avançado por
este militar, "americano português", servia para justificar que os portugueses imitassem a mesma táctica
empregue pelos africanos. O paralelismo pode fazer sentido, se se atender ao facto de Frederico II ter
estado tão atento à preparação teórica e histórica dos militares, como aos objectivos de natureza prática. Os
estudiosos da matéria assinalam a importância por ele dada à táctica, ou arte da manobra ("ataques, defesas,
retiradas, marchas, formas de atravessar rios ..."). A sua preocupação era a de desenvolver a mobilidade do
exército, de tal maneira que anunciava já uma guerra absoluta de movimento e choque, naquilo que viria
a representar a boa tradição napoleónica 43. Do ponto de vista da mobilidade e agilidade das tropas, no
momento da batalha, uma aproximação entre as concepções de Frederico II da Prússia e as técnicas africanas
da guerrilha, pode, então, fazer sentido, mas existem diferenças de fundo assinaláveis, já que a noção de
disciplina, no contexto setecentista, implicava uma subordinação do indivíduo à máquina de guerra onde
se integrava e por consequência a obediência ao plano militar tal como fora previamente engendrado, sem
lugar para a irrupção de actos de coragem ou agilidade pessoal. Mas, é claro, estamos perante um arranjo
retórico, em que o autor quer dar notícia do conhecimento que detém sobre o seu tempo, atrás do qual se
situa a questão central das condições de eficácia da guerra ultramarina. Em Angola, como aliás acontecera
no Brasil, não podia deixar de se distanciar dos princípios da guerra moderna e da arte militar e adoptar
aquilo a que actualmente se chama de "guerra de guerrilha"44. Aos militares portugueses convinha fazer a
"guerra bárbara" porque era aquela que se revelava mais eficaz, devendo, para isso, aprender, seja com os
índios, seja com os africanos, ou os asiáticos45. Embora as tropas reinóis soubessem alinhar-se em formação
militar, com a infantaria no centro e a cavalaria dos lados, nas guerras de Angola, as companhias ligeiras
faziam face ao inimigo, sem ordem de alinhamento. Só o corpo ou exército que guardava as munições e era
protegido por empacaceiros 46 conservava a formatura, acabando por funcionar como corpo de reserva47.
A influência da cultura militar endógena exerceu-se, então, não tanto no tocante ao equipamento militar,
mas à assimilação das suas tácticas. No caso angolano convém, também, sublinhar que essa capacidade de
integração de novos recursos bélicos foi assumida e francamente rendibilizada pelos próprios africanos,
em primeiro lugar pelo uso das armas de fogo e depois pela desmontagem e boicote dos estratagemas
coloniais.
Conclusão
O processo de orientalização foi levado tão longe ao longo do século XVI que, com a chegada de
outras potencias europeias dispondo de uma aparelhagem técnica e mental de raiz europeia, entretanto
melhoradas, o grande paradoxo acontece: os portugueses vão acabar por "morrer com as mesmas armas
com que haviam morto", ou seja, derrotados pela tecnologia e as tácticas que lhes haviam servido para se
afirmarem. Ainda assim, os portugueses manter-se-iam no Oriente até 1961, para o que terá contribuído
essa característica da colonização na índia, capaz de integrar e de se integrar localmente.
O processo de africanização dos exércitos coloniais em Angola não deixaria de continuar a fazer-se
sentir ao longo do século XIX e, de facto, só conheceu o seu termo com as campanhas militares dos anos
20 do século XX, altura em que a malha militar e administrativa corrompe e destrói verdadeiramente as
dinâmicas instaladas ao longo dos séculos anteriores48.
Retomando uma ideia que propusemos no início deste texto, a da reutilização da hipótese das
aprendizagens e adaptações aqui levantada para os casos do Estado da índia e de Angola, verificamos,
através de uma leitura da bibliografia estabelecida para o Brasil, a comprovação de fenómenos deste tipo.
O fenómeno foi identificado para o Brasil, no que toca à aprendizagem portuguesa da utilização dos
"ardis de guerra" indígenas e outras técnicas indispensáveis às longas marchas pelo interior e às extensas
navegações fluviais. Assimilação de técnicas indígenas, a merecer epítetos como "guerra basílica", "guerra
volante" ou até "guerra do mato", que terá levado os oficiais neerlandeses a afirmar que os soldados
luso-brasileiros mais pareciam "homens bárbaros e desesperados que soldados que professam a guerra
política" 49. Ou ainda, no que toca ao processo de miscigenação, que tem o seu expoente máximo na índia
de Albuquerque (1510-1515), com a adopção de uma política de casamentos mistos, que gerou mesmo o
surgimento de um subgrupo social, designado como casados.
Os saberes da guerra, como os outros saberes, terão todos eles as suas as suas várias expressões locais,
escapando à presunção de uma coerência necessária e universal. Neste artigo procurámos mostrar que i)
a colonização além de domínio e imposição de domínio suscitou, e (mesmo quando o foi, pela guerra),
resultou, muitas vezes, na comunicação e na troca de saberes e que ii) se bem que de uma forma claramente
instrumentalizante, os europeus nunca deixaram de estar atentos ao acervo de saberes, mais formalizados
ou apenas utilizados no quotidiano, de que os seus interlocutores — com quem mantinham uma relação
consciente de superioridade, numa lógica hierarquizante - estavam, de facto, na posse, porque conheciam
a terra onde viviam.
64
Notas
' C a n a d e Aires da G a m a a El-Rei D. M a n u e l , C a n a n o r , 2 de J a n e i r o de 1519, p u b l . e m AÏ Gavetas
de E s t u d o s H i s t ó r i c o s U l t r a m a r i n o s , 1964, p. 214.
da Torreão
Tombo, vol. IV, Lisboa, C e n t r o
2
B a r ã o de M o ç â m e d e s ( G o v e r n a d o r de A n g o l a ) , Instruções por que se d e v e m regular os c o m a n d a n t e s d o exército q u e vai fazer a guerra do
Norte, AMU, A n g o l a , C a i x a . 78, Doe. 60, 27 de Abril d e 1793.
3
Do p o n t o de vista m e t o d o l ó g i v o s e g u i m o s a proposta d e J e a n - C l a u d e Passeron e J a c q u e s Revel, " P e n s e r p a r cas, ou c o m m e n t r a i s o n n e r
à partir de singularités", in Penser par cas, Paris, E H E S S , 2005, p. 9, o n d e se p r o b l e m a t i z a u m a das q u e s t õ e s essenciais das ciências sociais: se é
possível g e n e r a l i z a r e r a c i o c i n a r a partir de c a s o s particulares, se é possivel chegar a f o r m u l a ç õ e s h o m o g e n e i z a n t e s ou a a r g u m e n t a ç õ e s u n i f i c a d o r a s
c o m b a s e n o q u e d i z e m as situações casuísticas.
4
XVIII),
Vide a l g u n s e s t u d o s que a p o n t a m nessa d i r e c ç ã o in A A VV, O Antigo
Rio de Janeiro, C i v i l i z a ç ã o Brasileira, 2 0 0 1 .
5
Cf. G a s p a r Correia, Lendas
da índia,
Regime
nos trópicos.
A dinâmica
imperial
portuguesa
(séculos
XVI-
Porto, Lello & Irmão Editores, 1975, vol. II, p. 555.
6
Cf. Borrão Original de Algumas Folhas das instruções Régias (Regimento Real) ciadas- a Cabral para a sua Viagem, c. Fevereiro d e 1500,
in A.N.T.T., Leis sem data, m a ç o I, n° 21, publ. por Fontoura da Costa e m Os Sete Únicos Documentos
de 1500 conservados
em Lisboa
referentes
à Armada de Cabral, Lisboa, A . G . U . , 1968, p. 44.
7
Cf. Vitor Luís G a s p a r R o d r i g u e s , A Evolução da Arte da Guerra dos Portugueses
no Oriente (1498-1622),
2 vol.s, d i s s e r t a ç ã o a p r e s e n t a d a
n o I.I.C.T. para p r e s t a ç ã o das p r o v a s de a c e s s o à categoria de Investigador A u x i l i a r da Carreira de Investigação Científica, Lisboa, ed. p o l i c o p i a d a ,
1999, vol. I, pp. 9 4 a 97.
8
Cf. L u í s Filipe T h o m a z , , " E s t r u t u r a Política e Administrativa d o Estado da índia no século X V I " , in IISeminário
indo Portuguesa-Actas,
Lisboa, I.I.C.T. - C . E . H . C . A . , 1985, pp. 513 a 540.
9
G i l b e r t o Freyre, Casa Grande
10
e Senzala,
que as elucidam,
de
História
Lisboa, Ed. Livros d o Brasil Lda., 2001, p. 21.
Cf. carta de A f o n s o de A l b u q u e r q u e para D. M a n u e l , d e 4 d e N o v e m b r o d e 1514, in Cartas
documentos
Internacional
de Afonso
de Albuquerque
seguidas
de
publ. por R a y m u n d o A. de B u l h ã o Pato, Lisboa, T y p o g r a p h i a da A c a d e m i a Real das Sciencias, 1884, vol. I, p. 338.
" S o b r e o a s s u n t o v e j a m - s e os trabalhos d e Luís Filipe F. R. T h o m a z , " G o a : u n e Société L u s o - I n d i e n n e " , in Bulletin des Études
Portugaises
et Brésiliennes,
t o m o 4 2 - 4 3 , Paris, s.d., p p . 18 e seg.s; e de G e n e v i è v e B o u c h o n , " P r e m i e r e s E x p é r i e n c e s d ' u n e Société Coloniale: G o a au X V I . e
Siècle", in Histoire du Portugal. Histoire Européenne.
Actes du Colloque, Paris, F.C.G.-C.C.P., 1987, pp. 87 e seg.s.
12
S o b r e o a s s u n t o v e j a - s e o trabalho de J e a n A u b i n , " L ' A p p r e n t i s s a g e de l ' I n d e . C o c h i n 1 5 0 3 - 1 5 0 4 " , in Moyen
XVIe-XIXe
Orient
& Océan
Indien
s., Paris, S o c i é t é d ' H i s t o i r e de l ' O r i e n t , 1987, n° 4, p p . 1 a 87.
13
N a v e r d a d e , o S a m o r i m de Calecut, a s s i m c o m o outros s o b e r a n o s asiáticos, depressa se a p e r c e b e r a m da i m p o r t â n c i a da artilharia, r a z ã o
p e l a qual p r o c u r a r a m r o d e a r - s e d e m e s t r e s f u n d i d o r e s e b o m b a r d e i r o s de o r i g e m veneziana. Aliás, as C r ó n i c a s da é p o c a estão repletas d e e p i s ó d i o s
d e t r â n s f u g a s p o r t u g u e s e s e estrangeiros que se c o l o c a v a m ao serviço d o s diferentes p o t e n t a d o s orientais e m b u s c a de f a m a e fortuna, e q u e f o r a m
r e s p o n s á v e i s p e l o s a v a n ç o s t é c n i c o s registados n o s seus p a r q u e s de artilharia.
14
Cf. carta de L u i z M a r t i n s de Portalegre ao Rei, de 7 de D e z e m b r o de 1527, publ. e m As Gavetas
15
C f . S a t u r n i n o M o n t e i r o , Batalhas
16
da Marinha
Portuguesa
(1139-1521),
... , j á cit., vol. V, p. 100
vol. I, L i s b o a , Livraria Sá da Costa Editora, p. 2 4 7 .
P e q u e n a s e m b a r c a ç õ e s orientais m o v i d a s a r e m o s e vela, n o r m a l m e n t e utilizadas p a r a a g u e r r a e o c o m é r c i o j u n t o da costa. Cf. H u m b e r t o
L e i t ã o e J. Vicente L o p e s , Dicionário
l7
e Combates
da Linguagem
de Marinha
Antiga
e Actual,
2" ed., Lisboa, C . E . H . U . - J . I . C . U . , 1974.
D i o g o L o p e s d e Sequeira e m 1518 enviou, para a l é m de a l g u m a s a r m a d a s c u j a c o m p o s i ç ã o d e s c o n h e c e m o s , d u a s e s q u a d r a s , u m a para as
M a l d i v a s e outra para a barra de Dabul, e m c u j a c o m p o s i ç ã o e n t r a v a m j á vários navios p e q u e n o s , s o b r e t u d o fustas. Cf. J o ã o de Barros, Da
dos feitos
que os Portugueses
fizeram
no descobrimento
e conquista
dos mares e terras doOriente,
Asia,
D é c . III, livro III, c a p 0 1 , Lisboa, Livraria S a m
Carlos, 1973.
18
AS galés m a i o r e s , d a d o o g r a n d e n ú m e r o de h o m e n s que m o v i m e n t a v a m e a sua r e d u z i d a a u t o n o m i a , c o l o c a v a m na índia graves p r o b l e m a s
d e logística n ã o s e n d o por isso a d e q u a d a s aos m a r e s d o Oriente. Para a l é m disso, e r a m m u i t o d i s p e n d i o s a s , g a s t a n d o - s e m a i s c o m u m a única galé
d o q u e c o m 5 ou 6 f u s t a s . Cf. A r m a n d o da Silva S a t u r n i n o M o n t e i r o , Batalhas
e Combates
da Marinha
Portuguesa
(1139-1521),
Lisboa, Livraria
Sá da C o s t a Editora, 1991, j á cit., vol. III, p. 2 0 9 .
19 Carta de D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho para Francisco Xavier de Mendonça Furtado, 18 de Outubro de1769,
Alfredo de Albuquerque, Angola. Apontamentos sobre a colonização dos planaltos e litoral do sul de Angola, Lisboa, Agência Geral
das Colónias, 1940, vol. I, p. 168.
20
S o b r e os tratados de v a s s a l a g e m e m A n g o l a Cf. Beatrix Heintze, Luso-african
1
18' ' centunseparata
,
feudalism
in Angola?
The vassal treaties
ofthe
16''' to the
da F a c u l d a d e de Letras da U n i v e r s i d a d e de C o i m b r a , C o i m b r a , Instituto d e História E c o n ó m i c a e Social, 1980, pp. 111-131
passim.
21
Cf. " P a i x " , Diderot
" I n t r o d u ç ã o " , Nova História
22
e D 'Alembert
Militar
(dir.), Encyclopédie
de Portugal,
[...], 1751 et 1772. Ver t a m b é m s o b r e os novos s a b e r e s da guerra, A . M . H e s p a n h a ,
Lisboa, Círculo de Leitores, (pp. 9 - 3 3 ) , aqui p. 17 e ss.
A n t ó n i o d e Oliveira C a d o m e g a ( I a ed. 1685), História
geral das guerras
angolanas,
vol. 1, A n o t a d o e c o r r i g i d o p o r José M a t i a s D e l g a d o ,
Lisboa, A g ê n c i a Geral do U l t r a m a r , 1972, p. 203.
23
Para u m a análise d e t a l h a d a das m a n e i r a s de fazer a guerra e m A n g o l a , n o p e r í o d o p o m b a l i n o , e do c o n f r o n t o entre as f o r m u l a ç õ e s d o s
t r a t a d o s militares setecentistas c o m as e x i g ê n c i a s da guerra e m Á f r i c a , p o d e ser e n c o n t r a d a e m Catarina M a d e i r a Santos, Um governo
para Angola:
reconfigurar
dispositivos
de domínio
(1750-C.I800),
"polido "
Tese de D o u t o r a m e n t o a p r e s e n t a d a à F C S H da Universidade N o v a d e Lisboa e
à École des H a u t e s É l u d e s en Sciences Sociales, Lisboa/Paris, 2005, pp. 2 6 1 - 3 1 5 .
24
J o h n T h o r n t o n , IVarfare in Atlantic
25
Alvará d e D. José, Lisboa, 9 de A g o s t o de 1754, Arquivo Histórico U l t r a m a r i n o , Cx.38, D o c . 82.
26
Cf. Elias A l e x a n d r e da Silva Corrêa, História
Africa,
1500-1800,
Great Britain, Series Editor, J e r e m y Black, University of Exeter, 1999, pp. 104-
105.
de Angola,
2 vols., Lisboa, C o l e c ç ã o d o s Clássicos da E x p a n s ã o Portuguesa n o M u n d o ,
Série E - I m p é r i o Corrêa, 1937, II, p.52.
27
S o b r e a q u e s t ã o dos cavalos: "A cavalaria os espanta , e põe e m d e s o r d e m nos s e u s p e n ú l t i m o s revezes. O terror das p r i m e i r a s hostilidades,
q u e o g e n t i o s o f r e u de 200, e m a i s cavalos talvez seja, o que por tradição ainda existe. N ã o é o n ú m e r o dos que h o j e se e m p r e g a m na g u e r r a q u e
deve o b r a r tais p r o d í g i o s " , Corrêa, História
de Angola,
vol. II, p.57; a m e s m a ideia está p r e s e n t e nas Instruções
para D. António
de Lencastre...,
10
de Julho de 1772, A r q u i v o Histórico Ultramarino, Cód. 472, Art° 208.
28
C f Elias A l e x a n d r e autor q u e seguirei d e perto na preciosa descrição que faz acerca das e s p e c i f i c i d a d e s da guerra em Angola; cf. Corrêa,
••
•
~
(55
História
de Angola...,
vol. II, pp. 48-49.
29
Elias Alexandre chega a afirmar que a tropa paga atingiria, quando muito, o número de 100, cf. Idem, Ibidem, vol. II, p. 51. O C o n d e da
Cunha, e m 1753, considera inaceitável que os soldados em Angola recebessem 5 tostões, contra os 15 tostões auferidos pelos soldados no Brasil,
tanto mais que os preços e m Angola atingiam níveis muito mais elevados do que na América portuguesa. Ofícios do governador António Álvares
da Cunha para Diogo de M e n d o n ç a Corte Real, 21 de D e z e m b r o de 1753, A H U , Cx. 38, Doe. 82. Sobre a questão concreta das fardas e o tipo de
manipulação a que estavam sujeitas, por parte dos contratadores do tráfico, vide, A H U , Cód. 555, fis. 42v e ss. Forneciam aos presídios tecidos de
m u i t o m á qualidade, ou compravam as fardas aos soldados, no m o m e n t o do pagamento, por preços insignificantes. O resultado, estava à vista, uma
tropa miserável, nua e sem eira n e m beira.
30
Sobre a c o m p o s i ç ã o dos regimentos de infantaria, cavalaria e artilharia, de acordo com o estipulado nas Novas Ordenanças vide, Carlos
Selvagem, Portugal Militar. Compêndio de História Militar e Naval de Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional, 1931, pp.464-465.
31
Cf. Fernando Dores Costa, "Guerra no tempo de Lippe e de Pombal", Nova História
2004, pp.331-350.
32
Catarina Madeira Santos, Um governo
33
Dembo
34
Cf. Catarina Madeira Santos, Um governo
Militar
de Portugal,
Lisboa, Círculo de Leitores,
"polido "..., p. 289.
: título politico, d o kimbundu ndembu,
autoridade superior à do soba ou que tem sobas sob a sua jurisdição.
"polido "..., p. 290.
35
Este cargo foi reconhecido pela administração portuguesa. E m 1648, por exemplo, Salvador Correia de Sá e Benevides nomeava o novo
Tendala e capitão-mor da guerra preta para Benguela, cf. Arquivos de Angola, vol. I, n° 2, 1933, s.p.
36
" A Classe ou corporação dos Quilambas, palavra que significa Cabo, se c o m p õ e m de grandes guerreiros, que só exercitão este officio.
Vivem tributários aos Sovas, e m cujos Sovados existem, c o m regência separada. Cada Q u i l a m b a rege o seu Troço ou Esquadra, debaixo da
m a n d a n c i a de h u m Capitão mor, que tem Sargento mor, e Ajudante. Estes Negros criados entre os Brancos, são seus fieis companheiros: e a seu
cargo m a r c h a m as munições do Exército. C h a m a m - s e Empacasseiros pelo uso das espingardas e da caça das Empacassas..." (Correa, História de
Angola...,
vol. II, p. 50); "... são nas marchas responsáveis pela defesa da Nossa Artilharia, Palamenta e M u n i ç õ e s de Guerra o que finalmente
executão..." ( A H U , Cx. 79, doe, 66); - "os que reparão os Corpos das Guardas, Cazas de Feitoria dos Prezídios, e c o n d u z e m as Cartas do serviço
real a esta Capital e dela para o sertão...reputados por Soldados da C o r o a " (Informação do Provedor da Fazenda de Angola, 30 de Setembro de
1770, AA, vol. I, n°2, 1933, s.pp.).
37
" Q u e r dizer: h o m e n s Livres: C h e f e s de famílias Senhores de quaisquer porções de terra, em q u e vivem subordinados aos Sobas. Hoje há
Q u i m b a r e s cativos e outros forros, agregados a m o r a d o r e s Brancos. Os primeiros forão alistados pelo G o v e r n a d o r Aires de Saldanha de M e n e s e s e
Sousa [1676-1680], Cada C o m p a n h i a tem o seu Macota, ou Capitão e todo o Corpo u m Cabo maior que o governa (Corrêa, História de
Angola...,
vol. II, pp. 50-51). N o planalto de Benguela, " n o s Humbis, Povos dos interior da capitania de Benguela assim c h a m a m t a m b é m aos Brancos"(
Ofício do G o v e r n a d o r D. Miguel António de Melo para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, 30 de Abril de 1798, Arquivos de Angola, vol.I, n° 5 e 6,
M a r ç o de 1936, s.pp.).
38
A p o n t a m e n t o s extraídos d e alguns ofícios d o governador..., in Arquivo Histórico Ultramarino, Cx. 60, Doc. 1, Processo da Guerra do
Mossulo; Processo sumário de testemunhas sobre o c o m p o r t a m e n t o que teve o ex-coronel Manuel António Tavares, na guerra aos D e m b o s , 27 de
Abril de 1793, A H U , Cx. 78, Doe. 60, fl. 9. Ver t a m b é m o que diz J.L.Vellut, (1972-1973), Questions Spéciales d'Histoire d'Afrique,
Université
Nationale du Zaire, C a m p u s de Lubumbashi, texto policopiado, p. 32-33.
39
Africanos,
Beatrix Heintze, "A Cultura Material dos A m b u n d u segundo as fontes dos séculos X V I e XVII", in Revista
n° 10 e 11, Janeiro-Dezembro, 1989, pp. 15-63, aqui, p. 43-45.
Internacional
de
Estudos
40
Corrêa, História de Angola...,
vol. Il, p.57. T a m b é m D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho assinala esta particular destreza e o
desconcerto q u e produzia nos militares portugueses; Carta de D. Francisco Inocêncio de Sousa Coutinho para Francisco Xavier de M e n d o n ç a
Furtado, 2 de Abril de 1766, Arquivo Histórico Ultramarino, Cx 50, Doe. 65-2. Sobre a agilidade d o s agentes africanos, vide T h o m t o n , Warfare...,
p. 105.
41
A u g u s t o Bastos, "Traços Gerais sobre a Etnographia do Districto de Benguella", BSGL, 26 a série, 1908, pp. 1-217, aqui 81.
42
Corrêa, História
43
História
473.
de Angola...,
vol. II, p. 57.
Jean Delmas, "Militaires (Arts et Doctrines)", Encyclopaedia
Universalis; Rui Bebiano, "A Arte da Guerra. Estratégia e Táctica", Nova
Militar de Portugal, vol. 2, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004, pp.112-151, Nova História..., p. 126; Selvagem, Portugal Militar..., p.
44
Sobre a guerra ultramarina c o m o "guerra de guerrilha" vide Hespanha, "Introdução", Nova História Militar..., p. 19. Para o Brasil vide
Cabral de Mello, Olinda Restaurada.
Guerra e Açúcar no Nordeste, 1630-1654, 2 a ed. Revista e aumentada, Topbooks,1998,p. 318 e ss.
45
Para o Brasil, Cabral de Mello, Ibidem,
46
D e s i g n a ç ã o para a guerra preta ou tropas indígenas de Angola.
47
Corrêa, História
de Angola...,
p. 244 e ss.
vol. II, p.57.
48
Sobre as guerras em Angola e M o ç a m b i q u e ver por todos René Pélissier, História das Campanhas de Angola. Resistências
e Revoltas,
1845-1961, 2 vols. Lisboa, Estampa, 1986; Idem, História de Moçambique.
Formação e oposição. 2 vols., Imprensa Universitária, n° 61 e 62,
Lisboa, Estampa, 1987-88.
49
Cf. Evaldo Cabral de Mello, Olinda Restaurada...,
p. 244 e ss; Citação de Felipe Bandeira de Melo a D. João IV, 19 de Maio de 1648,
A H U , Pco. III, cit por op.eit, p. 371. Ver t a m b é m Pedro Puntoni, A Mísera Sorte. A Escravidão do Africano no Brasil Holandês e as Guerras do
Tráfico no Atlântico Sul, ¡621-1648,
São Paulo, Editora HUC1TEC, 1999; Idem, A Guerra dos Bárbaros. Povos Indígenas e a Colonização
do
Sertão Nordeste do Brasil, 1650-1720, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2002, passim.
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Fazer a guerra nos trópicos: aprendizagens e apropriações: Estado