PEDRO HENRIQUE COSTA ANÁLISE DA MODIFICAÇÃO DOS ELEMENTOS DA PAISAGEM DO CURSO E DAS ADJACÊNCIAS DO CÓRREGO ÁGUA FRESCA LONDRINA 2009 PEDRO HENRIQUE COSTA ANÁLISE DA MODIFICAÇÃO DOS ELEMENTOS DA PAISAGEM DO CURSO E DAS ADJACÊNCIAS DO CÓRREGO ÁGUA FRESCA Trabalho de Conclusão de Curso ao Curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina, como requisito à obtenção do título de Bacharelado. Orientadora: Prof. Dra. Eloiza Cristiane Torres. LONDRINA 2009 PEDRO HENRIQUE COSTA ANÁLISE DA MODIFICAÇÃO DOS ELEMENTOS DA PAISAGEM DO CURSO E DAS ADJACÊNCIAS DO CÓRREGO ÁGUA FRESCA Trabalho de Conclusão de Curso ao Curso de Geografia da Universidade Estadual de Londrina, como requisito à obtenção do título de Bacharelado. COMISSÃO EXAMINADORA _______________________________ Profa. Dra. Eloiza Cristiane Torres _______________________________ Prof. Wladimir Cesar Fuscaldo _______________________________ Prof. Dr. Ângelo Spoladore Londrina, de dezembro de 2009. DEDICATÓRIA Dedico a Deus, a minha família e namorada. AGRADECIMENTOS Primeiramente gostaria de agradecer a Deus por tudo que me aconteceu nesses anos de estudo e por tornar possível a realização de um sonho. Agradeço também a toda minha família, que mesmo estando tão longe, sempre me apoiou nesta caminhada. Mãe (Marli) e pai (Alceu) obrigado pelo mais sincero carinho e dedicação, sei que esta conquista é tanto minha quanto de vocês. Não teria conseguido sem seus apoios morais e financeiros, vocês são os maiores responsáveis por esta conquista. Amo vocês! Apesar da distância, agradeço também a meu irmão (Caê) pelos conselhos dados e pelas críticas feitas durante todos estes anos. Você também tem parte desta vitória. Outra pessoa fundamental, que merece os mais fervorosos agradecimentos é minha namorada Mariana Martin. Foi você, “Vida”, a pessoa mais presente na minha vida durante estes anos. Sempre me ajudando, me dando carinho e me ensinando a ser uma pessoa melhor a cada dia, você é muito especial. Não posso deixar de agradecer meus companheiros de jornada, Leonardo (Flor), Marcel (Gordo), Nathália e Renan (Brow) que juntos vivemos os melhores e piores momentos destes anos. Obrigado pela paciência, colaboração e amizade, vocês foram importantíssimos para meu crescimento pessoal. Agradeço a minha mãezinha de coração, Márcia, que tanto me ajudou e fez por mim e também a amizade e companheirismo de João, Rafael, Guil, Ricardo (Pantoja), Glauco e Renan (Bonny), pessoas que sem dúvida fazem da minha vida um pouco mais feliz. E por fim agradeço a minha orientadora Eloiza Torres por todas as dúvidas sanadas, todos os emails respondidos e pela orientação realizada ao longo de três anos. COSTA, PEDRO HENRIQUE. Análise da Modificação dos Elementos da Paisagem do Curso e das Adjacências do Córrego Água Fresca. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso de Geografia (Bacharelado) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2009. RESUMO A presente monografia é resultado de vários trabalhos de campo realizados ao longo de três anos (2007 a 2009) na Micro Bacia do Córrego Água Fresca, situado na cidade de Londrina – PR. Muitas fotografias e observações resultaram das idas à campo, possibilitando assim, realizar uma análise da modificação ocorrida na paisagem ao longo do período mencionado. Para a viabilização dessa análise, resgataram-se as fotografias e as observações e utilizou-se do Geofotografismo. O presente trabalho também aborda teoricamente questões referentes aos recursos hídricos, paisagem e bacias hidrográficas, o que é fundamental para entender e analisar os processos que ocorreram com o córrego. Além disso, a caracterização física da Micro Bacia do Córrego Água Fresca também é fundamental para a realização deste trabalho, pois, a partir desta, podem-se compreender alguns dos processos que ocorreram e estão ocorrendo no local. Palavras-Chave: Córrego Água Fresca; Recursos Hídricos; Paisagem; Geofotografismo. ABSTRACT This monograph is the result of several field studies conducted over three years (2007 to 2009) in Micro Basin Creek Água Fresca, located in Londrina - PR. Many photos and observations resulted from visits to the field, allowing, with an examination of changes occurring in the landscape over the period. For the feasibility of this analysis, rescued the photographs and the observations and we used the Geofotografismo. This study also addresses theoretical issues relating to water resources, landscape and river basins, which is essential to understand and analyze the processes occurring at the stream. In addition, the physical characterization of Micro Basin Creek Água Fresca is also essential for carrying out this study because, from this, one can understand some of the processes that have occurred and are occurring at the site. Keywords: Resources. Creek Água Fresca; Landscape; Geofotografismo; Water SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................1 2 A PROBLEMÁTICA DA ÁGUA.............................................................4 2.1 Ciclo Hidrológico.....................................................................4 2.2 Disponibilidade Hídrica...........................................................6 2. 3 Aproveitamento Múltiplo dos Recursos Hídricos..................10 2. 4 Legislação Hídrica.................................................................13 2. 5 Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos – PROÁGUA .................................................................16 2. 6 Cobrança Pelo Uso da Água................................................17 3 BACIAS HIDROGRÁFICAS................................................................19 3. 1 Geomorfologia Fluvial...........................................................19 3. 2 Bacia Hidrográfica E Padrão De Drenagem.........................22 3. 3 Hierarquia Fluvial..................................................................26 4 CARACTERIZAÇÃO FÍSICA DO CÓRREGO ÁGUA FRESCA.........29 4. 1 Rede de Denagem...............................................................29 4. 2 Geologia...............................................................................31 4. 3 Solo......................................................................................32 4. 4 Clima....................................................................................34 4. 5 Vegetação............................................................................36 4. 6 Hipsometria..........................................................................38 4. 7. Declividade..........................................................................40 5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE PAISAGEM.........................42 5. 1 Paisagem na Arquitetura, Urbanismo e Artes......................42 5. 2 Paisagem na Geografia.......................................................43 5. 3 O Sistema GTP....................................................................46 5. 4 A Ecologia da Paisagem......................................................47 5. 5 As “Unidades de Paisagem”................................................47 6 GEOFOTOGRAFISMO.......................................................................54 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................72 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................74 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Mapa de localização da micro bacia do Córrego Água Fresca..1 Figura 2 Representação do Ciclo Hidrológico..........................................5 Figura 3 Disponibilidade de água no mundo............................................6 Figura 4 Consumo de água doce por setor no Brasil.............................12 Figura 5 Padrões de Drenagem.............................................................26 Figura 6 Carta Topográfica da Micro Bacia do Ribeirão Cambé............30 Figura 7 Tipos de solo da cidade de Londrina, segundo SiBCS............33 Figura 8 Classificação Climática do Paraná, segundo Köppen..............35 Figura 9 Vegetação Arbórea Água Fresca.............................................37 Figura 10 Santa Barbara........................................................................37 Figura 11 Vegetação de Fundo de Vale.................................................37 Figura 12: Eucalipto no Vale do Córrego...............................................38 Figura 13: Bambu no Vale do Córrego...................................................38 Figura 14 Mapa Hipsométrico da Micro Bacia do Ribeirão Cambé........39 Figura 15 Mapa de Declividade da Micro Bacia do Ribeirão Cambé.....40 Figura 16 Imagem de satélite do Córrego Água Fresca.........................49 Figura 17 Imagem de satélite, alto curso do córrego.............................50 Figura 18 Imagem de satélite, médio curso do córrego.........................51 Figura 19 Imagem de satélite, baixo curso do córrego..........................52 Figura 20 Localização das Imagens tiradas no Água Fresca................56 1 INTRODUÇÃO Este trabalho abordará questões referentes à modificação da paisagem do Córrego Água Fresca, situado em Londrina – PR. Este se localiza na área urbana da cidade, sofrendo diretamente com as ações da população. O Córrego Água Fresca, em seu percurso, passa por vários importantes bairros da cidade de Londrina, como: Centro, Jardim Quebec e Jardim Higienópolis. A população do local caracteriza-se por possuir, em sua maioria, alto e médio poder aquisitivo. O córrego é um importante afluente de primeira ordem do Lago Igapó II, que compõe a Micro Bacia do Ribeirão Cambé, que por sua vez é um afluente do Ribeirão Três Bocas, inserido na Bacia Hidrográfica do Rio Tibagi. A Figura 1 apresenta a localização da área do Córrego Água Fresca. Figura 1: Mapa de localização da micro bacia do Córrego Água Fresca Fonte: Adaptado e modificado a partir da folha topográfica SF 22-YDIII-4 – DSG/Ministério do Exército. Org.: ROSOLEM, Nathália Prado, 2008. 1 O objetivo deste trabalho é entender a modificação deste local no período de três anos, mais especificamente nos anos de 2007, 2008 e 2009, observando suas mudanças, seus problemas, incluindo as causas e algumas soluções. Para realizar este trabalho, foram utilizados como procedimentos metodológicos levantamentos teóricos – acerca dos recursos hídricos, bacias hidrográficas, concepções de paisagem, Geofotografismo – trabalhos de campo, além de colóquios com a orientadora. Desta forma, a presente monografia aborda, em seu primeiro capítulo, questões referentes à importância dos recursos hídricos, levando em consideração principalmente seus usos, além da chamada “crise das águas”, ou seja, o problema que esses recursos vêm enfrentando devido à disponibilidade, o desperdício e a poluição. No segundo capítulo, interessou-se em abordar a discussão sobre as bacias hidrográficas, visto que o presente objeto de estudo é um dos afluentes que compõe uma importante bacia da cidade de Londrina, a Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Já no terceiro capítulo, foi realizada a caracterização da área de estudo, ou seja, da Micro Bacia do Córrego Água Fresca, em que foram levados em conta aspectos como o relevo, solo, clima, rede de drenagem, declividade, além da análise de um mapa hipsométrico. O quarto capítulo perpassa pelas questões referentes à paisagem, seu histórico na Geografia, o sistema GTP (Geossistema, Território, Paisagem), além da ecologia; itens que são de fundamental importância para a realização da presente monografia. A importância de tal capítulo deve-se à análise da paisagem nos trabalhos de campo realizados, pois foi por intermédio deste que se pode adquirir um acervo fotográfico de estudo para assim poder observar a modificação desse local no período citado. Assim, o capítulo posterior, é a apresentação do material adquirido por intermédio dos trabalhos de campo realizados. Esses materiais são fotografias tiradas em períodos distintos durante os três anos da observação da modificação. 2 Para realizar tal apresentação das fotografias, foi utilizada a técnica do Geofotografismo, proposta por Passos (2006-2008), que consiste na análise aprofundada de cada imagem, levando em consideração vários aspectos que englobam a referida fotografia. Por fim, espera-se com este trabalho ter um apanhado geral da Micro Bacia do Córrego Água Fresca (caracterização física, acervo fotográfico, etc.), além do entendimento da importância de uma bacia hidrográfica presente em áreas urbanas, visando também um aprofundamento futuro deste estudo. 3 2 A PROBLEMÁTICA DA ÁGUA Para se falar de uma micro bacia é interessante tratar da mesma em um contexto regional, global, ressaltando as principais características no tocante aos recursos hídricos. Tendo em vista a importância da Micro Bacia do Córrego Água Fresca para o município de Londrina – PR, principalmente pelo fato desta estar localizada em uma área urbana, torna-se interessante abordar a problemática da água de modo geral, a fim de melhor entender este quadro. 2. 1 Ciclo Hidrológico A água é um recurso natural renovável. Sinteticamente o processo de renovação ocorre pela evaporação dos mares, lagos, rios e da superfície terrestre; este vapor d’água, suspenso na atmosfera e que sob determinadas condições meteorológicas condensa-se e forma gotículas de água, irá “retornar” à superfície terrestre através da precipitação, que pode ser na forma de chuva, granizo ou neve. Segundo Rebouças (1999), o vapor d’água que sobe à atmosfera, tanto dos oceanos como dos continentes, chega a um volume na ordem de 577.200 Km³/ano, sendo 503.000 km³/ano dos oceanos e o restante, 74.000 Km³/ano, dos continentes. Esse vapor d’água retorna à superfície terrestre em forma de chuva, neve ou granizo e atinge o volume de 458.000 Km³/ano nos oceanos e de 119.000 Km³/ano nos continentes. A diferença entre as quantidades de água que evaporam e caem nos domínios oceânicos (503.000 – 458.000 = 45.000 Km³/ano) representa a umidade que é transferida destes aos continentes. Por sua vez, a diferença entre o volume precipitado no contexto das terras emersas e é dele evaporado (119.000 – 74.000 = 44.800 Km³/ano) representa o excedente hídrico que se transforma em fluxo dos rios, alimenta a umidade do solo e os aqüíferos subterrâneos. (REBOUÇAS, 1999, p. 6, 7). Plantas, aqüíferos, e a superfície terrestre como um todo irão absorver essa precipitação e o ciclo tornará a acontecer sucessivamente, como pode ser 4 observado na Figura 2. Mas devemos ressaltar que este recurso renovável é influenciado por condições geográficas, climáticas e meteorológicas. Figura 2: Representação do Ciclo Hidrológico. Fonte: www.sg-guarani.org, acessado em: 15 mai 2008. Entre os fatores que contribuem para que haja uma grande variabilidade nas manifestações do ciclo hidrológico, nos diferentes pontos do globo terrestre, pode-se enumerar: a desuniformidade com que a energia solar atinge os diversos locais, o diferente comportamento térmico dos continentes em relação aos oceanos, a quantidade de vapor d’água, CO2 e ozônio na atmosfera, a variabilidade espacial de solos e coberturas vegetais, e a influência da rotação e inclinação do eixo terrestre na circulação atmosférica, sendo esta última a razão da existência das estações do ano. (TUCCI, 1993, p. 36). Entre esses fatores, alguns estão diretamente sendo influenciados pelo homem, ou seja, esta interferência pode prejudicar o ciclo hidrológico e, portanto, a água pode ser considerada um recurso finito. Assim, torna-se necessário realizar um controle da intervenção humana no ciclo hidrológico, por meio de um adequado planejamento e um estudo ambiental 2. 2 Disponibilidade Hídrica O planeta Terra tem 71% do seu espaço físico composto por água, sendo que este recurso corresponde a 97,5% de água salgada, distribuída entre mares e oceanos, 2,493% de água doce, de difícil acesso, distribuída 5 entre aqüíferos e geleiras, e 0,007% de água doce de fácil acesso para a utilização humana, distribuída em rios, lagos e na atmosfera, como pode ser observado na Figura 3. Figura 3: Disponibilidade de água no mundo. Fonte: http://e-atlantico.org/seccaoa/img/agua2.jpg, acessado em: 20 set 2009. Devemos ressaltar que o termo água, segundo Rebouças (1999), referese ao elemento natural sem qualquer utilização, já o termo recurso hídrico refere-se à água como bem econômico, havendo a utilização de tal recurso. Assim, nem toda água da Terra é um recurso hídrico, pois não necessariamente esta terá viabilidade econômica, mas entenda o termo “água”, tratado neste trabalho, como sendo passível de utilização humana. A água por ser de vital importância para o homem tem aumentado gradualmente seu uso. Sua retirada excessiva da natureza aumentou nove vezes desde 1950. Segundo a UNESCO (1999), em 1950, a reserva de água doce no mundo por pessoa era de 16,8 mil m³, passando para 7,3 mil m³ em 1998, com uma estimativa alarmante para 2018 de 4,8 mil m³ por pessoa. Esses números mostram que milhões de pessoas ficarão sem água nos próximos anos se nada for feito. A UNESCO (1999) estima que, em 2050, a população mundial seja de 8,9 bilhões de pessoas, sendo que quatro bilhões não terão acesso à água potável. 6 Para Rebouças (1999), temos ainda que ressaltar a má distribuição dos recursos hídricos, no caso, principalmente dos rios, tanto do ponto de vista das zonas climáticas, como por país. Segundo o autor, as zonas intertropicais úmidas e temperadas representam 98% da descarga dos rios do mundo. Já analisando essas descargas por país, temos uma desigualdade maior ainda, sendo que os nove países mais ricos em água doce do mundo (sendo o Brasil o primeiro da lista) representam mais de 60% desse total. Fazendo uma análise ainda da má distribuição dos recursos hídricos, Rebouças (1999) aponta o problema da distribuição per capita que, segundo ele, é a mais desigual. Alguns continentes que possuem grandes reservas de água sofrem com a escassez desta, como por exemplo a Ásia, a região com maior descarga de água doce do mundo, mas devido seu contingente populacional, esta sofre com a falta de água. Ainda podemos citar regiões com baixa descarga de água doce, mas que, devido sua baixa população, não sofre com a escassez, como é o caso da Oceania. Antigamente não se tinha uma elevada preocupação com a escassez dos recursos hídricos como vemos hoje, pois a preocupação estava no benefício gerado pelo recurso. Com o passar do tempo, houve um crescimento demográfico o qual acarretou uma maior exploração dos recursos naturais, incluindo a água, assim, a população passou a se preocupar mais com suas ações. O Brasil detém aproximadamente 8% da água utilizável do mundo, mas temos que levar em conta que cerca de 80% deste total nacional encontra-se na Amazônia, onde não temos uma população elevada, em torno de 7%, ou seja, os outros 20% do total de águas do Brasil são responsáveis por abastecer a maioria da população brasileira. Torna-se necessário o uso racional deste recurso, mesmo porque, muitos dos mananciais que há 20 anos eram responsáveis por abastecer determinada população sofreram, ou estão sofrendo, devastação pelo homem, o qual polui suas nascentes, desmata suas margens, resultando na escassez de água. 7 Um dos principais “inimigos” a ser combatido, segundo a ONU, para acabar com a escassez de água, principalmente em países que possuem muitas reservas como o Brasil e os Estados Unidos da América, é o desperdício. Nestes países, pela abundância de água, as pessoas utilizam esse recurso como se ele fosse inesgotável. Estudos mostram que o consumo poderia diminuir em um terço se os consumidores adotassem medidas simples de economia, como não deixar a torneira aberta para lavar um carro, para lavar a louça, para escovar os dentes, não demorar no banho, entre outras pequenas atitudes. Países que não possuem muitas reservas de água, como os países da Europa, adotam medidas para diminuir o desperdício, até as instalações hidráulicas são projetadas para diminuir os gastos; as válvulas de descargas são reguladas para utilizar menor quantidade de água possível. Os hábitos da população destes países também estão direcionados a um menor consumo, pois estes vivenciam o que é ficar sem água em determinadas épocas do ano. Outra questão que se torna importante em relação à disponibilidade hídrica é a qualidade da água, a qual, segundo Rebouças (1999), é muito variada, de acordo com seus ambientes de origem, circulação e local armazenado. Com isso, ela sofre influência dos fatores antrópicos, como formas de uso e ocupação do meio físico e das atividades socioeconômicas, o que torna necessária a distinção das características naturais e das causadas pela ação do homem. A classificação mundial com relação à característica natural classifica água doce como aquela que apresenta teor de sólidos totais dissolvidos (STD) inferior a 1.000 mg/l; água salobras aquelas com STD entre 1.000 e 10.000 mg/l; e água salgada com STD superior a 10.000 mg/l. Os três grandes usos, urbano, industrial e principalmente o agrícola, são os grandes responsáveis pelas alterações na qualidade das águas. Os corpos de água têm capacidade de diluir e assimilar esgotos e resíduos, mediante processos físicos, químicos, e biológicos, que proporcionam sua autodepuração, em ciclos de transformação de matéria em energia. Mas essa capacidade é 8 limitada, podendo ocorrer situações de contaminação e poluição, de difícil regressão, se a carga poluidora lançada for acima da tolerável. (BARTH e POMPEU, 1987, p.2). A água pode também servir como veículo para transmissão de doenças, principalmente nas zonas rurais dos países em desenvolvimento, que dependendo dos hábitos sanitários, do clima, da utilidade da água, terá uma maior ou menor incidência. Doenças como a leptospirose, as verminoses, o cólera, entre outras, são encontradas em águas poluídas. A ingestão de água potável é um dos mais importantes fatores para a conservação da saúde, prevenção de doenças e proteção do organismo contra o envelhecimento. Cerca de 10 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a doenças transmitidas por ela. As áreas contaminadas com essas doenças são locais carentes, principalmente, de saneamento básico. Segundo a ONU, 25 mil pessoas morrem todos os dias, na maioria crianças, devido a doenças causadas pela ingestão de água com qualidade inadequada para o consumo. Existem índices que “medem” a qualidade das águas e dos monitoramentos disso originam dados que podem ser referenciais para a geração dos índices, como por exemplo, temos o caso do Paraná, o qual utiliza o Índice de Qualidade das Águas – IQA, que foi desenvolvido pela National Sanitation Foundation dos Estados Unidos da América, uma espécie de atribuição de notas para isso, podendo variar de zero a cem, com indicadores entre ótima, boa, razoável, ruim e péssima. A água é considerada potável quando está dentro dos limites estabelecidos no Padrão de Potabilidade – que são características físicas organolépticas (as quais afetam o olfato e o paladar), químicas e bacteriológicas - e também quando estiver de acordo com as normas da legislação vigente - e é considerada contaminada quando tem suas características alteradas e os valores ultrapassem os limites estabelecidos nesse Padrão. Rebouças (1999), acerca da qualidade das águas para o consumo, levando em conta sua qualidade, ressalta: 9 Atualmente as populações dos grandes centros urbanos, industriais e áreas de desenvolvimento agrícola com uso intensivo de insumos químicos já se defrontam com o problema da escassez qualitativa de água para o consumo. Deve-se ressaltar, ainda, que se a escassez quantitativa de água constitui fator limitante ao desenvolvimento, a escassez qualitativa engendra problemas muitos mais sérios a saúde publica, à economia e ao ambiente em geral. (1999, p. 25). Assim, podemos verificar que a qualidade da água torna-se um agravante maior ou tão importante quanto a escassez quantitativa no abastecimento da população de centros urbanos. 2. 3 Aproveitamento Múltiplo dos Recursos Hídricos Segundo Barth e Pompeu (1987), a utilização da água para os diversos fins deve ter normas próprias que regularizem seu uso, e também são necessárias normas gerais que estabeleçam prioridades e regras para a solução dos conflitos entre usos e usuários. Os usos da água, para múltiplos fins são simultâneos e cumulativos em seus efeitos. Existem dois tipos de uso d’água que estão de acordo com o que é retirado do curso dela e o que volta a este. Temos assim, o uso consuntivo e o uso não consuntivo. a) Usos Consuntivos O uso consuntivo de água é aquele em que há “perda” entre o que sai e o que volta ao curso d’água natural. Entre eles temos o abastecimento urbano, abastecimento industrial e a irrigação. O abastecimento urbano refere-se ao abastecimento doméstico, comercial, público e industrial. É o uso da água para beber, higiene pessoal e residencial, entre outros. O aproveitamento hídrico urbano, salientado por Barth e Pompeu (1987), possui uma demanda de uso que é medida pelo número de população abastecível através de estudos demográficos e pela adoção de quotas per capita, que é calculada por condições sanitárias desejáveis e níveis de 10 desenvolvimento previsto. Esse consumo urbano aumenta na medida em que uma cidade cresce ou seu nível de vida aumenta. Em geral, os consumos específicos de água crescem com o melhoramento do nível de vida e com o desenvolvimento do núcleo urbano. Quanto maior o tamanho, maiores são as demandas industriais e comerciais de uma dada localidade. Outros fatores sociais, econômicos, climáticos e técnicos poderão influir nesses consumos específicos. (SETTI [et al.], 2001, p.45). A utilização urbana dos recursos hídricos tem como uns dos seus principais problemas a poluição e o desperdício. Esgoto residencial não tratado sendo despejado nos mananciais e rios sem os devidos tratamento, falta de instrução da população no simples ato de lavar um carro com uma mangueira, deixando-a aberta, demorar no banho com o chuveiro ligado, todos são atos de poluição e desperdício de água no meio urbano os quais podem ser controlados ou diminuídos. Segundo Rebouças (1999), este quadro é agravado principalmente pelo crescimento de favelas em áreas de alto risco ambiental, como em várzeas de rios, falta de coleta do lixo doméstico e industrial produzido, lançamento de esgoto não tratado nos corpos hídricos que são utilizados para o abastecimento e o desperdício da água disponível. No abastecimento industrial, a água é utilizada de diferentes modos, dependendo de fatores como o tipo de produção e tecnologia adotada. Para Tucci (1993), o uso da água pode ser participativo no processo industrial, não entrando em contato com o material, como por exemplo, a utilização da água para refrigeração pode ser ainda parte do produto fabricado, como por exemplo, nos produtos alimentícios, além da utilização poder ser para a higiene dos funcionários e limpeza de máquinas. A respeito da demanda de água nas indústrias, existem dois grupos: as indústrias altamente consumidoras, que na maioria das vezes possuem captações próprias de água, e as pequenas consumidoras, geralmente abastecidas por serviços públicos de água. No uso destinado à indústria, o problema está relacionado à poluição das águas oriunda dos efluentes lançados nos rios e lagos, contaminando a 11 água com metais pesados ou outras substâncias prejudiciais à saúde humana e a vida da biodiversidade. O lixo industrial muitas vezes é tratado, mas às vezes precisa ser tratado novamente, pois ainda podem ser encontradas partículas poluidoras, como as partículas patológicas. No mundo, o uso destinado à agricultura representa 70% do total, e no Brasil este número chega a atingir 81% do total utilizado. Isso ocorre, muitas vezes, pela irrigação inadequada do solo. Segundo a UNESCO (1999), existem tecnologias de irrigação que diminuem em até 70% o consumo de água na agricultura. Quando utilizada de forma incorreta, a irrigação pode afetar a qualidade do solo e dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos, principalmente devido à utilização de agrotóxicos, fertilizantes, corretivos, etc. A Figura 4 representa o consumo de água no mundo por setor, dividindo em consumo urbano, industrial e agrícola. Figura 4: Consumo de água doce por setor no Brasil. Fonte: www.uniagua.org.br, acessado em: 15 mai 2008. O maior consumo d’água é o destinado à irrigação e segundo Setti et al. (2003), “A irrigação de culturas agrícolas é uma prática utilizada de forma a complementar a necessidade de água, naturalmente promovida pela precipitação, proporcionando teor de umidade ao solo suficiente para o crescimento das plantas.” (p. 57). 12 b) Usos não consuntivos: Entre os usos não consuntivos, podem-se citar como exemplos o uso para a geração de energia elétrica, navegação, pesca, entre outros. A geração de energia elétrica é o principal uso não consuntivo, pois o ciclo hidrológico propicia, em determinados pontos, quedas e principalmente vazões que possibilitam o aproveitamento hidrelétrico destes cursos d’água através da construção de usinas hidrelétricas. Deve-se ressaltar que a construção de barragens, segundo Stipp (1999), causa desmatamento para a instalação de alojamentos e canteiros de obras, além da construção de estradas, terraplanagem, desvio do leito fluvial, entre outras consequências poderem acabar degradando uma grande área devido à construção dessas usinas hidrelétricas. A navegação fluvial é outro uso não consuntivo, servindo como uma hidrovia para circulação de mercadorias, o que se torna viável de acordo com o tamanho das embarcações. Em condições naturais, os rios são navegáveis apenas nos períodos de águas altas. Assim, a construção de barragens inviabiliza a circulação das embarcações, mas existem soluções que tornam a viabilizá-la, como é o caso da construção de eclusas (transposição de nível). A recreação, ou simplesmente a harmonia paisagística são usos importantes na promoção da qualidade de vida das pessoas. Os esportes náuticos, a pesca recreativa, ou mesmo contemplar a beleza das águas, são maneiras de buscar nelas a diversão e distração, sempre lembrando que o desenvolvimento dessas atividades está diretamente ligado à qualidade da água. A pesca é fonte de alimento para as populações, principalmente as ribeirinhas, este uso também está relacionado com a qualidade da água. 2. 4 Legislação hídrica Neste tópico serão abordadas as principais Leis, Resoluções e Decretos da legislação dos Recursos Hídricos no Brasil, explanando as principais características de cada uma, sem um maior aprofundamento em tal legislação. 13 A LEI Nº 9.433, DE 8 DE JANEIRO DE 1997, institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos. O objetivo desta política é, basicamente, assegurar que este recurso seja utilizado de forma racional e adequada para que gerações futuras possam utilizar do mesmo. Alguns dos instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos são: cobrança pelo uso da água, mostrando que ela possui real valor (dinheiro) e incentiva, assim, seu uso racional; o Sistema de Informação sobre Recursos Hídricos, levantamentos de dados sobre recursos hídricos; e os Planos de Recursos Hídricos, planos diretores que visam orientar e fundamentar essa Política Nacional de Recursos Hídricos, sendo elaborados por Bacia Hidrográfica, por Estado e para o País. Já a LEI Nº 9.984, DE 17 DE JULHO DE 2000, criou a Agência Nacional de Águas – ANA, que é integrante do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, e é responsável, em sua esfera de atribuições, pela implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Sua sede está localizada no Distrito Federal, podendo instalar unidades administrativas regionais. A ANA é responsável por algumas atividades dentro do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, como avaliar os instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos, fiscalizar o uso desses recursos, fazer estudos técnicos para saber os valores a serem cobrados pelo uso da água e implementar essa cobrança, planejar e promover ações destinadas a prevenir ou minimizar os efeitos de secas e inundações, entre outras tarefas. O DECRETO Nº 4.613, DE 11 DE MARÇO DE 2003, aponta que o Conselho Nacional de Recursos Hídricos, integrante da estrutura regimental do Ministério do Meio Ambiente, tem por competência: promover a articulação do planejamento de recursos hídricos com os planejamentos nacional, regionais, estaduais e dos setores usuários; analisar propostas de alteração da legislação pertinente a recursos hídricos e à Política Nacional de Recursos Hídricos; estabelecer critérios gerais para outorga de direito de uso de recursos hídricos e para a cobrança por seu uso; formular a Política Nacional de Recursos Hídricos nos termos da Lei no 9.433, de 8 de janeiro de 1997, e do art. 2º da 14 Lei no 9.984, de 17 de julho de 2000; autorizar a criação das Agências de Água, nos termos do parágrafo único do art. 42 e do art. 43 da Lei no 9.433, de 1997; entre outros. Outra lei que merece destaque é a LEI Nº 10.881, DE 9 DE JUNHO DE 2004, a qual dispõe sobre os contratos de gestão dos recursos hídricos no território da União entre a ANA e outras entidades de Agências de Águas. DECRETO Nº 3.692, DE 19 DE DEZEMBRO DE 2000: com este Decreto, a Agência Nacional de Águas – ANA, foi instalada. Tendo sua Estrutura Regimental e o Quadro Demonstrativo dos Cargos Comissionados e dos Cargos Comissionados Técnicos aprovados. Dentro da Estrutura Regimental da ANA, entre os pontos já citados na Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000, temos também a regulação e a fiscalização dela. Na questão da regulação, cabe à ANA garantir o adequado atendimento às necessidades e prioridades de uso dos recursos hídricos e regular a vazão mínima e a concentração máxima de poluentes na transição de corpos de água de domínio Estadual para Federal. Cabe também à ANA fiscalizar a utilização dos recursos hídricos mediante o acompanhamento, o controle e a apuração de irregularidades e infrações, orientando os usuários para não cometerem condutas irregulares. Esse órgão poderá também firmar contrato de gestão ou termo de parceria com as agências de água ou de bacia hidrográfica para execução dos serviços que lhe cabem. Já o DECRETO Nº 5.440, DE 4 DE MAIO DE 2005, estabelece definições e procedimentos sobre o controle de qualidade de sistemas de abastecimento público e também irá comunicar o consumidor sobre a qualidade da água para o consumo, conforme os padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Cabe aos responsáveis pelo sistema de abastecimento de água informar os usuários sobre os padrões desta água distribuída, de acordo com suas qualidades, características físicas, químicas e microbiológicas. Estas informações devem estar contidas nas contas mensais, no caso de ser através do sistema de abastecimento do local, já no caso da distribuição por prestadores de serviços, como dos carros-pipas, estes devem entregar as 15 informações necessárias aos usuários. As informações tanto da conta mensal como da entregue pelos prestadores de serviços devem ter linguagem clara, objetiva, a qual eduque os usuários e possa orientá-los em situações de risco à saúde. 2. 5 Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos PROÁGUA O Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos – PROÁGUA é um programa do Governo Brasileiro, que segundo a ANA, visa contribuir com a melhoria da qualidade de vida da população brasileira, principalmente nas regiões menos desenvolvidas do país, e também melhorar a infra-estrutura hídrica do Brasil, acarretando em uma melhor oferta tanto em termos de qualidade, quanto de quantidade dos recursos hídricos para os diversos usos. Especificamente o programa irá consolidar o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos, em que instrumentos de gestão serão utilizados e aprimorados para ampliar a eficácia do programa, através da elaboração de relatórios, projetos e estudos, e melhorar e/ou dar continuidade em obras de infra-estrutura hídrica. Todos os Estados brasileiros estão incluídos no PROÁGUA, através da gestão dos recursos hídricos, sendo que os Estados das regiões consideradas semi-áridas, Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, também terão as ações da infra-estrutura hídrica. Este Programa, segundo a ANA, terá recursos equivalentes a US$ 200 milhões e será financiado, em torno de 25%, pelo Banco Mundial, e o restante, em torno de 75%, pelos Estados e pela União. Sua origem é do PROÁGUA/semi-árido, que irá manter sua estrutura, dando ênfase na gestão e na construção e/ou melhoria das infra-estruturas hídricas, gerando um uso racional dos recursos hídricos. 16 2. 6 Cobrança pelo Uso da Água A cobrança pelo uso da água é um dos instrumentos de gestão dos recursos hídricos instituídos pela Lei 9433/97, que tem por objetivo estimular o uso racional deste recurso, e assim, também, arrecadar fundos e investir em projetos para preservar os mananciais das bacias. Esta cobrança deve-se principalmente ao fato de que a água, há muito tempo, deixou de ser um recurso inesgotável, quer seja por sua quantidade ou qualidade, e passou a ter valor econômico. Isto fez com que as autoridades buscassem maneiras para regular essa situação, assim, surgiu à cobrança pelo uso da água. A implementação desta cobrança, vem sendo utilizada desde 2001 no Brasil, através de ações desenvolvidas pela Agência Nacional de Águas – ANA, em conjunto com gestores estaduais e comitês de bacias. A ANA é responsável pela operacionalização da cobrança do uso da água dos recursos hídricos que pertencem a União, ou seja, cursos de água que atravessem mais de um Estado da federação. Conforme a Lei 10.881, de 2004, a ANA deve repassar integralmente os recursos arrecadados para Agência de Águas da Bacia, e cabe a esta cumprir as metas estabelecidas no contrato de gestão fixado junto a ANA. Atualmente a cobrança foi implementada em poucas bacias, são elas: Bacia do Rio Paraíba do Sul e nas Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A seguir será apresentado o exemplo de cobrança pelo uso da água no Comitê Piracicaba, Capivari, Jundiaí (PCJ) e no Comitê do Paranapanema. O Comitê das Bacias Hidrográficas dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí e o Comitê do Paranapanema foram criados para buscar a melhoria na quantidade e qualidade das águas destas bacias hidrográficas. O Comitê PCJ está cobrando pelo uso da água desde 2006 e é o segundo Comitê instituído no Brasil, o primeiro Comitê é responsável pela Bacia do Rio Paraíba do Sul. A cobrança é feita através dos usos que são constantes no cadastro da ANA, DAAE, CETESB, IGAM e FEAM, os usos que não estão no cadastro 17 destes órgãos são considerados ilegais e sujeitos as penalidades previstas em Lei. Os recursos financeiros arrecadados pela cobrança do uso da água são repassados para as entidades que ficaram responsáveis pelas ações delegatárias das Agências de Águas e são investidos, na própria região onde foram arrecadados, em obras, projetos e programas que estão previstos no Plano de Bacias aprovado pelos Comitês PCJ. Estes Planos são programas que consistem em ações para melhorar a qualidade e quantidade dos recursos hídricos, preservando, recuperando e conservando os mesmos. O Comitê do Paranapanema ainda não começou a cobrar pelo uso da água, mas está previsto que em 2010 os valores já estarão sendo cobrados e assim, como no Comitê PCJ, as áreas que são cadastradas nos órgãos responsáveis passaram a ser taxadas. Após observar o quadro geral dos recursos hídricos e mesmo a base do aparato legislativo, julga-se necessário entender e analisar a Micro Bacia do Córrego Água Fresca em toda sua morfologia. 18 3 BACIAS HIDROGRÁFICAS A utilização da unidade espacial representada pela bacia hidrográfica, no presente trabalho, deve-se principalmente por esta unidade permitir conhecer e analisar os processos e as características que nela acontecem em uma escala com muitos detalhes. Como ressaltado por Vitte E Guerra (2007): A bacia hidrográfica é conhecida como unidade espacial na Geografia Física desde o fim dos anos 60. Contudo, durante a última década ela foi, de fato, incorporada pelos profissionais não só da Geografia, mas da grande área chamada Ciências Ambientais, em seus estudos e projetos de pesquisa. Entendida como célula básica de análise ambiental, a bacia hidrográfica permite conhecer e avaliar seus diversos componentes e os processos e interações que nela ocorrem. A visão sistêmica e integrada do ambiente está implícita na adoção desta unidade fundamental (p. 153). O estudo de Bacias Hidrográficas é de fundamental importância para se compreender e analisar os processos e os agentes que formam e caracterizam o Córrego Água Fresca. Assim, julga-se necessário ter como referencial teórico aspectos da geomorfologia fluvial, dos padrões de drenagem e da hierarquia fluvial, utilizando como principal referencial os estudos de Antônio Christofoletti (1980). 3. 1 Geomorfologia Fluvial Existem diversas denominações para os cursos d’água, como por exemplo, córrego, ribeirão, riacho, rio, entre outras, as quais são atribuídas devido ao tamanho destes cursos, sendo que a denominação rio é aplicada ao curso d’água principal de uma bacia, ou seja, o que possui maior número de afluentes. Christofoletti (1980), com relação a tais denominações, ressalta que na “Geologia e Geomorfologia o termo rio aplica-se exclusivamente a qualquer fluxo canalizado e, por vezes, é empregado para referir-se a canais destituídos de água”. Tais denominações são: rios efêmeros (possuem fluxo de água após uma chuva), rios intermitentes (fluem em determinada época do ano e na outra secam) e rios perenes (fluem o ano todo). 19 Estes fluxos d’água de um determinado rio podem ser: laminar ou turbulento. É laminar quando este fluxo está escoando em um canal reto, suave, ou seja, sem perturbações no decorrer de seu leito, que é o caso do córrego de análise do presente trabalho (Córrego Água Fresca). Já o turbulento se dá quando a velocidade do rio, logo abaixo a sua superfície, atinge um ponto máximo, causando perturbações, movimentos contrários, que acabam deixando o fluxo desordenado. A velocidade do rio e sua turbulência estão diretamente relacionadas ao grau de erosão, ao transporte e a deposição dos detritos deste curso d’água. O transporte realizado pelos rios, segundo Christofoletti (1980), pode ser de três diferentes maneiras: solução, suspensão e saltação. A solução é o transporte dos constituintes das rochas que sofrem com o intemperismo (processo que provoca a alteração das rochas e de seus minerais, podendo ser intemperismo físico, químico e biológico) que estão dissolvidos na água dos rios. A quantidade de constituintes das rochas, ou seja, de matéria em solução, depende da contribuição do escoamento superficial e subterrâneo dos rios, sendo que está matéria é transportada na mesma velocidade da água e até onde ela chegar. A quantidade de matéria em solução depende, em grande parte, da contribuição relativa da água subterrânea e do escoamento superficial para o débito do rio, sofrendo variações na escala temporal e espacial. Para esses tipos de abastecimento, a composição química das águas dos rios é determinada por vários fatores, tais como o clima, a geologia, a topografia, a vegetação e o tempo gasto para o escoamento (superficial ou subterrâneo) atingir o canal. Além da fonte terrestre, também há contribuições provenientes da atmosfera. (CHRISTOFOLETTI, 1981, p. 21). Ainda segundo o mesmo autor, a suspensão é quando o rio transporta partículas de granulometria (dimensão das partículas sedimentares) reduzidas, como o silte e a argila. Estas são transportadas pelo fluxo turbulento dos rios, carregadas na mesma velocidade das águas até que a turbulência existente seja suficiente para manter as matérias em suspensão. Com isso, ocorrerá a precipitação destas no momento em que a turbulência for insuficiente para o transporte de tais partículas. 20 Já a saltação é o transporte de partículas com a granulometria maior, como a areia e o cascalho, sendo que estas matérias movem-se de modo mais lento que o fluxo d’água, pois elas rolam, deslizam ou saltam ao longo do leito dos rios devido ao fato do rio não conseguir transportar tais grãos na mesma velocidade de suas águas. No caso do Córrego Água Fresca, o transporte é realizado, no decorrer de seu curso, principalmente por solução e suspensão, ocasionalmente ocorrendo a saltação. Com relação à erosão fluvial, Christofoletti (1980) aponta que tal processo é realizado por meio da corrosão, corrasão e cavitação. O primeiro deles, a corrosão, é um processo químico que acontece devido à reação entre a água e as rochas da superfície. O segundo processo, a corrasão, é o desgaste das rochas pelo atrito mecânico, sendo que as partículas carregadas pela água acabam se chocando, ocorrendo o impacto entre elas, e conseqüentemente a erosão. Já o terceiro, a cavitação, segundo ressaltado por Christofoletti (1980), “(...) ocorre, somente sob condições de velocidades elevadas da água, quando as variações de pressão sobre as paredes do canal facilitam a fragmentação das rochas”. No caso do Córrego Água Fresca, o curso foi alterado e o processo erosivo que aconteceria nas bases e nas laterais ficou impedido de ocorrer pelo fato da canalização semi-aberta. A deposição dos detritos ocorre quando o rio perde sua força, sua capacidade fluvial, devido principalmente ao aumento do tamanho do detrito transportado pelo fluxo d’água; pela diminuição do volume do rio, que não consegue mais transportar as partículas e grãos; e pela redução da declividade do curso d’água, o que diminui a intensidade da velocidade do curso. Outra questão importante a ser ressaltada em relação aos cursos d’água são os tipos de leitos fluviais existentes, local por onde as águas dos rios escoarão, de acordo com a demanda deste. Christofoletti (1980) aponta a existência de quatro tipos de leitos: 1º) leito de vazante: responsável pelo escoamento das águas baixas, ou seja, é o leito em que o rio percorre quando este está baixo, acompanhando o talvegue (parte mais profunda do leito); 21 2º) leito menor: local com margens bem definidas, ocorre no decorrer do trecho local mais profundo e menos profundo, geralmente é o leito normal de um rio, ou seja, é quando ele está fazendo seu percurso sem alterações, como secas ou cheias; 3º) leito maior periódico ou sazonal: local onde ocorrem as cheias devido ao aumento do volume de água do rio, ocorrendo ao menos uma vez por ano; 4º) leito maior excepcional: local onde ocorrem as enchentes, ou seja, as cheias mais elevadas, ocorridas esporadicamente. O leito do Córrego Água Fresca, levando em consideração as enchentes, não chega a alarmar, pois mesmo se ele atingir o chamado leito maior excepcional não irá afetar a parte urbana da cidade, visto que o local no qual o mesmo se encontra possui ampla área gramada até chegar às ruas e avenidas que o cercam. 3. 2 Bacia Hidrográfica e Padrão de Drenagem As bacias hidrográficas, também conhecidas como bacias de drenagem, são assim denominadas devido ao conjunto de canais de escoamento que estas possuem. Christofoletti (1980) ressalta que: A drenagem fluvial é composta por um conjunto de canais de escoamento inter-relacionados que formam a bacia de drenagem, definida como a área drenada por um determinado rio ou por um sistema fluvial. A quantidade de água que atinge os cursos fluviais está na dependência do tamanho da área ocupada pela bacia, da precipitação total e de seu regime, e das perdas devido à evapotranspiração e à infiltração (p. 102). Essas bacias são classificas, de acordo com Christofoletti (1980), como exorreica, endorreica, arreica e criptorreica. Na drenagem exorreica, o prefixo “exo” significa fora, sendo assim, esta drenagem ocorre quando toda a água drenada pela bacia vai em direção ao mar ou oceano, saindo do continente de modo contínuo, ou seja, os rios correm em direção e desembocam nos mares e oceanos. Já na drenagem endorreica, o prefixo “endo” significa dentro, ou seja, toda a água drenada pela bacia fica dentro do continente, não escoando até os 22 mares e oceanos, desembocando principalmente em lagos ou dissipando-se nas areias dos desertos (dependendo do lugar). O Córrego Água Fresca desemboca no Lago Igapó II, que faz parte do Ribeirão Cambé e, conseqüentemente, da Micro Bacia do Ribeirão Cambe. Sendo assim, a classificação deste córrego é endorreica. Na drenagem arreica, o prefixo “a” significa não, ou seja, não existe direção certa no escoamento das águas, elas simplesmente desaparecem. Isso ocorre principalmente nos desertos, em que os rios “desaparecem” pelo fato da baixa ou nula precipitação existente e também pela intensa atividade das dunas, as quais migram constantemente de lugar. A drenagem criptorreica, assim como as demais, possui no prefixo da palavra um indicativo de sua característica, sendo que “cripto” significa escondido, oculto. Assim, o escoamento desta drenagem é subterrâneo, por isso escondido ou oculto. Além da classificação das bacias, os rios também possuem classificações próprias de acordo com escoamento de suas águas em relação à inclinação das camadas geológicas. A referida classificação foi feita, segundo Christofoletti (1980), por William Morris Davis e classifica os cursos d’água em: consequentes (curso de lineamento reto em direção às partes mais baixas); subsequentes (a direção do fluxo é controlada por uma estrutura rochosa, podendo ser uma falha geológica), obsequente (correm para as camadas mais baixas, mas no sentido inverso dos rios consequentes), ressequentes (correm no mesmo sentido dos rios consequentes, mas nascem num nível mais baixo) e insequentes (rios que correm de acordo com a morfologia do local, sendo as mais variadas direções). A partir da classificação das bacias de drenagem e dos rios, de acordo com o escoamento de suas águas e, no caso dos rios especificamente, considerando sua inclinação, pode-se analisar os padrões de drenagem, o que é ressaltado por Christofoletti (1980) do seguinte modo: Os padrões de drenagem referem-se ao arranjamento espacial dos cursos fluviais, que podem ser influenciados em sua atividade morfogenética pela natureza e disposição das camadas rochosas, pela resistência litológica variável, pelas diferenças de declividade e pela evolução geomorfológica da 23 região. Uma ou várias bacias de drenagem podem estar englobadas na caracterização de determinado padrão (p. 103). Os tipos de padrões de drenagem são diversos, variando de autor para autor, e o que irá diferenciar os estudos de um para o outro é o grau de complexidade de análise. No presente trabalho, serão apresentados os tipos básicos de padrões de drenagem, segundo Christofoletti (1980): drenagem dendrítica, drenagem em treliça, drenagem retangular, drenagem paralela, drenagem radial, drenagem anelar e drenagem desarranjada ou irregular. A drenagem dendrítica assemelha-se a uma árvore, pois a configuração do rio principal e dos afluentes desta bacia formam uma imagem que lembra uma árvore, em que o rio principal seria o tronco e os afluentes seriam os galhos, os ramos e as folhas desta analogia descrita. Os tributários da bacia que apresenta a drenagem dendrítica possuem confluências em ângulos agudos (maior que 0º e menor que 90º) das mais variadas graduações, nunca chegando ao ângulo reto (90º), a não ser devido a irregularidades de caráter principalmente tectônico. Este tipo de drenagem ocorre principalmente nas planícies de inundação. Na drenagem treliça tem-se vários rios principais, sendo que estes fluem em leitos retos e são paralelos entre si. Já os afluentes deste tipo de drenagem são transversais aos rios principais, sendo que a confluência, na maioria das vezes, ocorre com ângulos retos (90º). Essa drenagem é característica de regiões sedimentares em locais que sofreram processo de glaciação e em estruturas que possuam falhas geológicas. A drenagem retangular é parecida com a drenagem treliça, mas havendo uma mudança básica entre elas, que é o aspecto ortogonal (forma ângulos retos) tanto nos rios principais como nos afluentes, devido a alterações no curso das correntes fluviais do local, causada principalmente por falhas ou diáclases (fratura/ruptura que não produziu deslocamento dos dois lados da rocha, como na falha). Este tipo de padrão de drenagem ocorre em locais com as mesmas características que a drenagem treliça. A drenagem paralela é caracterizada por praticamente todos os seus cursos d’água, sendo os afluentes, estarem dispostos de modo paralelo, 24 escoando até o curso principal, com confluência em ângulos agudos. A drenagem paralela ocorre principalmente em regiões com declividade acentuada e locais com falhas paralelas. Na drenagem radial os cursos d’água encontram-se dispostos de uma maneira que a imagem formada por tal drenagem aproxime-se de um raio de uma roda, tendo como referencial um ponto central. Ocorre em diversos tipos de estruturas. Neste padrão duas configurações são importantes: a centrífuga, em que os cursos escoam a partir de um ponto mais elevado para as regiões mais baixas, como por exemplo, um cone vulcânico; e a centrípeta, cujos cursos d’água escoam para um ponto central, sendo das regiões mais elevadas, para as mais baixas, como por exemplo, uma depressão topográfica. Na drenagem anelar, como o próprio nome já revela, sua estrutura se assemelha a um anel, sendo que os cursos d’água deste padrão de drenagem escoam se assemelhando a uma árvore, diferindo da drenagem dendrítica pelo fato de ter a forma de um anel. Este tipo de drenagem ocorre tanto em estruturas frágeis como duras, sendo típica de áreas dômicas. Por fim, a drenagem desarranjada ou irregular é o tipo de padrão que foi desorganizado/modificado por algum aspecto natural ou antrópico, como por exemplo, o bloqueio do fluxo do curso d’água por algum desmoronamento ou erosão, modificando o escoamento dos rios da bacia de drenagem. Na Figura 5 pode-se observar a representação dos tipos de padrão de drenagem mencionados no presente trabalho. 25 Figura 5: Padrões de Drenagem. Fonte: www.dicionario.pro.br, acessado em: 10 dez 2009. Org.: COSTA, Pedro H. Para classificar o padrão de drenagem do Córrego Água Fresca, devese levar em conta que este é um afluente da Micro Bacia do Ribeirão Cambé, sendo assim, a classificação será realizada de acordo com esta micro bacia. A Micro Bacia do Ribeirão Cambé é classificada como drenagem mista, com predomínio da drenagem dendrítica no baixo curso e paralelizada no alto curso (local onde está localizado o Córrego Água Fresca). 3. 3 Hierarquia Fluvial A hierarquia fluvial é um processo que estabelece, segundo Christofoletti (1980), “a classificação de determinado curso de água (ou da área drenada que lhe pertence) no conjunto total da bacia hidrográfica na qual se encontra”. 26 A classificação apresentada foi realizada por alguns autores no decorrer do século XX, sendo que cada autor utilizou um determinado método de análise para realizar a classificação dos cursos d’água. No presente trabalho será abordada a classificação de Robert E. Horton (1945) e Arthur N. Strahler (1952). O primeiro autor a iniciar os estudos sobre hierarquia fluvial foi Horton, em 1945, fazendo a classificação dos cursos d’água, utilizando critérios de ordem, ou seja, canais de primeira ordem, segunda ordem, terceira ordem e assim por diante, sendo que esta ordem é determinada de acordo com o número de afluentes que o curso de água possui. Assim, Christofoletti (1980) ressalta que: os canais de primeira ordem são aqueles que não pussuem tributários; os canais de segunda ordem somente recebem tributários de primeira ordem; os de terceira ordem podem receber um ou mais tributários de segunda ordem, mas também podem receber afluentes de primeira ordem; os de quarta ordem recebem tributários de terceira ordem e, também, os de ordem inferior. E assim sucessivamente. Todavia, na ordenação proposta por Horton, o rio principal é consignado pelo mesmo número de ordem desde a sua nascente. (p. 106). Essa classificação realizada por Horton (1945) foi seguida por muitos pesquisadores, porém em 1952, o pesquisador Arthur N. Strahler propôs uma classificação um pouco diferente da realizada por Horton. Para Strahler (1952), os menores canais que não possuem tributários, são os classificados como de primeira ordem, desde sua nascente até sua confluência com outro canal. Já os canais de segunda ordem só aparecem quando há a confluência entre dois canais de primeira ordem, recebendo apenas tributários de primeira ordem. Assim como nos cursos de segunda ordem, os de terceira ordem só surgem quando há a confluência entre dois canais de segunda ordem, podendo receber afluentes tanto de primeira como de segunda ordem, e assim sucessivamente. A classificação proposta por Strahler (1952) difere da idéia de Horton (1945), de que o rio principal deve ter a mesma ordem em todo o seu curso. O 27 córrego água Fresca é um afluente, de primeira ordem do Ribeirão Cambé, na classificação de ambos os autores. Desta forma, apresentada a caracterização morfológica das bacias hidrográficas e da Micro Bacia do Córrego Água Fresca, o próximo capítulo abordará as características físicas da referida micro bacia. 28 4 CARACTERIZAÇÃO FÍSICA DO CÓRREGO ÁGUA FRESCA A fim de entender melhor as características físicas do Córrego Água Fresca, foi realizado um levantamento preliminar das mesmas, como rede de drenagem, geologia, declividade, clima, entre outras características que compõem o local. Para efetuar análises como da declividade, foram utilizados mapas que abordam toda a Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Isto se deve ao fato de que as análises de algumas características se tornam mais notórias quando esta é observada em uma escala maior. 4. 1 Rede de Denagem O curso d’água do Córrego Água Fresca é perene, apresentando fluxo laminar, devido o seu pequeno porte e profundidade. Realiza transporte em solução e em suspensão (por vezes em saltação). O processo erosivo ocorre por meio da corrosão e da corrasão. Esse Córrego possui drenagem endorreica, desembocando suas águas no Lago Igapó II, o qual faz parte do Ribeirão Cambé, sendo um dos afluentes da Micro Bacia do Ribeirão Cambé, uma micro bacia urbana, ou seja, toda a sua extensão territorial está situada dentro da cidade de Londrina – PR. Os grandes problemas das micro bacias urbanas são as erosões e as enchentes acentuadas, as quais ocorrem principalmente pela impermeabilização do solo devido as edificações e pavimentações. A água da chuva, impedida de infiltrar-se, escoa sobre a superfície pavimentada, seguindo diretamente para os canais fluviais, alimentando-os rapidamente e podendo causar – dependendo, entre vários fatores, da intensidade e duração das precipitações – enchentes de proporções alarmantes. A água, quando infiltra ou é interceptada pela cobertura vegetal (de onde pode, inclusive, ser evapotranspirada, retornando à atmosfera), leva um tempo comparativamente maior para atingir os cursos d’água, diminuindo os picos de cheia e os riscos de enchente. Contudo, há ainda a possibilidade de a água que escoa estar carregando sedimentos, caracterizando a erosão. A água que escoa por superfícies lisas (pavimentadas) ganha maior velocidade e, portanto, maior potencial erosivo. (VITTE E GUERRA, 2007, p. 173). 29 O Córrego Água Fresca não apresenta problemas relacionados a enchentes, devido ao seu tamanho e sua a distância em relação às ruas que o circundam. Já com relação ao processo erosivo o córrego em estudo apresenta sérios problemas. Nota-se no local, diversos pontos de erosão, causados pelo escoamento das águas para o córrego, que acabam carregando sedimentos do solo, caracterizando o processo erosivo. O mapa apresentado a seguir (Figura 6) mostra a topografia da Micro Bacia do Ribeirão Cambé. A utilização deste mapa no presente trabalho faz se necessária devido ao fato deste apresentar a delimitação e a drenagem dos cursos de acordo com os divisores d’água, ou seja, de acordo com as curvas de níveis. Além de que, a micro bacia do córrego Água Fresca é pequena e imaginou-se interessante apresentá-la no contexto maior da Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Figura 6: Carta Topográfica da Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Elaboração: ARAÚJO, Rafael Silva de, 2004. Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. 30 A utilização de um mapa que contemple toda a região da bacia, a qual o córrego faz parte, se justifica pelo fato de que a observação apenas da área em que este se encontra não permite a percepção total das diferenças de topografia da região. 4. 2 Geologia Geologia é a ciência que estuda a Terra, tendo como um de seus focos as rochas, levando em consideração principalmente sua estrutura e composição. Esta ciência estuda como as rochas estão distribuídas no espaço, a articulação entre elas, ou seja, a formação dos corpos rochosos, a composição mineralógica, a gênese, além de ressaltar o intemperismo e a erosão ocorridos no decorrer do tempo. A importância da análise geológica a respeito da área de estudo do presente trabalho faz-se necessária pelo fato de que é sobre estas estruturas que os outros aspectos naturais têm agido e modelado a paisagem. De acordo com Maack (2001), a área que compreende o objeto de estudo do presente trabalho situa-se no Terceiro Planalto. A geologia da área em estudo é composta pela Formação Serra Geral, pertencendo ao grupo São Bento, formada na Era Mesozóica (Triássico e Cretáceo, 120 milhões de anos atrás), a qual pertence à Bacia do Paraná, esta abrangendo toda a região centro-sul do Brasil estendendo-se até as fronteiras com Argentina, Paraguai e Uruguai. Esta formação tem característica de regiões magmáticas que sofreram derramamento, sendo constituída principalmente por basalto, sendo esta uma das rochas mais abundantes na crosta terrestre. O basalto é uma rocha ígnea vulcânica, formado basicamente por plagioclásio cálcico (grupo do feldspato) e piroxênios, apresentando uma textura de granulometria fina. Sua composição apresenta teores variados de Cálcio (Ca), Ferro (Fe), Magnésio (Mg) e Potássio (K). A constituição geológica do Terceiro Planalto é relativamente simples. Sobre os horizontes coloridos da formação Esperança 31 e as camadas vermelhas, areno-argilosas do grupo Rio do Rasto, constituintes do pedestal da Serra da Boa Esperança, ou da escarpa triássico-jurássica respectivamente, começa, em toda a sua extensão, com uma discordância de erosão, o arenito terrestre Botucatu da série São Bento com paredões e alguns degraus, protegidos por lençóis de rochas básicas, diabásios, diabásio-porfiritos, meláfiros amidalóides ou também andesitos augíticos. (MAACK, 2001). A característica desta unidade lito-estratigráfica, de ser formada por processos vulcânicos, não ocorreu com a presença dos cones vulcânicos, ou seja, com a estrutura cônica resultante da acumulação dos materiais expelidos pelas erupções, mas sim devido a fraturas ou fissuras das rochas presentes no local por onde o magma conseguiu chegar até a superfície. 4. 3 Solo Solo é a camada que cobre a superfície terrestre, sendo a camada mais superficial da crosta. Sua composição varia de acordo com o local onde este foi formado. O solo é composto por água, matéria orgânica, gases e diferentes tipos de minerais, que são oriundos da geologia do local, ou seja, sua composição está diretamente relacionada com o tipo de formação geológica. O solo da área de estudo do presente trabalho é de origem basáltica, como explanado anteriormente sobre o aspecto geológico da micro Bacia do Córrego Água Fresca, este dando origem a um solo vermelho e muito fértil, conhecido popularmente como “Terra Roxa”. Segundo o novo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos – SiBCS, criado pela EMBRAPA em 1999, a antiga denominação para o solo encontrado em Londrina, conhecido popularmente como “Terra Roxa”, foi modificada, dando lugar para três diferentes denominações ou tipos de solo: o Nitossolo, o Latossolo e o Neossolo. O mapa do Atlas Ambiental da cidade de Londrina – PR, apresentado a seguir, mostra os tipos de solos que substituíram o chamado “Terra Roxa”, segundo o novo SiBCS . 32 Figura 7: Tipos de solo da cidade de Londrina, segundo SiBCS. Fonte: Atlas Ambiental de Londrina 2008, (http://www.uel.br/revistas/ atlasambiental/NATURAL/TiposdeSolos.jpg). Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. O tipo de solo da área de estudo do presente trabalho é o NITOSSOLO VERMELHO Eutroférrico. A denominação Nitossolo, segundo o Atlas Ambiental de Londrina (2008), é devido ao aspecto lustroso, reluzente, que o solo de “Terra Roxa” apresenta. Já a denominação Vermelho Eutroférrico é devido à grande presença de ferro no solo do local e da cidade de Londrina, sendo que tal mineral é o responsável pela coloração avermelhada deste. Os NITOSSOLOS tendo como material paterno o Basalto e Diabásio apresentam na sua constituição mineralógica: Piroxênios, Feldspatos Calco-Sódicos, Plagioclásio, Labradorita, Magnetita, Hematita e acessórios como Titânio e Manganês. (TAGIMA e TERABE, 2005, p. 39). 33 Com relação aos horizontes deste tipo de solo, Tagima e Terabe (2005) ressaltam que o horizonte A é pouco profundo (20 a 35 cm) com textura argilosa e estrutura granular pequena. Já o horizonte B, e suas sub-divisões B21, B22 e B23 apresenta textura argilosa com estrutura forte, media e grande, apresentando também efervescência em contato com água oxigenada e atração forte por imã. 4. 4 Clima O clima é um dos elementos de fundamental importância para entender a ocorrência de vida em uma determinada região. Com o auxílio deste, pode-se desvendar a existência de espécies vegetais e animais no local de estudo. Deve-se ressaltar a importância também de outros elementos para entender e desvendar a ocorrência de vida, como por exemplo, o relevo. Para melhor classificar os climas, diversos estudiosos propuseram os chamados “sistemas de classificações climáticas” que, de acordo com o autor, abordam características diversificadas de classificação. Os sistemas de classificações climáticas (SCC) são de grande importância, pois, analisam e definem os climas das diferentes regiões levando em consideração vários elementos climáticos ao mesmo tempo, facilitando a troca de informações e análises posteriores para diferentes objetivos. (ROLIM, 2007, p. 712). A caracterização do clima desta área de estudo será realizada de acordo com a proposta de classificação de Köppen (1900), segundo o Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR. Ela os divide em cinco grandes grupos, alguns tipos e subtipos. Cada clima possui um conjunto variável de letras com dois ou três caracteres, representando cada uma dessas letras alguma característica do clima. Assim, a primeira letra de cada classificação é maiúscula e representa os cinco grandes grupos climáticos que existem no mundo, as letras que representam tal grupo são “A”, “B”, “C”, “D” e “E”, sendo os climas respctivamente Tropical, Árido, Temperado (ou Temperado Quente), Continental (ou Temperado Frio) e Glacial. 34 A segunda letra é minúscula e representa o tipo de clima dentro dos cinco “grandes grupos”, estabelecendo a quantidade e distribuição da precipitação deste tipo climático, ou seja, revela a umidade de cada clima. Deve-se ressaltar que, se a primeira letra for “B” ou “E”, a segunda também será maiúscula e representará a precipitação total anual do tipo climático. Já a terceira letra também é minúscula e representa a temperatura média mensal ou temperatura média anual (dependendo da classificação na segunda letra) de cada tipo climático. Deste modo, de acordo com a classificação citada, o tipo de clima da área de estudo é o Cfa, em que o grupo climático é o temperado (“C”), sendo úmido, com chuvas distribuídas durante o ano inteiro (“f”) e possuindo a característica de verão quente (“a”). Figura 8: Classificação Climática do Paraná, segundo Köppen. Fonte: IAPAR, 2009. Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. De acordo com o IAPAR, a média da temperatura anual na cidade de Londrina, no período de 1976 a 2004, é de 21 ºC, sendo que a média da 35 temperatura no trimestre mais frio (junho, julho e agosto) varia de 16 ºC a 17 ºC e no trimestre mais quente (dezembro, janeiro e fevereiro) a temperatura varia de 27 ºC a 28 ºC. Com relação à precipitação, o Instituto revela que a média anual da cidade de Londrina, no mesmo período (1976 a 2004) varia entre 1400 a 1600 mm por ano. O trimestre mais chuvoso, que compreende os meses da estação do verão (dezembro, janeiro e fevereiro), representa uma precipitação entre 500 a 600 mm, já o trimestre mais seco, que compreende os meses da estação de inverno (junho, julho e agosto), representa uma precipitação entre 200 e 225 mm. 4. 5 Vegetação A vegetação está diretamente relacionada com o clima e com o solo, ou seja, de acordo com os aspectos climáticos e do solo é que se tem a vegetação nativa. Lembrando que é muito comum, hoje, a existência de espécies exóticas em todos os tipos de vegetação. O predomínio da vegetação na cidade de Londrina, de acordo com o clima, era a Floresta Estacional Semidecidual (duas estações climáticas, perdendo folhas na estação seca), mas segundo Barros et. al. (2008) pouco resta desta vegetação, salvo algumas Unidades de Conservação. O objeto de estudo do presente trabalho foi a primeira fonte de abastecimento da cidade de Londrina, fato que ocasionou uma grande perda da Floresta Estacional Semiecidual do local. Atualmente, a vegetação da Micro Bacia do Córrego Água Fresca tem o predomínio de espécies arbóreas (Figura 10), como a Santa Barbara (Melia azedarach L.) (Figura 11), e herbáceas, como as gramíneas. 36 Figura 9: Vegetação Arbórea Água Fresca. Fonte: COSTA, Pedro H. Figura 10: Santa Barbara Fonte: COSTA, Pedro H. Podem ser observados também diversos tipos de árvores frutíferas no local, como o abacate, a pitanga, entre outras espécies. No mapa a seguir (Figura 12) são apresentados os tipos de vegetação da cidade de Londrina – PR, indicando, como já ressaltado, que o objeto de estudo do presente trabalho possui predominância de vegetação arbórea. Figura 11: Vegetação de Fundo de Vale. Fonte: Atlas Ambiental da Londrina 2008, (http://www.uel.br/ revistas/atlasambiental/ NATURAL/FundosdeVale.jpg). Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. 37 Como ressaltado, algumas espécies vegetais que fazem parte da paisagem do local não são nativas, um dos exemplos muito presente na Micro Bacia do Córrego Água Fresca são os eucaliptos (Eucaliptus spp) (Figura 13) e os bambus (Dendracalamus giganteus) (Figura 14). Figura 12: Eucalipto no Vale do Córrego. Fonte: COSTA, Pedro H. Figura 13: Bambu no Vale do Córrego. Fonte: COSTA, Pedro H. O eucalipto foi plantado no local para substituir árvores nativas extraídas com intuito de construir casas populares no final de década de 70 e início de 80 (gestão de Antonio Casemiro Belinati). Já os bambus foram plantados no local para conter o processo erosivo, visto que as raízes do bambu formam um forte emaranhado e conseguem segurar os solos, evitando a erosão. 4. 6 Hipsometria A hipsometria é a técnica cartográfica da medição e representação do relevo. Uma técnica cartográfica utilizada para representar a altitude ou elevação do terreno por meio de variação de cores. Tal técnica utiliza-se de um sistema de graduação de cores que convencionalmente utiliza o verde para representar as altitudes mais baixas, passando por tons de amarelo e marrom, chegando ao cinza em altitudes mais elevadas. Esta técnica hipsométrica possibilita visualizar o relevo da área de estudo, fato que é de fundamental importância para analisar outros aspectos 38 naturais do local, como por exemplo, a deslocação dos ventos, ou ainda, analisar a interferência que o relevo tem no processo erosivo. No presente trabalho, o mapa hipsométrico utilizado (Figura 15) aborda toda a Micro Bacia do Ribeirão Cambé, visto que, a análise altimétrica apenas do Córrego Água Fresca não dá a dimensão desejada de diferença de altitude entre regiões por se tratar de uma área reduzida sem grandes modificações no mapa hipsométrico. Figura 14: Mapa Hipsométrico da Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Elaboração: ARAÚJO, Rafael Silva de, 2004. Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. A análise do mapa hipsométrico revela que a área em que está situado o Córrego Água Fresca é uma das regiões com maior elevação apresentada, sendo menor somente do que a região da cabeceira da bacia, tendo o predomínio do indicador entre 530 e 560 metros de elevação. 39 4. 7 Declividade Declividade é a inclinação de um terreno, ou seja, o grau de inclinação em relação à linha do horizonte, sendo considerada do ponto mais alto em relação ao ponto mais baixo deste terreno. Assim, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, “declividade é a relação entre a diferença de altura entre dois pontos e a distância horizontal entre esses pontos” (IBGE, 2009). O grau de inclinação de um terreno, ou melhor, sua variação, irá determinar as formas e as feições da paisagem, tendo relação também com os potenciais de aproveitamento ou não das terras (plantações, moradias, etc.). O mapa de declividade apresentado (Figura 16) aborda toda a Micro Bacia do Ribeirão Cambé. A análise panorâmica dessa região, e não apenas do Córrego Água Fresca, revela que a área em questão tem o predomínio de relevo plano devido ao maior índice de declividades baixas, de 0 a 6%. Figura 15: Mapa de Declividade da Micro Bacia do Ribeirão Cambé. Elaboração: ARAÚJO, Rafael Silva de, 2004. Adaptação: COSTA, Pedro Henrique, 2009. 40 A importância do estudo da declividade de um terreno está diretamente relacionada ao grau de erosão de uma área, pois, segundo Vitte e Guerra (2007), a declividade é um dos fatores que interferem sobre o processo erosivo de um determinado local, sendo o principal fator do relevo que condiciona tal processo. Com este mapa de declividade (Figura 16) e com os trabalhos de campo realizados, pode-se constatar que o escoamento superficial no córrego é lento, sendo que a erosão hídrica pode ser controlada por práticas simples, como por exemplo, a técnica vegetativa que se trata do plantio de gramíneas de rápido crescimento nas áreas afetadas, como demonstrado nas imagens 15 e 16 do presente trabalho. Ao realizar a caracterização física da Micro Bacia do Córrego Água Fresca, pode-se observar, por intermédio dos trabalhos e campo e levantamentos bibliográficos, mudanças recentes na paisagem, mostrando vários ciclos de transformações. Assim, julgou-se viável realizar um resgate de como a micro bacia referida, e conseqüentemente a paisagem reagiu a estas transformações. 41 5 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE PAISAGEM Paisagem é uma palavra derivada do latim (pagus), em que seu significado é país, aproximando-se do sentido de lugar, território. Os elementos que constituem a paisagem, tanto os naturais como os construídos pelo homem serviram, desde a pré-história, enquanto um referencial espacial (localização) ou mesmo como um objeto de observação. O termo paisagem, muito utilizado atualmente, possui significados diferenciados de acordo com a área do conhecimento que este está sendo empregado. Para o senso comum, ou mesmo para áreas do conhecimento como a arquitetura, urbanismo e artes, a paisagem é aquilo que se pode ver e observar, ou seja, é “o ponto visível” de algum lugar. Já para a área das ciências, a paisagem possui relações, as vezes ocultas, na qual ocorre a interação entre o conjunto dos elementos que a compõem, como o relevo, os rios, a vegetação, o homem, etc. 5. 1 Paisagem na Arquitetura, Urbanismo e Artes Na arquitetura, a paisagem está diretamente vinculada à observação, isto é, à presença visível dos diversos componentes em um determinado lugar. Para este ramo do conhecimento a paisagem é um elemento a ser construído, seja pelas construções ou mesmo pelo paisagismo. O paisagismo, que é a arte de tornar um ambiente, uma paisagem, em um local prazeroso aos olhos, é praticado desde o século VIII e sofreu ao longo do tempo algumas alterações. Hoje o paisagismo visa promover não somente os projetos, mas também a gestão dos espaços livres, melhorando além da estética da paisagem, sua funcionalidade. As migrações das civilizações da aridez, - entre os séculos VIII e XV – desde os jardins da Índia de um lado, e a aqueles do Maghreb de outro, até os jardins mourescos da Espanha: Granada, Cardiz e Toledo, desenvolveram a fórmula, regra geral utilitária e estética, fundada sobre a escolha e a valorização dos elementos benéficos de um meio ambiente freqüentemente hostil. (PASSOS, 1999, p. 29). 42 O urbanismo que surgiu no final do século XIX na Europa, também trabalha com a paisagem, que assim como a arquitetura não possui caráter de interação entre os elementos. O diferencial do urbanismo é a preocupação com a paisagem exclusivamente urbana, buscando as melhores condições para agir, planejar e gerir este espaço. Um exemplo da atuação do urbanismo são os projetos para desafogar o trânsito em grandes cidades, buscando melhorar a paisagem, seja funcionalmente e/ou visualmente. Com as artes, segundo Torres (2003), a paisagem relaciona-se desde o século XV, principalmente com a pintura, ou seja, a arte pictórica. Esta não sendo apenas uma descrição da paisagem observada, mas também a subjetividade por trás desta. 5. 2 Paisagem na Geografia Na Geografia, o conceito de paisagem surge a partir do século XV, no renascimento, período em que o homem começa a descobrir e adquirir técnicas para se apropriar e mesmo transformar essa paisagem. Autores como Alexander Von Humboldt, com a obra “Cosmos”, Carl Ritter, com a obra “Geografia Comparada” e Friedrich Ratzel, com a obra “Antropogeografia”, contribuíram muito no início da discussão sobre paisagem na Geografia (SCHIER, 2003). O primeiro a estudar a paisagem foi Alexander Von Humboldt, através de suas observações associou elementos da natureza e da ação humana. Carl Ritter organizou o conhecimento sobre determinados países e regiões, se dedicando as descrições e análises regionais, visto que este autor deu continuidade ao trabalho de Humboldt. Já Friedrich Ratzel analisou a dialética entre os elementos fixos da paisagem (solo, rio, etc.) e os elementos móveis (humanos). A discussão sobre “paisagem”, na Geografia, começa a ter maior relevância no século XIX, principalmente para se compreender as relações sociais e naturais de um determinado lugar. O termo possui diversas interpretações dentro da ciência geográfica, dependendo da abordagem utilizada. 43 A discussão da paisagem é um tema antigo na geografia. Desde o século XIX, a paisagem vem sendo discutida para se entenderem as relações sociais e naturais em um determinado espaço. Dentro da geografia, a interpretação do que é uma paisagem diverge dentro das múltiplas abordagens geográficas. Observa-se que existem certas tendências “nacionais” mostrando que o entendimento do conceito depende, em muito, das influências culturais e discursivas entre os geógrafos. (SCHIER, 2003, p. 80). Inicialmente o termo “paisagem” esteve ligado ao positivismo, sendo que na Alemanha, segundo Schier (2003), se focalizavam os fatores geográficos agrupados em unidades espaciais e na França o caráter processual era o mais importante, mas em ambas a paisagem era vista como uma face material do mundo, em cujo se imprimiam as atividades humanas. Posteriormente, a abordagem neopositivista deu enfoque ao termo “região” e ao processo de abstração da realidade física, isso devido a sua metodologia quantitativa. A abordagem marxista, segundo Schier (2003), “pouco interessada na geograficidade da paisagem, identificou-se com o termo região, o qual define como um produto territorial da ação entre capital e trabalho”. A partir da década de 60 o termo “paisagem” foi substituído pelo termo “região” nos circuitos geográficos, isso principalmente devido a estudos realizados por Hartshorne. Na França, iniciada com Vidal de La Blache, a descrição da paisagem, a familiaridade com mapas, com as fotografias e as pesquisas/estudos pessoais foram fundamentais para a formação da Escola Francesa de Geografia. Para Bertrand (2007), o início dos estudos de paisagem na França, se assemelham a mutação paisagística do inicio do século XX. Ressaltando que os primeiros a estudar a paisagem na França, do ponto de vista que as ciências, como a Geografia, a analisam atualmente foram G. Bertrand (biogeografia) e J. Tricart (geomorfologia). Na abordagem vidaliana, o estudo da paisagem repousa sobre um quadro rigoroso à base de análises históricas, de referencias geológicas e climáticas, de pesquisas pessoais sobre os relevos, enfim, sobre pesquisas e cálculos estatísticos. A fotografia e sobretudo a familiaridade com os mapas e com a cartografia multiplicaram as referências à paisagem e diversificam as escalas de percepção e os ângulos de visão. Trata-se pois, de uma descrição enriquecida, quase 44 de uma descrição pseudo-paisagística. É um monumental quadro geográfico, homogêneo, exaustivo, rico de observações e de uma excessiva apresentação literária. A descrição das regiões geográficas sustentava-se, sobretudo, na aparência das coisas, deixando na sombra as infraestruturas e seus funcionamentos. Esse painel fez durante mais de cinqüenta anos, o renome da escola geográfica francesa. (PASSOS, 1999, p. 52). Atualmente a idéia de paisagem merece destaque devido a avaliação ambiental e estética da mesma, sendo esta formada/construída pela cultura das pessoas que nela realizam suas atividades. A transformação da paisagem pelo homem, devido a cultura da população, representa um dos principais elementos da formação da paisagem. Com relação a análise da paisagem, Bertrand (2007) propõe o que ele chamou de “quadratura da paisagem”. Para o autor o estudo/análise da paisagem deve abranger: os locais paisagísticos (árvore, montanha, etc.), os atores da paisagem (com sua memória patrimonial), os projetos de paisagem (empreendedores, etc.) e os tempos da paisagem (tempo histórico – sociedade e natureza – com o tempo cronológico). A partir desta “quadratura” obtém-se um “modelo de interpretação da paisagem”, formado por dois subsistemas: o cultural – percepções e representações paisagísticas que permitem evidenciar as relações sociais que ocorrem em torno da paisagem; e o material – análise dos objetos da paisagem com suas características, organização e funcionamento. Assim, existem dois tipos de paisagem, a natural e a cultural. A primeira delas é a combinação dos elementos da natureza, como vegetação, solo, rios, lagos, etc., sem a intervenção do homem. Já a segunda, é a modificação desta “paisagem natural” pelo homem. a paisagem não existe como tal, no terreno. Ela é uma criação, ou mais exatamente uma recriação permanente cada vez que um ser pensante, dotado de sensibilidade e de memória, rico de sua cultura e dos valores que lhe são associados, olha um objeto material, flor ou construção, lixo público ou circo de Gavarnie (...) a paisagem é, então, por essência, um produto, ou mais exatamente, um processo de interface, ao mesmo tempo sujeito e objeto, natural e cultural, individual e social. (BERTRAND, 2007, p. 250). 45 Para Bertrand (2007) a combinação dos elementos físicos, biológicos e antrópicos fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, sendo esta homogênea, sem privilegiar um ou outro elemento que a constitui. 5. 3 O sistema GTP Bertrand, a partir de 1990, propôs o sistema GTP, em que associa Geossitema (fonte-source) ao Território (recurso-ressource) e à paisagem (identidade-ressourcement). A função central deste sistema é realizar a pesquisa ambiental em várias dimensões, tanto no tempo como no espaço, para Bertrand (2007), a respeito do GTP, “Sua vocação primeira é favorecer uma reflexão epistemológica e conceitual e, na medida do possível, desencadear proposições metodológicas concretas.”. O sistema GTP surgiu devido ao déficit metodológico nos estudos da paisagem. Estudo que durante muito tempo teve profissionais que não são ligados ao mundo cientifico, tentando excluir a paisagem de toda a análise, ressaltando principalmente os arquitetos e artistas, que buscam nesta imaginação e criatividade para desenvolverem seus trabalhos. Esse sistema, segundo a idéia de Bertrand (2007), propõe 3 coordenadas interdependentes (GTP) para o estudo da paisagem, buscando assim a interação entre estes elementos para obter uma análise do ambiente geográfico em sua globalidade. Seguindo esta mesma vertente, AB’SÁBER (2003) ressalta a importância da herança no estudo da paisagem. O autor explana que a paisagem na realidade “(...) é uma herança em todo o sentido da palavra: herança de processos fisiográficos e biológicos, e patrimônio coletivo dos povos que historicamente as herdaram como território de atuação de suas comunidades” (p. 9). Sendo assim, a paisagem revela a associação/combinação de elementos físicos, biológicos e antrópicos que durante o passar dos anos vão se acumulando ou se transformando, por meio da herança adquirida pela mesma. 46 5. 4 A Ecologia da Paisagem O termo “ecologia da paisagem” foi inicialmente utilizado em 1939 por Troll, mas que ganhou força a partir da década de 80, com a Escola Ecológica dos EUA. Segundo Torres (2003), com respaldo em Burel e Baudry (2000), a ecologia da paisagem possui grande preocupação com as ações antrópicas na paisagem e as relações homem-meio, levando em consideração o aspecto temporal e espacial, sendo que sua contribuição maior é a identificação dos elementos, através das unidades ecológicas e espaciais, que formam o mosaico do território estudado, assim ressaltando a importância da heterogeneidade existente na organização espacial. Deve-se ressaltar a importância do tempo no estudo da ecologia da paisagem, visto que este fator é de suma importância na análise dos fatos ecológicos e dos processos evolutivos da paisagem, como por exemplo, é por meio deste fator que se pode descobrir se a condição ambiental existente atualmente é reflexo de condições ambientais passadas. Para Torres (2003) “A intenção de utilizar a ecologia da paisagem é de integrar o objeto de estudo (paisagem), seus determinantes (meio e sociedade) e seus efeitos sob os processos ecológicos estudados”. Assim é necessário que a ecologia da paisagem possua um caráter multidisciplinar para desvendar a grande heterogeneidade existente. 5. 5 As “Unidades de Paisagem” Outro ponto importante a ressaltar são as “unidades da paisagem”. Segundo Torres (2003), “Unidade da paisagem é uma porção do espaço que se apresenta de forma homogênea, mas heterogênea se comparada com as áreas vizinhas”. As unidades da paisagem natural se diferenciam, ressaltado por Torres (2003), com respaldo em Ross (1990), por meio de um clima, de relevo, solo ou mesmo a litologia de um local, levando em consideração que os elementos mais comumente observáveis não extinguem a existência de outros elementos não facilmente observáveis. 47 A ferramenta utilizada para resolver esta questão do visível e invisível de uma paisagem é a imagem de satélite, que possui na mesma imagem uma junção de informações variadas, como: textura, superfície, etc., sendo de fundamental importância na definição de suas unidades básicas. Com essa imagem, é definida e classificada as unidades da paisagem, utilizando uma abordagem holística e hierárquica. Torres (2003), respaldada em Le Du (1995), aponta a existência de três níveis de dificuldade para classificar uma unidade de paisagem, levando em conta principalmente suas descontinuidades. Assim, tem-se: as unidades de paisagem que possuem seus contrastes bem marcados com relação às unidades vizinhas; as unidades de paisagem que possuem limites, mas são muito difíceis de localizar; e finalmente as unidades de paisagem que possuem seus limites imperceptíveis. Assim, definir estes grandes grupos é o ponto inicial de um estudo sobre paisagem, para, em seguida, ser cartografado e analisado. Vale ressaltar que a hierarquização das unidades é algo, em certo ponto, bem subjetivo, e, muitas vezes, carrega em si a visão do pesquisador ou do que ele pretende transmitir. Vale lembrar que a noção de paisagem tem sido um bom caminho com vistas a apreender o global do espaço geográfico e, desta forma, impossível de ser colocada em um único campo epistemológico. (TORRES, 2003, p. 54). É importante que esta imagem esteja sempre atualizada para que a classificação seja o mais fiel possível com a realidade. Visto que a paisagem está em constante mudança, por meio da mudança de uso do solo, apropriação do território, entre outros motivos que favorecem e ocasionam o aparecimento de novas unidades de paisagem. No caso da Micro Bacia do Córrego Água Fresca, pode-se observar que esta apresenta diversas unidades de paisagem, isto devido ao fato da mesma se localizar em uma área urbana, mais precisamente na região central de Londrina – PR. Por intermédio das imagens de satélite do programa Google Earth (software disponibilizado gratuitamente na internet), apresentadas a seguir, pode-se observar as unidades de paisagem da referida micro bacia. 48 A primeira imagem de satélite apresentada (Figura 17) delimita o Córrego Água Fresca. Para classificar as unidades de paisagem, o referido córrego será dividido em alto, médio e baixo curso, sendo necessário ampliar a imagem para poder observar os tipos de ocupação nas proximidades do local. Figura 16: Imagem de satélite do Córrego Água Fresca. Fonte: Google Earth, acessado em: 17 nov 2009. Adaptação: COSTA, Pedro H., 2009. A imagem de satélite a seguir (Figura 18) é a ampliação da Figura 17, a qual representa o alto curso do Córrego Água Fresca, ou seja, próximo a sua nascente (nascente canalizada). 49 Figura 17: Imagem de satélite, alto curso do córrego. Fonte: Google Earth, acessado em: 17 nov 2009. Adaptação: COSTA, Pedro H., 2009. Analisando a Figura 18, pode-se observar que no alto curso do Córrego Água Fresca existe o predomínio de residências, ou seja, o uso do solo do local é na sua maioria residencial, principalmente na vertente direita do córrego. Pode-se notar, também, como destacado na figura, a presença da Companhia de Saneamento do Paraná – Sanepar (empresa responsável pelo tratamento de água e esgoto de Londrina) e do Hotel Blue Tree (hotel 4 estrelas de Londrina), ambos na vertente esquerda do córrego. A imagem de satélite a seguir (Figura 19) representa o médio curso do Córrego Água Fresca. 50 Figura 18: imagem de satélite, médio curso do córrego. Fonte: Google Earth, acessado em: 17 nov 2009. Adaptação: COSTA, Pedro H., 2009. Com esta imagem (Figura 19), pode-se observar que, assim como no alto curso, no médio curso do córrego predominam os usos residenciais, principalmente na vertente esquerda. Já na vertente direita, pode ser observado por meio da figura, a presença do Centro Universitário Filadélfia – UniFil e do Clube Canadá, sendo que ambos possuem fluxo diário intenso de pessoas, muitas vezes, não residentes da região. A imagem de satélite a seguir (Figura 20) representa o baixo curso do Córrego Água Fresca, ou seja, próximo a sua foz (Lago Igapó II). 51 Figura 19: Imagem de satélite, baixo curso do córrego. Fonte: Google Earth, acessado em: 17 nov 2009. Adaptação: COSTA, Pedro H., 2009. No baixo curso do córrego nota-se, assim como no alto e médio curso, a ocorrência de muitas residências, principalmente na vertente direita, mas tendo um diferencial que é a presença de terrenos vazios na vertente esquerda. Como se pode observar na Figura 20, na vertente direita do baixo curso do córrego encontra-se o cemitério João XXIII, o qual interfere diretamente no córrego devido ao necrochorume. Já na vertente esquerda encontra-se o Colégio Universitário (escola particular de Londrina) que possui fluxo intenso diário, interferindo também no córrego. O que pode ser observado em todas as imagens de satélites apresentadas é a presença de mata ciliar em praticamente todo o percurso do 52 córrego, seguindo, desta maneira, a Lei nº 4771, de 15 de setembro de 1965, a qual instituiu o novo Código Florestal brasileiro. A análise mais detalhada das instituições citadas anteriormente, relacionando-as com o Córrego Água Fresca, pode ser observada no próximo capítulo que trabalha com a técnica do Geofotografismo. 53 6 GEOFOTOGRAFISMO A fotografia é um recurso tecnológico que também pode ser um instrumento didático e de pesquisa, considerada por muitos como uma das grandes revoluções do mundo. Partindo do princípio de que antes da descoberta da fotografia o modo de representar as pessoas, os lugares, as paisagens, etc., era a arte pictórica, que apesar de ser uma representação destes, possuía/possui seus estilismos, infelizmente ressalta-se que ela não é tão fiel à realidade como a fotografia. A fotografia é uma imagem, segundo Torres (2003), carregada de informações que o “fotografo” quis evidenciar, a partir de um determinado referencial. Assim, a arte de fotografar possui caráter de representação do real, ou seja, é um arquivo do real, e também possui caráter de sensibilização ou mesmo de conscientização de alguém sobre determinadas coisas. Poderia-se identificar duas maneiras de fotografar uma paisagem. Uma, no registro poético, levaria à apresentação de uma “realidade em gênese”. A outra seria mais simplesmente uma atividade de arquivagem do real. Se esta última maneira se presta a um estudo relevante de uma aproximação cientifica, a primeira se coloca mais diretamente sobre a experiência de explicitar, de forma mais simbólica, a paisagem. (PASSOS, 2006-2008, p. 15). Segundo Passos (2006-2008), a representação da paisagem, seja ela por fotografia ou qualquer outra forma, possui caráter fortemente sugestivo. Esta paisagem é representada por uma “idéia” desta, e não do exato modo como esta é, ou seja, a paisagem será representada de acordo com os interesses por de trás das imagens geradas, seja ela uma pintura ou uma fotografia, uma imagem subjetiva ou objetiva, o resultado será o produto almejado pelo agente captador desta paisagem. Inicialmente as paisagens eram representadas pelas pinturas (arte pictórica), sendo que, na geografia, a fotografia ganhou significativa importância, segundo Passos (2006-2008), com os estudos de Vidal de la Blache, principalmente em sua obra La France (1908) e, posteriormente, com a reedição de Tableau de la géographie de La France (1903), a qual apresenta inúmeras fotografias. 54 Para tal estudo, La Blache contou com a participação de profissionais ligados a outras áreas do conhecimento, como botânicos e agrônomos, além de contar com geógrafos universitários. Com relação à utilização da fotografia na geografia, a partir dos estudos e trabalhos de La Blache, Passos (2006-2008) ressalta que: Vidal de La Blache avança rápido do ponto de vista ilustrativo para o ponto de vista cientifico, afirmando que “há um método geográfico de interpretar paisagens”. É preciso que a fotografia seja praticada num espírito geográfico, por pessoas que saibam ler a natureza. Não se trata mais do uso da fotografia como ilustração, mas de uma técnica de análise. (p. 19). Jean Brunhes e Emmanuel de Martonne, que trabalharam com La Blache, foram os herdeiros da pesquisa trabalhada com imagens, seguindo a mesma linha iconográfica vidaliana. Passos (2006-2008) ressalta ainda que de Martonne foi o precursor e promotor da fotografia aérea na França, fato que, mais tarde, torna-se de fundamental importância nos estudos geográficos, principalmente os relacionados à geografia física. A contribuição destes nomes da geografia, no que diz respeito aos estudos realizados através de imagens fotográficas, faz-se presente hoje em dia, visto que, atualmente, a fotografia é um instrumento importantíssimo na área da geografia, principalmente voltado para os geógrafos que atuam na pesquisa. Torres (2003) ressalta que a utilização da fotografia na Geografia não possui caráter meramente ilustrativo, mas deve ser analisada e interpretada de forma que se interrelacione com a pesquisa em si. Para o geógrafo, a fotografia é um recurso a mais na busca por desvendar, evidenciar e representar as relações entre a sociedade e a natureza. Pela Geografia se tratar de uma ciência, as fotos dos geógrafos devem ser direcionadas à representação do real, tendo assim um caráter mais científico, mas isso não exclui a possibilidade destas fotos serem realizadas de forma mais poética, ou seja, possuam caráter de sensibilização. No presente trabalho, encontra-se um apanhado de fotografias resultantes de diversos trabalhos de campo realizados no Córrego Água Fresca 55 no período de três anos, compreendidos entre 2007, 2008 e 2009. Estas imagens são frutos de trabalhos que tiveram como premissa diagnosticar e representar os diversos problemas encontrados no local, a relação da população com o córrego, as iniciativas de instituições próximas ao local voltadas para sua conservação e proteção, além de ressaltar uma obra da prefeitura, a duplicação da Rua Goiás. O Córrego Água Fresca: A seguir é apresentado um mapa de localização das imagens que serão analisadas no decorrer deste capítulo (Figura 21). Estas imagens foram tiradas no percurso do Córrego Água Fresca e em ambas as vertentes, ou seja, tanto na vertente esquerda como na direita, como pode ser observado a seguir. Figura 20: Localização das Imagens tiradas no Água Fresca. Fonte: Google Earth e Trabalho de Campo Org.: COSTA, Pedro H. e ROSOLOEM,Nathália Prado, 2009. 56 Imagem 01 Imagem 02 Autor: COSTA, Pedro H., outubro de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Fotografias tiradas próximo à nascente do Córrego Água Fresca, a qual se encontra canalizada. Estas imagens são da região próxima à Companhia de Saneamento do Paraná – Sanepar, do município de Londrina – PR, situada na Rua Juscelino Kubitschek, entre a Rua José Oiticica e Rua Pio XII. Nelas nota-se a presença de tubos de concreto utilizados para fazer, entre outras coisas, a rede urbana de esgoto. A imagem 01 foi fotografada em 2007, já a imagem 02 em 2009, fato que demonstra o abandono destes objetos no local, mesmo porque em nenhuma das ocasiões em que as fotos foram tiradas foi observado, nas proximidades, algum tipo de construção ou obra, salvo a Rua Goiás, a qual se encontra a duas quadras do local. O que se pode observar na Imagem 01 é o abandono dos tubos no local, fato representado pelo desordenamento destes. Já na Imagem 02, pode-se observar que os mesmos estão dispostos em três faixas, o que sugere uma ordenação destes. 57 Imagem 03 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Imagem 04 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Estas fotografias (Imagens 03 e 04) mostram a evidencia de instituições que tentam cuidar, da melhor maneira possível, do córrego. Um exemplo dessas relações da população com o Córrego Água Fresca (representada na Imagem 03) é a presença no local do Grupo de Escoteiros Verde Vale. Este grupo realiza suas atividades há mais de 30 anos neste vale, utilizando-o para recreação e conscientização das crianças e dos escoteiros, os quais se reúnem nas proximidades do córrego todos os sábados. Entre as atividades, eles realizam mutirões de limpeza (recolhem os lixos possíveis jogados no vale e no córrego, operação denominada pelo grupo de “pente fino”); plantam mudas de vegetação nativa (Imagem 04); e também tentam retirar as árvores que estão doentes para revitalização do local, mas, muitas vezes, encontram barreiras burocráticas para realizarem tal ação. Imagem 05 Autor: TORRES, Eloiza C., out de 2007. Imagem 06 Autor: TORRES, Eloiza C., out de 2007. 58 Estas duas fotografias, localizadas no alto curso do córrego, mostram que, após o córrego sair da canalização, como mostrado nas Imagens 01 e 02, este encontra-se canalizado novamente (Imagem 05) até chegar ao seu leito natural (Imagem 06) e seguir assim até a foz. A distância entre a primeira e a segunda vez que o córrego sai da canalização gira em torno de 200 metros. Imagem 07 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Imagem 08 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Ainda no alto curso do córrego, em sua vertente esquerda, encontra-se um muro de arrimo, o qual auxilia no não desmoronamento de terra e conseqüentemente evita possível assoreamento do córrego. Neste local, nota-se que ocorreu uma intensa movimentação de massa, isto devido ao fato de que a vegetação encontra-se muito retorcida, mostrando que, ao cessar o movimento, as árvores voltaram a crescer, modificando sua forma. No local, observa-se também a presença de várias mudas de bambu (principalmente na Imagem 07) que, apesar de não serem nativas da região, foram plantadas para amenizar a erosão. Isto ocorre devido às raízes do bambu formarem um forte emaranhado, “segurando” e dando melhor sustentação ao solo em terrenos acidentados ou íngremes (como é o caso mostrado na Imagem 07 e 08), combatendo assim essa erosão. 59 Imagem 09 Imagem 10 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Estas fotografias foram tiradas no ano de 2007 e mostram a obra de duplicação da Rua Goiás da cidade de Londrina – PR ainda em seu estágio inicial. Esta obra de duplicação foi iniciada em agosto de 2006, tendo como responsável a empresa Jacarandá Pavimentação e Obras Ltda. Deve-se ressaltar que ocorreram diversos impactos no local com tal obra, tanto os impactos como as erosões, microrravinas, quedas em bloco, escoamento linear, entre outros, como os impactos sociais (várias residências tiveram que ser desapropriadas para que a duplicação pudesse prosseguir, como pode ser visto ao fundo de ambas as Imagens 09 e 10). Imagem 11 Imagem 12 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Estas imagens, tiradas em 2007 (Imagens 11 e 12), mostram impactos no meio natural ocorridos no vale do Córrego Água Fresca, nas proximidades 60 da Rua Goiás. Os impactos mencionados, no caso, são as erosões (Imagem 11) e as microrravinas (Imagem 12), sendo que um dos agravantes destes processos foi a obra de duplicação da referida rua. Tais impactos acabam por formar um escoamento de água linear em alguns pontos deste local, o que poderia vir a desmoronar a obra em questão (a Rua Goiás passa sobre o córrego), se tais problemas não viessem a ser solucionados. Imagem 13 Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. Imagem 14 Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. Nestas duas fotografias, de 2008 (Imagens 13 e 14), pode-se observar que a obra da Rua Goiás avançou muito, sendo que as vias já foram duplicadas, o canteiro central já está pronto com os postes de iluminação instalados e está se iniciando sua pavimentação. Conseqüentemente, constatase que as várias residências desapropriadas já não existem mais, dando lugar a duplicação de uma via de acesso para a população. 61 Imagem 15 Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. Imagem 16 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. A Imagem 15, tirada em 2008, revela que o problema do escoamento linear, mencionados nas Imagens 11 e 12, não foram solucionados até a presente data da foto. Este fato fica nítido ao se observar a ausência de vegetação em partes da imagem, que ocorre principalmente devido ao escoamento linear, a erosão e as quedas em blocos, não dando o tempo adequado para a vegetação deste terreno muito íngreme se fixar. Já na Imagem 16, tirada em 2009, observa-se que os impactos que estavam assolando o local foram solucionados, visto que a vegetação voltou a crescer, eliminando o escoamento linear e cessando as quedas em bloco. Nota-se a interferência do homem neste local para solucionar tais problemas, principalmente pelas barreiras de madeira colocadas no terreno para interromper a erosão e permitir que a vegetação enraíze de modo que não se desprenda facilmente. 62 Imagem 17 Imagem 18 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Nestas duas fotografias, tiradas em 2009 (Imagens 17 e 18), pode-se observar que a obra de duplicação da Rua Goiás foi concluída (obra finalizada em outubro de 2008). Os problemas gerados no Córrego Água Fresca, com esta obra, tanto os de ordem naturais como os sociais, foram muitos e já citados nas imagens anteriores, mas convém ressaltar que a maioria deles foram ou estão sendo solucionados por profissionais ligados a prefeitura do município de Londrina – PR. Esta via de acesso está sendo muito questionada pela população, que fica dividida com as diversas opiniões, sendo que muitos criticam e outros concordam, mas não cabe ao presente trabalho entrar nesta discussão. Imagem 19 Imagem 20 Autor: TORRES, Eloiza C., out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. 63 Estas fotografias (Imagem 19 e 20) revelam que em parte do médio curso do córrego, este se encontra concretado, tanto o fundo, como a margem, que possui em torno de 1,50 metros de altura (tendo como referência a pessoa da imagem 19), ou seja, neste percurso do córrego, que se inicia no cruzamento deste com a Rua Goiás e termina próximo a UNIFIL na Rua Iowa, existe o que é chamado de canalização aberta com concreto. Esta obra foi realizada com a intenção de prevenir o desmoronamento da margem e conseqüentemente o assoreamento do córrego, visto que nesta região o processo de erosão é bastante intenso. Imagem 21 Imagem 22 Autor: COSTA, Pedro H.; out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. As Imagens 21 e 22 revelam a existência das galerias de águas pluviais, que estão no mesmo trecho do Córrego Água Fresca que as Imagens 19 e 20, utilizadas para a realização da drenagem de infiltração do vale. No trecho em questão, são várias as tubulações encontradas, que acabam drenando toda a água da chuva que chega até as boca de lobo que estão nas ruas próximas ao córrego. O problema desta drenagem acaba sendo os resíduos sólidos e líquidos que vem juntamente com a água, trazendo folhas e tocos de árvores, plásticos, papéis, latas, entre outras coisas que podem tanto entupir as tubulações, ocasionado problemas de infiltração, como podem também poluir as águas e o vale do córrego. 64 Imagem 23 Imagem 24 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Para a análise das Imagens 23 a 28 será utilizado o conceito de poluição, que no presente trabalho corresponderá ao acúmulo ambiental de resíduos sólidos e líquidos decorrentes das atividades do homem, ou seja, os resíduos que são produzidos por ação antrópica sendo lançados, no caso, diretamente no Vale e no Córrego Água Fresca. Com relação a poluição, ainda no médio curso do córrego, pode ser observado nestas duas fotografias de 2007, a presença de papéis, plásticos, garrafas e até um pedaço do que parece ser um pé de uma cama. Deve-se ressaltar que ao longo do córrego foram encontrados diversos tipos de resíduos sólidos, desde as mencionadas nestas fotos, até restos de construção, como já mencionado anteriormente. Imagem 25 Imagem 26 Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. 65 Nestas duas fotografias, tiradas em 2008 (Imagens 25 e 26), pode-se observar que a poluição é uma questão muito relevante em relação ao córrego. As Imagens 25 e 26 revelam que tanto no leito do córrego como em seu vale encontra-se muita poluição, sendo que até um saco preto com lixo doméstico foi encontrado (Imagem 26), sem mencionar os plásticos, papéis, garrafas e latas que vão se acumulando no local. Imagem 27 Imagem 28 Autor: Pedro H., agosto de 2009. Autor: Pedro H., agosto de 2009. Estas fotografias, tiradas em 2009 (Imagens 27 e 28), revelam que a poluição está aumentando com o passar dos anos, visto que do trabalho de campo realizado em 2007 para o realizado em 2008, a poluição observada aumentou significativamente, assim como a de 2008 para a de 2009. Neste trecho foi notado o maior índice de poluição causada por lixo como, restos de móveis, pneus, lixos domésticos e óleo derramado no córrego, como demonstrado nas imagens, sendo encontrado um colchão (Imagem 27), e também isopor, garrafinhas de água, latas e plásticos, boiando numa água oleosa (Imagem 28). 66 Imagem 29 Imagem 30 Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. Autor: COSTA, Pedro H., out de 2007. A poluição diagnosticada nas imagens anteriores (Imagens 23, 24, 25, 26, 27 e 28) revelam a situação alarmante do córrego, mas deve-se ressaltar que existem instituições presentes no local que se importam e realizam projetos para minimizar impactos gerados no córrego. As fotografias tiradas próximo ao Centro Universitário Filadélfia – UniFil, mostra uma lixeira e uma placa (Imagem 29) colocados em 2002 – 2003, para representar um projeto de revitalização e intervenção urbanística e paisagística do Córrego Água Fresca. O referido projeto foi realizado por ação conjunta de alunos do curso de Biologia e de Arquitetura e Urbanismo da própria UniFil, o qual engloba o entorno da Universidade, tendo como foco a Rua Raja Gabaglia entre a Rua Alagoas e a Rua Goiás. O objetivo deste projeto foi realizar um mutirão de limpeza no córrego e plantar 1400 mudas de espécies de árvores nativas do local. Imagem 31 Imagem 32 Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. Autor: VAZ, Fábio, julho de 2008. 67 Do cruzamento do Córrego Água Fresca com a Rua Iowa até praticamente sua foz, este se encontra sem canalização, ou seja, em seu leito natural. O que se pode observar por meio das imagens é o problema do assoreamento encontrado a partir deste ponto, e também a erosão que se intensifica nas margens do córrego. Na Imagem 31, observa-se que o volume de água do córrego está bem baixo, motivado principalmente pela erosão, representada pela imagem 32, que acaba alargando este, diminuindo assim sua profundidade. Imagem 33 Imagem 34 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. No baixo curso do Córrego Água Fresca, em frente ao Colégio Universitário, foi construída uma ponte, a pedido da própria instituição, para facilitar o acesso dos estudantes e da população ao local, sendo realizado também um projeto paisagístico, no qual foram plantadas árvores, arbustos e também colocaram bancos e lixeiras nas proximidades do córrego. Conforme informações obtidas no Colégio Universitário, os alunos, principalmente as crianças, realizam o plantio de árvores em datas comemorativas, como o dia da árvore, dia do meio ambiente, entre outros. Além disto, é realizado com ação dos professores um processo de conscientização dos estudantes com relação à importância da água, do vale e de assuntos pertinentes que possam ser discutidos no córrego. Este tipo de iniciativa torna-se de fundamental importância para a sobrevivência do córrego e do vale, pois estas crianças e jovens que passam 68 todos os dias pelo local necessitam de instrução e incentivo para poderem intensificar o cuidado e a preservação para com o córrego. Imagem 35 Imagem 36 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Ao atravessar a ponte mencionada nas imagens 33 e 34, encontra-se o cemitério João XXIII, situado na Avenida da Saudade, entre as Ruas Monte Castelo e Paranaguá. O que é de fundamental importância analisar é o “grande” problema de cemitérios próximo a córregos, rios, etc., que podem contaminar as águas próximas pelo necrochorume, que é uma substância liberada por corpos em seu processo de decomposição por até 6 meses - composto basicamente por água, sais minerais e substâncias orgânicas biodegradáveis. Para evitar esta contaminação, o solo do cemitério tem que estar impermeável, ou seja, o necrochorume não pode alcançar os corpos d’água próximos, processo que ocorre na maioria das vezes pela infiltração da água da chuva, que leva este para córregos, rios, etc., ou ainda para o lençol freático, contaminando-os com tal substância. Por intermédio de pesquisas em jornais, revistas e internet, não foi encontrado nenhum tipo de informação a respeito de contaminação do referido córrego pelo necrochorume do Cemitério João XXIII. 69 Imagem 37 Imagem 38 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. No baixo curso do Córrego Água Fresca, chegando à sua foz, este novamente volta a ser canalizado, como se pode observar nas Imagens 37 e 38. Assim, como já observado anteriormente, a foz do córrego também se encontra assoreada, como pode ser observado pelo alargamento que este ganha ao passar pelos três buracos paralelos representados na Imagem 38, sendo conseqüência de um processo que ocorre ao longo de todo o córrego, o processo erosivo, mas que se torna mais evidente a partir do médio curso do córrego. Os muros erguidos para realizar a canalização aberta com concreto, são fundamentais para segurar o processo erosivo e conseqüentemente o assoreamento do córrego, quando estes processos já estão bem acentuados. Imagem 39 Imagem 40 Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. Autor: COSTA, Pedro H., agosto de 2009. 70 Fechando o ciclo das águas do Córrego Água Fresca, chegamos a sua foz, que se encontra canalizada como já mencionado, e deságua no Lago Igapó II, que pode ser observado ao fundo da Imagem 40. Deve-se ressaltar também, no presente trabalho, a participação do Estado no tocante a projetos que envolvam o Córrego Água Fresca. Assim, é de suma importância o ACQUAMETRÓPOLE. O nome deste projeto é um conceito criado para definir uma região metropolitana que tem como visão e missão estratégica promover a gestão integrada e sustentável de seus recursos econômicos, sociais e naturais tendo como eixo referencial o patrimônio hídrico. O Córrego Água Fresca foi escolhido para inaugurar o ACQUAMETRÓPOLE em Londrina. Este projeto teve início no ano de 2007. O motivo da escolha do Água Fresca para iniciar as atividades do projeto, devese principalmente pela sua localização (área central), seu intenso tráfego de veículos, comércio, pequenas indústrias, residências, escolas e universidades, que terão papel fundamental na realização do projeto. Este projeto em Londrina é a ampliação e aperfeiçoamento do projeto “Rio da Minha Rua”, desenvolvido pela Prefeitura Municipal, que tem como formula básica inovação e ampla participação popular, visando assim uma completa transformação sócio-ambiental. A análise das imagens de diferentes períodos (que no caso do presente trabalho são três anos) é relevante para entender e compreender a evolução, em diversos aspectos, de uma determinada paisagem. Neste ponto, o trabalho de campo e conseqüentemente as fotografias oriundas deste, são instrumentos de análise do pesquisador de muita valia, sendo importante o acervo de imagens/fotografias, pessoal, público ou mesmo privado, para que tais análises possam ser realizadas. No caso do Córrego Água Fresca por meio destes instrumentos, tanto o trabalho de campo como as fotografias, pode-se observar a modificação da paisagem deste local. Diversas mudanças foram observadas e registradas, como por exemplo, a duplicação da Rua Goiás, a poluição e a erosão do vale, além do envolvimento de instituições e do Estado com o córrego. 71 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com a realização da presente monografia, vários aspectos que tangem a análise da paisagem e dos aspectos físicos de uma bacia hidrográfica puderam ser contemplados e observados. Primeiramente ressalta-se que o levantamento teórico a respeito dos recursos hídricos, principalmente a disponibilidade, os usos, a poluição e o desperdício foi de fundamental importância, pois por intermédio de tais leituras foi possível compreender a importância de preservá-los e conservá-los. Também foi com base nestes referenciais teóricos, oriundos de uma iniciação científica, e na realização de um trabalho sobre o Córrego Água Fresca em uma das disciplinas da graduação, que selecionou-se o objeto de estudo citado. Para que os objetivos propostos pudessem ser contemplados, foi imprescindível a realização dos trabalhos de campo, pois por meio destes montou-se um acervo fotográfico da área de estudo, levando em consideração a diferença de três anos entre o primeiro e o último campo, o que viabilizou a análise da modificação da paisagem na Micro Bacia do Córrego Água Fresca. Assim, o levantamento bibliográfico a respeito da paisagem aliado às fotografias serviram como base para a micro bacia em questão poder ser analisada. Deste modo, a caracterização física da mesma supriu alguns dos grandes problemas encontrados para entender os processos de formação da paisagem do local. A paisagem é fruto dos processos formadores do relevo, do solo, do clima presente e conseqüentemente da vegetação, da hidrografia, da altitude, ou seja, das características físicas ali encontradas. Assim, foi fundamental compreender tais processos para analisar essa modificação paisagística. Tal análise foi realizada pelos trabalhos de campo e pelas fotografias tiradas, porém mais especificamente pela técnica do Geofotografismo, o qual viabilizou o presente trabalho. Esta técnica possibilitou ver, perceber, analisar e compreender os processos e a modificação que ocorreu durante os anos na paisagem do Córrego Água Fresca. 72 Os resultados obtidos após todo o levantamento bibliográfico, os trabalhos de campo e análise das fotografias, é o de que mesmo em um intervalo de tempo relativamente curto, no caso três anos, a paisagem passou por diversas transformações, como pode ser observado no corpo deste trabalho no capítulo sexto. Deve ser ressaltado ainda, que a ação antrópica esteve presente em todas, ou praticamente todas as mudanças ocorridas na paisagem, desde a duplicação da Rua Góias (obra da engenharia humana que interferiu diretamente no córrego e em seu vale), até mesmo nos projetos realizados por algumas entidades no local de estudo, como o projeto de revitalização realizado pela UniFil. Essas ações antrópicas, muitas vezes foram impactantes negativas, mas, algumas vezes, estes impactos foram solucionados de alguma forma, o que revela a preocupação em cuidar de um local que futuramente pode ser vital para a população. Os grandes problemas analisados na realização desta monografia, sobre a Micro Bacia do Córrego Água Fresca, foram as erosões encontradas e o despejo de resíduos sólidos no local. Tais problemas, como ressaltando anteriormente, são oriundos dessa ação antrópica, sendo que muitas das erosões foram solucionadas, principalmente devido ao plantio de gramíneas, como pode ser observado no trecho da duplicação da Rua Goiás. Já o problema do lixo só vem aumentando e, ao longo dos anos, muitos resíduos sólidos foram jogados no local, o que revela a falta de consciência e de conscientização da população que freqüenta o lugar. Devem ser ressaltadas, também, as dificuldades encontradas. A principal delas foi a limitação para trabalhar com softwares que servem para produzir mapas, havendo a necessidade de adequação dos mesmos. A partir destas conclusões, pode-se dizer que os objetivos traçados e almejados foram alcançados. Com isso, é possível, por intermédio da presente monografia, entender e observar o processo de modificação da paisagem na Micro Bacia do Água Fresca. 73 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AB’SABER, Aziz Nacib. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. ARAÚJO, Rafael S. de. Micro Bacia do Ribeirão Cambé-Londrina-PR: Levantamento Ambiental Utilizando Técnicas de Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto. 2004. 140 páginas. Tese (conclusão de curso) UEL. Londrina, 2004. AZEVEDO, Thiago Salomão de, FERREIRA, Marcos César. Evolução espaço temporal da dimensão fractal das matas ciliares na alta bacia do rio Passa Cinco, Ipêuna - São Paulo. Geografia. Rio Claro, v. 30, n. 3, p.525-542, setdez, 2005. 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