05 o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e Nos anos de 1920, O Estoril começava a ganhar forma como principal estância balnear do país. Sonhada por Fausto Figueiredo para rivalizar com as suas congéneres estrangeiras, a Costa do Sol, como ficou então conhecida, começou a atrair as atenções nacionais e internacionais e a par do projecto turístico começou também a desenvolver-se um projecto imobiliário. Se numa primeira fase o gosto arquitectónico estava ligado ao passado, a entrada na Câmara Municipal de Cascais do arquitecto Jorge Segurado, um dos pioneiros da chamada «Arquitectura Moderna» veio alterar essa tendência. Durante a década de 1930, no Estoril e também noutras localidades do concelho vão ser construídos edifícios particulares e oficiais pautados por esta nova estética. São exemplos disso o primitivo casino, os edifícios dos Correios e da Companhia dos Telefones e dezenas de casas particulares algumas delas desenhadas por arquitectos conceituados como Pardal Monteiro, Adelino Nunes e António Varela. a s C a i s O património, nas suas diferentes manifestações, abrange todos os vestígios de actividade humana num território, os quais constituem importantes fontes de informação sobre a vida e as actividades das pessoas ao longo dos tempos. Ele regista e exprime o longo processo do desenvolvimento histórico, formando a essência das diversas identidades nacionais, regionais e locais. O património individual e a memória colectiva de cada localidade ou de cada comunidade são insubstituíveis, e assumem-se como um importante alicerce para o desenvolvimento das sociedades. Como objectivo essencial da gestão do património deverá eleger-se a comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação através da divulgação junto da comunidade residente e dos visitantes. Apesar de muitas destas moradias terem já desaparecido e de outras estarem muito degradadas, ainda existe no Estoril um número considerável de edifícios modernistas. Dar a conhecê-los ao grande público e realçar a sua importância patrimonial, como forma de travar o seu desaparecimento, é o principal objectivo deste Roteiro da Arquitectura Modernista,assinado pela professora Maria da Graça Briz que nos vai levar a passear por ruas tranquilas de um Estoril que normalmente desconhecemos. Promover o conhecimento do território através da observação dos vestígios do passado, dos sítios e ambientes construídos, da biodiversidade, das tradições e costumes, da produção técnica e científica, literária ou artística constitui um desafio que se assume como essencial e imprescindível aos dirigentes e a todas as instituições nacionais e locais. Arquitectura Modernista Maria da Graça Gonzalez Briz é Doutora em História da Arte Contemporânea com uma tese intitulada A Vilegiatura Balnear Marítima em Portugal. Urbanismo, Arquitectura e Sociedade. 1870-1970. É, desde 1992, docente do Departamento de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde lecciona, para além de outras disciplinas da licenciatura, um seminário de mestrado subordinado ao tema Arte, Sociedade e Turismo. É investigadora integrada do Instituto de História da Arte desta mesma Faculdade. Publicou já, no Boletim Cultural do Município de Cascais trabalhos sobre o urbanismo e a arquitectura do Concelho. 01 Património natural e Geológico 02 Património arqueológico 03 Fortificações marítimas 04 arquitectura de Veraneio Cascais 05 Arquitectura Modernista C apresentação R ot e i R o s d o Pat R i m ó n i o d e C as C a i s ARQUITECTURA MODERNISTA R Arquitectura Modernista A colecção “Roteiros do Património de Cascais” reúne, em volumes temáticos, da autoria de especialistas nas diversas áreas do Património, um conjunto de informação de elevada qualidade, coligida de forma a optimizar a compreensão sobre as características significativas do nosso património, permitir o seu usufruto, o seu entendimento, o conhecimento fundamental para a sua preservação e valorização da nossa herança cultural. Agradecemos a todos os que contribuíram para esta edição, nomeadamente aos autores dos vários temas que integram a colecção: Património Natural e Geológico, Engº Eugénio Menezes de Sequeira e Doutor Miguel Magalhães Ramalho; Património Arqueológico, Doutor José d’Encarnação e Dr. Guilherme Cardoso; Fortificações Marítimas, Drª Margarida Magalhães Ramalho; Arquitectura de Veraneio (Cascais), Doutora Raquel Henriques da Silva e Arquitectura Modernista, Doutora Maria da Graça Briz. 05 Arquitectura Modernista antónio d’orey Capucho ana Clara Justino Presidente da Câmara Municipal Vereadora do Pelouro da Cultura R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e Arquitectura Modernista C a s C a i s R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e Arquitectura Modernista R ot e i R o s d o Pat R i m ó n i o d e C as C a i s 05 Arquitectura Modernista 05 C a s C a i s apresentação O património, nas suas diferentes manifestações, abrange todos os vestígios de actividade humana num território, os quais constituem importantes fontes de informação sobre a vida e as actividades das pessoas ao longo dos tempos. Ele regista e exprime o longo processo do desenvolvimento histórico, formando a essência das diversas identidades nacionais, regionais e locais. O património individual e a memória colectiva de cada localidade ou de cada comunidade são insubstituíveis, e assumem-se como um importante alicerce para o desenvolvimento das sociedades. Como objectivo essencial da gestão do património deverá eleger-se a comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação através da divulgação junto da comunidade residente e dos visitantes. Promover o conhecimento do território através da observação dos vestígios do passado, dos sítios e ambientes construídos, da biodiversidade, das tradições e costumes, da produção técnica e científica, literária ou artística constitui um desafio que se assume como essencial e imprescindível aos dirigentes e a todas as instituições nacionais e locais. A colecção “Roteiros do Património de Cascais” reúne, em volumes temáticos, da autoria de especialistas nas diversas áreas do Património, um conjunto de informação de elevada qualidade, coligida de forma a optimizar a compreensão sobre as características significativas do nosso património, permitir o seu usufruto, o seu entendimento, o conhecimento fundamental para a sua preservação e valorização da nossa herança cultural. Agradecemos a todos os que contribuíram para esta edição, nomeadamente aos autores dos vários temas que integram a colecção: Património Natural e Geológico, Engº Eugénio Menezes de Sequeira e Dr. Miguel Magalhães Ramalho; Património Arqueológico, Doutor José d’Encarnação e Dr. Guilherme Cardoso; Fortificações Marítimas, Drª Margarida Magalhães Ramalho; Arquitectura de Veraneio (Cascais), Doutora Raquel Henriques da Silva e Arquitectura Modernista, Doutora Maria da Graça Briz. antónio d’orey Capucho ana Clara Justino Presidente da Câmara Municipal Vereadora do Pelouro da Cultura Propriedade e Edição Câmara Municipal de Cascais Coordenação Científica Margarida Magalhães Ramalho Coordenação editorial António Carvalho Conceição Santos Apoio à edição Ana Constante João Pedro Cabral† Autor © Graça Briz Fotografias Giorgio Bordino Arquivo Histórico Municipal de Cascais (AHMC) Colaboração Ana Lima Ângela Santos Maria João Monteiro Design Gráfico Sersilito Impressão e acabamentos Sersilito-Empresa Gráfica, Ldª – Maia Setembro 2010 ISBN 978-972-637-182-3 Depósito legal 312984/10 Tiragem 2000 exemplares Todos os direitos estão reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada num sistema de processamento ou transmitida por qualquer forma ou por quaisquer meios, electrónicos, mecânicos, fotocópia, gravação e quaisquer outros sem permissão do editor. Introdução Com uma história geológica de 150 milhões de anos e um património natural invejável, o território que corresponde ao actual Concelho de Cascais, foi habitado desde a Pré-História. Aninhado à sombra protectora da Serra de Sintra, que serve de barreira «aos ventos do quadrante norte, carregados de humidade oceânica» este território tinha então, como ainda hoje, um clima de excepção. A proximidade do mar e a fertilidade da terra completavam o cenário de paraíso que favoreceu ao longo dos tempos a instalação do Homem na região. Desses nossos longínquos antepassados ficaram vestígios importantes, de que as grutas do Poço Velho, de S. Pedro ou da Alapraia são alguns exemplos. Muitos séculos mais tarde, por aqui também vão fixar raízes os romanos que nos deixaram legados consideráveis em Casais Velhos, no Alto do Cidreira, em Miroiços da Malveira da Serra e, sobretudo em Freiria. Apesar de mais escassos, os testemunhos da presença tardo-romana e muçulmana também têm sido revelados através de várias escavações arqueológicas. A história do município só começa verdadeiramente em 1364, quando D. Pedro I eleva Cascais à categoria de vila e a desanexa da sujeição a Sintra. Com um porto de águas mansas, paredes meias com o oceano e vizinho da Barra do Tejo, cedo Cascais vai sentir na pele a ambição de piratas e corsários. Para evitar este triste fadário e tendo em conta que o castelo medieval já não cumpria as suas funções defensivas, Cascais recebe pela mão de D. João II uma torre fortificada que, à semelhança das suas congéneres da Caparica e de Belém, é o prenúncio da futura fortificação abaluartada. No final do século XVI, e dada a importância crescente da defesa desta costa para a segurança de Lisboa, são elaborados vários planos para a defender, sendo o mais consistente o levado a cabo após a Restauração. Até finais do século XIX, apenas estas estruturas militares humanizarão um litoral deserto que, em breve, se tornará no mais concorrido do país. A escolha de Cascais, em 1870, pelo rei D. Luís para aí passar a época balnear, vai catapultar a humilde póvoa marítima para o lugar de primeira praia do reino e ditar o desenvolvimento de todo este litoral. É neste contexto que se vai desenvolver a arquitectura de veraneio que, com os seus belos palacetes e chalets, vai marcar as novas estâncias balneares nascidas à sombra da vila da corte. No final da I Guerra Mundial, as atenções vão virar-se para um outro ponto do concelho, quando começa a ganhar forma o sonho de Fausto Figueiredo, de uma estância balnear de luxo nos antigos pinhais de Santo António do Estoril. A chegada no final dos anos 20 à Câmara Municipal de Cascais do arquitecto modernista Jorge Segurado, vai revolucionar as directrizes arquitectónicas que vão passar a pautar o gosto da nova estância balnear. Apostada em dar a conhecer a sua história e o seu património, a Câmara Municipal de Cascais inicia agora uma colecção de Roteiros de Património que terá, numa primeira fase, os seguintes títulos: Património Natural e Geológico, Património Arqueológico, As Fortificações Marítimas, Arquitectura de Veraneio (Cascais) e Arquitectura Modernista. Outros títulos poderão seguir-se-lhes já que o património do concelho de Cascais é, por demais, rico e diversificado. Contribuir para a sua divulgação alargada é, pois, o objectivo desta colecção. ▶ Vista do Casino do Estoril, anos 40. Arq. Raoul Jourde. Foto António Passaporte – AHMC Margarida Magalhães Ramalho Coordenadora da Colecção Parque Natural Sintra-Cascais a Estr da d a Se rra Malveira da Serra 5 724 A16 EN Penha Longa a Serr Adroana ves Ne tino Manique de Baixo An jos al a Al Murtal Alapraia Av ªM arg ina l S. Pedro do Estoril Outeiro de Polima A5 elva ia a pr Estrada da Reb Av Sa ª d bó e ia li de ºA ng ªE Av da Lindoso Avª Bombeir beiro iro ir ros Vo V Volun lun ntá ttários ári Av Állv ª D va . N re u s P no er eir a Avª de Sintra aro Am no da sta Co Rua da Torre da Freiria Avª Júlio Dantas Livramento t ra Es aia oM Tires S. João do Estoril Cascais eir lgu Sa Caparide Avª Francisca ia a Are d Rua do Gu inc ho da Es tra o Monte Estoril ª Av EN 249-4 oC ab Estoril ão eiç nc Co da a a d d tra bo Es Abó da Abóboda Estrada de Polima -4 Cobre s ue Alvide drig A5 Birre Ro reia to da A Quinta da Marinha ªS rª d lia Abuxarda Parque Natural Sintra-Cascais Av ªN en am ivr Rua á Am L do da Areia tra Es Carrascal de Alvide A5 ª Av Bicesse Aldeia de Juzo Estr Tala ada d íde e Es das Trajouce Jus 249 ada Estr Talaíde Jos é EN cip rin aP Alcoitão Murches Estr ada ue Maniq Es Ou trad teir a P o d rinc e P ipa oli l de ma da de Estra S. Domingos de Rana EN 6.7 Alcabideche Variante à ad trad 6 A1 Ru Charneca 5 7- alve aM 24 Parque Natural Sintra-Cascais EN a ira d Zambujeiro Sassoeiros Parede aeródromo autódromo Carcavelos auto-estrada Av ªM arg avenida marginal ina l Biblioteca Campo de Golf Casino Centro Cultural de Cascais estação de autocarros estação de Comboios Hospital informação turística uuu Linha Férrea Linhas de Água museu 1 Hotel Palácio, na R. do Parque 2 Casino do estoril, na Praça almeida Garrett 3 Quinta Carbone (hoje destruída, na R. serpa Pinto/av. de Portugal 4 Casal de monserrate, na R. engº Álvaro Pereira de sousa 5 Casa José espírito santo silva, na R. mouzinho de albuquerque/av. d. nuno Álvares Pereira 6 edifício dos telefones, na av. marginal, nº 7493 7 Casa dos Cedros, na R. Professor doutor egas moniz/R. afonso de albuquerque 8 edifício dos Correios, na avenida marginal/av. de nice 9 Casa de s. Francisco, na av. marginal, nº 7102 10 Casa dos arufes, na R. nuno Álvares Pereira, nº 28 11 Casas geminadas da R. de inglaterra, nºs 500 e 504 Parque ou Jardim 12 Casa Claridade, na R. mouzinho de albuquerque, nº 14 13 Casa Vale Florido e Boavida, na av. General Carmona, nº 4 e 6 Vias Principais 14 Rádio Clube Português (actual Clube nacional de Ginástica), na R. machado dos santos/R. João soares, nº 112 4 Avª Avª Marginal Marginal Marginal Avª 6 A Avvvvvªªª CC A A A ªªª C C lo lotititild Clo lo lo ld lde eee e ld ld ld 2 1 8 lll iinninnnnaaalll aaarrrrrrgggiii M M M M Maaa vvªªªªªª M A AA AA Avvv Estoril m maaaaaa m m m Gaaaaaam G G G G G ddddddaaaaaa o o o o o o c c c sssccc Vaaaaaasss VV VV aV Ruuuuuuaaa R R R R R 10 arrrrrrtttttteee aa aa Duuua D D D D D 7 Av Av Av do do Av Av Avªªªªªª do Bo Bo do do dossssss Bo mb mb eir eir Bo Bo Bomb os os mb mb mbeir Vo Vo eir eir eiros lun lun os os os Vo tár tár Vo Vo Volun ios ios lun lun luntár tár tár tários ios ios ios o o o n n n o o o ru ru ru n n n A A Avvvvvªªª B B B ru ru ru B B B io io io a a a io io io ª ª p p p A A A m m A A Am m maaa m mpppaaa m m S S m am aa aa Sa S S aaad ddd de aS aa aa R R R ua uu uu eee eu Ru R R uu uu u ga gallllll ga rtu rtuga rtu Po Portu Po ga ga de de Po de rtu rtu Po Po Av de de Av Avªªªª de Av 5 Avv AAA vvvªªªªªªGG G Gaaaaa G ggggooooo Co CCC C ooouuuuu ttttttiiinniinnnnhhh hhhoooooo aa aa a mon mon mona Car Car Carmon eral eral eral Car mon mon Gen General Car Car Avª Avª Gen Gen eral eral Avª Gen Avª Avª Av AA AA A vvvªªªªªª D... 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Apresentado em 1914, em plena 1ª República, mas acelerado e concluído já durante o Estado Novo, traz consigo, de facto, características novas que o diferenciam dos casos precedentes das estâncias de veraneio vizinhas, que são exemplos da conjuntura e da mentalidade de oitocentos. O primeiro factor de sucesso do Estoril de Fausto de Figueiredo é o prestígio do sítio, como local de vilegiatura, que começara quando D. Luís escolheu a cidadela de Cascais para residir no fim do verão e início do outono, e que se acentuara com as instalações de S. João e do Monte Estoril, abrindo perspectivas auspiciosas ao futuro programa. ◀ Casal de Monserrate. Pormenor das varandas. Em séculos mais recuados, existiam apenas dois pólos de atracção neste Arq.tos Porfírio Pardal Monteiro pedaço de costa: o convento e as águas termais, desde tempos imemoriais, e Luís Cristino da Silva. 11 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Igreja de Santo António do Estoril reputadas para as doenças de pele. O convento e a igreja, datam de 1527, e marco da Estrada Real, no Estoril, sendo primitivamente um cenóbio de franciscanos, sob o padroado de Santo em meados do século XX. António. Foi restaurado, sucessivamente, e reconstruído, na forma que hoje AHMC apresenta, em meados do século XVIII. Em 1834, após a extinção das ordens religiosas, o Estado liberal vendeu a propriedade do convento e igreja, iniciando uma sucessiva troca de proprietários até chegar às mãos de José Viana, que dava o nome ao sítio que hoje conhecemos como Estoril – o “pátio do Viana”. Foi a este último que Fausto de Figueiredo, e o seu sócio Augusto Carreira de 12 arquitectura modernista Sousa, compraram, em 1913, os terrenos para o projecto do “Parque Estoril”. Em 1915, pela lei nº 477 de 18 de Setembro, foi fundada a Freguesia do Estoril, com lugares de Cascais, de São Domingos de Rana e de Alcabideche, passando a funcionar a velha igreja de Sto. António como sede da nova paróquia. A igreja é um edifício característico da arquitectura maneirista portuguesa, ou chã, no dizer de G. Kubler, muito interessante principalmente pelo seu nartex, com forro de azulejos e rica decoração, acrescentados posteriormente. O segundo elemento presente no sítio, e o mais importante para a sua história balnear, são as nascentes de água termal – Estoril e Santo António – que ganhavam em reputação às da Poça. Já no tempo do rei D. José I, que as frequentava para alívio da sua gota1, existia junto dessas fontes um balneário rústico para serviço dos doentes. Em 1880 foram restauradas e modernizadas as arcaicas instalações, agora com um edifício feito em alvenaria e com dez quartos, cada um com tina de banho. O proprietário das fontes, José Viana da Silva Carvalho, foi construindo, também, pequenas casas modestas para alugar aos banhistas e, a este conjunto, se colou o nome de “Pátio do Viana”. Em 1892, o aumento da concorrência exigiu uma ampliação e reconversão do anterior edifício clássico, transformado em estilo neo-árabe que se liga, naturalmente, ao gosto exótico da época mas também, parece ser, uma associação funcional com a cultura árabe e a sua ideia de banho, num espaço próprio e diferenciado arquitectonicamente. 1 O rei fazia a sua cura instalado no palácio do seu primeiro-ministro, em Oeiras, e deslocava-se daqui até ao Estoril para o tratamento; daí que o marquês, tenha resolvido melhorar consideravelmente a estrada que ligava Oeiras a Cascais, até ao princípio do século XX, o melhor troço de caminho entre Lisboa e a vila de Cascais. 13 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Projecção do futuro Estoril, Mas o projecto do “Parque Estoril” veio mudar este cenário e fazer surgir o Estoril no folheto Estoril: Estação marítima, num plano de centro de turismo internacional. Pensado para as necessidades do climatérica, termal e sportiva século XX, e levado a cabo pela grande iniciativa de Fausto de Figueiredo, parece de 1914. AHMC. ser a resposta, mais de trinta anos volvidos, às palavras de Ramalho Ortigão: “O sindicato de Cascais propõe-se transformar o lindo arrabalde do Estoril, onde junto da praia há uma rica nascente de água termal, em vila de banhos e de águas no moderno tipo de Wiesbaden, de Trouville ou de San Sebastian”. Citando, curiosamente, uma estância termal, uma praia e uma estância balnear e termal, Ramalho entende também a necessidade para o país daquilo que ele propõe chamar-se Estoril-les-Bains: 14 arquitectura modernista “A meia hora de Lisboa, por um caminho de ferro de luxo, na margem do Tejo, Estoril-les-Bains com o seu grande estabelecimento de banhos, com o seu casino, com as suas salas de ópera e de concertos, com as suas roletas, com os seus pavilhões enigmáticos, com os seus cottages misteriosos, e com os seus camarões em gabinete reservado, é um imprescindível complemento da civilização que felizmente desfrutamos”2. Ambicioso e activo, Fausto de Figueiredo imaginava um Estoril que realmente ainda não existia – uma estância de turismo internacional, que proporcionasse aos visitantes tanta qualidade como as mais prestigiadas congéneres europeias. Ao contrário do que, talvez, fosse de esperar, a sua visão convergiu para o pinheiral que se estendia para além do convento do Estoril e, logo após a compra da propriedade, viajou para Paris, onde convida o arquitecto Martinet para elaborar o projecto da futura estância. Em maio de 1914 publica um album-folheto onde expõe, através dos desenhos de Martinet, a sua grandiosa ideia – Estoril, Estação Marítima, Climatérica, Thermal e Sportiva. Os grandes jornais da capital dão larga notícia do projecto e apoiam, com entusiasmo, a iniciativa. Captando a atenção do poder político e conseguindo alguma legislação favorável, os promotores logo iniciam os trabalhos de terraplanagem necessários ao agenciamento do jardim central que determinava todo o plano de urbanismo. Porém, as conjunturas nacional e internacional, dramaticamente agravadas pelo eclodir da Primeira Grande Guerra, vão abrandar a realização e obrigar a algumas mudanças de rumo em relação ao programa inicial. Dos grandes equipamentos previstos, o primeiro a ficar concluído foi o estabelecimento termal, inaugurado em 25 de agosto de 1918, ainda em 2 Ramalho Ortigão, “Últimos Melhoramentos”, in As Farpas, vol. VII, Lisboa, 1943, p. 135. 15 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Praia do Tamariz e casa Schröter, fase de acabamento e que logo passa a ser o motivo principal das crónicas e no Estoril, em meados do notícias sobre o Estoril. À falta de um casino ou de um grande hotel, era aqui século XX. AHMC. que a Sociedade Estoril realizava as suas festas, recebia os jornalistas e lançava a sua propaganda. Primeira vitória da tenacidade de Fausto de Figueiredo e importante para o reconhecimento, nacional e internacional do Estoril, o edifício termal esperará ainda mais de uma década pelos dois outros equipamentos fundamentais – o casino e o hotel de luxo. Lentamente, a estância 16 arquitectura modernista ▲ ia ganhando adeptos e estruturas turísticas, como a esplanada sobre a praia Praia do Tamariz e chalet Barros, no ou novos espaços desportivas, mas também se salpicava de moradias, que se Estoril, em meados do século XX. foram construindo nos arruamentos do Parque, e que sugeriam a Branca de AHMC. Gonta Colaço o seguinte comentário: “O Estoril é um mostruário da alta burguesia lisboeta. Cada moradia, cada palacete, cada chalet, ali erguidos, têm a etiqueta dum morador ou dum proprietário 17 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Vista aérea do Estoril, em meados com situação ou nome cotado e classificado no modesto caleidoscópio da do século XX. vida nacional”3. AHMC/Colecção José Santos Fernandes. Desde o final dos anos 10 do século XX, apesar dos revezes provocados pela guerra e das dificuldades financeiras destes anos, a sociedade iniciou a urbanização das zonas em torno do centro-jardim com um concurso onde se convidavam os arquitectos portugueses a apresentarem projectos, já não para equipamentos, mas para casas de habitação a construir nos talhões que, entretanto, loteara. Aparecem, então, os nomes de Silva Júnior (1868-1937), 3 18 Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, Memórias da Linha de Cascais, 1943, p. 307. arquitectura modernista Norte Júnior (1878-1962) e Edmundo Tavares (1892-1983), com desenhos de “estilização tradicionalista” mas, na sua sequência, aparece a Companhia de Crédito Edificadora Portuguesa, que compra uma série de terrenos à empresa promotora e se propõe construir casas para vender no prazo de dez anos. O Estoril tornava-se também uma vasta operação de urbanização e venda de terrenos. Pela lógica de desenvolvimento da instalação vão ser os anos 20 e mais ainda os anos 30 de novecentos, a marcar a imagem da arquitectura privada do Estoril. Ao longo dos primeiros anos, estas moradias não trazem qualquer inovação digna de nota pois, na verdade, “são paradigmas, nas suas propostas do final dos anos 10, do desolador panorama da arquitectura nacional. (…) Se, com algum dramatismo, nos recordarmos que no início da década de 20, Walter Gropius, Mies Van der Rohe ou Corbusier têm 40 anos, que o manifesto da Bauhaus é de 1919, que Frank Lloyd Wright construíra as Prairie Houses cerca de 1900 ... ou, sem tanto dramatismo, aproximarmos estes projectos dos que Ventura Terra, Raul Lino ou mesmo Álvaro Machado haviam criado no início do século para o Monte Estoril, entende-se o carácter profundamente retrógrado que vinha marcando a sociedade portuguesa e evidentemente os seus arquitectos, e que a ditadura dos valores ruralizantes que se aproxima tinha na cidade solo fecundo de que se alimentar”4. Em1924, Raul Proença, ao escrever o artigo sobre os “Estoris” para o seu Guia de Portugal, elogia a excelência da estância, mas não assinala um só exemplo de arquitectura particular já construído nos terrenos do “Parque”, e eram as infra-estruturas turísticas que o impressionavam, grandiosas e europeias, numa apreciação que, entretanto, se tinha modificado com a propaganda crescente da nova indústria “salvadora da pátria”. 4 Raquel Henriques da Silva, “Estoril, Estação Marítima, Climatérica, Thermal e Sportiva – As Etapas de um Projecto”, in Arquivo de Cascais, Boletim Cultural do Município, C.M.C., n.º 10, 1991, p. 41. 19 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Hotel Palácio, no Estoril. Relacionada com o surto de loteamento e construção, está a criação, em AHMC. 1921, da Comissão de Iniciativa para Fomento da Indústria de Turismo de Cascais, regulamentada pelo decreto nº 8046, de 24 de Fevereiro de 1922. E, já na vigência do Estado Novo, a reforma da contribuição predial e paralela constituição de um “fundo nacional de construção”, destinado a promover e subsidiar as iniciativas particulares, que vieram proporcionar um novo alento às companhias de urbanização que proliferavam na capital e eram cada vez mais activas no Estoril, graças à abundância de terrenos e à crescente procura. De facto, os anos 20 marcam o início de uma ocupação de índice elevado, tema de várias críticas na imprensa especializada, e o Estado Novo, 20 arquitectura modernista ▲ com a legislação de 1931 para protecção e embelezamento das zonas de Casino do Estoril, em meados turismo em redor de Lisboa – Queluz, Sintra, Cascais e Estoril, criara o primeiro do século XX. AHMC. instrumento de intervenção do Estado no empreendimento de Fausto de Figueiredo, completado nos meados da década pela criação do Gabinete de Urbanização da Costa do Sol. Chegara o momento de se concluírem as duas obras de maior prestígio do Parque: o Hotel Palácio e o Casino Estoril. O hotel foi inaugurado a 31 de Agosto de 1930, com a presença do Presidente da República, ministros e corpo diplomático, numa cerimónia em que Fausto de Figueiredo foi condecorado 21 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s com a Grã-Cruz de Mérito Agrícola e Industrial. O edifício mostrava, no seu projecto final, algumas modificações significativas ao desenho inicial, “criando na fachada principal dois amplos corpos salientes, descentrados, de linhas claras e diferente coroamento que introduziram um ritmo totalmente inexistente no projecto de Martinet; do mesmo modo a simplificação das molduras das janelas e arcarias, a utilização geometrizante dos próprios frontões nos corpos salientes e a introdução do terraço superior constituem elementos de sabor modernista num corpo academizante”5. Mas a “vantagem”, do ponto de vista do modernismo, do atraso na realização das obras é ainda mais decisiva no Casino, inaugurado a 15 de Agosto de 1931, sobre as fundações do edifício projectado por Silva Júnior, que mostra uma volumetria já perfeitamente modernista, cedendo apenas, nalguns pormenores, ao gosto artes decorativas. Marcando a viragem do gosto nacional, mas também da empresa proprietária, é um importante modelo para a arquitectura imediata do Estoril, com um projecto, realizado ainda nos anos 20, por um arquitecto francês chamado Raoul Jourde. Teve a colaboração de Pardal Monteiro (1897-1957) no acompanhamento das obras finais6 e a “documentação gráfica encontrada recentemente, est(á) toda assinada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro”7 e apenas as perspectivas possuem o nome de Jourde. Levantado no local que lhe reservara Martinet, no terraço que limitava o jardim central do Parque e aberto à paisagem de mar, “o edifício possuía um único piso, tinha cobertura ▶ 5 Raquel Henriques da Silva, op. cit., p. 56. 6 Bem como intervenções plásticas de Estrela de Faria. 7 Carta de Pardal Monteiro ao administrador da sociedade “Estoril Plage”, sobre a conclusão das Casal Monserrate. obras do casino, 30 de Janeiro de 1931 (nota 42, p. 78, in Ana Ruela Ramos, Porfírio Pardal Pormenor dos jardins. Monteiro..., 1998). 22 Arquitectura Modernista 23 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s em terraço e as suas formas eram predominantemente curvas”8. Antes das últimas obras do novo casino do Estoril, que desfiguraram completamente o que ainda restava deste magnífico edifício, alguns espaços interiores eram ainda visíveis, como o vestíbulo da entrada principal “que pod(ia) servir para uma viagem no tempo, com o seu tecto animado de curiosas pirâmides invertidas em vidro”9, característico do gosto “arts déco” presente em muitos aspectos do desenho do edifício. ▼ Um outro dado importante para o reforço desta mudança, no sentido do Casal de Monserrate. modernismo, é a substituição do arquitecto Tertuliano Lacerda Marques (1883- Pormenor da entrada. 1942), “campeão” dos modelos tradicionalistas, por Jorge Segurado (1898-1990), na Câmara Municipal de Cascais. A prová-lo está um caso exemplar, precisamente de 1930. A proprietária da Quinta Carbone10, apresenta um projecto à Câmara, para um lote na esquina da Rua Serpa Pinto com a Av. de Portugal, que é indeferido num parecer assinado por Jorge Segurado. Meses depois, é aprovado um novo projecto, desta vez assinado por um engenheiro da Câmara Municipal de Cascais, Manuel Gomes, que acabou por ser construído. É um edifício de composição muito simples, mas assumidamente modernista, que Segurado aprovou. Se as tendências estéticas, destes anos, já assinalavam uma viragem a favor do modernismo, a presença de Segurado na Câmara só podia acelerar o processo. Foi o que aconteceu, nos anos seguintes, com resultados bastante interessantes. 8 Idem, p. 48. 9 Ana Ruela Ramos, op. cit., p. 49. 10 Este edifício foi recentemente demolido. 24 arquitectura modernista De facto, qualquer abordagem da arquitectura do Parque obriga-nos, necessariamente, a tomar em consideração o seu importante acervo de edifícios modernistas, bem como a defender a sua preservação da voragem dos especuladores actuais. O processo iniciado, timidamente, em 1929, com o projecto de remodelação de Pardal Monteiro (1897-1957) e Luís Cristino da Silva (1896-1976) para a casa do engenheiro Álvaro Pedro de Sousa, acentua-se ao longo da década seguinte, atingindo a sua expressão mais evidente em meados dos anos 30, para acabar em profunda crise ou confusão de valores, ao aproximar-se o ano de 1940. Este primeiro projecto dos dois grandes arquitectos, que também desenhavam os jardins, destinava-se a alterações e ampliação de um edifício já construído, optando por eliminar todos os pormenores ▲ passadistas, introduzir uma maior liberdade na articulação dos corpos do Casal de Monserrate. edifício e destacar o terraço-mirante, terminado em “pérgola”, elemento que Pormenor da escadaria. será inúmeras vezes repetido na arquitectura do Parque. A magnífica moradia ainda hoje se ergue, na rua eng. Álvaro Pedro de Sousa, na encosta poente do Parque, levando o nome de Villa Monserrate. Abrangendo os anos de 1929 e 1930, existe um outro exemplo assinalável, com um projecto da autoria de Pardal Monteiro. É a casa de José Espírito Santo Silva, que tivera um primeiro projecto considerado “de péssimo gosto” pelo funcionário da Câmara Municipal de Cascais, o que terá levado à encomenda de um segundo, ao mesmo arquitecto, datado do ano seguinte. A moradia foi edificada, em 1930, pelo construtor Elyziario Filipe dos Santos e é de composição muito simples, com rés-do-chão e águas furtadas e uma grande alpendrada, sobre duas fachadas, tudo abrangido pela mesma cobertura em 25 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Casal de Monserrate. telhado “que desce quase tocando o terreno (...) de clara influência nórdica”11. Pormenor dos jardins. Adaptando-se perfeitamente ao terreno que ocupa e à função a que se destinava, a “ousadia” deste projecto completa-se pela forma de inserção no 11 Ana Ruela Ramos, op. cit., p.63. Esta autora acrescenta ainda que “a linguagem deste telhado (…) faz-nos duvidar da autoria do projecto, pois apesar de ter sido assinado pelo (…) arquitecto, não parece tratar-se de uma obra sua, pois Pardal Monteiro nunca usou linguagens tradicionais da arquitectura de outros países” (idem. ibidem). 26 arquitectura modernista lote: ao contrário de todas as casas construídas no Parque desde 1919, nesta não se agencia um jardim, propriamente dito, construindo-se a casa no meio do imenso lote, rodeada pelo denso pinhal pré-existente. Estes dois últimos projectos, que iniciam o modernismo na arquitectura dos “Estoris”, trazem também uma nova técnica construtiva – a do betão armado – naturalmente explorada pelos arquitectos mais novos que dela se servem para concretizar a sua vontade de mudança. Utilizada inicialmente em programas específicos de equipamentos públicos, com um primeiro regulamento em 191812, ao longo da década de 20 foi entrando na prática corrente da construção civil e são os arquitectos da primeira geração modernista a torná-la um processo sistemático. Aos poucos, grande parte do antigo pinhal que rodeava o conjunto monumental das infra-estruturas turísticas projectadas por Fausto de Figueiredo, imaginado, então, como um parque com zonas para actividades desportivas, transformava-se num bairro residencial de luxo, permitindo à sociedade os capitais necessários para o seu ambicioso programa. A ocupação dos lotes, ainda muito baixa em 1930, acelerou-se a partir de então até à quase saturação actual, o que levou a mudanças de plano, sobretudo nas zonas centrais, que fazem temer pelo conjunto que é único em todo o território nacional. A década de 30 do século XX marca, de facto, a afirmação definitiva do Estoril, como a mais importante estância de vilegiatura internacional do nosso país. A propaganda intensifica-se, numa acção conjunta dos particulares, nomeadamente as empresas de Fausto de Figueiredo, e dos dois organismos especial12 “Primeiro Regulamento para o Emprego do Betom Armado” (J. Manuel Fernandes, Arquitectura Modernista em Portugal, 1993, p. 27). 27 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s mente vocacionados para tal – a Comissão de Iniciativa do Concelho de Cascais e a Sociedade de Propaganda da Costa do Sol. São inúmeros os cartazes, de arrojado desenho, então produzidos, bem como os guias e folhetos ilustrados, traduzidos em várias línguas, e onde as termas são ainda um dos pratos fortes da promoção. Em 1937, pelo Decreto-Lei nº27704, de 18 de Maio, é criada a Junta de Turismo de Cascais, procurando melhorar a vida da população e promover uma mais adequada recepção aos visitantes. Durante estes dez anos, que medeiam entre 1930 e 1940, os arquitectos modernistas conseguem fazer prevalecer as suas propostas sobre os arquitectos “tradicionalistas” e, em 1939, Francisco Keil do Amaral (1910-1975) podia afirmar com verdade, em resposta a um ataque de Ressano Garcia, “que até esse momento tinham sido os arquitectos modernistas que tinham praticamente ganho todos os concursos, e que a eles tinham sido confiados os mais significativos trabalhos”13. Esta afirmação de um novo gosto, aceite ou mesmo promovido pelas instituições dirigentes, que acontece simultaneamente ao período de maior impulso de construção no Parque, explica o importante conjunto de objectos que agora nos ocupa. Como acontece na generalidade da arquitectura portuguesa modernista, também aqui encontramos uma “genealogia” de influências estrangeiras, predominando as escolhas dos arquitectos mais activos no Estoril, que criam os modelos posteriormente copiados, com maior ou menor compreensão, por engenheiros e construtores. Aliás, a maior percentagem de projectos moder13 Pedro Vieira de Almeida e José Manuel Fernandes, in História da Arte em Portugal, vol. 14, “A Arquitectura Moderna”, 1986, p. 58. 28 arquitectura modernista nistas para o Estoril, é da responsabilidade de engenheiros, seguidos pelos construtores civis e, só uma minoria é da autoria de arquitectos. O domínio completo dos aspectos técnicos e a compreensão progressiva dos valores da arquitectura moderna, permitem o aparecimento de alguns exemplos notáveis, precisamente com risco de engenheiros. As duas mais importantes influências presentes são, por um lado, a da arquitectura holandesa, misturando formulações marcadamente expressionistas e, por outro, a ressonância da arquitectura racionalista, não como a entendiam Gropius ou Le Corbusier, mas a mais fácil proposta de arquitectos como Robert Mallet-Stevens, “que explorava uma linguagem de ‘racionalismo doce’, algo decorativo, não isento de alguma contradição não dominada, mas que por isso mesmo respondia melhor à timidez da formação teórica da arquitectura portuguesa”14. A primeira destas tendências liga-se às intervenções dos arquitectos Adelino Nunes (1903-1948)15 e António Varela (1902-1963)16, responsáveis pelos projectos modernistas mais importantes do Estoril, a partir de 1932. Ambos trabalharam assiduamente em colaboração com Jorge Segurado que, 14 Idem, ibidem. 15 Fazendo parte da Comissão Construtora dos Novos Edifícios dos CTT, é um dos arquitectos modernistas com um maior número de obras construídas e em todo o território nacional, de Barcelos ao Funchal. Mas além dos Correios, o seu nome está também ligado aos concursos para os liceus (1931), em equipa com Carlos Ramos e Jorge Segurado, tendo vencido o concurso para o liceu Júlio Henriques, em Coimbra. 16 É o responsável por um dos primeiros edifícios fabris modernistas com o projecto, de 1938, para Matozinhos, de uma fábrica de conservas. Também colaborou com J. Segurado em, pelo menos, dois projectos: em 1934, para uma «cidade olímpica» no Campo Grande, e para o «Lar dos Pobres» nas Caldas da Rainha em 1941. 29 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Projecto da Estação Telefónica juntamente com Keil do Amaral, era o grande conhecedor da arquitectura do Estoril (Alçado posterior). holandesa e, sobretudo, da obra de W. Dudok, de que é prova o magnífico Arq. Adelino Nunes. AHMC projecto para a Casa da Moeda, em Lisboa. A segunda proposta, insere-se na tendência mais geral da arquitectura portuguesa destes anos, uma vez que, a maioria dos nossos arquitectos se sentia mais à vontade com estas formulações menos abstractas, ao mesmo tempo que os modelos produzidos são mais acessíveis às reproduções feitas por engenheiros e construtores. 30 arquitectura modernista Se o ano de 1931 marca o início de um novo ciclo na arquitectura do Estoril, inaugurando o seu mais emblemático equipamento dentro do novo gosto, logo em 1932, surge um outro programa da maior importância, cuja polémica levará à construção de um dos mais notáveis edifícios modernistas do Estoril. Trata-se do projecto para os Telefones, nessa altura ainda propriedade da companhia inglesa – The Anglo-portuguese Telephone C.ª Lda.. A primeira proposta apresentada, da autoria dos engenheiros da empresa, foi rejeitada por 31 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Casa dos Cedros. ter altura excessiva para o local previsto, quase sobre a praia, entre a estrada Arq. Adelino Nunes. nacional e a linha de caminho de ferro. O resultado desta recusa acertada, foi uma nova encomenda, desta vez a Adelino Nunes e a construção, em 1933, do edifício que ainda hoje podemos admirar. Compreendendo a particularidade do local, o arquitecto desenhou um edifício de um único piso, ao nível da rua e outro em cave, que se desenvolve em comprimento, onde a monotonia é completamente superada pelo jogo de corpos assimétricos, acentuado no volume cilíndrico, de linhas verticais e horizontais, através da fenestração e dos sóbrios pormenores decorativos. 32 arquitectura modernista ▲ O mesmo arquitecto realiza ainda, os dois projectos mais interessantes, que se Edifício dos Correios do Estoril. seguem no tempo. O primeiro, é uma casa particular, construída para Maria da Projecto da autoria de Adelino Câmara Assis Posser de Andrade, em 1935, no gaveto das ruas Prof. Egas Moniz Nunes. e Afonso de Albuquerque, na zona norte do Parque onde, aliás, predominam as escolhas modernistas. Algo desfigurada pelo acrescento do piso recuado que hoje apresenta, combina soluções quer do edifício anterior, quer do seguinte, que o arquitecto realizará para os Correios: uma planta em V, aproveitando da melhor maneira o lote em ângulo agudo, que veremos retomada no projecto seguinte, a pequena pala semi-circular, apoiada em colunas lisas, que dialoga com as varandas estreitas, também terminadas em volumes redondos, que são citações do projecto anterior. A escolha de uma entrada recuada e a absoluta 33 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s simetria dos volumes, fazem a principal diferença relativamente aos outros projectos. Com muito mais ousadia, imaginação e cuidado de pormenores, Adelino Nunes vai apresentar, no ano seguinte, uma proposta de planta idêntica para o edifício dos Correios, na esquina da hoje Av. Marginal com a Av. de Nice. O notável jogo dos materiais, dos volumes e das superfícies, fazem deste projecto uma das peças mais importantes do modernismo do Estoril. Assumindo claramente o valor plástico das volumetrias assimétricas, sem recorrer, praticamente, a elementos decorativos para animar as fachadas, o arquitecto mostra um grande domínio dos valores modernistas, aproximando-se como nunca da arquitectura holandesa. A demonstrá-lo está, não só o hábil jogo de planos e linhas “neoplasticistas”, mas também a criação de um espaço novo, em termos urbanos, conseguido pela “esquina dinâmica”, espacial e volumetricamente ▲ evidenciada pelo poderoso cilindro, elemento gerador de toda a organização Casa de S. Francisco. do espaço interior. Projecto da autoria de António Varela. No mesmo ano de 1936, surge o melhor objecto de arquitectura particular, na casa do engenheiro António Cortez Lobão, com projecto de António Varela, para o lote imediatamente a nascente dos Correios. A casa, de planta bastante regular, onde predominam os ângulos rectos, consegue uma notável harmonia pelo discreto jogo dos volumes e pela sábia distribuição das aberturas. Um corpo semi-cilíndrico no primeiro pavimento, correspondente à sala de jantar e ▶ coberto por um terraço servindo o quarto superior principal, na fachada poente, Projecto da Casa de S. Francisco. o recuo e desnível dos corpos na fachada nascente, aliando-se ao desenho das (Alçados Nascente e Poente). janelas baixas e assimétricas contornando os ângulos, assim como às pequenas AHMC. “vigias” redondas da empena oeste, assinalam a qualidade deste projecto, bem 34 arquitectura modernista 35 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Casa de S. Francisco. como a sua fidelidade ao princípio modernista do tratamento equivalente de todas as fachadas, ainda acentuada pela lateralização da entrada. A restante produção modernista destes anos, de qualidade muito desigual, tem ainda alguns edifícios que merecem ser assinalados, quer pela sua excepção, quer pelo seu carácter de modelos de maior reprodução no Estoril. No primeiro caso, está a moradia construída no gaveto da Av. D. Nuno Álvares Pereira 36 arquitectura modernista com a rua Melo e Sousa, encomendada a um engenheiro pela Sociedade de Edificações Lda., em 1938, hoje sede do jornal Anglo-Portuguese News. A sua grande mais valia está na planta que, aproveitando correctamente o traçado e a exiguidade do lote, consegue uma solução muito dinâmica de volumes curvos. Alterada pelo elemento construído no terraço da cobertura, mantém ainda os típicos gradeamentos da época e utiliza, uma vez mais, o corpo semi-cilíndrico, com janelas e varanda, frequentemente repetido. Duas outras casas, novamente na zona a norte do Parque, podem ser incluídas neste pequeno conjunto de exemplos de maior qualidade, únicas comparáveis ao modelo de António Varela. A primeira, ergue-se sobre a Rua de Inglaterra, e consta de um projecto para duas moradias geminadas, em que a forte assimetria esconde e valoriza o seu carácter. A complexidade da volumetria, o tratamento cuidado das superfícies e o dinamismo das aberturas, fazem dela um objecto de excepção no modernismo do Estoril. A segunda, na Rua ▲ Mouzinho de Albuquerque, mostra, mais do que qualquer outra, a influência Casa de N.ª Sr.ª da Visitação. dos desenhos de R. Mallet-Stevens (1886-1945), com a sua estrutura de volumes fortemente animada, sobretudo no corpo das escadas, sobre a ilharga poente, com um notável jogo de aberturas. O arquitecto francês, principalmente activo em Paris, fizera, no entanto, algumas obras emblemáticas para sítios da costa, como o Hotel-Casino em Saint Jean-de-Luz, entre 1923 e 192817, ainda de marcada simetria, e a villa de Hyeres para o visconde Charles de Noailles, 17 Diccionaire d’Architecture du XXeme Siècle, 1996, p. 572. 37 R o t e i R o s ▶ Casa da Rua de Inglaterra, no Estoril. 38 d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s arquitectura modernista ▲ entre 1924 e 193318, onde encontramos as referências fundamentais para estas casas do Estoril. Ao longo da Av. General Carmona, que sobe perpendicularmente à meialua de parqueamento do primeiro casino, todas as casas são destes anos e 18 A magnífica moradia tinha também um famoso jardim, desenhado por Grevekian (conhecido desde a Exp. das Artes Decorativas de 1925, em Paris) (cf. The House Book, 2001. p. 277). 39 Casa Claridade. R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Casa Vale Florido. constituem um verdadeiro repositório do modernismo português, bem como Arq. Luís Cristino da Silva. das influências dominantes, presentes no Estoril. Infelizmente, nenhuma delas alcança a qualidade das anteriores, mas são um óptimo conjunto de estudo para os aspectos acima referidos. Como exemplo, vejamos duas moradias: a primeira, no nº6 da avenida, onde um poderoso corpo cilíndrico de escadas, com abertura vertical e encimado por um volume também cilíndrico, de menores proporções, lembra os valores da arquitectura expressionista, enquanto o desenho da varanda e os pormenores da cobertura, mostram a filiação na importante escola holandesa; a segunda, ocupando o nº 4, é a casa Vale Florido, concluída em 1939 por Cristino da Silva, com um projecto de 1936. Trata-se de um conjunto de duas moradias geminadas, destinando-se uma delas para a habitação secundária do arquitecto e a outra a rendimento. Cristino da Silva, 40 arquitectura modernista ◀ Casa Vale Florido. Pormenor. ▼ Casa Vale Florido. sempre mostrara interesse pela zona da Costa do Sol e, em 1927, publicara na revista Arquitectura um artigo intitulado “O Regionalismo e a Arquitectura”, onde o tema inflamado era a crítica severa aos “chalets suiços” que tinham invadido a Costa do Estoril, defendendo, em seguida, que uma tendência podia salvar essa região – o regionalismo, definindo-o assim: “A adaptação da arquitectura à região não consta só da aplicação de elementos que dizem ser portugueses: alpendres, beirados, vasos à janela, azulejos, etc., distribuídos ao acaso pelas fachadas, não! Isso é arquitectura de bric-à-brac! O regionalismo é qualquer coisa de mais profundo e rasgado: atender, sim, aos elementos nacionais, mas antes de mais nada formar um sentido de conjunto deixando para depois a pormenorização”19. O texto é muito interessante por 19 Arquitectura, n.º 5, Maio de 1927. 41 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s ▲ Casa Boavida. diferentes razões: em primeiro lugar, como sintoma da cultura arquitectónica em Portugal quase no final dos anos 20, período dos primeiros projectos modernistas (como o Capitólio do próprio arquitecto), provando que a nova linguagem ensaiada constituía apenas mais um “estilo”; em segundo lugar, a afirmação de uma nova mentalidade desta geração de arquitectos que, apesar de tudo, combatem os valores decorativos triunfantes da “casa portuguesa”, defendendo a primazia das estruturas arquitectónicas; por último, a curiosa evolução que, ▶ dez anos depois, o arquitecto mostra na sua casa do Estoril, optando pela arqui- Casa Boavida. tectura racionalista – superfícies rebocadas lisas, vãos não guarnecidos, volumes 42 Arquitectura Modernista 43 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s simples pintados a branco e cobertura em terraço – embora “as pérgolas, os arcos e os muros de alvenaria rústica de pedra, nas traseiras, resta(ssem) como elementos de carácter nacionalista”20. No seu conjunto o edifício apresenta uma enorme contenção e sobriedade na sua rigorosa simetria, aliadas a um magnífico equilíbrio de proporções e a um belíssimo desenho das janelas, numa combinação muito próxima da melhor prática modernista . Observando as plantas da maioria destas casas modernistas, vemos que, ao nível da distribuição dos espaços, aparecem, embora timidamente, algumas inovações. A mais comum é uma nova articulação, já não imposta pela fachada principal, tirando partido do jogo das volumetrias assimétricas, entre as diferentes divisões interiores e uma nova relação destas com o exterior; mais rara, é a total abertura dos espaços sociais, com a indiferenciação de funções, que o modernismo também propunha, mas que os donos destas casas ainda não aceitavam. Se considerarmos individualmente cada um dos objectos modernistas que ainda sobrevivem no Estoril, teremos de reconhecer que, o número de edifícios, realmente notáveis, é bastante diminuto. Porém, dois aspectos devem ser sublinhados, em relação a eles. Em primeiro lugar, pela intensidade da construção que é característica destes anos, o modernismo marca o carácter arquitectónico do Estoril. Em segundo lugar, se observarmos estes objectos na sua totalidade, eles constituem um campo de estudo para o nosso modernismo único em todo o país, ao mesmo tempo que encerram uma vivência e uma memória que são dignas de preservar. A corajosa “aventura” do nosso primeiro modernismo está 20 44 João de Sousa Rudolfo, Luís Cristino da Silva e a Arquitectura Moderna em Portugal, 2002, p. 83. arquitectura modernista aqui patente, não em projectos, mas em edifícios construídos, o que “era uma lança em … Portugal”, uma vez que não se apoiam numa reflexão teórica ou se discutem no ensino oficial. “Desde o receituário de Lino, (…) que nenhum arquitecto publicara um livro de divulgação ou teorização, nem mesmo panfletos ou artigos, e as revistas que vegetaram ao longo dos anos 20 pouca e má divulgação faziam do que lá fora se estava a passar”21. Em todo o concelho de Cascais mais nenhuma povoação possui um tal conjunto de edifícios modernistas como o Estoril. Porém, um exemplo com algum interesse, remotamente comparável, poderíamos encontrar na Parede, não fosse a quase completa destruição, que o crescimento recente da localidade, deixou acontecer à sua arquitectura modernista. A Parede é uma estância que começa a formar-se a partir de 1890, quando o almirante Nunes da Mata se deixa encantar pela beleza das suas ribas e amenidade das suas praias: “encarrapitada no seu pequeno outeiro a uns 800 m de distância (da linha do comboio), não passava de uma pequena aldeia com pequenas casas de modestos agricultores e canteiros. Mas a sul da linha férrea nem uma única casa, nem uma única árvore ou arbusto atenuavam a desolação desta larga planície coberta de muros de pedra solta. Entretanto tendo notado que do lado nascente havia uma bem abrigada praia e que do poente havia outra, que a planície era airosa e pouco acidentada e que a atmosfera era de grande brilho e transparência, momentaneamente na minha imaginação passou o panorama, como em um cinema, de uma futura cidade erguida sobre os desmantelados muros desta desolada região. A nós mesmos prometemos então envidar todo 21 Nuno Portas, “A Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal, uma interpretação”, in Bruno Zevi, História da Arquitectura Moderna, II vol., 1977, p. 708. 45 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s o nosso esforço a conseguir que nas ribas do mar não fossem construídas casas como vimos com tristeza construir em S. João do Estoril”22. Sem instrumentos legais que permitissem esta desejada preservação, o almirante começou, então, a comprar sistematicamente os terrenos da beira mar e, deste modo, traçando as linhas mestras da nova povoação de veraneio, agenciada entre a linha de caminho de ferro e a Estrada Militar (hoje Avenida Marginal), disciplinadamente composta, ao longo de ruas “de largura racional”. Ao longo dos anos de 1890 surgem os primeiros chalets da Parede, como a casa de José Nunes da Mata, num grande lote imediatamente a sul da linha férrea, quase sempre ligados a nomes de ilustres republicanos portugueses ideologicamente próximos do almirante, como João Arriaga ou Júlio de Vilhena. No final do século XIX, a construção destes novos edifícios atraiu a atenção para a Parede e em 1899 inaugura-se o lawn-tennis e, no ano seguinte, abre as suas portas o Clube. É também neste ano que, por iniciativa de Frederico Biester e D. Amélia Chamiço Biester, foi decidido implantar na povoação o equipamento que mais prestígio lhe trouxe, o sanatório para doenças ósseas. O projecto foi entregue ao arquitecto Rozendo Carvalheira (1864-1919) que, “dirigindo uma equipa onde colaboraram alguns dos nomes maiores da arquitectura portuguesa de então, executou aí a sua obra mais significativa e que é também uma das mais notáveis produções arquitectónicas da época, tanto pelo sentido funcionalista moderno da planta, da construção e dos equipamentos específicos, como pelos trabalhos finais de decoração onde há a salientar os belos painéis de azulejos, obra prima da azulejaria portuguesa arte nova”23. 22 “Considerações dispersas a respeito da Parede”, in Jornal da Cascais, n.º 94, 1/5/1932. 23 Raquel Henriques da Silva, “A Arquitectura de Veraneio em S. João do Estoril, Parede e Carcavelos, 1890-1930”, in Arquivo de Cascais – Boletim Cultural da Município, n.º 7, 1988, p. 147. 46 arquitectura modernista ▲ As primeiras décadas do século XX assistem ao desenvolvimento contínuo da Rádio Clube Português. nova povoação, ligada ao veraneio de alguns notáveis mas sobretudo de famílias Arq. Vasco Lacerda Marques. da média burguesia empreendedora, que a partilham harmoniosamente com AHMC/Colecção José Santos os doentes responsáveis, com frequência, pela instalação permanente de novos habitantes. Neste contexto, os anos 30 de novecentos foram de considerável crescimento e essa é, com certeza, uma das razões que explicam o aparecimento precoce de uma renovação arquitectónica, no sentido do depuramento modernista, que aqui observamos. Desde 1930 que encontramos nos processos camarários esta vontade de “modernizar”, sobretudo em projectos de renovação ou transformação de edifícios construídos ou em construção, mas é em Novembro de 1932 que surge a primeira referência ao edifício modernista mais importante da Parede e um dos poucos que ainda subsistem – as instalações do Rádio Clube Português. A emissora, fundada em 1928 como rádio local, passou a chamar-se Rádio Clube Português em 1931 quando “já se ouvia além do país, nas colónias, no 47 Fernandes. R OTEI R OS 48 DO P AT R IMÓNIO DE C AS C AIS arquitectura modernista estrangeiro”24. Este enorme sucesso exigiu a construção de instalações próprias, em terreno cedido pela Câmara Municipal de Cascais e com projecto do arquitecto Vasco L. Marques (1907-1972), em colaboração com o seu pai, o “campeão” do gosto português na arquitectura dos “Estoris”, Tertuliano Lacerda Marques (1883-1942). O projecto entra na Câmara em Janeiro de 1933 e o edifício foi inaugurado oficialmente em 18 de Fevereiro de 193425. O grande edifício, de marcada horizontalidade, articulado em múltiplos corpos de cariz modernista, mostra ainda coberturas planas e janelas muito baixas acentuando os ângulos da fachada principal; originalmente, este desenho de grande racionalidade, continuava nos muros exteriores, nos portões e também no lettering. Neste mesmo ano de 1934 vemos surgir o nome de António Varela, o arquitecto do melhor projecto de habitação no Estoril, numa encomenda semelhante para José Maria Vilhena Barbosa de Magalhães, para um terreno com frentes para as ruas Marquês de Pombal e Três de Maio, hoje, infelizmente, já demolida. Pelo processo camarário nota-se o desenho do arquitecto, com muitas semelhanças com o projecto do Estoril, sobretudo no jogo dos corpos e aberturas, mas sem nenhum elemento cilíndrico como lá acontecia. Nos anos seguintes, até ao final da década de 30, vemos alguns projectos modernistas bastante interessantes e, por vezes, com assinatura de arquitectos importantes do nosso primeiro modernismo. É o caso, por exemplo, de Raul Tojal (1900-1989) que aceita a encomenda para desenhar uma casa unifamiliar, a construir na rua Luís de Camões, a pedido de Seabra – Empreza Construtora de Moradias Económicas. De um só piso, com planta triangular, simples e bem articulada, mostra soluções híbridas mas é exemplo de contenção e eficácia notáveis. Já do início da década ◀ Rádio Clube Português. 24 25 Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, Memórias da Linha de Cascais, 1943, p. 254. O Estoril, n.º 110, 18-2-1934 e Jornal de Cascais, n.os AHMC/Colecção José Santos 156 e 158, de 20-2 e 10-3-1934. Fernandes. 49 R o t e i R o s ◀ Projecto da Rádio Clube da Parede. AHMC. 50 d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s arquitectura modernista de 40, existia ainda há poucos anos uma das poucas moradias modernistas que restavam na Parede. Falamos da casa de Lídia Freitas Cordeiro de Penha Coutinho, levantada na rua José Carlos da Maia, com desenho do construtor Jeronymo d’Oliveira, muito activo nestes anos em toda a Costa do Sol. Copiando os modelos mais em voga de arquitectos e engenheiros, o projecto mostra alguma elaboração, compondo duas habitações, uma em cada um dos pisos, com os seus corpos diferenciados, destacando-se o meio cilindro das escadas e o meio exágono das salas de jantar e entradas independentes, uma no corpo de escada e a do rés-do-chão recuada no extremo oposto. As janelas baixas que se abrem entre os frisos que correm horizontalmente a fachada, são contrariadas pelas estreitas frestas de iluminação que se abrem no corpo de escadas que se eleva consideravelmente acima da platibanda. Finalmente, devemos referir a única moradia ainda de pé, construída seguramente nestes anos, mas da qual não temos qualquer notícia. Levanta-se, embora em muito mau estado de conservação, na Av. da República, já nos limites da Parede em direcção a Carcavelos e é, apesar de tudo, um belíssimo exemplar desta primeira “aventura” do nosso modernismo. Uma fachada mais estreita sobre a avenida, onde se pratica a entrada através de um corpo semi-cilíndrico muito robusto, sobrepujado por um de igual desenho mais pequeno, jogos diferenciados de corpos e alçados e uma fachada posterior, virada a sul e ao mar, com uma enorme varanda fechada no primeiro andar, cobrindo um terraço aberto sobre o jardim, são os temas fundamentais desta arquitectura que, milagrosamente, ainda podemos tentar salvar do “destino” que tiveram quase todas as outras, de forma drástica na Parede, mas que também já fez desaparecer alguns belíssimos exemplares da arquitectura modernista do Estoril. 51 R o t e i R o s d o P a t R i m ó n i o d e C a s C a i s Bibliografia ALMEIDA, Pedro Vieira de ; FERNANDES, José Manuel - A arquitectura moderna em Portugal. In HISTÓRIA da Arte em Portugal. Lisboa : Alfa, cop. 1986. Vol. 14. BRIZ, Maria da Graça Gonzalez - A arquitectura modernista do Estoril : 1930-1940. Arquivo de Cascais - Boletim Cultural do Município. Cascais. N.º 10 (1991), p. 61-72. ___ - A vilegiatura balnear marítima em Portugal (1870-1970) : sociedade, arquitectura e urbanismo. Lisboa : [s.n.], 2004. Dissertação de doutoramento em História da Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. PORTAS, Nuno - A evolução da arquitectura moderna em Portugal : uma interpretação. In ZEVI, Bruno - História da arquitectura moderna. Lisboa : Arcádia, 1977. Vol. II. SILVA, Raquel Henriques - A arquitectura de veraneio em S. João do Estoril, Parede e Carcavelos, 1890-1930. Arquivo de Cascais - Boletim Cultural do Município. Cascais. N.º 7 (1988), p. 93-174. ___ - Cascais. Lisboa : Presença, 1988. ◀ Casal de Monserrate. 53