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Nos anos de 1920, O Estoril começava a ganhar forma como principal
estância balnear do país. Sonhada por Fausto Figueiredo para rivalizar com
as suas congéneres estrangeiras, a Costa do Sol, como ficou então conhecida,
começou a atrair as atenções nacionais e internacionais e a par do projecto
turístico começou também a desenvolver-se um projecto imobiliário. Se numa
primeira fase o gosto arquitectónico estava ligado ao passado, a entrada na
Câmara Municipal de Cascais do arquitecto Jorge Segurado, um dos pioneiros
da chamada «Arquitectura Moderna» veio alterar essa tendência. Durante
a década de 1930, no Estoril e também noutras localidades do concelho
vão ser construídos edifícios particulares e oficiais pautados por esta nova
estética. São exemplos disso o primitivo casino, os edifícios dos Correios e
da Companhia dos Telefones e dezenas de casas particulares algumas delas
desenhadas por arquitectos conceituados como Pardal Monteiro, Adelino
Nunes e António Varela.
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O património, nas suas diferentes manifestações, abrange todos os vestígios
de actividade humana num território, os quais constituem importantes fontes
de informação sobre a vida e as actividades das pessoas ao longo dos tempos.
Ele regista e exprime o longo processo do desenvolvimento histórico, formando
a essência das diversas identidades nacionais, regionais e locais. O património
individual e a memória colectiva de cada localidade ou de cada comunidade são
insubstituíveis, e assumem-se como um importante alicerce para o desenvolvimento das sociedades.
Como objectivo essencial da gestão do património deverá eleger-se a comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação através da
divulgação junto da comunidade residente e dos visitantes.
Apesar de muitas destas moradias terem já desaparecido e de outras estarem
muito degradadas, ainda existe no Estoril um número considerável de edifícios
modernistas. Dar a conhecê-los ao grande público e realçar a sua importância
patrimonial, como forma de travar o seu desaparecimento, é o principal
objectivo deste Roteiro da Arquitectura Modernista,assinado pela professora
Maria da Graça Briz que nos vai levar a passear por ruas tranquilas de um
Estoril que normalmente desconhecemos.
Promover o conhecimento do território através da observação dos vestígios do
passado, dos sítios e ambientes construídos, da biodiversidade, das tradições
e costumes, da produção técnica e científica, literária ou artística constitui um
desafio que se assume como essencial e imprescindível aos dirigentes e a todas
as instituições nacionais e locais.
Arquitectura Modernista
Maria da Graça Gonzalez Briz é Doutora em História da Arte Contemporânea com
uma tese intitulada A Vilegiatura Balnear Marítima em Portugal. Urbanismo,
Arquitectura e Sociedade. 1870-1970. É, desde 1992, docente do Departamento
de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade
Nova de Lisboa, onde lecciona, para além de outras disciplinas da licenciatura,
um seminário de mestrado subordinado ao tema Arte, Sociedade e Turismo.
É investigadora integrada do Instituto de História da Arte desta mesma
Faculdade. Publicou já, no Boletim Cultural do Município de Cascais trabalhos
sobre o urbanismo e a arquitectura do Concelho.
01 Património natural e Geológico
02 Património arqueológico
03 Fortificações marítimas
04 arquitectura de Veraneio Cascais
05 Arquitectura Modernista
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apresentação
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ARQUITECTURA MODERNISTA
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Arquitectura Modernista
A colecção “Roteiros do Património de Cascais” reúne, em volumes temáticos,
da autoria de especialistas nas diversas áreas do Património, um conjunto de
informação de elevada qualidade, coligida de forma a optimizar a compreensão
sobre as características significativas do nosso património, permitir o seu usufruto, o seu entendimento, o conhecimento fundamental para a sua preservação
e valorização da nossa herança cultural.
Agradecemos a todos os que contribuíram para esta edição, nomeadamente
aos autores dos vários temas que integram a colecção: Património Natural
e Geológico, Engº Eugénio Menezes de Sequeira e Doutor Miguel Magalhães
Ramalho; Património Arqueológico, Doutor José d’Encarnação e Dr. Guilherme
Cardoso; Fortificações Marítimas, Drª Margarida Magalhães Ramalho; Arquitectura
de Veraneio (Cascais), Doutora Raquel Henriques da Silva e Arquitectura
Modernista, Doutora Maria da Graça Briz.
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Arquitectura Modernista
antónio d’orey Capucho
ana Clara Justino
Presidente da Câmara Municipal
Vereadora do Pelouro da Cultura
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Arquitectura Modernista
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apresentação
O património, nas suas diferentes manifestações, abrange todos os vestígios
de actividade humana num território, os quais constituem importantes fontes
de informação sobre a vida e as actividades das pessoas ao longo dos tempos.
Ele regista e exprime o longo processo do desenvolvimento histórico, formando
a essência das diversas identidades nacionais, regionais e locais. O património
individual e a memória colectiva de cada localidade ou de cada comunidade são
insubstituíveis, e assumem-se como um importante alicerce para o desenvolvimento das sociedades.
Como objectivo essencial da gestão do património deverá eleger-se a comunicação do seu significado e a necessidade da sua conservação através da
divulgação junto da comunidade residente e dos visitantes.
Promover o conhecimento do território através da observação dos vestígios do
passado, dos sítios e ambientes construídos, da biodiversidade, das tradições
e costumes, da produção técnica e científica, literária ou artística constitui um
desafio que se assume como essencial e imprescindível aos dirigentes e a todas
as instituições nacionais e locais.
A colecção “Roteiros do Património de Cascais” reúne, em volumes temáticos,
da autoria de especialistas nas diversas áreas do Património, um conjunto de
informação de elevada qualidade, coligida de forma a optimizar a compreensão
sobre as características significativas do nosso património, permitir o seu usufruto, o seu entendimento, o conhecimento fundamental para a sua preservação
e valorização da nossa herança cultural.
Agradecemos a todos os que contribuíram para esta edição, nomeadamente
aos autores dos vários temas que integram a colecção: Património Natural e
Geológico, Engº Eugénio Menezes de Sequeira e Dr. Miguel Magalhães Ramalho;
Património Arqueológico, Doutor José d’Encarnação e Dr. Guilherme Cardoso;
Fortificações Marítimas, Drª Margarida Magalhães Ramalho; Arquitectura de
Veraneio (Cascais), Doutora Raquel Henriques da Silva e Arquitectura Modernista,
Doutora Maria da Graça Briz.
antónio d’orey Capucho
ana Clara Justino
Presidente da Câmara Municipal
Vereadora do Pelouro da Cultura
Propriedade e Edição
Câmara Municipal de Cascais
Coordenação Científica
Margarida Magalhães Ramalho
Coordenação editorial
António Carvalho
Conceição Santos
Apoio à edição
Ana Constante
João Pedro Cabral†
Autor
© Graça Briz
Fotografias
Giorgio Bordino
Arquivo Histórico Municipal de Cascais (AHMC)
Colaboração
Ana Lima
Ângela Santos
Maria João Monteiro
Design Gráfico
Sersilito
Impressão e acabamentos
Sersilito-Empresa Gráfica, Ldª – Maia
Setembro 2010
ISBN
978-972-637-182-3
Depósito legal
312984/10
Tiragem
2000 exemplares
Todos os direitos estão reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada num sistema de
processamento ou transmitida por qualquer forma ou por quaisquer meios, electrónicos, mecânicos, fotocópia, gravação e
quaisquer outros sem permissão do editor.
Introdução
Com uma história geológica de 150 milhões de anos e um património natural
invejável, o território que corresponde ao actual Concelho de Cascais, foi
habitado desde a Pré-História. Aninhado à sombra protectora da Serra de
Sintra, que serve de barreira «aos ventos do quadrante norte, carregados
de humidade oceânica» este território tinha então, como ainda hoje, um clima
de excepção. A proximidade do mar e a fertilidade da terra completavam
o cenário de paraíso que favoreceu ao longo dos tempos a instalação do
Homem na região. Desses nossos longínquos antepassados ficaram vestígios
importantes, de que as grutas do Poço Velho, de S. Pedro ou da Alapraia são
alguns exemplos. Muitos séculos mais tarde, por aqui também vão fixar raízes
os romanos que nos deixaram legados consideráveis em Casais Velhos, no Alto
do Cidreira, em Miroiços da Malveira da Serra e, sobretudo em Freiria.
Apesar de mais escassos, os testemunhos da presença tardo-romana e muçulmana também têm sido revelados através de várias escavações arqueológicas.
A história do município só começa verdadeiramente em 1364, quando D. Pedro I
eleva Cascais à categoria de vila e a desanexa da sujeição a Sintra. Com um
porto de águas mansas, paredes meias com o oceano e vizinho da Barra do
Tejo, cedo Cascais vai sentir na pele a ambição de piratas e corsários. Para evitar
este triste fadário e tendo em conta que o castelo medieval já não cumpria
as suas funções defensivas, Cascais recebe pela mão de D. João II uma torre
fortificada que, à semelhança das suas congéneres da Caparica e de Belém, é
o prenúncio da futura fortificação abaluartada. No final do século XVI, e dada
a importância crescente da defesa desta costa para a segurança de Lisboa, são
elaborados vários planos para a defender, sendo o mais consistente o levado
a cabo após a Restauração. Até finais do século XIX, apenas estas estruturas
militares humanizarão um litoral deserto que, em breve, se tornará no mais
concorrido do país.
A escolha de Cascais, em 1870, pelo rei D. Luís para aí passar a época balnear,
vai catapultar a humilde póvoa marítima para o lugar de primeira praia do
reino e ditar o desenvolvimento de todo este litoral. É neste contexto que se
vai desenvolver a arquitectura de veraneio que, com os seus belos palacetes
e chalets, vai marcar as novas estâncias balneares nascidas à sombra da vila
da corte.
No final da I Guerra Mundial, as atenções vão virar-se para um outro ponto do
concelho, quando começa a ganhar forma o sonho de Fausto Figueiredo, de
uma estância balnear de luxo nos antigos pinhais de Santo António do Estoril.
A chegada no final dos anos 20 à Câmara Municipal de Cascais do arquitecto
modernista Jorge Segurado, vai revolucionar as directrizes arquitectónicas que
vão passar a pautar o gosto da nova estância balnear.
Apostada em dar a conhecer a sua história e o seu património, a Câmara
Municipal de Cascais inicia agora uma colecção de Roteiros de Património que
terá, numa primeira fase, os seguintes títulos: Património Natural e Geológico,
Património Arqueológico, As Fortificações Marítimas, Arquitectura de Veraneio
(Cascais) e Arquitectura Modernista. Outros títulos poderão seguir-se-lhes já
que o património do concelho de Cascais é, por demais, rico e diversificado.
Contribuir para a sua divulgação alargada é, pois, o objectivo desta colecção.
▶
Vista do Casino do Estoril, anos 40.
Arq. Raoul Jourde.
Foto António Passaporte – AHMC
Margarida Magalhães Ramalho
Coordenadora da Colecção
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Hotel Palácio, na R. do Parque
2 Casino do estoril, na Praça almeida Garrett
3 Quinta Carbone (hoje destruída, na R. serpa Pinto/av. de Portugal
4 Casal de monserrate, na R. engº Álvaro Pereira de sousa
5 Casa José espírito santo silva, na R. mouzinho de albuquerque/av. d. nuno Álvares Pereira
6 edifício dos telefones, na av. marginal, nº 7493
7 Casa dos Cedros, na R. Professor doutor egas moniz/R. afonso de albuquerque
8 edifício dos Correios, na avenida marginal/av. de nice
9 Casa de s. Francisco, na av. marginal, nº 7102
10 Casa dos arufes, na R. nuno Álvares Pereira, nº 28
11 Casas geminadas da R. de inglaterra, nºs 500 e 504
Parque ou Jardim
12 Casa Claridade, na R. mouzinho de albuquerque, nº 14
13 Casa Vale Florido e Boavida, na av. General Carmona, nº 4 e 6
Vias Principais
14 Rádio Clube Português (actual Clube nacional de Ginástica), na R. machado dos santos/R. João soares, nº 112
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05
Roteiros do Património
de Cascais
Arquitectura Modernista
Graça Briz
O Estoril é, sem dúvida, o projecto urbanístico-arquitectónico de carácter turístico
mais importante da primeira metade de novecentos. Apresentado em 1914, em
plena 1ª República, mas acelerado e concluído já durante o Estado Novo, traz
consigo, de facto, características novas que o diferenciam dos casos precedentes das estâncias de veraneio vizinhas, que são exemplos da conjuntura e da
mentalidade de oitocentos. O primeiro factor de sucesso do Estoril de Fausto
de Figueiredo é o prestígio do sítio, como local de vilegiatura, que começara
quando D. Luís escolheu a cidadela de Cascais para residir no fim do verão e
início do outono, e que se acentuara com as instalações de S. João e do Monte
Estoril, abrindo perspectivas auspiciosas ao futuro programa.
◀
Casal de Monserrate.
Pormenor das varandas.
Em séculos mais recuados, existiam apenas dois pólos de atracção neste
Arq.tos Porfírio Pardal Monteiro
pedaço de costa: o convento e as águas termais, desde tempos imemoriais,
e Luís Cristino da Silva.
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Igreja de Santo António do Estoril
reputadas para as doenças de pele. O convento e a igreja, datam de 1527,
e marco da Estrada Real, no Estoril,
sendo primitivamente um cenóbio de franciscanos, sob o padroado de Santo
em meados do século XX.
António. Foi restaurado, sucessivamente, e reconstruído, na forma que hoje
AHMC
apresenta, em meados do século XVIII. Em 1834, após a extinção das ordens
religiosas, o Estado liberal vendeu a propriedade do convento e igreja, iniciando
uma sucessiva troca de proprietários até chegar às mãos de José Viana, que
dava o nome ao sítio que hoje conhecemos como Estoril – o “pátio do Viana”.
Foi a este último que Fausto de Figueiredo, e o seu sócio Augusto Carreira de
12
arquitectura modernista
Sousa, compraram, em 1913, os terrenos para o projecto do “Parque Estoril”. Em
1915, pela lei nº 477 de 18 de Setembro, foi fundada a Freguesia do Estoril, com
lugares de Cascais, de São Domingos de Rana e de Alcabideche, passando a
funcionar a velha igreja de Sto. António como sede da nova paróquia. A igreja
é um edifício característico da arquitectura maneirista portuguesa, ou chã, no
dizer de G. Kubler, muito interessante principalmente pelo seu nartex, com forro
de azulejos e rica decoração, acrescentados posteriormente.
O segundo elemento presente no sítio, e o mais importante para a sua história
balnear, são as nascentes de água termal – Estoril e Santo António – que
ganhavam em reputação às da Poça. Já no tempo do rei D. José I, que as
frequentava para alívio da sua gota1, existia junto dessas fontes um balneário
rústico para serviço dos doentes. Em 1880 foram restauradas e modernizadas
as arcaicas instalações, agora com um edifício feito em alvenaria e com dez
quartos, cada um com tina de banho. O proprietário das fontes, José Viana da
Silva Carvalho, foi construindo, também, pequenas casas modestas para alugar
aos banhistas e, a este conjunto, se colou o nome de “Pátio do Viana”. Em 1892,
o aumento da concorrência exigiu uma ampliação e reconversão do anterior
edifício clássico, transformado em estilo neo-árabe que se liga, naturalmente,
ao gosto exótico da época mas também, parece ser, uma associação funcional
com a cultura árabe e a sua ideia de banho, num espaço próprio e diferenciado
arquitectonicamente.
1
O rei fazia a sua cura instalado no palácio do seu primeiro-ministro, em Oeiras, e deslocava-se
daqui até ao Estoril para o tratamento; daí que o marquês, tenha resolvido melhorar consideravelmente a estrada que ligava Oeiras a Cascais, até ao princípio do século XX, o melhor troço
de caminho entre Lisboa e a vila de Cascais.
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▲
Projecção do futuro Estoril,
Mas o projecto do “Parque Estoril” veio mudar este cenário e fazer surgir o Estoril
no folheto Estoril: Estação marítima,
num plano de centro de turismo internacional. Pensado para as necessidades do
climatérica, termal e sportiva
século XX, e levado a cabo pela grande iniciativa de Fausto de Figueiredo, parece
de 1914. AHMC.
ser a resposta, mais de trinta anos volvidos, às palavras de Ramalho Ortigão:
“O sindicato de Cascais propõe-se transformar o lindo arrabalde do Estoril,
onde junto da praia há uma rica nascente de água termal, em vila de banhos
e de águas no moderno tipo de Wiesbaden, de Trouville ou de San Sebastian”.
Citando, curiosamente, uma estância termal, uma praia e uma estância balnear
e termal, Ramalho entende também a necessidade para o país daquilo que ele
propõe chamar-se Estoril-les-Bains:
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arquitectura modernista
“A meia hora de Lisboa, por um caminho de ferro de luxo, na margem do Tejo,
Estoril-les-Bains com o seu grande estabelecimento de banhos, com o seu
casino, com as suas salas de ópera e de concertos, com as suas roletas, com
os seus pavilhões enigmáticos, com os seus cottages misteriosos, e com os
seus camarões em gabinete reservado, é um imprescindível complemento da
civilização que felizmente desfrutamos”2.
Ambicioso e activo, Fausto de Figueiredo imaginava um Estoril que realmente
ainda não existia – uma estância de turismo internacional, que proporcionasse
aos visitantes tanta qualidade como as mais prestigiadas congéneres europeias.
Ao contrário do que, talvez, fosse de esperar, a sua visão convergiu para o
pinheiral que se estendia para além do convento do Estoril e, logo após a
compra da propriedade, viajou para Paris, onde convida o arquitecto Martinet
para elaborar o projecto da futura estância. Em maio de 1914 publica um
album-folheto onde expõe, através dos desenhos de Martinet, a sua grandiosa
ideia – Estoril, Estação Marítima, Climatérica, Thermal e Sportiva. Os grandes
jornais da capital dão larga notícia do projecto e apoiam, com entusiasmo,
a iniciativa. Captando a atenção do poder político e conseguindo alguma
legislação favorável, os promotores logo iniciam os trabalhos de terraplanagem
necessários ao agenciamento do jardim central que determinava todo o
plano de urbanismo. Porém, as conjunturas nacional e internacional, dramaticamente agravadas pelo eclodir da Primeira Grande Guerra, vão abrandar a
realização e obrigar a algumas mudanças de rumo em relação ao programa
inicial. Dos grandes equipamentos previstos, o primeiro a ficar concluído foi
o estabelecimento termal, inaugurado em 25 de agosto de 1918, ainda em
2
Ramalho Ortigão, “Últimos Melhoramentos”, in As Farpas, vol. VII, Lisboa, 1943, p. 135.
15
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Praia do Tamariz e casa Schröter,
fase de acabamento e que logo passa a ser o motivo principal das crónicas e
no Estoril, em meados do
notícias sobre o Estoril. À falta de um casino ou de um grande hotel, era aqui
século XX. AHMC.
que a Sociedade Estoril realizava as suas festas, recebia os jornalistas e lançava
a sua propaganda. Primeira vitória da tenacidade de Fausto de Figueiredo
e importante para o reconhecimento, nacional e internacional do Estoril, o
edifício termal esperará ainda mais de uma década pelos dois outros equipamentos fundamentais – o casino e o hotel de luxo. Lentamente, a estância
16
arquitectura modernista
▲
ia ganhando adeptos e estruturas turísticas, como a esplanada sobre a praia
Praia do Tamariz e chalet Barros, no
ou novos espaços desportivas, mas também se salpicava de moradias, que se
Estoril, em meados do século XX.
foram construindo nos arruamentos do Parque, e que sugeriam a Branca de
AHMC.
Gonta Colaço o seguinte comentário:
“O Estoril é um mostruário da alta burguesia lisboeta. Cada moradia, cada palacete, cada chalet, ali erguidos, têm a etiqueta dum morador ou dum proprietário
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Vista aérea do Estoril, em meados
com situação ou nome cotado e classificado no modesto caleidoscópio da
do século XX.
vida nacional”3.
AHMC/Colecção José Santos
Fernandes.
Desde o final dos anos 10 do século XX, apesar dos revezes provocados pela
guerra e das dificuldades financeiras destes anos, a sociedade iniciou a urbanização das zonas em torno do centro-jardim com um concurso onde se
convidavam os arquitectos portugueses a apresentarem projectos, já não
para equipamentos, mas para casas de habitação a construir nos talhões que,
entretanto, loteara. Aparecem, então, os nomes de Silva Júnior (1868-1937),
3
18
Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, Memórias da Linha de Cascais, 1943, p. 307.
arquitectura modernista
Norte Júnior (1878-1962) e Edmundo Tavares (1892-1983), com desenhos de
“estilização tradicionalista” mas, na sua sequência, aparece a Companhia de
Crédito Edificadora Portuguesa, que compra uma série de terrenos à empresa
promotora e se propõe construir casas para vender no prazo de dez anos.
O Estoril tornava-se também uma vasta operação de urbanização e venda de
terrenos. Pela lógica de desenvolvimento da instalação vão ser os anos 20 e mais
ainda os anos 30 de novecentos, a marcar a imagem da arquitectura privada
do Estoril. Ao longo dos primeiros anos, estas moradias não trazem qualquer
inovação digna de nota pois, na verdade, “são paradigmas, nas suas propostas
do final dos anos 10, do desolador panorama da arquitectura nacional. (…)
Se, com algum dramatismo, nos recordarmos que no início da década de 20,
Walter Gropius, Mies Van der Rohe ou Corbusier têm 40 anos, que o manifesto
da Bauhaus é de 1919, que Frank Lloyd Wright construíra as Prairie Houses cerca
de 1900 ... ou, sem tanto dramatismo, aproximarmos estes projectos dos que
Ventura Terra, Raul Lino ou mesmo Álvaro Machado haviam criado no início do
século para o Monte Estoril, entende-se o carácter profundamente retrógrado
que vinha marcando a sociedade portuguesa e evidentemente os seus arquitectos, e que a ditadura dos valores ruralizantes que se aproxima tinha na cidade
solo fecundo de que se alimentar”4. Em1924, Raul Proença, ao escrever o artigo
sobre os “Estoris” para o seu Guia de Portugal, elogia a excelência da estância,
mas não assinala um só exemplo de arquitectura particular já construído nos
terrenos do “Parque”, e eram as infra-estruturas turísticas que o impressionavam,
grandiosas e europeias, numa apreciação que, entretanto, se tinha modificado
com a propaganda crescente da nova indústria “salvadora da pátria”.
4
Raquel Henriques da Silva, “Estoril, Estação Marítima, Climatérica, Thermal e Sportiva – As Etapas
de um Projecto”, in Arquivo de Cascais, Boletim Cultural do Município, C.M.C., n.º 10, 1991, p. 41.
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Hotel Palácio, no Estoril.
Relacionada com o surto de loteamento e construção, está a criação, em
AHMC.
1921, da Comissão de Iniciativa para Fomento da Indústria de Turismo de
Cascais, regulamentada pelo decreto nº 8046, de 24 de Fevereiro de 1922. E,
já na vigência do Estado Novo, a reforma da contribuição predial e paralela
constituição de um “fundo nacional de construção”, destinado a promover e
subsidiar as iniciativas particulares, que vieram proporcionar um novo alento
às companhias de urbanização que proliferavam na capital e eram cada
vez mais activas no Estoril, graças à abundância de terrenos e à crescente
procura. De facto, os anos 20 marcam o início de uma ocupação de índice
elevado, tema de várias críticas na imprensa especializada, e o Estado Novo,
20
arquitectura modernista
▲
com a legislação de 1931 para protecção e embelezamento das zonas de
Casino do Estoril, em meados
turismo em redor de Lisboa – Queluz, Sintra, Cascais e Estoril, criara o primeiro
do século XX. AHMC.
instrumento de intervenção do Estado no empreendimento de Fausto de
Figueiredo, completado nos meados da década pela criação do Gabinete de
Urbanização da Costa do Sol.
Chegara o momento de se concluírem as duas obras de maior prestígio do
Parque: o Hotel Palácio e o Casino Estoril. O hotel foi inaugurado a 31 de
Agosto de 1930, com a presença do Presidente da República, ministros e corpo
diplomático, numa cerimónia em que Fausto de Figueiredo foi condecorado
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com a Grã-Cruz de Mérito Agrícola e Industrial. O edifício mostrava, no seu
projecto final, algumas modificações significativas ao desenho inicial, “criando
na fachada principal dois amplos corpos salientes, descentrados, de linhas
claras e diferente coroamento que introduziram um ritmo totalmente inexistente no projecto de Martinet; do mesmo modo a simplificação das molduras
das janelas e arcarias, a utilização geometrizante dos próprios frontões nos
corpos salientes e a introdução do terraço superior constituem elementos
de sabor modernista num corpo academizante”5. Mas a “vantagem”, do ponto
de vista do modernismo, do atraso na realização das obras é ainda mais
decisiva no Casino, inaugurado a 15 de Agosto de 1931, sobre as fundações
do edifício projectado por Silva Júnior, que mostra uma volumetria já perfeitamente modernista, cedendo apenas, nalguns pormenores, ao gosto artes
decorativas. Marcando a viragem do gosto nacional, mas também da empresa
proprietária, é um importante modelo para a arquitectura imediata do Estoril,
com um projecto, realizado ainda nos anos 20, por um arquitecto francês
chamado Raoul Jourde. Teve a colaboração de Pardal Monteiro (1897-1957)
no acompanhamento das obras finais6 e a “documentação gráfica encontrada
recentemente, est(á) toda assinada pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro”7 e
apenas as perspectivas possuem o nome de Jourde. Levantado no local que
lhe reservara Martinet, no terraço que limitava o jardim central do Parque e
aberto à paisagem de mar, “o edifício possuía um único piso, tinha cobertura
▶
5
Raquel Henriques da Silva, op. cit., p. 56.
6
Bem como intervenções plásticas de Estrela de Faria.
7
Carta de Pardal Monteiro ao administrador da sociedade “Estoril Plage”, sobre a conclusão das
Casal Monserrate.
obras do casino, 30 de Janeiro de 1931 (nota 42, p. 78, in Ana Ruela Ramos, Porfírio Pardal
Pormenor dos jardins.
Monteiro..., 1998).
22
Arquitectura Modernista
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em terraço e as suas formas eram predominantemente curvas”8. Antes das
últimas obras do novo casino do Estoril, que desfiguraram completamente
o que ainda restava deste magnífico edifício, alguns espaços interiores eram
ainda visíveis, como o vestíbulo da entrada principal “que pod(ia) servir para
uma viagem no tempo, com o seu tecto animado de curiosas pirâmides
invertidas em vidro”9, característico do gosto “arts déco” presente em muitos
aspectos do desenho do edifício.
▼
Um outro dado importante para o reforço desta mudança, no sentido do
Casal de Monserrate.
modernismo, é a substituição do arquitecto Tertuliano Lacerda Marques (1883-
Pormenor da entrada.
1942), “campeão” dos modelos tradicionalistas, por Jorge Segurado (1898-1990),
na Câmara Municipal de Cascais. A prová-lo está um caso exemplar, precisamente de 1930. A proprietária da Quinta Carbone10, apresenta um projecto à
Câmara, para um lote na esquina da Rua Serpa Pinto com a Av. de Portugal,
que é indeferido num parecer assinado por Jorge Segurado. Meses depois, é
aprovado um novo projecto, desta vez assinado por um engenheiro da Câmara
Municipal de Cascais, Manuel Gomes, que acabou por ser construído. É um
edifício de composição muito simples, mas assumidamente modernista, que
Segurado aprovou. Se as tendências estéticas, destes anos, já assinalavam uma
viragem a favor do modernismo, a presença de Segurado na Câmara só podia
acelerar o processo. Foi o que aconteceu, nos anos seguintes, com resultados
bastante interessantes.
8
Idem, p. 48.
9
Ana Ruela Ramos, op. cit., p. 49.
10
Este edifício foi recentemente demolido.
24
arquitectura modernista
De facto, qualquer abordagem da arquitectura do Parque obriga-nos,
necessariamente, a tomar em consideração o seu importante acervo de
edifícios modernistas, bem como a defender a sua preservação da voragem
dos especuladores actuais. O processo iniciado, timidamente, em 1929, com
o projecto de remodelação de Pardal Monteiro (1897-1957) e Luís Cristino da
Silva (1896-1976) para a casa do engenheiro Álvaro Pedro de Sousa, acentua-se
ao longo da década seguinte, atingindo a sua expressão mais evidente em
meados dos anos 30, para acabar em profunda crise ou confusão de valores, ao
aproximar-se o ano de 1940. Este primeiro projecto dos dois grandes arquitectos,
que também desenhavam os jardins, destinava-se a alterações e ampliação
de um edifício já construído, optando por eliminar todos os pormenores
▲
passadistas, introduzir uma maior liberdade na articulação dos corpos do
Casal de Monserrate.
edifício e destacar o terraço-mirante, terminado em “pérgola”, elemento que
Pormenor da escadaria.
será inúmeras vezes repetido na arquitectura do Parque. A magnífica moradia
ainda hoje se ergue, na rua eng. Álvaro Pedro de Sousa, na encosta poente do
Parque, levando o nome de Villa Monserrate.
Abrangendo os anos de 1929 e 1930, existe um outro exemplo assinalável,
com um projecto da autoria de Pardal Monteiro. É a casa de José Espírito Santo
Silva, que tivera um primeiro projecto considerado “de péssimo gosto” pelo
funcionário da Câmara Municipal de Cascais, o que terá levado à encomenda
de um segundo, ao mesmo arquitecto, datado do ano seguinte. A moradia
foi edificada, em 1930, pelo construtor Elyziario Filipe dos Santos e é de
composição muito simples, com rés-do-chão e águas furtadas e uma grande
alpendrada, sobre duas fachadas, tudo abrangido pela mesma cobertura em
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Casal de Monserrate.
telhado “que desce quase tocando o terreno (...) de clara influência nórdica”11.
Pormenor dos jardins.
Adaptando-se perfeitamente ao terreno que ocupa e à função a que se
destinava, a “ousadia” deste projecto completa-se pela forma de inserção no
11
Ana Ruela Ramos, op. cit., p.63. Esta autora acrescenta ainda que “a linguagem deste telhado (…)
faz-nos duvidar da autoria do projecto, pois apesar de ter sido assinado pelo (…) arquitecto,
não parece tratar-se de uma obra sua, pois Pardal Monteiro nunca usou linguagens tradicionais
da arquitectura de outros países” (idem. ibidem).
26
arquitectura modernista
lote: ao contrário de todas as casas construídas no Parque desde 1919, nesta
não se agencia um jardim, propriamente dito, construindo-se a casa no meio
do imenso lote, rodeada pelo denso pinhal pré-existente. Estes dois últimos
projectos, que iniciam o modernismo na arquitectura dos “Estoris”, trazem
também uma nova técnica construtiva – a do betão armado – naturalmente
explorada pelos arquitectos mais novos que dela se servem para concretizar a
sua vontade de mudança. Utilizada inicialmente em programas específicos de
equipamentos públicos, com um primeiro regulamento em 191812, ao longo
da década de 20 foi entrando na prática corrente da construção civil e são os
arquitectos da primeira geração modernista a torná-la um processo sistemático.
Aos poucos, grande parte do antigo pinhal que rodeava o conjunto monumental das infra-estruturas turísticas projectadas por Fausto de Figueiredo,
imaginado, então, como um parque com zonas para actividades desportivas,
transformava-se num bairro residencial de luxo, permitindo à sociedade os
capitais necessários para o seu ambicioso programa. A ocupação dos lotes,
ainda muito baixa em 1930, acelerou-se a partir de então até à quase saturação
actual, o que levou a mudanças de plano, sobretudo nas zonas centrais, que
fazem temer pelo conjunto que é único em todo o território nacional.
A década de 30 do século XX marca, de facto, a afirmação definitiva do Estoril,
como a mais importante estância de vilegiatura internacional do nosso país.
A propaganda intensifica-se, numa acção conjunta dos particulares, nomeadamente as empresas de Fausto de Figueiredo, e dos dois organismos especial12
“Primeiro Regulamento para o Emprego do Betom Armado” (J. Manuel Fernandes, Arquitectura
Modernista em Portugal, 1993, p. 27).
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mente vocacionados para tal – a Comissão de Iniciativa do Concelho de Cascais
e a Sociedade de Propaganda da Costa do Sol. São inúmeros os cartazes, de
arrojado desenho, então produzidos, bem como os guias e folhetos ilustrados,
traduzidos em várias línguas, e onde as termas são ainda um dos pratos fortes da
promoção. Em 1937, pelo Decreto-Lei nº27704, de 18 de Maio, é criada a Junta
de Turismo de Cascais, procurando melhorar a vida da população e promover
uma mais adequada recepção aos visitantes.
Durante estes dez anos, que medeiam entre 1930 e 1940, os arquitectos
modernistas conseguem fazer prevalecer as suas propostas sobre os arquitectos
“tradicionalistas” e, em 1939, Francisco Keil do Amaral (1910-1975) podia afirmar
com verdade, em resposta a um ataque de Ressano Garcia, “que até esse
momento tinham sido os arquitectos modernistas que tinham praticamente
ganho todos os concursos, e que a eles tinham sido confiados os mais significativos trabalhos”13.
Esta afirmação de um novo gosto, aceite ou mesmo promovido pelas instituições dirigentes, que acontece simultaneamente ao período de maior impulso
de construção no Parque, explica o importante conjunto de objectos que agora
nos ocupa. Como acontece na generalidade da arquitectura portuguesa modernista, também aqui encontramos uma “genealogia” de influências estrangeiras,
predominando as escolhas dos arquitectos mais activos no Estoril, que criam
os modelos posteriormente copiados, com maior ou menor compreensão, por
engenheiros e construtores. Aliás, a maior percentagem de projectos moder13
Pedro Vieira de Almeida e José Manuel Fernandes, in História da Arte em Portugal, vol. 14,
“A Arquitectura Moderna”, 1986, p. 58.
28
arquitectura modernista
nistas para o Estoril, é da responsabilidade de engenheiros, seguidos pelos
construtores civis e, só uma minoria é da autoria de arquitectos. O domínio
completo dos aspectos técnicos e a compreensão progressiva dos valores da
arquitectura moderna, permitem o aparecimento de alguns exemplos notáveis,
precisamente com risco de engenheiros.
As duas mais importantes influências presentes são, por um lado, a da arquitectura holandesa, misturando formulações marcadamente expressionistas e,
por outro, a ressonância da arquitectura racionalista, não como a entendiam
Gropius ou Le Corbusier, mas a mais fácil proposta de arquitectos como Robert
Mallet-Stevens, “que explorava uma linguagem de ‘racionalismo doce’, algo
decorativo, não isento de alguma contradição não dominada, mas que por
isso mesmo respondia melhor à timidez da formação teórica da arquitectura
portuguesa”14. A primeira destas tendências liga-se às intervenções dos arquitectos Adelino Nunes (1903-1948)15 e António Varela (1902-1963)16, responsáveis
pelos projectos modernistas mais importantes do Estoril, a partir de 1932.
Ambos trabalharam assiduamente em colaboração com Jorge Segurado que,
14
Idem, ibidem.
15
Fazendo parte da Comissão Construtora dos Novos Edifícios dos CTT, é um dos arquitectos
modernistas com um maior número de obras construídas e em todo o território nacional, de
Barcelos ao Funchal. Mas além dos Correios, o seu nome está também ligado aos concursos
para os liceus (1931), em equipa com Carlos Ramos e Jorge Segurado, tendo vencido o concurso
para o liceu Júlio Henriques, em Coimbra.
16
É o responsável por um dos primeiros edifícios fabris modernistas com o projecto, de 1938,
para Matozinhos, de uma fábrica de conservas. Também colaborou com J. Segurado em, pelo
menos, dois projectos: em 1934, para uma «cidade olímpica» no Campo Grande, e para o «Lar
dos Pobres» nas Caldas da Rainha em 1941.
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Projecto da Estação Telefónica
juntamente com Keil do Amaral, era o grande conhecedor da arquitectura
do Estoril (Alçado posterior).
holandesa e, sobretudo, da obra de W. Dudok, de que é prova o magnífico
Arq. Adelino Nunes. AHMC
projecto para a Casa da Moeda, em Lisboa. A segunda proposta, insere-se na
tendência mais geral da arquitectura portuguesa destes anos, uma vez que, a
maioria dos nossos arquitectos se sentia mais à vontade com estas formulações
menos abstractas, ao mesmo tempo que os modelos produzidos são mais
acessíveis às reproduções feitas por engenheiros e construtores.
30
arquitectura modernista
Se o ano de 1931 marca o início de um novo ciclo na arquitectura do Estoril,
inaugurando o seu mais emblemático equipamento dentro do novo gosto,
logo em 1932, surge um outro programa da maior importância, cuja polémica
levará à construção de um dos mais notáveis edifícios modernistas do Estoril.
Trata-se do projecto para os Telefones, nessa altura ainda propriedade da
companhia inglesa – The Anglo-portuguese Telephone C.ª Lda.. A primeira
proposta apresentada, da autoria dos engenheiros da empresa, foi rejeitada por
31
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Casa dos Cedros.
ter altura excessiva para o local previsto, quase sobre a praia, entre a estrada
Arq. Adelino Nunes.
nacional e a linha de caminho de ferro. O resultado desta recusa acertada, foi
uma nova encomenda, desta vez a Adelino Nunes e a construção, em 1933, do
edifício que ainda hoje podemos admirar. Compreendendo a particularidade
do local, o arquitecto desenhou um edifício de um único piso, ao nível da rua
e outro em cave, que se desenvolve em comprimento, onde a monotonia é
completamente superada pelo jogo de corpos assimétricos, acentuado no
volume cilíndrico, de linhas verticais e horizontais, através da fenestração e dos
sóbrios pormenores decorativos.
32
arquitectura modernista
▲
O mesmo arquitecto realiza ainda, os dois projectos mais interessantes, que se
Edifício dos Correios do Estoril.
seguem no tempo. O primeiro, é uma casa particular, construída para Maria da
Projecto da autoria de Adelino
Câmara Assis Posser de Andrade, em 1935, no gaveto das ruas Prof. Egas Moniz
Nunes.
e Afonso de Albuquerque, na zona norte do Parque onde, aliás, predominam as
escolhas modernistas. Algo desfigurada pelo acrescento do piso recuado que
hoje apresenta, combina soluções quer do edifício anterior, quer do seguinte,
que o arquitecto realizará para os Correios: uma planta em V, aproveitando da
melhor maneira o lote em ângulo agudo, que veremos retomada no projecto
seguinte, a pequena pala semi-circular, apoiada em colunas lisas, que dialoga
com as varandas estreitas, também terminadas em volumes redondos, que são
citações do projecto anterior. A escolha de uma entrada recuada e a absoluta
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simetria dos volumes, fazem a principal diferença relativamente aos outros
projectos.
Com muito mais ousadia, imaginação e cuidado de pormenores, Adelino
Nunes vai apresentar, no ano seguinte, uma proposta de planta idêntica para
o edifício dos Correios, na esquina da hoje Av. Marginal com a Av. de Nice. O
notável jogo dos materiais, dos volumes e das superfícies, fazem deste projecto
uma das peças mais importantes do modernismo do Estoril. Assumindo claramente o valor plástico das volumetrias assimétricas, sem recorrer, praticamente,
a elementos decorativos para animar as fachadas, o arquitecto mostra um
grande domínio dos valores modernistas, aproximando-se como nunca da
arquitectura holandesa. A demonstrá-lo está, não só o hábil jogo de planos e
linhas “neoplasticistas”, mas também a criação de um espaço novo, em termos
urbanos, conseguido pela “esquina dinâmica”, espacial e volumetricamente
▲
evidenciada pelo poderoso cilindro, elemento gerador de toda a organização
Casa de S. Francisco.
do espaço interior.
Projecto da autoria de António
Varela.
No mesmo ano de 1936, surge o melhor objecto de arquitectura particular, na
casa do engenheiro António Cortez Lobão, com projecto de António Varela,
para o lote imediatamente a nascente dos Correios. A casa, de planta bastante
regular, onde predominam os ângulos rectos, consegue uma notável harmonia
pelo discreto jogo dos volumes e pela sábia distribuição das aberturas. Um
corpo semi-cilíndrico no primeiro pavimento, correspondente à sala de jantar e
▶
coberto por um terraço servindo o quarto superior principal, na fachada poente,
Projecto da Casa de S. Francisco.
o recuo e desnível dos corpos na fachada nascente, aliando-se ao desenho das
(Alçados Nascente e Poente).
janelas baixas e assimétricas contornando os ângulos, assim como às pequenas
AHMC.
“vigias” redondas da empena oeste, assinalam a qualidade deste projecto, bem
34
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Casa de S. Francisco.
como a sua fidelidade ao princípio modernista do tratamento equivalente de
todas as fachadas, ainda acentuada pela lateralização da entrada.
A restante produção modernista destes anos, de qualidade muito desigual, tem
ainda alguns edifícios que merecem ser assinalados, quer pela sua excepção,
quer pelo seu carácter de modelos de maior reprodução no Estoril. No primeiro
caso, está a moradia construída no gaveto da Av. D. Nuno Álvares Pereira
36
arquitectura modernista
com a rua Melo e Sousa, encomendada a um engenheiro pela Sociedade de
Edificações Lda., em 1938, hoje sede do jornal Anglo-Portuguese News. A sua
grande mais valia está na planta que, aproveitando correctamente o traçado e a
exiguidade do lote, consegue uma solução muito dinâmica de volumes curvos.
Alterada pelo elemento construído no terraço da cobertura, mantém ainda os
típicos gradeamentos da época e utiliza, uma vez mais, o corpo semi-cilíndrico,
com janelas e varanda, frequentemente repetido.
Duas outras casas, novamente na zona a norte do Parque, podem ser incluídas
neste pequeno conjunto de exemplos de maior qualidade, únicas comparáveis
ao modelo de António Varela. A primeira, ergue-se sobre a Rua de Inglaterra,
e consta de um projecto para duas moradias geminadas, em que a forte
assimetria esconde e valoriza o seu carácter. A complexidade da volumetria,
o tratamento cuidado das superfícies e o dinamismo das aberturas, fazem
dela um objecto de excepção no modernismo do Estoril. A segunda, na Rua
▲
Mouzinho de Albuquerque, mostra, mais do que qualquer outra, a influência
Casa de N.ª Sr.ª da Visitação.
dos desenhos de R. Mallet-Stevens (1886-1945), com a sua estrutura de volumes
fortemente animada, sobretudo no corpo das escadas, sobre a ilharga poente,
com um notável jogo de aberturas. O arquitecto francês, principalmente
activo em Paris, fizera, no entanto, algumas obras emblemáticas para sítios da
costa, como o Hotel-Casino em Saint Jean-de-Luz, entre 1923 e 192817, ainda
de marcada simetria, e a villa de Hyeres para o visconde Charles de Noailles,
17
Diccionaire d’Architecture du XXeme Siècle, 1996, p. 572.
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▶
Casa da Rua de Inglaterra,
no Estoril.
38
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arquitectura modernista
▲
entre 1924 e
193318,
onde encontramos as referências fundamentais para estas
casas do Estoril.
Ao longo da Av. General Carmona, que sobe perpendicularmente à meialua de parqueamento do primeiro casino, todas as casas são destes anos e
18
A magnífica moradia tinha também um famoso jardim, desenhado por Grevekian (conhecido
desde a Exp. das Artes Decorativas de 1925, em Paris) (cf. The House Book, 2001. p. 277).
39
Casa Claridade.
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Casa Vale Florido.
constituem um verdadeiro repositório do modernismo português, bem como
Arq. Luís Cristino da Silva.
das influências dominantes, presentes no Estoril. Infelizmente, nenhuma delas
alcança a qualidade das anteriores, mas são um óptimo conjunto de estudo
para os aspectos acima referidos. Como exemplo, vejamos duas moradias: a
primeira, no nº6 da avenida, onde um poderoso corpo cilíndrico de escadas,
com abertura vertical e encimado por um volume também cilíndrico, de
menores proporções, lembra os valores da arquitectura expressionista, enquanto
o desenho da varanda e os pormenores da cobertura, mostram a filiação na
importante escola holandesa; a segunda, ocupando o nº 4, é a casa Vale Florido,
concluída em 1939 por Cristino da Silva, com um projecto de 1936. Trata-se
de um conjunto de duas moradias geminadas, destinando-se uma delas para
a habitação secundária do arquitecto e a outra a rendimento. Cristino da Silva,
40
arquitectura modernista
◀
Casa Vale Florido.
Pormenor.
▼
Casa Vale Florido.
sempre mostrara interesse pela zona da Costa do Sol e, em 1927, publicara na
revista Arquitectura um artigo intitulado “O Regionalismo e a Arquitectura”, onde
o tema inflamado era a crítica severa aos “chalets suiços” que tinham invadido
a Costa do Estoril, defendendo, em seguida, que uma tendência podia salvar
essa região – o regionalismo, definindo-o assim:
“A adaptação da arquitectura à região não consta só da aplicação de elementos
que dizem ser portugueses: alpendres, beirados, vasos à janela, azulejos, etc.,
distribuídos ao acaso pelas fachadas, não! Isso é arquitectura de bric-à-brac!
O regionalismo é qualquer coisa de mais profundo e rasgado: atender, sim, aos
elementos nacionais, mas antes de mais nada formar um sentido de conjunto
deixando para depois a pormenorização”19. O texto é muito interessante por
19
Arquitectura, n.º 5, Maio de 1927.
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Casa Boavida.
diferentes razões: em primeiro lugar, como sintoma da cultura arquitectónica em
Portugal quase no final dos anos 20, período dos primeiros projectos modernistas (como o Capitólio do próprio arquitecto), provando que a nova linguagem
ensaiada constituía apenas mais um “estilo”; em segundo lugar, a afirmação
de uma nova mentalidade desta geração de arquitectos que, apesar de tudo,
combatem os valores decorativos triunfantes da “casa portuguesa”, defendendo
a primazia das estruturas arquitectónicas; por último, a curiosa evolução que,
▶
dez anos depois, o arquitecto mostra na sua casa do Estoril, optando pela arqui-
Casa Boavida.
tectura racionalista – superfícies rebocadas lisas, vãos não guarnecidos, volumes
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Arquitectura Modernista
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simples pintados a branco e cobertura em terraço – embora “as pérgolas, os
arcos e os muros de alvenaria rústica de pedra, nas traseiras, resta(ssem) como
elementos de carácter nacionalista”20. No seu conjunto o edifício apresenta
uma enorme contenção e sobriedade na sua rigorosa simetria, aliadas a um
magnífico equilíbrio de proporções e a um belíssimo desenho das janelas, numa
combinação muito próxima da melhor prática modernista .
Observando as plantas da maioria destas casas modernistas, vemos que, ao
nível da distribuição dos espaços, aparecem, embora timidamente, algumas
inovações. A mais comum é uma nova articulação, já não imposta pela fachada
principal, tirando partido do jogo das volumetrias assimétricas, entre as diferentes divisões interiores e uma nova relação destas com o exterior; mais rara,
é a total abertura dos espaços sociais, com a indiferenciação de funções, que
o modernismo também propunha, mas que os donos destas casas ainda não
aceitavam.
Se considerarmos individualmente cada um dos objectos modernistas que
ainda sobrevivem no Estoril, teremos de reconhecer que, o número de edifícios,
realmente notáveis, é bastante diminuto. Porém, dois aspectos devem ser sublinhados, em relação a eles. Em primeiro lugar, pela intensidade da construção
que é característica destes anos, o modernismo marca o carácter arquitectónico
do Estoril. Em segundo lugar, se observarmos estes objectos na sua totalidade,
eles constituem um campo de estudo para o nosso modernismo único em todo
o país, ao mesmo tempo que encerram uma vivência e uma memória que são
dignas de preservar. A corajosa “aventura” do nosso primeiro modernismo está
20
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João de Sousa Rudolfo, Luís Cristino da Silva e a Arquitectura Moderna em Portugal, 2002, p. 83.
arquitectura modernista
aqui patente, não em projectos, mas em edifícios construídos, o que “era uma
lança em … Portugal”, uma vez que não se apoiam numa reflexão teórica ou
se discutem no ensino oficial. “Desde o receituário de Lino, (…) que nenhum
arquitecto publicara um livro de divulgação ou teorização, nem mesmo panfletos ou artigos, e as revistas que vegetaram ao longo dos anos 20 pouca e
má divulgação faziam do que lá fora se estava a passar”21.
Em todo o concelho de Cascais mais nenhuma povoação possui um tal conjunto de edifícios modernistas como o Estoril. Porém, um exemplo com algum
interesse, remotamente comparável, poderíamos encontrar na Parede, não
fosse a quase completa destruição, que o crescimento recente da localidade,
deixou acontecer à sua arquitectura modernista. A Parede é uma estância
que começa a formar-se a partir de 1890, quando o almirante Nunes da Mata
se deixa encantar pela beleza das suas ribas e amenidade das suas praias:
“encarrapitada no seu pequeno outeiro a uns 800 m de distância (da linha
do comboio), não passava de uma pequena aldeia com pequenas casas de
modestos agricultores e canteiros. Mas a sul da linha férrea nem uma única
casa, nem uma única árvore ou arbusto atenuavam a desolação desta larga
planície coberta de muros de pedra solta. Entretanto tendo notado que do lado
nascente havia uma bem abrigada praia e que do poente havia outra, que a
planície era airosa e pouco acidentada e que a atmosfera era de grande brilho
e transparência, momentaneamente na minha imaginação passou o panorama,
como em um cinema, de uma futura cidade erguida sobre os desmantelados
muros desta desolada região. A nós mesmos prometemos então envidar todo
21
Nuno Portas, “A Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal, uma interpretação”, in Bruno
Zevi, História da Arquitectura Moderna, II vol., 1977, p. 708.
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o nosso esforço a conseguir que nas ribas do mar não fossem construídas casas
como vimos com tristeza construir em S. João do Estoril”22. Sem instrumentos
legais que permitissem esta desejada preservação, o almirante começou, então,
a comprar sistematicamente os terrenos da beira mar e, deste modo, traçando
as linhas mestras da nova povoação de veraneio, agenciada entre a linha de
caminho de ferro e a Estrada Militar (hoje Avenida Marginal), disciplinadamente
composta, ao longo de ruas “de largura racional”. Ao longo dos anos de 1890
surgem os primeiros chalets da Parede, como a casa de José Nunes da Mata,
num grande lote imediatamente a sul da linha férrea, quase sempre ligados
a nomes de ilustres republicanos portugueses ideologicamente próximos do
almirante, como João Arriaga ou Júlio de Vilhena. No final do século XIX, a
construção destes novos edifícios atraiu a atenção para a Parede e em 1899
inaugura-se o lawn-tennis e, no ano seguinte, abre as suas portas o Clube. É
também neste ano que, por iniciativa de Frederico Biester e D. Amélia Chamiço Biester, foi decidido implantar na povoação o equipamento que mais
prestígio lhe trouxe, o sanatório para doenças ósseas. O projecto foi entregue
ao arquitecto Rozendo Carvalheira (1864-1919) que, “dirigindo uma equipa
onde colaboraram alguns dos nomes maiores da arquitectura portuguesa de
então, executou aí a sua obra mais significativa e que é também uma das mais
notáveis produções arquitectónicas da época, tanto pelo sentido funcionalista
moderno da planta, da construção e dos equipamentos específicos, como pelos
trabalhos finais de decoração onde há a salientar os belos painéis de azulejos,
obra prima da azulejaria portuguesa arte nova”23.
22
“Considerações dispersas a respeito da Parede”, in Jornal da Cascais, n.º 94, 1/5/1932.
23
Raquel Henriques da Silva, “A Arquitectura de Veraneio em S. João do Estoril, Parede e Carcavelos,
1890-1930”, in Arquivo de Cascais – Boletim Cultural da Município, n.º 7, 1988, p. 147.
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arquitectura modernista
▲
As primeiras décadas do século XX assistem ao desenvolvimento contínuo da
Rádio Clube Português.
nova povoação, ligada ao veraneio de alguns notáveis mas sobretudo de famílias
Arq. Vasco Lacerda Marques.
da média burguesia empreendedora, que a partilham harmoniosamente com
AHMC/Colecção José Santos
os doentes responsáveis, com frequência, pela instalação permanente de novos
habitantes. Neste contexto, os anos 30 de novecentos foram de considerável
crescimento e essa é, com certeza, uma das razões que explicam o aparecimento precoce de uma renovação arquitectónica, no sentido do depuramento
modernista, que aqui observamos.
Desde 1930 que encontramos nos processos camarários esta vontade de
“modernizar”, sobretudo em projectos de renovação ou transformação de
edifícios construídos ou em construção, mas é em Novembro de 1932 que surge
a primeira referência ao edifício modernista mais importante da Parede e um
dos poucos que ainda subsistem – as instalações do Rádio Clube Português.
A emissora, fundada em 1928 como rádio local, passou a chamar-se Rádio
Clube Português em 1931 quando “já se ouvia além do país, nas colónias, no
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Fernandes.
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arquitectura modernista
estrangeiro”24. Este enorme sucesso exigiu a construção de instalações próprias,
em terreno cedido pela Câmara Municipal de Cascais e com projecto do arquitecto Vasco L. Marques (1907-1972), em colaboração com o seu pai, o “campeão”
do gosto português na arquitectura dos “Estoris”, Tertuliano Lacerda Marques
(1883-1942). O projecto entra na Câmara em Janeiro de 1933 e o edifício foi
inaugurado oficialmente em 18 de Fevereiro de 193425. O grande edifício, de
marcada horizontalidade, articulado em múltiplos corpos de cariz modernista,
mostra ainda coberturas planas e janelas muito baixas acentuando os ângulos
da fachada principal; originalmente, este desenho de grande racionalidade,
continuava nos muros exteriores, nos portões e também no lettering. Neste
mesmo ano de 1934 vemos surgir o nome de António Varela, o arquitecto do
melhor projecto de habitação no Estoril, numa encomenda semelhante para
José Maria Vilhena Barbosa de Magalhães, para um terreno com frentes para as
ruas Marquês de Pombal e Três de Maio, hoje, infelizmente, já demolida. Pelo
processo camarário nota-se o desenho do arquitecto, com muitas semelhanças
com o projecto do Estoril, sobretudo no jogo dos corpos e aberturas, mas sem
nenhum elemento cilíndrico como lá acontecia. Nos anos seguintes, até ao final
da década de 30, vemos alguns projectos modernistas bastante interessantes
e, por vezes, com assinatura de arquitectos importantes do nosso primeiro
modernismo. É o caso, por exemplo, de Raul Tojal (1900-1989) que aceita a
encomenda para desenhar uma casa unifamiliar, a construir na rua Luís de
Camões, a pedido de Seabra – Empreza Construtora de Moradias Económicas.
De um só piso, com planta triangular, simples e bem articulada, mostra soluções
híbridas mas é exemplo de contenção e eficácia notáveis. Já do início da década
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Rádio Clube Português.
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25
Branca de Gonta Colaço e Maria Archer, Memórias da Linha de Cascais, 1943, p. 254.
O Estoril, n.º 110, 18-2-1934 e Jornal de Cascais,
n.os
AHMC/Colecção José Santos
156 e 158, de 20-2 e 10-3-1934.
Fernandes.
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Projecto da Rádio Clube da Parede.
AHMC.
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arquitectura modernista
de 40, existia ainda há poucos anos uma das poucas moradias modernistas
que restavam na Parede. Falamos da casa de Lídia Freitas Cordeiro de Penha
Coutinho, levantada na rua José Carlos da Maia, com desenho do construtor
Jeronymo d’Oliveira, muito activo nestes anos em toda a Costa do Sol. Copiando
os modelos mais em voga de arquitectos e engenheiros, o projecto mostra
alguma elaboração, compondo duas habitações, uma em cada um dos pisos,
com os seus corpos diferenciados, destacando-se o meio cilindro das escadas
e o meio exágono das salas de jantar e entradas independentes, uma no
corpo de escada e a do rés-do-chão recuada no extremo oposto. As janelas
baixas que se abrem entre os frisos que correm horizontalmente a fachada,
são contrariadas pelas estreitas frestas de iluminação que se abrem no corpo
de escadas que se eleva consideravelmente acima da platibanda. Finalmente,
devemos referir a única moradia ainda de pé, construída seguramente nestes
anos, mas da qual não temos qualquer notícia. Levanta-se, embora em muito
mau estado de conservação, na Av. da República, já nos limites da Parede em
direcção a Carcavelos e é, apesar de tudo, um belíssimo exemplar desta primeira
“aventura” do nosso modernismo. Uma fachada mais estreita sobre a avenida,
onde se pratica a entrada através de um corpo semi-cilíndrico muito robusto,
sobrepujado por um de igual desenho mais pequeno, jogos diferenciados de
corpos e alçados e uma fachada posterior, virada a sul e ao mar, com uma
enorme varanda fechada no primeiro andar, cobrindo um terraço aberto sobre
o jardim, são os temas fundamentais desta arquitectura que, milagrosamente,
ainda podemos tentar salvar do “destino” que tiveram quase todas as outras, de
forma drástica na Parede, mas que também já fez desaparecer alguns belíssimos
exemplares da arquitectura modernista do Estoril.
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Bibliografia
ALMEIDA, Pedro Vieira de ; FERNANDES, José Manuel - A arquitectura moderna em
Portugal. In HISTÓRIA da Arte em Portugal. Lisboa : Alfa, cop. 1986. Vol. 14.
BRIZ, Maria da Graça Gonzalez - A arquitectura modernista do Estoril : 1930-1940. Arquivo
de Cascais - Boletim Cultural do Município. Cascais. N.º 10 (1991), p. 61-72.
___ - A vilegiatura balnear marítima em Portugal (1870-1970) : sociedade, arquitectura
e urbanismo. Lisboa : [s.n.], 2004. Dissertação de doutoramento em História da
Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
Universidade Nova de Lisboa.
PORTAS, Nuno - A evolução da arquitectura moderna em Portugal : uma interpretação.
In ZEVI, Bruno - História da arquitectura moderna. Lisboa : Arcádia, 1977. Vol. II.
SILVA, Raquel Henriques - A arquitectura de veraneio em S. João do Estoril, Parede e
Carcavelos, 1890-1930. Arquivo de Cascais - Boletim Cultural do Município. Cascais.
N.º 7 (1988), p. 93-174.
___ - Cascais. Lisboa : Presença, 1988.
◀
Casal de Monserrate.
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Obra Completa - Câmara Municipal de Cascais