SAPELLI, Marlene Lucia Siebert SABERES DA TERRA: DO DIREITO À INSERÇÃO PRECARIZADA? PROJOVEM PLAN FIELD-AND KNOWLEDGE: PRELIMINARY DISCUSSIONS Marlene Lucia Siebert Sapelli1 RESUMO: O objetivo desse artigo é analisar uma das políticas do governo federal no âmbito da Educação do Campo, o Programa Projovem Campo-Saberes da Terra. A pesquisa foi feita a partir da análise de legislações federais, de documentos oficiais do Programa, de artigos de pesquisadores que analisam a questão e bibliografias que discutem aspectos envolvidos na questão proposta. Como as orientações gerais vieram do governo federal, mas os encaminhamentos foram diferenciados nos estados, faremos uma apresentação geral do Programa, porém nos deteremos na análise de como foi feito o encaminhamento no Paraná. O esforço de pesquisa foi feito no sentido de encontrar respostas (mesmo que provisórias) para as seguintes questões: como foi implementado o Programa e quais seus objetivos? Quem estava/está envolvido? A implementação do Programa representa uma política de Estado ou de governo? Quais as fragilidades e os avanços desse Programa? Como foi articulado o processo de formação dos educadores envolvidos? Na primeira parte discutimos a centralidade da Educação Básica, principalmente, do Ensino Fundamental na Constituição Brasileira (1988), no Plano Nacional de Educação (2001) e no Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (2011), enfatizando o acesso de jovens e adultos a esse nível. A seguir apresentamos o Programa no âmbito federal e sua implementação no estado do Paraná. Para concluir problematizamos alguns aspectos envolvidos: o tipo de política que o Programa representa, suas contradições e seus objetivos não anunciados. Palavras-chave: Projovem Campo - Saberes da Terra; políticas educacionais; acesso; inserção precarizada. ABSTRACT: The aim of this article is to analyze one of the federal government policy under the Rural Education whose name is Projovem Plan Field-And Knowledge. The research was conducted from analysis of Federal Laws, Official Documents of the Plan, articles of researchers that analyze this subject and bibliographies that discuss aspects involving the proposed issue. As the general guidelines had came from the federal government, but the referrals had been differentiated in the states, we will make a general presentation of the Plan. We will keep ourselves in the analysis of how the referral was made in Parana state, Brazil. The research effort was made to find answers (even provisional) the following questions: How was the Plan implemented and what were its goals? Who was and/or involved in this process? Does the implementation of the Plan represent a state or government policy? What are the weaknesses and breakthroughs of this Plan? How was the training process of involved educators? Thus, firstly, we discussed the centrality of basic education, especially, in elementary school, in the Brazilian Constitution (1988), National Education Plan (2001) and the Project of Law of the National Education Plan (2011) 1 Professora do Departamento de Pedagogia da Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná (Guarapuava), doutoranda do Programa de Pós Graduação em Educação - UFSC, bolsista CNPq. E-mail: [email protected]. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert emphasizing access for young and adults to this level. In this perspective, we present the program at the federal level and its implementation in Paraná state. Some involved aspects favors the conclusion the following questions: what kind of policy has the Plan represented, contradicted and not advertised. Keywords: Projovem Plan Field-And Knowledge; educational policies; access; precarious insertion. Introdução As políticas públicas, particularmente as de caráter social, são mediatizadas pelas lutas, pressões e conflitos entre elas. Assim, não são estáticas ou fruto de iniciativas abstratas, mas estrategicamente empregadas no decurso dos conflitos sociais expressando, em grande medida, a capacidade administrativa e gerencial para implementar decisões de governo. (...) Ao longo da história, a educação redefine seu perfil reprodutor/inovador da sociabilidade humana. Adapta-se aos modos de formação técnica e comportamental adequados à produção e reprodução das formas particulares de organização do trabalho e da vida. Shiroma apud Barcellos [20__] Não existe neutralidade nem falta de intencionalidade nas políticas educacionais engendradas no percurso da história brasileira. Quando se trata da educação implementada em escolas do campo isso não é diferente. Interesses econômicos, políticos, religiosos foram fatores determinantes para a educação do campo, tanto no âmbito nacional como internacional. Leite (1999) nos mostra que, em geral, essas políticas tinham ora objetivo de caráter ideológico, ora de fixar o homem no campo, ora combater a pobreza, ora de modernizar a produção, ora de conter a expansão dos movimentos sociais agrários e das lutas camponesas, ora uma combinação de várias intenções. O autor também explicita que o financiamento dessas políticas vinha de diferentes fontes, mas que em muitos momentos o mesmo era estrangeiro, vindo de países centrais, especialmente dos EUA. Em geral, as políticas eram pontuais e de caráter compensatório, sustentadas na concepção de campo como lugar de atraso. Também temos que considerar que a implementação dessas políticas foi marcada pelo dualismo estrutural presente na educação brasileira, resultado da sociedade organizada em classes, na qual uma se submete à outra. Uma das questões que sempre apareceu como central nessas políticas foi a necessidade de ampliação do acesso de crianças, jovens e adultos à Educação Básica, principalmente, ao Ensino Fundamental. Muitos dispositivos político-legais foram Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert criados: artigos na Constituição Federal (1988); metas no Plano Decenal de Educação para Todos (1993), no Plano Nacional de Educação (2001) e no Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (2011), entre outros. Muitos documentos foram produzidos por organismos internacionais, como é o caso da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) , BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), ONU (Organização das Nações Unidas) para posicionar-se diante dessa questão. Na Constituição Brasileira, a questão é explicitada, principalmente, nos artigos a seguir: Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; [...] IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; [...] VII - garantia de padrão de qualidade. [...] Art. 211. [...] § 1º A União organizará o sistema federal de ensino e o dos territórios, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá, em matéria educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios (Redação dada pela Emenda Constitucional no 14, de 1996); [...] § 4º Na organização de seus sistemas de ensino, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirão formas de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. (Redação dada pela Emenda Constitucional no 59, de 2009). [...] Art. 214. [...] II - universalização do atendimento escolar; III - melhoria da qualidade do ensino; IV - formação para o trabalho. No Plano Nacional de Educação (2001), para a modalidade de Jovens e Adultos algumas metas previam o atendimento na Educação Básica, para a população de 15 anos e mais. Objetivos e Metas [...] 3) Assegurar, até o final da década, a oferta de cursos equivalentes às quatro séries finais do ensino fundamental para toda a população de 15 anos e mais que concluiu as quatro séries iniciais. [...] 5) Estabelecer programa nacional de fornecimento, pelo Ministério da Educação, de material didático-pedagógico, adequado à clientela, para os cursos em nível de ensino fundamental para jovens e adultos, de forma a incentivar a generalização das iniciativas mencionadas na meta anterior. [...] Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert 10) Reestruturar, criar e fortalecer, nas secretarias estaduais e municipais de educação, setores próprios incumbidos de promover a educação de jovens e adultos. [...] 13) Aperfeiçoar o sistema de certificação de competências para prosseguimento de estudos. [...] 15) Sempre que possível, associar ao ensino fundamental para jovens e adultos a oferta de cursos básicos de formação profissional (grifo nosso); [...] 24) Articular as políticas de educação de jovens e adultos com as culturais, de sorte que sua clientela seja beneficiária de ações que permitam ampliar seus horizontes culturais. 26) Incluir, a partir da aprovação do Plano Nacional de Educação, a Educação de Jovens e Adultos nas formas de financiamento da Educação Básica. No Projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (2011), no seu artigo 2º., esses compromissos são ratificados. Art. 2º São diretrizes do PNE – 2011/2020: I - erradicação do analfabetismo; II - universalização do atendimento escolar; III - superação das desigualdades educacionais; IV - melhoria da qualidade do ensino; V - formação para o trabalho; VI - promoção da sustentabilidade sócio-ambiental; VII - promoção humanística, científica e tecnológica do País; VIII - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto; IX - valorização dos profissionais da educação; e X - difusão dos princípios da equidade, do respeito à diversidade e a gestão democrática da educação. Há também nesse Projeto de Lei, a meta 10, específica para a escolarização de Jovens e Adultos integrada à qualificação profissional: “Meta 10: Oferecer, no mínimo, 25% das matrículas de educação de jovens e adultos na forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio”. Essa meta vem acompanhada de algumas estratégias: Estratégias: 10.1) Manter programa nacional de educação de jovens e adultos voltado à conclusão do ensino fundamental e à formação profissional inicial, de forma a estimular a conclusão da educação básica. 10.2) Fomentar a expansão das matrículas na educação de jovens e adultos de forma a articular a formação inicial e continuada de trabalhadores e a educação profissional, objetivando a elevação do nível de escolaridade do trabalhador. 10.3) Fomentar a integração da educação de jovens e adultos com a educação profissional, em cursos planejados de acordo com as características e Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert especificidades do público da educação de jovens e adultos, inclusive na modalidade de educação a distância. 10.4) Institucionalizar programa nacional de reestruturação e aquisição de equipamentos voltados à expansão e à melhoria da rede física de escolas públicas que atuam na educação de jovens e adultos integrada à educação profissional. 10.5) Fomentar a produção de material didático, o desenvolvimento de currículos e metodologias específicas para avaliação, formação continuada de docentes das redes públicas que atuam na educação de jovens e adultos integrada à educação profissional. 10.6) Fomentar a oferta pública de formação inicial e continuada para trabalhadores articulada à educação de jovens e adultos, em regime de colaboração e com apoio das entidades privadas de formação profissional vinculadas ao sistema sindical. 10.7) Institucionalizar programa nacional de assistência ao estudante, compreendendo ações de assistência social, financeira e de apoio psicopedagógico que contribuam para garantir o acesso, a permanência, a aprendizagem e a conclusão com êxito da educação de jovens e adultos integrada com a educação profissional. 10.8) Fomentar a diversificação curricular do ensino médio para jovens e adultos, integrando a formação integral à preparação para o mundo do trabalho e promovendo a inter-relação entre teoria e prática nos eixos da ciência, do trabalho, da tecnologia e da cultura e cidadania, de forma a organizar o tempo e o espaço pedagógicos adequados às características de jovens e adultos por meio de equipamentos e laboratórios, produção de material didático específico e formação continuada de professores. Notemos que 23 anos separam a aprovação da Constituição Brasileira (1988) e do projeto de Lei do Plano Nacional de Educação (2011), porém o que se pretendia garantir como direito na primeira, ainda aparece como meta na segunda. Não esqueçamos que a luta por direito sempre expressa a desigualdade presente na sociedade e a existência de um Estado conservador que, ao buscar garantir direitos, também contribui para a manutenção do status quo atual da sociedade. A inclusão da questão nesse Projeto de Lei indica também o quanto ainda estamos longe de atingir a meta de universalização da Educação Básica, especialmente quando se trata de Jovens e Adultos (e de forma mais preocupante quando se trata da população do campo), como veremos a seguir nos dados apresentados. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert Tabela 1 População de 18 anos ou mais de idade, FORA da escola e com MENOS de 11 anos de estudo, por localização e faixa etária, segundo grupos de anos de estudo - Brasil - 2007 População de 18 anos ou mais FORA da escola e com MENOS de 11 anos de estudo Faixa Etária Total Menos de 4 18 18 25 32 39 46 53 ou mais a 24 anos a 31 anos a 38 anos a 45 anos a 52 anos anos ou mais 60.479.563 6.416.248 7.762.973 8.698.548 8.998.804 8.092.137 20.510.853 19.924.866 893.901 1.510.760 2.025.356 2.524.550 2.562.400 10.407.899 18 18 25 32 39 46 53 ou mais a 24 anos a 31 anos a 38 anos a 45 anos a 52 anos anos ou mais 16.249.038 2.046.153 2.407.545 2.361.496 2.328.546 1.996.102 5.109.196 8.802.184 530.817 940.609 1.077.874 1.182.806 1.169.917 3.900.161 Anos de estudo De 4 a menos de 8 Urbano 25.040.995 2.491.199 3.421.517 3.937.204 3.966.104 3.639.774 7.585.197 De 8 a menos de 11 15.513.702 3.031.148 2.830.696 2.735.988 2.508.150 1.889.963 2.517.757 Rural 5.680.434 985.694 1.053.150 961.328 901.845 701.197 1.077.220 1.766.420 529.642 413.786 322.294 243.895 124.988 131.815 Fonte: IBGE/Pnad 2007 - Tabela elaborada pela DTDIE/Inep Tabela 2 Número de estabelecimentos por localização segundo o nível/modalidade de ensino - Brasil - 2005/2007 Estabelecimentos de ensino Nivel/Modalidade de 2005 2007 Ensino Urbana Rural Urbana Total Total Total 207.234 110.677 96.557 198.397 110.011 -Creche 32.296 27.572 4.724 38.784 31.382 -Pré-Escola 105.616 59.600 46.016 104.323 56.414 -Ensino Fundamental 162.727 72.314 90.413 154.321 71.658 - Anos Iniciais 150.023 61.068 88.955 141.313 60.185 - Anos Finais 57.716 41.952 15.764 59.648 42.057 -Ensino Médio 23.561 22.184 1.377 24.266 22.521 -Educação Especial 7.053 6.814 239 6.978 6.704 -Educação de Jovens e Adultos 45.433 24.959 20.474 42.753 25.198 Rural 88.386 7.402 47.909 82.663 81.128 17.591 1.745 274 17.555 Fonte:MEC/Inep - Censo Escolar 2005 e 2007. Nota: O mesmo estabelecimento pode oferecer mais de um nível/modalidade de ensino. Os dados são gritantes. Na tabela 1 constatamos que mais de 50% das pessoas com mais de 18 anos, que vivem no campo, têm menos de quatro anos de escolaridade e mais de cinco milhões têm de quatro a menos de oito anos de escolaridade. Perceba-se também, na tabela 2, que o atendimento à Educação de Jovens e Adultos do Campo, diminuiu de 2005 para 2007. A forma de atendimento a esses jovens e adultos muitas vezes se dá em Programas ou Projetos que são políticas de governo pontuais e compensatórias. Analisaremos a seguir um desses Programas propostos pelo governo federal e implementado pelos estados, o ProJovem Campo - Saberes da Terra, que é um Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert programa de escolarização de jovens agricultores/as familiares, em nível fundamental (anos finais) na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), integrado à qualificação social e profissional. Quando o Programa iniciou, em 2005 (instituído pela Lei nº 11.129, de 30 de junho de 2005), foi implantado em doze estados. A primeira etapa de execução do Saberes da Terra iniciou-se em dezembro de 2005 em 12 estados (BA, PB, PE, MA, PI, RO, TO, PA, MG, MS, PR e SC) junto às Secretarias Estaduais de Educação, representações estaduais da União Nacional dos Dirigentes Municipais em Educação – UNDIME, Associação de municípios Cantuquiriguaçu, entidades e movimentos sociais do campo integrantes dos comitês e fóruns estaduais de Educação do Campo. Pode-se considerar que o biênio 2005-2006 foi de implementação do Projeto Piloto Saberes da Terra. (JUNIOR, 2009.) Em 2005, o Programa era vinculado à Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (SECAD/MEC) e, em 2007 integrou-se ao Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem) que possui outras três modalidades (adolescente, trabalhador e urbano), e é coordenado pela Secretaria Nacional da Juventude (BRASIL, [20__]a). É uma ação integrada entre o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) e da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC); o Ministério do Desenvolvimento Agrário por meio da Secretaria de Agricultura Familiar (SAF) e da Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT); o Ministério do Trabalho e Emprego por meio da Secretaria de Políticas Públicas de Emprego (SPPE) e da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES); o Ministério do Meio Ambiente por meio da Secretaria de Biodiversidade e Floresta (SBF); o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) e a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ) vinculada à Presidência da República. (BRASIL, [20__]b) Em 2008, o Programa passou a ser regulamentado pela Medida Provisória n° 411/07. Na Medida estava previsto um comitê gestor para cada modalidade do Programa; a contratação dos profissionais em âmbito local; a transferência de recursos financeiros pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE); o pagamento de 12 auxílios financeiros aos participantes da modalidade ProJovem Campo - Saberes da Terra; o objetivo de elevar a escolaridade dos jovens da agricultura familiar, integrando a qualificação social e formação profissional, na forma do art. 81 da Lei nº 9394/96, estimulando a conclusão do Ensino Fundamental e proporcionando a formação integral do jovem, na modalidade Educação de Jovens e Adultos, em regime de alternância, nos termos do regulamento. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert O Paraná participou do Projeto Piloto (2005) e da versão atual do Programa. O Projeto Piloto do Programa foi desenvolvido por onze municípios do Território Cantuquiriguaçu, a saber: “Candói, Cantagalo, Goioxim, Laranjeiras do Sul, Marquinho, Nova Laranjeiras, Pinhão, Porto Barreiro, Reserva do Iguaçu, Rio Bonito do Iguaçu e Virmond” (COSTA; OLIVEIRA, 2008, p. 09). O objetivo era “elevar a escolaridade de jovens e adultos agricultores familiares, proporcionando certificação correspondente ao Ensino Fundamental, integrada à qualificação social e profissional” (GIACOMETTI, 2008, p. 33). O Projeto durou 2 anos, com total de 3200 h/a (tempo aula e tempo comunidade)2, em regime de alternância, tendo como eixo articulador a Agricultura Familiar e a Sustentabilidade. A certificação ficou a cargo da Escola Técnica da UFPR que fez Convênio com os municípios envolvidos. A implantação do Programa foi acompanhada de perto por uma equipe política composta de representantes dos Movimentos Sociais e das Secretarias Municipais de Educação. Também houve um processo de formação continuada para os professores que trabalharam com as turmas. Houve dificuldades no processo de implementação em relação ao espaço, ao material, aos recursos, às pessoas envolvidas. Mas também houve avanços, especialmente, no sentido de construir uma visão crítica da realidade. Houve troca de saberes e um esforço no sentido de propiciar a apropriação de tecnologias específicas da agroecologia (GIACOMETTI, 2008). No Projeto Piloto, além de participar dos tempos/espaços pedagógicos (encontros de estudo, oficinas, laboratórios, seminários, práticas de equipe, intercâmbios para estudo, troca de experiências, pesquisa e experiências individuais, grupos de estudos, estudos dirigidos, preparação de seminários e oficinas), os participantes desenvolveram “Projetos de vida” que tinham como objetivo articular o conhecimento às práticas das famílias, ou seja, uma tentativa de aplicação dos conteúdos escolares na produção, tendo como eixo o desenvolvimento local (GHEDINI, 2008). Em 2008, foram retomadas as discussões para a implantação de novas turmas do Programa. Foram organizadas várias reuniões, pela Coordenação da 2 Tempo escola para construção das referências teóricas e tempo comunidade como práxis do processo (GIACOMETTI, 2008). O tempo comunidade é o momento de estudo/aplicação de conhecimento realizado no espaço onde vive o educando, desenvolvendo pesquisas projetos experimentais, atividades em grupo. Esse tempo deve ser acompanhado pelos educadores que devem orientar as atividades. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert Educação do Campo do Departamento da Diversidade da SEED/PR. Foi composto um grupo de trabalho com representantes da SEED/PR, de algumas Universidades, da Secretaria do Trabalho, das Articulações Regionais Por Uma Educação do Campo, do Instituto Equipe, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem terra e outros (a equipe foi ampliada no decorrer dos trabalhos). À SEED/PR coube a coordenação dos trabalhos para a construção do Projeto Político Pedagógico e à Universidade Federal do Paraná (Litoral), a coordenação da formação continuada dos professores que trabalhariam no Programa, que foi organizada na modalidade de pós-graduação. No Paraná o Programa foi proposto e justificado a partir das demandas de educandos (com idade entre 18 e 29 anos, inicialmente, depois com mais de 29 anos 3) apresentada pelos municípios que faziam parte dos territórios Cantuquiriguaçu, Vale do Ribeira, Caminhos do Tibagi, Centro-Sul, Norte Pioneiro, Região Litorânea, Sudoeste do Paraná e União da Vitória (PARANÁ, 2009, p. 4). Segundo dados da PNAD – Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios e do SIDRA – Sistema IBGE de Recuperação Automática, o Estado do Paraná conta com um total de 314 mil jovens agricultores entre 18 e 29 anos, destes, 110 mil jovens estão excluídos do processo de escolarização formal, com 7 anos de permanência na escola, ou seja, não concluíram a segunda etapa do Ensino Fundamental. O quadro a seguir mostra a abrangência do Programa no Paraná. Comparando a demanda apontada pela PNAD e pelo SIDRA, consideramos a abrangência do Programa muito pequena, um quase nada, pois atendeu em torno de 1% da demanda. 3 Uma das polêmicas na discussão do Programa, foi justamente a faixa etária definida pelo MEC que era de 18 a 29 anos. O levantamento indicou que havia um grande número de alunos para o Programa que tinha mais de 29 anos. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert ESCOLA BASE ESTABELECIMENTO MUNICÍPIO EDUCANDOS ACIMA DE 29 ANOS NRE EDUCANDOS DE 18 A 29 ANOS Quadro 1 - ProJovem Campo - Saberes da Terra C. E. Nossa Senhora das Graças Itaperuçu 18 26 Escola Estadual Esquina Gaúcha Pérola D'Oeste 8 19 Renascença 25 4 C. E. José Bonifácio Campo Bonito 39 2 C. E Otávio Folda Guaraniaçú 20 14 C. E. Santa Luzia Lindoeste 24 23 C. E. Santa Maria Santa Tereza do Oeste 18 14 E. E. Santa Inês Braganey 27 23 C. E. Pe. Sigismundo Quedas do Iguaçu 28 17 C. E. Irmã Inês Porto Barreiro 8 10 C.E. Prof.ª Izabel Fonseca de Siqueira Reserva do Iguaçu 11 28 C.E. Faxinal da Boa Vista Turvo 13 15 C. E de Cachoeira Candói 13 6 Col. Est. João Ferreira Neves Goioxim 40 21 C. E. Nossa Senhora de Fátima Irati/Distr. De Guamirim 58 52 C. E. Professor Manoel Borges de A M. NORTE Macedo – Município de Rio Branco do Sul FRANCISCO BELTRÃO CEEBJA Santo Antonio do Sudoeste – Município de Santo Antonio do Pavilhão de Assentamento S. João de Sudoeste Paula CASCAVEL LARANJEIRAS DO SUL GUARAPUAVA IRATI CEEBJA Joaquina Mattos Branco Município de Cascavel CEEBJA – Laranjeiras do Sul CEEBJA Guarapuava – Município de Guarapuava CEEBJA Irati – Município de Irati Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert IVAIPORÃ JACAREZINHO PARANAGUÁ PITANGA PATO BRANCO CEEBJA Ivaiporã – Município de Jardim Alegre 37 7 C. E. Cora Coralina Jardim Alegre 28 18 CEEBJA de Ivaiporã Ivaiporã 24 - E.E. Presidente Kennedy Ariranha do Ivaí 18 8 E.M. Aluísio de Azevedo Arapuã 24 6 E.E de Romeópolis Arapuã 32 13 E.E. Jorgina B. De Paula Ribeirão do Pinhal 25 3 C. E. Barbosa Ferraz Andirá 25 3 E. R. M. De Anhaiá Morretes 23 19 C. E. R. Natal Pontarolo Boa Ventura de São Roque 34 8 C. E. De Laranjal Laranjal 16 6 C. E. De Chapadão Laranjal 20 9 C. E. Pinhal Grande Laranjal 16 4 C. E. João Paulo II Palmital 32 6 E. E. Indígena Segso Palmas 23 2 C. E. Vista Alegre Ortigueira 20 Colégio Estadual Teotônio Vilela Ortigueira 17 12 C. E. De Iporã Iporã 37 7 C. E. Santa Eliza Umuarama/Distr. Santa Eliza 25 3 C. E. Ana Neri Perobal 42 6 Ivaiporã C. E. Barbosa Ferraz – Município de Andirá CEEBJA Paranaguá – Município de Paranaguá CEEBJA Casturina Companhara Bonfim – Município de Pitanga- Colégio Estadual Sebastião Paraná – Município de Palmas TELÊMACO CEEBJA Ortigueira – Município de BORBA Ortigueira UMUARAMA C. E. José Marti CEEBJA Ivaté - Umuarama Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert UNIÃO DA VITÓRIA CEEBJA Bituruna - Bituruna WENCESLAU CEEBJA Wenceslau Braz – Wenceslau BRAZ TOTAL – 15 Braz C. E. Prof. Estanislau Wrublewski Cruz Machado 21 2 CEEBJA Wenceslau Braz Wenceslau Braz 39 13 C. E. Milton Sguário Jaguariaíva 31 16 C. E. De Calógeras Arapoti/Distr. De Calógeras 30 28 C. E. Humberto de Alencar Castelo Branco Santana do Itararé 32 6 E. E. Gabriel Bertoni Salto do Itararé 14 11 41 36 1035 490 15 Quadro fornecido pela SEED/PR em Fevereiro/2011 O objetivo geral da proposta do Paraná era […] desenvolver políticas públicas de Educação do Campo para a juventude que oportunizem aos jovens agricultores familiares, excluídos do sistema formal de ensino, a escolarização em nível fundamental, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, integrado à qualificação social e profissional” (PARANÁ, 2008. p. 23). Essa integração entre a escolarização e a qualificação profissional iniciou pelo Ensino Médio e só depois veio para o Ensino Fundamental e já era meta prevista no Plano Nacional de Educação (2001). A vinculação entre a Educação Escolar e o mundo do trabalho está detalhada no Decreto nº 5154/04, ao considerar que a formação inicial e continuada de trabalhadores se constitui por cursos ou programas de Educação Profissional articulando-se preferencialmente com os cursos de Educação de Jovens e Adultos, com o objetivo da educação para o trabalho e a elevação da escolaridade do trabalhador. No âmbito dessa vinculação, em 2005, por meio do Decreto nº 5478, foi instituído o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Posteriormente, esse Decreto foi revogado pelo de nº 5840/06, o qual possibilita essa integração também no Ensino Fundamental. (PARANÁ, 2009, p. 3) Os objetivos específicos do Programa eram: • • • Criar possibilidades para que os educandos pesquisem e apliquem em suas propriedades, projetos que vinculem a integração humana, ambiental e econômica; Fortalecer o desenvolvimento de propostas pedagógicas e metodológicas adequadas à modalidade de EJA no campo; Vincular a educação a um projeto de desenvolvimento Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert • • multidimensional de campo e de educação, contemplando o ser humano enquanto sujeito do processo; Criar possibilidades para que os/as educandos/as pesquisem e apliquem em suas propriedades, projetos de vida que vinculem a integração humana, ambiental e econômica; Fortalecer o desenvolvimento de propostas pedagógicas e metodologias adequadas à modalidade de EJA no campo. (PARANÁ, 2009, p. 5-6) A estrutura curricular foi organizada em duas partes: a formação básica e a qualificação social e profissional. A formação básica era composta pelas áreas: Linguagens, Códigos e suas tecnologias (Arte, Inglês, Língua Portuguesa e Educação Física); Linguagem Matemática e Ciências da Natureza (Ciências e Matemática) e Ciências Sociais (Geografia, História e Ensino Religioso). A qualificação foi proposta a partir do arco ocupacional Produção Rural Familiar (Agricultura Familiar, Sistema de cultivo, Criação de Animais, Extrativismo, Agroindústria, Aqüicultura). A carga horária total era de 2920 h/a (sendo 360 para o tempo comunidade, não presencial) (PARANÁ, 2009, p. 52). Quadro 2 – Matriz Curricular MATRIZ CURRICULAR NRE: ESTABELECIMENTO: PROJOVEM CAMPO SABERES DA TERRA - ENSINO FUNDAMENTAL FASE II (5ª A 8ª SÉRIE) INTEGRADO À QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL – ARCO PRODUÇÃO RURAL FAMILIAR IMPLANTAÇÃO : SET/2009 QUALIFICAÇÃO SOCIAL E PROFISSIONAL FORMAÇÃO BÁSICA TURNO: Noturno SEMESTRES / PERÍODOS DISCIPLINAS Linguagens, ARTE Códigos e LEM – INGLÊS suas Tecnologias LINGUA PORTUGUESA EDUCAÇÃO FÍSICA Linguagem Matemática e CIÊNCIAS Ciências da Natureza MATEMÁTICA *ENSINO RELIGIOSO Ciências GEOGRAFIA Sociais HISTÓRIA TOTAL DA FORMAÇÃO BÁSICA AGRICULTURA FAMILIAR 1º 3 ARCO EXTRATIVISMO OCUPACIONA L PRODUÇÃO AGROINDÚSTRIA RURAL AQUICULTURA FAMILIAR TOTAL DO TEMPO nº total horas/ aula nº total horas 3 10 14 3 60 200 280 60 50 167 233 50 10 200 167 280 20 200 200 1480 233 17 167 167 1233 2º 3º 4º 5º 3 3 3 3 3 2 2 3 2 3 3 2 3 2 3 1 2 3 2 3 3 14 3 14 3 2 16 2 2 16 3 3 14 14 1 10 10 74 4 4 4 3 3 18 360 300 3 2 3 8 160 133 2 8 160 133 2 8 160 133 6 6 120 120 100 100 1080 900 360 2920 300 2433 SISTEMA DE CULTIVO CRIAÇÃO DE ANIMAIS nº aulas 3 3 3 3 3 3 3 3 ESCOLA (Qualificação/ 13 10 8 10 54 Tempo Comunidade) 13 TEMPO COMUNIDADE 3 3 4 4 4 18 (não presencial) 30 30 28 28 146 TOTAL GERAL 30 * Disciplina de oferta obrigatória e matrícula opcional não computada na carga horária. OBS: A Formação Geral: Produção Sustentável, Segurança alimentar e nutricional, Associativismo e Cooperativismo, permeia todas as disciplinas. Fonte: Paraná, 2009, p. 52 Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert O trabalho de implantação da proposta foi dificultado em alguns momentos devido, principalmente, às diferentes concepções dos componentes do grupo de trabalho e às questões financeiras que envolviam o repasse das verbas. Num dos primeiros momentos, houve um embate entre os que defendiam o acesso amplo ao conhecimento e os que consideravam que o acesso ao conhecimento específico das questões relacionadas ao trabalho no campo era praticamente suficiente e representava a razão de ser da proposta. O primeiro grupo entendia que o acesso mais amplo ao conhecimento tornaria, inclusive, a compreensão do específico mais profunda. O segundo grupo afirmava que em outros momentos, essa ampliação e o distanciamento da realidade do campo representaram motivo de grandes índices de desistência dos trabalhadores no processo de escolarização. O primeiro grupo questionava também a questão da verticalização dos estudos que exigia a garantia de acesso a conhecimentos necessários para a continuidade. Houve embates também em relação à compreensão sobre sustentabilidade e economia solidária que eram eixos temáticos indicados na proposta do governo federal. Alguns chamavam a atenção para a impossibilidade desses aspectos no contexto capitalista. Diante desses e de outros embates, alguns se retiraram do Programa e outros se integraram a ele. Mesmo com todos os embates e hoje, distanciados das discussões, entendemos que, quando o jogo começou as cartas estavam dadas e pouco espaço havia para mudanças. As sugestões, tanto de um grupo como de outro, ao serem operacionalizadas não permitiam alterações estruturais no Programa. Essa constatação nos leva a perceber a pseudo participação a que somos submetidos quando ilusoriamente estamos propondo. Esta ilusão é estratégica e contribui para diminuir a resistência e acaba nos envolvendo de tal forma que nos sentimos responsáveis pelas políticas que não criamos, que compreendemos parcialmente, mas que consolidamos, em nome, inclusive, do nosso compromisso e respeito com as “maiorias” excluídas. Foi organizado também, como já indicamos um processo de formação continuada para os professores que atuariam no Programa, em forma de pósgraduação, coordenado pela UFPR (Litoral). Esse processo foi discutido a partir de 2008, mas só teve início em 2010 no Centro de Formação de Faxinal do Céu Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert (Pinhão/PR), com um grupo de 160 professores (BICA, SILVA, HOELLER 2010). Os problemas para a formação continuada foram potencializados quando houve troca de governo (do PMDB para o PSDB) e o novo governo não entendeu a importância dos mesmos educadores que iniciaram o Programa darem continuidade a ele. Assim, em 2011, após teste seletivo, muitos educadores não voltaram ao Programa. Vários aspectos da proposta nos instigam a refletir sobre o que é aparente e o que de fato essa política representa. O primeiro desses aspectos é compreender que tipo de política é essa. Schwartzman e Cox (2009) contribuem para isso ao afirmar que há políticas fáceis e difíceis. As fáceis são aquelas de expansão do acesso e as difíceis referem-se à qualidade. Consideramos o Programa uma política fácil, porém restrita, uma vez que contribui para a expansão do acesso, mas um acesso mínimo considerando a demanda apontada para esse nível de escolarização na faixa etária em questão. Essa política também foi engendrada não assegurando acesso amplo e profundo ao conhecimento, mostrando-se insuficiente, inclusive, para garantir a verticalidade do processo. Os mesmos autores afirmam que “para jovens e adultos que já perderam essa oportunidade inicial, são necessárias políticas educacionais que possam inseri-los da melhor forma possível no universo da informação, da cultura e das competências para o trabalho” (SCHWARTZMAN, S.; COX, 2009, p. 10. grifo nosso). Ao afirmarem “melhor forma possível”, nos provocam a questionar se isso significa que para alguns resta apenas uma formação limitada e superficial, apenas para o trabalho simples. Mészáros (2007, p. 234) também contribui para refletirmos sobre a qualidade dessa inserção, dessa oportunidade quando explicita que a “igualdade de início” é excluída da discussão. O autor afirma que “é evidente que a ‘oportunidade’ não pode ter nenhum significado se aquele que espera por um ‘resultado’ é por definição, excluído de início” (MÉSZÁROS, p.234). Kuenzer (2002) ratifica esse entendimento e afirma que a forma como são organizados os processos educativos contribui para a consolidação de uma “inclusão excludente”. Essas afirmações nos levam a aprofundar uma reflexão sobre um segundo aspecto: que tipo de inserção acontece na implantação dessa política? Frigotto (2006, p. 265) contribui para essa reflexão ao considerar que as políticas que temos hoje, em geral, são “políticas de inserção precária” e que a formação que oferecemos é para o Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert “trabalho simples”. Isso decorre do fato de que a maioria dos trabalhadores fica à margem da produção ou na periferia dela realizando o trabalho simples que exige pouca qualificação. Por que investir, então, numa qualificação mais complexa? Kuenzer (2002, p. 77) afirma que a “acumulação flexível -, ao aprofundar as diferenças de classe, aprofunda a dualidade estrutural como expressão, cada vez mais contemporânea, da polarização das competências”. A partir dessa constatação a autora afirma que “assim, o conhecimento científico e o saber prático são distribuídos desigualmente” (KUENZER, 2002, p. 79). Apesar das considerações que fizemos até aqui não podemos deixar de indicar o Programa como um espaço/tempo de contradição. Alguns grupos envolvidos podem, se convictos e preparados para utilizar esse espaço/tempo, instrumentalizar a classe trabalhadora para o processo de confronto, inclusive, em relação ao agronegócio, às práticas ambientais destrutivas e à concentração da propriedade, historicamente engendrada no Brasil. Essa consideração pode soar como ingenuidade, mas pode estar indicando, que apesar de compreendermos o limite da proposta e a articulação feita desde o âmbito nacional, há um pequeno espaço para construir a contraposição, talvez insignificante, diante dos resultados gerais do Programa, mas que precisa ser potencializada. Kuenzer (2002) afirma que enquanto não for superada a contradição entre capital e trabalho, há possibilidade apenas de práticas pedagógicas contraditórias, cuja direção depende das opções políticas dos trabalhadores em educação que as implementam. Mesmo assim nos posicionando, não deixamos de considerar que essa política representa um esforço para se construir consenso, coesão acerca da sustentabilidade e da economia solidária que, indicam em geral, aspectos de reforma do capitalismo. Schwartzman e Cox (2009, p. 3) consideram que “a educação é, por excelência, o cimento da coesão social”. Iaies e Delich (2009) ratificam essa compreensão e entendem que a coesão social permite diminuir conflito, construir a convergência de interesses e a consciência de pertencimento e identidade e consideram que “uma sociedade pode ser desigual dentro de certos limites, mas contar com um alto grau de coesão” (DELICH, 2009, p. 180). Borges (2003), apesar de concordar em parte com os autores, entende que as “políticas educacionais de inclusão são fundamentais para aumentar a coesão da Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert sociedade e evitar protestos e descontentamento social” (p. 132), mas que isso é ideológico e contribui para legitimar o Estado liberal como uma instituição neutra, empenhada em garantir o cumprimento de regras ‘justas’. Nesse sentido, o Programa poderia sim, apesar da contradição considerada, ser entendido como estratégia de construção de consenso e também da visão do Estado como bom senhor que promove políticas de igualdade de oportunidade. O processo de reforma do Estado, articulado principalmente a partir da segunda metade dos anos 1990, constitui-se na implantação do Estado Mínimo para questões como a educação formal da classe trabalhadora. Não se pode assumir abertamente tal posição, pois, é preciso, mesmo na precarização do acesso construir a ilusão de um Estado atencioso, cumpridor dos compromissos anunciados com os pobres. Assim, entendemos que o Programa cumpre também um papel ideológico. Considerações finais O Programa analisado explicita a luta pela garantia do direito de acesso à educação formal por parte daqueles, que por muito tempo foram privados do mesmo. Não podemos esquecer que a defesa do direito, como já dissemos, sempre é a expressão da sociedade desigual, senão não precisaríamos lutar por ele. Os Movimentos Sociais, na luta pelos direitos, apresentam demandas para o Estado, mas, não conseguem ter controle sobre o conteúdo e a forma do processo pelo qual o Estado se articula para atender a essas demandas. Mas sua presença contribui para a legitimação das mesmas. A política pode iniciar pela apresentação dessa demanda, mas, em geral, toma rumos incontroláveis, muito diferentes daqueles propostos inicialmente, por causa do inegável caráter desse Estado e, consequentemente, suas intencionalidades. Outra questão é pensar como, também, os intelectuais/pesquisadores das Universidades são usados para dar legitimidade a essas políticas. O envolvimento desses provoca diferentes resultados: ora de cooptação dos mesmos; ora de agregação de importantes elementos de contraposição no limite da mudança da proposta; ora de cumplicidade; ora de estratégia para elevar os ganhos salariais. Revista Eletrônica de Educação. Ano IV. No. 07, jul./dez. 2010. SAPELLI, Marlene Lucia Siebert Apesar do esforço de um grupo significativo para construir a proposta do Programa, ele representa um quase nada diante do universo de jovens e adultos que deveriam ser atendidos. Um quase nada em quantidade e também em qualidade. Nesse sentido, o Estado aparece como bom senhor que não se nega a criar políticas paras as “maiorias” excluídas e o pequeno e insuficiente esforço é mostrado como grande e suficiente, cumprindo seu papel ideológico de criar uma aparência de equalização social pela via da escolarização, mesmo quando o sonho da “escola integradora” tenha já se desfeito. Não podemos esquecer, segundo Frigotto (1996) que o embate se trava na jaula onde os tigres cuidam de suas crias. É preciso reafirmar a luta por uma escola unitária, com formação politécnica, portanto, também “política”, que sirva de instrumento de luta para a contraposição à atual sociabilidade. E essa luta não pode esperar a existência de outra sociabilidade, precisa começar no interior da “velha, mas atual sociabilidade”. Referências BARCELLOS, Jorge. As políticas educacionais no Brasil: apontamentos para sua história. [20__]. Disponível em: <http://302284.vilabol.uol.com.br/histpol.html>. Acesso em: 05 fev. 2011. BICA, Gabriela Schenato, SILVA, Cristiane Rocha; HOELLER, Silvana Cássia. Formação de educadores do campo: a educação do campo na compreensão de educadores do Programa de Formação de Educadores – Projovem Saberes da Terra no Paraná. 2010. Disponível em: <http://www.encontroobservatorio.unb.br/arquivos/artigos/187.pdf>. Acesso em: 07 jan. 2011. BORGES, André. 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