PELA HIGIENE DOS CORPOS E DA CIDADE: O QUADRO MÉDICOSANITARISTA DA CIDADE DE NATAL NA ÚLTIMA DÉCADA DO SÉCULO XIX1 Ildegarde Elouise Alves (UFRN - Departamento de História) RESUMO Incluído nas atividades do projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira República” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o presente trabalho tem por finalidade apresentar o quadro médico-sanitarista da cidade de Natal na última década do século XIX. Para isso, serão analisadas as Mensagens dos Governadores do Estado à Assembléia Legislativa, os relatórios dos Inspetores de Higiene e as notas e propagandas de jornais que compreendem esse período e fazem referência à temática em estudo. O recorte temporal se dá pelo entendimento de que nesse período houveram mudanças significativas no pensar e agir médico na cidade, principalmente pela chegada de novos médicos na capital, de uma maior intervenção do poder público na questão da saúde e pela propaganda dos ideais higienistas que passaram a circular com mais frequência na capital potiguar. PALAVRAS-CHAVE: Práticas Médicas - Sanitarismo - Saúde Pública - Natal em fins do XIX. Notas para uma introdução A produção de estudos referentes às práticas e saberes médicos em Natal, em especial na Primeira República, são poucos, principalmente por parte dos historiadores, sendo que, a maior parte destes são monografias e projetos de mestrado ainda em desenvolvimento. Quem mais produz a respeito de tais questões são médicos locais como Iaperi Araújo em publicações como História da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a biografia Januário Cicco: um homem além de seu tempo, e ainda Clóvis Travassos Sarinho em Hospitais do Rio Grande do Norte, dentre outras. Os estudos voltados para uma História da Saúde em Natal no primeiro período republicano estão imbuídos, principalmente, no contexto de uma História Urbana, ou seja, a produção historiográfica existente até o momento está relacionada à história urbana da cidade do Natal no âmbito da saúde pública. Esta historiografia tem 1- O Trabalho em questão faz parte das atividades do projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira República”, orientado pelo Professor Dr. Raimundo Nonato Araújo da Rocha. contemplado aspectos urbanísticos, arquitetônicos, ambientais e técnicas sendo que, as questões referentes a saúde pública e as práticas oriundas dessas apenas são colocadas em questão quando o pensamento médico, higienista e sanitário vão influenciar na formação e transformação do espaço urbano, como a obra de Pedro de Lima, intitulada Saneamento e Modernização em Natal: Januário Cicco, 1920. Autores tidos como tradicionais na historiografia potiguar também se debruçaram timidamente sobre a temática. É o caso de Itamar de Souza em seu livro A República Velha no Rio Grande do Norte (1889-1930), no qual o ator dedica apenas quatro páginas para a questão da saúde pública na temporalidade estudada. Em meio a esses autores, é Camara Cascudo que dará uma maior ênfase à questão médica no estado em muitas das suas obras, sendo que é em sua clássica História da Cidade do Natal em que o autor faz um apanhado interessante e um pouco mais amplo sobre a questão da medicina e da doença ao longo da história natalense, principalmente de meados do século XIX e início do XX. Percebendo essa pouca produção historiográfica sobre uma história da saúde e da doença na capital potiguar, o projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira República” do grupo de pesquisa “Os espaços na Modernidade” da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, do qual faz parte este trabalho, busca ampliar o quadro da produção de uma História da Saúde em Natal no referido período, uma vez que se percebe o potencial informativo para o estudo de tais práticas e a proficuidade das fontes referentes ao assunto. O presente trabalho pretende apresentar o quadro médico-sanitarista da cidade de Natal na última década do século XIX, por entender que nesse período ocorreram mudanças significativas no pensar e agir médico na cidade, principalmente pela chegada de novos médicos na capital, de uma maior intervenção do poder público na questão da saúde e pela propaganda dos ideais higienistas que passaram a circular com mais frequência na capital potiguar. Cabe ressaltar também que esse era um período de transição política onde o regime republicano buscava afirmação e os discursos de civilidade, higiene, ordem e progresso ganharam força na medida em que representavam o que queria ser o novo regime. Os fontes analisadas na elaboração desse trabalho foram as Mensagens dos Governadores do Estado à Assembléia Legislativa, os relatórios dos Inspetores de Higiene e as notas e propagandas de jornais que compreendem esse período e fazem referência à temática em estudo. Na análise dessas fontes, buscamos perceber as mudanças do tratamento do poder público às questões de saúde pública, principalmente pela regularização da Inspetoria de Higiene no início da década de 1890; os médicos que atuavam na capital e a sua relação com o poder público e como essas ações eram apresentadas na imprensa local, no caso em questão, pelo jornal “A República”. Na análise da mídia impressa buscaremos perceber também como o jornal se torna um dos principais divulgadores dos ideais higienistas e dos cuidados profiláticos mediante epidemias. Buscaremos ainda analisar o desenvolvimento das propagandas de médicos, medicamentos e farmácias que figuravam em anúncios na capital potiguar. O quadro médico-sanitarista da cidade de Natal na última década do século XIX Segundo Câmara Cascudo, é apenas no século XIX que a figura do médico ganha alguma projeção no cenário do Rio Grande do Norte, na medida que é nesse período onde os mesmos começam a aparecer com mais frequência, principalmente na capital potiguar. Tal fato ocorre porque o primeiro cargo público para médicos e cirurgiões surge nesse período, que é o cargo de Cirurgião do Partido Público, criado em aproximadamente 1931. Esse profissional seria o responsável pelo tratamento dos presos de justiça, pobres e indigentes, podendo atender também aos chamados daqueles que pudessem pagar pelos seus serviços. No entanto, esse cargo nem sempre estava ocupado, pois, ainda segundo o autor, o ordenado não era atrativo o suficiente para que profissionais de outros estados tivessem o interesse de se estabelecer na capital potiguar. O aumento do ordenado acontece em 1840 e em 1842 o dr. José Bento Pereira de Mota se estabelece em Natal como o primeiro Médico do Partido Público - na década anterior, o cargo era ocupado por cirurgiões, como o sr. João José de Oliveira (CASCUDO, 1999: 203-204). Na segunda metade do século XIX, a então Província do Rio Grande do Norte vai ser atingida periodicamente por uma série de epidemias, como em boa parte do território nacional, em especial a febre amarela, a varíola e a cólera. Fatores como a fome, más condições de higiene, os marinheiros doentes que chegavam ao porto, vindos da Europa, e outros teriam favorecido a disseminação das doenças, causando as epidemias. São essas epidemias que, em grande medida, irão começar a mudar a estrutura médica da Província, feita antes, principalmente, pelo atendimento domiciliar. As primeiras tentativas de conter essas epidemias são de caráter paliativo, baseando-se em uma esparsa distribuição de medicamentos, no entanto, na medida em que o número de casos aumenta, uma estrutura médica para o tratamento dos doentes se torna imprescindível e em 1855 se cria o Hospital da Caridade pelo Presidente Passos. É a partir desse momento que os dirigentes passaram a se preocupar minimamente com medidas médicas e sanitárias mais sólidas no Rio Grande do Norte, que atendessem a um maior contingente populacional e as novas necessidades do Estado. Ainda assim, as medidas continuavam com um caráter mais emergencial do que preventivo no tratamento das doenças e dos doentes. Mesmo com o aumento da discussão sobre saúde pelo poder público, o quadro de médicos estabelecidos na província ainda era insuficiente para a demanda. Cascudo afirma que em julho de 1888 a Inspetoria Geral de Higiene da Corte acusava apenas quinze médicos e quatro farmacêuticos em toda a Província do Rio Grande do Norte. Dos médicos, seis atuavam na capital (CASCUDO, 1999: 212). A instauração da República traz consigo não só mudanças de ordem política mais de outros valores que deveriam estar pautados em discursos de civilidade, higiene, ordem e progresso que, em alguma medida, representavam o que queria ser o novo regime. Nesse contexto de novos valores em busca de legitimação, a figura do médico é redimensionada. Para além da arte da cura, o médico se torna também um cientista do social, estabelecendo relações entre saber médico e outras áreas, sendo também figuras centrais na luta pela regeneração nacional. Segundo André Mota A partir das primeiras décadas do regime republicano do Brasil, a inquietação dos médicos e das instituições de saúde pública com as condições de higiene nas áreas interioranas e nas grandes cidades revelava também a preocupação com o destino da raça brasileira e os laços que integravam a pátria. Nesse sentido, as idealizações médicas formuladas no projeto sanitário a ser implementado tinham como meta reverter as nefastas perspectivas que avaliavam o brasileiro como inferior e, por isso, incapacitado para atingir alguma civilidade (MOTA, 2003: 19). O autor ainda afirma que A ação saneadora esperava criar a possibilidade de rever o tema da formação dos brasileiros e todas as ambiguidades que cercavam essa discussão. A observação pormenorizada dos níveis de educação, das condições de saúde e moradia, dos costumes e das manifestações culturais levaria ao suposto conhecimento empírico desse povo. ... Devido ao poder atribuído aos médicos e às suas instâncias normativas, as políticas públicas de saúde seriam inseridas no planejamento das cidades e das zonas rurais como forma de combate sistêmico das doenças, domínio e saúde do corpo social, incorporando à lógica médica outros campos do conhecimento, como a estatística, a geografia, a demografia e a história. Cientes de seus “dotes profissionais”, eles cumpririam o que imaginavam ser uma missão regeneradora nacional, exercendo cargos, desempenhando tarefas, ocupando posições estranhas à medicina, que, por essa visão, só seriam confiadas a homens distinguidos por sua superioridade. Assim, avaliavam que o reconhecimento do cidadão comum era esperado quando todo o povo, finalmente educado, pudesse compreender que tantos esforços médicos visavam, como única recompensa, ao dever de redescobrir o Brasil (MOTA, 2003: 20-21). No Rio Grande do Norte, esses ideais foram defendidos por uma emergente elite política, centrada principalmente na figura de Pedro Velho, tradicionalmente aclamado como principal idealizador da República em solo potiguar. Para Sônia Othon No plano histórico, a consolidação do regime republicano e federativo no Brasil e nos estados, pensado a partir de uma matriz liberal, significou em última instância, para as elites políticas ilustradas e emergentes, a propagação extensiva da cultura pelo imperativo do veículo da escrita. A idéia de aperfeiçoamento instrutivo, moral e estético dos cidadãos, tão propalada por tais elites políticas emergentes, a exemplo de Pedro Velho, denotava o estado republicano como o legítimo organizador e, mais do que isso, o educador do social e o ordenador do espaço público a partir de uma divisão das classes sociais. Poder-se-ia dizer que a concepção do Estado republicano do Rio Grande do Norte, idealizada sob a liderança de Pedro Velho, matizaria essa estratégia de ordenamento socioespacial, referenciada nas experiências já consubstanciadas em nações mais avançadas (OTHON, 2006: 85). Nessa nova estratégia de ordenamento socioespacial destacada por Sônia Othon está incluído o trabalho da Inspetoria de Higiene. Este orgão foi regularizado pela Lei nº 14 de 11 de junho de 1892 e é um marco na organização da saúde pública no Rio Grande do Norte. A regularização desse órgão se realiza num contexto de reorganização do poder público em âmbito nacional na questão da saúde pública. A Inspetoria de Higiene do Rio Grande do Norte seguia diretrizes e normas específicas estipuladas pelo Regulamento de Higiene nacional. Essa Lei é ampliada no ano de 1893 pelo decreto N. 24 de 22 de maio pela regulamentação da Inspetoria de Higiene onde se percebe um alargamento das atividades realizadas pelo órgão e um detalhamento da função de cada profissional que compunha a Inspetoria. A regulamentação da Inspetoria marca significativamente o pensar e agir médico na cidade na medida em que, mesmo com as dificuldades financeiras relatadas nos discursos oficiais, se conforma uma nova maneira de pensar a administração da saúde pública. Primeiro pela autonomia para elaborar planos específicos para resoluções de prolemas sanitaristas, médicos e higienistas e segundo por modificar substancialmente o caráter paliativo e emergencial que marcou o tratamento público sobre saúde por boa parte do século XIX por uma política de saúde pública mais preventiva e com ações mais incisivas, amplas e abrangentes. Cabia a Inspetoria de Higiene o controle das vacinações, supervisão sanitária dos espaços urbanos, fazer levantamentos das enfermidades que acometiam a população, óbitos, levantamentos do pessoal da repartição de higiene e Hospital da Caridade, informações sobre a movimentação dos pacientes no Hospital da Caridade e também realizar trabalhos juntamente a secretaria de polícia em casos de perícias e exames médico-legais. Essas mudanças podem ser percebidas pela análise das Mensagens dos Governadores do Estado à Assembléia Legislativa da última década do século XIX e dos relatórios dos Inspetores de Higiene de 1893, 1895 e 1896 e das notas de jornais que divulgavam as ações desse órgão. As Mensagens desse período são curtas e de caráter informativo das resoluções tomadas pelo governo, nas questões de saúde são considerados aspectos como o estado da salubridade na capital, a presença ou não de epidemias e também apresentam regularmente a estado do Hospital da Caridade, que desde a sua fundação, era constante fonte de reclamações tanto sobre a sua precariedade física e de serviços, quanto pelo custo que representava ao Estado. São nos relatórios dos Inspetores de Higiene que se percebem mais clara e objetivamente a situação sanitária da capital no período abordado, bem como as medidas tomadas pela Inspetoria para a resolução de tais situações, trazem ainda informações sobre o pessoal empregado no órgão e nas unidades que a integram (como o Hospital da Caridade e o Lazareto da Piedade), a movimentação dessas unidades e outros. Infelizmente, só tivemos acessos a três relatórios anexados as Mensagens dos Governadores correspondente aos anos de 1893, 1895 e 1896. O relatório de 1983 é de autoria de Juvencio Odorico de Mattos, o então Inspetor de Higiene, Mattos relata de início que não séria possível fazer um relatório completo sobre a situação do Estado porque o órgão ainda estava em organização e fazia pouco tempo que o mesmo havia sido designado para a função. O relatório faz referencia as alterações de pessoal nas unidades integradas ao órgão e em seguida lança considerações sobre o estado sanitário, principalmente na capital. Nesse tópico, o que preocupa o Inspetor são a influenza e as febres de diversas naturezas e modalidades que acometem a população como as febres perniciosas, sendo que a principal preocupação é com a febre amarela. O Inspetor relata que em um navio inglês que havia chegado ao porto encontrava-se um individuo com suspeita da doença que logo foi levado ao Hospital da Caridade falecendo dias depois. O caso mostra a preocupação em torno do porto como um lugar de onde chegavam doenças, sendo necessária a constante vigilância. No mesmo relatório, Mattos faz observações sobre o Lazareto da Piedade e Hospital da Caridade quanto a localização, condições estruturais e atendimento aos doentes. Sobre o primeiro, o Inspetor afirma que o prédio seria satisfatório se não fosse tão próximo a estrada pública. Essa proximidade impossibilitaria o que o redator chama de “isolamento desejado” dos doentes de moléstias contagiadas. Do Hospital da Caridade o autor expõe que o mesmo, mesmo pela pressa em que foi feito devido a uma epidemia de cólera, não teve sua localização e estrutura bem planejada. Para Juvencio Odorico a falta de aparelhagem de trabalho tanto no Lazareto, quanto no Hospital é desoladora pois faltam, móveis, rouparias etc. Ressalta ainda que o Hospital, mesmo com as melhorias constantemente realizadas, estava longe de atender razoavelmente bem as necessidades presentes. O relatório de 1895 é de autoria do Inspetor de Higiene Dr. João Moreira da Costa Lima, dividido basicamente em três partes: Inspetoria de Higiene, Hospital da Caridade e Despesas. Na primeira parte o Dr. Costa Lima afirma a satisfatoriedade do estado sanitário da capital. O problema apontado estava nas condições do matadouro e do mercado público, onde seriam necessários reparos e melhorias, questões solicitadas pelo Inspetor às autoridades competentes. Um aspecto interessante nesse relatório é a referência as farmácias da capital, que se encontravam, segundo o redator, bem providas de medicamentos. Sobre o Hospital da Caridade o autor esmiuça os vários departamentos que compõem a unidade, detalhando suas condições e apresentando que melhorias poderiam ser feitas. Fala também do pessoal e dos poucos médicos para a realização do trabalho. Sobre as despesas, o Dr. Costa Lima fala dos poucos recursos destinados a higiene e a saúde pública, onde o hospital sobrevivia principalmente da caridade de particulares. O relatório de 1896, ano de epidemia de varíola, é um dos mais importantes documentos sobre o tratamento público sobre as questões de saúde no final do século XIX. Trata-se do relatório do Dr. Manuel Segundo Wanderley onde este apresenta o que Luís da Câmara Cascudo chama de “primeiro plano sanitarista para a cidade de Natal” (CASCUDO, 1999: 213). O corpo do relatório é formado tópicos sobre a Inspetoria de Higiene, Farmácias, estado sanitário, indicações úteis (o plano sanitarista), Hospital da Caridade, considerações sobre o decreto nº 43 de 04 de abril de 1895 e Lazareto da Piedade. No que se refere à Inspetoria de Higiene o autor coloca a regularidade da mesma e eficiente organização. No tópico farmácias surge uma questão interessante: o Inspetor afirma que na praça da cidade alguns farmacêuticos estariam vendendo drogas e preparados médicos irregulares de acordo com o art. 57 do Regulamento de Higiene vigente. Tal situação foi corrigida pelo próprio Inspetor que considera o ato como “commércio abusivo, que não só attentava contra a Lei, como feria os legítimos interesses daquelles aquem compete privativamente esse incontentável direito” (RELATÓRIO, 1996: 01). Logo em seguida o mesmo concede uma licença ao farmacêutico Jeronimo Rosado, estabelecido em Mossoró, para vender seus preparados medicinais por se acharem de acordo com a Lei. No tocante ao estado sanitário, o Dr. Segundo Wanderley é enfático ao afirmar que a capital não se encontra em boa situação sanitária, o médico alega que não é possível fazer um bom trabalho de higienização da cidade e controlar as doenças que afetam a população com a estrutura da cidade que não dispunha de um bom fornecimento de água, falta de calçamento nas ruas, ausência de uma rede de esgotos apropriado. A tudo isso, o autor ressalta ainda uma “certa dose de ignorância, condennável, incorrigível indolência de grande parte da população nos trazem constantemente expostos a frequêntes e lamentáveis desastres mórbidos” (RELATÓRIO, 1996:02). Segundo Wanderley enumera as medidas tomadas por ele na sua função de Inspetor de Higiene Desinfecções rigorosas, remoção para o Lazareto da Piedade, isolamento completo no próprio domicílio do doente que, por natural repugnância, não querem submeter-se ao tratamento naquelle estabelecimento, lavagem das roupas das pessoas atacadas, no quintal da casa infeccionada e cuidado de enterrar as águas servidas e desinfectar o logar do depósito, vacinação e revacinações e outras medidas análogas, que tenho feito, de acordo com os elementos de que disponho, para acautelar a saúde pública, limitar a extensão do mal e modificar os seus desastrosos efeitos. (RELATÓRIO, 1996: 02) Logo em seguida, o autor apresenta as indicações úteis, que consistem o “plano sanitário para Natal”, na visão de Cascudo. Os pontos apresentados pelo Dr. Segundo Waanderley são Quatro pontos julgo de alcance sanitário e indispensáveis à nossa capital Primeiro: a remoção do Matadouro Público para outro ponto mais compatível com as conveniencias hygienicas. Segundo: a mudança do Lazareto da Piedade, ou antes a aquisição de outro edifício destinado aos mesmos mysteres situados fora do perímetro da cidade, isento de toda communicação habitual, e collocado em posição tal que os ventos, sob cuja influência esteja, não condusão as suas emanações para o centro da população. Terceiro: o arrazamento da fonte pública demoninado – Baldo, que, além de ser um foco perene de moléstias miasmáticas, converte-se diariamente em theatro de escandalosas exibições, afectando não só a integridade sanitária, como attentando affrontosamente contra os bons costumes e moralidade pública. Além das vantagens moraes e hygienicas resultantes d'esta medida, accresse a vantagem econômica de poder-se aproveitar o material de sua construcção no calçamento de augumas ruas de nossa capital, falta sensível que deve ser a todo custo reparada. Quarto: a augmento de capacidade do acqueducto que desvia as águas pluviais accumuladas na Campina da Ribeira para o Rio. (RELATÓRIO, 1996: 02) No mais, Segundo Wanderley fala da situação do Hospital da Caridade e Lazareto da Piedade sobre o pessoal, a precariedade da situação física das instalações e de material. Faz ainda considerações sobre o decreto nº 43 de 04 de abril de 1895 que estabelece o almoxarife do Hospital da Caridade como diretor do hospital no caso da vaga não se preenchida. Segundo Wanderley julga isso um absurdo, pois acredita que o médico adjunto não poderia estar subordinado a um funcionário que não teria formação para o cargo. Além de Inspetor de Higiene, Segundo Wanderley era médico adjunto do Hospital da Caridade. Os relatórios aqui citados foram analisados muito rapidamente devido ao pouco espaço disponível e pelo caráter, ainda em desenvolvimento do projeto. A intenção não foi fazer uma análise minuciosa dessa documentação e sim mostrar como estes ajudam a traçar um quadro da situação sanitária e médica do Rio Grande do Norte nesse período, percebendo como o poder público haje, como a população é afetada, quais as medidas adotadas entre outros. A próxima documentação analisada são os artigos e propagandas do jornal “A República” no período de 1890 a 1899 no que tange à saúde pública da capital. Mais uma vez, a análise será breve, não ressaltando todas as possibilidades apresentadas pela documentação. O periódico em questão foi escolhido porque foi um dos principais veículos da propaganda republicana no Rio Grande do Norte, o primeiro número do jornal é de 1º de julho de 1889. outro motivo para essa escolha foi o fato de que com a Proclamação da República, o Dr. Pedro Velho é aclamado como governador provisório do Estado e o jornal “A República” passa a figurar não mais como órgão do partido republicano e sim como periódico político e noticioso. Passa também a ser a folha oficial do governo do Estado como publicação periódica. Ao assumir a caráter de folha oficial do governo do Estado, “A República” passa a trazer informações como contratações e nomeações de médicos para cargos públicos, divulgar as medidas decretadas pela Inspetoria de Higiene etc. Como folha informativa, o jornal também ajuda a divulgar os ideais médicos, sanitaristas e higienistas que tanto ganharam corpo no início do período republicano como citado anteriormente. Assim como os discursos oficiais, quando existe epidemia, o jornal cumpre a função de informar a população de como ela deve se comportar, as medidas profiláticas a serem adotadas, que esforços estão sendo tomados pelos poder público e ainda divulga as tabelas de movimentação dos doentes do Hospital da Caridade e Lazareto da Piedade. As propagandas também são muito importantes para a compreensão desse contexto, pois divulgam os médicos, os medicamentos e as farmácias. Os médicos que atuaram na capital no período abordado que figuraram em vários momentos n'A República foram 16. A maior parte desses estiveram por curtos períodos na capital potiguar, assumiam cargos juntos ao Estado, depois, iam a outras regiões, poucos permaneciam. Alguns recebidos com verdadeiro entusiasmo quando chegavam a capital, é o caso de Dr. Manuel Augusto de Medeiros, nomeado Inspetor de Higiene em 1890, antes mesmo da regulamentação do posto pelo Estado que ainda estava em processo de consolidação das suas leis. A República trás nesse ano uma série de notas sobre o médico, vindo do interior do estado (Jardim do Seridó) para assumir um importante cargo, a folha também divulga constantemente os serviços realizados pelo médico, como a vacinação contra a varíola, principalmente porque, nesse ano, a varíola se espalhara por estados vizinhos, e os cuidados se tornam mais efetivos sob o risco de epidemia. No mesmo ano, começa a figurar no jornal o anúncio de médicos que atendiam na capital potiguar. O primeiro a utilizar esse recurso foi o Dr. Correa de Sá, Na propaganda, o médico destaca que é especialista em oftalmologia, fazendo inclusive operações, além de tratar outras moléstias e oferecer operações gratuitas aos pobres. Seus anúncios vão de Nº 76 01.10.1890 até nº 98 01.02.1891. seguindo o exemplo, os doutores Affonso Moreira de Loyola Barata e José Lopes da Silva Júnior, o primeiro anunciando no jornal de Nº 84 datado de 12.11.1890 até nº 121 11.07.1891 e o segundo de Nº 84 datado de 12.11.1890 até nº 121 11.07.1891. Em 1894 a chegada do Dr. Costa Lima, bastante conhecido em outras capitais nordestinas pelos tratamentos médicos e higienistas chega ao Estado e ganha muitas notas n'A República, destacando suas ações em outros estados, os resultados obtidos. Não tarda para que o mesmo assuma a Inspetoria de Higiene do Estado em meio ao medo de uma epidemia de Cholera-morbus, que já chegara aos estados vizinhos. Importante ressaltar a ação profilática e não mais paliativa do governo nesse momento. O Nº 297 datado de 08.12.1894 trás o edital de uma reunião promovida pelo governo do estado para discutir a questão de prophylaxia e hygiene na capital, contando com a participação de vários médicos locais para evitar a propagação de epidemias. Ficou acordado que deveria ser construído um lazareto para a realização das quarentenas de procedentes do Rio ou Santos suspeitos fossem monitorados. O mesmo ficaria a cargo de José Lopes. No mais, a cidade foi dividida em 5 partes, três na Cidade Alta e duas na Ribeira, onde cada médico ficaria encarregado de manter a limpeza, a higiene, a salubridade dos locais, bem como as aplicações das leis, contando com o apoio da polícia. A primeira parte ficou a cargo do Dr. Theotôneo de Brito; a segunda com a vigilância do Dr. Eduardo Marinho; a terceira com a do Dr. Pedro Amorim. A quarta e quinta parte, correspondentes ao Bairro da Ribeira, ficaram alternadas entre o Dr. Affonso Barata e Dr. Costa Lima. No mesmo número se divulgam as medidas que deveriam ser tomadas pela população contra a invasão da cólera. Tais medidas eram representadas principalmente pela limpeza das casas e quintais; higiene das latrinas por meio de cal virgem e sulfato de ferro; evitar o acumulo de muitas pessoas num mesmo espaço de habitação para que o ar não se torne viciado; purificação da água potável pela fervedura; alimentar-se com pouca gordura e sem verduras e legumes; evitar bebidas excitantes como álcool e café e realizar com frequencia distrações e passeios higienicos para evitar o abatimento moral. A tais medidas seguem receitas de medicações caseiras para o tratamento da doença. Durante o ano de 1894 figuraram no jornal uma série de reportagens sobre a profilaxia da cólera. Em 1895, sem riscos de epidemia, são poucas as notícias sobre os acontecimentos médicos na capital, as ações do inspetor Costa Lima continuam sendo divulgadas com regularidade. O destaque vai para o primeiro anúncio de farmácia da capital, a Farmácia e Drogaria Central. O ano de 1896 é marcado por uma forte epidemia de varíola e são constantes as matérias sobre o que é a doença, como evita-la e os balanços do Hospital da Caridade e Lazareto da Piedade, sendo lançado também um orbituário. Em meio a essa epidemia, o Dr, Manuel Segundo Wanderley que já atuava em cargos públicos no Estado desde 1890 é nomeado Inspetor de Higiene, onde apresenta o plano sanitarista, já mencionado nesse trabalho. No ano de 1897 o medo da varíola permanece, mesmo com a epidemia controlada, se tornam constantes a divulgação da movimentação do Hospital da Caridade e da vacinação realizada diariamente pelo Dr. Segundo Wanderley e pelo Dr. João Alexandre Seixas. Há também um anúncio da Farmácia dos Pobres e de medicamentos. Até meados de 1898 os anúncios da vacinação continuam, bem como surge uma coluna chamada “com a hygiene”, onde se divulga reclamações a respeito principalmente da limpeza da cidade. Em 1899 o medo é o da Peste Bubônica que naquele ano não chega ao Estado, mais devido a epidemia que ocorreu no porto de Santos e que já se espalhavam por outras regiões, o medo da epidemia atua mais uma vez, e uma série de matérias sobre a prevenção a doença são publicadas diariamente. No mais, os notícias sobre medicina se restringem a movimentação do Hospital da Caridade, bem como anúncios de farmácias e medicamentos, destaque à Farmácia Maranhão que se tornará a maior da capital. Considerações Finais Neste curto ensaio, buscamos mostrar resumidamente o que foi o fim do século XIX para o quadro médico-sanitarista da cidade de Natal. As carências historiográficas são uma constante sobre a temática. Sobre o recorte temporal a que se dedicou este trabalho, as fragilidades são ainda mais notáveis, pois a pouca produção existente ou se debruça sobre o fim do período Imperial, sem adentrar no período republicano, ou se volta já para o século XX, a partir de 1900, deixando uma lacuna no que diz respeito ao campo das práticas e saberes médicos na Natal no fim do século XIX. Na Natal em fins do século XIX, esse período é marcado por mudanças significativas no pensar e agir médico da cidade. Mesmo com a relativa continuidade de tratamentos e perspectivas médicas tradicionais, novos pensamentos médicos ganharam corpo na cidade, as novas leis estaduais também garantiram um maior poder de ação dos médicos sobre os espaços urbanos, tornando estes como importantes figuras para a manutenção da saúde da cidade e da população. Mais ainda, a circulação mais frequente de jornais na capital serviram para divulgar as ações desses médicos, de farmacêuticos e de medicamentos. O período abordado é de fundamental importância para o estudo dessas práticas e saberes na medida em que aquele foi um momento de firmação de novos valores, não diferentes do contexto nacional, em que valores de higiene e civilidade representam o ideal do que queria ser a jovem república, baseada nos preceitos da ordem e do progresso. A figura do médico passa a ser crucial nessa situação, na medida em que seria o maior agente da regeneração social e em seus preceitos se justificavam as transformações físicas das cidades. FONTES E BIBLIOGRAFIA A REPÚBLICA, Natal, 1890 a 1899. ARAÚJO, Iaperi. Januário Cicco: um homem além de seu tempo. Natal: EDUFRN, 2000. __________. História da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1955-2005). Natal: EDUFRN, 2007. ARÓSTEGUI, Julio. A Pesquisa Histórica: teoria e método. Bauru, SP: EDUSC, 2006. CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: IHG/RN, 1999. FOUCAULT, Michel. O nascimento da medicina social. In:______. Microfísica do Poder. Rio de aneiro: Graal, 1996. p.79-98. LIMA, Pedro de. Saneamento e Modernização em Natal: Januário Cicco, 1920. Natal: Sebo Vermelho edições, 2003. LOPES, Gabriel. Práticas de saúde pública e epidemias no Rio Grande do Norte: 1850-1892. [Monografia de conclusão do Curso em História/UFRN]. UFRN, 2005. MENSAGENS dos Governadores do Estado à Assembléia Legislativa. 1889 a 1930. MOTA, André. Quem é bom já nasce feito: sanitarismo e eugenia no Brasil. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. OTHON, Sônia. Vida teatral e educativa da Cidade dos Reis Magos – Natal, 1727 a 1913. Natal: EDUFRN, 2006. SARINHO, Clovis Travassos. Hospitais do Rio Grande do Norte (notas, apontamentos, história). Natal/RN, 1988. SOUZA, Itamar de. A República Velha no Rio Grande do Norte (1889-1930). Brasília: Senado Federal, 1989.