PELA HIGIENE DOS CORPOS E DA CIDADE: O QUADRO MÉDICOSANITARISTA DA CIDADE DE NATAL NA ÚLTIMA DÉCADA DO SÉCULO
XIX1
Ildegarde Elouise Alves
(UFRN - Departamento de História)
RESUMO
Incluído nas atividades do projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira República”
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o presente trabalho tem por finalidade
apresentar o quadro médico-sanitarista da cidade de Natal na última década do século
XIX. Para isso, serão analisadas as Mensagens dos Governadores do Estado à
Assembléia Legislativa, os relatórios dos Inspetores de Higiene e as notas e
propagandas de jornais que compreendem esse período e fazem referência à temática
em estudo. O recorte temporal se dá pelo entendimento de que nesse período houveram
mudanças significativas no pensar e agir médico na cidade, principalmente pela chegada
de novos médicos na capital, de uma maior intervenção do poder público na questão da
saúde e pela propaganda dos ideais higienistas que passaram a circular com mais
frequência na capital potiguar.
PALAVRAS-CHAVE: Práticas Médicas - Sanitarismo - Saúde Pública - Natal em fins
do XIX.
Notas para uma introdução
A produção de estudos referentes às práticas e saberes médicos em Natal,
em especial na Primeira República, são poucos, principalmente por parte dos
historiadores, sendo que, a maior parte destes são monografias e projetos de mestrado
ainda em desenvolvimento. Quem mais produz a respeito de tais questões são médicos
locais como Iaperi Araújo em publicações como História da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a biografia Januário Cicco: um
homem além de seu tempo, e ainda Clóvis Travassos Sarinho em Hospitais do Rio
Grande do Norte, dentre outras.
Os estudos voltados para uma História da Saúde em Natal no primeiro
período republicano estão imbuídos, principalmente, no contexto de uma História
Urbana, ou seja, a produção historiográfica existente até o momento está relacionada à
história urbana da cidade do Natal no âmbito da saúde pública. Esta historiografia tem
1- O Trabalho em questão faz parte das atividades do projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira
República”, orientado pelo Professor Dr. Raimundo Nonato Araújo da Rocha.
contemplado aspectos urbanísticos, arquitetônicos, ambientais e técnicas sendo que, as
questões referentes a saúde pública e as práticas oriundas dessas apenas são colocadas
em questão quando o pensamento médico, higienista e sanitário vão influenciar na
formação e transformação do espaço urbano, como a obra de Pedro de Lima, intitulada
Saneamento e Modernização em Natal: Januário Cicco, 1920.
Autores tidos como tradicionais na historiografia potiguar também se
debruçaram timidamente sobre a temática. É o caso de Itamar de Souza em seu livro A
República Velha no Rio Grande do Norte (1889-1930), no qual o ator dedica apenas
quatro páginas para a questão da saúde pública na temporalidade estudada. Em meio a
esses autores, é Camara Cascudo que dará uma maior ênfase à questão médica no estado
em muitas das suas obras, sendo que é em sua clássica História da Cidade do Natal em
que o autor faz um apanhado interessante e um pouco mais amplo sobre a questão da
medicina e da doença ao longo da história natalense, principalmente de meados do
século XIX e início do XX.
Percebendo essa pouca produção historiográfica sobre uma história da
saúde e da doença na capital potiguar, o projeto “Práticas Médicas em Natal na Primeira
República” do grupo de pesquisa “Os espaços na Modernidade” da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, do qual faz parte este trabalho, busca ampliar o quadro
da produção de uma História da Saúde em Natal no referido período, uma vez que se
percebe o potencial informativo para o estudo de tais práticas e a proficuidade das
fontes referentes ao assunto.
O presente trabalho pretende apresentar o quadro médico-sanitarista da
cidade de Natal na última década do século XIX, por entender que nesse período
ocorreram mudanças significativas no pensar e agir médico na cidade, principalmente
pela chegada de novos médicos na capital, de uma maior intervenção do poder público
na questão da saúde e pela propaganda dos ideais higienistas que passaram a circular
com mais frequência na capital potiguar. Cabe ressaltar também que esse era um
período de transição política onde o regime republicano buscava afirmação e os
discursos de civilidade, higiene, ordem e progresso ganharam força na medida em que
representavam o que queria ser o novo regime.
Os fontes analisadas na elaboração desse trabalho foram as Mensagens
dos Governadores do Estado à Assembléia Legislativa, os relatórios dos Inspetores de
Higiene e as notas e propagandas de jornais que compreendem esse período e fazem
referência à temática em estudo. Na análise dessas fontes, buscamos perceber as
mudanças do tratamento do poder público às questões de saúde pública, principalmente
pela regularização da Inspetoria de Higiene no início da década de 1890; os médicos
que atuavam na capital e a sua relação com o poder público e como essas ações eram
apresentadas na imprensa local, no caso em questão, pelo jornal “A República”. Na
análise da mídia impressa buscaremos perceber também como o jornal se torna um dos
principais divulgadores dos ideais higienistas e dos cuidados profiláticos mediante
epidemias. Buscaremos ainda analisar o desenvolvimento das propagandas de médicos,
medicamentos e farmácias que figuravam em anúncios na capital potiguar.
O quadro médico-sanitarista da cidade de Natal na última década do século XIX
Segundo Câmara Cascudo, é apenas no século XIX que a figura do
médico ganha alguma projeção no cenário do Rio Grande do Norte, na medida que é
nesse período onde os mesmos começam a aparecer com mais frequência,
principalmente na capital potiguar. Tal fato ocorre porque o primeiro cargo público para
médicos e cirurgiões surge nesse período, que é o cargo de Cirurgião do Partido Público,
criado em aproximadamente 1931. Esse profissional seria o responsável pelo tratamento
dos presos de justiça, pobres e indigentes, podendo atender também aos chamados
daqueles que pudessem pagar pelos seus serviços. No entanto, esse cargo nem sempre
estava ocupado, pois, ainda segundo o autor, o ordenado não era atrativo o suficiente
para que profissionais de outros estados tivessem o interesse de se estabelecer na capital
potiguar. O aumento do ordenado acontece em 1840 e em 1842 o dr. José Bento Pereira
de Mota se estabelece em Natal como o primeiro Médico do Partido Público - na década
anterior, o cargo era ocupado por cirurgiões, como o sr. João José de Oliveira (CASCUDO, 1999: 203-204).
Na segunda metade do século XIX, a então Província do Rio Grande do
Norte vai ser atingida periodicamente por uma série de epidemias, como em boa parte
do território nacional, em especial a febre amarela, a varíola e a cólera. Fatores como a
fome, más condições de higiene, os marinheiros doentes que chegavam ao porto, vindos
da Europa, e outros teriam favorecido a disseminação das doenças, causando as
epidemias. São essas epidemias que, em grande medida, irão começar a mudar a
estrutura médica da Província, feita antes, principalmente, pelo atendimento domiciliar.
As primeiras tentativas de conter essas epidemias são de caráter paliativo,
baseando-se em uma esparsa distribuição de medicamentos, no entanto, na medida em
que o número de casos aumenta, uma estrutura médica para o tratamento dos doentes se
torna imprescindível e em 1855 se cria o Hospital da Caridade pelo Presidente Passos. É
a partir desse momento que os dirigentes passaram a se preocupar minimamente com
medidas médicas e sanitárias mais sólidas no Rio Grande do Norte, que atendessem a
um maior contingente populacional e as novas necessidades do Estado. Ainda assim, as
medidas continuavam com um caráter mais emergencial do que preventivo no
tratamento das doenças e dos doentes.
Mesmo com o aumento da discussão sobre saúde pelo poder público, o
quadro de médicos estabelecidos na província ainda era insuficiente para a demanda.
Cascudo afirma que em julho de 1888 a Inspetoria Geral de Higiene da Corte acusava
apenas quinze médicos e quatro farmacêuticos em toda a Província do Rio Grande do
Norte. Dos médicos, seis atuavam na capital (CASCUDO, 1999: 212).
A instauração da República traz consigo não só mudanças de ordem
política mais de outros valores que deveriam estar pautados em discursos de civilidade,
higiene, ordem e progresso que, em alguma medida, representavam o que queria ser o
novo regime. Nesse contexto de novos valores em busca de legitimação, a figura do
médico é redimensionada. Para além da arte da cura, o médico se torna também um
cientista do social, estabelecendo relações entre saber médico e outras áreas, sendo
também figuras centrais na luta pela regeneração nacional. Segundo André Mota
A partir das primeiras décadas do regime republicano do Brasil, a
inquietação dos médicos e das instituições de saúde pública com as
condições de higiene nas áreas interioranas e nas grandes cidades
revelava também a preocupação com o destino da raça brasileira e os
laços que integravam a pátria. Nesse sentido, as idealizações médicas
formuladas no projeto sanitário a ser implementado tinham como meta
reverter as nefastas perspectivas que avaliavam o brasileiro como
inferior e, por isso, incapacitado para atingir alguma civilidade
(MOTA, 2003: 19).
O autor ainda afirma que
A ação saneadora esperava criar a possibilidade de rever o tema da
formação dos brasileiros e todas as ambiguidades que cercavam essa
discussão. A observação pormenorizada dos níveis de educação, das
condições de saúde e moradia, dos costumes e das manifestações
culturais levaria ao suposto conhecimento empírico desse povo.
...
Devido ao poder atribuído aos médicos e às suas instâncias
normativas, as políticas públicas de saúde seriam inseridas no
planejamento das cidades e das zonas rurais como forma de combate
sistêmico das doenças, domínio e saúde do corpo social, incorporando
à lógica médica outros campos do conhecimento, como a estatística, a
geografia, a demografia e a história.
Cientes de seus “dotes profissionais”, eles cumpririam o que
imaginavam ser uma missão regeneradora nacional, exercendo cargos,
desempenhando tarefas, ocupando posições estranhas à medicina, que,
por essa visão, só seriam confiadas a homens distinguidos por sua
superioridade. Assim, avaliavam que o reconhecimento do cidadão
comum era esperado quando todo o povo, finalmente educado,
pudesse compreender que tantos esforços médicos visavam, como
única recompensa, ao dever de redescobrir o Brasil (MOTA, 2003:
20-21).
No Rio Grande do Norte, esses ideais foram defendidos por uma
emergente elite política, centrada principalmente na figura de Pedro Velho,
tradicionalmente aclamado como principal idealizador da República em solo potiguar.
Para Sônia Othon
No plano histórico, a consolidação do regime republicano e federativo
no Brasil e nos estados, pensado a partir de uma matriz liberal,
significou em última instância, para as elites políticas ilustradas e
emergentes, a propagação extensiva da cultura pelo imperativo do
veículo da escrita. A idéia de aperfeiçoamento instrutivo, moral e
estético dos cidadãos, tão propalada por tais elites políticas
emergentes, a exemplo de Pedro Velho, denotava o estado republicano
como o legítimo organizador e, mais do que isso, o educador do social
e o ordenador do espaço público a partir de uma divisão das classes
sociais.
Poder-se-ia dizer que a concepção do Estado republicano do Rio
Grande do Norte, idealizada sob a liderança de Pedro Velho, matizaria
essa estratégia de ordenamento socioespacial, referenciada nas
experiências já consubstanciadas em nações mais avançadas
(OTHON, 2006: 85).
Nessa nova estratégia de ordenamento socioespacial destacada por Sônia
Othon está incluído o trabalho da Inspetoria de Higiene. Este orgão foi regularizado
pela Lei nº 14 de 11 de junho de 1892 e é um marco na organização da saúde pública no
Rio Grande do Norte. A regularização desse órgão se realiza num contexto de
reorganização do poder público em âmbito nacional na questão da saúde pública. A
Inspetoria de Higiene do Rio Grande do Norte seguia diretrizes e normas específicas
estipuladas pelo Regulamento de Higiene nacional. Essa Lei é ampliada no ano de 1893
pelo decreto N. 24 de 22 de maio pela regulamentação da Inspetoria de Higiene onde se
percebe um alargamento das atividades realizadas pelo órgão e um detalhamento da
função de cada profissional que compunha a Inspetoria.
A regulamentação da Inspetoria marca significativamente o pensar e agir
médico na cidade na medida em que, mesmo com as dificuldades financeiras relatadas
nos discursos oficiais, se conforma uma nova maneira de pensar a administração da
saúde pública. Primeiro pela autonomia para elaborar planos específicos para
resoluções de prolemas sanitaristas, médicos e higienistas e segundo por modificar
substancialmente o caráter paliativo e emergencial que marcou o tratamento público
sobre saúde por boa parte do século XIX por uma política de saúde pública mais
preventiva e com ações mais incisivas, amplas e abrangentes. Cabia a Inspetoria de
Higiene o controle das vacinações, supervisão sanitária dos espaços urbanos, fazer
levantamentos das enfermidades que acometiam a população, óbitos, levantamentos do
pessoal da repartição de higiene e Hospital da Caridade, informações sobre a
movimentação dos pacientes no Hospital da Caridade e também realizar trabalhos
juntamente a secretaria de polícia em casos de perícias e exames médico-legais.
Essas mudanças podem ser percebidas pela análise das Mensagens dos
Governadores do Estado à Assembléia Legislativa da última década do século XIX e
dos relatórios dos Inspetores de Higiene de 1893, 1895 e 1896 e das notas de jornais que
divulgavam as ações desse órgão. As Mensagens desse período são curtas e de caráter
informativo das resoluções tomadas pelo governo, nas questões de saúde são
considerados aspectos como o estado da salubridade na capital, a presença ou não de
epidemias e também apresentam regularmente a estado do Hospital da Caridade, que
desde a sua fundação, era constante fonte de reclamações tanto sobre a sua precariedade
física e de serviços, quanto pelo custo que representava ao Estado.
São nos relatórios dos Inspetores de Higiene que se percebem mais clara
e objetivamente a situação sanitária da capital no período abordado, bem como as
medidas tomadas pela Inspetoria para a resolução de tais situações, trazem ainda
informações sobre o pessoal empregado no órgão e nas unidades que a integram (como
o Hospital da Caridade e o Lazareto da Piedade), a movimentação dessas unidades e
outros. Infelizmente, só tivemos acessos a três relatórios anexados as Mensagens dos
Governadores correspondente aos anos de 1893, 1895 e 1896.
O relatório de 1983 é de autoria de Juvencio Odorico de Mattos, o então
Inspetor de Higiene, Mattos relata de início que não séria possível fazer um relatório
completo sobre a situação do Estado porque o órgão ainda estava em organização e
fazia pouco tempo que o mesmo havia sido designado para a função. O relatório faz
referencia as alterações de pessoal nas unidades integradas ao órgão e em seguida lança
considerações sobre o estado sanitário, principalmente na capital. Nesse tópico, o que
preocupa o Inspetor são a influenza e as febres de diversas naturezas e modalidades que
acometem a população como as febres perniciosas, sendo que a principal preocupação é
com a febre amarela. O Inspetor relata que em um navio inglês que havia chegado ao
porto encontrava-se um individuo com suspeita da doença que logo foi levado ao
Hospital da Caridade falecendo dias depois. O caso mostra a preocupação em torno do
porto como um lugar de onde chegavam doenças, sendo necessária a constante
vigilância.
No mesmo relatório, Mattos faz observações sobre o Lazareto da Piedade
e Hospital da Caridade quanto a localização, condições estruturais e atendimento aos
doentes. Sobre o primeiro, o Inspetor afirma que o prédio seria satisfatório se não fosse
tão próximo a estrada pública. Essa proximidade impossibilitaria o que o redator chama
de “isolamento desejado” dos doentes de moléstias contagiadas. Do Hospital da
Caridade o autor expõe que o mesmo, mesmo pela pressa em que foi feito devido a uma
epidemia de cólera, não teve sua localização e estrutura bem planejada. Para Juvencio
Odorico a falta de aparelhagem de trabalho tanto no Lazareto, quanto no Hospital é
desoladora pois faltam, móveis, rouparias etc. Ressalta ainda que o Hospital, mesmo
com as melhorias constantemente realizadas, estava longe de atender razoavelmente
bem as necessidades presentes.
O relatório de 1895 é de autoria do Inspetor de Higiene Dr. João Moreira
da Costa Lima, dividido basicamente em três partes: Inspetoria de Higiene, Hospital da
Caridade e Despesas. Na primeira parte o Dr. Costa Lima afirma a satisfatoriedade do
estado sanitário da capital. O problema apontado estava nas condições do matadouro e
do mercado público, onde seriam necessários reparos e melhorias, questões solicitadas
pelo Inspetor às autoridades competentes. Um aspecto interessante nesse relatório é a
referência as farmácias da capital, que se encontravam, segundo o redator, bem providas
de medicamentos.
Sobre o Hospital da Caridade o autor esmiuça os vários departamentos
que compõem a unidade, detalhando suas condições e apresentando que melhorias
poderiam ser feitas. Fala também do pessoal e dos poucos médicos para a realização do
trabalho. Sobre as despesas, o Dr. Costa Lima fala dos poucos recursos destinados a
higiene e a saúde pública, onde o hospital sobrevivia principalmente da caridade de
particulares.
O relatório de 1896, ano de epidemia de varíola, é um dos mais
importantes documentos sobre o tratamento público sobre as questões de saúde no final
do século XIX. Trata-se do relatório do Dr. Manuel Segundo Wanderley onde este
apresenta o que Luís da Câmara Cascudo chama de “primeiro plano sanitarista para a
cidade de Natal” (CASCUDO, 1999: 213). O corpo do relatório é formado tópicos sobre
a Inspetoria de Higiene, Farmácias, estado sanitário, indicações úteis (o plano
sanitarista), Hospital da Caridade, considerações sobre o decreto nº 43 de 04 de abril de
1895 e Lazareto da Piedade.
No que se refere à Inspetoria de Higiene o autor coloca a regularidade da
mesma e eficiente organização. No tópico farmácias surge uma questão interessante: o
Inspetor afirma que na praça da cidade alguns farmacêuticos estariam vendendo drogas
e preparados médicos irregulares de acordo com o art. 57 do Regulamento de Higiene
vigente. Tal situação foi corrigida pelo próprio Inspetor que considera o ato como
“commércio abusivo, que não só attentava contra a Lei, como feria os legítimos
interesses daquelles aquem compete privativamente esse incontentável direito”
(RELATÓRIO, 1996: 01). Logo em seguida o mesmo concede uma licença ao
farmacêutico Jeronimo Rosado, estabelecido em Mossoró, para vender seus preparados
medicinais por se acharem de acordo com a Lei.
No tocante ao estado sanitário, o Dr. Segundo Wanderley é enfático ao
afirmar que a capital não se encontra em boa situação sanitária, o médico alega que não
é possível fazer um bom trabalho de higienização da cidade e controlar as doenças que
afetam a população com a estrutura da cidade que não dispunha de um bom
fornecimento de água, falta de calçamento nas ruas, ausência de uma rede de esgotos
apropriado. A tudo isso, o autor ressalta ainda uma “certa dose de ignorância,
condennável, incorrigível indolência de grande parte da população nos trazem
constantemente expostos a frequêntes e lamentáveis desastres mórbidos”
(RELATÓRIO, 1996:02).
Segundo Wanderley enumera as medidas tomadas por ele na sua função
de Inspetor de Higiene
Desinfecções rigorosas, remoção para o Lazareto da Piedade,
isolamento completo no próprio domicílio do doente que, por natural
repugnância, não querem submeter-se ao tratamento naquelle
estabelecimento, lavagem das roupas das pessoas atacadas, no quintal
da casa infeccionada e cuidado de enterrar as águas servidas e
desinfectar o logar do depósito, vacinação e revacinações e outras
medidas análogas, que tenho feito, de acordo com os elementos de que
disponho, para acautelar a saúde pública, limitar a extensão do mal e
modificar os seus desastrosos efeitos. (RELATÓRIO, 1996: 02)
Logo em seguida, o autor apresenta as indicações úteis, que consistem o
“plano sanitário para Natal”, na visão de Cascudo. Os pontos apresentados pelo Dr.
Segundo Waanderley são
Quatro pontos julgo de alcance sanitário e indispensáveis à nossa
capital
Primeiro: a remoção do Matadouro Público para outro ponto mais
compatível com as conveniencias hygienicas.
Segundo: a mudança do Lazareto da Piedade, ou antes a aquisição de
outro edifício destinado aos mesmos mysteres situados fora do
perímetro da cidade, isento de toda communicação habitual, e
collocado em posição tal que os ventos, sob cuja influência esteja, não
condusão as suas emanações para o centro da população.
Terceiro: o arrazamento da fonte pública demoninado – Baldo, que,
além de ser um foco perene de moléstias miasmáticas, converte-se
diariamente em theatro de escandalosas exibições, afectando não só a
integridade sanitária, como attentando affrontosamente contra os bons
costumes e moralidade pública.
Além das vantagens moraes e hygienicas resultantes d'esta medida,
accresse a vantagem econômica de poder-se aproveitar o material de
sua construcção no calçamento de augumas ruas de nossa capital, falta
sensível que deve ser a todo custo reparada.
Quarto: a augmento de capacidade do acqueducto que desvia as águas
pluviais accumuladas na Campina da Ribeira para o Rio.
(RELATÓRIO, 1996: 02)
No mais, Segundo Wanderley fala da situação do Hospital da Caridade e
Lazareto da Piedade sobre o pessoal, a precariedade da situação física das instalações e
de material. Faz ainda considerações sobre o decreto nº 43 de 04 de abril de 1895 que
estabelece o almoxarife do Hospital da Caridade como diretor do hospital no caso da
vaga não se preenchida. Segundo Wanderley julga isso um absurdo, pois acredita que o
médico adjunto não poderia estar subordinado a um funcionário que não teria formação
para o cargo. Além de Inspetor de Higiene, Segundo Wanderley era médico adjunto do
Hospital da Caridade.
Os relatórios aqui citados foram analisados muito rapidamente devido ao
pouco espaço disponível e pelo caráter, ainda em desenvolvimento do projeto. A
intenção não foi fazer uma análise minuciosa dessa documentação e sim mostrar como
estes ajudam a traçar um quadro da situação sanitária e médica do Rio Grande do Norte
nesse período, percebendo como o poder público haje, como a população é afetada,
quais as medidas adotadas entre outros.
A próxima documentação analisada são os artigos e propagandas do
jornal “A República” no período de 1890 a 1899 no que tange à saúde pública da
capital. Mais uma vez, a análise será breve, não ressaltando todas as possibilidades
apresentadas pela documentação. O periódico em questão foi escolhido porque foi um
dos principais veículos da propaganda republicana no Rio Grande do Norte, o primeiro
número do jornal é de 1º de julho de 1889. outro motivo para essa escolha foi o fato de
que com a Proclamação da República, o Dr. Pedro Velho é aclamado como governador
provisório do Estado e o jornal “A República” passa a figurar não mais como órgão do
partido republicano e sim como periódico político e noticioso. Passa também a ser a
folha oficial do governo do Estado como publicação periódica.
Ao assumir a caráter de folha oficial do governo do Estado, “A
República” passa a trazer informações como contratações e nomeações de médicos para
cargos públicos, divulgar as medidas decretadas pela Inspetoria de Higiene etc. Como
folha informativa, o jornal também ajuda a divulgar os ideais médicos, sanitaristas e
higienistas que tanto ganharam corpo no início do período republicano como citado
anteriormente. Assim como os discursos oficiais, quando existe epidemia, o jornal
cumpre a função de informar a população de como ela deve se comportar, as medidas
profiláticas a serem adotadas, que esforços estão sendo tomados pelos poder público e
ainda divulga as tabelas de movimentação dos doentes do Hospital da Caridade e
Lazareto da Piedade. As propagandas também são muito importantes para a
compreensão desse contexto, pois divulgam os médicos, os medicamentos e as
farmácias.
Os médicos que atuaram na capital no período abordado que figuraram
em vários momentos n'A República foram 16. A maior parte desses estiveram por curtos
períodos na capital potiguar, assumiam cargos juntos ao Estado, depois, iam a outras
regiões, poucos permaneciam. Alguns recebidos com verdadeiro entusiasmo quando
chegavam a capital, é o caso de Dr. Manuel Augusto de Medeiros, nomeado Inspetor de
Higiene em 1890, antes mesmo da regulamentação do posto pelo Estado que ainda
estava em processo de consolidação das suas leis. A República trás nesse ano uma série
de notas sobre o médico, vindo do interior do estado (Jardim do Seridó) para assumir
um importante cargo, a folha também divulga constantemente os serviços realizados
pelo médico, como a vacinação contra a varíola, principalmente porque, nesse ano, a
varíola se espalhara por estados vizinhos, e os cuidados se tornam mais efetivos sob o
risco de epidemia.
No mesmo ano, começa a figurar no jornal o anúncio de médicos que
atendiam na capital potiguar. O primeiro a utilizar esse recurso foi o Dr. Correa de Sá,
Na propaganda, o médico destaca que é especialista em oftalmologia, fazendo inclusive
operações, além de tratar outras moléstias e oferecer operações gratuitas aos pobres.
Seus anúncios vão de Nº 76 01.10.1890 até nº 98 01.02.1891. seguindo o exemplo, os
doutores Affonso Moreira de Loyola Barata e José Lopes da Silva Júnior, o primeiro
anunciando no jornal de Nº 84 datado de 12.11.1890 até nº 121 11.07.1891 e o segundo
de Nº 84 datado de 12.11.1890 até nº 121 11.07.1891.
Em 1894 a chegada do Dr. Costa Lima, bastante conhecido em outras
capitais nordestinas pelos tratamentos médicos e higienistas chega ao Estado e ganha
muitas notas n'A República, destacando suas ações em outros estados, os resultados
obtidos. Não tarda para que o mesmo assuma a Inspetoria de Higiene do Estado em
meio ao medo de uma epidemia de Cholera-morbus, que já chegara aos estados
vizinhos. Importante ressaltar a ação profilática e não mais paliativa do governo nesse
momento. O Nº 297 datado de 08.12.1894 trás o edital de uma reunião promovida pelo
governo do estado para discutir a questão de prophylaxia e hygiene na capital, contando
com a participação de vários médicos locais para evitar a propagação de epidemias.
Ficou acordado que deveria ser construído um lazareto para a realização das
quarentenas de procedentes do Rio ou Santos suspeitos fossem monitorados. O mesmo
ficaria a cargo de José Lopes. No mais, a cidade foi dividida em 5 partes, três na Cidade
Alta e duas na Ribeira, onde cada médico ficaria encarregado de manter a limpeza, a
higiene, a salubridade dos locais, bem como as aplicações das leis, contando com o
apoio da polícia. A primeira parte ficou a cargo do Dr. Theotôneo de Brito; a segunda
com a vigilância do Dr. Eduardo Marinho; a terceira com a do Dr. Pedro Amorim. A
quarta e quinta parte, correspondentes ao Bairro da Ribeira, ficaram alternadas entre o
Dr. Affonso Barata e Dr. Costa Lima. No mesmo número se divulgam as medidas que
deveriam ser tomadas pela população contra a invasão da cólera. Tais medidas eram
representadas principalmente pela limpeza das casas e quintais; higiene das latrinas por
meio de cal virgem e sulfato de ferro; evitar o acumulo de muitas pessoas num mesmo
espaço de habitação para que o ar não se torne viciado; purificação da água potável pela
fervedura; alimentar-se com pouca gordura e sem verduras e legumes; evitar bebidas
excitantes como álcool e café e realizar com frequencia distrações e passeios higienicos
para evitar o abatimento moral. A tais medidas seguem receitas de medicações caseiras
para o tratamento da doença. Durante o ano de 1894 figuraram no jornal uma série de
reportagens sobre a profilaxia da cólera.
Em 1895, sem riscos de epidemia, são poucas as notícias sobre os
acontecimentos médicos na capital, as ações do inspetor Costa Lima continuam sendo
divulgadas com regularidade. O destaque vai para o primeiro anúncio de farmácia da
capital, a Farmácia e Drogaria Central. O ano de 1896 é marcado por uma forte
epidemia de varíola e são constantes as matérias sobre o que é a doença, como evita-la e
os balanços do Hospital da Caridade e Lazareto da Piedade, sendo lançado também um
orbituário. Em meio a essa epidemia, o Dr, Manuel Segundo Wanderley que já atuava
em cargos públicos no Estado desde 1890 é nomeado Inspetor de Higiene, onde
apresenta o plano sanitarista, já mencionado nesse trabalho.
No ano de 1897 o medo da varíola permanece, mesmo com a epidemia
controlada, se tornam constantes a divulgação da movimentação do Hospital da
Caridade e da vacinação realizada diariamente pelo Dr. Segundo Wanderley e pelo Dr.
João Alexandre Seixas. Há também um anúncio da Farmácia dos Pobres e de
medicamentos. Até meados de 1898 os anúncios da vacinação continuam, bem como
surge uma coluna chamada “com a hygiene”, onde se divulga reclamações a respeito
principalmente da limpeza da cidade. Em 1899 o medo é o da Peste Bubônica que
naquele ano não chega ao Estado, mais devido a epidemia que ocorreu no porto de
Santos e que já se espalhavam por outras regiões, o medo da epidemia atua mais uma
vez, e uma série de matérias sobre a prevenção a doença são publicadas diariamente. No
mais, os notícias sobre medicina se restringem a movimentação do Hospital da
Caridade, bem como anúncios de farmácias e medicamentos, destaque à Farmácia
Maranhão que se tornará a maior da capital.
Considerações Finais
Neste curto ensaio, buscamos mostrar resumidamente o que foi o fim do
século XIX para o quadro médico-sanitarista da cidade de Natal. As carências
historiográficas são uma constante sobre a temática. Sobre o recorte temporal a que se
dedicou este trabalho, as fragilidades são ainda mais notáveis, pois a pouca produção
existente ou se debruça sobre o fim do período Imperial, sem adentrar no período
republicano, ou se volta já para o século XX, a partir de 1900, deixando uma lacuna no
que diz respeito ao campo das práticas e saberes médicos na Natal no fim do século
XIX.
Na Natal em fins do século XIX, esse período é marcado por mudanças
significativas no pensar e agir médico da cidade. Mesmo com a relativa continuidade de
tratamentos e perspectivas médicas tradicionais, novos pensamentos médicos ganharam
corpo na cidade, as novas leis estaduais também garantiram um maior poder de ação dos
médicos sobre os espaços urbanos, tornando estes como importantes figuras para a
manutenção da saúde da cidade e da população. Mais ainda, a circulação mais frequente
de jornais na capital serviram para divulgar as ações desses médicos, de farmacêuticos e
de medicamentos.
O período abordado é de fundamental importância para o estudo dessas
práticas e saberes na medida em que aquele foi um momento de firmação de novos
valores, não diferentes do contexto nacional, em que valores de higiene e civilidade
representam o ideal do que queria ser a jovem república, baseada nos preceitos da
ordem e do progresso. A figura do médico passa a ser crucial nessa situação, na medida
em que seria o maior agente da regeneração social e em seus preceitos se justificavam
as transformações físicas das cidades.
FONTES E BIBLIOGRAFIA
A REPÚBLICA, Natal, 1890 a 1899.
ARAÚJO, Iaperi. Januário Cicco: um homem além de seu tempo. Natal: EDUFRN,
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