O Ponto entrevista Leandro Cadenas, juiz fede ral em Foz do Iguaçu
Inicialmente, fiquei em dúvida se eu faria esta apresentação do Doutor Leandro
Cadenas, ou se delegaria esse papel à Carol do Ponto. Dúvida porque, como se sabe,
não é fácil escrevermos a respeito de pessoas que admiramos muito, devido à
tendência de parcialidade. Mas, ao final, acabou pesando o orgulho, a honra que para
mi m seria desempenhar essa tarefa – e aqui estamos!
Conheci o Leandro há muitos anos (em 2000), quando ele ainda exercia o cargo de
Técnico do Poder Judiciário. Nessa época, eu e o Marcelo Alexandrino acabávamos de
ingressar no cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal e começávamos a dar os
nossos primeiros passos em nossa parceria (na internet e na publicação de livros).
Parece-me que o Leandro tomou conhecimento do que escrevíamos na internet e
gostou da nossa objetividade e clareza na exposição dos conteúdos. Trocamos alguns
e-mails, discutindo questões polêmicas dos direitos Administrativo e Constitucional, e
provavelme nte aí tenha nascido a minha admiração.
Posteriormente, o Leandro foi aprovado no concurso de Auditor-Fiscal da Receita
Federal e, então, como eu e o Marcelo Alexandrino ministrávamos aulas no curso de
formação desse concurso, nos encontramos na Esaf/Brasí lia. Daí por diante a nossa
amizade se consolidou, e também nossas parcerias profissionais (publicação de livros,
palestras, aulas no Ponto etc.).
Pois bem, o que para muitos seria o fim de jornada (aprovação no cargo de Auditor da
Receita), para o Leandro era só o início! Numa das nossas primeiras conversas em
Brasília, ele foi logo me dizendo: “meu sonho, Vicente, é ser juiz federal; vou cursar
Direito e prestar o concurso até passar”.
E assim foi feito! O Leandro formou-se em Direito, fez toda uma progra mação de
estudo, tirou licença sem remuneração para estudar e, em menos de dois anos de
preparação, foi aprovado em dois concursos da magistratura, (ambos 1º lugar!) – e
agora, desde o ano passado, é “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Federal” na cidade
de Foz do Iguaçu (PR), vinculado ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
Eu digo, sempre, que estudar para concursos exige, acima de tudo, empenho,
disciplina, determinação. Não é assunto para fracos, nem para mimados. Você verá,
nas páginas seguintes, um exemplo vivo de que a aprovação não é um acaso, nem
sorte, nem genialidade; é apenas o resultado de um planejamento sério, fielmente
cumprido, regado de suor, humildade e de muitas abdicações temporárias. Valorize as
palavras do Doutor Leandro Cadenas. Eu não tenho dúvida de que essa (extensa)
entrevista será um marco na história de preparação de muitos concursandos por esse
Brasil afora...
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Vicente Paulo: Qual foi a prime ira vez que você pensou em se r servidor
público? Qual foi a motivação para isso?
Leandro Cadenas: Meu amigo Vicente Paulo, inicialmente, quero agradecer a
gentileza das palavras, e o inegável exagero, fruto, sem dúvida, da amizade sincera e
fraternal que nos une há tantos anos. Sinto-me bastante à vontade para falar no
assunto “concursos”, pois vivo nesse “mundo concursal” há duas décadas.
Venho de uma família sem nenhuma tradição no serviço público. Ninguém nela buscou
essa via, ao contrário, meus parentes sempre atuaram no setor privado.
Contudo, bem por acaso, esses “acasos” que mudam c ompletamente o rumo das
nossas vidas, passei diante de uma agência dos correios e vi um cartaz que dizia que
estavam abertas as inscrições para o concurso para preenchimento de cargos na
Justiça Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com vagas para Curitiba,
onde eu nasci e morava.
Eu não tinha a menor idéia do que era um T RF, só sabia que o salário era bom, cerca
de oito vezes o que eu recebia como estagiário de Engenharia Elétrica, curso que eu
freqüentava.
Fiz a inscrição e ali mesmo comprei uma apostila com o conteúdo da prova: português
e noções de Direito. Costumo brincar que eu não tinha a menor noção da diferença
entre STF e STJ, carta precatória ou carta rogatória, por exemplo.
Mas estudei, fiz a prova e passei!!! Recebi um telegrama (sim, telegrama...)
comunicando minha nomeação no meu aniversário de 21 anos!! Grande presente que
mudaria, daí por diante, toda minha vida.
Então, esse foi meu primeiro grande contato com o serviço público e, confesso, creio
que minha motivação foi quase que exclusivamente salarial. Não me lembro de algum
outro motivo que me levou a fazer aquela prova.
Vicente Paulo: E qual foi o primeiro concurso que você prestou? Olhando,
hoje, depois de tantas aprovações, como você “julgaria” essa sua primeira
experiê ncia de preparação?
Leandro Cadenas: Eu havia feito outras provas antes. Fiz “concursos” para estagiário
e também um para um cargo temporário no DET RAN do Paraná, que, apesar de
aprovado, sequer assumi, pois o salário era baixo e havia previsão de multa se o
abandonasse antes do fim do prazo. Mas esses não contam.
O primeiro sério foi esse de técnico judiciário. Mas, sejamos honestos, era outro
tempo. Estamos falando em 1993 quando fiz a prova. O “mundo concursal” não existia
como é hoje. Ninguém falava em c oncurso, não existia cursinho, editoras na área eram
raras, e se limitavam a apostilas muito resumidas, mal feitas, desatualizadas e difíceis
de achar. Internet? Não existia. Bons livros pra concurso? Nem se sonhava com isso.
Acesso a provas anteriores? Ne m pensar.
A prova, então, era o que se poderia classif icar hoje como “uma piada”. As questões
eram fáceis, diretas, sem a menor preocupação com o raciocínio do candidato.
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Preocupava-se tão somente com um pouco de conhecimento técnico (jurídico) e do
idioma brasileiro, nada mais.
Mesmo assim, em razão das dificuldades com material didático, poucos passavam. Por
exemplo, naquele concurso que fiz eram, salvo engano, aproximadamente 1300
candidatos. Somente 111 obtiveram a nota mínima na prova. Ao fim dos quatro anos
de validade do certame, todos estavam nomeados. Noutras palavras, naquele tempo,
obtendo a nota mínima havia grandes chances de ser nomeado no decorrer do tempo.
Hoje a realidade é totalmente distinta. Soube de um concurso para técnico judiciário
em que eram oferecidas sete vagas. Se a memória não me falha, onze candidatos
gabaritaram a prova! Nesses concursos onde a prova é do tipo “decoreba”, acertar
90% das questões costuma ser sinal de reprovação. No concurso que fiz, acertando o
mínimo, estava dentro.
Enfim, comprei àquela apostila, em uns dias, uma hora por dia, li duas vezes a parte
de direito (a parte de português sequer abri) e f ui pra prova. Pelo que me lembro ,
fiquei em 33º lugar, e fui nomeado já na segunda turma (na primeira foram uns 15,
três meses antes).
Quem lê esta resposta hoje certamente pensa: “Por que eu não pensei em concurso
nessa época?”.
Respondo: em primeiro lugar, não olhe para o passado, mas sim para a realidade de
hoje.
É óbvio que a prova era muito mais fácil, não se compara. Também o acesso à
informação era bem mais difícil.
Olhando especificamente para o concurso da magistratura, por exemplo, provas
realizadas há vinte anos eram, aos olhos de hoje, muito fáceis. Praticamente não se
cobrava jurisprudência. O acesso a ela era por livros, editados muitos meses depois do
julgado. E hoje? Você tem no seu email, de graça, as notícias do que está sendo
julgado hoje, no STF!
É o mundo da informação, então, sem ela, você não chega muito longe na sua
caminhada.
Portanto, a experiência desse meu primeiro concurso em nada se aplica aos meus
concursos posteriores, salvo o fato de saber que sim, é possível, e ser aprovado só
depende da gente, e não do sobrenome ou se algum dos seus pais tem um cargo
influente. Só depende do candidato. Estudando, a aprovação chega.
Vicente Paulo: Como Técnico Judic iário, você certamente via ali, no ambie nte
de trabalho, o dia a dia de um Juiz. Você lembra qua ndo decidiu,
verdadeiramente, que queria ser um ma gistrado?
Leandro Cadenas: Eu gostava do que eu fazia, me sentia útil atendendo ao público,
ajudando, ainda que de forma simples, as pessoas que precisavam do Judiciário.
Mas eu era estudante de Engenharia, e gostava disso também.
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Então, enfrentei um primeiro conflito sério acerca do meu futuro profissional: gostava
do serviço público e gostava de engenharia.
Passei a avaliar os prós e contras de cada uma das possibilidades e, especialmente em
razão da estabilidade e das possibilidades remuneratórias para um recém formado,
além, claro, de gostar do que fazia, acabei optando pelo serviço público.
Mas o meu cargo era de nível médio, e me sentia um pouco limitado nele. Então passei
a estudar para o concurso da Receita Federal, um dos melhores cargos para graduados
em outras carreiras que não o Direito.
Nessa fase, melhorei muito minha capacidade técnico-jurídica, em razão dos estudos
para o concurso de Auditor que, como sabemos, exige muito do candidato.
Foi nessa época que o juiz com quem eu trabalhava me convidou para ajudá -lo a
minutar as decisões dos processos a cargo dele. E foi aí que, verdadeiramente, me
senti com a vontade de ser juiz, já que percebia que, de fato, poderia mudar a vida
das pessoas, ajudá-las a ter o que elas tinham direito. Até então, minhas atividades
eram meramente burocráticas, com sua inegável importância, é óbvio, mas sem que
se pudesse perceber um resultado concreto. Ajudando aquele juiz, apesar de caber a
ele a assinatura da decisão, eu me sentia muito útil para a sociedade.
Passei no concurso da Receita com uma idéia f ixa: fazer a faculdade de Direito e
prestar o concurso para a magistratura.
E assim foi.
Vicente Paulo: Quando se fala em concurso pa ra a magistratura, a reação
normal das pessoas é pensar que se trata de algo quase inatingível para os
“mortais”! Eu mesmo conheço muitos, muitos candidatos que se forma ram em
Dire ito com o sonho de serem juízes, mas passaram em algum concurso de
técnico ou analista do Judic iário e nele estaciona ram. No início, você também
não tinha essa sensação, de que se ria quase impossível a aprovação na
magistratura?
Leandro Cadenas: Sim, de fato, essa é uma sensação geral. Contudo, inicialmente,
sem saber direito das dificuldades, eu achava que era perfeitamente possível chegar
lá, tanto é que acreditava que os três anos de prática jurídica exigidos a partir da EC
nº 45/2004, que se transformam em tempo de preparação, era tempo suf iciente para
estudar...
E acabei iniciando meus estudos apenas seis meses depois da formatura. Foi só
estudando que percebi o quão difícil é, realmente, esse concurso. Assim, passei dois
anos só fazendo cursinho, sem estudar, até perceber que, naquele rit mo, talvez
demorasse dez anos para passar, ou talvez nunca passasse. Foi o volume de matéria
que me levou a pedir licença sem remuneração para f icar totalmente foca do no estudo
para o concurso. Essa foi minha decisão pessoal. Boa parte dos aprovados acaba
passando enquanto trabalha, é dizer, trabalhar não é um empecilho.
Curioso é que entre os que estudam para a magistratura estadual essa sensação de
dificuldade se repete. Certa vez, conversando com um colega antes da prova de juiz
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estadual, comentei que eu queria ser juiz federal, ao que ele prontamente respondeu:
“isso não é pra mim, não imagino isso nem nos meus melhores sonhos, é muito
difícil!”.
Essa sensação, então, é bastante comum e, digo mais, com boa parcela de razão.
Difícil é sim, impossível não!
É bom que se diga: todos os concursos são difíceis, cada um com suas características e
peculiaridades. Hoje em dia não há concurso fácil.
Por último, acrescento que o que mais se vê são pessoas querendo um certo cargo
mas não se submetendo ao caminho que essa aprovação exige, ou seja, querem o
cargo, mas não querem o caminho para chegar até ele. Assim, acabam sendo
aprovados em outro cargo, eventualmente mais fácil de passar, e nele se acomodando,
mesmo que não seja onde gostariam de estar. Vi muitos exemplos assim na minha
preparação.
Se você está satisfeito no seu cargo, seja ele qual for, ótimo. Todos tem suas
peculiaridades, com vantagens e desvantagens. Se você quer ser delegado, você será
delegado, não desista enquanto a aprovação não chegar. Se quer ser juiz ou membro
do Ministério Público, idem, batalhe até conseguir. Repito: se ficou satisfeito no cargo
no qual foi aprovado, pode se aposentar da carreira “concursal” e ir aproveitar a vida.
Mas é importante fazer uma boa avaliação do que quer e do que o faz feliz. O cargo é
só um detalhe na sua vida.
A pior opção, me parece, é ficar remoendo o resto da vida uma não aprovação para
um cargo que se optou não mais estudar.
De outro lado, também não é bom passar e ficar reclamando do trabalho, das funções,
das competências. Lembre-se: dinheiro, poder, “status”, são coisas que podem até
deslumbrar candidatos, mas dificilmente substituem o prazer de se trabalhar com
aquilo que dá alegria e satisfação. Mesmo em concursos muito difíceis vemos
aprovados insatisfeitos com a função, especialmente aqueles que não tem a respectiva
aptidão ou que escolheram o cargo pelo salário. Então, antes de escolher o cargo que
pretende, avalie, muito além da dificuldade da prova, também suas aptidões e gostos
pessoais. O caminho escolhido pode surpreender você!
Vicente Paulo: Eu conhec i melhor você qua ndo ingressou no cargo de AuditorFiscal da Receita Federal. Mesmo naque le momento – de superação, pósaprovação -, você já falava firmemente no se u ingresso na magistratura. Da li
por diante, parale lamente ao exe rcício do cargo de Auditor, você cursou
Dire ito. O exercíc io de um importante cargo público (Auditor da Receita
Federal) auxilia o u atrapalha na aprovação em um concurso da ma gistratura?
Leandro Cadenas: É verdade. É que eu já tinha vontade de ser juiz antes de ser
auditor. Como era engenheiro, eu tinha duas opções: ficar como técnico e fazer a
faculdade de Direito para, depois, enfrentar o concurso da magistratura, ou já fazer
um concurso de nível superior e depois fazer Direito. Optei por este caminho, pois
sentia que podia produzir muito mais do que estava produzindo. Para tanto, era
necessário um cargo de nível superior. Dentre eles, o que mais me agradava era o de
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AFRF B e, de fato, gostei muito de ser auditor. Se acaso não tivesse logrado êxito na
magistratura, ficaria nele até a aposentadoria muito satisfeito, por se tratar de um
cargo ótimo, inserido em um órgão de excelência, onde há uma infinidade de
oportunidades de realização profissional, servindo ao interesse público.
O exercício de outros cargos antes da magistratura é muito importante para a
formação profissional do futuro juiz, dando-lhe outros pontos de vista, outras
percepções que, talvez, alguém que assuma a magistratura sem essa experiência, não
tenha.
Hoje a CF/88 exige prática jurídica de três anos, que podia ser suprida por cursos de
pós graduação, já não mais aceitos. Me parece óbvio que um novo juiz, que não teve
experiência prof issional, terá muito mais dif iculdades do que aqueles que a tiveram.
Com o exercício de outros cargos o novo juiz tem mais facilidade para compreender o
que as partes pedem, vivenciam, desejam, sofrem. Com outras experiências o
exercício do cargo acaba sendo mais completo, melhor e útil para a sociedade, objetivo
último ao assumir um cargo público, ou seja, efetivamente “servir ao público”.
São muito comuns aprovados nesse concurso que antes eram procuradores,
delegados, defensores, analist as, técnicos, auditores. Essa diversidades só engrandece
a magistratura e o serviço judiciário.
Outro ponto que me parece relevante é que, em razão da dificuldade própria desse
concurso, como já citei, é comum também os candidatos serem aprovados para outr os
cargos no decorrer da preparação. Isso, então, é igualmente relevante para o
concursando, já que representa uma espécie de “caminho”, cada vez passando por
novos postos até atingir seu objetivo final. O meu atingi e f iquei plenamente satisfeito,
tanto c om o destino quanto com o caminho percorrido!
Vicente Paulo: E o cargo de Técnico do
preparação para a magistratura?
Judic iário
facilitou a
ulterior
Leandro Cadenas: Na preparação não foi relevante, contudo, foi durante o exercício
desse cargo que eu passei a ter vontade de ser juiz, a ter contato com o mundo
jurídico, pois, quando f iz esse concurso, tinha apenas 20 anos e era estudante de
engenharia, sem ter a menor noção do Poder Judiciário.
Outro fator muito importante foi vivenciar o trabalho sob o ponto de vista do servidor.
Como se diz, para poder determinar o que deve ser feito, melhor saber como se faz. E
isso creio que aprendi bem, pois foram oito anos como servidor, fazendo todo tipo de
trabalho burocrático e, mais, compartilhando o cotidiano co m os demais colegas, o que
inclui as inevitáveis fofocas, intrigas e disputas por funções gratificadas.
E essa experiência é fundamental hoje em dia, na administração da vara, dos
servidores, do serviço. Como passei por tudo isso, tenho uma visão diferenciada, algo
que os colegas que nunca foram servidores podem não ter, o que gera essa dificuldade
extra no exercício do cargo.
Para o concurso, enfim, influenciou muito pouco; para a vontade de fazê-lo, muito.
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Vicente Paulo: Em todo o período do “ Projeto Ju iz Fede ral”, qua l foi a sua
maior dificuldade ? E o que fez pa ra superá-la?
Leandro Cadenas: Sem nenhuma dúvida foi manter a motivação para estudar
durante o tempo necessário para aprender o suficiente para a aprovação.
Essa, com certeza, é a parte mais difícil da preparação. A matéria, me parece, não é a
pior parte. Afinal, todos nós já passamos tantos anos estudando até a graduação que
isso, bem ou mal, já sabemos fazer.
Porém, o estudo para o concurso é diferente.
No ensino tradicional, estudamos um pouco de matéria para uma prova específica, em
geral, dois meses de aula e prova. Saímos da prova e passamos a nos preocupar com
o conteúdo dos próximos dois meses, e assim chegamos ao fim da graduação.
No concurso o rit mo é outro. Temos que estudar tudo, de todas as matérias, para uma
prova só. “Tudo ao mesmo tempo agora!”
Então, o tempo necessário para a preparação, de regra, é largo, o que acaba gerando
ansiedade no candidato e, no mais das vezes, dificuldades de concentração, prejuízo
para os estudos e, em c asos extremos (e comuns), a desistência.
Em resumo: para passar em concurso, é necessário um bom tempo de dedicação aos
estudos e à preparação em geral. E manter a motivação durante esse tempo vai ser a
diferença entre a aprovação ou não. Portanto, a princ ipal dica que tenho para dar é
essa, arrume algo para manter sua motivação. Cada um deve procurar o que mais
representa seu desejo de assumir o cargo e, cada vez que estiver desanimado, deve
lembrar do que lhe fez decidir por seguir esse caminho, tortuoso, mas recompensador.
E, uma vez reanimado, retomar os estudos com força total.
Esse “fator motivacional” vai ser muito particular de cada candidato. Uns pensam no
salário, na posição, no reconhecimento social, no poder. Outros na estabilidade, na
garantia de um bom “emprego”, na aposentadoria. Outros, ainda, na possibilidade de
dar uma vida confortável para a família, uma boa casa, trocar de carro todo ano ou
viajar para conhecer o mundo. Tem também aqueles que pensam em uma nova
esposa ou em um novo marido! Mas, apesar de todos esses “motivos” pessoais, não
nos esqueçamos do que realmente importa, afinal, estamos buscando um cargo
público, ser servidor público. Então, um ponto muito importante é lembrar que, uma
vez aprovados, passamos a ter uma função social muito relevante, qual seja, a de
servir ao público, e isso nunca podemos perder de foco. Se isso não nos agrada,
estamos buscando a carreira errada!
Enfim, cada um tem suas prioridades! Eleita a sua, use-a como um amuleto, cole na
parede uma foto representativa do seu desejo e, a cada recaída (esteja certo, elas
ocorrerão várias vezes durante esse percurso), olhe para a foto, feche os olhos, pense
no que lhe move, e siga seu caminho, até a aprovação! Ela virá!
Mas, nos momentos mais dramáticos, como logo em seguida a uma reprovação que
lhe pareça justa ou não, ou um baque mais significativo, aí a solução talvez seja um
pouco mais demorada. Pode ser fechar o livro, ir dormir, brincar com as crianças,
andar no parque, passar um f im de semana na praia, ir ao cinema. Mude seu foco por
um tempo, que sempre deve ser curto. E retome os estudos tão logo consiga.
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Portanto, na minha opinião, manter a motivação é o ponto crucial para a preparação
para essa batalha. Busque a forma de manter a sua e perceberá que o es tudo flui com
mais tranqüilidade, e a aprovação será apenas uma conseqüência disso tudo.
Vicente Paulo: Agora, vamos esquecer um pouco a magistratura e fala r de
outros concursos. Eu sei que você tirou licença sem remune ração e foi pa ra
Curitiba (PR) para focar nos estudos. Sei, também, que você fez cursinho
preparatório, le u muito e acompanhava dia e noite a jurisprudência dos
tribunais supe riores. Agora, levando essa sua experiê ncia para outros
concursos – me nos complexos do que o da magistratura -, qua l a combinação
que você conside ra ideal numa pre paração (c ursinho + leitura + exe rcícios
etc.)?
Leandro Cadenas: Há alguns anos concurso virou uma coisa séria. Deixou de ser, na
maioria das provas, mera “decoreba” da legislação ou coisa para principiantes ou
sortudos.
Hoje em dia, uma preparação integral é fundamental. Isso inclui uma série de ações
que devem ser tomadas pelo estudante.
Costumo recomendar o seguinte conjunto:
1 – comece fazendo cursinho. Nele você aprende o foco para estudar. Iniciar, sozinho,
costuma ser um caminho tortuoso, já que, como já referi, a preparação para essa
prova é bem diferente de tudo que já fizemos na nossa vida acadêmica. O enfoque das
questões idem. Aprender Direito Constitucional na faculdade é bem diferente do que
no cursinho para concurso. Fazer essa prova na faculdade não tem nada a ver com a
prova do concurso. Assim, não é porque você fez Direito que não precisa ir para as
aulas de Direito no cursinho. Você vai descobrir um mundo novo. No cursinho, então,
vai aprender como passar em concurso. Depois de algum tempo, muitos já se sentem
aptos para estudar sozinhos, o que é muito natural.
2 – mantenha um caderno completo e atualizado. Esse vai ser o “seu manual”, o seu
“tesouro”. É ele que vai te acompanhar durante todo esse processo. Os livros f icam
desatualizados e você os substitui por novos, mas o caderno será o mesmo até a
posse! Eu fiz o seguinte e, preste atenção, essa certamente vai ser uma das melhores
dicas desta entrevista: eu anotava tudo em sala de aula durante um ano. No ano
seguinte, passei a limpo o caderno, deixando de lado partes que eu já sabia bem e,
portanto, não precisaria mais estudar. Tirei fotocópia desse material, deixando o verso
em branco, e encadernei. No ano seguinte, quando ia para a aula (re petindo o que já
havia feito antes), levava essa cópia e prestava atenção à aula (note que, antes, eu
anotava tudo, depois eu ficava de braços cruzados ouvindo o professor). Se houvesse
alguma informação nova, eu anotava nesse “caderno”, para isso deixei o verso em
branco. Estudando em casa, se visse algum novo julgado, nova lei etc, pegava meu
“caderno” e anotava esse detalhe. Ou seja, no fim, tinha um material que, apesar de
ter sido produzido há quase quatro anos, estava sempre atualizado. E essa foi a b ase
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do meu estudo, já que li e reli por volta de umas quarenta vezes todos esses
“cadernos”.
3 – leia a doutrina especializada. Quando comecei a estudar para auditor, não havia
quase nada voltado para concursos. Aliás, nessa época é que conheci o Vicente e o
Marcelo, que iniciavam suas aulas na internet. Pouco depois vieram os livros da Editora
Impetus, pioneira na produção de livros de qualidade voltados para concursos. Hoje a
realidade é outra. Há tanto material específico para essa área que ouso dizer qu e o
problema se inverteu: antes, quase não havia; hoje, há tanto que é necessário separar
o joio do trigo. De fato, há muita coisa ruim no mercado. Assim, procure descobrir os
bons livros para concursos e leia-os com atenção. Se julgar conveniente (eu f iz isso)
destaque as partes principais e depois releia só essas. Alguns livros li quase dez vezes,
uma vez completa, e as outras só a parte destacada. A repetição é importante para a
apreensão do conteúdo.
4 – faça muitos exercícios de provas anteriores. O treino é parte indissociável do
aprendizado. Como fazer uma prova de concurso sem nunca antes ter resolvido umas
questões em casa? O sucesso acaba ficando comprometido. Hoje há inúmeros sítios de
internet onde é possível ter acesso às provas antigas, inclusive separadas por assunto,
banca, ano etc. Além disso, também estão disponíveis no mercado livros de questões
comentadas que podem ser ótimas ferramentas para a preparação. Use e abuse delas,
quanto mais treino, melhor o desempenho quando for para valer.
5 – mantenha-se atualizado com a jurisprudência, se seu concurso a exigir. Alguns
concursos não, mas outros exigem muito conhecimento da jurisprudência. Isso se
intensif icou em uma época de poucas novidades legislativas. Como são tantos
concursos cobrando o mesmo conteúdo, não há mágica, e a repetição acaba sendo um
caminho necessário. Então, para tentar inovar, as bancas passaram a cobrar também
jurisprudência. Já vi prova com quase 25% das questões cobrando esse tipo de
conhecimento. Portanto, atenção a ele. Sugiro, no mínimo, a leitura semanal dos
Informativos do STF e do STJ, gratuitamente enviados por e - mail, pelo respectivo
Tribunal, para quem nele se cadastra. De outro lado, toda semana envio as partes que
julgo mais importantes do Informativo do STF para meus alunos. Se você tiver
interesse de receber, me escreva: [email protected].
Além disso tudo, não devemos esquecer que alguns cargos exigem mais que uma
prova de conhecimento. Há aqueles nos quais é necessária prova de digitação, prova
física, que o candidato tenha um determinado tipo de habilitação para dirigir veículo
etc.
Assim sendo, verifique o que o edital do seu concurso contém acerca desse assunto e
se prepare de maneira completa. Já vi gente aprovada na fase de conhecimento e
reprovada no exame físico... nada mais decepcionante. A preparação deve ser com o
tempo necessário para alcançar a aprovação. Em geral, depois do resultado da
primeira fase não dá mais tempo para se preparar para a seguinte. Leve isso em conta
no seu planejamento.
Vicente Paulo: Você já se preparou simultaneamente com o trabalho e, agora,
na reta final para o cargo de Juiz Federal, optou por tirar licença do trabalho e
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ficar só estudando. O que você nos diz dessas duas expe riê ncias? O que
poderia dizer a candidatos que têm a ete rna dúvida “se para ou não de
trabalhar para estudar”?
Leandro Cade nas: Com organização, é possível trabalhar e estudar para qualquer
concursos.
Claro que não trabalhar tem a conseqüência de “sobrar” mais tempo. Mas qualquer
opção tem seus prós e contras. Aquele que não trabalha tem mais tempo, mas não
tem dinheiro no fim do mês, o que gera uma dose extra de ansiedade. Aquele que
trabalha tem menos tempo para estudar, mas tem mais tranqüilidade financeira.
Então, a opção deve levar em conta esses e outros vários aspectos.
Destaco também um “problema” comum entre os que só estudam: a sensação de que
se tem muito tempo, portanto, pode folgar um pouco mais, deixando para depois o
que poderia fazer hoje. Resultado: o tempo passa e não estuda. De o utro lado, aquele
que tem pouco tempo tende a fazer render suas folgas com mais ef iciência. Cuidado
com as armadilhas do tempo!
A decisão, destaco, é algo muito pessoal. Durante muito tempo eu não tinha a
disciplina necessária para estudar sozinho, então, precisei f requentar cursinhos, pois,
em casa, não conseguia estudar.
É muito importante conhecer e reconhecer suas limitações. Não adianta ter o dia todo
para estudar e se distrair com TV, telefone, internet, comida... O candidato deve olhar
para si e, com honestidade, avaliar a melhor solução pessoal.
Pedir demissão do emprego, ou licença sem remuneração, é uma decisão muito
importante, que deve ser tomada com cautela e reflexão, pois influenciará sua vida
financeira e, no lugar de trazer mais tempo, pode trazer mais preocupações e
pressões.
Eu avaliei isso e, com três anos de antecedência, decidi que iria pedir essa licença. Mas
era uma situação peculiar, pois eu sentia que tinha (e tinha, de fato) muito para
estudar e, com pouco tempo por dia, demoraria muito tempo. Além disso, eu mantinha
uma série de atividades fora da Receita Federal, como as aulas, os livros e um
cursinho para concursos do qual eu era sócio na época. Necessitava, então, abrir mão
de algo para me focar nos estudos, e decidi abrir mão da Receita e de 90% das aulas,
passando a estudar todo o tempo que me restava.
Graças a Deus deu certo. Dois meses antes de vencer minha licença de dois anos
tomei posse no meu cargo atual, encerrando minha vida de concursando!
Se não tivesse feito isso, certamente demoraria muito mais tempo para alcançar a
aprovação.
Avalie sua situação pessoal, seus limites, suas virtudes. Veja o melhor caminho e siga
por ele, com fé. O resultado virá.
Vicente Paulo: Todo mundo fa la da importânc ia de exercitar, de fazer
exercícios e provas ante riores. Você já disse que considera mesmo
fundamental. Fale um pouco mais sobre isso.
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Leandro Cade nas: Como já citei antes, sim, isso é essencial para um bom resultado.
A prática gera segurança para enfrentar o dia da prova com mais tranqüilidade. Nada
como treinar antes da competição. Conhecendo a banca e a forma de ser cobrado o
conteúdo, fica muito mais fácil fazer a prova.
Depois de analisar diversas provas de um determinado concurso ou de certa banca,
percebe-se que há uma forma mais ou menos esperada de avaliar o candidato. Como
diz Sun Tzu, “conhece teu inimigo e conhece-te a ti mesmo. Se tiveres cem combates
a travar, cem vezes serás vitorioso.”
O “inimigo”, aqui, é o concurso, a banca, a prova. E você só o conhece estudando. No
caso, resolvendo provas anteriores.
Agregue-se a isso a já citada repetição de questões. É muito comum tal repetição.
Assim, pode ser que você veja pontos na sua prova já cobrados antes, e já resolvidos
por você durante sua fase de preparação.
Vicente Paulo: Você é um ótimo exemplo de candidatos que já obteve sucesso
em concursos não jurídicos (Técnico do Judiciá rio, Auditor-Fiscal da Receita
Federal) e, agora, em jurídicos (aprovação pa ra De fensor Fede ral e em
concursos para Juiz). Quais seriam as pri ncipa is dife renças no tocante a se
preparar para um concurso fiscal e um concurso jurídico?
Leandro Cadenas: Pelo que percebo, a diferença fundamental está na lista de
disciplinas e na prova.
Os ditos concursos jurídicos costumam ter mais fases, como prova escrita e oral.
Ultimamente até o concurso para Auditor, e outros não jurídicos, passaram a exigir
também uma prova escrita, mudança muito positiva para uma melhor seleção dos
candidatos.
Quanto à lista de disciplinas, nos certames que exigem bacharelado em Direito,
praticamente só são cobradas matérias desse ramo do conhecimento, salvo língua
portuguesa, exigida em alguns deles.
Já nos demais, o rol costuma ser mais abrangente, incluindo outras, como matemática,
estatística, língua estrangeira, contabilidade, arquivologia, raciocínio lógico etc. Sob
determinado ponto de vista, pode ser ainda mais difícil, por avaliar do candidato um
leque diversif icado de conhecimentos, enquanto que aqueles concursos jurídicos se
restringem a uma área do saber. Contudo, neste caso, as questões, em geral, são
mais aprof undadas e, naquele, podem ser mais superf iciais.
Então, creio que essas são as principais diferenças, a gerar uma preparação
direcionada. Se for o caso de prova com variadas áreas de conhecimento, acho
interessante a idéia de mesclar as matérias. Quando estiver cansado de ler Direito
Constitucional, resolva alguns exercícios de matemática financeira. Depois, faça uma
redação, e assim por diante. Se as questões de uma área são superf iciais, não perca
tempo se aprofundando nela.
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Vicente Paulo: Que conselho inicia l você da ria pa ra um candidato não
graduado em Direito que fosse começar a estuda r hoje para um concurso que
exija vários ramos do Dire ito (quase todos cobram!)? Por onde começar?
Leandro Cadenas: Em primeiro lugar, deixe de lado todo e qualquer preconceito que
você eventualmente tenha contra essas matérias. Não pense, como eu pensava, que
Direito era chato e se resumia à mera leitura e “decoreba”.
É muito mais que isso.
Abra sua mente para esse novo mundo de informações, entenda o Direito e o porquê
de cada uma de suas regras, tentando, muito mais do que mera memorização, a
compreensão da matéria. Isso facilitará, e muito, na hora da prova. Claro, na sua vida
também!
Costumamos não gostar daquilo que não conhecemos ou não dominamos. Isso não é
diferente com o Direito. Depois de aprender, tudo muda. Eu não gostava de controle
de constitucionalidade, achava chato, difícil, cheio de peculiaridades que eu não
entendia. Também ouvi isso de muitos alunos. Como era um dos pontos mais cobrados
em prova, me dediquei a estudar e, como recompensa, passou a ser um dos assuntos
de Constitucional que eu mais dominava, acertando quase todas as questões de
concursos.
Matérias de Direito serão cobradas na prova? É fundamental para sua aprovação? Se
sim, então, aos estudos, sem preconceitos e com boa vontade. Pense assim: matéria
interessante é aquela que me faz passar!
Vicente Paulo: Além de concursando de sucesso, você é também autor e
coordenador de obras jurídicas (coordenador, por exemplo, das Coleções
“1001 Questões Comentadas” e “ Direito de Bolso”, publicadas pelo
GEN/Método/Vicente & Marcelo). Você também já fa lou sobre a importânc ia
do material didático. Então, que recado você de ixaria para os conc ursa ndos a
respeito de “material de estudo pa ra concursos”?
Leandro Cade nas: Como já referi, temos à disposição, atualmente, todo tipo de
material didático voltado para concursos.
Mas a quantidade não se ref lete, necessariamente, em qualidade. Justamente vemos o
contrário: uma infinidade de livros que não tem compromisso com a qualidade, a
atualidade, a didática ou o conteúdo direcionado. Infelizmente, o novato só vai
descobrir depois que comprou. Pior, às vezes sequer depois de ler o livro se apercebe
da sua má qualidade, já que, por vezes, o leitor não tem condições de avaliar a
publicação.
Diante disso, a melhor saída é confiar na indicação dos professores ou concursandos
mais experientes, dando preferência a autores especialistas nessa área, de
reconhecida excelência.
Dessa forma, você otimiza seus estudos, e não perde tempo “aprendendo” e
“desaprendendo” com materiais de baixa qualidade.
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A dica, em resumo, é: você precisará de bons livros, então, abuse das indicações e do
currículo do autor.
Vicente Paulo: Você também já foi sócio de curso preparatório pa ra
concursos, em Campo Grande (MS), como já citou. Nessa época, você
certamente vivenciou os maiores “sofrimentos” dos candidatos. Em gera l,
quais são as maiores angústias dos candidatos dura nte uma prepa ração?
Leandro Cade nas: A mais freqüente característica que pude perceber foi a falta de
paciência, característica que é comum nas nossas vidas. Queremos resultados “para
ontem”, e não estamos dispostos a investir o tempo necessário para alcançá-los.
Iniciamos um regime e queremos emagrecer, em um mês, o que comemos a mais
durante anos. Começamos as aulas de uma língua estrangeira e queremos sair falando
logo. Começamos um cursinho e queremos passar na primeira prova, de preferência
com poucos meses de estudos.
Ora, isso não é possível. Então, o que eu vi nessas quase duas décadas vivenciando o
mundo “concursal”: muita gente sonhando com um cargo, fazendo um cursinho, e
desistindo no meio do caminho.
Os poucos que não desistiram, passaram.
Os alunos também acabam gastando muita energia e muito tempo com questões que
fogem do seu controle, como demora para a publicação do edital, falta de
previsibilidade da Administração Pública, mudanças nas matérias, excesso de questões
anuladas, greve, reajuste salarial etc.
São questões, sem dúvida, importantes, mas que não tem nenhuma possibilidade de
serem resolvidas pelos candidatos e que, por outro lado, lhes tiram o foco dos estudos.
Para resumir, importante que o aluno tenha em mente que vai passar muito tempo
estudando até lograr alcançar seu objetivo final, e que é nisso que ele deve focar. Se
não pode decidir quando será publicado o edital, então concentre seus esforços nos
estudos. Quando for ele, enfim, publicado, o candidato já estará quase pronto, apenas
precisando adequar o que estudou ao novo edital. E, com paz de espírito, ir fazer a
prova e comemorar o resultado positivo!
Vicente Paulo: E os maiores erros cometidos pelos candidatos? Ou, mesmo,
erros que tenham sido cometidos por você – e que, hoje, você não os
cometeria novamente?
Leandro Cade nas: Da mesma forma que queremos os resultados a curto prazo,
costumamos avaliar nosso desempenho positivamente de maneira exagerada. Já
passei por isso e já ouvi muitos dizerem: “estudei muito, estou pronto para passar!”
Depois, ao conferir o resultado, decepção grande!
Sigo um pensamento que diz: “seja pessimista na avaliação e otimista na ação”.
Noutras palavras, eu diria: estude mais do que você acha necessário, sempre
considere que você foi pior do que realmente foi.
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Posso listar outros erros comuns, alguns já aqui analisados: uso de material indevido,
estudo de conteúdo que não cai ou itens que são cobrados e não estudei, esquecer do
horário de verão e chegar atrasado, não conferir o endereço da prova, estar cansado
na hora da prova, comer muito ou pouco no grande dia etc.
Leia o edital, isso é importante! Já fui fazer uma prova em que era possível a consulta
à legislação e não a levei. Noutra, o cartão de respostas deveria ser preenchido com
caneta preta e eu só tinha azul...
Enfim, importante “conhecer seu inimigo...”. Preste atenção aos detalhes do edital,
para não ser surpreendido depois.
Mas, além do estudo, dos livros, da prova, do edital, há outros itens que erramos e
sequer nos damos conta. Refiro- me a aspectos paralelos, acessórios, secundários.
Sempre chamo a atenção a outros pontos que costumamos desprezar. Muito
importante ter um bom ambiente de estudos: mesa, cadeira, iluminação, temperatura,
som ambiente. O conforto para ler é tão importante quanto a qualidade do livro. Ler
um bom livro em condições inadequadas dificulta o aprendizado. Organize seu local de
estudos e mantenha-o em ordem, isso ajudará na absorção da matéria e no menor
desgaste físico e mental durante os estudos.
Limite o uso da internet, da TV, do telefone. Converse com os familiares para que você
tenha tranqüilidade para estudar, sem precisar atender à campainha ou ao telefone.
Nesse ponto confesso meu maior “atrapalhador” de estudos: internet. Tanto não
conseguia me manter afastado dela que tomei uma atitude radical: o primeiro ano, em
casa, só estudando, foi sem internet. Usava no curso que eu frequentava, para aonde
ia uma hora mais cedo. Era o tempo que eu tinha para resolver minhas coisas na net.
Depois disso, só no dia seguinte. Deu certo, meus est udos deslancharam e eu não
perdia momentos valiosos com a internet.
Portanto, avalie quais são as pedras no seu sapato e tente eliminá -las ou minimizar a
interferência, você perceberá a melhora no seu desempenho.
Vicente Paulo: Recentemente, você publicou um pe queno livro no qual é
contada a sua trajetória de sucesso (Concurso Público, eu passei! Memórias e
dicas de um concursando que não desistiu. Editora Método.). O que lhe
estimulou a isso?
Leandro Cadenas: Vários foram os motivos, mas posso dizer que, dentre os
principais, foi o de divulgar a minha história, de modo a estimular as pessoas a
perseguirem seus sonhos. A persistência costuma andar próxima ao sucesso mas,
infelizmente, é uma característica de poucos. Como já citei antes, somos muito
“imediatistas”, queremos tudo para já. Não suportamos o caminho, desejamos o
resultado final pulando a parte “chata”. E isso tem um efeito devastador para muitos,
que acabam desistindo muito rápido.
Quis mostrar que conseguimos chegar onde queremos, se tivermos dedicação e
paciência para seguir pelo caminho que, embora longo, é necessário e, ao f inal,
recompensador.
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Venho de uma família sem qualquer histórico com concursos e, por méritos próprios,
sem ajuda do sobrenome ou de algum padrinho poderoso, alcancei um d os cargos
mais desejados da República.
E isso se deve tão somente às minhas condutas, aos meus sacrifícios, às minhas
escolhas. Claro que a ajuda da família, dos amigos, dos professores, sempre foi muito
importante, mas quero dizer que cheguei aonde chegue i de forma absolutamente
honesta, lícita e ética. E desejei mostrar isso para outras pessoas que estão na mesma
situação que eu, que não pensem que o sucesso depende da posição ocupada por um
parente ou padrinho, mas sim do seu próprio esforço.
Além disso, sempre fui muito questionado por alunos, amigos, leitores e até
desconhecidos sobre minha história, meus métodos, minhas sugestões de estudo,
bibliografia etc. Portanto, escrever esse livro foi como um fechamento da minha vida
de concursando, encerrada co m a aprovação para juiz federal, “pagando” uma dívida
que tinha (e tenho) com o mundo “concursal”, dando uma retribuição de tudo quanto
dele recebi.
A partir dessa aprovação, deixei definitivamente minha condição de candidato,
mantendo- me nessa seara como professor, autor, palestrante, não mais como
concursando.
Aos que ainda estão na batalha, recomendo a leitura desse livro. Ele é pequeno, de
leitura fácil e rápida, direto ao ponto. Pode ser um bom instrumento de motivação nas
horas de desânimo!
Vicente Paulo: Se você tivesse que dizer, em uma só palav ra, o que conside ra
fundamental para uma aprovação em concurso, que palav ra seria essa? E se
fossem duas palav ras? E se fossem três pa lavras? E se lhe fosse pe rmitida
uma frase?
Leandro Cade nas:
perseverança.
Vontade.
Vontade
e
dedicação.
Vontade,
dedicação
e
Meu pensamento preferido, sempre repetido em sala de aula: “Difícil é para todo
mundo. Muitos desistem pelo caminho. Os que não desistem, passam.”
Vicente Paulo: Qual a sua orientação pa ra os candidatos da área não jurídica
que estão começando a estuda r a gora?
Leandro Cadenas: Para quem nunca estudou para concursos é importante dizer que
esse é um mundo completamente diferente.
Parece que a vida passa em outro rit mo. Será outro ambiente, outros amigos, outras
conversas, outras perspectivas.
Normalmente, quem não faz parte desse mundo não consegue entender bem o que
acontece com a gente. Olham de fora e veem pessoas que só estudam, só falam em
concursos, se estressam com um tal de “edital” ou com a espera por um gabarito ou
resposta a um recurso. Esse é o nosso mundo incompreendido pelos “alienígenas”.
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Então, se você já está nesse mundo, ótimo, você sabe do que eu estou falando. Se não
está, lhe digo: sim, é um mundo diferente de tudo o que você já viveu até agora, de
certo isolamento do mundo “normal”, mas que, ao final, seguindo as dicas da nossa
cartilha, te dá de presente um cargo público, com um bom salário, estabilidade e
tranqüilidade financeira para o resto da vida! Agregue-se a isso a possibilidade real de
poder servir, servir ao público, fazer a diferença em sociedade.
Comece se inteirando do que se trata. Minha sugestão de sempre: faça um cursinho.
Lá todos os demais estão no mesmo barco que você. Ali o clima é de concurso, você
conhecerá esse mundo, aprenderá sobre as bancas, as provas, os cargos, os livros, os
professores. Aos poucos, você vai se acostumando com isso e podendo fazer suas
próprias escolhas.
E, uma vez “enturmado”, perceberá todas as nuances da preparação para um certame,
e encontrará apoio dos demais para seguir a trilha até seu objetivo f inal. Curioso que,
no mais das vezes, os candidatos se ajudam mutuamente. Pouco vi, nesses anos,
sentimentos de competição, egoísmo ou boicote. Você sempre encontrará, tanto nos
colegas de turma, quanto nos professores, ajuda para as suas dif iculdades.
De outro lado, daqueles que não conhecem “nosso mundo”, normalmente só ouvimos
críticas e gozações.
Mas, se sua decisão for por ser servidor público, uma dica importante: afaste-se dos
maus humora dos, dos pessimistas, dos invejosos. Você vai ouvir muitos discursos que
não te ajudarão a prosseguir no caminho, em especial das pessoas próximas que não
entendem nossa escolha, nossa ansiedade e nossa angústia.
Em casa, no lugar de se afastar, prefira uma boa conversa, e explique o que é o
mundo “concursal” e suas agruras. O apoio da família faz toda diferença.
Portanto, se você é novato nesse mundo, procure informação, e se aproximar de
pessoas que já estejam nele, isso facilitará muito suas escolhas.
Vicente Paulo: E para os candidatos que são graduados em Direito, mas
acham que a aprovação em um concurso de Juiz é algo praticame nte
impossível, coisa para gênio?
Leandro Cadenas: Não é coisa para gênio, é coisa para dedicados e persistentes.
Atendidos os critérios objetivos (formado em Direito, três anos de prática jurídica etc),
qualquer um pode alcançar sua aprovação.
Como já antes referido, no início, o principal ponto a ser observado é o tempo: o
candidato precisará de muito tempo para lograr o sucesso nas provas. Estando ciente e
consciente disso, o próximo passo é estudar. E depois, estudar. E depois, estudar. E
depois, estudar. E depois, comemorar a aprovação.
E, no caso específico da magistratura ou do Ministério Público, como são várias fases,
perceba que o estudo contém variantes importantes, cada fase tem suas
características próprias. Avançando de uma em uma, vai alterando a forma de estudar,
até conseguir chegar na prova oral e passar!
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Não tem segredo. Se você conseguir manter-se motivado não se deixar abater com a
passagem do tempo, uma hora a aprovação chega. Aposte nisso e depois me conte!
Vicente Paulo: E para aque les que já estão na á rdua caminhada há a lgum
tempo e ainda não conse guiram a tão sonhada a provação? Ou, mesmo, que já
estão pensando em desistir, em razão daquele ta l pensame nto “eu não vou
passar nunca”?
Leandro Cadenas: Quantas vezes eu pensei em desistir, quantas vezes pensei que
nunca passaria! Foram várias. Em todas elas eu parava, lembrava dos motivos que me
levaram a estar ali, de licença sem remuneração, estudando de oito a doze horas todos
os dias da semana, renovava minhas energias e seguia estudando.
Digo o seguinte: avalie, com honestidade, o que você vem fazendo. Veja se, de fato,
está estudando ou está se enganando. Se tem feito sua parte. Verifique como está
sendo teu desempenho. O mais relevante, a meu ver, não é necessariamente ir bem já
nas primeiras provas. Mais que isso, o que realmente importa é sua evolução. Anote
como você tem se saído a cada novo certame e, se não está melhorando a cada prova,
na média, precisa rever onde está errando. E corrigir o erro.
Desistir é o caminho mais rápido e fácil. Sempre cito que é mais fácil ficar na piscina,
na praia ou vendo novela que estudando. Mas é estudando que se alca nça a
tranqüilidade tão desejada.
Mas, enfim, desistir do concurso não é o fim do mundo. A iniciativa privada está aí,
cheia de ótimas oportunidades e desaf ios. Se não “se achou” no mundo público,
assuma isso, não perca mais tempo, e invista na sua carreira privada. Tem suas
vantagens e desvantagens, como tudo na vida. Você não terá estabilidade no
emprego, mas também não terá teto remuneratório. Eventualmente, você poderá
ganhar um salário de cem mil reais por mês, patamar jamais alcançado, de forma
lícita, no serviço público.
Faça sua opção, consciente, levando em conta seu perfil, e não o que é mais fácil hoje.
Pense onde pretende estar daqui uns anos, e o que precisa para tanto. Isso vai lhe
ajudar a bem decidir. E seja feliz!
Vicente Paulo: Você disse que se aposentou da sua vida de “concursando”.
Com a assunção do cargo de Juiz Federa l, você pretende continuar a atua r no
segmento de concursos? Enfim, você ainda tem projetos no tal mundo dos
concursos, ou já guardou a c hute ira de vez?
Leandro Cadenas: De fato, encerrei minha vida de concursando, pois cheguei onde
eu queria. Foi um caminho árduo. Imagine que desejei ser juiz muito tempo antes de
iniciar a faculdade de Direito! O meu caminho, então, era ainda mais longo que o
normal. Eu ainda tinha que entrar na segunda faculdade, cursar seus cinco anos,
cumprir os três anos de prática jurídica, e, simples, passar em uma das provas mais
difíceis no ramo dos concursos.
Mas, apesar de várias recaídas, não desisti pois estava convicto dos meus sonhos.
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E é por isso que permaneço nesse mundo. O que mais me agrada e satisfaz é poder
participar, ainda que de forma indireta e minimamente, do sucesso dos meus alunos e
leitores. Fico imensamente feliz cada vez que recebo email de alguém que passou em
um concurso e me escreve para contar! No f undo, o sucesso dos alunos é minha
felicidade.
Assim, continuarei dando aulas, proferindo palestras, escrevendo livros, respondendo a
todos os emails. Quero continuar retribuindo para a sociedade tudo de bom que dela
recebi, incluindo aí, meu amigo Vicente Paulo, a ajuda que você e o Marcelo
Alexandrino, de forma incógnita, me deram, quando divulgaram, naquela época, aulas
gratuitas na internet, que muito me ajudaram nos estudos.
Agora é minha vez de retribuir, ou continuar retribu indo. Podem contar com isso.
Vicente Paulo: Qual se ria sua mensagem pa ra quem já foi aprovado?
Leandro Cadenas: Se você que está lendo esta entrevista é um feliz servidor público,
nomeado e já em exercício, nunca se esqueça dos seus valores pessoais, e de todo o
tortuoso caminho percorrido até seu momento atual. Lembre -se de que você escolheu
o caminho do serviço público e, exatamente por isso, sua principal atribuição, qualquer
que seja o seu cargo, é servir ao público. O cidadão que precisa de seu serv iço não é
um problema em sua vida, um incômodo. Ele é o destinatário final de todo o seu
trabalho, ele é a razão de ser do seu cargo. Afinal, se não fossem as necessidades
dele, seu cargo não existiria e você não teria essa atividade.
Mantenha uma conduta ética, proba, irretocável. A sua remuneração é suficiente para
suas necessidades, por isso você optou por assumir esse cargo. Se não for, há três
opções lícitas: i) peça exoneração e busque outro trabalho que o remunere melhor; ii)
continue estudando em b usca de uma posição mais confortável financeiramente; iii)
acumule sua função pública com outra que seja licitamente autorizada.
Só não siga parte dos servidores que se dedicam a reclamar do trabalho e do valor que
recebem, mas nada fazem para melhorar sua situação pessoal. Esse time (e sim, eles
existem, aos montes) é de perdedores que vão reclamar sempre, qualquer que seja o
valor depositado em suas contas. Afaste-se deles.
Enfim, você tanto estudou para ser aprovado e para ser feliz. Em verdade, é isso o que
importa.
Seja feliz no cargo que você escolheu e, se não for possível, continue na busca da
felicidade, estudando e fazendo outras provas, se esse for o caso.
Vicente Paulo: Qual se ria sua mensagem final para quem está le ndo sua
entrevista?
Leandro Cadenas: Quero dizer, de forma genérica, independente do tema concursos
públicos, que somos movidos a sonhos. Sem eles, a vida fica monótona, sem graça,
sem sentido.
Se é assim, então devemos dar atenção especial a eles. E persegui-los deve ser tão
interessante quanto atingi-los. Desistir no meio do caminho, algumas vezes, pode ser
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necessário e não deve ser visto como um fracasso. Mas, em geral, não desanime.
Corra (ou ande, ou engatinhe) em direção a eles.
Que estas linhas lhes inspirem a não desistir dos seus sonhos!
Sucesso!
[email protected]
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