UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA SIMBIOSE RELIGIÃO E POLÍTICA PARTIDÁRIA: A INSERÇÃO DAS LIDERANÇAS DA IGREJA ASSEMBLÉIA DE DEUS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA EM RORAIMA. Boa Vista – 2005 1 ANTONIO WÉLITON SIMÃO DE MELO SIMBIOSE RELIGIÃO E POLÍTICA PARTIDÁRIA: A INSERÇÃO DAS LIDERANÇAS DA IGREJA ASSEMBLÉIA DE DEUS NA POLÍTICA PARTIDÁRIA EM RORAIMA. Monografia apresentada ao Colegiado do Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Roraima, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Ciências Sociais – habilitação em Antropologia Social, sob orientação do prof. Dr. Carlos Alberto Marinho Cirino. Boa Vista – 2005 2 Membros da Banca Examinadora ______________________________________________ Prof. Dr. Carlos Alberto Marinho Cirino (Orientador) _______________________________________________ Prof. Msc. Alfredo Ferreira de Souza ______________________________________________ Prof. Msc. Cleber Batalha Franklin Aprovada em 3 de agosto de 2005. Nota: 9 3 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho aos meus pais, pelo incentivo que desde minha infância me conduziram à dedicação aos estudos, como única herança que me poderiam doar para um futuro. À minha esposa, sem o seu auxilio não poderia realizar tal feito. Aos meus irmãos, como incentivo a prosseguir na vida, com sonhos e objetivos. Enfim, a todos os que de uma maneira ou de outra fazem parte de minhas lembranças. 4 AGRADECIMENTOS Pela vida e a saúde que foi a mim outorgada, agradeço a Deus, por mais uma vitória concedida a minha pessoa. Agradeço ao professor Carlos Cirino, pela paciência e dedicação na orientação deste trabalho monográfico, desde a elaboração do projeto de pesquisa até a finalização da análise. Minha gratidão também é estendida a minha esposa Ivani, pela compreensão em me tolerar nas minhas aflições e inquietações da vida e dos estudos. Aos membros da Igreja Evangélica Assembléia de Deus em Boa Vista, pelas informações que direta ou indiretamente me expressaram para que eu pudesse montar o problema aqui analisado e por professarem comigo a mesma fé. A todos os informantes, sejam os entrevistados ou os que dialogaram comigo, a fim de me expressarem suas opiniões e conceitos sobre política e religião. O meu muito obrigado, também, a todos os que contribuíram no meu processo de construção do conhecimento, desde os professores da UFRR, aos colegas do curso, até os meus primeiros professores da minha infância. 5 “Não ornei esta obra [...] por que não quis que coisa alguma seja seu ornato e o faça agradável, senão a variedade da matéria e a gravidade do assunto.” Nicolau Maquiavel. O PRÍNCIPE. 6 RESUMO O projeto político “CIDADANIA AD BRASIL”, é uma iniciativa da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB). Em Roraima, a prática política eleitoral, por parte da Igreja Assembléia de Deus, vem sendo desenvolvida há alguns anos, sempre com um certo grau de negatividade por parte de uma porção de seus fiéis. Para compreendermos o processo de inserção da igreja no cenário político eleitoral (secular), faz-se necessário uma reconstrução histórica da denominação desde sua origem até nossos dias. Deste modo, o trabalho ora proposto busca levar o leitor a uma reflexão das atitudes tomadas por parte da liderança institucional para justificar a participação da denominação no cenário político eleitoral. Enfatizando a visão desta parte dos membros que rejeitam tal iniciativa, sendo por isso, tomados como “infiéis”, ao se colocarem como obstáculos ao projeto político da denominação. Dentro de uma análise esporádica do problema política versus religião, tentamos expor, através de comparações com problemas já estudados por outros autores e de conceitos clássicos sobre os dois temas, a profanação do espaço sagrado como conseqüência lógica das “mutações” que fenômeno religioso tem sofrido para adequar-se a atualidade. Por fim, enfatizamos que, segundo as informações levantadas através de entrevistas, com membro da liderança da igreja, não há nenhum interesse de reverter o processo de politização da igreja, visto que consideram uma necessidade para mantê-la atual e sem perda de espaço na sociedade. Palavras-chave: Religião; Política partidária; Igreja Assembléia de Deus. 7 SUMÁRIO INTRODUÇAO.............................................................................................................8 CAPITULO I Contornos históricos da Igreja Assembléia de Deus em Boa Vista...........................18 1.1 Aspectos históricos e Teológicos das Assembléias de Deus. ............................19 1.2 Os pioneiros da Igreja Assembléia de Deus na Região do Rio Branco. ............23 1.2.1 A expansão da Igreja a partir da década de 1970............................................28 1.3 A inserção dos membros da igreja no cenário Político Nacional........................33 1.3.1 O crescimento Participativo nos últimos 30 anos. ............................................35 1.4 Os representantes da Igreja na Política de Roraima. .........................................37 1.4.1 A implantação do projeto “CIDADANIA AD BRASIL”. .....................................44 CAPITULO II Traumas e mudanças no comportamento dos fiéis. ..................................................48 2.1 Episódio ocorrido em 1991. ................................................................................49 2.2 Controvérsias de entendimento. .........................................................................53 2.3 No Exercício da Política......................................................................................56 CAPÍTULO III Debate teórico e diálogo com autores. ......................................................................59 3.1 Religião: suas definições. ....................................................................................60 3.2 Política: suas definições. .....................................................................................64 3.3 Religião, Política e suas Contradições ................................................................69 3.3.1 A análise do discurso dos diversos atores........................................................78 CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................83 BILBLIOGRAFIA.........................................................................................................86 8 INTRODUÇÃO Durante toda a minha vida, até o momento, tenho acompanhado os princípios doutrinários da Igreja Evangélica Assembléia de Deus1. Desde a minha infância, minha mãe se converteu ao evangelho e criou todos os seus filhos levando-os às reuniões ecumênicas da denominação. Entretanto, até os meus 17 anos de idade estava em condição descompromissada com a denominação, visto que o compromisso definitivo que o indivíduo passa a ter com a igreja só é reconhecido após um ritual de iniciação denominado de aceitação do evangelho em público ou pelo menos diante de testemunhas que possam dizer à outros que esteve presente em sua decisão. Nesta situação, o crente se torna convertido à fé cristã, sendo apenas um congregado, sem direito de votar e ser votado nas reuniões de Assembléia Ordinária ou Extraordinária da denominação, nem participar da Santa Ceia – ritual onde os fiéis membros da denominação comem do pão e bebem do vinho que, simbolicamente, representam o corpo de Cristo que, através de sua morte, acredita-se ter concedido vida eterna aos que nele crêem. Através de um outro ritual muito mais elaborado em que o crente, como é conhecido, passa pelo batismo nas águas, o que é feito apenas com pessoas de idade igual ou superior a doze anos, o cristão passa a ser definitivamente membro da igreja e participante direto de suas liturgias. Nesta condição “clandestina”, grande número de adolescentes, nascidos em lares cristãos levam a vida religiosa sem fazer sua decisão de fé, nem sua definitiva adesão ao rol de membros denominacionais. Em 1994, no terceiro mês do ano 1 Doravante, apenas IEAD. 9 decidi definitivamente fazer minha “iniciação” na vida religiosa ao fazer minha confissão de fé em público. No oitavo mês do mesmo ano, desci às águas batismais e tornei-me membro da IEAD. No início do ano de 1992, minha família e eu chegamos em Roraima, com o propósito de fazer deste Estado nosso novo endereço habitacional. Aqui, mantivemos nossa profissão de fé na IEAD. Desde minha infância e adolescência, observei que os assuntos relevantes à política partidária sempre foram tratados fora do círculo sagrado, o púlpito da congregação. Sempre se relacionava as práticas políticas como algo profanado e distanciado da participação denominacional. Nestas condições, mesmo vivendo no interior do meu Estado de origem, Pará, podia ser vista esta distinção bem nítida no período das campanhas eleitorais, quando de costume os candidatos decidiam ir até às localidades mais longínquas com os propósitos mais “sinceros” que se possa imaginar. Em tais situações, a membresia da IEAD nunca se fazia presente às reuniões com estes atores sociais. Ouvi minha mãe sempre dizer que “ali não era lugar para crente andar!”. Com esta criação conservadora, foi construído em minha mente questões quanto ao papel da igreja nas decisões políticas. Dentro desta visão “congelada”, e tentando romper com o “gesso” que ainda detêm a mente de muitos cristãos, cresci e me tornei um questionador destas práticas inovadoras aplicadas à vida religiosa contemporânea. 10 Desde que cheguei em Boa Vista, percebi, logo no primeiro ano eletivo, uma diferença na postura dos membros da igreja quanto aos assuntos político-eleitorais. Na ocasião, exercia o mandato de deputada estadual a senhora Eulina Vieira. Esta ainda possuía um pequeno reduto de eleitores dentro da denominação. Percebi a militância política de membros como: Irmão Raimundo do ônibus, Irmão Íris Ramalho e outros. Mesmo que a denominação em si não possuísse em seu sistema administrativo um órgão interno que trabalhasse a política partidária como atualmente, alguns membros participavam ativamente dos movimentos políticos sem restrição doutrinária. No contexto vivido em 1992, havia uma negatividade por parte da membresia referente a um episódio ocorrido no ano anterior que teve o seu desfecho na tentativa de assassinato do Pastor da Igreja Assembléia de Deus em Roraima, Fernando Granjeiro de Menezes, assunto que tratarei na segunda parte deste trabalho. Acompanhando o processo participativo de alguns membros da igreja nos movimentos políticos, observei a caminhada denominacional na vereda política a partir da campanha eleitoral de 1998. Nestas circunstâncias, tomei por marco inicial o processo de participação político-eleitoral da IEAD em Roraima. Destaco tal situação como uma ruptura de uma continuidade prevalecente desde sua formação em 1948. Em 1997, houve o falecimento do Pastor Granjeiro que estava à frente da igreja desde 1983. Com o novo líder da igreja, Pastor Geraldo Francisco dos Santos, houve o início desta abertura das práticas conservadas pelas lideranças anteriores, que conforme um dos informantes da pesquisa, “Ele tratava a 11 política com pinça. Ele não metia a mão”,2 referindo-se ao modelo de tratamento com a política eleitoral praticada pelo Pastor Granjeiro. Naquele ano, lançaram seus nomes à candidatura para o cargo de deputado federal o então Presbítero da igreja Javan Arraes Sindeuax e o Diácono Carlos Andrade. Mesmo que o diácono estivesse mais próximo da administração da igreja, os líderes da denominação mantiveram uma campanha discreta de seu nome. Somente na reta final da campanha, os dois nomes passaram a ter o mesmo tratamento pela liderança. No segundo turno, para governador, houve um acontecimento que denomino como marco da interferência denominacional na campanha, em favor do então candidato à reeleição para o governo de Roraima, pelo (PPB), senhor Neudo Ribeiro Campos. O episódio ocorreu em um culto de louvor, em frente ao templo central da Igreja, onde estava presente como atração principal do movimento o cantor evangélico Mattos Nascimento. O que poucas pessoas sabiam, era que a “celebridade” do culto de louvor havia sido eleito a deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro pelo mesmo partido do candidato ao governo de Roraima (PPB), apoiado, discretamente, pela liderança da igreja, dias antes de sua presença no evento em Boa Vista. Na ocasião, ao final da participação do personagem principal (cantor), ele mesmo anunciou e convidou ao palco, com toda a empolgação discursiva, comum nestas chamadas, o candidato ao governo de Roraima de seu partido. Com tal atitude, algumas pessoas que me acompanhavam no evento, como minha mãe e outras, dirigiram-se a mim dizendo: “Vamos embora, pois já acabou o 2 Entrevista concedida pelo Pastor Rosival Soares de Freitas em 27/04/05. 12 culto!”. A partir daquele momento, percebi uma rejeição da participação da igreja no movimento político eleitoral como algo plenamente rejeitado por alguns atores evangélicos membros da denominação. Pouco mais de dois anos depois, iniciei o curso de Ciências Sociais na UFRR. Tive então o conhecimento da necessidade de uma análise de algum fenômeno social como requisito parcial para a conclusão do curso. Tendo em minha mente todo o conflito ideológico permeado na denominação religiosa que freqüento, passei então a refletir sobre a questão (política e religião) dentro da igreja Assembléia de Deus em Roraima, levando em consideração os avanços e iniciativas que se desenvolveram a partir de 1998 e suas conseqüências dentro da instituição até 2004. Esta tarefa pareceu-me impossível no momento de buscar as informações necessárias para a análise do fenômeno. Primeiramente, porque o sistema administrativo da Igreja é por mim, muito criticado, devido à centralização das informações, a pouca contribuição dos atores que detêm estas informações em repassar as mesmas a alguém, a acessibilidade aos livros e registros da igreja que são restritos a atores influentes, e outros limites impostos pelo modelo administrativo predominante na instituição. Como exemplo destes limites, vale ressaltar que para ter acesso ao Estatuto da instituição que desde 1994 sou membro, falei com: secretário da igreja, que me respondeu que não tinha nenhuma cópia; o Vice-presidente da denominação, que me informou não estar com sua cópia disponível por tê-la repassada a um jurista 13 para adequação ao Novo Código Civil; o secretário da convenção, que me disse ter emprestado sua via a um outro membro da diretoria da igreja; com três Pastores ligados à administração, que me disseram não possuírem nenhuma cópia do Estatuto denominacional. Com estes limites impostos, fez-se necessário que buscasse com algum membro que porventura tivesse tal documento. Encontrei uma cópia em poder de uma pessoa que me disse ter tido acesso ao documento através de uma influência que possui no meio administrativo da igreja. Já era a quinta cópia reproduzida a partir do original. Com o exemplo citado acima, vale ressaltar que, ainda que possa compreender os compromissos e ocupações que os pastores têm durante seus expedientes no gabinete pastoral, para que eu fosse atendido pela administração da igreja para uma entrevista sobre o assunto proposto nos objetivos da pesquisa, foram necessárias quinze (15) “viagens” ao prédio administrativo da igreja para que pudesse ser recebido pelo vice-presidente da igreja e fizesse uma entrevista fazendo uso de um gravador sobre os conflitos ideológicos contraditórios apresentados no projeto político da Igreja, “CIDADANIA AD BRASIL”. Vale lembrar que o referido projeto é fruto de uma tentativa de nacionalizar, ou seja, operar no âmbito de todo o país, as questões político-partidárias de interesse institucional. Ele possui sua primeira versão lançada na campanha eleitoral de 2002 com o slogan A VALORIZAÇAO DO VOTO EVANGÉLICO e, na segunda versão, em 2004, VOTO ÉTICO UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA. Busquei direcionar as evidências das contradições encontradas entre os objetivos do projeto e as práticas políticas na igreja, como também, aos impactos perceptíveis pela liderança da igreja na implantação e execução do referido projeto político no contexto municipal de Boa vista. 14 Partindo da idéia da existência de uma resistência quanto a política e do conflito ideológico quanto à participação da instituição no cenário político eleitoral partidário, apresento um histórico da construção desse cenário e uma análise do conflito ideológico interno que permeia os membros e os líderes da igreja Assembléia de Deus. Tomo como fonte de informações, além da minha própria participação dentro da igreja, ou seja, uma pesquisa participativa, entrevista aberta não-diretiva com uso da técnica de gravador com membros atuais e ex-membros da diretoria da igreja, incluindo entre estes coordenadores políticos da instituição, membros que fizeram e outros que fazem parte dos atores que compõem o cenário político local, ao todo seis entrevistas, perfazendo um total de 4:10 (quatro horas e dez minutos) de gravação; revisão bibliográfica de publicações em revistas, jornais locais, institucionais e científicos, e livros sobre a participação de evangélicos nas campanhas políticas eleitoreiras e as atividades políticas de evangélicos nas casas legislativas onde exercem suas atividades; impressos informativos sobre atividade parlamentar e manuais de orientação político-evangélico; história de vida de pessoas que acompanharam e acompanham a história da igreja em Roraima. Detenho-me mais ao contexto de Boa Vista, por ser o centro das decisões desta matéria, tanto na política institucional, quanto do processo político secular. Enfatizo muito a história da denominação em Roraima, por desconhecer a existência de algum trabalho, pelo menos de meu conhecimento, construído dentro de metodologia científica, publicado sobre a Igreja Assembléia de Deus em Roraima. Há um livro que pelo título induz um relato completo da HISTÓRIA DA 15 CONVENÇAO GERAL DAS ASSEMBLÉIAS DE DEUS NO BRASIL (CGADB), publicado pela Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), em 2004, no entanto, de Roraima só se refere à passagem por esta região, em 1918, do missionário sueco Samuel Nystron. O recorte temporal compreende o período do ano de 1998, que corresponde ao início do envolvimento da igreja no processo político eleitoral, a 2004, que limita o tempo presente e envolve uma análise da experiência adquirida na última campanha eleitoral. Concentro-me muito mais no projeto político nacional da Assembléia de Deus “CIDADANIA AD BRASIL”, embora, valorize a história da Igreja em Roraima, desde a história da implantação e crescimento, como os primeiros vultos da política que faziam e ainda fazem parte da membresia denominacional. Trago ainda para o debate as atividades políticas desenvolvidas pelos representantes da instituição em exercício e as rejeições às idéias eleitoreiras da liderança institucional. Fundamento minha análise nos conceitos de política e religião, escolhidos nos clássicos que trabalham esses temas, valorizando sempre a abordagem antropológica de autores como Jean Copans, Marcio Goldman e Moacir Palmeira. Também recorro a Mircea Eliade, Emile Durkheim e outros que definem os fundamentos principais dos conceitos de religião embasados na noção de sagrado e profano, além de buscar informações sobre o método teórico de Análise do Discurso apresentado por Maria Cecília Minayo e Eni Puccinelli Orlandi. Neste desafio, proponho uma crítica às formas como se tem trabalhado o processo de conscientização política dentro da denominação. Fato justificado dentro 16 no princípio de cidadania, ao mesmo tempo em que intervem na liberdade democrática de seus fiéis ao propor, o que denomino de “pacote eleitoral”, candidatos em todos os níveis que se realizam na campanha, sendo até flexível ao apontar dois ou mais candidatos para o mesmo cargo (legislativo). Na elaboração deste trabalho, procurei formatá-lo seguindo as orientações das normas da ABNT comentadas por Iskander (2003)3, que apresenta comentários e interpretações sobre elaboração de trabalhos acadêmicos. O trabalho está estruturado da seguinte maneira: no primeiro capítulo procuro desenvolver uma retrospectiva histórica denominacional, desde a chegada ao Brasil dos missionários Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores da Igreja Assembléia de Deus, no Estado do Pará, em 1910. Tento reconstruir um pouco da história da denominação na região do rio Branco, hoje Roraima, com seus pioneiros que chegaram na região em 1915. Busco enfatizar as aproximações com a política partidária que os atores institucionais tiveram. E narro um pouco da história política da Igreja, além de apresentar as contradições dos dois exercícios, política e religião, e seus efeitos entre os fiéis. Os dados históricos aqui relacionados foram buscados na literatura histórica sobre a denominação e complementados por narrações de história oral de informantes que acompanharam ou tiveram acesso às fontes primárias, através da técnica de gravador, para uma melhor descrição. Tais depoimentos são considerados de grande valia para a história local da denominação, pois, nos registros literários verificados sobre a igreja, não foram encontradas informações suficientes, melhor dizendo, quase nada foi encontrado em 3 ISKANDER, Jamil Ibrahim. Normas da ABNT: comentadas para trabalhos científicos. 2ª ed. Curitiba: Juruá, 2003. 17 livros sobre a história da igreja em Roraima. Apresento a carreira política de atores que iniciaram a carreira política como membro, e finalizo destacando o processo de implantação do projeto “CIDADANIA AD BRASIL” em Boa Vista, que carrega o estigma de ruptura com o tradicionalismo “apolítico” que a sociedade envolvente espera da religião, reconhecida como prática imutável. No segundo capítulo, comento com mais detalhe as implicações que o projeto político tem trazido sobre os fiéis, relembrando seqüelas deixadas por desentendimento quanto a um posicionamento político, não bem interpretado pela sociedade, ocorrido há um pouco mais de uma década e que ainda ecoa como “carro chefe” da rejeição da participação na política por parte das lideranças da igreja, e principalmente, por expor a instituição ao cenário político secular. No último capítulo, procuro lidar diretamente com as informações, comparando as interpretações apresentadas por outros autores sobre situações semelhantes. Proponho uma Análise do Discurso justificativo da liderança da igreja, com o fim de unificar as idéias políticas por parte da denominação. Apresento críticas quanto ao modelo alocado de implementações do projeto político para uma denominação religiosa, enfatizando as contradições de finalidades e de meios praticados no processo político eleitoral ou partidário. Por fim, o estudo proposto é passível de mais informações e interpretações, afinal, em política e religião, o consenso é pouco acessível. 18 CAPITULO I Contornos históricos da Igreja Assembléia de Deus em Boa Vista Buscando a história do protestantismo no Brasil, tive a oportunidade de ler a obra de Ferreira (1992)4, em que o autor apresenta um pouco da história das religiões protestantes no Brasil. Nela, Ferreira destaca o processo da existência legal no Brasil destas doutrinas cristãs que confrontam a doutrina da igreja Católica Apostólica Romana. O autor cita o artigo XII do Tratado de Comércio, firmado entre Portugal e Inglaterra, em 19 de fevereiro de 1810, que colocava o marco inicial da liberdade aos cultos religiosos de origem protestante no Brasil, nestes termos: Sua Alteza Real, o Príncipe Regente de Portugal declara e se obriga no seu próprio nome e no de seus herdeiros e sucessores a que os vassalos de Sua Majestade Britânica residentes em seus Territórios e Domínios não serão perturbados, inquietados, perseguidos ou molestados por causa de sua Religião, mas, antes terão perfeita liberdade de consciência e licença para assistirem e celebrarem o serviço divino em honra do Todo-Poderoso Deus; quer seja dentro de suas casas particulares, quer nas particulares Igrejas e Capelas que Sua Alteza Real agora e para sempre graciosamente lhes concede a permissão de edificarem e manterem dentro de seus domínios e conquista, contanto que as sobritas capelas sejam construídas de tal maneira que exteriormente se assemelhem a casas de habitação e também que o uso de sinos não lhes seja permitido. (op.cit, p. 69). No texto do tratado comercial, surgia o princípio legal da diversidade de cultos no Brasil, embora com limites de expressão, e que somente a partir da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e a promulgação da primeira Constituição republicana brasileira, o que tornou o país um Estado laico, que a 4 FERREIRA, Júlio Andrade. Religião no Brasil / Campinas: Luz Para o Caminho, 1992 p. 69. 19 liberdade religiosa adquiriu sua essência, dentro de tantas dificuldades impostas, entre elas o confronto doutrinário prevalecente até então, o catolicismo romano. Fruto da liberdade religiosa constitucional no Brasil, em 1909 chega ao Brasil os primeiros missionários de denominações pentecostais, entre eles os pioneiros fundadores da Igreja Evangélica Assembléia de Deus5. Em Roraima, desde sua formação e registro6, a Igreja Evangélica Assembléia de Deus teve por princípio a pregação do Evangelho e a salvação das almas. Procurou manter-se sempre alheia à participação nos movimentos políticos eleitorais, não se envolvendo na política partidária diretamente, que conforme seu próprio Estatuto, “aos Pastores e obreiros7 em exercício é vedada à participação em qualquer atividade política ou partidária”.8 Isto, nos últimos anos, tem sido motivo de debate, quanto a sua nova postura, e levou-me a tomar por objeto de estudo no trabalho que analiso nestas linhas. 1.1 Aspectos Históricos e Teológicos das Assembléias de Deus. No final do século XIX, houve nos Estados Unidos da América (EUA) um movimento de avivamento pentecostal que trouxe uma nova postura para as igrejas 5 CAIRNS, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja cristã. Tradução Israel Belo de Azevedo . 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1995. 6 Teve seus primeiros propagadores a partir de 1915; foi organizada e estruturada em 1946, e registrada em Cartório em 28/08/1948, na comarca de Manaus – AM, pelo 1º presidente desta Igreja pastor Quirino Pereira Peres. 7 Trabalhador do evangelho, membro ou autorizado a exercer o trabalho de liderança diante de uma congregação ou mesmo numa frente de trabalho de evangelização: Pastor, Evangelista, Presbítero, Diácono, Missionário etc. 8 Art. 53 do Estatuto da Igreja Evangélica ASSEMBLÉIA DE DEUS no Estado de Roraima, publicado no Diário Oficial do dia 26 de Junho de 1995. Elaborado pelo então pastor Fernando Granjeiro de Menezes, de acordo com o Estatuto vigente na IEAD no Estado do Amazonas. 20 protestante no mundo inteiro. Dois jovens suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, dirigiram-se para aquele país onde se encontraram e tiveram a experiência de serem “cheios do Espírito Santo” e, após tal experimento e convivência com o trabalho evangelístico, sentiram de Deus a chamada para o ministério missionário. Em determinada ocasião, após uma fervorosa reunião de oração na casa do irmão Adolf Olldin, na cidade de South Bend, Estado de Indiana E.U.A, anfitrião de Gunnar Vingren, foram comunicados da chamada missionária que Deus havia revelado ao dono da casa sobre os seus hóspedes para uma localidade chamada Pará. Mesmo sem saberem onde seria esta localidade, foram a uma biblioteca e, após pesquisas em mapas, descobriram que Pará era um Estado brasileiro que tinha por capital Belém. Depois de confirmado o anseio de seus corações, tomaram a iniciativa de viajarem ao destino proposto segundo a revelação sobrenatural concedida a seu irmão na fé. Desta maneira, no dia cinco de novembro de 1910, partiram de New York em direção a Belém do Pará, chegando àquela cidade na tarde do dia 19 de novembro de 1910, tendo o primeiro contato com o Pastor Justus Nelson da igreja Metodista, pessoa com quem Gunnar Vingren já havia se encontrado, ainda nos E.U.A, em eventos evangelísticos, na cidade onde congregava. Depois do reencontro, foram acompanhados até a casa pastoral da Igreja Batista, onde ficaram hospedados por alguns meses e passaram a se congregar com o grupo de evangélicos daquela denominação.9 Na ocasião, a Igreja Batista em Belém encontrava-se sobre direção interina do jovem evangelista Raimundo Nobre. Após a chegada dos estrangeiros na cidade e as suas agradáveis companhias na congregação, houve uma surpreendente 9 BERG, David. Daniel Berg – Enviado por Deus..../ 1. ed. ampliada – Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), p. 51-74. (Biografia de Daniel Breg, um dos fundadores da IEAD no Brasil, escrita por seu filho). 21 cogitação da possibilidade de Gunnar Vingren, que já possuía experiência como Pastor nos E.U.A, chegar a ser indicado para assumir a direção daquela igreja, pois o evangelista Raimundo Nobre não possuía experiência cumulativa nem credencial para assumir tal cargo de modo definitivo. Com o passar do tempo e a convivência, estas possibilidades antes levantadas foram abafadas pelo fenômeno do Batismo com o Espírito Santo de uma fiel da congregação por nome Celina Albuquerque, no dia nove de junho de 1911. Foi a primeira manifestação pentecostal no Pará, marcando o início de um grandioso movimento pentecostal que se desenrola até a atualidade10. O novo comportamento dos fiéis diante do avivamento pentecostal teve por conseqüência a iniciativa, por parte da congregação e através de seu líder, de tentar deter o crescimento desta nova maneira de adoração e culto, caracterizada por um barulho de louvor até então não experimentado, muito menos aprovado pela igreja Batista em Belém do Pará. No entanto, as reprovações por parte da congregação e a penalidade imposta pelo líder responsável pela igreja na ocasião aos que aderiram ao novo modelo de culto, foi o estopim que determinou dissidência doutrinária e a origem da nova denominação pentecostal que no seu início contou com apenas dezoito pessoas expulsas de sua igreja de origem para se tornarem o cerne da “Missão da Fé Apostólica” que, em 1918, passou a se denominar de “Assembléia de Deus” 11. Como a nova denominação, fruto do desmembramento da denominação batista, a Assembléia de Deus segue a orientação teológica pentecostal mas, com 10 11 Idem (p.73-91). Idem (p. 93-101). 22 forma administrativa semelhante a adotada pela igreja Batista, conhecido como congregacional, que segundo KESSLER e CÂMARA (1987), existem três sistema de governo eclesiástico que são: Episcopal ou Prelática, Presbiteriana ou Oligárquica e Congregacional ou Independente. O modelo congregacional, tem por característica ser liderada por pastores com a participação dos fiéis na administração da congregação, o que os autores denominam de “autogoverno”, pelo caráter democrático da administração.12 Os pioneiros da Assembléia de Deus no Brasil, conforme Berg, após serem expulsos da comunhão da igreja Batista, iniciaram a expansão do evangelho pentecostal em Belém e redondezas. Seus líderes e propagadores, dois jovens estrangeiros de olhos azuis, tinham por costume vestirem ternos pretos que conseqüentemente com o forte calor tropical perderam a tonalidade, adquirindo o tom verde, que os levou a serem conhecidos por “Capas Verdes”.13 Hoje, cor padronizada na pintura dos templos congregacionais da Assembléia de Deus em Roraima. (Foto 1) 12 KESSLER, Nemuel & CÂMARA, Samuel. Administração Eclesiástica. 8ª ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 26, 27. 13 BERG, David 1995 p.237. 23 MELO. A. W. Simão de, Congregação II do Brr. Asa Branca em BV – RR, 2005. 1 fot.: col.; 12X16. 1. 2 Os pioneiros da Igreja Assembléia de Deus na Região do Rio Branco Após o surgimento do movimento pentecostal no Pará em 1911, houve o episódio da migração, característico na região amazônica em seu processo de povoamento, que se encarregou da expansão do evangelho. Depois de partir do Estado do Ceará para o Norte brasileiro, Cordolino Teixeira Bastos, acompanhado de sua família - no total de 11 (onze) pessoas -, conviveu por um período com o missionário Gunnar Vingren no Pará, tempo em que aceitou o evangelho da salvação e decidiu vir para a Região do Rio Branco. Chegou e se estabeleceu na fazenda Altamira, de propriedade do Sr. Antonio Pinheiro Galvão, na Ilha de Maracá, em 1915, local onde deu início a pregação do evangelho. Por conseguinte, mesmo 24 não sendo um obreiro autorizado, como geralmente é feito, teve a oportunidade de realizar o primeiro batismo em águas no igarapé Sangrador, afluente do rio Uraricuera. Em 1918, passou por aquela localidade o missionário Samuel Nystron, que tinha vindo para o Amazonas a fim de levar adiante o trabalho iniciado pelos missionários Berg e Vingren. Em uma visita à região, esteve com o grupo de irmãos no Alto Rio Branco por aproximadamente uma semana, irmãos estes, que marcavam o pioneirismo desta igreja em Roraima. Em 1921, o irmão Bastos, como era conhecido, realizou o último batismo em águas naquela localidade. Nesta ocasião, batizou a irmã Rosa Pinheiro Galvão, bisavó do atual presidente da igreja, na época com apenas oito anos de idade14. A partir deste registro do início do trabalho evangelístico nesta região, ficou uma lacuna na história da igreja de aproximadamente vinte anos. Conseguiu-se registrar apenas o processo de estruturação e legalização institucional iniciado em 1946, provocado pela chegada na região de diversos irmãos nordestinos que após serem noticiados em Belém da existência desses fiéis, houve a iniciativa de enviar para Boa Vista do Rio Branco o primeiro Pastor desta igreja15. Em 9 de Setembro de 1946, a igreja Assembléia de Deus, na região do Rio Branco, recebeu seu primeiro pastor, Quirino Pereira Peres, enviado pela igreja mãe em Belém do Pará. Este presidiu a Igreja de 1946 a 1950. Com o propósito de organizar e estruturar a igreja, somente dois anos depois, em 28 de agosto de 1948, 14 Sinopse da história das Assembléias de Deus em Roraima, elaborada pelo pastor Osmar Correia para as festividades do jubileu de ouro da igreja em 1998 e atualizada por outros membros da liderança da Igreja em 1999 p.1-11; e entrevista concedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005, neto do Sr Antonio Pinheiro Galvão, filho de Rosa Pinheiro Galvão e tio do atual pastor Presidente da IEAD em Roraima, Isamar Pessoa Ramalho. 15 Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. 25 esta instituição foi registrada no cartório da cidade de Manaus, possuindo assim seu próprio Estatuto e personalidade jurídica. Como membros fundadores que assinaram o livro de oficialização da igreja, apenas nove pessoas, entre elas Antonio Ferreira da Silva (Juvenal), ainda vivo e membro desta igreja e, Raimundo Bispo de Souza, que encontra-se afastado da igreja atualmente. É preciso acrescentar que, segundo o Pastor Íris, naquela ocasião já havia uma quantidade aproximada de cem congregados. A partir de então, ficou estabelecida na Rua Cecília Brasil, esquina com a Avenida. Benjamim Constant, endereço atual, em um terreno doado por Francisco Saraiva, membro da igreja. No local, havia uma casa coberta de palha e paredes de taipa, que foi adaptada para abrigar a congregação. Conseguiram assim se livrar do aluguel da casa, antes ocupada para as reuniões congregacionais e pago por vinte irmãos que de boa vontade mantinham aquela despesa 16. No ano de 1950, a igreja recebeu seu segundo pastor, Benjamim Matias Fernandes, enviado pela igreja já formada no Estado do Amazonas, e dirigiu este trabalho de 1950 a 1952. Ele tomou a iniciativa da construção do primeiro templo de alvenaria da IEAD em Roraima. Segundo entrevista com o Pastor Íris Galvão Ramalho, este pastor colocava toda a congregação para carregar o material da construção - pedra, tijolo, madeira e outros – nos braços após os cultos. Foi o seu pai na fé, pois, mesmo sendo filho de uma das pioneiras da igreja em Roraima esteve por um período de sua juventude afastado da fé religiosa. Também foi responsável pelo início da interiorização do evangelho por esta denominação, e deu 16 Sinopse da história das Assembléias de Deus em Roraima (...) 1999 p.1-11; e entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. 26 início ao trabalho evangelístico na colônia Fernando Costa, atual sede do município de Mucajaí.17. De 1952 a 1954, a igreja esteve aos cuidados do pastor Joviniano Rodrigues Lobato. Com a idade de 51 anos, ele assumiu a liderança da igreja, enviado pela convenção do Amazonas. Ele deu continuidade na obra de construção do templo da congregação iniciada pelo gestor antecedente e foi o ministro responsável pelas bênçãos nupciais do pastor Íris Galvão Ramalho. Tem como descendente, além de outros, sua filha Dorcas de Oliveira Lobato Pacheco, que ainda congrega com os membros da Assembléia de Deus em Roraima18. Em 1954, assumiu a liderança o pastor Samuel Bezerra Cavalcante, enviado pela igreja de Belém. Deixou como uma de suas realizações, uma viagem evangelística que fez até a atual sede do município de Caracaraí tendo como transporte uma bicicleta. Continuou o trabalho evangelístico na colônia agrícola Fernando Costa, atual município de Mucajaí, e organizou a bancada da congregação em Boa Vista com bancos doados pela Guarda Territorial. Foi substituído na direção da igreja no ano de 1957. Segundo Sinopse da História da igreja Assembléia de Deus em Roraima datada de 1998, pastor Samuel Cavalcante, ainda encontrava-se entre os irmãos no interior do Estado do Pará19. O 5º pastor da Igreja foi Otoniel Alves de Alencar, que esteve sobre a direção da igreja de 1957 a 1962, também enviado pela igreja do Amazonas. Foi responsável pela realização do primeiro culto oficial da IEAD em Caracaraí, no ano 17 Idem. Idem. 19 Idem. 18 27 de 1958. Em Mucajaí, colocou à frente daquele trabalho o irmão Antonio Ferreira da Silva (Juvenal)20. Pastor Elizeu Feitosa de Alencar esteve na liderança da denominação de 1962 a 1965. Enviado pela igreja do Estado do Amazonas e em Roraima, foi o seu primeiro campo de pastoreio e levou o trabalho evangelístico sob sua responsabilidade, até a região da Serra do Sol, hoje município de Uiramutã. Ele reformou a fachada do templo, instalou a escola “Lídia Nelson” para atendimento aos filhos dos membros e não membros da IEAD, que segundo o Pastor Íris, foi fechada na década de 1970. Separou para o ministério uma equipe de obreiros para atender as necessidades da Igreja. Em entrevista citada em nota, Pastor Íris Ramalho me informou um episódio de convite por parte da elite política no então Território Federal do Rio Branco ao pastor Elizeu, para que ele se candidatasse ao pleito de Deputado Federal na eleição de 1965 aproximadamente, o que pode ser tomado como uma justificativa para o pedido de substituição solicitado a fim de preservar a doutrina e os costumes da igreja predominante naquela ocasião.21 Posteriormente ao pastor Elizeu, esteve como líder da igreja o pastor José Guedes dos Santos, de 1965 a 1967. Enviado pela convenção assembleiana amazonense, aos 55 anos de idade chegou em Roraima para dirigir a igreja onde esteve por um período de pouco mais de um ano a frente da IEAD de Roraima, neste tempo realizou a oficialização da congregação em Caracaraí e a oficialização do trabalho na região do Uiramutã. Ele deu início aos trabalhos no Bonfim e na 20 21 Idem. Idem. 28 região da Vila do Taiano. Por fim, por motivo de saúde, voltou para Manaus em abril de 1967, vindo a falecer em 04/06/196922. 1.2.1 A expansão da Igreja a partir da década de 1970 No período de 26/04/1967 até 06/04/1983, esteve à frente da IEAD em Roraima o pastor Manoel Antonio Batista. Durante o período de quase dezesseis anos à frente desse trabalho, novas frentes de trabalho foram estabelecidas e novos obreiros foram consagrados para atuarem nas mais diversas localidades onde a igreja passou a se fazer presente. Uma congregação foi aberta na capital, pontos de pregação foram instituídos a fim de atender o crescimento do número de fiéis e fazer manter a continua expansão do trabalho evangelístico nesta região.23 Conforme informações repassadas pelo pastor Edílson Pereira da Silva, foi realizado na gestão administrativa do pastor Manoel Antonio Batista o pioneirismo missionário na Venezuela, mesmo sem uma continuidade pelas dificuldades financeiras enfrentadas pela IEAD em Roraima, ainda sem recursos para atender a demanda dos custos para um trabalho missionário de tamanha envergadura na ocasião. Nas expressões: ... 1969, sair do seminário vim para Roraima no mês de Dezembro [...] fui até a Venezuela em companhia do Pr. Arão observar o campo, [...] Retornamos para Boa Vista, ocasião em que fomos despedidos para irem para a Venezuela por volta do ano de 1971 ou 1972, não possuo de memória a data precisa, mais tenho por ai escrito em alguma coisa. Passamos perto de dois anos evangelizando tivemos que voltar. Já tínhamos um trabalho aqui em Santa 22 23 Idem. Idem. 29 Helena de Uairém com aproximadamente 28 crentes. Após, com esses vinte oito crentes eu fui mais pra frente para Tumeremo ver o trabalho lá. Já tinha alguns crentes que nós juntamos e começamos a dar assistência. Voltamos para Santa Helena de novo, tivemos que voltar por que as autoridades do governo venezuelano descobriram que nós estávamos lá, e nós fomos chamados para rever nossas documentações [...] não tínhamos uma permanência, visto, [...]. E também eles queriam de mim um levantamento de quanto que eu recebia de ajudar do Brasil. Aí eles acharam pouco demais mesmo! Daí me disseram que eu não podia ficar lá [...]. O Pr. Arão ficou um pouco mais de tempo, ele tava lá mais pra dentro em Ciudad de Bolívar e também ele tinha além da ajuda da igreja aqui também da igreja de São Paulo. Algum tempo depois ele voltou e foi pela igreja de São Paulo para Curubá, fronteira com a Bolívia, passou um bom tempo pra lá. [...] Pr. Osmar Rodrigues de Araújo foi também, só que adoeceu, não se deu bem, aí, só passou uns três meses e voltou [...] Dessa história são poucos que sabem, [...] o Pr. Granjeiro me chamou na casa pastoral e pediu pra mim contar todas as experiências. Eu contei, e ele disse vamos voltar lá de novo, você tá preparado para voltar lá? Aí eu disse não, por que não posso mentir, eu tenho meu filho doente, deficiência, e não dá. [...] A história missionária da igreja o pessoal não conta direitinho, mas essa é a verdadeira historia. (grifo nosso) 24. Ainda sob liderança da igreja, o pastor Manoel Batista organizou a Convenção das Assembléias de Deus em Roraima (CEDADER), concedendo autonomia administrativa e eclesiástica a IEAD de Roraima até então subordinada à Convenção denominacional do Estado do Amazonas. 25 Após “tumultuosa” situação administrativa da IEAD em Roraima e delicada situação de ordem eclesiástica, chegou em abril de 1983, para liderar a igreja o pastor Fernando Granjeiro de Menezes. Convidado pelo pastor Manuel Antonio Batista para substituí-lo nesta jornada. Aos quarenta e um anos de idade, esteve como líder espiritual e eclesiástico da IEAD de Roraima durante quatorze anos, ou seja, o restante de sua vida. Ele era amazonense, com experiências anteriores na igreja do município de Maués - AM. Deixou como registro de sua passagem pela 24 Entrevista concedida pelo pastor Edílson Pereira da Silva em 24/03/2005. Entrevista concedida pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa em 30/03/2005. Sinopse da história das Assembléias de Deus em Roraima. 25 30 frente da denominação em Roraima a retomada do trabalho missionário internacional anteriormente iniciado, mais sem condições de continuação por falta de estrutura financeira. Através de sua liderança, atingiu todos os municípios deste Estado, e grande número de “malocas” indígenas receberam as “boas novas” do evangelho cristão, através dos evangelistas e missionários liderados e enviados pela igreja Assembléia de Deus roraimense.26 A nova versão de trabalho missionário, por ele instituído, ultrapassou as fronteiras do Brasil, chegando até Venezuela, Peru e também o continente africano. Para a cidade de Beira, em Moçambique, foram enviadas duas mulheres em tempos distintos (1990 e 1994) para iniciarem a obra de evangelismo naquele país, além de manter dois programas de rádio, com o fim de propagar o evangelho o cristão na capital e interior de Roraima. Teve a iniciativa de reelaborar o Estatuto da Assembléia de Deus em Roraima publicado oficialmente em 26 de junho de 1995. Por enfermidade letal, faleceu no mês de junho de 199727. Com a morte do pastor Granjeiro, como conhecido, fez-se necessário, como proposto no artigo 17 do Estatuto da Instituição, a eleição de um novo líder administrativo e espiritual para a associação religiosa. Diante de uma “turbulenta” situação administrativa, pois, conforme relatado pelo pastor Rubens Sindouax, o pastor Granjeiro antes de falecer trouxe do Estado do Amazonas o pastor Aldomar Fontoura com o propósito de substituí-lo à frente da igreja e, no entanto, com o seu óbito, foi rejeitada sua indicação, o que causou inquietação entre os fiéis (informação oral). No dia 08/08/1997, numa Assembléia Geral Extraordinária da Assembléia 26 27 Idem. Idem. 31 Geral da Igreja, reunida exclusivamente para tal finalidade, foi eleito pela maioria dos votos e empossado, o pastor Geraldo Francisco dos Santos. Ao tomar posse, manifestou apoio absoluto ao trabalho missionário em desenvolvimento. Ele visitou todos os campos onde havia obreiros, indo até a África acompanhar aquela obra ainda não supervisionada por pastores da Igreja que a sustentava. Com pouco mais de um ano à frente da igreja, foi acusado de praticar atos ilícitos ao seu cargo eclesiástico e, com tais atitudes, infringir a ética doutrinária cristã. Fez-se necessário então, sua renúncia ao cargo de presidente da IEAD e da CEDADER, para o bem da imagem social e moral da igreja, conforme regulamentado no Art. 19 e inciso II do estatuto da Igreja Evangélica Assembléia de Deus em Roraima. Assim, submeteu-se a um período de cinco anos de afastamento da comunhão da igreja e das atividades eclesiásticas, como medida disciplinar estabelecida pelo regimento estatutário institucional.28 Depois deste “temporal”, assumiu a liderança da IEAD, interinamente, o então vice-presidente da igreja, pastor Isamar Pessoa Ramalho, responsável pela realização de uma nova eleição, que, diante de agitações incontáveis entre os concorrentes para o cargo, conseguiu ser eleito no dia dez de fevereiro de 1999, como presidente da Igreja Assembléia de Deus em Roraima. Assumiu a liderança da IEAD em momento delicado frente aos fatos que antecederam sua gestão. Necessário, foi que buscasse corrigir as ações que “mancharam” e “macularam” o nome da instituição, o que antes se manifestava como unidade social que procurava transparecer uma boa imagem das doutrinas por ela defendidas, ditas fundamentais 28 Sinopse da história das Assembléias de Deus em Roraima, 1998 e atualizada em 1999; Art. 53 do Estatuto da Igreja Evangélica ASSEMBLÉIA DE DEUS no Estado de Roraima. Informação verbal repassada pelo pastor Rubens Arraes Sindouax; outros membros da igreja e com ex-membros da liderança institucional. 32 para o bem da obra evangelística e da sociedade onde está inserida, se apresentava inteiramente fora da antiga ordem exemplar29. Dentro do espírito de crescer e adquirir espaço social de destaque, a igreja que, no início da década de 80, possuía apenas três congregações na capital, dois pontos de reunião e oito obreiros no interior, chega ao ano de 2005 com 96 templos na capital e 312 congregações no interior, atendendo o crescimento quantitativo de seus fiéis30. Segundo reportagem publicada no jornal FOLHA DE BOA VISTA, em 08 de junho de 2005, possui aproximadamente 21 mil membros em todo o Estado, sendo que em Boa Vista aproximadamente 8,6 mil membros31. Atualmente (1º semestre de 2005), ainda encontra-se na direção da igreja Assembléia de Deus em Roraima o pastor Isamar Pessoa Ramalho. Mesmo diante de situações críticas e delicadas para o nome da instituição, - como: processos judiciais sendo respondidos por seu líder, intervenção jurídica na administração da instituição, crescente número de membro que tem procurado abrigo em outras denominações, entre outros casos, que pretendo estudar em uma outra oportunidade –, têm conseguido manter-se à frente da IEAD. 32 A história e o debate sobre a inserção da igreja no movimento político partidário, objeto deste trabalho é considerado como um dos fatores da crise institucional aventada e será o assunto das páginas que se prossegue. 29 Idem. Proclamação numérica do pastor Isamar Pessoa Ramalho em culto nos dias 09/02/05 e 21/03/05 no templo central. 31 VALÉRIO, Luis. CIDADE Juiz encerra processo contra direção da Assembléia de Deus <http://www.folhabv.com.br/cidade/Juiz08.htm> Disponivel em: 08/06/05. 32 Participação do pesquisador como membro da denominação desde 28/08/1994. E entrevista com outros membros da igreja e com ex-membros da liderança institucional em ocasiões distintas. 30 33 1. 3 A inserção dos membros da igreja no cenário político nacional Desde a fundação da Assembléia de Deus, sempre foi levada para o último plano a possibilidade de uma aliança política partidária por parte da liderança da igreja, mesmo que, indiretamente, seja implícito uma proximidade com pessoas de influencia política acentuada. Sempre foi preferível que a influência política da igreja fosse imparcial, sem uma exposição direta do nome da instituição, a fim de sustentar uma condição independente e não se considerar devedora de favores a algum grupo político, deixando em aberto aos membros e congregados a liberdade de tomarem sua postura livremente quanto à política partidária. Com essa atitude, a não intervenção na militância política pela denominação, mantinha apenas uma sutil orientação aos membros no exercício da cidadania, por apregoar que a moral religiosa influía na ação política apenas como um exemplo a ser tomado pelos militantes políticos que se aproximavam da denominação. Conforme expresso em entrevista pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa, que faz referência às atitudes tomadas no passado como maneira, que ele considera, mais prudente de agir na aproximação com a política partidária, assim, “uma das medidas adotadas pela liderança da igreja, era não permitir a confluência da política ao meio religioso. Nunca desonrando as autoridades constituídas, no entanto, não deixando que a política (partidária) interferisse na liturgia religiosa”. Posteriormente, descreve o modelo da postura dos membros da igreja, candidatos a cargos elegíveis, pois eles não possuíam credencial para usarem o título de candidato da denominação, e sim candidato do partido. “Os candidatos não eram da igreja, mas dos partidos políticos. Sendo que como membros da igreja tinham o reconhecimento da instituição como 34 candidatos políticos” 33 . O contexto trata da década de 80 e início dos anos 90, período que o entrevistado fez parte do ministério eclesiástico assembleiano roraimense. No entanto, com o crescimento do número de seus fiéis, tivemos uma grande procura, por parte dos grupos políticos seculares, pelo apoio dos líderes religiosos, algo já realizado entre outras denominações, como a Igreja Católica Apostólica Romana, por exemplo, que na obra de Miranda (1997) 34, O Poder e a Fé, descreve a participação decisiva da Igreja Católica cearense durante a eleição da Assembléia Constituinte em 1933 e, através de seus representantes, na elaboração da Constituição Federal de 1934. Tal procura fez com que as lideranças religiosas se sentissem assediadas, mas sempre mantiveram um distanciamento e até combatiam o envolvimento direto da igreja nestes assuntos35. Mas a pressão por um posicionamento da igreja, quanto ao tema, se tornou motivo de especulação de uma possibilidade de fazer da instituição religiosa um campo fértil para a prática da política partidária. E, a partir da década de 1960, tivemos os primeiros membros da igreja a se candidatarem a cargos elegíveis. Em Roraima, especificamente somente no início da década de 1970 que tivemos tal iniciativa, assunto que tratarei nas páginas seguintes. 33 Entrevista concedida pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa em 25/02/05. MIRANDA Júlia, O Poder e a Fé: discurso e prática Católicos. Fortaleza, Edições UFC, 1987, p.118. 35 Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. 34 35 1.3.1 O crescimento participativo nos últimos 30 anos Com a abertura das possibilidades de incluir seus próprios membros no cenário político partidário, como representantes de sua denominação na carreira política, a fim de angariar vantagens até então pouco exploradas e desprezadas na maioria das situações, surge entre os líderes da denominação, a idéia do aproveitamento de um “desperdício” que muito útil seria para o benefício da igreja como associação religiosa sem fins lucrativos. O benefício da influência política para o proveito da igreja como associação filantrópica sem fins lucrativos é fundamentado na referência bíblica que descreve a morte de Cristo e a intervenção de um Senador na liberação do corpo do Mestre36. Ou em outra, conforme exposição do pastor Isamar, “política está no coração de Deus; quem está no poder não abre mão para alguém substituílo...” (Informação Verbal). Fazendo menção ao texto bíblico: E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, e, no monte da congregação, me assentarei, da banda dos lados do Norte. Subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo. E, contudo, levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo.37 Segundo o entendimento do pastor, trata da queda de Lúcifer, que tentou um dia colocar-se acima da soberania divina, apresentado como um golpe político, na tentativa de submeter Deus às suas ordens, e a reação divina às atitudes malignas de sua criatura angelical como um exemplo de como o “povo de Deus” deve agir diante das questões políticas, não aceitando que homens sem caráter moral 36 37 Bíblia Sagrada, Mc 15, 42-46, Edição Revista e Corrigida 1995. Bíblia Sagrada, Is 14, 13-15, Edição Revista e Corrigida 1995. 36 cheguem ao poder, e inserir nos postos de poder da administração pública pessoas credenciadas pela comunidade evangélica. O entusiasmo do atual pastor da Assembléia de Deus em Roraima quanto à política não estava tão fluente entre os líderes da IEAD há trinta anos. No entanto, já havia uma pequena possibilidade de abertura lenta e contínua para a valorização do uso da política em prol da igreja. Na atualidade, ao apresentar a igreja como um modelo exemplar de valores morais, um “tipo ideal” de ética social, e seus fiéis como pessoas instruídas nos bons costumes, ostentados como sujeitos capazes de moralizar o sistema político que se expõe como debilitado pela corrupção e pela falta de responsabilidade com os destinos do país, a denominação já não se contenta com a indicação de nomes credenciados por ela, mas se coloca na condição de salvação para um sistema dificilmente reversível, acaba se expondo a um risco, que conforme expressão do próprio o pastor Isamar, “colocar pessoas lá, no cenário político, pode parecer colocar galinha entre uma matilha de raposas, no entanto, são riscos que nos dispomos a correr” (informação verbal - grifo nosso). Com o fim de chegar aos objetivos, se criaram chavões como: “crente vota em crente”, “melhor um crente que conhece a Deus, que um ímpio sem temer de Deus”, ou “em vez de votar em não crente, o cristão deve votar num crente”, que se tornaram bandeiras de campanhas eleitorais dos candidatos que fazem parte dos projetos políticos das denominações religiosas. São pronunciamentos ainda 37 proferidos para justificar tanto a participação dos membros, quanto das instituições religiosas, através de seus membros “rotulados”, no cenário político partidário 38. 1. 4 Os representantes da Igreja na Política em Roraima Em Roraima, desde a liderança do Pastor Elizeu Feitosa de Alencar, que foi substituído em 1965, houve uma envergadura para o envolvimento político por parte da liderança da igreja local. Naquela ocasião, o pastor Elizeu, segundo o pastor Íris Ramalho, manteve uma proximidade com militantes políticos seculares desta cidade, e depois da cassação do mandato do então deputado eleito em 1962, Gilberto Mestrinho, ocorrido em 31 de março de 1964, e a do seu suplente, meses depois, ele recebeu proposta para se candidatar a Deputado Federal pelo Território Federal de Roraima, para finalizar o quatriênio do mandato em vacância, rejeitou a empreitada e deu espaço para outros, tendo êxito o cidadão Francisco Elesbão da Silva. Para manter a isenção e preservar o costume denominacional vigente, preservando o entendimento predominante da igreja quanto à política partidária, pediu substituição de suas atividades em Roraima para a igreja no Amazonas ainda a tempo de corrigir o pequeno espaço que poderia tornar-se uma ruptura do entendimento doutrinário assembleiano na época. Com esta atitude, manteve, segundo o informante, “a integridade da idéia religiosa de prevalecer um distanciamento entre a igreja e os grupos políticos partidários, não se deixando ser levado a tal prática” 39. 38 Todas as entrevista concedidas valorizam tais expressões. MAGALHÃES, Dorval de. Roraima: informações históricas, 4ª ed. Rio de Janeiro, Gráfica Projefilm, 1987, p. 79. E entrevista concedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. 39 38 O radicalismo do distanciamento da igreja ante a política partidária, segundo o pastor Íris Ramalho, até o início da década de 1970, chegava a condição que “o crente que fosse pra um comício era até disciplinado”, ou seja, condição de grande culpa por ser achado como infiel à igreja e a sua doutrina. Isto fazia com que a instituição religiosa possuísse o maior controle possível da vida cívica de seus fiéis em nome da doutrina por ela defendida: “O membro que quisesse assistir a um comício eleitoral fazia-o após os cultos às escondidas” 40. Em 1972, a igreja era dirigida pelo pastor Manoel Antonio Batista, quando foi surpreendida pelo então diácono Íris Galvão Ramalho, que comunicou a seu pastor o propósito de se candidatar na campanha eleitoral daquele ano para vereador do município de Boa Vista. Até então, o diácono Íris era filiado à convenção partidária do grupo político Aliança Renovadora Nacional (ARENA), e exercia cargo de chefia em uma empresa privada local. Indiretamente, ele apoiava a campanha de seus correligionários políticos, no entanto, não se manifestava em público para manter a imagem submissa aos costumes da denominação que fazia parte. Segundo me relatou: ... eu falei com o Pastor, que era o pastor Manuel Batista. Falei pra ele, expliquei, ele disse: ‘É então você que vai ficar separado, você não pode exercer cargo nenhum na Igreja’! Eu era diácono, aí fiz lá uma declaração, com um compromisso com a Igreja, mas não tinha apoio [...] Eu podia pregar nas igrejas, já sem compromisso, mas não podia dizer, pedir pra alguém votar, podia dizer que era candidato, mas não apoiado pela igreja, e ai eu fui...41 40 Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. Primeiro membro da igreja Assembléia de Deus em Roraima a exercer cargo elegível (vereador por duas legislaturas). 41 Idem. 39 Findada a campanha e apurado os votos, o senhor Íris Galvão Ramalho ficou como segundo suplente na Câmara, dependendo de desistência ou substituição dos que estivessem a sua frente na ordem classificatória. Como o Território era regido pela esfera federal, ou seja, qualquer cargo no executivo do Territorial era indicado pela Presidência da República, e cargos das cidades eram nomeados pelos governadores territoriais. Assim, o que havia sido eleito por maior número de votos em Boa Vista, senhor Antonio Augusto Martins, pai do senhor Julio Martins - vulto político de nosso estado - foi indicado para responder pela prefeitura de Boa Vista, e o segundo colocado, senhor Klinger foi nomeado à frente da prefeitura do outro município que compunha o território roraimense, Caracaraí. Com essas mudanças, abriu vaga para os suplentes, entre eles o senhor Íris Ramalho, que assumiu como vereador de Boa Vista. Até aquele período, os vereadores trabalhavam voluntariamente, apenas com o benefício de influência no poder publico, sem remuneração por seus serviços, conforme expresso: Somente eu entrei na vida pública, nenhum irmão da igreja se dispusera, ninguém ganhava, não tinha salário, era voluntário, com pouco tempo houve um decreto autorizando pagamento para os vereadores.[...] aí não podia passar nesse rateio, a 50% do salário dos deputados do Acre,[...] era dividido em duas partes, fixo e variável, do fixo era 40 % do total do rateio, o variável 60%, se você faltasse seria tirado dos 60% o variável...42 Em 1976, o senhor Íris Galvão Ramalho conseguiu lograr o êxito de ser reeleito para sua segunda legislatura. No período previsto para o final do mandato foi possível uma prorrogação por mais dois anos desta legislatura, vindo a ser eleitos outros vereadores em 1982 quando senhor Íris Galvão Ramalho não conseguiu a 42 Idem. 40 mesma sorte na tentativa de permanência no cargo. Desta feita, entrou para a história da IEAD em Roraima, da qual já era membro, como o pioneiro com êxito na política partidário nesta região 43. Em 1986, tivemos nova eleição para vereador, nesta ocasião, entrou também na cena política a senhora Eulina Vieira, sendo que o então Diácono Íris tentou voltar a vida pública, mais uma vez não reedificou sua carreira política. A senhora Eulina Vieira teve a plausível oportunidade de representar a IEAD em Roraima no cenário político, mesmo sem uma bandeira hasteada que fizesse da personagem uma representante institucional como praticado atualmente 44. Em 1990, tivemos a primeira eleição para legislação estadual em Roraima, visto que, até 1988, Roraima dependia diretamente da esfera federal por ser Território Federal. No período de 1988 a 1990, Roraima viveu sob intervenção do Governo Federal. Na eleição daquele ano, tivemos como concorrentes membros da igreja para o legislativo Estadual: Eulina Vieira, pastor Eli Rodrigues, João Cândido, e o então Procurador Geral do Estado, evangelista Jeremias, para Deputado Federal, e para governador, o brigadeiro Ottomar de Souza Pinto, tido como pessoa de muita amizade com a comunidade evangélica 45. Neste contexto, a igreja era dirigida pelo pastor Fernando Granjeiro de Menezes que, desde a eleição de 1986, havia estabelecido regras mais específicas para reger a situação da participação de membros do ministério na atividade política. Ficou estabelecido que, o pastor ou evangelista que desejasse entrar na vida política 43 Idem. Idem. 45 Idem. 44 41 deveria apresentar à liderança da igreja sua renúncia das atividades eclesiásticas que porventura exercesse entre os fiéis, no mínimo, seis meses antes da convenção partidária. Nesta condição, se o mesmo não possuísse êxito na campanha política, ficaria na dependência da convenção da igreja o seu futuro quanto à vida eclesiástica 46. As regras quanto ao comportamento dos candidatos durante a campanha foram restabelecidas com o fim de ampará-los como membros da igreja. Uma vez aprovados pela convenção partidária, eram apresentados à igreja, em assembléia geral, como membros que desejavam entrar para a vida política. Nesta ocasião, ouvia um sermão por parte do pastor e recebia o aval de visitar os irmãos em suas casas, sem poderem usar do púlpito para fins eleitorais, nem mesmo distribuírem cartazes nas portas das congregações ou fixarem panfletos nas paredes dos templos. Na campanha eleitoral daquele ano, conseguiu êxito apenas Eulina Vieira e o “amigo” dos evangélicos Ottomar de Souza Pinto. Dos outros candidatos evangélicos membros da denominação, houve um episódio que, até a atualidade, é considerado um “trauma” para a igreja quando se comenta sobre política eleitoral. Trata-se da tentativa de assassinato contra o pastor Fernando Granjeiro. Sobre este acontecimento, discutirei no próximo capitulo 47. No ano de 1992, tivemos na concorrência para o legislativo municipal, mais uma vez, o senhor Íris Galvão Ramalho, na tentativa de retornar a vida pública, e outros irmãos que se dispuseram a concorrerem à carreira política, sendo que, naquela ocasião, a liderança da instituição não manifestou nenhum apoio aos 46 Entrevista concedida pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa em 25/02/05. Entrevista concedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. E, com o Pr. Clodoaldo Alves da Costa em 25/02/05. 47 42 pretendentes, preferindo isenção absoluta quanto ao tema. Dos membros da igreja Assembléia de Deus nenhum conseguiu ser eleito. Em 1994 e 1996, outras tentativas foram levantadas, mas nenhuma conseguiu o objetivo 48. Em 1998, tivemos uma outra visão por parte da liderança da igreja no campo político eleitoral. Candidatou-se para deputado federal o presbítero Javan Arraes Sindeuax (PPB) e o diácono Carlos Andrade. Para deputado fstadual, fizeram parte dos concorrentes: Irmão Raimundo Pereira Sobrinho (PTB), conhecido por Raimundo “do ônibus” e o irmão Eli de Almeida Oliveira (PL). A liderança da igreja, que na ocasião estava à frente o pastor Geraldo Francisco dos Santos, manifestou pleno apoio aos irmãos candidatos, dando oportunidades para que desenvolvessem suas campanhas sem barreiras de restrições tão nítidas como nas campanhas anteriores. Enfim, a partir daquele ano, a instituição, através de seus líderes, passou a manifestar total apoio às candidaturas de seus membros desde que os mesmos preenchessem requisitos básicos de merecimento 49. Em 2000, a postura da liderança da igreja quanto às questões políticas partidária, mantiveram-se as mesmas. Nesta ocasião, foram apresentados como candidatos a vereador, com o consentimento da igreja através de seus líderes, o irmão Raimundo Pereira Sobrinho (PTB), e o irmão Eli de Almeida Oliveira (PL). Ao final da campanha eleitoral, o irmão Raimundo conseguiu a colocação de suplente na câmara Municipal, tomando posse como vereador apenas em 2002, com a saída 48 Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. Observação participante. E entrevista com outros membros da igreja e com ex-membros da liderança institucional em ocasiões distintas. 49 43 do vereador Flávio Chaves para concorrer a uma cadeira na Assembléia Legislativa Estadual 50. Em 2002, tivemos o maior resultado de uma campanha eleitoral em que a igreja fez parte com todo o seu esforço, sem reserva de atitudes. Neste ano, foram apresentados em Assembléia Geral alguns membros do ministério para concorrerem a cadeiras legislativas estaduais e federais. Foram selecionados pela convenção e pela igreja como principais ascendentes o pastor Rosival Soares de Freitas (PTB) e o pastor Frankemberg Galvão da Costa (PPB). Porém, foi solicitada pela presidência da igreja a desistência do pastor Rosival que, segundo informações a mim repassadas pelo pastor Iris Ramalho e pelo próprio personagem, estava à frente de diversos cargos na igreja e tornava-se insubstituível naquele momento. Assumiu, então, a candidatura, o presbítero Francisco Nazareno de Sousa (PTB)51. Com a aprovação destes membros da liderança da igreja para a pretensão da carreira política, a igreja assumiu a responsabilidade de levá-los onde estava proposto, aderiu à campanha sem restrição de apoio e investimentos. Tanto esforço teve como resultado os objetivos iniciais: os dois candidatos foram eleitos com margem vantajosa ante outros. Em suas posses, no início do ano de 2003, a IEAD em Boa Vista passou a ter representantes membros da instituição nas três casas legislativas, Municipal, Estadual e Federal, e ainda um Senador que foi reeleito com o apoio do projeto político da igreja Cidadania AD Brasil 50 52 . Idem. Entrevista cedida pelo pastor Íris Galvão Ramalho em 09/03/2005. e entrevista com o pastor Rosival Soares de Freitas em 28/04/05. 52 Idem. 51 44 Na campanha eleitoral do ano 2004, tivemos a mesma estrutura oferecida aos candidatos da campanha de 2002. No entanto, nenhum dos membros da igreja que faziam parte da concorrência ao legislativo municipal conseguiu chegar ao destino pré-estabelecido. O pastor Rosival, cuja desistência havia sido solicitada em 2002, tomou a frente da campanha ladeado, para o mesmo cargo, de um membro da igreja que não fazia parte da liderança institucional, Irmã Surai Gomes da Silva Carvalho (PTB). Para a prefeitura, foi fechado acordo com a então prefeita Maria Teresa Saenz Surita Jucá (PPS) que concorreu com êxito à reeleição. Com o resultado “desastroso” da campanha de 2004, levanta-se o questionamento da aplicabilidade do processo político eleitoral dentro da instituição 53 . É o que veremos no próximo capitulo. 1.4.1 A implantação do projeto “CIDADANIA AD BRASIL” A igreja assembléia de Deus é uma instituição religiosa que carrega no peito o título de reconhecimento por ter sido identificada - conforme censo Demográfico do IBGE 2000 -, como a maior igreja evangélica no Brasil, com um número de 8.418.140 (oito milhões, quatrocentos e dezoito mil e cento e quarenta) membros da denominação, representando uma aproximação de 0,5% da população brasileira. Tem um modelo administrativo centralizado, ou seja, mesmo que cada convenção estadual possua autonomia financeira e administrativa, está fraternalmente ligada à uma convenção nacional (Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil CGADB), que funciona como um fórum de debate, onde os ministros do evangelho (pastores e evangelistas) filiados debatem questões doutrinárias, regimentais e 53 Idem. 45 outras, deliberando sobre os temas propostos, e cujas reuniões ordinárias são realizadas a cada dois anos, onde é eleita uma nova diretoria que estará à frente do órgão pelo biênio seguinte. No ano de 2001, foi deliberado em assembléia ordinária a participação da instituição no processo político eleitoral com mais investimento por parte de suas lideranças, iniciativa que tem sido muito criticada, mas que possui seus adeptos. Neste propósito, foi criada a Comissão de Política Nacional das Assembléias de Deus (CPNAD), com sub-comissões em todos os Estados da Federação e cada convenção ficou responsável por criar sua comissão de política, orientadas pela CPNAD 54. No mesmo ano, 2001, foi lançado o Projeto Nacional de Política “CIDADANIA AD BRASIL 2002”. Com este projeto, as investidas de eleger representantes religiosos ligados à instituição deixava de ser tentativas isoladas de cada Convenção estadual. Passou, então, a fazer parte de um programa nacional que visa uma homogeneidade dos propósitos estabelecidos, a fim de mostrar sua força política a quem quer que seja, como prova de um número de pessoas conscientes e capazes de exercer sua cidadania dentro da moral e dos bons costumes. Com esses ideais, tivemos no seu lançamento o propósito de eleger, em cada Estado da federação, um representante para a casa legislativa estadual e um outro representante para a casa legislativa federal, sendo permitido coligações com políticos não membros da instituição, desde que manifestasse um interesse comum nos projetos políticos, ou seja, a partir daquela campanha estaria autorizado o fechamento do “pacote político” para todos os cargos nas eleições 55. 54 55 Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em dia 13/04/2005. Manual de orientação política para pastores da CGADB. 46 Com o apoio nacional, foi estabelecido o “pacote estadual” com ressalva apenas do candidato à presidência da Republica, que foi adotado por todas as convenções estaduais ligadas a CGADB, privilegiando o Sr. Antony Garotinho (coligado) no primeiro turno e o Senhor José Serra (PSDB) no segundo turno eleitoral. Em Roraima, tivemos o apoio ao candidato a reeleição para o senado federal Romero Jucá Filho (PMDB-coligado), para deputado federal pastor Frankemberg Galvão da Costa (PPB), primo do pastor Isamar Pessoa Ramalho (Membro), para governador Brigadeiro Ottomar de Souza Pinto (PPB-Coligado) e para deputado estadual presbítero Francisco Nazareno de Souza (PPB). Com exceção dos cargos do executivo Nacional e Estadual, este último, com seu desfecho no final de 2004, todos os outros candidatos incluídos no pacote político eleitoral de 2002 tiveram êxito no pleito 56. No plano nacional, o Projeto “CIDADANIA AD BRASIL 2002” conseguiu a eleição de 22 (vinte e dois) deputados federais, destes apenas 8 (oito) buscavam a reeleição, e 27 (vinte e sete) deputados estaduais e um vice-governador no Rio Grande do Norte, todos membros da denominação e apoiados pelo projeto político institucional. Em Roraima, tivemos a eleição dos dois membros candidatos que receberam o apoio do projeto 57. Na segunda versão do projeto “CIDADANIA AD BRASIL 2004”, teve como proposta principal à eleição de pelo menos um vereador em cada município brasileiro, sendo permitido coligações com outros políticos para comporem um pacote eleitoral da igreja. Em Boa Vista, os resultados não atingiram os propósitos 56 Informação verbal repassada pelo pastor Rubens Arraes Sindeuax; outros membros da igreja e com ex-membros da liderança institucional. 57 FONSECA, Ronaldo da. Editorial. Jornal AD Brasil, ano 2, nº 2 (março / abril 2004), p.2. 47 iniciais, não sendo possível à eleição da base (vereadores) de nenhum dos membros que faziam parte da concorrência. Isto levou a questão política para um patamar de reflexão das práticas até o momento executadas. Puseram em debate os verdadeiros objetivos da liderança quanto ao envolvimento político eleitoral da igreja, fazendo com que mereça uma revisão dos propósitos futuros nas campanhas eleitorais que estão às portas. No capítulo seguinte, pretendo apresentar uma análise das conseqüências internas que o fenômeno político eleitoral trouxe ou fez emergir com maior intensidade. 48 CAPÍTULO II Traumas e mudanças no comportamento dos fiéis Como apontado em páginas anteriores, a IEAD, desde o início de sua formação, manteve um distanciamento da política eleitoral secular. Mas, conforme registrado por David Berg em obra que conta a biografia de seu pai Daniel Berg, um dos pioneiros fundadores desta denominação no Brasil, em condições extremas de perseguição seus membros apelaram para interferência de pessoas que possuía influência política a fim de solucionarem conflitos religiosos durante a implantação da igreja no Pará: O irmão Francisco Gaspar [...] decidiu, juntamente com Antonio Barros e a irmã Celina Albuquerque, viajar para capital, Belém, com o propósito de conseguir uma audiência com o governador. [...] o governador recebeu-os de braços abertos, concedendo-lhes um tempo para ouvir o que tinha a dizer. Então, colocaram-no a par de todas as perseguições e depredações de que estavam sendo vítimas. (BERG, D. 1995, p.157) Mesmo que não concordassem com a participação de seus membros na militância da política partidária, permitia os benefícios alcançados através de solicitação de ajuda a quem pudesse atuar em favor de suas aflições. De maneira geral, uma das justificativas da iniciativa da igreja tomar um posicionamento de participação na política secular, é o fato de precisar ter alguém que possa interceder pela instituição nas necessidades aos recursos (influências) políticos. Conforme expresso pelo Pastor Daniel Lopes, ”nós que estamos acompanhando o processo vemos a necessidade de termos nossos representantes”, 49 ao referir-se à condição delicada de processos judiciais e intervenção jurídica na administração da instituição. Segundo ele, a “humilhação” e a “falta de respeito pela instituição” seria maior sem a influência dos políticos membros da igreja 58. 2.1 Episódio ocorrido em 1991 e suas conseqüências Na especificidade da realidade em estudo, em Roraima, a IEAD possui em sua memória, não muito distante, um acontecimento que deixou marcas profundas, cicatrizes que dificilmente conseguirão ser esquecidas. Em 1990, a igreja liderada pelo Pastor Fernando Granjeiro de Menezes, tendo como vice-presidente o Pastor Clodoaldo Alves da Costa, vivenciou um fato conseqüente de uma atitude “democrática”, não compreendida. Na campanha daquele ano, alguns membros da instituição se dispuseram a se candidatar ao pleito eleitoral, como citado no capítulo anterior: o evangelista Jeremias para deputado federal, o pastor Eli Rodrigues para deputado estadual, a irmã Eulina Vieira e o irmão João Cândido também para deputado estadual. Conforme me foi exposto pelo então vice-presidente da igreja, pastor Clodoaldo, as regras quanto à participação do membro na condição de candidato prevaleciam desde 1986 e ditavam a retirada de qualquer cargo eclesiástico que o mesmo detivesse, como também a apresentação descompromissada para o conhecimento da membresia. Todos os candidatos passaram pelo processo de apresentação, com exceção do senhor João Cândido. Conforme exposto, ele chegou a pronunciar em situações extraordinárias a desnecessidade de passar por tal apresentação, condicionando-se como pré-eleito 58 Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em 13/04/2005. 50 devido sua popularidade e seu trabalho, como dentista, que proporcionava um contato direto com o público 59. Após o processo eleitoral, dos membros da igreja que tiveram êxito, somente a senhora Eulina Vieira, que já detinha o cargo de vereadora do município, chegou à Assembléia Constituinte Estadual. Os outros candidatos, não atingiram seus propósitos. No mês seguinte às eleições, o pastor Granjeiro recebeu uma ligação anônima, identificada apenas como do PT (partido que o senhor João Cândido era filiado), que deixou a seguinte mensagem: “Nós perdemos no Estado e a culpa foi sua, não ficará assim, dura é a pena que irá pagar”. Foram tomadas as providências junto à Polícia Federal para investigação, e ficaram na expectativa dos resultados. Aproximadamente dez dias depois, uma outra ligação com a mesma mensagem foi atendida pelo pastor Clodoaldo, que comunicou à Polícia Federal como anteriormente 60. No início do ano seguinte, 1991, o pastor Granjeiro viajou de férias com a família para a Venezuela. Fez-se necessário que seu filho Lúcio retornasse na frente devido ao início das aulas em fevereiro, e os outros retornaram em meados do mês de fevereiro. Em um domingo, após o culto, o pastor foi visitado em sua casa por vários membros da igreja, quando por volta das 23:00h, o pastor Clodoaldo recebeu a informação da tentativa de assassinato contra o filho do pastor Granjeiro, Lúcio. O caso, segundo o informante, foi apresentado a Polícia Federal que tomou as 59 60 Entrevista concedida pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa em 25/02/05. Idem. 51 medidas cabíveis de investigação, “cabendo à congregação entrar em campanha de oração em prol da resolução do problema e da saúde do jovem Lúcio” 61. Alguns meses depois, por volta do mês de julho ou agosto de 1991, ainda informações concedidas pelo pastor Clodoaldo, houve uma “revelação” ao pastor Granjeiro, da pessoa que atentou contra a vida de seu filho, descrito nos termos: ... o pastor Granjeiro ao chegar de viagem do sul do Estado (S. Luis do Anauá), relatou-me que de volta daquele município pediu para que o seu companheiro de viagem dirigisse enquanto devia descansar um pouco no outro banco. Nesta ocasião, ouviu uma voz lhe perguntando se tinha interesse em saber quem havia atentado contra a vida de seu filho, ele confirmou que sim. Naquele instante, viu passar aos seus olhos a imagem do membro da Igreja João Cândido, o candidato a deputado estadual que não quis ser apresentado na igreja. (grifo nosso)62 Algumas semanas depois, receberam um “líder” 63 de congregação com o propósito de remediar a confissão, já a ele feita, do personagem que havia idealizado o referido atentado contra o filho do pastor, Lúcio, que, de acordo com o descrito pelo informante, pastor Clodoaldo, o que o levou a tal atitude foi ter levado em conta que o fato de não ter sido apresentado na congregação o tenha levado a conseqüência negativa, mas, poderia rever esta condição vingando-se do pastor da IEAD, pois em condição alguma foi mencionado seu nome por estes líderes, como membro candidato a cargo elegível. 61 Idem. Idem. 63 Por motivo ético não devo identificar esta pessoa. 62 52 Na conclusão destas idéias o fez tomar postura de “traído” e decidiu revidar da maneira mais letal que pode. A partir de então, teve a iniciativa de atentar contra a vida do pastor Fernando Granjeiro indo à casa do mesmo para tirar-lhe a vida. No entanto, o filho do pastor possuía características físicas assemelhadas ao seu alvo. E, como o responsável pela execução do trabalho de vingança não conseguiu diferenciar o pai e o filho, efetuou três disparos contra o filho do pastor, Lúcio, deixando-o gravemente ferido 64. Alguns anos depois do referido acontecimento, a igreja ainda possui em sua memória a negatividade de um mau entendido e da falta de consciência que uma pessoa em favor de seu interesse pela política – como poder – se submeteu, chegando a tornar-se um agressor contra seu próprio líder espiritual. Segundo informações levantadas durante a pré-pesquisa, prevalece à opinião que, “por interesses políticos, como forma de chegar ao poder, é notório que os homens matam e morrem sem pensar em desistir” (grifo nosso) 65. O ocorrido em 1991 é justificado na memória de muitos fiéis da denominação como uma negatividade por parte sobrenatural da aproximação da igreja com a política. Neste sentido, percebe-se uma idéia do sagrado sendo profanado pelo exercício da política partidária por uma instituição religiosa, que possui um histórico extenso da negatividade da prática política partidária. 64 Entrevista concedida pelo pastor Clodoaldo Alves da Costa em 25/02/05. Participação do pesquisador como membro da denominação desde 28/08/1994 em conversas com membros que rejeitam a política partidária dentro da denominação. 65 53 2. 2 Controvérsias de entendimento O que mais tem sido justificado para a rejeição da inserção da igreja no cenário político secular está relacionado à compreensão ainda não “alterada” no sentido de aceitar que a política esteja relacionada ao profano, isto é, não faz parte dos objetivos e deveres que a igreja tomou desde sua formação. A religião como algo sagrado ganha um ar de confluência de dois mundos dicotômicos que são apresentados de maneira única, algo que Eliade (s/d) discute na obra SAGRADO E PROFANO, como uma dualidade permanente nas sociedades humanas: ”O homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra como qualquer coisa absolutamente diferente do profano” 66. A rejeição da idéia de que igreja e política podem andar no mesmo caminho de maneira sutil e amigável tem se tornado motivo de grandes insatisfações entre os fiéis, causando enorme prejuízos para a unidade da congregação. Conforme expresso pelo Pastor Daniel Lopes, “quando esse papel (Manual de Orientação Política aos Membros e Congregados – 2004 p. 4 e 5) coloca a pessoa na condição de infiel, é por que essa pessoa está com interesses pessoais e não do grupo” 67. Já o Pastor Rosival manifesta que “se o membro da congregação não concorda com o projeto, não há outra alternativa que não seja sua substituição das atividades de liderança que venha exercer” 68 . Fica claro que a coerção por parte da “cúpula” administrativa sobre seus membros tem um caráter plenamente voltado ao ideário político partidário. No caso, uma interferência da política partidária nas atividades religiosas. 66 ELIADE, M. Sagrado e Profano, São Paulo, Martins Fontes, (s/d) p. 25. Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em 13/04/05. 68 Entrevista concedida pelo pastor Rosival Soares de Freitas em 27/04/05. 67 54 Outros aspectos que podem ser tomados como conseqüência da divisão interna da igreja estão relacionados aos “vícios” praticados pelos políticos durante e depois das campanhas eleitorais, ou seja, a instituição prega a moralidade da política através da inserção de seus membros no meio político, no entanto, não demonstra mudança imediata das práticas dos políticos seculares. O entendimento da política pode ser bem descrito como um “mundo de regras próprias”, conforme interpretação da obra de Maquiavel69, em relação à ética moral religiosa que se confronta com os interesses que permeiam esse “mundo” que a religião pouco consegue intrometer-se sem ferir seus dogmas. Da maneira como a política é desenvolvida dentro da igreja Assembléia de Deus em Roraima, a ética e a moral religiosa se comprometem a ponto de fazer da religião um grupo político pouco harmônico. Ao abordar em entrevista o vice-presidente da igreja, pastor Daniel Lopes, sobre os “vícios” comprometedores praticados por membros da instituição candidatos a cargos elegíveis durante a campanha de 2002, ele respondeu que: “Esses compromissos estão relacionado a um discurso próprio do candidato, eu me abstenho de te responder” 70 . Ele acabou deixando escapar que a ética política pregada no projeto CIDADANIA AD BRASIL possui falhas estruturais e merece ser adequado a fim de tornar os objetivos mais esclarecidos e sua prática dentro da confiança da membresia. Ao mesmo tempo em que a igreja prega a política ética e a consciência, que segundo descrito no estatuto da CGADB, Art. 3º., Parágrafo X, dentre as finalidades 69 70 MAQUIAVEL, N. O Príncipe, São Paulo, Martin Claret, 2003. Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em 13/04/05. 55 da Convenção Geral está a de “orientar a prática da cidadania dos seus membros”, e os slogans do projeto CIDADANIA AD BRASIL (2002), “A VALORIZAÇÃO DO VOTO EVANGÉLICO” e “VOTO ÉTICO QUESTAO DE CONSCIÊNCIA (2004)” 71 , deixam uma abertura para a não aprovação desta idéia ao não deflagrar uma fiscalização dos meios justificados pelos fins propostos praticados pelos políticos durante as campanhas eleitorais. Isto leva a uma reflexão da ética na política com o uso dos bons costumes pregados pela igreja. No entanto, vê-se que no exercício do poder as práticas políticas seculares que incluem os mais diversos tipos de afrontas a moral religiosa sempre possuem uma proteção de algum político, e dentre estes não foge a regra se estiver o nome de algum evangélico envolvido. Diante dos conflitos de idéias predominantes no meio da igreja, podemos destacar a subdivisão em grupos de membros, classificados em três categorias distintas: um grupo que de maneira coerente e destemida aplaudem a iniciativa do projeto; outro grupo que manifesta publicamente sua rejeição a ponto de fazer resistência a tal iniciativa; e, por fim, um grupo com maior número de fiéis que preferem manterem-se omissos às decisões deliberadas em Assembléia Geral como defesa de não ser tomado por “infiel”, conforme Manuel de Orientação para Membros e Congregados (2004) parágrafo IX: Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual [...], mas vale ressaltar que quando a igreja tem um projeto que vise o beneficio do grupo e o membro simplesmente não aceita porque tem seus compromissos particulares, individualizando por seus interesses causando transtorno, põe-se na condição 72 de infiel. 71 72 Manuel de orientação política aos membros e congregados, CIDADANIA AD BRASIL, 2004. Idem. 56 Desta maneira, o controle social que a igreja exerce sobre seus fiéis, torna-se coercitivo na prática da democracia, mesmo se manifestando indiretamente, evitando qualquer represália por parte da liderança no que tange a liturgia da igreja, mas, sob a condição de pressão de idéias que prende o fiel mantendo-o sob controle. Mas, como expresso no senso comum, “o silêncio pode ser tomado como resposta”, e na última eleição os resultados surpreenderam os objetivos prepostos. Geralmente, o segundo grupo anteriormente citado passa pela prova de ser tratado de maneira repudiada e não lograr qualquer confiança de seus líderes, enquanto o grupo que se mantêm em silêncio não pode ser tomado como infiel, mas também não reage de maneira satisfatória à campanha eleitoral. Isso causaria uma ruptura oculta nas bases da membresia que, segundo os informantes entrevistados, merece um processo de politização da igreja de maneira contínua, para que esta “resistência oculta” seja aos pouco superada. 2. 3 No Exercício da Política Diante dos murmúrios da sociedade em reprovação às práticas políticas de nosso país, de maneira geral os políticos evangélicos passam pela mesma inquietação, desde o enriquecimento rápido, pelo menos transparecido, até a morosidade de execução de seu papel como defensor da sociedade nas casas legislativas. Vale ressaltar que poucos são os projetos de benefício imediato que chegam à sociedade. Isto é, impossibilita-se reverter à moralidade dos outros políticos com a inserção de evangélicos na vida partidária. O que aparenta uma tentativa de contaminação ética inversa, onde o que é denominado “mal”, deixa-se ser corrompido pelo “bem”. 57 As bandeiras defendidas pelos parlamentares evangélicos que sempre estão de maneira “vigilante” às tentativas que porventura venham ferir os anseios da denominação, no que relacionam às questões morais de interesse institucional, “... elegendo irmãos chamados e capacitados para este enorme desafio. [...] como vigias, porque de lá, da Casa das Leis, Congresso Nacional, poderão vir os ataques contra a missão da igreja” (grifo nosso) JORNAL AD BRASIL 73. A fim de conseguirem manter-se como força expressiva no Congresso Nacional e no Senado Federal, foi criada, a partir da Assembléia Constituinte de 1986, a Bancada Evangélica, com trinta e três deputados 74 . Hoje, segundo o Jornal Correio Brasiliense (30/05/04), possui o prestígio de ser a quarta maior bancada em números de parlamentares: a primeira em números é a bancada da saúde com 237 deputados e 23 senadores; a segunda é a ruralista com 166 deputados e 14 senadores; a terceira, a nordestina com 151 deputados e 27 senadores; e a quarta, a evangélica composta por 58 deputados federais e 3 senadores da República, de 9 denominações distintas75. Dos deputados, 22 são membros da Assembléia de Deus, 16 deputados e um senador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e 8 deputados e um senador da Igreja Batista. Os outros estão distribuídos entre as denominações: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Sara Nossa Terra, Igreja Presbiteriana, Igreja Luterana, Igreja Cristã Maranata e Igreja Internacional da Graça de Deus. Todos com a bandeira de: 73 FONSECA, Ronaldo da. Editorial.Jornal AD Brasil, ano 2, nº 2 (março e abril 2004), p.2. SOUZA e MAGALHÃES, Os Pentecostais: entre a fé e política, Rev. Bras. de Hist. vol. 22, nº 34, 2002. p. 87. 75 AS BANCADAS DE RESULTADO <http://buscacb2.correiweb.com.br/corrieo/2004/05/30/AD0> Disponivel em: 30/05/2004. 74 58 Elaborar projetos de Lei salvaguardando a moral e os bons costumes; Promover ações visando a agregação familiar; Priorizar ações na área social; Incentivar o segmento religioso a colocar-se à disposição dos governos municipal, estadual e federal quanto a projetos sociais e educacionais; Estender a criação de Frentes Parlamentares Evangélicas nos Estados, Distrito Federal e Municípios Brasileiros; Trabalhar pela erradicação do analfabetismo; Discutir assuntos de interesse dos municípios; e Patrocinar a 76 realização anual da Conferência Nacional de Parlamentares Evangélicos . Entre os embargos apresentados pela Bancada Evangélica no Congresso Nacional estão: o Novo Código Civil Brasileiro, no que tange às associações religiosas e partidos políticos como pessoas jurídicas de direito privado; a lei de Biossegurança em que, segundo entendido pela bancada evangélica, estava disfarçado o aborto científico, no tocante à pesquisa com células-tronco; além de temas como: regularização de uniões de pessoas do mesmo sexo, o aborto, a pena de morte, transgênicos, entre outros assuntos, que sofreram pressão negativa da Bancada Evangélica e foram retiradas do texto. Tais bandeiras são fincadas de maneira a defender o terreno conservador da religião de maneira eficaz e plenamente comprometida com a doutrina cristã 77. Com a visão de preservar os bons costumes e manter o equilíbrio moral reconhecido pela religião, a prática da política por atores evangélicos que exercem tal influencia na sociedade tem gerado grandes debates e contradições, junto com argumentos conceituais da política e da religião, além de uma argumentação teórica sobre a Análise do Discurso e comparações de estudos já realizados sobre esses temas em circunstâncias diferentes da situação em destaque, aspectos que serão discutidos no capítulo que segue. 76 77 REVISTA DA FRENTE PARLAMENTAR EVANGÉLICA, ano 1, nº 1, novembro de 2004, p. 4. FONSECA, Ronaldo da. Editorial. Jornal AD Brasil, ano 2, nº 2 (março e abril 2004), p.2. 59 CAPITULO III Conceitos e Debate com autores e discurso dos atores A antropologia, desde sua legitimação como ciência, no século XIX, tem se especializado em diversos aspectos do conhecimento. Entre eles, observamos linhas de conhecimento muito mais enveredadas, como a antropologia social e cultural que abre um leque de sub-conhecimentos como: o indigenismo, a religião, a política e outros. A política, como todos as especializações antropológicas, também possui seus “amantes”, mesmo por que estas sub-áreas de atuação não fogem do objeto fundamental da antropologia que é: ”o estudo do homem em todas as sociedades, sob todas as latitudes em todos os seus estados e em todas as épocas” (LAPLANTINE, 1991 p 16). Opinião confirmada também por MOONEN (1988: p 9) ao apresentar uma variedade de conceituações para antropologia que genericamente se denomina como “a ciência do homem”, considerando que esta nomeação deixa vago a especificidade científica por competir com outras ciências que tem o ser humano como objeto. Devo complementar que não se deve esquecer que toda ciência em si é uma atividade humana e não dos deuses. No estudo que desde início foi proposto para este trabalho, tenho como objeto e conteúdo o fenômeno político inserido no religioso, ou vice-versa. Com isso, faz-se necessário uma apresentação de alguns termos e conceitos na literatura, dos fenômenos estudados até aqui. Para entendermos os princípios fundamentais que justificam a existência religiosa no mundo e consolidam estas práticas entre os homens de todas as 60 épocas, necessitamos buscar os conceitos que tratam das bases fundamentais da religião. Neste estudo, elegemos alguns autores que farão parte do debate para compreensão do objeto. Entre os termos, podemos observar os conceitos de religião e seus elementos fundamentais e a política dentro da perspectiva antropológica, já que esta é a abordagem proposta. Além de buscarmos algumas comparações com estudos realizados sobre política e religião delinearemos ainda, dentro da perspectiva da Análise do Discurso, os argumentos dos atores sociais e denominacionais entrevistados. 3.1 Religião e suas definições Entre os autores consultados, encontramos a peculiaridade de definirem a religião como um fenômeno universal, ou seja, existentes em todas as línguas e culturas, sem esquecer, também, em todas as épocas estudadas da existência humana. Wilges (2003)78 define: “O fenômeno religioso é universal. Em todos os tempos, lugares e povos encontramos tal fenômeno. Esta afirmação é atestada pela etnologia e pala história das religiões” (p 9). Eliade (s/d) explicita que a religião está fundada na duplicidade da existência de duas forças opostas que mantêm o equilíbrio da cosmologia dos seres humanos, o sagrado e o profano. O sagrado como um poder desejável para os homens desde o período arcaico, algo que atrai o homem religioso, que procura sempre está próximo de objetos “sacralizados”. Quanto ao profano, como o “des-sacralizado”, o inverso ao sagrado, as forças 78 WILGES, Irineu. Cultura Religiosa: as religiões no mundo, 14. ed. Ver. e atual. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. 61 opostas ao bem-estar do homem religioso. O profano está sempre relacionado à ruptura com o sagrado e, segundo o autor, encontra-se muito fluente na modernidade (p.27). Durkheim (1996)79 destaca que: Todas as crenças religiosas conhecidas, [...] apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens representam, em duas classes, dois gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos traduzidos, relativamente bem, pelas palavras profano e sagrado. A divisão do mundo em dois domínios que compreende, um, tudo o que é sagrado, outro, tudo o que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso; as crenças, os mitos, os gnomos, as lendas são ou representações ou sistemas [...] das coisas sagradas...” (p. 19). Para Marx e Engels em A Ideologia Alemã, a religião se manifesta como uma das diferenciações entre os humanos e os animais (1984 p. 19). E contextualiza no Capítulo I que “Não há uma história da política, do direito, da ciência etc., da arte, da religião etc” (p. 104). Eles finalizam descrevendo que “A religião é, desde o principio, a consciência da transcendência (que) decorre de um ter de (Müssen) real.” (grifo da editora) (p.105). Vemos, assim, que diferentes autores apresentam a religião como algo universal, baseados em elementos que se fazem presentes em todas as religiões estudadas. Dos elementos apresentados, o sagrado é o que se sub-distribui como apresentado por Wilges em “espaço sagrado”, “tempo” e “mito”. E a religião em si se 79 DURKHEIM, Émile, As Formas Elementares de vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália, São Paulo, Martins Fontes, 1996. 62 auto-reproduz através de seus elementos: “doutrina”, “rito”, “ética”, “comunidade” e “eu-tu” (a relação do homem com a divindade) 80. Durkheim81 considera que o fenômeno religioso apresenta como principal característica a instrução de seus fiéis: ”Todas as religiões são instrutivas, sem nenhuma espécie de exceção, pois todas exprimem o homem à sua maneira e podem assim ajudar a melhor compreender esse aspecto da nossa natureza”. (p.4). E ainda: Uma noção que geralmente é considerada como característica de tudo aquilo que é religioso é a de sobrenatural. Com esse termo entende-se toda ordem de coisas que vai além do alcance do nosso entendimento; o sobrenatural é o mundo do mistério, do incognoscível, do incompreensível. A religião seria, assim, uma espécie de especulação sobre tudo aquilo que escapa à ciência e, mais geralmente, ao pensamento claro. (p.5). No âmbito geral das funções sociais da religião, Durkheim (1996) justifica que: ...a religião é coisa eminentemente social. As representações religiosas são representações coletivas que exprimem realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que surgem unicamente no seio dos grupos reunidos e que se destinam a suscitar, manter, ou a refazer certos estados mentais desses grupos. (p. XVI Introdução). 80 81 WILGES, 2003, p 12-16. Op cit. 63 Por fim, após apresentar o Totemismo australiano como exemplo da mais antiga forma de expressão religiosa82, o autor destaca um conceito mais hodierno para a religião ocidental e que não foge da idéia universal deste fenômeno: “Uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a elas aderem” (p. 32). Eliade, na obra Sagrado e Profano, destaca que a manifestação do sagrado é definida no conceito de hierofonia, que significa apenas “algo de sagrado se nos mostra” (p. 25). Nesta condição, a religiosidade adquire a essência de manifestação de algo sobrenatural que se apresenta como extremamente oposto ao cotidiano. Assim, Durkheim exprime que: “Não há religião que não seja, ao mesmo tempo, a cosmologia e especulação sobre divino” (1996, p. 37). Por fim, os conceitos buscados na literatura, sobre o sagrado e profano, que muito influi nas decisões religiosas, sejam sobre assuntos seculares ou religiosos (ecumênico), sempre tratam o sagrado como um fenômeno abstrato dicotômico ao profano, como forças opostas e ao mesmo tempo dependentes da existência um do outro, para justificar o duelo. Nesta concepção, os seres humanos vivem num mundo dividido, onde o individuo deve sempre estar atento para manter uma dosagem equilibrada destas forças com o fim de não se tornar totalmente profano, a ponto de ser rejeitado pelo grupo social onde está inserido, e também não há como manter-se plenamente sagrado pela necessidade de se inter-relacionar com o meio profano. Desta maneira, entendo que o mundo visto pela concepção religiosa compreende 82 Idem. p. 458. 64 um complexo entendimento, onde o sagrado está ilhado pelo profano, fazendo-se necessário o contato entre as duas condições míticas de visão de mundo sem, no entanto, misturar estas concepções de vida. A religião, como proposto ao presente estudo, não tem por objetivo nos aprofundarmos nos conceitos deste considerado valor moral. A política necessita também de alguns contornos a serem destacados para uma melhor compreensão do objeto em estudo. 3. 2 POLÍTICA: suas definições Como comentado no início do capítulo, a antropologia também possui linhas de pesquisas na área da política. Segundo COPANS 83 , “A história da antropologia política é evidentemente a história de toda a antropologia” (1988, p. 97). Mas, considera que “Esta história é talvez mais esclarecedora [...] na medida em que remete para uma escola teórica, a antropologia social britânica, e para um terreno, a África Negra” (idem). E acrescenta “o verdadeiro nascimento da antropologia política data dos anos 1930 e provêm das investigações efectuadas no âmbito da antropologia aplicada” (p.98), fazendo menção ao processo de colonização de parte do continente africano pelos britânicos. Para Palmeira e Goldmam (1996) 84 , antropologia política teve também o impulso por parte da própria Ciência Política, que se dedicou mais aos estudos macro-sociais, deixando de atender às situações micro. Assim, a antropologia, como 83 COPANS, J. in: Antropologia, Ciência das sociedades primitivas? Lisboa, 1988 p. 91 – 139. PALMEIRA, Moacir & GOLDMAM, Márcio (coord.) Antropologia, voto e representação política. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1996, p. 1– 39. 84 65 uma ciência que desde seu nascimento procurou apresentar estudos de sociedades ditas “simples”, abraçou a causa e se especializou em atender a demanda das mais diversas ramificações do conhecimento social. Os autores descrevem que a partir da década de 1960 os teóricos britânicos perceberam a necessidade de implementarem seus estudos propondo a substituição dos grupos (sociais) pelas redes e processos, que demandam muito mais na atualidade o objeto antropológico (p 2). Estas citações se referem ao início da especialização da antropologia nos estudos políticos. Neste contexto histórico da antropologia na África, sua fundamentação e aprimoramento se consolidam no processo de colonização dos paises africanos, que eram disputados pelas potências européias. Assim, o interesse pelo conhecimento das comunidades “nativas”, foi um marco inicial para os estudos das organizações políticas e religiosas dessas sociedades. Primeiramente, percebese que a estrutura social dessas sociedades ditas “primitivas” se fundamentam no parentesco e na religião. Isto fez necessário investir nos estudos, com o objetivo de discernir o modelo de convivência dessas sociedades. E não havia outra maneira que não fosse o trabalho da antropologia entre estes grupos sociais. Daí surgiram vários estudos dentro da visão estruturalista e funcionalista da concepção social. Os conceitos clássicos da Ciência Política levam a um outro entendimento deste fenômeno social. A política se apresenta como uma atividade humana, um “mal necessário” como exposto por MAAR (1988) 85: 85 MAAR, Wolfgang Leo, O QUE É POLÍTICA, São Paulo, Brasiliense, 11ª ed. 1988. 66 A política surge junto com a própria história, com o dinamismo de uma realidade em constante transformação que continuamente se revela insuficiente e insatisfatória e que não é fruto do acaso, mas resulta da atividade dos próprios homens vivendo em sociedade. Homens que, portanto, têm todas as condições de interferir, desfiar e dominar o enredo da historia [...] configurando assim a atividade política em sua questão fundamental: sua relação com o poder. (p. 8,9) O mesmo autor destaca que a política se mantém em todos os lugares de maneira “mult-faceada”, tornando o conceito de política plural: “... apesar de haver um significado predominante, que se impõe em determinadas situações, e que aparece como sendo a política, o que existe na verdade são políticas” (grifo do autor) (p. 12). Na obra POLÍTICA, de Aristóteles86, observamos que esta prática humana está relacionado à “autoridade”. O pensador apresenta a sociedade humana como dependente dos meios de governo, quando apresenta as condições naturais do ser humano, “... pois se o homem, chegado à sua perfeição, é o mais excelente dos animais, também é o pior quando vive isolado, sem leis e sem preconceitos” (p. 14). Assim, o ser humano, observado pelo filósofo, é o ser natural que a fim de viver em sociedade necessita criar regras sociais para o seu próprio convívio. Entre estas regras está a necessidade de uma soberania com o fim específico de manter a ordem social fundamentada no princípio da justiça. E acrescenta que: “... o homem é um animal político, por natureza, que deve viver em sociedade, e que qualquer que, por instinto e não por inibição de qualquer circunstância, deixa de participar de uma cidade, é um ser vil ou superior ao homem” (p. 14). A política é, segundo ele, a ciência que visa o bem comum dos cidadãos, pois, ela nasce da necessidade de se 86 ARISTÓTELES, Política, São Paulo, Martin Claret, 2003. 67 ter leis que organizem as atitudes das pessoas perante o público e o privado. E se torna o princípio de administração da “polis”, que pode ser diversificado em diversos sistemas, tais como: democrático, aristocrático, monárquico etc. Platão (427–344 a. C), por sua vez, é considerado na literatura da filosofia política como o primeiro a desenvolver reflexões consistentes sobre a política, e deixou registradas suas concepções sobre o tema na obra A República. Enfim, o autor imortalizou o início das discussões sobre política e governo. Nestas reflexões, Platão, usando o diálogo entre Sócrates e Glauco, monta uma república, para o filosofo um modelo “ideal” de cidade e governo 87 . A política é vista como a ciência da administração pública, detida pelos filósofos, únicos capazes de bem administrar a República dos sábios: “... os naturalmente melhores, sobre a questão de saber deve comandar, quer na cidade quer num indivíduo” (p. 126). Podemos, convenientemente, relacionar as idéias da República platônica, com o projeto de política partidária da IEAD, “CIDADANIA AD BRASIL”88, ao termos nos ideais platônicos os filósofos como únicos capazes de bem governarem, por deterem as opiniões apuradas quanto ao verdadeiro modelo administrativo e no projeto CIDADANIA AD BRASIL, os lideres denominacionais ou membros da igreja como pessoas capazes de administrar, dentro da perspectiva cristã, sem ferir a moral defendida e apregoada por sua religião. 87 PLATÃO, A Republica, São Paulo, Martin Claret, 2003. Projeto Político Institucional criado com o propósito de inserir a denominação em nível nacional à política eleitoral partidária. 88 68 Mas, dentre todos os pensadores sobre política, nenhum conseguiu ter tanta popularidade na relação do seu nome com a sua interpretação desta prática social, ao ponto de ser estigmatizado como “diabólico” pelas suas opiniões expostas. Nicolau Maquiavel, em sua obra O Príncipe, apresenta de maneira clara as receitas básicas para a prática da política, conforme descrito por MAAR (op. cit.): “... O Príncipe é livro de cabeceira para todos os setores que não são governo, mas querem sê-lo, e dos que são e querem continuar sendo” (grifo do autor, p. 35,36). Dentro de uma visão centralizada e independente torna pública a idéia da política como autônoma da religião, da moral, da ética e por fim da ciência. Para Maquiavel, a política apresentada como a virtú (virtude) do príncipe e a fortuna como conseqüência das habilidades do príncipe em manejar a política. Fundamenta seu discurso na justificativa dos fins justificarem os meios. Não importa as práticas para chegar ao poder, o importante é manter o carisma e o posicionamento diante das turbulências políticas 89. Tanto a política quanto religião, que foram conceituadas anteriormente, são práticas sociais e funcionam como elementos de ligação dentro do meio social. Observando as idéias dos autores citados, nota-se uma impressão do desligamento estrutural e ideológico permanente na política e na religião. O estudo proposto neste trabalho, apresentado desde o início, é a confluência destes mundos dicotômicos em um roteiro plenamente duvidoso da possibilidade de um futuro independente entre essas práticas. 89 MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, São Paulo, Martin Claret, 2003. 69 3. 3 Religião, Política e suas contradições na prática Procuramos a opinião de autores que já analisaram esta confluência política e religião, entre eles temos Miranda (1987) 90. Neste trabalho, a autora desenvolve uma análise do discurso da liderança da Igreja Católica no Ceará, que através do jornal institucional O Nordeste conseguiu desenvolver uma intervenção religiosa na política eleitoral cearense, durante o processo constitucional de 1934, desde a criação da Liga Eleitoral Católica (LEC) em 1932, que tinha em seu projeto inicial, como organização nacional e estadual, sendo que somente no Estado do Ceará apresentou-se como partido político na campanha eleitoral de 1933, mascarando apenas a iniciativa de conscientização das massas e tornando-se por fim, em um partido eleitoral, desde a eleição de 6 dos 10 deputados que compuseram a bancada cearense em 3 de maio de 1933, até durante todo o processo de montagem da Constituição Federal de 1934. Na busca de explicar como se deu o fato, a autora leva o leitor a refletir um pouco sobre a predominância do discurso ideológico religioso que as lideranças da Igreja Católica cearense, através do Jornal católico O NORDESTE, justificava a ação política da instituição. Algo que podemos ligar à implantação do projeto CIDADANIA AD BRASIL entre os fiéis da IEAD em Boa Vista. Na análise da autora, vemos como de maneira plenamente “arbitrária” a igreja cearense se manifestou nas questões políticas eleitorais, intervindo nas decisões pessoais de seus fiéis e pressionando as 90 MIRANDA, J. 1997. 70 classes políticas daquele Estado em favor de seu objetivo político, como no exemplo: Importante a observar é [...] O Nordeste publica freqüentemente, frases [...] reportando-se ao fato de que, ‘não votar agora é apostatar da fé’. Para [...] a nível local e nacional, não cumprir o dever do voto poderia se constituir pecado, e votar em candidatos não compromissados com a Liga, certamente o seria (grifo da autora, p. 99). Observando o relato da autora sobre a situação cearense por ele estudada, vemos um pouco de similitude com o debate política da Igreja Assembléia de Deus, apresentado através do projeto CIDADANIA AD BRASIL, no que se refere à coesão e coerção ideológicas, com fins plenamente político partidário-eleitoral. Esta possível tentativa de intervenção religiosa na política eleitoral fica clara no Manual de Orientação Política aos Membros e Congregados (MOPMC) 2004, no parágrafo IX dos fundamentos do uso ético do voto. Argumento contraditório aos princípios democrático liberdade de expressão ideológica: “... quando a igreja tem um projeto que vise o benefício do grupo e o membro simplesmente não aceita porque tem seus compromissos particulares, individualizando por seus interesses causando transtorno, põe-se na condição de infiel”. Ao apresentar o texto citado sobre a infidelidade do membro por discordar dos ideais do projeto institucional aos informantes, membros da direção da Igreja que me concederam entrevista obtive, estas respostas: “Eu acho que quando esse papel, MOPMC, coloca a pessoa na condição de infiel, é por que essa a pessoa está com interesses pessoais e não do 71 grupo. Seria uma infidelidade do grupo no sentido político apenas”. (Pr Daniel Lopes) 91. Confirmado pelo pastor Rosival Freitas que deixa claro a justificativa de um controle dos obreiros que porventura venham se opor aos ideais políticos da liderança institucional, nas suas palavras: ... quando existe uma decisão de Assembléia Geral decidindo. Por mais que eu, individuo, discorde, eu vou ficar calado. Porque eu fui voto vencido.[...] se você foi convidado a fazer parte de um grupo de dirigentes de congregação. Meu irmão nós temos aqui decidido, apoiado pelo Ministério Local, pela Assembléia Geral, e nós estamos aqui com este projeto político. O irmão está de acordo ou está ao contrário? Não, não estou de acordo! Essa pessoa pode continuar no projeto? Ou tem que ser excluída? Eu lhe digo; se nós temos um projeto, e se nós temos um alvo a alcançar. Essa pessoa não está no momento em condições de participar do trabalho nem de contribuir! Porque ele vai ser um obstáculo!92 Então, como expressado pelos atores sociais e denominacionais, vê-se que a liberdade de opinião democrática dentro da denominação fica comprometida, mesmo que o indivíduo que esteja sendo excluído do grupo de apoio seja de pleno valor moral e referência para a membresia. Também por que, como descrito no histórico da denominação, a política secular dentro da Igreja Assembléia de Deus sempre foi tratada em última instância de concórdia. Em artigo publicado na Revista Brasileiro de História93, as autoras SOUZA e MAGALHÃES fazem uma síntese da participação política dos pentecostais na 91 Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em 13/04/05. Entrevista concedida pelo pastor Rosival Soares de Freitas em 28/04/05. 93 SOUZA, Etiane Caloy B. e MAGALHÂES, Marionilde Dias B. Os pentecostais: entre a fé e a política. In: Revista Brasileira de Historia vol.22, nº43, São Paulo 2002, p. 85 – 105. 92 72 América Latina e no Brasil, especificamente. Justificam tal crescimento ao crescimento do número de pessoas que tem se conduzido a estas denominações nas últimas décadas. E conseqüentemente, o reconhecimento da necessidade de um posicionamento definido quanto à política partidária. O que muitas tiveram logo em sua implantação o envolvimento direto nas decisões políticas seculares e implementaram um processo de consciência e participação direta na política partidária e eleitoral: ... um contingente que se apresentava como uma avessa à exposição pública e auto-enclausurada, hoje sua presença de destaca não apenas no que diz respeito ao contingente numérico, mas principalmente por sua visibilidade nos meios de comunicação de massa. [...] se até a década de sessenta, sua atuação na política era extremamente tímida, limitando-se a demandas de caráter corporativo, na atualidade, organizam-se para lançar e eleger seus próprios candidatos (p. 86). No complexo modelo social que se vive na atualidade, percebe-se que a neutralidade de qualquer grupo de elevado número de membros não se mantém como há tempos anteriores. Faz-se necessário que o grupo se manifeste com o uso de sua força de número unido. E isto fica exposto no trabalho de SOUZA e MAGALHÃES (op. cit.). No entanto, a ruptura com o modelo anterior deixa suas marcas perceptíveis a qualquer olho atento, e com o objeto em estudo não é diferente, mas merece um olhar minucioso para que se possa ver á sombra do problema as “rachaduras maquiadas” que se escondem. Estas “rachaduras estruturais”, quando se expõem, são apresentadas como conseqüências de outros fatores externos ao objeto. É o caso, por exemplo, das dissidências denominacionais que se multiplicam levando um exército cada vez maior de membros para outros 73 trabalhos evangélicos em processo de abertura ou mesmo já estabelecidos. Estas dissidências farão parte de um estudo específico que pretendo elaborar em outra ocasião. No mesmo artigo, Mariano (apud SOUZA & MAGALHAES) divide o histórico do Pentecostalismo em três ondas: O Pentecostalismo Clássico (1910 a 1950); o Pentecostalismo Neoclássico (1950 à metade da década de 70); e o Neopentecostalismo (a partir da segunda metade da década de 70 aos nossos dias). A terceira onda, conforme exposto, tem como características identitárias do movimento pentecostal na atualidade “... o uso intenso da mídia eletrônica [...] pela consolidação do pentecostalismo como força social e política” (idem p. 88). Pelo argumento apresentado pelas autoras, observa-se que o fenômeno político ainda está em fase de consolidação no meio religioso e promete novidades ao futuro das denominações que ainda mantêm um “gesso” quanto à participação institucional nos fins políticos partidários. Por fim, a Teologia da Libertação que predominava o cristianismo mundial a partir do início do século XX passa a perder espaço para uma nova fase teológica que, a partir da década de 1940, teve suas raízes plantadas e então, no final do século XX, têm seus frutos amadurecidos e uma outra florada em andamento: trata-se da Teologia da Prosperidade, que teve na década de 1970 o reconhecimento como Doutrina Teológica e como fruto desta a Teologia do Domínio proposta pelas autoras (p. 95). É neste último modelo, que o processo de inserção política nacional e internacional, por parte do pentecostalismo, procura implementar como garantia da doutrina do cristianismo na terra. As autoras destacam o exemplo da política “dominacionista” norte-americana como prática desta Teologia (p.95). 74 Mas, voltando ao tema em debate, diante das dinâmicas do fenômeno religioso apresentado pelos autores citados, ALVES (2000)94 desenvolve sua discussão na hipótese da existência de um novo ethos protestante, ou seja, mutações nos modos de expressão da religiosidade. Ao que perdurou no passado, “Esse ethos era traduzido em termos de rejeição do mundo, isto é, a não valorização de coisas mundanas...” (p. 198). Ele perdeu a essência sem esquecer que várias denominações religiosas ainda mantêm os antigos costumes pentecostais. A autora problematiza estas mudanças dando enfoque à religião fora do tradicionalismo pregado por Weber (apud SOUZA & MAGALHÃES) de ver a religião como algo plenamente “engessado”, ou seja, que mantinha uma postura inalterável ante a sua doutrina. Este aspecto justifica o fanatismo religioso. Por outro lado, percebe-se que as mudanças nas práticas litúrgicas da religião protestante têm sido enormes nos últimos anos, o que tem provocado uma nova formação da idéia do sagrado frente ao tradicionalismo cristão que predominou por séculos. Assim, a nova versão do pentecostalismo no mundo vem chocar com o tradicionalismo religioso que alguns autores clássicos apresentavam como permanentemente conservador. É o que ALVES chama de “novas formas de manifestação do sagrado” (p. 197). A autora exemplifica a Assembléia de Deus como ainda conservadora. Posso concordar que a IEAD ainda possua ramificações desta natureza, no entanto, relembro que já não se manifesta assim tão “engessado” como dantes. Entre as mutações apresentadas pela autora, estão muito voltadas à própria prática ritualística nas igrejas, desde os sermões até às manifestações no culto. Porém, olhando um pouco acima do exposto, percebe-se que as questões 94 ALVES, Patrícia Formiga Maciel, RELIGIÃO E MUTAÇÃO: Uma análise sobre mudanças de ethos no universo protestante in: Política & trabalho 16 – Setembro / 2000 – pp. 197-207. 75 políticas seculares não ficam mais fora dos muros como no antigo modelo. Essa nova postura das igrejas, diante de assuntos anteriormente tratados como tabu religioso, como explicita ALVES, tornou-se em rico objeto de análise científica para as ciências que se dedicam aos estudos da religião, sendo atração também para grande numero de fiéis que procuram as igrejas pentecostais pelo exótico da interpretação da religiosidade. A autora, dentro da sua perspectiva, justifica o crescimento destas igrejas pelo mundo atualmente, como fruto das mudanças, cada vez mais flexíveis, das liturgias religiosas cristãs (p. 197). A obra coordenada por Fernandes (1998)95, com comentários de Sanchis, Carneiro e outros, trata de um trabalho realizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, elaborado em 1994, pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), sobre os três aspectos na vida religiosa que, segundo a pesquisa, influenciam na participação dos evangélicos na política, que são: Participação Religiosa; Família e Reprodução; e Participação Cívica. Estes aspectos, de acordo com o resultado deste estudo, têm passado por grandes avanços e modificações nos últimos anos. Os autores apresentam um esboço do comportamento político dos evangélicos, estudado pela pesquisa nos aspectos valorativos das práticas eleitorais de cinqüenta e três denominações religiosas protestantes. Este total foi dividido em seis grupos distintos: Assembléia de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Batistas, Protestantes Tradicionais, Renovadas e Pequenas Igrejas Pentecostais. Na conclusão das análises da pesquisa, os autores apresentam o destaque que, traçando as informações referentes à Participação Religiosa e a Participação Cívica, encontra-se na junção destes dados o esclarecimento de que os membros que mais 95 Rubem Cesar FERNANDES. Novo Nascimento: os Evangélicos em casa, na política e na igreja. Rio de Janeiro, Mauad, 1998. 264 p. 76 participam dos processos democráticos de suas igrejas são os que mais se envolvem nos deveres cívicos como cidadão. Algo muito interessante no contexto deste novo modelo da prática religiosa está inteiramente ligado à parcialidade do que era condicionado ao profano. Temos, nestes exemplos, a prática das denominações no envolvimento direto nos assuntos políticos partidários, que entendo levar a confluência de duas ideologias dominantes sociais a um resultado inesperado das conseqüências desta união dicotômica (política e religião). No estudo proposto, o tema política e religião é o cerne do debate. Não é a religião em sua essência ritualística, é o processo de “profanação” das reuniões e do espaço sagrado pelo fator político partidário. Algo que muito intriga os fiéis conservadores que acreditam que mesmo o externo ao templo deve ser conservado de tais envolvimentos com a política eleitoral (Foto 2). 77 MELO. A. W. Simão de, Congregação do Brr. Silvio Botelho em BV – RR, 2005. 1 fot.: col.; 12X16. Como apresentado no histórico denominacional, o fenômeno político dentro da denominação Assembléia de Deus em Boa Vista possui alguns entraves desde seu início de implementação. As perseguições aos membros que de dirigiam a comícios, a negação de possuírem cargos dentro do templo, o uso do púlpito para tratar dos assuntos políticos eleitorais, o uso da palavra (sermão) de orientação, a prática da cidadania (o voto), o uso das paredes dos templos para propagação do nome dos candidatos membros da igreja, a criação de um órgão (comissão permanente) de política institucional, a candidatura de pastores e membros da cúpula religiosa a cargos elegíveis, o desprezo aos membros que porventura se candidatem independente, a insistência aos membros votarem no “pacote político eleitoral”, a realização de “cultomícios” (eventos nas congregações ou em praça pública com louvores e participação dos candidatos da igreja) e arraiais religiosos para fins de 78 divulgação eleitoral, a centralização do atendimento dos membros por políticos membros da igreja em exercício e outras práticas, são motivos de rejeição e prova das “mutações” que a igreja tem sofrido nos últimos anos. Se manifesta como tolerável que a denominação se revele quanto ao seu posicionamento político, no entanto, as alegações dos que desprezam tais práticas são a necessidade também de manter uma independência quanto aos assuntos políticos e deixar liberdade aos fiéis para que tome seus posicionamentos sem uma intervenção direta nos seus ideais pessoais por seus lideres denominacionais. Pois consideram “perversão”, por parte da igreja, se entregar aos destinos políticos partidários, levando a deixar as práticas litúrgicas ritualísticas para incrementar a participação religiosa nos movimentos políticos seculares, profanando o que dantes se identificava como a “essência do sagrado”. Além da “entrega” aos destinos políticos, o que mais causa descontentamento aos fiéis são as justificativas utilizadas para essas práticas que é se apresentam como uma necessidade de representação no cenário político partidário, esquecendo de seus ensinamentos doutrinários da existência de um “Deus” que prover todas as necessidades de “Seu povo”, sentimento defendido pelos fiéis que expressam toda sua confiança na soberania divina. 3. 3.1 A Análise do discurso dos diversos atores Esta contradição do discurso religioso em justificativa das práticas políticas pode ser analisada pelas idéias de Minayo (1994) que analisa a teoria da Análise do 79 Discurso. Segundo a autora, a análise do discurso tem por objetivo: “... realizar uma reflexão geral sobre as condições de produção e apreensão da significação de textos produzidos nos mais diferentes campos: religioso, filosófico, jurídico e sóciopolítico” (p. 211) 96. Na problemática em estudo, temos questões colocadas sobre os discursos aplicados para justificar um processo de alto índice de rejeição em um grupo social, ou seja, é a justificativa de uma quebra brusca de conceitos predominantes no grupo. Ainda sobre a Análise do Discurso a autora refere-se a Orlandi que enfatiza: ... não é uma teoria descritiva, nem uma teoria explicativa. Pretende ser uma teoria critica que trata da determinação histórica dos processos de significação [...] procura problematizar as evidências e explicar seu caráter ideológico, [...] denuncia o encobrimento das formas de dominação política que se manifestam numa razão disciplinar e instrumental. (apud, p.212). Vemos nas idéias teóricas destas autoras uma justificativa da crítica que apresentamos ao modelo de como se tem dado o processo político eleitoral dentro da Igreja Assembléia de Deus. Na verdade, não se trata de uma iniciativa apenas local, mas nacional, que tem procurado a cada dia injetar as idéias da necessidade de representação política. Orlandi (2000)97 destaca que: 96 MINAYO, Maria Cecília de S. O Desafio do Conhecimento: pesquisa Qualitativa em Saúde. São Paulo - Rio de Janeiro, HUCITEC – ABRASCO, 1994. 97 ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos / Campinas, SP, Pontes, 2000, p. 100. 80 Em uma proposta em que o político e o simbólico religioso se confrontam, essa nova forma de conhecimento coloca questões para a Lingüística, interpelando-a pela historicidade que ela apaga, do mesmo modo que coloca questões para as Ciências Sociais, interrogando a transparência da linguagem sobre a qual elas se assentam (grifo nosso, p.16). Como descrito pela autora, as Ciências Sociais tem na Análise do Discurso uma ferramenta para questionar a linguagem aplicada dos discursos que deixam possíveis falhas de entendimento, como é o caso do fenômeno político-religioso. Entre as mais intrigantes questões que fundamentam a rejeição do Projeto CIDADANIA AD BRASIL está a preferência pela participação de líderes bem reputados para encabeçar as campanhas eleitorais. Os informantes entrevistados na pesquisa define assim: Quando nós, [...] da Assembléia de Deus, vimos essa questão política, não houve impedimento para que os pastores participassem, porque? Havia uma intenção, de que os que fossem participar da política, fossem pessoas comprometidas com a igreja. Porque nós aqui mesmo em Boa Vista, tivemos exemplos, de falta de comprometimento, pessoas que foram eleitas, com o apoio da igreja, então quando veio o primeiro aperto, a primeira cobrança, a primeira exigência, uma exigência cabível, de uma intervenção a favor da igreja, alguma coisa assim, essa pessoa se sentiu cobrada e foi chamada atenção, que ela deixou de cumprir, sem citar nomes, [...] pessoas que são crentes, durante as campanhas as précampanhas estão ali dentro da igreja, depois que são eleitas, eles desaparecem, desaparecem no aspecto de compromisso, não tem! 98 Eu acho que poderia ser qualquer irmão, que tenha influência política e usar isso em um bom relacionamento e sair candidato [...] Eu não discordo de Pastor concorrer, agora eu não concordo o Pastor que tenha a direção de uma igreja. [...] A idéia do povo é que se for político vai se corromper, mas você pode exercer. Quantos pastores que tem aí que fazem um trabalho belíssimo com mandato...99 98 99 Entrevista concedida pelo pastor Rosival Soares de Freitas em 28/04/05. Entrevista concedida pelo deputado Estadual presbítero Nazareno em 27/04/05. 81 ... Não se nasce líder, torna-se líder! Não se nasce pastor, torna-se pastor! Não se nasce político, torna-se político! O camarada estudou quantos anos na medicina e acaba sendo senador. Engenharia civil, da mesma maneira. Quando parte para essa parte política, devemos deixar o espiritual um pouco pra lá. Pensamento meu! Eu não vejo como peso negativo, [...] nós que estamos acompanhando o processo, vemos a necessidade de termos nossos representantes. [...] não perdemos um pastor nem um presbítero, nós ganhamos um missionário dentro do congresso Nacional, nós ganhamos vigílias, santa ceia...100 Na casa das leis, a presença dos evangélicos pode mudar o quadro de decisões no que se refere às questões que ferem o direito da família e outras. Dizer que é uma aproximação do sagrado ao profano, sim! Mais é um risco! Então na tática do Zagalo a melhor defesa é o ataque. É isso que entendo que se não nos posicionarmos seremos usados e não veremos que precisa haver um posicionamento da igreja.101 As idéias dos atores denominacionais citadas refletem a confluência de um homogêneo conceito de necessidade de representatividade da igreja na política. O que foge do entendimento de grande número de membros discordantes do projeto, por entenderem que o papel eclesiástico do pastor não se relaciona com as funções políticas. Assim, a idéia de um “missionário” nas casas legislativas é refutada pelo comprometimento que estes atores políticos se submetem com o sistema político partidário “canceroso”. O pastor Gideão F. T. dos Santos denomina a política partidária dentro das igrejas como uma “enfermidade presente” 102 . E mesmo que seja por tempo determinado, conforme justificado pelo Pastor Clodoaldo Alves da Costa, que reprova tal prática por líderes religiosos, “quando termina o mandato, por não conseguirem serem reeleito, poucos prestam para alguma coisa dentro da igreja” 103. 100 Entrevista concedida pelo pastor Daniel Lopes Barbosa em 13/04/05. Evangelista Isaac Carneiro (advogado presidente da Comissão Jurídica da Assembléia de Deus em Roraima), estava presente na entrevista com o pastor Daniel Lopes. 102 SANTOS, Gideão Ferreira Teles dos. A Política e a fé. <http://www.teologiaclub.hpg.ig.com.br/ tologia/politicaeafe.htm>. Disponível em: 18/01/2005. 103 Em diálogo com o pesquisador em 15/06/05. 101 82 Para o pastor Márcio Rosa da Silva, a carreira eclesiástica deve ser considerada como de maior valor para o cristão, conforme artigo publicado no site da igreja Betesda em Roraima: Se você é pastor e quer se candidatar a um cargo político, avalie sua vocação [...] O político tem de ficar fazendo propaganda de si mesmo o tempo todo, apregoando os seus feitos, suas virtudes, seu trabalho [...] o pastor não apregoa os seus próprios feitos, mas os do Senhor...104 Esta visão reprovadora da participação de pastores na militância política secular tem se tornado motivo de debate nos mais diversos meios de comunicação e até mesmo entre as instituições religiosas, pondo a questão em condições de uma dualidade de valores conservadores e inovadores. O resultado parece ser esperado com apreensão por estes atores que se contradizem em suas idéias. É o chamado “Rebanho de Cristo” esperando que seu verdadeiro Dono e Pastor, Cristo, intervenha a seu favor. 104 SILVA, M. R. da Conselhos e reflexões sobre política na igreja <http://www.betesdaroraima. com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=28&sg=17&form_search=&pg=1&i d=96> Disponível em: 06/06/05. 83 CONSIDERAÇÕES FINAIS No desenvolvimento do trabalho agora exposto, procurei apresentar um pouco do desentendimento ideológico que muito tem sido confrontado quando o assunto é política e religião. Não que seja impossível tratar destes temas sem manifestar uma contradição comprometedora nos argumentos. Embora possa parecer que as idéias possuam uma paixão ou defesa por um ou outro dos temas debatidos. O importante é procurar abstrair os fundamentos das práticas dos atores envolvidos nas questões política versus religião ou vice-versa. Para finalizar um debate cheio de dúvidas quanto as fronteiras destes temas, apresento as idéias do pastor Marcos Schmidt no artigo Religião, Política e Futebol105, ocasião em que o autor define-os como temas “apaixonantes”. E aconselha a discussão destes assuntos para que se consiga construir um consenso, mas, conclui que na verdade “todos somos religião, política e futebol. Isto é, fé, razão e emoção“. Para se chegar a um resultado consensual, não há como não flexionar as idéias e procurar acatar o resultado pacificamente. No entanto, não pode ser deixado de lado a manifestação do ponto de vista pessoal de todos que direta ou indiretamente terão acesso aos ônus e bônus da deliberação final. Na análise da pesquisa desenvolvida, tivemos a oportunidade de viver o conflito religião/política na pele. E, para que se consiga uma isenção destas paixões, faz-se necessário que o pesquisador negue todos os seus juízos de valores sobre o tema e busque ver com os olhos do objeto as inquietações por ele vividas pelas 105 < http://www.evol.com.br/v3/_arq5/texto.asp?id=631&nome=1&banco=51&pesquisa=religiao, > Disponível em: 02/10/2004. 84 conseqüências dos interesses intrínsecos na prática destes atores políticos/religiosos, que manifestam impassibilidade e insensibilidade com os indivíduos que não concordam com seus projetos em defesa de um ideal do sagrado que aos pouco vem se modificando o seu tratamento. Atualmente, o objeto de pesquisa deste estudo passa por modificações. O futuro do projeto CIDADANIA AD BRASIL em Boa Vista deverá ser avaliado após o próximo pleito eleitoral, por ser, atualmente, algo instável e sem equilíbrio, impossibilitando previsões quanto ao prosseguimento das idéias defendidas no imaginário político religioso. Mas, de surpresa e instabilidade vive a política há muito tempo. Por fim, as conclusões que podemos ter com mais precisão são que, mesmo que maior parte da membresia denominacional se oponha aos propósitos políticos da liderança da igreja, não se consegue mudar as intenções que objetivam a iniciativa. Isso pode ser notado nos discursos dos líderes da igreja, que não mostram, até então, nenhuma intenção de voltar atrás em suas opiniões. Os riscos terão que ser compartilhado por todos que compõem o rol de membros da igreja. Quanto aos benefícios, é um pouco comprometedor dizer o mesmo que foi estabelecido aos riscos. Se o futuro será a criação de um partido político, como no caso exemplificado na obra de Miranda (1987), depende do processo histórico que virá a transcorrer. Fica claro que a simbiose já está incorporada, deixando como conseqüência a redução do espaço sagrado ou pelo menos compartilhado com o profano. 85 Quanto ao estudo, vale lembrar ser apenas uma introdução ao olhar, cabe a outros pesquisadores buscar com mais profundidade as entrelinhas que permeiam o “fabuloso” CIDADANIA AD BRASIL. Considero um objeto interpretações e conseqüências. Afinal, política e religião é assim! riquíssimo de 86 BIBLIOGRAFIA ALVES, Patrícia Formiga Maciel, RELIGIÃO E MUTAÇÃO: Uma análise sobre mudanças de ethos no universo protestante in: Política & trabalho 16 – Setembro / 2000 – pp. 197-207. <http://www.cchla.ufpb.br/ppgs/politica/16-alves.html>. Disponível em: 22 mar. 2005. ARISTÓTELES, Política. São Paulo: Martin Claret (Coleção A Obra-prima de cada autor), 2003. 272 p. AS BANCADAS DE RESULTADO. Disponível no site: <http://buscacb2.correiweb. com.br/corrieo/2004/05/30/AD0>. Disponível em 30 jun. 2004. 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