ÁGUAS DA AMAZÔNIA 2 A M Ã E - D ' Á G U A É A S E R E I A D A S Á G U A S A M A Z Ô N I C A S . Dotada de indescritível beleza e canto maravilhoso, ela encanta os pescadores que passam muito tempo sozinhos a navegar. Muitos deles não resistem ao seu delicioso canto e à sua beleza estonteante e são levados pela visagem para morar com ela nas profundezas das águas, e ali desaparecem. A maioria nunca mais volta para suas famílias. A Mãed'água habita as águas doces. Rios e igarapés são os seus domínios. Por isso, quem sai para pescar em horas mortas pode incomodar a Mãe d'água que, facilmente se melindra e encanta o invasor castigando-o com uma febre alta que nenhum médico dará jeito. SINOPSE DO VÍDEO Neste programa, aprendemos a lenda indígena da for- 28 problema enfrentado por algumas populações. Assim, algu- e esforço de diversos países da bacia amazônica, como a mas comunidades se mobilizaram para realizar o manejo de Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. A im- pesca, utilizando estratégias como o defeso e a proibição do portância da região exige que a gestão dos recursos hídri- uso de malhadeiras. cos, fundamental para coloca-lá na direção de um modelo CONTEÚDOS DO VÍDEO mação do rio Amazonas, o maior rio do mundo. Aprendemos É fascinante pensar que tanta água vem das chuvas – e que de desenvolvimento sustentável com o mínimo de impactos > LENDA INDÍGENA DE FORMAÇÃO DO RIO AMAZONAS também que as águas são intimamente influenciadas pelo chuvas! O programa nos ensina sobre o clima da região, ambientais, considere a economia e a educação como > TIPOS DE ÁGUAS: BRANCAS, PRETAS E AZUIS tipo de solo e relevo de sua bacia de drenagem e que o rio equatorial quente e super úmido, e a influência dos ciclos de pilares básicos. Amazonas é composto por rios de águas brancas, pretas e cheias e secas sobre a fauna, a flora e as populações. > O ENCONTRO DAS ÁGUAS > TIPOS DE EMBARCAÇÕES AMAZÔNICAS azuis. Cada tipo de água possui características químicas e O rio Amazonas é composto por diversos rios, tanto na faunas típicas, o que contribui para a grande diversidade de margem direita quanto na margem esquerda. Um problema > O MANEJO DE PESCA DO PIRARUCU peixes e outros animais aquáticos na região. é que as nascentes são mais suscetíveis às alterações ambi- > O PULSO HIDROLÓGICO Como não poderia deixar de ser, os rios desempenham entais e atualmente enfrentam o avanço de atividades papel importante no transporte de pessoas e bens. Estima- agropecuárias, sobretudo de plantações de soja na área se que circulem na área cerca de 120 mil embarcações. denominada arco do desmatamento. Vemos imagens de > RISCOS AMBIENTAIS: AGROPECUÁRIA Nosso apresentador nos mostra alguns desses tipos e suas imensos graneleiros na região de Santarém, onde a soja é > ESTRATÉGIAS PARA A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS REL ACIONADOS diferenças. embarcada para distribuição. Os rios também são fundamentais para a culinária da O programa apresenta algumas estratégias de proteção região. A pesca é abundante, mas a pesca predatória já é um ambiental, desenvolvidas pelo Brasil, como a Lei das Águas, > A VÁRZEA AOS RECURSOS HÍDRICOS > DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MERGULHANDO NO TEMA A BACIA HIDROGRÁFICA AMAZÔNICA Há controvérsias sobre as nascentes do rio Amazonas: alguns autores apontam um pequeno ribeirão, o Apurimac, localizado a 5.000 m acima do nível do mar, enquanto outros afirmam que seria o riacho Huarco, perto do Cerro Huagra, nos Andes peruanos. De qualquer forma, é difícil imaginar que um pequeno ribeirão irá se transformar, depois do encontro com vários afluentes, no imenso rio Amazonas. O rio Amazonas possui uma vazão apro3 ximada de 210.000 m por segundo, valor superior à soma das vazões dos nove maiores rios do planeta, correspondendo a 15% da água doce que deságua no oceano. São singulares suas características hidrológicas. A densa vegetação e o volume de água que circula ao longo de sua extensa rede de drenagem, composta por mais de 1.100 afluentes, produzem Vazão Quantidade de água que passa em um determinado período de tempo, geralmente medido em m 3 /seg, sendo 1m 3 = 1.000L. uma constante nebulosidade sobre a bacia, com alta precipitação e liberação de calor, influenciando o clima regional e global. Apesar das discordâncias, o valor mais aceito para a área de drenagem da bacia hidrográfica amazônica é de 6 milhões de km2, situada entre as coordenadas 5º de latitude Norte até 20º de latitude Sul. As condições hidrográficas são ligadas ao relevo da região. Na região central, predominam as coberturas sedimentares que formam as planícies interioranas e a depressão da Amazônia central. Ao sul, a bacia é limitada pelos escudos do Brasil Central, com a bacia hidrográfica percorrendo as depressões da Amazônia meridional, do Araguaia-Tocantins, os planaltos do Tapajós-Xingu, dos Parecis e os planaltos residuais da Amazônia oriental e Amazônia meridional. Ao norte, o escudo das Guianas dá origem à depressão da Amazônia setentrional, planaltos Amazonas-Orenoco, Negro-Jari e os planaltos residuais da Amazônia setentrional. HIDROGRAFIA DA AMAZÔNIA LEGAL Fonte: IBGE, 2003 31 AS CHUVAS NA AMAZÔNIA Os igapós são florestas inundáveis localizadas ao longo dos rios de água preta ou água clara, que contêm pouco sedimento. São florestas com pouca biomassa e alta diversidade de comunidades A bacia hidrográfica amazônica é tão grande que possui regimes de chuvas diferenciados entre as áreas dos vegetais. Há diferenças entre os igapós dos rios de água preta e dos rios de água clara, no que rios dos hemisférios Norte e Sul. tange à sua composição florística. Outro tipo de formação vegetal florestal inundável é a várzea, que ocorre ao longo dos rios de águas brancas, em solos mais férteis que os igapós. O regime de precipitação é essencialmente de origem atlântica e recebe em média 2.460 mm/ano para os rios da margem esquerda, enquanto para os rios vinculados ao regime andino a variação pode ser de 300 mm/ano, dentro de alguns vales, e de até 8 000 mm/ano na base dos Andes (Peru DE QUE COR SÃO AS ÁGUAS DA BACIA AMAZÔNICA? e Equador), o que gera uma média de 3.500-4.000 mm/ano no baixo curso. No Brasil, os maiores índices estão na região da “Cabeça do Cachorro” e na costa do Amapá. São chuvas fortes, torrenciais, com grande potencial de erosão dos solos. O período de concentração pluviométrica é diferenciado, concorrendo para a vazão do rio Amazonas durante todo o ano: os rios da margem esquerda, ao norte, têm o seu máximo de precipitação entre maio e julho e os rios da margem direita, ao sul, de dezembro a março. CHUVA ACUMUL ADA MENSAL X NÚMERO DE DIAS DE CHUVA Atribui-se a existência de três tipos de sistemas de águas: águas brancas (barrentas), pretas e claras (verde-azuladas). As águas brancas são encontradas em regiões de formações geológicas mais recentes, como os Andes. As escuras são decorrentes de formações mais antigas. As águas brancas têm visibilidade de 0,1 m a 0,5 m e pH é próximo do neutro (de 6,5 a 7,0). Seu aspecto barrento é decorrência da quantidade de Buritizal matérias orgânicas erodidas e de nutrientes, o que contribui para a fertilidade das várzeas. Nestes rios a pesca normalmente é abundante. A maioria Formação vegetal que ocorre em áreas perpetuamente alagadas, caracterizada por apresentar grande quantidade de buritis (Mauritia flexuosa), palmeira de grande porte. nasce nos sopés dos Andes com direção de percursos oeste-leste, desaguando no oceano Atlântico. Destacam-se o rio Amazonas e seus formadores (Marañon, Huallagao e Ucaialy), alguns rios na margem esquerda como o Japurá, o Napo (Equador), o Içá ou Putumayo (Equador e Colômbia) e na margem direita, o Juruá, o Purus, o Madeira e o Acre. A velocidade média de correnteza do Amazonas é de 5 km/h, podendo chegar a 6 km/h no período das cheias, ou reduzir para 2,5 km/h, na seca. As águas pretas têm maior visibilidade, com mais de 4 m; o pH é acido, variando entre 4,0 a 7,0 e a quantidade de matéria orgânica é bastante reduzida. A coloração de “coca-cola” é resultado da decomposição incompleta de folhas, galhos e frutos. O rio Negro, o Trombetas, o Urubu e o Uatumã são os principais rios de águas pretas. Nascem no planalto das Guianas, correm de norte a sul, a partir da fronteira do Brasil com a Colômbia e a Venezuela. Estas regiões de planalto são menos propícias à erosão que os Andes, por isso a quantidade de matéria orgânica a transportar é menor. São rios de A vegetação também é muito influenciada pelo processo de subida e descida das águas, o chamado pulso hidrológico. As florestas inundáveis representam 5 a 10% da área da Amazônia. São definidas por estarem alagadas durante parte do tempo, diariamente, no caso dos manguezais, ou alguns meses por ano, no caso das várzeas e igapós, ou mesmo durante todo o ano, como nos pân- pouca pesca. A temperatura média do rio Negro é de 30ºC, cerca de 1ºC maior que a do rio Amazonas. As águas claras, ou verde-azuladas, têm visibilidade é de 1,50 a 2,50 m e o pH é muito ácido, de 3,5 a 4,0. Apresentam pouca matéria orgânica em suspensão. Os tons esverdeados se devem à presença de algas, que proliferam devido à grande entrada de luz. Os azulados – é a física quem explica, não a biologia – são tonalidades comuns em grandes quantidades de água ou de ar. Alguns trechos podem apresentar boa pesca, mas geralmente não tanos. Os manguezais estão ao longo da costa, inundados por água salgada, e possuem poucas tanto quanto os de águas brancas. Boa parte destes rios origina-se no planalto Central brasileiro, tendo eixo de direção Sul-Norte. Os principais rios espécies. As várzeas de maré, localizadas no estuário dos rios, sofrem influência da maré de águas são o alto Guaporé, o Tapajós, o Curuá-Una e o Xingu. Suas nascentes estão em terrenos que produzem menor quantidade de erosão que os rios nasci- doces, e apresentam vegetação composta por palmeiras. Os pântanos estão inundados o ano dos nos Andes. No entanto, o desmatamento nas nascentes e altos cursos promovem alterações no fluxo natural dos rios, aumentando a quantidade de inteiro, ou com água próxima da superfície do solo, que tem baixa drenagem. Os pântanos podem matéria orgânica e inorgânica transportada, reduzindo a profundidade em alguns trechos. assumir a forma de buritizais (aguajal, no Peru) ou de matas de bambu, os tabocais. 32 33 FLORESTA DE VÁRZEA inundada, A ecossistema típico da região Esta dinâmica do ciclo hidrológico, associada à quantidade de água das chuvas, promove variação amazônica. INFLUÊNCIA DAS ÁGUAS NA VIDA DAS POPULAÇÕES 3 3 no volume de água na foz do Amazonas, de 100 mil m /s a 300 mil m /s, com o nível dos rios podendo variar de 4 a 20 metros. As casas na região de várzeas podem ser palafitas, construídas em cima de toras, para que não inundem na estação da cheia. A casa na várzea possui a vantagem da proximidade da água para uso doméstico, e para deixar a canoa perto de casa, já que é praticamente o único meio de transporte. FIQUE POR DENTRO A variação do volume de água dos rios Purus e Juruá é de até 20 m em sua foz; o Madeira, de até 16 m; o Marañon em Iquitos, de até 9 m; o Negro, de até 10 m; o Tapajós, de até 7m e o Xingu, até 4 metros. O pulso hidrológico governa a vida das populações que vivem na região. Várias atividades econômicas são desenvolvidas nas várzeas, de acordo com a época do ano. A pesca é mais praticada durante a seca, que isola os lagos, concentrando assim os peixes. A agricultura nas várzeas também é praticada na seca, com culturas de rotação rápida, como abóbora, milho, melancia e banana. A extração de madeira também é feita durante a seca, e a extração de látex das seringueiras. Porém, se há atraso nas chuvas do Sul e estas ocorrem no mesmo momento das chuvas do Norte, o nível médio do rio pode oscilar de 1 a 2 m acima do nível usual, prejudicando as populações ribeirinhas e inundando severamente as várzeas. O gado pasta na várzea durante a estação seca, e, na cheia, vai para um pasto na terra firme, se o criador tiver acesso a um. Se não, o gado é colocado em cercados flutuantes, chamados “marombas”, e o dono corta o capim de áreas secas e o leva até elas de barco, para alimentar o gado. FIQUE POR DENTRO PA R A S A B E R M A I S Para saber mais sobre A biodiversidade aquática, mergulhe no Capítulo 3, “Ecologia dos Ecossistemas”, no Caderno 2. AS VÁRZEAS Várzea é o ecossistema que ocorre nas margens dos rios e lagos de água branca da Amazônia. São florestas, com árvores altas, de cerca de 35 metros. O fator que define as florestas de várzea é estarem inundadas durante parte do ano, nas cheias dos rios. Esta cheia usualmente ocorre de A cultura da mandioca, um alimento de grande importância na Amazônia, é feita em terra firme, porque demora mais de um ano para ser colhida. dezembro a junho, sendo a seca de julho ao final de novembro. O nível da água pode chegar a subir 20 m na estação chuvosa, mas geralmente não ultrapassa 10 metros. Devido à deposição de sedimentos, a várzea está localizada em solo rico em nutrientes e com pH próximo do alcalino, ao contrário da maioria dos solos da Amazônia, usualmente ácidos e pobres. Os solos de várzea são argilosos. É importante observarmos que durante a época seca o esforço da pesca nos lagos de várzea aumenta, uma vez que o pescado se concentra nos lagos que não secam. A várzea é um ecossistema rico e complexo. Possui alta produção de biomassa, grande número de espécies vegetais adaptadas à inundação, e uma interação dinâmica entre as cadeias alimentares dos rios e das várzeas. A mata de várzea é grande fonte de alimento para os peixes dos rios e lagos, 90% 34 FIQUE POR DENTRO dos quais são frugívoros. Nesse ambiente ocorrem várias espécies de peixes apreciadas pela popu- O rio Amazonas transporta anualmente 270 milhões de toneladas de matéria dissolvida e 1.200 milhões de toneladas de partículas em suspensão. lação local e com valor comercial, como o tambaqui, o pirarucu, a pescada, o surubim e o tucunaré. Os lagos das várzeas não estão isolados. Eles se interligam por meio de rios e canais, alguns com água até durante a seca. É interessante notar que, mesmo na região sudeste da Amazônia TIPO DE HABITAÇÃO conhecida onde não há estações seca e chuvosa bem definidas, as várzeas ocorrem. Os rios recebem a água como palafita, característica das chuvas nas regiões de cabeceira e aumentam de nível. da região de várzea. 35 Na Amazônia opera uma frota de 120 mil embarcações, das quais aproximadamente 70 mil estão de acordo com UTILIZAÇÃO da canoa como meio de transporte para uma família ribeirinha. ÁGUA COMO MEIO DE TRANSPORTE Os rios são os caminhos naturais da Amazônia. Servida por 14 mil quilômetros de rodovias pavimentadas (muitas delas intransitáveis na época das chuvas) e apenas 450 km de ferrovias, a região possui metade do total de 48 mil quilômetros de rios navegáveis do país. O transporte fluvial é praticamente o único meio de atender aos deslocamentos de carga e da população na região. A própria ocupação territorial da Amazônia está ligada ao curso dos rios, que serviram para escoar a produção extrativista desde o início da ocupação do território, e continuam a fazê-lo. A região possui características que favorecem a navegação, como rios de grande porte com pouca ou nenhuma queda d’água. Ao contrário dos oceanos, os rios apresentam dificuldades para a sua utilização como hidrovia, principalmente quando se deseja operar com embarcações de grande porte. Os rios apresentam condições de navegabilidade diferentes ao longo do ano, enquanto o oceano proporciona condições operacionais praticamente permanentes. Nos rios, geralmente há restrições de profundidade, trechos estreitos, curvas fechadas, correnteza, possibilidade de ocorrência de ventos fortes e até de ondas, presença de troncos flutuando ou submersos, etc. Essas características influenciam o desempenho e a segurança de qualquer embarcação que trafegue por um rio. Se a embarcação for adequadamente projetada, construída e operada levando em conta todas as características importantes da via, estarão contempladas tanto a segurança como a eficiência do o que estabelece a lei. São cinco sistemas diferentes de acordo com as necessidades de carga e navegabilidade: EXEMPLOS dos tipos de embarcações 1) embarcações rústicas, operadas por seus proprietários e que fazem o transporte de pessoas e de pequenas presentes na Amazônia. cargas. São canoas a remo ou pequenas embarcações (voadeiras) com motor de popa próximo da superfície da água, para que não ocorram acidentes por conta de bancos de areia. São os únicos meios de acesso a comunidades ou casas isoladas localizadas na beira de igapós ou rios pequenos. 2) embarcações de linha, que transportam passageiros e distribuem cargas ao longo de toda a malha hidroviária da região, como é o caso dos barcos conhecidos por ‘batelão’ ou ‘recreio’. São barcos maiores, com cerca de 8 m de calado, embora variem muito em tamanho. 3) comboios de balsas de diferentes tamanhos, que possuem potência e calado apropriados para atender às mais diversas condições de navegabilidade dos rios. As balsas são rebocadas por barcos empurradores ou puxadores. 4) comboios com tecnologia mais avançada são embarcações construídas especificamente para o transporte de cargas e veículos, o chamado ‘ro-ro caboclo’, que dispensam o uso de guinchos, empilhadeiras e equipamentos de apoio nas operações de carga e descarga. Esses comboios atendem, quase exclusivamente ao distrito industrial da Zona Franca de Manaus. 5) navios, por vezes de porte oceânico, com 27 a 65 mil toneladas. São especializados no transporte de minérios, mas fazem também o transporte de contêineres. Esses navios estão limitados aos maiores rios da região, como o próprio Amazonas, e são encontrados com freqüência no Tapajós, que banha uma região com mineração abundante. transporte hidroviário. 36 37 Na relação entre navegação fluvial, tráfego rodoviário e transporte aéreo, vários fatores pesam a favor da navegação na Amazônia. Viagens de avião entre pequenas localidades requerem várias escalas, aumentando os custos. A precariedade das poucas estradas como a rodovia Transamazônica (hoje engolida pela selva) transforma as hidrovias em uma das melhores opções para locomoção. D E S A F I O S PA R A O D E S E N V O LV I M E N T O S U S T E N TÁV E L Durante muito tempo, o grande rio Amazonas serviu como eixo de entrada para o interior. Neste sentido, a dimensão espaço-tempo para a vida ribeirinha amazônica media-se em tempos de viagem e não em distâncias. Ainda hoje é assim para a grande maioria dos povoados e pequenas cidades, aos quais o rio é o único meio de acesso. Um dos grandes incômodos das viagens de barco é o tempo de viagem, mesmo para distâncias consideradas pequenas. Veja alguns exemplos de distância em dias de viagem: POLUIÇÃO DAS ÁGUAS NA AMAZÔNIA Quando os esgotos são lançados sem tratamento nos corpos d’água, alguns efeitos são rapidamente sentidos pela fauna e pela flora. O esgoto doméstico possui grande quantidade de bactérias que consomem rapidamente o oxigênio dissolvido nas águas onde é lançado, prejudicando a vida aquática. Outra conseqüência da poluição das águas de origem urbana é o aumento de doenças transmitidas pela água, como cólera, verminoses, amebíase, entre outras, prejudicando a popu- PERCURSO DIAS DE VIAGEM Manaus > Belém 3 e meio a 4 Belém > Manaus 5a6 Manaus > Porto Velho 6a7 Porto Velho > Manaus 4 a 5 na estação cheia e 7 a 8 na seca Porto Velho > Belém 9 a 11 na estação cheia e 12 a 14 na seca Porto Velho > Santarém 5a6 Porto Velho > Iquitos (Peru) 20 Manaus > Iquitos 13 Iquitos > Manaus 7 lação, principalmente a que mora nas favelas de palafitas, comuns nas cidades amazônicas. Os moradores dessas favelas, com freqüência, não possuem acesso a água tratada. Belém e Manaus, as duas maiores cidades da região, tem cerca 1,4 e 2 milhões de habitantes, respectivamente. Estimase que apenas 4,5% dos domicílios de Belém possuam ligação com o sistema de tratamento de esgoto. Essa proporção é ainda mais baixa em Manaus, 3%. O restante da água usada é lançado, sem tratamento algum, nos rios e igarapés da região. As cidades menores possuem redes de tratamento igualmente pequenas ou inexistentes. Outra fonte significativa de poluição das águas é a agropecuária. Para a agricultura, são utiliza- DEGRADAÇÃO ambiental dos agrotóxicos e fertilizantes que, por infiltração no solo ou levados pelas chuvas, podem atingir da favela de palafitas, em os rios. Os fertilizantes podem alterar a salinidade e a oferta de nutrientes, e os agrotóxicos são São Raimundo/MA. usualmente muito agressivos à fauna e flora. A diferença, por exemplo, no tempo de viagem de Belém a Manaus e de Manaus a Belém deve- Quando a agricultura ou a pecuária são reali- se ao fato de que a primeira é realizada rio acima, contra a correnteza, e a segunda a favor dela. zadas inadequadamente, elas causam a erosão do Os meses de seca e cheia também influenciam a viagem, sendo que na cheia as viagens costumam solo e a deposição de sedimentos nos rios. A gran- ser mais rápidas. de pluviosidade da região favorece esse processo. Tais sedimentos, uma vez nos rios, turvam a água, tornando o tratamento para consumo humano mais difícil e dispendioso; diminuem a luminosidade da água, prejudicando o crescimento de plantas aquáticas; depositam-se em zonas de procriação de peixes; diminuem a vida útil de represas e barragens e favorecem inundações, por tornar mais raso o curso dos rios. Sob esse aspecto, é considerada preocupante a expansão da cultura da soja nos estados do Pará e Roraima. A abertura de áreas de florestas necessárias a essas atividades, por vezes feitas através de 38 39 Os maiores índices de contaminação por mercúrio são encontrados nos organismos de pes- SERRA PELADA, um exemplo de uma exploração desordenada causando cadores que vivem nos cursos dos rios abaixo dos garimpos. Como o mercúrio é bioacumulável, o problemas para a saúde humana. consumo de peixes – que não conseguem eliminar esse metal de seus corpos – acaba ocasionando problemas para quem os consome. Os impactos só não são maiores porque a forma metilada do mercúrio se decompõe rapidamente no pH das águas amazônicas. Outros efeitos gerados por atividades de mineração são o lançamento de arsênico, produto tóxico derivado da exploração de manganês, e o assoreamento de rios e lagoas devido aos grandes deslocamentos de terra que essa atividade provoca. AT E N Ç Ã O A abundância de água na região Amazônica e a percepção da mesma como um vazio demográfico levam à concepção errônea de que a diluição da poluição nas águas dos grandes rios a tornam insignificante. Outras fontes de poluição das águas na Amazônia são dejetos industriais, curtimento de couro (que lança cromo, um metal pesado, nas águas) e derramamento de óleo, principalmente nos portos. H I D R E L É T R I C A S : A F U N Ç Ã O E N E R G É T I C A D A Á G U A E S E U S I M PA C T O S A importância da eletricidade para as sociedades atuais é indiscutível. No Brasil, terceiro produtor mundial de hidreletricidade, a energia elétrica responde por 42% da energia consumida, sendo que, desse percentual, 90% são obtidos através de hidrelétricas. O resto vem através de termoelétricas, energia eólica e mais raramente solar (fotovoltaica), sendo que as duas últimas correspondem a menos de 1% do total gerado. Apesar de a hidreletricidade ser considerada uma energia “limpa” e ambientalmente correta, por usar um recurso natural renovável, as hidrelétricas não estão isentas de produzir impactos ambientais. Um empecilho ao aproveitamento dos rios amazônicos é o fato de os mesmos serem rios de planície, com queimadas, libera o mercúrio contido naturalmente nos solos da Amazônia. Este metal, em altas concentrações, é altamente tóxico. desnível pequeno ao longo do seu curso, e poucas cachoeiras. Essa característica dos rios amazônicos acarreta a construção de barragens com uma área inundada muito grande, agravando os impactos desse tipo de construção, e com baixo rendimento de geração de energia por quilômetro quadrado inundado. Outra fonte geradora de mercúrio advém de seu uso nos garimpos para separar ouro em pó da Um triste exemplo desse quadro é a central hidrelétrica de Balbina, célebre pelo enorme impacto ambiental sobre Bateia areia. Em contato com o ouro, este composto se deposita no fundo da bateia, ficando a areia por o rio Uatumã e pela baixa geração de energia por quilômetro quadrado de área alagada. A área de alagamento foi de Gamela de madeira usada na lavagem de sedimentos para mineração de ouro. cima. A mistura de ouro e mercúrio é então aquecida, fazendo com que o mercúrio evapore. A con- 2.360 km 2 (incluindo parte da terra indígena dos Waimiri-Atroari) e Balbina gera ínfimos 25 mil kw de energia. taminação por mercúrio pode vir dos gases, ou da fase de separação do ouro da areia. O mercúrio Para se ter uma idéia deste impacto, duas outras hidrelétricas construídas na região amazônica, a de Tucuruí I, em forma metálica é pouco tóxico e pouco absorvível e somente os garimpeiros que aspiram o no rio Tocantins, no Pará, e a de Samuel, no rio Jamari, em Roraima, tiveram áreas alagadas de 2430 km 2 e 560 km 2 mercúrio vaporizado apresentam envenenamento. O mercúrio passa a ter maior potencial tóxico e geram 400 mil kw e 216 mil kw, respectivamente. quando é lançado nas águas. Através de processos biológicos, as bactérias transformam o mercúrio metálico em metilmercúrio, ou mercúrio orgânico, que é mais absorvível, altamente venenoso e cumulativo nos seres vivos. Essas três hidrelétricas respondem por quase cem por cento da área total inundada na Amazônia, embora haja outras represas menores, como a Curuá-Una, no rio de mesmo nome, que abastece Macapá, além de pequenas centrais hidrelétricas com baixa geração de energia. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a geração de energia elétrica brasileira precisará ser O envenenamento por mercúrio orgânico causa a chamada ‘doença de Minamata’, que ataca o expandida em 50% nos próximos dez anos. Devido ao esgotamento do potencial hidrelétrico das regiões Sul e sistema nervoso e o cérebro causando dormência nos membros, fraqueza muscular, deficiência Sudeste, 63% do potencial de expansão encontram-se localizados na região amazônica, principalmente nos rios visual, dificuldades de fala, paralisia, deformidades e até morte. O metilmercúrio ataca da mesma Tocantins, Araguaia, Xingu, Madeira e Tapajós. forma os fetos durante a gestação. 40 41 I M PA C T O S S O B R E A V I D A A Q U ÁT I C A outras localidades. Sem meios de sustento e local de habitação, os ribeirinhos muitas vezes A origem dos impactos sobre a vida aquática está na transformação de ambientes de águas mudam-se para as cidades da região, aumentando o inchaço das periferias. correntes em ambientes de águas paradas. Alterações como o aumento da profundidade, Grupos indígenas também podem ser deslocados. A construção da central hidrelétrica de Tu- redução das concentrações de oxigênio dissolvido na água, por conta da redução da veloci- curuí, por exemplo, deslocou cerca de quarenta mil pessoas, dentre as quais os índios Gavião. A si- dade da correnteza e a decomposição da matéria orgânica da área inundada, podem levar à tuação de descaso para com as populações deslocadas levou à criação do Movimento de Atingidos extinção de espécies locais. Esses efeitos podem se estender a até cem quilômetros rio por Barragens. abaixo da barragem e quanto maior for o tempo de residência da água na represa, mais acentuados são os efeitos. Piracema Movimento migratório de peixes no sentido das nascentes dos rios, com fins de reprodução. As represas também causam impactos negativos sobre os peixes que fazem a piracema. As A construção de barragens inunda grandes extensões de várzea, prejudicando os ecossistemas e a agricultura de subsistência praticada nas margens dos rios. Grandes barragens inundam áreas férteis significativas, além de perturbar o ciclo da água nos trechos rio abaixo. espécies migratórias chegam até a represa e na maioria das vezes não conseguem ultrapassar As barragens alteram o fluxo de água dos rios, minimizando a variação natural dos ciclos de o dique para atingir o local de desova rio acima. A construção de eclusas, escadas de peixes e cheias e secas. No caso dos ecossistemas de várzea, definidos em função dessa variação sazonal do elevadores visam atenuar este impacto, porém é freqüente o relato de populações ribeirinhas nível das águas, esse é um efeito desastroso. localizadas rio acima sobre a redução do pescado após a construção de barragens. Durante a fase de enchimento da barragem, muitas espécies animais sofrem com a mudança do ambiente. Somente animais de grande porte são resgatados. Muitas espécies vegetais são Uma hidrelétrica é um empreendimento de grande porte, que requer muita mão-de-obra. Atraídos pela possibilidade de emprego, a tendência é de aumento da densidade demográfica das regiões onde elas são construídas, o que com freqüência ocorre sem o devido planejamento. perdidas por não haver programas de resgate de plantas de interesse científico, industrial, medicinal e alimentar. Essa matéria orgânica em decomposição torna a água da barragem muito ácida, matando peixes e diminuindo a vida útil das turbinas. I M PA C T O S S O B R E O C L I M A Um reservatório pode trazer mudanças no clima do local onde é construído. As alterações mais A L E RTA A água é essencial como fonte de energia para o Brasil. Há necessidade de construção de mais hidrelétricas, inclusive na região amazônica, para evitar problemas como o “apagão” vivido em 2002. No entanto, não repetir os erros passados, abandonar a mentalidade de energia a qualquer custo e tentar minimizar os impactos socioambientais é o principal desafio para o desenvolvimento sustentável. 42 visíveis são: variações na temperatura, aumento da umidade relativa, pequenas mudanças na insolação, maior formação de neblinas, maior evaporação. E a velocidade do vento também aumenta. Quanto maior a extensão do reservatório, mais acentuadas as alterações. ASSOREAMENTO As águas dos rios transportam sedimentos, constituídos de matéria orgânica e solo em suspensão. Com a redução da velocidade das águas, há a deposição dos sedimentos no fundo. Este acúmulo de partículas, chamado ‘assoreamento’, pode reduzir o volume de água retida nos reservatórios, reduzindo a eficiência do empreendimento. I M PA C T O S S O C I A I S E E C O N Ô M I C O S ÁREA ASSOREADA do rio Solimões, A construção de hidrelétricas inunda uma grande área, forçando o deslocamento das pessoas exemplo de impacto ambiental que ali vivem. Muitas vezes, a compensação financeira é inferior à necessidade para instalação em presente na Amazônia. 43 A Ç Õ E S PA R A U M F U T U R O S U S T E N TÁV E L CONTROLE DA PESCA PREDATÓRIA G E S TÃ O D A B A C I A A M A Z Ô N I C A O processo de ocupação humana nas várzeas se encontra em um ponto crítico. Cada vez mais a A bacia amazônica abrange territórios de vários países. As pressões existentes sobre os recur- pesca tem sido importante na subsistência das famílias na região, mas nem sempre é realizada de sos hídricos e as tendências de agravamento exigem bons diagnósticos para a criação de um mo- maneira sustentável, podendo esgotar em poucos anos os recursos pesqueiros em um lago, se delo de gestão integrada, que considere toda a complexidade da bacia hidrográfica. Até o momen- feita em uma intensidade maior do que a capacidade natural de recuperação dos cardumes. to, não existe uma legislação comum, embora os países venham buscando integrar algumas ações. Incursões de barcos de pesca comercial de grande porte agravam o problema. Atualmente, as ações de monitoramento da bacia hidrográfica têm pouca eficiência, pois a rede O manejo da pesca nos lagos de várzea, feito pelas populações locais, tem gerado resultados hidrometeorológica não é completa e nem contínua. Somente com a integração dos serviços promissores, produzindo duas vezes mais peixes do que nos lagos não manejados. Nos lagos meteorológicos dos países envolvidos na bacia pode-se melhorar o nível de informações e propor manejados evita-se a pesca com redes de malha fina, que pegam filhotes, restringe-se a pesca programas de ampla abrangência. durante alguns meses do ano e deixam-se outros lagos intocados, para funcionar como locais de São crescentes as tendências de impactos humanos, ainda que ocorram localizadamente nas desova. Outras formas de controle da pressão sobre o pescado são a limitação do tamanho das cidades, nas áreas de mineiração, petrolíferas e agrícolas. A criação da Organização do Tratado de embarcações e a quantidade de gelo e combustível levados nas embarcações, para limitar a Cooperação Amazônica (Otca) foi uma forma encontrada para tratar desses impactos. O tratado, pescaria. O objetivo deste manejo é manter a produtividade dos lagos através do uso das artes de assinado em 1978 entre os países amazônicos, já gerou projetos e, desde 2003, vem ampliando o pesca de que as comunidades ribeirinhas já dispõem. estímulo à participação conjunta em iniciativas regionais. Porém, o tratado ainda tem menos força Apesar de ser uma boa idéia, o conhecimento sobre a ecologia dos lagos de várzea ainda é limitado, do que o exigido para o desenvolvimento sustentável da região. impossibilitando afirmações conclusivas sobre a viabilidade, no longo prazo, dos lagos manejados. LEGISLAÇÃO BRASILEIRA SOBRE RECURSOS HÍDRICOS A Lei 9.433/97 – a Lei das Águas – é o marco institucional dos recursos hídricos no Brasil e, a PESCA DO PIRARUCU como exemplo de manejo sustentável praticado por populações ribeirinhas do lago da Ilha São Miguel. partir dela, se estabelece o papel do Estado como regulador desses recursos. A lei põe em discussão a propriedade da água, o que altera profundamente a noção de bem público e vital, transformando-o em bem econômico. A Lei das Águas reitera que a gestão das águas deve contemplar o seu uso múltiplo, que deve ser integrada, descentralizada e participativa. Instituiu-se como gestores desses recursos os Comitês de Bacia Hidrográfica, formados por representantes do poder público, dos usuários e das comunidades envolvidas. A criação dos comitês transformou uma unidade territorial natural, a bacia hidrográfica, em unidade de gestão, com identidade política. Com isto, montou-se um arcabouço institucional para a gestão e deliberação sobre o uso da água. Pode ser, de fato, um processo participativo, e as decisões favorecerem a gestão dos recursos hídricos em benefício da população e da região. Porém, só poderá funcionar se conseguir articular os municípios que fazem parte da bacia, superando limites políticos-administrativos-institucionais e se garantir condições de participação a todos os atores envolvidos no âmbito da bacia hidrográfica. Do contrário, estes fatores podem ser elementos de legitimação de processos de privatização e de referendum de mercados futuros. 44 45 TRABALHANDO COM O TEMA Alguns comitês já foram instituídos no país, mas nenhum ainda em áreas de bacias fede- As atividades sugeridas a se- rais da Amazônia Legal brasileira, incluindo a do Araguaia-Tocantins. guir estão relacionadas à pro- S U G E S TÃ O PA S S O A PA S S O > ANTES DE ASSISTIR AO PROGRAMA | SENSIBILIZAÇÃO PARA O TEMA posta metodológica de eduE X P E R I Ê N C I A S N Ã O G O V E R N A M E N TA I S : O C O N S Ó R C I O M A P cação ambiental apresentada PRIMEIRO MOMENTO Na região da fronteira tríplice entre Brasil, Bolívia e Peru, envolvendo os estados do Acre (Brasil), no caderno 1 do kit. A leitura > Pergunte se alguém sabe quem é Thiago de Mello e qual a Pando (Bolívia) e Madre de Díos (Peru), um fórum de discussão, vem conquistando espaço. As desse caderno ajudará no ações de mobilização acabaram por cunhar um “selo”, o Consórcio MAP. A coordenação da orga- desenvolvimento de um projeto de educação ambiental que > Proponha uma leitura do texto “Amazônia, pátria da água”, nização do fórum anualmente é transferida para um dos países componentes. procura considerar, trabalhar e avaliar as particularidades de de autoria deste poeta. O professor pode xerocar o texto e dis- cada contexto. Questionando o porquê e para que implementar tribuí-lo entre os aluno ou, caso isto não seja possível, ler em uma proposta dessa natureza. voz alta o que esta abaixo reproduzido. Três grandes projetos de melhoria na infra-estrutura da região estão previstos: a construção de usinas hidrelétricas em Santo Antonio, em Jirau e de uma binacional; construção das estradas Guayaramerin – Yucumo e Iñapari – Ponte Inambari, além de investimentos nos quatro mil É importante lembrar que as atividades que se seguem são quilômetros de rios navegáveis. Nesta região, em 2001 a atividade madeireira atingiu aproximada- apenas algumas sugestões possíveis de estruturar o modo AMAZÔNIA, PÁTRIA DA ÁGUA como trabalhar no cotidiano da sala de aula com esses temas, Da altura extrema das cordilheiras, onde as neves são eter- O WWF-Brasil estabeleceu parceria com suas homólogas do Peru e Bolívia e vem apoiando ações aliados a uma prática educacional que valoriza a interdiscipli- nas, a água se desprende e traça um risco trêmulo na pele de capacitação, troca de experiências, planejamento e diagnóstico em conservação e manejo de naridade, a transdisciplinaridade e a expressão dos conteúdos antiga da pedra; o Amazonas acaba de nascer. A cada instante recursos naturais em áreas contínuas de floresta e na gestão da bacia trinacional do rio Alto Acre, através de diferentes linguagens artísticas. ele nasce. Descende devagar, sinuosa luz, para crescer no 3 mente 500.000 m /ano e mais de 2 milhões de cabeças de gado em 2002. bacia que já apresenta áreas com processo de erosão e assoreamento. O projeto, iniciado em 1999, Esperamos que essas sugestões de atividades se somem chão. Varando verdes, inventa o seu caminho e se acrescenta. também presta apoio à articulação entre os governos locais e representantes da sociedade civil ao trabalho já desenvolvido por cada instituição e educador... Águas subterrâneas afloram para abraçar-se com a água que organizada, como o Consórcio dos Municípios do Alto Acre e Capixaba, visando fortalecer a inte- que sirva como inspiração para que cada um crie e recrie da desceu dos Andes. Do bojo das nuvens alvíssimas, tangidas gração regional na busca de um modelo participativo de desenvolvimento sustentável. sua forma. pelo vento, desce a água celeste. Reunidas elas avançam, mul- Organizamos as sugestões de duas formas diferentes. A primeira segue passo a passo um processo de trabalho com uma proposta determinada, na qual as etapas são cuidadosamente descritas exemplificando um desencadeamento de idéias. A se- 46 sua naturalidade. tiplicadas em infinitos caminhos, banhando a imensa planície cortada pela linha do equador. Planície que ocupa a vigésima parte da superfície deste lugar chamado Terra, onde moramos. gunda sugestão indica outras possibilidades de trabalho com o Verde universo equatorial, que abrange nove países da tema que podem complementar a proposta principal, substi- América Latina e ocupa quase a metade do chão brasileiro. tui-la ou somente provocar novas idéias nos professores. Aqui está a maior reserva mundial de água doce, ramificada 47 em milhares de caminhos de água, mágico labirinto que de si QUARTO MOMENTO mesmo recria incessantemente, atravessando milhões de > Dinâmica de divisão de grupos: escreva em quatro primeiras opiniões a respeito do tema, e depois se organizarem > Após as pesquisas realizadas fora do horário escolar, os pedaços de papel, algumas características de diferentes tipos para pesquisar outras opiniões em fontes diversas. Ex: livros, grupos devem avaliar os resultados, sintetizá-los e produzir os É a Amazônia, a pátria da água. de rios. Ex.: rio de águas cristalinas, de águas brancas, de revistas, jornais, entrevistas com especialistas etc. diferentes produtos solicitados. Thiago de Mello, 1987. águas negras e igarapés. quilômetros quadrados de território verde. > Os grupos deverão ler a pergunta, debater internamente as QUINTO MOMENTO Sugestões para as perguntas/tarefas: SEXTO MOMENTO rios da bacia amazônica mostrados no programa, que lembrem > Vocês acham que o homem interrompe o fluxo das águas de > Cada grupo irá apresentar para a turma o seu produto, ler dos rios ou igarapés que costumam freqüentar e que escolham um rio, em todo ou em parte, para suprir algumas de suas SEGUNDO MOMENTO um desses rios, tentando se aproximar dele. Pensem na sua necessidades básicas? Se a resposta for sim: como, quais são > Após as apresentações, abra uma roda de conversa e pro- > Assista o programa com a turma. cor, no seu tamanho, no que há em suas margens. essas necessidades e que impacto esta interferência do homem voque reflexões a partir do que foi apresentado. Leve-os a > Enquanto a turma estiver de olhos fechados coloque um causa no ambiente local. Expresse os resultados da sua perceber os diferentes tipos de relações que se estabelecem: TERCEIRO MOMENTO papel, confeccionado anteriormente, em cada canto da sala ou pesquisa através de maquetes. Lembrem-se de que a sucata é os elementos da natureza entre si, formando o ciclo da água; > Reflexões sobre as imagens e conteúdos do programa. pátio etc. um ótimo material para ser reutilizado. o homem interferindo neste ciclo; a relação de dependência > Provoque uma conversa sobre as idéias e imagens utilizadas no texto. > Peça para que fechem os olhos e lembrem das imagens dos > Peça para que abram os olhos e olhem os papéis nos > Como a floresta influencia no ciclo da água? Explique LEITURA DE IMAGEM cantos e as suas diferentes indicações. Solicite que cada um como e o que modificará neste ciclo se a floresta amazônica Neste programa vimos um pouco da influência do pulso hidrológico sobre se direcione para o canto que mais se aproxima do que diminuir a sua extensão. Expresse os resultados da sua pes- imaginou ou lembrou. Caso a distribuição dos alunos em quise através de desenhos em cartazes. a fauna, a flora e as populações ribeirinhas na Amazônia. Aprendemos também sobre a riqueza e os problemas enfrentados pelo grande rio. a sua questão e explicar como chegou àquele resultado. do homem com o elemento água; e o tipo (qualidade) de relação que o homem estabelece com este elemento. > Para encerrar a roda de conversa, pode pedir para que um aluno releia o texto de Thiago de Mello. cada canto seja muito desigual, pergunte quem gostaria de > Como a água chega na maioria das casas do bairro da conhecer ou nadar em outro tipo de rio. Instigue as trocas nossa escola e como ela volta para os rios? Pense no camin- do vídeo referentes a este tema. Por exemplo, o professor pode escrever até que estejam formados quatro grupos relativamente equi- ho desse percurso e na qualidade da água ao entrar e ao sair. > Proponha, como forma de socialização do trabalho, que a “rio Amazonas” no quadro e pedir que os alunos lembrem dos peixes librado numericamente. Expresse o resultado da sua pesquisa através de dramatiza- turma realize em outras turmas a apresentação do trabalho mencionados no vídeo, dos problemas relacionados às nascentes, do > Distribuição de tarefas para o grupo: em um saquinho ou ção (cenas de teatro). deles. Pode também ser organizada uma apresentação para os manejo da pesca, etc. Quando os alunos não lembrarem mais, o profes- caixinhas, deposite quatro perguntas dobradas em tiras de > Vocês sabem como e onde o rio Amazonas se forma e papel. As perguntas deverão vir seguidas de uma orientação onde ele acaba (deságua)? Por onde ele passa e quem por para que os resultados da pesquisa realizada sejam expres- ele passa? Expresse os resultados da sua pesquise através sos através de diferentes linguagens artísticas. Deixe que de um poema. Uma forma interessante de fazer a “leitura de imagem” é escrever palavras-chave no quadro e pedir que os alunos lembrem os conteúdos sor pode escrever novas palavras-chave, como por exemplo, “pulso hidrológico”, até terminarem os conteúdos do programa. Esta é uma forma dinâmica e que estimula os alunos a entender os conteúdos e a construí-los coletivamente. SÉTIMO MOMENTO pais, seguida de um debate, mediado pelo professor ou por um especialista convidado. cada grupo sorteie o seu papel/ tarefa. 48 49 BIBLIOGRAFIA OUTRAS SUGESTÕES DE ATIVIDADES: > Realize uma experiência com diferentes tipos de sedimentos (folhas, terra, areia, cascas de legumes e frutas) em copos de água. Peça que observem o tempo que cada elemento levou para chegar ao fundo; qual deles tornou a água mais imprópria para uso doméstico... Converse sobre: como podemos tornar a pedagógica sugeridas nesse capítulo mesclam conteúdos de diferentes disciplinas. Elas podem fazer parte de um projeto integrado, quando cada educador desenvolve suas especificidades ou ser desenvolvidas por um único educador. É importante elaborar um projeto de trabalho que estabeleça metas e água própria novamente, e quais os diferentes processos de fil- objetivos, criando um encadeamento das atividades, passo a passo, tragem. Reflita sobre a importância das plantas nesse proces- mesmo que durante o trabalho ele seja alterado. A intenção e o profun- so e a necessidade de cuidarmos do solo. damento do trabalho dependerá das prioridades e necessidades do grupo. > Desenvolva um miniprojeto sobre ‘usos da água no cotidiano’: para que se usa, como medimos a quantidade de água utilizada por cada um, os cuidados necessários para garantirmos a qualidade e a sobrevivência desse bem tão importante para a vida do planeta. > Explore o tema a ‘água como veículo de transporte’. Realize uma exposição com diferentes tipos de embarcações confeccionadas pelos alunos. > Pesquisem a forma como são denominados os rios de porte menor e suas características nas diferentes regiões do Brasil. Ex.: igarapés, riachos, córregos, arroios e outros. 50 ARAGON, Luis E. e CLUSENER-GODT, Miguel (orgs.). Problemática do uso local e global da água da Amazônica, I M P O R T A N T E > As atividades práticas/teóricas e a proposta Esteja aberto para as propostas e demandas dos alunos, todo planejamento pode e deve ser revisto e avaliado. Belém: Naea, 2003. CARVALHO, Thereza Christina Santos e DRUMMOND, João Batista Câmara. GEO Brasil 2002. Perspectivas do meio ambiente no Brasil, Brasília: Edições Ibama, 2002. CIÊNCIA E CULTURA. Gestão das águas. Revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ano 55, n. 4, out/nov/dez 2003. LEONARDI, Victor. Os historiadores e os rios. Natureza e ruína na Amazônia brasileira, Brasília: Paralelo 15 e EdUnB, 1999. MEIRELLES FILHO, João. O livro de ouro da Amazônia. Mitos e verdades sobre a região mais cobiçada do planeta, Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.