Gestão da Cadeia de Abastecimento – Relevância para a
Logística Permanente do Exército
CONCEITOS ESTRUTURANTES DA CIÊNCIA LOGÍSTICA
Parte II: Gestão da Cadeia de Abastecimento – Relevância para a Logística Permanente1 do Exército.
Cap AdMil António Machado
Fruto sobretudo da competitividade das empresas, que procuram a todo o tempo disponibilizar os seus
produtos e serviços no mercado na melhor relação qualidade/preço, garantindo desse modo superioridade
competitiva sobre a concorrência, as organizações comerciais desenvolveram, não há muito tempo, o conceito de
Suplly Chain Management (Gestão da Cadeia de Abastecimento).
Este conceito, que corresponde de uma forma geral a uma perspetiva de gestão dos fluxos logísticos desde
os fornecedores até aos clientes, passando por todas as divisões internas de uma organização, consiste em analisar e
monitorizar o funcionamento de todos os elos desta cadeia, procurando obter ganhos de eficiência ou por via da
redução de custos ou igualmente através do
incremento da qualidade dos produtos e
serviços.
O Exército Português, ramo das Forças
Armadas com a missão principal de participar
de forma integrada na defesa militar da
República2,
organiza-se
numa
estrutura
vertical e dispõe de um dispositivo territorial
com mais de uma centena de Unidades,
Estabelecimentos e Órgãos (U/E/O) presentes
Fonte: http://www.argentus.com/supply-chain-jobs-scm-jobs/
em quase todos os distritos de Portugal
continental, bem como nas regiões autónomas
dos Açores e da Madeira.
1
Por logística permanente neste artigo entenda-se a logística corrente conduzida pelas entidades de direção e de execução, bem como pelas
demais Unidades, Estabelecimentos e Órgãos do Exército, quando não se encontram em teatros de operações.
2
Decreto-lei 231/2009 de 15 de Setembro – Lei Orgânica do Exército
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Logística Permanente do Exército
Este dispositivo de forças, que alberga um efetivo aproximado de 18000 militares na efetividade do serviço3,
acompanhados dos correspondentes equipamentos militares, encontra-se ligado e relaciona-se através de níveis de
autoridade, e a sua sustentação
logística assenta em diferentes
fluxos
logísticos
conforme
que
o
variam
tipo
abastecimentos/serviços
localização
específica
de
e
de
a
cada
Unidade militar.
A utilidade de uma Gestão
da Cadeia de Abastecimento (GCA)
é
assim
inquestionável
e
de
reconhecida importância para este
ramo
das
Inúmeros
Forças
estudos
frequentemente
Armadas.
têm
sido
desenvolvidos,
tanto ao nível de Estado-Maior
como nas Escolas do Exército,
Fonte: http://www.exercito.pt/unidades/Paginas/Distribuicao.aspx
sobre a logística em geral e a
cadeia
de
abastecimento
em
particular, tendo a restruturação da última década preparado já a instituição para uma gestão mais funcional.
Descodificar a Gestão da Cadeia de Abastecimentos
José Crespo de Carvalho, na sua obra “Logística e Gestão da Cadeia de Abastecimento”4 destaca duas
definições de GCA de outros autores: Uma em que visualiza a GCA como a gestão das relações estabelecidas a
3
4
http://www.exercito.pt/unidades/Paginas/Distribuicao.aspx
Carvalho, José Crespo - Logística e Gestão da Cadeia de Abastecimento. Lisboa: Sílabo, 2012
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Logística Permanente do Exército
montante e a jusante com os fornecedores e os clientes, visando o incremento de valor no cliente final com custos
mais reduzidos em toda a cadeia de abastecimento. Uma outra definição em que a GCA envolve o planeamento e
gestão de todas as atividades de sourcing e procurement5, bem como a gestão das atividades logísticas de uma
organização.
Estas são duas de inúmeras definições de GCA que é possível encontrar atualmente mas que apresentam as
principais perspetivas com interesse para este artigo. A primeira definição apresenta uma perspetiva de gestão da
cadeia
de
abastecimentos
mais focada nas
ligações
externas
da
organização,
assente
na
cooperação
e
coordenação de
relações
com
fornecedores e
clientes.
segunda
A
Fonte: http://www.almc.army.mil/alog/issues/sepoct02/ms774.htm
definição
apresenta uma perspetiva operacional da cadeia logística com atenções mais concentradas nos fluxos físicos dos
abastecimentos e nos processos internos da organização.
Numa ótica mais militar, o Exército Norte-Americano define a GCA como "the management of all internal
and external logistics processes, information, and functions necessary to satisfy a customer's requirement. The
management of the interdependent logistics processes of customer response, inventory planning and management,
5
Conceitos associados à otimização da aquisição de materiais e serviços, garantida através da gestão de fornecedores, desenvolvimento de
técnicas de negociação, economia e eficiência de processos, entre outros fatores (Deloitte, 2014).
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Logística Permanente do Exército
warehouse management, transportation, supply, maintenance and reverse logistic”6. Esta definição adiciona às
anteriores a relevância dada à logística inversa pelos militares, ainda que esta atividade esteja também implicita nas
preocupações das organizações comerciais.
Os objetivos
Dependendo naturalmente do estado e particularidades de cada organização, a GCA pode resultar em
concreto em diversas vantagens (Carvalho, et al., 2012) donde se destacam:

A redução das ineficiências na organização;

O aumento da visibilidade e da partilha de informação ao longo de toda a cadeia logística;

A redução do tempo de ciclo da cadeia logística;

O encurtamento da cadeia de abastecimento;

O planeamento integrado;

A sincronização da produção com a procura;

A focalização na satisfação das necessidades dos clientes finais.
Otimizar as relações externas
Para atingir estes objetivos a GCA pode envolver externamente, como já referido, os fornecedores e os
clientes da organização, procurando alinhar as cadeias de abastecimentos das várias entidades em colaboração,
reduzindo a necessidade de stocks de segurança, as operações redundantes sem valor acrescentado e conferindo
assim previsibilidade ao longo de toda a cadeia de abastecimento7.
Para este efeito, uma das técnicas de colaboração mais frequentes, a VMI (Vendor Managed Inventory),
passa por transferir a responsabilidade da gestão de stocks para o fornecedor, permitindo-lhe o acesso a informação
sobre os movimentos dos abastecimentos dentro da instituição. O fornecedor monitoriza assim os níveis de stocks
dos seus artigos no cliente e assume a responsabilidade pela reposição dentro dos parâmetros acordados sem
necessidade de colocação de encomendas mas apenas da disponibilização de informação (Carvalho, et al., 2012).
Maiores graus de integração e sincronização entre fornecedores e clientes permitirão pôr em prática outras
6
7
http://www.almc.army.mil/alog/issues/sepoct02/ms774.htm
Carvalho, José Crespo - Logística e Gestão da Cadeia de Abastecimento. Lisboa: Sílabo, 2012
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técnicas. Destacam-se a CR (Continuous Replenishment), que depende já de plataformas tecnológicas de partilha de
informação que disseminam dados mais atualizados e numa maior extensão ao longo da cadeia de abastecimento,
atingindo ainda uma maior redução nos stocks de segurança e garantindo um fluxo contínuo de produtos de acordo
com o consumo. E também a CPFR (Colaborative Planning, Forecasting and Replenishment) que aparece na
continuidade das técnicas anteriores e que, como o nome sugere, além dos processos referidos anteriormente,
partilha os próprios processos de planeamento e previsão de consumos operando num horizonte temporal ainda
mais alargado8.
Otimizar os processos internos
Internamente a cadeia de abastecimentos atravessa grande parte, senão a totalidade, dos setores funcionais
de uma organização, desde a aquisição e receção de materiais e matérias - primas, passando pela produção e a
transformação, o armazenamento e o transporte, até à venda e distribuição/disponibilização de produtos e serviços.
Destacam-se contudo as áreas de armazenagem/distribuição e dos transportes.
Na área da armazenagem/distribuição, a estruturação da cadeia de abastecimentos em termos de número e
localização de armazéns tem em conta os custos das instalações, dos recursos humanos, de inventário e de
transportes entre outros, sendo ainda relevante para a decisão a variabilidade e intensidade da procura.
A centralização das operações de armazenagem/distribuição garante uma redução de custos de stock,
economias de escala nas instalações e recursos humanos, bem como oportunidades de otimização dos transportes
(custos unitários mais baixos), enquanto a descentralização promete prazos de entrega mais curtos e custos totais
de transportes mais baixos.
Os transportes são muitas vezes o principal componente logístico, representando uma parte significativa dos
custos. Além disso têm impacto nos tempos de entrega, na segurança dos produtos, na pegada ambiental e até
mesmo na imagem da organização.
A otimização desta cadeia passa então pelo seu próprio desenho mas também pela forma como funciona,
fazendo avançar os abastecimentos pelos vários elos da forma mais eficiente possível, dependendo naturalmente
das particularidades de cada organização.
8
Idem
5
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Logística Permanente do Exército
O percurso dos abastecimentos pela cadeia ocorre através dos conceitos push e pull conforme este se baseie
em previsões de consumo ou em respostas efetivas à procura, respetivamente. Raramente uma cadeia de
abastecimentos é totalmente push ou totalmente pull, sendo mais frequente uma combinação dos dois métodos,
sendo o momento de passagem entre os métodos designado de ponto de desacoplamento e cuja adequada
localização faz com que seja possível responder da melhor maneira às necessidades específicas de cada secção da
cadeia de abastecimento.9
Naturalmente que o conceito de GCA, como atividade que procura obter elevada eficiência, envolve um
determinado nível de risco. Ao procurar eliminar as redundâncias e desperdícios, reduzem-se também as
possibilidades de fazer face a certos imprevistos. Compete ao decisor definir o grau de risco aceitável e tomar as
opções
adequadas
em
conformidade.
Dito isto, percebe-se que
a GCA consiste numa atividade de
gestão integrada, que além de
abranger os setores internos da
organização de forma transversal,
compreende ainda as relações
com
entidades
externas,
envolvendo seguramente grande
parte dos responsáveis executivos
Fonte: http://www.metalez.com/scm.cfm
das organizações. Significa isto ser
conveniente que o “Gestor” da Cadeia de Abastecimento deva possuir as competências necessárias e suficientes
para coordenar os aspetos logísticos que atravessam as diferentes áreas de responsabilidade da organização.
A Gestão da Cadeia de Abastecimentos no Exército já começou…
A restruturação do Exército iniciada em 2006 representou na área logística um passo fundamental em
9
Ibidem
6
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Logística Permanente do Exército
direção a uma ótica de gestão da cadeia de abastecimento. A Lei Orgânica do Exército de 2006 converteu uma
estrutura de configuração geográfica numa estrutura de ótica funcional (consolidada com a Lei Orgânica do Exército
de 2009), terminando com os comandos regionais e criando comandos funcionais, entre eles o Comando da Logística
(Ministério da Defesa Nacional, 2006).
O Comando da Logística, além de possuir Autoridade Hierárquica10 sobre as U/E/O com responsabilidades de
direção e execução logística, detém Autoridade Técnica11 e Autoridade Funcional12 sobre todas as U/E/O do Exército,
no âmbito da administração dos recursos materiais e financeiros, de transportes e infra-estruturas do Exército.
Também
os
estabelecimentos
fabris do Exército,
ainda que dotados
por
lei
de
personalidade
jurídica
e
autonomia
administrativa
financeira,
sujeitos
e
estão
aos
poderes de direção
e fiscalização do
Comando
da
Fonte: http://www.almc.army.mil/alog/issues/sepoct02/ms774.htm
Logística.
10
Autoridade hierárquica corresponde ao comando completo e verifica-se sem prejuízo de outras dependências que sejam
estabelecidas. (Ministério da Defesa Nacional, 2009)
11
Autoridade Técnica é a autoridade conferida a um órgão para fixar e difundir normas de natureza especializada, e não inclui a
competência disciplinar. (Idem)
12
Autoridade funcional é a autoridade conferida a um órgão para controlar processos, no âmbito das respetivas áreas ou atividades
específicas, e não inclui a competência disciplinar. (Ibidem)
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Gestão da Cadeia de Abastecimento – Relevância para a
Logística Permanente do Exército
Foram assim asseguradas as condições estruturais necessárias para a implementação e desenvolvimento de
uma GCA no Exército.
Experiências de implementação de uma GCA noutras organizações permitem pensar em benefícios
interessantes para o Exército como uma possível redução de stocks nalgumas classes de abastecimentos e
simultaneamente menores custos de gestão ao longo de toda a cadeia de abastecimento; o uso mais eficiente dos
recursos humanos empregues em atividades logísticas, ao nível das entidades de direção logística, entidades de
execução logística e também ao nível das U/E/O; a libertação de recursos das atividades de sustentação para as
atividades operacionais; a melhoria na imagem geral do Exército; e uma maior confiança na cadeia de
abastecimento, diminuindo a ampliação exagerada de necessidades.
Dadas as caraterísticas específicas do Exército como instituição militar, são contudo naturais alguns desafios
como por exemplo a criticidade da partilha de informação com entidades externas sem por em causa a segurança
militar, ou o dilema de dispor de uma organização eficiente e manter a capacidade para eficazmente transitar de
uma situação de tempo de paz para uma situação de campanha.
Conclusões
A GCA é assim um conceito central não só para as organizações comerciais como também para as
organizações não comerciais, que procuram melhorar a eficiência dos fluxos logísticos desde os seus fornecedores
até aos seus clientes ou pontos de consumo.
Essa eficiência é conseguida sobretudo através da rentabilização das capacidades logísticas das organizações,
reduzindo os custos de funcionamento da estrutura ou promovendo uma maior qualidade na disponibilização de
produtos ou serviços.
O Exército Português reúne neste momento as condições estruturais necessárias para o desenvolvimento da
GCA, que evidentemente contribui para o prosseguimento dos objetivos institucionais. Os potenciais ganhos na
gestão dos abastecimentos, na otimização dos recursos humanos, na economia de recursos materiais e financeiros,
conjugados com a atual conjuntura fazem com que seja mais do que nunca oportuno.
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