Copyright by ALEXANDRE AZEVEDO DE OLIVEIRA Capa: Foto da onça - A.M.S. edições e publicidade Ltda. Tel.: (092) 232-9346 Foto do por do sol - Jorge Lima Computação gráfica - Multimídia Tel.: (092) 232-4805 Revisão: Diálogos em Espanhol - Freddy Espinoza Digitação - Narcisa Lúcia Ferreira Gramatical - Cel Prof. Levy Nunes da Silva Literária - T Cel Prof. Vicente W. Moura Gaeta AMOR E ÓDIO no INFERNO VERDE “... ótimo trabalho onde muitas vezes o poético se faz presente através de atraente lirismo. As descrições são de uma beleza ímpar, sentindo-se a natureza em toda a sua exuberância. Um casamento perfeito entre o “colorido” da mesma e dos personagens, perfeitamente adequados ao seu papel na história. A narrativa flui naturalmente, permitindo uma leitura agradável e atenta... Por isto, recomendo este excelente romance, certo de seu êxito editorial.” José Maria de Souza Dantas, Ex-presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro, Professor universitário de literatura e escritor. Nota do autor Esta é uma obra de pura ficção. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas, fatos ou ocorrências, é mera coincidência. Foi preservada a linguagem coloquial dos personagens, com uso corriqueiro de pronomes. “A coragem de morrer é a do soldado, a coragem de matar é a do assassino, do louco, do criminoso”. Rui Barbosa “Morrer se preciso for, matar nunca”. Marechal Rondon, a respeito da pacificação dos índios. “Senhor, quantas vezes devo perdoar o meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? - perguntouLhe Pedro. Respondeu Jesus: “Não te digo até sete, mas até setenta vezes sete”. Um dia, uma menina de oito anos, surpreendeume: Você gosta tanto de ler, papai! Porque não escreve um livro? Alguns anos se passaram e a semente lançada na minha mente germinou, cresceu e frutificou. Finalmente, eis a resposta, Débora! A você e ao seu irmão, André, dedico esta singela obra. INTRODUÇÃO Nosso romance desenrola-se na Amazônia Brasileira, na fronteira com a Colômbia, no correr dos anos 60. Época em que as Forças Armadas derrubaram o governo civil e instalaram-se no poder, permanecendo por duas décadas. Uma das suas iniciativas mais importantes foi dar prioridade à ocupação mais efetiva da Região Amazônica, por questão de segurança nacional. Verbas vultosas foram destinadas à execução de infra-estrutura básica nos pequenos po- voados e cidades daquela área, como estradas, usinas de energia elétrica, escolas, bancos, etc. Apesar dos excessos da repressão violenta aos grupos de esquerda, inconformados com a ditadura, é inegável que as obras citadas acima vieram dar-lhe um grande impulso. À engenharia militar coube a realização de muitas tarefas de grande expressão. O capitão Rodrigo, personagem principal desta saga, participa da missão descrita, vivendo no dia a dia as dificuldades de construir em região de difícil acesso. Convive, neste mister, com pessoas de outras nacionalidades, que o envolvem profundamente e vão contribuir para enriquecer estas aventuras de AMOR e ÓDIO no INFERNO VERDE. CAPÍTULO I O sol da Amazônia batia forte no rosto do jovem capitão, enquanto a lancha avançava célere pelo grande rio Amazonas, na parte montante, chamada Alto Solimões. A água respingava-lhe o rosto bronzeado e sua expressão continuava preocupada. O dinheiro para o pagamento dos trabalhadores havia sido roubado do cofre. A responsabilidade era sua, embora o detentor da chave e do segredo fosse o Sargento Souza. Fazia três meses que chegara a Tabatinga, base militar na fronteira do Brasil com a Colômbia, e muitas coisas aconteceram. Como engenheiro chefe da Residência Técnica, subordinada diretamente a Manaus, estava incumbido de realizar as obras do exército naquele fim de mundo. Viera do Rio de Janeiro e a mudança de um grande centro para uma pequena Vila Militar, ainda causava-lhe estranheza, talvez um vazio, que era superado pelas emoções singulares de suas novas atividades. Doía-lhe a saudade de Marinete, uma jovem com quem namorou por quatro anos no Rio de Janeiro. A bem dizer, um romance colorido. Nunca teve intenção de casar-se, porém via agora que a longa distância não apagava a doce imagem da amada. Vinham de Benjamin Constant, cidade pequena do outro lado do rio, onde fizera contato com as olarias, agência bancária e uma serraria. Neste instante, aproximam-se das margens, já em Tabatinga. O grande disco solar parecia penetrar nas águas e o céu estava avermelhado, emoldurado pelo verde das árvores. A água ondulada e barrenta refletia os raios do sol e assemelhava-se a um espelho líquido. No alto, a revoada de periquitos, em tão grande número qual uma nuvem, passava, indo não sei em que direção, para aninhar-se nas copas das árvores mais altas. Um lindo crepúsculo anunciava a noite próxima. O calor arrefecera e uma sensação agradável, mais confortante, fazia-se sentir. O Sargento Souza habilmente manobrou o barco, atracando no pequeno cais de madeira. Saíram em direção à Residência Técnica, local não só de trabalho, mas também de moradia. O oficial voltou-se para a face moreno jambo do auxiliar imediato. Possuía estatura menor que a sua, tipo mais para caboclo, embora com os cabelos um pouco crespos, influência do negro. Entretanto, apresentava lábios finos e nariz afilado. Fixou-lhe o olhar, tentando ler, penetrar-lhe no recôndito da alma e descobrir algo que o denunciasse. Por mais que o fizesse, a serenidade do jovem, de vinte e oito anos, nada traia. A cabeça, às vezes, latejava-lhe, pensando “como iria explicar o fato ao Coronel Décio”, seu chefe em Manaus. Lembrou-se da frase do chefe de polícia federal de Letícia, onde fora inicialmente em busca de auxílio: “O detentor é o ladrão. Só pode ser o sargento”. A pose do policial, de alta estatura e forte convicção, impressionou-o. Não obstante, uma voz íntima dizia-lhe, do fundo do coração, que não podia ser esta a verdade. Paralelamente, subordinava-se disciplinarmente ao comandante da guarnição, Coronel Hans. Na verdade, seria obrigado a contar o ocorrido aos dois e não sabia como reagiriam. Acrescente-se ao problema, que o dinheiro destinava-se a pagar fornecedores de areia, tijolos e aos trabalhadores civis. Os primeiros poderiam esperar um pouco, contudo os últimos passariam privações. Nesta noite, cerca de vinte horas, dirigiu-se para a residência do velho Hans. Sua esposa, Dona Míriam atendeu-o e mandou que aguardasse na varanda. Sentou-se em uma cadeira de vime e seu olhar perdeu-se, perscrutando o ambiente ao redor. À esquerda, viam-se as casas dos oficiais. Em um segundo plano, começavam as residências dos sargentos, todas brancas. Havia uma grande praça gramada, com uma palhoça bem grande no centro para reuniões. À direita, localizava-se o grande pavilhão do comando da guarnição. Aí situava-se a administração. Lembrava um casarão colonial, embora com arquitetura despretenciosa. Nisto chega o chefe. Levantou-se, perfilando-se e cumprimentou-o. - Boa noite Coronel. - Boa noite, rapaz. Como é que vai? Aconteceu alguma coisa? Pressentia este a gravidade do momento. Os olhos do velho estavam mais azuis do que nunca. Rosto alongado, faces coradas, cabelos louros, estatura elevada, magro e empertigado, mais parecia um oficial prussiano. Não era de estranhar, pois era filho de pais alemães. A sua figura irradiava autoridade, impressionava e mesmo intimidava os comandados. Rodrigo, contrafeito, respondeu-lhe: - Sim, aconteceu um incidente bem grave. - O que, rapaz? - costumava chamar assim os subordinados. - O dinheiro do cofre, que chegou anteontem, para pagamento do pessoal e fornecedores! Foi roubado! - Como! Não é possível! Você não tinha a chave e o segredo? - aumentou o tom da voz, surpreso, com ar de censura e indignação. - Desde que cheguei há três meses, o chefe da residência anterior explicou-me que a chave e o segredo estavam com o Sargento Souza. Antes dele já assim era. Confiavam plenamente no graduado. Gostei do esquema. Na verdade era mais cômodo. Além disso, sempre tudo ocorrera bem. - E agora, o que pretende fazer? - perguntou-lhe irritado o comandante. - Primeiro pedi ao chefe de polícia de Letícia que por cortesia fizesse um exame policial. Tiraram várias impressões digitais, dentro e fora do cofre. - Quem você pensa que roubou o dinheiro? O olhar do alemão pareceu-lhe mais penetrante e a voz adquiriu um tom metálico, frio. - O policial colombiano acha que só pode ser o Sargento Souza. Mas acho que não. Não tem pinta de ser ele. Tenho uma suspeita de um sargento que se apresentou agora - o Moraes. Está morando na Residência, no mesmo quarto do Souza. O mistério é que não tem o segredo e a chave do cofre! O capitão estudou-lhe a expressão, querendo saber sua reação. Pareceu-lhe surpreso, intrigado. Não denotava desconfiança, felizmente, consigo. - Capitão, você tem que descobrir de qualquer maneira quem roubou o cofre, senão vai assumir toda a responsabilidade. Entrou em contato com Manaus, relatando o fato ao Coronel Décio? - Não! Mas farei logo de manhã. Depois de algumas considerações do superior, despediu-se formalmente e saiu pela vila, preocupado e pensativo: Que enrascada! Como ia sair desta? A posse da chave e do segredo pelo sargento não eximiam o chefe da Residência Técnica da culpa. A guarda do dinheiro era responsabilidade sua. Não tinha como escapar. Ia caminhando pela calçada principal da vila, absorto em reflexões. Olhou o relógio. Eram oito horas e trinta minutos. Lembrou-se de Jucimar, uma bela cabocla que era caixa do almoxarifado e a mais bonita da vila. Possuía os cabelos longos e sedosos, olhos castanhos escuros, graúdos e ligeiramente oblíquos. Cintura fina, com uma bunda carnuda e saliente. Pernas grossas e bem torneadas. O tipo físico era comum naquela área, em que o sangue índio e branco misturavam-se. O singular era a beleza da jovem. Sem dúvida, por todos considerada a mais atraente, a mais cobiçada. Fervia de desejos ao pensar nela. Infelizmente, não tinha conseguido conquistá-la. Na primeira vez que saíram, confessou-se apaixonada por um tenente que partira recentemen- te. Desiludida pelo oficial, decidiu-se não se entregar à nova paixão. Falou de uma maneira, ao mesmo tempo, magoada e arrogante, que o irritou. Concluiu, agressiva: - Não gosto de você. Amo outro! - A afirmativa em tom de desafio fez o capitão perder a cabeça. Plá...Plá...Plá. O som de três bofetadas feriu o ar. Ambos ficaram atônitos! Esta cena não estava prevista! Por momentos, a moça permaneceu estática, fitando-o revoltada com a violência do gesto, o rosto ardendo. A seguir saiu correndo. O engenheiro sentiu-se totalmente frustrado. Perdia uma conquista que lhe parecia certa. Aquele tesão de mulher, pensou, nunca seria seu. Veio-lhe à mente o roubo do cofre. “Decididamente, uma desgraça nunca vem sozinha!” Agora, no entanto, estava intrigado. Confidenciara ao jantar, por desabafo, com o cabo Nogueira, auxiliar do hotel militar e amigo de Jucimar. O cabo nutria grande simpatia por Rodrigo. Ouviu-o atento e sensibilizou-se. Comentou em seguida: - É que esta menina não dá sorte, Capitão. Só querem se aproveitar. Deixa comigo, chefe. Vou falar com ela e dar um jeito de fazer a sua cabeça. Pela manhã, quando se dirigia para a lancha rumo a Benjamin Constant, ficou agradavelmente surpreso. - Capitão! Capitão! Era o cabo Nogueira. - Falei com a Jucimar. Ela quer lhe ver hoje, às nove horas da noite. Seu olhar era maroto, prometedor. Ficou esperançoso. A lembrança, contudo, das bofetadas que lhe dera desanimava-o. Parou o carro em frente a uma casinha branca. Jucimar esperava-o. Estava mais gostosa que nunca, uma deliciosa figura e de extrema sensualidade. - Rodrigo, pensei bastante no que você fez ontem. Cheguei à conclusão que você gosta realmente de mim, senão não teria me esbofeteado. O militar ouviu-a agradavelmente surpreso. Quando deu-lhes os tapas foi por puro desespero. Nunca pensara em consegui-la deste jeito! Entraram no jipe. - Vamos passear um pouco, na estrada do aeroporto de Letícia. - sugeriu à menina. Apertou tenso o acelerador. “Lá é bem deserto...”, pensou ardilosamente. Passaram pela fronteira. Atravessaram toda a cidade, aliás, bem simpática. As ruas estavam um pouco desertas. No bares, colombianos bebiam aguardente de anis, jovens tomavam suco de carambola. Ouviu um cumprimento: - “Capitan” Rodrigo! Respondeu com um aceno. Era o Sr. Efraim, comerciante local e amigo recente. Poucos minutos passados, a cidade terminava. Pegou a estrada do aeroporto, a “carretera” como a chamavam em espanhol. Esta estrada prolongava-se alguns quilômetros, dentro da mata, porém não chegava à parte alguma. “Coisa de colombiano!”, refletiu. Em local que lhe pareceu mais seguro parou. Seu coração batia forte. Olhou a jovem. Estava quieta, não dissera nada ao longo da curta viagem. Segurou-lhe as mãos, puxando-a para si. Beijou-a na boca ardentemente. Esperara por semanas e agora conseguira. Passaram para o banco detrás. Nervoso, tirou-lhe a blusa. O peito da jovem arfava. Os seios ofereciam-se-lhe grandes e empinados. Ajudou-lhe a descer a calça jeans e em seguida as calcinhas. Confirmou Rodrigo que estava diante de uma bela mulher, melhor ainda do que esperava. Percebeu-lhe a respiração forte. Desceu a mão, buscando o seu sexo. Na noite enluarada, o coaxar desritmado dos sapos continuou indiferente ao ardor dos amantes. De volta, Rodrigo lembrou-se do roubo do cofre. Ficou preocupado. O arroubo da conquista foi-lhe apenas um descanso para a mente conturbada. Deparou-se de novo com o abacaxi na mão. No dia seguinte, no escritório da Residência Técnica, chamou o Sargento Souza. Olhou indagador para o auxiliar, procurando adivinhar indício de culpa no seu semblante. “Não! Não é possível”, refletiu. A tranqüilidade do suspeito principal deixava-o constrangido. Certamente não era o homem que procurava. Resolveu inquiri-lo, contudo. - Souza, acredito que não foi você quem afanou o dinheiro! Mas quem poderia ter sido? Quem te viu mexer no segredo do cofre? - O Sargento Moraes e alguns empreiteiros estavam presentes quando guardei o dinheiro. Mas fiz discretamente, de costas, para ocultar o manejo do segredo. - A chave? Onde guardou a chave do cofre? - No meu armário, Capitão. - E a chave do armário? - Ficava sempre na minha calça, no bolso lateral. - Mas quem dorme no seu quarto? - O Sargento Moraes. Mas ele não sabe o segredo. - Afinal, de onde vem este cara? O que você sabe a respeito dele? Continuou indagando, na esperança de surgir alguma pista, qualquer idéia. - Não sei nada dele. Ouvi falar que vem do Rio de Janeiro, da fábrica do Realengo. - Procure saber no Comando se algum colega seu já serviu com ele. Vê se consegue qualquer informação. - Sim senhor, Capitão. - Mais uma coisa. Alguém colocou as mãos dentro do cofre, além de você? - Não senhor. Somente eu. - Tá Ok. Pode ir, Souza. - Bom fim de semana, Capitão! - Obrigado. - Ah! Capitão! Pode me emprestar a lancha da Residência para a pescaria desta semana? - perguntou timidamente. Costumava usá-la quase todo fim de semana, uma vez que o chefe não parecia interessar-se por pescaria. Todavia, os acontecimentos recentes deixaram-no inseguro. Talvez fosse-lhe cortada a regalia. Apesar dos fatos, Rodrigo não perdera ainda a confiança no auxiliar. Fitou-o perplexo por segundos. Condescendeu. - Pode ir Souza. Divirta-se. Era quase meio dia de um sábado ensolarado. Saiu do gabinete. A Residência Técnica situava-se longe do núcleo da vila militar, uns dois quilômetros, bem à margem do rio Soli- mões. O antigo quartel, uma simples companhia, ocupado pelos primeiros militares estava agora imerso nas águas do rio, que cavara as bordas da margem até fazê-la desabar e foi avançando, destruindo tudo. Hoje em dia, nada se vê das primeiras construções. Por isto, decidiram construir a vila militar mais recente em lugar seguro, afastada das margens traiçoeiras. A vista era bonita. Do barranco, de mais de quinze metros de altura, avistava-se a outra margem bem ao longe, e mais à montante tinha-se a ilusão de estar-se contemplando o oceano. Não se via a margem oposta, devido à extensa largura do rio. As águas barrentas corriam sem cessar. Algumas barcas e lanchas passavam ao largo. O sol estava tórrido e o ar menos úmido, neste meio-dia. Perto da Residência Técnica, espalhavam-se em volta, num descuidado alinhamento, as humildes casas dos peões, trabalhadores não qualificados que prestavam serviço nas obras. Despreocupadas, pessoas passavam. De um barco, que acabou de atracar, os pescadores logo tentavam vender os belos peixes da região e barganhavam com os moradores. O preço era bem convidativo, uma pechincha. Bem, pensou Rodrigo: “Não adianta mais esquentar a cabeça. Vou para o hotel do Bob em Letícia fazer um relax.” Dirigiu-se ao quarto a fim de colocar traje civil. Calça e camisa esporte. Calção por baixo. Em seguida, entrou no jipe. Pegou a estrada barrenta para Letícia. Transcorrido vinte minutos saltou em frente ao hotel do americano. Lembrou-se de ter recebido um recado do cônsul brasileiro em Letícia. Bob desejava falar com ele. “Quiero hablar con el capitan Rodrigo, por favor”. Resolveu antes do almoço, ir ao hotel trocar umas palavras com Bob Markovs. Este era seu nome completo. Figura interessante, o americano descendente de armênios. Montara um hotel em Letícia, capital do departamento colombiano. Como estava incipiente, o governador era nomeado pelo governo central em Bogotá. Na verdade era mais uma pousada, muito pitoresca e agradável, embora simples, exótica, bem ao gosto dos turistas americanos e europeus. Pequeno, tinha apenas quarenta quartos em volta de uma piscina, em formato de coração. Havia típica vegetação ao derredor do hotel. Como especial atração um pequeno zoológico, com várias onças, macacos, antas, capivaras, araras, periquitos, papagaios e outros animais. O prédio da administração e o restaurante ficavam de frente para a rua principal. Recentemente, o governo brasileiro, com base em informações da imprensa, expedira mandado de prisão contra o americano. Fora acusado de contrabandear animais selvagens da selva brasileira para os Estado Unidos, pelo aeroporto de Letícia. Claro que estava a salvo em Letícia. Não ia se arriscar a pisar em solo brasileiro, para ser preso. Nem precisava. Seus auxiliares caçavam os animais, macacos, onças, pássaros, tanto em território colombiano quanto no brasileiro. Entrou no escritório, após percorrer um corredor de acesso à administração. O americano de sangue armênio estava sentado à sua mesa escrevendo. A sala era simples, com as paredes brancas decoradas com objetos feitos pelos índios ticunas: flechas, arcos, tapetes ou coisas semelhantes. Havia, inclusive, um couro de sucuri enorme, ao longo de uma das paredes. Na outra, um de onça. Um certo ar de mistério e exotismo dominava o ambiente. Bob era meio calvo, pele queimada pelo sol. No rosto magro, destacava-se o nariz adunco e lábios bem finos. Mais parecia um mercador árabe. Seus olhos negros e grandes emprestavam ao semblante marcante singularidade. O modo de ser revelava grande esperteza e sagacidade. Um “selfmade man”. Chegara em Letícia quase sem nada e já tinha aviões. - Bob! - “Capitan” Rodrigo! - Como vai? O cônsul me avisou que você queria falar comigo. - “Si, como no, mi amigo”. Estou muito preocupado com esta ordem de prisão do seu governo. É tudo uma injustiça. Somente caçamos animais do lado colombiano. É permitido. Não é crime! - respondeu em espanhol. - Compreendo. Acredito que tudo foi conseqüência dos exageros da imprensa brasileira. Um certo sensacionalismo talvez. - Aceita um whisky, por favor “capitan”? - “Gracias”. Mas o que se pode fazer? - Fale com o seu chefe, o coronel Hans, para esclarecer em Brasília este mal entendido. Pretendo inclusive construir um hotel de selva do lado brasileiro, se me permitirem. - Boa idéia. Falarei com ele a respeito. Fique tranqüilo. - Juan! - dirigiu-se Bob ao seu auxiliar, um colombiano moreno, baixo e um pouco gordo. - Apanhe duas garrafas de whisky e dê ao “capitan”. Cortesia da casa. - “Si, señor”. Conversaram ainda amenidades. Depois apertaram-se as mãos. No refeitório, degustou Rodrigo o cardápio de sempre: dourado frito com feijão e arroz, uma saladinha para variar, tudo com muito katchup americano. Enquanto comia, observou o refeitório. As paredes decoradas com artesanatos dos índios ticunas. Alguns americanos, turistas, ocupavam as demais mesas. De repente lembrou-se de uma conversa com um colombiano a respeito de Bob. - “Es un traficante de coca, mi capitan!” “Exagero”, pensou. Muita fantasia havia nesta cidade de fronteira. Terminado o almoço, dirigiu-se ao quiosque em frente à piscina para bater papo com os colombianos conhecidos e tomar uns aperitivos. - “Capitan Rodrigo! Como está usted?” - anuncia-se o garçom. - Bem. Traga uma cuba-libre. - “Si, señor.” Uma voz diferente, com entonação conhecida, chamou-o inesperadamente. - “Mi capitan, como está?” Era o Sr. Efraim, dono de uma boutique, recémchegado de Bogotá e que conhecera há algumas semanas. - Então Efraim? Está vendendo muito? - Não está mal. Espero vender mais ainda para os brasileiros. Mande mais gente da vila à minha butique. É um prazer comerciar com vocês. - Ok, Efraim. Avisarei quem eu puder. - O que vai beber? - ofereceu-lhe cortesmente o colombiano. - Uma cuba-livre. De repente, uma jovem saiu da piscina com uma amiga. A sua rara beleza despertou-lhe instantânea atenção. - É colombiana? - “Si, capitan” - esboçou um sorriso malicioso ao confirmar. - “Muy bonita, no capitan? Pero es la esposa del juez”. As duas passaram perto da mesa. Alta, morena clara, rosto de deusa olímpica, belos cabelos ondulados, nariz aquilino no estilo grego e que corpo! A mulher fitou-o disfarçadamente. Seus olhares cruzaram-se. Os olhos dela, graúdos, castanhos e sensuais, faiscavam insinuantemente. Os dele, cobiçosos e fascinados. A sensação provocada pela visão foi intensa. O desejo estava escrito em sua fisionomia. - “Calma, mi capitan! Calma!” - sorriu o colombiano. - Esta mulher impressionou-me. Aqui em Letícia não tinha visto nada igual. - “Mira, capitan”. É a mulher mais bonita da cidade e é minha amiga. Vai sempre na butique. Vendi vários vestidos para ela. Parece-me, também, que o senhor não lhe passou despercebido. Vou conversar com ela para estudar-lhe a reação, com calma, para evitar confusão! - Tá legal, Efraim. Você é um amigão. Riram ambos e a seguir a conversa versou sobre Fidel Castro. Estes papos políticos estavam na moda. De repente entrou na conversa um turista cubano sentado na mesa ao lado, dizendo-se amigo de Fidel Castro. Segundo ele, trabalhara com o famoso barbudo em Havana. Saíra de lá apenas por divergências e ainda eram grandes amigos. Pelo seu modo de falar, parecia ter ocupado cargo de importância no governo. Referia-se a Fidel de maneira íntima e afetiva. Com o chefe guerrilheiro participara do início da revolução cubana, segundo relatou. Na outra mesa ao lado estavam alguns americanos. Um alourado e magro usava dois brinquinhos . Transparecialhe um jeito de gay e quase com certeza o era. Lançava uns olhares lânguidos para as outras mesas, de vez em quando. O ambiente era alegre. Jovens e crianças tomando banho na piscina. Alguns americanos, uns franceses e muitos colombianos de Letícia conversavam, nos seus grupinhos de amigos. Havia militares do lado brasileiro. Traziam esposas e filhos, aproveitando a única piscina disponível, a do hotel, em toda área da fronteira. Uma diversidade de línguas e tipos emprestava um ar cosmopolita ao ambiente. O sol escondia-se no horizonte e começava a escurecer. Os mosquitos iniciavam o ataque, ferrando as pernas de quem estava de roupa de banho, especialmente das mulheres. Quase noite, despediu-se Rodrigo dos amigos. Era sábado. Dia de festas, tanto em Letícia como em Tabatinga. Entrou no jipe e voltou para a Residência. Ao chegar, havia um recado do coronel Hans. Mandava que se apresentasse em sua casa, imediatamente. Tomou um banho, mais rápido que de costume.“Deve tratar-se do roubo do cofre. Vão me encher o saco, talvez pegue uma prisão”, falou com seus botões. Já na casa do comandante, verificou que este não era o assunto principal. Estava sentado na varanda, ao lado do coronel, uma outra pessoa - um rapaz moreno, de cerca de trinta anos, barbudo, rosto redondo e de aparência simpática. Foram apresentados. - Paulo César, este é o Capitão Rodrigo! Paulo está em Tabatinga em uma missão muito especial. Apertaram-se as mãos e o coronel explicou-lhe que se tratava de um policial, que ia desenvolver uma investigação altamente sigilosa sobre tráfico de cocaína na fronteira, especialmente sobre as atividades de Bob Markovs, pretensamente ilegais. O recém-chegado fixou o olhar em Rodrigo e indagoulhe curioso: - Capitão, o que sabe sobre o Bob? Rodrigo sentiu que sua presença no hotel e o contato recente com o aventureiro era do conhecimento do Comando. - Sei que há uma ordem de prisão contra ele por caça ilegal de animais silvestres, macacos principalmente, no lado brasileiro. Intuitivamente resolveu ser franco, revelando: - Estive com ele, hoje no hotel. Falou-me que só caçava do lado colombiano. Lá a caça e exportação de animais são permitidas. Tenciona, inclusive, construir um hotel de selva, moderno, do lado brasileiro. Ambos, o superior e o policial escutavam-no com atenção. - Olha rapaz! O Bob não é bem o que você pensa. Isto de macaco é o de menos. Suspeita-se que seja o chefe da quadrilha. Queremos saber como manda a cocaína para os Estados Unidos e para o eixo Rio-São Paulo! - enfatizou o coronel com forte entonação. - Capitão! - acrescentou o policial. - Sabemos que está sempre em Letícia e fez muitas amizades com os colombianos. Ouviu falar do tráfico de cocaína, ligado ao nome de Bob? - Sim. Porém achei um pouco fantasioso. Na verdade, se é traficante, porque a polícia não o prende? Mais a mais, não soube de nenhuma apreensão de cocaína. - Aí é que está o x do problema. A droga vai para Miami e não se sabe como. Ou sai para Rio-São Paulo - observou o policial. - Rodrigo, quero que dê apoio ao Paulo. Ninguém pode desconfiar da missão! Para todos os efeitos é um simples comerciante, estudando a área a fim de comprar madeira. - Sim senhor, coronel. Farei o que for possível. - Olha rapaz! Quanto ao roubo do cofre, não fique tão preocupado. Uma coisa tenho certeza - você não roubou o cofre porque é inteligente o suficiente para não fazer uma asneira desta. Já falei com o Coronel Décio, tranqüilizando-o. No entanto, você tem dez dias para me dizer quem roubou, nem um dia a mais. - Ok, Coronel. Obrigado pela confiança. - Mais uma coisa, rapaz. A rodovia internacional, unindo o Brasil à Colômbia, isto é, Tabatinga - Letícia, vai finalmente sair. Quem vai construir é o Batalhão de Engenharia sediado em Manaus. Iam mandar um engenheiro para cá, como fiscal da firma empreiteira vencedora da licitação. Achei desnecessário e sugeri que você seja o fiscal das obras. Para verificar o andamento, ver se tudo está correndo bem e autorizar os pagamentos quando necessário. Rodrigo ouvia-o interessado, meio em dúvida sobre a conveniência pessoal da atividade extra. O coronel percebeu, continuando: - É uma boa. Além da experiência, você vai ganhar um pro labore extra! A menção da gratificação convenceu-o de vez. Respondeu convicto: - Tá legal!Topo sim. Gostei da idéia. O chefe deixou escapar o costumeiro sorriso zombeteiro, achando graça de sua decisão rápida, ao mencionar a recompensa em dinheiro. - Bom, voltando ao Bob, o que digo a ele, desta idéia de construir um hotel de selva? Os dois ouvintes entreolharam-se, sem saber o que responder. O velho Hans franziu o cenho, os olhos azuis saltitando nas órbitas. Inquieto, passou a mão no queixo, refletindo, sem achar uma resposta imediata. - Talvez seja uma boa tática saber o que ele está pretendendo. Vamos dar corda, para estimular os contatos - interveio o policial, gesticulando com a mão direita. - É, Rodrigo, diz a ele que eu acho a proposta interessante. Vou consultar Manaus e darei depois uma resposta definitiva. Considerando o assunto encerrado, acrescentou: - Rodrigo, leva o Paulo para dar uma volta em Letícia, de modo que possa fazer um reconhecimento da cidade. A idéia pareceu boa ao capitão. De qualquer maneira, seria mais uma companhia para a esticada noturna, num sábado. O policial não parecia ser um chato e, reconhecimento à parte, devia está a fim de tomar umas cervejas. Em todo caso, procurou manter uma atitude séria, receoso de trair seus pensamentos: - Pode ficar tranqüilo - respondeu. O velho Hans sorriu ligeiramente. Pareceu-lhe que com ar um tanto malicioso. Ambos despediram-se e subiram no jipe. No trajeto entabularam conversação. - Rodrigo, me apresente as pessoas da cidade e fale o que você sabe delas, especialmente as ligadas ao Bob. - Paulo, o Bob tem dois aviões. Um pequeno, que às vezes nós mesmo alugamos, para fiscalização de obras. Os aviões da FAB permanecem cerca de uma hora apenas nos pelotões. É um tempo insuficiente para verificarmos o anda- mento das obras - interrompeu para desviar-se de um tremendo buraco na estrada. Reiniciou: - O outro avião maior vai semanalmente a Miami levando os macacos. Todo mundo em Letícia sabe disso. É legal. Você acha que a polícia colombiana deixa levar a cocaína na maior cara de pau? Umas duas vezes deram uma incerta e fiscalizaram completamente o avião. Havia uma expectativa de se achar a cocaína. Foi em vão. Só levavam macacos. - E para Rio-São Paulo, como mandam a muamba? - perguntou intrigado Rodrigo. - Não sei. Para isto me mandaram aqui. Olha! Não precisava nem dizer, qualquer indiscrição e eu posso virar defunto! - aumentou o tom de voz, excitado, o policial. - Fica tranqüilo. Também posso entrar pelo cano. - Mas, Rodrigo, a esta hora da noite é que não vamos descobrir porra nenhuma! E eu quero provar a cerveja colombiana, que me disseram ser muito boa. - Já são quase meia-noite! Vamos para o palhoção. Todo mundo vai dançar e beber lá. Fica na estrada, perto da fronteira. - É militar? - perguntou o policial, meio desanimado. - Não. É dos moradores civis. Toda garota da vila vai lá nos sábados à noite. Ao se aproximarem, perceberam a animação do clube. Homens e mulheres entravam ou circulavam em frente ao palhoção. O som da música espalhava-se contagiante. Saltaram do carro e entraram no salão. Fiel ao nome, a construção era uma imensa cobertura de palha, fechada lateralmente até um metro. O piso, um simples cimentado. Havia uma grande pista de dança, com mesas em torno. Vários casais estavam dançando. Algumas jovens bailavam sozinhas com suas colegas. Pessoas andavam pelo salão. Uma cabocla gostosa e exibida destacou-se rebolando, o que fez Paulo parar. - Olha esta sacana, Rodrigo! - É isso aí! Não te falei? Sentaram-se numa mesa e começaram a beber. Nisto lembrou-se que combinara com a Jucimar de encontrarem-se no clube. O relógio acusava quase uma hora da manhã e eis que ela aparece com a irmã. Esta, um pouco mais nova, não chegava a ser bonita de rosto, mas tinha um corpo bem feito. Em suma, era bem atraente. Teve uma idéia. - Paulo, onde você está hospedado? - No hotel do Bob. O coronel não te falou? O capitão ficou um pouco surpreso. - Pensei que você estava na casa de hóspedes da guarnição. - Não! Dá muito na pinta! Tenho que ficar fora do ambiente militar, para não despertar suspeitas. - Melhor ainda, Paulo! A minha garota está chegando com a irmã dela. Vamos ficar aqui um pouco e depois pegamos o jipe e rumamos para o hotel, com as meninas. Ficamos bebendo lá em frente à piscina, no quiosque. Você me empresta a chave do teu quarto para eu levar a Jucimar? - Rodrigo estudou a expressão do companheiro, esperando-lhe a aprovação. Continuou a argumentação: - É o tempo que você “canta” a irmã dela.Vou pedir a Jucimar para dar uma força. O que você acha? Entusiasmou-se o policial. Com um sorriso de contentamento, mostrou os dentes alvos. As bochechas, acima da barba crescida, ficaram mais rosadas e os olhos brilharam. - Ok! Ok! Claro que topo! Desde que avistara a irmãzinha de dezesseis anos de Jucimar, pusera-se de olho nela. Não era um petisco de se jogar fora naquelas bandas. Pagaram a conta e partiram. No hotel, escolheram uma mesa no quiosque e pediram quatro cuba-libres. Com discrição, Rodrigo explicou a Jucimar o plano. Enquanto iam para o quarto, a irmã dela ficaria conversando com o colega. - Será que topa ir depois com ele? - Eu vou falar com ela, mas depois que nós sairmos do quarto. Enquanto isto, deixa eles bater papo. - Tá legal. Em seguida Rodrigo fez um sinal. Paulo entendeu e deu-lhe a chave do quarto. Ao segurar o chaveiro, observou que era o número oito. Foram para a alcova. Rodrigo estava excitado pela expectativa do entrevero amoroso. Sentia a emoção do relacionamento prestes a acontecer. Ao conduzir a cabocla para o quarto, notou como ela passou à sua frente, indo adiante, ansiosa pelo momento maior. As formosas nádegas, tão cobiçadas pelos homens da vila, pareciam dançar enquanto caminhava e atiçaram-lhe mais ainda o desejo. No corredor, não se conteve. Levantando sua saia justa, apalpou-lhe, na calcinha minúscula. Adentrou a mão, tirando-lhe um gritinho de tesão. Lembrou-se que, embora tarde, um hóspede inoportuno poderia aparecer. Mais alguns metros e atingiram o quarto. Procurou abrir a porta. Não conseguiu. “Droga, número errado!”, constatou. A porta certa era a do lado. Finalmente! Aliviou-se. Entraram. Abraçaram-se. Foram para a cama, tirando as roupas apressadamente. Ligou Rodrigo a luz do abajur. Assim poderia inebriar-se com a visão da mulher. Beijou-a na boca e chupoulhe os seios. Não resistiu. Mordeu um deles. - Ah! - gemeu a jovem, usufruindo a sua fúria. A seguir, passou Rodrigo ao outro bico e apertou-o nos dentes. A jovem respondeu com outro suspiro maior. Desceu-lhe os lábios pelo ventre. Ouviu-lhe deliciado os sussuros de volúpia. Ela ajudava mexendo os quadris, como que a língua dele fosse capaz de penetrá-la. Começou a possuí-la, levandoa ao delírio. A excitação crescia em ambos. - Vem por cima, agora! - mandou Rodrigo. Obedeceu pressurosa. Ele observou-lhe o êxtase no rosto. Os olhos pareciam vidrados e emitia sons nervosos. A posição agradava-lhe, mas gostava de variar. Pediu-lhe que ficasse de joelhos, pensando em uma relação normal. Mudou de idéia, porque Jucimar evidenciou sua real intenção. Encostou-lhe o sexo, fazendo-a suspirar. Dominada por violento desejo, a jovem passou a pedir, quase gritando que prosseguisse. Rodrigo, num gesto único, puxou-a, segurando-lhe firme a cintura. - Ah! - soltou um grito. Rodrigo parou um instante, intimidado por sua reação. Depois, afoita, ela forçou-se resoluta contra o seu corpo. Era demais. Ele estava prestes a ejacular. Ela pressentiu-o e pediu-lhe ansiosa, quase uma ordem: - Não! Não! Surpreendeu-se. Nunca vira uma mulher tão ensandecida, quase beirava a histeria. Resolveu interromper, fazendo-a suspirar. A tênue luz do abajur iluminou o sexo latejante. Virouse a moça e quedou hipnotizada. Olhos semi-cerrados, apro- ximou o rosto, olhando fixo, e passou a lambê-lo gulosa. No afã de ser possuída de novo, postou-se de joelhos: Gemidos, misto de dor e prazer, cortaram o ar. Sentiu Rodrigo que lhe satisfazia a contento. De repente, começou a dar-lhe palmadas. O ato brusco excitou-a mais ainda. Passou a remexer-se freneticamente. O orgasmo incontido veio fortíssimo, até que tudo serenou. O embate amoroso fora extenuante para ambos. Dormiu não se sabe por quanto tempo. Imagens diversas vieramlhe à mente. Revoadas de periquitos passavam num lindo crepúsculo. Ouviu umas pancadas. Inicialmente pareciam sons longínquos. Não era um sonho. Batiam realmente na porta. Levantou-se. Abriu-a. Era Paulo. Já estava há quase três horas conversando com a irmã da Jucimar. A menina mostrava-se simpática, contudo achava que não ia conquistá-la, pelo menos naquela noite, e queriam ambos dormir. - Tá legal. Aguarde um pouco que já vamos. Fechou a porta. Ligou a luz do abajur. Ela continuava deitada com uma expressão angelical e os cabelos negros pendiam-lhe, desalinhados, pelo travesseiro. - Jucimar! - chamou-a, dando-lhe um beijo na face. Ela abriu languidamente os olhos. - Temos que ir. Sua irmã e o Paulo estão esperandonos - falou com suavidade. CAPÍTULO II A construção da estrada estava mesmo decidida. Rodrigo fora designado para proceder a fiscalização dos trabalhos. Achava-se, na semana seguinte, no escritório quando de supetão entrou o engenheiro da firma empreiteira, acompanhado pelo Sargento Souza. - Capitão. Aqui está o engenheiro da Andrade Fontoura. Levantou-se para cumprimentá-lo. - Muito prazer, João Bosco. Sou engenheiro da Andrade Fontoura. - Muito prazer - retrucou Rodrigo. Sentaram-se em duas poltronas. - Bem, até que enfim vai sair a estrada! Quando vocês pretendem começar? - Capitão! - era o Sargento Souza interrompendo. Contrafeito, Rodrigo perguntou: - O que é Souza? Estou ocupado! - Desculpe, mas creio ser um documento muito importante. É da polícia colombiana! Sobre as impressões digitais do cofre! - Ah! Tá legal, tudo bem. Deixa em cima da mesa. Pensou esperançoso: “Certamente vou ter alguma pista”. - Desculpe, João. - Souza, feche a porta. Só me chame se for alguma coisa muito urgente. - Sim, senhor. Com licença. Por fim ficaram a sós. Rodrigo notou que o barbudo engenheiro era robusto. Não muito alto, decerto um pouco mais do que ele próprio. As bochechas mostravam-se avermelhadas do sol. Os olhos castanhos, encimados por sobrancelhas espessas. Dentes amarelados, decerto um fumante inveterado. Contudo, o sorriso irradiava simpatia. Pareceu-lhe boapraça, aliás os gordos sempre despertavam uma receptividade favorável em Rodrigo. Devia ter uns trinta e cinco anos. Entusiasmado com a construção iminente da estrada, explicou-lhe que a maquinaria, tratores, patrol, etc. estavam sendo descarregados das balsas, recém-chegadas de Manaus. Para ganhar tempo, sugeriu que poderiam fazer um reconhecimento e checar o projeto, que aliás trazia nas mãos. O itinerário novo não seria o da estrada velha em uso, muito sinuoso, embora passasse pelo centro da vila dos civis. O Comando em Manaus escolheu outro, mais moderno. Abriram as plantas na mesa de desenho. - Tá ótimo, bem em linha reta! - exclamou Rodrigo com ar de aprovação. De repente, lembrou-se de um detalhe importante, todavia achou por bem não falar no momento. O novo traçado passava exatamente pelas jazidas de argila, próximo à olaria do quartel. O local, como dizia o próprio nome indígena - Tabatinga - constituía-se de solo barrento. Mesmo na estrada antiga, durante as chuvas que eram praticamente diárias, somente um veículo com tração nas quatro rodas podia trafegar. Assim mesmo, muitos ficavam atolados. Vários acidentes ocorriam, com capotamento e pessoas feridas. Mas um desvio do projeto, para evitar as jazidas de barro, oneraria o custo da obra, além de aumentar o tempo de percurso. João Bosco deu a idéia de inicialmente percorrerem ao longo da estrada existente, sem asfalto, e somente no dia seguinte, com topógrafos e material apropriado, percorrerem o itinerário novo Tendo concordado Rodrigo com a sugestão, subiram no jipe e pegaram a estrada velha. A idéia era examinar o material que constituía o solo. Sabedores que o terreno era muito barrento, intuitivamente queriam fazer um estudo in loco Ao aproximarem-se do marco da fronteira, João pediu-lhe para darem uma chegada em Letícia. Precisava conhecer melhor a cidade, particularmente as casas de material de construção. - Tá legal, Bosco. Vamos dar uma passada no centro, em seguida te apresento a alguns comerciantes e depois vamos ao consulado. Chegaram em Letícia. Eram cerca de doze horas. A cidade sempre mostrava uma face risonha. Muitas casas comerciais, bares e pequenos restaurantes. As pessoas iam e vinham pelas ruas. Como de costume, alguns bebiam aguardente de anis e tequila nos bares. Tomavam-na em copinhos, vagarosamente, conversando, diferente do modo de beber cachaça dos brasileiros. As garrafas iam-se esvaziando, sem que se dessem conta. Não raro ficavam embriagados, entretanto eram tratados com simpatia pelos demais. Os colombianos revelavam-se extremamente complacentes com os bêbados. Não costumavam molestá-los. Uma vez, o juiz da cidade, no fim de uma festa, saiu no colo dos amigos de tão bêbado que estava. Nem por isto a sua autoridade de magistrado ficara maculada. De repente, o problema do roubo do cofre veio à mente de Rodrigo. Procurava desviar sempre este assunto desagradável. No entanto, o prazo dado pelo coronel esgotavase. Agora que tinha em mãos o relatório, urgia dar uma solução ao caso. “Não hoje, com este engenheiro o tempo todo do meu lado. Amanhã verei o que se pode fazer”, pensou. Mantinha com o comandante um relacionamento amistoso. Desde o início, quando se apresentou na guarnição, notou ter havido uma simpatia mútua. Embora durão, não escondia cordialidade e certa afeição. Tal fato causava, às vezes, despeito entre os demais, particularmente ao subcomandante, Major Vieira, que o tratava com indisfarçado rancor. Todavia não podia abusar. Fosse outro, provavelmente estaria indiciado em um inquérito policial-militar. Conhecia o exército. Quando o comandante não gostava de um subordinado hierárquico, as coisas sempre ficavam mais difíceis. De qualquer maneira, reconheceu estar com sorte no infortúnio. Sentira igualmente que o problema do tóxico era mais importante que o roubo do cofre. Neste caso, contavam com a sua ajuda. Percorreram as ruas do comércio, depois, para refrescar tomaram suco de carambola, muito apreciado em Letícia. Era doce e gostoso, como em nenhum outro lugar. Lembrou-se de dar um alô e apresentar o amigo ao Sr. Efraim, quando passava em frente à butique do colombiano. Na verdade, queria saber alguma notícia da linda senhora, com quem ficara impressionado. Entraram na loja e o Sr. Efraim veio recebê-los, como sempre amável. Embora recente, a amizade entre ambos era espontânea e calorosa. Parece que havia uma afinidade espiritual. Não restava dúvida que o colombiano, comerciante esperto, aproveitava-se de Rodrigo como um elemento de ligação, para trazer os brasileiros em peso para a butique. Rodrigo levou-o uma vez à vila militar, apresentando-lhe muitos amigos, colegas e respectivas esposas, fregueses potenciais de artigos, tanto femininos, como masculinos, e de objetos artesanais, feitos pelos índios andinos. Efraim mostrava-se realmente afável no trato. Era um pouco obeso, meio calvo, olhos castanhos, um tipo bem comum naquelas bandas. As únicas singularidades - o temperamento alegre e o sorriso simpático. - Quero lhe apresentar o engenheiro João Bosco. Vai dirigir os trabalhos da estrada nova. - “Mucho placer, señor. Estoy a sus ordenes” - respondeu em espanhol. Conversaram os três uns vinte minutos. O engenheiro ficou impressionado com os artigos confeccionados pelos índios. O dono pediu a uma balconista para mostrar-lhe cada um. Aproveitando a oportunidade, Efraim dirigiu-se ao capitão, em sigilo e com uma certa malícia na fisionomia. - “Capitan” Rodrigo. Falei com Isabel. O senhor está com sorte. Ela ficou encantada consigo. Inicialmente, manteve-se tímida e reservada. Receosa para tratar de assunto tão delicado. Explicou que conseguiu fazer com que ficasse à vontade, mostrando-se conivente. Acabou por confessar: - Como é bonito o oficial brasileiro. Estou louca por ele. Revelou, com desconcertante sinceridade, que não se dava bem com o marido, indivíduo muito ciumento e grosseiro no trato. Às vezes batia nela. Não suportava vê-la cobiçada pelos homens. Na verdade não mais o amava. Insinuou que não a satisfazia como mulher. Rodrigo fora ajudado pela aparência atraente. Com trinta e dois anos, físico atlético, ombros largos, moreno claro, cabelos castanhos lisos e um belo rosto, onde se destacavam os olhos verdes castanhos, costumava impressionar as mulheres e não perdia oportunidade de conquistar mais uma. O coração bateu-lhe mais forte ao ouvir o relato de Efraim. Entusiasmou-se com a perspectiva de vir a amar a bela Isabel. Um sorriso radiante despontou-se-lhe no rosto. Os olhos cintilaram de satisfação. Apenas um sinal de preocupação toldou-lhe a mente. - Ouvi falar que o juiz é ciumento e violento. Não procurou uma vez o Bob, armado com um trinta e oito, a fim de tomar satisfação sobre um certo rumor? Falaram para ele que o americano estava de olho na sua esposa, inclusive disposto a conquistá-la de qualquer maneira. Efraim ficou meio contrafeito. Deu um passo atrás, fitando-o com ar sério. Sabia que o marido de Isabel era de fato muito ciumento e por vezes perdia o controle. Continuou olhando para Rodrigo, reflexivo, por alguns segundos e respondeu-lhe convicto. - Quem não quer se molhar, não vai para a pescaria! - esboçou um sorriso sardônico, ao terminar a frase. Por instantes mantiveram o olhar fixo, um no outro. Parecia que estudavam as reações mútuas. De repente, os dois desabaram em uma gargalhada uníssona e, sem se darem conta, abraçaram-se. - Guerra é guerra! Vamos em frente! - exclamou Rodrigo sorridente, para satisfação do amigo, quase eufórico com a trama amorosa. - Rodrigo, vou procurá-la para tentar marcar um encontro, “pero muy sigiloso”. No momento certo, no local certo - baixou o tom de voz e seu semblante ganhou um ar de mistério. Agradava-lhe o papel de cupido. - Será que ela vai topar mesmo? - Rodrigo ainda estava um pouco inseguro da aceitação por parte da jovem. Toparia ela se arriscar também? A idéia de levar um tiro de trinta e oito passou-lhe pela mente. Ouviu falar até de um caso de castração. Colombiano quando traído era bicho brabo. Refletiu que quase sempre andava sozinho em Letícia e seria uma presa fácil. No entanto, havia-se decidido e não olharia mais para trás. João Bosco, que examinava entusiasmado o artesanato, teve a atenção voltada pelas risadas dos amigos. Pensou que falavam da estrada e interveio, com explicações sobre a mesma. Após, o comerciante convidou-os para almoçarem juntos. Aceitaram e ficou combinado irem à casa do cônsul, à noite, sabido que costumava fazer uma sesta depois do almoço. Aproveitaram aquela tarde para executarem o reconhecimento da estrada velha. À noite, ambos apresentaram-se na residência do cônsul. Sua filha Lúcia veio atendê-los à porta. Era uma jovem de vinte e quatro anos. Morena clara, magra e de pequeno porte. Não se destacava pela beleza física, todavia era extremamente inteligente e simpática. Por várias vezes, quando se sentia solitário, Rodrigo ia à sua casa para bater um papo. A conversa era animada e agradável com Lúcia, que aliás falava espanhol e inglês, fluentemente. Morava em Letícia já há oito anos. - Lúcia, este aqui é o engenheiro Bosco. Quero apresentá-lo ao seu pai. - Muito prazer. Entrem, por favor. Sentaram-se na pequena sala de estar, aguardando o diplomata que se encontrava no escritório, atendendo a um turista. Estavam a tomar cafezinho, oferecido pela mãe de Lúcia, Dona Florinda, quando ele surge. Possuía personalidade e aspecto físico notáveis. Baixinho, magro, cabeça um pouco grande para o corpo franzino, os cabelos cortados à prussiana. Era um admirador do estilo militar, desde a mocidade. Frustrado o sonho, metera-se com sucesso na política. Fora deputado estadual por vezes. Por fim, não mais reeleito, contentou-se com a função de cônsul em Letícia, um local fora da disputa dos diplomatas de carreira. Contava muitas estórias sobre a vida da fronteira e pretendia escrever um livro sobre estes episódios. Às vezes exagerava. Dois coronéis, vindos de Brasília e que o conheciam de longa data, bolaram uma brincadeira. Combinaram contar o caso do jacaré, com um tamanho absurdo de grande, para ver a sua reação. O cônsul ouviu-os calmamente relatar o episódio, sem se impressionar aparentemente. Quando concluíram, apenas respondeu imperturbável. - Isto não é nada! Já vi maior! - citou em seguida, com riqueza de detalhes, o jacaré que achara na selva e matou heroicamente, com apenas um amigo. O seu jacaré atingia mais de doze metros de comprimento. Os dois coronéis mal conseguiram conter o riso. O deles era impossível de existir, quanto mais o do cônsul! - Como vai Rodrigo? - cumprimentou-o o Dr. Jairo Pessoa. - Tudo bem. Quero lhe apresentar o engenheiro João Bosco, chefe do canteiro de obras da construtora da estrada nova. - Muito prazer, doutor. Quer dizer que a estrada nova vai ser construída mesmo? Muita gente não está acreditando! - Senhor cônsul, fique ciente que até o fim do ano estará trafegando na estrada Marco-Tabatinga. Continuaram conversando animadamente. O cônsul resolveu contar alguns episódios para o visitante. Realmente era um excelente papo. Na fronteira, as televisões não conseguiam pegar os canais de modo nítido. Restavam as palestras com sabor especial e que se prolongavam pela noite adentro. Eram quase vinte e três horas quando Lúcia, discretamente, fez um sinal para Rodrigo. Queria falar-lhe em particular. Foram para a copa. Ficou curioso. Parecia tratar-se de assunto importante, talvez mais uma fofoca, coisa comum na fronteira. Havia um ar de mistério na expressão de Lúcia e uma certa apreensão anuviava-lhe o semblante. - O que é Lúcia? Diz logo qual é a nova? - arriscou com um sorriso de gozação. - Não brinca! O assunto é sério! Você se lembra de Maria? - Maria! - Sim, aquela amiga de infância que mora em Manaus. - Ah. Sim, claro! Você me falou dela algumas vezes. - Pois é, o pai dela está preso no Quartel General da Região. Foi pego quando trabalhava em uma construção. Ele é mestre de obras. Oito homens armados levaram-no para a Polícia Federal. Lá permaneceu dois dias. Depois foi transferido para o QG. - Como se chama? - Mário Alves. - Foi torturado? - Acho que sim! Após sete dias, a filha dele teve autorização para vê-lo. A visita é só uma vez por semana. Apenas vinte minutos. Claro que as condições em que se encontra representam, por si só, uma verdadeira tortura. Dia sim, dia não, é interrogado horas a fio. Os interrogadores se revezam. Para comer dão-lhe arroz meio cru e umas sobras de carne com sebo. Tudo frio. Fazem de propósito. É comida de cachorro. - Lúcia fez uma expressão de nojo. Continuou: - A cela dele não tem nenhuma janela. O calor é insuportável e os mosquitos não o deixam dormir. Encontra-se tremendamente abatido. A filha ficou arrasada ao ver a situação aflitiva do pai. - Mas Lúcia, estamos em plena revolução! Não vai me dizer que o seu amigo não é comunista militante! Lúcia, indignada, tornou-se novamente apreensiva. Emudeceu por momentos. Na excitação da conversa, levantara-se e tinha ficado gesticulando para dar mais veemência à explanação. Não obstante, agora sentou-se, deixando-se cair desalentada. Fitava Rodrigo temerosa. Este percebeu que receava contar a verdade. Refletiu por segundos. Decidiu animála, deixando-a à vontade. - Lúcia, nós nos conhecemos há apenas três meses, mas acho que somos amigos o suficiente. Não vou delatar ninguém. Pode confiar em mim. Nunca fui a favor da tortura. Cada um tem o direito de ter suas convicções. Acredito na democracia, a exemplo da que se pratica na Europa e nos Estados Unidos. A jovem pareceu encorajar-se. A responsabilidade era grande. Poderia piorar a situação do pai da amiga. Essa nunca lhe perdoaria. O capitão, entretanto, inspirava-lhe confiança. Resolveu abrir-se, embora com o coração apertado. - É comunista sim e presidente do sindicato dos trabalhadores da construção civil. Pertence aos quadros do PCB, não vou negar. - Partido Comunista Brasileiro! É o partido de Luís Carlos Prestes. Recebe orientação de Moscou. Seus integrantes fazem cursos na Rússia para atuarem como revolucionários - afirmou Rodrigo impassível e de uma maneira conclusiva. Diante deste comentário, Lúcia assustou-se. Será que confiara demais? - seu interlocutor percebeu-lhe a insegurança. - Fique tranqüila Lúcia! Já falei que de mim nada deve temer! - o tom de voz saiu mais forte, mal escondendo uma certa irritação. - Perdoa Rodrigo. Receio, igualmente pelo meu pai. É totalmente anticomunista, mas poderia perder o cargo, caso seja envolvido neste caso - falou justificando-se e decidida a contar tudo. - Ele não confessou ainda que é comunista. O partido é clandestino e a identidade dos seus membros, com exceção de alguns notórios, é mantida em segredo. Não têm certeza que seja comunista. Isto ele transmitiu para a filha na última visita. - Se é assim, porque está na cadeia? - Uma delação. O próprio marido da irmã da sua esposa. É sargento e sem dúvida considerou a ocasião uma boa oportunidade para fazer média, beneficiando-se à custa da desgraça alheia. - Um membro da própria família! Quem diria! Mas ele foi acusado do que exatamente? - O sargento denunciou-o no Quartel General. Afirmou ter certeza que o Mário Alves é comunista e não satisfeito ainda, que ele é o chefe das operações de guerrilha comandadas pelo Espanhol. Ao ouvir o nome do Espanhol, Rodrigo não gostou. Na verdade, o efeito foi semelhante a uma ducha fria. A conversa parecia estar indo longe demais. Era apenas um simples capitão. Corria o risco, como qualquer outro militar, de prejudicar-se, ao se deixar envolver com subversivos, assim chamados pelo governo. E sabia muito bem quais eram as atividades do Espanhol. Procurou, entretanto, manter a calma. Dera a palavra com sinceridade. Não queria desmerecê-la, todavia, sentiu-se pisando em terreno minado. Toda cautela seria pouca! - Lúcia, você sabe quem é o Espanhol? O que ele está fazendo? - Quem ele é exatamente não sei! Mas os jornais, rádios e televisão noticiaram com sensacionalismo. Comanda uma operação guerrilheira e anti-revolucionária, com base na ilha do Camaleão. - Onde fica esta ilha afinal? - Cerca de seis horas de viagem de barco. - Mas é muito perto! Em pouco tempo serão destruídos. E logo em uma ilha, passível de ser cercada com facilidade. Não me parecem verdadeiros profissionais - concluiu Rodrigo, esboçando um sorriso crítico. - Acontece que o “seu” Mário Alves não tem absolutamente nada a ver com esta operação, nem com o tal de Espanhol. - retorquiu Lúcia em tom de desafio, prosseguindo: - Conheço a Maria, há muito tempo. Ela não mentiria para mim. Não te falei que o pai dela pertence ao PCB? O Partido obedece à orientação de Moscou de não participar da luta armada. Eles, de fato, desconhecem quem é o Espanhol! - Será mesmo Lúcia? - indagou, desconfiado. Talvez não estivessem revelando a verdade à amiga. Achava-a ingênua nesta área política, embora tivesse certeza de sua sinceridade. A profunda amizade pela filha do “Seu” Mário podia ter-lhe turvado a percepção dos fatos. - Lúcia, esta operação guerrilheira do Espanhol não tem a mínima simpatia da população. Você não acompanhou nos noticiários, como o Espanhol e seus seguidores começaram as operações? Simplesmente tomaram de assalto uma barcaça e, já que resistiram, mataram o timoneiro e o jogaram na água. Era um pai de família e os jornais mostraram a foto da esposa e dos seis filhos do pobre homem, tomados de dor e desolação. A população ficou penalizada e, de saída, contra o Espanhol. - Eu sei, também leio jornais e assisto televisão, mas lhe asseguro que o “Seu” Mário Alves não tem nada a ver com o Espanhol - afirmou com calma e profunda segurança. O modo de falar de Lúcia pareceu convencê-lo. - De qualquer maneira os dias deste Espanhol estão contados. O efetivo das forças armadas é mil vezes superior, bem mais preparado em todos os sentidos. Mais dia, menos dia, será preso ou morto - enfatizou com ar de estar seguro do desenrolar dos acontecimentos. - Eu acredito em você, Rodrigo! Mas um inocente não pode pagar pelos outros. Muitos militantes já foram presos, torturados e mortos porque se envolveram na luta armada. O “Seu” Mário Alves é apenas um comunista. Não pode ser morto somente por ter uma convicção. Você tem que tentar ajudá-lo de alguma maneira. - Concordo com você. A mente de um cidadão não pode ser reprimida. As idéias não podem ser combatidas com violência. - Não há nada que se possa fazer? Apenas esperar e rezar, prevendo o pior? - Sou um simples capitão! Você sabe que até o meu cofre foi roubado. Se bobear ainda vou ser punido. Te contei da outra vez que estive aqui. Se nestes próximos dias não apresentar o ladrão estou frito! - Sei. Compreendo que você tem os seus problemas. Se Deus quiser você vai achar o ladrão. De qualquer maneira, não é um caso de vida ou morte! - O teu pai tem muitos amigos, inclusive generais. Por que não pode pedir a um deles? - Nem pensar. Meu pai pertencia antes a um partido de esquerda. A posição que desfruta foi conseguida com dificuldade. Quando pressentiu que eu ia falar alguma coisa sobre o “seu” Mário Alves, mostrou-se radicalmente contra. Não vai mover uma palha, com medo de se prejudicar. Quando terminou de argumentar os olhos marejavam de lágrimas. Rodrigo não podia manter-se indiferente. Estava sensibilizado e solidário com a amiga. - Tá legal Lúcia. E o que posso eu fazer nesta guerra maldita? - O coronel Hans gosta de você. Toda vez que vem aqui sempre tece comentários elogiosos a seu respeito. O subcomandante morre de inveja. Aliás não te suporta, hein! Cuidado! Lúcia terminou a frase sorrindo. Parecia aliviada e mais animada por ter conseguido a adesão do amigo. Rodrigo reiniciou: - O velho Hans quer ser promovido a general. Está na bica! Daí não vai querer se queimar, defendendo comunista. Na verdade não os suporta! E mais a mais, agora me lembro. Ele comentou satisfeito que o verdadeiro chefe da guerrilha do Espanhol tinha sido preso. É o Mário Alves! Agora entendo... Lúcia não se deu por vencida. Voltou à carga. - Rodrigo, o coronel Azambuja, chefe do serviço de informações! Ele te admira muito. Ficou encantado com as instalações que você projetou para o prédio do SNI de Manaus. Bolou até a decoração das salas. Fez referências excelentes a seu respeito. Inclusive, você serviu com ele por três anos no Rio Grande do Sul, quando ele comandava um batalhão de engenharia. Lúcia estava entusiasmada. Achava ter feito uma grande descoberta. Rodrigo, apesar disso, não ficara nem um pouquinho sensibilizado, embora concordasse com a amiga. O coronel Azambuja era uma excelente pessoa, altamente competente, educado, homem de profunda convicção moral. Todavia havia um detalhe desanimador - era um anticomunista ferrenho e pior ainda, chefe do serviço de informações, cujo principal objetivo era descobrir ações subversivas. Em todo caso, o único com quem, pelo menos, poderia conversar sobre o assunto e com bastante tato. Conhecia-o há mais de seis anos. Sempre mantiveram excelente relacionamento. Havia mesmo uma certa admiração mútua. Na verdade achava-o o chefe ideal. Mantinha grande respeito dos comandados, apenas pela conduta exemplar. Rodrigo considerava que a função que ocupava no momento era de certo modo incompatível com a personalidade do coronel. Embora o SNI fosse somente um órgão informativo, na situação existente revelava-se comprometido com as torturas e mortes de culpados e inocentes. - Lúcia, você está certa! É a única chance que nós temos. Viajarei para Manaus no primeiro avião, aproveitando ter a tratar assuntos diversos com o meu chefe. Problemas de obras, da estrada, roubo do cofre, etc. Aí vou aproveitar e fazer uma visita ao coronel Azambuja, em sua própria residência. Vou sondá-lo e depois entrar direto no assunto. Não acredito que vá me prejudicar, depois destes anos todos em que nos conhecemos. - Tá legal! Sabia que podia contar com você! Pelo menos vamos tentar alguma coisa. Se não der certo, ficamos com a consciência tranqüila. Lúcia está radiante e mais confortada. Eufórica, não se contém. Abraça Rodrigo e beija-o na boca. O gesto surpreende-o! A afeição pela moça era mais a de um irmão. Se bem que mulherengo, não nutria atração especial por ela. Desconcerta-se, mas enlaça-a com os braços. O carinho prevalece. De repente, ouve-se passos no corredor. Lúcia se afasta instintivamente. É a mãe dela. - Ei! O que vocês estão fazendo aí? Teu pai está te chamando Lúcia. O Dr. João Bosco aguarda Rodrigo e quer ir embora. Falou que amanhã será um dia exaustivo. Vão fazer o reconhecimento da estrada nova. - Tá legal mamãe. Vamos Rodrigo? CAPÍTULO III Em uma prisão do Quartel General, o velho militante do partido comunista, Mário Alves, jaz em um canto da cela. Apenas um cobertor à guisa de cama, na cerâmica nua. Está exausto. Vinte dias haviam-se decorrido. Dia sim, dia não, é interrogado implacavelmente por horas. Vários homens revezam-se nesta faina incessante. O único que não descansa é ele. Responde sempre com veemência e tranqüilidade às perguntas, desconcertando por vezes os inquisidores. O objetivo básico é um só. É ele o cabeça local da guerrilha do Espanhol? Sempre negava. De fato não precisava mentir. O Espanhol tornou-se uma incógnita, mesmo para os membros do partido comunista. Os indícios sugeriam que viera de um país da América do Sul. Argentina, Uruguai? Não se sabia ao certo! A direção do partido confirmava que o Espanhol não pertencia aos quadros. Compartilhara inicialmente da opinião de alguns companheiros, que por motivo de alto sigilo o Espanhol poderia ter sido designado pela alta cúpula. Porém, com o passar do tempo, cada vez mais convenciam-se - o estranho homem agia como um livre atirador. Seus seguidores eram jovens, com quem travou contato nas praças de Manaus e ardilosamente convenceu-os a envolver-se em uma ação guerrilheira. Moços idealistas, cheios de amor ao perigo, revoltados com a ditadura militar e dispostos a dar a vida por uma causa considerada justa. Não pertenciam nem mesmo ao PCB local. Mário Alves não fora interrogado no dia anterior. Logicamente, esperava sofrer hoje mais uma sabatina. Não sofrera ainda tortura física violenta. A dúvida detinha os algozes. Notara todavia que a paciência destes esgotava-se. Ameaças de morte faziam-nas em toda sessão. Jogar-lo-iam de avião em vôo no rio com uma pedra amarrada no pé ou seria dado aos jacarés famintos e ninguém saberia do seu trágico paradeiro. Contaram-lhe que o Espanhol matara três soldados, membros de uma companhia embrenhada na mata para pegá-los. Tomaram-se de extrema irritação por este fato. Preocupava também Mário Alves a situação da família. Em que estado precário não estaria? Como mestre de obras trazia semanalmente o dinheiro para o sustento. E agora? Olha para as paredes nuas da cela. Não há janelas, apenas no teto uma pequena clarabóia com grades. Uma lâm- pada de 40W ilumina o aposento, por ocasião dos interrogatórios. Não há possibilidade de acendê-la ou apagá-la. Eles o fazem do lado externo da cela. A penumbra em parte do dia e a escuridão à noite são companheiras constantes. Os mosquitos atacam-no impiedosamente. Mal consegue dormir. As baratas terminam por infernizar-lhe mais ainda. Mal come há três dias. As refeições, restos de arroz meio cru com carne sebosa e fria, tornaram-se intoleráveis. É demais! O velho comunista, na escuridão do cárcere, cede. Não mais consegue conter as lágrimas. Não pode nem mesmo implorar ajuda a Deus. É ateu como todo comunista convicto. Abraçou a ideologia do mais puro materialismo marxista desde a mocidade. Seus deuses são outros. Sua fé, contudo, permanece inabalável nos valores em que acredita. Julga com convicção absoluta que o comunismo resolverá os problemas da humanidade. O seu sofrimento é perfeitamente válido e necessário para atingir objetivo maior. Os mártires são indispensáveis para se alcançar uma grande causa. Súbito, ouve o som de passos ao longo do corredor. Reúne todas as forças para levantar-se. Teme ser morto deitado. É um homem de coragem. Olharia de frente nos olhos dos seus assassinos, se fosse chegada a hora de morrer. O fervor na causa agiganta-lhe o destemor. A porta abre-se e entram seis homens. O coração do prisioneiro bate mais forte. Um filete de suor frio escorre-lhe pela têmpora, um calafrio percorre-lhe as veias. A incerteza de cada interrogatório, o que perguntariam e fariam é, em si, uma forma de sofrimento. Iriam agredi-lo, torturá-lo, matá-lo? A insegurança do que venha acontecer atormenta-o, aumentandolhe a ansiedade. Algumas cadeiras são trazidas. Mandam-no sentarse em uma delas. Fazem uma roda em torno. Fica na berlinda, cercado por seus carcereiros. Um sargento alto, de olhar penetrante, começou a falar. - Então Mário. Esperamos que desta vez diga o que sabe realmente! A paciência do Comando está esgotada. O Espanhol matou mais sete soldados. Agora são dez mortos. Olha, a tua vida não vale mais nada! Agradeça aos céus, se não fosse por ordem superior não estaríamos ainda conver- sando. Talvez esta seja a última vez, se não levarmos informações satisfatórias. Deixa de ser fanático! Salva a tua pele!... Mário Alves esforça-se por manter a cabeça erguida, o olhar sereno, apesar de fatigado ao extremo. Procura conservar a calma e aparentar segurança. Não quer demonstrar fraqueza. Discorre com voz pausada, porém firme. - Sargento, infelizmente, não há nada a acrescentar ao que já foi dito. Não sei nada das ações deste homem que chamam de Espanhol. Mesmo que me matem não posso revelar o que desconheço. - Vai me dizer, também, que não é comunista? Não pertence ao PCB? - inquiriu em voz alta, irritada. - Realmente tenho simpatia pela filosofia marxista. Por isso encontraram vários livros sobre o assunto em minha residência. A calma ao falar e portar-se transmitia dignidade, apesar dos longos dias encarcerado. Não deixou de surtir efeito favorável nos presentes. Estavam em dúvida, confusos. Será que não tinha nada a ver com o Espanhol? Nem ao menos era membro do partido comunista? Contudo, dois dos torturadores, elementos mais radicais e insensíveis, não escondiam preferir um tratamento mais violento. Somente assim saciariam o sadismo nato, ainda que nada confessasse ou fosse inocente. Se morresse, nem estariam ligando. De repente, um soldado bate à porta da cela. Aconteceu algo, sem dúvida! Inesperadamente retiram-se. As cadeiras são levadas e a sessão é suspensa. CAPÍTULO IV O grupo do Espanhol encontra-se exaurido. Há três meses iniciaram a guerrilha, tendo como base a ilha do Camaleão. Dos cinqüenta homens que iniciaram a ação, restam somente dezoito. Abandonaram a ilha fluvial porque concluíram, obviamente, que permanecer nela seria apressar o fim. O Espanhol não é na verdade um grande estrategista. As tropas do exército com lanchões cercaram a ilha e quem ainda se encontrava lá foi aprisionado ou morto. Os dezoito restantes subiram o Rio Amazonas e desembarcaram na margem norte. Estão acuados, sem meios para subsistir. O contato com os caboclos das margens mostrouse desastroso. Pensavam estar catequizando, conquistando novos adeptos e contraditoriamente foram delatados por aqueles a quem pensavam salvar. Sobrevivem com os peixes que pescam nos pequenos igarapés afastados do grande rio ou de alguma caça, mais comumente macacos. O grupo é formado por estudantes em sua grande maioria. São idealistas, mas não tem experiência da vida na selva. Apenas dois rapazes a conheciam, por serem amantes da caça e da pesca. Todavia, fazem parte dos que foram abatidos no último choque com os soldados. A liderança do Espanhol, mercê das grandes dificuldades porque passam, faz-se cada vez mais precária. Três membros falaram em desistir. Feita a votação, venceu a maioria. Não há mais recuo. Devem continuar lutando até o extermínio total, ou conseguir fugir pela fronteira com o Peru ou Colômbia. Estas, infelizmente, estão muito distantes. Marcos e André, dois estudantes de Direito, seguem à frente da coluna. São mais espertos e arrojados. Adaptaram-se melhor à vida da selva. O primeiro adiantou-se um pouco. - Marcos, mais devagar! Assim a coluna fica para trás! - pede-lhe o companheiro. - Tá legal! Marcos está preocupado. Parece pressentir alguma coisa de estranho no ar. Talvez seja o cansaço destes dias atrozes. Não podem nem mesmo dormir. O sono pode ser a morte! Lembra-se dos pais, completamente contrários às suas idéias e atividades comunistas e de sua irmã Ana, quando se despediram. - Cuidado Marcos! Um sentimento horrível me aperta o peito! Será que te verei de novo? - Fique tranqüila, maninha! Muitos se juntarão a nós quando iniciarmos a guerrilha. De norte a sul, levantaremos o país e acabaremos com esta maldita ditadura! Agora, pouco pode esperar. Talvez perca a vida, juntamente com os companheiros. Todavia está conformado, resignado ante o incerto destino. O Espanhol segue à retaguarda da coluna. Conversa com o auxiliar imediato. Tenciona seguir sempre para oeste e conseguir, com um pouco de sorte, um barco que lhes permita atingir a fronteira. Sabe que as chances de vitória estão liquidadas. A desproporção do pequeno grupo em relação às tropas, mais bem preparadas e municiadas, é flagrante. Algo inesperado, quase um milagre, teria que acontecer para quebrar a desigualdade. Nada ocorre. A desesperança apossa-se dos guerrilheiros. Súbito, Marcos para bruscamente. - Atenção! Ouço alguma coisa! Parecem vozes! - Será que são soldados, Marcos? - pergunta André. A resposta vem imediata. Uma rajada de metralhadora corta o ar. Marcos cai mortalmente ferido, mãos no ventre. André se volta e corre, gritando. - Atenção! Recuar! Impossível. A retaguarda foi cercada por outro pelotão. O grupo revida aos tiros. Dispara suas armas. Tarde demais. Aos poucos vão sendo abatidos, como gado no matadouro. - “Paren, yo me entrego!!!” - grita o Espanhol. Cessa o fogo. Os soldados aproximam-se. Mandam que se apresentem de mãos para cima. De pé, restam somente seis. Os feridos são abatidos a tiros, sem piedade. Um capitão, comandante da tropa, aproxima-se. - Quem é o Espanhol? - “Soy, yo”. Um murro no rosto atira-o no chão. - Filho da puta! Agora tu vais ver o que te espera! através da selva soa como uma sentença final a imprecação do jovem oficial. Vários lanchões aproximam-se, atracando rapidamente na margem. São embarcados rumo a Manaus. A aventura encerra-se. O sonho desfeito, resta tão somente a dura realidade. Para o Espanhol, o destino reservará um trágico fim! CAPÍTULO V Mário Alves percebe, de repente, o som característica do caminhar em direção à sua solitária. Pensava estar livre da tortura, das exaustivas inquirições naquele dia. Enganou-se. A porta é aberta bruscamente. Oito homens irrompem intempestivamente. Rodeiam-no. Um major, chefe do grupo, inicia a conversação. - O Espanhol está preso bem nesta cela ao lado. Não precisa mentir. Ele confessou. Você é o chefe da guerrilha! O prisioneiro ergue a cabeça atônito. Olha o interlocutor firmemente. Esboça um sorriso sardônico. Entendeu de imediato que a pergunta é uma armadilha. Não vai mentir, assinando a própria sentença. - Ele pode falar o que quiser! O senhor pode ter certeza de uma coisa - não tenho nada a ver com o Espanhol e não sei quem é, nem de onde veio! Um capitão ao lado do major não acredita. Considera-se afrontado. Convicto está da culpa de Mário Alves. Levanta-se num ato impensado e brutalmente esmurra o rosto do infeliz, uma, duas, três vezes. Esta reação violenta não estava prevista, nem mesmo pelos companheiros. Ainda não lhes deram autorização para uma expressa violência física. O superior intervém, visivelmente contrariado. - Pare Capitão! Contenha-se! As pancadas foram muito fortes. Um filete de sangue escorre-lhe do canto da boca e o nariz começa a sangrar. Considere-se, ainda, seu estado físico debilitado. Com o último soco caiu sentado no chão. Está atordoado, semi-desfalecido. O major decide não continuar. Julga que não há condições. Repreende o capitão. - Imbecil! Você estragou tudo! Deixam-no caído no piso. Por quase meia hora, permanece traumatizado. Finalmente, arrasta-se para o cobertor. Lateja-lhe a cabeça. Na mente confusa, as imagens da falecida esposa e das duas filhas surgem envoltas em névoa. Não sabe se está sonhando ou acordado. Gritos ou lamúrias fazem-se ouvir, ao longe inicialmente, depois mais e mais perto. Agora percebe claramente. Não está delirando. São altos gemidos, vindos da cela vizinha. Vozes em espanhol misturam-se a outras mais rudes. Instantaneamente compreende. O Espanhol está sendo horrivelmente torturado. “Estou perdido! Submetido a este castigo atroz, vai acabar confessando que me conhece, inclusive que eu sou o seu chefe”. Considera-se vencido pelas terríveis emoções do dia, a boca e o nariz ainda doendo. Sente-se arrasado por completo. Apesar dos pesares o sono vem lentamente, compulsivo, entremeado de sobressaltos. Adormece. A escuridão domina o aposento. Nenhum raio de luz penetra pela clarabóia. É noite. De repente, a porta abre-se. Mário, surpreso, pensa em levantar-se. Não há condições físicas para tal. Continua deitado. “O que está acontecendo? Sempre foi interrogado durante o dia”, reflete nervosamente. Vultos penetram sorrateiramente carregando um volume. Ouve o som surdo de alguma coisa cair no piso. Não distingue exatamente o que é. Retiram-se da cela aos risos. “Será o corpo do Espanhol?”. Não tem certeza. O torpor venceo completamente. Queda-se assim por horas, semiinconsciente, entre a realidade e o pesadelo. Não tem percepção de mais nada. Pela manhã, um luminoso facho de raios solares invade a cela, através da clarabóia. Volta a si, saindo da prolongada letargia. O corpo está dolorido. A longa reclusão e a covarde agressão sofrida fazem-lhe sentir efeitos lastimáveis. Com quase sessenta anos, não possui mais a resistência de um jovem, embora o espírito e moral estejam elevados. Vislumbra um amontoado no canto da cela. Na verdade são quatro sacos de juta, usados em estiva, mal costurados pelas bocas. A curiosidade desperta-lhe a mente enfraquecida. Os sacos estão estufados, mostrando conter considerável carga. Por horas permanece estático. Pensa em levantarse e examiná-los para saber de vez o que contêm. Serão homens mortos? Guerrilheiros? Talvez três ou mais. O Espanhol e outros companheiros. Visam causar-lhe certamente temor e obrigá-lo a ceder. Num relance, vê que uma coisa mexe-se dentro dos sacos. Será que ainda alguém vivo? Seus olhos arregalam-se. Uma massa move-se oculta na juta. O espanto e pavor tomam conta de Mário Alves! De repente, uma cabeça aparece, repugnante. O homem não se contém e solta um grito de terror! Uma enorme cobra vai saindo, arrebentando o tecido de fibra grosseira. Compreende estarrecido. É a terrível sucuri! Já viu várias, desde a infância, no pequeno povoado de beira de rio onde nasceu e criou-se, no Alto Solimões. Instintivamente reúne todas as energias que lhe restam. Levanta-se e procura o canto oposto ao do animal, numa tentativa infrutífera de defesa. Um episódio invulgar, em que a crueldade e a coragem humanas vão defrontar-se, começa. CAPÍTULO VI No dia seguinte ao da visita ao cônsul, Rodrigo fez o reconhecimento da estrada nova com o engenheiro Bosco. Este constatou contrariado que realmente o percurso previsto ia passar pela jazida de argila, próxima à olaria. Colocou dois tratores para limpar o terreno. Desanimou por completo. As máquinas atolaram-se, logo no início dos trabalhos. Somente no fim da tarde, com auxílio de outras máquinas, e depois de esforço enorme, conseguiram retirá-las. Dirigiu-se ao fiscal da obra. - Não seria melhor aproveitar o trajeto da estrada velha, capitão? É mais longo, porém ajudaria o pessoal do povoado, e o esforço de construção, bem como o custo seriam bem menores. Rodrigo fingiu não tê-lo ouvido. A utilização de outro itinerário não estava em cogitação. As dificuldades da construção eram um problema da empreiteira. Ia aumentar o custo? Deveriam ter feito o reconhecimento, antes de assinar o contrato! A pequena extensão enganou as firmas que participaram da licitação. Esqueceram-se que construir na fronteira é várias vezes mais difícil do que em outros lugares. Nenhuma delas fez, preliminarmente, um estudo in loco. Quando o expediente encerrou-se, anoitecia. O engenheiro, o policial e Rodrigo reuniram-se naquela noite no El toro, a melhor churrascaria de Letícia. João Bosco foi apresentado a Paulo César. Obviamente, a identidade verdadeira deste foi mantida em sigilo. Apenas um comerciante estudando a região em busca de lucrativos negócios de madeira. Depois de alguns minutos o Sr. Efraim reuniu-se a eles. O ambiente parecia festivo. A churrascaria estava cheia de gente. Muitos turistas, colombianos e poucos brasileiros. A carne servida era excelente, vinha de Bogotá, onde criavam gado de raça européia. A maciez contrastava com a carne dura dos bois e búfalos da região. Efraim assumiu o papel de anfitrião. os demais seriam seus convidados. Rodrigo aproveitou para avisá-los que iria viajar brevemente para Manaus. Lá ficaria no mínimo uma semana à serviço. Paulo César e João Bosco lamentaram. O policial, em plena investigação sobre o tráfico de entorpecentes, parecia ter descoberto indícios valiosos. Quando o capitão foi ao banheiro, acompanhou-o e segredou-lhe baixinho. - Rodrigo, fiz tremenda descoberta! Você não vai acreditar! Infelizmente, João Bosco e Efraim, este último com uma alegria esfuziante, cortaram a conversação, obrigando-o a murmurar: - Depois da sua viagem, continuamos o assunto. Aqui não dá! Efraim aproveitou para contar-lhe em sigilo. - Continuo em contato com Isabel... Ao ouvir o nome da mulher cobiçada o capitão pôsse todo ouvidos. - Ela está temerosa, porém, mais dia menos dia, vai ceder. Quando você voltar de Manaus, talvez lhe dê uma boa notícia. Os problemas desanuviaram-se na sua mente. A imagem da linda colombiana com um sumário biquíni na piscina, voltou-lhe instantaneamente. Pediu a Efraim para insistir até convencê-la. Passou-lhe pela cabeça qual seria o local ideal para o almejado rendez-vous. Talvez a casa de George Bergen. Este era um exportador americano, seu amigo. Travou contato com ele na primeira semana em que chegou à fronteira. Fora-lhe apresentado pela Lúcia, filha do cônsul. Era divorciado e ex-piloto de aviões de guerra. Chegando na cidade como turista encantouse com a mesma e resolveu dedicar-se ao cultivo de plantas e criação de peixes exóticos. Conseguiu um mercado certo nos Estados Unidos porque semanalmente embarcava-os no avião para Miami. Além de boa praça, ensinava inglês informalmente a Rodrigo. Em vez de espanhol, que dominava um pouco, preferia comunicar-se com George sempre em inglês. Pediu, inclusive, para que o americano corrigisse seus erros de pronúncia. Ele o atendia com prazer e depois de algumas semanas melhorou a fluência. Neste instante, ocorre uma feliz coincidência. É o próprio George que entra na churrascaria. Seus olhares se cruzam, sorriem e dirigi-se à mesa de Rodrigo. - “How are you, Rodrigo?” - “Fine. Thank you. Sit down here. You are our guest” - convida-o prazeroso a sentar-se. A presença de George deixou-o radiante. Apresenta-o aos amigos com exceção de Efraim, conhecido de todo mundo. O recém-chegado é um indivíduo bem diferente de Bob Markovs. O único traço em comum - a mesma nacionalidade. De início, os tipos físicos de ambos distanciam-se. Bob, de ascendência grega, o outro um americano típico, descendente de ingleses. Branco, rosto alongado, louro, de olhos azuis, têz avermelhada, um queixo a Kirk Douglas com uma pequena reentrância na ponta. Não era alto e cortava o cabelo bem curtinho, no estilo escovinha. Não pairava sobre George nenhuma suspeita de atividades ilícitas, talvez porque fosse um comerciante pobre e não uma potência econômica para aquela área. Transformara um pequeno galpão em residência. Além do banheiro, havia apenas um aposento único - um salão de dez por vinte metros, aproximadamente. Nesta dependência, ficavam todos os demais cômodos da casa, sem nenhuma divisória. Num canto achava-se uma enorme cama d’água redonda. Em outro, havia uma copa-bar. No meio, várias poltronas e uma mesinha, à guisa de sala de estar. Em outra parte duas redes estendidas. Singularmente, uma mesa de pinguepongue complementava o arranjo, perto do bar. A casa de George tornara-se uma espécie de clube. Os amigos colombianos, americanos e agora brasileiros, iam para lá conversar, tomar uns drinques de rum com limão, que só ele fazia tão bem. Rodrigo adorava-os quando preparados pelo americano. Tentou reproduzi-los, mas nunca ficavam tão gostosos, o que o deixava frustrado. O ambiente do “clube” era de descontração. Alguns adoravam deitar-se vestidos na cama d’água para relaxar, enquanto bebiam e batiam papo. Outros jogavam pingue-pongue ou sentavam-se nas poltronas ou nas redes. Aqueles que lá iam eram pessoas descompromissadas, sem família, que bus- cavam diversão na companhia mútua, uma fuga dos problemas pessoais ou cotidianos. Rodrigo nunca conversou com George a respeito do passado, entretanto sabia que a mulher o traíra. Foi a razão do divórcio. Para combater a solidão, George namorava americanas, turistas ou guias, que passavam pelo hotel do Bob Markovs. Até uma francesa ficou morando uns tempos com ele, enquanto auxiliava-o como secretária. Apresentado George aos dois amigos brasileiros, pediram ao garçon mais um prato. Rodrigo explicou para Efraim que o recém-chegado era seu convidado. Efraim não aceitou a idéia e protestou - ele fazia questão de pagar as despesas. O brasileiro concordou relutante, mas no íntimo bem que gostou da idéia. Estavam os quatro em animada conversa. Paulo César perguntou a Rodrigo como ia o desenrolar do roubo do cofre. Hans havia-lhe confidenciado estar muito preocupado. O policial percebeu que o coronel era de fato amigo de Rodrigo, não obstante haveria de dar-se solução ao problema. - Rodrigo, toma cuidado! O velho Hans não vai poder mais segurar a tua barra! - Em Manaus, pedirei a PE para comparar as impressões retiradas de dentro do cofre pela polícia colombiana, com as que estou levando. Suspeito que o ladrão seja o sargento recém-chegado. Ele servia na fábrica de Realengo e esteve envolvido em roubo, embora nada ficasse comprovado. Por isso, foi transferido para a fronteira. Se não é o Souza, só pode ter sido ele. De repente, nota que os olhares masculinos voltaram-se para a porta do El Toro. Acompanha os demais e depara-se, nada mais nada menos, com Isabel. Trajava um vestido azul bem justo delineando-lhe o corpo escultural. Andava com o porte de uma rainha e um jeito gracioso. Os cabelos, prendera-os em forma de coque. Percebia-se usufruir da condição única de possuir singular beleza. A platéia extasia-se. Mulheres cochicham, mal dissimulando admiração e inveja, quase despeito. A esposa do juiz convertera-se em um dos pratos preferidos da maledicência alheia. O olhar do capitão cruzou com os dela. O efeito foi como faíscas lhe percorressem o corpo. A jovem senhora igualmente não ficou imune. Havia um sentimento mútuo que os atraía inexoravelmente. Atrás dela, vinha o marido, o juiz Júlio Perez. Magro, cerca de trinta e oito anos, farta cabeleira negra, penteada para atrás. A barba cerrada, bigodes e cavanhaques pretos, contrastavam com a tez de um branco pálido. Os olhos escuros, encimados por sombrancelhas espessas. Alto e de maneiras aristocráticas, lembrava um nobre espanhol da época das caravelas. Encarou os presentes com ar de desafio, quase de insolência. Muitos desviavam o rosto. Sabiam-no ciumento e disposto a qualquer violência. O magistrado usava um blazer e pareceu a Rodrigo que disfarçava um volume, à direita, na altura da cintura. Imaginou, embora sem certeza, que talvez fosse o tão falado “trinta e oito”. Refletiu Rodrigo que não era justo desejar a mulher alheia, embora estivesse acima de suas forças resistir. Sabiase correspondido. A mulher dava-lhe esperança pelos olhares ardentes e Efraim encorajava-o. Não fosse o amigo servir de intermediário, não teria coragem de abordá-la para arriscar uma proposta amorosa.. De fato, a oportunidade seria muito difícil de surgir, tal a maneira como era vigiada. O casal sentou-se em mesa no canto. Efraim levantou-se e foi cumprimentá-los. Procurava dar-se bem com todos, comerciante experiente que era. Sua butique, consideravam-na os habitantes a melhor da cidade. A única com que os moradores, de maior poder aquisitivo e gosto mais refinado, poderiam contar. Permaneceu Efraim sentado com ambos, por cerca de vinte minutos. Isabel trocava olhares com Rodrigo de vez em quando. Em determinado momento, discretamente, esboçou-lhe ligeiro sorriso. O capitão quase caiu das nuvens. As chances pareciam melhor do que se podia esperar. Sentiu-se feliz diante da promissora expectativa. Efraim percebeu, com ar maroto, o comportamento da amiga. Ao voltar, sentou-se à mesa. Vitorioso, fitou-o com um semblante cheio de malícia. - “Mui bien! Capitan!”- exclamou ao mesmo tempo em que fazia um brinde - “A los grandes amores”! Paulo César e Bosco participaram do brinde com largos sorrisos, embora sem entenderem seu significado. CAPÍTULO VII No dia seguinte, Rodrigo pegou o jipe. Levou um motorista consigo para trazê-lo de volta do aeroporto. Paulo César fez questão de acompanhá-lo, a fim de despedir-se do amigo. A partida do avião para Manaus estava prevista para doze horas. Chegaram às dez. Rodrigo não queria arriscar-se a perder o avião por atraso fortuito. Um imprevisto com o veículo, ou qualquer outro incidente, o atemorizava. Não falou a ninguém, sobre o motivo real de sua ida a Manaus, tão secreto era o affaire Mário Alves. Ao chegar no aeroporto, uma agradável surpresa, Lúcia esperava-o. Soubera pelo Coronel Hans que o amigo viajaria naquela manhã. Cumprimentou-os calorosamente. Em seguida, delicadamente pediu a Paulo César para falar em particular com Rodrigo. O engenheiro aquiesceu e propôs-se comprar refrigerantes no bar do restaurante, deixando-os a sós. - Rodrigo, trago péssimas notícias! Ouviu-a espantado, receoso da verdade. Tentou adivinhar: - “Seu” Mário Alves morreu?! - Não, ainda não! Pelo menos ao que eu saiba. A filha dele me telefonou da casa de um amigo em Manaus - aflita e com ar extremamente preocupado, continuou - Mataram Gildo Viana no Rio de Janeiro. Estava preso há quatro meses. É amicíssimo de Mário Alves. Era presidente do sindicato de estivadores de Manaus. Fez parte de um comício reivindicando maiores direitos para os estivadores no Rio de Janeiro, como representante do Amazonas. Prenderam-no na própria manifestação. - Mas como foi assassinado? Foi torturado? - Claro! É óbvio que as informações oficiais dizem que se suicidou na prisão. Rodrigo estarreceu-se. O laço apertava-se cada vez mais, diminuindo as chances de sobrevivência do velho Mário. Lúcia prosseguiu. - O Espanhol está preso. A Maria me falou que está sofrendo barbaramente. Um sargento, ex-namorado que continua apaixonado por ela, contou-lhe as maldades que estão fazendo - continuou a explanação, cada vez mais excitada. Os olhos arregalando-se, no afã de exprimir o quase pânico em que se encontrava. - Você ainda não sabe de nada. As visitas ao pai dela foram cortadas. O sargento contou-lhe ainda uma coisa horrível. Eu mesmo não acredito! - O que é? O que pode ser pior ainda? - a excitação de Lúcia contagiava-o, aumentando-lhe a apreensão. Puseram uma cobra enorme na cela dele! Parece que é uma sucuri! Querem arrancar-lhe uma confissão incondicional! - Não é possível! Deve haver exagero nisso! - E se não houver? De qualquer maneira, o falso suicídio do Gildo Viana mostra que esta turma não está para brincadeira. Rodrigo desanimou com as novas notícias. A missão que assumira parecia-lhe acima das próprias forças. A esperança de que o Coronel Azambuja viesse a ajudá-lo esvaneceu-se. Talvez se voltasse contra ele. Examinou o semblante da amiga. A esperança e confiança estampavam-se-lhe no olhar cândido. Refletiu por momentos. Agora não podia recuar! Jurou para si mesmo que iria até o fim. - Lúcia, farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. Espero que Deus nos ajude! - ao terminar apertaramse as mãos, guardando um silêncio de segundos, porém de grande significado. Assim selavam o acordo da árdua tentativa de salvar Mário Alves. A esta altura, Paulo César impacientava-se, quase aborrecido, com a ausência de ambos e veio, apressadamente, interrompê-los. Também não havia mais nada a dizer. A sorte seria lançada brevemente. Dirigiram-se ao restaurante. Sentaram-se em uma mesa. Lúcia preferiu coca-cola. Repentinamente, ouvem uma barulheira. Pareceulhes um tiro, misturado com gritos. Um homem sai correndo pelo hall do aeroporto. Esbaforido, esbarra em uma senhora que é lançada violentamente ao solo. Paulo e Rodrigo levantam-se bruscamente e vão ver de que se trata. Será alguma briga? Ainda vêm o fugitivo passar correndo e, ato contínuo, entrar em uma pick up, parada em frente ao aeroporto. Mal entrou, o motorista disparou como um louco. Dois guardas tentaram-na parar, porém foi em vão. Inexplicavelmente não havia nenhuma viatura policial, para sair-lhe no encalço. Passam-se cinco minutos e um homem surge algemado, conduzido por outros três guardas. Eram traficantes. Foram flagrados quando tentavam passar com um peixe, um enorme tucunaré, recheado com vários quilos de cocaína. Segundo comentários esparsos de alguns presentes, cerca de cinco quilos. Paulo César mostrou-se interessadíssimo no episódio. Disfarçadamente, procurou colher o maior número possível de informações. Falou com as pessoas que presenciaram a cena e com alguns participantes. Rodrigo observou que, nas escadas da entrada do aeroporto, manchas de sangue recentes constatavam que um dos traficantes ao fugir fora atingido. Estava armado e reagiu quando tomaram-lhe o peixe. O companheiro, mais lento, acabou preso. Rodrigo preocupou-se. Será que o vôo seria adiado? Felizmente confirmaram a partida. Estavam em cima da hora. Despediu-se de Lúcia e Paulo César e dentro de vinte e cinco minutos o avião decolou. Durante a viagem permaneceu preocupado. Cochilou um pouco. Um sono pesado. As imagens vinham-lhe confusas à mente. Traficantes, torturadores e torturados, às vezes o rosto de Isabel ou Jucimar, misturavam-se num quase pesadelo. Súbito despertou. Avisaram que aproximavam-se de Manaus. Deviam apertar os cintos... Mais um pouco, Rodrigo descia da nave e seguia rumo ao hall do aeroporto para apanhar a mala. CAPÍTULO VIII A luz do teto é mantida sempre acesa agora. Visam decerto que veja claramente todos os lances do seu próprio fim. Mário Alves fita a intrusa que lhe impuseram sadicamente. Por certo tempo, permanecera de pé, qual uma caça acuada, procurando uma defesa, um objeto qualquer, inutilmente. Era somente um homem desarmado e enfraquecido! Há dois dias não conseguia nem cochilar. Não era para admirar-se que não o conseguisse. Apenas a coragem de caboclo do Amazonas mantinha-o vivo. A enorme sucuri, depois que se libertou dos sacos de juta, deslizou por quase três metros, ao longo e encostada na parede. Julgou que iria ser devorado de imediato, pois enroscou-se como se estivesse prestes a dar o bote. Ele situou-se amedrontado, o mais longe possível. Uma distância não maior que oito metros, limitada pelas dimensões do próprio aposento. Em seguida, a cobra desenrolou-se um pouco, virando-se e deixando aparecer a barriga de tonalidade mais clara. O ventre, próximo à extremidade da cauda, estava mais volumoso. Podia-se perfeitamente notar a protuberância. Sabia perfeitamente o que isto significava. Seu pai era pescador e adorava caçar. Ao acompanhá-lo, nestas andanças, menino ainda, vira cobras grandes como jibóias e su- curis com as barrigas inchadas, a digerir suas presas. Inclusive bois adultos que, depois de asfixiados e terem os ossos triturados, reduziam-se a um esquisito volume, sem formas definidas, reconhecível apenas pela cabeça com os chifres. Elas expeliam, então, um líquido denso como baba de quiabo pelo corpo das vítimas e depois as engoliam lentamente. Os chifres restavam de fora, até a carne apodrecer e serem desvencilhados, o que levava quase um mês. Concluiu que aquela à sua frente havia comido um pequeno animal e estava terminando de digeri-lo. Em razão de possuir um aparelho digestivo primitivo, por alguns dias ainda permaneceria imóvel - a sua única esperança de ganhar um certo tempo. Entendeu que os torturadores queriam submeterlhe os nervos a uma prova de terror. Inicialmente, pensou em chamar o guarda que estava sempre no corredor. Seria inútil! O objetivo era exatamente vencê-lo pelo pânico. Um pouco refeito do choque inicial, decidiu-se a não perder a dignidade. A fé na causa comunista continuava muito forte, a razão de sua vida. Convicto de estar batalhando do lado certo, por nobre causa, não desonraria um passado de militante, nem os companheiros de luta. Preparou-se para uma morte próxima. Fim horrível que não imaginaria, nem desejaria para o pior inimigo. Passou a fazer conjecturas sobre o comportamento do animal. Por quanto tempo ficaria estático? Observava atônito, aguardando-o mexer-se. Às vezes, percebia-lhe pequenos movimentos, entretanto não se deslocava praticamente nada. A protuberância próxima à cauda diminuíra e, interessante, aproximava-se mais da extremidade. A digestão completa, imaginou, completar-se-ia dentro de pouco tempo. Presumiu que, então, a sucuri partiria para atacar uma outra vítima, desta vez humana, ele próprio! Ou será que seria retirada antes pelos algozes? Olhava ansioso para a porta de ferro. As horas passavam-se penosamente. Cada minuto, um período de enorme angústia. O que poderia fazer como defesa? Ficar de pé tão somente, não o salvaria. Por fim, deixou-se cair, deslizando com as costas contra a parede. Relaxou um pouco os músculos doloridos. Estava sedento, mas não sentia fome. Desde que a trouxeram, a comida foi cortada de vez. A água era colocada disfarçadamente sem que visse por quem. Compreendia mais claramente a tática do inimigo. O terror e a fome eram as armas para vencê-lo de vez. Dobrarlhe a vontade, aniquilar-lhe o moral e roubar-lhe a dignidade. Pensou, momentaneamente, nas duas filhas. A esposa morrera há dois anos. Lamentou profundamente que não poderia vêlas, as visitas estavam suspensas. Saberiam elas o que estava sofrendo? Os olhos do militante comunista encheram-se de lágrimas. Por instantes, esqueceu-se da visão horripilante. Parecia agora que ia se acostumando com a desagradável e inoportuna companheira. Por minutos cochilou, vencido pelo cansaço extremo. As vezes, sobressaltava-se e abria os olhos, confirmando ante a visão incômoda do animal diabólico, que não estava sonhando. Apreensivo, olhou, a portinhola pela qual traziam a comida. Estava sempre fechada. Refletiu que se a cobra desse um bote e o pegasse, quebrando e moendo-lhe os ossos lentamente, não haveria nem mesmo testemunha para contar a estória. E se gritasse, acudiriam neste momento fatal? Ou não haveria tempo para gritar, tal a presumível velocidade e força descomunal do brutal ofídio. Estes sombrios pensamentos atormentavam-no, mantendo-o tenso. Como mestre de obras acostumara-se a usar a trena. Mesmo sem ela, conservava uma noção bem aproximada das dimensões. Adquiriu-a ao longo da labuta diária, aferindo distâncias. Não havia sombra de dúvida, a serpente, ainda em fase de crescimento, ultrapassava os sete metros, com diâmetro máximo de vinte centímetros. Embora a contragosto, considerou-se uma presa ideal, que a faria digeri-lo satisfeita, por longo período, de papo para o ar. Neste momento, lembrou-se do Espanhol. No dia seguinte à colocação da cobra, não mais ouviu gritos vindos da cela vizinha. Será que o mataram? Ou fora levado para outro lugar? De qualquer maneira, estava convencido de que o destino do guerrilheiro não seria melhor que o seu. Agrediramno, apenas uma vez. O interrogador perdera a cabeça, esmurrando-o com ódio incontido. Não foi uma tortura planejada, executada por um frio profissional. O Espanhol emitia gritos alucinantes, vítima dos carrascos por horas a fio. Não seria de estranhar que não resistisse e viesse a falecer, pensou. A sua situação em contrapartida apresentava-se nada invejável. A única esperança era acontecer um milagre. Sim. Somente um milagre o salvaria, deste infortúnio insustentável. Contudo, quem faria o milagre? Deus? Este pensamento brotou-lhe num lampejo descuidado da mente conturbada. Arrependeu-se quase imediatamente. Deus não existe! Sabia-o com certeza! Era apenas um engodo do mundo capitalista. O seu mundo, o marxista, não aceitava esta ultrapassada concepção burguesa. Sentiu-se envergonhado, traidor das próprias convicções. Confiaria em si mesmo e aguardaria. Enfrentaria a morte sombranceiro. Não podia entregar-se ao medo, por temor do fim próximo. Neste momento ouve ruídos. Parece-lhe uma mistura de sons metálicos e risos. A portinhola da porta de ferro abre e fecha-se quase imediatamente. Uma pequena bandeja foi deixada do lado interno, com um copo de alumínio e um pão, uma bisnaga inteira. Não sabe se fica contente ou triste. As reações estão-lhe embotadas pelo sofrimento. Queda-se imóvel por cerca de vinte minutos. Finalmente reúne forças. Observa que para apanhar o alimento será obrigado a aproximar-se da serpente. A cabeça do ofídio está a quase dois metros da porta. Isto o desencoraja. Entretanto decidiu-se. Num movimento rápido apanha o copo, o pão e afasta-se temeroso. Está sôfrego, serve-se da água em grandes goles. Mal dá para matar a sede, embora haja meio litro do líquido. O pão, come-o de início cautelosamente, depois em mordidas fortes, nervosas, mitigando as necessidades do organismo combalido. Finda a singela refeição, sente-se bem melhor. Na vicissitude desesperadora em que se encontra, um pedaço de pão dormido surte o efeito de um lauto banquete. O estado de espírito melhora. Raciocina com mais clareza. Diminui-lhe o torpor dos membros. Recorda-se de um episódio ocorrido quando menino na povoação de beira do rio. Havia um caboclo muito conhecido, o Manoel. Acontece que desapareceu como por encanto. Os amigos e parentes procuraram-no em vão! Chegou- se a pensar, que a esposa o matara. Motivo havia, presumiram. Viviam brigando, ciumento que era da mulher, uma cabocla bonita que lhe dava motivos de sobra para tal! Uma semana depois, acompanhava o pai em uma caçada, com mais dois amigos. Quando regressavam pela madrugada, bem na trilha em que iam passar, deram de cara com um objeto estranho, semelhante a um tronco de árvore. Parecia-lhes, no entanto, que se mexia lentamente. Estava com uma parte mais clara para cima. O pai gritou de imediato, dando alarme, ao reconhecer o vulto: - Para! É uma sucuri danada de grande! Cuidado! Na boca do animal via-se uma coisa escura. Resolveram matá-la a tiros. Deram-lhe mais de duas dúzias de disparos no corpo, principalmente na cabeça. Ao clarear o dia, puderam examiná-la melhor e estarreceram-se. As botas, presas na enorme boca do monstro, eram por demais conhecidas das pessoas daquele vilarejo. De cor marron e desenhos originais dos quais se orgulhava Manoel. Ganhara de presente em troca de uma bela tartaruga, que barganhara de uma madame de Manaus, freguesa antiga. Não havia dúvidas, o infeliz caboclo fora devorado pelo réptil, uma sucuri de tamanho nunca visto naquelas bandas. Resolveram medi-la e abismaram-se com o seu tamanho mais de quinze metros! Verdadeiramente um incrível remanescente pré-histórico! O pessoal da área ao tomar conhecimento dirigiuse ao local. A um médico recém-chegado, designaram-no para a autópsia. Abriram o bicho com terçadas e levaram tão somente o que restava do corpo, desfigurado, qual uma massa disforme. A pequena vila ficou traumatizada por longo tempo. Apesar da incômoda recordação, estranhamente tem a sensação de que venceu uma etapa. Ainda está vivo e prepara-se para o que der e vier...