PALEOTOCAS E O CADASTRO NACIONAL DE CAVERNAS
BRASILEIRAS – UMA DISCUSSÃO.
Heinrich Theodor Frank, Felipe Caron, Leonardo Gonçalves de Lima,
Renato Pereira Lopes, Leonardo Waisman de Azevedo
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Email: [email protected],
[email protected], [email protected],
[email protected], [email protected]
Milene Fornari
Universidade de São Paulo. Email: [email protected]
Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann
Universidade Estadual Paulista. Email: [email protected]
Abstract
“Palaeoburrows and the National Registry of Caves – A Discussion”.
Palaeoburrows are tunnels excavated by palaeovertebrates of the
Pleistocene megafauna of South America. The record of palaeoburrows
(PBs) in the National Registry of Caves is dependant of the state of
accessibility and the degree of preservation of the PBs. These two factors
allow the classification of PBs in four groups: 1. Very rare are open and
entirely preserved PBs with circular section and many marks preserved at the
walls. 2. Some PBs underwent erosion of the floor and collapsing of the roof,
reaching heights of 3 meters and more. 3. PBs filled with sediments to some
degrees are more frequent. 4. The most common PBs are the ones
completely filled with sediments (crotovines). Only PBs of the first two groups
may be recorded as caves in the National Registry of Caves, but only if its
state of preservation shows that they will not disappear shortly due to natural
geologic processes.
Resumo
Paleotocas são túneis escavados por paleovertebrados da megafauna
Pleistocênica da América do Sul. O registro de paleotocas (PTs) no Cadastro
Nacional de Cavernas depende da acessibilidade e do grau de preservação
da PT. Os dois fatores permitem a classificação das PTs em quatro grupos:
1. Muito raros são PTs abertas e integralmente preservadas, com seção
circular e muitas marcas preservadas nas paredes. 2. Algumas PTs sofreram
erosão do piso e colapso do teto, alcançando alturas de 3 metros e mais. 3.
PTs preenchidas por sedimentos em graus variáveis são mais freqüentes. 4.
Muito comuns são PTs integralmente preenchidas por sedimentos
(crotovinas). Apenas PTs dos dois primeiros grupos devem ser cadastradas
como cavernas no Cadastro Nacional de Cavernas, mas apenas se seu
estado de preservação demonstra que não desaparecerão em pouco tempo
devido a processos geológicos naturais.
1. Introdução
Caverna (do latim cavus, “buraco”) é definida como “todo e qualquer
espaço subterrâneo penetrável pelo ser humano, com ou sem abertura
identificada, popularmente conhecido como caverna, gruta, lapa, toca,
abismo, furna e buraco, incluindo seu ambiente, seu conteúdo mineral e
hídrico, as comunidades bióticas ali encontradas e o corpo rochoso onde as
mesmas se inserem, desde que a sua formação tenha sido por processos
naturais, independentemente de suas dimensões ou do tipo de rocha
encaixante” (CONAMA, 2004). As cavernas brasileiras estão sendo
cadastradas pela CECAV/IBAMA, pela Sociedade Brasileira de Espeleologia
(SBE) e pela REDESPELEO BRASIL. O Cadastro Nacional de Cavernas
Brasileiras - CNC, mantido pela SBE, conta atualmente com mais de 5.000
cavernas cadastradas.
Cavernas podem se formar por vários processos geológicos, sendo os
mais comuns a dissolução de rochas sedimentares químicas (calcários) e
processos erosivos em rochas sedimentares clásticas ou em zonas
cisalhadas em rochas magmáticas e metamórficas. Um caso especial de
cavernas são as paleotocas, que são icnofósseis, túneis escavados por
mamíferos extintos de grande porte da megafauna Pleistocênica SulAmericana (Buchmann et. al., 2003, 2009). Esses túneis podem se
apresentar integralmente preservados ou preenchidos parcialmente ou
integralmente por sedimentos. A presente contribuição discute a pertinência
do registro de paleotocas em seus vários estágios de preservação no
Cadastro Nacional de Cavernas Brasileiras. As características das
paleotocas aqui apresentadas baseiam-se em um conjunto de mais de 50
ocorrências de túneis descobertas nos últimos 2 anos em uma área de
estudo que abrange basicamente a Região Metropolitana de Porto Alegre,
no estado do Rio Grande do Sul (Fig. 1). Essas ocorrências abrangem mais
de 100 paleotocas preenchidas e mais de 40 paleotocas abertas, estas
últimas somando mais de 700 metros de túneis abertos e visitáveis. Além
disso, estão sendo investigados atualmente mais de uma dezena de outros
locais em que há indicações da ocorrência de paleotocas.
Fig. 1 – Mapa de localização da área de estudo (retângulo) no Rio Grande
do Sul e da constituição geológica simplificada do estado. Observa-se que a
área de estudo abrange, no seu extremo Sul, rochas plutônicas do Escudo
Cristalino Pré-Cambriano. A maior área é dominada por rochas
sedimentares nas quais se destacam os arenito eólicos da Formação
Botucatu (Jurássico sup. – Cretáceo inf.). Ao Norte ocorrem derrames de
lava basálticos e riolíticos da Formação Serra Geral, enquanto a Leste
afloram areias inconsolidadas da Planície Costeira, que corresponde à
porção emersa da Bacia de Pelotas.
2. Descrição das Paleotocas
Paleotocas formam túneis que podem estar situados em sedimentos
aluviais, rochas sedimentares ou no manto de alteração de rochas
magmáticas e metamórficas (Buchmann et al., 2003; Lopes et al., 2009;
Frank et al., 2009). Na área de estudo foram identificados, até o momento,
três diâmetros originais de paleotocas. As menores paleotocas possuem 0,8
metro de diâmetro e estão conectadas, às vezes, a paleotocas de diâmetros
maiores. As paleotocas mais freqüentes apresentam diâmetros entre 1,0 e
1,3 metros e, em alguns casos, foi possível identificar paleotocas com
diâmetros médios de aproximadamente 2,0 metros (Fig. 2).
Fig. 2 - Exemplos de paleotocas com os três diâmetros encontrados. (a)
Paleotoca com em torno de 0,8 m de diâmetro e 10 metros de comprimento.
O duto amarelo é a mangueira de ar. BR-116 em Novo Hamburgo. (b)
Paleotoca com diâmetro em torno de 1,2 m e comprimento de 21,0 metros.
Propriedade do Josoé Amorim, Lindolfo Collor. (c) Paleotoca com 2,0 metros
de diâmetro e 8,0 metros de comprimento. Localidade de Buraco do Diabo,
Ivoti. (d) Paleotoca com em torno de 2,0 m de diâmetro e 37 metros de
comprimento. Localidade de Sinimbuzinho, Boqueirão do Leão.
Os comprimentos das paleotocas dependem do grau de preservação
da ocorrência. Frequentemente, as paleotocas expostas em escavações
antropogênicas de grande porte ou aquelas encontradas abertas há décadas
em pastagens e florestas apenas representam restos de estruturas muito
maiores. Mesmo assim, ainda apresentam comprimentos de até 35 metros.
Nas regiões graníticas de Porto Alegre e Viamão não é difícil localizar restos
de paleotocas cujos comprimentos são superiores a 50 metros, o que sugere
que podem ser encontradas paleotocas com até 100 metros de
comprimento, desde que sua preservação tenha sido integral.
3. Estados de Preservação das Paleotocas
Depois de abandonadas pelo organismo escavador, as paleotocas
passam por processos geológicos que gradativamente destroem o túnel. De
acordo com seu estado de preservação, as paleotocas podem ser
classificadas em quatro grupos, apresentados abaixo em ordem crescente
de abundância.
3.1 Grupo A
O Grupo A é formado pelas paleotocas integralmente preservadas,
sem preenchimento e cuja seção é praticamente circular, sem apresentar
feições de colapso de teto nem de erosão do piso (Fig. 3). Essas paleotocas,
são raras e apresentam as paredes e o teto cobertos por centenas de
marcas produzidas pelo organismo escavador. Entre essas marcas, há
marcas de escavação, marcas de arraste de carapaça e marcas diversas de
contato.
Fig. 3 – Paleotocas integralmente preservadas, com seção circular e com as
paredes cobertas por marcas de garra e de contato. À esquerda, paleotoca
do Aterro Municipal de Sapiranga; à direita, paleotoca com entre 1,0 e 1,3 m
de diâmetro em Bom Retiro do Sul.
3.2 Grupo B
É formado por paleotocas que sofreram a erosão por águas correntes.
Paleotocas constituem caminhos preferenciais das águas do aqüífero
contido na rocha na qual a paleotoca foi escavada e muito frequentemente
apresentam-se com água pingando do teto e/ou água entrando lateralmente
por frestas. As águas que adentram e depois deixam a paleotoca possuem
uma ação erosiva muito intensa, provocando o colapso de placas rochosas
do teto e a erosão do piso, processos que destroem as marcas existentes.
Com o colapso do teto e a erosão do piso, a altura das paleotocas pode
alcançar 4 metros e a largura pode ser superior a 2 metros. (Fig. 4).
Fig. 4. - Paleotocas com tetos desabados e pisos erodidos. À esquerda:
vista de dentro para fora de uma paleotoca escavada no manto de alteração
de rochas vulcânicas (basalto) em São José do Hortêncio. A profundidade
da água é de 70 cm, a altura total da paleotoca chega a 3,5 m. À direita:
paleotoca erodida com mais de 40 metros de comprimento escavada no
manto de alteração de rochas graníticas, em Viamão.
3.3 Grupo C
Um terceiro Grupo é formado pelas paleotocas parcialmente
preenchidas por sedimentos. Os sedimentos, em alguns casos, provêm de
dentro da própria paleotoca, pela erosão de porções mais internas. Em
outros casos, os sedimentos parecem ter sido trazidos de fora da paleotoca,
por águas superficiais que escorrem pela encosta na qual a paleotoca está
situada. O preenchimento pode conter, além dos sedimentos trazidos pela
erosão,
argilas
depositadas
por
decantação
durante
episódios
de
“afogamento” da paleotoca e fragmentos rochosos caídos do teto do túnel.
O grau de preenchimento das paleotocas deste Grupo varia muito.
Em alguns casos há apenas uma delgada camada sedimentar cobrindo o
piso original e se confundindo com o sedimento originalmente pisoteado pelo
organismo escavador. O grau de preenchimento gradativamente aumenta
até impossibilitar a entrada de pesquisadores na paleotoca. Em alguns
casos, sobra apenas um pequeno vão de menos de 20 cm junto ao topo da
paleotoca (Fig. 5).
Fig. 5 – À esquerda: paleotoca com em torno de 1,0 m de largura e um
preenchimento mínimo com sedimentos carreados por águas pluviais.
Paleotoca no Bairro Agronomia, Porto Alegre. À direita: paleotoca com mais
de um metro de diâmetro e mais de 10 metros de comprimento quase
completamente preenchida, restando apenas um estreito vão livre junto ao
teto da paleotoca. Pedreira Incopel, Estância Velha.
3.4 Grupo D
Um
último
Grupo
é
formado
por
paleotocas
integralmente
preenchidas, denominadas de crotovinas (do russo “krotovina”). São muito
comuns e, na maior parte dos casos, surgem em escavações, formando
feições circulares de sedimentos cuja cor destoa daquela da rocha ou
sedimento do local. O contraste entre a crotovina e a rocha hospedeira pode
ser muito evidente ou quase imperceptível (Fig. 6). O preenchimento mais
comum das crotovinas é formado por sedimentos maciços, provavelmente
decorrentes de lentos movimentos de massa no maciço rochoso ou trazidos
por águas pluviais. Frequentemente ocorrem níveis horizontais de argilas
marrons maciças depositadas por decantação durante episódios de
“afogamento” da paleotoca. Às vezes, o preenchimento contém blocos de
rochas caídos do teto da paleotoca. As crotovinas podem apresentar
estratificação horizontal de níveis com estes três tipos de materiais.
Fig. 6 – Paleotocas preenchidas (crotovinas). À esquerda, megatúnel
preenchido escavado em arenito Botucatu, seccionado em um trecho em
que apresenta uma curva. O diâmetro da crotovina resultante é de 3,2
metros. Loteamento em implantação em Ivoti. À direita, duas crotovinas
circulares muito mal definidas em sedimentos aluviais muito argilosos em
Nova Santa Rita, em obra ao lado da BR-386.
4. Discussão
A definição de “caverna” não restringe essa denominação a cavidades
originadas por determinados processos naturais. Portanto, paleotocas
podem ser chamadas de cavernas quando seu porte permite o acesso de
uma pessoa adulta. O registro de paleotocas no Cadastro Nacional de
Cavernas Brasileiras depende de sua acessibilidade e do seu estado de
preservação, consideradas caso a caso.
Paleotocas com diâmetro inferior a 60-80 cm, que não permitem a
entrada de pesquisadores, por definição não se constituem em cavernas e
seu cadastro deve ser evitado. Da mesma forma, paleotocas entulhadas
(Grupos C e D acima descritos) não são passíveis de cadastro, a não ser
que o preenchimento seja mínimo, restando um vão livre que permita o
acesso à paleotoca. Isso não impede, entretanto, que uma paleotoca desses
Grupos, uma vez desentulhada, seja denominada de caverna e cadastrada.
Em relação ao acesso, paleotocas dos Grupos A e B constituem cavernas
cujo cadastro deve ser efetuado, desde que seu estado de preservação,
abaixo discutido, o permita.
Quanto ao estado de preservação, há duas situações bem definidas
em relação às paleotocas dos Grupos A e B. Algumas rochas (litotipos) nos
quais as paleotocas foram escavadas são muito estáveis e apresentam um
excelente potencial de preservação dos túneis. É o caso, por exemplo, dos
arenitos eólicos da Formação Botucatu (Jsup – Kinf) na Bacia do Paraná. A
faixa
de
ocorrência
destes
arenitos
apresenta
uma
geomorfologia
movimentada, o que favoreceu a escavação de túneis. Assim, uma grande
quantidade de paleotocas foi encontrada neste litotipo. Essas paleotocas, se
não impactadas pela entrada de águas pluviais, mantêm sua forma
praticamente inalterada através de séculos, mesmo que abertos para a
superfície e freqüentados por animais e humanos. Paleotocas nesta situação
são passíveis de cadastro.
Uma outra situação refere-se a paleotocas escavadas no manto de
alteração
de rochas vulcânicas (basaltos e riolitos) da Formação Serra
Geral na Bacia do Paraná e no manto de alteração de rochas ígneas
plutônicas (granitos em geral) e metamórficas (gnaisses, etc) das regiões de
embasamento cristalino pré-Cambriano em geral. A baixa estabilidade deste
material alterado faz com que as paleotocas sofram colapso em alguns
trechos. Por estas aberturas as águas pluviais transportam sedimentos para
dentro das paleotocas, entulhando a maior parte dos túneis. O que resta da
paleotoca são algumas crateras grandes no terreno cujo alinhamento
reproduz
o
traçado
original
da
paleotoca.
As
crateras
alcançam
profundidades de 4 metros e diâmetros de até 8 metros, estando conectadas
entre si por restos da paleotoca que possuem diâmetros às vezes muito
reduzidos (< 30 cm). Mesmo que alguns trechos de paleotocas nesse estado
de preservação continuem acessíveis, o cadastro destas feições deve ser
evitado, pois se constituem em feições efêmeras que tendem a desaparecer
em poucas décadas através de processos naturais.
5. Conclusões
O registro de paleotocas no Cadastro Nacional de Cavernas
Brasileiras é um passo importante para o reconhecimento e a preservação
destes túneis, escavados por paleovertebrados da megafauna Pleistocênica
Sul-Americana. O registro depende do grau de acessibilidade e do estado de
preservação das paleotocas, consideradas caso a caso. A grande maioria
das paleotocas encontradas está completamente entulhada por sedimentos
de diversas origens, devendo-se evitar seu cadastro. Apenas podem ser
consideradas cavernas passíveis de registro aquelas paleotocas cujo porte
permite o acesso de pesquisadores. Entretanto, se a paleotoca for acessível,
mas estiver passando por rápidos processos naturais de destruição, o
cadastro desta feição efêmera deve ser evitado.
6. Agradecimentos
Agradecemos às centenas de pessoas que forneceram informações
para a localização das paleotocas, aos proprietários de terras que permitiram
ao grupo de pesquisadores o acesso às paleotocas, aos profissionais de
mídia que divulgaram o assunto para a localização de mais paleotocas e às
equipes dos laboratórios das Universidades envolvidas que, de uma ou de
outra forma, auxiliaram neste trabalho.
7. Bibliografia
Buchmann, F.S.C.; Caron, F; Lopes, R.P.; Tomazelli, L. J. 2003. Traços
fósseis (paleotocas e crotovinas) da megafauna extinta no Rio Grande do
Sul, Brasil. In: IX Congresso da ABEQUA - Associação Brasileira de Estudos
do Quaternário, Recife, PE, Anais, 1 CD-ROM.
Buchmann, F.S.C.; Lopes, R.P., Caron, F.; 2009. Icnofósseis (Paleotocas e
Crotovinas) atribuídos a Mamíferos Extintos no Sudeste e Sul do Brasil.
Revista Brasileira de Paleontologia, 12(3): 247-256.
CONAMA, 2004. Resolução no 347, de 10 de setembro de 2004. Diário
Oficial de União, Edição 176, de 13/09/2004 – Seção 1, p. 54-55.
Frank, H.T.; Buchmann, F.S.C; Caron, F.; Lima, L.G. & Lopes, R.P. 2009.
Density of large palaeovertebrate underground shelters in the region north of
Porto Alegre (Rio Grande do Sul - Brazil). In: Reunião Anual da Sociedade
Brasileira de Paleontologia - Paleo RS 2009, São João do Polêsine.
Resumos e Programação, 2009.
Lopes, R.P.; Frank, H.T.; Buchmann, F.S.C.; Ribeiro, A.M.; Caron, F.; Lima,
L.G. 2009. New crotovines and palaeoburrows in the state of Rio Grande do
Sul, Brazil. In: XXIV Jornadas Argentinas de Paleontología de Vertebrados,
San Rafael, Mendoza, Argentina. Libro de Resúmenes, p. 41.
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Paleotocas no Cadastro Nacional de Cavernas – Uma