MAURÍCIO CARLOS DA SILVA A CONSTRUÇÃO CONJUNTA DO CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE DA FALA-EM-INTERAÇÃO EM SALA DE AULA A PARTIR DA ORGANIZAÇÃO SEQUENCIAL DE PERGUNTAS E RESPOSTAS Dissertação apresentada à Universidade Federal de Viçosa, como parte das exigências do Programa de Pós-Graduação em Letras, para obtenção do título de Magister Scientiae. VIÇOSA MINAS GERAIS – BRASIL 2014 Ficha catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e Classificação da Biblioteca Central da UFV T S586c 2014 Silva, Maurício Carlos da, 1979A construção conjunta do conhecimento : uma análise da fala-em-interação em sala da aula a partir da organização sequencial de perguntas e respostas / Maurício Carlos da Silva. – Viçosa, MG, 2014. x, 142f. : il. ; 29 cm. Inclui anexos. Orientador: Wânia Terezinha Ladeira. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Viçosa. Referências bibliográficas: f.97-102. 1. Construtivismo (Educação). 2. Sociolinguística. 3. Etinometodológica. 4. Conhecimento - Aprendizagem. I. Universidade Federal de Viçosa. Departamento de Letras. Programa de Pós-graduação em Letras. II. Título. CDD 22.ed.306.43 MAURÍCIO CARLOS DA SILVA A CONSTRUÇÃO CONJUNTA DO CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE DA FALA-EM-INTERAÇÃO EM SALA DE AULA A PARTIR DA ORGANIZAÇÃO SEQUENCIAL DE PERGUNTAS E RESPOSTAS Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Viçosa, como parte das exigências para a obtenção do título de Magister Scientiae. APROVADA: 26 de março de 2014. _______________________________ _______________________________ Profª. Drª. Ana Maria Ferreira Barcelos Profª. Drª. Amitza Torres Vieira Universidade Federal de Juiz de Fora Universidade Federal de Viçosa ____________________________________ Profª. Drª. Wânia Terezinha Ladeira – Orientadora Universidade Federal de Viçosa Dedico a Pedro, Maria, Cláudia, Ângela, Marcos, Camila, P. Júnior, João Pedro, Clara, Caio Vitor, Luisa e Raphael, minha família. AGRADECIMENTOS Para realizar este trabalho contei com pessoas muito especiais durante todo o percurso desta pesquisa. Por isso agradeço: A Deus pelo dom da vida, e à Maria pela intercessão em todos os momentos. À Wânia Terezinha Ladeira, minha orientadora, que me acolheu como orientando e confiou em meu trabalho. Ao professor participante desta pesquisa, que gentilmente permitiu a observação e gravação de suas aulas, o que tornou possível este trabalho. Aos alunos participantes, que me acolheram e respeitaram meu trabalho enquanto pesquisador. Aos membros da banca de defesa, Amitza Torres Vieira e Ana Maria Ferreira Barcelos, pela leitura criteriosa e pelas contribuições que muito enriqueceram este trabalho. À Ana Luisa Borba Gediel, presidente da banca de defesa, pelo apoio e companhia nesse momento tão importante. À Elaine Luzia da Silva, pela convivência durante as aulas e por ter me apresentado a Análise da Conversa Etnometodológica. À minha turma do mestrado pelos ricos momentos de discussões e diversão em sala. De forma especial à Cristiane de Paula Bouzada, pela companhia e longas conversas na estrada, o que nos tornou bons amigos. Aos professores e funcionários do Programa de Pós Graduação em Letras da UFV, pelo convívio e construção conjunta do conhecimento. Aos meus amigos Elayne Silva de Souza, Ofélia Maria Imaculada e Igor Oliveira Costa, pela leitura e cuidado com o meu texto. À minha amiga, Janaína de Assis Rufino, por dividir comigo o universo encantador da Letras. Ao Educandário dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, onde me descobri professor. E ao IF Sudeste MG, por me permitir ser professor. Ao Rapha pela companhia e cuidado. A todos os meus familiares e amigos pelo apoio e incentivo. E, por fim, aos meus queridos alunos, que diariamente se aventuram comigo na co-construção do conhecimento. SUMÁRIO LISTAGEM DAS SIGLAS E ÍNDICE DAS TABELAS E EXCERTOS .................. RESUMO .............................................................................................................. ABSTRACT.... ...................................................................................................... INTRODUÇÃO .................................................................................................. 1 1. REFERENCIAL TEÓRICO ......................................................................... 6 1.1 A Análise da Conversa Etnometodológica.................................................. 6 1.2 A Organização da Fala-em-Interação ........................................................11 1.2.1 Sequencialidade, Organização e Troca de Turnos .............................11 1.2.2 Os Pares Adjacentes ........................................................................13 1.2.2.1 O Par Adjacente: Pergunta-Resposta ...................................15 1.2.3 As Ps e Rs na Fala-em-Interação da Sala de Aula .............................20 1.3 A Co-Construçao do Conhecimento ...............................................................26 1.4 A Sociolinguística Interacional ................................................................................29 1.4.1 O Conceito de Face..................................................................................... 30 1.4.1 Enquadre, Footing, Alinhamento ................................................................. 32 2. PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS ......................................................35 2.1 A Pesquisa Qualitativa ............................................................................35 2.1.1 A Pesquisa Qualitativa e a Análise da Conversa Etnometodológica ...38 2.2 Descrição do Trabalho de Campo ............................................................39 2.2.1 A Observação Participante ............................................................40 2.2.2 O Curso ................................................................................. .......42 2.2.3 Os Participantes ..................................................... .......................43 2.2.4 A Aula.............................................................................................45 2.3 Geração dos Dados ..................................................................................47 2.4 Métodos de Análises ...............................................................................51 2.4 Questões Éticas ........................................................................................52 3. ANÁLISE DOS DADOS ................................................................................55 3.1 O que Conhecem os Alunos ............................................................. .......57 3.1.1 O Desenvolvimento Sustentável ............................... .......................57 3.1.1 Agrocombustíveis ........................................................................66 3.2 A Construção Conjunta do Conhecimento ...............................................74 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................91 1. Resumo das Proposições e Resultados dos Dados .........................................91 REFERÊNCIAS .......................................................................................... .......97 ANEXOS ................................................................................. .......................103 Cartas de Consentimento Livre e Esclarecido ............................................ 104 Parecer Consubstanciado do CEP ............................................................... 110 Transcrição das Aulas ............................................................................... 112 LISTAGEM DAS SIGLAS E ÍNDICE DAS TABELAS E EXCERTOS Siglas ACE – Análise da conversa Etnometodológica PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais UCT – Unidade de Construção de Turno LRT – Local Relevante para a Transição de Turno PPP – Primeira Parte do Par SPP – Segunda Parte do Par P – Pergunta R – Resposta Ps – Perguntas Rs – Respostas SI – Sociolinguística Interacional PROCON – Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor IRA – Iniciação, Resposta, Avaliação ISE – Interação Social e Etnografia PROEJA – Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Jovens e Adultos PPC – Projeto Pedagógico do Curso CONEP – Comissão de Ética em Pesquisa CNS – Conselho Nacional de Saúde CEP/UFV – Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa Tabela Tabela 1: Sinais de transcrição utilizados nesta pesquisa .............................................. 49 Excertos Excerto 01: ..................................................................................................................... 55 Excerto 02: ..................................................................................................................... 56 Excerto 03: ..................................................................................................................... 58 Excerto 04: ..................................................................................................................... 59 Excerto 05: ..................................................................................................................... 61 Excerto 06: ..................................................................................................................... 63 Excerto 07: ..................................................................................................................... 67 Excerto 08: ..................................................................................................................... 67 Excerto 09: ..................................................................................................................... 68 Excerto 10: ..................................................................................................................... 70 Excerto 11: ..................................................................................................................... 71 Excerto 12: ..................................................................................................................... 74 Excerto 13: ..................................................................................................................... 75 Excerto 14: ..................................................................................................................... 76 Excerto 15: ..................................................................................................................... 78 Excerto 16: ..................................................................................................................... 81 Excerto 17: ..................................................................................................................... 83 Excerto 18: ..................................................................................................................... 84 Excerto 19: ..................................................................................................................... 85 Excerto 20: ..................................................................................................................... 86 Excerto 21: ..................................................................................................................... 87 RESUMO SILVA, Maurício Carlos da, M.Sc., Universidade Federal de Viçosa, março de 2014. A construção conjunta do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula a partir da organização sequencial de perguntas e respostas. Orientadora: Wânia Terezinha Ladeira. Esta pesquisa, fundamentada principalmente na teoria da Análise da Conversa Etnometodológica (ACE), investiga a co-construção do conhecimento através do par adjacente pergunta-resposta na interação entre professor e alunos em sala de aula. Os dados foram coletados através da observação participante e da gravação em áudio da fala-em-interação de uma turma do Ensino Médio de um curso Técnico Integrado em Agroecologia de uma Instituição Federal do Interior de Minas Gerais. Após a coleta dos dados, as gravações foram transcritas e analisadas a partir de uma perspectiva êmica, como sugerem Sacks, Schegloff, Jefferson (1994) e Garcez (2008) para quem este tipo de trabalho consiste na “descrição da ação social humana pela observação de dados de ocorrência natural dessa ação mediante o uso da linguagem” (GARCEZ, 2008, p. 22). A análise dos dados foi dividida em duas seções de acordo com a atividade interacional executada pelo docente e pelos estudantes. A primeira seção foi subdividida em dois momentos, o primeiro referente à interação entre o professor e o grupo de alunos que apresentou o seminário sobre Desenvolvimento Sustentável, já o segundo momento corresponde à interação entre o docente e o segundo grupo que apresentou um trabalho sobre o tema Agrocombustíveis. A segunda seção consiste na análise da fala interacional entre o professor e toda a turma, momento que denominamos Co-Construção do Conhecimento. Com as análises foi possível perceber que o uso de perguntas e respostas na interação entre professor e aluno é algo frequente e não acontece de forma despretensiosa, mas articulada e, em algumas situações, estrategicamente direcionada para a produção e interpretação de um discurso significativo comum. O que permite, diante do objetivo desta pesquisa, reafirmar a importância do estudo desse par dialógico para compreender como a fala-em-interação na sala de aula é organizada para a construção conjunta do conhecimento. ABSTRACT SILVA, Maurício Carlos da, M.Sc., Universidade Federal de Viçosa, march, 2014. The joint construction of knowledge: an analysis of talk-in-interaction in the classroom from the sequential organization of questions and answers. Advisor: Wânia Terezinha Ladeira. This research, based mainly on the Ethnomethodological Conversation Analysis, investigates the co-construction of knowledge through the adjacent pair question-answer interaction between teacher and students in classroom. Data were collected through participant observation and audio recording of the talk-in-interaction in a class of the Technical Course in Agroecology integrated to high school, in a Federal Institution from Minas Gerais. After collecting the data, the recordings were transcribed and analyzed from an emic perspective, as suggested by Sacks, Schegloff, Jefferson (1994) and Garcez (2008) for whom this type of work is the "description of human social action by the observation data of natural occurrence of this action through the use of language" (GARCEZ 2008, p. 22). The data analysis was divided into two sections considering the activities performed by the teacher and the students. The first section was divided into two stages, the first one refers to the interaction between the teacher and the group of students who did a presentation on Sustainable Development, and the second moment corresponds to the interaction between the teacher and the group who presented about Biofuels. The second section is an analysis of interactional talk between the teacher and the whole class, which was called Co-Construction of Knowledge. The analysis revealed that the use of questions and answers on the interaction between teacher and students is very frequent and it does not happen unpretentiously, on the contrary, it happens articulately and, in some situations, is strategically directed to the production and interpretation of a common meaningful discourse. Considering the objective of this research, it corroborates the importance of studying this dialogic pair to understand how the talk- in-interaction is organized in the classroom for the joint construction of knowledge. INTRODUÇÃO “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou construção”. Paulo Freire No período em que passei em sala de aula como aluno, o que totaliza quase três décadas, pude observar e viver diferentes mudanças teóricas ligadas ao âmbito cognitivo que buscavam uma melhor forma de ensinar e aprender os conteúdos curriculares. No entanto, nos últimos dez anos em que ocupei a sala de aula, como professor, percebo que as teorias cognitivistas não são as únicas responsáveis pelo sucesso ou fracasso escolar. Isso se deve também ao tipo de relação que é construída nesse ambiente, ou seja, a qualidade da interação interfere no processo ensino-aprendizagem. Diante disso, surgiu nossa inquietação que se tornou uma das grandes questões dessa pesquisa: como o conhecimento pode ser co-construído na interação entre o professor e os alunos dentro do espaço sala de aula. Acreditamos que o processo ensino-aprendizagem não deve ser reduzido a um monólogo, no qual o aluno se porta como mero espectador da atuação do professor como único possuidor e guardião do conhecimento, mas deve acontecer de forma crítica e participativa. Cada pessoa deve ter sua perspectiva da verdade respeitada, visto que cada um ocupa um lugar diferente no universo, portanto, tem um ponto de vista distinto sobre a mesma questão. Dessa forma, o que conhece o aluno deve ser levado em conta no momento da aprendizagem para que a passagem da crença, da opinião subjetiva para o conhecimento intersubjetivo, não aconteça de forma brusca, mas que seja, de fato, um processo percorrido pelo aluno. Um dos mais antigos métodos pela busca do conhecimento verdadeiro, levando em conta a interação com o outro, é a maiêutica socrática. Sócrates, grande filósofo grego, se julgava ignorante e, portanto, não se colocava em condições de transmitir nenhum saber aos outros. Usando de metáfora, dizia que somente aquele que possuía a alma grávida pela verdade poderia alcançá-la. Porém, assim como a mulher grávida no corpo tem necessidade da parteira para dar à luz, também o discípulo que tem a alma grávida pela verdade tem necessidade de uma espécie de obstetra que o ajude a parir o conhecimento, o que seria possível, segundo nosso filósofo, no contato com o outro, na 1 interação mediada pela linguagem, de forma específica, através de uma sequência de perguntas e, tomando como ponto de partida uma ideia que é colocada em dúvida. Em Reale e Antiseri (1990) encontramos esta máxima Socrática: (...) a minha arte obstétrica se assemelha à das parteiras (...). E minha maior capacidade é que, através dela eu consigo discernir se a alma do jovem está parindo fantasmas e mentiras ou a alguma coisa vital e real. Pois algo eu tenho em comum com as parteiras: também sou estéril (...) de sabedoria. E a reprovação que tantos já me fizeram, de que eu interrogo os outros, mas, eu próprio, nunca manifesto meu pensamento sobre nenhuma questão, ignorante que sou, é uma reprovação muito verdadeira (REALE & ANTISERI, 1990, p. 99). Essa capacidade de levar o outro a parir o conhecimento é a função social do professor, que não deve, simplesmente, transmitir o que sabe, ou aquilo que está no material didático, mas deve conduzir o aluno a refletir sobre sua realidade, a questionar o seu próprio conhecimento rompendo com falsas ideologias, passando de um conhecimento amparado no senso comum para um saber racional livre de elementos afetivos e subjetivos. Acreditamos que essa aquisição de um conhecimento sólido, crítico e reflexivo só é possível através da interação, do contato com o outro através da linguagem, que deve ser tomada não só como uma atividade verbal, mas principalmente como uma ação social, pois ela atravessa todas as situações particularidades da vida das pessoas. Como diria Bakhtin (2003), o homem é um ser essencialmente dialógico, A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar do diálogo: interrogar, ouvir, responder, concordar etc. Nesse diálogo, o homem participa inteiro e com toda a vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, todo o corpo, os atos. Aplica-se totalmente na palavra, e essa palavra entra no tecido dialógico da vida humana, no simpósio universal (BAKHTIN, 2003, p. 348). Através do diálogo, ou seja, através da Fala-em-Interação, utilizando o termo próprio da Análise da Conversa Etnometodológica (doravante ACE), teoria que utilizaremos como referencial em nossa pesquisa e sobre a qual discorreremos mais adiante, professor e aluno em ambiente escolar podem co-construir o conhecimento e assim transformar sua maneira de estar no mundo. 2 Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) afirmam que para a formação do aluno, o processo de ensino e aprendizagem tem que focalizar na interação, ou seja, no diálogo entre o professor e aluno: Buscar a plena formação do aluno para participar do convívio social de maneira crítica, a partir de competências e habilidades que estruturam o trabalho com a linguagem, pois, sendo esta uma herança social, reprodutora de sentidos e possibilitadora da interação entre os sujeitos, através do discurso, constitui-se numa das práticas sociais (BRASIL, 1999, pg.125). A forma mais comum de interação entre professor e aluno dentro da sala de aula acontece através de perguntas e respostas, sejam para sanar dúvidas, para avaliar a aprendizagem ou para motivar uma reflexão, por isso, entender como essas atividades acontecem dentro do espaço educacional é fundamental para compreender também o processo de construção do conhecimento. Portanto, acreditando que a aprendizagem se dá na prática social e é instanciada por meio da interação, e que a organização da fala-em-interação em sala de aula pode ser determinante na formação dos alunos, me propus, enquanto professor de Línguas, estudar a fala-em-interação na relação professor-aluno, de forma específica, a organização sequencial pergunta-resposta desses atores sociais no ambiente sala de aula. Nossa intenção principal é investigar como o conhecimento é co-construído na interação entre professor e alunos, através da organização sequencial pergunta-resposta dentro da sala de aula. Perceber se o conhecimento é tomado como algo em construção conjunta ou como algo dado e acabado e, portanto, reproduzido. Como objetivos específicos, nos propusemos: Descrever a organização da fala-em-interação em sala de aula, de forma específica, do par adjacente pergunta-resposta de professor e alunos; Verificar se a sala de aula estudada se constitui como um espaço democrático, com uma relação simétrica, na qual todos têm acesso ao direito de falar; Descrever os tipos de perguntas e repostas que surgem no espaço interacional sala de aula. Observar as funções discursivas e interacionais de perguntas em sala de aula. Para isso, procuramos nos embasar nas perspectivas da Análise da Conversa Etnometodológica como método de análise e suporte teórico que serviram de base para que os objetivos deste trabalho fossem alcançados. De forma específica nos filiamos às 3 orientações de Sacks, Schegloff e Jefferson, adotadas aqui no Brasil, por Gago, Garcez, Loder, Osterman dentre outros1. Para a materialização dos dados a serem analisados, utilizamos a observação participante e a gravação em áudio da fala-em-interação de uma turma do Ensino Médio de um curso Técnico Integrado em Agroecologia de uma Escola Federal do interior de Minas Gerais. Depois dos dados coletados e transcritos, foram analisados levando em conta o ponto de vista do participante no momento da interação e não a percepção do analista no momento da análise. Sobre isso Garcez (2008) vai dizer que: Essa tendência [de analisar os dados do ponto de vista do analista], aparentemente natural humana, precisa ser levada em conta se queremos mesmo buscar a perspectiva dos participantes, mas certamente precisa ser posta em cheque e superada para nos aproximarmos da ótica êmica, desde a situação dos participantes, aquela em que eles estavam engajados, e não nós no momento da análise (GARCEZ, 2008, p. 34). Outras pesquisas já se dedicaram a estudar a co-construção do conhecimento no ambiente sala de aula: GARCEZ (2006); FREITAS (2006); SCHULZ (2007); CONCEIÇÃO (2008); FRANK (2010); GARCEZ, FRANK, KANITZ (2012); entre outros. No entanto, essas investigações não se dedicaram de forma específica à sequência interacional pergunta-resposta. Por isso, esta pesquisa se torna relevante, pois tem como proposta (re)pensar a educação a partir dela mesma, oferecer novos dados relativos à interação da comunidade educativa, de forma a levar as pessoas envolvidas no processo educacional a refletirem sobre o ensino-aprendizagem e não permanecerem paralisadas diante da realidade dada, pois de acordo com Garcez (2006), a partir da sua estrutura, a organização da fala-em-interação pode ter funções que variam entre o “controle social, a reprodução de conhecimento e a construção conjunta de conhecimento” GARCEZ (2006, p. 68). Esta dissertação está dividida em três capítulos, além dessa introdução e das considerações finais. No primeiro capítulo, apresentamos o Referencial Teórico que sustenta nossa pesquisa. Em seguida, apresentamos os Pressupostos Metodológicos, onde detalhamos o caminho percorrido para que os objetivos deste estudo fossem 1 Atualmente, no Brasil, temo três vertentes de trabalhos ligados à ACE: o primeiro grupo com o qual nos identificamos está representado por Gago, Garcez, Loder e Osterman que seguem as mesmas orientações de Garfinkel, Sacks, Schegloff e Jefferson. Outra linha representada pelo grupo de pesquisa da PUC-RIO - Carmo, Graça e Liliana e pelo da UFJF – Sonia e Torres que tentam aliar conceitos da ACE à perspectiva sociointeracional. Por fim temos outra vertente representada por Marcuschi e Fávero, denominada Análise da Conversação, nesse último caso não há uma preocupação com a etnometodologia. 4 alcançados. Já no terceiro capítulo, fazemos a Análise dos Dados, onde procuramos descrever a fala-em-interação entre o professor e os alunos na sala de aula, dando ênfase às ocorrências de perguntas e respostas, percebendo sua forma e função no processo de construção do conhecimento. 5 1. REFERENCIAL TEÓRICO No presente capítulo, apresentamos os subsídios teóricos que fundamentam esta pesquisa. Iniciamos fazendo uma abordagem sobre a Análise da Conversa Etnometodológica, especificando sua origem, seus autores e seus principais pressupostos teóricos. Depois discorremos sobre sequencialidade, organização e troca de turnos, enquanto elementos estruturantes da maquinaria da conversa. Passamos para os pares adjacentes e, de forma específica, tratamos mais detalhadamente sobre as Perguntas e as Respostas, conceitos chave para nosso estudo. Na sequência, fazemos uma apresentação das perguntas e respostas relacionadas à organização da fala-eminteração da sala de aula. Retomamos brevemente alguns conceitos da Sociolinguística Interacional, utilizados em nosso trabalho. E, por fim, concluímos o capítulo com uma revisão de trabalhos relacionados à co-construção do conhecimento, o que nos permitiu definir nossa visão sobre o assunto. 1.1 - A Análise da Conversa Etnometodológica (ACE) A ACE surgiu como uma das ramificações da Etnometodologia. Criada na década de 60, a Etnometodologia ganhou notoriedade a partir da publicação de Studies in ethomethodology, em 1967, por Harold Garfinkel, tendo como ponto central “questões conceituais da Sociologia, como a teoria da ação social, a natureza da intersubjetividade e a constituição da ação social do conhecimento” (HERITAGE,1999, p. 323). De acordo com o próprio Garfinkel (1967), essa nova corrente toma como objeto de estudo empírico as atividades, as circunstâncias práticas e as situações de raciocínio sociológico prático, dando às atividades do dia a dia a mesma importância que, geralmente, é atribuída aos fenômenos extraordinários. Com isso, um novo campo de investigação sociológica é estabelecido: a análise da ação social a partir de situações da vida cotidiana. A atenção volta-se para a apreensão da forma com que os atores sociais ‘‘criam, reúnem, produzem e reproduzem as estruturas práticas para as quais se orientam’’ (HERITAGE, 1999, p. 333). Ela busca compreender os procedimentos que esses atores adotam para dar sentido à sua conduta e 6 para ordenar suas ações cotidianas, se ocupando em investigar como, em suas atividades práticas, os indivíduos constroem e significam o seu estar-no-mundo. No tratamento dessas questões, a Etnometodologia contesta os, então, tradicionais métodos utilizados pela Sociologia para investigar a organização da sociedade, provocando com isso uma mudança paradigmática de “um paradigma normativo para um paradigma interpretativo” (COULON, 1995, p. 10), na medida em que recusa explicações a priori das práticas sociais, que consideram apenas os aspectos exteriores à ação. Na perspectiva dos etnometodólogos, é imprescindível o olhar dos participantes para entender o que eles estão fazendo. As suas interações e o modo como eles tratam as suas ações e as ações dos outros são relevantes no processo de análise, enquanto que para os sociólogos, o que pensam os atores sociais no exercício das atividades cotidianas não é relevante. Como indica Coulon (1995), a Etnometodologia percebe que, de forma geral, (...) os sociólogos supõem a priori que um sistema estável de normas e significações partilhadas pelos atores governa todo o sistema social. Os conceitos da sociologia, assim como as normas, as regras, as estruturas, provêm do fato que a construção do dispositivo sociológico pressupõe a existência de um mundo significante exterior e independente das interações sociais. Para a sociologia essas hipóteses se tornam de fato, recursos implícitos (COULON, 1995, 31). Rejeitando essa abordagem, a Etnometodologia busca apreender a realidade social como um construto, como um processo dinâmico mantido e elaborado pelos atores sociais em suas práticas rotineiras. Ou seja, não são as regras e recursos externos ao momento da interação que poderão explicar as ações, mas os procedimentos através dos quais os atores atualizam essas regras e esses recursos, para organizar o seu modo de agir e interpretar o mundo. Em suma, a Etnometodologia aponta que a organização das condutas dos atores sociais durante a interação é algo continuamente construído no curso da ação. Trata-se, pois, de um processo no qual a intervenção dos participantes é constituída na própria interação, em decorrência do contato com o outro e com as peculiaridades situacionais. A partir dos anos de 1970, a Etnometodologia passou por uma significativa divisão, de um lado, os Sociólogos Etnometodólogos que se mantinham ligados às preocupações da sociologia tradicional, e por outro, os Analistas da Conversa que se dedicavam a descrever e explicar as ações empreendidas pelos atores sociais ao se engajarem num processo de interação mediado pela linguagem. Alguns teóricos, 7 inclusive, consideram essa última como um campo independente, porque se afasta das questões sociológicas defendidas pela Etnometodologia. Seus expoentes mais importantes são Sacks, Schegloff e Jefferson, que mesmo sendo sociólogos conseguiram atrair o interesse não só dos estudiosos da linguagem, como também de várias áreas do conhecimento ao propor um modo de pesquisa que contemplava, segundo Garcez (2008), o falante de carne e osso, contrariando o momento intelectual2 da época, e afirmando que a conversa, o uso da linguagem em seu cenário mais corriqueiro e universal, não era caótico, mas sim organizado e passível de análise e descrição. De acordo com Garcez (2008), a ACE dedica-se ao estudo da atividade humana mediante a linguagem e seu principal objetivo é descrever e explicar as ações empreendidas pelos atores sociais ao se engajarem num processo de interação social. Dessa forma, o foco de interesse da ACE não é o estudo da linguagem em si, mas a descrição das ações sociais praticadas pelos agentes sociais, a partir da linguagem. Isso significa que esta deixa de ser vista apenas como uma ação verbal e passa a ser assumida como uma ação social. Para Heritage e Atkinson (1984): O objetivo central de pesquisas em Análise da Conversa é a descrição e a explicação das competências que os falantes comuns usam e de que se valem para participar de interações inteligíveis e socialmente organizadas. Em sua forma mais básica, esse objetivo é descrever os procedimentos por meio dos quais os participantes produzem seus próprios comportamentos e entendimentos e por meio dos quais lidam com o comportamento dos outros. Uma concepção básica é a proposta de Garfinkel (1967:1) de que essas atividades – produzir comportamento e entendimento e lidar com isso – são realizadas como produtos de um conjunto de procedimentos passíveis de serem explicados. (HERITAGE; ATKINSON, 1984, p. 1).3 O sociólogo Harvey Sacks foi quem introduziu a conversa enquanto objeto de investigação, ao analisar trechos de gravações de pessoas que ligavam para um centro de apoio a suicidas em potencial, Sacks descreveu, ainda com seu então colega 2 O momento intelectual que é tratado aqui corresponde às ideias chomskianas que propunham uma ciência da linguagem que não contemplava o sujeito falante em situações reais de fala. 3 Tradução de: “The central goal of conversation analytic research is the description and explication of the competences that ordinary speakers use and rely on in participating in intelligible, socially organized interaction. At its most basic, this objective is one of describing the procedures by which conversationalists produce their own behavior and understand and deal with the behavior of others. A basic assumption throughout is Garfinkel’s (1967: 1) proposal that these activities - producing conduct and understanding and dealing with it -are accomplished as the accountable products of common sets of procedures.” 8 Garfinkel, os métodos que as pessoas comuns utilizam para realizar ações no mundo através da fala-em-interação. Com a morte prematura de Sacks, em 1975, os estudos foram interrompidos, mas suas aulas foram transformadas em uma obra chamada Lectures on Conversation, organizada por Gail Jefferson com texto introdutório de Emanuel Schegloff. Na verdade, foi principalmente pelo empenho desses dois últimos que as propostas de Sacks foram perpetuadas. Em 1974, um ano antes de sua morte, Sacks, juntamente com Schegloff e Jefferson, publicaram o artigo A simplest systematics for the organization of turn-taking for conversation, cujo objetivo principal era demonstrar que a conversa não é uma ação caótica como parece e que as pessoas se organizam socialmente, mesmo que de forma inconsciente, através da fala. Dentre as observações feitas pelos autores, estão: 1. A troca de falante se repete, ou pelo menos ocorre; 2. Na grande maioria dos casos, fala um de cada vez; 3. Ocorrências de mais de um falante por vez são comuns, mas breves; 4. Transições (de um turno para o próximo) sem intervalos e sem sobreposições são comuns. Junto com as transições caracterizadas por breves intervalos ou ligeiras sobreposições, elas perfazem a grande maioria das transições; 5. A ordem dos turnos não é fixa, mas variável; 6. O tamanho dos turnos não é fixo, mas variável; 7. A extensão da conversa não é previamente especificada; 8. O que cada um diz não é previamente especificado; 9. A distribuição relativa dos turnos não é previamente especificada; 10. O número de participantes pode variar; 11. A fala pode ser contínua ou descontínua; 12. Técnicas de alocação de turno são obviamente usadas. Um falante corrente pode selecionar um falante seguinte (como, por exemplo, quando dirige uma pergunta à outra parte) ou as partes podem se autosselecionar para começar a falar; 13. Várias ‘unidades de construção de turnos’ são empregadas; por exemplo, os turnos podem ser projetadamente a ‘extensão de uma palavra’ ou podem ter a extensão de uma sentença; 14. Mecanismos de reparo existem para lidar com erros e violações da tomada de turnos; por exemplo, se duas partes encontram-se falando ao mesmo tempo, uma delas irá parar prematuramente, reparando, assim, o problema. (SACKS; SCHEGLOFF; JEFFERSON, 2003/1974). Essas observações não têm caráter prescritivo, mas descritivos dos métodos que os interagentes utilizam para organizar suas interações, ainda que nunca tenham parado para pensar sobre isso. Essas mesmas regras, observadas em contexto de conversa cotidiana, podem ser aplicadas também em contextos institucionais como, por exemplo, em um júri, em uma sala de aula, em uma consulta médica. Contudo, a fala-eminteração em contextos institucionais pode apresentar outras especificidades. Sobre isso discorreremos mais adiante. 9 A análise da conversa conduz suas investigações para as ações sociais cotidianas nas quais os sujeitos se inserem em processos de troca conversacional. A preocupação central dessa corrente de estudos é desvendar as competências utilizadas pelos atores sociais enquanto desempenham seus diversos papéis na sociedade, ou seja, ‘‘os procedimentos e as expectativas pelos quais a interação é produzida e compreendida’’ (HERITAGE, 1999, p. 371). Outro aspecto metodológico importante dentro da ACE é a pesquisa feita a partir de uma perspectiva êmica, que privilegia o ponto de vista dos membros da comunidade sob o ponto de vista do pesquisador, o que só é possível pela observação rigorosa do que os participantes demonstram uns para os outros, para Pike (1971) “o ponto de vista êmico resulta estudar o comportamento como se fosse do lado de dentro de um sistema” (PIKE, 1971, p. 37). É aí que temos acesso à ação social enquanto unidade analítica, ação essa que deve ser avaliada e explicada para que a realidade construída seja comum a todos. No entanto, é preciso que o analista limite-se àquilo que pode ser observado no comportamento dos participantes no momento da interação, e não no momento da análise, como coloca Garcez (2008), é preciso superar a visão ética e aproximarmos da ótica êmica. Quando se fala em perspectiva ética refere-se a afirmações generalizadas sobre os fatos a partir de um conhecimento exterior, fora do contexto situacional onde a ação aconteceu, enquanto que a visão êmica é feita de dentro do sistema, no aqui e agora da interação. Essa ideia de analisar a linguagem tomando-a a partir da sua situação de produção, também é defendida por Ladeira (2011) quando afirma que Não se deve considerar a linguagem em abstrato, em sua estrutura formal, mas sempre em relação a uma situação na qual faz sentido o uso de tal expressão. Quando se analisa a linguagem, a finalidade não deve ser apenas analisá-la enquanto tal, ou seja, a sua estrutura, mas também analisar o contexto social e cultural no qual é usada, as práticas sociais, paradigmas e valores, enfim, toda a “racionalidade” de uma comunidade em comunicação (LADEIRA, 2011, p. 45). Toda essa proposta da ACE em estudar a fala-em-interação em contexto natural de uso, a partir do ponto de vista do participante contraria o que inicialmente pregava a própria Linguística, isso é perceptível já no estruturalismo saussuriano que acreditava que a fala, enquanto uso individual da língua, não poderia ser objeto de estudo da Linguística enquanto conhecimento científico. Fato desmistificado pelas pesquisas em ACE que demonstram que estudar a fala-em-interação é uma oportunidade de olhar para uma situação social de forma microscópica, tendo acesso a uma gama de informações 10 geradas pelos indivíduos envolvidos. Em outras palavras, a ACE não acredita que as ações sociais possam ser tomadas como fatos pré-concebidos exteriores à situação interacional, pelo contrário, elas só podem ser explicadas pela observância rigorosa da interação entre os participantes e como estes significam, através da linguagem, o que está acontecendo naquele exato momento. Sabemos, então, que a preocupação da ACE é com o estudo da ação humana mediante a linguagem, e que a fala-em-interação não acontece de forma arbitrária, mas organizada de modo a garantir um entendimento comum entre os sujeitos envolvidos na conversa. Passaremos então a descrever o funcionamento do processo conversacional, priorizando os aspectos que julgamos mais relevantes para o nosso trabalho. 1.2. A Organização da Fala-em-Interação Os primeiros estudos em ACE se concentraram em desvendar a chamada maquinaria da conversa (Sacks, 1992), ou seja, preocupava-se em descrever como a conversa se estrutura e se organiza. Com isso, importantes considerações foram feitas, dando origem à descrição de um aparato teórico-metodológico muito abrangente, aqui abordaremos apenas os conceitos mais importantes para esta pesquisa. 1.2.1 – Sequencialidade, Organização e Troca de Turnos A noção de sequencialidade é fundamental para compreender os estudos de falaem-interação, pois ela sugere que, quando uma pessoa fala, ela está levando em consideração o que foi dito anteriormente por outra. Conforme Loder; Salimen; Müller (2008), outras ideias são agregadas a essa noção: (a) os participantes estão sempre evidenciando uns para os outros a inteligibilidade da interação; (b) o que se diz a cada turno tem uma configuração sequencial e não são elementos estanques que têm o mesmo valor e que realizam as mesmas ações onde quer que sejam produzidos; (c) os participantes alternam-se nos papéis de falante e ouvinte. Essa organização sequencial é fundamental para o desenrolar das ações por meio da fala-em-interação, pois é ela que garante o caráter responsivo da interação, ou seja, é 11 devido a ela que um participante tem a oportunidade de demonstrar que o que ele está dizendo ou fazendo é uma resposta ao que foi dito ou feito anteriormente por outro. No entanto, para que a sequencialidade na interação ocorra é preciso haver uma distribuição ordenada de oportunidades que permita que cada participante tenha acesso à fala. Esse gerenciamento organizacional é descrito dentro da ACE como a organização da tomada de turno. Sacks, Schegloff e Jefferson (1974), partindo do princípio de que: (a) a troca de turnos ocorre; (b) apenas um falante tende a falar por vez e (c) os turnos são tomados com o mínimo de espaço ou sobreposição de fala possível, os autores perceberam que um turno de fala pode variar em termos de forma, conteúdo e duração. Dessa observação nasceu o que se considera a descrição sistemática de como os participantes de uma interação se organizam para se entenderem e manterem uma conversa. De acordo com Schegloff (1992b), apud Freitas; Machado (2008), os turnos são sequências de fala de um participante da conversa, são segmentos construídos a partir de Unidades de Construção de Turno (UCTs), que podem corresponder, de maneira geral, a unidades como sentenças, orações, palavras isoladas, locuções frasais ou mesmo recursos prosódicos. As UCTs, enquanto unidades básicas da organização dos turnos na fala interacional, têm como uma de suas propriedades a capacidade da projetabilidade, que “se refere ao fato de que os participantes podem prever, no curso da UCT, que tipo de unidade está sendo produzida pelo interlocutor e, onde, provavelmente, o turno pode vir a terminar” (FREITAS; MACHADO, 2008, p. 63-64). Tendo em vista a noção de sequencialidade, isto é, um turno deve ser seguido por outro, Sacks, Schegloff, e Jefferson (1974/2005) defendem que a troca de turnos não ocorre aleatoriamente, mas de forma organizada, obedecendo os momentos próprios oferecidos pelo falante corrente, como denomina a ACE, nos Locais Relevantes para Transição dos Turnos (LRT), que são os lugares em que os falantes identificam uma possível completude de uma UCT e a possibilidade de ocorrer a troca de turno, o que pode ser sinalizado pela completude de um sintagma, pela entonação, pelo prolongamento de som, por um tempo de silêncio etc. As observações feitas pelos autores de toda essa arquitetura que envolve a organização de tomada dos turnos permitiram a elaboração de duas regras que, também, não possuem caráter prescritivo, mas descritivo: 12 Regra 1- Para qualquer turno, no lugar relevante para transição (LRT) de uma unidade de construção de turno (UCT): (a) Se o falante corrente identificou ou selecionou um próximo falante em particular, então o falante selecionado deve tomar o turno nesse momento. (b) Se o falante corrente não selecionou o próximo falante antes do final da UCT, então qualquer próximo falante pode (mas não necessariamente precisa) se autosselecionar nesse ponto. Se ocorrer autosseleção, então o primeiro falante a se autosselecionar tem direito ao turno. (c) Se nenhum próximo falante se autosselecionou, então o falante corrente pode (mas não necessariamente precisa) continuar a falar com uma nova UCT. [...] Regra 2: Se o falante corrente não identificou ou selecionou um próximo falante em particular (1(a) acima) ou se, ao final da UCT, um próximo falante não tiver se autosselecionado (1(b) acima), então as regras 1(a)-(c) passam a valer novamente para o próximo LRT e assim recursivamente até que a transição de turnos se realize (FREITAS; MACHADO, 2008, p. 66-69). O sistema de tomada de turnos foi, originalmente, pensado para descrever a conversa cotidiana, de acordo com Sacks; Schegloff; Jefferson (1974) e, somente depois adaptado para compreender a organização da fala-em-interação em contexto institucional. É importante notar que toda essa organização conversacional de que se valem os participantes no momento da interação tem como objetivo central a manutenção do entendimento mútuo. De acordo com Schegloff (1991), os procedimentos utilizados ao longo da conversa não ocorrem de forma acidental e automática. Pelo contrário, eles existem como métodos que estão à disposição dos participantes para a produção e manutenção de um entendimento comum, que a ACE vai chamar de intersubjetividade. Para que esse entendimento seja compartilhado pelos participantes é preciso que suas ações aconteçam de forma conjunta, que haja uma sincronia entre o turno anterior e os seguintes. Observando o caráter sequencial e a ocorrência da intersubjetividade na fala-em-interação, os pesquisadores da ACE perceberam a existência de elocuções que se organizam sempre aos pares, os denominados pares adjacentes, elementos importantes para o nosso trabalho e sobre os quais discorreremos a seguir. 1.2.2- Os Pares Adjacentes Os pares adjacentes, outro conceito importante para o entendimento da estrutura conversacional, consiste em intervenções pareadas, tais quais perguntas e respostas, saudações ou despedidas; convite e aceite ou recusa, etc., atos que formam uma sequência ordenada. Conforme Schegloff e Sacks apud Levinson (2007), os pares de 13 adjacência são sequências de duas enunciações que são: adjacentes, produzidas por falantes diferentes; ordenadas, como primeira e segunda parte; e tipificadas, de modo que uma primeira parte do par (PPP) específica exige uma segunda parte do par (SPP) também específica, pois a pronunciação de uma PPP por um dos interagentes provoca o seu interlocutor a oferecer um tipo de resposta de formato mais ou menos previsível, ou seja, uma vez que o primeiro elemento de um par adjacente foi manifesto, o segundo é esperado. Desse modo, os pares adjacentes funcionam como mecanismo a partir do qual a compreensão intersubjetiva é construída e mantida durante a interação. Como sugere Heritage (1999), a SPP adjacente manifesta uma compreensão pública da declaração anterior à qual se dirigem, e essa compreensão é disponível para a confirmação, o comentário, a correção, etc. da primeira vez pelo produtor da primeira parte do par. Desse modo o posicionamento adjacente proporciona um recurso para a contínua atualização das compreensões intersubjetivas (HERITAGE, 1999, p. 373). A produção da SPP adjacente indica como foi o processamento de interpretação realizada pelo agente respondente. A sequência dos posicionamentos adjacentes permite aos participantes reconhecer fracassos interacionais, bem como reorientar, quando necessário, o curso da conversa, de modo a garantir o estabelecimento de uma reciprocidade de compreensão necessária. Para Levinson (1983) a questão fundamental dos pares adjacentes é a noção de relevância condicional e não a imediata sequencialidade do par. Apoiado nas ideias apresentadas por Schegloff (1972), de que a adjacência rigorosamente imediata é um requisito muito forte, sugerindo então que possam existir sequências inseridas entre os pares adjacentes. Levinson (1983) acredita que o que garante a adjacência de um par elocucional não é uma regra de formação do tipo que especifica que uma pergunta precisa de uma resposta para que conte como um discurso bem formado, mas sim a existência de expectativas específicas que devem ser atendidas pela SPP a partir do que foi dito pela PPP. Loder, Salimen e Müller (2008) também apontam a relevância condicional como uma das importantes características dos pares adjacentes. Para as autoras, além do ordenamento entre as elocuções do par, há ainda uma relação necessária entre as duas elocuções, visto que, dada a PPP, não se segue uma SPP qualquer, mas apenas algumas são aceitáveis. Assim, a ocorrência de uma determinada PPP cria a expectativa da 14 ocorrência, em seguida, de uma determinada SPP ou de um leque de possibilidades de SPP. Relacionada com as possíveis alternativas para a SPP está a noção de preferência e despreferência, outra característica importante dos pares adjacentes, que merece atenção. Levinson (1983) ressalta que há segundas partes que são preferidas e outras que são despreferidas. Destaca, ainda, que as elocuções preferidas são normalmente mais breves e produzidas tão logo quanto possível; enquanto as elocuções despreferidas são normalmente produzidas com atrasos, prefácios, hesitações, justificativas etc., exigindo um trabalho interacional maior por parte do falante. Outros estudos da Analise da Conversa, entre eles, o trabalho de Brown & Levinson (1987) também tratam do conceito de preferência associando marcas linguísticas como pausas e mitigadores a formas não-preferidas e o texto não-marcado a forma preferida, ou seja, um texto direto com menos material linguístico. A essa noção, Taylor e Cameron (1987), a partir da observação de algumas pesquisas como Owen (1983) e Heritage (1984), acrescentam que a diferença entre sequências preferidas e despreferidas não pode ser reduzida, simplesmente, à suas formas estruturais, mas deve levar em conta, também, os aspectos funcionais. Diante disso, acreditamos que o que difere um ato preferido de um despreferido não é algo tão simplista, pois é necessário que se leve em consideração o caráter situacional da interação. Tendo em vista que a organização conversacional envolve duas partes, aquele que profere a PPP e o outro que é responsável pela SPP, cabendo a este último uma análise cuidadosa daquilo que seria a expectativa de seu ouvinte. E seu enunciado só poderá ser dado como preferido ou despreferido após a reação do ouvinte, o que nos permite dizer que a ação preferida só poderá ser conhecida na observação da fala-em-interação. A seguir abordamos questões referentes ao par pergunta e resposta, principais elementos interacionais analisados em nossa pesquisa. 1.2.2.1- O Par Adjacente: Pergunta (P) – Resposta (R) A prática de perguntar é uma das ações mais comuns em interações institucionais. De acordo com Tracy e Robles (2009), as perguntas são um modo fundamental através do qual é possível acessar informações, verificar e negociar 15 entendimentos, confirmar dados etc. Perguntar é “um mecanismo central para a construção e a reflexão de mundos sociais comuns. 4” (TRACY e ROBLES, 2009, p. 131). Ou seja, por meio de perguntas (Ps) e respostas (Rs) os interagentes constroem e mantêm um entendimento comum no percurso interacional. Para a ACE, as Ps e Rs são classificadas como pares adjacentes, já que ao se proferir uma P, a PPP, uma R, a SPP, é esperada. Há, portanto, uma relação de dependência da PPP com a SPP, não podendo tomar uma parte isoladamente, pois seu significado só poderá ser conhecido dentro da sequência conversacional. Qualquer elocução produzida na fala-em-interação deverá ser tomada pelos participantes em seu ambiente sequencial, pois nenhuma elocução ocorre de forma isolada, no vácuo, mas dentro de um lugar socialmente marcado e, portanto, carregada de pressupostos e expectativas do enunciador o que torna relevante uma ação já esperada. Fávero, Andrade e Aquino (2006) também discutem a relação entre P e R sobre esse mesmo prisma, porém usam a terminologia de pares dialógicos. Para essas autoras um par dialógico necessariamente deve ser Adjacente; produzido por falantes diferentes; ordenado, isto é, uma primeira parte é seguida de uma segunda parte; formado de duas partes: cada primeira parte tem uma segunda específica; e, por fim, deve ser governado por uma regra conversacional, ou seja, produzindo a primeira parte do par, o falante corrente para de falar e o próximo falante deve produzir, naquele instante, a segunda parte do mesmo par (FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2006, p.468). Outro fator que determina dependência da P à sequência conversacional é quanto à definição se a elocução proferida configura-se como uma P ou não. De acordo com Gago e Silveira (2006), tradicionalmente, o ato de perguntar é tratado como uma forma de ação social destinada a buscar informações, realizado por meio de uma sintaxe interrogativa. No entanto, esta tentativa de relacionar forma e função tem sido contestada. Schegloff (1984), por exemplo, argumenta que devemos olhar para a posição ocupada pelos interagentes nas sequências de conversa, pois pode ocorrer de uma elocução com forma linguística de interrogação assumir outra função, como é o caso de interrogativas que são concebidas para realizar atos de fala indiretos, ou para expressar indignação. Portanto, é por meio do que é dito antes e depois que se pode considerar determinada elocução com função própria de uma P ou não. 4 Tradução de: A central vehicle for constructing social worlds and reflecting existing ones. 16 Para Levinson (1983), é possível que uma elocução não possuidora de forma linguística interrogativa funcione como tal. Esse é o caso das perguntas declarativas, cujo questionamento é marcado por meio de um aumento da entonação. Outro tipo de interrogativa, que nem sempre é entendida como questionamento, é a forma interrogativa negativa (por exemplo, a expressão - não é? – comumente usada para expressar um ponto de vista ou uma posição sobre determinado assunto). Há situações em que a elocução, apesar da estrutura de P, funcionalmente, pode ser um R. Desta forma as Ps devem ser tomadas como um elemento interacional, sendo que traços linguísticos não são suficientes para configurá-las como tal. O par P-R serve como um indício de que existe compreensão no diálogo, isto é, após uma P tem-se uma R que é coerente à P elaborada e se encaixa dentro do padrão esperado de uma R. O que os participantes dizem ou fazem no turno seguinte evidencia o seu entendimento sobre a elocução produzida anteriormente. Há, portanto, uma relação de dependência entre as duas partes do par, pois “as Ps antecipam e restringem semanticamente as Rs e parecem depender destas, que, por sua vez, são ainda mais dependentes das primeiras” (FÁVERO, ANDRADE E AQUINO, 2006, p. 136). Schegloff e Sacks (1973) também comungam com essa ideia de dependência entre as partes do par. Segundo eles, há duas atividades separadas – de quem pergunta e de quem responde. No entanto, quem pergunta deixa marcada a R preferida e, quem responde deveria atender a essa expectativa. Consideram-se Rs preferidas aquelas que levam à satisfação de ambos os interagentes. Caso a R seja a despreferida, deverá haver uma reformulação da P para que haja uma R adequada. A respeito da adequação da R à P, Fávero, Andrade e Aquino (2006), através da ampliação das Condições de Satisfação elaboradas por Moeschler (1986), uma vez que essas atendiam apenas a perspectiva de um dos interlocutores, propõem a ideia do que seria uma resposta adequada5: 1) de manutenção do tópico – as Rs precisam estar relacionadas, implícitas ou explicitamente, com as Ps no que se refere ao tema; 2) de conteúdo proposicional – as Rs devem referir-se semanticamente às Ps, por meio de relações como paráfrase, implicação, oposição ou questionamento do conteúdo proposicional apresentado nas Ps; 5 Não entendemos essa adequação do ponto de vista prescritivo e sim descritivo, em termos do que é mais frequente ocorrer, de modo que a não ocorrência é observada e gera inferências de significados diversos. 17 3) de função ilocucionária – as Rs precisam ser de um tipo ilocucionário compatível com as Ps, sem que haja questionamento de seu conteúdo proposicional; 4) de orientação argumentativa – as Rs precisam apresentar a mesma orientação argumentativa das Ps, desde que o seu conteúdo proposicional não seja questionado (FÁVERO; ANDRADE; AQUINO, 2006, p. 165). Há que se pensar também, que vários fatores influenciam o falante a uma determinada R. Sua escolha vai depender, como colocam Fávero, Andrade e Aquino (2006), do sistema de negociação entre os participantes, tendo em vista as possibilidades de continuidade tópica, conhecimento partilhados, fatores de contextualização dentre outros. Em nossa pesquisa consideramos a seguinte definição de resposta “R é qualquer enunciado que esteja relacionado coerentemente com a P formulada previamente. R pode constituir-se, dessa maneira, de outra P, de Rs parciais, de declarações de ignorância do assunto, de negação da relevância de P, de detalhamento da pressuposição de R etc.” (FÁVERO, ANDRADE E AQUINO, 2006, p. 138). As Perguntas e Respostas podem ser estudadas quanto a seus aspectos formais, semânticos e pragmáticos. A ACE está interessada em perguntas e respostas, enquanto sequências interacionais e pela forma como organizam a conversa. Alguns estudiosos já se dedicaram a analisar as Ps e Rs sobre esse prisma, dentre os mais citados podemos destacar Harris (1984) que examinou a recorrência de Ps na fala-em-interação em ambiente judicial. A autora buscou perceber o significado social das Ps naquele contexto interacional investigando a relação entre forma e função. Harris, pautando-se primeiramente na forma para classificar as Ps, não desprezou a natureza interacional das P no contexto em que são produzidas. E, valendose de métodos quantitativos e qualitativos analisou 188 perguntas. Algumas das questões destacadas através de seu estudo foram o modo como determinadas Ps podem ser altamente condutivas; o grande número de Ps que mesmo não sendo necessariamente condutivas exigem apenas uma R mínima sim/não; ressalta também como aquele que tem o direito de fazer Ps pode exercer poder e controlar o discurso a seu favor. Outro estudo relevante sobre a mesma temática é o de Drew (1992) que pesquisou as Ps realizadas em interrogatórios judiciais. Uma das observações do autor é que o advogado usa de Ps para manipular o depoimento dos interrogados, causando inconsistência em suas colocações, interferindo na opinião do júri. No entanto, quando 18 aquele que responde toma consciência da intenção do advogado, as Rs passam a ser dadas de forma defensiva, buscando esquivar-se sem deixar-se conduzir por um discurso manipulado. Luchjenbroers (1997) analisou sequências de Ps e Rs de advogados e testemunhas em um julgamento. De acordo com o autor a história é construída na interação, a partir de Ps e Rs, entre esses dois atores institucionais. Ele coloca que as Ps podem funcionar como ferramentas para testar ou comprovar afirmações das testemunhas. Luchjenbroers codificou as Ps levantadas em sua pesquisa para discutir cada uma das três maiores classes de Ps de acordo com Quirk e Greenbaum (1972): sim/não; qu-; declarativas. E subtipos de Ps (tag question) e Ps polares. As interrogativas caem em duas categorias gerais: Ps restritivas e Ps abertas. Em relação às Rs, o autor classificou-as em cinco tipos: Rs mínimas; Rs elaboradas; situações em que não se responde tudo; não Rs; Rs evasiva. Luchjenbroers destaca também o poder que os advogados têm de manipular, através de Ps, a narrativa das testemunhas. Já Gruber (2001) trabalhou com Ps a partir de um talk-show. O autor analisou formas distintas de Ps e suas consequências interacionais para os endereçados. Um dos objetivos de seu estudo foi o de descrever os diferentes tipos de Ps que podem ser usadas estrategicamente. A partir de suas observações Gruber vai dizer que o lugar sequencial de uma elocução pode influenciar o seu significado dentro da interação. Assim como os autores acima também acredita que as Ps são um indicativo de poder. Para ele todos os formatos de Ps indicam que o participante tenta exercer poder sobre o outro. Os estudos de Heritage (2002) tratam das Ps negativas em entrevistas. Para o autor esse tipo de P funciona como condutores de asserções, e frequentemente, tem a função de mostrar ponto de vista. Quanto ao formato as Ps negativas se passam por Ps neutras com o objetivo de buscar informações, no entanto, tratam-se de questões altamente condutivas, servindo para projetar uma R esperada ou preferida. Gago e Silveira (2006) analisam Ps em entrevistas com candidatos políticos à presidência e em audiência de conciliação do PROCON. Os autores comparam o ato de fazer Ps nesses espaços interacionais, pois acreditam que o estudo de Ps e Rs pode revelar ações relacionadas com tais práticas em diferentes cenários e podem também revelar algo sobre o mandato institucional dos participantes. Os autores recuperam 19 importantes questões sobre os estudos das Ps e Rs, dentre elas os estudos de Heritage e Roth (1995), que revisaram uma das maiores classes de Ps identificadas por Quierk et al. (1985), que podem ser encontradas em entrevistas. Eles identificaram cinco tipos de Ps: sim/não; tag question; declarativas; qu-; alternativas. E observando os dados analisados apontaram como ponto de encontro a condutividade encontradas tanto nas Ps do entrevistador como na do mediador. Em relação ao mandato institucional e os objetivos de cada situação interacional há diferenças. O mandato institucional dos entrevistadores era esclarecer a opinião pública, já os mediadores na conciliação pretendiam solucionar de forma legal o caso em questão. Apesar dos estudos apresentados aqui partirem de contextos analíticos diferentes do nosso, as tipologias propostas foram utilizadas em nossas análises, de forma específica trabalhamos com Gago e Silveira (2006) e Heritage (2002), pois as classes de Ps e Rs encontradas nesses autores atendem nosso objetivo que é verificar as formas e funções das Ps e Rs ocorridas na interação entre professor e alunos no espaço institucional sala de aula. Na sequencia abordamos as perguntas e respostas nesse espaço interacional. 1.2.3 As Ps e Rs na Fala-em-Interação da Sala de Aula A conversa cotidiana é considerada por muitos a “pedra sociológica fundamental” (SACKS, SCHEGLOFF & JEFFERSON, 1974), sendo a conversa institucional um desdobramento convencionalizado dela. Schegloff (1987) afirma que, “em geral, parece que os outros sistemas de troca de falas, e suas organizações da tomada de turnos, são produtos de transformações ou modificações do sistema da conversa comum, que é a organização primordial da Fala-em-Interação” (SCHEGLOFF (1987) apud GARCEZ, 2002, p. 56). E para podermos transitar por distintos espaços sociais devemos conhecer essas diferenças conversacionais e também comportamentais que definem o que poderíamos chamar de competência interacional. Drew & Heritage (1992) chamam a atenção para a questão de que a fala-eminteração institucional acontece, principalmente, pelo fato de que a identidade institucional ou profissional dos participantes de alguma forma se faz relevante para as atividades de trabalho nas quais eles estão engajados, ou seja, o ambiente e a identidade profissional determinam e restringem o tipo de interação aceitável para aquele 20 momento. Ainda segundo os autores, a conversa institucional define-se nos seguintes termos: 1. A interação institucional envolve uma orientação por parte de pelo menos um dos interagentes para alguma meta, tarefa ou identidade fulcral (ou conjunto delas) convencionalmente associada com a instituição em questão. Em suma, a conversa institucional é normalmente informada por orientações para metas, de caráter convencional relativamente restrito. 2. A interação institucional pode amiúde envolver limites especiais e particulares quanto àquilo que um ou ambos os participantes vão tratar como contribuições admissíveis ao que está sendo tratado na ordem do dia. 3. A interação institucional pode ser associada a arcabouços inferenciais e procedimentos que são peculiares a contextos institucionais específicos (Drew & Heritage (1992), apud GARCEZ, 2002, p. 57). Dessa forma, a fala-em-interação institucional não é definida pelo local em que ocorre, sala de aula, escritório, delegacia, mas pelas identidades dos participantes que são negociadas na interação. Por exemplo, um professor e um aluno podem conversar na sala de aula sobre qualquer fato que fuja ao processo ensino-aprendizagem, como conversar sobre um jogo de futebol. Mas, podem também, professor e aluno conversando, em um bar, produzir ações e assumir identidades institucionais, pois conforme coloca Corona (2009) o que caracteriza uma interação como institucional não é o ambiente físico em que essa se realiza, mas os objetivos a cumprir. Sendo assim, as interações institucionais são pautadas pela necessidade de realização de uma tarefa institucional, por isso tendem a desenvolver formatos organizacionais para o cumprimento dessa tarefa. Diante disso é valido afirmar que a fala-em-interação institucional e a conversa cotidiana envolvem questões identitárias. No entanto, a fala-em-interação institucional, de forma especial, abrange propósitos específicos. Por exemplo, atendimento médico, quando existe um objetivo que visa fazer exame em um paciente, então, a identidade de médico e a identidade de paciente vão sendo demonstradas, bem como a conversa se voltará para esta tarefa, independentemente do local onde ocorre essa interação. O lugar não determina, necessariamente, o tipo de situação social. Ela é definida quando dois indivíduos se encontram e agem de modo específico direcionado a determinado fim comum. No local, sala de aula, quando estão presentes professor e alunos, interagindo face a face, tem-se uma situação social, que pode ou não ser fala-em-interação institucional. Uma interação institucional e, mais especificamente, interação de sala de aula, envolve de acordo com Drew & Heritage (1992) apud Corona (2009): 21 1. Meta, tarefa ou identidade institucional de pelo menos um dos participantes, o que comumente poderia ser a tarefa de ensinar e aprender e as identidades de professor e aluno; 2. Limites particulares específicos ao tipo de evento, no caso os limites particulares da escola e da sala de aula; 3. Procedimentos peculiares, também convencionalmente associados à instituição em questão, sala de aula. Aqui outra diferença entre conversa cotidiana e fala-em-interação institucional pode ser inferida, para a primeira, seus participantes podem ter objetivos a cumprir, mas estes não são pré-estabelecidos, enquanto que para a segunda, as ações são produzidas com fins característicos. Pensando em nosso contexto de pesquisa, a sala de aula, cabe ressaltar que a fala-em-interação não é algo previamente determinado por alguém. Em outras palavras, não é somente o professor ou os alunos que devem ditar as condições de interação, mas ambos, professor e alunos co-construírem a interação por meio de ações que são direcionadas por finalidades específicas, neste caso o ensino e a aprendizagem. Neste sentido, a forma da relação estabelecida entre o professor e os alunos, ou melhor, a qualidade da interação presente no processo ensino-aprendizagem, será determinante no tipo de sujeito que será formado. A esse respeito Garcez (2006) vai dizer que, a interação em sala de aula pode ser instrumento de controle social, quando as ações realizadas em sala, estariam basicamente a serviço da manutenção da disciplina; pode ser também para a reprodução do conhecimento, a partir do momento que o professor se coloca como único detentor do saber e percebe o aluno como desprovido de conhecimento e, portanto, deve receber passivamente o que lhe é transmitido; por fim, a interação em sala pode promover a construção conjunta do conhecimento, quando a interação se volta para a formação de cidadãos participantes e críticos. Essa última vai ao encontro de nossa pesquisa, que tem o objetivo de investigar como a co-construção do conhecimento acontece a partir da interação entre professor e aluno, na sala de aula, através do par dialógico P e R. Segundo Garcez (2006), a sala de aula pode ser vista como uma “arena micropolítica” onde a relação entre professor e aluno é estabelecida pela diferença de funções, que é percebida pelos participantes como diferença de poder. Sob esse ponto de vista, o professor é quem detém o poder, enquanto cabe ao aluno uma das duas alternativas: submeter-se a esse poder ou resistir a ele. É nesse quadro que se insere a 22 forma mais comum de organização da fala-em-interação na sala: a sequência Iniciação – Resposta – Avaliação (IRA). Essa sequência, descrita inicialmente por Sinclair e Coulthard (1975), destaca-se da conversa espontânea por apresentar características peculiares, como, por exemplo, o fato de o iniciador saber de antemão a resposta daquilo que é perguntado. Outros estudiosos do assunto como Candela (1999), Cazden (2001), Hall e Walsh (2002) e Garcez (2006) concordam que a estrutura sequencial IRA, caracteriza-se como uma sequência tradicional do discurso de sala de aula convencional, na qual a Iniciação é sempre feita pelo professor, que aloca o próximo turno; a Resposta é dada por um aluno ou mais, de acordo com a determinação do professor; e a Avaliação, que sempre é feita pelo professor. Podemos observar o papel centralizador que o professor tem na interação dentro deste modelo de organização da fala-em-interação de sala de aula, uma vez que ele define a pergunta de iniciação, seleciona o próximo falante na sequência interacional e, principalmente, avalia a resposta. Em relação às funções da estrutura sequencial IRA, o autor complementa, afirmando que “a sequência de ações definidora do fazer da sala de aula convencional é uma sequência de avaliação” (GARCEZ, 2006, p. 69). Cabe ao professor, nesse tipo convencional de aula, a prerrogativa de avaliar a resposta do aluno, pois a ele é dado o poder de decisão entre o que pode ser considerado como certo ou errado. No entanto, é importante que o professor utilize a sequência IRA como instrumento de avaliação da aprendizagem e não apenas como elemento para se impor perante à turma. Esse modelo de interação em sala de aula explica o comportamento de muitos alunos, que veem esse espaço como um local em que o professor detém o comando. Por isso tendem a não julgar necessária qualquer participação, na verdade, ele é amplamente estimulado a assumir esse papel. Nessa arena, seu modo de agir pode variar da atitude passiva, em que ele espera que tudo venha do professor – comandos, ações, cabendo a ele apenas reagir, ou nem isso, ou ainda assumir uma atitude de revolta contra o poder do outro. (...) se é verdade que a sequência IRA é um método altamente eficaz e econômico de apresentar informação nova aos alunos e/ou de verificar em que medida eles dispõem de certas informações e assim por diante, também é verdade que se trata de um modo eficaz e econômico de reproduzir conhecimento, não exigindo necessariamente um engajamento dos participantes que produzem os turnos em segunda posição na efetiva construção do conhecimento em pauta, ao menos não no sentido de torná-lo seu (GARCEZ, 2006, p. 69). 23 Ao priorizar a sequência conversacional IRA na sala de aula, como método de ensino, o professor compromete a formação de seus alunos que tenderão a se tornar sujeitos acríticos, que apenas reproduzirão os conhecimentos que foram transmitidos. Essa é a crítica mais recorrente a este tipo de interação, pois faz da sala de aula um lugar, no qual somente o professor que determina o que deve conhecer o aluno, que é testado através de Ps e Rs direcionadas, expondo o seu conhecimento ou a sua ignorância a respeito das informações selecionadas previamente pelo docente como sendo as relevantes no aprendizado. Nesse tipo de interação fica evidente a sala de aula como sendo um espaço autoritário e assimétrico 6, tendo o professor como o único com direito de julgar quem sabe e quem não sabe. Porém, esse não é o único sistema de fala-em-interação em sala de aula. Existem outras possibilidades que ocorrem nesse ambiente fazendo dele um emaranhado de sistemas de troca de fala. Isso implica que mesmo que a sequência IRA seja a forma mais tradicional nesse cenário interacional, outras alternativas de organização de fala-em-interação podem ser encontradas devido às diferentes atividades realizadas nesse espaço. A interação na sala de aula também pode acontecer fora do padrão IRA. O’Connor e Michaels (1996) apud Garcez, (2006) descrevem uma prática alternativa e apresentam o Revozeamento, que consiste em “um redizer do turno anterior para reexame pelo seu produtor, que recebe crédito pela autoria da articulação que produziu da questão cognitiva sob exame do grupo” (GARCEZ 2006, p. 72). Neste modelo, o professor incita todos os alunos a falarem, quando rediz o turno de um aluno para exame do próprio aluno que disse e para exame dos outros alunos ouvintes-participantes da interação. A organização sequencial de Revozeamento apresenta características e funções que podem ser definidas, no que concerne às características, como perguntas abertas, proporcionando a reflexão sobre a informação dada, diferentemente da sequência IRA, com a utilização de perguntas de informação conhecida. Outra característica importante é a possibilidade de múltiplas vozes na fala-em-interação de sala de aula, o que não se 6 Atualmente, alguns estudos (Conceição, 2008 e Stein, 2009) têm demonstrado que a sequência IRA também pode ser utilizada para promover a inclusão dos participantes na fala-em-interação de sala de aula. Nós, porém, acreditamos que a avaliação feita nesse tipo de interação, quando for negativa poderá prejudicar ainda mais a inclusão dos alunos pouco participativos, pois terão suas faces expostas. 24 verifica, em geral, na sequência IRA. A função principal, por sua vez, pode ser caracterizada como a produção conjunta de conhecimento, o que, em geral, não se observa na outra sequência, onde seu uso pode servir para reprodução de conhecimento e/ou para a promoção de disciplina. Outras formas de organização interacional em sala de aula são possíveis, a partir da compreensão das diferentes possibilidades de participação no processo de ensinoaprendizagem. Alguns pesquisadores vêm se dedicando ao estudo de atividades dentro do cenário educacional com a intenção de perceber como a fala-em-interação está organizada de forma a promover a construção do conhecimento. Cazden (2001), por exemplo, afirma que a organização da fala-em-interação na sala de aula, tem passado por transformações socioculturais e pedagógicas devido às novas exigências do mercado de trabalho, assim como novos currículos e métodos de ensino e aprendizagem buscando o desenvolvimento de sujeitos mais críticos e participativos. Por isso, aponta a autora, a importância das perguntas feitas pelo professor na sala de aula como estratégia para incentivar a participação de todos na construção de conceitos, na circulação de ideias e, consequentemente, no posicionamento crítico dos alunos, levando-os a pensar e a refletir, tornando-se assim sujeitos participantes da construção de conhecimento. As pesquisas de Rampton (2006) procuram mostrar a situação da interação na sala de aula atual, para o autor há uma nova ordem comunicativa que conjuga a falta de compromisso de aprendizagem e a falta de ordem tradicional aliados a um currículo que está em crise. A sala de aula contemporânea possui conversas paralelas e alunos que falam de músicas, televisão, internet, dentre outros. Segundo Amaral e Frank (2009): Esta nova organização estaria substituindo a ordem tradicional na qual o professor dispunha de poder para determinar quando, onde e sobre o que os alunos teriam o direito de falar – isso quando a eles era franqueado esse direito – por uma organização em que os alunos também tomam a iniciativa e estabelecem suas preferências em relação ao que acontece na sala de aula. (AMARAL; FRANK, 2009, p. 56) Os alunos, no cenário educacional atual, não se rendem ao silêncio repressor tradicional, mas se posicionam em relação aos temas tratados, fazendo relação com o que vivem ou conhecem sobre o assunto, também não se limitam a responder as perguntas feitas a eles e tomam o turno da conversa mesmo quando não são selecionados, sobrepõe suas falas à voz do professor e, em alguns casos, até o corrige. 25 De acordo com Rampton (2006) para que a interação em sala de aula aconteça de forma eficaz dentro deste novo cenário, é preciso que haja uma negociação entre professores e alunos levando em conta a individualidade de cada um e a influência tecnológica pela qual passamos. O professor deve estar atento a este contexto interacional fazendo deste tipo de participação uma oportunidade para que o conhecimento seja construído. Outro estudo relevante sobre a organização da fala-em-interação em sala de aula é de Schulz (2007). A autora procurou perceber, dentre outras coisas, o papel das Ps feitas pelos professores nesse processo interacional. A pesquisa de Schulz verificou que as perguntas não funcionavam apenas para controlar e avaliar os alunos, mas como pistas para que os alunos pudessem relacionar informações e elaborar respostas satisfatórias às perguntas feitas pelo professor, fazendo do aluno um participante ativo no processo ensino-aprendizagem. A autora concluiu com seu trabalho que a aprendizagem e a participação são processos inseparáveis, uma vez que “só se aprende quando se faz parte de algo, em um envolvimento ativo com o processo de construção de conhecimento.” (SCHULZ, 2007, p. 117). Tomando por base tudo que foi exposto até aqui estamos certos da importância e da complexidade da interação sequencial através de P e R entre professor e alunos na sala de aula, queremos, a partir de agora, perceber como está organizado esse par dialógico no processo ensino-aprendizagem para que o conhecimento seja de fato coconstruído pelos sujeitos envolvidos no contexto interacional. 1.3 A Co-Contrução do Conhecimento Nesta seção queremos esclarecer o que entendemos por co-construção do conhecimento, a partir da fala-em-interação em sala de aula entre professor e aluno. Para isso recorremos a importantes trabalhos que tratam direta ou indiretamente sobre essa temática. Um dos estudos mais recentes sobre esse tema e do qual retomamos algumas questões é o texto Interação social e etnografia: sistematização do conceito de construção conjunta de conhecimento na fala-em-interação de sala de aula, escrito por Garcez, Frank e Kanitz (2012). Nessa obra, os autores discutem o conceito de 26 construção conjunta do conhecimento a partir de trabalhos desenvolvidos entre 2006 a 2010 no âmbito do Grupo de Pesquisa ISE – Interação Social e Etinografia. Garcez, Frank e Kanitz (2012) destacam como uma das primeiras definições para a construção conjunta do conhecimento sua diferenciação da atividade de reprodução do conhecimento. Essa definição é compreendida a partir do momento que consideramos a forma como a fala-em-interação em sala de aula é organizada e gerenciada e, ainda, o modo como os participantes dessa interação, em nosso caso o professor e os alunos, se relacionam com o conhecimento. Como já mencionado anteriormente, uma das formas de interação mais tradicionais na sala de aula é a sequência IRA. Essa organização se caracteriza por ter na figura do professor o centralizador de toda a interação, bem como de todo o conhecimento que será transmitido, a partir da reprodução do que é sabido pelo docente. Garcez (2006), em seu texto A organização da fala-em-interação na sala de aula: controle social, reprodução, construção conjunta de conhecimento, já discutia essa relação entre a reprodução e construção conjunta de conhecimento. Para o autor, o tipo de interação da sala de aula tradicional visa, geralmente, a promoção da disciplina e a reprodução do conhecimento: A fala-em-interação de sala de aula marcada por recorrências de sequências IRA pode muito bem estar a serviço de apresentar, testar e impor informações e padrões de comportamento, atividades orientadas para metas-fim que dificilmente parecem resultar na formação de cidadãos participativos e críticos. (GARCEZ, 2006, p. 69) Através da afirmação acima, o autor, além de diferenciar reprodução de construção conjunta do conhecimento, destaca também como característica de um ensino pautado na co-construção do conhecimento o desenvolvimento do cidadão crítico e participativo. Outro elemento apontado por Garcez (2006) diz respeito ao próprio conhecimento do professor, que permanece estagnado e previsível, pois nenhum elemento inovador, que agregue informações novas de forma inesperada é autorizado a acontecer. Aqui encontramos outra diferença entre reprodução e construção conjunta do conhecimento, pois enquanto nesta situação ações inesperadas e inovadoras são legítimas, naquela espera-se que ocorra somente o que é programado e esperado. Um dos trabalhos usados por Garcez, Frank e Kanitz (2012) e que retomamos aqui é a pesquisa de Schulz (2007), para quem a construção conjunta do conhecimento 27 se dá na participação, no envolvimento na situação interacional. A autora, que analisa estruturas de participação encontradas na fala-em-interação em sala de aula, observou que a relação entre participação e aprendizagem construída por meio das ações dos educadores mostra que, para que a sala de aula seja um espaço de aprendizagem para todos, é fundamental ter a participação de cada um, fazendo com que o aprendizado seja resultado de um envolvimento permanente de todos no processo. Nas palavras da própria autora “Os sujeitos aqui envolvidos aprendem participando, e participam aprendendo” (SCHULZ, 2007, p. 135). Ingrid Frank (2010) também trata da construção do conhecimento em seu trabalho no qual estudou a construção e a trajetória sequencial de momentos desconfortáveis na fala-em-interação em sala de aula. A autora usa o termo convites à participação, para se referir às práticas pedagógicas em que há abertura do espaço da sala de aula para a participação e a construção de conhecimento pelos alunos. Frank percebeu que, quando os participantes conseguem corresponder aos convites à participação propostos, o momento desconfortável se transforma e dá lugar a um maior alinhamento entre as ações dos participantes, bem como uma maior autonomia de todos no que diz respeito à produção conjunta do conhecimento. A autora diz ainda que mesmo que um dos participantes conheça a resposta das perguntas isso não impede que aconteça a construção conjunta do conhecimento, pois o que determina a ocorrência desse fenômeno é o engajamento dos participantes no processo de aprendizagem. Outro trabalho relevante dentro desse assunto é a pesquisa de Conceição (2008), que analisa, de forma específica, a organização de duas estruturas de participação observadas na fala-em-interação de sala de aula. O objetivo da autora é discutir a natureza da construção conjunta de conhecimento que os participantes estão fazendo em cada momento. Conceição, sem fazer nenhuma oposição direta entre reprodução e construção de conhecimento, vai dizer que, de acordo com as observações de seus dados, a construção conjunta do conhecimento pode ser de natureza reprodutiva, quando a organização da fala interacional da sala de aula se refere à sequência de perguntas de informações já conhecidas, como o que ocorre em uma aula de revisão, em que o conhecimento foi construído anteriormente. A outra forma de acontecer a co-construção do conhecimento é de natureza emergente, e se dá quando a organização da fala-eminteração permite que os participantes se apresentem como potenciais aprendizes de um novo conhecimento. 28 Considerando a relação entre a estrutura de participação e a natureza da construção do conhecimento, Conceição (2008) afirma que na construção de conhecimento de natureza reprodutiva, a estrutura de participação foi mais restrita, com recorrência da sequência interacional IRA, enquanto que na construção de conhecimento de natureza emergente, a estrutura de participação foi mais aberta, semelhante ao revozeamento. Freitas (2006), em seu trabalho sobre o reparo levado a cabo por um terceiro participante na sala de aula, mostra que a participação de um outro para auxiliar em possíveis dificuldades ligadas seja com a produção ou com o entendimento relacionados ao tópico conversacional, se configura como construção conjunta do conhecimento. A autora chega à conclusão de que o reparo levado a cabo por um terceiro, que auxilia na solução de problemas interacionais, pode resultar em aprendizagem configurando, assim, uma forma de construção conjunta de conhecimento. Outro trabalho que merece destaque é o de Abeledo (2008) para quem a construção conjunta do conhecimento é assumida como sinônimo de produção de conhecimento compartilhado. Sua pesquisa buscou apontar para uma compreensão Etnometodológica da aprendizagem de língua estrangeira na fala-em-interação em sala de aula. A autora, a partir da descrição dos métodos utilizados pelos alunos para buscarem um saber comum, chega à conclusão de que construir conhecimento conjuntamente significa alcançar entendimentos compartilhados através da interação. Os trabalhos apresentados aqui revelam elementos importantes relacionados à noção de co-construção do conhecimento, como, por exemplo, sua oposição à reprodução de conhecimento, sua relação com a noção de participação na aprendizagem em atividades conjuntas, assim como, sua associação à produção de conhecimento compartilhado. Neste trabalho partimos da perspectiva que, para que ocorra a coconstrução do conhecimento de forma efetiva, é preciso que os participantes estejam envolvidos ativamente no processo de aprendizagem e que esse envolvimento provoque um movimento em direção a um entendimento comum ou a múltiplos entendimentos. 1.4 A Sociolinguística Interacional De acordo com Garcez (2002) a Sociolinguística Interacional (SI) tem sua origem na Antropologia, na Sociologia e na Linguística, sendo John Gumperz e Erving 29 Goffman os principais nomes dessa área de estudos que está preocupada, assim como a ACE, em estudar o uso da linguagem na interação social. Como coloca Ribeiro e Garcez (1998), a SI “propõe o estudo da organização social do discurso em interação, ressaltando a natureza dialógica da comunicação humana e o intenso trabalho social e linguístico implícito na construção do significado.” Buscando responder questões como “o que está acontecendo aqui nessa interação?” e “como os participantes dessa interação a desenvolvem?” (RIBEIRO E GARCEZ, 1998, p. 08). Ao dedicarem-se a essa área de investigação, Goffman e Gumperz desenvolveram importantes conceitos, alguns deles utilizamos em nosso trabalho, como pistas de contextualização (Gumperz) já abordado anteriormente, e o conceito de face, enquadre e footing (Goffman) que estão descritos na continuidade. Vale ressaltar que nossa pesquisa não se configura como um estudo sociointeracionista, no entanto, optamos por manter a mesmas terminologias das pesquisas em SI, pois elas permitem configurar aspectos relevantes da interação entre o professor e o aluno através da linguagem, sendo possível, desse modo, descrever de que forma esses agentes sociais afirmam seus papéis dentro do ensino, informação importante para as nossas análises. A seguir fazemos uma breve retomada desses termos. 1.4.1 O Conceito de Face Nossos encontros sociais são orientados por uma linha, definida por Goffman (1980), como padrão de atos verbais e não-verbais através dos quais expressamos nossa visão da situação e, através disso, nossa avaliação dos participantes e de nós mesmos. Essa linha guiará todo o processo interativo entre os participantes. A partir dessa perspectiva surge a noção do termo face: Valor social positivo que uma pessoa efetivamente reclama para si mesma através daquilo que os outros presumem ser a linha por ela tomada durante um contato específico. Face é uma imagem do self delineada em termos de atributos sociais aprovados (GOFFMAN, 1980, p. 77). Seguindo esse mesmo raciocínio Silveira (1998, p. 44) vai dizer que, face é “um construto social” e enquanto tal é pública; portanto, ela diz respeito não ao que um ser 30 pensa de si, mas à maneira como os outros o veem. Em qualquer estratégia de construção de face, não há como ignorar o outro, o ponto de vista deste outro. Assim, sempre se ganha ou perde a face diante de uma testemunha. Por isso, se difere de construtos como a autoestima e o orgulho. É também “uma imagem projetada”, uma extensão do self que não necessariamente corresponderá à “avaliação que é feita do self real”. Logo, no ato de reivindicar a face, o que importa não é a verdadeira opinião das pessoas, mas a opinião que elas demonstram umas para as outras. Face seria ainda algo variável socialmente, visto que cada grupo possui seu conjunto de valores socialmente aceitáveis, de modo que um atributo positivo em uma determinada comunidade pode não o ser em outra, portanto para manter a face durante uma interação é necessário levar em conta o lugar ocupado no mundo social mais amplo, do contrário a pessoa pode assumir uma face errada, a qual terá dificuldades para manter e sentir-se-á constantemente ameaçada. Ao assumir uma face a pessoa deve satisfazer expectativas e assegurar a manutenção de uma ordem expressiva específica que garanta a sustentação da sua face, que tem caráter social e por isso pode ser-lhe retirada caso não seja digna de merecimento. Essa vulnerabilidade torna qualquer membro de um grupo responsável não só por sua face como também pela face do outro. O efeito combinado da regra de auto-respeito e da regra de consideração é a tendência a se conduzir durante um encontro de forma a manter tanto a própria face quanto a face dos outros participantes. (...) É estabelecido um tipo de estado no qual cada um aceita temporariamente a linha do outro. Este tipo de aceitação mútua parece ser uma característica estrutural básica de interação, especialmente a interação de conversa face a face. (GOFFMAN, 1980, p. 81). A elaboração da face para Goffman (1980) é, portanto, as ações através das quais uma pessoa é capaz de tornar qualquer coisa que esteja fazendo consistente com a face, o aplomb, capacidade de suprimir ou evitar tendências de ficar envergonhado, é um tipo de elaboração de face. E a capacidade de elaborar faces é o que determina a eficácia na variação da habilidade social. Quanto aos tipos básicos de elaboração de face temos o processo de evitação, que consiste em evitar situações e contatos que coloquem em risco a própria face, ou ainda, agir de tal maneira que seja possível ignorar a ocorrência de qualquer tipo de ameaça à face. 31 Outro processo de elaboração de face é o processo corretivo que pode ocorrer quando fica detectada a dificuldade de se ignorar a ocorrência de um ato ameaçador, diante disso é necessário restabelecer o equilíbrio ritual, o que Goffman (1980) chama de intercâmbio. Além dessa prática outros movimentos podem ser acionados como meio de salvamento da face: o desafio, os participantes tomam a responsabilidade de chamar a atenção para a conduta desviada; oferenda, chance de corrigir uma ofensa; aceitação consiste na aceitação da reparação por parte do ofendido; agradecimento, a pessoa perdoada agradece pela oportunidade de se redimir. Toda prática de salvar a face que consegue neutralizar uma ameaça específica abre a possibilidade de a ameaça ser introduzida pelos benefícios que pode trazer. Essa visão torna o movimento de elaboração da face em um lugar no qual se desenrola um concurso ou uma competição, onde a ordem é introduzir fatos lisonjeiros sobre si mesmo e fatos desfavoráveis sobre os outros. A escolha da elaboração de face que seja apropriada para o momento também pode causar desconforto nos participantes da interação, pois quando ocorre um incidente, a pessoa cuja face é ameaçada pode tentar restabelecer a ordem ritual através de um tipo de estratégia, enquanto os outros participantes podem estar desejando ou esperando o emprego de uma prática diferente. No entanto, sempre que ocorrer uma ameaça à face, todos os envolvidos são coresponsáveis pelo restabelecimento do equilíbrio ritual. Ou seja, cada participante em uma situação de interação está preocupado em salvar a própria face e a face dos outros, independentemente da motivação, isso gera uma cooperação mútua na elaboração da face. 1.4.2 Enquadre, Footing e Alinhamento O conceito de Enquadre com o qual trabalhamos é decorrente das ideias de Goffman (1974). Para o autor esse termo diz respeito a um conjunto de instruções para que o ouvinte possa compreender determinada mensagem. É o enquadre que nos orienta para reconhecermos o tipo de situação interacional em que nos encontramos e como devemos interpretar esse momento (uma brincadeira, uma ironia, uma acusação, um convite, uma piada, etc), para que o discurso em questão seja, de fato, significativo. Por 32 isso é comum questionamentos como “o que está se passando aqui?” e “qual o significado do que está acontecendo aqui?”. De acordo com Ribeiro e Garcez (2002) Uma noção fundamental para a compreensão do discurso oral e para a análise da interação se encontra no conceito de enquadre, introduzido por Gregory Bateson e desenvolvido por Erving Goffman no seu extenso estudo intitulado Análise de enquadres, publicado em 1974. O enquadre situa a metamensagem contida em todo enunciado, sinalizando o que dizemos ou fazemos, ou como interpretamos o que é dito e feito. Em outras palavras, o enquadre formula a metamensagem a partir da qual situamos o sentido implícito da mensagem enquanto ação. Goffman afirma que, em qualquer encontro face a face, os participantes estão permanentemente propondo ou mantendo enquadres que organizam o discurso e os orientam com relação à situação interacional (Ribeiro e Garcez, 2002, p. 107). O enquadre, dessa forma, está relacionado à estrutura conversacional e ao contexto interacional. Através dele é possível identificar que tipo de interação está sendo construída, e, portanto, como a mensagem recebida deve ser interpretada. A partir da ideia de enquadre, Goffman (1979) elabora a noção de footing, que, como apontam Ribeiro e Garcez (2002) representa o alinhamento, a postura, a posição, a projeção do “eu” de um participante na sua relação com o outro, consigo próprio e com o discurso em construção. Passa, portanto, a caracterizar o aspecto dinâmico dos enquadres e, sobretudo, a sua natureza discursiva. Em qualquer situação face a face, os “footings” dos participantes são sinalizados na maneira como eles gerenciam a produção ou a recepção das elocuções (RIBEIRO E GARCEZ, 2002, p. 107). O termo footing se refere ao alinhamento, à mudança de comportamento, vinculada às práticas mediadas pela linguagem. Tal conceito diz respeito, portanto, à maneira como os participantes de uma interação administram suas participações, seja com relação à produção, seja com relação à recepção de um enunciado do discurso. Como os papéis dos participantes se alteram e são constantemente negociados nos encontros face a face, as mudanças de footings são frequentes, e ocorrem sempre que o falante e/ou o ouvinte realizam diferentes projeções em relação ao discurso. Essas projeções, algumas vezes, refletem aspectos pessoais, como características da fala, do tom de voz e das intenções do participante; ou também sinalizam relações construídas socialmente (relações hierárquicas, por exemplo, entre aluno e professor); ainda podem caracterizar papéis elaborados no discurso (papel de falante, de ouvinte ou de 33 animador). De qualquer forma, as modificações de footings se manifestam através de algumas pistas linguísticas aparentes no discurso. Uma mudança do footing acarreta uma mudança no alinhamento assumido pelos interagentes, expressa na maneira como conduzimos a produção ou a recepção de uma elocução, por isso, ao detectarmos uma mudança de footing, encontramos também uma mudança no enquadre. Em suma, cada enquadre interativo faz com que o interagente estabeleça um footing distinto, isto é, os participantes de uma interação procuram um alinhamento para si e para os outros participantes, conforme o enquadre estabelecido. Se houver uma mudança de enquadre, esses participantes precisam se alinhar, de acordo com a nova situação discursiva, ou seja, assumem um novo footing. Após a apresentação da teoria e dos principais conceitos com os quais trabalhamos, passamos para a descrição metodológica na qual descrevemos os caminhos trilhados por nós para que esta pesquisa se concretizasse. 34 2. PRESSUPOSTOS METODOLÓGICOS Para alcançar os objetivos propostos neste trabalho seguimos os caminhos de uma pesquisa de cunho qualitativo, pautando-nos nos pressupostos da ACE, para a qual a interpretação dos dados aconteceu a partir de uma visão êmica, em que o ponto de vista dos participantes se sobrepõe ao do analista, sendo que as afirmações do pesquisador devem acontecer de dentro do sistema, onde a interação acontece. A partir desses pressupostos básicos, faremos algumas considerações sobre pesquisa qualitativa e relacionamos a pesquisa qualitativa com a análise da conversa Etnometodológica. Na sequência, descrevemos o trabalho de campo, apresentando a observação participante, o curso, os participantes e a aula. Além disso, fazemos uma explanação sobre a geração dos dados e os métodos de análise. Por fim, abordamos algumas questões éticas relacionadas com nossa pesquisa. 2.1. A Pesquisa Qualitativa A pesquisa qualitativa se consolidou enquanto método de saber investigativo a partir dos anos 70, com a retomada das ideias weberianas. Segundo Guerra (2007): Max Weber, mergulhado numa Alemanha atravessada por apaixonados debates sobre a questão dos métodos que confrontam as ciências da natureza e as ciências da cultura, irá defender uma nova perspectiva, fazendo da actividade social o fulcro do interesse sociológico. A análise sociológica deveria estar centrada no sentido que lhe é dado pelo(s) actor(es) que orienta(m) os seus comportamentos num contexto de racionalidades em interação com os outros, (...), distinguindo-se assim claramente de um tipo de análise que visa descobrir as leis da regularidade do funcionamento societal (GUERRA, 2006, p. 7). Com isso, ocorre, no final do século XX, uma mudança de paradigma dentro das pesquisas sociais. De acordo com Groulx (1997) apud Guerra (2006), a busca pelas leis do funcionamento da sociedade dá lugar aos sentidos sociais tomados a partir das ações dos atores sociais. Muda-se com isso o foco do objeto de pesquisa: da centralidade nas instituições sociais estabilizadas para a busca do sentido da ação social de sujeitos concretos, o que pensa o ator social se sobrepõe à visão do pesquisador. Passa a coexistir dois modos de fazer pesquisa sobre a vida cotidiana, a pesquisa quantitativa, para quem a ação social “só poderia ser interpretada à luz das (...) 35 determinações estruturais de que ela era, em grande parte, um reflexo”; e a pesquisa qualitativa, que acredita que a vida cotidiana possui uma “lógica própria” (GUERRA, 2006, p. 14). Outro diferencial relevante consiste no fato de que os estudos quantitativos, geralmente, procuram seguir um plano previamente estabelecido e são baseados em hipóteses estabelecidas a prior, enquanto que a pesquisa qualitativa pretende identificar as lógicas e as racionalidades da ação social desde o início até o final da pesquisa, através da utilização do método de indução analítica, o qual parte de questões particulares a fim de chegar a formulações universais. Segundo Deslaurier (1977): “a indução analítica é um método de pesquisa sociológica, qualitativa e não experimental que faz apelo ao estudo de caso para chegar à formulação de explicações causais universais” (DESLAURIER, 1977 apud GUERRA 2006, p. 23). Além disso, a pesquisa qualitativa, geralmente, não utiliza dados estatísticos na análise, isso ocorre através da descrição dos dados obtidos pelo contato direto e interativo do pesquisador com o objeto de estudo. Nesse tipo de investigação é comum que o pesquisador procure entender os fenômenos, segundo a perspectiva dos participantes da situação estudada. Denzin & Lincoln (2006) afirmam que a pesquisa qualitativa pretende, atualmente, ser um eficiente método de conhecimento em qualquer comunidade onde haja pessoas interagindo em cenários naturais. Com isso, ela ganhou espaço em diversas outras áreas além da sociologia, como a educação, a saúde, os campos de estudo da linguagem, a psicologia, etc. Para esses autores, a pesquisa qualitativa é: (...) um conjunto de práticas materiais e interpretativas que dão visibilidade ao mundo. Essas práticas transformam o mundo em uma série de representações, incluindo as notas de campo, as entrevistas, as conversas, as fotografias, as gravações e os lembretes. Nesse nível, a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem naturalista, interpretativa, para o mundo, o que significa que seus pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender, ou interpretar, os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem (DENZIN e LINCOLN, 2006, p. 17). Angrosino (2009) destaca algumas características comuns identificadas nos diferentes enfoques teóricos, epistemológicos e metodológicos da pesquisa qualitativa: 1. A pesquisa qualitativa é desenvolvida em cenários naturais; 36 2. Não há formulação de hipóteses para serem testadas, ao contrário, os conceitos e hipóteses são desenvolvidos no decorrer no processo de pesquisa; 3. Os métodos e a teoria devem ser adequados ao que se está investigando, caso contrário, eles precisam ser adaptados ou novos métodos deverão ser desenvolvidos; 4. O pesquisador tem importância fundamental no processo de pesquisa, tanto pela sua presença como pesquisador, quanto pela sua experiência no campo; 5. O contexto e os casos são importantes para se entender uma questão em estudo – um grande número de pesquisas qualitativas tem sido desenvolvidas como estudo de casos e o caso é importante para entender o que está sendo estudado; 6. A transformação de situações sociais complexas em textos transcritos para análise tem sido uma preocupação central da pesquisa qualitativa; 7. As abordagens de definição e avaliação da pesquisa qualitativa devem ser discutidas de forma particular à abordagem específica utilizada. O autor acredita também que a pesquisa qualitativa pretende entender e explicar os fenômenos sociais a partir dos contextos naturais onde eles acontecem. Por isso esse tipo de investigação é marcada pela profunda preocupação com a compreensão do que os atores sociais estão fazendo ou dizendo no momento da interação. No universo escolar, a pesquisa qualitativa deve ser tomada como um estudo voltado para questões que buscam refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem. De acordo com Lüdke e André (1986), numa investigação educacional, o pesquisador não deve levantar hipóteses de forma a priori, mas deve buscar compreender o problema na própria situação estudada. Deve também manter contato direto e suficiente com o campo de investigação, para que possa conhecer a realidade do grupo pesquisado. Pode, também, nesse período, utilizar de técnicas como: a observação, a entrevista, a história de vida, a análise de documentos, gravações, fotos, testes psicológicos, dentre outros, para obter uma visão mais completa da vida do grupo estudado. 37 2.1.1 - A Pesquisa Qualitativa e a Analise da Conversa Etnometodológica Na pesquisa qualitativa, o trabalho de campo é parte importante do processo, incluindo a observação do ambiente, já que ele vai ser descrito e analisado indutivamente, articulado com significados sociais construídos pelos participantes da pesquisa. Erickson (1989) emprega o termo “interpretativo” para a pesquisa qualitativa e aponta características para o trabalho de campo dessa modalidade: A pesquisa de campo implica: a) participação intensiva e em longo prazo no contexto de campo (definição de campo); b) cuidadoso registro do que acontece no contexto mediante a redação de notas de campo e a coleta de outros tipos de documentos (por exemplo, notificações, gravações, mostras de trabalhos estudantis, fitas de vídeo), e c) posterior reflexão analítica sobre o registro documental obtido no campo e elaboração de um informe mediante uma descrição detalhada, utilizando fragmentos narrativos e fitas textuais extraídas das entrevistas, assim como uma descrição mais geral na forma de diagramas analíticos, quadros sinópticos e estatísticas descritivas7 (ERICKSON, 1989, p. 199). Desta forma fica claro o cuidado com que se deve fazer um trabalho de campo e também com a organização dos dados, pois isso refletirá na descrição, interpretação e, principalmente, no resultado final da análise. Como já mencionado anteriormente, uma das características de uma pesquisa qualitativa dentro da perspectiva da ACE é a busca da visão êmica. Portanto, ao desenvolver este estudo, levaremos em consideração o ponto de vista dos participantes envolvidos na análise, pois, na pesquisa qualitativa e na perspectiva da ACE, há uma preocupação em buscar significados a partir do ponto de vista daqueles que estão envolvidos no processo, no aqui e agora da ação social. Em outras palavras, almeja-se uma investigação de situações que ocorrem no dia a dia e de maneira natural. Atkinson e Heritage (1984), como já mencionados no capítulo anterior, acrescentam que trabalhar com dados naturalísticos implica esclarecer que há a preocupação, por parte do analista, com a não manipulação, seleção ou 7 Tradução de: La investigación de campo implica: a) participación intensiva y de largo plazo en un contexto de campo (field setting); b) cuidadoso registro de lo que sucede en el contexto mediante la redacción de notas de campo y la recopilación de otros tipos de documentos (por ejemplo, notificaciones, grabaciones, muestras de trabajos estudiantiles, cintas de vídeo), y c) posterior reflexión analítica sobre el registro documental obtenido en el campo y elaboración de un informe mediante una descripción detallada, utilizando fragmentos narrativos y citas textuales extraídas de las entrevistas, así como una descripción más general en forma de diagramas analíticos, cuadros sinópticos y estadísticas descriptivas. 38 reconstrução dos dados baseados em noções pré-concebidas daquilo que é provável ou importante. A principal maneira de se obter dados naturalísticos é gravar as conversas dos participantes em áudio e/ou em vídeo e fazer posterior transcrição das conversas. Essa prática permite capturar interações espontâneas e assim dá credibilidade à pesquisa. Além de armazenar detalhes que podem ser vistos e revistos várias vezes pelo próprio pesquisador ou outros estudiosos. Portanto, as gravações e outras tecnologias como programas de transcrição e as anotações de campo contribuem para a riqueza analítica de toda a situação observada. Por isso a necessidade e cuidado com a amplitude e registro das informações sobre o evento a ser analisado. 2.2 Descrição do Trabalho de Campo A pesquisa de natureza qualitativa pode ter como procedimento para a coleta de dados diferentes técnicas. De acordo como Creswell (2007), os recursos para a coleta envolvem quatro tipos principais, a saber: 1. Observação, quando o pesquisador toma notas de campo sobre as atividades desempenhadas pelos sujeitos da pesquisa; 2. Entrevista, através da qual o pesquisador conhece melhor o participante, suas visões e opiniões; 3. Coleta de Documentos, os quais podem ser públicos ou privados, dependendo dos objetivos da pesquisa; 4. Materiais audiovisuais como fotos, objetos de arte, fitas de áudio ou de vídeo. Dentre todas essas possibilidades a observação é o ponto inicial para a análise do pesquisador, pois o contexto interacional será descrito e analisado de forma indutiva. Em nosso estudo, utilizamos principalmente a observação, gravação e transcrição dos dados, como recursos para a materialização dos dados a serem analisados. Nesta seção procuramos descrever como aconteceu esse processo. 39 Para Triviños (1987), as notas de campo são as responsáveis pelo desenvolvimento da pesquisa, por isso devem acompanhar todo o processo. Conforme o autor, a exatidão das descrições é essencial para a pesquisa, por isso o pesquisador deve estar sempre atento aos acontecimentos, pois as informações coletadas em campo devem ser parte integrante das interpretações dos dados. Outro fator importante nessa pesquisa é a gravação e posterior transcrição da interação como ferramenta para a análise, pois ela possibilita o registro com maior exatidão das ocorrências na sala de aula. Nosso trabalho de campo aconteceu com base em pesquisas de natureza etnográfica, porém não podemos classificá-la como um trabalho etnográfico, pois isso exigiria uma participação por um longo prazo de tempo em campo e, no caso deste estudo, a pesquisa de campo foi feita entre os meses de agosto e setembro de dois mil e treze. Durante esse período uma das principais técnicas que recorremos para a coleta dos dados foi a observação participante. 2.2.1 A Observação Participante De acordo com Angrosino (2009), a observação participante, na verdade, não é, por si mesma, um método de pesquisa, mas uma postura pessoal adotada pelo pesquisador em campo para sua coleta de dados. Ainda segundo o autor, a observação participante não é um fenômeno isolado, mas se constitui em uma série de passos que envolvem, entre outras coisas, (a) a seleção do local onde acontecerá a investigação; (b) o acesso à comunidade; (c) o treinamento de colaboradores, quando necessário; (d) o registro das notas em campo; (e) definições de padrões de análise; (f) o alcance da saturação teórica, que acontece quando os novos dados apenas repetem os dados préexistentes. A observação exige do pesquisador um contato com as pessoas observadas, esse contato pode acontecer de forma intensa ou superficial. Sobre isso encontramos em Gold (1958) citado por Agrosino (2009), a distinção do observador em quatro tipos de categorias, dependendo do seu envolvimento em campo: 1. Observador invisível – o pesquisador fica o mais afastado possível do campo de estudo; 40 2. Observador-como-participante – o pesquisador interage por um breve período de tempo. Ele é conhecido e reconhecido, mas se relaciona com os participantes apenas como pesquisador; 3. Participante-como-observador – o pesquisador está bem integrado ao grupo, há um certo envolvimento com as pessoas, porém suas atividades de pesquisa ainda são reconhecidas; 4. Participante totalmente envolvido – o pesquisador desaparece no cenário de pesquisa e fica completamente envolvido com os participantes; estes não o veem como pesquisador, mas como um integrante do grupo. Dentro desta proposta procurei durante meu trabalho de campo assumir uma postura que se enquadra como observador-como-participante, pois busquei permanecer o mais neutro possível dentro do ambiente interacional, mas minha presença era notada pelo grupo, ainda que me vissem como pesquisador. No entanto, tive a preocupação de buscar um equilíbrio entre o distanciamento necessário para não interferir na relação do grupo, ou para interferir o mínimo, com uma certa aproximação que me permitisse perceber com mais clareza a reação dos participantes no momento da interação, como sugere a perspectiva êmica. Para isso procurei ocupar um ponto estratégico, como sugere Duranti (2000), um lugar onde permanecia despercebido. Se o que estuda é uma sala de aula, poderia ser uma carteira que lhe permita escapar do foco visual da maioria dos estudantes, e buscaria um lugar longe do quadro negro onde escreve o professor, ou do pequeno estrado em que sobem os alunos para apresentar seus trabalhos de classe8 (DURANTI, 2000, p. 146). Tanto o lugar como a postura do pesquisador devem favorecer um certo grau de neutralidade para que sua presença no espaço interacional não produza interferências nas ações dos participantes. Desta forma se alguma ocorrência causar algum estranhamento para o pesquisador, este não deve em nenhuma hipótese demostrar sua reação, mas deve estar atento à reação dos participantes diante do fato ocorrido, pois para a pesquisa o que têm valor é exatamente a resposta dos participantes aos acontecimentos interacionais e não o que pensa o pesquisador sobre o que está se passando naquele momento. De acordo com Loder (2008) 8 Tradução de: si lo que estudia es una clase, podría ser una silla que le permita escapar al foco visual de la mayoría de los estudiantes, y buscaría un lugar alejado de la pizarra donde escribe el profesor, o del pequeño estrado al que suben los niños para presentar sus trabajos de clase. 41 Fundamentalmente, é na observação de interações situadas, de ocorrências natural, mediadas pelo uso da linguagem que a ACE encontra fonte de evidências para suas análises e explicações sociais. Isso quer dizer que o objeto de interesse não são interações experimentais. Forjadas para atender aos propósitos da análise de uma dada pesquisa ou para provocar a produção de determinados fenômenos ou padrões de comportamento. A busca é, na verdade, por encontros que ocorrem naturalmente, sem serem motivados pelo pesquisador, e o ideal é tornar a tarefa de observação minimamente invasiva (LODER, 2008, p. 127). Este tipo de pesquisa exige, desta forma, que o pesquisador mantenha um cuidado rigoroso com a situação social na qual está envolvido para que possa, como em nosso caso, descrever, interpretar e explicar a sala de aula, o tipo de interação estabelecido e o que as pessoas demonstravam umas para as outras, quando estão em interação. Como campo de estudo optei por uma instituição federal na qual eu trabalho, localizada em uma cidade do interior de Minas Gerais, devido ao fator tempo e à oportunidade de estabelecer um contato mais intenso com os participantes. Nesse período, observei aulas dos professores de Geografia e de Filosofia nas turmas do terceiro ano do curso Técnico em Agroecologia Integrado ao Ensino Médio e no quarto período do curso Técnico em Orientação Comunitária (módulo PROEJA). A opção por estas disciplinas se deve aos seguintes critérios: a) garantir um maior distanciamento do objeto de estudo; b) compatibilidade de horários; c) boa recepção dos professores em relação à pesquisa em sala de aula; d) boa interação entre os professores e os alunos durante as aulas. Usando como critério o nível de interação entre o professor e os alunos, elegi a disciplina de Geografia e a turma do terceiro ano do Técnico em Agroecologia. Na continuidade abordarei mais detidamente sobre o curso, a aula e a turma estudada. 2.2.2 – O Curso De acordo com o seu Projeto Pedagógico (PPC), o curso Técnico em Agroecologia9 faz parte da modalidade integrada, que apresenta como principal 9 A Agroecologia enquanto ciência pretende fornecer, de acordo com ALTIERI (1998), os princípios básicos para o estudo, o planejamento e o manejo de agroecossistemas, considerando não somente os aspectos ambientais/ecológicos, mas também econômicos, sociais e culturais da agricultura. Estes princípios visam a construção de um novo pensamento dentro da agricultura, transformando os 42 característica a integração dos conteúdos básicos da matriz curricular do Ensino Médio aos conteúdos da formação profissional em Agroecologia, buscando articular os conhecimentos, de forma que os discentes visualizem a articulação entre os conteúdos básicos do Ensino Médio com a parte específica da profissão de técnicos em Agroecologia. O curso é ofertado na modalidade presencial, sendo disponibilizadas quarenta vagas anualmente, e está estruturado em períodos anuais, com a matriz curricular dividida em três períodos de 1600 horas, perfazendo um total de 4800 horas de formação teórico-prática, acrescida de 240 horas de estágio supervisionado. O público-alvo são os jovens, que já tenham concluído o Ensino Fundamental, oriundos de áreas rurais onde predomina o modo familiar de produção agrícola. O curso é planejado de modo a conduzir o aluno à habilitação profissional técnica de nível médio, na mesma instituição de ensino. O objetivo do Curso é formar profissionais para atuar na área de Agroecologia, para isso além de uma formação técnica específica, o objetivo do curso é fornecer também ao aluno uma formação integral humanista, como propõe o Documento Base para a Educação Profissional Técnica de Nível Médio Integrada ao Ensino Médio, do Ministério da Educação. 2.2.3 – Os Participantes O número total de participantes desta pesquisa são vinte e uma pessoas, desses, vinte são alunos pertencentes à turma do terceiro ano do curso Técnico Integrado em Agroecologia e um professor da disciplina de Geografia. A escolha por esta turma se deu pelos seguintes motivos: primeiramente, pelo alto nível de interação com o professor, depois pela boa recepção para a realização da pesquisa e, ainda, por ser uma turma para qual eu leciono, o que favoreceu no momento da pesquisa de campo, pois minha presença não era estranha. agroecossistemas convencionais em sistemas sustentáveis, os quais gerem renda e equidade social para os agricultores, sem comprometer a qualidade do ambiente. A Agroecologia traz em seus princípios uma proposta de produção sustentável, respeitando os limites do ambiente local e procurando otimizar as propriedades rurais em todos os sentidos: ambiental, social, econômico, ético, cultural e político. 43 Os alunos dessa turma têm idade que variam entre dezesseis e dezoito anos, todos moradores da área urbana, sendo, somente dois oriundos da zona rural. Do número total de discentes, treze deles são do sexo feminino e sete do sexo masculino. Quanto ao poder econômico, os alunos pertencem à classe média e nenhum deles pretende seguir a profissão de agroecólogo, mas buscam carreiras como medicina, administração, direito, arquitetura, engenharias, ciências biológicas, agronomia, engenharia florestal, dentre outras. Devido ao poder aquisitivo e ao fato de que boa parte dos estudantes vêm de escolas particulares, pude perceber que eles não se enquadram ao perfil de aluno esperado para o curso, conforme disposto no PPC. Na sala de aula não há uma preocupação quanto à disposição das carteiras. A maioria dos alunos senta-se em pequenos grupos espalhados nas laterais e no fundo da sala, outros permanecem sozinhos. Estes, geralmente, concentram-se no centro ou na frente, próximo ao professor. Há ocorrência de conversas paralelas, mas essas são muito comedidas e não atrapalham o andamento das aulas, por isso o professor poucas vezes chama a atenção ou pede silêncio. Quanto ao professor, é graduado em História, especializado em Docência do Ensino Superior e, atualmente, cursa mestrado em Geografia. Possui treze anos de experiência profissional, tendo trabalhado nove anos na rede pública estadual de Minas Gerais e há quatro anos trabalha como professor efetivo de História e de Geografia no Instituto Federal onde foi realizada a pesquisa. Para a turma pesquisada leciona a disciplina de Geografia desde o primeiro ano. É uma pessoa muito respeitada entre os alunos, sempre muito elogiado como professor. Tem uma preocupação muito forte com questões políticas e participa ativamente de alguns movimentos sociais, como, por exemplo, os atingidos por barragens. Isso é perceptível em seu posicionamento nas discussões em sala de aula. Durante as aulas o professor permanece todo o tempo de pé à frente dos alunos. Segue um livro didático, mas não fica preso a ele, traz outras questões e critica algumas informações (ou ausência destas). Tem um bom relacionamento com a turma, não fica chamando a atenção durante a aula, mas aqueles alunos que não estão atentos ou que conversaram muito são submetidos, ao final da aula, a um pequeno teste escrito, que o professor denomina de “vapt-vupt” sobre questões discutidas naquele dia, parece que já é algo combinado entre eles, em algumas aulas o professor inicia fazendo uma ameaça, em tom de brincadeira, perguntando quem seriam os comtemplados com o “vapt-vupt” daquele dia. 44 Nas aulas assistidas por mim, percebi que há a preocupação do professor em fazer os alunos participarem, por isso recorre ao uso de perguntas para incitá-los a manifestarem seu ponto de vista sobre o assunto tratado. Não há forte controle na alocação de turnos, característico das aulas tradicionais, de modo que os alunos tomam a palavra sempre que desejam, configurando, assim, uma interação simétrica, na qual todos têm acesso ao direito de falar. 2.2.4 - A Aula Dentro das dezesseis aulas gravadas, escolhemos para nosso corpus de análise duas, são aulas geminadas, com duração de cinquenta minutos cada. O que determinou a escolha foi a intensa interação entre o professor e os alunos através de perguntas e respostas. Em outras aulas também ocorreu a utilização deste tipo de sequência interacional, porém a dinâmica utilizada pelo professor para conduzir as discussões nessa aula nos chamou a atenção. A aula iniciou com dez minutos de atraso devido a problemas com o datashow. Nesse interim os alunos conversavam entre si, faziam brincadeiras uns com os outros, das quais participava também o professor. Nesse dia aconteceu a apresentação de dois seminários pelos alunos. Assim que os aparelhos foram montados, o professor tomou a palavra para estabelecer a ordem na sala dando ao primeiro grupo a oportunidade de começar as apresentações. O seminário do primeiro grupo, composto por cinco pessoas, tinha como tema o Desenvolvimento Sustentável, texto de Silva (2012) que faz uma breve análise histórica das discussões acerca da crise ambiental até o surgimento do conceito de desenvolvimento sustentável. Além disso, o autor tece críticas a documentos firmados entre vários países que adotam um discurso contraditório de combate à pobreza e de preservação ambiental, enquanto reafirma a necessidade do crescimento industrial e critica os países desenvolvidos. Alguns desses documentos, segundo o autor, propagam a ideia de que a superação do subdesenvolvimento dos países do terceiro mundo depende do crescimento contínuo dos países desenvolvidos. Recorrendo a Leff (1998), Silva (2012) vai dizer ainda que o desenvolvimento sustentável é uma estratégia do mercado global para se apropriar dos recursos naturais em nome do poder econômico. 45 Fazendo uso do discurso da sustentabilidade, os países capitalistas, querem diluir a contradição entre a proteção do meio ambiente e o crescimento econômico. Durante a apresentação do seminário o professor permaneceu sentado à frente, ao lado direito da sala com a carteira virada para o grupo, não fez muitas intervenções, somente corrigindo algumas informações, pedindo esclarecimento de algo e fazendo brincadeiras com algumas colocações dos alunos. A maioria da turma se manteve atenta às apresentações, com exceção de dois alunos que estavam lendo livros durante as apresentações, outro que estava mexendo no celular e esporádicas conversas paralelas. Após a apresentação do grupo, que durou cerca de doze minutos, o professor, do lugar onde estava, tomou o turno e levantou a seguinte P para o grupo – “O Desenvolvimento Sustentável é possível?” – A partir desta questão os alunos do grupo e o professor interagiram por, aproximadamente, nove minutos através de P e R, nesse momento o professor não expos suas ideias, apenas incitou os alunos a manifestarem os seus pontos de vista sobre o assunto, contrapondo-os com as ideias presentes no texto. O segundo seminário teve como base o texto Agrocombustíveis, de Görgen (2012). No texto o autor define agrocombustíveis como sendo “combustíveis líquidos ou gasosos, para motores à combustão, proveniente da agricultura” (GÖRGEN, 2012, p. 53). Na sequencia, faz um levantamento detalhado dos tipos mais comuns de combustíveis, destacando os dois modelos antagônicos de produção de agrocombustíveis no Brasil, que são o agronegócio que consiste na produção em larga escala, no cultivo da monocultura de cana de açúcar e de soja; e a agricultura camponesa voltada para a soberania alimentar e energética das comunidades, combinando produção de alimento e energia com proteção ao meio ambiente, o sistema chamado de “Alimergia”. O autor também aborda os diferentes tipos de energias renováveis e alternativas como: eólica, solar, biomassa e biogás. Conclui dizendo que a proposta de produção de alimentos e de energia das elites capitalistas não condiz com a sustentabilidade, pois é centralizadora e controlada por grandes grupos econômicos, enquanto que o sistema da agricultura camponesa se assenta na organização de sistemas de industrialização de forma descentralizada. O grupo, também formado por cinco integrantes, utilizou como recurso o Datashow e amostras de combustíveis para enriquecer a apresentação, que teve duração de vinte e sete minutos. Todos os membros do grupo abordaram uma parte do tema. O professor e a turma mantiveram a mesma postura que assumiram no grupo anterior. 46 Após a apresentação, o professor tomou a palavra, permanecendo no lugar onde estava, e levantou a seguinte P “Essas técnicas aí possibilitam corrigir os problemas do desenvolvimento sustentável?” E por durante sete minutos interagiu com o grupo através de P e R para que eles expusessem o que pensavam sobre o tema tratado. Outros alunos que não faziam parte do grupo de apresentação de trabalho participaram da discussão. Na sequência o professor se levantou e assumiu a frente da sala pedindo aos alunos para voltarem para seus lugares, para “dar uma geral” como ele mesmo coloca. Nesse momento o docente fez uma rápida avaliação quanto ao desempenho e a postura dos grupos durante as apresentações e, logo em seguida, retomou os dois temas procurando fazer uma relação entre eles através de uma interação intensa que durou vinte e três minutos, conduzida pelo professor através, principalmente, de P e R com os alunos. 2.3 Gravação e Transcrição Dados Para coletar os dados pedi autorização a todos os participantes para que as aulas fossem gravadas e comuniquei que usaria como dado para minha pesquisa de mestrado, na qual analiso a fala-em-interação no espaço institucional. Não mencionei que trabalho especificamente com a sequência de P e R na co-construção do conhecimento para não induzir sua ocorrência durante a interação dos alunos com o professor. A gravação aconteceu desde o primeiro contato com os participantes, com o intuito de que logo este procedimento deixasse de causar estranhamento e passasse a fazer parte da rotina da aula. No total foram gravadas dezesseis aulas, sendo que as primeiras foram desconsideradas, visto que a interação poderia estar condicionada à minha presença e ao procedimento de gravação. Após gravarmos doze horas e quarenta e dois minutos de aula, o que consideramos um quantidade representativa para o objetivo de nossa pesquisa, passamos para a audição das gravações para a escolha das aulas a serem analisadas. Optamos por duas aulas geminadas, que somam uma hora e trinta e três minutos de gravação, devido a grande ocorrência de P e R na sequência interacional. Sabemos que, como coloca Duranti (2000), a transcrição de uma conversa não é o mesmo que a conversa, do mesmo modo que a gravação da interação não é o mesmo 47 que a interação. No entanto, a transcrição possibilita registrar materialmente nosso entendimento de como os participantes utilizam a fala e outros recursos em suas interações. A escolha do método de transcrição deve levar em conta, de acordo com Gago (2002), os parâmetros teóricos, objetivos e interesses específicos da área de pesquisa, não podendo ser tomada apenas como uma forma de transformar texto oral em documento escrito, uma vez que ela procura preservar uma série de elementos determinantes presentes no momento interacional. Por isso a transcrição deve ser tomada, também, como um procedimento analítico interpretativo. O autor coloca ainda que a transcrição é uma representação de um encontro que realmente ocorreu e por isso sujeito a problemas de representação geral, podendo ocorrer outras possibilidades de interpretação. Para o autor a transcrição não é um produto final, acabado, perfeito e que permanecerá alterado ao longo do tempo. Uma vez que depende da audição humana, por natureza imperfeita, cada nova audição poderá corresponder a nova representação dos fenômenos. O efeito do tempo também poderá contribuir para adicionarmos mais camadas de entendimento dos fenômenos, tornando mais “espessa” nossa descrição deles (GAGO, 2002, p. 91). Mesmo que a transcrição não represente com fidelidade todos os dados da interação, ela é fundamental, pois é o principal meio de registrar aspectos conversacionais importantes para a compreensão interacional como pausa, sobreposição de falas, entonação, aspiração ou expiração de ar durante a fala, entre outros que se mostrarem relevantes para que a fala-em-interação possa ser analisada. Por isso Sacks (1996) destaca a necessidade de o analista sempre voltar à fonte gravada para que mais detalhes sejam observados e, assim, a descrição dos dados seja o mais fiel possível à situação interacional. Em Duranti (2000) encontramos pontos importantes relacionados à transcrição que podem nos ajudar a refletir sobre o modelo que adotamos neste trabalho. 1) A transcrição é um processo seletivo. 2) Não há uma transcrição perfeita que represente a interação de forma original, mas há transcrições melhores dependendo do objetivo do pesquisador. 3) Não há uma transcrição final, mas versões distintas de acordo com o propósito da pesquisa. 4) Transcrições são procedimentos analíticos. 5) As escolhas que fazemos para representar as informações devem ser bem 48 explicadas. 6) O método de transcrição varia de acordo com os objetivos do pesquisador. 7) É preciso ser consciente das questões teóricas, políticas e éticas que envolvem o processo de transcrição. Para representar a conversa com o máximo de detalhes possível, optamos por utilizar como modelo de transcrição um sistema gráfico, convencionalmente, escolhido para marcar pausas, hesitações, interrupções, ênfases, etc., encontrado em Gago (2002), adaptado de Sacks, Schegloff e Jefferson (1974) 10. Apresentamos abaixo a tabela de convenções de transcrição utilizada nesta pesquisa. [colchetes] (0.5) (.) = . ? , ,? : sublinhado MAIÚSCULA º ºpalavraº Palavra: Palavra: ↑ ↓ >palavra< <palavra> <palavra hhh (h) .hhh (( )) (palavra) ( ) 10 Fala sobreposta Pausa décimos de segundos Micropausa em menos de dois décimos de segundo Contiguidade entre a fala de um mesmo falante ou de dois falantes distintos Descida de entonação Subida de entonação. Entonação contínua. Subida de entonação mais forte que a vírgula e menos forte que o ponto de interrogação. Alongamento de som. Autointerrupção. Acento ou ênfase de volume. Ênfase acentuada. Fala mais baixa imediatamente após o sinal. Trecho falado mais baixo. Descida entoacional inflexionada. Subida entoacional inflexionada. Subida acentuada na entonação, mais forte que os dois pontos sublinhados. Descida acentuada na entonação, mais forte que os dois pontos precedidos de sublinhado. Fala comprimida ou acelerada. Desaceleração da fala. Início acelerado. Aspirações audíveis. Aspirações durante a fala. Inspiração audível. Comentários do analista. Transcrição duvidosa. Transcrição impossível. Os símbolos são praticamente os mesmos utilizados por Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). 49 th Estalar de língua. Tabela 1: Sinais de transcrição utilizada nesta pesquisa. Optamos por este modelo, que é o sistema adotado pela ACE, pois privilegia a fala-em-interação a partir de sua organização sequencial, importante para o objetivo de nossa pesquisa que é o estudo do par adjacente P e R na construção do conhecimento. Para materializar graficamente o texto oral foi utilizado um sistema gráfico entendido, de acordo com Gago (2002), como um “conjunto de símbolos utilizados para se representar na escrita o discurso produzido originalmente na modalidade oral” (GAGO, 2002, p. 95). De acordo com o autor há duas formas de transcrição: a escritapadrão e a escrita modificada. No primeiro, a fala é grafada em registro padrão culto, não no sentido empregado pela gramática normativa, mas como é empregada na prática efetiva e discutida por escritores contemporâneos; já no segundo caso, os detalhes de pronúncia do falante são fielmente incorporados à transcrição. Quanto a esta última forma de transcrição, Gago (2002) destaca possíveis problemas como tendência a rebaixar a classe social ou o nível de escolaridade a partir da grafia modificada, construindo, assim, uma imagem negativa dessas pessoas; os próprios participantes interpretam os fenômenos de linguagem oral como erro, falta de atenção, problemas de performance, avaliando de forma negativa sua competência comunicativa, dificuldade de leitura das transcrições sobrecarregadas de grafia modificada. Em nossas transcrições decidimos por usar, predominantemente, a escritapadrão, visto que a ortografia convencional é considerada mais acessível que a escrita modificada e o uso desta poderia acarretar a criação de estereótipos diante das falas dos participantes uma vez que trabalhamos a partir da perspectiva do falante. Outro fator importante nos estudos em ACE é a forma de identificar os participantes da pesquisa. Em alguns casos opta-se por identificar os participantes utilizando letras, o que pode anonimizá-los. Outra forma é o uso de categoria social ou institucional, porém esta forma realça apenas uma das muitas identidades que podem estar no discurso. O uso mais recorrente é a utilização de pseudônimos. Escolhemos esta forma de identificação com o intuito de preservarmos a privacidade dos participantes e por privilegiarmos o princípio êmico, a esse respeito Loder (2008) vai dizer que, (...) a identificação dos participantes a partir de categorias interacionais (...) ou institucionais (...) é criticada por evocar uma imposição de categorias a priori aos participantes. A preocupação dos críticos a essa opção é de não limitar, de início, as categorias que possam ser relevantes à análise posterior 50 nem negligenciar as múltiplas identidades relevantes ao longo de uma interação ou mesmo em um dado momento. A questão é que, se se está buscando aproximar a perspectiva êmica (...), seria necessário evidenciar que a categoria com a qual o participante está sendo identificado na transcrição é demonstravelmente relevante para os próprios participantes ao longo de toda a interação. Caso isso não seja possível (especialmente porque múltiplas identidades podem estar sendo simultaneamente relevantes para um mesmo participante num dado momento), atribuir uma dada categoria a priori a um participante seria uma imposição ética (em oposição a êmica) do transcritor (LODER, 2008, p. 148). No entanto, a identificação por nomes fictícios não está livre de críticas, alguns estudiosos vão dizer que ao utilizar um nome próprio haverá sempre uma categoria que se sobressairá, por exemplo, a questão do gênero masculino e feminino, porém para os analistas da conversa, de acordo com Loder (2008), é a que poderia causar menor dano aos resultados analíticos. 2.4 - Métodos de Análise Durante o processo de análise do nosso corpus de pesquisa, a fala-em-interação na sala de aula, consideramos as escolhas dos diferentes elementos linguísticos por parte dos participantes não como algo acidental ou como resultado de um fenômeno social, como sugere a Sociolinguística Variacionista, mas como uma ação estrategicamente intencional para o gerenciamento da interação. Como coloca Gumperz (2002) (...) a diversidade linguística é mais do que uma questão de comportamento (...) funciona como um recurso comunicativo nas interações verbais do dia a dia no sentido de que, numa conversa, os interlocutores – para categorizar eventos, inferir intenções e apreender expectativas sobre o que poderá ocorrer em seguida – se baseiam em conhecimentos e estereótipos relativos a diferentes maneiras de falar. Esse conjunto de informações internalizadas é crucial para a manutenção do envolvimento conversacional e para o uso eficaz de estratégias persuasivas (GUMPERZ, 2002, p. 150). Por isso nos amparamos naquilo que os participantes demonstradamente revelam uns para os outros como evidência significativa dentro do processo interacional, sem nos limitar a interpretação do evento comunicativo à identificação a priori de categorias sociais, pois, de acordo com Gumperz (2002), a compreensão de uma elocução pode variar dependendo do enquadramento interacional daquele momento. Assim, “o tipo de atividade não determina o significado, mas restringe as interpretações, canalizando as inferências de forma a ressaltar ou tornar relevante certos aspectos do conhecimento 51 prévio e diminuir a importância de outros.” (GUMPERZ, 2002, p. 152). O autor fala de pistas de contextualização, que são sinais presentes no interior do evento comunicativo que os falantes fazem uso para sinalizar ao seu ouvinte que tipo de atividade está acontecendo ali, para que ele possa alinhar-se àquele enquadre, podendo, dessa forma, acessar as informações necessárias para que a mensagem em curso seja significada adequadamente. No processo de análise, o pesquisador deve, portanto, tomar estas pistas a partir do processo e do contexto interacional, onde elas se deixam encontrar, pois “os significados das pistas de contextualização são implícitos” (GUMPERZ, 2002, p. 153). Por isso o pesquisador deve observar com rigor em suas transcrições tanto quanto possível, os aspectos fonéticos, prosódicos e interacionais, para que se possa entender o que está acontecendo, e dessa forma, poder analisar o que os participantes pretendem e como percebem a ação interacional. Neste sentido, as pistas de contextualização têm papel fundamental, pois é através delas que temos acesso ao enquadre, elemento tão importante para a construção de sentido. Por isso, fizemos nosso percurso analítico a partir dos diferentes enquadramentos ocorridos durante a aula, para, assim, percebermos como o conhecimento é co-construído a partir da sequencia conversacional P e R. 2.5 - Questões Éticas Os aspectos éticos ligados a pesquisas em Linguística Aplicada é algo que vem sendo bastante discutido por vários autores, aqui abordaremos apenas Celani (2005), Bygate (2004), que discutem pontos que julgamos relevantes para o tipo de estudo que fazemos. Bygate (2004) nos chama a atenção quanto aos resultados das pesquisas em Linguística Aplicada, pois eles deveriam ajudar nas ações concretas na sala de aula. Segundo o autor, é preciso que o nosso objeto de estudo seja algo que realmente tenha importância para a sociedade, não uma questão que seja de interesse apenas do pesquisador. Concordamos com o autor que é dever de todo pesquisador, refletir sobre sua prática e sobre a realidade na qual está inserido para poder transformá-la. Por isso, nosso objetivo é (re)pensar a interação entre o professor e os alunos na sala de aula, enquanto espaço para a co-construção do conhecimento. Esperamos com isso oferecer 52 elementos para que o conhecimento possa ser construído de forma mais efetiva. Já Celani (2005) fala da extrema importância do esclarecimento e do consentimento dos participantes envolvidos na pesquisa. (...) é indispensável o consentimento informado, esclarecido, na forma de diálogo contínuo e reafirmação de consentimento ao longo da pesquisa. Esse diálogo possibilitará ao pesquisador certificar-se de que os participantes entenderam os objetivos da pesquisa, seu papel como participantes, ao mesmo tempo que deixa clara a esses a liberdade que têm de desistir de sua participação a qualquer momento (CELANI, 2005, p.110). Quanto a estes aspectos, informamos verbalmente aos participantes sobre os objetivos de nosso estudo, preservando os aspectos relacionados à interação a partir de P e R, para não influenciar na relação entre os interagentes, tornando-a desse modo artificial. Utilizamos ainda o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido 11 direcionado ao professor, aos alunos maiores e aos pais dos alunos menores de idade, para garantir a eles, o direito de conhecer os riscos e os benefícios da pesquisa da qual está participando, bem como o direito de retirar sua participação quando desejar, sem que isso lhe acarrete qualquer dano. Atendendo às exigências da Comissão de Ética em Pesquisa (CONEP) e do Conselho Nacional de Saúde (CNS), submetemos nosso projeto de estudo ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa (CEP/UFV) que tem como papel julgar os aspectos éticos das propostas de trabalho com seres humanos dessa instituição, com a finalidade de garantir a dignidade humana, o bem estar e os direitos dos participantes voluntários das pesquisas. Após análise dos riscos, dos benefícios, do termo de consentimento livre e esclarecido e outros dados de nosso estudo, o CEP/UFV emitiu parecer favorável com os seguintes comentários 12: Riscos e Benefícios: Considerando a dinâmica proposta pelos avaliadores, não existem evidências de riscos de caráter físico, biológico, psicológico ou sociológico, podendo o estudo ser desenvolvido com segurança. Os benefícios estão bem descritos dentro de um contexto geral. Foram descritos os benefícios específicos para os integrantes do estudo. Comentário sobre a Documentação obrigatória: Foram apresentados todos os documentos exigidos. O projeto pode ser executado sem nenhum tipo de comprometimento ético. Conclusão: Em função dos documentos apresentados e as informações disponibilizadas pelos autores, considero que o projeto atende as 11 12 Ver em anexo. Em anexo segue, na íntegra, o Parecer Consubstanciado emitido pelo CEP/UFV. 53 normativas éticas, podendo assim ser autorizado sua execução. Situação do Parecer: Aprovado Uma de nossas principais preocupações é quanto à observação participante e à gravação da conversa como é o caso deste estudo, pois essa ação costuma ser um tanto intrusiva, uma vez que informações confidenciais podem surgir nas interações. Diante dessa realidade, os nomes dos participantes, bem como o nome da escola pesquisada, foram preservados a fim de proteger as identidades dos participantes. 54 3. ANÁLISE DOS DADOS No presente capítulo, analisamos a fala-em-interação entre professor e alunos, de forma específica, como o conhecimento é co-construído por esses sujeitos institucionais através do par adjacente P e R. A aula selecionada para nossa análise, conforme descrito anteriormente, é da disciplina de Geografia, ministrada em uma turma do terceiro ano de um curso técnico em Agroecologia, integrado ao Ensino Médio, de uma escola pública federal localizada no interior de Minas Gerais. Trata-se de uma aula geminada, totalizando uma hora e trinta e dois minutos e quarenta e nove segundos de gravação. Inicia-se a aula com o seguinte ambiente situacional: um grupo de alunos tenta montar os equipamentos para a apresentação dos trabalhos, enquanto isso, o professor, que ocupa uma das carteiras dos alunos, na fileira da frente, no canto direito da sala, virado para a turma, interage com alguns estudantes separadamente, tirando dúvidas sobre os trabalhos a serem apresentados no dia, faz piadas com a turma que ameaçam a face de alguns, tendo, também, sua face ameaçada com brincadeiras por parte dos estudantes. Essa atitude cria um ambiente descontraído onde todos riem e conversam muito (linhas 1 a 116). Em determinado momento da interação, o professor demonstra não ter conhecimento dos temas que serão apresentados naquela aula. Excerto 1: 9 10 11 Pedro João >ºO seu qual é?º< (0.8) ºÉ: o: desenvolvimento sustentável.º A P do tipo qu- (linha 9), por parte do professor, tem o objetivo de se informar sobre algo, mas deixa claro que ele não tem controle do que vai acontecer ali, portanto, a aula será construída no momento da interação. O tom rápido e baixo de voz usado pelo professor revela que ele não quer que os demais alunos percebam seu desconhecimento. Após oito décimos de segundo, o aluno João responde á P com o mesmo tom baixo de voz, mostrando com isso estar alinhado ao professor, a fim de evitar uma situação de perda de face do professor por não ter o controle do planejamento da aula. Um novo enquadre (linhas 117 a 128) se configura quando o professor se posiciona de pé, à frente da turma, chama a atenção de todos para o início dos seminários. Através das pistas de contextualização, como do tom de voz e da orientação 55 corporal do professor, os alunos percebem que houve mudanças na interação, por isso voltam para seus lugares, se alinham a esse novo comando e assumem o footing de ouvintes. Para a apresentação dos seminários (linhas 129 a 318 e linhas 668 a 1038), cada grupo composto por cinco membros utilizou como recurso didático slides projetados em datashow. Os temas dos trabalhos foram “Desenvolvimento Sustentável” e “Agrocombustíveis”, respectivamente. Durante as apresentações, a interação verbal com os demais colegas da turma não aconteceu, apenas algumas conversas paralelas e intervenções do professor ora fazendo piada sobre algo dito, ora acrescentando uma informação ou ainda pedindo esclarecimento sobre algum termo, como no caso abaixo. Excerto 2: 193 194 195 196 197 198 199 Pedro João Pedro João Pedro João =Ele aferrece? Oi? ºVocê falou que ele:?º Aferrece. (ºNão é apetece não?º) Afe- ah, sei LÁ ((risos)) Nesse fragmento retirado da apresentação do primeiro seminário, temos um revozeamento de Pedro, o professor, em forma de P do tipo sim/não (linha 193), para que João faça um autorreparo do termo problemático. O aluno, por sua vez, não entendeu o pedido e, por isso, solicita a Pedro que repita o termo não compreendido (linha 194). O professor opta por iniciar o reparo que havia solicitado (linha 195), porém o aluno repete o item problemático (linha 196). Novamente o docente, através de uma P do tipo sim/não (linha 197), dá a oportunidade ao aluno de se corrigir, que não admite o erro e tenta salvar a própria face (linha 198). O riso dos colegas no turno seguinte deixa claro que a correção, mesmo atenuada pelo professor, fez o aluno perder a face perante a turma. Após cada seminário, ocorreu o momento de interação entre o professor e os membros dos grupos. Como os alunos não se posicionaram criticamente sobre os assuntos tratados, limitaram-se apenas a transmitir o conteúdo do texto utilizado como base para o trabalho, o docente utilizou de uma sequência de Ps e Rs para buscar essa colocação crítica sobre o tema abordado. São esses os momentos que interessam a nossa pesquisa, pois são eles que possibilitam a construção conjunta de conhecimento. 56 Para uma melhor organização de nossa análise, dividimos esse capítulo em duas seções de acordo com as estruturas de participação apresentadas. Primeiro, temos a interação entre o professor e os membros do grupo; a essa seção, denominamos O que conhecem os alunos, pois as Ps feitas aqui, além de um caráter avaliativo, pretendem investigar o que os alunos pensam sobre o tema tratado. A segunda seção refere-se à interação do professor com toda a turma, e a ela intitulamos A construção conjunta do conhecimento, pois as Ps e Rs nesse momento pretendem não mais investigar e sim conduzir a um entendimento comum. Passamos, então, à análise das sequências de Ps e Rs mais relevantes de cada seção, observando qual o papel desse par dialógico para a co-construção do conhecimento. 3.1 O que Conhecem os Alunos Esta seção está dividida em duas outras subseções, assim nomeadas: O Desenvolvimento Sustentável, referente à interação entre o professor e o grupo I, e Agrocombustíveis, que corresponde à interação entre o professor e o grupo II. As falas transcritas aqui podem ser vistas na íntegra nos anexos. 3.1.1 – O Desenvolvimento Sustentável Essa interação que tem como participante Pedro, o professor, e os alunos que apresentaram o seminário I, Ângela, Camila, Cláudia, Fátima e João, aconteceu após a apresentação, quando o professor direcionou Ps aos membros do grupo, primeiramente, com o intuito de avaliá-los; neste momento, Pedro permanece sentado assumindo o footing de avaliador, enquanto os alunos, de pé diante da turma, alinhados ao enquadre avaliação, assumem o footing de avaliados. Trata-se de uma situação desconfortável, pois eles têm suas faces expostas e ameaçadas; devido a isso, há tanta resistência em se posicionarem, os turnos são muito curtos, há longos períodos de silêncio entre um turno e outro, o que leva o professor a recorrer a reformulações para buscar a participação dos alunos. Veja o seguinte excerto: 57 Excerto 3: 321 322 323 324 325 326 327 328 329 330 331 332 333 334 335 336 337 338 339 340 341 342 343 344 345 346 347 348 349 350 351 352 353 354 355 Pedro Ronaldo Pedro ????? Pedro Ângela Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Pedro João ????? Ângela º(Então eu vou passar para as perguntas)º, eu vou perguntar pra vocês,(1.3)né? (1.2) Além da Cláudia, (1.9) a Cláudia tá fora da pergunta. (1.2) º(Ai que bom)º Certo? (0.4) O desenvolvimento sustentável é possível? (1.5) De acordo com o que vocês leram aí. 1.2) [Sim- se sim], por quê? Se não, por quê? [((Tosse))] (2.4) (Pra tudo que é bom tem- [ )] [Sim, se] todo mundo colaborar. É? (2.3) >Vamos ver o que vocês têm a me dizer ai< (3.5) ºEu não posso falar não?º= =Nã:o, nã:o (1.3) Você chama Cláudia? ((a aluna confirma com a cabeça)) ((risos)) En(h)tão sos(h)se(h)ga.Você não tá valendo ainda não (.)agora os outros (.) podem . (0.6) Embolou a vida deles. (2.4) Vocês leram o texto todo ou cada um leu sua parte? [ºTexto todoº] [ºTodoº] [((risos e cochichos))] (4.6) (Não uai, é possível sim) Na sequência interacional acima, o professor anuncia que irá fazer uma pergunta (linhas 321 a 323), e logo em seguida deixa claro que a aluna Cláudia está impedida de responder à questão, visto que a P está relacionada com a parte apresentada por ela durante o seminário. Trata-se de uma estratégia do professor para descobrir se os alunos estudaram sobre todo o assunto ou somente dividiram o texto e cada um explicou apenas sua parte. A fala de Ronaldo (linha 325), amigo de Cláudia, demonstra que esta investigação torna-se um momento desconfortável para eles. Na continuidade (linha 326), Pedro inicia o turno com uma tag question para confirmar o acordo com os membros do grupo; em seguida, anuncia a P do tipo sim/não, que se tornará o grande tópico desse primeiro momento da aula, (linha 326) O Desenvolvimento Sustentável é possível? Após um segundo e cinco décimos sem ninguém tomar o turno, Pedro condiciona a questão ao texto lido pelos alunos (linha 58 329). Mais uma vez os alunos não se manifestam e o professor reformula a P pedindo que os alunos respondam sim ou não e justifiquem (linha 331). Depois de dois segundos e quatro décimos, o professor volta a assumir a fala que é sobreposta pela fala de Ângela, que se autosseleciona como próxima falante e contesta positivamente à P (linhas 335 e 336). Não satisfeito com a R pontual da aluna, Pedro pede que Ângela confirme sua colocação com uma P do tipo sim/não (linha 337), no entanto seu pedido não é atendido e após dois segundos e três décimos, o professor reabre a questão selecionando todo o grupo como próximo falante. Passados três segundos e cinco décimos, Cláudia, numa tentativa de salvar a face do grupo que estava sendo ameaçada pelas Ps do professor, indaga se pode responder, mas é impedida (linhas 339 a 346). Na linha 350, diante do não posicionamento do grupo ao tópico discursivo, Pedro, usando uma P alternativa (337) questiona se os alunos leram o texto todo ou se cada um leu apenas sua parte, reforçando o caráter investigativo e avaliativo da situação. Diante disso, o aluno João tenta proteger sua face e a dos colegas: com a fala sobreposta por outro aluno, responde com o volume baixo da voz, o que demostra falta de convicção de que leram o texto todo. No entanto, os risos e cochichos da turma mostram que a colocação do professor fez os alunos perderem a face. Após quatro segundos e seis décimos, Ângela confirma de forma muito pontual (355) que é possível sim o desenvolvimento sustentável. Frente à dificuldade do grupo em dar uma R satisfatória, o professor muda de estratégia e as perguntas que até então eram usadas com o objetivo de avaliação, passam a serem usadas como forma de conduzir os alunos à R preferida. Contudo, a configuração do enquadre situacional ainda é de avaliação, pois os participantes ainda ocupam as mesmas posições, questionador e contestador. Porém, o alinhamento do professor é mais colaborativo, conforme veremos a seguir: Excerto 4: 356 357 358 359 400 401 402 403 404 405 Pedro Ângela Pedro Pedro Ângela Eu quero que vocês respondam sim ou não. (.) É possível? (1.6) >O desenvolvimento sustentável<, é possível? ºÉ.º Agora, por quê? (4.7) Ou co:mo? (2.4) <Sinceramente Pedro, se todo mundo colaborar com isso principalmente as ( )> 59 406 407 408 409 410 411 412 413 414 415 416 417 418 419 420 421 422 423 424 425 426 427 428 429 430 431 432 Fátima Ângela Pedro Fátima Ângela Camila Pedro Camila Pedro Ângela ????? Pedro só que:: tem outro problema que[eles quere:m= [Eles querem lucrar] =CRESCER economicamente e nã:o. ºproteger o meio ambiente.º Eles quem? (2.1) Os: os- [os grandes]= =[<Os Capita]listas> ºÉº= =Quem são eles:? As grandes empresas. [((conversa))] [((Tosse))] [Eles fazem isso porque eles são ruins, malvados?] [Não, eles fazem isso porque eles querem crescer economicamente.] [( )] Então, mas eu quero saber se isso é uma opção (.) consciente, pessoal, por exemplo, Jorge Bu:sh, Obama: falam (0.3) “↑oh eu (.) vou assinar aqui o Protocolo de Quioto:: porque (.) eu acho importan:te”, ou “eu não vou assinar porque (.) eu não acho importante”> Isso é< uma opção (.) pessoal, ou tem mais coisa por trás disso aí? E que coisas podem ser essas? (4.7) No seguimento acima, Pedro, tentando conduzir a discussão, delimita, antes de fazer a P, a R dos alunos a um sim ou não (linha 356); em seguida, retoma a P inicial (linhas 357 e 358). Ângela se autosseleciona como próxima falante e contesta positivamente com uma R mínima, porém seu tom de voz é baixo, o que demonstra falta de convicção. Após a confirmação, o docente expande o questionamento utilizando, agora, de uma P qu- (linha 400), que exige uma R mais elaborada. O intuito de Pedro é que a aluna possa aprofundar seu posicionamento anterior. Depois de quatro segundos e sete décimos sem nenhuma resposta, o professor reformula a questão com outro pronome interrogativo (linha 402). A resposta só acontece dois segundos e quatro décimos mais tarde, novamente, pela aluna Ângela (linhas 404 a 406) que é auxiliada pela participação da colega Fátima, através de uma sobreposição de fala, (linha 407). Ângela dá continuidade a seu turno justificando sua posição anterior, o que parece satisfazer a P do professor que na continuidade (linha 410), faz outra P do tipo qu-, desta vez direcionada à aluna Ângela e não mais ao grupo, para esclarecer a quem se refere o pronome pessoal eles, utilizado por ela na linha 406; após dois segundos e um décimo, Fátima toma o turno, mas sua fala é sobreposta pela participação de Ângela e logo em seguida com a confirmação em volume baixo de voz da aluna Camila (linhas 412 a 414) 60 que co-constroem a R. Pedro expande ainda mais a questão utilizando de uma P qu(linha 415), recebendo imediatamente uma R pontual de Camila (linha 416 ). O professor direciona uma P sim/não (linha 419) para provocar o posicionamento crítico dos alunos sobre as grandes empresas e o capitalismo e Ângela responde negativamente e justifica sua R (linhas 420 e 421). O turno seguinte é introduzido por duas conjunções, uma conclusiva “então”, que marca um concordância com a R anterior; no entanto, essa R ainda não é totalmente satisfatória, isso é perceptível pelo uso da expressão adversativa “mas”. Para resolver isso, Pedro faz outra P, agora, do tipo alternativa, que é expandida, logo em seguida, por outra P qu- com a função de pedir um maior detalhamento do tema (430 e 431). Nessa questão, o professor recorre ao discurso relatado, dando voz aos presidentes Bush e Obama. Trata-se de um recurso bastante persuasivo e foi usado com o intuito de provocar uma reflexão dos alunos. No entanto, nenhum aluno se autosseleciona e, mais uma vez, a P fica sem R. No excerto seguinte, Pedro direciona agora as Ps para Cláudia, que ele acredita poder dar a R que ele considera correta, já que o assunto discutido até então foi retirado de sua parte no seminário. Excerto 5: 433 434 435 436 437 438 439 440 441 442 443 444 445 446 447 448 449 450 451 452 453 454 455 456 457 Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Vamos deixar a Cláudia falar, é pos- é possível Cláudia? O que que é? É possível, mas tem que ser, >tipo assim< aprovada pelo o gove:rno >tipo assim< tem que ser (.) adotada des:de do::: th tem que ser uma <mercação>, essa educação individualista, que tipo assim, que (presta- na conscientização:o) de que cada um tem que fazer a sua parte. É possível? É, mas acontece que, tipo assim, com a ( ), no sistema capitalista e eles não quererem: conviver com esse sistema, acabam (vivendo) em competição, e que o capitalismo, ele não- >tipo assim< ele não:: não dá (.) tanta importâ:ncia para a destruição que nem a:: ( ) nesse sistema de: (redutor) de rodovias (.) acaba: acumulando riquezas, mas porém:: porém melhoran:do desde o princípio, por isso para haver uma:: (.) pra haver, assim, um desenvolvimento sustentável temprecisa de um:: de uma: de um investimento. (1.4) de um investimento ºna educaçãoº= =Então você acha que é ºpossívelº? Eu acho que é possível. Então pelo que você me falou (1.6) tem o problema do capitalismo, não tem? 61 458 459 460 461 462 463 464 465 466 467 468 469 470 471 472 473 474 475 476 477 478 479 480 481 482 483 484 485 Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro ºTemº= =Tem (.) então, o que acontece é que pra ter esse investimento aí vai ter que controlar o capitalismo, (.) você acha que ºé por aíº? Tá, mas eu acho >tipo assim< essa união de ongs, empre:sas: transnacionais e: governos, tem que ser feita assim, porque:: (0.2) tem sido: >um assunto< bas- bastante:: divulgada >tipo assim< tem que haver uma união dessas (1.5) dessas empresas de grandes nomes <pra: have:r> a divulgação, >assim< disseminação entre a população. Então o problema é a população ou as grandes empresas? <O proble:ma: é o pa(h)ís, Pe(h)dro> ((riso)) Tá, é possível, >é isso que eu quero saber< (.) é possível[ser sustenta-?] [Acho que é] ter o controle (.) desse uso (.) da matéria-prima do que eles necessitam pra: (0.5) industrializar (1.6) pode: >tipo assim< sim, pode:: acontecer o desenvolvimento sustentável, >então tipo assim< aqui no texto fala, acho que é ºna parte da Camilaº que >tipo assim< não é contra: não há contradição entre ele: o: desenvolvimento sustentável e o acúmulo de riquezas. (1.8) <Tá aí no texto no final do: da página:: [( ) e nove>] [(ºAi simº)] (.) né? Diante do silêncio do grupo no turno anterior, o professor seleciona a aluna Cláudia como próxima falante e na sequência, reformula a P do tipo sim/não que tem atravessado toda a discussão até agora. Pedro, antes de passar o turno para a aluna, ainda expande a questão com uma P do tipo qu- (linhas 433 e 434) para que a R possa ser melhor detalhada. A aluna constrói um turno muito longo para responder à questão (linhas 435 a 438), percebemos muita dificuldade na organização das ideias, há espaços de tempo intraturno, alongamento de vogais e outras marcas como falas rápidas ou arrastadas e uso excessivo da expressão coloquial “tipo assim”. Para tentar reorganizar a R, a aluna recorre a um P retórica (linha 439), que ela responde positivamente, mas ainda assim continua com dificuldades para organizar as ideias, percebemos que se trata de uma R trabalhosa com muito material linguístico. Vendo a dificuldade da aluna em construir uma R satisfatória, Pedro engata sua fala à fala de Cláudia, revozeando parte da colocação da aluna, construindo seu turno com a seguinte estrutura: expressão conclusiva mais uma P sim/não (=Então você acha que é ºpossívelº? - linha 453), para que a aluna tenha a oportunidade de confirmar sua R e leve os créditos pelo que foi concluído, o que acontece na linha 454. Na continuidade, Pedro recorre novamente a outro revozeamente de parte da colocação 62 anterior de Cláudia, mais uma vez utiliza de um elemento conclusivo para iniciar o turno, seguido de uma afirmação mais uma tag question, (linhas 455 a 457). A aluna responde positivamente à P do professor (linha 458). No turno corrente, o professor repete a R recebida prosseguindo com uma expressão conclusiva, uma afirmação e mais um P do tipo sim/não (linhas 459 a 461). As estruturas usadas por Pedro nesse turno têm como objetivo mostrar que compreendeu as colocações da aluna, ou seja, houve um entendimento comum, e ainda, deixar claro que Cláudia é a responsável pelo que está sendo dito. A aluna mostra na linha 462 que está em conformidade com o professor e abre um novo subtópico falando da necessidade de divulgar informações para a população (linhas 462 a 468). Essa afirmação é questionada pelo professor através de uma P alternativa (linhas 469 e 470), mas não recebe uma resposta satisfatória da aluna (linha 471). Pedro toma o turno novamente e volta ao tópico principal, pontuando para a aluna o que ele deseja saber; em seguida, refaz o questionamento através de uma P do tipo sim/não (linhas 472 a 473), sua fala é sobreposta pela fala de Cláudia que dá uma R expandida com muito material linguístico, presença de tempo excessivo intraturno, alongamento de vogais e outras marcas conversacionais. No final de seu turno, a aluna utiliza de uma reformulação do texto apresentado para dar mais autoridade à sua colocação (linhas 474 a 484), levando o professor na linha seguinte (485) a aceitar, sem grande convicção, sua R. Na sequência dessa interação, o professor faz uma citação do texto, referente à colocação anterior da aluna Cláudia; lodo depois, passa a questionar sobre a visão que os alunos têm do texto lido, assim ele confronta a opinião dos alunos com as informações textuais. Veja o texto a seguir: Exceto 6: 531 532 533 534 535 536 537 538 539 Pedro Cláudia Pedro João Pedro Seria o texto crítico em relação aos >problemas sustentáveis< ou ele aceita? Ele é crítico= =É crítico? (2.6) º(Quando fala que pra ser sustentável é preciso ser renovável lá) (.) ele é crítico.º (1.9) Então, eu quero saber (0.2) pelo texto (0.4) é 63 540 541 542 543 544 545 546 547 548 549 550 551 552 553 554 555 556 557 558 559 560 561 562 563 564 565 566 567 568 569 570 571 572 573 574 575 576 577 578 579 580 581 582 583 584 585 586 587 588 589 590 Cláudia Pedro Cláudia Pedro Ângela Pedro Ângela Camila Pedro Ângela Pedro Ângela Pedro Ângela Cláudia Ângela Camila Ângela Camila Cláudia possível, então (.) ter um desenvolvimento sustentável? (2.9) >Existir isso?< Vocês disseram que sim. Agora eu quero saber, vocês vão voltar lá no texto. (0.4) O texto defende que é possível manter (.) um desenvolvimento susten↓tável?= =Pelo texto não é possível por causa que: dessa questão de:: (.) contradição, ºlá no textoº, da exploração:: de: (.) de matérias essenciais (.) para ºo desenvolvimento econômicoº (0.5) Mas vocês ainda acham que é possível, (2.1) né? E o texto (.) é crítico em relação a isso. ºSimº Mas vocês: (0.4) acreditam que é possível? (2.5) Quero saber a opinião de vocês agora. Possível é (.) só que é muito [difícil]= [É possível?] =Pra- pros capitalistas quererem deixarem o lucro para poder (.) preservar o meio ambiente (.) (por isso que é muito complicado.) ºEu acho [que assimº] [>ENTÃO vocês<] tá- então no final das contas vocês acham que é possível convencer os capitalistas disto? A:h Pedro (sei lá, hein?), é uma situação que tá, total[mente::]= [Hã?] =nas mão de (todos)= =>Tá, aí que eu vou dizer pra vocês, eu vou voltar naquela questão que eu- (.) (que eu já fiz pra vocês)<, eu vou voltar naquela questão, é uma questão meramente pessoal os capitalistas falarem assim “Eu fui o culpado, e agora então: (.) eu vou ser (0.4) a favor da sustentabilidade (0.7) ou tem mais coisa por trás disso? Tem muito mais coisa ºpor trás dissoº ô: Pedro >tipo assim< eu não acho assim: que precise: mudar totalmente, eu só acho, assim, que precisa de: de tomar algumas medidas pelo menos, algumas medidas pra: sem ↑lá, deixa:r (.) fica:r (.) menos pior. Entende?= =Um mundo totalmente sustentável (.) não existe, mas a forma como é: de a gente viver (.) de uma forma melhor= =Reduzir o impacto= =É Nã:o:: ºacabar totalmente com o impacto, mas só reduzirº Tem que minimizar, (ué) 64 Na sequência conversacional acima, o professor volta a interagir com todo o grupo. Nessa interação, ele deseja confrontar o posicionamento dos alunos sobre o desenvolvimento sustentável com a ideia defendida no texto, por isso faz uso de uma P alternativa (linhas 531 e 532), que prontamente é respondida por Cláudia de forma afirmativa (linha 533). No turno seguinte, o professor engata sua fala à R da aluna e revozeando com uma P do tipo sim/não à resposta recebida, dá oportunidade para que a aluna confirme sua R, o que não ocorre. Após dois segundos e seis décimos, João toma o turno e também confirma que o texto é crítico em relação ao desenvolvimento sustentável; ele expande sua R fazendo referência ao texto. Passado um segundo e nove décimos, Pedro reformula a questão inicial com um P do tipo sim/não, colocando o texto como parâmetro para a R (linhas 539 a 546); depois de dois segundos e nove décimos sem ninguém tomar o turno, o professor prossegue sua fala fazendo outra P sim/não seguida de uma afirmação da posição dos alunos acompanhada de um advérbio de tempo, marcando, dessa forma, que houve mudança no ambiente sequencial. Novamente condiciona a R ao texto e por fim, encerra com uma P do tipo sim/não. Cláudia responde imediatamente que o texto não defende a possibilidade do desenvolvimento sustentável e justifica fazendo referência a colocações do texto (547 a 550). Depois de cinco décimos de segundo, o professor inicia um novo turno com a seguinte estrutura: expressão de adversidade mais afirmação do ponto de vista dos alunos mais tag question para confirmar a informação, mais afirmação da ideia defendida pelo texto (552 a 553). Com essa organização do turno, o professor deixa claro que há um antagonismo entre a postura do grupo e a ideia defendida no texto sobre o desenvolvimento sustentável. Na sequência, Ângela se autosseleciona como próxima falante e reafirma o posicionamento do grupo (linha 557). Pedro sobrepõe sua fala à fala da aluna com uma P do tipo sim/não (linha 558) para que Ângela confirme e aprofunde sua colocação, no entanto, ela continua com uma R evasiva e pouco desenvolvida (linhas 559 a 561). Camila toma o turno, que é assaltado pelo professor que inicia sua fala com um elemento conclusivo mais uma P do tipo sim/não para que os alunos confirmem seu posicionamento. Essa insistência, por parte do professor, em pedir a confirmação dos alunos, é uma estratégia para mostrar que a R recebida ainda não é esperada por ele, portanto, esse retorno à mesma P funciona também como oportunidade para que o grupo possa se autorreparar até chegar à R esperada pelo docente. 65 Ângela dá outra R evasiva demostrando incerteza sobre o que afirmara até então. A hesitação é visível pela presença, em excesso, de alongamento de vogais, característico de quem não tem uma segurança do que está sendo dito; outra marca que comprova essa dúvida é a expressão “sei lá, hein?” (linha 566). Na sequência, o professor sobrepõe sua fala à fala da aluna com a expressão interrogativa “hã” (linha 568), que mostra que ele está atento ao que está sendo dito, ao mesmo tempo em que pede prosseguimento da informação. No turno seguinte, o professor inicia prefaciando a questão que será levantada, prossegue com um discurso relatado, seguido de mais uma P alternativa (linhas 570 a 576). Novamente, Ângela toma a palavra optando por uma das alternativas dadas pelo professor (linha 577). Cláudia continua o próximo turno mostrando uma mudança de postura de acordo com suas colocações iniciais; aqui, ela admite que não é preciso mudar totalmente, mas tomar algumas medidas para melhorar (linhas 578 a 582). Na sequência, Ângela também assume esse novo posicionamento, de que o mundo totalmente sustentável não existe (583 a 585), ideia confirmada por Camila nos turnos seguintes. Na continuação, o professor encerra a discussão, aceitando a colocação das alunas e chama o próximo grupo. Aqui, observamos que o professor, através de Ps e Rs conduziu os alunos a um percurso de reafirmação de uma ideia daquilo que eles pensavam sobre o tópico discursivo, e em seguida, confrontou essa colocação com o posicionamento do texto do seminário, provocando um conflito de ideias que gerou dúvida na postura inicial diante da questão outrora defendida. Apesar do enquadramento se configurar como uma avaliação, o professor em nenhum momento julgou, diretamente, incorreto o que foi exposto pelos alunos, pelo contrário, ele deu pistas e direcionou os estudantes, através de Ps e Rs, para que eles próprios se alinhassem a um entendimento comum ao seu e ao do texto lido. 3.1.2 - Agrocombustíveis Esta subseção se refere à interação entre Pedro e o grupo II formado pelos alunos Clara, Fernanda, Paula, Rafael e Renata que apresentaram o seminário sobre agrocombustíveis. Assim como aconteceu com o primeiro grupo, o professor, após a apresentação do trabalho, interagiu com os alunos através de Ps e Rs a fim de avaliar e buscar um posicionamento crítico dos alunos sobre o tema. O enquadre interacional 66 inicial ainda se configura como uma avaliação, principalmente pela disposição espacial e corporal ocupada pelos participantes, o professor ainda assume o footing de arguidor, sentado fazendo perguntas, e o grupo, o footing de arguido, de pé diante da turma, respondendo às questões. Ao convidar o segundo grupo para iniciar a apresentação do trabalho, o professor demonstra, mais uma vez, desconhecer o tema a ser apresentado. Através de uma P do tipo qu- (linhas 594 e 595), Pedro indaga sobre o assunto que será apresentado. Na sequência, ele mesmo inicia a R que é concluída por Rafael e Clara nos turnos seguintes. Excerto 7: 594 595 596 597 598 Pedro Rafael Clara Pedro [Pode vir] o outro grupo. (1.8) >Sobre o que mesmo o outro grupo mesmo? < Hoje é:: hoje é: [º(Agrocombustíveis)º] [Agro]combustíveis Agrocombustíveis. Na continuidade, o grupo se dedica à montagem do material para a apresentação do trabalho, o restante da turma interage entre si. Enquanto isso, a aluna Cláudia conversa isoladamente com o professor que se encontra sentado no canto direito da sala. No início do seminário, há muita brincadeira entre os alunos e o professor, algumas delas expondo a face dos membros do grupo que se sentem ameaçados pelos risos e cochichos dos colegas13. Durante a apresentação do seminário, os alunos utilizaram como recurso slides projetados em datashow e amostras de produtos aos quais fizeram menção em suas explanações. Houve pequenos momentos de interação verbal entre o professor e o grupo, na maioria das vezes com um pedido de esclarecimento ou de reparo sobre alguma informação, como é o caso a seguir. Excerto 8: 829 830 831 832 833 13 Clara Pedro Clara No Brasil ( ) é beterraba, mas eu vou falar especificamente da cana, que é o que mais se usa aqui= =É o açúcar, né? Oi? Ver em anexos (linhas 645 a 690). 67 834 835 Pedro Clara É o açúcar, né? É. No excerto acima, o professor toma o turno através de uma fala engatada à fala de Clara fazendo um reparo da informação anterior dada pela aluna (linha 832), seguido de uma tag question que serve para atenuar a exposição da face da aluna, ou seja, serviu como um recurso de polidez, uma vez que Pedro oportuniza à aluna confirmar o reparo, tornando-a responsável pela correção. Clara não compreende o turno anterior de Pedro e solicita a ele que repita sua colocação (linha 833), que atende imediatamente a solicitação (linha 834), que é confirmada na sequência pela aluna (linha 835). Após a exposição do grupo, o professor iniciou a interação através de Ps e Rs com o intuito de avaliar e aprofundar a discussão sobre o tema tratado. Excerto 9: 1039 1040 1041 1042 1043 1044 1045 1046 1047 1048 1049 1050 1051 1052 1053 1054 1055 1056 1057 1058 1059 1060 1061 1062 1063 1064 1065 1066 1067 1068 1069 1070 1071 1072 1073 1074 1075 Pedro Clara Pedro Clara Pedro Clara Pedro Clara Pedro Rafael Clara =Então eu quero que vocês me digam o seguinte, Sim o texto tem um viés aí, de apontar algumas técnicas: (0.2) né? Medidas alternativas e ºtudo maisº= =Ah tá. é possível (0.4) com essas técnicas (1.7) completar (1.8) as falhas, ou o: que tá incompleto (1.5) do abu- do do trabalho é::(1.8) do trabalho não, do desenvolvimento susten↑tável? Assim, [assim, eu tô tentando entender] [Com essas técnicas aí (.) é possível] corrigir (0.2) os problemas do desenvolvimento sustentável, [ajuda?] [Ô Pedro], você sabe qual que é o problema? (.) O problema do desenvolvimento sustentável não é (a produção de alimento), a gente sabe que não é isso, não é: é: é::, (desculpa) >tipo assim< se já tem (alimento suficiente) pra todo mundo, eles não vão conseguir fazer o negócio de: sustentar é: de bioenergia, problema do desenvolvimento sustentável é um monte de de: é os capitalistas visando (.) o lucro, então, tipo assim, não vai é: distribuir o: alimento tanto pra: pra: (0.3) nem vai distribuir o: o: combustível. Então, sinceramente, eu acho que o >problema< do: desenvolvimento sustentável não é questão de (2.4) de: >tipo assim< de energia tip-que não seja fóssil (.) é a- achar alguém (0.2) que vai: (1.3) investir nisso (0.4) porque eles vã- é claro que eles vão investir em petróleo: e:= =Mas eles estão investindo, não estão não? Por [isso (igual a cla-)] [Mas muito menos], (não dá nem) pra- olha o quanto que eles investem em postos de petróleo pra explorar pré-sal, e olha a quantidade eles investem pra (0.2) fazer a energia solar. 68 1076 1077 1078 1079 1080 1081 1082 1083 1084 1085 1086 1087 1088 1089 1090 1091 1092 1093 Rafael Paula Então, por isso, igual a Cláudia falou, vamos supor, precisa é: ter uma campanha de educação só que, >tipo assim< precisa é: a: o desenvolvimento sustentável a gente sabe que tá, por exemplo, com (água) suficiente, principalmente se a pessoa valoriza esse valor, só que, tipo assim.. a: é: é possível com esse: com esses ºmeiosº corrigir eesses erros, (pelo menos os excessos). É difícil, por que tem uma influência muito grande do capitalismo em cima do nosso mundo, ºÉ:º é igual o: Henrique ((aluna cita outro professor)) falou uma vez com a gente sobre a questão do:: preço, (o alto custo), tipo assim, aquelas placas (.) que são usadas porque são muito caras, então não é uma coisa assim tão acessível e também ninguém tá procurando investir nisto para tornar acessível, porque ninguém quer usu- ninguém quer- [ninguém acredita nisso] No piso conversacional anterior, temos Pedro prefaciando uma pergunta (linha 1039), onde ele seleciona todo o grupo como próximo falante; no turno seguinte, a aluna Clara mostra estar alinhada ao professor que continua sua colocação fazendo uma reformulação resumida do trabalho dos alunos acompanhada de uma tag question, mais uma afirmação (linhas 1041 a 1043), que segue engatada pela fala de Clara concordando com a conclusão de Pedro. A tag question foi utilizada aqui para deixar claro que os alunos são responsáveis pelo que foi dito, o professor apenas retomou a ideia apresentada pelo grupo. Na sequência, o professor inicia a P do tipo sim/não para que o grupo faça uma ligação com o primeiro tema O desenvolvimento sustentável (linhas 1045 a 1048). Durante a formulação da P, houve grande recorrência de tempo intraturno e alongamento de vogais que deixam claro que a P foi formulada naquele instante, o que reforça a ideia de que a aula está sendo construída no momento da interação, não é algo pronto, construído exteriormente ao contexto situacional. Na continuidade, Clara manifesta não ter entendido a P (linha 1049); Pedro, sobrepondo-se à fala da aluna, faz então uma reformulação da própria pergunta para, então, fazer outras duas Ps do tipo sim/não (linhas 1050 a 1052). Clara, no turno seguinte, toma a palavra sobrepondo-se também à fala do professor, inicia o seu turno utilizando uma P retórica. Trata-se de um revozeamento da pergunta inicial feita por Pedro, que é respondida por ela em seguida. Embora a P do tipo sim/não exija uma R mínima, a aluna constrói sua R de forma expandida (linhas 1053 a 1069), concluindo que o problema do desenvolvimento sustentável é a falta de investimento nele. A essa colocação, Pedro engata sua fala com a seguinte estrutura: 69 expressão adversativa, que torna a P ainda mais incisiva, seguida de uma afirmação mais P sim/não com dupla negação (linha 1070). Esse formato de questão é altamente condutivo a um tipo de R. Rafael inicia um novo turno, que é assaltado por Clara que responde à P de Pedro de forma satisfatória (linhas 1072 a 1075). Na sequência, Rafael retoma o direito de falar e constrói uma R ampla (linhas 1076 a 1085) para a questão colocada pelo professor. O aluno faz referência à fala de Cláudia, membro do grupo anterior, sobre a necessidade em se pensar em uma campanha de educação e coloca também a dificuldade de se concretizar o desenvolvimento sustentável devido à forte influência do capitalismo no mundo. Paula dá continuidade à interação citando uma colocação de outro professor sobre o alto custo das placas para captar energia solar (linhas 1086 a 1093). Com as colocações, os três alunos mostraram possuir um entendimento comum sobre o assunto. Assim como o grupo anterior, os alunos do segundo seminário acreditam que o desenvolvimento sustentável seja possível, desde que o governo invista em produtos acessíveis, capazes de gerar energia renovável, promova campanhas educativas para que a população passe a viver de forma sustentável e os capitalistas deixem de pensar só no lucro. Essa ideia difere do posicionamento do professor, pois para ele o desenvolvimento sustentável é uma criação do próprio capitalista para lucrar ainda mais sobre as pessoas que vão preservar para que eles tenham recursos naturais para continuar explorando. Nos exemplos a seguir, veremos que o professor tenta desconstruir essa crença dos alunos. Excerto 10: 1100 1101 1102 1103 1104 1105 1106 1107 1108 1109 1110 1111 1112 1113 1114 1115 1116 Pedro Clara Rafael Clara Rafael Clara Pedro [Então tá, se o governo] juntar com essas empresas, juntarem com aquelas Sete Irmãs que existem (até hoje e estão por aí). Se elas se juntarem e falarem assim, “agora nós vamos produzir (.) agrocombustível, vamos esquecer o pe↑tróleo, vamos produzir, por exemplo, bio↑gás e (não sei o que lá) e tal”. (0.7) o mundo fica sustentável [só deles proporem?] [Não] [Não] [Não] ((Alguns negam com a cabeça)) A gente falou da [questão lá da.. dos alimentos, ( )] [(Igual a gente falou teve uma hora é alimergia [e tal) [º(Não dá, fica mais caro)º] 70 1117 1118 1119 Clara [POR QUE (fica mais caro Pedro)?] Então tá Pedro deixa assim então. ºNos(h)sa Se(h)nho(h)raº Nos turnos anteriores a este fragmento, os alunos defendiam a possibilidade de acontecer o desenvolvimento sustentável se houvesse estímulo e investimento por parte do governo e dos capitalistas. Para desconstruir essa ideia, Pedro dá voz ao governo e às grandes empresas através de um discurso reportado, estratégia bastante persuasiva, acrescentando uma P do tipo sim/não (linhas 1100 a 1107) para que os alunos refletissem sobre suas Rs. Na continuação, os três alunos contestam negativamente com uma R mínima, enquanto outros apenas negam com a cabeça. Nos turnos seguintes, os alunos tentam justificar de forma evasiva suas Rs (1112 a 1115). Na continuidade, o professor reage às colocações dos alunos, e pela primeira vez faz uma colocação direta, dizendo que as propostas apresentadas ficam mais caras (linha 1116). Colocação que é questionada por Clara através de uma P do tipo qu-, mas a aluna não dá espaço para a R do professor e conclui tentando por fim à discussão. No final de seu turno a aluna utiliza a expressão “Nossa Senhora” (linha 1119), mostrando seu desalinhamento ao entendimento do professor e à situação discursiva. Na sequência conversacional a seguir, temos a retomada deste conflito de ideias, configurando um novo enquadramento situacional de debate e não mais de avaliação, pois alunos que não fazem parte do grupo participam da discussão. Excerto 11: 1121 1122 1123 1124 1125 1126 1127 1128 1129 1130 1131 1132 1133 1134 1135 1136 1137 1138 1139 1140 1141 Rafael Clara Pedro Clara Pedro Rafael Clara Rafael Clara Rafael Clara Rafael Aqui, tem outra questão, [tipo assim], se todos investirem em agrocombustíveis essas ques- dá pra resolver esses problemas aqui. É, o país ( ) é: (0.3) ele tem a propriedade dele, ele não vai fazer um (negócio) na propriedade dele, >tipo assim< ele não vai:= =E se o cara fizer um negó- um é:: produzir soja (0.5) né? Pra:: (.) gerar energia (1.3) e ainda aproveita o farelo da soja (0.2) para alimentar po:rcos, e tal, tá produzindo alimento também. Então resolveu o problema todo, não resolveu não? Não, º( )º [( )] [Não, (primeiro que tem a questão das água, as pessoas poluem os rios [com dejetos]= [É, tem também] =as pessoas jogam entulho= =Cachorro [e tudo] [Acaba] com a diversidade [(cultural)]= [E: é-] =com a diversidade [ambiental] 71 1142 1143 1144 1145 1146 1147 1148 1149 1150 1151 1152 1153 1154 1155 1156 1157 1158 1159 1160 1161 1162 1163 1164 1165 1166 1167 1168 1169 1170 1171 1172 1173 1174 1175 1176 1177 Clara [E é-] E ainda assim [vai acabar com tudo. Pedro Clara Pedro Clara Rafael Clara Pedro Ângela Pedro Ângela Pedro Aline Ângela Aline Pedro [(Mas resolveu, ué)] E ainda assim não vai é::, por exemplo, não vai:: é: não vai é:: vai: continuar atrapalhando os pequeno produtores= =Por quê? (0.4) Porque eles são os grandes pro(h)du(h)to(h)res. ((risos)) [(Porque se acabar com biodiversidade toda fica uma coisa uniforme [ )] [Ô Pedro, eu não tô entendendo o que você quer da vida ( )] ((risos)) Por que que não?= =↑Ô Pedro é possível, tem tudo pra ser possível (0.2) só que ninguém vai fazer isso, [nunca vai acontecer isso] [↑Uai, por que que não?] Porque↑ quem vai querer deixar a mordomia, o dinheirinho bonitinho para poder cuidar lá dos pobrezinhos (0.4) do- do mundo. Ninguém vai querer pensar no futuro só no presente. (.) Será que isso mesmo? [Ô professo:r,] [(Para de pensar assim], são os seus alunos agroecólogos é que falam isso, ºvocê tá sendo chatoº) [Pedro:] ↑Ué, eu tô sendo chato, [mas o mundo vai ser mais chato do que eu tô sendo com vocês]. ((muita conversa entre os alunos)) No excerto acima, Rafael, utilizando de um advérbio de lugar “Aqui”, se autosseleciona como próximo falante e retoma a discussão, dando uma R afirmativa, mas pouco detalhada à primeira P levantada pelo professor para o seu grupo (linhas 1121 a 1123). Na sequência, Clara tem seu turno interrompido (linhas 1124 a 1126) pela fala engatada de Pedro, que cria uma nova situação a partir de colocações anteriores dos alunos, e conclui com uma P do tipo sim/não estruturada com o seguinte formato: elemento conclusivo, mais afirmação, mais P com dupla negação (linhas1127 a 1131). Aqui, o intuito do professor parece ser, através de Ps condutivas, fazer com que os alunos reflitam sobre os seus próprios argumentos. Na continuidade, os alunos Clara e Rafael co-constroem uma R negativa à colocação de Pedro e tentam justificar esse posicionamento, o que acontece com sucessivas trocas de turnos com Rs mínimas e pontuais entre os dois (linhas 1132 a 72 1143). No turno seguinte, o professor inicia sua fala com uma expressão adversativa, marcando que as Rs recebidas não foram satisfatórias, por isso expande sua colocação anterior (linhas 1144 e 1145). Esse comentário é respondido negativamente por Clara que utiliza de excessivo alongamento de vogais e repetição de termos, o que demonstra dificuldade em formular a R satisfatória (linhas 1146 a 1148). Diante disso, Pedro lança mão de uma P qu- para que a aluna possa esclarecer melhor sua colocação (linha 1149). No entanto, a aluna oferece outra R evasiva (linha 1151 e 1152). Rafael, na sequência, tenta construir uma possível R (linhas 1153 e 1154), mas tem a voz de Clara sobreposta à sua (linhas 1155 e 1156). Clara, com uma P declarativa, questiona o que o professor está querendo com toda aquela discussão. Essa fala da aluna é uma tentativa de salvar a face dela e dos colegas que estavam sendo ameaçadas por estarem expostos diante da turma. Através de uma P do tipo qu-, Pedro questiona o não entendimento da aluna (linhas 1158). O turno seguinte é construído pela aluna Ângela, membro do grupo I, portanto não é uma participante legitimada para essa interação que ocorria entre o professor e o grupo II, no entanto, sua participação não foi censurada. Sua fala consiste em uma R positiva à primeira P de Pedro, (O desenvolvimento sustentável é possível?). Apesar da R ser positiva, a aluna conclui que o desenvolvimento sustentável nunca irá acontecer, pois ninguém vai investir nisso (linhas 1159 a 1161). Pedro reage com espanto à fala da aluna e pede através de uma P qu- que ela explique melhor sua colocação (1162 e 1163). Ângela insiste em afirmar que não é possível acontecer o desenvolvimento sustentável devido à falta de interesse dos mais ricos em ajudar os mais pobres (linhas 1164 a 1167). O professor novamente questiona, com uma P do tipo sim/não (linha 1169), a colocação da aluna. Na sequência, a aluna Aline, que não pertence a nenhum dos grupos que apresentaram trabalhos naquele dia, tenta tomar a palavra (linha 1170), mas Ângela sobrepõe sua voz e numa tentativa de por fim àquela situação desconfortável de conflito de ideias, primeiro afirma a autoridade que eles, enquanto estudantes de agroecologia, têm para falar sobre o assunto e depois expõe negativamente a face do professor (linhas 1171 a 1173). Aline tenta tomar o turno mais uma vez (linha 1174), porém Pedro toma a vez de falar para si para poder justificar sua atitude e assim salvar sua face (linhas 1175 e 1176). Nos turnos seguintes, outros alunos da turma, seguindo a mesma linha de pensamento dos colegas, participam da discussão com o professor, que continua com a 73 mesma estratégia interacional. Esse enquadre continua até que a aluna Clara acaba com a discussão com a seguinte colocação: Excerto 12: 1243 1244 1245 1246 1247 1248 1249 Clara Ângela Pedro [Ô Pedro, tá] cheio de gente chata no mundo que não vai fazer (nada disso) isso, pronto e a(h)ca(h)bou. [( )] ((risos e conversa)) Eu vou dar uma geral (0.2) volta pro lugar então que eu vou dar uma geral. A aluna, exaltada, ainda se encontrava juntamente com os demais membros do grupo de pé, diante da turma, desiste da discussão (linhas 1243 a 1245). Os colegas riem e conversam muito, o que faz o professor perceber que aquele contexto interacional precisava ser mudado. Por isso, autoriza os alunos a sentarem e anuncia que irá fazer uma reformulação de tudo que foi apresentado e retomar o controle interacional da turma, exercendo o papel de organizar os turnos de fala na sala de aula. As Ps e Rs encontradas nesta segunda subseção têm, em sua maioria, o papel não mais de avaliar os alunos, mas investigar o que eles pensam sobre o tópico conversacional e, acima de tudo, desconstruir a ideia defendida pelos alunos, de que o desenvolvimento sustentável é possível desde que o governo e os capitalistas invistam nisso. O enquadramento interacional aqui se configurou muito mais como um debate do que uma avaliação, pois os alunos também interagiram com Ps questionando as colocações do professor. Além disso, observamos também a pouca ocorrência de pausas entre os turnos indicando o alto grau de envolvimento não só dos membros do grupo, mas também de outros alunos da turma com o debate e o tópico da aula. 3.2 A Construção Conjunta do Conhecimento Esta seção se refere à interação entre o professor e toda a turma. Aqui, o enquadramento predominante é de uma aula expositiva, na qual os alunos encontram-se sentados a maior parte do tempo, ouvindo as explicações do professor, que detém por um período maior a posse da palavra em relação aos turnos anteriores. As Ps e Rs utilizadas aqui não têm o objetivo de avaliar ou ainda de buscar informações somente, 74 mas são usadas, principalmente, como ferramentas para se chegar a um entendimento comum. Após o retorno dos alunos para seus lugares, o professor faz uma rápida avaliação das apresentações dos seminários. Excerto 13: 1259 1300 1301 1302 1303 1304 1305 1306 1307 1308 Pedro 1309 1310 1311 1312 1313 1314 1315 Paula Luiza Pedro Luiza Pedro Luiza Pedro Que vocês (0.8) pensem direitinho só (.) o seguinte (0.3) é:::, com relação às apresentações, né? As leituras, gente (.) nos slides ficam realmente uma coisa (.) meio enjoada, né? O grupo anterior ficou meio agarrado nas leituras ali, e tal, isso fica [realmente:], [ºEu não liº] Hein? ºEu não liº meio complicado. Evitar (.) as leituras. >Mas às vezes você até sabe explicar, só que chega aí na frente< com você olhando para cara da gente e fica assim “vou fazer pergunta pra ferrar com [ºelesº]”. [( )] Sou sempre bonzinho. ((risos e conversa)) No primeiro turno deste fragmento (linhas 1259 a 1304), Pedro critica as leituras durante as apresentações dos seminários. Essa avaliação negativa expõe a face dos alunos. O professor utiliza por duas vezes a expressão “né”. Aqui, como em outros momentos da interação, não consideramos como uma tag question, pois não exigiu uma R, ou seja, uma SPP. É interessante observar que a expressão “né” aparece como uma hesitação em um momento desconfortável também para o professor que faz uma avaliação de um ponto negativo das apresentações dos alunos. Na sequência, Luiza interrompe a fala de Pedro para proteger sua face afirmando não ter lido (linha 1305). Devido ao baixo tom de voz da aluna, o professor pede esclarecimento do que foi dito (linha 1306) e a aluna repete o turno problemático (linha 1307). No entanto, o professor ignora sua colocação e continua com o tópico discursivo anterior (linha 1308). A aluna Paula faz uma justificativa da avaliação negativa que recebeu (linhas 1309 a 1312), revelando a imagem que tem das Ps feitas pelo professor, como se fosse algo para castigar os alunos. Pedro, em tom de brincadeira diz que é sempre bonzinho (linha 1314) e se esquiva da ameaça sofrida. Todos riem e conversam, acabando com o momento da avaliação. 75 Na continuidade, o professor retoma os temas dos trabalhos apresentados e inicia uma reformulação das principais questões discutidas até então. Excerto 14: 1400 1401 1402 1403 1404 1405 1406 1407 1408 1409 1410 1411 1412 1413 1414 1415 1416 1417 1418 1419 1420 1421 1422 1423 1424 1425 1426 1427 1428 1429 1430 1431 Pedro Ronaldo Renata Pedro Rafael Pedro Pedro Camila Pedro Ronaldo Pedro Aline Pedro Aline Ronaldo Pedro Aline [AÍ,] (0.2) os textos principalmente aquele ºprimeiroº vai dizer que a- o desenvolvimento sustentável e a economia verde são >saída (prática)< de quem? (2.6) Pro problema ambiental? (0.3) A quem interessa isso? (2.8) Ecologia. Agroecologia= =[Agroecologia?] [Pros ambientalistas]= =Para os ambientalistas? (3.1) REAGE AÍ, GENTE, O PESSOAL DO GRUPO UM, PARA DE DIGITAR, CARAMBA, ESSE TROÇO ESSA MENSAGEM, E FALA AÍ. ((Uma aluna do grupo I estava digitando mensagem no celular)). Quem que (.) propôs o desenvolvimento sustentável? (4.5) º(h)Ai(h)ai(h)º Quem? (1.3) Revolução verde. A revolução verde, ((riso)) é ela? (1.3) Quem que foi pô? Quem que foi? ºNão seiº Foi o FMI junto lá com (aquele outro banco)? Foi o Banco Mundial? ºBanco [Mundial:º] [Rio+20] É? Quem que quem que elaborou o: o:: relatório Brundtland lá? (0.4) Quem é que elaborou aquilo? (ºForam ( ) e essas empresas aíº) O excerto acima se inicia com Pedro utilizando de uma P do tipo qu- para retomar questões tratadas nos textos anteriores. Após dois segundos e seis décimos sem ninguém se autosselecionar como falante, Pedro expande seu questionamento com uma P sim/não; após três décimos de segundo, amplia ainda mais a discussão com outra P do tipo qu- (linhas 1400 a 1404). Somente depois de dois segundos e oito décimos, Ronaldo toma a palavra e dá uma R pontual (linha 1407), em seguida, Renata continua com uma R mínima. O professor engata sua fala à fala da aluna, revozeando sua R em forma de P, mostrando que não recebeu a R requerida (linha 1408). Rafael, sobrepondo sua voz à voz do professor, traz outra R pontual (linha 1409), que também é revozeada 76 por Pedro em forma de P sim/não (linha 1410). Esse revozeamento da R despreferida, nos dois casos acima, funciona como um recurso para dar ao outro a chance de reparar o equívoco. Os alunos, no entanto, não se manifestam e passados três segundos e um décimo, o professor, com o tom de voz elevado, chama a atenção da turma para que respondam às Ps. Solicita que uma das alunas do grupo um pare de digitar mensagens no celular e participe da aula. Em seguida, reformula a questão (linhas 1412 a 1416). Após quatro segundos e meio de silêncio, Pedro insiste com outra P do tipo sim/não. Decorrido mais um segundo e três décimos, Ronaldo dá outra R pontual (linha 1421), que é revozeada pelo professor, seguida de um riso. Essa atitude expõe a face do aluno que novamente não deu a R satisfatória. Pedro continua o turno e lança mão de uma P do tipo sim/não para que Ronaldo reflita e reformule sua R, o que não acontece. Depois de um segundo e três décimos, o docente expande seu questionamento com outras duas Ps do tipo qu- (linhas 1422 e 14 23). A aluna Aline manifesta não saber a resposta (linha 1424), o que leva Pedro no turno seguinte a reformular sua questão. Agora, ele faz duas Ps seguidas do tipo sim/não com a opção dos nomes dos possíveis interessados no desenvolvimento sustentável, os alunos têm apenas que confirmar ou não o conteúdo da P (linhas 1425 e 1426). Na continuidade, Aline opta por repetir um dos nomes dados pelo professor (linha 1427), sua fala é sobreposta pela fala de Ronaldo que mostra ainda estar desalinhado com a situação discursiva, quando dá uma R que não era a esperada para aquela P (linha 1428). Pedro inicia o próximo turno com um pedido de confirmação através de uma P sim/não, mas prefere seguir o turno e reformular a questão. De modo mais pontual, com uma P qu-, ele estreita o foco da indagação. Após quatro segundos de silêncio, insiste com a mesma P qu- (Linha 1429 e 1430), que é respondida de forma satisfatória pela aluna Aline (linha 1431). Após receber a R requerida, o professor segue com o mesmo tópico conversacional para esclarecer porque as grandes empresas são as maiores interessadas no desenvolvimento sustentável. Assim como aconteceu nos turnos acima, as Ps e Rs utilizadas aqui funcionam como estratégia para que os alunos participem da construção do conhecimento. A sequência conversacional a seguir é a continuação do turno analisado acima. Percebemos que após receber a R esperada de que as grandes empresas são as maiores interessadas no desenvolvimento sustentável, o professor passa a desenvolver mais suas colocações, com informações mais diretas, por isso seus turnos de fala são muito 77 grandes. As sequências dos pares de Ps e Rs ainda são frequentes, com Rs bastante pontuais, pois as Ps, em sua maioria, são bem direcionadas. Excerto 15: 1432 1433 1434 1435 1436 1437 1438 1439 1440 1441 1442 1443 1444 1445 1446 1447 1448 1449 1450 1451 1452 1453 1454 1455 1456 1457 1458 1459 1460 1461 1462 1463 1465 1466 1467 1468 1469 1470 1471 1472 1473 1474 1475 1476 1477 1478 1479 1480 1481 1482 1483 1484 1485 1486 Pedro Aline Pedro Aline Pedro Aline Pedro Aline Pedro Paula Aline Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Ronaldo Pedro Rafael Pedro Rafael ESSAS EMPRESAS, então isso é uma coisa que tem que ficar bem claro vou até deixar uma cola no quad- no quadro- no quadro aqui (0.3) <Capita::l> (1.4) Tá certo? A sociedade nossa, a partir de agora, tá simplificada (1.5) simp- e- esse daqui são os (0.6) operários, que trabalham onde? ((O professor escreve no quadro as palavras Capitalistas e operários)) <Nas fá[bricas]> >[Nas fábricas] de quem?< (1.4) ºDos capitalistasº= =>Dos capitalistas< E tem também (.) um outro (1.9) e-esses operários, e tem aqui também os: <camponeses> (0.5) que vend- uma par- uma parte da da produção é deles e a outra parte eles vendem pra quem? ((Professor escreve no quadro a palavra camponeses)) ºCapitalistaº= =Pro capi:talista, que é dono de quê? ºDos supermercadosº= =Dos supermercados, das transnacionais que vãoentão esse camponês vai pro- produzir fumo vai vender lá para a Souza Cruz, que uma empresinha de quintal aí, não é verdade? A Souza Cruz, ou não? (1.2) Uma gigantesca empresa na produção de cigarros no mundo, e vai (0.4) produzir cigarros, então, essas (.) essas classes estão relacionadas, quem propôs o desenvolvimento sustentável, esses, esses ou ESSES? ((professor aponta com mais ênfase para a palavra capitalistas)) >ºAquelesº< Aqueles lá ((aluna aponta para os camponeses)) ↑É? >(Esse de cima não é o do capital?)< Esse daqui ºe não essesº ((Professor aponta no quadro a palavra capitalistas)). Por quê? [(como assim)?] [Porque eles] vão falar assim, “opa! estamos num mundo finito, (0.4) recursos finitos” (0.2) aí:: vão deixar de ser capitalistas?(.) NÃ:O:: (0.4) Ele vai propor o seguinte, <“no lugar::”>, Você que escreveu isso aqui? ((conversa paralela)) Psiu, Ronaldo “no lugar (0.5) da crise, do problema ambiental que nós estamos vivendo tem uma saída”, qual que é essa saída? (0.2) DesenvolviMENTO? (0.4) sustentável. “Vamos manter o capitalismo, só que vamos ser o quê? (1.8) <Susten[táveis”>] >[(ºIsso meio] que impede o progresso, né?º)< Fala mais alto, como é que é? Isso ai que impede o progresso dos (0.3) 78 1487 1488 1489 1490 1491 1492 1493 1494 1495 Pedro Rafael Pedro Rafael Caio camponeses, eles não podem se desenvolver porque (.) tem que preservar, tem que preservar, (.) então, só os que estão lá º(no lucro) que vão (ganhar)º E mais do que isso. Eles vão preservar mesmo? Quem? Os capitalistas= =>Claro que não< Não (.) ºóbvioº Nessa sequência interacional, temos Pedro que inicia sua fala com um revozeamento da R dada por Aline no turno anterior. A ênfase dada pelo professor mostra que se trata de uma R satisfatória para o professor; em seguida, ele reforça a importância de ter clara essa questão e utiliza uma tag question para buscar concordância dos alunos sobre o que está sendo dito. Na continuidade, o professor anota no quadro as palavras capitalistas e operários, e inicia uma explicação para confirmar sua posição de que os capitalistas são os grandes interessados no desenvolvimento sustentável. Com a mesma metodologia adotada até aqui, ele utiliza de uma P do tipo qu- para que os alunos participem da construção do discurso, tornando-se coresponsáveis pelo que está sendo concluído (linhas 1432 a 1439). Novamente Aline responde de forma pontual e satisfatória (1440). Pedro faz outra P qu- para aprofundar as informações (linha 1441). Passado um segundo e quatro décimos, Aline responde à questão (linha 1443). Sua R é revozeada mais uma vez por Pedro, confirmando tratar-se da R esperada. Na sequência, o professor escreve no quadro a palavra camponeses e faz outra P do tipo qu- (1444 a 1449), que é respondida imediatamente por Aline (1450). Sua R é revozeada por Pedro que agrega outra P qu-, levantando ainda mais elementos para a reflexão dos alunos (1451). Com essas Ps, o professor faz com que os alunos percebam que tanto os operários quanto os camponeses têm uma relação de dependência com o capitalista. Na sequência (linha 1452), Aline se autosseleciona e responde ao professor que repete sua R acrescentando mais elementos, cita o exemplo prático da Souza Cruz para reforçar a relação de dependência do camponês com o capitalista. Termina seu turno com uma reformulação da pergunta feita ao grupo I (“Quem propôs o desenvolvimento sustentável?”). Nesse momento, o professor aponta no quadro as palavras operário, camponês e capitalista, dando maior ênfase nesta última, sugerindo ser a R esperada (linhas 1453 a 1462). Paula, com tom baixo de voz, responde de forma rápida com o pronome demonstrativo (“aqueles”), mas não utiliza nenhum marcador que identifique a 79 quem ela se refere (1463). Aline responde apontando para a palavra camponeses (linha 1464); na sequência, Pedro, com um tom alto de voz, faz uma P sim/não para que a aluna confirme sua R (linha 1465). Rafael, no turno seguinte, faz uma P negativa pedindo esclarecimento do professor (linha 1566), que na continuidade afirma apontando no quadro que é o capitalista e não o camponês quem propôs o desenvolvimento sustentável (linhas 1467 e 1468). Novamente Rafael pede esclarecimento para o professor (linha 1469). Pedro dá a explicação solicitada, para isso, recorre ao uso do discurso reportado, como já dissemos, trata-se de um recurso muito persuasivo, pois dá voz a outro, nesse caso ao capitalista. Durante este turno, o professor chama a atenção do aluno Ronaldo que estava conversando com outro colega. Na sequência, o professor utiliza de P retóricas durante sua explicação e conclui fazendo uma P do tipo qu-, que não é respondida, por isso, após um segundo e oito décimos, Pedro mesmo dá a R (linhas 1476 a 1481). No turno seguinte, Rafael, com tom rápido e baixo de voz, faz uma afirmação seguida de uma tag question (linha 1482 2 1483), mostra estar alinhado ao entendimento do professor, que pede ao aluno que fale mais alto (1384). O aluno repete o turno problemático, substituindo a tag question por mais esclarecimento da afirmação (linhas 1485 a 1489). Pedro toma a palavra e faz uma P do tipo sim/não direcionada a Rafael para aprofundar ainda mais a reflexão. No entanto, o aluno com uma P inserida do tipo qu- pede que o professor esclareça a quem ele se refere (linha 1491). O professor faz o reparo do item não compreendido (linha 1492) e Rafael, engatando sua fala à fala do professor, responde de forma enfática que não, que o capitalista não irá preservar (1493). Caio, na sequência, responde mostrando concordância com o colega (linha 1494). Nessa interação, podemos observar que o professor mais uma vez recorreu ao uso de Ps e Rs como metodologia de ensino para provocar a participação dos alunos. Seu intuito não é ser mero transmissor de informações para que sejam processadas, mas ser um condutor, para que os alunos possam participar ativamente no processo de construção do conhecimento. Observando um maior alinhamento dos alunos ao seu posicionamento, Pedro segue a discussão com o mesmo tópico conversacional. Seu objetivo é que os alunos percebam a lógica do capitalismo, que é transformar tudo em um grande negócio, em mercadoria, inclusive o desenvolvimento sustentável. 80 Excerto 16: 1574 1575 1576 1577 1578 1579 1580 1581 1582 1583 1584 1585 1586 1587 1588 1589 1590 1591 1592 1593 1594 1595 1596 1597 1598 1599 1600 1601 1602 1603 1604 1605 1606 1607 1608 1609 1610 1611 1612 1613 1614 1615 1616 1617 1618 Pedro Rafael Caio Pedro Caio Pedro Caio Pedro Cláudia Pedro Rafael Pedro [É, então,] então, e a solução aqui, então, tá vindo através do mercado (0.4) e o mercado no final das contas tá visando o quê? (.) O lucro. <Se (.) por aca:so qualquer (0.2) as pessoas (.) ou a natureza (.) estiver- estiverem no caminho do lucro (0.5) que que vai acontece:r?> (1.4) O capitalismo vai escolher as pessoas, a natureza, ou o LUCRO? [O lucro] [lucro]= =Que que vocês acham? Vai passar por cima [das pessoas] [Então não dá] para ser ingênuo não gente, (0.6) capitalista é do capeta mesmo, é um capetalismo mesmo (0.4) não é ingenuidade, vai fazer GUERRA gente, guerra é o maior investimento do capitalista que existe, morre gente, e você vai falar assim, “ai- >(↑ah, achei que o capitalismo fosse outra coisa)”< Infelizmente, (0.4) por mais boa vontade que vocês tenham (.) eu também acreditava (0.8) nisso (0.5) achava que era possível, CERTO? E (.) a- a péssima notícia que eu tenho que dar para vocês (0.2) é que (.) <a educaçã:o, a conscientização dessas pessoas (.) é (.) im(.)pos(.)sível>. [Não é possível )] [(A conscientização é impossível] como assim?) <↑A:::h vamos conscientiza::r o desenvolvimento é importante> (0,2) Não tão nem a↑í pra conscientizar, (.) [imagina só, ↑eu] [º( educação individualista )º] Não tem:, não tem jeito [pra isso não.] [>(Mas pelo menos pode] funcionar como uma coisa local [porque)<] [(Aí você] imagina só), você vai esp- esperar que esse capital fala assim, (.) <“↑ah:: vamos educar o capital pra ele se- para ele conservar”> (.) né? (0.5) Como é que faz isso? (0.8) Hum? Capital que faz guerra, mata, gente, vai ser eeducaDINHO?, (1.2) vai ser camaradinha?“↑Ah::, tão humanista, tão camarada, tão gente boa esse capitalista”. Pode ser pra uns lá, (0.2) muito legal de pensar (0.5) mas a lógica dele, é o LU:CRO (0.7)e por causa disso ele vai passar [por cima de tudo]= Após concluírem que o capitalismo é o grande interessado na sustentabilidade, Pedro conduz uma discussão bastante incisiva para mostrar que a educação, a conscientização desse universo capitalista é impossível. Para isso, inicia seu turno conversacional com um revozeamento através de uma afirmação resumida da discussão anterior, que é expandida através de uma P qu-, que ele mesmo responde após uma 81 micropausa. Na sequência, faz outra P qu- ampla para que a turma reflita e participe da discussão. Após um segundo e quatro décimos sem ninguém tomar o turno, o professor reformula sua questão utilizando agora de uma P alternativa (linhas 1574 a 1581). Rafael responde imediatamente (linha 1582), sua fala é sobreposta pela fala de Caio que também dá a mesma R pontual (linha 1583), que é expandida por outra P qu- feita por Pedro, que engata seu turno imediatamente ao turno anterior (linha 1584). Mesmo recebendo R satisfatória, o professor insiste na questão para reforçar a ideia de que o capitalismo prefere o lucro às pessoas. Na continuidade, Caio responde de forma mais enfática, mostrando estar em concordância com a colocação de Pedro (linha 1585). Na sequência, Pedro inicia com uma expressão conclusiva, dando ideia de que sua fala é uma conclusão do que foi discutido anteriormente. Neste turno, ele é bastante direto em sua posição ao relacionar o capitalismo como sendo algo “do capeta” (linha 1587), e as guerras como um investimento. Através de um discurso reportado, dá voz aos próprios alunos, trazendo-os para a discussão, também cita seu exemplo, como mais uma estratégia argumentativa, que antes pensava de forma equivocada sobre o capitalismo, mas hoje não pensa mais assim, portanto os alunos também podem deixar de ser enganados. Nesse momento, ele utiliza uma tag question, buscando a adesão da turma para o que está sendo dito e conclui negando a possibilidade de educar e conscientizar os capitalistas (linhas 1586 a 1599), ideia defendida, anteriormente, pelos alunos. No entanto, Caio, revozeando a conclusão do professor em forma de P aberta, pede mais esclarecimento do que fora dito (linha 1600). Esse questionamento por parte do aluno mostra que ele busca um alinhamento com a posição do professor, ou seja, ao questionar a fala de Pedro, ele mostra que não aceita passivamente as ideias daquele tópico discursivo, mas participa da construção de um entendimento comum. Pedro, na sequência, com tom irônico, utilizando de um discurso reportado, dá voz a alguém não especificado, e reafirma sua posição de que os capitalistas não ligam para a conscientização (linhas 1601 a 1603). Seu turno é interrompido pela colocação de Cláudia, que tenta argumentar citando a possibilidade de acontecer a educação individualista (linha 1604), que também é negada por Pedro em seguida (linha 1605). Rafael, alinhado aos dois colegas, contesta a colocação do professor (linhas 1606 e 1607), que retoma a palavra sobrepondo sua voz à voz de Rafael e se dirigindo diretamente a ele, usa de outro discurso reportado, agora dando voz ao capital, seguido de uma P tipo sim-não. Depois de oito décimos de segundo, faz outra P sim/não, que é 82 expandida após um segundo e dois décimos. Essa sequência de Ps tem apenas uma função retórica, pois o professor não espera uma R, quer apenas fazer com que os alunos reflitam. Na continuação do turno, Pedro dá voz a alguém não especificado, com tom irônico faz referência ao capitalista e conclui, reafirmando a lógica do lucro que prega o capital (linhas 1608 a 1618). Continuando a sequência conversacional anterior, Pedro utiliza de uma interessante estratégia pedagógica e interacional, que é levar o aluno a se colocar no lugar do outro, alinhar-se ao outro, assumindo inclusive seu discurso. Excerto 17: 1620 1621 1622 1623 1624 1625 1626 1627 1628 1629 1630 1631 1632 1633 1634 1635 1636 1637 1638 1639 1640 1641 1642 1643 1644 Pedro Caio Renata Pedro Renata ????? Pedro Rafael Renata Caio =só pra- é: pra completar aqui. A questão (1.7) do- do lucro, (.)uma boa parte dessas empresas estão aonde? Na bolsa de valores, (sendo investidas) em a↑ções, (0.2) se vocês, (.) qualquer um de vocês, (.) ganhar um dinheiro e resolver se tornar capitalistas (0.5) comprar ações (0.4) da Petrobrás, na bolsa de valores, (0.6) compraram ações da Petrobrás, vocês estão querendo o que MESMO? (.) Vocês são capitalistas agora. Tão querendo o quê? O [lucro] [Lucro]= =O que que a Petrobrás produz? ºPe[tróleoº] [ºPetróleoº]= =>Extrai petróleo, refina, então, petróleo<, que é uma? (0.4) Mercadoria. Vocês compraram aqui pensando em quê? ºLu[croº] [ºLucroº] [ºLucroº]= Para levar os alunos a se alinharem ao seu entendimento, o professor cria uma situação na qual os alunos assumem uma postura de capitalistas e passam a pensar como eles. Pedro supõe que todos são acionistas da Petrobrás. Para que os alunos entrem em sintonia com sua proposta, recorre ao uso de Ps do tipo qu-, fazendo com que os estudantes comecem a dar R do ponto de vista dos capitalista (linhas 1620 a 1631). No turno seguinte, Caio e Renata, com falas sobrepostas, respondem de forma satisfatória à questão do professor (linhas 1632 e 1633), mostrando estarem alinhados à sua estratégia pedagógica e interacional. Pedro expande seu questionamento com uma P do tipo qu(linha 1634), que é respondida por Renata e outros colegas com uma R pontual e 83 satisfatória (linhas 1635 e 1636). Engatando seu turno à fala do último aluno, Pedro revozea e completa a R recebida e faz outra P qu- que ele mesmo responde. Após quatro décimos de segundo, faz outra P qu- buscando envolver os alunos na discussão. Rafael, Renata e Caio respondem de forma sobrepostas à questão, indicando estarem atentos ao raciocínio do professor, que prossegue da seguinte forma: Excerto 18: 1645 1646 1647 1648 1649 1650 1651 1652 1653 1654 1655 1656 1657 1658 1659 1660 1661 1662 1663 1664 1665 1666 1667 1668 1669 1670 1671 1672 1673 1674 1675 1676 1677 1678 1679 1680 1681 1682 1683 1684 1685 1686 1687 1688 1689 1690 1691 Pedro Renata Pedro Rafael Renata Pedro Caio Pedro =LUCRO. (0.2) <De repente>, (1.5) aí a Dilma (.) faz parte, ela quem nomeia quem comanda a Petrobrás e tal. Aí a Dilma toma uma decisão política (0.4) e fala assim, “a partir de agora”, (.) né? ↑Vocês tão pensando assim “Nossa! tem o pré-sal aí gente, vamos ficar ricos, (imagina quanto que estas ações estão valendo)”, certo? (Tá todo mundo doido) no Brasil com o pré-sal, mas aí (0.8) chega uma decisão da Dilma que fala assim, <“vou criar uma empresa para explorar (0.5) o pré-sal que não é a Petrobrás”>, tá certo? (.) “Petrosal”, tá certo? Existe uma proposta dessa. Certo? (1.8) Existe isso, uma proposta de uma empresa dessa para explorar o pré-sal, (0.3) uma outra Petrobrás, né? Uma outra empresa. Vo:cês:: como capitalistas, >o que é que vão fazer? < E aí a Dilma vai falar assim oh, (.) “essa empresa do pré-sal, a Petrosal vai destinar, tudo que arrecadar vai ser dividida pelos esta:dos (.) pra combater a desigualdade social a pobreza e blablablá e vai pro- 10% do PIB pra a educação” (0.2) todos vocês que são estudantes e que estão aqui (.) acham que seria uma boa ideia (0.5) mas vocês não são mais estudantes, vocês são o quê? Acio[nistas] [Acionistas da Petrobrás]= [Ô Renata, você quer me vender suas ações?] [( )] =e aí vocês vão pensar assim, (.) “aquele lucro que eu ia ter com as a↑ções (.) não vou ter mais”. O que que vocês vão falar? (1.1) <“Maldito governo que fez isso.”> (1.4) Imagina então o que que acontece com essas empresas? [será]= [Vai] todo mundo vender as ações. =Se- será que dentro dessa lógica empresarial aí, (1.2) o cara que- é dono de ações (0.4) de empresa de petróleo (0.5) ele não quer nem saber o que cara lá poço tá fazendo, (.) polui:ndo, ele não quer saber. (0.2) Ele quer saber do lucro dele. (0.2) No final do ano ele vai chegar lá na bolsa e vai falar assim, “qual foi minha valorização das ações que eu tenho?” (1.4) NÃO VALORIZOU? Ele vai: comentar junto lá com o conselho da- da- da empresa (0.7) mandar aqueles administradores embora, “fulano de tal (vai embora)”, “mas por quê?” 84 1692 1693 1694 Caio Por que não fez o quê? (0.7) ºLucroº No excerto acima, Pedro começa com um revozeamento da R recebida anteriormente, seguido de um advérbio de tempo, mostrando que haverá mudança na situação conversacional. O professor, através de um discurso reportado, dá voz à presidente Dilma e aos alunos, que assumem o papel de capitalistas, fazendo referência ao Pré-sal. Há recorrência de Tag question, para buscar a concordância dos alunos e assim prender-lhes a atenção. A seguinte problemática é estabelecida: a presidente cria uma nova empresa para explorar o Pré-sal e os alunos, que são acionistas da Petrobrás, estão indignados. Para reforçar a participação dos estudantes o professor usa uma P qupara que eles confirmem que são acionistas da Petrobrás (linhas 1645 a 1668). Confirmação dada por Renata (linha 1669), revozeada por Pedro (linha 1670). Rafael faz uma brincadeira com Renata (linhas 1671 e 1672), mas não fogem do tópico da aula. Na continuidade, Pedro, com um discurso reportado, dá voz aos alunos e lança uma P qu-, que não é respondida por ninguém. Depois de um segundo e um décimo com outro discurso reportado, responde como se fosse os alunos e faz outra P qu-, agora se referindo às empresas capitalistas (linhas 1673 a 1677). Seu turno é interrompido pela participação de Caio (linha 1678). Pedro prossegue, iniciando uma P, que é abortada e transformada em afirmação para dizer que o dono da empresa não quer saber se o poço de petróleo polui ou não, está interessado somente no lucro. Para reforçar essa ideia, usa novamente do discurso reportado, dando voz agora ao acionista da Bolsa de Valores. E termina este turno com uma P qu- (linhas 1679 a 1693), que é respondida por Caio após sete décimos de segundo (linha 1694). A situação apresentada aqui foi mais um recurso utilizado pelo professor para que os alunos pudessem refletir e analisar as questões a partir de outro ponto de vista. As Ps e Rs tiveram, em sua maioria, a função de fazer com que os alunos participassem desse jogo de fazer o papel de outro. Nos turnos seguintes, esse tópico conversacional é concluído da seguinte forma: Excerto 19: 1696 1697 1698 1699 1700 Pedro Simples, (1.5) esta que é a lógica do capital (0.6) produzir lucro (0.4) valorizar mais, gerar mais capital (0.2) isso que é a lógica. Então (.) se o capitalista não fizer isso (.) o que é que acontece com ele? 85 1701 1702 1703 1704 1705 1706 1707 1708 Rafael Renata Caio (1.6) O Sr. Zé ali da esquina, do armazém da esquina (0.5) se o capital dele não virar mais capital daqui um tempo (.) o que é que vai acontecer com ele? [(ºVai fechaº)] [fali] [ºQuebraº]= Neste excerto, Pedro conclui que a lógica do capital é simples, produzir lucro. Para confirmar esse entendimento, elabora uma P do tipo qu-, questionando o que acontece com o capitalista se ele não produzir mais capital. Essa P não é respondida, por isso, após um segundo e seis décimos, o professor reformula a questão, transformando-a em uma situação prática (linhas1696 a 1705). A essa nova questão Rafael, Renata e Caio dão Rs pontuais e semelhantes (linhas 1706, 1707 e 1708). As respostas dos alunos mostram que há alinhamento com as ideias apresentadas pelo professor, confirmando que Pedro atingiu seu objetivo, que é chegar a um entendimento comum sobre o tema. Na sequência interacional, Pedro retoma o tópico discursivo sobre a relação entre capitalistas, operários e camponeses para concluir a discussão e encerrar a conversa sobre esse tópico, como ele mesmo coloca logo no início do turno: Excerto 20: 1720 1721 1722 1723 1724 1725 1726 1727 1728 1729 1730 1731 1732 1733 1734 1735 1736 Pedro Pedro =[Aí: falta a gente] trazer para cá (0.7) pra terminar nossa conversa. (1.6) Essas categorias aqui ((o professor se refere às palavras capitalistas, camponeses e operários))(1.3)esses que estão até agora excluídos dessa- (1.6) desse modelo aqui, só têm uma coisa a fazer (0.5) ele:s, (.) né? (0.4) Tomarem o poder de alguma maneira, assumirem as rédeas disso aí. (0.2) Aí vocês vão falar assim, <“↑a:h mas isso é sociali:smo”>, essas coisas assim. Não tem jeito do capital ser sustentável gente, isso que eu queria deixar claro para vocês= [((Conversa))] =vocês podem ser capitalistas à vontade (0.4) MA:S, se- se me convencerem de que o capitalismo consegue ser sustentável (.) estarão de parabéns= O marcador espacial na fala inicial do professor no fragmento acima marca uma mudança no foco da conversa, ele retoma a discussão anterior sobre as três categorias sociais: capitalistas, operários e camponeses, essas palavras estão escritas no quadro. De forma especial, discute sobre os camponeses, refere-se a eles como excluídos do modelo capitalista e, portanto, deveriam tomar o poder de alguma forma. Com um discurso 86 reportado, dá voz aos alunos, supondo que eles diriam que isso se trata do socialismo. Em seguida, afirma que “Não tem jeito do capital ser sustentável”. Essa colocação é a grande conclusão da aula, à qual ele espera que os alunos se alinhem (linhas 1720 a 1732). Nesse momento, há muito murmúrio e cochicho entre os alunos. Pedro continua o turno falando diretamente para os alunos que eles podem ser capitalistas, mas ele não acredita que o capitalismo possa ser sustentável (linha 1734 a 1736). Essa afirmação de Pedro gerou uma nova discussão com o aluno Caio, que mostrou não estar alinhado a esse entendimento. Excerto 21: 1737 1738 1739 1740 1741 1742 1743 1744 1745 1746 1747 1748 1749 1750 1751 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1561 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 1774 1775 1776 1777 1778 1779 Caio Rafael Pedro Caio Pedro caio Pedro Caio Professor Caio Professor Caio Professor Caio Professor Caio Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Caio Pedro Caio =NÃO, mas o: se o camponês (0.2) propor um desenvolvimento sustentável, (.) assim (.) é lógico que no início ele vai ser só local, mas se ele conseguir um regional e um mundial (.) aí sim, vai ser [(possível)]= [( )] =Aí eu pergunto, é capitalismo assim? (1.9) Hã? Isso é capitalismo? ºIsso vai depender, ↓uaiº= =Se o camponês no caso- o camponês no caso (1.2) o modo de vida do camponês im- supõe (0.5) que ele vai produzir primeiramente para quem? Pra família= =Pra ele, pra família dele (0.7) E: o excedente, o que é que ele faz? Ele vende= =[Ele vende], [ou troca]= =mas o objetivo do camponês= (0.4) É alimentar a [ºfamília deleº] =[É: (0.2) a ]subsistência dele e da família (.) e: de onde ele cultiva e trabalha (0.8) se ele destruir a- a- a rua a roça dele a- a área em que ele trabalha o que é que acontece com ele? Acabou, uai.= =Acabou,= (0.7) [ºmas aíº]=[Ele dei]xa de ser camponês. E vai acabar interferindo no bem estar pessoal dos capitalistas. Mas aí se esse camponês, então, ele vai pegar o excedente dele (0.2) e vai colocar à venda (0.5) mas a lógica dele (1.6) do camponês (.) é o LUCRO que ele está visando? Não, [ºele tá visan-º] [O lucro é um] <eleme:nto>= Então =em deco[rrência] [>O desenvolvi]mento sustentável< proposto pelo capitalismo (.) é que o camponês passe a pensar (.) no lucro e não na subsistência. 87 1780 1781 1782 1783 1784 1785 1786 1787 1788 1789 1790 1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 Pedro Caio Pedro Caio Pedro Rafael Pedro Mas, é- essa é a lógica. A partir do momento em que ele vai pensar no lucro ele vai pa- parar de ter a biodiversidade vai passar também pra monocultura [( )]= [Usar o] vene:no =É (0.3) aí desandou tudo. [Então], [>E outra] coisa um sistema [(grande de planta-)<] [E eles estão, e-] e o capitalista tá conseguindo fazer isso (0.9) por isso é que a <agroecologi:a> (0.5) tem uma tarefa gigantesca (.) de (0.2) convencer esse cara aqui, ((apontando, no quadro, para a palavra camponês)) e falar assim, “opa, (1.5) O caminho (0.2) não é esse (0.5) se você cair no caminho do capita:l” (0.4) né? “A- a sua própria sobrevivência, enquanto (0.5) pesso:a, cap- camponês está amea↑çada”. Caio inicia seu turno negando a colocação do professor e expõe sua visão sobre a possibilidade de acontecer o desenvolvimento sustentável a partir do camponês (linhas 1737 a 1741). O aluno Rafael tenta tomar o turno, mas é impedido pelo professor que engata sua fala à fala de Caio, direcionando lhe uma P do tipo sim/não (linha 1743). Através de uma sequência de Ps, Pedro conduz o aluno a uma reflexão para que ele mesmo chegue a um entendimento comum ao seu. Depois de um segundo e nove décimos, o aluno faz um pedido de reparo da pergunta (linha 1745). Devido ao tempo demorado para solicitar o reparo, podemos concluir que o aluno usou isso como uma estratégia para ganhar tempo e poder refletir sobre a questão e formular uma R. Pedro repete a P (linha 1746) e recebe uma R evasiva do aluno (linha 1747), que devido ao tom baixo de voz, mostra insegurança ao responder. Diante disso, o professor recorre a uma situação prática para conduzir o questionamento, ele usa de uma P qu- (linhas 1748 a 1750) para que Caio participe na construção do discurso e, aos poucos, vá se alinhando ao seu entendimento. O aluno entra nesse jogo discursivo e responde à questão de forma pontual e assertiva (linha 1751). Pedro revozea a R recebida e agrega outra P do tipo qu- para aprofundar a reflexão (linha 1752 e 1753). Caio dá uma R mínima (linha 1754), que é revozeada pelo professor, que engata sua fala à fala de Caio (1755), que sobrepõe sua voz à voz do professor para acrescentar mais informação ao seu último turno (linha 1756). Pedro novamente engata sua fala ao turno anterior (1757), iniciando outra questão, que é completada por Caio (1758) antes mesmo de ser terminada. Na sequência, Pedro sobrepõe sua fala à fala do aluno, confirmando a R recebida e acrescenta mais 88 informações. Em seguida, faz outra P do tipo qu- (linhas 1759 a 1762) direcionada a Caio que responde de forma enfática (linha 1764). Pedro engata um revozeamento da R recebida (1765). Rafael tenta tomar o turno, mas Pedro segue falando até concluir sua afirmação (linha 1766). Rafael faz sua colocação no turno seguinte, mas é ignorada por Pedro, que segue sua fala com outra P do tipo sim/não (linhas 1769 a 1772). Rafael insiste em participar da discussão e dá a R esperada (linha 1773), mas é impedido de expandir sua colocação, pois Pedro, sobrepondo sua voz, toma o turno de novo concluindo a R de Rafael. Caio, com uma expressão conclusiva, tenta iniciar um novo turno (linha 1775), mas o professor toma a palavra para concluir sua colocação anterior (linha 1776). O aluno Caio assume o turno seguinte (linhas 1777 a 1779), fazendo uma afirmação que vai ao encontro da ideia defendida pelo professor, que mostra estar alinhado à conclusão à qual Caio chegou (linha 1780). Com o feedback positivo dado pelo professor, Caio continua no turno seguinte com outra afirmação (linhas 1781 a 1783) que é completada por Pedro no turno posterior (linha 1784) e por Caio novamente, que co-constrói com o professor a conclusão dessa discussão. Na continuidade, Pedro tenta encerrar esse tópico conversacional (linha 1786), mas é impedido por Rafael que toma o turno, no entanto, o professor sobrepõe sua fala à fala de Rafael, pegando o turno de volta (linhas 1788 a 1797), impedindo que um novo subtópico fosse iniciado e quebrasse o ritmo da discussão que havia firmado com Caio. Nesse turno, Pedro conclui, chamando a atenção dos alunos para o que os capitalistas estão conseguindo fazer com os camponeses, que é convencê-los a pensar cada vez mais no lucro, por isso o professor encerra de forma estratégica, trazendo os alunos, enquanto estudantes de agroecologia, para a discussão, alertando-os sobre a responsabilidade que eles têm diante do cenário apresentado aqui. Com essa colocação, o professor mostra estar alinhado com as questões agroecológicas, pondo fim ao conflito que permeou como pano de fundo toda a discussão até aqui, pois o desenvolvimento sustentável, tão criticado pelo professor, é uma das teorias mais pregadas pelos agroecólogos. Nesta seção, na qual analisamos a situação enquadrada como aula expositiva, vimos que o professor foi detentor por mais tempo do poder de falar, seus turnos foram longos e todas as discussões convergiam para ele. Houve muita ocorrência de fala engatada e sobreposição de vozes, o que gerou dinamismo à interação, ao mesmo 89 tempo, em que impediu que outros tópicos surgissem e desviassem o progresso do fluxo de informações daquela situação conversacional. As sequências de Ps e Rs utilizadas aqui funcionaram, dentre outras coisas, para construir um encadeamento lógico de ideias que eram problematizadas para que o próprio aluno pudesse participar ativamente desse processo, construindo conjuntamente com o professor o conhecimento. 90 CONSIDERAÇÕES FINAIS: “Quem ensina, de repente, aprende!” Grande Sertão: Veredas, João Guimarães Rosa Ao longo desta pesquisa, tive como objetivo investigar o papel do par adjacente P e R, na fala-em-interação em sala de aula, para que o conhecimento fosse construído conjuntamente pelo professor e alunos. Para isso me ancorei nos embasamentos teóricos da ACE, que está voltada à discussão de aspectos da vida social através do uso da linguagem. Com a análise dos dados pudemos verificar os tipos de Ps e suas funções na interação em sala de aula. Vamos agora retomar algumas questões relevantes que nos possibilitaram a atender os objetivos de nosso estudo. 1 - Resumo das proposições e resultados dos dados Ao propormos esta pesquisa, tivemos como objetivo investigar o papel das perguntas e respostas na co-construção do conhecimento por professor e alunos na interação em sala de aula. Para isso, buscamos embasamento teórico-metodológico principalmente na Análise da Conversa Etnometodológica, que de acordo com Garcez (2008), dedica-se ao estudo da atividade humana mediante a linguagem e seu principal objetivo é descrever e explicar as ações empreendidas pelos atores sociais ao se engajarem num processo de interação social. Desta forma, para realizar a análise, buscamos nos ater à perspectiva do participante, sendo fieis às ações e reações decorrentes da fala-em-interação, evitando nos apoiar em conclusões pré-estabelecidas, exteriores ao momento interacional. Como corpus analítico, trabalhamos com duas aulas da disciplina de Geografia, de um curso Técnico em Agroecologia de uma escola pública federal do interior de Minas Gerais. O contexto situacional da aula foi apresentação de dois seminários, sendo o primeiro sobre Desenvolvimento Sustentável e o outro, sobre Agrocombustíveis, ambos apoiados em textos retirados da obra Dicionário de Educação no Campo, organizado por Caldart; Pereira; Alentejano; Frigotto (2012). Os textos têm um viés de crítica em relação à proposta de sustentabilidade que é veiculada hoje, pois acreditam que o grande patrocinador desse mundo sustentável é o próprio capitalista, cujo objetivo 91 é que as pessoas economizem recursos naturais para que ele tenha onde continuar explorando e lucrando, ideia defendida também pelo professor da disciplina analisada, mas que contraria os princípios da agroecologia, que busca um meio de produção sustentável, pregando uma forma de vida em harmonia com o meio ambiente, visão defendida aqui pelos alunos. Com isso, instaurou-se um conflito de ideias que e se tornou o grande pano de fundo da aula. Durante os seminários, os alunos se ativeram apenas em apresentar os conteúdos dos textos, não se posicionado criticamente sobre os assuntos. Após as explanações, o professor iniciou um sequência de Ps e Rs, primeiramente com o intuito de avaliar os alunos, mas essa avaliação logo se transformou em um debate de ideias que percorreu praticamente toda a aula. Com nosso estudo, pudemos observar como o uso das Ps e Rs é significativo para a construção do conhecimento, na interação entre os atores institucionais envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Uma análise minuciosa de nosso corpus, nos permitiu perceber as formas das Ps e Rs, bem como suas funções na situação conversacional. Queremos destacar aqui os principais elementos observados que nos ajudaram a responder nossas questões de pesquisa. Observamos que os pares adjacentes Ps e Rs ocorreram em todos os momentos da aula, sendo usados tanto pelos alunos como pelo professor, com formas e funções que variam de acordo com o objetivo interacional. Nos dados analisados, encontramos as seguintes ocorrências: Perguntas do tipo sim/não: esse tipo de P é considerada por alguns autores como pergunta fechada, pois tende a receber como R um sim/não ou algo equivalente. Em nossas análises pudemos confirmar esse caráter restritivo desse tipo de P, pois na maioria dos casos, as Rs foram mínimas, no entanto, houve ocorrências de Rs que foram expandidas para justificar alguma colocação, em outros casos as Rs foram evasivas, com implicatura, mostrando que o aluno autor da R não tinha um ponto de vista formado ou segurança para falar sobre o assunto. Observamos que esse tipo de P ocorreu em todos os momentos da aula e foi usado tanto pelo professor como pelos alunos. E dentre as funções relacionadas a este tipo de P, verificamos que ela serviu para buscar um posicionamento do participante, para confirmar informações recebidas, promover envolvimento dos participantes na discussão. Em alguns casos, a P sim/não veio precedida por uma afirmação ou um revozamento para verificar se havia 92 concordância sobre o que estava sendo dito. Esta estrutura organizacional de P é bastante condutiva, pois coloca o interlocutor como responsável ou parcialmente responsável pelo que está sendo falado. Perguntas do tipo qu-: São consideradas pela literatura sobre P e R como Ps abertas e têm em seu corpo um pronome interrogativo. Nesse tipo de interação, as Ps podem utilizar de marcadores discursivos que adiantam e/ou restringem as Rs que, normalmente, trazem a repetição desses marcadores, como o ocorrido nas linhas 539 a 541, quando o professor faz a seguinte questão “Então, eu quero saber (0.2) pelo texto (0.4) é possível, então (.) ter um desenvolvimento sustentável?”. Em nossa microanálise, percebemos a ocorrência deste tipo de P sendo usado pelos alunos, mas principalmente pelo professor, com a função de solicitar informações, para expandir uma colocação anterior, para reparar um item problemático, buscar um aprofundamento crítico do participante sobre o tema tratado, possibilitar uma reflexão maior sobre a discussão e retomar questões anteriores. As Rs a esse tipo de P ,em sua maioria, foram Rs mais elaboradas, salvo, em alguns casos em que as Rs foram pontuais. Rs evasivas também foram observadas, deixando claro o desalinhamento com a discussão corrente. Tag question: Esse tipo de questão foi muito recorrente, usado predominantemente pelo professor com o seguinte formato: revozeamento mais tag question, ou então, afirmação mais tag question. Quanto à funcionalidade, percebemos que ela serviu para confirmar informações dadas anteriormente, para envolver os alunos na discussão, para buscar acordo e procurar entendimento comum. Além disso, confere ao respondente o crédito pelo que foi afirmado. As Rs a esse tipo de P, em grande parte, não aconteceram, salvo algumas confirmação da afirmação feita pelo questionador. Perguntas alternativas: São assim nomeadas, pois oferecem opções de respostas. Em nosso corpus, verificamos o seu uso por parte do professor que a utilizou para verificar a posição dos alunos, para conduzir a um tipo de R desejada, nesse caso específico, através de marcas discursivas como elevação do tom de voz ao pronunciar a opção que seria a R esperada, ou ainda, utilizando gestos como apontar no quadro a opção correta. Na maioria dos casos, as R dadas foram as preteridas, mas outros tipos de Rs também ocorreram como optar por uma alternativa que não estava na proposta da P. 93 Perguntas negativas: São consideradas Ps altamente condutivas, pois induzem o respondente a dar um tipo de R desejada. Em nosso trabalho houve pouca recorrência, e foram usadas pelo professor para conduzir os alunos a determinadas conclusões. Foram encontradas ocorrências de Ps com dupla negação, esse tipo de questão tem um poder menor de condução em relação a outra. Ambos os casos foram usados para esclarecer informações ou conduzir a uma tomada de posição sobre o tópico discursivo. Perguntas retóricas: Encontramos esse tipo de P em nossos dados tanto na fala dos alunos como na do professor e foram utilizadas como recurso para manter o turno, para reorganizar as ideias, para estabelecer e manter contato e, ainda, como estratégia argumentativa para conduzir os alunos a determinadas conclusões. Quanto à R a este tipo de pergunta, ela não é esperada, pois se supõe que já seja conhecida pelo ouvinte. No entanto a ausência da R por parte do ouvinte não significa que não há interação, pelo contrário, “a pergunta retórica afeta tanto quem formula quanto o seu interlocutor, ainda que em níveis diferenciados de envolvimento” (ARANHA, 2008, p. 7). Como já dissemos, tanto os alunos como o professor fizeram uso das Ps; os primeiros, principalmente para pedir esclarecimento, uma maior explicação do tópico conversacional, sua participação, além de mostrarem engajamento, também deixam clara sua ação de buscar um entendimento comum com o professor. Este, por sua vez, faz uso das Ps e Rs estrategicamente para provocar a reflexão e assim, possibilitar que o conhecimento aconteça de forma espontânea. Para isso, as Ps foram usadas como ferramentas de ensino, através delas foi traçado o seguinte percurso metodológico: no primeiro momento, as Ps foram usadas para levantar as informações, o conhecimento que os alunos possuíam sobre o tema tratado; na sequência, instaurou-se o momento do conflito, no qual esse conhecimento era problematizado através de uma sequência de Ps e Rs para desestabilizar as colocações dos alunos, causando inconsistência em seus argumentos, levando-os à dúvida. Nesses dois momentos, o piso conversacional dos alunos era maior que o do professor. A partir daí, o docente, fazendo uso de Ps condutivas, direcionava a reflexão através de afirmações, revozeamentos e discursos reportados, para que os alunos se alinhassem a um entendimento comum ao seu. Nesse último momento, os turnos do professor eram maiores, e os alunos estavam mais envolvidos na discussão. Isso foi percebido pela ausência de intervalos longos de silêncio entre um turno e outro, pelo excesso de sobreposição de vozes, bem como as falas engatadas que deram maior dinamicidade à discussão. 94 Outro fator que demonstra a co-construção do conhecimento é o fato de o professor não trazer as questões já preparadas, ou seja, a aula foi construída no momento da interação e não algo pronto exterior ao contexto interacional, tendo como de ponto de partida para a discussão o que pensavam os alunos sobre o tópico discursivo. As Ps foram utilizadas como recurso para que os alunos aderissem à situação discursiva, por isso o professor, nos momentos em que os alunos demostravam dificuldade em responder, assumia uma postura colaborativa, através de reformulações das questões para que os discentes tivessem condições de participar da reflexão e assim, aprofundar suas ideias, transformando seu posicionamento inicial sobre o assunto. Cabe ressaltar que o fato do professor não estar fechado em um programa de aula pronto, não significa dizer que ele não estava preparado para falar sobre o tema. Por se tratar de um corpus pequeno, não podemos fazer generalizações, mas pelos dados observados, podemos dizer que as Ps e Rs foram fundamentais para que o conhecimento fosse produzido de forma participativa. E que podem ser um recurso didático eficiente em atividades como os seminários que ocorreram nas aulas selecionadas para este trabalho. Nossas análises evidenciaram que o par adjacente P e R foi uma ferramenta eficaz para envolver os estudantes na discussão e buscar o seu posicionamento de forma crítica e reflexiva, tendo como resultado a construção conjunta do conhecimento. Podemos dizer também que o fato de um dos participantes saber de antemão as Rs para as Ps feitas, não impossibilitou a construção conjunta do conhecimento, pois o conteúdo não foi transmitido de forma gratuita, mas foi construído na interação, na qual o professor oportunizou condições e informações necessárias para que os alunos tivessem condições de chegar ao conhecimento esperado. Por outro lado, o professor não teve a preocupação de selecionar outros alunos para a conversa, a interação verbal aconteceu somente com aqueles que se autosselecionaram como falantes. Ficou claro também que o modo de interação acontecido aqui se difere da sequência triádica IRA, pois a sala de aula analisada é um ambiente democrático, no qual os alunos podiam tomar a palavra sem ter sido selecionado para isso. A ênfase inicial na avaliação cedeu lugar à construção do conhecimento, que se deu pelo engajamento dos alunos ao tópico discursivo, deixando clara a estreita relação entre construção do conhecimento e participação. Acredito que uma das contribuições deste trabalho seja promover uma descrição, através do referencial teórico-metodológico da ACE e dos dados analisados, da 95 importância que a sequência P e R tem para a formação de sujeitos mais críticos e reflexivos. E ainda, do papel do professor como o mediador entre o aluno e o conhecimento, que deve acontecer de forma participativa, partindo do já conhecido, passando pelo possível, para se chegar a uma certeza. Antes de finalizar este texto dissertativo, pensamos ser relevante apontar a importância de que outros estudos sobre a sequência de Ps e Rs na fala-em-interação na sala de aula sejam realizados, para que outras questões sejam respondidas e ajudar a entender toda a complexidade desse universo interacional que envolve a sala de aula, como por exemplo, as Ps e Rs enquanto estratégia argumentativa; como os alunos demostram (des)alinhamento com o que está sendo discutido; até que ponto a qualidade da interação pode interferir na aprendizagem e outras questões que nosso estudo não contemplou por questões de espaço ou limitação do próprio corpus. Esperamos que este trabalho possa, de certa forma, ajudar a ampliar a compreensão sobre essa temática, assim como colaborar para novas pesquisas sobre a fala-em-interação na sala de aula. Por fim, desejo aos colegas que tomarem contato com esta pesquisa que possam, de alguma forma, se sentirem provocados à reflexão sobre suas práticas docentes e assim colaborar para uma mudança no seu fazer pedagógico, tomando consciência do nosso papel de organizadores da sala de aula, enquanto um espaço interacional democrático, e portanto inclusivo das vozes de todos os envolvidos. Que nossas ações nesse espaço não sejam ações de dominação, mas de inclusão para que o outro possa ter direito de romper o seu silêncio e participar da construção do conhecimento, que é a grande ferramenta de transformação social que temos em nossas mãos. 96 REFERÊNCIAS ABELEDO, M. de la O L. Uma compreensão Etnometodológica da aprendizagem de língua estrangeira na fala-em-interação de sala de aula. 2008. 217 f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre- RS, 2008. ALTIRERI, M. Agroecologia – a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 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CARTA DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PARTICIPANTES MENORES DE IDADE Caro(a) Senhor(a), Eu, Maurício Carlos da Silva, portador do RG: MG 10.924.939, residente à Rua Vila Del Penho, 53, Barra, Muriaé, 36880-000, Minas Gerais, cujo telefone de contato é 3288177185, venho desenvolvendo uma pesquisa intitulada “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”, para fins de obtenção do título de Mestre em Letras – Estudos Linguísticos pelo programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Viçosa. Acreditando que a aprendizagem se dá na prática social e é instanciada por meio da interação, e que a organização da Fala-em-Interação em sala de aula pode ser determinante na formação dos alunos, proponho, enquanto professor de Língua, estudar a Fala-emInteração na relação professor-aluno. Para isso, me embasarei nas perspectivas da Análise da Conversa como método de análise e suporte teórico. Para que o objetivo principal desse trabalho seja alcançado, gostaria de contar com a sua permissão para gravar e utilizar os dados gravados em áudio da interação de seu filho ou de sua filha em sala de aula, o que constituirá o meu corpus de pesquisa. Não haverá custos nessa participação, também não havendo nenhum tipo de gratificação decorrente dela. Garanto que, no decorrer da pesquisa, estarei à sua disposição para prestar quaisquer eventuais esclarecimentos sobre a metodologia utilizada. Também é considerada a sua liberdade para a retirada do consentimento a qualquer momento, caso queira que seu filho ou filha deixe de participar do estudo, sem que isso acarrete qualquer penalidade ou modificação na forma em que vocês são atendidos pelo pesquisador. Não está previsto nenhum dano psicológico, moral ou físico mediante a participação de seu filho ou de sua filha nesta pesquisa, mas, caso ocorram, é de responsabilidade do pesquisador saná-lo ou minimizá-lo. De modo especial, dou a garantia de que as informações obtidas serão analisadas por mim, com apoio da minha orientadora, a Profª. Drª. Wânia Terezinha Ladeira. A identificação de seu filho ou de sua filha, assim como a de qualquer um dos outros participantes não será divulgada. Comprometo-me a utilizar os dados coletados somente para o desenvolvimento da pesquisa, podendo publicar resultados prévios através de artigos científicos em revistas especializadas (em papel ou eletrônicas) e/ou em encontros científicos e congressos, além, evidentemente, da publicação dos resultados finais do estudo em minha dissertação de mestrado – sem, em nenhuma destas circunstâncias, tornar pública a identificação dos participantes da pesquisa. 104 Colocadas estas questões, apresento abaixo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para ser assinado, caso autorize a participação de seu filho ou sua filha no estudo. Atenciosamente, _________________________________________________ Pesquisador Assistente – Maurício Carlos da Silva _________________________________________________ Pesquisadora/Orientadora – Profª. Drª Wânia Terezinha Ladeira II. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO / AUTORIZAÇÃO Eu, __________________________________________________________________, portador do RG ______________________________, residente no endereço ______________________________________________________________, na cidade ______________________, com telefone de contato _____________________, afirmo ter sido suficientemente informado(a) a respeito do estudo “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados e as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Assim sendo, autorizo a publicação dos enunciados gravados de meu filho ou minha filha (nome)____________________________________________________________________ em publicações de divulgação científica: periódicos, livros, anais de congressos, em meio eletrônico ou impresso, e na dissertação de mestrado do pesquisador, sendo mantida sigilosa a identificação dele(a) em qualquer uma destas circunstâncias. Estou ciente de que nem eu ou meu filho ou minha filha não teremos participação financeira no caso de inserção dos dados em livro, nem qualquer outra forma de gratificação. Sabemos que nosso benefício consiste em colaborar para repensar o processo ensino-aprendizagem na sala de aula e como a interação entre professor e aluno, através de pergunta e resposta, deve ocorrer para que o conhecimento seja efetivamente construído de forma crítica. Muriaé, _______ de ___________________ de 2013 _______________________________ Participante _______________________________ Responsável 105 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS Campus Universitário – Viçosa, MG – 36570-000 Telefone: (31) 3899-1583 E-mail: [email protected] I. CARTA DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PARTICIPANTES MAIORES DE IDADE Caro(a) Aluno(a), Eu, Maurício Carlos da Silva, portador do RG: MG 10.924.939, residente à Rua Vila Del Penho, 53, Barra, Muriaé, 36880-000, Minas Gerais, cujo telefone de contato é 3288177185, venho desenvolvendo uma pesquisa intitulada “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”, para fins de obtenção do título de Mestre em Letras – Estudos Linguísticos pelo programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Viçosa. Acreditando que a aprendizagem se dá na prática social e é instanciada por meio da interação, e que a organização da Fala-em-Interação em sala de aula pode ser determinante na formação dos alunos, proponho, enquanto professor de Língua, estudar a Fala-emInteração na relação professor-aluno. Para isso, me embasarei nas perspectivas da Análise da Conversa Etnometodológica e da Sociolinguística Interacional como método de análise e suporte teórico. Para que o objetivo principal desse trabalho seja alcançado, gostaria de contar com a sua permissão para gravar e utilizar os dados gravados em áudio de sua interação em sala de aula, o que constituirá o meu corpus de pesquisa. Não haverá custos na sua participação, também não havendo nenhum tipo de gratificação decorrente dela. Garanto que, no decorrer da pesquisa, estarei à sua disposição para prestar quaisquer eventuais esclarecimentos sobre a metodologia utilizada. Também é considerada a sua liberdade para a retirada do consentimento a qualquer momento, caso queira deixar de participar do estudo, sem que isso acarrete qualquer penalidade ou modificação na forma em que é atendido pelo pesquisador. Não está previsto nenhum dano psicológico, moral ou físico mediante a sua participação nesta pesquisa, mas, caso ocorra, é de responsabilidade do pesquisador saná-lo ou minimizá-lo. De modo especial, dou a garantia de que as informações obtidas serão analisadas por mim, com apoio da minha orientadora, a Profª. Drª. Wânia Terezinha Ladeira. A sua identificação ou de qualquer um dos outros participantes não será divulgada. Comprometome a utilizar os dados coletados somente para o desenvolvimento da pesquisa, podendo publicar resultados prévios através de artigos científicos em revistas especializadas (em papel ou eletrônicas) e/ou em encontros científicos e congressos, além, evidentemente, da 106 publicação dos resultados finais do estudo em minha dissertação de mestrado – sem, em nenhuma destas circunstâncias, tornar pública a sua identificação. Colocadas estas questões, apresento abaixo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para ser assinado, caso aceite participar do estudo. Atenciosamente, _________________________________________________ Pesquisador Assistente – Maurício Carlos da Silva _________________________________________________ Pesquisadora/Orientadora – Profª. Drª Wânia Terezinha Ladeira II. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Eu, __________________________________________________________________, portador do RG ______________________________, residente no endereço ______________________________________________________________, na cidade ______________________, com telefone de contato _____________________, afirmo ter sido suficientemente informado(a) a respeito do estudo “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados e as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Assim sendo, autorizo a utilização de meus enunciados em publicações de divulgação científica: periódicos, livros, anais de congressos, em meio eletrônico ou impresso, e na dissertação de mestrado do pesquisador, sendo mantida sigilosa a minha identificação em qualquer uma destas circunstâncias. Estou ciente de que não terei participação financeira no caso de inserção dos dados em livro, nem qualquer outra forma de gratificação. Tenho consciência também que meu benefício consiste em colaborar para repensar o processo ensinoaprendizagem na sala de aula e como a interação entre professor e aluno, através de pergunta e resposta, deve ocorrer para que o conhecimento seja efetivamente construído de forma crítica. Muriaé, _______ de ___________________ de 2013 _________________________________________ Participante 107 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS Campus Universitário – Viçosa, MG – 36570-000 Telefone: (31) 3899-1583 E-mail: [email protected] I. CARTA DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO PARA PROFESSOR PARTICIPANTE Caro(a) Professor(a), Eu, Maurício Carlos da Silva, portador do RG: MG 10.924.939, residente à Rua Vila Del Penho, 53, Barra, Muriaé, 36880-000, Minas Gerais, cujo telefone de contato é 3288177185, venho desenvolvendo uma pesquisa intitulada “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”, para fins de obtenção do título de Mestre em Letras – Estudos Linguísticos pelo programa de PósGraduação em Letras da Universidade Federal de Viçosa. Acreditando que a aprendizagem se dá na prática social e é instanciada por meio da interação, e que a organização da Fala-em-Interação em sala de aula pode ser determinante na formação dos alunos, proponho, enquanto professor de Língua, estudar a Fala-em-Interação na relação professor-aluno. Para isso, me embasarei nas perspectivas da Análise da Conversa Etnometodológica e da Sociolinguística Interacional como método de análise e suporte teórico. Para que os objetivos desse trabalho sejam alcançados, gostaria de contar com a sua permissão para gravar e utilizar os dados gravados em áudio de sua interação em sala de aula, o que constituirá o meu corpus de pesquisa. Não haverá custos na sua participação, também não havendo nenhum tipo de gratificação decorrente dela. Garanto que, no decorrer da pesquisa, estarei à sua disposição para prestar quaisquer eventuais esclarecimentos sobre a metodologia utilizada. Também é considerada a sua liberdade, para a retirada do consentimento a qualquer momento, caso queira deixar de participar do estudo, sem que isso acarrete qualquer penalidade ou modificação na forma em que é atendido pelo pesquisador. Não está previsto nenhum dano, psicológico, moral ou físico mediante a sua participação nesta pesquisa, mas, caso ocorram, é de responsabilidade do pesquisador saná-las ou minimizá-las. De modo especial, dou a garantia de que as informações obtidas serão analisadas por mim, com apoio da minha orientadora, a Profª. Drª. Wânia Terezinha Ladeira, de modo a não ser divulgada a sua identificação ou de qualquer um dos outros participantes. Comprometo-me a utilizar os dados coletados somente para o desenvolvimento da pesquisa, podendo publicar resultados prévios através de artigos científicos em revistas especializadas (em papel ou eletrônicas) e/ou em encontros científicos e congressos, além, evidentemente, da publicação dos resultados finais do estudo em minha 108 dissertação de mestrado – sem, em nenhuma destas circunstâncias, tornar pública a sua identificação. Colocadas estas questões, apresento abaixo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para ser assinado, caso aceite participar do estudo. Atenciosamente, _________________________________________________ Pesquisador Assistente – Maurício Carlos da Silva _________________________________________________ Pesquisadora/Orientadora – Profª. Drª Wânia Terezinha Ladeira II. TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Eu, __________________________________________________________________, portador do RG ______________________________, residente no endereço ______________________________________________________________, na cidade ______________________, com telefone de contato _____________________, afirmo ter sido suficientemente informado(a) a respeito do estudo “A Co-construção do conhecimento: uma análise da fala-em-interação em sala de aula”. Ficaram claros para mim quais são os propósitos do estudo, os procedimentos a serem realizados e as garantias de confidencialidade e de esclarecimentos permanentes. Assim sendo, autorizo a publicação de meus enunciados em publicações de divulgação científica: periódicos, livros, anais de congressos, em meio eletrônico ou impresso, e na dissertação de mestrado do pesquisador, sendo mantida sigilosa a minha identificação em qualquer uma destas circunstâncias. Estou ciente de que não terei participação financeira no caso de inserção dos dados em livro, nem qualquer outra forma de gratificação. Sei também que meu benefício consiste em colaborar para repensar o processo ensino-aprendizagem na sala de aula e como a interação entre professor e aluno, deve ocorrer para que o conhecimento seja efetivamente construído de forma crítica, além de, através dos resultados deste trabalho poder avaliar de forma reflexiva minha ação social enquanto professor. Muriaé, _______ de ___________________ de 2013 _________________________________________ Participante 109 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA – UFV PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP DADOS DO PROJETO DE PESQUISA Título da Pesquisa: A CO-CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE DA FALA-EMINTERAÇÃO EM SALA DE AULA. Pesquisador: Wânia Terezinha Ladeira Área Temática: Versão: 2 CAAE: 16672113.1.0000.5153 Instituição Proponente: Departamento de Letras Patrocinador Principal: Financiamento Próprio DADOS DO PARECER Número do Parecer: 334.238 Data da Relatoria: 05/07/2013 Apresentação do Projeto: O projeto pretende investigar a Fala-em-Interação na relação professor-aluno, em estudantes do ensino médio de uma escola pública na zona da Mata Mineira. O universo do estudo estará centrado em apenas uma única turma com 22 alunos. Será realizado apenas a gravação de áudio das aulas, para uma posterior análise por conta do investigador sobre a "conversa etnometodológica e da sociolinguística interacional". Destaca-se não está prevista uma intervenção do pesquisador na dinâmica das aulas, atuando somente como elemento observador e passivo, com análise posterior dos dados obtidos na gravação em áudio. O termo de consentimento deixa claro que a identidade dos participantes será preservada, e que as informações serão utilizadas somente para o estudo do mestrado em questão de um dos investigadores, e suas publicações futuras. Foi elaborado um TCLE específico para os alunos da escola em que os responsáveis terão que assinar, e outro específico os professores que estiverem envolvidos com a dinâmica da turma. Os trechos de fala dos participantes em que não se tenha a autorização não serão considerados no estudo. Foi anexado a carta do diretor da instituição que se prevê a realização do estudo indicando sua concordância. Endereço: Universidade Federal de Viçosa, prédio Arthur Bernardes, PPG, sala 04 Bairro: campi Viçosa CEP: 36.570-000 UF: MG Município: Viçosa Telefone: (31) 3899 2492 Fax: (31) 3899 2492 E-mail: [email protected] 110 UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA – UFV Objetivo da Pesquisa: Analisar a Fala-em-Interação entre professor e aluno através da organização sequencial pergunta-resposta, como exigência para a co-construção do conhecimento no ambiente sala de aula. Avaliação dos Riscos e Benefícios: Considerando a dinâmica proposta pelos avaliadores, não existem evidências de riscos de caráter físico, biológico, psicológico ou sociológico, podendo o estudo ser desenvolvido com segurança. Os benefícios estão bem descritos dentro de um contexto geral. Foram descritos os benefícios específicos para os integrantes do estudo (alunos e professores. Comentários e Considerações sobre a Pesquisa: Foram atendidas todas as observações anteriores da análise inicial do projeto. Considerações sobre os Termos de apresentação obrigatória: Foram apresentados todos os documentos exigidos. O projeto pode ser executado sem nenhum tipo de comprometimento ético. Recomendações: Nenhuma Conclusões ou Pendências e Lista de Inadequações: Em função dos documentos apresentados e as informações disponibilizadas pelos autores, considero que o projeto atende as normativas éticas, podendo assim ser autorizado sua execução. Situação do Parecer: Aprovado Necessita Apreciação da CONEP: Não Considerações Finais a critério do CEP: Ao término da pesquisa é necessária a apresentação do Relatório Final e após a aprovação desse, deve ser encaminhado o Comunicado de Término dos Estudos. Projeto analisado durante a 5ª reunião de 2013, realizada no dia 03/06/2013. VICOSA, 16 de Julho de 2013 Assinado por: Patrícia Aurélia Del Nero (Coordenador) Endereço: Universidade Federal de Viçosa, prédio Arthur Bernardes, PPG, sala 04 Bairro: campi Viçosa CEP: 36.570-000 UF: MG Município: Viçosa Telefone: (31) 3899 2492 Fax: (31) 3899 2492 E-mail: [email protected] 111 Transcrição das aulas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 55 56 57 Pedro João João Pedro João Pedro Aline Janaína Caio Aline Caio Camila Pedro Rafael Pedro Camila Rafael Pedro Caio Pedro Caio Pedro Pedro Renata Paulo Rafael João Rafael Cláudia Pedro ((Um grupo de alunos montando equipamentos para apresentação de trabalho; professor ocupa uma das carteiras dos alunos, na fileira da frente, no canto direito da sala, virado para a turma. Alguns alunos tiram dúvidas com o professor. Há muita conversa e brincadeira por parte do restante da turma. Devido a problemas com a montagem dos aparelhos as apresentações demoraram a começar)). >ºO seu qual é?º< (0.8) ºÉ: o: desenvolvimento sustentável.º ((Alunos conversando)) Ô Pedro, aqui não quer ligar não Pedro. (2.3) Ô gente: ((Alunos conversando)) A: tá [( )] [((conversa e risos))] >Rafael,< tá demorando muito a começar, ra↓paz. (0.6) >Só uma< tomadinha é: de nada ai ↓e vocês não estão conseguindo, a:: ºpelo amor de Deusº I::: Pe:dro= =é problemas técnicos, tá? Pedro, Cadê o estabilizador? É, Cadê o estabilizador? <No::ssa Se(h)nho(h)ra> Ô Pedro, >você< não trouxe o estabilizador, Pedro? (0.8) Não >(eu mandei lá buscar)<. O Rafael, funcionário ruim ºde serviço que foi lá buscar ↓uai. >OLHA o que você me pediu< pra mim buscar. Um ↑T? (1.0) Um ↑T? Ô Pedro, [pode ir lá buscar?] [O Gustavo falou que tem] que ser ↑esse. (0.7) >Gustavo falou< ele que cortou já: o negócio aqui pra adaptar ºo buracoº. (1.1) Agora você esquece o estabilizador e a culpa é minha? Pe(h)lo a(h)mor de (h) Deus, viu. (Vira esse mesa pro lado de lá e liga assim). Por quê? >Porque o estabi- isso aqui ó<, o Datashow vai ficar muito perto do quadro, Nã:o, não tem essa não. ((Conversa)) Ó, em especial hoje a Renata vai cantar, tá? [Ah vou]. [Pode apresentar] cantan:do, (dublando mesmo), tá? ((risos e muita conversa)) Ô João, ºOiº A Clara agora foi buscar o estabilizador, ↓tá? (O Pedro não me falou nada que precisava). ((os alunos permanecem fora das carteiras conversando)). Ô: ô: ô Pe:dro, (1.1) Pedro, o que que é hegemônica? Hegemônica, é aquilo que domina, por exemplo, os 112 58 59 60 61 62 63 64 65 66 67 68 69 70 71 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 111 112 113 114 115 116 Ronaldo Cláudia Ronaldo Pedro Cláudia Ronaldo Rafael Pedro Pedro Ronaldo Pedro Clara Pedro Rafael Pedro Caio Pedro Rafael Ronaldo Rafael Pedro João Caio Ronaldo Caio João Ronaldo Rafael Pedro João Pedro João Pedro Rafael Pedro João Pedro Estados Unidos são a força hegemônica do mundo, [( )] [Ô Pedro, dá] uma voltinha ai por favor. [E por que que o >desenvolvimento sustentável< não que mudar esse modelo?] [Dá uma voltinha, por favor]. Não quer mudar? É: Ô Pedro, [dá uma voltinha Pedro]. [Ô Pedro, olha o Ronaldo] te cantando a↓qui Olha o assédio em Ronaldo= ((Risos e conversa)) = Ele tá gravando isso, hein. Mau(h)rí(h)cio tá gra(h)van(h)do. [((Risos e conversa. O Professor segue conversando com uma aluna Cláudia))] [Vai ganhar um ponto, tá?] Por quê? Por que eu busquei o estabi:li:zador? ºÃrrã, o Rafael se acha muito espertoº, mas não sabe a diferença de um estabilizador com um t, <pelo↓ amor de Deus> (risos) Claro, você não pediu para buscar estabilizador? Uai, ai- >trouxe um-< ai um estabilizador e um T, (0.8) Se ainda fosse um t= =ºIsso ai não é t nã:oº É, isso aqui não é t não, >isso aqui é< um:= =Eu se↑i:, mas eu pedi para o Gustavo. Você quer que [eu chame ele lá?] [Isso é um adaptador] Eu se↑i, eu falei um t, mas é que o Gustavo falou assim ó “tem que ser esse agora, porque eu mudei os negócio lá”. (3.3) Foi né? I:: e agora? Tá desligando Pedro. ((Alunos conversando)) Ô Ronaldo, ºsabe de quem que é culpa disso?º Oi? (ºSabe de quem é a culpa, né?º) ((Caio aponta para Rafael, sugerindo que a culpa seja dele)) ºDesligouº ACHO QUE A CULPA É DO TIO ºRafaelº Cala a Boca ((Professor e alguns alunos tentando resolver o problema com o datashow, os outros alunos conversando e rindo)) O cara traz um computador, mas não funci↑ona ºFun(h)ci(h)o(h)nou, é que esbarrou aliº (encostou na bateria) É (problema de) bateria isso ai, não é não? Ô Pedro funcionou é que esbarrou ali. Esbarrou aonde? Ali: Pedro, naquele negócio ali ↑ó Que é que tem? (1.2) Aquilo ali não desliga computador não ↑uai, ºo problema é a bateriaº Tá, mas tá sem a bateria. ºpobre é uma desgraçaº ((risos e muita conversa)) 113 117 118 119 120 121 122 123 124 125 126 127 128 129 130 131 132 133 134 135 136 137 138 139 140 141 142 143 144 145 146 147 148 149 150 151 152 153 154 155 156 157 158 159 160 161 162 163 164 165 166 167 168 169 170 171 172 173 174 175 176 177 Pedro Pedro Pedro Fátima ????? Fátima ????? Fátima João Então gente, ↑ó. ((alunos voltando para seus lugares, conversa, barulho de carteiras se arrastando)) Então gente, (1.3) posso falar agora? ((alunos conversando)) >Você que é a passadeira hoje ai?< (.) Ô gente, vamos lá, o: grupo vai apresentar sobre desenvolvimento sustentável, (1.2) é:: presta atenção ai. ((risos)) (2.4) O desenvolvimento sustentável deve ser compreendido (como conta a história) como o crescimento econômico e a conservação da natureza, (1.3) é: na segunda metade da década de sessenta as denúncias de de- degradação ambiental e de (poluição) ambiental (.) se intensificaram. (2.2) A crise ambiental (se deve) à subordinação da sociedade ao consumismo e ao estilo de vida do modo industrial. (1.2) O modelo de produção (possuído) pelo capitalista baseado [( )]= [((Tosse))] =Então ( ) ele inibe seu crescimento, (1.4) ou seja, o planeta não é infinito, nem os seus recursos são infinitos. (1.6) A partir da Eco 92, com a conferência mundial (.) sobre o meio ambiente, a noção do desenvolvimento sustentável vai se consolidar como um caminho [(do meio, ou seja, a equação milagrosa, que vai tentar unir crescimento econômico com conservação da natureza)]= [((conversa entre os alunos))] =Também é importante ressaltar que o desenvolvimento sustentável (é lei desde 88) já nos anos 80 (.) já se falava a- na questão do estilo do desenvolvimento (.) que era o ecodesenvolvimento. (4.2) Então, o eco- o: conceito de ecodesenvolvimento, um autor aqui que o texto cita o Sachs ele: introduz o conceito de ecorregião como unidade de planejamento pra ope- o- operaci(.)onalizar, >sei lá<, os: novos estilos de desenvolvimento e pra isso é: pra: o: Estado tem um importante papel >de planejamento< e na implantação desse novo pro↑cesso, mas não se deve abrir mão do: da participação social local, e para esse autor o Sachs, ele: a:: >verdadeira chance< a grande chance de realização dos verdadeiros estados-do-bem-estar está nas mãos dos países do terceiro mundo, e pra realização desses estados do-bem-estar, tem os objetivos a serem buscados como a relação o norte sul deve ser horizontal, ã: não atribuir excessivo espaço para ajuda externa, limitar a atuação do mercado e: procurar uma (valorização) das esferas não material da vida. (2.1) E agora o relatório ºBrundtlandº e a sua crítica. (1.3) O relatório Brundtland ele: introduz o conceito de desenvolvimento sustentável, e qual que é o conceito? (.) o desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades presentes sem comprometer as gerações futu- sem 114 178 179 180 181 182 183 184 185 186 187 188 189 190 191 192 193 194 195 196 197 198 199 200 201 202 203 204 205 206 207 208 209 210 211 212 213 214 215 216 217 218 219 220 221 222 223 224 225 226 227 228 229 230 231 232 233 234 235 236 237 238 Pedro João Pedro João Pedro João João Ângela João Ângela comprometer a possibilidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades. Esse relatório ele tem dois conceitos chaves que é a necessidade especiais dos pobres no mundo, que deve ser tratada com a máxima prioridade e as executações fiscais da tecnologia na organização social impõe ao meio ambiente e: impedem ºas geraçõesº de atender as necessidades presentes e futuras. (3.1) E o- o relatório ele adota um discurso de combate de combate à pobreza e também de consolidação ambiental para as gerações futuras há, entretanto, contradições no relatório como ele: afirma a necessidade do crescimento econômico, <mas ele aferrece a crítica à sociedade industrial dos países desenvolvidos>= =Ele aferrece? Oi? ºVocê falou que ele:?º Aferrece. (ºNão é apetece não?º) Afe- ah, sei LÁ ((risos)) O relatório, ele: menciona cautelosamente os interesses nacionais e:: ele: sempre- tá sempre falando com tom diplomático, é: >por causa disso<, provavelmente, que ele possui grande aceitação. E o relatório, ele define, descreve, pelo menos define o: nível de consumo mínimo a partir das necessidades básicas, mas ele é omisso em relação às discussões detalhada sobre o nível máximo de consumo nos países desenvolvidos. ↑E o relatório também propaga que a superação do subdesenvolvimento (.) dos países do hemisfério sul ela deve conter o crescimento contínuo dos países desenvolvidos, os países industrializados. ºTerminou João?º ºSimº O termo >ecodesenvolvimento< vai passar a ser desenvolvimento sustentável com as mudanças da década de oitenta, que é a inflação e: a dívida externa, e: a inflação econômica vai ser o principal objetivo dos países, o: estado planejador no- é: vai deixar de ter o papel de: fazer propostas para >incentivar o desenvolvimento< e com o avanço do neoliberalismo também vai avançar os problemas ambientais, e esse crescimento do neoliberalismo juntamente com o início da: globalização econômica vão mudar o termo de ecodesenvolvimento e vai passa- >vai passar< a ser desenvolvimento sustentável, e o que antes >tinha uma< uma: abordagem ambiental crítica de ecodesenvolvimento é:: vai passar a ser uma: um crescimento ecoloé: um crescimento: (1.9) econômico (0.8) e o mercado global é que vai: gerenciar (.) esse crescimento ecológico. (0.9) O neoliberalismo ainda vai falar do ambiente e o cresci↑mento, podando preferência para o crescimento e o ambiente e: que: o: o acúmulo de capital nada vai ter haver com esses problemas ambientais e sim o direito a propriedade e:: o: os ben- os bens comuns, e: é: que vai acarretar é: 115 239 240 241 242 243 244 245 246 247 248 249 250 251 252 253 254 255 256 257 258 259 260 261 262 263 264 265 266 267 268 269 270 271 272 273 274 275 276 277 278 279 280 281 282 283 284 285 286 287 288 289 290 291 292 293 294 295 296 297 298 299 Camila ????? Camila ????? Camila Cláudia Camila Cláudia Caio Cláudia que vai des- desajustar desequilíbrio ecológico e as diferenças sociais. (7.3) ((A aluna Camila, na sequência, tem dificuldades para falar em público, por isso leu toda sua apresentação, seu tom de voz é muito baixo o que dificultou a qualidade da gravação e, portanto, da transcrição)) Bom, o programa ºBrun- Brundtlandº tem outros conceitos também propondo uma: consciência política comum é:: propondo uma política de cons↓ciência para que o país possa tá associado, (tentando) priorizar a desigualdade social e econômica levando em conta também a questão ambiental (1.2) é:::= [((tosse))] =[º( )º] da relação de poder que estabelece ( ) o desenvolvimento com base na (agricultura familiar) ela: é o conceito oficial do desenvolvimento sustentável que é usada por vários pai- em vários governos, políticos, empresários e também por nós para enfrentamos os problemas ambientais, é: ( ), na continuação [( )] [((tosse))] por exemplo, a: os Estados Unidos se recusou a assinar a Eco92 pra não ter que reduzir suas práticas de emissão de gases poluentes, (pra ganhar lucro com isso ) então a questão da natureza começou a entrar em jogo, (1.0) então os países do norte começou ( ) na tecnologia ( ) (2.2) ºAcabou?º ºJẠºBom, é:º o capitalismo nesta época (se deveu) a: ao movimento ao sistema de:: produção de mercadorias, esse sistema de produção de mercadorias era um dos grandes responsáveis pela:s (0.9) pelos maiores impactos com grandes riscos (globais) com vários riscos ambientais (em decorrência) ele consiste no acúmulo de riquezas e: e: >ºconsisteº< no acúmulo de riquezas em consequência ele acaba:: ele acaba degradando a: as próprias condições naturais que eles precisam de que são totalmente dep- dependentes, ou seja, o capitalismo ele acaba:: acaba destruindo sua própria base, (2.9) tipo assim, o desenvolvimento sustentável º(pode deixar)º= ( ) =houve um consenso, é: uma tática de: th de um:, assim, de conscientizar, assim: assim, desses problemas que há nesse sistema de produção de mercadoria. Ai ele:: (eu (h) tô (h) seguindo (h) o slide (h) aqui). Es- é: esse desenvolvimento sustentável ele não: pretende transformar os modelos hegemônicos, como ( ) disse, não vai assim acabar com essa forma de capitalismo que: que (leva) de produção e de consumo, mas ele tende a:: implantar uma estratégia de uma ação ambiental pra esse movimento produtivo. (.) O meio ambiente (deve ser tratado) como ob- como objeto em extinção, o licenciamento ambiental (ele utiliza de medidas 116 300 301 302 303 304 305 306 307 308 309 310 311 312 313 314 315 316 317 318 319 320 321 322 323 324 325 326 327 328 329 330 331 332 333 334 335 336 337 338 339 340 341 342 343 344 345 346 347 348 349 350 351 352 353 354 355 356 357 358 359 Pedro Cláudia Pedro Ronaldo Pedro ????? Pedro Ângela Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Pedro João ????? Ângela Pedro Ângela mediadoras) essas medidas elas são: medidas pra:: minimizar os impactos é: os- os riscos (.) ambientais (.) atuais, riscos ambientais negativos e também tá: ele tá sendo individualista, ou seja, cada um faz sua parte, (1,7) tipo assim, não pretende também mudar o modelo de sociedade, mas (tornar esse: modelo capitalista menos degratório) ou seja, (.) criar um ambientalismo: ( ) esse desenvolvimento organizador ele possa assim,(1.3) (tornou) a população (um pouco: (1.2) tornou) a população, (2.2) tipo assim, atingida (0.7) devido: (1.1) uma população atingida, como por exemplo, o movimento: é: o movimento é: dos atingidos pelas barragens da: usina hidrelétrica de: Belo Monte ai:, tipo assim, eles são obrigados ( ) a desapropriação (.) eles tem um efeito de violência e fora dos padrões: (.) institu↓cionais. (3.2) ºAcabou?º ((A aluna confirma com a cabeça)) º(Então eu vou passar para as perguntas)º, eu vou perguntar pra vocês,(1.3)né? (1.2) Além da Cláudia, (1.9) a Cláudia tá fora da pergunta. (1.2) º(Ai que bom)º Certo? (0.4) O desenvolvimento sustentável é possível? (1.5) De acordo com o que vocês leram ai. 1.2) [Sim- se sim], por quê? Se não, por quê? [((Tosse))] (2.4) (Pra tudo que é bom tem- [ )] [Sim, se] todo mundo colaborar. É? (2.3) >Vamos ver o que vocês têm a me dizer ai< (3.5) ºEu não posso falar não?º= =Nã:o, nã:o (1.3) Você chama Cláudia? ((a aluna confirma com a cabeça)) ((risos)) En(h)tão sos(h)se(h)ga.Você não tá valendo ainda não (.)agora os outros (.) podem . (0.6) Embolou a vida deles. (2.4) Vocês leram o texto todo ou cada um leu sua parte? [ºTexto todoº] [ºTodoº] [((risos e cochichos))] (4.6) (Não uai, é possível sim) Eu quero que vocês respondão sim ou não. (.) É possível? (1.6) >O desenvolvimento sustentável<, é possível? ºÉ.º 117 400 401 402 403 404 405 406 407 408 409 410 411 412 413 414 415 416 417 418 419 420 421 422 423 424 425 426 427 428 429 430 431 432 433 434 435 436 437 438 439 440 441 442 443 444 445 446 447 448 449 450 451 452 453 454 455 456 457 458 459 Pedro Pedro Ângela Fátima Ângela Pedro Fátima Ângela Camila Pedro Camila Pedro Ângela ????? Pedro Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Agora, por quê? (4.7) Ou co:mo? (2.4) <Sinceramente Pedro, se todo mundo colaborar com isso principalmente as ( )> só que:: tem outro problema que[eles quere:m= [Eles querem lucrar] =CRESCER economicamente e nã:o. ºproteger o meio ambiente.º Eles quem? (2.1) Os: os- [os grandes]= =[<Os Capita]listas> ºÉº= =Quem são eles:? As grandes empresas. [((conversa))] [((Tosse))] [Eles fazem isso porque eles são ruins, malvados?] [Não, eles fazem isso porque eles querem crescer economicamente.] [( )] Então, mas eu quero saber se isso é uma opção (.) consciente, pessoal, por exemplo, Jorge Bu:sh, Obama: falam (0.3) “↑oh eu (.) vou assinar aqui o Protocolo de Quioto:: porque (.) eu acho importan:te”, ou “eu não vou assinar porque (.) eu não acho importante”> Isso é< uma opção (.) pessoal, ou tem mais coisa por trás disso ai? E que coisas podem ser essas? (4.7) Vamos deixar a Cláudia falar, é pos- é possível Cláudia? O quê que é? É possível, mas tem que ser, >tipo assim< aprovada pelo o gove:rno >tipo assim< tem que ser (.) adotada des:de do::: th tem que ser uma <mercação>, essa educação individualista, que tipo assim, que (presta- na conscientização:o) de que cada um tem que fazer a sua parte. É possível? É, mas acontece que, tipo assim, com a ( ), no sistema capitalista e eles não quererem: conviver com esse sistema, acabam (vivendo) em competição, e que o capitalismo, ele não- >tipo assim< ele não:: não dá (.) tanta importâ:ncia para a destruição que nem a:: ( ) nesse sistema de: (redutor) de rodovias (.) acaba: acumulando riquezas, mas porém:: porém melhoran:do desde o princípio, por isso para haver uma:: (.) pra haver, assim, um desenvolvimento sustentável temprecisa de um:: de uma: de um investimento. (1.4) de um investimento ºna educaçãoº= =Então você acha que é ºpossívelº? Eu acho que é possível. Então pelo que você me falou (1.6) tem o problema do capitalismo, não tem? ºTemº= =Tem (.) então, o que acontece é que pra ter esse 118 460 461 462 463 464 465 466 467 468 469 470 471 472 473 474 475 476 477 478 479 480 481 482 483 484 485 486 487 488 489 490 491 492 493 494 495 496 497 498 499 500 501 502 503 504 505 506 507 508 509 510 511 512 513 514 515 516 517 518 519 Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro investimento ai vai ter que controlar o capitalismo, (.) você acha que ºé por aiº? Tá, mas eu acho >tipo assim< essa união de ongs, empre:sas: transnacionais e: governos, tem que ser feita assim, porque:: (0.2) tem sido: >um assunto< bas- bastante:: divulgada >tipo assim< tem que haver uma união dessas (1.5) dessas empresas de grandes nomes <pra: have:r> a divulgação, >assim< disseminação entre a população. Então o problema é a população ou as grandes empresas? <O proble:ma: é o pa(h)ís, Pe(h)dro> ((riso)) Tá, é possível, >é isso que eu quero saber< (.) é possível[ser sustenta-?] [Acho que é] ter o controle (.) desse uso (.) da matéria-prima do que eles necessitam pra: (0.5) industrializar (1.6) pode: >tipo assim< sim, pode:: acontecer o desenvolvimento sustentável, >então tipo assim< aqui no texto fala, acho que é ºna parte da Camilaº que >tipo assim< não é contra: não há contradição entre ele: o: desenvolvimento sustentável e o acúmulo de riquezas. (1.8) <Tá ai no texto no final do: da página:: [( ) e nove>] [(ºAi simº)] (.) né? (4.6) ((aluna procurando, no texto, a parte citada)) Tá na duzentos e (nove) É, na duzentos e nove, me con(h)fun(h)di. ((risos)) Duzentos e nove em diante= =Espera ai deixa eu encontrar aqui, (20.8) Tá na duzentos e nove ou na duzentos e oito? ºEu não tô conseguindo acharº (Qual que é sua parte?) (21.2) ((Aluna procurando, no texto, a parte citada)) >Então, ↑ó< (.) lá na duzentos e sete, tem uma parte que tá falando assim ó (.) no:: primeiro (.) segundo parágrafo <“Apesa::r,”> tá vendo? (3.6) “Apesar das críticas,” (3.2) (Na duzentos::s?) Na duzentos e sete ºÉ isso mesmoº Ai lá na ul- no finalzinho desse parágrafo diz o seguinte, “nesse [sentido”]= [Isso] =”o capitalismo o capitalismo destrói a sua própria base: >é o próprio funcionamento de um sistema de produção de mercadorias, estruturalmente orientado pela busca da maior rentabilidade na acumulação de riqueza abstrata, que conduz à degradação daquelas condições naturais das quais depende visceralmente”< (2.9) Ai, né? é::: E o outro, vai dizer lá (.) “Nos limites dados por esse contexto, o consenso em torno do desenvolvimento sustentável (.) é a saída para os impasses atuais deste sistema 119 520 521 522 523 524 525 526 527 528 529 530 531 532 533 534 535 536 537 538 539 540 541 542 543 544 545 546 547 548 549 550 551 552 553 554 555 556 557 558 559 560 561 562 563 564 565 566 567 568 569 570 571 572 573 574 575 576 577 578 579 Cláudia Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro João Pedro Cláudia Pedro Cláudia Pedro Ângela Pedro Ângela Camila Pedro Ângela Pedro Ângela Pedro Ângela Cláudia de produção de mercadorias, mas não para reformular (.) a relação com a natureza, nem para construir (.) possíveis sociedades sustentáveis”. (1.7) O que será:: que eles querem dizer (.) com: o (termo) que eu li lá, pra vocês, com esse termo de sociedade sustentável, o que será: ºissoº? (0.3) <Uma sociedade baseada nesses princípios?> Será que isso mesmo? ºAcho que simº Seria o texto crítico em relação aos >problemas sustentáveis< ou ele aceita? Ele é crítico= =É crítico? (2.6) º(Quando fala que pra ser sustentável é preciso ser renovável lá) (.) ele é crítico.º (1.9) Então, eu quero saber (0.2) pelo texto (0.4) é possível, então (.) ter um desenvolvimento sustentável? (2.9) >Existir isso?< Vocês disseram que sim. Agora eu quero saber, vocês vão voltar lá no texto. (0.4) O texto defende que é possível manter (.) um desenvolvimento susten↓tável?= =Pelo texto não é possível por causa que: dessa questão de:: (.) contradição, ºlá no textoº, da exploração:: de: (.) de matérias essenciais (.) para ºo desenvolvimento econômicoº (0.5) Mas vocês ainda acham que é possível, (2.1) né? E o texto (.) é crítico em relação a isso. ºSimº Mas vocês: (0.4) acreditam que é possível? (2.5) Quero saber a opinião de vocês agora. Possível é (.) só que é muito [difícil]= [É possível?] =Pra- pros capitalistas quererem deixarem o lucro para poder (.) preservar o meio ambiente (.) (por isso que é muito complicado.) ºEu acho [que assimº] [>ENTÃO vocês<] tá- então no final das contas vocês acham que é possível convencer os capitalistas disto? A:h Pedro (sei lá, hein?), é uma situação que tá, total[mente::]= [Hã?] =nas mão de (todos)= =>Tá, ai que eu vou dizer pra vocês, eu vou voltar naquela questão que eu- (.) (que eu já fiz pra vocês)<, eu vou voltar naquela questão, é uma questão meramente pessoal os capitalistas falarem assim “Eu fui o culpado, e agora então: (.) eu vou ser (0.4) a favor da sustentabilidade (0.7) ou tem mais coisa por trás disso? Tem muito mais coisa ºpor trás dissoº ô: Pedro >tipo assim< eu não acho assim: que precise: mudar totalmente, eu só acho, assim, que 120 580 581 582 583 584 585 586 587 588 589 590 591 592 593 594 595 596 597 598 599 600 601 602 603 604 605 606 607 608 609 610 611 612 613 614 615 616 617 618 619 620 621 622 623 624 625 626 627 628 629 630 631 632 633 634 635 636 638 639 Ângela Camila Ângela Camila Cláudia Pedro Pedro Rafael Clara Pedro Clara Rafael Clara Luciana Clara Rafael Clara Rafael Clara Rafael João Rafael João Rafael João Clara João Rafael Ronaldo Clara Caio Rafael Caio Rafael Clara Rafael Pedro precisa de: de tomar algumas medidas pelo menos, algumas medidas pra: sem ↑lá, deixa:r (.) fica:r (.) menos pior. Entende?= =Um mundo totalmente sustentável (.) não existe, mas a forma como é: de a gente viver (.) de uma forma melhor= =Reduzir o impacto= =É Nã:o:: ºacabar totalmente com o impacto, mas só reduzirº Tem que minimizar, (ué) Tá bom então, depois nós voltamos nisso pra piorar a vida de vocês ai, tá? Tá bom? [((risos))] [Pode vir] o outro grupo. (1.8) >Sobre o que mesmo o outro grupo mesmo?< Hoje é:: hoje é: [º(Agrocombustíveis)º] [Agro]combustíveis Agrocombustíveis. ((Alguns alunos conversando, outros montando os aparelhos para a apresentação do seminário. Enquanto isso a aluna Cláudia encontra a parte do texto que estava procurando e vai até à carteira do professor e os dois discutem isoladamente)) Eu não tô conseguindo enfiar isso aqui. (2.3) Esse trequinho aqui. ºDeixa eu ver, onde que é?º Num sei, não dá para enfiar. Clara, do outro lado. (3.9) Ué. (6.4) Entrou? ºTá muito difícilº Não é o outro buraco não? ºNão tem outroº, vê se não foi Clara. Não, deixa só eu tirar minhas notas daqui. João, você que encaixou isso aqui? Oi? Você que encaixou isso aqui, (.) esse fio- esse cabo azul? (Hã) Você que colocou o cabo azul no notebook seu, ou não? ºNãoº Se foi, foi. (0.8) Foi na↓da ºTrocaº ºNão tá dando certoº (2.1) Não têm que rei- reiniciar seu computador ai não? Não, não tá entrando o CABO meu filho, o problema é ↓esse. ºÔ Rafaelº O que? ºTroca de lado o caboº ºVamos trocar entãoº É, troca de lado. (7.2) Agora vamos ver se vai. (11.2) En↑trou Entrou Funcionou ai? 121 640 641 642 643 644 645 646 647 648 649 650 651 652 653 654 655 656 657 658 659 660 661 662 663 664 665 666 667 668 669 670 671 672 673 674 675 676 677 678 679 680 681 682 683 683 685 686 687 688 689 690 691 692 693 694 695 696 697 698 699 Clara Rafael Clara Pedro Clara Clara Pedro Clara Pedro Joana Pedro Joana Pedro Clara Joana Pedro Ronaldo Caio Caio Pedro Rafael Rafael Clara Pedro Ronaldo Clara Pedro Clara Camila Rafael Calma ai que eu tô enfiando o cabo. Foi (0.8) Foi (3.3) Essa área de trabalho é um ↓perigo. Não tem na(h)da não, eu ti(h)rei. On(h)tem a noi(h)te eu dei (h) uma me(h)xi(h)da aqui. ((risos)) Tem só umas senhas aqui. ↓Não tem nada muito ºsério nãoº. ºEssas áreas de traba:lhoº Tá vermelho achei que fosse ºrosaº. Então o tema do seu grupo é Agrocombustíveis? ( ) Pode beber? Como é que é? Pode beber? [Só se for calmante:] [ºPega uma cadeira ai pra mimº] Oi? Só se for calmante. Sério? Com cer(h)te(h)za ((risos)) ºVai ficar mais doido que já éº [((risos e conversa))] ºVamos lá entãoº [ºEntão hoje a gente vai falar] sobre água e o:s: combustíveis, (1.6) aqui são os combustíveis usados na agricultura.º (1.1) Pode passar ºClaraº (0.3) Os exe- os exemplos que tem é o etanol, ºo álcoolº (1.5) e o: biodiesel que é misturado com o diesel com 5% percentual, >depois eu vou explicar isso mais ºpra frenteº< e tem o: o biogás= =Que não é ( ) obrigada ( ). (ºEssas colocações vocês vão encontrar nos postos de abastecimentoº) Mas onde que fica isso? Meu fi(h)lho. ((risos)) Posto de gasolina ↓uai. ((risos)) Meu filho ((risos)) Acho que fica no açougue. ((risos)) (o biogás ele é uma mistura através de ) ele é utilizado pra: pra: (o fornecimento de energia), para secagem de grãos e para o uso doméstico. (1.8) O álcool, ele tem como matériaprima principal a cana-de-açúcar, (.) mas também pode ter (.) o (sorgo sacarino) a batata doce, a mandioca, o milho, a beterraba, em geral (.) todos os ingredientes que tem alto teor de açúcar, (1.4) e o álcool ele pode ser usado como combustível, que 122 700 701 702 703 704 705 706 707 708 709 710 711 712 713 714 715 716 717 718 719 720 721 722 723 724 725 726 727 728 729 730 731 732 733 734 735 736 737 738 739 740 741 742 743 744 745 746 747 748 749 750 751 752 753 754 755 756 757 758 759 780 Pedro Rafael Pedro Rafael Clara Rafael Ronaldo Rafael Clara Rafael Clara Rafael substitui a gasolina (0.2) ou ele pode ser misturado com a gasolina como na maioria dos casos. O:: biodiesel, (0.4) ele tem como:: é: matériaprima principal os óleos vegetais, (0.7) mas também pode:: ser produzido (.) através de:: (1.8) ºse:bo: bovino e banha de por↑coº (0.2) ele substitui o petróleo, ou pode ser misturado a ele. (1.5) Tá, a lei 11.116 de 2005 que entrou em vigor em 2011 estabeleceu essa questão do biodiesel ser acrescentado de 5% da sua (fórmula) de biodiesel no diesel. ºEsse 5% (tá ai)º? Quê? ºEsse 5% (tá ai)º? ((risos e conversa)) Hã Ignora 95% do que está aqui, esse é o biodiesel. ((aluna mostra um frasco com o produto)) É. [Ah:: sim:] [5% de bio]diesel e 95% de diesel. Também tem outra opção que é o (B20), que é o diesel com 20% de biodiesel e o: B100, que é 100% de biodiesel puro (.) só que [( )] [O B20 é ( )] Então↑ os ó- o óleo vegetal ele também vai utilizado como combustível ( ) só que também têm essa questão de precisar de adaptações para os motores. O Rudolf Diesel, (0.4) o que: propôs os mo- os motores movidos a diesel, ele fez experimentos com óleo de ºamendoimº, só que as multinacionais impediram que: a produz- a produção em- em larga escala para motores sobre esse tipo de: de processo, (1.8) pra: po- por isso que não tem muitos é: motores (.) com óleos (.) é: com óleos vegetais ( ). Aqui eu fiz um: um: contexto que fala que tem dois tipos de: (produção de agrocombustíveis) que são o agronegócio e a agricultura camponesa, ai eu fiz um mapa aqui mostrando= =Depois no final você vai falar mais disso. É. E o agronegócio visa o lucro, enquanto que o camponês a soberania ali- energética ºa Renata vai falar um pouquinho sobre essa questãoº. (0.9) A questão da: da produção em grande escala (os latifúndios) do agronegócio e o: a agricultura camponesa maximizada ( )produção diversifi↑cada, con↑sórcio, enquanto que o agronegócio visa a monocultura, principalmente grão a ºproduçãoº de grão de soja e a cana (1.4) e são considerados (a cultura) dos agronegócios que são considerados insustentáveis (porque são usados na produção de combustível e não como alimento). (1.2) Aqui tem uma charge crítica a essa questão de água e combustível. Porque muito da produção é pra fazer combustíveis e não para a alimentação. ºPassa pro próximoº Aqui tem, bem, a plantação para a produção de grãos para fazer combustível e não para alimentar as pessoas, pelo menos elas podem passar fome >em um ambiente limpo<. (0.5) Ou seja, a maior produção de 123 781 782 783 784 785 786 877 788 789 790 791 792 793 794 795 796 797 798 799 800 801 802 803 804 805 806 807 808 809 810 811 812 813 814 815 816 817 818 819 820 821 822 823 824 825 826 827 828 829 830 831 832 833 834 835 836 837 838 839 840 Clara Pedro Clara Pedro Clara Pedro Clara Clara Pedro Clara Pedro Caio Clara Clara Clara Pedro Clara Pedro Clara Rafael Clara Clara grãos é pra es- é para a produção de combustíveis e não para a alimentação (como falou), ou seja, tem muita gente passando fome, >tipo assim<, por falta disso, porque a maior parte tá indo para a produção de combustíveis. (1.1) É isso ai. (2.4) Tem que passar aqui ( ) ( ) Agora eu vou falar como se faz (.) o biodiesel. Primeiro ºTá parecendo o programa da Ana Maria Bragaº ((risos)) pega-se o grão ( ) tipo: a soja, ( ) pega (.) essas coisas (espreme) e moi, ( ) ai vão sair o óleo ( ) e o: o que sobra dessa: de: tirado o óleo é a ( ou farelo) que dependendo do: do: que foi usado pra: pra (pode ser aproveitado) tanto para a alimentação animal como para a alimentação humana. (3.5) Ai, (0.7) é: (2.6) bom vou pegar esse óleo e vou colocar nessa estação para fazer a <transexperimentação> ( ) e descentralizar a produção de combustível= =Agora passa. (1.2) E ai faz um negocinho ( ) e o que sai, o principal, é o diesel. Pronto. Pronto. º( )º ((risos)) Mas (.) também sai o álcool que usado (.) na ( ) e glicerina, a glicerina ela pode ser usada para fazer sabonetes, cosméticos, é: pode ser usado na produção de energia quando há produção é feita em larga escala. E tem outro (mérito) [((risos))] [Método que] é ( ) que nem lá no petróleo tem ( ) (Aqui tem uma dessas) Tem? º( )º [((risos))] [No::ssa:] ((risos e conversa)) [Ai agora eu vou falar do álcool] [((conversa))] Primeiro (0.2) é uma coisa bem: (sacaródica) Passa dois Rafael. (2.1) No Brasil ( ) é beterraba, mas eu vou falar especificamente da cana, que é o que mais se usa aqui= =É o açúcar, né? Oi? É o açúcar, né? É. ( ) Ai pega a cana, planta a cana, pega a cana e corta ela [( )] [((risos e conversa))] [Não, mas vai esperar crescer]. Ai (.) coloca a 124 841 842 843 844 845 846 847 848 849 850 851 852 853 854 855 856 857 858 859 860 861 862 863 864 865 866 867 868 869 870 871 872 873 874 875 876 877 878 879 880 881 882 883 884 885 886 887 888 889 890 891 892 893 894 895 896 897 898 899 890 Clara Clara Clara Pedro Pedro Clara Clara Ronaldo Pedro ????? Clara Clara cana dentro do carro e transporta a cana. ((conversa e risos)) Ai, (0.2) chega lá é: descarrega a cana manualmente e moi, (0.7) ai (solta) é- o- a garapa, ma:s em alguns lugares faz= [((risos e conversa))] =[( )] em alguns lugares pode fazer isso antes. Vai lá pega a cana, planta a cana, a cana cresce, corta a cana, moi a cana e ai, dai transporta a ↑garapa (.) pro lugar. (4.0) Ai ( ) o bagaço depois que moi a cana pode ser usado para alimentação bovina, para adubação ( ) e para fazer energia (.) é: queimando ( )= =Passa Rafael (2.5) Ai pega essa garapa vai filtrar e decantar ela várias vezes (pra não ter nenhum pro- problema lá pra frente). (.) Vai Rafael. (2.2) Ai tem o caldo de cana, ( ) tem o caldo de cana ( ) é um negócio que [( )] [((risos e conversa))] Eu já fiz é muito legal. (.) Ai pega os: (soluções) solúveis ai, no caso, vamos pegar ( ) de: de cana ( ) de sacarose ( ) [( )] [( )] não pode passar de 33 graus, o ideal é 28 graus, (.) ai ela atinge nível zero, quando ela atinge o nível zero é porque a sacarose foi foi: ( ) (0.6) ºVai Rafaelº (1.1) Ai tem que esperar (três) horas pra decantar, ao decantar (.) vai para a ventilação, (0.4) ai é:= =º( )º Espera ↑ai. ((risos)) (Vai para o vapor d’água, não pode passar de 80 graus) ai lá no estágio de ventilação) vai separar o álcool da água, ai, o que é que acontece? Vai condensar o álcool e vai tirar ele na: na: pra fazer o etanol. Ehehehehehe ((risos e conversa)) Façam em casa depois para ver se vai dar certo, tá?= =A tá. [((risos))] [E assim se] produz o álcool, ( ) [((conversa))] [( )] ai ele é armazenado (0.2) em (tanque aéreo) de aço e carbono, é: (.) o principal objetivo dele é o ( ) que é muito rico em matéria orgânica, então, é: pode usar ele >pra adubação da ca↑na<, voltar ele pra plantação da cana, ( ) e também a- pode ser uti- usada pra alimentação de bovinos e porcos. 125 891 892 893 894 895 896 897 898 899 900 901 902 903 904 905 906 907 908 909 910 911 912 913 914 915 916 917 918 919 920 921 922 923 924 925 926 927 928 929 930 931 932 933 934 935 396 937 938 939 940 941 942 943 939 940 941 942 943 944 945 946 Pedro Renata Renata Pedro Ronaldo Renata Pedro Caio Paula Renata Paula ( tem a questão da contaminação, mas depois a gente vai falar sobre isso ai) ((leitura muito rápida e com o tom de voz muito baixo, o que prejudicou a qualidade da gravação e, consequentemente, da transcrição)) >Agora é eu<, eu vou falar sobre a energia. (2.2) >ºA energia é um processo no qual vão se desenvolver ( ) esse sistema foi ( ) com base nos princípios da agroe-< >Desculpa< >Nos princípios agroecológicos. na produção de alimento ou ( ) ambiental ( ) camponeses e indígenas. Esse: esse sistema ele é muito importante,( ) revolucionar a ciência e a (produção) ele tem a capacidade de organizar a vida no campo e a produção agrícola, (1.3) ele também, é: é: tipo assim, uma outra contribuição que esse sistema tem é o ( ) que em muitas propriedades [( )]º [((tosse))] ºPode passarº >ºBom, os sistemas camponeses (ai você pode deixar) os sistemas camponeses, junto com os indígenas (são considerados melhor) e tem bom resultado nesse sistema. ( ) os novos ( ) produtivos tanto nas: nas propriedades camponesas como nas (urbanas ) o que que acontece eles envolvem (muita gente) e muita mão de obra, e eles têm sistemas industriais flexíveis e descentralizados [( )]º< [º( )º] [º( )º] aqui gente eu coloquei alguns exemplos da:: th de energia (.) aplicada na agricultura, na agropecuária e na floresta. Bom, >na agricultura (na produção) de cereais, leguminosas e etc, na agropecuária (produz) carne de corte, porcos, galinhas, peixes, ovelhas (uma coisa muito importante e a utilização de alguns vegetais)<, e na floresta e para a produção de madeira para a construção, lenhas, (frutos) e matéria-prima para artesanato (e óleos vegetais). Ai aqui eu já falei º[( )]º [º( )º] [º( )º] ºAcabouº ºsimº ºAs energias renováveis e as não renováveisº Atualmente as (se utiliza) é o biodiesel e o álcool e as alternativas são o petróleo e o ( ) ↑só que existem muitas outras formas que não precisam ( ) que não foram pesquisadas ainda ( ) e:, no caso, é que existem muitas comunidades de: que no caso podem ajudar, no caso, as comunidades cam- camponesas que podem gera:r (independência e autonomia pra elas). (1.7) Energia eólica, os ventos que são o deslocamento do ar (que são causados pelo vento, na mudança de temperatura ) (.) en↑tão, esse: deslocamento de ar ( ) vai gerar energia elétrica, mas antigamente também era usado como::( ) aproveitamento do deslocamento 126 947 948 950 951 952 953 954 955 956 957 958 959 960 961 962 963 964 965 966 967 968 969 970 971 972 973 974 975 976 977 978 979 980 981 982 983 984 985 986 987 988 989 990 991 992 993 994 995 996 997 998 999 1000 1001 1002 1003 1004 1005 1006 1007 Pedro Clara Pedro Clara Rafael Clara Clara Renata Fernanda Clara Fernanda Clara Ronaldo ????? Ronaldo Clara Rafael Clara Clara Fernanda do ar pode gerar energia mecânica, e pode ser usada ou pra moer grãos ou para bombear a água, e:: a energia eólica é uma forma renovável º(e limpa)º. (1.9) Energia solar, o Brasil é: o país que mais recebe: é: (ondas de sol por ano são cerca de ) e é uma fonte praticamente inesgotável de energia e é uma forma renovável, (.) alternativa e limpa, só que, tipo assim, não tem sido muito usada, nunca foi muita- muito usada ultimamente, ºnunca foi muito usadaº. (2.4) Então, a energia solar ela pode ser considerada ( ) no caso a gente pode utilizar os (conectores) solares ( ) na caixa d’água a água vai ( ) vai passar pelo sistema de serpentinas, ai no caso a água quente pode subir ( ). º(vocês já viram isso?)º Oi? º(eu já ví pra piscina)º º( )º º( )º Eu já vi feito com garrafa pet. ((A interação acima aconteceu somente entre o professor e os alunos que estavam apresentando o trabalho, devido ao volume baixo da conversa e o barulho do ventilador próximo ao professor a transcrição desse trecho foi comprometida)) ºPode ir?º ºÃrrã ( ) O biogás, o biogás é uma espécie de mistura de gases de carbono e de metanoº, no caso, é: o metano ele não ↑tem: ele não tem cheiro não, só que quando º(ele é misturado com outros gases ele )º (2.4) ºBiomassa, a biomassa ela tem um ( ) a temperatura ela influencia na biomassa ( ) os principais produtos ( ) biomassa em energia ( ) o sistema de produção de combustível e de alimentos ( ) mas é possível produzir energia ( ) alimentos ( )º ºFernandaº,posso falar um negócio ºPode] Ai, é:: é: no início o Rafael tava falando é: aquele negócio lá de: diferentes ( )industrial ou camponesa depois é: lá [( )]= [( ) tem facebook?] [(ºtenho, por quê?º)] [(Depois você procura lá )] =[ai aqui ( ) coloca as] principais caraterísticas do sistema de produção é: da agricultura camponesa para fazer a alimergia que e a produção de alimento e de energia [( )] [( )] da cultura camponesa para fazer a energia ( ) de alimentos e de energia. ((conversa)) Psiu Sim, só para vocês se situarem. Ai, ºpode continuarº ºO modo modelo do capitalista, (ele é 127 1008 1009 1010 1011 1012 1013 1014 1015 1016 1017 1018 1019 1020 1021 1022 1023 1024 1025 1026 1027 1028 1029 1030 1031 1032 1033 1034 1035 1036 1037 1038 1039 1040 1041 1042 1043 1044 1045 1046 1047 1048 1049 1050 1051 1052 1053 1054 1055 1056 1057 1058 1059 1060 1061 1062 1063 1064 1065 1066 1067 Clara Rafael Clara Rafael Clara Rafael Clara Rafael Clara Renata Rafael Clara Pedro Clara Pedro Clara Pedro Clara Pedro Clara insustentáveis) por que (seu sistema de produção são centralizados e controlados por grupos econômicos, enquanto que o camponês sua produção é diversificada, descentralizada [( )]º [((conversa entre os membros do grupo))] >( social, técnica e econômica )< º( )º >( )< Só isso Rafael. A organização ( ) integrando várias fontes de energia. É: é junto com a comercialização ( ) então é diversificar um pouco a produção da propriedade, você pode produzir várias formas de alimento ( ) poupar energia. ( ) mais uma vez falando, primeiro local, depois nacional e se fizer isso em todos os locais vai te- vai ter energia e alimento no mun- local, [em todos os lugares] [( )] É, e ai depois vai passar por um, é: e se local precisar de: se algum outro local precisar de ( ) local vai ter, assim, pra suprir ( ) mas primeiro é: focar na economia rural. (.) Autonomia científica e tecnológica na produção e >na (geração) de semen:tes, na (pesquisa) genética bem como na pesquisa científica ( )< [(tem muitas pesquisas nessa área)] [Observações?] º(lembrando que )º [º( )º] [( )]= =Então eu quero que vocês me digam o seguinte, Sim o texto tem um viés ai, de apontar algumas técnicas: (0.2) né? Medidas alternativas e ºtudo maisº= =Ah tá. é possível (0.4) com essas técnicas (1.7) completar (1.8) as falhas, ou o: que tá incompleto (1.5) do abu- do do trabalho é::(1.8) do trabalho não, do desenvolvimento susten↑tável? Assim, [assim, eu tô tentando entender] [Com essas técnicas ai (.) é possível] corrigir (0.2) os problemas do desenvolvimento sustentável, [ajuda?] [Ô Pedro], você sabe qual que é o problema? (.) O problema do desenvolvimento sustentável não é (a produção de alimento), a gente sabe que não é isso, não é: é: é::, (desculpa) >tipo assim< se já tem (alimento suficiente) pra todo mundo, eles não vão conseguir fazer o negócio de: sustentar é: de bioenergia, problema do desenvolvimento sustentável é um monte de de: é os capitalistas visando (.) o lucro, então, tipo assim, não vai é: distribuir o: alimento tanto pra: pra: (0.3) nem vai distribuir o: o: combustível. Então, sinceramente, eu acho que o >problema< do: desenvolvimento sustentável não é questão de (2.4) de: >tipo assim< de energia tip-que não seja fóssil (.) é a- achar alguém (0.2) que vai: (1.3) investir 128 1068 1069 1070 1071 1072 1073 1074 1075 1076 1077 1078 1079 1080 1081 1082 1083 1084 1085 1086 1087 1088 1089 1090 1091 1092 1093 1094 1095 1096 1097 1098 1099 1100 1101 1102 1103 1104 1105 1106 1107 1108 1109 1110 1111 1112 1113 1114 1115 1116 1117 1118 1119 1120 1121 1122 1123 1124 1125 1126 1127 Pedro Rafael Clara Rafael Paula ????? Pedro Rafael Pedro Clara Rafael Clara Rafael Clara Pedro Clara Rafael Clara Pedro nisso (0.4) porque eles vã- é claro que eles vão investir em petróleo: e:= =Mas eles estão investindo, não estão não? Por [isso (igual a cla-)] [Mas muito menos], (não dá nem) pra- olha o quanto que eles investem em postos de petróleo pra explorar pré-sal, e olha a quantidade eles investem pra (0.2) fazer a energia solar. Então, por isso, igual a Cláudia falou, vamos supor, precisa é: ter uma campanha de educação só que, >tipo assim< precisa é: a: o desenvolvimento sustentável a gente sabe que tá, por exemplo, com (água) suficiente, principalmente se a pessoa valoriza esse valor, só que, tipo assim.. a: é: é possível com esse: com esses ºmeiosº corrigir eesses erros, (pelo menos os excessos). É difícil, por que tem uma influência muito grande do capitalismo em cima do nosso mundo, ºÉ:º é igual o: Henrique ((aluno cita outro professor)) falou uma vez com a gente sobre a questão do:: preço, (o alto custo), tipo assim, aquelas placas (.) que são usadas porque são muito caras, então não é uma coisa assim tão acessível e também ninguém tá procurando investir nisto para tornar acessível, porque ninguém quer usu- ninguém quer- [ninguém acredita nisso] [( )] [((Tosse))] [Mas então-] [No caso o] governo tem que ajudar com isso (0.2) [com estímulo] [((Tosse))] [Então tá, se o governo] juntar com essas empresas, juntarem com aquelas Sete Irmãs que existem (até hoje e estão por ai). Se elas se juntarem e falarem assim, “agora nós vamos produzir (.) agrocombustível, vamos esquecer o pe↑tróleo, vamos produzir, por exemplo, bio↑gás e (não sei o que lá) e tal”. (0.7) o mundo fica sustentável [só deles proporem?] [Não] [Não] [Não] ((Alguns negam com a cabeça)) A gente falou da [questão lá da.. dos alimentos, ( )] [(Igual a gente falou teve uma hora é alimergia [e tal) [º(Não dá, fica mais caro)º] [POR QUE (fica mais caro Pedro)?] Então tá Pedro deixa assim então. ºNos(h)sa Se(h)nho(h)raº ((Conversa)) Aqui, tem outra questão, [tipo assim], se todos investirem em agrocombustíveis essas ques- dá pra resolver esses problemas aqui. É, o país ( ) é: (0.3) ele tem a propriedade dele, ele não vai fazer um (negócio) na propriedade dele, >tipo assim< ele não vai:= =E se o cara fizer um negó- um é:: produzir soja 129 1128 1129 1130 1131 1132 1133 1134 1135 1136 1137 1138 1139 1140 1141 1142 1143 1144 1145 1146 1147 1148 1149 1150 1151 1152 1153 1154 1155 1156 1157 1158 1159 1160 1161 1162 1163 1164 1165 1166 1167 1168 1169 1170 1171 1172 1173 1174 1175 1176 1177 1178 1179 1180 1181 1182 1183 1184 1185 1186 1187 Clara Pedro Rafael Clara Rafael Clara Rafael Clara Rafael Clara Pedro Clara Pedro Clara Rafael Clara Pedro Ângela Pedro Ângela Pedro Aline Ângela Aline Pedro Aline Pedro Aline Pedro Aline Caio (0.5) né? Pra:: (.) gerar energia (1.3) e ainda aproveita o farelo da soja (0.2) para alimentar po:rcos, e tal, tá produzindo alimento também. Então resolveu o problema todo, não resolveu não? Não, º( )º [( )] [Não, (primeiro que tem a questão das água, as pessoas poluem os rios [com dejetos]= [É, tem também] =as pessoas jogam entulho= =Cachorro [e tudo] [Acaba] com a diversidade [(cultural)]= [E: é-] =com a diversidade [ambiental] [E é-] E ainda assim [vai acabar com tudo. [(Mas resolveu, ué.)] E ainda assim não vai é::, por exemplo, não vai:: é: não vai é:: vai: continuar atrapalhando os pequeno produtores= =Por quê? (0.4) Porque eles são os grandes pro(h)du(h)to(h)res. ((risos)) (Porque se acabar com biodiversidade toda fica uma coisa uniforme[ )] [Ô Pedro, eu não tô entendendo o que você quer da vida ( )] ((risos)) Por quê que não?= =↑Ô Pedro é possível, tem tudo pra ser possível (0.2) só que ninguém vai fazer isso, [nunca vai acontecer isso] [↑Uai, por quê que não?] Porque↑ quem vai querer deixar a mordomia, o dinheirinho bonitinho para poder cuidar lá dos pobrezinhos (0.4) do- do mundo. Ninguém vai querer pensar no futuro só no presente. (.) Será que isso mesmo? [Ô professo:r,] [(Para de pensar assim], são os seus alunos agroecólogos é que falam isso, ºvocê tá sendo chatoº) [Pedro:] ↑Ué, eu tô sendo chato, [mas o mundo vai ser mais chato do que eu tô sendo com vocês]. ((muita conversa entre os alunos)) Ô Pedro, eu já entendi a pergunta= Hã =É porque, tipo assim, mesmo tendo fonte alternativa, o capitalista ele vaI usa- abusa disso, ai ele vai, acaba uma (.) ai vai surge outra, ai ele vai abusar de novo, então não adianta, [entendeu?] [E por que] será que ele vai abusar? [Ele ( )] [PRIMEIRA COISA](.) mesmo que ele mu[de]= 130 1188 1189 1190 1191 1192 1193 1194 1195 1196 1197 1198 1199 1200 1201 1202 1203 1204 1205 1206 1207 1208 1209 1210 1211 1212 1213 1214 1215 1216 1217 1218 1219 1220 1221 1222 1223 1224 1225 1226 1227 1228 1229 1230 1231 1232 1233 1234 1235 1236 1237 1238 1239 1240 1241 1242 1243 1244 1245 1246 Aline Caio Luiza Pedro Luiza Pedro Clara Pedro Luiza Pedro Luiza Pedro Luiza Pedro Luiza Fátima Pedro Luiza Pedro Luiza Pedro Luiza ????? Luiza Pedro Luiza Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Clara Ângela [É] =ele mude, ele vai plan- é::: plantar só soja e milho, por exemplo, ai ele vai planta monocultura, primeira coisa é que ele não vai aceitar a reforma agrária (0.5) e ai se ele aceitar a monocultura (.) ele vai investi:r em agrotóxico, e veneno e não vai adiantar de nada, a população vai continuar passando fome ai, não vai- não vai ter alimento (0.2) de qualidade, vai investir só no: na produção disso ai (0.2) [de: (.) energia] [E tem outra] coisa,= =Hã? o negócio pode até começar a ser sustentável e tal, mas depois vai acabar se perdendo, com esse negócio de lu:cro pra ganhar mais dinheiro,[essas-] [E a reforma] agrária, você tá a favor da reforma agrária agora ou não? N(h)ã(h)o ((risos)) Não, [sem ser-] [Oh. eu não vou] falar nada, Não, sem ser o(sabe) por quê? Hã? Já é a favor ou não? ºNãoº ((risos)) Da reforma agrária, eu não tô falando do MST ↑não. ºMais ou menosº ((risos)) ºEla falou mais ou menosº Mais ou menos? (0.2) Agora, qual que é mais sustentável o agronegócio ou a: a agricultura camponesa? Sustentável? É. A agricultura camponesa Então, se você tivesse que escolher uma delas ai, você escolhe- escolheria qual (.) [para defender?] [Ah:: não,] não ((risos)) (você tem que resolver Luiza) Não vou, não vou dar minha opinião. ↑Uai, por quê? (0.5) Ah Porque::: ↓não ºvouº Não, mais uai? Ô Pedro, Hã? >igual a Paula falou< a questão, tem a energia prasolar, mas só que o [(governo tá: )] [(Energia tá barato pra produzir ai)] (eu sei que tá barato, mas tem o [preço )] [Ô Pedro, tá] cheio de gente chata no mundo que não vai fazer (nada disso) isso, pronto e a(h)ca(h)bou. [( )] 131 1247 1248 1249 1250 1251 1252 1253 1254 1255 1256 1257 1258 1259 1300 1301 1302 1303 1304 1305 1306 1307 1308 1309 1310 1311 1312 1313 1314 1315 1316 1317 1318 1319 1320 1321 1322 1323 1324 1325 1326 1327 1328 1329 1330 1331 1332 1333 1334 1335 1336 1337 1338 1339 1340 1341 1342 1343 1344 1345 1346 Pedro Clara Pedro Pedro Clara Pedro Luiza Pedro Luiza Pedro Paula Luiza Pedro Luiza Pedro Pedro Luiza Pedro Clara Pedro Caio Pedro ((risos e conversa)) Eu vou dar uma geral (0.2) volta pro lugar então que eu vou dar uma geral. ((alunos voltando para os lugares. Barulho de carteira arrastando, muita conversa e risos)) É: (você vai) perguntar mais alguma coisa? (Vão lá, vai para o lugar rapidinho) ((Muita conversa e barulho de carteiras sendo arrastadas)) Oh, é- é:: (0.4) depois eu quero que vocês, (3.2) Que vocês::?, Que vocês (0.8) pensem direitinho só (.) o seguinte (0.3) é:::, com relação às apresentações, né? As leituras, gente (.) nos slides ficam realmente uma coisa (.) meio enjoada, né? O grupo anterior ficou meio agarrado nas leituras ali, e tal, isso fica [realmente:], [ºEu não liº] Hein? ºEu não liº meio complicado. Evitar (.) as leituras. >Mas às vezes você até sabe explicar, só que chega ai na frente< com você olhando para cara da gente e fica assim “vou fazer pergunta pra ferrar com [ºelesº]”. [( )] Sou sempre bonzinho. ((risos e conversa)) [↑A::h] [Né?] Mas o- o mundo é mai:s (.) cruel do que as minhas perguntas. ((risos)) >Então olha só< e vocês::= =Então eu tô ferrada. ((risos)) E vocês como agroecólogos terão que estar preparados para isso (0.7) ainda que não trabalhem com a agroecologia. Então a primeira coisa que eu quero chamar a atenção, (0.2) vocês conseguiram vislumbrar ou entender alguma relação entre os dois trabalhos? Mais ou menos. Mais ou menos, (.) né? Então a primeira coisa que eu vou chamar a atenção pra vocês, deixa eu ver minha cola, eu também tenho que colar, olha só, nas anotações que eu fiz aqui. Tá? (.) Então, (0.2) a primeira coisa o primeiro tema era desenvolvimento sustentável (.) né? E o segundo? (0,5) Agrocombustíveis, só pra associar (0.7) tá CERTO? A se:? ((aluno faz o número dois com a mão)) Agrocombustíveis (0.5) só tocamos nisso ai (0.3) Essas du- esses dois:, essas duas situações (1.8) vão servir pra gente (.) entender como a gente vai lidar com isso ai. (2.0) Os agrocombustível SÃO apresentados pelos meios de comunicação::, pelas esco:las, e não sei o que lá, (0.2) né? em vários, em vários ambientes ai, como uma solução em conta para o desenvolvimento sustentável, ou não? Vocês já- dá pra ver essa relação? <“olha vamos produzi:r 132 1347 1348 1349 1350 1351 1352 1353 1354 1355 1356 1357 1358 1359 1400 1401 1402 1403 1404 1405 1406 1407 1408 1409 1410 1411 1412 1413 1414 1415 1416 1417 1418 1419 1420 1421 1422 1423 1424 1425 1426 1427 1428 1429 1430 1431 1432 1433 1434 1435 1436 1437 1438 1439 1440 1441 1442 1443 1444 1445 1446 Luiza Pedro Luiza Pedro Ronaldo Renata Pedro Rafael Pedro Pedro Camila Pedro Ronaldo Pedro Aline Pedro Aline Ronaldo Pedro Aline Pedro Aline Pedro Aline Pedro (0.5) biocombustíveis> para garantir o desenvolviMENTO? (0.4)sustentável” ou, como hoje em dia tá ganhando um outro nome também que que é econoMIA? (0.9) verde, tá certo? Um a-, um- uma uma atualização do desenvolvimento sustentável (0.5) a partir da (.) não só na Rio+20, mas consolidado na Rio+20, CERTO? (1.7) Ai eu vou (.) dizer para vocês, (2.2) (ºEconomia verde se refere a desenvolvimento sustentável?º) O termo de- esse termo é. ºAh [táº] [AI,] (0.2) os textos principalmente aquele ºprimeiroº vai dizer que a- o desenvolvimento sustentável e a economia verde são >saída (prática)< de quem? (2.6) Pro problema ambiental? (0.3) A quem interessa isso? (2.8) Ecologia. Agroecologia= =[Agroecologia?] [Pros ambientalistas]= =Para os ambientalistas? (3.1) REAGE AI GENTE, O PESSOAL DO GRUPO UM, PARA DE DIGITAR, CARAMBA, ESSE TROÇO ESSA MENSAGEM, E FALA AI. ((Uma aluna do grupo I estava digitando mensagem no celular)). Quem que (.) propôs o desenvolvimento sustentável? (4.5) º(h)Ai(h)ai(h)º Quem? (1.3) Revolução verde. A revolução verde, ((riso)) é ela? (1.3) Quem que foi pô? Quem que foi? ºNão seiº Foi o FMI junto lá com (aquele outro banco)? Foi o Banco Mundial? ºBanco [Mundial:º] [Rio+20] É? Quem que quem que elaborou o: o:: relatório Brundtland lá? (0.4) Quem é que elaborou aquilo? (ºForam ( ) e essas empresas aiº) ESSAS EMPRESAS, então isso é uma coisa que tem que ficar bem claro vou até deixar uma cola no quad- no quadro- no quadro aqui (0.3) <Capita::l> (1.4) Tá certo? A sociedade nossa, a partir de agora, tá simplificada (1.5) simp- e- esse daqui são os (0.6) operários, que trabalham onde? ((O professor escreve no quadro as palavras Capitalistas e operários)) <Nas fá[bricas]> >[Nas fábricas] de quem?< (1.4) ºDos capitalistasº= =>Dos capitalistas< E tem também (.) um outro (1.9) e-esses operários, e tem aqui também os: <camponeses> (0.5) que vend- uma par- uma parte da 133 1447 1448 1449 1450 1451 1452 1453 1454 1455 1456 1457 1458 1459 1460 1461 1462 1463 1465 1466 1467 1468 1469 1470 1471 1472 1473 1474 1475 1476 1477 1478 1479 1480 1481 1482 1483 1484 1485 1486 1487 1488 1489 1490 1491 1492 1493 1494 1495 1496 1497 1498 1499 1500 1501 1502 1503 1504 1505 1506 1507 Aline Pedro Aline Pedro Paula Aline Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Ronaldo Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Caio Cláudia Pedro da produção é deles e a outra parte eles vendem pra quem? ((Professor escreve no quadro a palavra camponeses)) ºCapitalistaº= =Pro capi:talista, que é dono de quê? ºDos supermercadosº= =Dos supermercados, das transnacionais que vãoentão esse camponês vai pro- produzir fumo vai vender lá para a Souza Cruz, que uma empresinha de quintal ai, não é verdade? A Souza Cruz, ou não? (1.2) Uma gigantesca empresa na produção de cigarros no mundo, e vai (0.4) produzir cigarros, então, essas (.) essas classes estão relacionadas, quem propôs o desenvolvimento sustentável, esses, esses ou ESSES? ((professor aponta com mais ênfase para a palavra capitalistas)) >ºAquelesº< Aqueles lá ((aluna aponta para os camponeses)) ↑É? >(Esse de cima não é o do capital?)< Esse daqui ºe não essesº ((Professor aponta no quadro a palavra capitalistas)). Por quê? [(como assim)?] [Porque eles] vão falar assim, “opa! estamos num mundo finito, (0.4) recursos finitos” (0.2) ai:: vão deixar de ser capitalistas?(.) NÃ:O:: (0.4) Ele vai propor o seguinte, <“no lugar::”>, Você que escreveu isso aqui? ((conversa paralela)) Psiu, Ronaldo “no lugar (0.5) da crise, do problema ambiental que nós estamos vivendo tem uma saída”, qual que é essa saída? (0.2) DesenvolviMENTO? (0.4) sustentável. “Vamos manter o capitalismo, só que vamos ser o quê? (1.8) <Susten[táveis”>] >[(ºIsso meio] que impede o progresso, né?º)< Fala mais alto, como é que é? Isso ai que impede o progresso dos (0.3) camponeses, eles não podem se desenvolver porque (.) tem que preservar, tem que preservar, (.) então, só os que estão lá º(no lucro) que vão (ganhar)º E mais do que isso. Eles vão preservar mesmo? Quem? Os capitalistas= =>Claro que não< Não (.) ºóbvioº E porque que lá fala assim (0.2) que esse- essa:: ºquestão dos capitalistas atrapalham as medidas pra:: controlar o aquecimento global (e essas coisas)º? Então tá, porque o capitalista que que vai- aí, então, >outra coisa que eu vou resolver, vou mostrar para vocês< (0.2) vamos dar nome, mesmo que seja nome assim ↑oh (.) aos bois. Que que é isso? Não dá para falar assim (0.4) <“↑a:h a sociedade é culpa:da, nós somos culpa:dos, temos que economizar água”> (.) não adianta, (agir assim), como se to:dos nós tivéssemos a mesma culpa (0.2) não 134 1508 1509 1510 1511 1512 1513 1514 1515 1516 1517 1518 1519 1520 1521 1522 1523 1524 1525 1526 1527 1528 1529 1530 1531 1532 1533 1534 1535 1536 1537 1538 1539 1540 1541 1542 1543 1544 1545 1546 1547 1548 1549 1550 1551 1552 1553 1554 1555 1556 1557 1558 1559 1560 1561 1562 1563 1564 1565 1566 1567 Rafael Pedro Rafael Caio Aline Pedro Caio Rafael Pedro Aline Pedro Aline Pedro Rafael Aline Pedro Rafael temos, (2.5) tá certo? Não dá para colocar a gente (0,5) num pacotão,( ) (1.3) <“↑a agricultura destrói”>, (.) que agricultura? (1.5 )A do Sr. Zezinho lá do do:: (0.5) né? (0.3) De Rosário da Limeira? (1.2) Ou (0.4) a do que cultiva a soja lá do do:: (0.7) Mato Grosso? (.) Qual delas? Tem quetem que dar nomes a- aos bois corretamente. (.) Então, <e outra coisa> para completar (.) aí (0.2) vamos ligar aqui, com esse capital aqui (.) ele tá visando o quê? (1.2) ºLucroº <O lu:cro>. E por visar o lucro ele tá produzindo o quê?(0.6) <Mercadoria>, não é verdade? (1.9) Sim ou não? [Sim] [Sim] [Sim] ((alguns confirmam com a cabeça)) (2.2) Essa produção de mercadoria ali (0.4) transforma ↑tudo em mercadoria, (1.2) TUDO. (2.5) Desenvolvimento sustentável, qual que é a preocupação dele? (0.5) Transformar o que era ameaça, (0.2) ou seja, existe um impacto ambiental sendo causado. Só que vai virar aque- aquele impacto ambiental vai virar o quê? (1.8) Mercadoria. Tudo então, a solução, é o mercado que vai resolver. (0.9) Então (.) ↑ho:je, no quadro atual Rio+20, (1.2) economia verde, dentro dessas economias verdes tem lá escrito lá (.) tá falando, assim oh. <“merca:do de déficit de carbo:no”>, eu já falei para vocês, não já? Né? [Já] [Já] Então (0.4) esse mercado de caborno o que que é? (2.1) Eu preservo (0.4) para deixar o fulano de tal, capitalista, destruir. (0.5) QUANTO MAIS o mundo estiver destruído (0.7) mais eu tô preservado (pela lenha) na bolsa de valores (.) tá sendo negociado, [ºQuem?º] [Isso] é solução do- >através de quem?< ºDo mer[cadoº] <[Do mer]cado> (0.7) certo?= =[Isso ai?] [Agora espera], quem que::m? ↑Oh. eu tenho uma fazenda e mantenho lá minha florestinha em pé lá, na minha propriedade, como moeda ( ) e fiscal, entendeu? E compro o meu crédito lá (não queimo, nem vou poluir vou viver de maneira pra deixar minha floresta em pé lá). No caso quan- quanto mais todos os outros capitalistas poluir (.) mais eu vou gostar, afinal de contas mais vai valer na bolsa de valores, a bolsa visa só isso (0.5) né? A minha fa- a minha florestinha em pé. [( )] [Ô Pedro, >igual] no caso ai (.) pensando nana diversidade igual você falou, por que você, no caso, tá preservando só que você não vai poder 135 1568 1569 1570 1571 1572 1573 1574 1575 1576 1577 1578 1579 1580 1581 1582 1583 1584 1585 1586 1587 1588 1589 1590 1591 1592 1593 1594 1595 1596 1597 1598 1599 1600 1601 1602 1603 1604 1605 1606 1607 1608 1609 1610 1611 1612 1613 1614 1615 1616 1617 1618 1619 1620 1621 1622 1623 1624 1625 1626 1627 1628 Pedro Rafael Pedro Rafael Caio Pedro Caio Pedro Caio Pedro Cláudia Pedro Rafael Pedro ????? Pedro continuar suas outras atividades, vai ter que controlar, tem gente monitorando, se essa questão [( )]< [Não tem mais] autonomia= =>Igual a gente falou (diversidade total)< (.) acaba [com isso] [É, então,] então, e a solução aqui, então, tá vindo através do mercado (0.4) e o mercado no final das contas tá visando o quê? (.) O lucro. <Se (.) por aca:so qualquer (0.2) as pessoas (.) ou a natureza (.) estiver- estiverem no caminho do lucro (0.5) que que vai acontece:r?> (1.4) O capitalismo vai escolher as pessoas, a natureza, ou o LUCRO? [O lucro] [lucro]= =Que que vocês acham? Vai passar por cima [das pessoas] [Então não dá] para ser ingênuo não gente, (0.6) capitalista é do capeta mesmo, é um capetalismo mesmo (0.4) não é ingenuidade, vai fazer GUERRA gente, guerra é o maior investimento do capitalista que existe, morre gente, e você vai falar assim, “ai- >(↑ah, achei que o capitalismo fosse outra coisa)”< Infelizmente, (0.4) por mais boa vontade que vocês tenham (.) eu também acreditava (0.8) nisso (0.5) achava que era possível, CERTO? E (.) a- a péssima notícia que eu tenho que dar para vocês (0.2) é que (.) <a educaçã:o, a conscientização dessas pessoas (.) é (.) im(.)pos(.)sível>. [Não é possível )] [(A conscientização é impossível] como assim?) <↑A:::h vamos conscientiza::r o desenvolvimento é importante> (0,2) Não tão nem a↑í pra conscientizar, (.) [imagina só, ↑eu] [º( educação individualista )º] Não tem:, não tem jeito [pra isso não.] [>(Mas pelo menos pode] funcionar como uma coisa local [porque)<] [(Ai você] imagina só), você vai esp- esperar que esse capital fala assim, (.) <“↑ah:: vamos educar o capital pra ele se- para ele conservar”> (.) né? (0.5) Como é que faz isso? (0.8) Hum? Capital que faz guerra, mata, gente, vai ser eeducaDINHO?, (1.2) vai ser camaradinha?“↑Ah::, tão humanista, tão camarada, tão gente boa esse capitalista”. Pode ser pra uns lá, (0.2) muito legal de pensar (0.5) mas a lógica dele, é o LU:CRO (0.7)e por causa disso ele vai passar [por cima de tudo]= [ºPedroº] =só pra- é: pra completar aqui. A questão (1.7) do- do lucro, (.)uma boa parte dessas empresas estão aonde? Na bolsa de valores, (sendo investidas) em a↑ções, (0.2) se vocês, (.) qualquer um de vocês, (.) ganhar um dinheiro e resolver se tornar capitalistas (0.5) comprar ações (0.4) da Petrobrás, na bolsa de valores, (0.6) comprarão ações da Petrobrás, vocês estão querendo o que MESMO? 136 1629 1630 1631 1632 1633 1634 1635 1636 1637 1638 1639 1640 1641 1642 1643 1644 1645 1646 1647 1648 1649 1650 1651 1652 1653 1654 1655 1656 1657 1658 1659 1660 1661 1662 1663 1664 1665 1666 1667 1668 1669 1670 1671 1672 1673 1674 1675 1676 1677 1678 1679 1680 1681 1682 1683 1684 1685 1686 1687 1688 Caio Renata Pedro Renata ????? Pedro Rafael Renata Caio Pedro Renata Pedro Rafael Renata Pedro Caio Pedro (.) Vocês são capitalistas agora. Tão querendo o quê? O [lucro] [Lucro]= =O que que a Petrobrás produz? ºPe[tróleoº] [ºPetróleoº]= =>Extrai petróleo, refina, então, petróleo<, que é uma? (0.4) Mercadoria. Vocês compraram aqui pensando em quê? ºLu[croº] [ºLucroº] [ºLucroº]= =LUCRO. (0.2) <De repente>, (1.5) ai a Dilma (.) faz parte, ela quem nomeia quem comanda a Petrobrás e tal. Ai a Dilma toma uma decisão política (0.4) e fala assim, “a partir de agora”, (.) né? ↑Vocês tão pensando assim “Nossa! tem o pré-sal ai gente, vamos ficar ricos, (imagina quanto que estas ações estão valendo)”, certo? (Tá todo mundo doido) no Brasil com o pré-sal, mas ai (0.8) chega uma decisão da Dilma que fala assim, <“vou criar uma empresa para explorar (0.5) o pré-sal que não é a Petrobrás”>, tá certo? (.) “Petrosal”, tá certo? Existe uma proposta dessa. Certo? (1.8) Existe isso, uma proposta de uma empresa dessa para explorar o pré-sal, (0.3) uma outra Petrobrás, né? Uma outra empresa. Vo:cês:: como capitalistas, >o que é que vão fazer? < E ai a Dilma vai falar assim oh, (.) “essa empresa do pré-sal, a Petrosal vai destinar, tudo que arrecadar vai ser dividida pelos esta:dos (.) pra combater a desigualdade social a pobreza e blablablá e vai pro- 10% do PIB pra a educação” (0.2) todos vocês que são estudantes e que estão aqui (.) acham que seria uma boa ideia (0.5) mas vocês não são mais estudantes, vocês são o quê? Acio[nistas] [Acionistas da Petrobrás]= [Ô Renata, você quer me vender suas ações?] [( )] =e ai vocês vão pensar assim, (.) “aquele lucro que eu ia ter com as a↑ções (.) não vou ter mais”. O que que vocês vão falar? (1.1) <“Maldito governo que fez isso.”> (1.4) Imagina então o que que acontece com essas empresas? [será]= [Vai] todo mundo vender as ações. =Se- será que dentro dessa lógica empresarial ai, (1.2) o cara que- é dono de ações (0.4) de empresa de petróleo (0.5) ele não quer nem saber o que cara lá poço tá fazendo, (.) polui:ndo, ele não quer saber. (0.2) Ele quer saber do lucro dele. (0.2) No final do ano ele vai chegar lá na bolsa e vai falar assim, “qual foi minha valorização das ações que eu tenho?” (1.4) NÃO VALORIZOU? Ele vai: comentar junto lá com o 137 1689 1690 1691 1692 1693 1694 1695 1696 1697 1698 1699 1700 1701 1702 1703 1704 1705 1706 1707 1708 1709 1710 1711 1712 1713 1714 1715 1716 1717 1718 1719 1720 1721 1722 1723 1724 1725 1726 1727 1728 1729 1710 1711 1713 1714 1715 1716 1717 1718 1719 1720 1721 1722 1723 1724 1725 1726 1727 1728 1729 Caio Pedro Rafael Renata Caio Pedro Rafael Pedro Renata Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro conselho da- da- da empresa (0.7) mandar aqueles administradores embora, “fulano de tal (vai embora)”, “mas por quê?” Por que não fez o quê? (0.7) ºLucroº (0.8) Simples, (1.5) esta que é a lógica do capital (0.6) produzir lucro (0.4) valorizar mais, gerar mais capital (0.2) isso que é a lógica. Então (.) se o capitalista não fizer isso (.) o que é que acontece com ele? (1.6) O Sr. Zé ali da esquina, do armazém da esquina (0.5) se o capital dele não virar mais capital daqui um tempo (.) o que é que vai acontecer com ele? [(ºVai fechaº)] [fali] [ºQuebraº]= =Quebra (.) então, ele vai falar assim, “eu sou bonzinho, eu sou gente boa (1.3) mas sou antes de tudo o quê”? (1.8) ºCapitalistaº= =Capitalista (0.7) e por i:sso ele vai colocar o preço mais caro, ele pode ser muito camarada seu, ué (.) muito gente boa (0.2) mas no final das contas ele tá querendo o quê? (0.4) O lucro. Essa que é a lógica (0.3) Ele vai quebrar seu galho, el<“↑a::h paga quando você puder”> (.) tá numa dureza danada, “paga quando você puder”. ELE pode fazer isso com qualquer pessoa (0.4) mas se- eessa lógica se- de solidariedade se estabelecer aqui, (.) [o que é que acontece com ele?] [É igual aquele provérbio] amigos amigos, negócios à parte. ((risos)) É exa- a Renata falou (.) [isso] [(Mas é isso], assim, é o que algumas empresas preferem), algumas empresas escolhem essa forma de ação no mer[cado]= [AI] =para valorizar a empre:sa, e ganhar mais consumidores, [cobrar depois] [Entra no] site de qualquer uma dessas grandonas ai (.) e tem lá o quê? (0.3) Programa de sustentabilida:de, meio ambie:nte, aquela palhaçada toda, lá= [( )] =[Aí: falta a gente] trazer para cá (0.7) pra terminar nossa conversa. (1.6) Essas categorias aqui ((professor se refere às palavras capitalistas, camponeses e operários))(1.3)esses que estão até agora excluídos dessa- (1.6) desse modelo aqui, só têm uma coisa a fazer (0.5) ele:s, (.) né? (0.4) Tomarem o poder de alguma maneira, assumirem as rédeas disso aí. (0.2) Aí vocês vão falar assim, <“↑a:h mas isso é 138 1730 1731 1732 1733 1734 1735 1736 1737 1738 1739 1740 1741 1742 1743 1744 1745 1746 1747 1748 1749 1750 1751 1752 1753 1754 1755 1756 1757 1758 1759 1760 1561 1762 1763 1764 1765 1766 1767 1768 1769 1770 1771 1772 1773 1774 1775 1776 1777 1778 1779 1780 1781 1782 1783 1784 1785 1786 1787 1788 1789 Pedro Caio Rafael Pedro Caio Pedro caio Pedro Caio Professor Caio Professor Caio Professor Caio Professor Caio Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Caio Pedro Caio Pedro Caio Pedro Caio Pedro Rafael Pedro sociali:smo”>, essas coisas assim. Não tem jeito do capital ser sustentável gente, isso que eu queria deixar claro para vocês= [((Conversa))] =vocês podem ser capitalistas à vontade (0.4) MA:S, se- se me convencerem de que o capitalismo consegue ser sustentável (.) estarão de parabéns= =NÃO, mas o: se o camponês (0.2) propor um desenvolvimento sustentável, (.) assim (.) é lógico que no início ele vai ser só local, mas se ele conseguir um regional e um mundial (.) aí sim, vai ser [(possível)]= [( )] =Aí eu pergunto, é capitalismo assim? (1.9) Hã? Isso é capitalismo? ºIsso vai depender, ↓uaiº= =Se o camponês no caso- o camponês no caso (1.2) o modo de vida do camponês im- supõe (0.5) que ele vai produzir primeiramente para quem? Pra família= =Pra ele, pra família dele (0.7) E: o excedente, o que é que ele faz? Ele vende= =[Ele vende], [ou troca]= =mas o objetivo do camponês= (0.4) É alimentar a [ºfamília deleº] =[É: (0.2) a ]subsistência dele e da família (.) e: de onde ele cultiva e trabalha (0.8) se ele destruir a- a- a rua a roça dele a- a área em que ele trabalha o que é que acontece com ele? Acabou, uai.= =Acabou,= (0.7) [ºmas aíº]=[Ele dei]xa de ser camponês. E vai acabar interferindo no bem estar pessoal dos capitalistas. Mas aí se esse camponês, então, ele vai pegar o excedente dele (0.2) e vai colocar à venda (0.5) mas a lógica dele (1.6) do camponês (.) é o LUCRO que ele está visando? Não, [ºele tá visan-º] [O lucro é um] <eleme:nto>= Então =em deco[rrência] [>O desenvolvi]mento sustentável< proposto pelo capitalismo (.) é que o camponês passe a pensar (.) no lucro e não na subsistência. Mas, é- essa é a lógica. A partir do momento em que ele vai pensar no lucro ele vai pa- parar de ter a biodiversidade vai passar também pra monocultura [( )]= [Usar o] vene:no =É (0.3) aí desandou tudo. [Então], [>E outra] coisa um sistema [(grande de planta-)<] [E eles estão, e-] e o capitalista tá conseguindo fazer isso (0.9) por 139 1790 1791 1792 1793 1794 1795 1796 1797 1798 1799 1800 1801 1802 1803 1804 1805 1806 1807 1808 1809 1810 1811 1812 1813 1814 1815 1816 1817 1818 1819 1820 1821 1822 1823 1824 1825 1826 1827 1828 1829 1830 1831 1832 1833 1834 1835 1836 1837 1838 1839 1840 1841 1842 1843 1844 1845 1846 1847 1848 1849 Caio Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Caio Pedro Rafael Pedro isso é que a <agroecologi:a> (0.5) tem uma tarefa gigantesca (.) de (0.2) convencer esse cara aqui, ((apontando, no quadro, para a palavra camponês)) e falar assim, “opa, (1.5) O caminho (0.2) não é esse (0.5) se você cair no caminho do capita:l” (0.4) né? “A- a sua própria sobrevivência, enquanto (0.5) pesso:a, cap- camponês está amea↑çada”. [Ô professor, ºe pro pobre, vamos supor-º] [(ºPedro, qual o lugar que já implantou] a reforma agrária?º) Qual é o lugar? É. Tem um monte e um punhado ai, é só você acessar na internet no site mesmo do MST, que a: Luiza não vai querer ver (.) no site do MST tem um monte, um punhado de assentamento (0.2) com base justamente na agroecologia. Tá, >mas esse (tipo de assentamento) é só no Brasil?< No Brasil= =E em outros países tem também? Outros países [também] [(Nenhum país] conseguiu implantar nele todo)? Fez a reforma agrária? (0.4) Um monte uai, Israe:l, Estado Unié:: (2.6) é:: na Chi:na, né? Um monte de lugar [na::]= [Tudo] país socialista? =Entendeu? Um monte.(1.3) Vários [países fizeram] [(Acontece em)] país capitalista também? É, isso [acaba desvirtuando], né? [( )] Mas só que quer dizer (0.3) a reforma agrária (0.5) anão precisa, necessariamente, ser (0.7) socialista (0.4) certo? ºSimº Né? (1.2) Dá- dá pra fazer reforma agrária dentro do capitalismo, só que is- isso (0.8) só a reforma agrária (.) já apavora quem? (1.5) ºOs [capitalistasº] [O capitalista] Os capitalistas, aqui no Brasil, falar em reforma agrária (0.2) é falar um palavrão gigantesco (0.7) né? >Pra vocês terem uma ideia< (2.1) os índices de produtividade aqui no Brasil, dá (.) pra calcular se a área é produtiva ou não? são de mil novecentos e setenta e poucos, setenta e cinco se não me engano (0.5) tem uma proposta do governo de atualizar (.) aqueles índices a cada ano, [no caso a tantos anos]= [No Brasil, esse trem nunca vai sair] =ai se atualizar (2.0) o que é que acontece? (.) Algumas em- algumas propriedades vão ter que ser (.) consideradas improdutivas, ou seja, vão poder ir para a reforma agrária. (0.2) 140 1850 1851 1852 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 1861 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 1871 1872 1873 1874 1875 1876 1877 1878 1879 1880 1881 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 1891 1892 1893 1894 1895 1896 1897 1898 1899 1900 1901 1902 1903 1904 1905 1906 1907 1908 1909 1910 ????? Caio Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Caio Pedro Caio Pedro Só que Kátia Abreu: (0.4) vocês já ouviram falar, O que que acontece com Kátia Abre? (.) Ela e outros latifundiários são contra a revisão des- desse índice de produtividade. Mas eu pergunto para vocês (0.8) o agronegócio não é produtivo? (1.2) Eles não falam que são (0.9) campeões em produtividade? (1.4) Como é que eles não ↓querem- não aceitam atualizar os índices? ((risos)) ºNão quer repartir, uéº Entendeu? (1.2) Essa é a lógica que tem que- passar pra gente. E- a última palavra para vocês (0.4) a última (.) pra guardar (0.5) essa mentalidade aqui ↑oh, (.) do capita:l, do: latifundiário brasilei:ro que é contra (.) a: reforma agrária (0.7) todas elas (.) têm haver com uma palavra que tava lá no grupo da- no grupo um, então ↑oh, polonização, (2.2) o que que é? (0.5) Nós- nós temos uma mentalidade, nós e ai vamos falar nós também, né? Nós subalternos de- ser polônia, de se apoloniza:r (.) como que é isso? (1.4) Então gente, ↓ah:: as saídas que a gentealguns pequenos enxergam para o problema, ainda são saídas (.) polonizadas (0.8) >(por exemplo), o desenvolvimento sustentável< (0.5) pode estar parecendo uma saída (.) mas é uma saída que veio da onde? (0.4) Do Banco Mundial, do FMI, do Estados Unidos, das grandes empresas (1.5) tá vindo de lá: (0.2) e isso é o quê? (1.3) Polonização. A mídia não fica sabendo ( )? A mídia tá do lado do capital. Então,[porque ela tem bilhões] [Tá juntinho do capital], juntinho (.) Então a saída, pra tá arrumando saídas, alternativas verdadeiras. A primeira coisa é o quê? Não sermos polonizados, igual quem? (1.4) Os latifundiários, os (painhos), né? (0.5) O:s empresa:rios, e tudo mais. (Mas isso é uma questão ideológica, igual o poder da influência ideológica da mídia, então, isso que eu falei, e ai vem o capitalismo e impõe o sistema dele) Então, na verda- na verdade é o capitalismo que tá fazendo a mídia ser dessa maneira, (1.3) entendeu? [( )] [Ai só pra comple-] Isso ai tem haver com a formação das consciências, filho. (ºAi, não tem como controlar isso não?º) (Nã:o, ai tem) uma palavra que tava no grupo da: 141 1911 1912 1913 1914 1915 1916 1917 1918 1919 1920 1921 1922 1923 1924 1925 1926 1927 1928 1929 1930 1931 1932 1933 1934 1935 1936 1937 1938 1939 1940 1941 1942 1943 1944 1945 1946 1947 1948 1949 1950 1951 1952 1953 1954 1955 1956 1957 Rafael Pedro Rafael Pedro ????? Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro Rafael Pedro ????? Pedro Pedro Cláudia, a hegemonia (0.3) né? (.) O que que é a hegemonia? (1.7) É justamente quando (0.4) uma cla:sse, ou uma pessoa, ela (.) detém o poder e esse poder (0.7) ela tem duas coisas que pode fazer para manter aquele poder, pra pegar essa hegemonia (permanente). Hegemonia é o domínio, né? É o domínio, (.) né? Então (ela vai poder fazer) duas coisas ou ela convence ou ela toma a força (1.2) certo? Então (0.8) aqui no Brasil (0.5) chegou um momento, lá nos anos sessenta, que não tava dando pra convencer mais os trabalhadores, o que que ela fez o que? ( ) Usou da força. Hoje tá dando para convencer? (0.5) Tá, usou o Lula, a Dilma e tal, o Lula veio lá do: do: operaria:do, né? Tá fazendo um modelo diferente do capital? (1.3) Não. (>A- mí- tá usando a mídia<) tá precisando usar a força?= In(h)fe(h)liz(h)men(h)te =Não. Tá fazendo o quê? (2.2) Convencendo as pessoas, um consenso, (0.2) se precisar, se pordesandar, os camponeses, ou os operários avançar na luta deles, o que é que vai acontecer? (1.7) [( )] [( )] [Usa a força]. (O Lula não ajudou os operários das empresas não?) O Lula? É. Muito pouco. Então o meio (modificou a pessoa) Hu:m, mais ou menos isso ai, eu acho que ele já tava- tava modificado antes [( disso acontecer)] [Não, mas de qualquer] jeito ele usou como lema, sou do povo e ai, É, só que eles já tinham usado isso antes e não deu certo. ((O sinal do final da aula bate e os alunos guardam o material e saem conversando)) Tchau professor. ((alunos conversando)) Oh, um abraço para você:s. (3.1) Quem faltou foi a::: ((Alunos conversando e saindo)) Eu vou voltar à tarde, eu vou almoçar agora e vou voltar. 142 143