Física para Ciências Biológicas Ignez Caracelli Capítulo 6 Termodinâmica 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. INTRODUÇÃO TEMPERATURA E ESCALAS TERMOMÉTRICAS USUAIS ESTUDO DOS GASES ENERGIA INTERNA TRABALHO PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA O CICLO DE CARNOT ALCANCE DA TERMODINÂMICA E SEUS ENFOQUES PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA E CONSERVAÇÃO DE ENERGIA TROCAS DE CALOR NAS REAÇÕES QUÍMICAS A NATUREZA ISOTÉRMICA DOS PROCESSOS CELULARES ENTROPIA (S) E SEGUNDA LEI OLHANDO O SISTEMA VARIAÇÕES DE ENERGIA LIVRE EM SISTEMAS BIOLÓGICOS ENERGIA LIVRE E CONSTANTE DE EQUILÍBRIO VARIAÇÕES DE ENERGIA LIVRE EM CONDIÇÕES NÃO‐PADRÃO CATÁLISE E ENERGIA DE ATIVAÇÃO SISTEMAS ABERTOS E FECHADOS EXERCÍCIOS REFERÊNCIAS Capítulo 6 TERMODINÂMICA 1. INTRODUÇÃO A área da física que trata dos fenômenos que envolvem transferência de calor entre corpos em temperaturas diferentes é a termodinâmica. Da mesma forma que para tratar de fenômenos do ponto de vista da mecânica foi necessário definir conceitos tais como massa, força, entre outros, também agora é necessário a definição de conceitos como temperatura, calor e energia interna. As leis da termodinâmica apresentam relações entre fluxo de calor, trabalho e energia interna de um sistema. Para estudar um sistema sob esse ponto de vista, é necessário escolher grandezas observáveis convenientes que permitam descrever o comportamento global desse sistema. Assim, no estudo de um gás, é conveniente definir parâmetros como pressão, volume e temperatura. Para estudar um sistema biológico e seus processos, é importante definir o conceito de energia livre. Com este conceito, dentro da área denominada bioenergética, pode-se entender, por exemplo, processos metabólicos e suas reações, a ordem em que essas reações ocorrem, e se ocorrem ou não. Iniciamos este capítulo definindo temperatura, fazemos um resumo de teoria de gases, e passamos às leis da termodinâmica. Terminamos com a aplicação da termodinâmica aos sistemas biológicos. 2. TEMPERATURA E ESCALAS TERMOMÉTRICAS USUAIS Temperatura No dia-a-dia, podemos dizer que temperatura indica quão frio ou quente um corpo está. Esta idéia não tem exatidão ou precisão. Alguém pode decidir esperar para começar a tomar a sopa que está no prato porque se encontra muito quente, enquanto outra pessoa pode achar que já se encontra à temperatura ideal para começar a degustá-la. Em um dia encontramos pessoas vestidas das mais diferentes maneiras, porque a uma parece que o dia está frio, e se encontrará agasalhada, enquanto que outra, à mesma hora e no mesmo local, encontra-se menos abrigada porque o dia lhe parece quente. Por isso, o uso de termômetros é importante: não importa o que parece a cada um, existe uma escala de Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 86 temperatura. Diante do termômetro a uma dada temperatura cada pessoa pode sentir uma sensação biotérmica diferente, para a mesma temperatura. Dentro do rigor científico, não podemos achar que está quente ou frio; devemos apenas indicar a temperatura e isso pode ser feito com uso dos termômetros. Podemos dizer que a temperatura indica o grau de agitação das partículas (átomos ou moléculas) que constituem o corpo, isto é, quanto maior o estado de agitação das partículas, tanto maior será a temperatura. Quando dois corpos são colocados em contato, cada um deles a uma dada temperatura, dizemos que os corpos estão em contato térmico se for possível a troca de calor entre eles, na ausência de trabalho macroscópico de um sobre o outro. O calor fluirá do corpo de maior temperatura para o corpo de menor temperatura. Quando não houver mais diferença de temperatura entre os corpos, dizemos que atingiram o equilíbrio térmico. Devemos salientar que o tempo para os corpos atingirem o equilíbrio térmico, depende da natureza dos corpos e da possibilidade de troca de energia entre eles. Vamos agora considerar três corpos A, B e C. Se A está em equilíbrio térmico com C e se B também está em equilíbrio térmico com C, dizemos que A e B estão em equilíbrio térmico entre si. Este resultado é conhecido como lei zero da termodinâmica. Lei Zero da Termodinâmica: Se A está em equilíbrio com C e B está em equilíbrio com C, então A e B estão em equilíbrio térmico entre si. Escalas Termométricas Para medir a temperatura de um corpo usamos um termômetro. Devemos observar que ao introduzir um termômetro em um sistema para efetuar a medida de temperatura, já estamos modificando o sistema, pois, a tendência é que o termômetro entre em equilíbrio térmico com o corpo, e que a temperatura do corpo e do termômetro sofram uma variação com relação à temperatura inicial. Esta é uma ideia importante, porque sempre que tentamos efetuar medidas sobre um sistema, provocamos mudanças no sistema, mesmo que pequenas (quaisquer que sejam as medidas, não somente medidas de temperatura). Os termômetros são dispositivos usados para definir e medir a temperatura de um sistema. Uma escala de temperatura é construída a partir da medida da variação com a temperatura de alguma propriedade física do sistema que podem ser: a variação do volume Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 87 de um líquido, a variação do comprimento de um sólido, a variação da pressão de um gás a volume constante, a variação do volume de um gás a pressão constante, a variação da resistência elétrica de um condutor, a variação da cor de um corpo muito quente. O termômetro mais usado no dia-a-dia é o termômetro de mercúrio, onde se mede a expansão térmica sofrida pelo mercúrio. Termômetros como esse, geralmente não apresentam precisão nem exatidão. Em um laboratório, quando se necessitam medidas de precisão e exatidão são usados outros tipo de termômetros, como os termômetros que utilizam termopares (um dispositivo no qual uma junção de medida formada por dois metais ou ligas, é colocada em um sistema em que se deseja fazer a medida da temperatura e outra junção é colocada em um sistema-referência de temperatura constante; pode-se a partir do dispositivo estabelecer uma curva de calibração entre a força eletromotriz que aparece devido à diferença de temperatura entre a junção de medida e a junção de referencia, e a temperatura) usados para temperaturas de 180C a 400C quando a junção é cobre/constantan, e de 0C a 1500C quando a junção é platina/platina-ródio; termômetro de resistência de platina, usados aproximadamente de 14 K até 900 K; termistores, usados aproximadamente de 50C até 100C, muito utilizados em termômetros clínicos de leitura digital e em diversas aplicações biológicas. Os termômetros a gás usavam originalmente como pontos de calibração os parâmetros físicos de ponto de fusão da água e o ponto de ebulição da água. Dessa forma foram construídas as escalas Celsius (em homenagem a Anders Celsius, 1701-1744) e Fahrenheit (em homenagem a Gabriel Daniel Fahrenheit, 1686-1736). Uma escala, usada às vezes na Grã-Bretanha é a escala Rankine (em homenagem a William McQuorn Rankine, 1820-1872), que se relaciona com a escala Fahrenheit pela relação temperatura rankine = t F + 459,67. Relação entre as Escalas Celsius e Fahrenheit A escala Celsius está dividida em 100 partes iguais entre o ponto de gelo (0C) e o ponto de vapor (100C), enquanto a Escala Fahrenheit compreende 180 partes iguais, entre esses mesmos parâmetros físicos. Pelo fato de a escala Celsius ser dividida em 100 partes iguais era chamada de escala centígrada, mas essa denominação foi abolida em 1948 quando a Conferência de Pesos e Medidas decidiu que o nome devia ser modificado. Tomando as relações : 88 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli se obtém: ou Escala Kelvin ou Escala Absoluta Outra escala usada, a escala de temperatura termodinâmica, é aquela cuja unidade básica é o kelvin (em homenagem a lorde Kelvin, sir William Thomson, 1824-1907), mas sua calibração não é feita em termos dos parâmetros físicos de ponto de fusão e o ponto de ebulição da água, mas sim definida em função do ponto triplo da água ponto que corresponde à uma única temperatura e pressão em que a água coexiste em forma de líquido, gelo e vapor, onde a temperatura é 0,01C e a pressão é igual a 0,61 kPa. A temperatura do ponto triplo da água nessa escala vale 273,16 K. O kelvin é definido como 1/273,16 da temperatura do ponto triplo da água. A temperatura Celcius tC(C) está deslocada por 273,15C em relação à temperatura absoluta (ou kelvin) T(K), pois por definição 0,01C corresponde a 273,16 K. Dessa forma: T(K) = tC(C) + 273,15C 3. ESTUDO DOS GASES SÓLIDO LÍQUIDO FORMA Constante Varia com a forma do recipiente VOLUME Constante INFLUÊNCIA DA PRESSÃO Não provoca variações de volume INFLUÊNCIA DA TEMPERATURA Alterações de temperatura provocam “pequenas” alterações de volume GÁS Varia com a forma do recipiente Varia com o volume do Constante recipiente Volume bastante “Ligeiramente” compressível variável; pode ser comprimido e expandido Alterações de Alterações de temperatura temperatura provocam provocam “ligeiras” alterações “significativas” de volume alterações de volume Apesar de não enxergarmos as unidades constituintes das substâncias, poderíamos fazer um primeiro modelo: Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 89 O estado gasoso corresponde àquele em que as moléculas estão mais afastadas e mais livres umas em relação às outras, havendo, por isso, possibilidade de muita de variação de volume. Já no sólido, as unidades estão muito próximas, sendo imóveis. Como o volume de um gás varia muito com a pressão e a temperatura, não faz sentido falar do volume de uma amostra gasosa sem mencionar tais variáveis de estado. Pressão e temperatura são chamadas variáveis de estado porque, sem elas, o volume de uma amostra gasosa (quantidade de mols conhecida) torna-se indefinido. Gás ideal ou Perfeito Gás ideal ou perfeito é um gás imaginário, não-real, que apresenta um comportamento mais simplificado que o dos gases reais. Considera-se o gás ideal como sendo formado de moléculas de dimensões desprezíveis e completamente soltas umas das outras. Por isso, as equações que descrevem o comportamento de um gás ideal, ou seja, as equações que relacionam pressão p, volume V e sua temperatura T são muito simples matematicamente, ao contrário das equações do comportamento de um gás real. Observa-se, por outro lado, que à medida que um gás real tem sua temperatura aumentada e sua pressão abaixada, as moléculas se tornam cada vez mais soltas umas das outras, ou seja: o gás real começa a se comportar como um gás ideal. Pode-se dizer, então, que as equações dos gases perfeitos servem como uma boa aproximação para os gases reais em alta temperatura e baixa pressão. Gás real em alta temperatura e baixa pressão comporta-se aproximadamente como um gás perfeito O número de mols de um gás Um mol de um gás é o conjunto de 6,02 1023 moléculas desse gás. Esse número é o número de Avogadro, N e N = 6,02 1023. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 90 O número de mols de um gás (n) é o quociente da massa (m) do gás pela sua massa molar (M), ou seja: Lei ou Princípio de Avogadro Volumes iguais de gases quaisquer, nas mesmas condições de temperatura e pressão, possuem o mesmo número de moléculas. Um mol de qualquer gás (n = 1 mol) à temperatura de 0℃ e à pressão de 1 atm ocupa o volume de 22,4 litros. Consequências do Princípio de Avogadro A proporção entre moléculas de dois recipientes contendo gases em igual pressão e temperatura é a proporção existente entre seus volumes. A proporção entre os números de mols é a proporção entre os volumes de gases em igual pressão e temperatura. Coeficientes de acerto em reação gasosa indicam proporção em volumes entre os participantes da reação, em idênticas condições de temperatura. Assim: Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 91 Equação de Clapeyron O físico Clapeyron, ao estudar a pressão (p), o volume (V) e a temperatura absoluta (T) de um gás ideal, concluiu que a relação pv/T é diretamente proporcional ao número de mols do gás, ou seja: e R = 0,082 atmL/molK; R é chamada de constante universal dos gases perfeitos. Para chegar a essa equação que relaciona quatro variáveis, Clapeyron reuniu o trabalho de vários cientistas que haviam formulado generalizações a partir de duas variáveis. estado inicial do gás estado final do gás p1, V1, T1 p2, V2, T2 transformação Como a transformação ocorreu com a mesma amostra gasosa, não tendo sido alterada a quantidade de gás, pode-se afirmar que n1 = n2 . Então: Equação Geral dos Gases Perfeitos ou Ideais Transformação Isobárica - Lei de Charles (do grego: isos = igual e báros = pressão) É aquela durante a qual determinada massa do gás permanece sob pressão constante. Tomando a lei geral dos gases ideais: e fazendo-se p1 = p2 = constante, vem: 92 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli estado 2 pressão p T2 V2 estado 1 pressão p T1 V1 Transformação Isocórica ou Isométrica - Lei de Charles – Gay-Lussac (do grego: isos = igual e chora = volume) É aquela durante a qual determinada massa do gás permanece sob volume constante. Na lei geral dos gases ideais: , fazendo-se V1 = V2 = constante, vem: estado 2 estado 1 Transformação Isotérmica - Lei de Boyle (do grego: isos = igual e thérme= temperatura) É aquela durante a qual determinada massa do gás permanece sob temperatura constante. Na lei geral dos gases ideais: , fazendo-se T1 = T2 = constante, vem: Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 93 estado 2 estado 1 temperatura T temperatura T V2 V1 p2 p1 RESUMINDO: 94 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 4. ENERGIA INTERNA A figura representa uma caixa com um determinado número de moléculas de um gás perfeito. As moléculas não apresentam coesão e a sua agitação é completamente caótica. Elas se chocam entre si e com as paredes da caixa. Na figura estão indicadas possíveis trajetórias para algumas moléculas. Cada molécula tem uma determinada energia de agitação. O que isto quer dizer? Isto significa que as moléculas se chocam entre si e com as paredes do recipiente, mas que após o choque não permanecem unidas ou coladas às paredes do recipiente (não há coesão). Quer dizer também que depois do choque não adquirem uma direção preferencial, não há como um fluxo direcionado de moléculas. O movimento é ao acaso e uma molécula não interfere com a outra. Então o que acontece com uma molécula é independente do que acontece com a outra. Isto permite que possamos considerar a energia interna total como a soma das energias internas de cada uma das moléculas. A soma das energias de agitação de todas as moléculas do gás é chamada de energia interna do gás (U). É a energia total de agitação das moléculas do gás. Energia Interna A energia interna U é a soma das energias de agitação de todas as moléculas do gás perfeito. A energia interna U de uma dada massa de um gás perfeito depende somente da temperatura absoluta do gás (T). Se T cresce, U cresce. Se T decresce, U decresce. Se T permanece constante, U permanece constante. Para os gases perfeitos monoatômicos, , onde n é o número de mols do gás, R é a constante universal dos gases perfeitos, T a temperatura absoluta. 5. TRABALHO Trabalho de um gás é o trabalho das forças que ele exerce nas paredes do seu recipiente. O cálculo do trabalho na expansão ou contração dos gás perfeito, será feito em dois casos: a) em uma transformação isobárica; b) em uma transformação qualquer. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 95 Transformação Isobárica (pressão do gás constante) Um gás perfeito está preso em um recipiente fechado por meio de um êmbolo que pode deslizar sem atrito. Como o êmbolo está solto e só se apoia no gás; a pressão que ele exerce no gás é constante. Logo, a pressão que o gás exerce sobre o êmbolo é também constante, mesmo mudando de volume. A figura representa o gás aquecendo-se e expandindose, o que faz o êmbolo subir da posição 1 para a posição 2. O êmbolo de área A, sob a ação da força de pressão F do gás, realiza o deslocamento d. o gás realiza trabalho ao deslocar o embolo O trabalho realizado pelo gás é igual a Sendo , a pressão que o gás exerce sobre o êmbolo, vem: , onde (variação de volume que o gás sofreu). Logo: No diagrama (p, V) Área = altura base = p . V = W área = W A área do retângulo sob o diagrama (p, V) em uma transformação isobárica mede o trabalho realizado (W > 0) ou sofrido pelo gás (W < 0). Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 96 Transformação qualquer Em uma transformação qualquer não é válida a equação pois a figura sobre o gráfico não é um retângulo. Apesar disso, pode-se generalizar a propriedade das áreas: A área da figura sob o diagrama (p, V) em uma transformação qualquer mede o trabalho W realizado ou sofrido pelo gás. Na expansão, W é positivo; na contração, W é negativo. 6. PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA Termodinâmica é a parte da física que estuda as relações entre calor e trabalho. A variação da energia interna de um gás perfeito durante uma transformação qualquer é igual a diferença entre o calor ganho ou perdido pelo gás e o trabalho realizado ou sofrido pelo gás. Podemos escrever então a relação seguinte que é chamada de 1a. Lei da Termodinâmica. onde: U é a variação da energia interna do gás; Q é o calor ganho ou perdido pelo gás; W é o trabalho realizado ou sofrido pelo gás. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Transformação Isobárica Em uma transformação isobárica, enquanto o volume varia, a pressão do gás permanece constante, como mostrado na figura. As três parcelas U, Q e W são diferentes de zero, e o trabalho vale: W=p Transformação Isocórica Em uma transformação isocórica de um gás, representada na figura, enquanto a pressão do gás varia, o volume permanece constante. Logo, o trabalho do gás é nulo, pois não há expansão ou contração do gás. No diagrama (p, V) da figura, a área representativa do trabalho é nula. Substituindo na 1a. Lei da termodinâmica: , temos: W=0 Transformação Isotérmica Em uma transformação isotérmica de um gás, enquanto a pressão p cresce, o volume V diminui, mas a temperatura absoluta fica constante. A figura representa uma transformação isotérmica. Se T é constante, então a energia interna também é constante. Logo, a variação de energia interna é nula ( . Substituindo na 1a. Lei da termodinâmica: , temos: W=Q O trabalho do gás é medido pela área sobre a hipérbole, como indica a figura. 97 98 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Transformação adiabática Um gás realiza uma transformação adiabática quando não ganha nem perde calor durante essa transformação. Consegue-se essa transformação: colocando-se o gás no interior de um recipiente de volume variável, cujas paredes são revestidas de material isolante térmico; ou realizando-se com o gás uma expansão rápida ou contração, para que a troca de calor do gás com o meio ambiente seja desprezível. Como o gás não ganha nem perde calor, tem-se: Substituindo na 1a. Lei da termodinâmica: , temos: Q=0 Em uma expansão adiabática, a temperatura do gás diminui; em uma contração adiabática, a temperatura do gás aumenta. Há uma tendência em confundir uma transformação adiabática com uma transformação isotérmica, mas as duas são processos diferentes. A figura mostra as duas transformações em um mesmo gráfico. Observase a adiabata entre duas isotermas. O processo isotérmico ocorre a temperatura constante (Ti = Tf; ) e o processo adiabático, sem troca de calor (Q = 0; Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 99 Transformação Cíclica Um gás perfeito sofre uma transformação cíclica quando suas condições finais de volume, pressão e temperatura são as mesmas que suas condições iniciais. Quando isso acontece, diz-se que o gás realizou um ciclo. Na figura, o ponto X indica o começo e o fim do ciclo representado. Como a temperatura final do ciclo coincide com sua temperatura inicial, a variação da energia interna é nula: Substituindo na 1a. Lei da termodinâmica: , temos: =0 O calor trocado pelo gás no ciclo e o trabalho realizado no ciclo são iguais. A figura ilustra a seguinte propriedade: a área limitada pelo ciclo no diagrama (p, V) mede o trabalho trocado pelo gás. No ciclo horário, o gás recebe calor (Q > 0) e realiza trabalho (W > 0). No ciclo anti-horário, o gás cede calor (Q < 0) e recebe trabalho (W < 0). Tabela 1 - As transformações sofridas por um gás e a 1a. Lei da Termodinâmica Δ U Q τ transformação características isobárica p = constante isocórica isotérmica V = constante T = constante adiabática cíclica ΔU 0 Q=0 conseqüências τ pΔV τ 0 Δ U Q Δ U 0 Q τ ΔU τ Qτ 100 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 7. SEGUNDA LEI DA TERMODINÂMICA Toda máquina térmica realizando ciclos contínuos tem que operar entre duas fontes térmicas: uma quente e uma fria. A máquina não consegue converter o calor recebido da fonte quente inteiramente em trabalho. Uma parte desse calor é transformada em trabalho e o restante é inevitavelmente cedido para a fonte fria. O enunciado acima é conhecido como Segunda Lei da Termodinâmica. Como pelo Princípio da Conservação da Energia não existe “desaparecimento” de energia, conclui-se que toda a energia recebida durante um ciclo térmico (calor Q1) é convertida parte em energia aproveitada (trabalho realizado W) e parte em energia perdida (calor Q2). Assim, durante um ciclo tem-se: =W onde, durante um ciclo: Q1 é a energia consumida total; W é a energia aproveitada e Q2 é a energia perdida. Como nem toda energia consumida é aproveitada, o ciclo térmico apresenta um certo rendimento , definido como: onde W é o trabalho realizado durante um ciclo térmico; Q 1 é o calor total consumido da fonte quente durante o ciclo. Na prática, todas as máquinas cíclicas tem rendimento menor que 100 %. Outra expressão para o rendimento da máquina térmica pode ser dado por: Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 8. 101 O CICLO DE CARNOT É um ciclo constituído por duas transformações isotérmicas e duas transformações adiabáticas. A figura ilustra o diagrama (p, V) de um ciclo de Carnot ABCDA realizado por um gás perfeito, onde: A B representa uma expansão isotérmica do gás, durante a qual o gás está em contato com uma fonte quente sob temperatura T1 (temperatura da fonte quente). Durante a expansão o gás recebe calor Q1. B C representa uma expansão adiabática do gás, durante a qual o gás diminui sua temperatura passando de T1 (temperatura da fonte quente) para T2 (temperatura da fonte fria), sem trocar calor. C D representa uma compressão isotérmica do gás, durante a qual o gás está em contato com uma fonte fria sob temperatura T2 (temperatura da fonte fria). Durante compressão o gás perde calor Q2. D A representa uma compressão adiabática do gás, durante a qual o gás aumenta sua temperatura passando de T2 para T1, sem trocar calor e fechando o ciclo. A área limitada pelo ciclo no diagrama (p, V) mede o trabalho W realizado pelo gás durante o ciclo. A importância do Ciclo de Carnot deve-se ao fato de existirem diversas máquinas térmicas que podem realizar ciclos entre duas fontes de calor; entretanto a máquina realizando o ciclo de Carnnot tem, entre todas, maior rendimento. Em um ciclo de Carnot. vale a seguinte propriedade: = 102 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Anteriormente foi visto que: 9. então vale também: ALCANCE DA TERMODINÂMICA E SEUS ENFOQUES A Termodinâmica é talvez o campo mais fundamental e exato da física e proporciona um dos métodos mais gerais para analisar fenômenos físicos e químicos. É uma ciência estatística e a exatidão de suas previsões aumenta com o tamanho do sistema material em estudo. Por outra parte, trata com propriedades macroscópicas da matéria, tais como pressão, temperatura, volume e composição química, propriedades que se medem facilmente com métodos simples. A análise termodinâmica dos processos químicos não requer conhecimento detalhado da teoria atômica ou dos mecanismos de reação; de fato, é independente de qualquer concepção que possamos ter acerca da estrutura da matéria. De que maneira a ciência da termodinâmica procede exatamente, para analisar as trocas de energia? Em primeiro lugar, devemos especificar a porção de matéria na qual desejamos estudar as mudanças de energia experimentadas durante algum processo físico ou químico. Essa porção de matéria recebe o nome de sistema; ao resto da matéria do universo se chama vizinhança ou meio. Posteriormente, deve-se especificar o conteúdo de energia total do sistema antes de que o processo tenha lugar, ou seja, o estado inicial e depois que se tenha realizado, o estado final. À medida que o sistema evoluciona desde seu estado inicial até o estado de equilíbrio, pode absorver energia do meio ou cedê-la. A variação de conteúdo de energia do sistema originada quando passa de um estado a outro, está contrabalançada por uma variação de energia de sentido contrário no conteúdo de energia do meio. O estado de equilíbrio é aquele em que já não se produz nenhuma variação, no interior do sistema ou entre o sistema e as vizinhanças. No equilíbrio, a temperatura e a pressão são uniformes em todo o sistema. Acabamos de dizer que se deve especificar o conteúdo de energia dos estados inicial e final do sistema em estudo. Entretanto, na prática, medir com exatidão o conteúdo total de um sistema dado constitui uma tarefa frequentemente impossível. Mas, muitas vezes se pode medir com facilidade a diferença de energia entre o estado inicial e o estado de equilíbrio do sistema; isto é, a quantidade de energia trocada entre o sistema durante o processo. Se conhecemos a quantidade de energia e o tipo de energia que um dado sistema troca com o meio quando evoluciona do estado final ao estado de equilíbrio, teremos bastante informação para levar a cabo a análise termodinâmica de um processo. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 103 As leis termodinâmicas são independentes do tempo que um sistema requer para passar de um estado inicial a seu estado final. Deste modo, não importa que um processo químico ou físico necessite alguns segundos ou séculos para alcançar o equilíbrio. Por outro lado, a termodinâmica não se interessa pelo caminho ou mecanismo seguido pelas mudanças físicas ou químicas. Somente leva em conta a diferença de energia entre seu estado final e seu estado inicial do sistema, independentemente de como tenha ocorrido a transição. Uma analogia ilustrará este ponto. Se uma pessoa viaja de São Carlos a Maceió, sua variação de energia dependerá somente da diferença de latitude e longitude de sua posição inicial (São Carlos) e a latitude e longitude final de sua posição final (Maceió), sem importar qual entre milhares de rotas que se pode tomar, se a viagem foi de três, dez mil ou um milhão de quilômetros. Do mesmo modo sucede na termodinâmica. Somente se leva em conta os estados inicial e final, sem importar qual o caminho seguido pelo processo. Como corolário direto se deduz que as variações de energia que tem lugar em cada um dos passos intermediários de qualquer processo físico ou químico são completamente aditivos. A soma algébrica é exatamente igual ao incremento de energia do processo global, independentemente da natureza ou número de passos que integram o caminho seguido. Quando o termodinâmico estuda as variações de energia durante um processo, procura reduzir ao mínimo o número de variáveis que afetam o sistema, tais como a pressão, o volume e a temperatura. Por exemplo, se a temperatura de um sistema se mantém constante, resulta fácil especificar com exatidão as variações de energia inerentes ao processo. Nas reações bioquímicas simples que se deseja estudar, pode-se conseguir simplificações muito grandes, posto que a reações biológicas geralmente ocorrem em soluções aquosas diluídas que estão em equilíbrio com a atmosfera, condições nas que não somente uma, mas três variáveis mais importantes, temperatura, pressão e volume permanecem constantes. Por esta razão, não necessitamos interessarmo-nos em grande parte pelo formalismo termodinâmico que trata dos gases, das variações de pressão-volume e as transições entre os diferentes estados da matéria. 10. PRIMEIRA LEI DA TERMODINÂMICA E CONSERVAÇÃO DE ENERGIA Todos os sucessos do mundo físico se ajustam e estão determinados pelos dois princípios fundamentais da Termodinâmica conhecidos como Primeira e Segunda Lei. A primeira lei, é o princípio da conservação da energia: A energia não pode ser criada nem destruída. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 104 Assim, em qualquer processo físico ou químico a energia total do sistema + o meio (ou vizinhanças), ou seja, a energia total do universo permanece constante. Sabemos que as diferentes formas de energia podem se interconverter. Assim a energia térmica do vapor pode ser transformada em energia mecânica mediante uma máquina de vapor. A energia mecânica pode ser convertida em energia elétrica mediante um gerador, e a energia elétrica pode transformar-se em energia química, como sucede na carga de uma bateria. A primeira lei da termodinâmica impõe somente uma limitação sobre estes intercâmbios de energia: que a energia total do sistema permaneça constante. A primeira lei implica também uma correspondência quantitativa entre as diferentes classes de energia. Tais equivalências quantitativas de energia foram estabelecidas a partir de muitas medidas físicas. Por exemplo, podemos recordar que existe um equivalente mecânico do calor. A energia mecânica se mede em joules, unidade equivalente de energia liberada por uma força de 1,0 N que atua sobre um corpo por uma distância de 1 m. A energia térmica, por outra parte, se expressa em calorias-grama (1 cal = 4,1855 joules). A existência de tais equivalências entre as diferentes formas de energia, parece implicar que são fácil e completamente interconversíveis; entretanto, nem sempre sucede assim. Por exemplo, a energia mecânica pode ser convertida em energia térmica de um modo quantitativo em um aparato apropriado, mas o processo inverso, conversão de energia térmica em energia mecânica não é nunca completa em circunstâncias normais. 11. TROCAS DE CALOR NAS REAÇÕES QUÍMICAS Virtualmente cada sucesso físico ou químico está acompanhado da absorção do calor do meio ou de sua cessão ao mesmo. Quando um processo tem lugar com cessão de calor ao meio, se chama exotérmico; quando tem lugar com absorção de calor do meio recebe o nome de endotérmico. Por conseguinte, o calor é um meio ou forma simples e universal pela qual se pode transferir energia. As trocas de energia produzidas durante as reações químicas se medem facilmente em um calorímetro e podem dar-nos informação valiosa acerca da quantidade de trabalho que uma reação química pode levar a cabo sob certas condições. Com o objetivo de simplificar e sistematizar os cálculos das trocas de calor e energia das reações químicas, são dadas em quilojoules (kJ) ou em quilocalorias (kcal) de energia trocada por mol do composto transformado. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 105 Na Tabela 2, vemos que os compostos orgânicos tem um calor de combustão característico, que pode ser definido como o número de quilocalorias cedidas ao ambiente quando um mol ou peso molecular de uma substância se queima completamente às custas de oxigênio molecular. Por exemplo, a equação da combustão da glicose é: Tabela 2 - Calores de Combustão das principais moléculas combustíveis Dados a 25oC, 1 atm, pH 7,0 Combustível D-Glicose – carboidrato Tripalmitina – gordura Glicina - aminoácido Peso Molecular 180 809 75 Calor de Combustão kcal/mol kcal/g 673 3,74 7510 9,30 234 3,12 O calor liberado pela oxidação de um mol de glicose (180 g) é igual a 673 kcal. A glicose produz calor durante a combustão porque sua estrutura complexa possui muita energia potencial, que se libera quando a glicose se decompõe nos produtos mais simples CO2 e H2O. A Tabela 2 inclui também o calor de combustão de hidratos de carbono ou de aminoácidos. A gordura é um combustível de maior poder calorífico que a glicose. C6H12O6 + 6O2 6CO2 + 6H2O A Tabela 3 apresenta as trocas de calor de outros tipos de reações químicas. Vemos que as reações de hidrólise também são exotérmicas, mas geram muito menos calor que as reações de combustão. Neutralização de íons H+ e íons OH também é um processo exotérmico. Entretanto, há outros tipos de reações químicas em que ocorre absorção de calor do meio ambiente, sendo portanto endotérmicas. Tabela 3 - Trocas de calor de algumas reações químicas representativas (25oC, 1 atm ) Tipo Oxidação Glicose + 6O2 6CO2 + 6H2O Hidrólise Sacarose + H2O glicose + frutose Glicose-6-fosfato + H2O glicose + H3PO4 Neutralização NaOH + HCl NaCl + H2O Troca de Calor (kcal/mol) 673,0 4,8 3,0 13,8 106 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 12. A NATUREZA ISOTÉRMICA DOS PROCESSOS CELULARES Vamos agora ver um diferença entre as células vivas e os dispositivos conversores de energia feitos pelo homem. Ainda que o calor seja o meio mais simples e familiar pelo qual a energia possa ser transferida ou utilizada nas máquinas fabricadas pelo homem, não é uma forma útil de energia para realizar trabalho biológico. Por quê? Para que o calor possa realizar trabalho é necessário que exista uma diferença de temperatura através da qual ela possa atuar. O calor deve passar de um corpo a outro que tenha temperatura mais baixa. Mas, sabe-se que não há grandes diferenças de temperatura em diferentes partes de um organismo vivo. Apesar de tudo, não é possível que haja diferenças de temperatura muito pequenas nas células que possam servir como base para realizar trabalho celular? Pode-se dar uma resposta quantitativa a esta pergunta. O trabalho máximo que pode proporcionar uma máquina térmica é dado pela equação: ( ) onde Q é o calor absorvido e T2 e T1 são as temperaturas absolutas (K) dos corpos em que se transfere calor. Se em um sistema a temperatura de 25oC (298 K), existe somente uma pequena diferença de temperatura (0,1oC), a fração de uma dada quantidade de energia térmica que pode ser convertida em trabalho no sistema é insignificante (menos que um milésimo). Praticamente, pois, os organismos vivos são isotérmicos e deste modo não podem funcionar como máquinas térmicas. Para entender como as células podem realizar trabalho sob condições isotérmicas, definimos agora uma outra forma de energia, chamada energia livre. Mas, antes devemos examinar a segunda lei da termodinâmica, da qual surge o conceito de energia Livre. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 13. 107 ENTROPIA (S) E SEGUNDA LEI A primeira lei diz que a energia se conserva; toda variação física e química deve satisfazer este princípio. Entretanto, existe um outro aspecto fundamental dos intercâmbios de energia não explicado pela Primeira Lei da Termodinâmica. Um exemplo simples servirá para ilustrar o problema. Suponhamos que se colocam juntos dois blocos de cobre um quente e outro frio, os encerramos em um recipiente isolado, e desejamos que se alcance o equilíbrio entre ambos. A temperatura do bloco quente diminuirá e a do bloco frio aumentará até que ambos alcancem uma mesma temperatura intermediária de equilíbrio, que será uniforme nos dois blocos. O fluxo de calor, e portanto, de energia do bloco quente ao frio é espontâneo. Mas, introduzimos dois blocos idênticos de cobre, ambos a mesma temperatura num recipiente isolado, sabemos que permanecerão à mesma temperatura. Nunca esperaríamos que a temperatura de um bloco aumentasse espontaneamente e que a do outro diminuísse. Mas, mesmo que isso ocorresse, não se violaria a primeira lei da termodinâmica, porque a energia perdida por um bloco seria ganha pelo outro: a energia total dos dois blocos permaneceria constante. É bastante evidente depois de considerar este exemplo (e outros que aparecem na Figura 1) que as mudanças física ou químicas espontâneas tem uma direção que não pode ser explicada pela primeira lei da termodinâmica. Vimos que todos os processos tendem a um estado de equilíbrio, no qual a temperatura, a pressão e todas as demais propriedades mensuráveis se tornam uniformes em todo o sistema e no meio. Mas, uma vez que o processo tenha alcançado o equilíbrio, não voltará espontaneamente ao estado inicial. Quando os blocos de cobre quente e frio do exemplo alcançam exatamente a mesma temperatura, toda a energia térmica originalmente contida nos blocos se encontra uniformemente distribuída em ambos. A energia se dispersou ao máximo e nunca, por si mesma, voltará a ter sua forma inicial. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 108 Figura 1 Aumento de entropia ou dispersão em alguns sistemas físicos. Tais fluxos nunca mudam de sentido espontaneamente A segunda lei da termodinâmica nos proporciona um critério para predizer a direção de qualquer processo. Em primeiro lugar, reconhece um estado ou condição da matéria e da energia chamado entropia que de um modo simples pode ser definido como dispersão ou desordem. Estabelece que os processos físicos e químicos se desenvolvem no sentido de que a dispersão ou entropia do universo (sistema + vizinhança) aumente o mais possível; neste ponto tem lugar o equilíbrio. A segunda lei da termodinâmica afirma que nenhum processo pode realizar-se de modo que a entropia do universo diminua. Os processos que implicam em aumento de entropia são deste modo, irreversíveis; nunca voltarão espontaneamente a seu estado inicial. Do ponto de vista teórico, a entropia do universo pode permanecer constante durante um processo, e quando isto sucede, se diz que o processo é reversível. Apesar de que se pode distinguir assim entre processos reversíveis e irreversíveis, deve-se acrescentar que os processos em que a entropia permanece constante são hipotéticos. Os processos reais são irreversíveis porque uma forma de energia não pode ser quantitativamente convertida em outra sem que se produza alguma perda de energia (dispersada ou dissipada). Por exemplo, a energia mecânica aplicada a um gerador elétrico não se converte completamente em energia elétrica devido a perda de energia por atrito. Essa energia se dissipa em forma de calor no meio, no qual se dispersa. Deste modo deixa de ser aproveitável para realizar trabalho. Toda a matéria e a energia do universo experimentam uma constante dispersão. O destino final do universo, é alcançar um estado de completa dispersão e desordem. Se um sistema passa de um estado inicial a um estado final através de uma sucessão de estados de equilíbrio, dizemos que o processo é reversível. Um processo só pode ser reversível se ocorrer quase-estaticamente. Um processo é irreversível quando o sistema e Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 109 suas vizinhanças não podem retornar aos respectivos estados iniciais. Nesse caso, o sistema passa do estado inicial ao estado final através de uma sucessão de estados de nãoequilíbrio. A segunda lei da termodinâmica afirma que quando um processo real irreversível ocorre, o grau de desordem do sistema aumenta. Quando ocorre um processo em um sistema isolado, a energia ordenada se converte em energia desordenada. A medida da desordem é a entropia S. Em qualquer processo reversível, a entropia do universo permanece constante (S = 0). Em qualquer processo irreversível, a entropia de um sistema isolado sempre cresce. Dizemos que a entropia é uma função de estado: depende apenas dos estados do sistema, por exemplo, dos estados final e inicial. Assim, a variação de entropia de um sistema que sofre um processo real (irreversível) entre dois estados de equilíbrio é igual à variação de entropia que ocorre em um processo reversível entre os mesmos estados. A segunda lei da termodinâmica nos diz também que um sistema isolado se aproximará de um estado de máxima aleatoriedade. Se a entropia é dispersão ou desordem, o oposto é ordem. Podemos prosseguir agora e estabelecer uma relação a que se chama de Terceira Lei da Termodinâmica: a entropia de um cristal perfeito de qualquer elemento ou composto no zero absoluto é nula. Devido a que não existe nenhum movimento térmico no zero absoluto, os átomos de um cristal perfeito estariam em uma ordem absolutamente perfeita. A entropia se expressa em termos de unidades de entropia cal/molK ou J/molK. A uma temperatura dada, os sólidos tem uma entropia relativamente baixa, os líquidos uma quantidade intermediária e os gases a entropia mais alta; o estado gasoso é o mais desordenado e caótico da matéria. Além disso, a uma temperatura elevada, tem mais entropia que a temperatura baixa, por causa do movimento térmico de suas moléculas. Por esta razão, quando queremos especificar as variações de entropia, deve especificar a temperatura em que tais mudanças ocorrem. 14. ENERGIA LIVRE (G) Um dos problemas com o uso da segunda lei é que a avaliação sobre se uma reação é espontânea ou não, é que há necessidade de três passos. Primeiro temos que calcular a variação de entropia do sistema depois, temos que calcular a variação de entropia das vizinhanças usando dados de entalpia. Finalmente temos que somar as duas variações e obter a variação total de entropia. Este trabalho prolongado poderia ser muito mais fácil se 110 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli uma única propriedade (a energia livre) reunisse os cálculos de entropia para o sistema e vizinhanças. Vimos então que a força diretriz de um processo físico ou químico é a tendência que tem um sistema a buscar aquele estado no qual a entropia do universo se faz máxima. Mas a entropia, ou variações de entropia nem sempre se medem ou calculam com facilidade. Entretanto, sob condições especiais, a variação de entropia que se produz em um processo está quantitativamente relacionada com a variação da energia interna do sistema mediante uma função chamada energia livre. Esta relação é importante na energética bioquímica porque as variações na energia livre podem ser medidas com facilidade e podem ser utilizadas para predizer o sentido e estado de equilíbrio das reações químicas. A entropia e a energia livre estão relacionadas mediante uma equação que combina a primeira e segunda leis da termodinâmica: onde G é a energia livre de Gibbs, T é a temperatura absoluta, H é a entalpia do sistema e S a entropia do sistema. A entalpia H é definida como e H é uma função de estado. Se estamos medindo a variação de energia livre, temos: onde : Esta função é aplicável a qualquer processo que o sistema leve a cabo a temperatura (T) e pressão (p) constantes. Se, além disso, o processo ocorre a volume constante Então a variação de entalpia é igual ao incremento de energia interna U (H = U) e a energia livre de Gibbs fica: – ou onde vemos que a variação de energia interna do sistema (U) é igual a soma algébrica do termo G, sempre negativo em qualquer processo real, e o termo T S que pode ser positivo, negativo ou nulo. Podemos agora definir G para os sistemas celulares que sofrem transformações a temperatura, pressão e volume constantes, como aquela fração da variação da energia interna que é utilizável para produzir trabalho à medida que os ditos sistemas evoluem até o equilíbrio. Por outro lado, como a entropia do universo (sistema + meio = universo) evolui a um máximo quando o processo caminha para o equilíbrio, a energia livre do sistema caminha a um mínimo. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 111 Com a ajuda da Figura 2, podemos resumir agora as relações da Primeira e Segunda Leis da Termodinâmica quando se aplicam a sistemas que evoluem a temperatura e pressão constantes. Como a maior parte das reações de interesse biológico ocorrem à temperatura, pressão e volume constantes, e como as variações de energia livre se medem com facilidade, o sentido das reações bioquímicas bem como seu ponto de equilíbrio, podem ser previstas a partir das variações de energia livre ao invés de fazer através das variações de entropia. Quando os organismos vivos se desenvolvem, diminuem sua entropia, pela natureza altamente estruturada da matéria viva. Mas, esta diminuição da entropia somente pode produzir-se com a condição de que a entropia do meio ambiente aumente. Dito de outro modo, os organismo vivos criam sua própria ordem interna às custas da ordem do meio, o qual se degrada. 15. OLHANDO O SISTEMA A variação total de entropia (a variação da entropia do universo), STOT, é a soma das variações no sistema, S e suas vizinhanças, Sviz, com STOT = S + Sviz. Para um processo a temperatura e pressão constantes, a variação na entropia das vizinhanças é dada por : Portanto, sob estas condições, 112 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Esta equação mostra como calcular a variação total de entropia usando a informação sobre o sistema sozinho. A única limitação é que a equação é válida somente sob pressão e temperatura constantes. Para o próximo passo, introduzimos a energia de Gibbs, G, que é definida como G = H – TS Esta quantidade, que é conhecida como energia livre, é definida somente em termos de funções de estado, portanto G é uma função de estado. Como observamos para a entalpia, o valor absoluto de G para uma substância não é mensurável. Em toda a química, usamos somente variações de G e não seu valor absoluto; e para um processo que ocorre a temperatura constante, a variação de energia livre é G = H – T S Comparando-se esta expressão com a , vemos que, em temperatura e pressão constantes, G = – T O sinal menos nesta equação significa que um aumento na entropia total corresponde a uma diminuição na energia livre. Portanto, em temperatura e pressão constantes, a direção da mudança espontânea é a direção da diminuição da energia livre . A pressão e temperatura constantes, a direção da mudança espontânea é a de diminuir a energia livre. O estado equilíbrio de um sistema corresponde ao ponto de mínimo na curva. A equação G = H – T S resume os fatores que determinam a direção da mudança espontânea em temperatura e pressão constantes: olhamos para valores de H, S , e T que resultam num valor negativo de G (Quadro 1). Uma condição que pode resultar num G negativo é um grande valor negativo de H tal como para uma reação de combustão. Um valor negativo grande (em módulo) de H corresponde a um grande aumento na entropia das vizinhanças. Entretanto, um valor negativo de G pode ocorrer mesmo se H for positivo (uma reação endotérmica), desde que TS seja grande e positivo. Neste caso, já vimos que a força condutora da reação é o aumento na entropia do sistema. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 113 Quadro 1 Fatores que favorecem a espontaneidade dos processos Variação de Entalpia Variação de Entropia Processo espontâneo? exotérmico (H < 0) aumenta (S > 0) sim, G < 0 exotérmico (H < 0) diminui (S < 0) sim, se |T S | < |H |, G < 0 endotérmico (H > 0) aumenta (S > 0) sim, se T S > H, G < 0 endotérmico (H > 0) diminui (S < 0) não, G > 0 Sabemos que o critério para o equilíbrio é STOT = 0. Segue da equação G = – T STOT que, para um processo a temperatura e pressão constantes a condição de equilíbrio é G = 0 condição de equilíbrio T e p constantes Se, quando calculamos G para um processo, tal como a conversão do gelo em água em uma temperatura particular, encontramos que G = 0, sabemos imediatamente que o sistema está em equilíbrio (neste exemplo, que o gelo e a água estão em equilíbrio um com o outro). A variação de energia livre é uma medida da variação na entropia total de um sistema e suas vizinhanças a temperatura e pressão constantes; os processos espontâneos a temperatura e pressão constantes são acompanhados por uma diminuição da energia livre. 16. VARIAÇÕES DE ENERGIA LIVRE EM SISTEMAS BIOLÓGICOS Muitas reações biológicas são acompanhadas por uma diminuição na entropia do sistema. Então como elas podem ocorrer? A resposta está na luz do sol. Obtemos nossa energia, não diretamente do sol, mas de substâncias químicas comida que armazenaram a energia do sol. Em cada caso, um processo bioquímico, que gera muita entropia quando acontece na direção espontânea, empurra outras reações na direção não espontânea, talvez para formar uma molécula de proteína ou contribuir para a construção de uma molécula de DNA. Em outras palavras, os processos bioquímicos estão acoplados: um pode estar levado montanha acima na energia livre por outra reação que vai montanha abaixo. Permanecer vivo é muito parecido com o efeito de um cilindro pesado amarrado a outro cilindro mais leve, por uma corda que passa por uma roldana, como mostrado na Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 114 figura. O cilindro mais leve não poderia subir às suas custas. Entretanto, quando é conectado ao cilindro mais pesado caindo do outro lado da roldana, pode subir. A hidrólise de adenosina trifosfato, ATP que resulta em ADP (adenosina difosfato) é a reação mais frequentemente usada pelos organismos biológicos para se acoplar e forçar reações não-espontâneas. Esta hidrólise é a chave da reação metabólica pela qual energia livre é armazenada e usada em sistemas vivos. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 115 O valor de G para a hidrólise do ATP é de cerca de –30 kJmol-1. Para levar ADP de volta a ATP, que envolve uma variação de energia livre de +30 kJmol-1, uma molécula de ADP e um grupo fosfato precisam estar ligados, o que se consegue por acoplamento com outra reação para a qual a energia livre seja mais negativa que 30 kJmol-1. Esta é uma das razões porque temos que comer. Quando comemos alimentos contendo glicose, consumimos um combustível. Como em todos os combustíveis, há uma tendência espontânea a formar produtos. Se simplesmente queimamos glicose num recipiente aberto, poderíamos não estar realizando trabalho senão o de empurrar a atmosfera, de modo que haveria liberação de muito calor. Entretanto, no nosso corpo, a “combustão” é uma versão altamente controlada e sofisticada da queima. Em tal reação controlada, o trabalho que o processo pode fazer aproxima-se de 2500 kJmol-1, que é suficiente para recarregar cerca de 80 mols de moléculas de ADP. As células humanas são como pequenas eficientes usinas de energia. Quando morremos, não mais ingerimos a luz do sol de segunda mão, armazenada nas moléculas de carboidratos, proteínas e gorduras. Agora a direção natural das mudanças torna-se dominante e nossas intrincadas moléculas começam a decompor-se no lodo e lama que conseguimos evitar transformarmo-nos durante nossas vidas. A vida é uma constante batalha para gerar suficiente entropia em nossas vizinhanças para seguir construindo e mantendo nossos complexos interiores. De repente quando a batalha pára, paramos de gerar essa entropia externa, e nossos corpos morrem. Reações que são não espontâneas podem acontecer se são acopladas com outras reações espontâneas. Este acoplamento é usado extensivamente nos sistemas biológicos. 116 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 17. ENERGIA LIVRE E CONSTANTE DE EQUILÍBRIO Vejamos agora como se podem medir as variações da energia livre. Em um processo químico tal como a reação A B pode-se alcançar um ponto de equilíbrio no qual não se produz nenhuma mudança química mais; neste ponto a velocidade de conversão de A em B estará exatamente contrabalançada pela velocidade de conversão de B em A. A B Existe uma constante que expressa o equilíbrio químico alcançado por este sistema, a constante de equilíbrio, que tem a forma: K eq B A onde os colchetes representam as concentrações do reagentes e do produto existentes no ponto de equilíbrio. Keq é uma constante nas condições de temperatura e pressão especificadas, independentemente das concentrações iniciais de cada componente. No ponto de equilíbrio a energia livre do sistema é mínima. Quando a reação tem mais componentes, as constante de equilíbrio é o produto das concentrações de todos os produtos da reação dividido pelo produto das concentrações de todos os reagentes no equilíbrio. Por exemplo, na reação: aA + bB 𝐂 𝒅𝐃 onde a, b, c e d são o número de mols de A, B, C e D respectivamente, a constante de equilíbrio é: = De tudo que foi dito é óbvio existir uma relação matemática entre a variação de energia livre de uma reação e sua constante de equilíbrio. Quando o sistema químico (reagentes e produtos) se encontra em condições-padrão, dita relação resulta em: onde R é a constante dos gases, T é a temperatura absoluta e é o logaritmo natural o da constante de equilíbrio a 25 C e pH 7,0. O símbolo representa a variação de energia livre padrão, o ganho ou perda de energia livre em calorias quando um mol de reagente se converte em um mol de produto a 25oC e pH 7,0. A variação de energia livre padrão de uma reação fornece a máxima Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 117 quantidade de trabalho útil que a reação pode produzir a pressão e temperatura constantes. Esta quantidade de trabalho útil pode ser realizada somente se existe algum dispositivo sem atrito mediante o qual a energia possa ser aproveitada. A Tabela 4 mostra a relação entre a constante de equilíbrio das reações químicas e a variação de energia livre padrão calculada. Quando a constante de equilíbrio é maior que 1,0 (o que significa que a reação tende a realizar-se no sentido em que está descrita), a variação de energia livre padrão é negativa; tal reação tem lugar com uma diminuição de energia livre. Quando a constante de equilíbrio é menor que 1,0, a reação avança no sentido proposto. Neste caso a variação da energia livre padrão é positiva: portanto, para que um mol de reagente se transforme em um mol de produto quando um e outro estão presentes em uma concentração 1 molar, é necessário ceder energia ao sistema. Efetuemos agora um cálculo simples da constante de equilíbrio e da variação de energia livre padrão de uma reação química. Podemos usar alguns dados para a reação glicose-1-fosfato glicose-6-fosfato a qual é catalisada pela enzima fosfoglicomutase. Esta reação ocorre no músculo durante a decomposição do glicogênio em lactato. Se a reação se inicia adicionando-se enzima a uma solução 0,020 M de glicose-1-fosfato a 25oC e pH 7,0, mediante a análise química do meio, se encontra que a reação prossegue até o equilíbrio em que a concentração de glicose-1fosfato diminuiu até 0,001 M enquanto que a concentração de glicose-6-fosfato aumentou de 0 a 0,019M. A constante de equilíbrio é então: = = = 19 A partir do valor de K’eq = 19, podemos calcular a variação de energia livre padrão da reação fosfoglucomutase G o ' R T ln K ' eq 1,987 298 ln 19 1745 cal/mol Assim, pois, existe uma diminuição na energia livre de 1745 cal quando se converte 1,0 mol de glicose-1-fosfato em 1,0 mol de glicose-6-fosfato a 25C em condições em que a concentração de cada um deles se mantém a 1,0 M. Normalmente, a variação de energia livre padrão se expressa em quilocalorias (kcal) por mol. Então para a reação anterior, vale –1,745 kcal/mol. 118 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Tabela 4 - Relação numérica entre a constante de equilíbrio e G o ' K’eq 0,001 0,01 0,1 1,0 10,0 100,0 1000,0 (25oC, 1 atm ) (kcal/mol) G o ' + 4,09 + 2,73 +1,36 0 1,36 2,73 4,09 Vamos agora abordar um outro ponto importante. A presença da enzima (ou de qualquer outro catalisador) no sistema não importa para o cálculo da energia livre; a enzima simplesmente acelera a aproximação ao equilíbrio, mas não influi no ponto de equilíbrio alcançado. O tempo e velocidade não entram em nosso cálculos: somente o ponto final. Realmente a variação de energia livre padrão que calculamos é a mesma, esteja ou não catalisada pela enzima ou ocorra sozinha, mesmo que muito lentamente. Mais ainda, o mecanismo intermediário ou caminho tomado por esta reação tampouco importa. Quando uma reação se desenvolve com diminuição da Energia livre, dizemos que é espontânea. Entretanto, este termo não significa que o processo ocorrerá necessariamente com rapidez ou “por si mesmo”. Assim, a combustão de glicose é um processo espontâneo, mas uma solução de glicose pura e estéril deixada em presença de oxigênio a 20oC pode não experimentar oxidação durante muitos anos. Mas, quando a reação ocorrer, ocorrerá com diminuição da energia livre. A partir de cálculos como os realizados anteriormente, foram reunidos dados de muitas reações químicas que ocorrem nas células. A Tabela 5 fornece alguns valores representativos. Observa-se que as reações de combustão se produzem com uma diminuição de energia livre relativamente grandes, enquanto que as reações de hidrólise ocorrem com variações muito menores. As reações que se produzem com uma variação de energia livre padrão negativa se denominam exoergônicas; as com variação positiva, endoergônicas. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 119 Tabela 5 - Variações de energia livre padrão de algumas reações químicas (25oC, pH 7,0 ) G o ' (kcal/mol) Oxidação glicose + 6 O2 6 CO2 + 6 H2O ácido lático + 3 O2 3 CO2 + 3 H2O ácido palmítico + 23 O2 16 CO2 + 16 H2O Hidrólise sacarose + H2O glicose + frutose glicose-6-fosfato + H2O glicose + H3PO4 glicilglicina + H2O 2 glicina Reordenação glicose-1-fosfato glicose-6-fosfato frutose-6-fosfato glicose-6-fosfato Oxidação malato fumarato + H2O 18. 686 320 2338 7,0 3,3 2,2 1,7 0,4 +0,75 VARIAÇÕES DE ENERGIA LIVRE EM CONDIÇÕES NÃO-PADRÃO A variação de energia livre padrão em uma reação química, tais como as que figuram na Tabela 5, supõe que todos os reagentes e produtos estão presentes em concentrações molar padrão 1,0 M. Mas os metabólitos dificilmente se encontram nas células em concentrações tão elevadas, nem tampouco é provável que estejam em concentrações equimolares. Pode-se então perguntar se é possível calcular a variação de energia livre de uma reação química em concentrações diferentes da padrão. A resposta á afirmativa. Com o objetivo de fazer estes cálculos, necessitamos então conhecer não somente as concentrações iniciais dos reagentes e produtos como também a variação de energia livre padrão da reação. Para a reação geral aA + bB cC + dD a variação real de energia livre G vem dada pela equação G G 0' ln na qual C c Dd Aa Bb é a variação de energia livre padrão e [A], [B], [C] e [D] são as concentrações iniciais dos reagentes e produtos, R e T tem seu significado usual e se supõe que a temperatura é 25oC e pH 7,0. 120 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli Com esta equação podemos efetuar o cálculo da variação real de energia livre de uma reação na qual reagentes e produtos não se encontram nas concentrações iniciais 1,0 M. A partir da Tabela 1, vemos que a hidrólise da glicose-6-fosfato é uma reação exoergônica com uma variação de energia livre padrão de –3,3 kcal. Esta reação é catalisada no fígado dos vertebrados pela enzima glicose-6-fosfatase e é a principal reação mediante a qual se forma glicose livre no sangue. Calculemos a variação real de energia livre quando esta reação ocorre em condições aproximadamente fisiológicas, de glicose-6-fosfato e glicose e que permitem alcançar o equilíbrio. A concentração de glicose-6-fosfato na célula hepática é de aproximadamente 0,001 M e a concentração de glicose no sangue é de aproximadamente 0,005 M. Por substituição na equação anterior obteremos: G 3300 1,98 298 ln 0,005 3300 960 2340 cal 0,001 G 2,34 kcal Vemos que, por conseguinte, a variação da energia livre para a hidrólise da glicose-6fosfato é substancialmente menor nas condições especificadas que nas condições padrão. 19. CATÁLISE E ENERGIA DE ATIVAÇÃO Figura 3 - Curvas em que se mostra a diminuição da energia de ativação na presença de um catalisador enzimático. A enzima faz com que haja um aumento da fração de moléculas de substrato com energia interna suficiente para promover a reação Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 121 Como quase todas as reações bioquímicas são catalisadas por enzimas específicas, é importante neste momento ter alguma idéia acerca do modo como os catalisadores aceleram uma reação química sem alterar o equilíbrio final alcançado. Para isso usaremos a Figura 3. Quando glicose-1-fosfato se encontra em uma solução aquosa a pH 7,0 na ausência da enzima fosfoglicomutase, a conversão na glicose-6-fosfato é um processo muito lento. Ainda que este processo ocorra com diminuição da energia livre de 1,745 kcal, no diagrama de energia vemos que existe uma barreira para esta reação: a energia de ativação. O conteúdo de energia das moléculas de uma população segue uma curva de distribuição do tipo mostrado na Figura 3. Somente as moléculas que possuem um conteúdo energético elevado tem a possibilidade de reagir para formar o produto. Para que a reação avance com maior rapidez, devemos aumentar o conteúdo energético de toda a população molecular. Um modo de conseguir isso é aquecer o sistema; o calor absorvido pelas moléculas aumenta sua energia interna e assim a probabilidade de que colidam e reajam. Porém, existe outra maneira de conseguir superar a barreira energética: mediante a adição de um catalisador. De fato, o catalisador diminui a energia de ativação de ativação da reação, permitindo que uma fração maior da população molecular reaja. O catalisador pode fazer isto, porque pode formar um complexo ou composto intermediário instável com o substrato, o qual se decompõe rapidamente liberando o produto, proporcionando que a reação ocorra rapidamente. Mas, o conteúdo energético da glicose-1-fosfato e da glicose-6fosfato é independente da conversão de um em outro composto estando ou não a reação catalisada, o ponto de equilíbrio alcançado em ambos os casos é o mesmo. 20. SISTEMAS ABERTOS E FECHADOS Os princípios da termodinâmica tratados se aplicam, a sistemas fechados, que são aqueles sistemas que não trocam matéria com o meio ambiente. Mais ainda, estes princípios se aplicam somente a sistemas que alcançam um verdadeiro equilíbrio termodinâmico. Porém, as células vivas são sistemas abertos, que trocam matéria com o meio ambiente. Ainda que possa parecer que a concentração dos componentes químicos das células vivas seja um processo estacionário, estes últimos não se encontram normalmente em um verdadeiro equilíbrio termodinâmico, mas sim num estado estacionário dinâmico, no qual a velocidade de formação de um componente dado é exatamente contrabalançada por uma velocidade igual de decomposição. Outra particularidade importante é que os organismos vivos aumentam a entropia do universo, e as reações que participam são irreversíveis. As células vivas são, pois, sistemas abertos de evolução irreversível que se encontram em um estado estacionário dinâmico. Mas, os princípios termodinâmicos clássicos, não levam em conta o tempo ou a velocidade; tratam somente das variações de energia que se produzem desde um estado Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 122 inicial a um estado de equilíbrio. Por outro lado, a termodinâmica clássica supõe sistemas idealizados nos quais cada troca de energia se produz sem atrito. Porém, todos os processos reais, aqueles que ocorrem no cotidiano, têm perdas significativas de energia por atrito. O atrito, por sua vez, é uma função dependente do tempo, enquanto a termodinâmica clássica não considera o tempo. Poderíamos dizer então que a termodinâmica clássica não poderia ser aplicada a sistemas biológicos ou análise de qualquer processo real. Entretanto, em biologia, assim como na física e na química é necessário poder analisar os elementos mais simples de um sistema complexo e poder dizer com precisão sua estrutura e comportamento em condições simplificadas ao máximo, antes que se possas se possa entender o modo como uma série de fatores podem interferir conjuntamente de um modo dinâmico e contínuo. Por outro lado, as leis da termodinâmica de equilíbrio constituem um ponto de partida para o desenvolvimento que se ocupe dos sistemas abertos (a termodinâmica irreversível ou de não-equilíbrio). 21. A VIDA OBEDECE ÀS LEIS DA TERMODINÂMICA Algumas vezes parece que a vida, com uma ordem que lhe é inerente, foge às leis da termodinâmica, pois se repararmos em um sistema como o ser humano, vemos que partimos de unidades pequenas, como átomos e moléculas e vamos aumentando a ordem, e complexidade das moléculas. Parece que há uma contradição, principalmente no que diz respeito à segunda lei da termodinâmica que nos diz que a tendência natural é a do aumento da desordem, e o ser humano parece caminhar no sentido oposto, ao da ordem. Medidas elaboradas em laboratório demostram a observação da primeira lei: a energia se conserva. Porém, no caso da segunda lei, para que fosse possível sua verificação seria necessário o "desmanche" de um ser vivo em seus componentes moleculares cada vez menores. Isto seria possível no caso da morte do organismo. É possível, contudo observar que a entropia da matéria viva é menor do que as dos produtos nos quais ela se transforma. A vida existe, porque para a manutenção do sistema organizado dos sistemas biológicos ocorre às custas de uma desordem nas sua vizinhanças. Os organismos vivos se mantém às custas dos nutrientes que consomem, sendo tão importante seu valor energético como seu conteúdo entrópico. A termodinâmica clássica aplica-se a processos reversíveis. Os processos reais são irreversíveis. Mas, podemos tratar os processos irreversíveis entre dois estados como uma série de processos reversíveis entre os mesmos estados. Podemos fazer isso porque tratamos com funções termodinâmicas que são funções de estado. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 123 Desse modo, ao nos depararmos com as equações da respiração e da fotossíntese, respectivamente, glicose + 6 O2 6 CO2 + 6H2O G = 673,0 kcal/mol 6 CO2 + 6 H2O glicose + 6O2 G = +673,0 kcal/mol temos que dizer que: (a) a equação correspondente à respiração tem G < 0 enquanto que a da fotossíntese tem G > 0. Esse valor para a energia livre parece indicar que é mais fácil degradar uma molécula grande para obter moléculas menores. Saímos de um sistema mais complexo e mais organizado e chegamos a um sistema menos complexo e menos organizado na respiração. No caso da fotossíntese o caso é exatamente o contrário, partimos de um sistema menos complexo e menos organizado e chegamos a um sistema mais complexo. O valor positivo da energia livre indica que há necessidade de fornecimento de energia para que esse processo ocorra. Sabemos que essa energia vem da luz solar. (b) as equações acima representam apenas um resumo do que ocorre na realizada. São o resultado de várias etapas intermediárias. (c) em quaisquer dois processos reais, como é o caso representado pelas duas equações acima, que possam ser representados por inúmeras reações, se uma delas representa um processo com um determinado valor de G, a reação que ocorre no sentido inverso vem G com sinal trocado. Assim o valor de G para a respiração e fotossíntese são iguais em módulo mas têm sinais contrários. (d) apesar de o valor de G apresentar o mesmo valor em módulo, isto não significa que o caminho realizado pelo processo referente à respiração seja o inverso daquele referente à fotossíntese. Na realidade os dois processos ocorrem com etapas intermediárias diferentes. Um processo não ocorre como o inverso do outro. (e) o valor de G para a respiração é negativo e o da fotossíntese é positivo. Isso quer dizer que a reação que ocorre na respiração é espontânea, enquanto que a da fotossíntese não é. Isso não significa porém que a reação da respiração, por ser espontanea, ocorra. A termodinâmica não se preocupa com o tempo necessário para a ocorrência dos eventos. Uma reação pode ser espontânea e levar milhões de anos para acontecer, o que do ponto de vista pratico, significa que não ocorre. Para que a reação da respiração ocorra, é necessário a intervenção de inúmeras enzimas e de muitas reações acopladas que acontecem simultaneamente. Apesar de o valor da reação global da respiração ser favorável, ela envolve etapas intermediárias em que o G é positivo. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 124 (f) a hidrólise de adenosina trifosfato, ATP a ADP é a reação mais freqüentemente usada pelos organismos biológicos para acoplar-se e forçar reações não-espontâneas, e ATP aparece como fonte de energia importante nos processos que acabamos de descrever e em inúmeros outros. (g) à medida que a energia livre é liberada, armazenada ou usada para realizar trabalho celular, ela pode ser transformada em outras moléculas. A energia conseguida nas reações que ocorrem nos organismos e nas ligações químicas pode ser transformada em calor, trabalho elétrico ou mecânico, de acordo com as necessidades do organismo e da maquinaria bioquímica com a qual os organismos foram equipados no decorrer da evolução. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 22. 125 EXERCÍCIOS 1. A febre de uma pessoa, obtida com um termômetro Celsius é 40C. Qual seria a leitura dessa febre com um termômetro Fahrenheit? 2. Calcule a temperatura kelvin correspondente a 30C. 3. Em uma cidade americana o termômetro marca 0F. Quanto vale essa temperatura em graus Celsius? 4. A quanto corresponde, na escala Celsius, 32F? 5. A febre é um indicador de alguma anormalidade no organismo humano. Dentre as temperaturas a seguir, a que indica um estado febril é: a) a) 39F 6. b) 60F c) 72F d) 102F e) 150F Em um certo bairro, um termômetro em graus Fahrenheit marcou a temperatura de 77F. Então o bairro estava: a) em uma temperatura amena b) muito quente c) muito frio d) numa temperatura incompatível, pois não existe região da terra capaz de atingir tal temperatura e) na temperatura que o gelo funde à pressão normal. 7. Em problemas de física e de química sobre gases, aprece a sigla CNTP, que quer dizer: condições normais de temperatura e pressão. Os valores de pressão e temperatura normais são: b) a) 1 atm e 100 K c) 8. b) 13 atm e 0 K c) 10 atm e 273 K d) 1 atm e 273 K e) 1atm e 0 K Em caso de dúvida, consulte: http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc25/ccd01.pdf Um gás perfeito a 27oC e a certa pressão ocupa o volume de 600 cm 3. Duplicando a pressão e a temperatura em oC, o volume dessa massa gasosa passa a ser: d) a) 600 cm3 b) 427 cm3 9. c) 372 cm3 d) 327 cm3 e) 173 cm3 Uma certa massa de um gás ideal, inicialmente nas CNTP, sofre uma transformação isobárica e aumenta seu volume em 80%. A variação de temperatura sofrida foi de: e) a) menos 80% mais 20% b) menos 25% c) mais 80% d) mais 25% e) o 10. Certa massa de um gás perfeito está inicialmente à temperatura de 27 C. O gás sofre uma expansão isobárica tornando seu volume 12 vezes maior e, a seguir, uma transformação isocórica, quando sua pressão cai a 1/3 de seu valor inicial. A temperatura final do gás é: f) a) 927oC b) 108oC c) 75oC d) 1200oC e) 627oC 11. Após uma determinada transformação de um gás ideal de massa constante, sua pressão duplicou e seu volume triplicou. Logo, sua temperatura kelvin: g) a) não mudou b) duplicou c) caiu pela metade d) triplicou e) sextuplicou 12. Uma massa de ar ocupa um volume de 2 litros a 20oC, sobre pressão de 1 atm, e é, então, submetida a uma compressão isotérmica, de modo a ocupar somente meio litro. Calcule a pressão (em atm) e a temperatura final (em oC). 13. Dois mols de um gás ideal ocupam um volume de 8,2 L sob pressão de 3 atm. Qual é a temperatura do gás? Dado R = 0,082 atm L/mol. K 126 Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 14. Uma certa massa de um gás sob pressão de 10 atm e temperatura de 200 K ocupa um volume de 20 litros. Qual o volume ocupado pela mesma massa do gás sob pressão de 20 atm e temperatura de 300 K ? 15. Numa transformação isocórica de certo número de mols de um gás ideal, enquanto sua temperatura aumenta de 27oC para 327oC, sua pressão passa de 2 atm para quanto? 16. Certa massa de um gás perfeito transforma-se isotermicamente. Enquanto sua pressão duplica, seu volume: h) a) duplica b) permanece constante c) cai para a metade d) quadruplica. 17. Um gás perfeito está contido num recipiente fechado por meio de um êmbolo, como mostrado na figura. Durante um certo tempo um aquecedor fornece ao gás 400 J de calor. Durante esse mesmo tempo o gás empurra o êmbolo, realizando um trabalho 150 J. O gás acumulou energia no processo? Explique. 18. Durante uma certa transformação de um gás perfeito, ele ganha 50 J de calor e o meio ambiente realiza um trabalhode 200 J sobre o gás, contraindo-o. Qual é a variação de energia interna do gás? 19. A transformação isobárica de um gás perfeito está representada no diagrama dado. Durante essa transformação, houve um aumento de energia interna no valor de 5 10 5 J. Calcule: i) a) o trabalho realizado pelo gás; j) b) a quantidade de calor que o gás recebeu. 20. Um gás perfeito contido num recipiente fechado de volume constante recebe 50 J de calor. Calcule: k) a) o trabalho do gás; l) b) a variação de energia interna. 21. Numa expansão isotérmica de um gás perfeito, ele recebeu 500 J de calor. Calcule: a) a variação de sua energia interna; b) trabalho realizado pelo gás. 22. Um gás está contido num recipiente de paredes isolantes térmicas. O gás se expande, realizando trabalho de 100 J. a) gás troca calor com o ambiente? b) a temperatura do gás aumenta ou diminui ? 23. Um gás perfeito realiza o ciclo ABCDA representado no diagrama. Responda: a) gás ganha ou perde calor? b) gás realiza ou sofre trabalho c) Quanto valem o calor e o trabalho postos em jogo durante o ciclo? 24. Em cada ciclo de uma máquina térmica a vapor, são consumidos 500 J de calor de uma fonte quente e escoados 400 J para uma fonte fria. Calcule o rendimento do ciclo. 25. Um ciclo de Carnot trabalha entre duas fontes térmicas, uma quente em temperatura 500 K e uma fria em temperatura 200 K. a) Calcule o rendimento do ciclo. b) Ao receber 900 calorias de calor da fonte quente, quanto trabalho o ciclo realiza? 26. Quando a temperatura absoluta de uma amostra de gás ideal é duplicada, o módulo da velocidade média de suas moléculas: Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli m) a) quadruplica b) duplica permanece inalterada 127 c) diminui de um fator 2 d) aumenta de um fator 27. O gráfico mostra como a pressão varia com o volume V quando a temperatura de uma dada massa de gás perfeito é alterada. Se a temperatura absoluta inicial é TI, então calcule a Temperatura absoluta final TF e o trabalho realizado pelo gás durante o processo. p 2p p V 2V 28. Um gás ideal, inicialmente no estado 1, sofre as transformações representadas pela figura (1 2 3 4). a) Qual é o trabalho realizado pelo gás na transformação de 1 a 4? p(N/m2) 2,0 105 b) A temperatura do gás no estado 1 é 300 K. Qual será a temperatura em 4? 1,0 105 2 e) 3 1 V 4 2 29. Um gás ideal a pressão constante p0 = 2 105 N/m2, expande-se até o dobro de seu volume 0,011 0,012 0,013 V(m3) inicial de 1 litro e, durante esse processo, recebe 50 calorias do meio ambiente. Sendo 1 cal = 4,18 J, quanto terá variado a energia interna do gás (em joule) ao final do processo ? 30. Um sistema termodinâmico é levado do estado inicial A ao estado B e depois trazido de volta ao estado A através do estado C, conforme mostra o diagrama p V da figura. p (105 Pa) Q 40 30 20 10 A→B B→C U + + C→A 1 2 3 4 V(m3) a) Complete a tabela atribuindo sinais (+) ou (-) às grandezas termodinâmicas associadas a cada processo. positivo significa trabalho realizado pelo sistema, Q positivo é calor fornecido ao sistema e U positivo é aumento de energia interna. b) Calcule o trabalho realizado pelo sistema durante o ciclo completo ABCA. 31. Uma máquina térmica, ao realizar um ciclo, retira 2,0 kcal de uma “fonte quente” e libera 1,8 kcal para uma “fonte fria”. Qual o rendimento da máquina? 32. Para estudarmos um fenômeno do ponto de vista termodinâmico, precisamos especificar qual é o sistema e suas vizinhanças. Definir: a) sistema; b) vizinhanças ou meio; c) universo 33. Consideremos a Primeira Lei da Termodinâmica . c) Como podemos representá-la por meio de equações? b) Qual o significado físico dessa lei? 34. a) Que é um processo exotérmico? b) E um processo endotérmico? c) Qual o tipo de reação que libera mais energia? 35. Qual a natureza, do ponto de vista da temperatura, dos processos celulares ? 36. A Segunda Lei da Termodinâmica proporciona um critério para predizer a direção de um processo. Para tal devemos considerar a Entropia. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 128 a) Defina Entropia; b) Como pode a entropia ajudar a predizer o sentido de um processo? c) Podemos ter processos reversíveis e irreversíveis. Como são os processos nos casos reais? 37. a) Que função relaciona a energia interna do sistema com a entropia? b) Energia Livre e Entropia podem aumentar ou permanecer constantes. Como ocorre com a entropia em relação ao sistema, ao meio e ao universo? c) Qual parâmetro deve ser utilizado para prever a direção das reações em sistemas biológicos? Explique. 38. a) Qual a função que representa a Energia Livre de Gibbs? b) Qual seria a constante de equilíbrio para uma equação do tipo: aA + bB + cC dD + eE + fF c) O que se pode dizer de uma reação onde a energia livre vale –600 kcal/mol ? d) Que tipo de reações tem menor valor de energia livre? 39. O que acontece com a energia livre quando estamos em condições não-padrão? 40. a) O que é energia de ativação? b) O que são catalisadores? c) Quais os principais catalisadores de sistemas biológicos ? 41. a) O que é um sistema fechado? b) Os sistemas biológicos são sistemas abertos ou fechados? c) A termodinâmica clássica pode ser usada nos estudo de sistemas biológicos? 42. Pode um processo não-espontâneo exotérmico com S negativo tornar-se espontâneo se a temperatura é aumentada? 43. Pode um processo não-espontâneo exotérmico com S positivo tornar-se espontâneo se a temperatura é aumentada? 44. Calcular a variação na energia livre molar para o processo H2O(s) H2O(l) nos casos a) T = 10C; b) T = 0C, e decidir para cada temperatura se a fusão é espontânea. Dados: entalpia de fusão = 6,01 kJmol-1; entropia de fusão = +22,0 JK1mol1. Estes valores são quase independentes da temperatura em todo intervalo de temperatura considerado. 45. Calcular a variação na energia livre molar para o processo H2O(l) H2O(g) nos casos a) T = 95C; b) 105C. Dados: A entalpia de vaporização é 40,7 kJmol-1 e a entropia de vaporização é 109,1 JK1 mol1. Em cada caso, indicar se a vaporização poderia ser espontânea ou não. Capítulo 6 - Termodinâmica - Ignez Caracelli 23. 129 REFERÊNCIAS Atkins, Peter; Jones, Loretta. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. [Chemical principles: the quest for insight]. Ignez Caracelli (Trad.). São Paulo: Bookman, 2002. 914 p. ISBN 85-7307-739-5 Brown, Theodore L., 1928- et al. Química: a ciência central. [Chemistry - the central science]. Robson Matos (Trad.). 9 ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005. 972 p. : il.. ISBN 8587918427. Hewitt, Paul G.. Física conceitual. [Conceptual physics]. Trieste Freire Ricci (Trad.); Paul G. Hewitt (Ilust.). 9 ed. Porto Alegre: Bookman, 2002. 685 p. ISBN 85-363-0040-x. Lehninger, Albert Lester 1917-. Bioenergetics: the molecular basis of biological energy transformations. 2 ed. Menlo Park: W.A. Benjamin, c1971. 245 p. Tipler, Paul Allen, 1933-; Mosca, Gene. Física para cientistas e engenheiros. [Physics for scientists and engineers]. Fernando Ribeiro da Silva (Trad.); Gisele Maria Ribeiro Vieira (Trad.). 5 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006. v.1. 793 p. ISBN 85-216-1462-4.