ANAIS III CIMDEPE
SIMPÓSIO INTERNACIONAL SOBRE CIDADES MÉDIAS
RIO DE JANEIRO - UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO
DE JANEIRO- 27 A 30 DE ABRIL
1
Coordenação
WILLIAM RIBEIRO DA SILVA (UFRJ)
MARIA ENCARNAÇÃO BELTRÃO SPOSITO (UNESP)
MARIA JOSÉ MARTINELLI CALIXTO (UFGD)
PAULO PEREIRA DE GUSMÃO (UFRJ)
Comitê Científico
ARTHUR MAGON WITHACKER (UNESP)
BEATRIZ RIBEIRO SOARES (UFU)
CARLOS BRANDÃO (UFRJ)
CARMEN BELLET SANFELIU (UNIVERSITAT DE LLEIDA)
CLEVERSON REOLON (UNESP)
CRISTIAN HENRÍQUEZ (PUC/CHILE)
DENISE DE SOUZA ELIAS (UECE)
DIANA LAN (UCPBA/ARGENTINA)
DORALICE SÁTYRO MAIA (UFPB)
ELISEU SAVÉRIO SPOSITO (UNESP)
EVERALDO SANTOS MELAZZO (UNESP)
FEDERICO ARENAS VÁSQUEZ (PUC/CHILE)
FLORIANO GODINHO DE OLIVEIRA (UERJ)
FREDERIC MONIÉ (UFRJ)
GLÁUCIO MARAFON (UERJ)
JAN BITOUN (UFPE)
JOSÉ ALDEMIR DE OLIVEIRA (UFAM)
JOSÉ MARIA LLOP TORNE (CATEDRA UNESCO)
JULIA ADÃO BERNARDES (UFRJ)
LIA OSORIO MACHADO (UFRJ)
MARIA LAURA SILVEIRA (CONICET/ARGENTINA)
OSCAR ALFREDO SOBARZO MINO (UFS)
OSWALDO BUENO AMORIM (PUC/MG)
PAULO PEREIRA DE GUSMÃO (UFRJ)
RENATO PEQUENO (UFCE)
ROBERTO LOBATO CORRÊA (UFRJ)
2
ROSA MOURA (IPARDES)
SAINT-CLAIR CORDEIRO DA TRINDADE JUNIOR (UFPA)
TATIANA SCHOR (UFAM)
Monitores
ANA CAROLINA ALVES CARVALHO DE OLIVEIRA
BRUNO BARRETO DOS SANTOS
BRUNO PEREIRA DO NASCIMENTO
CAIO VITOR VILLARINO
CHRISTINA BARBARA GIESEBART
CINDY MARTINS RODRIGUES
EURIDSON RIBEIRO DA CRUZ
GABRIELLE DE SOUZA FRADE
HUMBERTO MIRANDA DE CARVALHO
JOSÉ BERNARDO DA SILVA JUNIOR
LÍVIA MARIA DE SOUZA MAGALHÃES
LUANA ALVES LESSA
MONIQUE DEISE GUIMARÃES BASTOS
NATHAN FERREIRA DA SILVA
RAFAELA DETTOGNI DUARTE PAES
RENILDO NASCIMENTO SANTOS
VIVIAN SANTOS DA SILVA
3
FICHA DE CATOLOGRÁFICA
III Simpósio Internacional Cidades Médias, 30 Rio de Janeiro - RJ, 2015
Anais do III Simpósio Internacional Cidades Médias, UFRJ/ReCiMe, 26
à 30 de abril de 2015 / organizado por William Ribeiro da Silva, Maria
Encarnação Beltrão Sposito, Maria José Martinelli Calixto e Paulo Pereira de
Gusmão. Rio de Janeiro.
Tema:
ISBN:
Cidades
Médias,
Reestruturação
Urbana
e
Redes.
1. Geografia; 2. Espaço Urbano; 3. Urbanismo. Org. I. SILVA, W.R.; org.
II. SPOSITO, M.E.B.; org. III. CALIXTO, M.J.M. e org. IV. GUSMÃO, P.P.
Título: Anais do III Simpósio Internacional Cidades Médias.
CDU:
4
Índice
Autor
Pág.
Aarón Napadensky Pastene .....................................................................................13
Anderson Mendes Rocha ........................................................................................38
André Felipe Vilas de Castro ..................................................................................53
Bruno Barreto dos Santos .......................................................................................71
Bruno Bomfim Moreno ..........................................................................................87
Elaine Cristina Musculini ......................................................................................110
Elines Sodré Gomes ..............................................................................................130
Elizângela Justino de Oliveira ................................................................................145
Élvis Christian Madureira Ramos ..........................................................................160
João Carlos Mendes Lima ......................................................................................175
Monique Deise Guimarães Bastos .........................................................................201
Reges Sodré da Luz Silva Dias .................................................................................222
Rita de Cássia Gregório de Andrade ........................................................................238
Sergio Moreno Redón ..............................................................................................260
Tamires Eugenia Barbosa .........................................................................................280
Túlio Heckmaier de Paula Cataldo / Fábio Salgado Araújo ....................................297
5
Apresentação
A realização do III CIMDEPE busca propiciar a continuidade do debate acerca
da relação entre o desenvolvimento econômico e os novos/velhos problemas da
urbanização mundial. O processo da urbanização tem demonstrado novas
nuances que atribuem novos papéis às cidades médias em todo o mundo, de tal
maneira, que elas passaram a apresentar, por um lado, novos problemas urbanos
e, por outro, novas perspectivas de desenvolvimento econômico, por meio de
investimentos de grandes empresas (indústrias, redes e franquias comerciais e de
serviços) que ampliam suas escalas de ação via cidades médias, como nós de
articulação da nova economia mundial.
Histórico
O I CIMDEPE teve como tema central – “Cidades Médias: Dinâmica econômica
e produção do espaço urbano”, o que explica a sigla que lhe nomeia. Ocorreu em
Presidente Prudente, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), entre 6 e 9 de
junho de 2005. O segundo evento desta série – II CIMDEPE – teve lugar em
Uberlândia, de 6 a 9 de novembro de 2006, na Universidade Federal de
Uberlândia.
Desde então a Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (ReCiMe),
responsável pela organização destes encontros científicos, priorizou a
apresentação de trabalhos sobre este tema em diversos outros congressos,
simpósios e encontros, propondo, somente agora, em 2015, a realização do III
CIMDEPE.
O III CIMDEPE
A realização do III CIMDEPE busca propiciar a continuidade do debate acerca
da relação entre o desenvolvimento econômico e os novos/velhos problemas da
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urbanização mundial. O processo da urbanização tem demonstrado novas
nuances que atribuem novos papéis às cidades médias em todo o mundo, de tal
maneira, que elas passaram a apresentar, por um lado, novos problemas urbanos
e, por outro, novas perspectivas de desenvolvimento econômico, por meio de
investimentos de grandes empresas (indústrias, redes e franquias comerciais e de
serviços) que ampliam suas escalas de ação via cidades médias, como nós de
articulação da nova economia mundial.
Assim, as novas estratégias do desenvolvimento econômico passaram a incluir
estas cidades como alternativas locacionais às escolhas anteriores que recaíam de
modo quase exclusivo sobre as metrópoles, ampliando os limites geográficos da
expansão capitalista, o que cria oportunidades de acesso ao consumo e à
desconcentração de atividades econômicas, mas também, produz novos
problemas urbanos, o que coloca como premente o debate sobre uma
urbanização não planejada e o rompimento dos mitos da qualidade de vidas em
cidades médias, tidas como “redutos de classe média”, pois se constatam
processos de favelização, segregação espacial, degradação de áreas centrais,
congestionamentos, elevação dos preços imobiliários e consequente expulsão de
populações mais pobres.
Os seis eixos principais
Nesta perspectiva, convidamos a comunidade acadêmica para participar dos
debates que incluirão seis eixos principais, com os seguintes coordenadores:
Rede urbana – história, tendências e perspectivas
Jan Bitoun (UFPE), Doralice Sátiyro Maia (UFPB), Beatriz Ribeiro Soares
(UFU), Marcio Catelan (UNESP), Carmen Bellet (Universitat de
Lleida/Espanha).
A discussão sobre a constituição da rede urbana brasileira encontra-se desde os
estudos clássicos da Geografia Urbana. De rede de cidades à rede urbana, a
interligação entre centralidades (cidades de diversos tamanhos, vilas e
aglomerados rurais) vai se dando desde os caminhos de passagem, caminhos de
gado, ferrovias, percursos fluviais e marítimos, rodovias, e linhas aéreas. Desta
forma, as transformações da rede urbana brasileira são representativas do
aumento da complexidade da divisão técnica e territorial do trabalho no campo,
7
nas florestas e nas cidades e das permanências presentes na trama de relações
entre os centros urbanos e outras centralidades. O espaço, cada vez mais fruto do
movimento relacional entre instituições e agentes que atuam em múltiplas escalas,
é melhor compreendido a partir desta relação – a coexistência entre as
permanências e as transformações contemporâneas. Nesta relação é que se
observa a (re) definição dos papéis e das funções das cidades na rede urbana. Esta
(re) definição de papéis e de funções ganha relevância nos estudos urbanos sob as
perspectivas elaboradas a partir dos centros urbanos, que por um conjunto de
variáveis e metodologias convenciona-se chamá-los como cidades médias.
Embora estas cidades não componham os níveis mais elevados da hierarquia
urbana, ganham importância por exercerem papel cada vez mais importante tanto
no que diz respeito à mediação entre campo e cidade; cidades locais e/ou cidades
pequenas e metrópoles, etc., bem como porque participam da reprodução do
capital e das condições materiais de reprodução da vida conforme são inseridas
no âmbito das lógicas da globalização, reunindo lógicas de diferentes escalas, e
articulando-as no processo de consolidação de sua centralidade, primeiro
regional, e em outros momentos para além desta escala. Neste jogo de escala
entende-se um contexto analítico para o debate da reconfiguração da rede urbana
que adquiriu conteúdos particulares em sua relação com as cidades médias.
Reestruturação produtiva, indústria e cidades médias
Eliseu Sposito (UNESP),
(UCPBUA/Argentina)
Cleverson
Reolon
(UNESP),
Diana
Lan
As mudanças nas formas de organização da produção industrial, no momento de
um regime de acumulação chamado flexível, tem importância não apenas em
termos gerais, mas rebatimento importante sobre as cidades médias e seu papel
na rede urbana. A maneira como as empresas se organizam (em redes,
principalmente), como suas atividades se articulam em diferentes escalas, como
tomam decisões e definem padrões de localização e ações que visam ampliar sua
competitividade em nível global, são alguns dos aspectos que iremos estudar nesta
seção do Workshop.
Dinâmicas e lógicas do comércio e dos serviços em cidades médias
Maria Encarnação Sposito (UNESP), William Ribeiro (UFRJ), Arthur Withacker
(UNESP)
8
O setor de atividades comerciais e de serviços passou por significativo processo
de crescimento nas três últimas décadas, em decorrência, inclusive, das dinâmicas
relativas à reestruturação produtiva, o que significou maiores articulações com a
produção agropecuária e industrial. Tal crescimento foi acompanhado de
significativa concentração econômica das empresas, alcançando a escala
internacional. Este processo redundou em enorme expansão espacial das redes
comerciais e de serviços, com destaque para alguns ramos, como: o de super e
hipermercados, o bancário e o de eletrodomésticos.
Paralelamente e como parte do mesmo conjunto de mudanças, capitais de
diferentes escalas, do internacional ao local, passaram a operar no setor comercial
e de serviços, de modo associado, por meio do sistema de franquias, o que
também teve como resultado enorme expansão espacial de produtos, serviços e,
sobretudo, marcas que se difundiram por diferentes países.
Tais dinâmicas trouxeram rebatimentos diretos sobre a organização das redes
urbanas, em função da redefinição na divisão interurbana e regional do trabalho e
também dos processos e formas de produção das cidades.
Se, no período anterior, os grandes capitais do setor terciário atuavam
predominantemente nas metrópoles e grandes cidades, a concentração
econômica e difusão espacial das redes promoveu uma procura por outros
estratos das redes urbanas, o que ampliou os mercados consumidores.
Todos estes movimentos podem ser analisados por meio de novas relações entre
processos, conteúdos e formas urbanas. O estudo de centralidade em suas
múltiplas escalas impõe-se, então, como um desafio.
Tendo em vista este quadro geral, que particularidades podem ser notadas nas
cidades médias quando analisamos as mudanças do setor comercial e de serviços?
De que modo se estruturam seus espaços e se redefinem suas centralidades face
às transformações recentes? Em que medida as novas estruturas espaciais
refletem velhas e/ou novas formas de segmentação socioespacial? A situação
geográfica das cidades médias é fator importante nas escolhas espaciais das
empresas? O aumento das possibilidades de transportes e comunicações reforça
interações espaciais e isso tem consequências para estas cidades? Como se
articulam produção, circulação e consumo nas redes urbanas sob os novos
arranjos espaciais?
Agronegócio e urbanização
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Denise Elias (UECE), Gláucio Marafon (UERJ), Mirlei Fachini Vicente Pereira
(UFU)
O GT objetiva aprofundar os debates sobre os processos e formas inerentes à
urbanização da sociedade e do território oriundos da difusão da agricultura
capitalista globalizada no Brasil e no mundo, no âmbito das discussões teóricas e
metodológicas. Serão aceitos trabalhos que versem sobre os seguintes temas: as
novas relações entre o agronegócio, as cidades e a reestruturação regional; a
especialização funcional das cidades inerente à difusão do agronegócio; o
crescimento do terciário (comércio e serviços) alicerçado no consumo produtivo
agrícola; incremento da urbanização, das relações interurbanas e novas
regionalizações considerando a organização das redes agroindustriais; as novas
relações campo-cidade resultantes dos fluxos de capital, mão de obra,
mercadorias, informação, tecnologia etc. inerentes às diferentes atividades
industriais, agrícolas, comerciais e de serviços que integram as redes
agroindustriais; urbanização corporativa associada ao agronegócio e às redes
agroindustriais; reestruturação do centro e formação de novas centralidades nas
‘cidades do agronegócio’; aprofundamento das desigualdades socioespaciais nas
‘cidades do agronegócio’.
Desigualdades socioespaciais. Produção de moradia, dinâmica imobiliária e
segregação residencial
Renato Pequeno (UFCE), Everaldo Melazzo (UNESP), Maria José Martineli
Calixto (UFGD)
Esta sessão de trabalho dedica-se a analisar os processos gerais, os particulares e
os singulares das cidades médias considerando os diferentes agentes da produção
da habitação e suas articulações com a política urbana: Estado, mercado
imobiliário, movimentos sociais, dentre outros. A dinâmica imobiliária e a
produção da moradia são dois eixos analíticos que se complementam e que
devem ser tomados em suas dimensões espaciais e que remetem a permanente
produção e reprodução de desigualdades socioespaciais.
Políticas públicas, governança e desenvolvimento regional – políticas públicas /
escalas local e regional
Paulo Gusmão (UFRJ), Saint-Clair Trindade (UFPA), Carlos Brandão (UFRJ)
10
O eixo temático volta-se para a discussão das cidades médias, relacionando o
atual perfil e dinamismo das mesmas às políticas públicas implementadas pelos
diversos níveis de governo – federal, estadual e municipal. Busca-se, dessa forma,
enfatizar a dimensão política dessas cidades, considerando o papel das mesmas
para o desenvolvimento regional, assim como problematizar elementos
relacionados às diversas formas e experiências de governança no contexto
geográfico imediato no qual se inserem.
OBS: Devido à falta de trabalhos, o EIXO IV - Agronegócio e urbanização, foi
condensado ao EIXO III - Dinâmicas e lógicas do comércio e dos serviços em
cidades médias.
11
Eixo 3 – 4: Dinâmicas e lógicas do comércio e dos serviços em cidades médias.
12
DINAMICAS DE (RE) ESTRUCTURACION TERCIARIA
INTERMEDIAS
LATINOAMERICANAS:
EL
CASO
METROPOLITANA DE CONCEPCIÓN, CHILE
EN CIUDADES
DEL
ÁREA
Aarón Napadensky Pastene1.
RESUMEN
Cuando de la ciudad y sus transformaciones funcionales y morfológicas se refiere, las
discursivas académicas latinoamericanas suelen emparentan los procesos de metropolización
con los de expansión neoliberal, caracterizándolos con el surgimiento y consolidación de
sistemas polinucleares, impulsados por la tercerización de las economías urbanas, su
reordenamiento funcional y cambio estructural, formando nuevos centros de consumo y
distritos de negocios fuera del centro tradicional. Junto a esto, o como consecuencia de ello,
existe consenso en observar la obsolescencia que evidencian los centros urbanos tradicionales,
los cuales han visto drenada su importancia a favor de estas nuevas centralidades. Sin
embargo, estas narrativas surgen del análisis de las grandes capitales nacionales del
continente, extrapolándose a otras ciudades de escalas intermedias, en el entendido que estas
van convergiendo a lo mismo, sumergiendo con ello posibles diferencias que escapan a una
simple cuestión de tamaño o estadio evolutivo.
Palabras clave: metropolización, autoorganización funcional, morfología urbana
1
Doctor en Arquitectura y Estudios Urbanos, Pontificia Universidad Católica de Chile. Académico Depto. de Planificación y Diseño
Urbano,, FACD-UBB / Director Laboratorio de Estudios Urbanos de la Universidad del Bío-Bío. [email protected], Avda. Collao
1202. Concepción-Chile.
13
1.
Introducción
A mediados del siglo XX, Chile implementó una política de estímulos gubernamentales
descentralizadores que buscó desarrollar industrialmente el territorio, ejerciendo efectos sobre
importantes ciudades medias como fue el caso Concepción y sus comunas aledañas, que
experimentaron una expansión del producto interno bruto local, e incremento poblacional
(Hernández, 1983; Aliste y Almendras, 2010), sentando las bases de lo que posteriormente se
conocería como Área Metropolitana de Concepción. Ya transcurrido más de medio siglo de
aquello y entrada la segunda década del siglo XXI, es posible apreciar, no sin contradicciones
e inestabilidades, una consolidación de este sistema metropolitano intermedio, levantándose
como uno de los más importantes a nivel nacional después de Santiago, la capital del país.
Incidido tanto por su origen industrial, al amparo de un Estado proteccionista, como por la
liberalización económica iniciada con la llegada del régimen militar en 1973 y continuada por
los gobiernos que le han sucedido, el proceso de metropolización del Gran Concepción
evidencia, en consonancia con las narrativas académicas imperantes, marcadas tendencias a la
desindustrialización y tercerización de su economía, sin embargo, no está claro si el
reordenamiento funcional y consolidación morfológica-estructural que ha soportado,
acompañado e interactuado con dicha metropolización, estaría igualmente alineado a dichas
narrativas o presentaría diferencias relevantes.
De este modo, el devenir morfológico-funcional del Área Metropolitana de Concepción se
presenta como una buena oportunidad para explorar y problematizar en torno a los discursos
predominantes respectos de los procesos de (re)organización funcional y morfología
estructural que estarían siendo precipitados por las fuerzas de una metropolización
eminentemente neoliberal, marcada por la desindustrialización y tercerización económica.
Para ello, el trabajo se focaliza en develar, desde un análisis espacial centrado en las
tendencias de localización de la actividad económica no industrial, algunas de las dialécticas
que se estarían dando entre estas tendencias ya mencionadas, y las transformaciones
morfológico-estructurales del AMC.
En consonancia con lo anterior, la discusión se inicia concordando definiciones y
estableciendo los elementos más relevantes y coincidentes de la narrativa académica
continental respecto de los procesos de metropolización y sus características de organización
funcional y morfología estructural. Posteriormente se ponen en tensión dichos discursos y su
aplicabilidad a contextos urbanos intermedios, esto a través de la exploración e interpretación
de una serie de mapas temáticos que muestran las tendencias de dispersión-concentración de
las actividades terciarias y su correlato con la morfología que ha tomado la estructura
metropolitana del Gran Concepción. Finalmente se establecen algunas conclusiones
preliminares y se consignan nuevas interrogantes.
Objetivo del trabajo
Desde el punto de vista de las discursivas académicas latinoamericanas, existe consenso en
definir que las dinámicas metropolitanas observables han estado y siguen estando
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intensamente afectadas por las trasformaciones político-económicas que se dieron a fines de
los 60´ y principios de 1970 (Ciccolella, 1999), siendo plausible en este sentido, emparentar
dicho proceso a la irrupción, instalación y consolidación del modelo neoliberal. Por otro lado,
también existe acuerdo en caracterizar esta metropolización neoliberal, tanto en lo funcional,
con el éxodo de los servicios comerciales y de alto nivel del centro tradicional y su
consiguiente obsolescencia; como en lo morfológico-estructural, con sistemas metropolitanos
que se soportan en estructuras urbanas polinucleares.
Estos discursos, construidos preferentemente desde el estudio de las grandes ciudades
capitales del continente, son los que muchas veces se extrapolan y utilizan como argumentos
analíticos para escudriñar en las lógicas de metropolización de ciudades intermedias,
entendiendo estas como estadios previos o realidades diferenciadas solo por una cuestión
escalar y que inevitablemente van a confluir a un mismo proceso de reordenamiento funcional
y modélica morfológica. Sin embargo, y como ya se mencionó, estas discursivas provienen
del análisis de las grandes capitales nacionales del continente, donde el nivel de desarrollo
infraestructural, concentración poblacional y tercerización económica ya eran relevantes y
significativamente distintas a la de ciudades intermedias de la región, marcando un desigual
escenario de entrada a los procesos de metropolización aquí en cuestión.
De aquí que el presente trabajo encuentra relevante discutir y profundizar en los procesos
morfológicos y funcionales de transformación-expansión de las ciudades intermedias,
reivindicando la condición singular de estas y que no necesariamente se enmarcan en las
narrativas de las grandes metrópolis latinoamericanas y sus transformaciones, en el entendido
que estas han estado sometidas a los impactos del sistema neoliberal y procesos de
metropolización desde un momento en el cual su nivel de consolidación urbana era
ostensiblemente menor a las grandes capitales, y que por tanto se han forjado y madurado al
amparo de este sistema, a diferencias de las grandes ciudades, donde la metropolización ha
tenido una expresión morfológica fuertemente determinada por las preexistencias materiales.
Para tensionar estos discursos, y ejemplificar lo expuesto, se analiza una ciudad intermedia
con un avanzado proceso de metropolización, como es el caso del Área Metropolitana de
Concepción, Chile, segunda concentración poblacional del país después de la capital,
Santiago
Propuesta metodológica
En términos generales el concepto de policentralidad es recurrentemente medido desde dos
ángulos; el morfológico, y el funcional (Maturana & Arenas, 2012), mediciones que se
enmarcan en una mirada de escala regional, donde los centros son homologados a la ciudad
como un todo y la policentralidad da cuenta del nivel de importancia y relación de las
ciudades en la región. No obstante lo anterior, aquí el interés es explorar la cuestión funcional
y morfológica a escala intra-metropolitana, dejando de lado las ciudades como entidades
sujetas de análisis, esperando con ello dar cuenta de la forma que toma en el territorio la
(re)organización funcional en las ciudades intermedias, poniendo en tensión los discursos
predominantes que extrapolan las conclusiones y modelos decantados de las grandes capitales
nacionales, a la realidad de las ciudades intermedias.
En consonancia a lo dicho, el presente trabajo, de carácter exploratorio, plantea que los
procesos de metropolización de ciudades intermedias, detonados tras la adopción e
intensificación del modelo neoliberal, tendrían una expresión morfológica de estructuración
urbana y procesos de (re)organización funcional, debiesen mostrar evidencias de
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singularidades que no hacen siempre posible suscribir los concesos predominantes.
Descartando el endoso conceptual que fija este proceso como un estadio urbano de expansióntransición que replicaría tendencias de reordenamiento funcional y cambio morfológico
evidenciadas en las capitales nacionales y sus sistemas urbanos metropolitanos.
Este eventual desacoplamiento de los discursos y narrativas académicas predominantes, se
sustentaría en que las ciudades intermedias, a distingo de las grandes capitales nacionales,
presentaban menores niveles de estructuración y consolidación urbana intercomunal al
momento de entrar en el ciclo de metropolización neoliberal, permitido procesos
morfogeneticos menos determinados por las preexistencias materiales. Es decir, las ciudades
intermedias presentaría una menor fricción al proceso de ajuste reciproco entre la forma de
intensificación y (re)organización funcional del territorio en metropolización, y la morfología
de estructuración de ese tejido urbano metropolitano (espacio material). Marcando una
dialéctica que estaría menos determinada por las preexistencias, y por tanto más
indeterminada o más expuestas a la fuerzas del sistema político-económico vigente.
Para los propósitos ya expuestos, se interroga un caso de estudio, explorándolo en tres fases:
(i)
(ii)
(iii)
2.
Pesquisa y análisis; compuesta por la búsqueda, levantamiento y espacialización de
usos de suelo y relato morfológico de la metrópolis en construcción, a partir de una
categorización de 4 grupos de servicios intercomunales; (a) Primarios, considerando
los equipamientos de salud y educación; (b) Banales, como gastronómicos, de
entretención y comercio detallista; (c) culturales; y (d) Alto nivel, dentro de los cuales
están financieros, legales y creativos. Para el catastro de usos se recurrió al directorio
comercial de los 12 municipios que según el Plan Regulador Metropolitano de
Concepción componen la metrópolis, contabilizando solo aquellos vigentes a la fecha
y excluyendo los de menor tamaño o cobertura comunal. Correlativamente se hizo un
análisis en su propio mérito de los distintos planos temáticos levantados.
Interpretación; con los mapas de servicios levantados, con el Área Metropolitana
caracterizada según vialidad estructurante y centros fundacionales comunales, se
realizó una sobreposición intencionada de mapas, con lo cual se hacen una serie de
interpretaciones en torno a la cuestión en estudio.
Conclusiones; finalmente se hacen algunas consideraciones en torno a las
interpretaciones conjunta de los mapas levantados y cruzados, dando pábulo a algunas
a reflexiones, cuestionamientos y nuevas interrogantes respecto al caso.
Aproximaciones a los discursos de la metropolización neoliberal
En las últimas décadas del siglo XX, las economías industrializadas atravesaron por una crisis
económica de proporciones, misma que le permitió a la derecha radical de aquel momento,
sentenciar a la planificación urbana como un instrumento distorsionador e inhibidor del
funcionamiento de las leyes de mercado, culpable de la crisis al haber obligado a los
empresarios a elegir lugares que no eran los óptimos, ahogando el espíritu empresarial e
inhibiendo el progreso de las ciudades (Hall, 1996). Este contexto posibilitó que el capital
financiero emprendiera una ofensiva en contra la intervención estatal y sus regulaciones
(Pérez, 2004), planteando una única solución posible a la crisis, y esta era el pleno
restablecimiento del juego de las fuerzas del mercado, limitando el papel del Estado a crear y
preservar el marco institucional apropiado para ello (Harvey, 2007, 2008).
16
Pero la crítica a la planificación urbana centralizada no solo estaba afincada en su carácter
estatista, regulatorio y distorsionador del mercado, sino que también estuvo presente del
mismo momento en que la apertura económica de posguerra y la expansión del pensamiento
neoliberal fue dando mayor protagonismo a las determinantes extra-locales en la forma
urbana (Friedmann,1992), ayudando a expandir el convencimiento de una ciudad que se
construía por una combinaciones de poderes sin identidad legible, sin asideros, sin
transparencia, imposibles de manejar, por tanto había que desistir de aquel vano intento y
dejar que funcionaran las fuerzas invisibles del mercado (De Certeau, 2002). La ciudad y sus
complejidades no podía seguir siendo la idea central organizadora tras el esfuerzo planificador
(Webber, 1968), dándose por fracasado el sueño orgulloso y totalitario de tratar la sociedad a
través de las formas espaciales (Dupuy, 1998).
Tras la expansión del pensamiento neoliberal y el desandamiaje de la planificación urbana, se
da un periodo de expansión y reestructuración urbana, marcado por la desconcentración de la
residencia primero y del empleo después, lo que llegó a ser un fenómeno universal en
prácticamente todas las áreas metropolitanas del mundo (Hall, 1997), y mientras las nuevas
periferias se independizaban de la ciudad, creando sus propios centros, los centros
fundacionales entraban en decadencia (Koolhaas, 1995; Fishman, 1987).
Durante el último tercio del siglo XX, esta visión neoliberal llegó a Latinoamérica, de la mano
de sendas dictaduras que impusieron a fuerza el nuevo modelo, promoviendo la
desregulación, privatización y retirada del Estado (Meyer & Bähr, 2001), permitiendo en una
primera instancia aumentar los flujos de capital internacional y la participación de actores
privados en el desarrollo de proyectos de asociación público-privada, dando como resultado
ciudades económicamente más abiertas, cuyas nuevas formas de urbanización y organización
han venido respondiendo cada vez más a lógicas neoliberales de comercialización, y
generación de valor (Janoschka, 2002), que a la proyección centralizada de un ideario de
ciudad, dando pie a un emergente orden espacial que estaría replicando en las grandes
ciudades del continente, las tendencias observadas en los países industrializados (Ciccolella,
1999; De Mattos, 1999). Es decir, se estaría produciendo una generalizada metropolización
de las grandes ciudades, entendiendo esto como un proceso que afecta las relaciones intra e
interurbanas, estructurando, controlando y especializando el territorio, intensificando las
relaciones dentro de la propia ciudad y de esta con los centros urbanos próximos hasta
conformar nuevas unidades funcionales, las metrópolis, (Gaussier, Lacour & Puissant, 2003).
Esta latino-metropolización neoliberal aún busca definición, metrópolis expandidas (De
Mattos, 1999), ciudad perforada (Janoschka, 2002), o ciudad fragmentada (Borsdorf, 2003),
son algunos acercamientos que pese a la diversidad reconocen la estrecha relación entre la
(re)organización funcional de la metrópolis y su forma construida, marcada por la expansión
de las actividades económicas terciaria en la periferia de los sistemas metropolitanos (Aguilar,
2002), y una estructuración urbana polinuclear (Aguilar, 2002; Cicolella, 1999; De Mattos,
2002), tendencias que estarían diluyendo tras de sí las tradicionales estructuras urbanas
(Janoschka, 2002; Meyer y Bähr, 2001; Cabrales y Canosa, 2002).
En Latinoamérica, la expansión de las actividades económicas hacia la periferia y la
consiguiente morfología polinuclear se ha venido dando principalmente por dos fenómenos de
relevancia. El primero es la modernización del comercio detallista e instalación de grandes
operadores de retail, introduciendo y apropiando la tipología shopping mall (De Mattos,
2010), no pocas veces acusada de ser la causante de la obsolescencia de los centros
tradicionales (Sarlo, 1994, 2006, 2009; Janoschka, 2002; Artigas, et al., 2002; Carman,
17
2006; López Levi,1997, 1999; Eerola, 2006; Ramírez Kuri, 1993). El otro fenómeno de
importancia es el éxodo de las actividades terciarias, creando distritos de servicios fuera del
centro tradicional (De Mattos, 2010), ejemplos de esto son los casos de Ciudad de México y
los centros de servicios de Santa Fe y el Bosque (Parnreiter, 2002, 2011), Lima y el distrito
financiero de San Isidro (Chion, 2002), Buenos Aires con el eje norte y el barrio del Pilar
(Ciccolella, 1999); o Santiago, con el eje oriente, Las Condes-Vitacura, y la Ciudad
Empresarial de Huechuraba (Ducci, 2000).
3.
Caso de estudio: Área Metropolitana de Concepción (AMC). Región del Bío-Bío,
Chile
Si intención de entrar en la discusión, aún abierta, sobre que es una ciudad intermedia, se hace
necesario decir que la elección del caso de estudio, el Área Metropolitana de Concepción
(AMC), se hace en razón de considerarse como una ciudad intermedia, al cumplir las
premisas básicas que definen a este diverso grupo de ciudades, es decir, ejercer un
reconocido rol de intermediación entre los núcleos más pequeños y la grandes áreas
metropolitanas (Michelini, J. & C. Davies, 2009), pero también cumple los siguientes puntos:
(i) no es capital nacional, (ii) articula el territorio y funciona como centro de referencia para
un territorio más o menos inmediato; (iii) es centro de bienes y servicios, más o menos
especializados para la población del mismo municipio, y de otros más o menos cercanos; (iv)
constituye un centro de interacción social, económica y cultural; (v) está ligada a redes de
infraestructura que conectan redes locales, regionales, nacionales, e incluso internacionales;
(vi) articula flujos; (vii) aloja niveles de administración del gobierno local, regional y subnacional. (Llop, 1999).
Al igual que en la gran mayoría de los países del continente, la investigación desarrollada
sobre ciudades intermedias es ostensiblemente menor en relación a la existente para las
capitales nacionales, no obstante ello, en los últimos años se ha venido acuñando importante
conocimiento en torno a Concepción y su proceso de metropolización, el que no ha escapado
a los diagnósticos globales, siendo descrito como un sistema urbano policéntrico y
multifuncional (Vásquez, 2005), estructura urbana funcionalmente bicentrica, conformada
por los municipios centrales de Concepción y Talcahuano, esto medido en flujos laborales,
precios de suelo y densidad poblacional (Rojas, et al., 2009). También destacan los estudios
sobre las formas de consolidación y conurbación, identificándose tres patrones; crecimiento
por acreción, por expansión tentacular y por salto de rana (Aliste et al., 2012), los cuales
quedarían circunscritos en términos generales a un crecimiento del tipo dispersión aglomerada
(Rojas, et al., 2013). Otros autores definen el modelo metropolitano de Concepción como un
modelo intermedio, caracterizado por un crecimiento moderado del suelo urbano, con
tendencia a localizar nuevos tejidos en sus áreas medias (Salinas & Pérez, 2011).
El Área Metropolitana de Concepción (AMC) o también llamada metrópolis penquista,
comienza a configurarse en los primeros años de la segunda mitad del siglo XX, precipitada
por un proceso de industrialización y crecimiento poblacional, deviniendo en un
conglomerado de 11 comunas dentro de la cual esta Concepción, capital de la región del BíoBío, segunda más poblada de Chile, después de la Metropolitana (Instituto Nacional de
Estadísticas, INE, 2012), pero novena en términos de ingreso, con un per cápita de U$4.000
(INE, 2012). La superficie regional es de 37.068,7 km2, representando el 4,9% del territorio
Chileno Americano e Insular. La región está divida en cuatro provincias; Concepción,
Arauco, Bío-Bío y Ñuble, y posee solo un Área Metropolitana consignada en los Instrumentos
de Planificación Territorial supra-comunal, el Gran Concepción.
18
La Provincia de Concepción por su parte, tiene una superficie total que llega a los 3.439 km2 y
una población de 1.027.373, la cual está dividida en doce comunas. Concepción es la comuna
capital provincial y regional, con una población estimada al 2012 de 229.665; las comunas
centrales del AMC como Talcahuano, tiene 171.332 habitantes; Chiguayante, 128.110; San
Pedro de la Paz, 98.936; Hualpen, 84.484; y Penco, 54.102. Luego le siguen las comunas más
periféricas como Coronel, 110.623; Lota, 47.675; Tome, 56.410; Hualqui, 22.880;Santa
Juana; 13.453; y Florida, 9.703.
Bajo la división político-administrativa de escala provincial, y por sobre la comunal, se
encuentra un Instrumento de planificación territorial de escala metropolitana, el Plan
Regulador Metropolitano de Concepción, el cual rige el Área Metropolitana de Concepción
(2002), constituida por 11 municipios, todas las comunas de la Provincia, excepto Florida,
dado que esta última es de población mayoritariamente rural y no presenta el nivel de
relaciones funcionales y económicas que si evidencian las demás. Dentro de esta área
metropolitana, las comunas de mayor densidad y dinamismo, son sin duda Concepción y
Talcahuano, le siguen Hualpen, Chiguayante y San Pedro de la Paz, siendo estas dos últimas,
recientes divisiones de las comunas centrales, Talcahuano y Concepción respectivamente, y
cuyo carácter es de ciudades dormitorio, concentrando el mayor crecimiento residencial del
AMC, pero a la luz de los resultados, evidenciando igualmente actividad comercial y de
servicios, cuestión que disminuye notablemente cuando de las comunas periféricas se trata.
4.
Explorando la (re)organización funcional del AMC
Antes de que se iniciara el proceso de metropolización que afecta desde mediados del siglo
XX a los núcleos urbanos del actual Gran Concepción o AMC, sus centros urbanos
tradicionales contenían la totalidad de los servicios comunales, y aquellos de cobertura
intercomunal estaban emplazados exclusivamente en el centro fundacional de Concepción,
capital provincial y regional. De este modo, los centros tradicionales eran los núcleos de
servicios y las periferias estaban destinadas a residencia, mientras el extrarradio era suelo
agrícola e industrial, existiendo una marcada discontinuidad de lo construido entre cada
núcleo urbano, y si bien la industrialización y la necesidad de trasportar materias primas y
bienes manufacturados, fueron nerviando el territorio (las principales infraestructuras
interurbanas tienen su origen en esto), dando el basamento a la actual forma metropolitana,
fue el golpe de Estado de 1973, el que cambió radicalmente este escenario, haciendo suyo el
discurso neoliberal, abriendo la economía, derogando las medidas proteccionistas de la
industria local y desarmando los elementos regulatorios de ordenamiento funcional de las
ciudades, siendo precisamente lo que de esto ha devenido, el objeto de esta inicial
exploración.
De las cuatro categorías de servicios levantados en el AMC, la primera en ser revisada fue la
de los servicios primarios, entendiendo con ello los servicios de salud y educación; aquí sin
duda existen factores que condicionan fuertemente su localización, uno de ellos es la
intención distributiva que ejerce el Estado para la implantación de aquellos servicios de
carácter público, ya sean escuelas, consultorios y hospitales, no obstante, también existen
aquellos servicios básicos privado, cuyo principio de localización se vuelve relevante para
este estudio por cuanto no están supeditados por el aparato estatal. Dentro de estos últimos
están las clínicas, consultas médicas, centros dentales, universidades, institutos profesionales
(IP), centros de formación técnica (CFT), colegios particulares y particulares subvencionados,
19
todos con radios operacionales intercomunales. Dicho esto, los planos de espacialización de
servicios aquí llamados primarios (Fig.1) permiten identificar que una de las dos comunas
centrales, Concepción, y específicamente su centro tradicional, mantiene la mayor oferta de
servicios de salud y educación metropolitanos, no así Talcahuano, la otra comuna central. Sin
embargo, cuando se desagrega entre servicios públicos y privados, la participación de estos
últimos en las comunas de la primera corona, como San Pedro de la Paz, Chiguayante y
Hualpen se vuelve significativa, no así en las comunas periféricas del área metropolitana,
como Tome, Penco, Hualqui, Coronel y Lota, donde la oferta es escasa y exclusivamente
pública, estimándose importantes desplazamientos desde las comunas de la segunda corona
hacia las comunas centrales.
Otra cuestión relevante que dejan ver los planos, es la una relación entre la concentración de
estos servicios, y los centros urbanos tradicionales de las comunas, por lo menos para las
nucleares y pertenecientes a la primera corona, es decir, los servicios intercomunales
primarios se concentran en los tejidos históricamente centrales de las comunas. También toma
relevancia la accesibilidad intercomunal que van dando las vías estructurante del AMC, por lo
que los núcleos de servicios primarios de estas comienzan a evidenciar una morfología lineal,
tal es el caso de San Pedro de la Paz y Chiguayante. Las únicas aglomeraciones que parecen
escapar, en parte, a esta lógica son las concentraciones de servicios que se aprecian en el
centro urbano fundacional de Concepción, y en el punto de encuentro de los límites
comunales de Talcahuano, Hualpen y Concepción. Esta última es una aglomeración
excéntrica a los tejidos históricamente centrales de estas comunas, lo que se está dando en
torno al shopping mall Plaza del Trébol (1994), donde no solo se han instalado oferta
educativa privada, sino también clínicas y centros de salud privados.
Fig. 1 Espacialización de servicios básico en el Área Metropolitana de Concepción
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Fuente: elaboración propia
Finalmente, es posible decir que la cobertura territorial de estos servicios, por lo menos
dentro del AMC, es mayor en los equipamientos de salud, que en los educativos, estos últimos
presentan mayor concentración.
El segundo grupo de servicios levantados y espacializados, fueron los banales, los que a su
vez se dividieron en dos subgrupos; equipamientos comerciales, y servicios gastronómicos y
de entretención, todos de escala intercomunal (Fig.2). En relación a los primeros, los
servicios comerciales, específicamente el comercio detallista, tanto de bienes durables como
no durables, se identificó una importante participación del centro tradicional de Concepción y
de menor medida del centro tradicional de Talcahuano. También fue posible apreciar una
participación de las comunas de la primera corona, con localizaciones muy similares a las
vistas en los servicios primarios, es decir, en tejido central y vía estructurante, con un
marcado carácter lineal.
Nuevamente se aprecia como singularidad que escapa al patrón identificado, tanto de
localización como de morfología, la importante participación que tiene el núcleo que se ha
conformado alrededor del shopping mall Plaza del Trébol.
22
Cuando fueron los servicios gastronómicos y de entretención, los analizados, fue posible
identificar que estos no solo se mantenían en el centro fundacional, sino que se desbordan de
este, ampliando la influencia del centro hacia el sur oriente de la comuna central, creando un
distrito temático-gastronómico de morfología lineal, en torno al eje estructurante ConcepciónChiguayante, también se aprecia una aglomeración de importancia en la ribera sur del rio BíoBío, en la comuna de San Pedro de la Paz, y en la costa de Hualpen, estas últimas con una
marcada situación areolar. El Mall Plaza del Trébol y el Casino de Juegos, son importantes
equipamientos que concentran dentro de sí y a su alrededor servicios banales, constituyendo
áreas que se están conurbano en torno a corredor metropolitano Concepción-Talcahuano.
Fig. 2. Espacialización de servicios banales en el Área Metropolitana de Concepción
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Fuente: elaboración propia
A diferencia de la capa anterior de servicios primarios, los servicios banales están tendiendo a
generar distritos temáticos, como barrios gastronómicos o bohemios, presentando mayor
independencia de los centros urbanos tradicionales, pero no así de la ciudad tradicional,
ejerciendo una fuerza renovadora de antiguos barrios residenciales de la comuna central y
pericentrales como San Pedro de la Paz o Hualpen, caso aparte es el ya mencionado nudo del
trébol. Otra característica es la conectividad de estos distritos gastronómicos, los que se
encuentran en los ejes estructurante del AMC, marcando con ello su morfología y distribución
locacional, cuando no sigue un patrón lineal de posicionamiento, el sistema areolar se cuelga
de este, por tanto cabe pensar que el proceso de autoorganización de estos actores, está
marcado por su público objetivo, el que participa primordialmente del trasporte privado.
Los servicios banales muestras ciertas similitudes y diferencias que deben ser mencionadas.
La primera es que estas actividades muestran dos claros y marcados patrones de localización;
por desborde o expansión en continuidad a las áreas centrales tradicionales, y de dispersión
concentrada, marcando discontinuidades en base emergentes distritos temáticos en sectores
pericetrales de las comunas. El retail presenta coincidencias locacionales con los servicios
gastronómicos
Fig. 3. Espacialización de servicios culturales en el Área Metropolitana de Concepción
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Fuente: elaboración propia
El tercer grupo de servicios levantados, son los culturales (Fig.3), aquí, y a diferencia de los
anteriores, el nivel de concentración en el centro urbano tradicional de Concepción mantiene
una primacía sin contrapeso, no obstante, y aunque de menor magnitud a lo ya visto, resulta
significa la atracción que nuevamente presenta el shopping mall plaza del trébol, el cual se va
constituyendo como una segunda centralidad cultural, de todas maneras superado con
distancia por el centro tradicional el que tiene y mantiene su liderazgo. La lógica de
localización presente en los servicios culturales, es por decirlo así, tradicional, circunscritas
no solo a la comuna central, sino que dentro de estas al centro urbano fundacional, sin
embargo, y dejando de lado lo que ocurre en torno al shopping mall, aparecen iniciativas
privadas aisladas en la comuna de San Pedro de la Paz, que pueden asociarse a los recientes
enclaves de altos ingresos conformados por los barrios de Idahue, Andalue y el Venado.
Fig. 4. Espacialización de servicios financieros y legales en el Área Metropolitana de
Concepción
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Fuente: elaboración propia
El centro tradicional de la comuna históricamente central, Concepción, sigue siendo el centro
de la vida artística y cultural de la metrópolis, concentrando casi toda la oferta cultural
metropolitana, teatros, museos, galerías de arte, conservatorios de música, librerías y
corporaciones culturales, aquí están presentes, marcando una paradoja respecto de un centro
tradicional que alberga las principales vanguardias artísticas locales, siendo lugar de
festividades artísticas, murgas, y cuanta manifestación artística callejera suele darse, tanto
organizada como espontanea
El último grupo de servicios levantado, son los llamados de alto nivel, servicios terciarios
compuestos por el subgrupo financiero, legal y finalmente creativo, a su vez este último se
desagrega en dos ítems; diseño, y arquitectura y publicidad. En cuanto a los primeros (Fig.4),
financieros de alto nivel (servicios a empresas), estos no han experimentado dispersión
alguna, siguiendo totalmente concentrados en la comuna de Concepción y dentro de esta, en
forma exclusiva dentro del centro urbano tradicional, no se visualiza la conformación de
distritos financieros fuera de lo que podría denominarse el distrito financiero central
metropolitano. A diferencia de los servicios levantados anteriormente, la centralidad
conformada por el mall Plaza del Trébol no es significativa cuando de servicios financieros de
alto nivel se trata, es decir, la dispersión-concentración de los servicios banales no han
28
ejercido influencia en los patrones de dispersión-concentración de los servicios financieros de
alto nivel.
Para el caso de los servicios legales (Fig.5), estos muestran un patrón de dispersión
concentrada correlativo al de los centros urbanos tradicionales de las comunas, es decir, están
ubicados casi exclusivamente en los centros fundacionales o tradicionales de las comunas
centrales, pericentrales y periféricas del AMC, y nuevamente la influencia del shopping mall
plaza del trébol en el patrón de localización de estos servicios, es casi nula pero no
inexistentes, de hecho en el propio centro comercial existe una de las pocas notarias que
atiende los fines de semana, pero el resto y especialmente los bufetes de abogados, prefieren
los centros fundacionales y de estos el de Concepción lidera la oferta.
De lo anterior, es posible decir que el centro urbano tradicional de la comuna de Concepción,
que históricamente había alojado los servicios comunales de alto nivel, ha servido de soporte
para la instalación de la actividad financiera y legal metropolitana del AMC, manteniendo su
poder como centro decisional y de direccionamiento de los flujos económicos intra y extrametropolitanos.
El tercer subgrupo de los servicios de alto nivel (Fig.5), son los creativos, divididos a su vez
en diseñadores, en sus distintas manifestaciones, y arquitectura y publicidad. Aunque los
primeros presentan mayor grado de dispersión, para ambos este es bajo y la concentración en
el centro tradicional de Concepción, se mantiene alta. Otra cuestión significativa es que la
centralidad del Mall Plaza del Trébol, no presenta oferta para este tipo de servicios.
Los servicios creativos medios (diseño industrial, interiores, etc…), presentan mayor
dispersión, estando presente en las comunas centrales, Concepción y Talcahuano, y solo en
una comuna de la primera corona, San Pedro de la Paz, en el resto de las comunas del AMC
no se evidencia presencia de este tipo de servicios. En el caso de los servicios creativos de
arquitectura y publicidad, es posible apreciar un grado de concentración aun mayor marcando
solo presencia en una de las dos comunas centrales, Concepción, y ligera presencia en la
primera corona, San Pedro de la Paz nuevamente.
Es plausible decir que el centro urbano tradicional de la comuna central, Concepción, es el
centro de los servicios creativos de alto nivel del AMC, no apreciándose la conformación de
distritos o corredores creativos fuera de este, así también, dentro del centro se aprecia micro
concentraciones que dan cuenta de potenciales clusters creativos de importancia.
Fig. 5. Espacialización de servicios creativos en el Área Metropolitana de Concepción
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Fuente: elaboración propia
Tanto los servicios financieros, como legales y creativos, no han experimentado procesos de
autoorganización que se hayan traducido en la creación de nuevos distritos, nodos o
corredores fuera del centro tradicional, cuestión que marca una diferencia con lo apreciable en
las capitales nacionales, tampoco existen evidencias que puedan advertir que esto ocurra en
un mediano plazo, no obstante, y aunque hasta el momento no existe correlación, de ocurrir,
podría ser precisamente el nodo vial del mall Plaza del Trébol, el lugar elegido para ello, dada
la concentración de equipamientos, proximidad al aeropuerto y disponibilidad de espacio.
En síntesis, el centro urbano tradicional de Concepción, sigue teniendo una importante
participación dentro de la oferta de servicios, manteniendo una atractividad como distrito polifuncional, distinguiéndose de otros centros emergentes por la diversidad de usos, funciones y
servicios que alberga. En este sentido, existen servicios que no han experimentado fenómenos
de dispersión significativos, manteniéndose y ampliándose dentro del centro tradicional, este
es el caso de los servicios culturales, financieros, legales y creativos.
Aunque el centro urbano tradicional de Concepción mantiene una situación dominante en los
otros servicios, considerados primarios, como salud y educación, o banales como consumo,
ocio y recreación, existe una marcada tendencia a la dispersión, la que se concentra en torno a
los tejidos centrales de las comunas de la primera corona, y a las vías que lo estructuran con la
metrópolis. Singular y relevante es el caso del nodo conformado por el centro comercial, Mall
31
Plaza del Trébol, única centralidad, a estas alturas no solo comercial sino más bien urbana,
que puede definirse como propiamente metropolitana, dado que surge y se consolida durante
los últimos 20 años, generando una centralidad con la diversidad de usos que la define como
tal pero sin la proximidad espacial tradicional que la caracterizaba.
Una de las cuestiones que pueden discutirse a la luz de lo expuesto, es la dualización del
centro tradicional, aquí convergen tanto los grupos dirigénciales y trabajadores de los
servicios de alto nivel, como también lo grupos más vulnerables y desfavorecidos, que
encuentran en este lugar una importante geografía de oportunidades. Paralelamente, para cada
vez más habitantes de los estratos medios, el centro tradicional va perdiendo relevancia
cotidiana frente al nodo metropolitano constituido en torno Mall Plaza del Trébol, centro
urbano metropolitano que va hilvanando una vida cotidiana metropolitana cada vez más
centrada en el consumo, el ocio y la recreación.
5.
Explorando la morfología del AMC
Si se hiciese el ejercicio de sobreponer todas las capas de servicios aquí levantadas, se
evidenciaría que dentro del bi-nucleo central de la metrópolis penquista compuesto por las
comunas Talcahuano y Concepción, esta última lidera la oferta de servicios de escala
metropolitana, manteniendo su vigencia como centro no solo comunal y regional, sino
también metropolitano. Otra cuestión relevante, es la desigual dispersión de servicios,
concentrándose en los lugares de confluencia entre vialidades de estructuración metropolitana
y tejidos centrales de las comunas de la primera corona, de aquí el carácter lineal de estos
corredores de servicios. También se aprecia una baja participación de las comunas de la
segunda corona, las que contendrían núcleos de servicios exclusivamente comunales y
muchas veces de administración pública. Otra cuestión relevante es que en la confluencia de
los límites de las tres comunas centrales, se ha levantado un importante núcleo de servicios
metropolitanos, de nuevo cuño, cuyo origen no está en haber sido un centro comunal
tradicional, sino que se produce y organiza desde un comienzo como un tejido funcionalmente
metropolitano.
Muchas veces se suele estimar como un indicador de metropolización avanzada, el
surgimiento de infraestructuras de circunvalación, orbitales o coronas de transporte
perimetral, cuya definición se hace en referencia al casco fundacional central; su presencia
sería la expresión material de viajes tipo periferia-periferia, lo que a su vez habla de la polifuncionalización de los suburbios residenciales y su polinucleacion. En este sentido, el Área
Metropolitana de Concepción, al parecer no tendría circunvalares y por tanto estaría en un
estadio de metropolización menor, quedándole camino por recorrer para llegar a ser la
metrópolis policentrica que se supone debe llegar a ser. No obstante, cuando el punto de
referencia ya no es el centro tradicional de la comuna central, Concepción, sino que es el nodo
del trébol, efectivamente es posible decir que el AMC posee una primera corona o circunvalar
completa, y una segunda corona en desarrollo (Fig.6). Es decir, el estadio de metropolización
del AMC no solo es alto, sino que también se ha traducido en una forma de estructuración
metropolitana muchos más entronizada con los nuevos valores neoliberales que la sustentan.
Fig. 6. Infraestructura de transporte metropolitana y sobreposición de servicios en el
nodo del trébol
32
Fuente: elaboración propia
Los centros fundacionales de carácter cívico-político, al igual que el interés ciudadano por la
política, han quedado en los márgenes de esta nueva estructura metropolitana, y del mismo
modo en que el eje central de la vida cotidiana se ha trasladado al consumo y ocio hedonista,
el nuevo centro geométrico de la metrópolis está precisamente en el núcleo de servicios que se
inicia con el mall Plaza del Trébol pero que actualmente trasciende su rol como centro de
servicios banales, concentrando servicios de salud, educación, y recreación.
Junto a lo anterior, y teniendo en cuenta el punto de vista que se propone para la
interpretación de la forma metropolitana, no parece que la morfología de esta vaya camino a
una estructura polinuclear, sino más bien parece estar consolidándose un modelo de
“metrópolis supernuclear”, que estaría trasladando el centro de la vida cotidiana de cada vez
33
más habitantes, desde los cascos fundacionales de las ciudades, a un nuevo centro, fundado en
las periferias comunales, pero que rápidamente parece consolidarse como el nuevo centro de
un estilo de vida metropolitano, basado en el consumo, el ocio y recreación. Paralelamente, la
primera orbital se presenta como un cordón vial que une los distintos centros urbanos
tradicionales a modo de una periferia histórica que observa a un centro fundacional
metropolitano en formación.
De este modo, la construcción de la metrópolis penquista se ha dado mediante una suerte de
urbanización inversa, con periferias metropolitanas donde está la historia de las comunas y
centros fundacionales, y un nuevo centro fundacional metropolitano, sin pasado, en constante
construcción y cambio, con una diversidad de usos y funciones, que ya no da cuenta de la
proximidad peatonal que caracterizó a los centros tradicionales, sino más bien al
espaciamiento propio del automóvil, aquí solo esta lo que le importa al grueso de la
población, es un centro de servicios privados. Sin embargo, los servicios de alto nivel aún
siguen circunscritos a los centros comunales, ahora, y hablando en términos morfológicoestructurales, periferias metropolitanas.
Y si bien, plantear que la implantación y profundización del modelo neoliberal, habría
provocado un desplazamiento de los ejes de la vida cotidiana, asociándolo a la pérdida de
importancia por la política y la relevancia que ha cobrado el consumo, ocio y recreación
hedonista, es una cuestión que puede ser llevado al contexto nacional y por cierto a la capital
nacional, Santiago, aquí, en el AMC, aún en formación, es donde parece que el discurso ha
tomado forma. En resumen, parece existir un correlato mucho más relacionado, entre la
estructuración de un nuevo estilo de vida metropolitano, la (re)organización funcional de los
servicios cotidianos que impone la metropolización neoliberal (dispersión-concentrada), y la
morfología que ha adoptado la estructuración metropolitana.
6.
Consideraciones finales; ¿metrópolis supernuclear?
Chile es uno de los países más neoliberales del continente, su normativa urbana se caracteriza
por laxay sus instrumentos de planificación territorial (IPT) por ser reactivos, cumpliendo
muchas veces la función de ratificar las tendencias de mercado, por tanto es posible suponer
que el (re)ordenamiento funcional que afecta a las ciudades sometidas a procesos de
metropolización, no solo está determinado por las preexistencias, las normativas e IPTs, sino
también, y en mayor medida, por los procesos de autoorganización espacial de los agentes
privados, dando forma a este reordenamiento funcional metropolitano.
La literatura especializada latinoamericana concuerda en establecer dos principales
fenómenos de gran capacidad para rejerarquizar y reorganizar el tejido urbano, factores
fundamentales del proceso de traspaso de la ciudad nuclear a la metrópolis multi-centrada; el
primero, es la introducción tipológica del shopping mall y sus lógicas de localización
(Alonso, 2005; Debord, 1999; de Mattos, 1999, 2010; Vecslir & Ciccolella, 2011; Escolano &
Ortiz, 2005, Napadensky, 2012); y el segundo, la descentralización de las funciones urbanas
terciarias hacia nuevos polos (Parnreiter, 2002, 2005; Lopez Levi, 2007; Iglecias, 2001;
Chion, 2002; Ludeña, 2002; Janoschka, 2002; Ciccolella, 1999). Ambas tendencia tendrían
un correlato marcado por la obsolescencia de los centros urbanos tradicionales (Sarlo, 1994,
2006, 2009; Janoschka, 2002; Artigas, et al., 2002; Carman, 2006; López Levi,1997, 1999;
Eerola, 2006; Ramírez Kuri, 1993).
34
Pese a lo anterior, la pesquisa determinó que el caso en cuestión se aleja de la narrativa
predominante, por cuanto el primer proceso, es decir, la introducción del shopping mall, no ha
ayudado a la poli-nucleacion, sino más bien a la construcción de un gran y único “supernucleo
metropolitano”, y en cuanto a lo segundo, las funciones terciarias no se han descentralizado,
sino más bien se han hiper-centralizado en el centro urbano tradicional de la comuna
históricamente central. Habría que decir que el correlato esperado no está presente, por cuanto
el proceso de metropolización en desarrollo no ha promovido la obsolescencia funcional del
centro tradicional, sino más bien su especialización, creando una nueva dimensión y rol como
espacio de poder, ubicado entre la escala comunal y regional, concentrando funciones y
servicios de alto nivel de alcance metropolitano.
Otra cuestión relevante que se puede concluir, es que las nuevas jerarquías catalizadas por la
dispersión de los servicios primarios y banales, aun no son competitivas frente al centro
urbano tradicional que sigue atrayendo las actividades y servicios culturales y de alto nivel,
especialmente los financieros, legales y creativos. Sin embargo, no se puede desconocer que
la metropolización y su actual estadio, evidencian un fuerte impulso difusivo y concentrador
de los servicios a las personas que hace prever que esto pueda cambiar en el mediano plazo.
De este modo, y frente a la pregunta si el proceso de metropolización del Gran Concepción
está dando pie a nuevas jerarquías funcionales, la respuesta que arroja el estudio es sí, no
obstante, son los servicios banales, los que están liderando la reestructuración del espacio
metropolitano, los servicios primarios privados siguen la tendencia, mientras que la ciudad
tradicional y su centro fundacional, retienen los servicios de alto nivel y funciones
innovadoras, de comando-control, y de producción y difusión cultural.
La suma de iniciativas privadas, independientes y asincrónicas, que están produciendo la
pieza urbana aquí llamada supernucleo metropolitano, en su conjunto denotan una profunda
alteración en las formas de producción y organización espacial de la ciudad; emergente
sistema de desarrollo urbano, marcado por la autoorganización de los agentes empresariales,
quienes levantan la fragmentación del suelo y agregación de usos, como una operación de
diseño urbano, pilar fundamental en la producción de un singular modelo de metrópolis aquí
llamado, supernuclear.
La auto-organización de los agentes económicos y su reordenamiento en el espacio urbano
ampliado, da cuenta del accionar de activos e innovadores agentes locales privados, cuya
concreción material visibiliza tardíamente el cambio en las relaciones de poder y
descentralización de los esfuerzos totalizadores de la planificación centralizada del Estado, en
favor de los distintos y emergentes actores de mercado de gran escala, iniciado en los
primeros años de 1973.
La metrópolis supernuclear que esta emergiendo, es a juicio de este documento, la evidencia
física del relevo del proyecto cívico de ciudad por otro fundamentalmente económico,
dejando al descubierto el correlato del devenir material que acompañó la desregulación del
suelo urbano y el cambio en las relaciones de poder entre Estado y privados. Habrá que
estudiar cual es la incidencia de esto en la proyección social de los cambio políticoeconómico impuesto a partir de 1973, y como puede estar modificando las formas de
convivencia social y estilos de vida pública de la ciudad.
Finalmente, del caso explorado se puede generalizar que la expansión-transformación de las
ciudades intermedias en procesos de metropolización, no está siendo una simple resultante de
35
su entorno, ni tan solo el encuentro de un genérico proceso de metropolización, con un
singular territorio urbano, más bien es posible decir que estos espacios, su (re)organización
funcional y morfología estructural, están siendo producto pero también productores de su
entorno socio-material, espacios que entronizan y articulan en una compleja dialéctica, los
sistemas político-económico y sociales, con las formas de urbanización y vida colectiva de la
ciudad, deviniendo en nuevos estadios metropolitanos mucho menos determinados por las
preexistencias, y por tanto más indeterminados, novedosos y representativos del modelo de
ciudad impuesto, apropiado y adapatado.
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37
SANTA MARIA/RS: UM ESPAÇO EM TRANSIÇÃO PARA O FIM DA
CENTRALIDADE ÚNICA?
Anderson Mendes Rocha2
RESUMO
Este artigo pretende realizar apontamentos preliminares acerca da redefinição da centralidade
na cidade de Santa Maria/RS. Assim, por meio do método analítico-regressivo-progressivo de
Henri Lefebvre (1978), busca-se (a) a caracterização de Santa Maria na atualidade, (b) o
retorno ao passado para compreender as origens da redefinição da centralidade na cidade e (c)
a realização de apontamentos sobre as tendências percebidas. Esse estudo está inserido nas
discussões referentes ao policentrismo nas cidades latino-americanas, com ênfase nas cidades
médias brasileiras.
Palavras-chave: policentrismo, descentralização, cidades médias.
1. Introdução
“A cidade atual caminha em direção ao policentrismo”
(LE GOFF, 1998, p. 144-145).
Ao final da obra Por amor às cidades, Jacques Le Goff e Jean Lebrun discutem a
transição das cidades atuais ao policentrismo. Se o termo “cidade atual” empregado pelos
autores estiver se referindo à metrópole, uma série de outros intelectuais parece estar de
acordo sobre esta caminhada ao fim da centralidade única, dentre os quais podemos destacar
Blumenfeld (1972) e Mattos (2006). Cabe, por outro lado, perguntarmo-nos se esse
policentrismo é algo restrito à metrópole ou um fenômeno presente em cidades de outros
tamanhos. Afinal, qual o tamanho mínimo para uma cidade se tornar policêntrica?
Desde 1980, as dinâmicas da urbanização no Brasil têm resultado em transformações
na rede urbana do país que colocam as cidades médias como importantes nós das redes
urbanas regionais. Já na década de 1990, no âmbito do espaço intraurbano, encontramos
transformações na morfologia urbana dessas cidades, convergindo com mudanças na
2
Graduado em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestrando do Programa de Pósgraduação em Geografia (POSGea) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É bolsista CAPES
e está vinculado ao Laboratório do Espaço Social (LABES) – UFRGS.
38
morfologia das metrópoles. Nesse contexto, alguns estudos têm apontado evidências de que
algumas cidades médias brasileiras estão a caminho do policentrismo – fenômeno outrora
restrito à metrópole.
Santa Maria, cidade média localizada na porção central do Rio Grande do Sul (RS),
possui seu setor terciário desenvolvendo-se em duas áreas, nos extremos leste e oeste da
cidade, distantes geograficamente do Centro Principal. Seria, pois, Santa Maria um espaço em
transição3 para o fim da centralidade única ou se trata de uma particularidade dessa cidade
média?
O presente artigo busca realizar apontamentos preliminares acerca de nossa pesquisa
referente à redefinição da centralidade em Santa Maria/RS4. Podemos estruturar o conteúdo
do artigo em quatro momentos: a) breve caracterização da cidade de Santa Maria na
atualidade; b) reflexões referentes às origens do policentrismo nas cidades latino-americanas e
caracterização do processo espacial de descentralização; c) análise temporal acerca da
redefinição da centralidade na cidade em questão e d) apontamentos preliminares sobre as
tendências percebidas para Santa Maria.
2. Breve caracterização da cidade de Santa Maria/RS
A cidade de Santa Maria desempenha um papel importante na rede urbana do estado
do Rio Grande do Sul, apresentando-se como uma cidade média com influência sobre os
núcleos urbanos do centro e oeste do estado (SOARES & UEDA, 2007). O município
compreende aproximadamente cerca de 261 mil habitantes e 1.788,121 km² de área (IBGE,
2010), que se dividem entre um distrito sede, uma área densamente urbanizada, e outros nove
distritos com características predominantemente rurais. O distrito sede abriga 94,4% da
população total do município (IBGE, 2010).
A cidade, localizada na porção central do estado (ver Figura 1), apresenta-se como um
polo de atração regional devido às suas funções terciárias, militares, educacionais e
3
O termo “espaços em transição” foi empregado por Roberto Lobato Corrêa, em 2006, referindo-se às cidades
médias brasileiras, no II Simpósio Internacional Cidades médias: dinâmicas econômicas e produção do espaço,
ocorrido Uberlândia. Segundo Sposito (2007), para cunhar tal expressão, Corrêa se baseia no livro Villes de
Transition de P. George e N. Commerçon, de 1999, que atentava às cidades médias francesas. Posteriormente,
em 2007, o termo intitularia um livro organizado por Maria Encarnação Beltrão Sposito: Cidades médias:
espaços em transição.
4
A referida pesquisa vem sendo desenvolvida sob a orientação da Profª. Drª. Tânia Marques Strohaecker no
Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFRGS, na linha de pesquisa Análise Territorial.
39
institucionais. Sua área de alcance máximo atinge 145 municípios, dentre os quais 85 se
localizam no Rio Grande do Sul, ao passo que a área de influência imediata da cidade
congrega 78 centros urbanos (BRANCO, 2006).
Figura 1 – Localização do município de Santa Maria.
No âmbito intraurbano, Santa Maria possui um Centro Principal com inquestionável
importância para a cidade, uma vez que conta com a presença do comércio varejista e dos
serviços, importantes instituições públicas e quatro shopping centers. Dois desses shoppings
estão localizados no Centro (Santa Maria Shopping e Elegância Center Shop) e os outros dois
nos arredores da Área Central (Monet Plaza Shopping e Royal Plaza Shopping Center).
Ademais, existem aglomerações comerciais e de serviços em regiões distantes do centro, nos
extremos leste e oeste da cidade.
A nova centralidade do setor leste ocorre no bairro Camobi. Tal bairro possui uma
população de aproximadamente 21 mil habitantes (IBGE, 2010), sendo o maior em extensão e
população
na
cidade.
As
atividades
de
comércio
e
serviços
se
concentram,
predominantemente, nas margens da rodovia RS-509, conhecida como Faixa Velha de
Camobi, sendo um eixo que corta o bairro no sentido Leste-Oeste. Além disso, ainda que em
40
menor intensidade, encontra-se a presença do setor terciário na RS-287, conhecida como
Faixa Nova de Camobi – eixo que também corta o bairro no sentido Leste-Oeste. A
diversidade do setor terciário presente em Camobi proporciona uma significativa
independência do bairro com relação ao Centro Principal da cidade (COMIN, 2013).
No setor oeste, a nova centralidade ocorre na COHAB Tancredo Neves. O bairro em
questão possui cerca de 11 mil habitantes (IBGE, 2010) e está situado nas proximidades da
BR-287, sendo esta uma das principais vias de acesso ao oeste do estado. O bairro já
demonstra uma relativa independência do Centro Principal da cidade, tendo em vista que
possui um diversificado setor terciário estabelecido no Centro Comercial do bairro e em duas
vias próximas a este: a Avenida Paulo Lauda e a Rua Armin Schvarcz (RUBIN, 2013).
A presença de novas centralidades nas extremidades leste e oeste da cidade, distantes
do Centro Principal, permite levantarmos os seguintes questionamentos: estaria Santa Maria,
assim como as metrópoles contemporâneas, a caminho do policentrismo? Por que as novas
centralidades se formaram a leste e oeste da cidade e não em outras regiões? Quais seriam os
impactos no funcionamento da cidade causados pela consolidação dessas centralidades?
As questões acima levantadas norteiam nossas reflexões acerca da redefinição da
centralidade em Santa Maria. As demais sessões deste artigo buscam trazer alguns elementos
para esclarecer tais questões, porém sem a pretensão de esgotar o assunto.
3. Das metrópoles às cidades médias: as origens da redefinição da centralidade
No momento em que buscamos a relação entre a redefinição da centralidade nas
metrópoles e nas cidades médias5 brasileiras, estamos adotando a perspectiva da produção do
espaço como um processo amplo, o qual se realiza diversamente em tamanhos diferentes de
cidade – assim como o faz Henrique (2010), baseado nas proposições lefebvrianas. Nesse
sentido, compreendemos “as cidades médias [...] brasileiras não como um conhecimento à
parte do processo de urbanização, ou da totalidade, mas sim como particularidades e
singularidades” (MAIA, 2010, p. 18).
O pós-fordismo emerge como o motor das mudanças nas formas de relações
socioespaciais atuais, assim como da crise e da renovação das formas urbanas atuais
5
Atualmente há certo consenso acerca da insuficiência de critérios puramente quantitativos para a elaboração de
uma classificação de cidade média; revelando-se importante a adoção de critérios funcionais e qualitativos
(BRANCO, 2006).
41
(VICENTE, 2003). Assim, ocorrem mudanças nos arranjos geográficos que expressam a
busca de dinamicidade e velocidade na reprodução do capital (SILVA, 2008).
Nesse contexto, no caso das metrópoles latino-americanas, Mattos (2006) reconhece a
tendência de surgimento de uma nova morfologia urbana, marcada pela periurbanização e o
policentrismo. Blumenfeld (1972) já teria percebido essa tendência em sua análise da
metrópole moderna. Desse modo, após sofrerem um movimento centrípeto, em que a
população do campo desloca-se até a cidade, as metrópoles tornam-se palco de forças
centrífugas, nas quais a população desloca-se da cidade para as periferias (BLUMENFELD,
1972).
Esse movimento centrífugo faz parte do processo de implosão-explosão, segundo
Lefebvre (1999). Enquanto a implosão se refere a uma concentração e sobreposição de fixos e
fluxos no centro, a explosão se refere ao espraiamento destes sobre a periferia. Em outros
termos, "o centro urbano é preenchido até a saturação; ele apodrece ou explode. [...] De sorte
que todo espaço urbano foi, é, e será, concentrado e poli(multi)cêntrico" (LEFEBVRE, 1999,
p. 44, grifos do autor).
A partir da década de 1990, diversos estudos têm apontado evidências do
policentrismo nas cidades médias brasileiras (SILVA, 2008). Com isso, podemos afirmar que
algumas dessas cidades também passaram/passam pelo processo de implosão-explosão.
Segundo Henrique (2010), esse processo ocorre em algumas cidades médias brasileiras, mas
de maneira mais veloz, violenta e conflituosa. Sposito (1998, p. 28) defende que as novas
localizações do comércio e dos serviços nas cidades "[...] determinam mudanças de impacto
no papel e na estrutura do centro principal ou tradicional, o que provoca uma redefinição de
centro, de periferia e de centro-periferia".
A ocorrência do processo de implosão-explosão nas cidades médias, e da consequente
redefinição da centralidade em tais cidades, justifica-se tendo em vista que tal processo está
relacionado à sociedade urbana e não às cidades em si (SILVA, 2008).
Nessa perspectiva, tal processo
[...] é primeiramente sentido nas metrópoles pelo fato de estas serem
centros de comandos da rede urbana, sobretudo, pela configuração da
rede urbana a partir de hierarquias rígidas. [...] Sendo assim, os
estilhaços da centralidade oriundos da implosão-explosão [...] são
também encontrados em cidades médias e até pequenas (SILVA,
2008, p. 5)
42
Assim sendo, podemos conceber o policentrismo como uma das tendências para as
metrópoles contemporâneas, mas que acaba por ocorrer também em algumas cidades médias
brasileiras. Reconhecendo ainda a singularidade dessas cidade, precisamos entender a
ocorrência do policentrismo em tais cidades, levando em consideração as diferenças
qualitativas e quantitativas com relação ao policentrismo metropolitano.
3. 1. Características do processo espacial de descentralização
Propomos discutir, a seguir, as características do processo de descentralização. Isso se
justifica na medida em que essa noção se refere ao processo espacial 6 que origina as novas
centralidades na cidade (CORRÊA, 2004).
Em um primeiro momento, é preciso apontarmos que o Centro Principal da cidade é o
elemento fundamental da estrutura urbana, tendo em vista ele ser responsável por sua coesão
(VILLAÇA, 2012). Desde a antiguidade, o centro tem sido apropriado pela classe dominante
e se apresentado como um "conjunto vivo de instituições sociais e de cruzamento de fluxos
[...]" (VILLAÇA, 2001, p. 238). Além disso, é necessário concebermos o centro “como um
organismo proteiforme, sujeito a um processo permanente de mudança" (SANTOS, 2008, p.
31). Nessa perspectiva, desde o final do século XIX, nas cidades tipicamente capitalistas, o
centro passa a ser dominado pelo mercado e definido por "um sistema viário uniforme e pelo
intenso uso do solo por parte das atividades privadas de comércio varejista e serviços [...]"
(VILLAÇA, 2012, p. 110).
Com relação ao processo espacial de descentralização, segundo Corrêa (2004),
devemos concebê-lo como o processo que materializa no espaço urbano um complexo
conjunto de núcleos secundários de comércio e serviços, os quais são chamados de
subcentros. Devemos percebê-lo, ainda, como um fenômeno complexo causado por diversos
fatores (ibidem). Dentre tais fatores, a dimensão do espaço intraurbano aparece como uma das
variáveis fundamentais (CORRÊA, 2007). Isso porque, ela ocasiona o aumento da distância
entre o centro e a periferia e, desse modo, “uma maior divisão econômica do espaço”, que tem
como expressão a “origem dispersa e [a] formação de núcleos de atividades derivados de
economias de aglomeração, distantes do centro” (CORRÊA, op. cit., p. 24). Além disso,
outras variáveis podem atuar conjuntamente no processo de descentralização, tais como as
6
Corrêa (2004, p. 36) define o processo espacial como "um elemento mediatizador que viabiliza que os
processos sociais originem as formas espaciais".
43
peculiaridades (a) do sítio urbano, (b) do sistema de transportes, (c) das funções urbanas e (d)
do nível de renda da população (CORRÊA, 2004).
Numa tentativa de precisar a noção de subcentros7, podemos considerá-los como
miniaturas do Centro Principal de uma cidade, com o qual concorrem, apesar de nunca a ele
se igualarem (CORRÊA, 2004; VILLAÇA, 2001). Ademais, ressalta-se que enquanto a
magnitude de um subcentro depende da densidade e do nível de renda da população da área
em que está localizado; sua centralidade sobre o restante da cidade, por outro lado, depende
de sua variedade equilibrada de comércio e serviços (CORRÊA, 2004; VILLAÇA, 2001).
Os subcentros podem ser diferenciados em forma (áreas ou eixos), níveis de
centralidade (regionais, de bairros etc.) e pela oferta de bens e serviços (diversos ou
especializados8) (CORRÊA, 2004). Além disso, Villaça (2001) acrescenta outra distinção para
os subcentros que apresentam atividades diversificadas. Segundo o que propõe o autor, há
subcentros tradicionais e subcentros formados por shopping centers. Este é instituído por
meio de decisões de empreendedores, enquanto que aquele tipo é formado pelas forças de
mercado.
4. A redefinição da centralidade na cidade de Santa Maria/RS
É possível concebermos a realidade social a partir de uma dupla complexidade, com
base nos ensinamentos de Henri Lefebvre (1978). Tais complexidades seriam a horizontal e a
vertical. A primeira corresponde à presença de formações e estruturas da mesma idade, porém
distintas; enquanto a segunda se refere à coexistência de elementos com idades diferenciadas
(MARTINS, 2000). Para a análise dessas complexidades, Lefebvre (1978) elabora uma
proposta metodológica denominada método analítico-regressivo-progressivo.
Os três momentos do método compreendem:
1. descritivo: observação informada e descrição do visível, desconsiderando a dimensão
temporal (LEFEBVRE, 1978).
7
Kneib (2008) reclama o fato de que, enquanto existem inúmeros conceitos de áreas centrais, são poucas as
definições conceituais referentes aos subcentros.
8
Ressaltamos que as proposições de Corrêa baseiam-se em Brian Berry (CORRÊA, 2004).
44
2. analítico-regressivo: exame da complexidade vertical da realidade social, na medida em
nesta etapa cada relação social ou elemento da cultura material e espiritual possui sua data
(MARTINS, 2000).
3. histórico-genético: retorno ao presente através da observação da dinâmica das contradições.
Esse movimento “elucida o percebido pelo concebido teoricamente e define as condições e
possibilidades do vivido” (MARTINS, 2000, p. 121).
Portanto, após a descrição da cidade de Santa Maria, realizada em sessão anterior
deste artigo, podemos adentrar à complexidade vertical da realidade social, por meio da
segunda etapa do método analítico-regressivo-progressivo. Com isso, a seguir, introduziremos
a dimensão temporal objetivando regressar ao passado para encontrar as origens da
redefinição da centralidade na cidade em questão.
Inicialmente, destaca-se que a origem de Santa Maria está relacionada a uma ocupação
militar na região no final do século XVIII. No século seguinte, era possível encontrar na
região as seguintes atividades econômicas: a) agropecuária: praticada por grandes, médios e
pequenos latifundiários (FARINATTI, 2010); b) indústria: desenvolvida pelos imigrantes
alemães e restrita à “atividade das charqueadas, do processamento de couro e da fabricação de
artigos do vestuário, de montaria, de transporte, de móveis de madeira, de utensílios
domésticos e de tijolos e telhas” (BEBER, 1998, p. 236) e c) comércio: atividade que se
localizava no povoado, geralmente praticada pelos imigrantes alemães, e com centralidade
influente nas regiões próximas (BEBER, 1998; RECHIA, 2006)
A partir do final do século XIX a ferrovia passa por Santa Maria e, assim, integra a
cidade às redes de circulação estadual e nacional. Esse é o principal fator para o nascimento
de um novo momento econômico e cultural para Santa Maria, o qual pode ser percebido pelo
intenso fluxo de pessoas, ideias, mercadorias e matérias-primas que chegam e saem da cidade
no período em questão9.
Além disso, nesse período, ocorre a chegada de imigrantes italianos, libaneses e
judeus à região de Santa Maria. Tais imigrantes são também fator de dinamização da
economia da região: imigrantes judeus, libaneses e italianos se dedicam ao desenvolvimento
9
Padoin (2010) destaca que, quinze anos após a instalação dos trilhos, o município aumentou sua arrecadação
em 523% em relação aos anos anteriores.
45
da atividade comercial10, sendo que estes últimos se dedicam também à agricultura e à
atividade industrial (BEBER, 1998).
Nesse contexto, do final do século XIX até 1930, temos a consolidação de uma cidade
compacta, a qual apresenta uma estrutura em círculos concêntricos e um padrão locacional
centro-periferia (ROCHA, 2011). Essa cidade compacta tem sua estruturação conformada por
meio da localização da estação ferroviária de Santa Maria, centro dinâmico da cidade no
período em questão.
Entre 1930 e 1960, além de suas funções comerciais, de entroncamento ferroviário e
de sede da Viação Férrea Estadual, Santa Maria se torna também centro militar e educacional.
Isso reforça a centralidade da cidade e faz dela um polo de atração regional na porção central
do território gaúcho. Nesse período, além da densificação da malha urbana existente,
encontramos a expansão urbana nos sentidos norte, oeste e sul – em alguns casos, de maneira
descontínua ao tecido urbano (ROCHA, 2011).
A decadência do sistema ferroviário brasileiro, a partir da década de 1950, devido a
uma política nacional de transportes fundamentada no sistema rodoviário, marca o fim de um
ciclo econômico para a cidade. No entanto, outro ciclo econômico e de urbanização se inicia
com a instituição do ensino público superior na década de 1960, data da criação da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (BOTEGA, 2012). Além disso, destaca-se que
a UFSM consolida o setor terciário como a mais significativa função regional do município.
A expansão urbana ao norte de Santa Maria encontra limites naturais no relevo da
região – escarpas que indicam a passagem para os planaltos da Bacia do Paraná; restando as
regiões sul, leste e oeste como direções de crescimento urbano. Contudo, entre as décadas de
1960 a 1980, alguns fatores contribuíram conjuntamente para destacar as direções leste e
oeste como principais vetores de expansão urbana: a) o estabelecimento de importantes
equipamentos nas extremidades leste e oeste – a Universidade Federal de Santa Maria (1960)
e a Base Aérea de Santa Maria (1970), no extremo leste11, e o Distrito Industrial de Santa
Maria (1977), no extremo oeste (BOLFE, 1997); b) a criação de dois conjuntos habitacionais
10
Assim como afirma Beber (1998), neste momento, os imigrantes libaneses e judeus dedicavam-se ao comércio
de tecidos, roupas e miudezas, enquanto os italianos dedicavam-se ao comércio de alimentos, produtos coloniais,
ferragens e utensílios domésticos.
11
Como ressalta Comin (2013), a UFSM e a BASM se estabelecem no 3º distrito do município de Santa Maria
(atual bairro Camobi), considerado um dos mais prósperos de Santa Maria. Em 1980 apenas parte do distrito
Camobi se torna bairro da cidade de Santa Maria; recentemente, em 2006, o restante da área do distrito é
incorporada ao bairro Camobi (COMIN, 2013).
46
na região oeste, a saber, a COHAB Santa Marta (1979) e a COHAB Tancredo Neves (1982)
(RUBIN, 2013) e c) o asfaltamento das principais rodovias que ligam Santa Maria às diversas
regiões do estado, sendo as rodovias RS-509 (1968) e a RS-287 (1978) os eixos que cortam a
cidade nos sentidos leste e oeste, respectivamente (BEBER, 1998; ROCHA, 2011).
Desse modo, no contexto até aqui exposto, tem-se o crescimento urbano em novas
áreas da cidade e a intensificação da ocupação dos setores leste e oeste (ROCHA, 2011).
Assim, conforme Bolfe (1997), somente no período de 1956 a 1997, a mancha urbana se
expandiu 48% no sentido Leste e 35% no sentido oeste, enquanto nos sentidos norte e sul a
expansão foi de 11,7% e 24,3%, respectivamente.
Nas décadas de 1960 e 1970, a modernização do setor terciário em Santa Maria é
acompanhada pela criação de magazines, galerias e hipermercados na cidade. Faz-se
necessário ainda, no período em questão, destacar a chegada de empresas de fora de Santa
Maria, atraídas pelo potencial de consumo da cidade, o que aumenta a concorrência e
ocasiona a sucumbência de muitas empresas locais (BEBER, 1998).
No final da década de 1990 e início dos anos 2000, o setor terciário de Santa Maria
passa por uma nova modernização, representada pela implantação de quatro shopping centers
na cidade. No Centro, tem-se o Elegância Center Shop, inaugurado em 1995, e o Santa Maria
Shopping, em 1998. Já nos arredores da Área Central, foram estabelecidos o Monet Plaza
Shopping, em 1997, e Royal Plaza Shopping, em 2009. Desse modo, devido à localização
desses equipamentos, a polarização do Centro Principal acaba por ser reforçada.
Recentemente, contudo, são verificadas novas aglomerações comerciais e de serviços em
locais distantes do Centro – ver Figura 2.
47
Figura 2 – Modelo de organização socio-espacial da cidade de Santa Maria – RS.
Fonte: ROCHA, 2011.
Assim, com base no modelo de organização socioespacial atual da cidade de Santa
Maria (Figura 2), podemos perceber que, na atualidade, no setor leste a formação de uma
nova centralidade ocorre em uma área de concentração das classes média e alta, no interior do
bairro Camobi; enquanto no setor oeste a outra centralidade se forma em área com a
predominância da classe média, no interior da COHAB Tancredo Neves.
5. Considerações finais
Até este momento do artigo, realizamos uma breve caracterização de Santa Maria/RS
e regressamos ao passado objetivando compreender a redefinição da centralidade na cidade.
Além disso, consideramos o policentrismo não como um fenômeno metropolitano, mas como
um processo mais amplo, ou seja, uma tendência do processo de urbanização contemporâneo.
48
Cabe, agora, num movimento progressivo, encontrarmos novamente o presente e apontarmos
as tendências percebidas – terceira etapa do método de Lefebvre (1978).
Com relação à evolução urbana de Santa Maria, encontramos forças atuando na
formação de uma cidade compacta, apresentando padrão centro-periferia, até o final da
década de 1930. Após esse período, além das forças de compactação da cidade, percebe-se
também a expansão urbana ocorrendo nas direções norte, oeste e sul – muitas vezes de
maneira dispersa e descontínua ao tecido urbano. Com isso, o padrão locacional centroperiferia começa a ser desfeito.
A partir das décadas de 1960 e 1970, importantes equipamentos se estabelecem nos
extremos leste e oeste de Santa Maria, ao mesmo tempo em que ocorre o asfaltamento das
principais rodovias que passam por tais áreas e dão acesso às regiões leste e oeste do estado.
Esses fatores incidem sobre a valorização do solo dessas áreas periféricas e, assim, favorecem
o processo de periurbanização na cidade. Por isso atualmente, temos a formação de áreas que
concentram as classes média e alta, distanciadas geograficamente do centro principal.
Em análise preliminar, portanto, apontamos que duas variáveis principais parecem ter
condicionado o surgimento das novas centralidades em Santa Maria: (1) a distância do Centro
Principal e (2) o nível de renda das populações locais. Ademais, se atentarmos às
classificações de subcentros de Corrêa (2004) e Villaça (2001), discutidas anteriormente neste
artigo, podemos apontar que as novas centralidades na cidade de Santa Maria aparentam
tratar-se de subcentros tradicionais na forma de eixos, no caso de Camobi, e uma combinação
de área e eixos no caso da COHAB Tancredo Neves.
É possível reconhecermos, além disso, uma tendência de consolidação das
centralidades em questão, tendo em vista o crescente estabelecimento do setor terciário nessas
áreas. Ademais, observa-se também o aumento da ocupação dessas regiões da cidade – seja a
partir do adensamento, da verticalização ou de novos loteamentos e condomínios fechados.
Essa realidade tem causado sérios problemas de mobilidade para a cidade; isso porque tem
ocorrido uma sobrecarga das principais vias de acesso das áreas periféricas leste e oeste ao
Centro – vias que são, ao mesmo tempo, as principais rodovias regionais de acesso e saída do
município de Santa Maria.
Assim sendo, ao final do presente artigo sublinhamos a importância da discussão da
redefinição da centralidade nas cidades médias brasileiras, tendo em vista o policentrismo
trazer impactos sociais, econômicos e ambientais para tais cidades. Finalmente, ressaltamos
que pretendemos, no decorrer da pesquisa, ir além das considerações preliminares aqui
expostas.
49
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52
SHOPPING CENTERS EM CIDADES MÉDIAS. ELEMENTOS
CONCERNENTES AS ESCOLHAS LOCACIONAIS E A REDEFINIÇÃO
DA CENTRALIDADE URBANA E INTERURBANA EM SÃO CARLOSSP E RIBEIRÃO PRETO-SP
André Felipe Vilas de Castro12
Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho
FCT/UNESP – Campus de Presidente Prudente
Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias – ReCiMe
Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais – GAsPERR
RESUMO
Apresentando um crescimento que vem ganhando destaque no espaço urbano, os shopping
centers são elementos cada vez mais presentes nas cidades médias, orientando e reorientando suas
ações e capitais em um processo de interiorização pautados pela busca de melhores condições
locacionais. Associado a esse processo, sua localização na cidade é pautada por diversos
interesses e tem se revestido na capacidade de criação de novos espaços dotados de centralidade,
reafirmando sua polarização na escala urbana e interurbana. Desta forma, na procura de elementos
para refletir sobre as dinâmicas de redefinição das centralidades e atuação das empresas ligadas ao
setor, o presente trabalho trata dos shopping centers privilegiando a análise dos empreendimentos
em São Carlos e Ribeirão Preto, cidades médias do interior paulista.
Palavras-Chave:
Shopping
Center,
Produção
12
do
Espaço
Urbano;
Centralidade
O presente texto apresenta-se como um dos resultados da pesquisa intitulada “Shopping Centers, centralidade
urbana e interurbana em cidades médias” sob orientação da Prof.ª Drª. Maria Encarnação Beltrão Sposito e
financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP
53
1. INTRODUÇÃO
Atualmente presentes em diversas cidades, os shopping centers são grandes empreendimentos
imobiliários e marcam sua presença nas cidades sob o signo do consumo, modelando e
remodelando espaços urbanos, conforme sua localização e área de abrangência de sua
polarização.
Como empreendimentos imobiliários, esses grandes equipamentos comercias e de serviços
expressam diversos interesses, como os fundiários e imobiliários que, possibilitados por sua
localização, essencialmente urbana, produzem sob a ótica da reestruturação grandes impactos
nas cidades devido seu tamanho e de toda uma gama de fatores que o condicionam e atraem
novos investimentos e usos do solo para o seu entorno.
Sua conceituação não escapa à sua essência, pois para Pintaudi (1992), trata-se de
[...] um empreendimento imobiliário de iniciativa privada que reúne, em um ou mais
edifícios contíguos, lojas de comércio varejista e de serviços alugadas, que se
distinguem umas das outras não somente pelo tipo de mercadoria que vendem (o
tenant mix planejado pela empresa prevê a presença de várias lojas do mesmo ramo
para permitir a compra por comparação), como também por suas naturezas distintas
(lojas-âncora e lojas de comércio especializado e serviços - que podem ou não
pertencer a redes). Toda a estrutura e funcionamento do empreendimento são
controlados por um setor administrativo, necessário para o funcionamento eficaz do
shopping center, o que significa dizer que é o setor, cuja responsabilidade é zelar
pela reprodução do capital da empresa. Além disso, está a presença de um parque de
estacionamento, cujo tamanho se encontra na dependência do porte do
empreendimento e da sua localização. Historicamente, é um fenômeno característico
das sociedades capitalistas monopolistas. (PINTAUDI, 1992, p.15-16).
Não obstante, segundo Nelson (1958 apud GARREFA, 2011 p. 65),
O shopping center como um empreendimento comercial de base imobiliária que
pode ser caracterizado como um edifício ou conjunto bem coordenado de edifícios,
sob o controle de um único dono ou grupo; pressupõe-se uma relação de
complementaridade entre as lojas de grande poder de atração - denominadas lojas
âncoras – e o conjunto de lojas de menor porte – denominadas satélites. Outra
característica marcante desses empreendimentos seria a disposição espacial, voltada
a acolher a clientela motorizada.
Surgido nos Estados Unidos da América, esses empreendimentos foram caracterizados pela
sua localização periférica e estiveram associados ao movimento suburbano norte-americano
(GARREFA, 2004), que aumentou a população dessas áreas em torno de 29 vezes. Seu rápido
desenvolvimento foi possível devido a construção de uma ampla rede rodoviária, a
popularização do automóvel, o baixo custo da gasolina e os massivos subsídios do governo
em programas habitacionais para os veteranos da guerra na compra de suas moradias.
Juntamente com o acelerado processo de urbanização que enfrentava os grandes centros, a
localização periférica dos shopping centers incrementou a descentralização da população e,
segundo Garrefa (2004), despertou nos empresários da época a chance da obtenção de altos
54
lucros com a expansão do capital nessas áreas devido ao grande estoque e terras a preço
baixo. Desta forma, vê-se que desde a sua gênese o shopping center foi um empreendimento
que esteve ligado ao capital, ora mercantil, devido à natureza de suas funções comerciais e de
serviços, ora imobiliário pela sua essência e localização, tendo em vista as possibilidades de
realização de rendas fundiárias e lucros imobiliários
No Brasil, o seu surgimento ocorreu em São Paulo no ano de 1966, com a inauguração do
Iguatemi São Paulo. Já em 1971, em Brasília, foi inaugurado o segundo, o Conjunto Nacional
Shopping, reafirmando a estratégia inicial das localizações em se estabelecer em grandes
capitais. Para Pintaudi (1989), o seu aparecimento juntamente com as grandes redes varejistas
no Brasil foi potencializado no período de crise da década de 1970, quando houve uma
centralização e concentração de capital favorecendo a expansão territorial dos
empreendimentos.
Logo após esse período, notadamente nos Estados do Rio de Janeiro e principalmente em São
Paulo, a grande concentração populacional destes centros urbanos garantiria a presença de um
considerável número de frequentadores, além de haver uma maior chance da parcela com
rendimentos mais significativos frequentar os nascentes centros de compras, garantindo assim
a sua sustentação comercial-financeira.
Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (ABRASCE), o Brasil totaliza hoje
518 empreendimentos com uma área bruta locável (ABL) de 13.73 milhões de m² e 32.96
milhões de m² de área construída. São 90.280 lojas e mais de 895 mil empregos gerados. Em
2013, o faturamento estimado ultrapassou R$ 129,22 bilhões (ABRASCE, 2014). Se
comparado com o levantamento feito por Silva (2013) com os dados da associação, em 2011
o Brasil somava 268 unidades em operação, com 74.575 lojas e 9.7 milhões de m² de ABL, ou
seja, em três anos houve a inauguração de 250 empreendimentos a um aumento aproximado
de 4 milhões m² em ABL e 15.705 lojas. Os dados ficam ainda mais interessantes utilizando o
levantamento de Pintaudi (1989), que contabilizou no ano de 1989, 64 empreendimentos no
país.
Gráfico 1: Brasil. Shopping Centers por capital e interior dos Estados. 1989.
55
Extraído: Silva (2011)
Fonte: Pintaudi (1989)
O gráfico 1 expressa a concentração de shopping centers nos Estados e a sua divisão, pelas
colunas, entre os localizados no interior e na capital. O levantamento realizado por Pintaudi
(1989) é bastante diferente, considerando-se o período muito maior, do constatado por Silva
(2013), apresentado pelo gráfico 2, possibilitando ver a evolução deste ramo econômico.
Gráfico 2: Brasil. Shopping Centers por capital e interior dos Estados. 2011.
Extraído: Silva (2011)
Fonte: ABRASCE (2011)
É notável o maior número de empreendimentos no país com destaque para os Estados de São
Paulo e Rio de Janeiro, verificando uma concentração mais acentuada em suas capitais. Essa
concentração abrange as cidades adjacentes à capital, pois é preciso considerar que, para o
56
levantamento apresentado neste texto, diferenciaram-se somente os empreendimentos
localizados na capital, daqueles presentes nos outros municípios que compõem o Estado.
Gráfico 3: Brasil. Shopping Centers por capital e interior dos Estados. 2014.
120
100
80
CAPITAL
INTERIOR
60
40
20
0
Fonte: ABRASCE (2015)
Organização: André Felipe Vilas de Castro (2015)
O gráfico 3 aponta um maior número de empreendimentos no país, acrescentando à figura os
Estados de Amapá com a inauguração do Amapá Garden Shopping e Roraima, com dois
empreendimentos inaugurados no ano de 2014, o Pátio Roraima Shopping e o Roraima
Garden Shopping. Outra informação apontada através do gráfico é o evidente processo de
interiorização dos empreendimentos, marcado, sobretudo, pelo aumento do número deles em
áreas distantes do litoral brasileiro e em unidades da federação, e pelo seu maior número em
cidades que não a capital.
A observação dos gráficos conduz a análise para o processo da “interiorização” da economia,
que segundo Silva (2013), apresenta como característica a penetração dos capitais buscando
novas áreas para se reproduzirem e que, somados ao contexto da reestruturação urbana
(SOJA, 1993), modificam a lógica de localização dos shopping centers rumo ao movimento
de concentração em cidades médias.
Como importantes nós da rede urbana, as cidades médias articulam uma economia baseada
nas ligações que fazem com as cidades que compõem seu entorno próximo, mostrando-se
como excelentes lócus para a construção dos shopping centers pois apresentam um estoque de
terras com preços relativamente baixo se comparado à capital e segmentos de poder aquisitivo
que indicam um potencial de consumo favorável ao sucesso do empreendimento.
57
Neste contexto, o primeiro shopping center a se instalar no interior foi o RibeirãoShopping,
em 1981 em Ribeirão Preto, mas é notadamente a partir da década de 1990 que, segundo Silva
(2013), a difusão ocorreu de maneira mais expressiva.
Como um empreendimento que requer um rígido controle e planejamento, Garrefa (2011)
elucida que os mesmos são centros comerciais que possuem sua base no caráter imobiliário,
sendo necessária uma série de ações compostas por um conjunto de regras e códigos. Sendo
assim, para Gaeta (1988),
O planejamento do shopping incorpora necessidades que devem ser atendidas tendo
em vista os interesses dos empreendedores e dos lojistas. Isto significa, entre outras
coisas, manter o controle centralizado por parte do empreendedor, desenvolvendo no
shopping características especiais frente ao comércio em geral capazes de se
traduzirem em lucro extraordinário para os lojistas e possibilitar a extração de renda
pelos empreendedores, a partir do shopping (GAETA, 1988, p. 17).
Desta forma, a necessidade de uma empresa com forte solidez no mercado se torna imperiosa
para a administração, pois como um empreendimento de grande porte, a destinação dos
capitais tem que se tornar rentável a curto e médio prazo para o retorno do investimento.
Além do gerenciamento, a marca que o empreendimento carrega é bastante importante para o
seu sucesso, pois além do imaginário de sofisticação e solidez, o prestigio social que a mesma
oferece são elementos que gravitam em torno das escolhas dos consumidores.
Sob essa ótica, a reflexão aqui tomada parte da análise deste processo de interiorização visto
em duas frentes: a) a constituição de novas centralidades nas cidades médias, representando
para o espaço urbano a criação de uma nova centralidade, competindo com a já existente
expressa pelo seu centro principal, e b) a atuação das grandes empresas do setor que são
responsáveis pelas etapas/setores do empreendimento, uma vez que a consolidação do
segmento no mercado imobiliário acompanhou-se da necessidade de um forte e bem
controlado gerenciamento para a solidez do empreendimento.
Assim, o estudo privilegiará os empreendimentos localizados nos municípios de São Carlos –
Iguatemi São Carlos, e Ribeirão Preto - RibeirãoShopping, tomados pelo viés da sua
localização, marcando o processo de redefinição da centralidade intra e interurbana, bem
como o estudo das suas empresas controladoras, Iguatemi e Multiplan respectivamente.
1. Shopping Centers e Cidade Médias – estudos de caso
1.1 Iguatemi São Carlos – Iguatemi
Localizado a 232 km de distância de São Paulo, o município apresenta como vias de acesso as
Rodovias Washington Luís (SP-310) e a Anhanguera (SP-330). Destacado pelos importantes
centros públicos de ensino superior nele localizados, teve sua economia originária no ciclo do
58
café paulista do século XIX, industrializando-se a partir dos anos de 1940 com ênfase na
indústria metal-mecânica. Possui, segundo o IBGE (2010), 221.950 habitantes e tem como
região de influência, segundo a matriz da publicação do IBGE - Regiões de Influência das
Cidades – Regic (2007), os municípios de Descalvado, Dourado, Ibaté, Itirapina, Porto
Ferreira, Ribeirão Bonito e Santa Rita do Passa Quatro, somando 397.886 habitantes (IBGE,
2010).
Mapa 1: São Carlos. Localização do município e dos municípios de sua região de influência.
2014
São Carlos possui um shopping center, o Iguatemi São Carlos, que se localiza no bairro
Parque Faber, setor oeste do município. Apresenta no seu entorno os condomínios
residenciais fechados Parque Faber I e II, o Ibis Hotel e um conjunto de escritórios verticais
chamado “Tríade São Carlos” composto por três torres comerciais. Sua localização dista,
aproximadamente, 3,5 km do centro principal do município, o que reforça seu atributo de
centralidade para os moradores da região no qual se encontra.
O shopping center apresenta 17.816 m² de ABL e 77 lojas. Se consideramos a população do
município em relação à sua ABL, temos uma relação de 12,46 hab./m², índice que salta para
22,33 hab./m² se consideramos, em conjunto, a população da região de influência direta. Esse
índice é importante, pois reflete o papel que o empreendimento representa para o município e
59
auxilia compreender o papel que exerce no processo de redefinição da centralidade intra e
interurbana.
O mapa 2 apresenta o resultado da pesquisa “indicador origens e destinos” realizada no
estacionamento do Iguatemi São Carlos, e mostra através das linhas, os fluxos dos
frequentadores não residentes do município no shopping center. Nesta pesquisa, foram
contabilizados no total 124 automóveis com placa de São Carlos. A origem e a quantidade dos
outros veículos estão representados no destaque da figura. O fluxo mais representativo são os
veículos oriundos do município de Descalvado.
Mapa 2: Iguatemi São Carlos. Origem dos veículos de frequentadores não residentes em São
Carlos. 2013
Gráfico 1: Iguatemi São Carlos. Relação dos frequentadores residente e não residentes em
São Carlos. 2013
60
OUTROS
MUNICÍPI
OS
23%
SÃO
CARLOS
77%
Organização: André Felipe Vilas de Castro
Fonte: Pesquisa de Campo. 2013
São Carlos é considerado pela REGIC (2007) um “Centro SubRegional A” apresentando
segundo os critérios adotados pela publicação, uma área de atuação reduzida e com atividades
de gestão menos complexas. Essa observação explica a posição que o município apresenta no
Estado de São Paulo, com apenas seis cidades em sua região de influência direta. Além disso,
a sua situação geográfica, em uma região de grande densidade urbana, próxima de outras
cidades de porte médio, e a proximidade a Campinas (Capital Regional A) e Ribeirão Preto
(Capital Regional B), diminuem o potencial de polarização dos municípios em sua volta.
Assim, a atração exercida pelos municípios de maior porte tende a diminuir a importância do
Iguatemi São Carlos, pois as opções de maiores e mais diversificados centros de compras nas
cidades próximas como Araraquara, Campinas e Ribeirão Preto (101 km), tornam-se mais
atrativas para os municípios da região, como representado pelo gráfico 1, em que somente
23% dos frequentadores do empreendimento são oriundos das cidades do entorno.
Denominada até o ano de 1979 como La Fonte Empresa de Shopping Centers S.A., a Iguatemi
Empresa de Shopping Centers S.A. foi constituída no referido ano, sendo a empresa do Grupo
Jereissati voltada para o segmento de construção e administração destes centros comerciais no
país. Sua participação no Iguatemi São Paulo se iniciou com a aquisição de todos os ativos da
Construtora Alfredo Mathias S.A. em 1979, que então tinha a participação direta naquele
empreendimento.
O levantamento realizado por Silva (2013) apontou que a empresa possuía no ano de 2010, 11
empreendimentos em operação com uma área total aproximada de 380 mil m² e participação
de empreendimento em duas cidades médias. Atualmente, a empresa apresenta em seu
portfólio 15 shopping centers, 572.821 m² de ABL e mais de 3.100 lojas. O Estado de São
Paulo, com 10 unidades, totaliza 419.939 m² de ABL sob domínio dela.
61
Destaca-se o aumento do número de empreendimentos da empresa em cidades médias, cinco,
frente os dois apontados anteriormente. As maiores inaugurações foram o Iguatemi Ribeirão
Preto, 2013 e o Iguatemi Rio Preto, em 2014. O Mapa 3 apresenta as informações, bem como
as localizações dos empreendimentos dessa empresa.
Mapa 3: Brasil. Área de atuação da Iguatemi Empresa de Shopping Centers 2014.
A análise do mapa permite identificar a grande concentração dos empreendimentos da
empresa no Estado de São Paulo, são 10 unidades, representados por três somente na capital,
sendo a grande maioria localizadas em cidades médias, colaborando para reforçar a ideia de
que há um processo de interiorização dos empreendimentos pela busca de novos mercados e a
reprodução do capital monopolista.
2.2 RibeirãoShopping - Multiplan.
Distando aproximadamente 315 km da capital paulista, Ribeirão Preto se liga a São Paulo
através da Rodovia dos Bandeirantes (SP-348) e possui uma extensa rede viária responsável
62
pela sua ligação a Campinas ao sul e Brasília a norte pela BR-050. Os municípios de sua
região administrativa possuem uma forte ligação entre si e com o Estado de Minas Gerais,
garantido através de um anel rodoviários que faz o contorno de todo o perímetro da cidade,
medindo aproximadamente 40 km e facilitando as ligações intraurbanas (EMPLASA, 2009).
Mapa 1: Ribeirão Preto. Localização do município e dos municípios da região de influência. 2014
Com uma população aproximada de 604.682 habitantes (IBGE, 2010), o município é
considerado pela Regic (2007) como uma “Capital Regional B”, caracterizado pela
capacidade de gestão somente inferior ao das metrópoles, apresentando uma área de
influência de âmbito regional e dotada de um grande conjunto de atividades, devido o número
de municípios à sua volta. Ribeirão Preto apresenta como região de influência direta, segundo
a Regic (2007), 70 municípios e 2.389.502 habitantes.
Inaugurado em 1981, o RibeirãoShopping foi o primeiro shopping center a se instalar em
Ribeirão Preto, bem como o primeiro a migrar para o interior do Estado de São Paulo
coincidindo com a fase de expansão desses empreendimentos pelo país. Com 43.433m² de
ABL, o empreendimento apresenta um índice de hab./m² de ABL em 13,92 para o munícipio
e 55,02 para sua região de influência.
Segundo Garrefa (2004), seu surgimento ocorreu num período em que os grupos empresariais
começam a investir maciçamente no setor, abrindo cadeias de shopping centers em regiões
mais atraentes, como é o caso da empresa Multiplan.
63
Mapa 5: RibeirãoShopping. Origem dos veículos de frequentadores não residentes em
Ribeirão Preto. 2013
O mapa 5 apresenta o resultado da pesquisa “indicador origens e destinos” realizada no
empreendimento. Ao todo, foram contabilizados 346 automóveis e destes, 201 apresentavam
placas de Ribeirão Preto. Os fluxos mais representativos foram os veículos provenientes dos
municípios de Dumont, 10 unidades, e Jaboticabal com nove, ambas pertencentes à região de
influência direta de Ribeirão Preto apresentando, respectivamente, 8.143 e 71.662 habitantes
(IBGE, 2010).
O Gráfico 2 ajuda a compreender a diversificação dos frequentadores do RibeirãoShopping,
uma vez que a relação entre os mesmos é mais equilibrada que a apresentada pelo Iguatemi
São Carlos, mostrando que além de ser uma opção para os residentes em Ribeirão Preto, o
empreendimento também se torna interessante para os oriundos de outras cidades.
Gráfico 2: RibeirãoShopping. Relação dos frequentadores residente e não residentes em
Ribeirão Preto. 2013
64
Outros
Município
s
41%
Ribeirão
Preto
59%
Organização: André Felipe Vilas de Castro
Fonte: Pesquisa de Campo. 2013
Criada em 1963, a Veplan Imobiliária Ltda. tornou-se, em 1971, uma das maiores
incorporadoras do país. Com seu dinamismo, ocorre sua fusão com outra empresa, a H.C.
Cordeiro Guerra, tornando-se então a Veplan-Residência e como um dos resultados, surge o
Shopping Center Ibirapuera, inaugurado em São Paulo no ano de 1975. Foi então no ano de
1977 que a Multiplan se originou, com capitais da extinta Veplan Imobiliária Ltda., e
inaugura o seu primeiro shopping center em Minas Gerais, o BH Shopping.
65
Mapa 6: Brasil. Área de atuação da empresa Multiplan. 2014
Segundo Silva (2013), a Multiplan no ano de 2010 apresentava 13 shopping centers em
operação, totalizando aproximadamente 530.000 m² de área total. Suas ações em cidades
médias concentravam-se exclusivamente em Ribeirão Preto, onde a empresa conta com outro
empreendimento, o Shopping Santa Úrsula
Atualizando os dados apontados pela pesquisa de Silva (2013), a Multiplan inaugurou cinco
empreendimentos até o ano de 2014, apresentando então 18 shopping centers distribuídos em
sete Estados conforme representado pelo Mapa 6. A metragem de sua ABL total passou para
776.610 m² e 5.314 lojas. O Estado de São Paulo corresponde com esses índices. São 314.546
m² de ABL e 2.103 lojas.
Á GUISA DE CONCLUSÕES
Presente em diversas cidades e apresentando um crescimento considerável, a partir da década
de 1990 os shopping centers migram das grandes metrópoles para, num primeiro momento, as
cidades do entorno destas e depois para as cidades do interior. Para Gaeta (1988), esse
66
processo de crescimento e expansão tem despertado inúmeros estudos mercadológicos e
acadêmico, englobando também aspectos de cunhos urbanístico e ideológicos.
Esse aumento do número de empreendimentos, bem como esse processo de interiorização,
não escapa aos estudos da Geografia Urbana. A constante mudança que estes
empreendimentos provocam no espaço urbano ensejam processos como a reestruturação do
espaço urbano, cujo novos elementos ganham importância alterando as formas da cidade e
rompendo com a ordem então estabelecida em um processo conflituoso entre as inovações
espaciais (CORREA, 2010), e às condições preexistentes.
No âmbito do espaço urbano, o surgimento de novas áreas centrais são características do
processo de reestruturação propagado pela inserção dos shopping centers no meio urbano.
Garrefa (2004) chama atenção para o padrão de localização dos primeiros empreendimentos
brasileiros, fora dos centros, mas inseridos nas manchas urbanas. É somente na década de
1990 que esse padrão se diversifica, principalmente nos empreendimentos do interior, com a
localização deles fora das manchas urbanas em proximidade às rodovias. Esse processo
apresenta duas faces, pois a) essa localização permite maiores fluxos de frequentadores das
cidades do entorno contribuindo para a reestruturação urbana, b) orienta processos como
vetores de expansão, formando eixos, vias e/ou corredores de comércio especializado.
Como foi observado, os fluxos expressos pelos frequentadores dos empreendimentos suscitam
a reflexão sobre o processo da redefinição da centralidade intra e interurbana nas cidades em
questão. Se por um lado, o Iguatemi São Carlos apresenta uma proporção menos equilibrada
entre os frequentadores residentes e não residentes, o RibeirãoShopping oferece percentuais
mais próximos, resultado de uma maior concentração de municípios em sua área de influência
e uma convergência de atividades que o dotam de uma maior protagonismo na rede urbana,
bem como uma centralidade nesse arranjo espacial.
Com o intuito da reflexão sobre o papel que as empresas desempenham na sua relação com os
empreendimentos, vimos concluir, em caráter comparativo que, tanto as iniciativas da
Iguatemi Empresa de Shopping Centers Ltda., como da Multiplan foram, em um curto
intervalo de tempo, a expansão do número de seus empreendimentos pautada por ações de
interiorização de seus capitais rumo às cidades de porte médio. Esse movimento reforça os
estudos realizados no âmbito da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias – ReCiMe, de
que essas cidades guardam consigo fatores favoráveis para a ampliação do capital, pois além
de apresentarem uma economia consolidada pelos fluxos que estabelecem com as capitais dos
estados da federação, sobretudo espaços metropolitanos, conformando-se como pontos nodais
67
da rede urbana, apresentam uma população com poder aquisitivo capaz de sustentar o
mercado consumidor destes centros de compras.
68
REFERÊNCIAS
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Presidente Prudente: v. 7, n. 11, p. 151-162, jan./jun., 2010.
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geral de formação dos shopping centers em São Paulo. 1988. 234 f. Tese (Doutorado em
Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente
Prudente.
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dos espaços e estratégias utilizadas pelo setor terciário. In: IV SEMINÁRIO
INTERNACIONAL DA LARES (Latin American Real Estate Society), Anais, São Paulo,
LARES, 2004.
GARREFA, Fernando. Shopping Centers: de centro de abastecimento a produtos de
consumo. Editora Senac, São Paulo. 2011.
PINTAUDI, Silvana Maria & FRUGOLI Jr. Heitor. Shopping centers – Espaço, cultura e
modernidade nas cidades Brasileiras, São Paulo: ed. Universidade Estadual Paulista, 1992.
PINTAUDI, Silvana Maria. O Tempo da Mercadoria. Estudo sobre os Shopping Centers do
Estado de São Paulo. São Paulo, 1989. 156. (Tese de Doutorado em Geografia) - FFCH, USP.
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Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar, 1993.
Sítios eletrônicos consultados
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Disponível em: <http://www.abrasce.com.br > Acesso em: jan. 2015.
ATLAS DO CENSO DEMOGRÁFICO 2010.
Disponível em: < http://censo2010.ibge.gov.br/apps/atlas/> Acesso em: jan.2015.
Iguatemi. São Paulo, 2014. Apresenta informações sobre a empresa.
Disponível em: <http://www.iguatemi.com.br/> Acesso em nov. 2014.
Iguatemi São Carlos. São Carlos, 2014. Apresenta informações sobre a estrutura e
funcionamento do empreendimento.
Disponível em: < http://www.iguatemi.com.br/saocarlos.com.br/> Acesso em dez. 2014.
69
REGIC – Região de Influência das Cidades. Publicação do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE.
Disponível em: < http://www.mma.gov.br/estruturas/PZEE/_arquivos/regic_28.pdf> Acesso
em: nov.2014.
Multiplan. São Paulo, 2014. Apresenta informações sobre a empresa.
Disponível em: <http://www.multiplan.com.br/> Acesso em nov. 2014.
RibeirãoShopping. Ribeirão Preto, 2014. Apresenta informações sobre a estrutura e
funcionamento do empreendimento.
Disponível em: < http://www.ribeiraoshopping.com.br/> Acesso em nov. 2014.
70
O PAPEL E O FUNCIONAMENTO DAS FRANQUIAS NO PROCESSO
DE REESTRUTURAÇÃO URBANA DAS CIDADES-MÉDIAS: O CASO
DE RESENDE/RJ
Bruno Barreto dos Santos13
Resumo: Desde meados do século passado, a região do Médio Vale do Paraíba vem
recebendo grandes investimentos no setor produtivo, setor este que possui grande influência
na atração de capitais e empresas que possuem capacidade de alterar a produção dos espaços
urbanos. Resende é uma cidade onde esse processo acontece com bastante clareza, devido à
quantidade de empresas que se localizam nesta cidade, com isso, é possível observar um
grade aumento na produção, na população e na renda. O aumento nesses três fatores acabou
gerando modificações na dinâmica da oferta de bens e serviços urbanos, modificando o tipo
de consumo e possibilitando assim o surgimento de um comércio mais qualitativo, antes
característicos das grandes metrópoles. As franquias surgem nesse cenário representando essa
nova dinâmica de consumo vista em algumas cidades médias.
Palavras-chave: Reestruturação urbana, Consumo, Franquias.
1. Introdução
Esta pesquisa está vinculada ao grupo de pesquisa GRUCE e ao grupo
PET/Geografia-UFRJ. O sistema de franquias começou a ser visto no mundo após a Guerra
Civil americana no fim do séc. XIX e desde então vem sendo cada vez mais comum no setor
do comércio nos dias atuais. Elas são criadas com o objetivo de expansão do empreendimento
mantendo as características fundamentais da empresa e para a difusão da marca.
Desde meados do século passado, a região do Médio Vale do Paraíba vem recebendo
grandes investimentos no setor industrial, setor este que possui grande influência na atração
13
Graduando em Licenciatura em Geografia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bolsista no
Programa de Educação Tutorial de Geografia da UFRJ, pesquisador voluntário no Laboratório de Geografia
Urbana, vinculado ao Grupo de Reestruturação Urbana e Centralidade (GRUCE) e no Projeto de Pesquisa
intitulado Reestruturação Urbana no Estado do Rio de Janeiro: Governança e desenvolvimento Territorial no
Médio Vale do Paraíba. Trabalho orientado pelo Professor Doutor William Ribeiro da Silva.
71
de outras empresas que possuem capacidade de alterar a produção dos espaços urbanos,
gerando modificações na dinâmica da oferta de bens e serviços urbanos. Diante da
emergência de nova etapa da industrialização no setor metal mecânico (automotivo,
sobretudo) há uma ampliação da renda por parte da população e, consequentemente, há uma
nova dinâmica no consumo, como pode ser comprovados pelos gráficos 1, 2 e 3 abaixo. Essa
reestruturação dos processos torna urgente a discussão de uma geografia do consumo urbano
local.
Produto Interno Bruto
- Resende
6.000.000
5.000.000
4.000.000
3.000.000
2.000.000
1.000.000
0
5.626.136
3.245.682
1.705.986
2000
2007
2011
PIB
Gráfico 1: Evolução do Produto Interno Bruto da cidade de Resende-RJ. Fonte: IBGE, 2000.
Produzido por Bruno Barreto, 2014.
População
140.000
120.000
100.000
124.316
118.547 120.938
91.757
104.549
80.000
60.000
40.000
20.000
0
1991
2000
2007
2011
2014
População
Gráfico 2: População da cidade de Resende-RJ. Fonte: IBGE, 2014. Produzido por Bruno
Barreto, 2014.
72
PIB per Capita Resende (em R$)
46.520,86
50.000,00
40.000,00
30.000,00
27.378,87
16.317,58
20.000,00
10.000,00
0,00
2000
2007
2011
PIB per Capita
Gráfico 3: População da cidade de Resende-RJ. Fonte: IBGE, 2014. Produzido por Bruno
Barreto, 2014.
A reestruturação urbana e, por assim dizer, a reestruturação da cidade, no caso
analisado, tem uma forte ligação com esta nova fase do setor produtivo característico do
modelo pós-Fordista, que teve forte ascensão na década de 70. Vista como uma reestruturação
produtiva, este processo tem como consequência uma forte reorganização do espaço em
escala mundial, causando grandes mudanças nos espaços urbanos existentes e até mesmo
criando novos. A partir de então, portanto, pode ser visto uma forte articulação entre esses
dois processos de reestruturação, que no caso da cidade de Resende acabou resultando numa
nova organização interna da cidade.
Um dos objetivos da pesquisa foi de identificar as franquias que estão presentes na
cidade de Resende, compreendendo as suas espacialidades para auxiliar na elaboração de um
futuro mapeamento delas. Além disso, pretendeu-se analisar as escalas de ação das franquias
presentes, bem como, sua lógica locacional. Passada esta primeira fase, buscou-se
compreender o impacto e a importância deste tipo de comércio na cidade e também analisar
como funciona a logística das franquias presentes na cidade ou região, por parte do
franqueado e do franqueador.
Além de um levantamento bibliográfico acerca do tema, foi feito um levantamento de
dados em fontes secundárias, como sites coorporativos das prefeituras e shopping centers das
cidades. Trabalhos de campo foram realizados a fim de se analisar in locus mapear as
atividades econômicas presentes nas cidades em estudo, com ênfase nas franquias.
73
Desta maneira, considera-se que há um processo de reestruturação urbano-regional em
curso, que altera a lógica locacional e impõe uma maior complexidade e diversidade ao
consumo moderno.
2. Metodologia
A metodologia deste trabalho foi divida em fases para facilitar a organização do autor e a
compreensão do leitor. Anualmente, o trabalho era dividido em 3 fases. A primeira de leitura orientada
acerca do tema, com os objetivos de aumentar o embasamento teórico-conceitual e buscar por um
melhor entendimento de questões relacionadas às temáticas pesquisadas, principalmente dentro da
escala regional do Médio Vale do Paraíba e a cidade de Resende, leituras a cerca do tema de cidades
médias e como se dão os processos nesses espaços e também buscaram-se textos que abordassem a
temática do consumo e das franquias (tema este que ainda não apresenta grande quantidade de
trabalhos publicados)
A segunda fase dizia respeito à coleta de dados em fontes secundárias e a partir de trabalhos de
campo que foram realizados na cidade de Resende e também em eventos empresarias dentro das áreas
pesquisadas.
Os trabalhos de campo realizados foram bastante produtivos e tiveram como principais
atividades, uma visita a prefeitura da cidade, algumas visitas ao shopping Pátio Mix onde foram feitas
observações sobre o fluxo de consumidores, lojas presentes, e origem dos frequentadores a partir de
uma análise das placas dos veículos estacionados. Além disso foram realizadas entrevistas com lojistas
e diretores do shopping visitado, diretores de associações comerciais da cidade, levantamento de
atividades econômicas nas ruas do centro da cidade a fim de identificar e localizar as franquias
presentes e aonde elas se concentram na cidade e também a ida ao evento “Expo Franchising ABF Rio
2014” da área de franquias para melhor compreender como é a organização desse setor por parte dos
franqueadores.
A terceira fase consistiu em analisar todos os dados e conhecimentos coletados nas fases
anteriores para a construção de resultados parciais e finais da pesquisa.
Em todas as fases anteriores houveram algumas dificuldades encontradas, principalmente nas
atividades de campo. Indisposição em ajudar por parte dos entrevistados foi um dos principais pontos,
além da baixa disponibilidade de opções já que as franquias são recentes na cidade e ainda não são
encontradas em grande número. Além disso questões pessoais, principalmente no que dizem respeitos
a outras atividades realizadas pelo autor dificultaram a realização de mais trabalhos de campo,
diminuindo assim o número de dados finais obtidos.
3. Desenvolvimento da problemática / Debate Teórico-conceitual
74
Nos últimos anos, vem se observando no cenário da geografia urbana um processo de
reestruturação urbana em algumas cidades em escala global. Logo, quando mudamos a escala para o
cenário nacional, o fenômeno não se encontra de maneira diferente do que se vê mundo a fora, porém
ocorrendo sempre de diferentes maneiras, tendo relação forte com as características de cada cidade.
Vários são os atores e fatores que fazem parte desse processo de reestruturação urbana das
cidades. Esta pesquisa tem como principal objetivo fazer um estudo sobre o papel das franquias no
processo de reestruturação da cidade de Resende. A cidade que se localiza no Médio Vale do Paraíba,
possui uma localização privilegiada, na região sudeste que é a mais desenvolvida e entre as duas
principais cidades do país (Rio de Janeiro e São Paulo), próximo de alguns dos principais portos e
aeroportos do país, como pode ser visto no mapa 1. Desde meados da década de 50 a região vem
apresentando um desenvolvimento, devido à instalação da CSN em Volta Redonda.
O modelo de produção flexível gerou condições para um grande desenvolvimento
industrial, o que possibilitou um desenvolvimento econômico à localidade onde está inserida.
Porém este mesmo modelo proporcionou também um afloramento de um novo modo de
consumo. (CARMO e ORTIGOZA, 2010)
Porém, após alguns anos de estagnação no desenvolvimento das cidades da região e uma
diminuição no ritmo do processo de urbanização, iniciou-se um novo processo de reestruturação
urbana nas cidades do médio-vale que merecem ser analisados com uma análise mais profunda. Com a
chegada de importantes empresas do setor automobilístico e a criação de um parque industrial, grande
parte das cidades da região fluminense voltou a apresentar crescimento econômico e um
desenvolvimento em alguns setores.
Este trabalho visa identificar o papel das franquias no processo de reestruturação urbana na
cidade de Resende. Para que esse objetivo seja alcançado, metas menores foram traçadas para que ao
final, com a união de todas as informações, surgissem os resultados. A identificação dessas franquias
se dá como necessário, além disso, as escalas de ação das franquias presentes, bem como, sua lógica
locacional. Este tipo de comércio causa grande impacto na cidade, muitas das vezes são novas marcas,
novos produtos, novas formas de se fazer comércio que chegam na cidade, com o potencial suficiente
para alterar todo o padrão do comércio local. Assim pode-se dizer que as franquias possuem grande
importância no desenvolvimento do comércio da cidade.
75
Mapa 1: Posição Geográfica da cidade de Resende-RJ. Fonte: IBGE, 2000. Produzido por
Gabrielle Ramalho; Vitor Scalercio, 2008.
4. O que são as Franquias?
De acordo com a Lei 8.955/94 – Franquia Empresarial é o sistema pelo qual um
franqueador cede ao franqueado o direito de uso de marca ou patente, associado ao direito de
distribuição exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou serviços e, eventualmente, também
ao direito de uso da tecnologia de implantação e administração de negócio ou sistema
operacional, desenvolvidos ou detidos pelo franqueador, mediante remuneração direta ou
indireta, sem que, no entanto, fique caracterizado vinculo empregatício”.
A franquia, resumindo é uma instituição de comércio que possui o direito de usar a
marca de uma empresa maior e de maior respaldo no mercado. O franqueado com isso acaba
adotando todo o padrão de comércio imposto pelo seu franqueador. A diferença para as lojas
das grandes redes é simplesmente na origem do capital. Enquanto numa grande rede o capital
vem diretamente da empresa dona da marca, nas franquias o capital geralmente parte de um
empresário ou um microempresário que compra uma franquia, passando a ter direito de usar a
marca e os produtos da empresa franqueadora.
Como já falado antes, o sistema de franquias começou a ser utilizado após a guerra
civil no final do séc. XIX, porém elas começaram a aparecer de uma maneira mais intensa no
76
final do séc. XX, juntamente com a intensificação do processo de globalização no mundo.
Não foi diferente no Brasil, o setor de franchising vem acompanhando o crescimento da renda
média da população nos últimos anos, como pode ser visto nos gráficos abaixo.
Gráfico 4: Evolução do Número de Unidades Franqueadas do Setor de Franchising Brasileiro.
Fonte: www.portaldofranchising.com.br
Em Resende, não é diferente do que o retratado nesses gráficos, por diversos fatores que já
foram retratados neste trabalho, o crescimento do número de franquias é claro e sua importância no
comércio e consumo local vem aumentando a cada ano.
4.1 O Papel do Circuito Superior no Espaço Urbano
O circuito superior é composto por bancos, comércio e indústria de exportação,
indústria urbana moderna, serviços modernos, atacadistas e transportadores como elementos
do circuito superior. (Santos, 1979) As franquias fazem parte deste circuito e possuem cada
vez mais uma importância maior e uma posição de destaque, quando se fala em comércio e
consumo. A possibilidade de se trabalhar com as franquias, faz com que grandes marcas
tenham a oportunidade de que o seu produto chegue a diversas regiões, atingindo assim a um
maior mercado consumidor.
As franquias podem ser consideradas como as principais formas de controle indireto
das empresas sob um comércio local, garantindo-lhes possibilidades de lucros e maior difusão
da marca. (CORRÊA, 1999)
77
Como já citado antes, as franquias, além de possibilitarem a difusão da marca,
possuem a capacidade de fazer com que se expanda o mercado consumido a números muito
maiores. Nos países ditos em desenvolvimento, observa-se o nascimento de uma nova classe
consumidora na sociedade, a nova classe média. Classe essa que demanda um consumo
moderno, mais sofisticado, gerador de grandes lucros. (SANTOS, 1979)
Gráfico 5: Evolução das Classes Econômicas no Brasil – 1992 à 2009. Fonte: Nery, M. A
Nova Classe Média: O lado brilhante dos pobres
5. Resultados obtidos
5.1 Novos padrões de consumo na cidade
O Shopping Pátio Mix (26 franquias de grandes marcas) é o principal espaço de
concentração das franquias na cidade de Resende (quadro 1). Apesar de não ser um shopping
muito grande e possuir dificuldades no que diz respeito à acessibilidade, este local se
apresenta como o lugar de maior concentração destas marcas atraindo um enorme quantitativo
de pessoas que se dispõem a percorrer quilômetros de distância para poder consumir alguns
produtos de grandes marcas ou poder comer num restaurante de uma grande rede de
lanchonete.
Migrações “descendentes” foram observadas na cidade, principalmente no que diz
respeito a pessoas ligadas as fábricas e montadoras estrangeiras presentes na região.
(SANTOS, 1981) Esse grupo de pessoas acaba sendo atrativo para alguns setores específicos
de comércio, como por exemplo, a presença de um restaurante japonês na cidade para suprir a
78
demanda e atender aos funcionários japoneses que estão trabalhando na fábrica da Nissan que
começou sua operação recentemente na cidade.
Localidade
Franquias
Campos Elísios (centro) – 14
Postos Ipiranga, Claro, Nextel, Vivo, Curso
Yes, Taco, Óticas Carol, Mundo Verde, Casa
lotérica, O Boticário, Cacau Show, Over
Black, Ortobom e Pink Biju
Shopping Pátio Mix - 26
Baggagio, Bob’s, Burguer King, Cacau Show,
Chilli Beans, Colombo, CVC, Giraffa’s,
Havaianas, Hering, Lotérica, Mc Donald’s,
Montana Grill, Mr. Cat, Nobel, O Boticário,
Ortobom, Pink Biju, Quiosque Brahma, Rei do
Mate, Sonho dos Pés, Spoleto, Subway, Suco
Bagaço, Taco e World Tennis
Resende Shopping - 14
Ad Life Style, Bob’s, Brasil Cacau, Camarão e
Cia, Chilli Beans, First Class, Flashop, Hering,
Le Sénéchal, O Boticário, Ortopé, Rei do
Mate, Sky, World Tênnis
Quadro 1. Principais franquias na cidade de Resende Fontes: Pesquisas de Campo e SILVA,
2013. Organizado por: Bruno Barreto
79
Imagem1: Distribuição das principais franquias na cidade de Resende
O Shopping Pátio Mix representa a maior concentração de franquias e grandes redes
na cidade. Além disso, pela contagem de placas dos veículos, pode-se observar que os
frequentadores são de grande maioria da própria cidade de Resende, mas também foram
vistos consumidores de cidades próximas, como visto no organograma 1 (que apresenta os
dados das seguintes lojas : Cacau Show, Hering, Taco e Baggagio), que não exercem a
centralidade exercida pela cidade de Resende. Vale ressaltar também que a presença da
Academia Militar das Agulhas Negras na cidade, é de grande importância para o shopping,
visto que foram observados diversos militares nos horários de almoço e principalmente no
horário de jantar. Em uma das lojas franqueadas, a presença dos militares foi tida como
positiva, pois estes são os principais consumidores da mesma, devido a qualidade e ao estilo
das roupas encontradas.
80
Itatiaia
Quatis
Resende
Porto
Real
Volta
Redonda
Organograma 1: Origem dos Consumidores. Fonte: Pesquisa de Campo. Organizado por:
Bruno Barreto, 2014
Este trecho da entrevista feita com o presidente da Associação Comercial de Resende
mostra a importância do shopping e sua capacidade de atrair um grupo de pessoas que está
interessado num consumo específico que não é encontrado no resto da cidade. “(...) tem o
Subway que é um sucesso danado. Eu já tinha visto aquele Subway em tudo quanto é lugar do
mundo(...). Olha, é sensacional, não sei se vocês já comeram, eu fiquei pasmo. Hoje quando
eu vou no shopping lá em cima, eu não quero saber de outra coisa, agora eu como no
Subway...”.
Mesmo com essa preferência pelo consumo mais qualitativo por parte da população
local ainda há espaço para que comerciantes mantenham seus próprios negócios sem estar
ligados diretamente à grandes marcas. É possível que ambas as instituições possam participar
do comércio na cidade sem que haja grande prejuízo para as duas partes mas a tendência é que
isso vá se modificando com o passar dos anos.
Em outro trecho da entrevista, foi mostrado que somente os comerciantes que possuem
o mínimo de conhecimento estão prosperando, porém a cidade se mostra ainda como um lugar
atrativo para o comércio. “Porque eu vejo muitos tendo sucesso, tem um amigo aqui que abriu
um restaurante, em coisa de 2 anos ele já comprou uma casa em um condomínio fechado, 2
carros zero , as filhas estão estudando em faculdade particular,(...) e ele tá encantando com o
comercio de Resende, então eu vejo algumas lojinhas fechando, é como ele falou que abre
81
uma, fecha outra(...) Então quem fechou foi o povo, foram as pessoas que não conseguiram
dar o atendimento necessário, mas quem trabalha legal tá indo bem, vejo só crescer.”
Ainda devido a presença do comércio, pode ser visto na cidade uma grande quantidade
de trabalhadores de outras cidades, como visto no organograma 2 (que apresenta dados das
seguintes lojas: Cacau Show, Hering, Taco e Baggagio). As lojas franqueadas que foram
visitadas apresentavam em sem quadro de funcionários, pessoas de diversas cidades próximas,
revelando assim uma capacidade e uma contribuição deste segmento para o desenvolvimento
regional.
Itatiaia
Porto
Real
Quatis
Resende
Volta
Redonda
Penedo
Organograma 2: Quadro de Funcionários. Fonte: Pesquisa de Campo. Organizado por: Bruno
Barreto, 2014
5.2. A logística de algumas franquias encontradas na cidade
Nesta seção, mostrarei como se organizam as grandes marcas para com as suas
franquias espalhadas pelo país. Os dados que podem ser vistos nos organogramas 3, 4 e 5
foram coletados em um evento onde estavam presentes representantes das marcas abordadas.
A partir da análise dos organogramas poderá se chegar à conclusão que por mais que
as lojas franqueadas e o consumo qualitativo esteja passando por um momento de grande
82
crescimento nas cidades médias, as relações entre franqueadores e franqueados se apresentam
ainda de maneira claramente verticalizada (por isso a organização vertical), com as principais
decisões e lucros sendo direcionados à sede das lojas que se localizam nas grandes
metrópoles. Ou seja, as metrópoles, podem estar perdendo a capacidade de atração de
investimentos em determinadas setores, mas sua influência continua a aumentar, pois essa
organização é vista em quase todos os setores empresariais.
Rei do Mate
Sede: São Paulo
Escritório no Rio de
Janeiro
Centro de distribuição:
Rio de Janeiro
Loja de Resende e em
outras localidades
próximas
Organograma 3: A logística de funcionamento das franquias Rei do Mate. Fonte: Pesquisa de
Campo. Organizado por: Bruno Barreto
83
Curso YES
Sede: Rio de Janeiro
Centro de distribuição:
Rio de Janeiro
Escolas espalhadas
pelo país
Organograma 4: A logística de funcionamento das franquias do Curso Yes. Fonte: Pesquisa
de Campo. Organizado por: Bruno Barreto
Grupo trigo (Spoleto)
Sede: Rio de Janeiro
Centro de distribuição:
Cordovil e Volta
Redonda, Rio de Janeiro
Distribuição para todas
as lojas do Brasil
Organograma 5: A logística de funcionamento das franquias do Grupo Trigo. Fonte: Pesquisa
de Campo. Organizado por: Bruno Barreto
6. Considerações finais
84
A partir da bibliografia estudada e os dados coletados durante a pesquisa, foi possível
observar que a cidade passa por uma reestruturação urbana recente e que durante esse
processo, observa-se um novo tipo de consumo. Novo método de consumo esse, que vem
atraindo cada vez mais empresas, de capital externo à cidade, de diferentes setores de
comércio a se instalarem na cidade. Esse processo de instalação de franquias possui
características bem distintas do que se vê nas grandes metrópoles, onde as franquias se
encontram em uma distribuição espacial bem diferenciada.
Esse fator resulta num aumento quantitativo e qualitativo do consumo que é
característico das cidades médias, e não ocorre de maneira diferente na cidade de Resende.
Além disso, volto aqui a falar da verticalização vistas nas relações entre franqueadores e
franqueados que fortificam o “poder” das decisões que partem das grandes metrópoles
nacionais e reforçam a posição geográfica da cidade como um fator atrativo para os
investimentos externos que são cada vez mais frequentes nos últimos anos.
Por ser um fenômeno recente, ainda observa-se uma concentração muito grande das
franquias no centro da cidade, diferente do que se observa nas grandes cidades brasileiras.
Devido ao tamanho das cidades, não se sabe ainda o quanto essas franquias podem espalharse pela cidade mas a tendência é que o número de lojas e a demanda por elas cresça cada vez
mais.
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arranjos produtivos locais. In: ENCONTRO NACIONAL DOS GEOGRÁFOS, 16, 2010,
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85
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86
CENTRALIDADE DO ENSINO SUPERIOR EM DOURADOS-MS-BR E
AS ARTICULAÇÕES E RELAÇÕES DE COMPLEMENTARIEDADE
EM SUA ÁREA DE INFLUÊNCIA
Bruno Bomfim Moreno14
RESUMO
Dourados-MS-BR articula-se, direta ou indiretamente, a outros 33 centros urbanos,
abrangendo uma área de influência que compreende o Sul do estado de Mato Grosso do Sul e
ao extremo Noroeste do estado do Paraná. Essa área foi tomada como referência para a
análise da centralidade expressa pelo ensino superior, que tem em Dourados a maior oferta
regional para a modalidade presencial. O conjunto de centros que compõem a rede urbana
regional é analisado na tentativa de revelar aspectos da complexificação das interações
espaciais, que se apresentam na forma da diversificação e complementariedade.
Palavras-chave: 1)
Complementariedade
Centralidade;
2)
Ensino
Superior;
3)
Diversificação
e
1. A ÁREA DE ESTUDO
A ReGIC (IBGE, 2008) estabelece que Dourados15 é uma Capital Regional C,
subordinada a Campo Grande, capital do estado de MS e classificada como uma Capital
Regional A, que se subordina a São Paulo, Grande Metrópole Nacional. O município de
Dourados possui 196.035 (IBGE, 2010) habitantes, número que o coloca na segunda posição
no estado em tamanho demográfico. No que se refere à rede urbana (Figura 1), abrange
relação direta com 21 centros e, quando consideradas as relações indiretas, acrescentam-se
mais 12 centros em sua área de influência, totalizando 33 centros, dois deles do estado do
Paraná – Terra Roxa e Guaíra. Destacam-se na rede: Mundo Novo, Naviraí e Ponta Porã,
centros que são classificados como Centro de Zona A.
14
Docente no Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário da Grande
Dourados (UNIGRAN) e membro da equipe ReCiMe/Dourados. E-mail:
[email protected]. Este trabalho integra o resultado de pesquisa desenvolvida
junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande
Dourados (UFGD), sob a orientação da Profa. Dra. Maria José Martinelli Silva Calixto,
intitulada “A centralidade do ensino superior e o processo de redefinição socioespacial em
Dourados-MS” (MORENO, 2013).
15
Localiza-se ao Sul do estado de Mato Grosso do Sul (Latitude 22º 13' 16" S, Longitude 54º 48' 20" W e
altitude de 430m), tem área territorial de 4.096,9 km² e área territorial urbana de 40,68 km² (MIRANDA et al.,
2005)
87
Se pensarmos na área de influência de Dourados em termos demográficos, verificase que a população total da área de é de 590.827 habitantes; quando somada à população de
Dourados, chegamos a 786.862 habitantes, sendo que, desse total, 79,33% (624.247) vivem
nas cidades e 20,98% (153.999) no campo. A população da área de influência de Dourados,
excluindo os municípios do estado do Paraná, representa 30,19% da população estadual.
Já em relação ao ensino superior, no que se refere a área de influência de Dourados
(Figura 2Erro! Fonte de referência não encontrada.), Ponta Porã é o município em que se
verifica
a
presença,
em
88
maior
número,
de
Figura 1: Dourados (2008) – Área de influência e rede urbana de Dourados
89
Figura 2: Área de influência de Dourados (2012) – Presença de instituições de ensino superior (modalidade presencial)
90
91
instituições de ensino superior (IES) – sete no total. Em seguida, está Dourados (5 IES)
e Naviraí (4 IES).
Se a questão é analisada apenas por esse dado (quantidade de IES por
município), a centralidade exercida por Dourados regionalmente em relação ao ensino
superior poderia tornar-se questionável, já que não é o local onde há maior número de
instituições. No entanto, é necessário complexificar essa questão a partir de outros
elementos como, por exemplo, aqueles da concentração da oferta de cursos, uma vez
que o número de instituições, por si só, não revela o tamanho e a complexidade das
instituições em questão, consequentemente, não revela a quantidade de pessoas que têm
vinculações com o ensino superior.
Na área de influência de Dourados (ver Tabela 1) o número de instituições do
setor público (12) é próximo ao do setor privado (13 IES). O “equilíbrio” é garantido,
principalmente, pela presença da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul –
UEMS, que se insere nos municípios de Glória de Dourados (9.997 habitantes, IBGE,
2010), Ivinhema (22.341 habitantes, IBGE, 2010), Maracaju (37.405 habitantes, IBGE,
2010) e Mundo Novo (17.043 habitantes, IBGE, 2010), onde não há instituições
privadas. Três deles são classificados como Centro Local (IBGE, 2008) – Glória de
Dourados, Ivinhema e Maracaju.
Tabela 1: Área de influência de Dourados (2012) – Presença de unidades acadêmicas de IES por
setor (modalidade presencial)
Área de influência de Dourados
Município
IES Pública IES Privada Total
Amambai
1
1
2
Caarapó
0
1
1
Dourados
2
3
5
Fátima do Sul
0
1
1
Glória de Dourados
1
0
1
Guaíra/PR
0
1
1
Ivinhema
1
0
1
Maracaju
1
0
1
Mundo Novo
1
0
1
Naviraí
2
2
4
Ponta Porã
3
4
7
12
13
25
Total
48,00%
52,00% 100,00%
92
1
Foram consideradas para análise as
unidade dos Institutos Federais que no
estado de MS recebem a nomenclatura
IFMS – Instituto Federal de Mato Grosso
do Sul.
Fonte: Portal e-MEC, acesso em julho de 2012
Org.: MORENO, B. B., 2012
Já Mundo Novo é um Centro de Zona A, apesar de população inferior às da
cidade de Maracaju e de Ivinhema, o que indica que essa condição diferenciada dos
demais em relação à centralidade não está diretamente relacionada ao contingente
populacional, mas na articulação deste e de outros elementos. Neste caso, destacaríamos
a situação geográfica, já que Mundo Novo, dentre os centros listados, é o mais distante
de Dourados, condição para que sua centralidade não seja “cerceada” pelo centro
principal da rede urbana regional, possibilitando níveis intermediários na hierarquia da
rede urbana regional e exercendo centralidade sobre centros do extremo Sul do estado
de Mato Grosso do Sul e do extremo Noroeste no estado do Paraná.
No caso desses 4 municípios (Glória de Dourados, Ivinhema, Maracaju e
Mundo Novo), o que se percebe é a ausência de instituições privadas. O contrário é
verificado em Caarapó e em Fátima do Sul, onde não há instituição pública. Essa
diferença demonstra que há uma desconcentração no que se refere às instituições
públicas, presentes em 8 municípios, dos 11 que possuem ao menos uma instituição. Já
em relação às instituições privadas, presentes em 7 municípios, há a presença em maior
número em Ponta Porã (4 IES), em Dourados (3 IES) e em Naviraí (2 IES). Esse dado
revela uma opção dos agentes econômicos em relação à localização das instituições do
setor privado, em concentrar suas atividades em centros que apresentam maior
complexidade e, nesse caso, maior tamanho demográfico também.
Em relação à oferta, a área de influência de Dourados têm 159 cursos de
graduação. Possuem papel de destaque, além de Dourados (oferta de 96 cursos –
60,38% da oferta de toda a rede), Ponta Porã, com a oferta de 21 cursos de graduação,
Naviraí e Guaíra, que ofertam, cada um deles, 10 cursos de graduação – ver Tabela 2.
Tabela 2: Área de influência de Dourados (2012) – Oferta de cursos de graduação por município
(modalidade presencial)
93
Área de influência de Dourados
Município
Quantidade de Cursos
Amambai
5
3,14%
Caarapó
4
2,52%
60,38%
Dourados
96
Fátima do Sul
5
3,14%
Glória de Dourados
2
1,26%
Guaíra/PR
10
6,29%
Ivinhema
2
1,26%
Maracaju
2
1,26%
Mundo Novo
2
1,26%
Naviraí
10
6,29%
Ponta Porã
21
13,21%
Total
159
100,00%
Fonte: Portal e-MEC, acesso em julho de 2012
Org.: MORENO, B. B., 2012
A expressividade de Dourados em relação à oferta de cursos de graduação pode
ser mais bem apreendida a partir do Quadro 1, em que procuramos elencar a oferta de
cada instituição. A UFGD e a UNIGRAN são as instituições que mais possuem cursos
de graduação, 28 e 27, respectivamente.
Quadro 1: Dourados (2013): Cursos de Graduação (modalidade presencial)
Vagas
Ofertadas
50
700
110
150
150
100
100
100
100
120
50
40
Instituição Curso
FTAW1 Teologia
Administração
Agronomia
Ciências Contábeis
Comunicação Social
2
FAD
Gestão Financeira
Medicina Veterinária
Produção Multimídia
Psicologia
Relações Internacionais
Ciência da Computação
UEMS3
Ciências Biológicas
94
Grau
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Tecnológico
Bacharelado
Tecnológico
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
UFGD4
Direito
Enfermagem
Engenharia Ambiental
Engenharia Física
Física
Letras
Matemática
Pedagogia
Química
Química Industrial
Sistemas de Informação
Turismo
Administração
Agronomia
50
40
50
50
40
80
40
40
40
30
40
80
50
50
Artes Cênicas
Biotecnologia
60
55
Ciências Biológicas
Ciências Contábeis
Ciências Econômicas
60
50
50
Ciências Sociais
Direito
Educação Física
Engenharia Agrícola
Engenharia de Alimentos
Engenharia de Energia
Engenharia de Produção
60
55
50
50
51
51
52
Geografia
Gestão Ambiental
70
50
História
Letras
Licenciatura
Indígena
Matemática
Medicina
Nutrição
Pedagogia
Psicologia
70
70
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Licenciatura
Licenciatura
Licenciatura
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Licenciatura
60
51
50
50
50
60
Licenciatura
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado e
Intercultural
95
Química
Relações Internacionais
Sistemas de Informação
Zootecnia
Administração
Agronomia
Arquitetura e Urbanismo
Artes Visuais
Biomedicina
Ciência da Computação
54
55
51
50
180
140
120
60
80
100
Ciências Biológicas
Ciências Contábeis
Comunicação Social
Direito
140
160
60
480
Educação Física
Enfermagem
UNIGRA Engenharia Civil
N5
Estética e Cosmética
Farmácia
Fisioterapia
Jornalismo
Matemática
Medicina Veterinária
Nutrição
Odontologia
Pedagogia
Produção Agrícola
Produção Publicitária
440
240
250
260
320
120
60
60
160
120
90
100
160
80
Psicologia
Radiologia
Serviço Social
Total
360
160
80
8.465
1
Licenciatura
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado e
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Tecnológico
Tecnológico
Bacharelado e
Licenciatura
Tecnológico
Bacharelado
Faculdade Teológica e Seminário Batista Ana Wollerman (FTWA).
Faculdade Anhanguera de Dourados (FAD). 3Universidade Estadual de
Mato Grosso do Sul (UEMS). 4Universidade Federal da Grande Dourados
(UFGD). 5Centro Universitário da Grande Dourados.
2
96
Fonte: Portal e-MEC; sites das instituições, acesso em julho de 2012
Org.: MORENO, B. B., 2012
Anualmente são ofertadas 8.465 vagas nos cursos de graduação, sendo que
73,95% desse total de vagas é de responsabilidade do setor privado. A UNIGRAN e a
FAD, as duas instituições com maior oferta do setor privado, travam concorrência
principalmente nas áreas da ciência vinculada, mais diretamente, às atividades
agropecuárias, justamente pelas demandas de trabalho requeridas num campo
modernizado, cada vez mais cientifizado e que encontra na cidade média, “[...] muitas
respostas às suas exigências em ciência, técnica e informação, incluindo uma demanda
importante de bens e serviços técnicos e científicos [...]” (SANTOS; SILVEIRA, 2011,
p. 281) . Ainda para os autores,
[...] as cidades médias têm como papel o suprimento imediato e
próximo da informação requerida pelas atividades agrícolas e
desse modo constituem em intérpretes da técnica e do mundo.
Em muitos casos, a atividade urbana acaba sendo claramente
especializada, graças às suas relações próximas e necessárias
com a produção regional [...] (2011, p. 281).
Nesse sentido, a oferta dos cursos de graduação passa a ser influenciada pela
atividade produtiva regional, ao passo em que, as instituições de ensino superior, em
resposta aos estímulos dessas atividades, tornam-se responsáveis pela formação de mão
de obra qualificada ao atendimento de demandas criadas no campo.
Essas demandas são expressas não só na oferta de cursos de graduação e na
oferta de cursos tecnológicos vinculados à atividade produtiva, mas na quantidade de
vagas ofertadas. Ao que parece, apesar da concorrência, as duas instituições privadas
têm conquistado mercado, uma vez que a UNIGRAN disponibiliza 140 vagas para o
curso de Agronomia16 e 160 para o de Medicina Veterinária, enquanto que a FAD
oferece 100 vagas para cada um deles.
Esses números explicitam que a oferta de vagas é baseada em demandas cada
vez mais referenciadas na escala regional, na área de influência de Dourados.
Proporcional e economicamente, não é viável pensar na oferta e no preenchimento de
300 vagas para o curso de Agronomia (UFGD, FAD e UNIGRAN) e 260 vagas para o
16
Somadas às vagas disponibilizadas pela UFGD, chega-se a 300 vagas ofertas para esse curso.
97
curso de Medicina Veterinária (FAD e UNIGRAN), se considerarmos apenas as
demandas locais. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que se estrutura em Dourados
uma condição diferenciada de oferta do ensino superior, se comparado aos outros
centros da rede urbana regional, essa oferta (expressa na quantidade de cursos e de
vagas) está atrelada às demandas regionais, questão que iremos explorar mais adiante.
2. AS ARTICULAÇÕES E RELAÇÕES DE COMPLEMENTARIEDADE
NA REDE URBANA REGIONAL
Para contemplar a ideia da complementariedade e de interdependência entre o
que se demanda e o que é ofertado, ao reforçamos a ideia de Dourados como centro
principal da rede urbana regional, no que diz respeito ao ensino superior, não se
objetivou reforçar a ideia de hierarquia, mas de demonstrar uma possibilidade da
relevância numérica de alunos provenientes da área de influência que se vinculam às
instituições de Dourados e, também, de como esse centro é dependente dessa demanda
regional para que se estruture a oferta de vagas e de cursos, principalmente, ao que se
refere ao setor privado.
Nesse sentido, em uma rede urbana, a centralidade não deve ser pensada
apenas a partir de relações hierárquicas, como aponta Corrêa (1996, 2006). Apesar de
determinados centros urbanos apresentarem maior expressão de centralidade, isso não
nos permite entender que não haja interdependência, e por que não a
complementariedade e a concorrência entre centros do mesmo ou de diferentes portes.
Por assim dizer, a superação da ideia de hierarquia é importante. Sobre essa
perspectiva, Sposito (2011) alerta:
A ruptura com a ideia de hierarquia só pode ocorrer, do ponto
de vista teórico e do ponto de vista ideológico, se o primado de
olhar o mundo e, por consequência, a cidade pelas desigualdades
fosse superado ou combinado, de modo articulado ou
contraditório e conflituoso, pela aceitação de que as diferenças
vão além das desigualdades.
Para identificá-las e para colocá-las no centro do debate e da
leitura de mundo é preciso ter sensibilidade para ler a
combinação complexa de fluxos e modos de organização e
constituição de redes (econômicas, sociais, políticas, culturais,
urbanas) que não se estruturam apenas hierarquicamente, mas
resultam de múltiplos fluxos, estabelecidos horizontalmente e
transversalmente. (2011, p. 130-1).
98
Sobre a natureza da rede urbana, em configurar-se e reconfigurar-se
socioespacialmente de acordo com o contexto histórico, Calixto (2011, p.58-9), aponta:
No caso de Dourados, deve-se considerar não apenas a sua
condição ou nível de centralidade, na rede urbana do sul do
estado de Mato Grosso Sul, mas também sua posição, haja vista
que a própria divisão territorial do trabalho implica em uma
complexidade funcional dos centros urbanos. No âmbito e na
dinâmica dessa lógica, as imposições de escalas mais amplas
(ligadas a circuitos produtivos mais abrangentes), por
intermédio da especialização produtiva, impetram uma divisão
territorial do trabalho que acaba por romper com o modelo
exclusivamente hierárquico.
Sendo assim, embora Dourados (cuja condição pode variar
espaço-temporalmente, de acordo com sua especialização
funcional) esteja ligada à rede urbana de Campo Grande e, por
intermédio dela, à grande metrópole nacional – São Paulo –
também desempenha simultaneamente um papel singular e
complementar a outros centros urbanos do seu entorno. Ou seja,
há uma divisão/diferenciação que, no seu movimento, promove
a integração/articulação, sendo difícil dimensionar em que
medida a rede urbana de Dourados é condição para a divisão
sócio-territorial do trabalho, ou se caracteriza por ser uma rede
de pura intermediação de ações externas.
A construção do trabalho, por essa perspectiva, a partir dos papéis que
Dourados assume regionalmente, ao que se refere ao ensino superior, reflete a
necessidade de apreensão da contribuição/participação17 dos centros que compõem a
rede
urbana
na
conformação
dessa
centralidade
e/ou
das
relações
de
complementariedade e concorrência. Por essa razão, serão elencados alguns aspectos
que evidenciam, a partir dos fluxos, essas dinâmicas. O primeiro, diz respeito aos fluxos
de alunos de Dourados em direção aos centros de patamares inferiores de centralidade
na rede urbana regional – considerando os elementos da centralidade propostos pelo
IBGE (2008).
Nesse caso, há um movimento mais claro em direção a Ponta Porã. Apesar
desse movimento, a vinculação educacional se dá, principalmente, com as instituições
paraguaias, presentes na cidade de Pedro Juan Caballero (cidade gêmea de Ponta Porã),
17
Essa realidade, de forma bem simplificada, pode ser observada a partir da definição do número de
vagas de determinados cursos de graduação que, considerando apenas o público local, seria uma
quantidade impraticável.
99
embora o local de moradia dos alunos que se vinculam a essas instituições ainda
permaneça em Ponta Porã. Um caso recorrente é o deslocamento de estudantes
brasileiros para cursar graduação em Medicina, na cidade estrangeira, em instituições
particulares, cujas mensalidades são inferiores às das instituições brasileiras. Somado a
esse público, há também aquele que tem como opção a pós-graduação18, inclusive nas
modalidades stricto sensu.
Há fluxos, ainda, de docentes que trabalham nas instituições da cidade de Ponta
Porã. Nesse caso, o deslocamento é diário e não há a necessidade de mudança para
aquela cidade, considerando que a média do percurso (Dourados – Ponta Porã –
Dourados) é de 1h e 30min para veículos domésticos. Os docentes que têm vínculos
com as unidades das UEMS, nas proximidades de Dourados (Amambai, Ivinhema,
Glória de Dourados e Jardim, por exemplo), ou mesmo instituições privadas, também
acabam escolhendo as viagens diárias a morar nas cidades em que essas
unidades/instituições estão localizadas, evidentemente pelas condições que a cidade de
maior complexidade regional pode oferecer: consumo de bens e serviços quantitativa e
qualitativamente diversificados19.
Essa condição não é exclusiva aos docentes, há outros profissionais que
residem em Dourados pela condição desse centro na rede urbana, de maior
complexidade em relação à oferta de bens e serviços. Essa realidade foi averiguada por
Nogueira (2011), que estudou as relações que se dão entre a cidade de Itaporã e a cidade
de Dourados, que fica a uma distância de, aproximadamente, 20 km daquela. Nesse
18
Embora haja acordos bilaterais de reconhecimento e validação dos diplomas por parte de ambas as
nações (brasileira e paraguaia), há ainda muitos empecilhos nesse processo. Uma justificativa seriam as
diferenças normativas e aquelas institucionais dos órgãos que regulamentam a pós-graduação em
ambos os países. Além disso, existem as questões de preconceito construídas a partir do Brasil em
relação à formação no Paraguai, considerando a precariedade material da nação vizinha em relação às
áreas mais articuladas ao capitalismo mundial no Brasil. Acaba-se reproduzindo uma lógica perversa, ao
mesmo tempo em que somos constrangidos em comparação a outros países, constrangemos aqueles
que estão em uma condição desfavorável à nossa.
19
Para além da condição diferenciada que morar em Dourados e não nos centros da rede urbana
regional pode significar, é importante que pontuemos que o trabalho fora desse centro regional pode
revelar a saturação do mercado em determinada área como uma própria imposição da divisão técnica
ou da qualificação profissional, que não dá condições de inserção desses docentes no mercado de
trabalho local, obrigando-os a procurar trabalho para além dos limites municipais. Assim, a permanência
em Dourados se dá não só pelo acesso a bens e serviços que são oferecidos nesse centro, mas, também,
pelos laços de afetividade construídos nessa/com essa cidade.
100
sentido, conforme o autor, apesar do vínculo de trabalho20 se dar com Itaporã, o local de
residência é Dourados.
Movimento similar ocorre a partir da cidade de Campo Grande, em que
professores se dirigem a Dourados. Considerando a distância entre as cidades
(aproximadamente 230 km), há a necessidade, ora ou outra, de pernoitar em Dourados.
As possibilidades da estada desses professores são diversas, desde o compartilhamento
de aluguel com colegas na mesma condição ou a permanência nas próprias instituições
– solução encontrada pela UNIGRAN que há uma edificação, na própria instituição,
destinada a esses profissionais (horistas) e, externamente a ela, tem um condomínio21
para aluguel àquelas pessoas que têm vínculo empregatício de tempo integral – ver
Fotografia 1.
20
Nogueira (2011) esclarece que essa condição é estabelecida apenas aos profissionais que ocupam
cargos mais especializados.
21
É válido destacar que não está clara a vinculação da UNIGRAN com o condomínio, o qual não possui
identificação visual de pertencimento à instituição, o que leva a crer que se trata de um
empreendimento particular.
101
Fotografia 1: Dourados (2013) – Condomínio destinado aos docentes da UNIGRAN
Foto: MORENO, B. B., maio de 2013
Nesse sentido, observa-se uma divisão territorial do trabalho que acaba se
impondo em relação ao ensino superior, pois, ao mesmo tempo em que Dourados
disponibiliza profissionais às instituições em sua área de influência, tem a necessidade
de receber outros de outros centros, funcionalmente mais complexos – mesmo que não
se impondo como uma regra –, para suprimentos daquelas demandas em que a divisão
técnica do trabalho local não teve/tem condições de atender. Assim, revelam-se papéis
singulares e de complementariedade na diferenciação dos centros urbanos da rede
urbana sul-mato-grossense, em que hierarquia e especializações se articulam.
Em relação ao ensino superior e as singularidades dos centros de uma rede, ela
se evidencia a partir da consolidação de determinado curso superior ou área do
conhecimento, que pode ou não estar relacionada à complexificação das funções do
centro urbano. Nesse sentido, o centro, mesmo não apresentando grande complexidade
funcional, pode exercer um papel central em determinada área ou região no que diz
respeito à produção de conhecimento em um campo específico. Em Dourados, por
exemplo, a pós-graduação evidencia esse movimento com os cursos de Doutorado em
Agronomia, em Ciências da Saúde, em Ciência e Tecnologia Ambiental, em
102
Entomologia, em História, em Geografia e em Recursos Naturais, únicos em todo o
estado de Mato Grosso do Sul.
O planejamento institucional também se mostra importante neste caso, quando
consideramos a oferta de graduação em Agronomia em Dourados e a oferta de Medicina
Veterinária em Campo Grande, ambas realizadas quando da implantação da UFMS e
que se relacionavam/relacionam com os papéis desempenhados pelas unidades da
EMBRAPA em cada um desses centros – enquanto uma aproximava-se mais à
produção vegetal, a outra, ligava-se à criação de gado de corte. Assim, a pós-graduação,
também, acaba sendo reflexo desse processo, pois enquanto em Dourados há a oferta do
curso de Doutorado em Agronomia, em Campo Grande, há a oferta de Doutorado em
Ciência Animal.
A outra questão refere-se à presença de instituições em centros “subordinados”
a Dourados que estão em níveis de centralidade diferente da classificação de Centro
Local. As instituições que se inserem nesses centros, além de atender a população do
município, passam a exercer centralidade também sob aqueles centros de menor porte.
Isso significa que, potencialmente, essas instituições capitam um público que, para ter
acesso ao ensino superior, obrigatoriamente, teria que se deslocar a centros maiores e
mais complexos e, consequentemente, mesmo que não seja uma regra, mais distantes.
Esse é o caso, principalmente, de Naviraí e Ponta Porã, classificados como Centros de
Zona A, que exercem centralidade, conforme a proposição do IBGE (2008), tanto
quanto Corumbá e Três Lagoas, centros22 mais complexos e de maior porte
populacional do que aqueles.
Em se tratando especificamente da quantidade de instituições e de cursos na
área de influência de Dourados, a partir do Quadro 2, as cidades de Ponta Porã e de
Naviraí são aquelas que têm papel de destaque na rede, no que diz respeito ao ensino
superior. A cidade de Ponta Porã, possui maior número de instituições do que
Dourados, e isso sem considerar as instituições paraguaias que introduzem um novo
elemento à análise.
22
Esses dois centros ligam-se diretamente a Campo Grande, capital do estado de Mato Grosso do Sul e,
conforme IBGE(2008), uma Capital Regional A.
103
Quadro 2: Área de influência de Dourados (2012): Número de instituições e cursos de graduação
(modalidade presencial)23
Município
Amambai
Instituição Nº
1
UEMS1
2
3
2
FIAMA
4
5
Cursos
História
Ciências Sociais
Administração
Ciências Contábeis
Pedagogia
Total
Caarapó
FETAC3
6 Administração
7 Ciências Contábeis
Total
Fátima do Sul
FAFS4
8
9
10
11
12
Ciências Contábeis
Educação Física
Educação Física
Enfermagem
Pedagogia
Total
Glória de Dourados
Guaíra
Ivinhema
Maracaju
UEMS1
UNIPAR5
UEMS1
UEMS1
13 Agroecologia
14 Produção Sucroalcooleira
Total
15 Administração
16 Estética e Cosmética
17 Gestão Ambiental
18 Direito
19 Enfermagem
20 Pedagogia
21 Sistemas de Informação
Total
22 Agroecologia
23 Produção Sucroalcooleira
Total
24 Administração
25 Pedagogia
23
Vagas
40
40
100
100
100
380
50
50
100
80
200
200
40
200
780
50
50
100
80
80
80
70
40
80
80
510
50
50
100
40
40
Grau
Licenciatura
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Licenciatura
Tecnológico
Tecnológico
Licenciatura
Tecnológico
Tecnológico
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Tecnológico
Tecnológico
Bacharelado
Licenciatura
Os dados do quadro podem trazer discrepâncias em relação aos levantamentos anteriores, uma vez
que as fontes são diferentes. Indicativos das diferenças, como já levantamos, podem estar relacionados
ao grau de oferta dos cursos, já que para o MEC, quando há a oferta do grau de bacharelado e de
licenciatura, há o discernimento que se trata de dois cursos, enquanto que, para as instituições, para
efeitos de divulgação e diagramação de suas páginas na internet, esse procedimento nem sempre é
respeitado.
104
Mundo Novo
UEMS1
26
27
28
29
7
FACINAV 30
31
32
FINAV8
33
34
35
1
UEMS
36
37
UFMS6
Naviraí
FAP9
FAMAG10
FATEP11
UFMS6
Ponta Porã
IFMS12
FIP13
UEMS1
38
39
40
41
42
43
44
45
46
47
48
49
50
51
52
53
54
55
Total 80
Ciências Biológicas
40
Gestão Ambiental
40
Total 80
Ciências Sociais
60
Pedagogia
60
Ciências Contábeis
60
Administração
100
Geografia
93
Letras - Inglês
100
Pedagogia
150
Tecnologia em Alimentos 50
Direito
50
Química
50
Total 773
Administração
100
Ciências Contábeis
60
Geografia
60
História
60
Letras – Espanhol
100
Ciências Contábeis
80
Engenharia Civil
100
Ciência da Computação
50
Matemática
40
Sistemas de Informação
50
Agronegócio
80
Administração
60
Ciência da Computação
80
Direito
80
Letras – Espanhol
80
Administração
50
Ciências Contábeis
50
Ciências Econômicas
50
Total 1.230
Total de vagas 4.073
1
Licenciatura
Tecnológico
Licenciatura
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Licenciatura
Licenciatura
Tecnológico
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Licenciatura
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Tecnológico
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Licenciatura
Bacharelado
Bacharelado
Bacharelado
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS),
Faculdade de Amambai (FIAMA), 3Faculdade de Educação,
Tecnologia e Administração de Caarapó (FETAC), 4Faculdade de
Administração de Fátima do Sul (FAFS), 5 Universidade
Paranaense (UNIPAR), 6 Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul (UFMS), 7Faculdade de Ciências Contábeis de Naviraí
(FACINAV), 8Faculdades Integradas de Naviraí (FINAV), 9
2
105
Faculdade de Ponta Porã (FAP), 10 Faculdades Magsul
(FAMAG),11Faculdade Tecnológica de Ponta Porã (FATEP),
12
Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) e 13Faculdades
Integradas de Ponta Porã (FIP).
Fonte: site das instituições; Portal e-MEC, acesso em outubro de 2012
Org.: MORENO, B. B., 2012
Enquanto Ponta Porã possui 7 instituições, Naviraí possui 4, sendo que o
primeiro concentra a oferta de 18 cursos e, o segundo, 10. Já em relação à quantidade de
vagas, em Ponta Porã há a oferta de 1.230 vagas e, em Naviraí, 773.
O município de Fátima do Sul aparece com uma expressiva oferta de vagas
(780), concentrada em uma única instituição que, para os cursos de Educação Física
(licenciatura e bacharelado) oferta 400 vagas; para o curso de Ciências Contábeis oferta
80 vagas e, para o curso de Pedagogia, 200 vagas. Esses dados demonstram a
necessidade de relativizar a dimensão dessa oferta, uma vez que, as cidades de Fátima
de Sul e de Dourados estão bem próximas (cerca de 30 km), o que condiciona a
intensificação da relação entre elas e o que pode resultar numa “coerção” dessa oferta
em Fátima do Sul, já que em Dourados, há a mesma oferta dos cursos (Educação Física
– 490 vagas – e Pedagogia – 190 vagas) em três instituições (UEMS, UFGD e
UNIGRAN), duas delas públicas. Por outro lado, o que pode existir também é, ao
contrário do que se convencionou, o fluxo de alunos de Dourados em direção a Fátima
do Sul24.
Ainda em relação ao número de vagas, Guaíra, apesar de também possuir
apenas uma instituição (setor privado), para a oferta de 7 cursos, concentra 510 vagas.
Já Amambai, apesar de apresentar duas instituições (uma delas pública), para a oferta de
5 cursos, disponibiliza 380 vagas. Esses centros possuem papéis diferenciados no que
diz respeito ao ensino superior e, embora em níveis de centralidade estejam na mesma
condição (Centro de Zona B), as diferenciações socioespaciais acabam conferindo-os
papéis diferenciados.
Nesse sentido, enquanto Amambai possui 34.730 habitantes – dentre os quais
22.375 (64,43%) residem na cidade (IBGE, 2010) –, Guaíra possui 30.704 habitantes,
24
O município de Fátima do Sul possui 19.035 habitantes, dentre os quais 2.161 (11,35%) possuem entre
18 e 24 anos de idade. O total de pessoas que frequentam o ensino superior no município é de 715
(3,76%).
106
destes 28.206 (91,86%) habitantes residem na cidade (IBGE, 2010). Enquanto a
primeira dista, aproximadamente, 130 km de Dourados e vincula-se diretamente, a
segunda está a 266 km de distância, vinculando-se indiretamente (por intermédio de
Mundo Novo, um Centro Sub-Regional A).
Por outro lado, Guaíra vincula-se diretamente a Umuarama – PR, Centro SubRegional A (subordinado diretamente a Curitiba – PR) e que está a uma distância de,
aproximadamente, 120 km. Guaíra ainda mantém proximidade com Cascavel (cerca de
150 km) e com Maringá (cerca de 248 km), o que poderia relativizar a ligação com
Dourados que, além de mais distante, em nível de centralidade, mostra-se em uma
condição inferior àqueles – Cascavel e Maringá se enquadram como Capital Regional
B. Ainda nessa perspectiva, apesar de Mundo Novo subordinar Guaíra, sua expressão na
rede urbana em relação ao ensino superior é pequena, concentra 80 vagas em dois
cursos de graduação em uma única instituição.
Dentre os cursos listados, não há nenhum que não seja ofertado em Dourados,
para os graus de licenciatura e bacharelado25. O que diferencia os centros que se
vinculam a Dourados são os cursos do grau tecnológico que são ofertados em Glória de
Dourados (Agroecologia e Produção Sucroalcooleira), Guaíra (Estética e Cosmética),
Ivinhema (Agroecologia e Produção Sucroalcooleira), Mundo Novo (Gestão
Ambiental), Naviraí (Tecnologia em Alimentos) e em Ponta Porã (Agronegócio).
Dessa forma, a oferta de cursos de graduação mais diversificada em Dourados
é um elemento para se pensar os papeis regionais desse centro, no entanto, essa
condição não se assegura estritamente por demandas locais, mas da articulação dessas
com aquelas regionais, sobretudo quando estamos nos referindo ao setor privado, que
está diretamente condicionado às dinâmicas do mercado (oferta/procura).
A UNIGRAN, por exemplo, em sua Avaliação Institucional (2011) averiguouse que 32,86% do seu público era formado por discentes que utilizavam de transporte
interurbano (ônibus escolar) como meio de locomoção para ir às aulas. Ou seja, o local
de origem desses discentes possibilita que o vínculo institucional seja mantido a partir
dos deslocamentos diários, o que nem sempre é a “escolha” dos acadêmicos, que podem
25
Até o ano de 2011 a Faculdade Tecnológica de Ponta Porã detinha a exclusividade da oferta do curso
de Engenharia Civil na rede urbana regional e agora divide com a UNIGRAN essa oferta. Vale destacar
que a instituição de Dourados já oferta esse curso em dois períodos (matutino e noturno), o que leva a
crer que há uma demanda regional, considerando a formação de duas turmas do curso. Vale destacar,
também, que a partir do próximo ano, a UFGD passará a ofertar esse curso.
107
“preferir” pela mudança para a cidade de Dourados – que tem expressado essa condição
a partir de áreas produzidas cada vez mais direcionadas a este público. Nesse sentido, a
parcela dessa demanda regional pode ser ampliada a partir da contabilização desses
discentes que não se utilizam do transporte interurbano.
Nesse sentido, a expressividade regional da oferta do ensino superior em
Dourados, quantitativa e qualitativamente, deve ser pensada a partir das demandas
locais e regionais, pois é da articulação dos fluxos de acadêmicos, sobretudo, dessas
duas escalas que a oferta se estrutura. Assim, damos alguns passos na caminhada para a
superação da leitura (se essa for a direção correta!) de que a complexidade da oferta do
ensino superior e das instituições nesse centro regional seja algo dado, exista per si, o
que acabaria por reafirmar a leitura da relação hierárquica entre os lugares.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao ofertar 96 cursos de graduação, na modalidade presencial, Dourados conta
com um número de cursos 63,58% maior do que todos os centros de sua rede urbana
(que juntos, ofertam 55 cursos), sendo o único centro que oferta cursos de mestrado e
doutorado, revelando expressividade também a partir da verticalização do ensino na
pós-graduação.
Contudo, vale reforçar que a condição assumida por Dourados é sustentada por
demandas regionais, marcando uma articulação entre os centros da rede urbana, que, por
sua vez, complementam e diversificam (sobretudo a partir de cursos do grau
tecnológico) a oferta do ensino superior.
Ainda é importante considerar, em se tratando da complementariedade entre os
centros da rede urbana, a vinculação de pessoas de Dourados com IES de outros centros
urbanos. Esse é o caso dos professores que moram em Dourados e ministram, por
exemplo, aulas nas IES de centros da rede urbana. Por outro lado, as IES de Dourados
também contratam profissionais de outros locais. Assim, revelam-se papéis de
singularidades e de complementaridade.
4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALIXTO, Maria José Martinelli Silva. O processo de consolidação da centralidade de
Dourados-MS na rede urbana: uma contribuição para a análise de uma cidade média.
Rio de Janeiro, 2011. 117 f. Relatório (Pós-Doutorado em Geografia) – IGEO/UFRJ.
108
CORRÊA, Roberto Lobato. 1996. Trajetórias Geográficas. 4. ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2010.
______. Estudos sobre a rede urbana. 1. ed. Rio de Janeiro: Betrand Brasil, 2006. 336p.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Região de
Influências das cidades 2007 (ReGIC). IBGE: Rio de Janeiro, 2008.
______. Censo demográfico 2010. Versão Digital (planilha eletrônica).
MORENO, Bruno Bomfim. A centralidade do ensino superior e o processo de
redefinição socioespacial em Dourados-MS. Dourados, 2013. Dissertação (Mestrado
em Geografia) – FCH/UFGD.
SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. 2001. O Brasil: território e sociedade no
início do século XXI. 15. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.
SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. A produção do espaço urbano: escalas,
diferenças e desigualdades socioespaciais. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri; SOUZA,
Marcelo Lopes de; SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão (orgs.). A produção do espaço
urbano: agentes e processos, escalas e desafios. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2011.
109
O USO DAS/NAS RUAS: UMA ANÁLISE DAS TRANSFORMAÇÕES E
PERMANÊNCIAS DA ÁREA CENTRAL DE DOURADOS/MS
Elaine Cristina Musculini26
Resumo:
O presente texto busca trazer uma contribuição para a reflexão acerca das
transformações e permanências nas/das ruas da área central de Dourados-MS.
Percebemos que com o advento de novas tecnologias e os meios de transporte surgem
novas características nas/das ruas, bem como novas tendências, rearranjos e
resignificações. Porém, apesar das mudanças nas formas de uso, ainda existem as
permanências/resistências. Nas ruas da área central de Dourados-MS existem
determinados pontos/locais que não seguiram a dinâmica da produção espacial, ditada
pela lógica da velocidade e da globalização. A rua é resultado de uma lógica mais ampla
(a lógica do consumo, da modernidade, do mercado, do capital, das pressões
econômicas e sociais), mas também é produzida a partir do viver, do fazer cotidiano.
Palavras-Chave: Área Central; Uso das/nas ruas; ruas da área central.
1 - Introdução
Este texto é parte integrante de nossa Dissertação de Mestrado, defendida junto
ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Dourados –
UFGD. Visamos oferecer uma contribuição para o entendimento sobre as
transformações e permanências nas formas de uso da rua, tomando como objeto de
análise a área central de Dourados-MS.
Inicialmente vale destacar a importância em se considerar a dinâmica que
envolve e diversifica o espaço urbano: os fatores sociais, econômicos e culturais. Existe
uma interação desses fatores, que não nos permite mais aceitar explicações e ou
soluções prontas “para os problemas das cidades, quando se objetiva estudar a paisagem
somente como agente passivo, estático segmentado”. (FERREIRA, 2002, p. 78)
No mesmo sentido, Carlos (2001) aponta que o processo de reprodução espacial
se realiza na articulação de três níveis, sendo eles: o político, o econômico e o social,
que são articulados pela mediação do Estado.
Carlos (2009) ao discorrer sobre a paisagem urbana faz-nos pensar sobre o que
nos cerca quando caminhamos pelas ruas. Inicialmente visualizamos o instantâneo. O
26
Membro da equipe ReCiMe-Dourados, Mestre em Geografia pela Universidade Federal da Grande
Dourados. Este trabalho integra parte do resultado da pesquisa desenvolvida junto ao Programa de PósGraduação em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), intitulada “A rua como
lugar dos viveres e fazeres: transformações e persistências na área central de Dourados/MS”, defendida
no ano de 2012, sob a orientação da Profa. Dra. Maria José Martinelli Silva Calixto.
110
que nos é perceptível é o concreto, ou seja, as casas, os prédios, o asfalto e todos os
símbolos do urbano – semáforos, placas, dentre outros. Contudo, se analisarmos mais
detalhadamente a nossa própria memória, lembraremos que existe “o boteco da esquina,
a padaria, o supermercado, a vendinha, o clube, [...], etc”. (p. 35). Além disso,
notaremos que essas construções datam de tempos diferentes. Ainda de acordo com
Carlos (2009), “a dimensão de vários tempos está impregnada na paisagem da cidade”.
(p. 35)
No que diz respeito às ruas da área central de Dourados-MS, percebemos a
existência de prédios com sua arquitetura antiga e que estão “escondidos” pelas
fachadas, com luzes e cores que representam a nova tendência do comércio, do
consumo, da modernidade. O velho e o novo convivem nessa dinâmica.
Desde o início da pesquisa indagávamos sobre como os novos usos estabelecidos
das/nas ruas da área central modificavam, também, as relações e funções dos lugares.
Além das transformações, questionávamos a coexistência de usos/relações.
Para todos os questionamentos e objetivos propostos, no intuito de perceber,
refletir sobre, bem como de apontar as transformações das/nas ruas da área central de
Dourados-MS, bem como os novos usos e relações estabelecidos, partimos para um
trabalho de campo que nos possibilitou enxergar não apenas as imagens instantâneas
que as cidades nos perpassam, mas também vislumbramos as novas funções dos
lugares.
Necessário enfatizar que não observamos apenas modificações da/na área central
de Dourados, mas as permanências: o pipoqueiro, as festas, os desfiles, os
estabelecimentos comerciais mais antigos da cidade. O trabalho de campo nos
proporcionou, também, visualizar tais resistências que coexistem com tantas
transformações.
Além do trabalho de campo, utilizamo-nos também de entrevistas com
moradores antigos da área central de Dourados, bem como com historiadores que
trabalham temáticas análogas ao tema proposto para a pesquisa. Tudo isto alinhado a
consultas à bibliografia pertinente ao tema.
2 - A mudança do uso das/nas ruas e as novas relações/funções estabelecidas
As transformações ocorridas na cidade são notáveis, mas não andamos
diariamente pelas ruas refletindo sobre como estão se dando as modificações no espaço
111
no decorrer do tempo. E é quando paramos para analisar mais detalhadamente que
percebemos a mudança nos usos e as novas relações estabelecidas.
A acumulação de tempos se manifesta por meio da forma, espaço e história, que
estão intrinsecamente ligados. É “uma linguagem da História que reflete diferentes
momentos da evolução da sociedade” (FERREIRA, 2002, p. 80).
No mesmo sentido, Matta (1997) observa que o tempo e o espaço constroem e,
ao mesmo tempo, são construídos pela sociedade. Deixando claro que não há sistema
social que não vislumbre uma noção de tempo e de espaço.
O recuo no tempo nos faz perceber que em cada época, em cada momento
histórico, a relação lugar/sujeito se redefine. Assim, a dimensão histórica é importante
para o entendimento da natureza da cidade – no caso em questão, de Dourados. Essa
natureza não é algo definitivo, não está pronto e acabado, “pois as formas que a cidade
assume ganham dinamismo ao longo do processo histórico. A cidade tem uma história.”
(CARLOS, 2009, p. 57). E em cada etapa do processo histórico, a cidade assume
formas, características e funções diferenciadas.
A formação do núcleo urbano de Dourados data do ano de 1909, quando houve a
disputa pela posse de uma mesma gleba de terra, entre dois fazendeiros: Marcelino Pires
e Joaquim Teixeira Alves. Mas, apenas em 1915, é que é efetivado o início do povoado,
com construção das primeiras casas do aglomerado, por Januário Pereira de Araujo, no
local onde hoje é o cruzamento da Avenida Marcelino Pires com a Rua João Rosa Góes.
No processo de pesquisa, um dos entrevistados27 apontou que, quando a cidade
era menor, o comércio e a casa eram no mesmo local, onde trabalhava a família – o
marido, a esposa e os filhos. Assim, apesar do núcleo da cidade ser caracteristicamente
pequeno, existia um comércio, que, muitas vezes, se confundia com as casas. A família
morava e trabalhava no mesmo local: “[...] era o comércio na frente de casa, e só o
marido, a mulher e os filhos que trabalhavam nele. Tinha farmácia, bar, mercearia.
Quando eu me mudei pra cidade, vim trabalhar nessa casa comercial que tinha na
esquina ali.”28
27
Trecho da entrevista realizada em março/2012 com Garibaldi Mattos, 88 anos, morador da área central
de Dourados.
28
Trecho de entrevista realizada em março/2012 com Garibaldi Mattos. A esquina que o mesmo se refere
é o cruzamento da Avenida Marcelino Pires com a Rua Firmino Vieira de Mattos, área central da cidade.
112
Havia poucos carros, as ruas não eram asfaltadas, o meio de locomoção mais
utilizado era o cavalo e a carroça. Havia uma familiaridade das pessoas com o lugar,
com a vizinhança, com o cotidiano simples, porém, pitoresco.
De acordo com o entrevistado, as crianças brincavam nas ruas, as pessoas
sentavam-se em frente suas casas comerciais, conheciam-se, conversavam. Havia
relações de vizinhança e o lazer era comumente ir até o Clube Social de Dourados ou
participar de alguma festividade da igreja. As pessoas animavam-se com o desfile do
feriado de sete de setembro e com a chegada de algum circo ou teatro itinerante.
Nas palavras de outra entrevistada, fica claro que Dourados tinha uma vida
social bastante pacata, mas as pessoas viviam-na, esperavam-na: “Era uma festa cada
vez que tinha desfile de sete de setembro. A meninada esperava o ano todo pra colocar
uma fardinha e ir desfilar. Meus meninos adoravam, e olha que nessa época nem tinha
asfalto na Avenida Marcelino Pires”.29
As entrevistas realizadas revelaram duas formas de observar/sentir o lugar. A
princípio todos achavam interessante o fato de estarem sendo construídas as edificações
que abrigariam serviços que até então não tinham, ou a chegada do asfalto que
possibilitaria uma locomoção mais acessível. Porém, há o fato de que com essas
modificações na área, eram alteradas também as relações de vizinhança, de convívio, de
tranquilidade até então correlacionadas ao lugar.
Essas modificações na área central, para além da construção de novos prédios e
alterações na vizinhança, se deram também com relação aos meios de locomoção. Os
meios de transporte, conforme aponta Carlos (2007), passam a ditar o ritmo,
impossibilitando antigos usos.
Assim foi se dando a mudança do uso das/nas ruas da área central da cidade de
Dourados. De um momento em que havia apenas charretes e algum veículo e as pessoas
moravam e usavam a rua para o lazer, passamos para um momento em que as ruas são
tomadas pelos carros e pelo anseio da agilidade, da rapidez e da eficiência. Nas vezes
que saímos a campo, muitas pessoas que abordávamos diziam que não poderiam nos dar
atenção, pela falta de tempo ou porque estavam com pressa.
A área central da cidade era, também, o local das residências, do comércio, do
campo de futebol, das festividades, dos eventos religiosos, enfim, toda a vida política,
29
Trecho de entrevista realizada em abril/2012 com Maria de Fátima, moradora da área central de
Dourados/MS.
113
social e cultural da cidade se concentrava ali. Este cenário permanece na cidade até
meados dos anos 1960 e início dos anos 1970, quando o poder público local passa a ter
importante papel no processo de produção do espaço urbano.
Para Calixto (2004):
A década de 1970 marcou o delineamento da passagem de uma cidade em
que praticamente todos os habitantes se conheciam, compartilhavam
momentos e ocasiões comuns, seja colocando as cadeiras nas calçadas para
‘bater papo’, seja participando de atividades comemorativas ou festas
tradicionais (festa da padroeira, festa junina), para uma cidade marcada pela
diferenciação socioespacial, pelo distanciamento e pelas relações indiretas,
uma vez que as novas formas de apropriação e consumo do espaço urbano
(re)definem conceitos, valores, modos de vida, trazendo reflexos não apenas
no modo de morar, mas também de agir, pensar, reivindicar, enfim, no modo
de pensar o espaço. (p. 21)
A década de 1970 pode ser considerada o marco que delimita o antes e o depois.
A cidade passa por transformações, as quais vão modificar significativamente as ruas da
área central, bem como seus usos. É no decorrer dos anos 1970 que o centro urbano de
Dourados passa a ser definido como o lócus do comércio, dos serviços – não
exclusivamente – porém intensificando-se, de forma gradativa.
Para Santos (1988), importante se faz analisar a estrutura espaço-temporal nos
estudos urbanos, uma vez que o espaço
[...] resulta da ação de fatores externos e de fatores internos. Uma nova
estrada, a chegada de novos capitais ou a imposição de novas regras (preço,
moeda, impostos, etc.), levam mudanças espaciais do mesmo modo que a
evolução “normal” das próprias estruturas, isto é, sua evolução interna,
conduz igualmente a uma evolução. (p. 16)
Essa paisagem dinâmica que percebemos na cidade existe a partir de uma lógica,
também ideológica. Para Ferreira (2002), as formas reproduzem as contradições, os
conflitos de interesses entre grupos sociais, resultando um processo de mudanças.
No mesmo sentido, Calixto (2004) aponta que a análise não deve restringir-se ao
aspecto econômico, uma vez que a realidade também está vinculada a uma experiência
simbólica, tornando-se necessária “uma discussão acerca do papel desempenhado pela
ideologia na determinação dos processos socioespaciais” (p. 161).
Ferreira (2002) aponta que é por meio do estudo das relações socioespaciais no
tempo, que se fornecem meios para entender o processo de urbanização. Para ele, a rua
revela
114
[...] um modo de viver, de pensar e de sentir das pessoas, produzindo ideias,
valores, costumes, conhecimentos, tem sua imagem impregnada de memórias
e significações que se materializam na paisagem urbana e reproduzem
diversos momentos do processo de produção espacial. (2002, p. 81)
Chiavari e Carvalho apud Ferreira (2002) destacam ainda que:
O presente e passado convivem, criando nas contínuas e diversas
aproximações e justaposições, uma nova linguagem, extremamente
articulada. Ao percorrer uma cidade [e suas ruas] se tem a percepção visual
do fluir do tempo. O olhar reconhece nas coisas, nas imagens, nas
construções, nas ordens e nas medidas do espaço, a sua função. Todas as
cidades tem seu código, uma vez conhecido um, em qualquer outro espaço
urbano o forasteiro encontrará fragmentos de sua história. (p. 81- 82)
Além das transformações oriundas das iniciativas do poder público, dos fatores
econômicos e políticos, é necessário analisar a subjetividade nos estudos urbanos. Daí a
importância da reflexão acerca do espaço não como um mero local ou área, mas como
lugar, em que as pessoas se identificam e sintam que fazem parte dele.
As ruas da área central da cidade concentram uma gama de atividades
comerciais, de serviços, como também de circulação de pessoas. Conforme aponta
Ferreira (2002), esta área é a que concentra maior importância, bem como é “o foco de
maior atração” (p. 82). A importância da área central se dá, principalmente, pelo fato de
abarcar vários tipos de funções e usos, conforme já expresso: comércios, serviços,
residências, etc. Consequência dessas funções é a atração das pessoas, que se dirigem ao
centro por diversos motivos, seja para o consumo, seja para a utilização de serviços (de
saúde, bancários, dentre outros), seja apenas a passagem (pessoas se deslocando para o
local de trabalho ou para as escolas, etc.).
O centro comercial é considerado o motor da vida cotidiana e apresenta-se como
a principal área da cidade, no que concerne à aglomeração de atividades comerciais,
serviços, finanças, transportes, fluxo de pessoas e de informações, como também é o
ambiente onde os “atores da cidade encontram-se para consumir suas necessidades”.
(FERREIRA, 2002, p. 83)
Nas ruas do centro, os símbolos da modernidade, do progresso, estão mais
presentes. Onde os objetos são urbanisticamente mais harmoniosos, porém estão
fadados a uma rotina diária de pouco caso, haja vista que as pessoas quase não
percebem esses lugares. Foi possível constatar isso em algumas ocasiões em que saímos
a campo. As pessoas nas ruas, quando questionadas sobre como visualizam a rua e as
transformações ocorridas, respondiam que isso era algo que nunca haviam pensado.
115
Podemos pensar também outros aspectos da cidade, como, por exemplo, o
movimento constante de pessoas, o fluxo dos carros, configurando o ritmo da vida. Essa
dinâmica não é só produto da história como também reproduz a história, a concepção
que o homem tem e teve do morar, do habitar, do trabalhar, do comer e do beber, enfim,
do viver. (CARLOS, 2009, p. 38)
A cidade vai se transformando à medida que a sociedade como um todo se
modifica. Para Carlos (2001), cada lugar se autoconstrói ao longo da história,
coexistindo, nos lugares, vários “tempos”. Para ela, passado e presente se entrecruzam
em determinados momentos, revelando as possibilidades e os limites do uso do espaço
pelo habitante.
O uso revela a relação espaço/tempo a partir da maneira como o habitante vive a
cidade, bem como da percepção que tem dos lugares da constituição da vida. As
transformações na paisagem urbana ocorrem pela necessidade da reprodução do espaço
como condição e produto da reprodução ampliada da sociedade.
Diferentes tempos e diferentes formas coexistem dentro da cidade, assim como
também se inter-relacionam. Os diversos planos da realidade articulam-se produzindo o
lugar a partir da vida cotidiana e dos modos de apropriação, uso e ocupação de
determinados locais, em determinados momentos.
Conforme já sinalizado, as mudanças ocorridas nas ruas da área central da
cidade de Dourados alteraram de forma significativa o conteúdo e o ordenamento
espacial da cidade, apontando um novo padrão urbano.
São diversas as mudanças que atualmente sinalizam a tendência de alteração
do padrão de urbanização local. Inicialmente verifica-se uma profunda
transformação em um dos principais pilares de sustentação do anterior
modelo de urbanização douradense, fortemente alicerçado e financiado por
um conjunto de poderosas agências estatais. Com o avanço do processo de
reestruturação econômica e a simultânea crise do Estado desenvolvimentista
desintegraram-se as principais instituições estatais responsáveis pela provisão
dos mais fundamentais serviços e equipamentos urbanos que, bem ou mal,
sustentaram, até o final da década de 80, o processo de acelerado crescimento
do espaço urbano de Dourados. (SILVA, 2000, p. 187)
A cidade de Dourados nos anos 1950 e 1960 possuía um ritmo e forma
totalmente diferente do que passa a viver nos anos 1970. Essas mudanças vão se
intensificando nos anos 1980, transformando consideravelmente os usos nas e das ruas.
A partir dos anos de 1990 emerge um novo padrão de produção socioespacial em
Dourados, destacando-se o papel dos agentes privados na produção do espaço urbano.
As mudanças desencadeadas pelo processo de agroindustrialização determinam, dentre
116
outros, o surgimento de atividades tais como serviços veterinários, mecânicos, jurídicos,
financeiros. De acordo com Santos (1996):
As cidades locais tendem a mudar de conteúdo. Antes, eram as cidades dos
notáveis, hoje se transformam em cidades econômicas. A cidade dos
notáveis, onde as personalidades notáveis eram o padre, o tabelião, a
professora primária, o juiz, o promotor, o telegrafista, cede lugar à cidade
econômica, onde são imprescindíveis o agrônomo (que antes vivia nas
capitais), o veterinário, o bancário, o piloto agrícola, o especialista em
adubos, o responsável pelos comércios especializados. (p. 51)
O momento era marcado pela necessidade de tornar a cidade atrativa para novos
investidores. Conforme destaca Silva (2000), “o poder público volta-se para criar
dispositivos e incentivos que atraiam empreendimentos e promovam a dinamização da
economia da cidade”. (p. 189)
Introduzem-se novos hábitos e novas práticas, ditadas pela ordem da sociedade
do consumo, da agilidade, da dinamização dos fluxos, da “modernização” dos lugares,
da busca incessante pelo novo. Passamos a identificar novas formas urbanas. Surgem
novas características e tendências e, junto com elas, surgiram também, novas
centralidades. Percebemos facilmente a concentração de comércio e/ou serviços em
determinados pontos do centro urbano de Dourados, com.
Dialogando com Cordeiro e Sposito (1980 e 1991), determinadas áreas podem
ser consideradas como um desdobramento da área central. Para Sposito (1991) as áreas
de desdobramento do centro principal
[...] caracterizam-se pela localização de atividades tipicamente centrais mas
de forma especializada. Ou seja, nelas não se reproduz a alocação de todas as
atividades tradicionalmente centrais, mas selecionadamente de algumas
destas. Daí, a caracterização do processo como de desdobramento da
centralidade (ao invés de reprodução da localização das atividades centrais
em menor escala, como o que se observa nos subcentros), como se o centro
se multiplicasse, desdobrando-se especializadamente em outros eixos da
estrutura urbana. (1991, p. 11)
As áreas de desdobramento, além de se caracterizarem por apresentar uma
especialização funcional, também se distinguem por exprimir uma diferenciação social,
isto é, são locais que concentram atividades comerciais e de serviços, destinadas a uma
clientela exclusiva. Ou seja, essas áreas apresentam uma centralidade estratificada
socioeconomicamente.
Em Dourados, entre final dos anos 1990 e até os dias atuais, alguns segmentos
comerciais migraram para determinadas áreas, fazendo com que ocorra uma redefinição
dos usos das ruas da área central. Áreas que possuíam a característica residencial,
117
passam a contar com comércios e serviços especializados. Em um dos levantamentos de
campo, conversamos com uma senhora que ainda reside no local, entre dois
consultórios médicos e a mesma nos informou que quando mudou-se para lá:
[...] não havia outra coisa que não fosse casa. Tinha a Dona Fátima aqui (lado
direito) e o Senhor Olívio ali (lado esquerdo), mas eles foram ficando
estressados com tanto barulho e movimento, os filhos decidiram vender a
casa e irem morar em outro canto. Eu ainda estou aqui porque não consegui
vender, mas se conseguir quero ir pra algum lugar mais sossegado. Um dia
essa rua já foi meu lugar, não é mais. 30
Percebemos que a entrevistada demonstra certo estranhamento com o lugar que
um dia considerou como seu. Hoje ela pensa em viver longe dali, pois o lugar tornou-se
o “não lugar” para ela. Ainda de acordo com o depoimento, a rua foi ficando cada vez
mais movimentada, impossível de se ter uma noite tranquila de sono ou mesmo
estacionar o carro em frente de casa. Os vizinhos hoje em dia costumam ser as clínicas
ou laboratórios médicos. Já não há mais o convívio que antes existia.
Entramos aqui na questão da centralidade criada. Na área acima destacada,
percebemos claramente essa dinâmica. O processo de redefinição tende a “expulsar”
residências, transformando-as em comércios e/ou serviços. É o que ocorre nessa área, e
em outras do centro da cidade. Como o processo não é homogêneo, ainda há pessoas
que moram nessas áreas, até mesmo porque morar próximo ao centro constitui uma
opção interessante. Conforme um entrevistado: “Morar no centro é muito bom, eu tenho
um mercado logo ali, uma lotérica pertinho, bancos, tudo, não preciso ir longe e nem
usar carro pra fazer as coisas. Até hospital tenho perto.”31
Em Dourados também podemos observar três processos paralelos, conforme
apontado por Sposito (1991), nas áreas próximas e ao redor do centro urbano. Um deles
seria as construções que antes eram utilizadas para fins residenciais de padrão médio
e/ou alto que passam a ser ocupadas por comércio e serviços, “num claro processo de
expansão da área central” (p. 9). Outro processo seria de parte dessas construções –
residenciais – menores ou mais antigas estarem sendo demolidas para construção de
novos empreendimentos. E por último, também ocorre o processo de “expansão das
atividades comerciais voltadas para um público de menor poder aquisitivo, através da
30
Trecho da entrevista realizada em julho/2011 com Maria de Nazaré, 74 anos, moradora da área central
de Dourados.
31
Trecho da entrevista realizada em março/2012 com Garibaldi Mattos, 88 anos,aposentado, morador da
área central de Dourados.
118
localização de lojas de pequenas redes, renovando rapidamente o padrão ocupacional”.
(p. 9)
Ainda para a autora:
Até meados da década de 70, as cidades brasileiras até um determinado porte
tinham praticamente um centro único e monopolizador, com forte
concentração de atividades comerciais e de serviços. O crescimento
populacional destas cidades levava estas áreas centrais a um processo de
expansão, através da absorção de áreas/setores limítrofes ao centro, através
do afastamento de sua população residencial e a transformação de seu uso de
solo em novas edificações adequadas ao comércio e/ou serviços. (SPOSITO,
1991, p. 09)
Esses eixos, de desdobramento da área central, nas áreas de uso residencial de
padrão elevado, são destinados para uma certa clientela. Dessa forma é construída uma
imagem de área de comércio seleto e elitizado.
Percebemos, assim, a emergência de múltiplas formas de localização das
atividades, produzindo uma centralidade socioespacialmente segregada. Além da
redefinição das atividades no interior da cidade, percebemos outras dinâmicas
ocorrendo, como é o caso, por exemplo, da necessidade de fluidez no trânsito, que torna
cada vez mais imprescindível a expansão e/ou modificação das ruas e do modo de uso
das mesmas.
A cidade passa a se redefinir a partir do uso do carro. Estacionamentos são
criados em terrenos no centro da cidade, as ruas passam a ter nova dinâmica, novos
fluxos, o barulho aumenta, a qualidade de vida diminui.
Vale observar que, o significativo número de estacionamentos existentes, reforça
a prevalência do uso da rua pelos carros em detrimento do transporte público e coletivo.
Um dos entrevistados32 diz que o centro da cidade de Dourados já foi, um dia,
um lugar calmo e pacato e que hoje é praticamente impossível ter uma noite de sono
sossegada às sextas-feiras e aos sábados – dias da semana com maior concentração de
pessoas no centro, a procura de lazer e diversão. Para ele, ainda, o que mais atrapalha é
o fato de que a rua é só o lugar do carro: “não tem nem como ficar na frente de casa, é
só carro”.
Nesse sentido, o centro urbano de Dourados passou e passa constantemente por
transformações no que tange à forma e uso da rua a partir dos carros.
32
Trecho da entrevista realizada em março/2012 com Garibaldi Mattos, 88 anos,aposentado, morador da
área central de Dourados.
119
Recentemente as ruas da área central tiveram sua configuração modificada,
implantando-se novas faixas de rodagem - antes eram apenas duas maiores – o que
possibilitava uma melhor circulação de pedestres e ciclistas – e agora são três.
Conforme aponta Carlos (2007, p. 51):
A mudança nas relações espaço-tempo revela a profunda mudança nos
costumes e hábitos sem que as pessoas pareçam se dar conta, pois as
inovações são aceitas de modo gradual, quase desapercebidas, embrulhadas
pela ideologia que efetiva a degradação da vida cotidiana. A cidade onde
tudo se transforma, onde os estilos se multiplicam passa a ser o lugar em que
as pessoas “se arranjam para viver ou quem sabe sobreviver” criando
constantemente, “formas de ganhar dinheiro”.
As ruas do centro da cidade são muitas vezes percebidas como o verdadeiro
caos. Muitas pessoas evitam ir ao centro em “horários de pico33”.
Dependendo da hora do dia, ou do dia da semana, a observação de um
determinado lugar vai mostrar um determinado momento do cotidiano da
vida das pessoas que aí moram, trabalham, se locomovem. É o tempo da
vida. Nas horas de pico, quando as pessoas saem de suas casas em direção
aos pontos de ônibus para irem trabalhar, as ruas da cidade fervilham, os
ônibus trafegam em maior número, os carros congestionam as vias públicas,
e os caminhões entregam mercadorias, às vezes produzidas a grandes
distâncias dos lugares de entrega. Um pouco mais tarde é o horário dos
estudantes que fazem o percurso casa-escola. (CARLOS, 2009, p. 39)
Em consonância com o que descreve Carlos (2007), constatamos que muitas
pessoas não percebem as mudanças ocorridas nas ruas. Muitas delas, só passam a
realmente olhar para a rua, e vislumbrar as transformações, quando são indagadas sobre
isso.
Podemos dizer, de acordo com pesquisas já realizadas, que as alterações nas ruas
de Dourados são resultado de um novo dinamismo introduzido pelo processo de
agroindustrialização, como também de novas estratégias adotadas pelos agentes do setor
de comércio e serviços.
Para Silva (2000), há uma convergência de interesses entre o setor imobiliário e
outros agentes comprometidos com a expansão da cidade e a “valorização” do solo
urbano. Essa teia de interesses forma uma rede de relações que promovem a redefinição
sociespacial.
Característica importante de ser salientada nessa relação é o frequente
envolvimento do poder público. Gottdiener (1993) destaca que a identidade de
33
Alguns entrevistados mencionaram “horários de pico” como sendo um momento do dia em
que o movimento é mais intenso, sobretudo no trânsito.
120
interesses em prol do crescimento, que une os diversos agentes envolvidos nos negócios
imobiliários, materializa uma rede que atravessa indistintamente a esfera privada e
pública, irmanando-se em uma unidade de propósitos.
Para Silva (2000):
Essa unidade de propósitos entre os agentes estatais e os promotores urbanos,
em Dourados, leva os representantes do poder público local a se engajarem
na viabilização dos empreendimentos, oferecendo facilidades ou eliminando
óbices que eventualmente se interponham no caminho do crescimento e da
expansão dos negócios urbanos.” (p. 209)
A concentração de determinados tipos de atividades imprimem diferentes formas
de uso das/nas ruas da área central de Dourados. Mas precisamos estabelecer outros
fatos que ocorrem na área central de Dourados, e que é como coexistem os novos usos
com as persistências dos/nos lugares. No próximo item destacaremos as permanências
que encontramos no decorrer da pesquisa, e como se dão nas/das ruas da área central.
3 – Os novos usos das/nas ruas e as persistências/permanências
Em cada momento histórico, a cidade assume expressão e sentido diferentes,
mas devemos sempre ter em mente que ela mesma é acumulação de tempos. Esses
tempos – passado e presente – entram constantemente em conflito: ideias, formas,
métodos de se pensar a cidade, de vivê-la. Carlos (2007) salienta que esses conflitos
tendem a destruir os referenciais urbanos, e que essa destruição é produto da rapidez
com que a morfologia se transforma, redefinindo a prática socioespacial.
Como já dissemos anteriormente a cidade, as ruas recriam suas formas a partir
do uso do carro, da velocidade exigida por ele (exigida pelo modo de produção). Isso
fica claro na fala da engenheira agrônoma, gestora de projetos urbanos da Secretaria de
Serviços Urbanos da Prefeitura Municipal de Dourados, quando indagada sobre as
alterações das/nas ruas da área central: “o trânsito precisa fluir”34
Conforme aponta Carlos
A cidade produzida como negócio, aparece através do modelo da cidade do
automóvel priorizando o espaço vazio da circulação onde o primado do
transporte individual se impõe com força, revelando as possibilidades da
construção da ‘cidade enquanto vias expressas’, símbolo da modernidade.
Nesse contexto, o espaço público se transforma – esvaziando-se de sentido
porque limita e coage os modos de apropriação –, o uso das ruas, por
exemplo, modifica-se profundamente e elimina os pontos de encontro e, com
34
Trecho da entrevista realizada em abril/2012 com a engenheira agrônoma, gestora de projetos urbanos
da Secretaria de Serviços Urbanos da Prefeitura Municipal de Dourados.
121
isso, rompe as possibilidades do próprio encontro, enquanto a expulsão de
parte dos moradores e a mudança de funções das construções (residências
que se transformam em pequenos negócios de prestação de serviços, ou
mesmo estacionamentos) rompem com as antigas relações de vizinhança,
propiciando a perda da sociabilidade. O esvaziamento do sentido e das
possibilidades de apropriação dos espaços públicos assinala a construção dos
espaços semi-públicos em substituição à rua. (2007, p. 66)
As modificações na área central se estendem também a lugares mais
simbólicos, como é o caso da praça. Vale registrar que em meados dos anos 1970, a
praça central da cidade - Praça Antonio João - foi totalmente remodelada, perdendo os
referenciais que outrora serviram de identificação a muitos moradores.
A Engenheira da Prefeitura Municipal35 ressaltou que o projeto de remodelagem
foi feito por um arquiteto de fora, que não tinha convívio e nem muito conhecimento
sobre a cidade. O projeto fez com que a praça fosse totalmente alterada, perdendo os
referencias que antes tinha. De acordo com a mesma, a praça deixou de ser o grande
atrativo como costumava ser.
Abaixo, a partir de imagens, percebemos as transformações ocorridas na praça
central da cidade (Praça Antonio João). Na Foto 1, em meados dos anos 1940, vemos a
praça central cercada por um muro, as ruas ainda sem pavimentação asfáltica e poucos
prédios ao redor. Na Foto 2, da década de 1950, visualizamos algumas charretes paradas
no ponto principal que localizava-se na Praça Antonio João.
Foto 1 – Praça Antônio João – 1940
Foto 2 – Praça Antônio João – 1970
Praça Antônio João - década de 1940. MOREIRA(1990). Praça Antônio João - década de 1970. Autor desconhecido.
Outro entrevistado relata acerca da praça central que:
A praça sempre foi ali onde é hoje, desde eu criança eu lembro da praça ali, e
a igreja (Catedral Imaculada Conceição) também. Mas naquela época, era só
um campinho de futebol, ninguém usava ela pra lazer. A praça era fechada de
arame. Naquela época era só mato, cheio de cupim. A gurizada jogava bola
35
Trecho de entrevista realizada com a Engenheira Agrônoma da Prefeitura Municipal de Dourados.
122
ali. [...] Tinha carro, mas pouco. A maioria andava a cavalo, ou carroça.
Depois também teve charrete. Tinha até ponto de charreteiro, lembro de um
que ficava na praça. Eu trabalhei de charreteiro uma época. Mas aí foi
acabando tudo. O carro foi chegando, foi acabando. Antes era ruim, era chão.
Eu cheguei um tempo a trabalhar assim, com carro, jipe, transportando as
pessoas.36
No depoimento a seguir podemos perceber outros usos da/na praça central da
cidade: “Costumava ir à praça aos domingos, tinha uma fonte e a gente ficava lá.
Naquele tempo existia a paquera, o pipoqueiro e as quermesses”.37
Nas imagens abaixo, ainda da Praça Antonio João, podemos perceber as
mudanças em sua configuração. Em meados de 1970 ainda existia a fonte, uma grande
quantidade de bancos e calçadas onde as pessoas circulavam. Já em meados dos anos
1980, a praça foi totalmente remodelada, dando lugar a novos equipamentos: uma fonte
diferente, maior número de árvores e menos bancos. A praça também passou a ter uma
área para eventos maiores e iluminação com “super-postes”38.
Foto 3 – Praça Antônio João – 1980
Foto 4 – Praça Antônio João - 2012
Praça Antônio João, década de 1980.39
Praça Antônio João – 2012.40
36
Trecho da entrevista realizada em março/2012 com Garibaldi Mattos, 88 anos,aposentado, morador da
área central de Dourados.
37
Trecho de entrevista realizada em janeiro/2012 com Rosana Chencarek, 48 anos, professora da rede
estadual de ensino, natural de Dourados-MS.
38
Postes que que apresentam diâmetro acima dos postes normais
39
Foto retirada do Anuário da Prefeitura Municipal de Dourados de 1985.
40
Foto da Praça Antônio João. Disponível em: http://www.dourados.ms.gov.br.
123
A própria redução no número de bancos para sentar pode ser um indicativo da
mudança de uso da praça. Na Foto 4 apresentamos a praça após a reforma
As novas relações tendem a imprimir sentidos diferentes daqueles que até então
estavam estabelecidos, bem como podem causar estranhamento nas pessoas que vivem e
fazem dessas áreas, os seus lugares.
Nas falas de alguns entrevistados, percebemos que sentiam falta de algo que não
mais se vive, e que se viveu em determinado momento. Alguns demonstraram sentir
saudades de um tempo que ficou apenas na memória. “Dourados cresceu, não é mesmo?
Eu nem sei mais quem são meus vizinhos, e olha que já tive muitos e eram amigos.
Meus filhos brincaram nessa rua, minhas meninas desfilaram o 7 de setembro na
Avenida Marcelino Pires quando ainda era de chão. Acabou tudo isso. Mas é a vida41.”
Conforme aponta Carlos
O tempo irradiado pela técnica vira velocidade, enquanto o espaço se
transmuta em distância a ser suprimida. Nesta condição, espaço e tempo,
tornados abstratos, se esvaziam de sentido produzindo uma nova identidade
cidadão-cidade pontuada pela constituição de uma identidade abstrata como
decorrência da perda dos referenciais, do empobrecimento das relações
sociais e como imposição do desenvolvimento do mundo da mercadoria
definida pelos parâmetros (atuais) da reprodução do capital. (2007, p. 64)
Em conjunto com a velocidade e dinamicidade, essas novas formas racionais e
técnicas penetram no cotidiano, limitando não só nosso poder de escolher, como
também de pensar. Carlos (2007, p. 64) ainda aponta que “a sucessão de acontecimentos
parece envolver a vida cotidiana em um turbilhão de sensações desconexas.”
As relações entre o habitante e o lugar na cidade passam a ser estranhas, como se
a vida fosse determinada por um elemento além da vontade humana, que segue sem
questionamentos. Os sujeitos passam a ser meros consumidores, os lugares passam a ter
a paisagem ditada pela modernidade, o que caracteriza o progresso, as novas formas:
outdoors, neon, bilhos e cores. O espaço passa a ser homogêneo ao mesmo tempo que é
fragmentado e hierarquizado, que produz os novos lugares da cidade com o
estabelecimento de uma nova divisão socioespacial do trabalho.
Essas transformações geram novas formas que redefinem o fluxo nas e das ruas,
que vão gerando não apenas centralidades diferenciadas em função do comércio,
serviços e lazer, mas também mudanças nas relações de vizinhança.
41
Trecho de entrevista realizada em abril/2012 com Luiza Moreira, 70 anos, aposentada, moradora da
área central de Dourados-MS.
124
Isto posto percebemos que o esvaziamento transforma o local em que se
desenvolve a vida de relações em mera passagem. O cotidiano passa a ser normatizado
com a simples instalação de um novo semáforo. As transformações, com toda a sua
complexidade, tendem a imprimir a segregação, fragmentando e homogeneizando. Para
Carlos (2007, p. 68) este é um novo momento
[...] de realização da produção, em que a indústria muda de sentido, à medida
em que os processos que envolvem sua reprodução se transformam
deslocando-se no espaço e cedendo lugar para novas atividades agora
voltadas para o desenvolvimento de novos setores da economia exigindo uma
nova relação entre o econômico e o político, principalmente no que se refere
aos modos de planejar o espaço enquanto condição da reprodução destes
novos setores econômicos.
Apesar de todas essas transformações ditadas pela nova ordem da modernidade,
da velocidade, da dinâmica fluente, existe aquilo que podemos chamar de permanências
e/ou resistências. Isso existe, até mesmo porque as relações não se reduzem à lógica
restrita da reprodução da força de trabalho, “a sociedade não se resume a esta função,
mas ao plano do espaço urbano enquanto totalidade.” (CARLOS, 2007, p. 68)
As relações sociais ditam a produção espacial. Alguns estabelecimentos
comerciais que persistem ainda na área central de Dourados demonstram que a
produção espacial não se reduz à tendência da constituição da cidade como valor de
troca, mas a cidade como obra realizada pelo homem. Carlos (2007) observa que este é
o plano do cotidiano, isto é, uma construção social.
Algumas falas de entrevistados, expressam uma relação de identidade com o
lugar: “Amo Dourados, é aqui meu lugar. Não me vejo morando em nenhum outro
lugar. Minha vida é aqui: família, trabalho, amigos”42.
Assim, há uma lógica coercitiva, mas também da liberdade, haja vista que os
lugares têm formas delineadas pelas relações sociais, pelas possibilidades e limites à
apropriação. A análise não pode se restringir ao plano econômico, que não explica tudo.
Conforme salienta Carlos (2007), o processo de mundialização que vivemos
atualmente não apaga o local, mas sim reafirma-o, pois ele se realiza “no lugar onde a
tendência de constituição de um espaço homogêneo entra em contradição com o espaço
fragmentado”. (p. 69)
42
Trecho de entrevista realizada em janeiro/2012 com Rosana Chencarek, 48 anos, professora da rede
estadual de ensino, natural de Dourados-MS.
125
Ainda para a autora, as diferentes e muitas formas de comunicação entre espaços e
pessoas tendem a produzir novas relações, estas que por sua vez podem entrar em
conflito com antigas relações, e é nessa contradição que o espaço é produzido.
Apesar da tendência ser aquela da “modernização” dos lugares, ainda podemos
perceber que há os que persistem, como as mercearias nas ruas da área central de
Dourados, ou ainda as residências que permanecem.
É notório que vivenciamos um momento de aceleração do tempo, com mudanças
rápidas e sentidas/reveladas na morfologia da cidade, modificando também a vida,
através da imposição de novos padrões e formas, colocados por um novo modo de
apropriação do espaço urbano. “A perda dos referenciais urbanos decorrentes do
processo de renovação como imagem do progresso, transforma a cidade em um
instantâneo e torna a sociabilidade cada vez mais efêmera” (CARLOS, 2007, p. 70).
Necessário se faz justapor a relação espaço-tempo, buscando dessa forma, as
suas devidas articulações. Só dessa maneira será possível perceber e pensar a cidade,
verdadeiramente, com sentido.
Percebemos as permanências e resistências, apesar de todas as mudanças no uso
das e nas ruas da área central de Dourados. Seja o malabarista no semáforo ou o
vendedor de ervas medicinais, com seu carrinho, na praça central. Também podemos
perceber as permanências a partir das imagens a seguir.
Na Foto 5, vemos dois momentos das/nas ruas da área central de Dourados.
Momentos diferentes, porém, situações idênticas: o Desfile de 7 de Setembro. Na foto
de meados de 1950, o desfile acontece na rua ainda sem pavimentação asfáltica e, já em
2011, a rua encontra-se asfaltada. O evento é o mesmo, só muda as configurações da
rua.
Foto 5 – Desfile de 7 de Setembro
Desfile de 7 de Setembro na Rua João Cândido da Câmara em meados de 1950. Fotos: 1) Anuário da Prefeitura
Municipal de Dourados, 1985 e 2) disponível em http://www.msja.com.br (2011)
126
Outros estabelecimentos comerciais persistiram nas ruas da área central. Alguns
prédios ainda possuem a mesma configuração de quando foram construídos, inclusive
algumas casas de madeira, apesar do seu uso não ser mais o mesmo. Isso revela que o
novo e o velho, o moderno e o antigo, convivem. Há também algumas residências que
resistem às novas formas de uso da rua.
Os lugares das/nas ruas da cidade se criam e recriam, se renovam e se modificam
a cada movimento social. Mas também não podemos reduzir todas as transformações
das/nas ruas a um mero querer do dominante processo de globalização capitalista.
Conforme aponta Queiroga (2003), “as ações humanas não são movidas apenas pela
razão instrumental”. (p. 137)
Conforme já elucidamos, o plano do econômico não explica toda a realidade, as
relações não podem ser reduzidas aos rápidos e dominantes processos da globalização.
4 – Considerações finais
Foi possível perceber e compreender, a partir da pesquisa, que as novas lógicas
impõem modificações das/nas ruas da área central da cidade, fazendo com que as
pessoas deixem de ter os costumes antigos, como caminhar a pé, ou utilizar as bicicletas
como um meio de transporte, e passem a vivenciar dificuldades até mesmo para se
locomoverem. As ruas agora são (re)configuradas para o uso dos veículos particulares.
As calçadas transformam-se em verdadeiros depósitos de mesas, cadeiras e gôndolas de
restaurantes, lanchonetes e lojas de variados segmentos, tornando assim, a passagem do
pedestre mais difícil.
Novas tendências, novos usos e novas formas de apropriação dos lugares, são
dinâmicas atuais e que nos dirigem a viver de acordo com o que está imposto: rapidez,
agilidade, fluidez, praticidade, etc.
Necessário salientar, porém que apesar de vivermos hoje em lugares vulneráveis
à influência de um mundo mais amplo, ainda existe a resistência oferecida por cada um
desses lugares. Essas resistências que permitem a diferenciação do lugar. Ainda existem
os pipoqueiros, os carrinhos de cachorro quente, os vendedores ambulantes de
mercadorias diversas nas ruas da área central da cidade. Coexistem, perante essa nova
dinâmica das cidades, as atividades consideradas de outros tempos, como, por exemplo,
as mercearias, os sapateiros, os engraxates. Poucos, mas ainda resistem à nova lógica
global.
127
Assim, a rua é usada e transformada a todo instante, seja por determinações de
ordens distantes, como também por formas de uso que fogem a essa lógica.
Por considerar que o plano do econômico não explica tudo, além de analisar as
ruas como concentração de população, de produção, de atividades e serviços e de
mercadorias, precisamos também analisá-las a partir do cotidiano, que é o centro do
acontecer e do fazer. É no dia a dia, com os fazeres e viveres que a resistência à lógica
imposta é exercida, fugindo, assim, do processo homogeneizador dos lugares.
A pesquisa nos proporcionou, principalmente, e para contemplar o que
pretendeu-se elucidar neste texto, perceber que há várias dinâmicas impostas aos
lugares. A rua, por ser o lugar do encontro, do comércio, da reivindicação, da festa, da
passagem, do trabalho, dentre outros, está suscetível às transformações, pois elas advêm
com o passar do tempo. Mas pode também estar implícita a persistência no simples ato
do pipoqueiro alocar seu carrinho na praça central. Ou seja, existem resquícios de
atividades que hoje são consideradas antigas, mas que persistem no tempo/lugar.
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129
PADRÕES DE LOCALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES COMERCIAIS
E DE SERVIÇOS DE CONSUMO PRODUTIVO EM CIDADES
MÉDIAS: O CASO DE MARÍLIA
Elines Sodré Gomes43
Resumo
Os ramos de atividades comerciais e de serviços são relevantes para a
compreensão das relações entre consumo e a reestruturação das cidades. Por isso, a
reestruturação das cidades médias tem, como uma de suas múltiplas determinações,
vários elementos que redefinem suas morfologias. Com o propósito de debater as
escolhas locacionais das empresas responsáveis pelo consumo produtivo, este trabalho
analisa as dinâmicas locacionais adotadas no âmbito da rede urbana, e verifica como se
dão as escolhas na escala da cidade.
Palavras-chave: comércio; serviços; cidades médias.
1. Introdução
Os ramos de atividades de comércio e de serviços tornam-se relevantes para a
compreensão das novas relações entre consumo, reestruturação urbana e da cidade. Este
estudo poderá ser profícuo à apreensão da articulação entre escalas e das relações entre
diferentes atividades do consumo produtivo ― dos setores industrial e de agronegócio
―, num período em que a ampliação das relações capitalistas atinge o âmbito
supranacional, a partir da ação das empresas transnacionais.
Este trabalho busca apresentar os resultados preliminares da pesquisa de
iniciação científica44. E tem por objetivo analisar as escolhas locacionais das empresas
que operam nos ramos dos serviços e comércio voltados para o consumo produtivo no
que se refere à rede urbana, avaliar essas escolhas na escala da cidade, que neste caso a
cidade analisada é Marília, e verificar as estratégias dos agentes econômicos.
43
Faculdade de Ciência e Tecnologia – UNESP, campus Presidente Prudente. Grupo de
Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais – GAsPERR. Orientador:
Cleverson A. Reolon
44
Intitulada “Padrões de localização das atividades comerciais e de serviços nas cidades
médias brasileiras: Marília e Londrina”. Vinculado ao Projeto Temático: Lógicas
econômicas e práticas espaciais contemporâneas: cidades médias e consumo.
130
Para alcançar tais objetivos, delimitou-se os procedimentos metodológicos, em
que os dados sobre as atividades de consumo produtivo foram extraídos da Relação
Anual de Informações Sociais (RAIS), nos sites Receita Federal, Jucesp e Empresas do
Brasil seguindo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0). Neste
artigo, buscamos primeiro situar a cidade estudada, em um segundo momento expor a
metodologia utilizada, e apresentar os resultados preliminares da pesquisa.
2. Marília: consumo produtivo no comércio e serviços
Marília está localizada na região Centro-Oeste do estado de São Paulo, a
49º56’46’’ de longitude oeste e 23º13’10’’ de latitude sul. Possui uma área total de
1.194 km², sendo 42 km² de área urbana e 1.152 km² de área rural. É cortada pelas
rodovias estaduais Dona Leonor Mendes de Barros (SP 333) e Comandante João
Ribeiro de Barros (SP 294) e da rodovia federal Transbrasiliana (BR 153), e encontra-se
a cerca de 440 quilômetros da capital paulista – Figura 1 (MARÍLIA, 2014).
131
Figura 3: Marília. Localização geográfica.
Base Cartográfica: IBGE, 2010. Elaboração: Elines S. Gomes
Sede da 11º Região Administrativa do Estado de São Paulo (R.A), Marília
possui uma população urbana de 216. 745 habitantes, e exerce influência direta sobre
municípios circunvizinhos. A R.A. é composta por 51 municípios, ocupando uma área
de 18.458 km², que corresponde a 7,4% do território paulista (IBGE, 2010; SÃO
PAULO, 2013).
132
Com a implantação da 11º R.A, Marília reforça seu papel como centro regional,
e torna-se uma cidade prestadora de serviços, pois a criação da R.A. atraiu diversos
escritórios da administração pública e privada para a cidade.
Para contextualização de seu papel como centro regional, Marília é classificada,
segundo os estudos das Regiões de Influência das Cidades - REGIC (IBGE, 2008),
como Capital Regional C, na categoria regional. A classificação C tem por base o porte
demográfico e a intensidade de relacionamento com outros municípios,
“integram este nível 70 centros que, como as metrópoles,
também se relacionam com o estrato superior da rede urbana.
Com capacidade de gestão no nível imediatamente inferior ao
das metrópoles, têm área de influência de âmbito regional, sendo
referidas como destino, para um conjunto de atividades, por
grande número de municípios” (IBGE, 2008, p. 11).
Desse modo, Marília comanda um conjunto de 43 cidades da região, de acordo
com a REGIC: um Centro Sub-Regional B (Assis), dois Centros de Zona A
(Adamantina e Tupã) e três Centros de Zona B (Garça, Lucélia e Paraguaçu Paulista) e
37 Centros Locais, juntos, abrange uma população de mais 300 mil habitantes.
Portanto, como Capital Regional C, Marília situa-se em uma posição
intermediária, quanto à rede urbana brasileira e encontra-se sob a região de influência da
metrópole paulista.
A caracterização de Marília demonstra um dos principais condicionantes para a
definição de cidade média. Segundo Castello Branco (2006), a cidade para ser
denominada cidade média, precisa contar com características funcionais e elo entre
centros locais e os centros globais. Beltrão Sposito (2009, p. 19) destaca que, cidades
médias
“são aquelas que desempenham o papel de intermediação entre
as pequenas e as grandes [...], que polarizam uma região, [...]
que a partir de uma série de mecanismos econômicos, são
capazes de crescer e propor projeto ou desempenhar um papel
político, econômico e social para toda a região”.
Com tais características, as cidades médias constituem além do tamanho,
número de habitantes, elas também, desempenham vários e diferentes papéis na divisão
territorial do trabalho.
Para a compreensão da relação consumo produtivo e a reestruturação urbana e
da cidade é essencial compreendermos a dinâmica locacional das atividades econômicas
na escala da rede urbana e na escala da cidade.
133
Segundo Sandroni (1999, p. 126), consumo produtivo refere-se ao “consumo de
produtos que retornam ao processo de produção - sob a forma de insumos ou bens
intermediários (matérias-primas elaboradas) - para serem transformados em novos
produtos”.
Desse modo, o consumo produtivo cria uma demanda diversa de acordo com os
subespaços. O arranjo das cidades em que se instala o capital monopolista é modificado
para a implantação de empresas transnacionais, que impõe dentro e fora da cidade
mudanças estruturais, com utilização de recursos maciços tanto do setor privado quanto
do setor público (SANTOS, 2009).
Portanto, configuram-se novas formas de localização das atividades mais
representativas dos agentes econômicos, tais como, grandes empresas associadas ao
agronegócio, incorporadoras imobiliárias, empresas de consultoria, etc. obedecendo à
especificidade no interior das cidades médias.
Essas novas localizações das atividades econômicas criam novas relações no
espaço urbano ― tais relações caracterizam-se pela circulação de pessoas, carga e
descarga de mercadorias, fluxo de capital ― tornando-o mais articulado ao retê-las de
maneira que interagem entre si.
3. Dos procedimentos metodológicos
Como base para os procedimentos metodológicos da pesquisa, utilizou-se
Reolon (2012). O autor trata, detalhadamente, dos procedimentos de coletas e
tratamentos dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), bem como da
análise desses dados.
A plataforma de dados da RAIS é de grande relevância em termos de aquisição
de dados e informações das atividades econômicas formais do país, o que inclui as
atividades industriais e de agronegócio. Possui 97%, de cobertura do mercado de
trabalho formal do país. Seu nível de detalhamento de cobertura em 2007 constava com
5.625 municípios, 673 classes de atividades econômicas e 2.422 ocupações (BRASIL,
2007).
Vários autores trabalharam com essa metodologia, como Saboia (2001), Ferreira
e Ramos (2005), Reolon (2012), entre outros. De acordo com esses autores, podemos
elencar algumas vantagens ao utilizar a base de dados da RAIS, relacionadas: ao nível
de cobertura, visto que abrange todos os municípios do país; ao nível de detalhamento
134
das atividades econômicas; ao nível de agregação espacial dos dados; aos tipos de
informações disponíveis. Portanto, esses aspectos permitem uma série de recortes para
fins analíticos.
Dentre as variáveis disponíveis na RAIS, para análise, utilizou-se a quantidade
de estabelecimentos, e de empregos de cada município existente ao ano da coleta. De
acordo com o tema enfocado – consumo produtivo -, no âmbito do recorte empírico
foram selecionadas algumas atividades dos setores de comércio e serviços, voltados
para o consumo produtivo, nomeadamente.
As atividades de manutenção, reparação e instalação industrial e as atividades de
apoio à agricultura, o comércio está associado ao de insumos agropecuários e de
máquinas e equipamentos para uso industrial. Esses dados foram extraídos segundo a
Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0) e organizados em
grupos de atividades comerciais e de serviços, observando se estavam ligados ao
consumo produtivo voltado à indústria ou ao setor de agronegócio (Quadro 1).
135
Quadro 1: Atividades de comércio e serviços de consumo produtivo associado ao
agronegócio e indústria propostos, classificados conforme a CNAE 2.0
GRUPO
SETOR
SEÇÃO
CNAE
DIVISÃO
CNAE
GRUPO
CNAE
CLASSE
CNAE
G
C
O
M
É
R
C
I
O
COMÉRCIO; REPARAÇÃO DE VEÍCULOS AUTOMOTORES E MOTOCICLETAS
COMÉRCIO POR ATACADO, EXCETO VEÍCULOS AUTOMOTORES E
MOTOCICLETAS
G
46
G
46
G
46
G
46
46.2
46.2
46.2
G
46
46.2
G
46
46.6
G
46
46.6
G
46
46.7
G
46
46.7
G
46
46.9
G
46
G
46
46.6
G
46
46.6
46.83-4
G
46
46.6
46.63-0
G
46
46.8
46.85-1
Comércio atacadista de matérias-primas agrícolas e animais vivos
46.21-4 Comércio atacadista de café em grão
46.22-2 Comércio atacadista de soja
Comércio atacadista de animais vivos, alimentos para animais e
46.23-1
matérias-primas agrícolas, exceto café e soja
Agronegócio
46.61-3
46.71-1
46.92-3
A
S
E
R
V
I
Ç
O
S
Comércio atacadista de madeira, ferragens, ferramentas, material
elétrico e material de construção
Comércio atacadista de madeira e produtos derivados
Comércio atacadista não-especializado
Comércio atacadista de mercadorias em geral, com predominância de
insumos agropecuários
Comércio atacadista de defensivos agrícolas, adubos, fertilizantes e
corretivos do solo
Comércio atacadista de máquinas e equipamentos para uso industrial;
partes e peças
Comércio atacadista de produtos siderúrgicos e metalúrgicos, exceto para
construção
AGRICULTURA, PECUÁRIA, PRODUÇÃO FLORESTLA, PESCA E
AQUICULTURA
AGRICULTURA, PECUÁRIA E ATIVIDADES RELACIONADAS
A
01
A
01
01.6
A
01
01.6
0161-0
Atividades de apoio à agricultura
A
01
01.6
0162-8
Atividades de apoio à pecuária
A
01
01.6
0163-6
Atividades de pós-colheita
A
02
02.3
A
02
02.3
Atividades de apoio à agricultura e à pecuaria; atividades pós-colheita
Atividades de apoio à produção florestal
0230-6
C
Indústria
Comércio atacadista de máquinas, aparelhos e equipamentos, exceto de
tecnologia de informação e comunicação
Comércio atacadista de máquinas, aparelhos e equipamentos para uso
agropecuário; partes e peças
Comércio atacadista especializado em outros produtos
Indústria
Agronegócio
DENOMINAÇÃO
Atividades de apoio à produção florestal
INDÚSTRIA DA TRANSFORMAÇÃO
MANUTENÇÃO, REPARAÇÃO E INSTALAÇÃO DE MÁQUINAS E
EQUIPAMENTOS
C
33
C
33
33.1
C
33
33.1
33.11-2
C
33
33.1
33.12-1
Manutenção e reparação de tanques, reservatório metálicos e caldeiras,
exceto para veículos
Manutenção e reparação de equipamentos eletrônicos e ópticos
C
33
33.1
33.13-9
Manutenção e reparação de máquinas e equipamentos elétricos
C
33
33.1
33.14-7
Manutenção e reparação de máquinas e equipamentos da indústria
mecânica
Manutenção, reparação de máquinas e equipamentos
Fonte: CNAE (2010). Organização: Elines S. Gomes
A partir desse agrupamento, realizou-se um levantamento de informações
intraurbanas das principais empresas voltadas ao consumo produtivo, igualmente
distinguindo-as aquelas associadas ao setor industrial e daquelas do setor do
agronegócio.
O levantamento das informações das principais empresas das cidades
investigadas partiu da coleta dos dados disponíveis no site Empresas do Brasil, Receita
Federal e Jucesp.
A partir da coleta desses dados organizou-se um banco de dados com as
seguintes informações: Grupo de atividades, Setor, Razão Social, Nome Fantasia,
CNPJ, Natureza Jurídica, Matriz/Filial, Início das Atividades, Atividade econômica
136
principal, Atividade econômica secundária, Endereço 1, Complemento. Como nesses
sites possuíam dois tipos de atividades a principal e a secundária optou-se pelo
segmento das atividades econômica principal.
A partir desses procedimentos elaborou-se representações cartográficas dos
dados na escala da rede urbana e na escala da cidade.
4. Resultados iniciais
Esta seção tem por objetivo analisar a dinâmica locacional das atividades do
consumo produtivo associado aos setores do agronegócio e industrial a partir dos dados
coletados na RAIS de 2007 e 2012, na escala da rede urbana e a busca de informações
sobre as empresas nos sites Receita Federal, Jucesp e Empresas do Brasil para a análise
na escala da cidade.
Segundo Melazzo (2012) a dinâmica da urbanização brasileira provoca diversas
configurações no território, de tal maneira que redefine os sistemas e redes urbanas,
reforçando as interações e aglomerações espaciais.
Sposito (2007, p. 221) salienta que no Brasil, nos últimos vinte anos, e de modo
mais específico o estado de São Paulo,
houve uma clara expansão territorial e a multiplicação das redes de
estabelecimentos comerciais e de serviços. Se, em muitos casos, as
empresas que atuavam mais no território das metrópoles e capitais das
unidades da federação, em um momento seguinte elas se deslocaram
para as cidades de porte médio, num desdobramento lento e gradual,
por causa do papel dessas cidades, direcionadas para mercados
consumidores regionais crescentes e consistentes.
Diante dessa constatação, observa-se na Figura 1, que a situação dos
estabelecimentos comerciais de agronegócio em Marília em 2007 apresenta 0,92% de
participação no estado, enquanto que Ribeirão Preto e São José do Rio Preto apresentam
2,10% e 1,97% respectivamente. Outras cidades se destacam, como Franca (2,23%),
Itapeva (1,79%), Campinas (2,32%), Santo Antônio de Posse (2,45%), Holambra
(1,97%) e Santos (1,49%).
137
Figura 1 - Estado de São Paulo. Participação percentual e variação da participação
estadual dos estabelecimentos do consumo produtivo no agronegócio. 2007-2012
Fonte: RAIS (2007; 2012); Base Cartográfica: IBGE (2010). Elaboração: Elines S. Gomes
Em 2012, Santo Antônio de Posse aumentou sua participação sobre o estado,
ficando com 2,90%. Outra cidade que cresceu foi Franca com 2,56%; à medida que
Marília perdeu participação ficando com 0,58%, na mesma proporção Campinas
(2,23%), Itapeva (2,01%), Ribeirão Preto (2,02%), São José do Rio Preto (2,02%),
Holambra (1,54%) e Santos (1,46%). Mesmo com diminuição relativa, houve
importantes aumentos proporcionais dos estabelecimentos de São José do Rio Preto
(0,04 pontos percentuais), Presidente Prudente (0,18), Itapeva (0,22), Santo Antônio de
Posse (0,44), Sertãozinho (0,24), Franca (0,33), Barretos (0,24), São Carlos (0,12), ao
passo que Marília apresenta-se negativo (-0,35 pontos percentuais) e as cidades
circunvizinhas Garça (0,09) e Oscar Bressane (0,04) aumentaram a participação.
Observa-se que há certo aumento de variação de participação das atividades de
consumo produtivo no agronegócio em várias cidades localizadas próximas as que mais
se sobressaíram, esse movimento comprova que as cidades médias participam da
reestruturação urbana associada à redefinição da divisão interurbana do trabalho [...], e
138
as tendências de desconcentração da atividade de produção, vinculada aos grandes
capitais. (SPOSITO, 2012)
Quanto aos estabelecimentos de consumo produtivo voltados para a indústria
(Figura 2), nota-se que não há uma distribuição das atividades como se observa nas
atividades do agronegócio.
Os estabelecimentos do comércio de consumo produtivo industrial de Marília,
em 2007 se encontram com 0,05% de participação relativamente ao estado, enquanto
Ribeirão Preto com 1,71%, Sertãozinho 1,59%, São José do Rio Preto com 0,91%,
Franca com 1,14% e São José dos Campos 1,39%. Destacam-se com maior participação
relativa, Piracicaba (3,07%), Campinas (4,27%), Sorocaba (2,79%), São Bernardo do
Campo (3,30%), Santo André (2,39%) e Guarulhos (3,61%).
Figura 2 - Estado de São Paulo. Participação percentual e variação da participação
estadual dos estabelecimentos do consumo produtivo industrial. 2007-2012
Fonte: RAIS (2007; 2012); Base Cartográfica: IBGE (2010). Elaboração: Elines S. Gomes
Alguns municípios que se destacaram em 2007, mantiveram ou aumentaram o
índice de participação em 2012, como Ribeirão Preto, Franca e Marília, outros
aumentaram significativamente a participação como Limeira (1,30%), Santa Bárbara
139
d’Oeste (1,30%), Americana (1,80%). Nota-se que a variação da participação relativa
dos estabelecimentos de Marília, obteve um aumento de 0,16 pontos percentuais,
enquanto que Ribeirão Preto com 0,68 pontos percentuais, Piracicaba (0,54), Limeira
(0,67), Indaiatuba (0,44) e Sorocaba (0,68).
Observa-se, portanto, uma (re)distribuição das atividades do comércio de
consumo produtivo industrial e do agronegócio em direção ao interior do estado, que se
encontram próximo a região metropolitana de São Paulo. Conforme Reolon (2012, p.
73) “existem processos atuando sobre a redistribuição das atividades produtivas” de
maneira que se evidencia uma desconcentração industrial e a formação de “novos
espaços industriais” (GOMES, 2011, p. 66).
No que se refere à escala da cidade, a distribuição espacial das atividades do
consumo produtivo associado ao setor industrial e de agronegócio em Marília, podemos
observar na Figura 3 a localização intraurbana no período de 2007 a 2012, proposto para
a análise.
Figura 3 – Marília. Localização intraurbana das atividades de consumo produtivo
do comércio associado aos setores industrial e de agronegócio. 2007-2012
Zandonadi (2008, p. 43) destaca que a localização das atividades econômicas em
Marília possui algumas particularidades, a saber,
140
“[...] o eixo criado pela ferrovia e as avenidas que faziam a
interligação da cidade com municípios vizinhos, foi
determinante na localização da primeira zona industrial da
cidade, visualizada já na década de 1940. Essa localização era
procurada, pois, além das facilidades de transporte ferroviário e
rodoviário, por serem entrada e saída da cidade, também havia a
possibilidade de instalação das unidades industriais em terrenos
com topografia plana”.
Como podemos observar na Figura 3, os estabelecimentos instalados até 2006,
encontram-se nas proximidades da ferrovia que corta a cidade de Marília no sentido
Norte ao Sul. As unidades de comércio e de serviços implantadas a partir de 2007 até
2012 mantiveram o padrão de localização das atividades, porém expandindo em direção
as Rodovias Dona Leonor Mendes de Barros (SP 333) e Comandante João Ribeiro de
Barros (SP 294). Contudo a empresas instaladas a partir de 2013 encontram-se mais
dispersas no espaço urbano, seguindo as vias principais de acesso do entroncamento
rodoviário.
Tais características de localização demonstram que existe um “conjunto bem
definido de vias de transportes que delimitadas por núcleos urbanos industriais (vários
deles com fortes características de serviços e comércio), facilita a circulação de
mercadorias e pessoas” (SPOSITO, 2007, p. 220).
Configura-se, portanto, novas formas de localização das atividades mais
representativas do consumo produtivo.
Sposito (2007, p. 220) salienta que a expansão espacial das atividades
econômicas é orientada por um
“conjunto de vias de transporte que outorga fatores básicos para a
localização industrial e levam a uma densidade de infraestrutura,
capitais, pessoal especializado e fluxos de informações e de mercadorias
que consolidam as decisões de localização”.
Conforme o excerto acima, na Figura 4, a distribuição dos estabelecimentos de
consumo produtivo industrial e do agronegócio agrupam-se nas vias principais da
cidade, como as avenidas Sampaio Vidal, República, Castro Alves, Sanches Cibantos e
as ruas de fácil acesso às principais rodovias que cortam a cidade - Transbrasiliana (BR
153), que faz ligação com Ourinhos e o estado do Paraná, e SP 294 que faz ligação com
Pompéia e Tupã.
Sposito (2012, p. 07) destaca que
“as especificidades das cidades médias que alteram seus papéis,
respondem a novas demandas, reorganizam seus espaços, vêem
modificadas as formas de vida de sua população, a partir de
141
vetores de comando e de escolhas locacionais que são efetuadas
por empresas, cuja escala de atuação não são regionais, mas sim
nacionais e internacionais”.
Novos nichos de mercado, novos produtos, inovação tecnológica, substituição da
força de trabalho por máquinas. Todas essas mudanças possibilitou o aumento de
produção das empresas. Consequentemente, foram criadas novas formas de
necessidades na vida dos consumidores. Essa configuração nova exigiu das empresas,
“uma reestruturação na configuração dos estabelecimentos onde ocorre a produção”, o
que pode ser detectadas nas empresas e nas cidades (SPOSITO, 2012).
As localizações dos estabelecimentos comerciais e de serviços que se
concentram nas vias principais, é possível verificar certo padrão de localização,
destacando a importância dessas atividades para o setor industrial e de agronegócio na
produção de centralidades intraurbana, que rebatem na dinâmica da cidade.
Figura 4 - Marília. Localização intraurbana das atividades de consumo produtivo
dos serviços e comércio associado aos setores industrial e de agronegócio. 20072012
Deste modo, Elias (2003, p. 191), adverte que “o consumo produtivo do campo
tem o poder de adaptar as cidades próximas as suas principais demandas, convertendoas em laboratório da produção”. O comércio, e os serviços tende a se especializar para
142
“suprir as necessidades de cada produto agrícola e agroindustrial, que demandam
quantidades e qualidades precisas de insumos materiais e intelectuais em cada etapa do
processo produtivo”.
Por fim, tanto as cidades globais quanto as cidades médias, passam a se articular
por meio de interações espaciais em escalas internacionais, constituindo suporte e
condição para a realização dos interesses dos agentes econômicos.
De acordo com as ações dos agentes econômicos, ocorrem alterações dos papéis
urbanos desempenhados pelas cidades, ou eles intensificam os que elas já
desempenhavam.
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236 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Faculdade de Ciência e
Tecnologia/UNESP.
144
LAZER, SERVIÇOS E CIDADE MÉDIA
Elizângela Justino de Oliveira45
Resumo
O crescimento das atividades de lazer e turismo, vem promovendo a transformação dos
espaços urbanos. O litoral de Parnamirim-RN vem passando por modificações como: a
expansão das segundas residências e consequentemente aumento dos usuários de
segunda residência, dos turistas, e o crescimento de comércios e serviços nesta área para
atender a referida demanda. O presente trabalho tem por objetivo analisar a expansão e
dinâmica dos comércios e serviços decorrente do lazer no litoral de Parnamirim-RN. A
metodologia do estudo desenvolvido consiste no levantamento de dados secundários em
instituições públicas, levantamento e georreferenciamento de estabelecimentos
comerciais e de serviços públicos e privados, realização de entrevistas com
comerciantes e prestadores de serviços. Os resultados apontam para o crescimento dos
comércios e serviços concomitantemente com o desenvolvimento das atividades de
lazer no referido litoral e que sua dinâmica possui caráter sazonal46.
Palavras - chave: Lazer, Serviços, Parnamirim/RN
45
Licenciada em Geografia, mestre em Turismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Doutoranda em Geografia no Programa de Pós Graduação em Geografia da Universidade Federal da
Paraíba. Membro do Grupo de Pesquisa Interdisciplinar Turismo e Sociedade.
46
O presente artigo é um recorte da dissertação de mestrado da autora, defendida em 2013. Onde tratou-se
da urbanização a partir das atividades de lazer, e a dinâmica do setor de serviços no litoral do município
em questão.
145
1. Introdução
O município de Parnamirim está localizado ao Sul da capital do Rio Grande
do Norte, Natal. Devido a proximidade com a capital, Parnamirm tem se constituído
espaço de reprodução das atividades comerciais e de serviços situados na capital.
Embora a dinâmica dos comércios e serviços sejam semelhante em alguns
aspectos a da capital, no litoral de Parnamirim estes possuem uma especificidade: a
sazonalidade das atividades comerciais e de prestação de serviço, por estarem situados
em área litorânea e de lazer. Assim a nossa proposta é analisar a expansão e dinâmica
dos comércios e serviços decorrente do lazer no litoral de Parnamirim-RN.
A realização da pesquisa contou com os seguintes procedimentos
metodológicos: levantamento de dados em órgãos e instituições governamentais (IBGE,
SETUR/RN,
Prefeitura
Municipal);
levantamento
e
georreferenciamento
dos
estabelecimentos comerciais e de serviços; mapeamento dos estabelecimentos; registros
fotográficos; realização de entrevistas com empresários do segmento comercial e de
serviço, conforme detalhado na Tabela 1:
Tabela 1 - Amostra da Pesquisa
Município
Pesquisado
Parnamirim
Total de Estabelecimentos Comerciais e de Serviços
Amostra
221
61
Fonte: Pesquisa de Campo, 2012.
.
Esse levantamento permitiu à análise da distribuição espacial dos referidos
tipos de comércios e serviços, como também de suas características gerais e
especificidades. A contagem dos tipos encontrados foi realizada considerando-se como
recorte espacial os Setores Censitários do IBGE referentes ao litoral do mencionado
município.
Em seguida, foram realizadas entrevistas junto ao segmento comercial e de
prestação de serviços. Para tanto, procedeu-se ao cálculo da amostragem, considerando
como população total os tipos de comércio e de serviço (público e privado)
contabilizados na área-objeto do estudo. Foi feita uma divisão da população total dos
tipos de comércios e serviços contabilizados em três, correspondente a cada uma das
146
praias do município de Parnamirim, a saber: Pirangi do Norte, Cotovelo e Pium,
conforme resumo da Tabela 2:
Tabela 2. Distribuição dos Estratos por Praia
Praias de
Parnamirim
Pirangi do Norte
Estratos
Cotovelo
Estrato 2
08
03
Pium
Estrato 3
93
27
221
61
Estrato 1
População de comércios e
de serviços por praia
120
-
Total
Amostra
31
Fonte: Relatório do Plano Amostral, 2012
O Plano Amostral utilizado foi o da Amostragem Aleatória Estratificada
com Alocação Proporcional, que se caracteriza por dividir a população em partes mais
homogêneas do que o é a população em geral, das quais foi retirada uma amostra
aleatória simples dos serviços (públicos e privados), buscando-se alocar o tamanho da
amostra de maneira proporcional ao tamanho de cada estrato.
Para o desenvolvimento do estudo, considerou-se como recorte espacial a faixa
litorânea do município de Parnamirim-RN (ver Mapa 1), demarcada pelos Setores
Censitários.
147
Mapa 1- Localização da área de estudo
Fonte: IBGE
Org. Mariana Torres
O recorte espacial da pesquisa justifica-se pelo fato do município se localizar
próximo à principal destinação turística potiguar – Natal – e de contar com atrativos de
grande visitação turística, como também pelo fato de se verificar, em sua faixa litorânea,
grande concentração de Domicílios de Uso Ocasional (DUO)47, ou seja, imóveis
destinados a segundas residências para a prática do lazer não só dos potiguares, mas
também de usuários procedentes de outras localidades do país e do exterior. Além de se
tratar de uma cidade média que necessita de estudos mais aprofundados. A contribuição
do presente artigo é apresentar a dinâmica de comércios e serviços no litoral da referida
cidade, decorrente do lazer e turismo, uma das atividades econômicas mais importantes
para a sua economia.
2. Lazer, serviços e cidade média
47Segundo
classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os Domicílios de Uso
Ocasional (DUO) são utilizados temporariamente, não se constituindo a residência principal de seus
usuários.
148
As cidades médias nas últimas décadas tem se constituído em espaços de
mudanças estruturais. Isto influenciada pela mudança do sistema econômico fordista
para a acumulação flexível, que permitiu a fragmentação do processo produtivo,
reorientando e ampliando as novas áreas de investimentos de capitais, onde a cidade
média tem se tornado um importante nó na rede urbana na escala regional, nacional e
internacional.
Estas cidades tem sido alvo de investimentos das mais diversas naturezas.
Uma vez que essas cidades têm se tornado “polos secundários de desenvolvimento
regional através de apoio as atividades produtivas e dos investimentos em infraestrutura
e equipamento social” (PONTES, 2006).
Outro fator também relevante nesse processo, é que com o processo de
desindustrialização das áreas de indústrias tradicionais, há o “surgimento ou a
revitalização de áreas de escasso desenvolvimento industrial” (PONTES, 2006), como é
o caso do Nordeste. A partir da década de 1980, esta região brasileira tem atraído
investimentos para o seu desenvolvimento, a partir de novas atividades econômicas,
entre eles o turismo (DANTAS, PEREIRA, PANIZZA, 2010).
Assim, a expansão das atividades de lazer e o crescimento do turismo
aparecem neste contexto de mudança do sistema econômico e nessa nova política de
valorização do nordeste brasileiro e de inserção dessa região na lógica capitalista. Nesse
contexto, se insere Parnamirim que foi alvo das políticas públicas em seu litoral para o
desenvolvimento da atividade turística no estado do Rio Grande do Norte. Entre as
modificações ocorridas podemos citar umas das mais importantes no componente
transporte: a construção da RN063. Essa via permitiu ligar Natal (capital do Estado) ao
litoral sul potiguar encurtando as distâncias e facilitando o acesso as praias desse litoral,
que até a primeira metade da década de 1980 era composta de argila. No componente
infraestrutura pode-se destacar os investimentos no saneamento básico (água e esgoto),
na ampliação e modernização do Aeroporto “Augusto Severo” - que teve sua inicial
área construída de 2.970m2 ampliada para 10.300m2 - o mesmo se dando com a área do
estacionamento, que comportava apenas 130 veículos e passou a ter capacidade para
475 vagas, obras estas oriundas do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Rio
Grande do Norte- PRODETUR I-RN.
149
Junte-se a isto, o fato de Parnamirim ser um dos municípios do RN que mais
recebem turistas, pois em seu litoral encontra-se alguns dos atrativos turísticos mais
importantes do estado, entre eles: o “Maior Cajueiro do Mundo”48, o complexo turístico
“Marina Badauê”, as belas praias e seus arrecifes.
Parnamirim que encontra-se conurbada com a capital do estado Natal, tem
em seu território os desdobramentos do extrapolamento da tessitura urbana de Natal e
das demandas por lazer da população natalense. Além de se constituir espaço de
visitação turística compondo o rol de atrativos do destino turístico Natal, reproduza
tipologia dos comércios e serviços da capital, onde muitas das franquias,
supermercados, redes de escolas particulares que se encontra em Natal estão presente no
município de Parnamirim. Esta lógica também é reproduzida ao longo do litoral, onde
durante a alta estação muitos comércios e serviços se deslocam de Natal para
Parnamirim, interrompendo seu funcionamento na baixa estação.
Mesmo com a proximidade de Parnamirim com Natal, esta primeira exerce
sua função de cidade média, compreendida a partir do entendimento de Pontes:
A cidade média seria um centro urbano com condições de atuar
como suporte as atividades econômica de sua hinterlândia,
bem como atualmente ela pode manter relações com o mundo
globalizado, constituindo com este uma nova rede geográfica
superposta à que regularmente mantém com suas esferas de
influência (PONTES, 2006, p. 334).
Embora essa proximidade com Natal iniba seu papel de cidade média, mas é
evidente as funções de Parnamirim quanto as particularidade da cidade média, nos
termos de Corrêa (2007) quando refere-se a combinação entre tamanho demográfico,
funções urbanas e organização de seu espaço intra-urbano. Além de uma elite
empreendedora, e das interações espaciais multidirecionais e marcadas por
multiescalaridade.
48
O “Maior Cajueiro do Mundo” é um dos principais atrativos turísticos de Parnamirim, localizado na
Praia de Pirangi do Norte. É assim chamado porque atualmente ele possui uma área de 8.500 m 2,,
decorrente de uma anomalia chamada de “fitoteratológica”, a qual permite que os galhos do cajueiro que
tocam o solo criem raízes secundárias, embora todos sejam dependentes do tronco principal. Toda a sua
área atualmente corresponde a um agregado de 70 cajueiros de porte normal, sendo a profundidade das
raízes de um a dois metros e a do tronco principal de 20 a 25 metros. Estima-se que se houvesse espaço
para seu crescimento, a árvore poderia alcançar 30 a 40.000 m². Disponível em:
<http://www.omaiorcajueirodomundo.com/ocajueiro.html>. Acesso em: 25 fev. 2014
150
Pontes (2006) mostra que entre outros fatores de ordem econômica, social e
política, o turismo tem se constituindo em um dos fatores de transformações das cidades
médias:
No curso dos últimos anos, as cidades médias passaram por
transformações em face a implantação de novos serviços,
sobretudo os logísticos, de informação, de comunicação, de
transportes, de educação e de turismo. Apareceram, então, como
alternativas de moradia, por oferecerem, ainda que em termos
melhores condições e qualidade de vida em relação às áreas
metropolitanas (PONTES, 2006, p. 336).
Assim, a expansão do lazer e desenvolvimento do turismo tem acarretado o
aumento de comércios e serviços para atender a demanda dos usuários de segunda
residência49, como também a população permanente que tem crescido nos últimos anos,
a partir da refuncionalização do território50, conforme podemos verificar na Tabela 3.
Tabela3- Evolução da População Permanente nas Praias de Parnamirim –
2000/2010
Praia
Pium
Cotovelo
Pirangi do Norte
2000
2.238
168
2.413
2010
2.694
788
2.955
%2000-2010
20,37
369,04
22,46
Fonte: IBGE, 2010
Além de atender a uma demanda por lazer do Natalense (cerca de 70,59%51
dos usuários de segunda residência são oriundos de Natal), do potiguar e até de outros
países, a área objeto do estudo tem apresentado o crescimento da população permanente
que busca nesses espaços lazer e não metropolitanos melhor qualidade de vida. Pontes
(2006, p. 336) que as cidades médias aparecem “como alternativa de moradia, por
49
Conforme Tulik (2001, p.4), a Segunda Residência é também chamada de “casa de temporada, de praia,
de campo, chalé, cabana, rancho, sítio, ou chácara de lazer” - termos comumente aplicados a esses
imóveis usados temporariamente, nos períodos de tempo livre.
50
Chama-se de refuncionalização do território a mudança do uso do território: áreas pesqueiras que
assumem a função turística e de lazer ou ainda o fato de algumas áreas destinadas às segundas residências
para a prática do lazer, com o passar do tempo, assumirem a função de residências permanentes, ou seja,
deixam de ser domicílios de uso ocasional para tornar-se domicílio permanente.
51
Dados coletados na pesquisa de campo na ocasião do mestrado em 2012. O questionário foi respondido
por 67 usuários de segunda residência na Praia de Pirangi do Norte, Parnamirim-RN. A amostra foi
calculada considerando o número total de Domicílios de Uso Ocasional em Parnamirim, ou seja, 4.018,
em 2010, conforme evidencia a Tabela 4.
151
oferecerem, ainda que em termos, melhores condições e qualidade de vida em relação às
áreas metropolitanas”. Outro fator que também contribui para o aumento da população
permanente na área supracitada é a disponibilidade de terras ainda desocupadas nessas
áreas e o preço inferior ao da capital.
3. Resultados da pesquisa
Em se tratando da área-objeto do presente estudo, verifica-se que, nas últimas
décadas, ocorreu uma significativa expansão dos serviços e do comércio, para atender à
crescente demanda de usuários de segunda residência e turistas que visitam o litoral de
Parnamirim na alta estação, ou seja, nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, conforme
apontam os estudos realizados por Oliveira (2013). Podemos verificar na Tabela 4, que os
Domicílios de Uso Ocasional tem crescido a cada período censitário, inclusive com taxas de
crescimento percentual para cada período superior a 100% .
Tabela 4 - Crescimento dos Domicílios de Uso Ocasional em Parnamirim 1991/2000/2010
Município
1991
Parnamirim
2000
887
2010
1.823
4.018
%
1991-2000
105,52
%
2000 -2010
120,41
Fonte: IBGE 1991, 2000, 2010
Assim, verificou-se na pesquisa de campo que a maioria dos comerciantes e
prestadores de serviços entrevistados iniciou suas atividades nas duas últimas décadas entre o período de 1993 e 2012 -, conforme apresenta a Tabela 5 abaixo – justamente
quando se verifica a expansão do Turismo e a intensificação do uso de casas de veraneio.
Tabela 5. Período de abertura dos Estabelecimentos Comerciais e de Serviços
Período
Parnamirim
N
%
1972-1982
3
6,12
1983-1992
6
10,20
1993-2002
19
30,61
2003-2012
32
52,04
Não Informado
01
1,02
152
Total
61
100
Fonte: Pesquisa de Campo,2012.
Assim, no período entre 1993 e 2012, foram abertos 82,65% dos
estabelecimentos em funcionamento no litoral de Parnamirim. No trabalho de campo,
foram contabilizados 221 estabelecimentos de comércio e de serviços públicos e privados
na porção de litoral citada (ver Tabela 6), que atendem não só à demanda turística e de
usuário de Segunda Residência, mas também a dos moradores locais.
Tabela 6. Distribuição de Estabelecimentos Comerciais e de Serviços Públicos e
Privados no Município de Parnamirim
Categorias
1.Hotel, pousada, resort
2.Bar, barracas, restaurante, pizzaria, creperia lanchonetes,
sorveterias, sanduicheria e tapiocaria
2.Parque aquático, museu
4.Feira e lojas de artesanato, feira de frutas de Pium, passeio de barco
do Marina Badauê
Parnamirim
11
81
0
5
5.Supermercado, empórios, distribuidora de gás e bebidas, padaria,
quitanda e conveniência
27
6.Estabelecimentos de material de construção, loja de móveis,
madeireira, distribuidor de pedras, loja de pré-moldado, loja de
confecção, floricultura
7.Serralheria, borracharia, oficina, serviços e manutenção de bombas,
geladeiras, antenas, piscinas
28
8.Salão de beleza, academia, lan house, locação andaimes, locação de
motos, loja de pet shop, lavanderia, estabelecimento de segurança
particular, Empresa de Transporte Coletivo, Posto de Combustível
23
9.Farmácias e Laboratório de Análises Clínicas, Consultório
Odontológico
6
10. Unidades de Saúde ou Hospital
11.Posto Policial, Posto Rodoviário e Delegacias
2
3
12. Escolas
13. Igrejas
14. Posto dos Correios
15.SubPrefeitura; serviços de água e esgoto
16. Clube de Dança, Associações, Colônia dos Pescadores, Ginásio de
Esportes
Total do litoral
8
4
2
1
7
13
221
Fonte: Pesquisa de campo, 2012
Pode-se verificar que destaca-se na área analisada os serviços ligados a
restauração, a saber: “Bar, barracas, restaurante, pizzaria, creperia, lanchonetes,
153
sorveterias, sanduicheria e tapiocaria” – representando cerca de 36% do total de
estabelecimentos (ver Tabela 6). Desses serviços, os turistas e usuários de segunda
residência tendem a utilizar aqueles que estão mais próximo do atrativo turístico
visitado ou as praias. Ou seja, no “Maior Cajueiro do Mundo” e em seu entorno (Feira
de Artesanato), nas proximidades do passeio de barco do complexo turístico “Marina
Badauê”.
Nota-se ainda que esses comércios e serviços tendem a concentrar-se em
duas das praias do litoral de Parnamirim: Pirangi do Norte e Pium, formando expressões
de centralidade com dinâmicas distintas.
3.1 A emergência de expressões de centralidade no litoral de Parnamirim
O levantamento e o georreferenciamentos dos comércios e serviços ao longo do
litoral de Parnamirim apresenta a concentração desses estabelecimentos em duas das
três praias que forma a área de estudo, constituindo expressões de centralidade que estão
relacionada à expansão das atividades de lazer (Segundas Residências) e de turismo, e
que levou a um incremento e a uma variabilidade do comércio e dos serviços
oferecidos, para atender tanto à demanda turística, como os restaurantes, os bares, a
feira de artesanato, os parques temáticos, etc, quanto à demanda dos usuários de
Segunda Residência e da população local.
Em função da concentração de estabelecimentos comerciais e de serviços
públicos e privados e da relação turista/morador local/usuário de Segunda Residência,
enquanto consumidores e usuários dos 221 tipos de comércio e serviços ao longo do
litoral do município supracitado (ver Tabela 7), além da intensificação de fluxos de
pessoas ao longo do litoral em determinadas épocas do ano, detectou-se a existência de
duas expressões de centralidade, no município de Parnamirim - nas praias de Pirangi do
Norte e Pium -, apresentando características bem distintas entre elas.
A expressão de centralidade de Pirangi do Norte é detentora de uma
sazonalidade mais fortemente marcada do que a de Pium, por ser o que mais atende à
demanda turística e de usuários de segunda residência, conforme podemos observar na
Tabela7:
154
Tabela 7- Distribuição de Domicílios de Uso Ocasional, por praia, no Município de
Parnamirim - 2010
Praia
Domicílios de Uso Ocasional
1.397
592
62
Pirangi do Norte
Cotovelo
Pium
2.051
Total
Fonte: IBGE, 2010.
O fato da população flutuante de Pirangi do Norte ser superior as demais praias,
essa localidade, é a que mais sofre as consequências da baixa estação, que vê arrefecida
parte de seu dinamismo da alta estação. No entanto, nova dinâmica tem se verificado
nesta praia, nos fins de semana do período da baixa estação, essa área de praia tem se
tornado uma extensão de Natal, para qual os natalenses tem se deslocado a fim de
frequentarem seus restaurantes e bares.
3.1.1 Expressão de centralidade de Pirangi do Norte
Essa área expressa a centralidade de maior relevância para todo o litoral em
termos de diversidade e qualidade dos tipos de comércio e de serviços privados e
públicos. A praia de Pirangi do Norte é bastante conhecida por turistas, sobretudo
porque é nessa praia que está um dos principais atrativos turísticos do Estado: o Maior
Cajueiro do Mundo. A praia também é muito frequentada - no período da alta estação,
nos fins de semana e nos feriados - por usuários de Segunda Residência, concentrando
um grande número dessa modalidade de domicílios.
Segundo pesquisa de campo, entre os tipos de serviços e de comércio
encontrados nessa praia, destaca-se uma variedade considerável de restaurantes, bares,
inclusive alguns deles são franquias encontrados somente em Natal, como a Pizzaria
“Mister Pizza”, a lanchonete Tantico’s, o PittsBurg, o Mr. Empadas e o tradicional
restaurante Paçoca de Pilão.
Foram totalizados nessa praia 120 tipos de comércio e de serviços públicos
e privados, tais como: bares; restaurantes, pizzarias, pousadas, hotéis, supermercados,
sorveterias, lojas de material de construção, lanchonete, clubes de dança, salões de
beleza, academia, farmácias, lan houses e lojas de artesanato. Com relação aos serviços
155
públicos, Pirangi do Norte dispõe de uma unidade mista de saúde, escolas, um posto dos
Correios e delegacia de polícia.
3.1.2 Expressão de centralidade da Praia de Pium
A centralidade expressa nessa área possui dinâmica muito diferenciada da
encontrada em Pirangi do Norte, quanto ao tipo de consumidores e usuários dos
serviços oferecidos. Em Pium, estes são destinados, em sua maioria, para atender à
população local e são caracterizados por sua simplicidade.
Os tipos de serviços e de comércio de Pium são compostos de bares
simples e pequenos, apenas três restaurantes, um posto de combustíveis, empórios,
salões de beleza, lojas de material de construção, borracharia, lojas de confecções, loja
de móveis, academia, farmácia, uma unidade de saúde, três escolas, um posto dos
Correios e um posto da Polícia Rodoviária Federal.
As expressões de centralidades identificadas ao longo do litoral de
Parnamirim se distinguem das centralidades convencionais, pois são expressões que
estão inseridas em áreas litorâneas regidas por forte característica sazonal, logo sua
dinâmica é marcada por essa lógica - na baixa estação, os estabelecimentos de
comércio e de serviços de oferta inteiramente turística migram para Natal, retornando,
mais uma vez, na alta estação, sobretudo as franquias, quando buscam reproduzir, na
zona praieira, as atividades do centro urbano de Natal.
Os espaços que vêm especializando-se no (para o) lazer e no (para o) turismo
são fortemente marcados pela sazonalidade, a qual se constitui em uma das
especificidades da racionalidade econômica e espacial dessas áreas.
Considerações finais
Considerando nossa proposta inicial relacionada a analisar a expansão e
dinâmica do setor de serviços no litoral de Parnamrim decorrente do lazer, o presente
artigo também mostrou a dinâmica de uma das atividades econômicas mais importantes
dessa cidade média, ou seja, o turismo.
O turismo e o lazer tem promovido mudanças no litoral de Parnamirim, a
partir do aumento da população permanente, dos domicílios de Uso Ocasional, do
156
crescimento de turistas, implantação de infraestruturas, expansão dos comércios e
serviços para atender a demanda de usuários de segunda residência e turistas.
Verificou-se que o crescimento dos comércios e serviços em 82,65%
período entre 1993 e 2012 ocorreu concomitantemente com a expansão das segundas
residências e o desenvolvimento do turismo naquela área.
Constatamos ainda que a concentração dos comércios e serviços nas praias
de Pium e Pirangi do Norte, emergindo as expressões de centralidades desempenham
funções voltadas para o lazer, e apresentam algumas especificidades, tais como:

são especializadas no segmento voltado para o lazer – a maioria de seus
estabelecimentos comerciais e de serviços busca atender ao usuário de
Segunda Residência ou a turistas.

são sazonais – o nível de centralidade varia de acordo com os períodos de
alta e baixa estação, assumindo
maior expressividade na primeira
(período que compreende principalmente os meses de dezembro a
fevereiro).
A economia local é caracterizada por uma sazonalidade. No período de alta
estação - nos meses de dezembro a fevereiro, como também no mês de julho -, hotéis e
pousadas recebem expressivo número de hóspedes; restaurantes, bares e casas de shows
funcionam continuamente; e a procura por produtos nos estabelecimentos comerciais se
intensifica, evidenciando uma centralidade significativa, dada a atração que exerce tanto
em investidores, quanto em consumidores e usuários dos serviços oferecidos.
Na baixa estação, a dinâmica é arrefecida: os estabelecimentos comerciais
tendem a eleger dias específicos para funcionar - geralmente nos fins de semana,
quando as praias ganham uma dinâmica maior em comparação com os dias úteis da
semana. Nessa época do ano, restaurantes e bares costumam funcionar para atender,
especialmente, clientes de Natal que se deslocam até o Litoral para apenas consumirem
serviços de restauração, retornando em seguida para essa capital. Esta se constitui uma
das estratégias de “sobrevivência” de alguns bares e restaurantes do Litoral. Muitos
estabelecimentos, inclusive, encerram suas atividades nesse período, na medida que a
fraca demanda não justifica seu funcionamento, sobretudo no caso das franquias de
lanchonetes e pizzarias, que permanecem no Litoral apenas no período da alta estação.
157
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SPÓSITO, Eliseu Savério; BELTRÃO SPÓSITO, Maria Encarnação, SOBARZO,
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TULIK, Olga. Turismo e meios de hospedagem: casas de temporada. São Paulo:
Roca, 2001. 113 p.
159
AS MUDANÇAS NAS CENTRALIDADES DE DIVERSÃO NOTURNA EM
DUAS CIDADES MÉDIAS: CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES NA
ESPACIALIDADE DO LAZER
Élvis Christian Madureira
Ramos
Doutorando pela UNESP-PP52
Bolsista da FAPESP
RESUMO
Busca-se compreender as mudanças nas centralidades de diversão noturna em duas
cidades médias, relacionadas com a oferta de consumo, mudança de seu padrão
locacional e a diversidade de serviços e produtos inerentes a economia do lazer noturno,
também destaca as segmentações socioespaciais relacionadas a práticas territoriais dos
jovens, em paralelo as estas mudanças, por último, tenta detectar as tendências que
parecem se anunciar no âmbito destas práticas e mudanças espaciais.
PALAVRA-CHAVES: Práticas Socioespaciais. Consumo. Lazer Noturno.
Introdução
Trazemos alguns resultados de um estudo, em fase intermediária53, sobre as
práticas espaciais de jovens em relação a diversão noturna. Vamos apresentar as
mudanças nas centralidades de lazer nas cidades de Bauru e Marília, ambas localizadas
no interior do Estado de São Paulo, dando atenção ao conteúdo das áreas centrais
portadoras de centralidade durante a noite, considerando como suas formas foram se
expandindo e constituindo-se em parte da reestruturação socioeconômica destas cidades.
Paralelo a descrição destas alterações, quanto ao caráter da diversão e do consumo na
noite, também buscamos destacar que, no processo destas alterações espaciais do lazer,
houve também mudanças relacionadas a sociabilidade e territorialidade dos jovens em
suas diferentes segmentações socioespaciais.
Para produzir informação para este tipo de estudo, no qual o tempo e o espaço
são articulados de forma indissociável, fizemos entrevistas semiestruturaras com
citadinos que vivenciaram o lazer noturno nestas cidades em sua época de juventude,
procurando cobrir diferentes gerações, pelo menos desde os anos de 1970 (notícias e
reportagens sobre o lazer nos jornais, apesar de esparsos e fragmentários, ajudaram a
suprir alguma lacuna). Porém, deve-se destacar duas outras fontes de informações
importantes, que foram: as interfaces das redes sociais na Internet, como o Facebook e
os canais de vídeos como o You Tube. Essas ferramentas constituem uma verdadeira
rede informativa, inúmeros usuários e grupos que colaboram com informações sobre a
história das cidades, festas, casas noturnas postando livremente uma diversidade de
52
Orientado pelo prof. Dr. Nécio Turra Neto, professor do curso de Pós-Graduação da UNESP-PP
53
Este trabalho é parte da minha pesquisa de doutorado sobre a territorialidade e sociabilidade dos jovens da periferia
pobre em relação ao lazer noturno. Pesquisa que se insere no âmbito do Projeto Temático “Lógicas Econômicas e
Práticas Espaciais Contemporâneas: cidades médias e consumo, conduzido pelo GASPERR.
160
material que vem ajudando a reconstruir as “paisagens de lazer noturno” em diferentes
períodos. Além disso, nas redes sociais pode-se confrontar informações e até completálas com apoio de relatos, comentários e postagens de diferentes citadinos, sobre uma
mesma questão, o que, as vezes, supera a entrevista, já que não temos apenas uma
opinião e/ou relato. Nessa pluralidade de fontes e trabalho netnográfico 54, foi sendo
possível construir essas “paisagens de lazer noturno” a partir dos anos de 1970 até a
atualidade. Porém, este estudo não teve intenção de contar uma história da diversão
noturna, com todas as suas cenas, personagens, fatos e estórias, como um autêntico
trabalho historiográfico. Outrossim, preocupamo-nos, a partir das informações
elaboradas, em elaborar uma noção clara das áreas de diversão noturna nestas cidades e
identificar o que estas áreas expressaram em termos de centralidade, ou seja, seu
conteúdo, sua frequentação, seu movimento, e as sociabilidades que ali podiam ser
identificadas e que pudessem revelar a natureza das práticas socioespaciais, assim como
as alteridades nos hábitos e nas ofertas de consumo.
Para um esclarecimento conceitual, já que tratamos de espaço, e sobretudo
espaço urbano, acreditamos que para este tipo de trabalho, a concepção de espaço de
Massey (2004; 2008) é fundamental, já que no centro de sua definição aparecem as
práticas dos sujeitos/agentes (sociais, econômicos, políticos). Neste quadro teórico, o
espaço vai além de um pano de fundo. As interações e sociabilidades destes grupos
sociais são vistas não apenas no espaço, mas pelo espaço. Ou seja, os sujeitos sociais
são entendidos como atuantes na produção socioespacial, na formação de
territorialidades e na composição da própria “paisagem sociocultural urbana”.
Também no intuito de compreender as mudanças estruturais da cidade,
buscamos pensar o espaço como uma entidade multifacetada, com diferentes papéis
articulados, como de local/contexto, de mediação e de produto das ações dos grupos
sociais ou forças econômicas, que compõe o mosaico societário55 urbano. E não uma
entidade epifenomenal, ou seja, um receptáculo que cristaliza as produções materiais da
sociedade, sem valor como força e meio de produção social. Ao contrário, o espaço é
visto estrategicamente pelos agentes econômicos na sua busca acumulativa de ganhos;
também em meio para que os grupos busquem visibilidade social e como contexto de
mudanças culturais e socioterritoriais na cidade.
Quanto ao consumo, concordamos com Canclini (2006), quando reconhece certa
urgência em reavaliar a ideia de consumo, tomado como realização de gastos por si
mesmos, ou derivado de impulsos irracionais. Segundo o autor, é preciso ir além,
tentando identificar o consumo como uma racionalidade política, econômica e
psicológica, que faz parte da vida social, abrangendo discussões de cidadania e
identidade. Nesse sentido, pensamos o consumo não somente como consequência de
uma lógica capitalista, que articula trabalho e valor de troca, mas uma força
54
Mais que um conceito, “netnografia” diz respeito aos vários procedimento e técnicas relacionadas a etnografia
online ou na internet, tal como define Kozinets (2014).
55
Uso também como referência de entendimento a concepção do espaço multifacetado de Lefebvre (2000),como
exposto e discutido, dentre outros, por Gottdiener (1993) [1985].
161
mercadológica que se lança sobre o cotidiano56, que se impõe de forma massiva e
excludente nos espaços de sociabilidade. O consumo passa a ser uma relação de troca e
um elemento que distingue, separa e segrega57, a partir daqueles que têm ou não, meios
para consumir as ofertas contínuas e incessantes do mercado. Mercado esse que, através
de diferentes forças econômicas, impõe-se na cidade, estabelecendo padrões de
consumo e lógicas espaciais.
A diversão noturna a partir dos anos de 1970
Bauru e Marília são cidades que tiveram sua origem no contexto da expansão
cafeeira no interior paulista, nas primeiras décadas do século XX, processo que foi
acelerado com a chegada das ferrovias. O que eram núcleos de povoamento foram se
tornando cidades importantes, na articulação do comércio e abastecimento com cidades
próximas. No geral, as duas cidades tiveram vários ciclos econômicos, relacionados a
indústrias de beneficiamentos de produtos agrícolas, ainda que fossem ciclos flutuantes
de crescimento e declínio58, não deixaram de expandir seu tecido urbano e concentrar,
ao longo das décadas, funções comerciais e de serviços (públicos e privados), em
relação à rede urbana regional. O comércio, serviços e atividades administrativas foram
se concentrando numa só área de cada cidade, até porque eram áreas que tinham
estruturas técnicas para possibilitar comunicação com outras cidades e espaços, com
uma vida mercantil que tinha se iniciado desde suas primeiras aglomerações de
povoamento.
Estes centros comerciais vão herdando, simultaneamente, as formas do passado
e as novas formas arquitetônicas e superfícies comerciais, estabelecendo diversidade de
serviços e produtos para consumo, substituindo antigas casas comerciais. É para estes
espaços que a vida social da cidade converge e, ao mesmo, diverge, pois, se de um lado,
aí se encontra o core comercial da cidade e sua atratividade econômica numa escala
regional, também é aí que se dão os primeiros movimentos de expansão por novos eixos
comerciais adjacentes. E partir destes processos que os centros comerciais de Bauru e
Marília foram se definindo e se incrementando ao longo das décadas, até chegar nos
anos de 1970, a partir de quando focamos nossa atenção para o aspecto da diversão e
consumo na noite.
Na década de 1970, Bauru e Marília contavam, respectivamente, com
aproximados 130 mil e 98 mil habitantes59. As formas urbanas de ambas as cidades
apresentavam ainda fortes características monocêntrincas, mas com uma inicial
dispersão urbana60. Os centros comerciais de ambas as cidades se destacavam pela
56
Lefebvre (1991) [1968] fala da cotidianidade condicionada por um consumo dirigido: "Nesse sentido, a
cotidianidade seria a principal produto da sociedade dita organizada, ou do consumo dirigido, assim como a sua
moldura, a Modernidade".
57
58
59
Além do seu apelo idealizado no universo das representações sociais, em termos de status social e ostentação.
Melazzo (2010) apresenta estes ciclos econômicos de modo mais detalhado para o caso da cidade de Marília.
Dados da Fundação SEADE. Censos Demográficos de 1940 a 2000
60
Dispersão urbana é um conceito que tem sido também alvo de amplos debates, algumas destas considerações pode
ser encontrada nesta coletânea REIS, N; PORTAS, N; TANAKA, M. (2007). Para este trabalho chamo mais atenção
162
concentração dos equipamentos urbanos ligados ao consumo de serviços e bens
variados, que iam de serviços bancários até a venda de produtos agropecuários, assim
como atividades de lazer durante o dia, como na noite. Em Marília e também,
similarmente, em Bauru, em torno do final dos anos de 1970, o lazer durante o dia se
restringia as atividades como: frequentar as salas de cinema, sorveterias e sentar nos
bancos das praças centrais, para encontrar algum conhecido, ou mesmo acompanhar
visualmente, numa forma contemplativa, o ritmo de vida diário no centro. Durante a
semana, o centro apresenta uma vida comercial e produtiva forte durante o dia. E a
noite, prosseguia o funcionamento de alguns bares, sorveterias e cafés. Os cinemas
davam o ritmo da noite, onde se viam as maiores aglomerações e gastos com entradas e
alimentação.
Os finais de semana também alternavam dois períodos distintos, embora
complementares. Durante o dia, sobretudo nos domingos e feriados, cessavam os
serviços administrativos, comerciais e bancários, substituídos pelo lazer com a família,
o fotting61 dos jovens, as matines nos cinemas. O centro principal tornava-se assim, um
espaço de oportunidades de consumo e da ociosidade. Quanto à vida noturna, pode-se
dizer que os excessos eram possíveis na noite, mas era certo dizer também que os jovens
da classe média da cidade tinham poucas escolhas. O que não quer dizer que era uma
cena pobre em divertimento. Os bailes e festas eram frequentes, mas também eram
atividades de lazer igualmente frequentada por adultos. Já para os mais boêmios, assim
como, aos que eram dados às pândegas e a vida profissional notívaga, a noite poderia se
estender um pouco mais, onde os jogos da noite incluíam carteado, jogos de mesa e até
alguma licenciosidade para prazeres bem mais sensuais e libidinosos, especificamente
em espaços mais opacos do próprio centro e nas ruas um pouco mais distantes.
Os cinemas se destacam por serem os principais espaços de consumo na noite, e
ao mesmo tempo espaços de sociabilidade, tanto juvenil como adulta. Em Marília,
existia até esse período em torno de dez salas de cinemas, destacando o “Cine Peduti”62.
Em Bauru também era grande o número de salas de cinema, com destaque o “Cine
Capri” e “Vila Rica”. Havia em Marília espaços mais seletos para consumo e paquera,
frequentado por jovens maiores de idade e adultos, era o “Cine Bar”, localizado na
Avenida Sampaio Vidal, uma das principais avenidas da cidade, onde havia a venda de
bebidas e lanches. No relato abaixo pode-se ter alguma ideia da atmosfera do lugar:
O Cine Bar ficava no prédio ao lado; funcionava como complemento arquitetônico do
cinema, cordão umbilical. Ali se fabricava um sorvete dos deuses, havia um pássaro
preto ensinado, que alçava pequenos voos no seu interior, parando nos ombros dos
Therezo. À noite, a rapaziada tomava Hi-Fi nas mesas disputadas na calçada, em frente
ao bar, de olho no desfile feminino pela avenida principal. O garçon Elias, gordinho,
alegre e satisfeito, sempre alinhado com a sua farda tipo smoking, camisa branca
para os processos mais centrífugos, quanto o distanciamento e densificação de espaços de moradias e atividades
econômicas em relação ao centro tradicional.
61
Atividades que os jovens realizavam relacionadas a passear por uma rua principal, para ver e ser vistos,
constituindo num momento genuíno de ócio e ao mesmo tempo de expectativas de paqueras, jogos e encontros.
62
Na verdade uma rede de cinemas que se espalhava pelo interior do estado de São Paulo e que tinha sua sede na
cidade de Botucatu - SP.
163
impecável e gravatinha borboleta, sabia da vida de todo mundo e fez parte desta história
por mais de 30 anos63.
Por volta de 1970, esses cinemas estão voltados para produção nacional e filmes
estrangeiros, como gênero “western spaghetti”, muito popular nesse período.
Interessante que o maior consumo dos jovens – não muito diferente de hoje – era para
refrigerantes, mas estes encontravam sobretudo, em Marília, uma forte produção local64.
O consumo de bebidas alcoólicas não era comum entre os jovens. Além dos cinemas, os
clubes poliesportivos e recreativos se destacam na promoção de eventos e festas. Os
clubes nestas cidades se tornaram espaços privilegiados de consumo, com recursos para
trazer artistas importantes do cenário musical do país, para deleite dos seus associados e
daqueles consumidores em potencial, com poder aquisitivo para frequentar os bailes e
festas em suas dependências. Estes clubes estavam localizados, em sua maioria, no
centro tradicional e não deixavam de constituir espaços privados das elites de maior
poder econômico e posição social. Citadinos da periferia e mesmo os jovens e adultos
da área central com menor poder aquisitivo poucas vezes tinham acesso aos privilégios
culturais e recreativos disponibilizados por estes clubes.
Os investimentos na economia de lazer noturno, quanto a oferta de produtos
culturais e de consumo estavam nas mãos de empresários e clubes locais, apesar de
existir salas de cinema construídos por empresários externos, ainda assim, não era uma
força que pudesse monopolizar, ou até ditar, os rumos do consumo cultural nestas
cidades. Pode-se dizer que aquilo que existia de atividades e espaços para diversão
noturna, era parte constitutiva da área central comercial destas cidades. Ainda que se
pudesse já observar a natureza e temporalidade distinta da economia e vida noturna do
lazer, ela não deixava de reforçar o centro comercial como um todo, na sua força de
convergência de fluxos, como na sua natureza comercial e de serviços.
Embora a função de diversão e lazer, sobretudo já se direcionava predominante
aos jovens, expressando assim uma centralidade na parte noturna, ainda sim, eram
atividades que se justapunham ao já tradicional centro econômico e comercial destas
cidades. O poder de convergência do centro comercial articulava em graus e escalas
variadas um sistema de trocas e serviços do conjunto da cidade tanto material, como na
sua temporalidade diária, nesse sentido nem a vida noturna e nem sua economia se
desprendiam dessa monocentralidade. Quase que necessariamente a vida noturna para
os jovens deste período até meados dos anos de 1970 era circular e se territorializar nos
espaços comuns da cidade e que também eram frequentados por adultos.
Contudo, os núcleos de lazer noturno onde se davam a convergência de jovens
na noite, foram se ampliando na cidade e escapando um pouco também do controle dos
adultos e autoridades. A partir dos anos de 1970, estas cidades se conectam através da
música, dos filmes e da televisão, com os ventos da contracultura hippie, dos ídolos
rebeldes do cinema e dos novos modelos de consumo, que se espalham entre os jovens,
63
Memória de um citadino registrado pelo CCM (Clube de Cinema de Marília).
64
As fábricas de guaraná, ou também popularmente chamada tubaína, eram muito comuns no interior de São Paulo.
Não havia nesse período, ainda, a concentração do mercado pelas grandes empresas, como Coca-Cola e Ambev.
164
como o jeans, cigarros, músicas e tudo mais que pudesse remeter a uma sintonização
geracional e, ao mesmo tempo, ruptura com as outras gerações. É nessa atmosfera que a
diversão noturna e consumo vão se desprendendo dos tradicionais circuitos de lazer,
onde a presença de adultos e do efeito panóptico dos pais e autoridades estão mais
presentes.
Ainda no começo dos anos de 1970, foi destaque o “Bar Karango”, em Marília,
local que se tornou de forte atração de jovens tanto da cidade e que já prenunciava o
surgimento de espaços próprios entre os jovens. Uma atratividade importante na
dinâmica da vida noturna, atraindo até jovens de cidades próximas. Estes bares
forneciam duas coisas importantes, que era a oferta de bebidas e um espaço de encontro
integralmente frequentado por jovens, onde a música e os grupos musicais tinham a
mesma conexão geracional. Vale a pena destacar aqui dois relatos65 que mostram a
importância desses espaços na sociabilidade juvenil, em torno do “Bar Karango”:
CTU – “...era perto do Tênis Clube, a gente "matava aula" e ia
lá...”
SAA – “ (...) nos reuníamos lá [Bar Karango] para conversar e
paquerar...era muito gostoso...eu tinha um grande grupo de
amigos que nos encontrávamos lá, perto da 18 horas e lá pelas
onze já estávamos de volta pra casa...”
No primeiro comentário, “matar a aula” era se deslocar por espaços onde os
ritmos e conteúdos eram antagônicos: de um espaço controlado e disciplinado, para um
espaço de fuga, de autonomia, onde se podia realmente estar à vontade. No segundo
comentário, o bar é usado como um microterritório de encontro, do convívio com
amigos e de um território livre à paquera. Neste período, outros bares similares e
próximos eram points66, ou espaços de fuga para os jovens mais ousados, como o
“Mamute”; “Bar Marrocos”, “Shalako”, todos frequentados por jovens, e alguns já
funcionando até altas horas da madrugada.
O núcleo principal de lazer da noite não divergia muito, em termos de
localização, do centro comercial tradicional da cidade, até o final dos anos de 1970.
Mas, daí em diante pode-se acompanhar um processo de desconcentração das áreas de
lazer noturno, que não deixa de acompanhar também a desconcentração de
investimentos e empreendimentos imobiliários, tanto residenciais como comerciais, fora
do centro tradicional da cidade. Há, com isso, uma ampliação da área central, e claro,
uma expansão comercial e, consequentemente, dos espaços de consumo na cidade.
Também passa a se desenvolver uma cena noturna mais diversificada, em termos
de afluência de grupos de jovens. Agora com a presença de universitários, que passam a
65
Comentários extraídos do Grupo Memória de Marília através da rede social e virtual do Facebook, os nomes dos
comentadores estão representados pelas letras iniciais de seus nomes.
66
Uma categoria nativa, ou seja, um termo que é usado e define uma prática do grupo, no caso dos points é usado
pelos jovens e que representa um estabelecimento, como um bar onde é possível se reunir para se divertir. Magnani
(2005) é um autor que explora as formas como os jovens se espacializam na cidade, descobrindo formas de
espacialidade relacionadas a estas categorias nativas.
165
compor esse cenário, depois da criação da faculdade de medicina e enfermagem da
cidade de Marília. As casas noturnas, bares e pizzarias de maior sofisticação e
badalação começam a se fixar na Avenida Rio Branco, é ali que os jovens se tornarão
mais presentes na noite, e onde o passeios e points noturnos de lazer vão se fixar. Nesta
avenida é famoso o point da “Pizzaria 515”. Além disso, vai se formando no final dos
anos de 1970, um núcleo de lazer noturno no centro-leste da cidade e que hoje ainda se
mantém, em torno do “Bar Chaplin”.
Em Bauru, a década de 1970 seguiu um dinamismo da diversão noturna muito
parecido com aquele da cidade de Marília. Há ainda a presença dos clubes
poliesportivos e recreativos, que promovem shows e espetáculos na noite, e os cinemas
que continuam a atrair grande número de espectadores. Além de bares e restaurantes
que atendem diferentes segmentos sociais. Contudo, a cidade passa a ter um perfil de
cidade universitária, com ampliação de cursos oferecidos por grandes universidades
estaduais, como (USP e UNESP). Além destas, outras universidades de origem local
passam atrair grande número de jovens de outras cidades, que vão morar em casas
alugadas, transformadas em “repúblicas”. Esse fluxo gera abertura de bares, motéis e
casas noturnas, para atender essa nova demanda crescente.
Nesse período, surge o “Ciente”, bar e clube famoso na cidade, construído e
mantido por jovens universitários e jovens da elite local, onde era possível ter um
espaço próprio para diversão e festas frequentes, com temáticas variadas e criadas pelos
próprios jovens. Esse bar, misto de clube, funcionou dos anos 70 ao começo dos anos
80. E esteve localizado no centro principal da cidade, deve-se destacar esse bar como
um precursor das “noitadas” na cidade, já que funcionava até altas horas da madrugada.
A dispersão do lazer para fora do core comercial da cidade ainda não estava tão claro.
As festas continuavam a ocorrer fortemente nos clubes da cidade, como os bailes do
“Tênis Clube”, do “Luso”, da “Hípica”. Os jovens das classes altas tinham ainda o
Automóvel Clube, um salão suntuoso na praça principal da cidade, para grandes eventos
e festas com artistas nacionais. Aos finais de semana, passou e existir outras alternativas
de consumo, são estabelecimentos que vão se especializando em diferentes tipos de
serviço e cardápios, como os bares e restaurantes, “Fran’s Café”, “Capristor” e “G
Petisco”, e que vão se transformando em novos points para os jovens. Todos eles ainda
fixados no centro principal.
É importante destacar que o centro principal, na sua noturnidade e como espaço
para o lazer noturno, ainda gozava de uma aura de prestígio, como um lugar de
encontro, onde diferentes segmentos sociais se cruzavam, mesmo que não
frequentassem os mesmos ambientes. Havia, já naquele tempo, a preocupação com as
colunas sociais e com certa ostentação. Os bares de esquinas, restaurantes, casas
noturnas parecem fazer parte de uma mesma ambiência, os jovens, sobretudo de classe
média e alta, conviviam nos mesmos espaços de socialização, como dos clubes, escolas
e universidades e a noite era uma extensão dessa sociabilidade. Mesmo os proprietários
destes estabelecimentos eram pessoas conhecidas e que transitavam por círculos comuns
desses segmentos de maior afluência econômica.
A desconcentração da diversão noturna em Bauru vai começar a ocorrer já para
o final da década de 1970, principalmente para o eixo da Avenida Nações Unidas, que
166
embora não fosse um eixo comercial, passou a concentrar restaurantes que funcionam a
noite, tornando-se uma opção para o consumo. Em realidade, esta avenida ficará
conhecida justamente pela sua centralidade em termos promoção de lazer noturno e
dominical. Mais tarde, já nos anos de 1990, é que começará a abrigar estabelecimentos
comerciais e bancários. Nesta avenida, as opções de restaurantes são variadas, sendo
que ali que se instalou a primeira loja de uma cadeia internacional de fast-food. As ruas
largas da avenida favoreciam, desde o início, a circulação e o passeio de carros, para os
que tinham esse meio de transporte. Também as amplas áreas do canteiro central
favoreceram a promoção de eventos. A mudança do carnaval do centro da cidade para
esta avenida, nos anos de 1980, confirmaria a marcha da diversão noturna do centro
principal para a Zona Sul de Bauru.
Por volta de 1980 em Bauru, a lógica de expansão seguiu a direção das
oportunidades imobiliárias para Zona Sul da cidade, com as melhorias nas avenidas
Duque de Caxias e o eixo da Avenida das Nações Unidas, a valorização do solo cresceu
exponencialmente nesta década. Outra vantagem se dava pelo próprio limite de
crescimento do centro principal, já tornando-se crônico a falta de espaços para novos
estabelecimentos comerciais e o crescente congestionamento de automóveis, além do
aumento demográfico, que impunha maiores ofertas de prestação de serviços e bens. No
caso da economia do lazer noturno, a relação entre a franca expansão residencial e
comercial para Zona Sul e o envelhecimento do centro principal constituíam o caminho
natural para novas oportunidades nesta direção da cidade.
Em 1980, a população de Bauru girava em torno de 186 mil habitantes e Marília
de 121 mil habitantes. Nessa década, já estão consolidados os movimentos de dispersão
urbana, tanto de bairros periféricos, como das áreas comerciais destas cidades. Os
centros tradicionais destas cidades passam a coexistir com subcentros comerciais em
outras áreas urbanas, sobretudo, na periferia. Além disso, há uma pressão por novos
espaços comerciais, em face do estabelecimento de novos empreendimentos terciários,
relacionados as cadeias de lojas de bens de consumo duráveis e não-duráveis, que
encontram nestas cidades oportunidades para sua expansão. Articulam-se nesta nova
dinâmica o setor imobiliário, que detecta tal movimento, e a intervenção do poder
público, que age no melhoramento infraestrutural das áreas do entorno do centro
principal. Decorre a irradiação de novos contextos espaciais de concentração de
comércio e serviços, em paralelo ao centro tradicional, ou seja, novos eixos e núcleos
terciários começam a se desenvolver e a projetar uma maior complexidade quanto aos
nós de fluxos e fixos no tecido urbano de ambas as cidades. Isso vai refletir tanto na
composição estrutural e econômica, como nas cenas do lazer, sobretudo noturno, já que
se estabelece uma geografia da noite67 com mais variedade de bares, restaurantes, casas
de noturnas e, consequentemente, uma abertura maior para conexões com outras
culturas e estéticas transterritoriais68.
67
Uso essa expressão para identificar não apenas os equipamentos de lazer na noite, como a atmosfera, ou seja, a vida
noturna que anima essa espacialidade.
68
Diz respeito a uma base de referências audiovisuais, moda, estilos que se territorializam em diferentes lugares, essa
concepção de culturas transterritoriais aparece em Turra Neto (2012).
167
O panorama cultural na década de 1980 tem uma significativa descontinuidade,
passa a ser significativo o aparecimento de mais casas noturnas, para dança e shows na
cidade, com a vinda de artistas de projeção nacional. Os jovens da periferia passam a ter
mais presença nas áreas centrais, frequentando as discotecas nestas áreas, graças a maior
disponibilidade do uso do transporte coletivo. A intensificação deste tipo de transporte
teve um papel importante na transposição de escalas69(SMITH, 2012) para estes jovens,
e que ainda se mantém atualmente. Mesmo que os horários de circulação destes
transportes impusessem um limite que não ultrapassava a meia-noite, isso quase sempre
era ignorado e substituído por longas caminhadas de retorno para casa.
Apesar dos novos espaços de lazer juvenil estarem se diversificando na cidade,
se perpetuava a continuidade de uma territorialidade juvenil mais fragmentada em
termos de segmentação social, já que os jovens da classe média e da periferia pobre não
se territorializavam no mesmo lugar. No caso de Marília, os jovens das classes médias,
ou de melhor condição para investir na noite, elegiam a Avenida Rio Branco em
Marília, onde as boates e bares atraiam, por suas fachadas, ambientes modernos e
renovação constante das atrações músicas, além do apelo ao consumo mais elitizado.
Para a grande maioria dos jovens pobres que também frequentavam a Avenida,
estes mais compunham a cena do movimento e aglomeração, mas não a cena dos
ambientes internos, já que o preço da entrada e/ou consumo interno era um tipo de
investimento distante da realidade econômica destes jovens. Os jovens mais pobres
tinham maior convergência para encontro com amigos e namoro na Praça São Bento,
localizada na parte leste do centro e em algumas quadras do centro tradicional. Em
Bauru, o clube dos “Bancários” e a discoteca “Flashdance”, entre outras discotecas 70 no
centro principal, transformaram-se em espaços de encontro e dança para os jovens de
todas os bairros periféricos da cidade, os finais de semana eram os momentos de
encontro com as turmas. Já os jovens de maior condição econômica estavam em outros
espaços, como no “Bauru Tênis Clube”, “Boate Universitários” e “Scaramouche
Ambiente”. Mas havia também, casas noturnas, como o “Camarim 71, cujo ambiente
interno era frequentado por jovens dispostos a gastar mais no lazer noturno, tanto jovens
da classe média como jovens pobres, que disputavam na portaria a chance de entrar
nesta casa, famosa pela irreverência de suas atrações e por trazer artistas de novelas da
moda para ilustrar as festas.
A economia da noite nos anos de 1980, em termos de arranjo espacial, por meio
das boates, bares e outros tipos de casas noturnas, eram atividades e espaços que ainda
69
Sobre a importância de uma política espacializada, em que as escalas geográficas na cidade, por exemplo, não são
dadas, mas são socialmente produzidas.
70
O movimento das discotecas foi muito comum nas cidades brasileiras entre o fim dos anos 70 e início dos anos 80,
pela força de um movimento que era tanto visual, musical e dançante. Sua eclosão foi reforçada por filmes de grande
impacto na cultura juvenil como “Embalos de Sábado a Noite” de 1978. Também Turra Neto (2012) destaca esse
movimento em seu estudo.
71
Há no canal do You Tube muitos vídeos postados que mostram um pouco da atmosfera destas casas que cito neste
trabalho, o link a seguir mostra o ambiente de algumas casas noturnas em Bauru nos anos de 1980:
“https://www.youtube.com/watch?v=1rItD0SXLNU”
168
gravitavam em torno do centra tradicional destas cidades. Porém o que se destaca é
diversidade de espaços e ambiências para os jovens, e uma conexão transterritorial
maior com outros centros urbanos e de vanguarda estética e cultural.
A virada cultural e econômica das paisagens de lazer noturno em Bauru e Marília
O final dos anos de 1980 e início dos anos de 1990 é marcado por uma paisagem
de diversão noturna já não mais confinada ao centro tradicional das duas cidades mas
em expansão espacial, em direção as novas áreas centrais em formação. Em Bauru, essa
expansão segue em direção da Zona Sul, e em Marília os estabelecimentos de lazer
noturno se espalham por eixos que cruzam a Avenida Sampaio Vidal e vão em direção à
Zona Sul e Leste da cidade.
Porém, além do sentido de expansão, há aspectos socioespaciais e econômicos
que vão proporcionar uma clara descontinuidade com os períodos anteriores. Começa
com o fato do descolamento da economia do lazer noturno do centro tradicional destas
cidades, o que não significa seu fim, visto que ainda persistiram atividades de lazer e
diversão na noite do centro, porém, com menor badalação, e mais direcionada aos
citadinos de baixa renda. Outro aspecto marcante, tanto em Bauru, como em Marília, é
que os diferentes núcleos de lazer, nestas áreas de expansão da economia noturna
ganham algum grau de especialização. Ou seja, não é uma expansão que se irradia
apenas do centro comercial tradicional, mas uma expansão que irrompe em diferentes
partes destas cidades, e que oferecem uma gama mais ampla de opções, algumas para
segmentos socioeconômicos específicos.
Por exemplo, em Marília em torno do bar Chaplin vai se formando um núcleo de
lazer constituídos de “barzinhos72” e uma cena mais underground. Na avenida Rio
Branco, persistem restaurantes e pizzarias para um perfil de frequentadores que vão de
jovens universitários a jovens de classe média e alta. O mesmo acontece com a Avenida
Sampaio Vidal, onde se encontram bares e restaurantes sofisticados. No prolongamento
desta avenida, em direção à Zona Sul, vão se situar boates com ambientes internos
espelhados nos grandes centros. Deve-se destacar que nos anos de 1990, pari passu a
uma explosão de fluxo de universitários na cidade e consequente investimentos na
verticalização habitacional da Zona Oeste, vai emergindo um núcleo de lazer, com
diferentes casas noturnas, atendendo não apenas este público universitário, como jovens
da periferia, vindos principalmente dos extremos da Zona Sul.
Em Bauru, novamente encontramos similaridade destes processos, primeiro a
Avenida Nações Unidas que reforça sua centralidade de fluxos na diversão noturna,
com a implantação do primeiro Shopping Center da cidade, no começo dos anos de
1990. Na verdade, o próprio Shopping produz sua própria centralidade, atraindo
consumidores não apenas da cidade, como da região, suas salas de cinema vão
72
Um termo nativo que em seu início era usado pelos jovens, geralmente, com intenção de falar de um bar um tanto
despojado de maiores requintes para encontrar amigos ao sabor de alguns petiscos e cervejas, todavia, esse termo
também abrange a ideia de um point badalado e ao contrário do despojamento, uma certa diferenciação enquanto
definição elaborada de um estilo de ambiente interno e externo, e alguma uniformidade dos segmentos sociais que os
frequentam.
169
concorrer até a primeira metade dos anos 2000, com as últimas salas de cinema do
centro tradicional. Outro eixo de lazer noturno se estrutura ao longo da Avenida Duque
de Caxias, importante artéria que liga a Zona Leste e Oeste. Ao logo dessa avenida,
surgem postos de combustíveis com serviços de conveniência e que durante a noite se
transformam em points, superconcentrados de jovens, com massivo consumo de bebidas
alcoólicas, atraindo jovens de classes altas, como jovens da periferia pobre, que vão de
transporte coletivo ou individual.
Em 1990, começa a ganhar contornos o que vai ser o principal eixo de lazer de
Bauru a partir de 2010, que é a avenida Getúlio Vargas, um eixo que começou na Praça
Portugal e que foi se prolongando pela avenida, até a extremidade da Zona Sul, esse
eixo surge a reboque dos fortes investimentos imobiliários e públicos, e também da
ocupação habitacional crescente, desde os anos de 1970, de um estrato social de maior
poder aquisitivo da cidade. Em 1990, instala-se nesta avenida uma cervejaria73, que
passa a trazer shows com bandas e cantores internacionais, colocando a cidade
temporariamente num circuito de entretenimento próximo ao que se dá entre os grandes
centros urbanos. Porém, a cristalização da centralidade desta avenida na diversão
noturna de Bauru não ocorreu sem fricções e conflitos, como por exemplo, a disputa
territorial com moradores antigos, pela necessidade de manter aquela área puramente
residencial. Uma das razões destes conflito é detectado pelo estudo de Ramos (1998, p.
34), quando afirma que: “ao mesmo tempo que as atividades terciárias se expandem na
Zona Sul, produz-se concomitantemente problemas relacionados ao ambiente dessas
áreas, tais como: tráfego intenso, barulho até altas horas da noite, lixos e resíduos ao
longo das ruas e calçadas”, todavia, o fato é que muitos moradores tiveram que se
mudar destas áreas, e o perfil de eixo de lazer noturno se consolidou.
Enquanto se configurava a espacialidade da centralidade de lazer noturno da
Avenida Getúlio Vargas, também em Marília, na mesma época e num processo similar,
a Zona Leste se tornava a nova fronteira de investimentos imobiliários e de implantação
de novas superfícies comerciais. Merece atenção o entorno da Avenida das Esmeraldas,
que até início dos anos de 1980, era quase um vazio urbano, em termos de habitação,
embora no chão de terra batida acontecessem alguns encontros festivos e rachas de
motocicletas, entre os jovens nos finais de semana. Porém, na segunda metade dos anos
de 1980, essa mesma região da cidade passou a receber empreendimentos ligados a
construção de moradias de alto padrão, em formato de condomínios fechados, e na
avenida surgem estabelecimentos comerciais voltados aos consumidores de renda
elevada, que passaram a habitar a área. O setor público também investe em melhorias do
equipamento urbano, com destaque para a construção de uma pista de cooper, que acaba
servindo a múltiplas práticas espaciais recreativas. Esta região da cidade vai se
transformar numa área de forte convergência de consumidores e usuários do espaço
público, uma centralidade que ganhará mais força, com a implantação do primeiro
shopping center da cidade, o “Esmeralda Shopping”, já nos anos de 1990.
73
Estas “cervejarias” não deixam de ser uma modalidade de casa noturna, mas interessantemente unem
uma imagem fabril e artesanal com o que é de mais luxuoso e sofisticado em termos de ambientes das
baladas.
170
As cenas da vida noturna agora se distribuem em diferentes núcleos de lazer,
porém, nota-se outra descontinuidade, que é a não justaposição espacial de alguns
núcleos de lazer noturno, com as atividades terciárias diurnas, como de comércio e
prestação de serviços. Um exemplo está no núcleo de lazer oeste em Marília, em cujas
noites de fins de semana é possível encontrar um mosaico de sons, carros, luzes e festas,
contrastando com a aparente tranquilidade do dia, onde só se verifica entrada e saída de
estudantes nas universidades, ou perambulando entre os prédios de habitação
estudantil74. Em Bauru, a Avenida das Nações já demonstrava essa dinâmica, desde os
anos de 1980, agora é a Avenida Getúlio Vargas que apresenta uma vida noturna mais
agitada.
Atualmente, o que tem-se verificado é a continua expansão da economia do lazer
noturno nestas duas cidades, alguns núcleos de lazer parecem perder força em Marília,
como é o caso da Avenida Rio Branco, que teve seu ponto alto nos anos de 1980, por
outro lado, núcleos antigos, como do Bar Chaplin vem renovando sua centralidade de
lazer noturno, a partir de novos estabelecimentos, que vão se fixando neste núcleo. Em
Bauru, a “paisagem de lazer noturno” parece mais complexa, pois há novas inserções na
economia do lazer noturno que se fazem de modo mais impactante, como a instalação
de casas noturnas de capital internacional e com projetos padronizados de diversão.
Algumas com ambientes luxuosos e se instalando na própria Avenida Getúlio Vargas.
Outra dinâmica presente nestas cidades é abertura de novas casas noturnas em
espaços fora do perímetro urbano, iniciando um processo que parece uma “periferização
do lazer noturno”. Essa iniciativa em Bauru já se tinha iniciado com a superfície de
lazer do Alamenda Quality Center, uma grande área que justapõe salas de cinema,
restaurantes, fast-food e posto de combustível, funcionado durante o dia e na noite, ao
longa da rodovia estadual Marechal Rondon, instalada além do limite da Zona Sul da
cidade. No entorno, já surgem restaurantes e uma ampla casa noturna especializada no
público GLS. Outro aspecto é que as casas noturnas já não apresentam um único cenário
temático, as vezes alternam festas e atrações conforme o público que querem atingir. Já
notamos casas noturnas nas duas cidades que, durante a semana, criam atrações para o
público universitário e, durante o fim de semana, volta-se para o público da periferia.
Abaixo destacamos dois mapas que podem ajudar na visualização destas configurações
espaciais
atuais,
referente as duas
cidades.
Figura 1
74
Vale a pena dizer que no caso deste núcleo de lazer, há também uma sazonalidade, já que no período de recesso
escolar, parte deste núcleo silencia suas atividades noturnas. O que se assiste hoje é uma diversidade de público
nestas casas noturnas, talvez justamente tentando não depender de um único público consumidor.
171
Fonte: elaborado pelo autor
Figura 2
Fonte: elaborado pelo autor
No plano das sociabilidades e territorialidades juvenis, desde o final dos anos de
1990, percebe-se uma irrupção de culturas juvenis e grupos que passam a coexistir na
noite, frequentando as vezes os mesmos espaços, como jovens de classe média e jovens
da periferia, na Avenida das Esmeraldas, em Marília, embora territorializando-se
diferentes partes da avenida. São culturas juvenis, sobretudo da periferia, que agora têm
meios de transitar e compor circuitos de lazer em diferentes espaços da cidade. São
novos consumidores de espaços e produtos na noite, que nem sempre participam com os
mesmos direitos ao uso do espaço público, entrando, as vezes, em conflito com a
polícia, já que há ao mesmo tempo opressão e estranhamento quanto a suas novas
práticas espaciais.
Estas novas hordas juvenis, que são ainda estranhos a uma cidade que desde
décadas anteriores esteve acostumada a ter uma atmosfera da noite segmentada
socialmente e bem delimitada territorialmente, onde os grupos tinham suas esquinas,
praças e bares quase exclusivos para se frequentar e/ou se evitar. Agora estes espaços
são perpassados por diferentes grupos. O jovem pobre da periferia não depende apenas
das longas jornadas a pé, ou do transporte coletivo, grande parte deles agora tem motos
172
e carros, e se constituem de grupos juvenis em conexão com outros grupos na cidade e
fora dela, alcançando escalas para passeio e rolê75 muitas mais amplas e difusas que
aquelas das gerações anteriores, que também habitavam o que era a periferia pobre
destas cidades.
Conclusão
Apresentamos algumas conclusões, que não devem ser vistas como definitivas,
mas como um esforço de entendimento ainda em andamento e que precisa de mais
estudos, sobretudo, de outras cidades médias, afim de certificar quanto a validade destas
tendências76. Pelos resultados apresentados neste trabalho, parece possível acompanhar
três vetores de mudança, que mostram uma ruptura com o passado da diversão noturna
nestas cidades. O primeiro vetor é justamente o crescente dinamismo da economia da
noite, com grandes investimentos locais e também agora internacionais. Ambientes
internos, padrões visuais e espetáculos, que visam espelhar as novidades dos centros
inovadores do lazer noturno, onde a transitoriedade temática e a alternância dos
públicos conferem um nítido contraste com as casas noturnas do passado, redutos de
grupos específicos e identidade única. Também fast-food, posto de combustíveis e bares
que diversificam seus produtos e serviços, tentando abranger igualmente a diversidade
de grupos juvenis e consumidores. Segundo, formam-se agora diferentes núcleos de
lazer na cidade, não mais presos à necessidade da proximidade com áreas centrais
tradicionais, como centro comercial e corredores terciários, ou seja, a espacialidade do
lazer se recontextualiza na cidade como uma força econômica distinta, mas cada vez
mais significativa na economia da cidade como um todo. O terceiro vetor é o da
diferenciação sociocultural dos grupos na noite. Cujo uso do tempo livre e ócio na noite
vem sendo capturado pelos agentes de consumo e indústria do lazer, uma conformação
que coloca em causa a autonomia de se viver de fato o tempo livre com projetos
espontâneos e criativos por parte dos jovens77.
REFERENCIAS
CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da
globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.
75
Os dicionários identificam duas formas escritas e fonéticas, uma é "rolé", por exemplo falando no Rio de janeiro e
"rôle" usado mais frequentemente em São Paulo. Temos observados em campo que "rolê" tem um sentido
socioespacial muito importante, sobretudo, para os jovens da periferia pobre, um sentido de deslocamento para se ter
visibilidade, de estar junto, e ainda mais, para exercer suas práticas identitárias. Isso quer dizer que, quando um
jovem dos “lowrider” ou seja, carros rebaixados, diz que vai dar um rolê, ele vai sair com seu carro “tunado”, para
desfilar entre outros, sobretudo amigos, para que estes admirem seu investimento, como forma de ser reconhecido no
movimento e no território, que se define, assim, como um espaço de visibilidade.
76
Muitas destes estudos e discussões já se encontram em andamento através das iniciativas de pesquisadores que
fazem parte do GAsPERR (UNESP de Presidente Prudente).
77
Comas (2000) defende que, apesar dos espaços solidários onde os jovens vivem o momento de estar-junto, o que
tende a acontecer nos centros urbanos é que isso se torne um projeto não dos jovens, mas dos agentes econômicos
adultos, que impõe uma conformação de lazer, e o tempo livre ironicamente torna-se, assim, um tempo controlado.
173
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174
OS CIRCUITOS DA ECONOMIA E AS DESIGUALDADES
SOCIAIS EM MOCUBA: UMA ABORDAGEM ESPACIAL E
ESCALAR
João Carlos Mendes Lima78
RESUMO
Um olhar dos espaços urbanos de Moçambique nos remete a uma investigação sobre as
razões que podem influenciar as desigualdades nas formas de ocupação de solos
urbanos nas cidades moçambicanas e as desigualdades sociais a ela adstritas. Este artigo
tem como pressuposto pensar as relações sociais na sua dimensão espacial que
influencia as desigualdades espaciais no município de Mocuba, a segunda maior cidade
da província da Zambézia. Conclui-se que a ocupação do espaço, em Mocuba, resulta da
praxis das comunidades locais na sua interação com a natureza e a experiência histórica
por elas vivenciadas até a atualidade, mas que tem forte influência do capital. Além
disso, no Município de Mocuba existe um espaço híbrido constituído pelo setor inferior
e superior da economia, com as suas desigualdades que neste estudo foram abordadas a
diferentes escalas.
Palavras-chave: desigualdades espaciais, circuitos da economia, escala.
Introdução
A urbanização na Zambézia e em Mocuba em particular pode ser analisada
considerando vários fatores que interagem no tempo sobre o espaço, em diferentes
escalas. Esse fenómeno de expansão urbana, induzido pelo desenvolvimento económico
mercantil, produziu e produz uma contínua ocupação das zonas periféricas que avançam
rapidamente a margem do processo formal de ordenamento territorial dessas urbes.
É desse modo que as tradições, a cultura e as particularidades sociais das comunidades
criam círculos de influência na produção do espaço, assim como esses fatores são
influenciados pelas condições físico-naturais. Além disso, a independência nacional e a
nacionalização dos prédios de rendimento acelerou o processo de urbanização. Por
consequência, dificulta desenhar planos efetivos de ordenamento territorial capazes de
garantir boa qualidade de vida dos seus citadinos tendo em linha de conta os princípios
78
Prof. Auxiliar da Universidade Pedagógica de Moçambique, Delegação de Quelimane, Doutorando em
Geografia
175
da urbanidade em contraposição com os valores culturais das pessoas que a ela vem
estabelecer-se. Por outro lado, a desprivatização de imobiliárias inibiu o investimento
imobiliário durante décadas, ressurgindo de forma ténue só no início deste século.
Foi utilizada a metodologia qualitativa através da análise textual qualitativa e a
desconstrução de teorias de autores que abordam matérias relacionadas com a produção
do espaço, já que se pretende compreender as complexas inter-relações entre tudo o que
existe no objeto de estudo, contribuindo para a geração de conhecimentos e teorias
sobre a urbanização em Mocuba. Para o efeito foi utilizado o procedimento
metodológico de estudo de caso, através da análise bibliográfica e de documentos. Além
disso, foi efetuada a visita de campo, a observação direta, a recolha de imagens por
fotografia e a entrevista a sábios. Os entrevistados foram escolhidos de forma
intencional para captar histórias e experiências vivenciadas apenas por determinados
indivíduos.
Um olhar dos espaços urbanos do país nos remete a uma investigação sobre as razões
que podem influenciar as formas de ocupação de solos urbanos das cidades
moçambicanas. Daí que o artigo parte do pressuposto de que a interação entre o local e
o global gera adaptação dos sujeitos às influências de várias ordens e escalas.
O fenómeno de expansão urbana, induzido pelo desenvolvimento económico mercantil,
produziu e está produzindo uma contínua ocupação das zonas periféricas que avançam
rapidamente a margem do processo formal de ordenamento territorial dessas urbes
estabelecidos pela postura municipal. Do mesmo modo, o processo de urbanização
trouxe novos atores no jogo de relações na cidade, que nem sempre são nacionais, ou
seja vieram à cidade migrantes nacionais das zonas rurais e de outras cidades e vilas,
bem como estrangeiros de várias nacionalidades, de entre elas malawiana, burundesa,
nigeriana e paquistanesa.
Como se pode depreender, no processo de urbanização no Município de Mocuba vão
surgindo ao longo do tempo novas relações entre os atores, entre atores e espaço, bem
como relações a várias escalas. É essa dimensão da sociodiversidade que se pretende
captar com este artigo.
Constituem questões de partida a reflexão crítica para entender como as influências
locais, com os seus ideais se manifestam no espaço? Como a função local influencia nas
demais funções e interferem no espaço? De que modo se estruturam seus espaços e se
176
redefinem suas centralidades face às transformações recentes? Qual a dinâmica interna
de vida da cidade, considerando o que é específico de Mocuba que não se assemelha a
outros espaços em Moçambique? Quais os papéis que desempenha Mocuba, na
qualidade de cidade média, perante os novos problemas urbanos e novas perspectivas de
desenvolvimento?
O artigo contempla três pontos, sendo o primeiro a análise das influências locais que se
manifestam no espaço em Mocuba, onde efetuamos uma reflexão em torno dos atores
de produção do espaço no recorte temático em análise, na tentativa de demonstrar as
suas especificidades. De igual modo analisamos a estruturação dos espaços que
redefinem as centralidades face às transformações recentes. O segundo versa sobre a
dinâmica interna de vida da cidade para refletir em termos da dimensão cultural no
urbano e como se manifesta na estruturação dos espaços considerando o que é
específico de Mocuba que não se assemelha a outros espaços em Moçambique numa
perspetiva escalar – do local ao global. O terceiro e último aborda as escalas espaciais e
a relação tempo e espaço para responder a questão da integração do paradigma da
diversidade e inclusão sem descriminar e excluir os vários atores, bem como os papéis
que a cidade de Mocuba desempenha, na qualidade de cidade média, perante os novos
problemas urbanos e novas perspetivas de desenvolvimento.
1. Influências Locais e Ocupação do Espaço em Mocuba
As modernas formas de produção mercantis e de gestão induzidas pelo colonialismo,
pelo Estado moçambicano e pelo grande capital, tem gerado uma crescente urbanização
da população e do território e por consequência influi na produção do espaço na
Zambézia. Esse processo veio acompanhado com a implantação de infra-estruturas, a
formatação de um mercado de trabalho e de consumo cada vez mais urbano e a
implantação de grandes empreendimentos públicos e privados criando condições para a
chegada de novas pessoas de várias origens na cidade. Tal mobilidade da população
produziu uma estrutura territorial fundada principalmente na urbanização. Daí que o
migrante (‘viente’) se reproduz a partir da produção do espaço urbano para ter acesso a
serviços e facilidades da cidade (emprego, consumo, educação, saúde, comunicação,
energia e renda), como condição para a sua inserção no circuito inferior da economia
urbana (Milton Santos, 2009), mesmo nas localidades rurais.
177
As práticas e as ações dos povos locais e dos ‘vientes’ reproduzem diferentes formas de
sociabilidade (sociodiversidade), de trabalho e de organização social, cada vez mais
mediadas pelo espaço urbano. Porém, em respostas diferentes (por aceitação/submissão,
adaptação ou resistência), e mesmo em oposição ao processo de reprodução das relações
sociais de produção, de dominação e de exploração. Surge, como resultado, um espaço
híbrido (Baia, 2009) e contraditório que porta diferentes padrões de organização e
ordem, porém crescentemente urbanizado.
Além disso, a globalização que se impõe como paradigma dominante veio agregar
novas espacialidades, com o surgimento da suburbanização - urban Sprawl79 (So e
Getrels, 1980 e Hanchett, 2000) que se manifesta com o afastamento dos ricos do centro
da cidade, por considerarem mais barulhenta e mais poluída, para as áreas rurais, onde
podem desfrutar de mais tranquilidade, sossego e ar mais puro.
No entanto, em Moçambique não são só os ricos que aderem a esta nova forma de
ocupação do espaço. É precisamente a classe média de empregados (públicos e
privados) e de empresários emergentes que procuram áreas nos subúrbios para
instalarem as suas quintas e depois as suas residências. Ao mesmo tempo os pobres
saem da cidade ‘cimento’80 vendendo os seus apartamentos81 e vão se instalando nas
zonas de expansão, situadas na periferia das urbes.
Os fluxos populacionais e a geração de empregos daí decorrente contribuem para a
produção do espaço urbano no município, pois retro-alimentam as atividades
econômicas e ativam os fluxos migratórios do campo e das cidades menores,
dinamizando a ocupação e uso de espaço urbano.
No entanto para o caso do Município de Mocuba e da Província da Zambézia a
produção do espaço tem sido influenciada pela interação de vários atores dos quais se
evidenciam o estado (que detém o poder e define a ordem, através da
79
Urban sprawl é o resultado de uma combinação da promoção de construções de vastas super autoestradas fazendo com que o automóvel seja o principal meio de transporte urbano e a criação de um
mercado imobiliário (So e Getrels, 1980). Hanchett (2000) acrescenta como factores que favorecem ao
urban sprawl as iniciativas indirectas para a suburbanização os subsídios federais para a construção dos
sistemas municipais de esgotos, o relaxamento de taxas de mais-valia aos proprietários de imóveis
resultantes do ganho de capitais na venda de casas.
80
Araújo (2003) considera ‘cidade cimento’ aquela que era habitada pela população branca, de
desenvolvimento vertical, planificada, com infra-estruturas e serviços; em oposição, a ‘cidade de caniço’,
negra, suburbana, horizontal, não planificada, de construção espontânea e de material precário (estacas,
barro, caniço, etc.), sem infra-estruturas e serviços e que se dispunha à volta da ‘cidade de cimento’,
cercando-a. Utilizava-se, e ainda se utiliza, o nome ‘cidade caniço’, devido ao material mais usado na
cobertura das casas que é um tipo de palha - o caniço.
81
Conhecido em Moçambique como a ‘venda de chaves’.
178
institucionalização, de leis), o capital (que implementa as estratégias para a sua
manutenção e reprodução, através do sistema de plantações), os sujeitos sociais que tem
o espaço como condição, meio e produto de ação (Carlos, 2014:61). Da interação destes
vários atores, cada qual dando respostas diferentes às imposições da urbanicidade, é que
se efetiva a produção do espaço. De fato, a implantação de infra-estruturas, a
formatação de um mercado de emprego e de consumo cada vez mais urbano, a
implantação de grandes empreendimentos públicos (energia elétrica, Caminhos-deferro, correios, telecomunicações, etc.) e privados (empresas de plantação de algodão,
sisal, tabaco, etc. e as respectivas indústrias de processamento), a migração e a
mobilidade da população produzem uma estrutura territorial fundada principalmente na
urbanização e em rede. Portanto, o ‘viente’ se reproduz a partir da produção do espaço
urbano para ter acesso, como foi referido anteriormente, a serviços e facilidades da
cidade e a partir da inserção no circuito inferior da economia urbana, para ter acesso a
consumo, trabalho, educação, saúde e renda, mesmo nas localidades rurais.
A pesquisa tem como ponto de enfoque o Município de Mocuba que a nosso ver possui
particularidades geográficas específicas e ímpares, o que motivou a escolha deste
recorte temático. De fato, Mocuba (Figura 1), onde todos os caminhos se cruzam e
Moçambique se abraça82, possui sua dinâmica interna, mas joga uma considerável
influência nos distritos periféricos que giram a sua volta.
Mapa 1. Enquadramento Regional da Cidade de Mocuba
Fonte: Conselho Municipal de Mocuba, 2005
Além disso é a segunda maior cidade da Zambézia com um peso na economia
provincial e nacional, mas também participa na integração regional e global ao exportar
82
Slogan do Município de Mocuba
179
vários produtos. De igual modo está num corredor nacional (Estrada Nacional número 1
- EN1), numa certa equidistância entre o Sul e o Norte.
Ademais, Mocuba é uma cidade a beira de dois rios (Licungo e Lugela), de estilo antigo
e que se situa num ponto elevado, mas numa encruzilhada. Já foi objeto de um sonho
Samoriano83 por ser o lugar que iria induzir a industrialização do País, daí a instalação
do Complexo Téxtil de Mocuba. Esteve, por muitos e longos anos, ligado por uma linha
férrea com a sua testa no Porto de Quelimane (capital da Província da Zambézia) e teve
a sua história.
Hoje, a cidade de Mocuba tem uma instituição de ensino médio (Instituto Médio
Agrário) e superior (Faculdade de Ciências Agrárias e Silvicultura da Universidade do
Zambeze), dois centros de ensino à distância conferindo grau superior (Universidade
Pedagógica e Universidade Católica de Moçambique) para formação de professores do
ensino secundário. Além disso, recentemente foi declarada zona especial de
desenvolvimento, esperando que muito brevemente venha atrair mega projetos.
Portanto, a pesquisa procura analisar a dinâmica da produção do espaço na cidade de
Mocuba a várias escalas (do local ao global).
Para o caso vertente, entender o urbano é necessário considerar a produção do espaço
como decorrente da acção de agentes sociais concretos, com papéis não rigidamente
definidos, portadores de interesses, contradições e práticas espaciais que ora são
próprios a cada um, ora são comuns (Lobato Corrêa, 2012:43). O mesmo que dizer, o
espaço é um lugar construído pelos sujeitos durante as relações que estabelecem com a
natureza. Por outras palavras com se referiu Ana Fani Carlos (2012:32) o espaço como
condição, meio e produto da reprodução da sociedade, definindo-o como processo ou
movimento em constituição da própria sociedade […] como relações espaço-temporais.
Mais do que isso, o espaço como o conjunto indissociável de objectos e acções (Milton
Santos, 2009). Portanto, o espaço encarado não como um substrato inerte (natureza
pura), mas mais do que isso, o espaço é tradução da vida social. De fato a espacialidade
interfere na vida social dos sujeitos que ocorre num dado espaço, visto que é resultado
da relação social e não pode, de modo algum ser considerado como materialidade
dinâmica (Ibden, 2009).
83
Provém de Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique
180
Deste modo, a transformação pretendida pelas pessoas da imagem futura do território
que a comunidade almeja assenta nos padrões de ocupação e uso do espaço desenhado e
moldado por longos anos de vivência cultural da comunidade que é transmitida de
geração em geração através da tradição oral (Aikenhea e Ogawa, 2007:54) ou na relação
prática com a natureza, mas que confronta-se com a situação da urbanicidade que é
realizada na base do capital privado. Como se referiu Lobato Corrêa (2012, p.43) a
produção do espaço não é resultado da ‘mão invisível do mercado’, nem de um estado
hegeliano, visto como entidade supra-orgânica, ou de um capital que emerge das
relações sociais. Ainda na perspectiva do memo autor a produção do espaço é
consequência da ação de agentes sociais concretos, históricos, dotados de interesses,
estratégias e práticas sociais próprias, portadores de contradições e geradoras de
conflitos entre eles mesmos e com os segmentos da sociedade.
Contudo, os ‘vientes’ se deparam com dificuldades de inserção na urbanicidade, pois
trazem consigo a sua forma de ver as coisas, de ocupar o espaço, de pensar e agir. Em
suma, a sua cultura, que é diferente daquela que já existe e se instalou em tais cidades,
que é oposta ao paradigma dominante de exclusão. De fato, para entender os conflitos
entre os saberes não se pode de modo algum aceitar o que Barros (2011:66) se referiu na
sua obra sobre a ‘Cidade como Forma Específica de Organização Social e suas Imagens
nas Ciências Sociais’ ao afirmar que
… na transposição das ideias do evolucionismo natural para o mundo humano, abria-se a
possibilidade de se pensar a cidade como uma etapa mais avançada do desenvolvimento
humano, ou até a cidade especificamente ocidental como uma forma mais evoluída de
urbanismo para a qual deveriam convergir historicamente formas urbanas menos
elaboradas.
Essa tese mostra a forte carga do preconceito de supremacia do modelo ocidental que
procura deslegitimar os outros saberes ou outras formas de produção do espaço que não
seja o de cidade especificamente ocidental. Porque aí fica a dúvida - cidade como etapa
mais avançada, mas mais avançada em relação a quê? Ou ainda, outras formas urbanas.
Será que são mesmo menos elaboradas?
Portanto, entender o urbano dessa forma é querer impor aos outros saberes que o
urbanismo ocidental deve ser tomado como modelo a ser alcançado por outras
civilizações, ou seja tornar o modelo urbano ocidental como universal, mas isso é querer
desqualificar os diferentes modelos urbanos de outras sociedades.
181
No entanto, em Mocuba, assim como em muitas outras cidades moçambicanas vemos
um dualismo na cidade que, como se referiu Baia (2009, p.9), as imposições ou
necessidades de diversa ordem perpassa a cidade inteira misturando características
urbanas europeias e elementos de modo de vida africano. Portanto, a produção do
espaço urbano é conflituante com as formas das comunidades locais de ocupar e usar o
espaço, de construir as suas moradias, de exercer actividades para a sua subsistência,
baseada na agricultura familiar e no comércio informal, como mostram as figuras 1 e 2.
Figura 1. Bairro no subúrbio de Mocuba
Figura 2. Comércio informal em Mocuba
Esse modelo é completamente diferente daquele implantado na cidade, que organiza o
espaço em parcelas quadriculadas, com limites rígidos de separação entre o espaço e
lugar dos outros, com a construção de casas de desenvolvimento vertical, com a
produção urbano-industrial, etc. As figuras 3 e 4 mostram a forma como a parte central
da cidade de Mocuba se estrutura, com ruas amplas e asfaltadas, as casas protegidas por
muros de vedação.
182
Figura 3. Residência unifamiliar com vedação
Figura 4. Av. Principal de Mocuba muros de
vedação
De fato, a expansão mercantil desarticulou os modos de vida e de produção das
comunidades nos espaços onde foi implantado, o que criou a desterritorialização
(Haesbaert, 1994:214) dos povos indígenas, que viam-se obrigados a abandonar os seus
territórios para novos espaços. Assim, nos dizeres de Lobato Corrêa (1987 e 1989,
op.cit. Souza, 2009:2-3) a consolidação da economia de mercado e o aumento da
complexidade da divisão do trabalho contribuíram para produzir maior diferenciação
espacial. Diferenciação essa que se revela pela especialização da cidade na produção
industrial e o rural na produção agro-pecuária. De igual modo o centro da cidade é
planificada a sua construção e o subúrbio emerge do espontâneo e do informal. Daí que
os sujeitos para se urbanizarem têm que enveredar pela ruptura com o seu modo de vida
tradicional de subsistência (desterritorialização) para o moderno-mercantil, submetendose ou adaptando-se e/ou aceitando esse modelo imposto. Entretanto, os ‘vientes’ (rurais
e de outras cidades menores) também procuram reconstruir, como forma de valorização
identitária, a identidade territorial das suas zonas de origem, a reterritorialização
(Haesbaaert e Mondardo, 2010:35) diferentemente daquela que encontraram nas cidades
para onde migraram. Ao mesmo tempo os ‘vientes’ trazem suas territorialidades
imbuídas de aspectos culturais, valores e afinidades - microterritorialidades (Fortuna,
2012:202) que também querem afirmá-las na cidade.
183
A realidade encontrada no município de Mocuba permite dizer que existe um confronto
da territorialidade afirmada entre os valores difundidos pela modernidade com a
resistência das tradições dos povos locais, fazendo com que muitos ‘vientes’ não se
adaptem a urbanicidade. Quando a isso juntarmos a influência de outros povos,
estrangeiros, com os seus vivenciares, espera-se que cada um desses grupos encontre a
resposta que melhor achar à sociodiversidade do urbano. Assim, a interação desses
diferentes atores cria espacialidades que são específicas considerando as formas
diferenciadas de produção do espaço. Assim como geram desigualdades marcantes
desses lugares, revelando a espacialidade das precariedades dos seus moradores.
A geografia dessa multiplicidade de sujeitos produz articulações em redes, de diferentes
escalas, principalmente no conflito pelo parcelamento das terras tradicionais trazidas
pelo planeamento territorial do município, o que promove, do outro lado, uma ação de
oposição. Esta oposição, provavelmente seja devido ao fato de que a maioria de ‘donos
de terras’ mobiliza-se num contra-ataque para conter essas territorialidades alternativas
e de resistência que parecem brotar formando uma rede de lugares. Assim, para
entender esse conflito territorial, analisámos como transterritorialidades entendido como
atravessamento e imbricação territorial - não como um simples passar por, mas um
estar-entre, que manifesta-se como uma relação de ‘fronteira’, nos encruzamentos e
nas sobreposições de relações sócio-espaciais (Haesbaaert e Mondardo, 2010:35).
De fato, a relação de fronteira surge no decurso dos ‘donos de terras’, no seu circuito de
poder vinculado ao complexo processo de urbanização, confrontarem-se com o
movimento de resistência dos povos locais e de outros autores, olhando para a dimensão
cultural. Pois isso envolve não apenas o transito ou a passagem de uma territorialidade
a outra, mas sim a transformação efetiva dessa alternância em uma situação nova,
muito mais híbrida (ibden, p.36).
Contudo, no município de Mocuba, os povos locais não aderem, por exemplo, a forma
quadricular e construção vertical da habitação, assim como contestam o tamanho das
parcelas urbanas loteadas. De fato, um olhar sobre a cidade de Mocuba é visível um
‘espaço dividido’ (Milton Santos, 2009:96), onde, de um lado está o circuito inferior da
economia urbana essencialmente constituído por formas de fabricação de ‘capital não
intensivo’, por serviços não modernos, geralmente abastecidos pelo nível de venda e
varejo e pelo comércio em pequena escala e ‘não moderno’ (Ibden, 2009:97). Neste
fluxo de circuito inferior são visíveis as precariedades da cidade mostrando como os
184
povos locais e os ‘vientes’ impõem sua ordem no espaço, por exemplo ao montarem os
seus negócios nos passeios da cidade84 ou em barracas em fronte das residências. Do
mesmo modo os estrangeiros, principalmente nigerianos e burundeses colocam
contentores na berma do passeio para servir de loja onde vendem peças de veículos e
outros produtos, muitos deles de origem e qualidade duvidosa.
Contrariamente, encontramos o outro lado, o do circuito superior da economia urbana, o
circuito do capitalismo internacional, que é caracterizado pelo dinamismo do grande
capital, constituído por negócios bancários, comércio de exportação e indústrias de
exportação, indústria moderna urbana, comércio moderno, serviços modernos,
comércio atacadista e transporte (M. Santos, 2012:97). Daí que esta pesquisa procura
captar a espacialidade dessas desigualdades, como mostra as figuras 5 ( Circuito Inferior da
Economia)
e figura 6 (Circuito Superior da Economia), assim como a geograficidade de redes
de articulação.
Figura 5. Mercado informal no subúrbio
Figura
6.
Posto
de
Abastecimento
de
Combustível
Na decorrência da modernização contemporânea, nos países em desenvolvimento, como
Moçambique, surgem dois sistemas de fluxos de satisfação das necessidades: dos que
84
Conhecidos como boutique inclina
185
têm acesso permanente de bens e serviços e dos que não podem se satisfazer delas.
Deste modo o sistema de fluxos afasta a maioria dos sujeitos para o circuito inferior da
economia, na medida em que a indústria é cada vez menos uma resposta à necessidade
de geração de emprego (ibden, ibden:95). Pior do que isso, em Moçambique onde a
indústria era e é incipiente, baseada no processamento primário para a produção de
matéria-prima. Daí que muitos dos sujeitos encontram no comércio informal o lugar
para obter renda para a sua subsistência. Alternativamente, uma parte considerável da
população emprega-se em setores com salários baixos e dependendo de trabalho
ocasional ou sazonal, em contraposição, muito poucos integram-se em empregos com
salários altos, por falta de qualificação técnica.
Neste contexto, analisamos o tipo de demanda trazidos pelo setor informal na economia
da cidade não como desvio em relação ao padrão, mas sim como resposta que as
comunidades locais dão, ou até como uma forma específica e local de produção do
espaço. Consideramos assim, porque o setor informal surge como trabalho barato e ao
mesmo tempo como atividade que fornece produtos a preços mais baixos que as
famílias de baixa renda podem pagar.
Portanto, evidenciamos que a dinâmica interna da cidade é tratada como um ciclo, como
interatividade da vida urbana, como espaço em rede. Assim procuramos mostrar a
relação que se estabelece entre os dois circuitos da economia urbana como um processo
de complementaridade, de concorrência e de subordinação de um sobre o outro,
evidenciando as suas precariedades. Analisamos dessa forma pelo fato das pessoas que
vendem na rua ou em feiras, por exemplo, alguns exercerem essa atividade não por
conta própria, mas como empregados indiretos do setor formal, uma estratégia de fuga
ao fisco.
De igual modo existem os informais que trazem produtos, muita das vezes do Malawi
ou de outros países, contra todos os riscos, no intuito de contornar a fiscalização
aduaneira, que depois são vendidos, quer aos formais, quer aos informais. Assim, o
estudo pretende demonstrar que o informal não é apenas uma adição à economia formal,
nem uma adição de corpos estranhos, mas sim uma dinâmica interna da geograficidade
da cidade de Mocuba. Em suma, o estudo pretende introduzir uma reflexão sobre as
conexões de espaços relativamente marginais que não tem sido prestada muita atenção,
o que no nosso entender constitui acréscimo à Geografia Urbana.
186
Portanto, a pesquisa mostra a geograficidade desses processos de vida na Cidade de
Mocuba. Deste modo, um devir de novas territorialidades ocorre, assim, na cidade de
Mocuba, olhando para o tipo de construções de habitação e lojas, das vias de acesso, da
culinária, da edumentária, de danças e de ensinamentos da vida inclusiva e formas de
solidariedade desses todos atores, que reinventam suas identidades territoriais em
intercâmbios político-culturais bastante fecundos. A contribuição teórica da pesquisa
reside no fato de procurar demonstrar a geograficidade do caráter interativo entre as
várias formalidades (ordens, saberes) que interferem na produção do espaço urbano na
cidade de Mocuba, nomeadamente as ditadas pela expansão mercantil e a das
comunidades locais, com as respectivas desigualdades espaciais.
2.
Dimensão Cultural no Urbano e Estruturação dos Espaços
Existem evidências bastante para considerar a relação estreita entre a cultura e o urbano.
Aportes sobre essa matéria foi devidamente referida por vários estudiosos de entre os
quais se pode citar Meining (1979), Berdoulay (1982) Cosgrove (1984, 2000 e 2003),
Amarildo, Rosnick e Wolff (1988), Jackson (1989), Geertz (1989 e 2004), Ducan
(1990), Oliver (1996), Ley (1996), Williams (1997), Wheeler (1998 e 2002), Oliveira
(2000), Guaraschi (2000), Lobato Corrêa (2003), entre outros.
Consideramos pertinente a abordagem de Lobato Corrêa (2014:175), quando se refere
ao fato de que a cidade, a rede urbana e o processo de urbanização se constituem em
expressões e condições culturais. Tanto é assim que quando olhamos para a cidade de
Mocuba, uma cidade média do interior de Moçambique notamos as diferenças que
apresenta em relação a mesma cidade no período colonial e na atualidade. Hoje vivem
nela, tanto no centro como na periferia, sujeitos de várias origens (oriundos do rural, de
pequenas cidades, do estrangeiro, ricos e pobres, funcionários públicos e privados,
dirigentes e dirigidos). Contrariamente, no período colonial a centralidade era marcada
pela posição social e de poder que os indivíduos ostentavam. Tanto era assim que no
centro da cidade ou ‘cidade cimento’ (Araújo, 2003) viviam os representantes do poder,
os indivíduos de maior posse, a população branca e os demais habitavam o subúrbio.
Vários outros exemplos podem ser apresentados, mas para os propósitos deste estudo
vamo-nos cingir a alguns que nos parecem ser os mais elucidativos, os quais se referem
a relação entre a cultura e urbanismo considerando a influência da esfera política e
esfera econômica. De fato, na cidade de Mocuba, como se referiu Lobato Corrêa
187
(2015:2) a cultura manifesta-se tanto na esfera da política como do econômico em sua
dimensão espacial. As relações entre cultura, política e economia podem ser vistas por
meio de formas simbólicas, representações materiais ou não, criadas com base nas
conexões entre significados e as diversas formas de linguagem (Ibden, 2015:3, op.cit
Hall, 1997). Do mesmo modo, os significados contidos nas formas simbólicas fornecem
sentido às diferentes esferas da vida (Ibden, op.cit. Cassirer, 2001/1923).
Quando nos refirimos as formas simbólicas para um trabalho de Geografia estamos
dizendo que elas só se tornam formas simbólicas espaciais quando estiverem ligadas ao
espaço, criando influência neste e se for influenciado por esse espaço.
Olhando para os lugares da cidade de Mocuba é evidente visualizar localizações e
mobilidade, que ora são fixas (monumentos, memoriais), ou móveis, como as
procissões, as paradas militares, as marchas de protesto (Corrêa, 2011, 2012). Para o
caso de localizações fixas encontramos a Estação dos Caminhos-de-Ferro (CFM), a
Igreja Nossa Senhora de Livramento, a Escola Serpa Pinto, hoje Escola Primária
Completa Eduardo Mondlane, o Colégio Amor de Deus, hoje Escola Secundária, a
Mesquita Central, entre outras.
Porquanto as localizações e mobilidades móveis, podem ser marchas de repúdio, de
apoio a qualquer acontecimento ou decisão tomada pelo poder ou até gincanas de carros
(drifts), desfile de carnaval, entre outras. Neste caso, elas passam pela estrada principal
que divide a cidade e terminam na Igreja Nossa Senhora de Livramento ou na rotunda
em fronte do Edifício do Governo Distrital, lugares de densidade simbólica, que ora são
retóricos ora são vernaculares (Boyer, 1994:321).
No entanto a esfera econômica joga a sua influência na produção do espaço, na medida
em que hoje Mocuba joga um papel de destaque no fluxo de transporte e o seu peso na
economia da província da Zambézia do que a cidade de Quelimane, capital Provincial.
Até aos finais do século XX o transporte marítimo e o respetivo porto possuía maior
peso no setor de transportes, mas que está perdendo lugar já que está cedendo ao
transporte rodoviário, no decurso da desativação da linha férrea. Dados obtidos junto da
Direção Provincial dos Transportes e Comunicações da Zambézia (DPTCZ) indicam
que até meados da última década do século XX os navios que escalaram o porto de
Quelimane manusearam pouco mais de 16 mil ton*porto de carga diversa, contra 16.4
milhões de ton*km de carga manuseada pelo transporte rodoviário. Já na virada do
século o porto manuseou 141.5 mil ton*porto, contra 45.8 milhões de ton*km do
188
transporte rodoviário. Enquanto em 2014 o porto manuseou 203 mil ton*km, contra 18
milhões de ton*km de carga manuseada pelo transporte rodoviário. Portanto, passados
pouco mais de três décadas a situação de carga manuseada favorece ao transporte
rodoviário que supera em grande medida o manuseamento de carga portuária. Este fato
pode ser visto como uma anomalia ao sistema econômico, mas deriva do papel
estratégico e posição regional que Mocuba joga.
Do mesmo modo, em Mocuba identifica-se a sua língua, que no dizer de Lobato Corrêa
(2007:14), é o mais importante meio para expressar a identidade, uma vez que por
meio dela são criados conceitos e significados, estabelecendo-se diferenças entre
distintos grupos (Gade, 2003). Do mesmo modo, a língua expressa a cultura de um
povo, expressa a forma de ser e estar, de lidar com as coisas, de ordenar essas coisas no
espaço, de erguer as suas construções, ou seja é a marca e matriz identitária. Por outras
palavras como se referiu Lobato Corrêa (2007:15) a língua exibe uma espacialidade
manifesta nos territórios linguísticos, seja por meio da fala e da grafia, seja por meio
da toponímia, ou seja, nome de montanhas, rios, países, cidades, bairros e ruas. A
espacialidade manifesta nos territórios por meio de toponímia que adquire um explícito
sentido político quando esse território é objeto de disputa entre grupos, quando é
conquistado ou quando submetido a profundas transformações políticas. Como
exemplo, podemos citar o monte Iero (lugar de peregrinação85), a praia Costa de Sol no
rio Licungo, Bairro Samora Machel (em homenagem ao primeiro Presidente de
Moçambique independente), Bairro Tomba d’água (onde se localiza o depósito elevado
que fornece água a cidade), Igreja Nossa Senhora de Livramento (padroeira da cidade),
Pensão Cruzeiro (local de hospedagem de pessoas que vinham das vilas de Lugela,
Namarrói, Errego, Gurué, Milange e Maganja da Costa ou de outras cidades de Norte,
Centro e Sul de Moçambique, que passavam por Mocuba). Alguns desses nomes (bairro
Samora Machel, Josina Machel, 25 de Setembro e 3 de Fevereiro) são resultado de
mudanças na natureza política do país que gerou políticas de resignificação das formas
simbólicas espaciais até então existentes. Nestes casos a toponímia pode ser vista como
articulação entre língua, poder territorial e identidade (Lobato Corrêa, 2014 op.cit.
Azaryahu e Golan, 2001), que se impôs sobre a identidade dos povos locais. Porque no
dizer de Geertz (1989, citado por Lobato Corrêa, 2007)) a toponímia é caracterizada, em
muitos casos, como parte de política cultural ou, de política de significados, que para o
85
Conta-se que no local teria aparecido a Nossa Senhora
189
caso em apreço não considerou a identidade cultural do indígena, dos povos locais e
muito menos dos residentes desses locais. Para mais aporte sobre a temática da
toponímia, veja as proposições críticas elaboradas por Geertz (1989), Gade (2003),
Corrêa (2004 e 2015) Rose-Redwood, Alderman e Azaryahu (2010).
Para melhor entender a língua da cidade é necessário decifrar o seu texto (Barros, 2011)
onde o seu leitor privilegiado é o habitante (ou o visitante) que caminha nela. Esse
sujeito percorre a cidade quer seja nas suas atividades cotidianas para o caso do
habitante já estabelecido, seja nas atividades excecionais, para o caso dos turistas e
também do habitante que se desloca para um espaço que lhe é pouco habitual no interior
de sua própria cidade. Além disso, quando caminha, se prestar atenção, vai assimilando
a paisagem urbana e pode sintonizar com um gesto de decifrar a cidade, como um leitor
que decifra um texto ou um livro. Esse fato é claramente descrito por Roland Barthes
(2001:224) quando afirmou que a cidade é um discurso, e esse discurso é
verdadeiramente uma linguagem: a cidade fala a seus habitantes, fala a seus visitantes,
da mesma forma que um leitor percebe a fala de um texto, de um livro. E mais, como os
sociólogos analisam a dinâmica interna de uma cidade ao afirmarem que ela
… fala eloquentemente dos critérios de segregação presentes
em sua sociedade por meio dos múltiplos compartimentos em
que se divide, dos seus acessos e interditos, da materialização
do preconceito e da hierarquia social em espaço. Sua paisagem
fala de sua tecnologia, de sua produção material; seus
monumentos e seus pontos simbólicos falam da vida mental dos
que nela habitam e daqueles que a visitam; seus caminhos e seu
trânsito falam das mais diversas atividades que no seu interior
se produzem; seus mendigos falam da distribuição de sua
riqueza ao estender a mão em busca de esmolas. Cada um
desses índices remete às letras de um alfabeto que pode ser
pacientemente decifrado pelos sociólogos, pelos historiadores,
pelos urbanistas. A cidade, sem dúvida, pode ser ‘lida’ (Ibden).
Contudo, para os geógrafos a cidade possui várias metáforas com sua própria
espacialidade, uma vez que essas inscrições ocorrem em vários lugares e cada um com a
sua especificidade que a diferencia da de outros lugares. Daí que cabe ao geógrafo
interpretar e representar a espacialidade desses vivenciares.
Portanto, para os saberes locais há fatos e evidências que a diferenciam do saber
ocidental, dito moderno e científico. De entre muitos outros exemplos que podem ser
referenciados pode se citar o das relações pessoais informais nas comunidades que se
estabelecem entre os vizinhos e colegas de trabalho (no mercado ou barraca). Essas
190
relações acabam se constituindo como blocos de coesão das mais elaboradas ordens
sociais e enriquece a vida diária dos membros de uma comunidade (Ikeda, 2004 op.cit.
Murray, 1988). O caso mais elucidativo é o que Jacobson (1961:35) designou de ‘olhos
na cidade’ como a tomada de atenção dos habitantes sobre o que está a acontecer na
comunidade, ou o que sucede no bairro onde vizinhos, a partir das suas janelas, dão uma
mirada para controlar as crianças dos outros. Tem sido comum os vizinhos acompanhar
as crianças a bricar ou a jogar, para que nada de mal lhes aconteça. O mesmo se pode
dizer sobre o ‘conhecimento local’ que consiste em conhecer como ter as coisas feitas e
como reforçar a segurança em espaços públicos. Isto reforça a expetativa de segurança
entre os vizinhos, porque os moradores esperam que qualquer vizinho ou mesmo uma
pessoa estranha, possa ajudar a preservar as normas de convivência da comunidade.
Para que se estabeleçam as relações pessoais informais nas comunidades as construções
das moradias ficam próximas umas das outras, como forma de facilitar a mirada dos
vizinhos ou mesmo de convivência.
Um outro exemplo é o que mostra a relação entre cultura e esfera econômica da vida de
Mocuba com o vulgo ‘chitiqui’86, uma forma de economia puramente rural. O ‘chitiqui’
está se generalizando nas zonas urbanas como forma de micro-crédito e poupança, onde
é usado para financiar a construção de habitação das pessoas de baixa renda ou para
iniciar atividades econômicas, comércio, etc.
Estes fatos diferem, em forma e conteúdo, com o que acontece na cidade ‘moderna’
hoje que se desenvolve em malha quadriculada, com ruas e avenidas largas para
permitir a circulação de automóveis. Do mesmo modo vão surgindo a partir de 1990,
bens e serviços simbólicos, nos entretenimentos, na alimentação, na educação e nos
objetos domésticos, os quais adquirem novos significados (Lobato Corrêa 2015:9). De
fato na virada do século passado, vieram convergir na cidade moderna ‘shopping
centers’, parques e lojas temáticas, ‘griffes’ de roupas, móveis e objectos de adorno
(Scott, 2001). Aí convergem igualmente poderosas corporações resultantes da
globalização como a Sony, Disney, McDonald, Pizza Hut, Burger King e KFC. No caso
da cidade de Mocuba essa influência ainda é incipiente, mas espera-se que muito
rapidamente venha convergir quando estiverem sendo instalados os mega-projetos no
âmbito da Zona Económica Especial. Contudo, é visível o surgimento de instituições
86
‘chitiqui é uma forma de agiotagem onde as pessoas de baixa renda fazem contribuição (mensal ou
semanal) em grupo de certo valor monetário, valor esse que é repassado mensalmente a cada membro.
191
financeiras tais como Millenium Bim, Banco Comercial e de Investimento (BCI) com
capitais portugueses, o Barckley Bank, Standard Bank, com capitais britânicos, assim
como seguradoras (ÍNDICO, IMPAR), as gasolineiras ENGE e TOTAL. Estão ainda
sendo instalados supermercados para a venda de produtos alimentares e de uso corrente
tais como Casa de Frutas (de um sul-africano de origem portuguesa), Number One (de
capitais chineses), de Fast Food (de cidadãos somalis e burundeses) que surgem em
quase todas as grandes paragens de transporte rodoviário. Algumas lojas representam
marcas de corporações tais como a SAMSUNG, BAYER, SONY, HP, SUPER
GENERAL, SHITIANG, entre outras.
Paralelamente estão sendo erguidos condomínios ou loteamentos fechados, e que por
alegadas razões de segurança instalam dispositivos de segurança, constituídos por
guardas armados, alguns já com câmaras de vigia. Esses loteamentos por serem
fechados marcam nitidamente os dois circuitos de economia e suas desigualdades. Por
outras palavras separa o circuito da riqueza, dos que têm acesso permanente a serviços e
bens, do bem-estar social e do outro lado o circuito da pobreza, do informal, daqueles
que não pode se satisfazer das suas necessidades, da busca constante do bem-estar.
Um olhar cruzado destes dois cenários se constata que quando alguém sai das zonas
rurais as casas quase que não têm porta, quando muito apenas é colocado algo que veda
os lugares íntimos. Quando se avança para o subúrbio elas já dispõem de porta, mas
quando vamos para a periferia das cidades, aí tanto as portas assim como as janelas
possuem grades metálicas. Porquanto no centro da cidade as casas são guarnecidas por
forças de segurança, com câmaras, algumas das quais conectadas a sistemas de controlo
central.
3. Escalas Espaciais, Tempo e Espaço
Para os propósitos deste artigo, consideramos cinco níveis de escalas espaciais que
influenciam a ocupação do espaço. O primeiro tem a ver com a escala local, como
resultado da interacção entre a sociedade e a natureza, o qual distinguem-se dois subníveis: os elementos naturais e os elementos sócio-culturais.
Para o caso do Município de Mocuba muitos factores naturais contribuíram para o
processo de urbanização. A morfologia do terreno favoreceu a instalação da urbe num
planalto, próximo da confluência de dois rios (Licungo e Lugela), com solos férteis,
192
clima tropical húmido e presença de uma rica biodiversidade, etc. Daí que a interação
desses fatores favoreceram o processo de urbanização e cria suas influências. Por
exemplo os fatores naturais (rio, planalto, floresta, etc.) podem constituir oportunidades
para o desenvolvimento económico e social (continuidade), mas também podem ser um
obstáculo a esse desenvolvimento (descontinuidade). Por outras palavras, um rio (rio
Licungo) criou descontinuidade para o crescimento da cidade de Mocuba, mas a
construção da ponte veio superar essa limitação, pois abriu espaço para a continuidade
da área urbana. No entanto, as fortes chuvas registadas no início deste ano, fez com que
a fúria das águas do Licungo inundasse as duas margens tendo destruído infra-estruturas
sociais, várias centenas de hetares de machambas da população e desalojou várias
centenas de pessoas das suas casas.
Este rompimento criou descontinuidade não só para as duas margens do rio, mas afetou
o tráfego rodoviário nacional interrompendo a ligação do Centro ao Norte do país. A
interrupção verificada levou mais de um mês para a sua reposição, fato que obrigou a
mobilizar cinco embarcações para baldear as pessoas e bens de uma margem a outra.
Outro exemplo a considerar é o rio Lugela, outra discontinuidade, pois dificultou o
estabelecimento de relações com o distrito do mesmo nome e mesmo com o de
Namarrói, para colocar os seus produtos agrícolas no porto seco de Mocuba e deste ao
mercado provincial, quando a ponte desabou em 2000.
De igual modo a sociedade possui sua cultura, a cultura local, resultado da dinâmica
interna da própria sociedade que foi acumulando seus conhecimentos ao longo das
gerações. Essa cultura local pode constituir descontinuidade ao desenvolvimento da
própria cidade, como também serve de alavanca (continuidade) para o desenvolvimento.
A questão é até que ponto a cultura local, cultura de um povo, pode constituir barreira
ou pode ser força motriz do desenvolvimento? A cultura pode criar descontinuidade ao
desenvolvimento quando os sujeitos sociais resistem as ordens que lhes são estranhas ou
mesmo com as formas de planeamento urbano impostas pelo Estado (Município) e pelo
capital, por considerar ‘estranhas’ a sua forma de ocupar o espaço. Do mesmo modo a
cultura dos sujeitos pode facilitar o desenvolvimento ao aplicarem a sua capacidade e
conhecimento local para incorporá-los nos sistemas de produção, da economia em prol
do bem-estar das pessoas.
O segundo, corresponde ao nível provincial, uma vez que a Cidade de Mocuba
constitui um porto seco, que recebe produtos tanto de Mocuba, como dos distritos
193
vizinhos, aqueles sob sua influência territorial e os coloca na economia provincial. Esses
produtos são transportados para o porto de Quelimane, antes por via-férrea e atualmente
por via terrestre (devido a desativação da linha férrea) e são depois encaminhados para
as diversas partes de Moçambique. Do mesmo modo, os produtos agrários,
principalmente os cereais (milho), algodão e tabaco são comercializados em Nampula.
Aqui já estamos na escala nacional.
No entanto, de Mocuba saem muitos produtos para outros países, visto que da cidade de
Mocuba são transportadas muitas quantidades de milho para o Malawi, no contexto da
integração regional. Contudo, há que considerar o caráter relativo da proximidade,
visto que Mocuba interage com povos oriundos de países longínquos. Isto comprova a
influência externa sobre o espaço de Mocuba, já que, apesar da interação com pessoas
oriundas de países mais próximos como Malawi, Zâmbia e Tanzânia, as evidências
permitem verificar que o local atrai agentes econômicos e cidadãos de países e regiões
mais distantes, tais como Burundi, Somália, Nigéria.
O quinto nível/escala é o global, da globalização, que é a mais difusa e complexa, uma
vez que atua sobre as outras, quer de forma direta, como indireta, visto que sai
fundamentalmente madeira e algodão para os países asiáticos. De fato, no âmbito global
vemos paquistaneses, envolvidos na comercialização da castanha-de-cajú, gergelim e
feijão bóer. Mas também frequentam o local Chineses e outros cidadãos de países do
extremo oriente para a comercialização, principalmente da madeira.
Assim todos esses fatores interagem entre si para criar a sociodiversidade na
urbanização em Mocuba, mas também essa sociodiversidade possui manifestações
específicas que é necessário desvendar para teorizar a sua espacialidade.
Há espaços onde predominam fatores locais, mas há espaços que revelam mais as
funções nacionais trazidas pela independência, com a política de unidade nacional. Há
outros espaços que mostram evidências da função regional e outros ainda como reflexo
da globalização, que possuem seus agentes, tanto locais, provinciais, nacionais e até
regionais. Todas essas funções acabam funcionando em rede e fluxos complexos de
relações.
Qualquer influência no espaço ocorre num determinado tempo. É sabido que o local é
secular, é resultado da acumulação de conhecimentos e experiência de vida das
comunidades locais, experiência essa que é transmitida de geração em geração pela
194
tradição oral (Hissa, 2007:7). O lugar tem comportamentos básicos e típicos que são
ímpares em determinados espaços e não em outros. Considerando que o povo local do
corte temático em análise se situa na área de sociedade matrilinear, são os homens que
vão fixar residência no espaço da família da mulher. Assim, o espaço é da pertença da
mulher, é ela que detém o poderio econômico, mesmo que tal poder seja exercido por
um homem, esse homem não é o marido, mas sim o tio. Então a ocupação do espaço é
influenciado pela cultura instituída na comunidade.
No entanto, com a expansão da produção mercantil, a influência da cultura foi
enfraquecida, passando a pesar ou mesmo a determinar as formas ditadas pelo capital,
pela mercadorização do espaço. Desse modo ocorreu a desterritorialização dos povos
locais. É por isso que se formou, de um lado a zona urbanizada87, onde se encontram as
melhores infra-estruturas e os serviços, que era habitada pelos detentores de poder (o
estado) e os ‘novos proprietários de terras’, resultante de um movimento intenso de
expropriação. Do outro instalou-se o subúrbio que rodeia a primeira, onde vivem os
servidores do capital, os destituídos de infra-estruturas e serviços. É aqui onde moram
os legítimos ‘donos de terras’, mas também onde é visível as precariedades.
A independência Nacional (25 de em Junho de 1975) começou a criar influência no
espaço. Houve saída dos colonos e as suas casas, incluindo as de aluguer, foram
nacionalizadas88, passando a ser habitadas pelos moçambicanos que viviam antes no
subúrbio. Deste modo criou novas territorialidades no espaço. Foi a independência que
veio trazer de volta os sujeitos empurrados para a periferia, fato que produz a
reterritorialização, mas ao mesmo tempo criou novos conflitos, pois que o sistema
socialista introduzido não permitiu a retomada das terras expropriadas. Assim essa nova
ordem, do poder de Estado que determina que a terra é propriedade do Estado, veio criar
novas espacialidades, mas ao mesmo tempo novos conflitos (conflitos entre os ‘donos
de terras’, que julgavam reaver as terras expropriadas pelo capital, e o Estado que define
a terra como propriedade do Estado). Do mesmo modo, procurou eliminar a propriedade
privada, o que impossibilitou investimentos privados na imobiliária. Sendo assim,
assistiu-se a uma estagnação total do parque imobiliário, visto que as únicas construções
realizadas foram efetivadas por empresas estatais, caso é o Complexo Têxtil de Mocuba.
87
A zona urbanizada inclui os bairros Central, 25 de Setembro, 3 de Fevereiro, parte dos bairros Sacras,
Tomba d’água, CFM e Marmanelo.
88
Passaram a ser propriedade estatal ou colectiva
195
Esta empresa para além da fábrica e escritórios construiu um bairro constituído por cem
casas para técnicos e operários.
Pouco menos de duas décadas de independência, agudizou-se o conflito entre a
propriedade coletiva dos meios de produção com a propriedade privada que culminou
com a guerra dos dezasseis anos. Os efeitos dessa guerra teve mais influência nos
bairros Samora Machel, Macuvine, Aeroporto e Muanaco, quer por ser a zona que foi
sendo afetada, como foi também a zona de recepção de novos migrantes que chegavam
a cidade de Mocuba. Este processo veio agravar a situação da ocupação do espaço, já
que trouxe nova desteritorialização das comunidades que sofriam diretamente os efeitos
da guerra, assim como trouxe novos atores de produção do espaço. Criou também a
ruralização da cidade (Araújo, 2002 e Bahia, 2004) fenómeno que veio evoluindo até
alcançar a privatização de espaços públicos. Assim, a cidade coabita com várias ordens
de produção do espaço urbano: a ordem das comunidades locais, a ordem do
Estado/Município e ordem do capital.
A municipalização, que ocorreu em 2008 está influenciando a ocupação do espaço na
medida em que quer impor a nova ordem instituindo, a requalificação urbana dos
subúrbios, através do parcelamento do solo urbano. Está criando uma nova
destrerritorialização, na medida em que vai empurrando os sujeitos de menor posse para
as zonas de expansão que não possuem as condições que haviam na cidade, mesmo no
subúrbio.
Além disso, começam a surgir novos problemas na cidade, uma vez que vão sendo cada
vez mais visíveis as desigualdades, não só entre os sujeitos, mas também entre os vários
lugares na cidade, portanto vão surgindo novas espacialidades, algumas das quais
evidenciam precariedades acentuadas ou mesmo constituem focos de violência e
criminalidade.
Portanto, esta forma de ocupação do espaço procurou responder a questão da integração
do paradigma da diversidade e inclusão sem descriminar e excluir os vários atores, bem
como os papéis que a cidade de Mocuba desempenha, na qualidade de cidade média,
perante os novos problemas urbanos e novas perspetivas de desenvolvimento
Considerações Finais
196
Como se pode depreender a urbanização em Mocuba resulta do dinâmica de relações
que foram surgindo na interação sociedade e natureza, que fez emergir novas relações,
relações entre os vários atores ou sujeitos, entre os atores com o espaço e relações a
várias escalas.
Os atores de produção do espaço em Mocuba são o Estado, que impõe o poder, através
da imposição de leis; o capital privado, que sob as várias formas vai se afirmando como
proprietária dos meios de produção, incluindo a terra, obtida sob forma de expropriação,
em colaboração com o Estado, mas que foi combatida nos primeiros anos da
independência; e os sujeitos sociais que foram expropriadas as suas terras, sujeitos a
exploração da sua força braçal (desterritorialização) e enfrentaram processos de
urbanização. Contudo, os sujeitos sociais respondem de várias formas a essas
imposições, mas crescentemente urbanizados. Para tal, tiveram que romper com o seu
modo de vida, a sua cultura, para enfrentarem a urbanicidade e se comportar como
estipulado pela ordem instituída.
A urbanização em Mocuba pode ser analisada em diferentes escalas, desde a local,
prestando atenção aos fatores que a influenciaram (natureza e cultura), a escala
nacional, como Mocuba participa na dinâmica nacional; a escala regional, olhando para
a participação de Mocuba na integração regional da África Austral; e a escala global,
prestando a atenção na participação de Mocuba na aldeia global, centrando-se nos
aspetos de fluxos e rede do capital internacional. De igual modo a reflexão da
urbanização foi abordada na vertente tempo, a passagem histórica partindo do período
anterior a expansão mercantil, no período de dominação colonial, período da
independência e atualmente com a municipalização.
197
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200
DA DESCENTRALIZAÇÃO URBANA À DIALÉTICA ENTRE CENTRO E
CENTRALIDADE: UMA ANÁLISE DA CIDADE MÉDIA DE RESENDE, NO
MÉDIO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE
Monique Deise Guimarães Bastos89
Resumo
A reestruturação produtiva, vinculada ao período Pós-Fordista dos anos 70, redefiniu
em várias escalas a organização espaço-temporal do trabalho, repercutindo nas cidades
os rebatimentos de sua dinâmica. A interação entre este gênero de reestruturação e,
neste sentido, a reestruturação urbana, ganha ainda maior visibilidade no recorte das
cidades médias, entendidas como importantes espaços para a reprodução da lógica
produtiva atual. Desta forma, o objetivo do presente trabalho é o de compreender os
reflexos de tais interações na cidade média de Resende, localizada no Médio Vale do
Paraíba no Estado do Rio de Janeiro, a partir do processo espacial da descentralização
urbana e de sua implicação na relação dialética entre centro e centralidade.
Palavras-chave: Reestruturação produtiva, Reestruturação urbana, Cidades médias.
1. Introdução
Responsável pela redefinição do espaço da cidade, o processo de reestruturação
urbana tem feito parte de sua história há várias eras, assumindo em cada uma delas um
caráter próprio, mas não totalmente desvencilhado do das demais. Nesta perspectiva, a
dinâmica de reestruturação urbana está ligada a atuação de inúmeros processos que
redefinem a organização convencional da cidade, promovendo em seus espaços a
coincidência entre os novos elementos de sua composição e os resíduos de uma
estrutura anterior; em outras palavras, a combinação entre mudança e continuidade.
Já a partir de seu caráter histórico, a reestruturação urbana e, por assim dizer, a
reestruturação da cidade, pode ser compreendida como tendo sido fortemente
impulsionada a partir da difusão de uma nova lógica no âmbito produtivo, ascendida
ainda na década de 70, inspirada pelo novo modelo Pós-Fordista de produção. Atendida
89
Graduanda em Licenciatura em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bolsista no
Laboratório de Geografia Urbana, vinculada ao Grupo de Reestruturação Urbana e Centralidade
(GRUCE) e no Projeto de Pesquisa intitulado Reestruturação Urbana no Estado do Rio de Janeiro:
Governança e desenvolvimento Territorial no Médio Vale do Paraíba. Trabalho orientado pelo Professor
Doutor William Ribeiro da Silva.
201
pelo termo de reestruturação produtiva, este processo concebeu uma nova forma de
organização do espaço produtivo em escala mundial, repercutindo no palco das cidades
os efeitos de seus ditames. A partir de então, portanto, é que ambos os processos, de
reestruturação urbana e produtiva, passam a se articular, redefinindo de modo marcante
o espaço das cidades a que se sujeitam.
Nesta direção, segundo o novo arranjo espacial da produção, que as cidades
médias irão se inserir a medida que atendam aos novos requisitos condicionados pelo
modelo flexível de produção vigente. Por conta disso, estes espaços tenderão a passar
por redefinições em seus processos e formas espaciais, o que repercutirá em novas
funções tanto na escala intraurbana, quanto interurbana destas cidades. Tais impactos
são os que podem ser notados no caso de algumas cidades médias brasileiras, que, a
partir da abertura econômica dos anos 90, se inseriram nos circuitos produtivos
mundiais, testemunhando importantes redefinições de suas estruturas urbanas.
Assim, dentro desta teia de relações e processos, que a cidade média de
Resende, no Sul Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, serve de modelo dos reflexos
ressonados pela interação entre reestruturação urbana e reestruturação produtiva. Por
esta perspectiva, o presente trabalho trará subsídios que apontem para a emergência de
um novo subcentro de comércio e serviços em um dos bairros desta cidade - o bairro
Cidade Alegria - e evidenciará a relação dialética entre esta categoria de centro e sua
centralidade, assinalando a reestruturação produtiva como a propulsora da
reestruturação analisada no município de Resende/RJ.
2. As cidades médias como interseção entre as reestruturações urbana e produtiva
Surgido quando “a antiga ordem está suficientemente esgarçada para impedir
os remendos adaptativos convencionais”, o processo de reestruturação, segundo Soja
(1993), se mantém na relação entre manutenção e transformação de uma ordem vigente,
sendo mais do que apenas sinônimo de mudança, como muitas vezes pode ser apontado.
Nesta direção, a dinâmica de reestruturação se orienta em diversos gêneros de mudança,
podendo alguns deles estar relacionados entre si, como no caso das reestruturações
produtiva e urbana.
No que tange a reestruturação produtiva, em uma das quais se baseia o presente
trabalho, Harvey (2009) esclarece que tal movimento, inspirado por um regime de
acumulação flexível, passou a redefinir a organização do espaço-tempo nas relações de
202
trabalho. Desta forma, a ideia de reestruturação produtiva, que poderia ser entendida tão
somente enquanto uma reconfiguração dos padrões técnicos de produção, na verdade,
acaba por se utilizar do espaço enquanto condição e reflexo de sua reprodução.
Ainda segundo o autor, este processo passou a se apropriar das vantagens
locacionais oferecidas por certos lugares, sendo exploradas deles, assim, suas “pequenas
diferenciações espaciais”. Nesta perspectiva, o espaço acaba por servir de interseção
entre as duas lógicas de reestruturações mencionadas: a produtiva e a urbana, estando a
primeira se valendo do palco das cidades para se reproduzir, e a segunda sendo tanto a
condição para a viabilização deste projeto econômico-produtivo, como o reflexo da
articulação entre ambos os processos.
É nesta direção que a cidade de Resende, localizada no Médio Vale do Paraíba
Fluminense, foi promovida a objeto desta análise, por se tratar de um espaço em que as
reestruturações produtiva e urbana claramente se integram. Através de cidades
estruturalmente semelhantes a ela, o novo modelo produtivo tanto tem se reproduzido,
como se tornado o mentor de inúmeras redefinições do seu espaço intraurbano, e de sua
posição e função interurbana.
Através desta perspectiva escalar, uma reflexão mais apurada sobre o processo
de reestruturação urbana insere na discussão outras dimensões de análise, que reportam
a dinâmica como mais do que uma mera redefinição do espaço da cidade. Assim,
acrescentando-se a variável escalar na compreensão deste conceito, SPOSITO (2007)
considera o processo sob duas escalas, uma interurbana, regional, com interferência nas
redes urbanas – a reestruturação urbana; outra intraurbana, que se repercute no próprio
recorte interior da cidade – a reestruturação da cidade. Contudo, é imprescindível
ressalvar a articulação entre ambas, já que “não há estruturação urbana sem estruturação
da cidade e vice-versa” (SPOSITO, 2004, p. 312), o que pode ser perfeitamente
observado no caso do município de Resende.
Porém, além da dimensão da escala, a discussão sobre reestruturação urbana e
da cidade sugere indagações outras, como as das suposições que expliquem as
motivações para esta dinâmica. Entretanto, como já apresentado, o processo de
reestruturação urbana faz parte de movimentos já previstos no enredo histórico das
cidades em várias de suas épocas, tornando necessária a delimitação de um espaço e de
um tempo que facilite o apontamento daquilo que serve como motivação para esta
tendência.
203
No que tange, portanto, ao processo recente de reestruturação urbana e da
cidade no caso brasileiro, é importante atrelá-lo a outro processo, já indicado, que
também leva em conta a lógica de reconfiguração de um modelo já estabelecido, neste
caso, o produtivo. Em outras palavras, grande parte do movimento de reestruturação
urbana em cidades brasileiras, sobretudo as que atendem por determinadas categorias,
como é o próprio caso da cidade de Resende/RJ, depende de ser entendido sob a ótica
da reestruturação produtiva.
Assim sendo, por se aceitar o processo de reestruturação produtiva enquanto,
também, e de forma bastante importante, uma reorganização da ordem de localização
espacial de bases produtivas, as cidades médias assumiram um papel destacado neste
processo. Enquanto anteriormente ao período de acumulação flexível, nos anos 70, as
empresas tendiam a se organizar de modo espacialmente concentrado, a partir de então,
estas passaram a atender a uma lógica de localização que se vale de modo
preponderante do espaço das cidades médias para se estabelecer. É o que reitera Sposito
(2007):
“As cidades médias têm sido escolhidas como pontos de apoio
de diferentes tipos de empresas, sejam de ramos industriais ou
de ramos comerciais, em suas políticas de desconcentração das
atividades produtivas e de expansão das redes de
comercialização de bens e serviços.”
Neste sentido, a nova lógica de organização do espaço produtivo no mundo
passa a atender por novos critérios, que reorientam a localização de bases industriais em
escala global, inclusive no Brasil. Tal como destaca Stamm (2003), “devido às
facilidades dos
meios de comunicação e transporte, as empresas estão se
interiorizando”, buscando, principalmente, “à isenção de impostos e acesso à mão de
obra qualificada e, de preferência, não ligada às forças sindicais”, o que passa a
justificar o incremento de importância adquirida pelas cidades médias, quando estas
correspondem a estas novas demandas produtivas.
E estas são justamente algumas das características estruturais que fazem da
cidade média de Resende, no Estado do Rio de Janeiro, um ótimo exemplo que
materializa a atual interseção entre espaço urbano e espaço produtivo. Através da
promoção desta cidade à destino de importantes empresas de capital internacional,
Resende se insere ativamente nos circuitos econômico-produtivos mundiais,
204
materializando, ao lado de outras cidades do mundo, tanto a atual forma de organização
espacial da produção, quanto os efeitos urbanos que tendem a vir acompanhados dela.
3. A reestruturação da cidade de Resende/RJ e suas possibilidades de análise
Já entendida do ponto de vista conceitual, a dinâmica de reestruturação da
cidade tende a ser orientada por determinados processos espaciais, tendo como efeito a
própria reorganização do espaço. Segundo Corrêa (1993), ela é conferida pelos
processos produtores das funções e formas - para o autor, a acumulação de capital e a
reprodução das classes sociais – que imprimem no espaço as suas marcas,
reorganizando-o internamente através da relação entre processos e formas que se
estabelecem nele.
No caso da presente análise, a reestruturação da cidade média de Resende será
entendida do ponto de vista do processo espacial da descentralização, associado a sua
forma emergente, a do subcentro. De acordo com a pesquisa que segue, será investigada
a possível ocorrência deste processo no município, tendo como principal motor os
fluxos de capital estrangeiro circulantes na cidade. Além da natureza intrinsecamente
econômica deste processo espacial, também será considerada outra proposição de
Corrêa (1993) que o entende também a partir da dinâmica de “[...] crescimento da
cidade, tanto em termos demográficos como espaciais, ampliando as distâncias entre a
área Central e as novas áreas residenciais [...]”, o que “[...] torna o espaço urbano mais
complexo, com vários núcleos secundários de atividades”.
Este é o caso do município de Resende que, como será aprofundado adiante,
conta com um novo e provável subcentro de comércio e serviços, localizado em um de
seus bairros, o Cidade Alegria. Considerado um dos principais bairros da cidade,
inclusive pela alta concentração de população que comporta, o bairro Cidade Alegria
emergiu, justamente, enquanto uma nova possibilidade de residência na cidade, mas que
contava com um entrave de estar estabelecido distante do Centro Principal de Resende
no bairro de Campos Elíseos.
Por outro lado, ainda segundo o autor, o processo de descentralização, mais
recente que o de centralização, teve seu despertar na necessidade de redução dos custos,
concomitante ao estabelecimento de atrativos em outros pontos não-centrais da cidade.
Esta perspectiva também é reforçada por Colby (1930, apud CORRÊA, 1993), que
indica que a descentralização só ocorre mediante a criação de atrativos em outras áreas,
205
como terras não ocupadas, baixo preço de impostos, implantação de infra-estrutura,
facilidades de transporte, dentre outros. Tais atrativos são consonantes ao caso do bairro
Cidade Alegria, em Resende, por nele ter sido construído, nos anos 80, um conjunto
habitacional – o Grande Alegria – considerado o primeiro elemento qualificador da
possível descentralização ocorrida no município.
Já no que tange a forma associada ao processo supracitado, Corrêa discorre
sobre os subcentros associando-os as atividades que lhe são mais comuns, como as
industriais, ou as ligadas ao comércio e serviços. Como de interesse deste trabalho, os
subcentros relacionados à segunda classe de atividades, segundo o autor, são aqueles
determinados pela densidade e o nível de renda da população. SILVA (2004, p. 64)
acrescenta ainda que eles:
“[...] estão inseridos em contextos espaciais mais restritos e são
formados, inicialmente por estabelecimentos de proprietários
locais, visando atender a uma demanda local, gerada pelo
consumo específico de uma população com características
homogêneas, que difere da possível pluralidade socioeconômica
dos frequentadores do Centro Principal”.
Tais qualificantes, como deverá ser melhor apontado adiante, são importantes
elementos para a compreensão do possível subcentro no bairro cidade Alegria, por estar
ele claramente caracterizado por atividades comerciais e de serviços, de natureza muito
semelhante a descrita por Silva. Por outro lado, a hipótese de descentralização urbana
motivada pelos novos fluxos de capitais circulantes no município de Resende, faz desse
possível subcentro, também, uma forma urbana associada a fixos e fluxos industriais.
Em outras palavras, a forma espacial do subcentro e o processo de
descentralização a ela associado, são expressões exemplificadas da relação estabelecida
entre centro e centralidade. Ambos, que podem interagir dinamicamente em função do
tempo e do espaço, quando entendidos apenas do ponto de vista de suas ocorrências,
não garantem a possibilidade de que sejam apreciados no movimento de suas
redefinições. Isso porque, como aponta Lefebvre (2009) sobre a relação entre centro e
centralidade, não existe entre eles uma relação de oposição, senão dialética, que confere
a ambos o potencial de que possam ser aprimorados.
Tal consideração aponta para certo condicionamento a que o centro está sujeito
em relação a sua expressão de centralidade, do mesmo modo que esta é influenciada por
sua respectiva base física. Isto porque, como indica Silva (2013, p. 6), de forma geral,
206
quanto maior o acúmulo de fixos instalados em uma área central, maior será o potencial
de que eles organizem fluxos convergentes/divergentes dele, conseguindo orientá-los
para uma área maior. Nesta direção, Silva (2006, p. 64) sistematiza dizendo que:
“O estudo da relação entre a base física e a centralidade urbana,
necessita da abordagem dos fixos e dos fluxos que integram o
espaço urbano. Partimos da concepção de que a centralidade que
se expressa no e pelo espaço urbano tem variações e conexões
de espaço-tempo seguindo, portanto, a orientação dos fluxos de
pessoas, idéias, mercadorias, capitais etc.”
Desta forma, tais variações e conexões tendem a modificar, inclusive, a
expressão da centralidade em questão, no que tange ao limite espacial alcançado pela
influência de seus fixos e fluxos. Assim, como parte desta compreensão, a Teoria
Christaleriana dos Lugares Centrais abanca alguns princípios que ajudam no
entendimento da espacialidade de uma dada centralidade, como é o caso do alcance
espacial máximo. A releitura deste conceito feita por Corrêa (1996, p. 57), o aponta
como uma “[...] área determinada por um raio a partir de uma dada localidade central”,
dentro da qual “os consumidores efetivamente deslocam-se para a localidade central,
visando a obtenção de bens e serviços [...]”.
Sendo assim, além de uma análise que responda apenas ao objetivo de
afirmação da do processo de descentralização urbana em Resende, também será
considerada uma análise que, tendo o primeiro objetivo como certo, se proponha a
identificar a relação dialética entre o subcentro e sua centralidade. Este apontamento se
torna imprescindível como base da sequência deste trabalho, por ser ele um dos reflexos
de dinâmicas que objetivam a reprodução e acumulação de capital, como é o caso da
reestruturação produtiva, passíveis de serem analisadas por estudos urbanos, sendo esta
a proposta da pesquisa que segue.
4. Resende: a área de estudo e os recursos metodológicos de sua análise
Todas as questões apresentadas, não só explicam, mas justificam uma análise
mais apurada do papel de algumas cidades médias brasileiras, proeminentes enquanto
participantes da nova lógica produtiva em vigor. É nesta direção, e correspondendo aos
ditames urbanos e produtivos já debatidos, que a cidade média de Resende, localizada
no Médio Vale do Paraíba, no Estado do Rio de Janeiro, será apresentada enquanto
207
exemplo da complexidade que nasce das relações entre as reestruturações produtiva e
urbana.
A microrregião do Médio Vale do Paraíba, localizada na mesorregião do Sul
Fluminense do Estado do Rio de Janeiro, é composta pelo número de nove municípios,
dentre os quais o de Resende. Considerado como um dos palcos da reestruturação
produtiva no Brasil, o Médio Vale recebe bases produtivas de importantes empresas
multinacionais, principalmente do seguimento automobilístico, como Volkswagen, PSA
Peugeout Citroën, Hyundai, Nissan, dentre outras.
A função de comportar tais empresas baseia-se nos fatores já apontados como
os requisitados pela nova lógica produtiva vigorante. Dentre eles está a localização
privilegiada da microrregião, posicionada entre os dois principais centros econômicos
do Brasil – Rio de Janeiro e São Paulo; sua boa localização logística, através de uma
importante estrutura rodoviária, ferroviária e portuária, sendo esta última representada
pelos portos de Santos, Itaguaí, de Angra dos Reis e do Rio de Janeiro; além de ser de
fácil acesso a Estação Aduaneira Interior (EADI), que ajuda desde a aquisição de
material, quanto ao escoamento da produção estabelecida na microrregião.
Além destas vantagens, outras também justificaram a transformação do Médio
Vale do Paraíba em um importante polo industrial brasileiro, sendo elas: a boa oferta de
estrutura em comunicação e energia; a disponibilidade de terrenos a preços baixos;
isenção fiscal e concessão de facilidades na aquisição de empréstimos; e incentivos
dados ao estabelecimento de instituições de ensino, com o fim de qualificar a mão-deobra local.90 Todas estas características juntas compõem o aporte oferecido e exigido
pela nova organização do espaço produtivo no mundo, ditada pela reestruturação da
lógica produtiva em vigor.
Dentro da dinâmica produtiva da microrregião do Médio Vale do Paraíba
Fluminense, Limonad (2001, apud RAMOS, 2005) destaca dois eixos que classificam a
área indicada segundo seus gêneros econômico-produtivos: um do segmento de
siderurgia, metalurgia, química e construção civil, outro do setor metal-mecânico e da
química fina. Segundo esta organização, o município de Resende, de principal interesse
do trabalho aqui desenvolvido, encontra-se abarcado no segundo eixo, sendo
90
Todas as justificativas estruturais citadas, que fazem do Médio Vale Fluminense um forte exemplo de
efervescência econômica, podem ser conferidas e ainda melhor compreendidas na Dissertação intitulada
Reestruturação Produtiva e Des-territorialização no Médio Vale do Paraíba Fluminense, de Ramos
(2005).
208
representado por importantes empresas multinacionais estabelecidas ali a partir dos anos
de 1990.
De acordo com toda a dinâmica econômica experimentada pelo município de
Resende, muito em função de seu papel nas
novas
tendências
sugeridas pela
reestruturação
produtiva, tornou-se de forte interesse uma investigação que buscasse compreender os
impactos desse rearranjo
no espaço
urbano
do município.
Assim, dentre os
vários rebatimentos espaciais passíveis de serem estudados, o objetivo desta análise foi
o de se focar na possibilidade da reestruturação da cidade de Resende a partir do
processo espacial da descentralização urbana, já discutido.
Inicialmente, tal hipótese pôde ser levantada a partir da identificação do
crescente desenvolvimento econômico da cidade, através de grandes investimentos do
capital internacional. Este, materializado pelo estabelecimento de inúmeras empresas
multinacionais em Resende, inspiradas pelas tendências da reestruturação produtiva em
vigor, foi acompanhado por um claro processo de reestruturação na cidade, podendo ser
exemplificado pelo reordenamento imobiliário na cidade média; pela efervescência em
seu setor de comércio, representado, principalmente, pelo aumento do número de
grandes redes e franquias na cidade; além da constatação de uma reorganização de seu
espaço urbano, através de certo espraiamento de fixos e fluxos comerciais e de serviços
no município de Resende.
No que se refere à descrição deste último fenômeno, objetivo específico de
análise deste trabalho, foi observado aquilo que parecia com um novo ponto de atração
de bens e serviços na cidade, além do já estabelecido em sua área central, no bairro de
Campos Elíseos -Centro Principal de concentração destas atividades em Resende. Esta
nova área, da qual parecia emergir um incipiente fluxo de centralidade, fica localizada
no bairro Cidade Alegria, que concentra 10% da população total do município, que é de
119.769 mil habitantes.91 “Na época da sua construção, o bairro era considerado remoto
por dois motivos: a distância do Centro, cerca de 7 Km” - como representado no Mapa
1, com os estabelecimentos comerciais e de serviços no bairro Cidade Alegria
sinalizados à Oeste, e os do Centro Principal, no bairro Campos Elíseos, à Leste da
91
Informações extraídas do último Censo Demográfico do IBGE, realizado no ano de 2010.
209
cidade - “e a falta de infra-estrutura de comércio, serviços, transporte, saúde” (SOUZA,
2011, p. 4).
Nesta direção, para o fim de contextualização, o bairro Cidade Alegria foi
criado na década de 1980, como conseqüência da demarcação do perímetro urbano do
município, motivado pela construção de uma estrutura residencial de grande porte no
local. Este, o Conjunto Habitacional “Grande Alegria”, cujo nome faz alusão a
denominação do próprio bairro, é composto até os dias de hoje de 40 blocos, 32
apartamentos em cada um, totalizando o número de 1280 apartamentos, que são bem
representados na Imagem 1.
Mapa 1: Mapeamento de atividades econômicas na cidade de Resende/RJ – 2009.
Fonte: Pesquisa de campo. Produzido por Magalhães (2011).
Imagem 1: Conjunto Habitacional Grande Alegria, no bairro Cidade Alegria, em
Resende/RJ – 2013. Fonte: Google Earth (2011).
210
Portanto, para que a hipótese levantada pudesse ser confirmada, foram
selecionados elementos metodológicos que respondessem a problemática da ocorrência
ou não do processo espacial de descentralização em Resende/RJ. Desta forma, nesta
primeira etapa de resolução da análise, foi imprescindível a realização de uma pesquisa
de campo na cidade, em Agosto de 2013, com duração de dois dias, para que a
metodologia escolhida pudesse ser operacionalizada.
Esta, por sua vez, teve como recursos o reconhecimento das características
urbanas da cidade de Resende; o levantamento das atividades econômicas no bairro
Cidade Alegria - com o fim de quantificar e qualificar o adensamento dos
estabelecimentos de bens e serviços do provável subcentro; e aplicação de 59
questionários com 15 questões92, aos freqüentadores do local onde se identificava a
concentração dos fixos de comércio e serviços - a fim de que fosse possível mensurar a
centralidade irradiada a partir do bairro Cidade Alegria, tanto em relação à escala do
próprio bairro, quando do seu em torno (o alcance espacial máximo).
Por outro lado, o cumprimento deste primeiro objetivo teve como
desdobramento o planejamento de uma segunda etapa da pesquisa, a qual se baseou na
possibilidade de constatação da relação dialética entre centro e centralidade, já
discutida. Desta forma, como já apontado, Silva (2006) sugere que para tal objetivo os
fixos e fluxos devam ser analisados, por partirem deles uma dada expressão de
centralidade que, por sua vez, pode servir de atrativo para a fixação de novos
estabelecimentos comerciais e de serviços.
Assim, para que fosse atingido esse segundo objetivo, foi elaborado um novo
questionário que pudesse contemplar a identificação da relação dialética entre centro e
centralidade, provavelmente estabelecida no possível subcentro no bairro Cidade
Alegria. Foi aplicada, assim, nesta segunda etapa metodológica, uma totalidade de 50
questionários aos moradores do bairro Cidade Alegria, com o interesse de traçar um
perfil minucioso de seu consumo.93 Deste modo, previa-se
a possibilidade que
fosse viável a identificação da
92
As perguntas que compunham o questionário permitiam indicar as seguintes características dos
freqüentadores do provável subcentro no bairro Cidade Alegria: sexo; idade; profissão; renda média;
bairro de residência; motivação para freqüentar o bairro; prioridade dada ao bairro; motivos da prioridade;
freqüência da procura; meio de transporte no deslocamento até ali; tempo de permanência no bairro;
sugestões de melhoria para o local; opinião sobre a facilidade ou não de acesso a ele; e se estavam
satisfeitos de freqüentar a área e por quê.
93
As perguntas que compunham o questionário permitiam indicar as seguintes características do perfil de
consumo dos moradores do bairro Cidade Alegria: onde realizavam o pagamento de contas, quais os seus
211
influência da centralidade estabelecida no bairro, no suprimento de suas demandas
locais.
Além disso, tendo em vista o claro e dinâmico processo de reestruturação do
bairro, com o incremento do número de estabelecimentos de comércio e serviços, as
perguntas também objetivavam compreender a influência dessa reestruturação no
reforço da centralidade aparente no bairro – dialética entre centro e centralidade.
5. Um subcentro e sua expressão de centralidade
De acordo com o levantamento de atividades econômicas realizado, foi
possível identificar a estrutura comercial e dos serviços estabelecidos no bairro Cidade
Alegria. De acordo com o resultado obtido, padronizado segundo a CNAE94, foi
possível categorizá-los, facilitando sua análise e identificação, como pode ser visto na
Tabela 1.
TABELA 1: LEVANTAMENTO DE ATIVIDADES ECONÔMICAS DO BAIRRO
CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ – 2013
Atividades
Comércio, Reparação de
Veículos Automotores e
Motocicletas
Alojamento e Alimentação
Outras Atividades de
Serviços
Saúde Humana e Serviços
Sociais
Educação
Atividades profissionais,
científicas e técnicas
Informação e Comunicação
Atividades Imobiliárias
Artes, Cultura, Esporte e
Recreação
Percentual
53%
21%
17%
3%
2%
1%
1%
1%
1%
gêneros – água, luz, telefone etc. - e seus valores aproximados; se eram correntistas de algum banco, qual
o banco e bairro da agência; onde realizavam compras de artigos alimentícios e de vestuário, com qual
freqüência e valores estimados das compras; onde utilizavam os serviços de educação, quantos moradores
da casa usufruíam, qual o seu gênero – público ou privado – e nível de satisfação; onde utilizavam os
serviços de saúde, quantos moradores da casa usufruíam, quais as especialidade clínicas, qual o seu
gênero – público ou privado – e nível de satisfação; e onde realizavam atividades de lazer, quais as
modalidades e com qual freqüência.
94
Classificação Nacional de Atividades Econômicas/IBGE.
212
TOTAL
Fonte: Pesquisa de campo
100%
De acordo com o levantamento realizado, foram quantificados um total de 139
fixos comerciais e de serviços, categorizados segundo a classificação apresentada
acima. Contudo, além da importância quantitativa destas informações, é necessário
destacar o gênero de alguns destes estabelecimentos, que revelam, inclusive, a
participação da iniciativa pública e de outros agentes no reforço da centralidade ali
analisada; sendo eles: uma UPA 24hs; uma Farmácia Popular; uma concessionária
Honda Motos; dois Caixas Eletrônicos, do Itaú e Banco do Brasil; uma academia de
ginástica, filial de uma unidade estabelecida no Centro Principal; uma unidade da
Polícia Militar; uma quadra poliesportiva de administração municipal; e um
supermercado, com 14 caixas, amplo estacionamento de carros e bicicletas95.
Como pode ser percebida, a análise dos fixos comerciais e de serviços
estabelecidos
no bairro Cidade Alegria, representam e justificam a centralidade observada no local,
apontando para a emergência de um subcentro na cidade de Resende/RJ. A análise
indica, inclusive, o importante papel de investimentos públicos no aparelhamento da
área com equipamentos urbanos de serviços, propulsores da centralidade no bairro.
Além desta esfera, é possível identificar a função de outros agentes neste
processo de descentralização estudado, como é o caso das instituições bancárias; além
delas, o caso da academia de ginástica que, sendo filial de uma unidade já estabelecida
no Centro Principal, reforça o processo de descentralização ocorrido, por ser a tendência
de desconcentração de filiais de comércio e serviços do Centro Principal para novos
lugares, um importante indicativo do fenômeno de descentralização urbana (CORRÊA,
1993).
De modo geral, o levantamento realizado das atividades econômicas na área de
expressão de centralidade do bairro Cidade Alegria, também permitiu que fosse
identificado o perfil do subcentro de análise. Como já foi aqui apontado, Silva (2004)
esclarece que a grande maioria dos fixos estabelecidos em um subcentro, possui a
95
Informação relativa ao supermercado extraída da monografia intitulada "A construção do bairro popular
Cidade Alegria na cidade de Resende (RJ) segundo a lógica de reestruturação produtiva e da cidade”, de
Souza (2011).
213
função de suprimento de demandas locais, pouco heterogêneas, o que pôde ser
percebido na estrutura de comércios e serviços no bairro Cidade Alegria. Embora seja
possível perceber o início do que pode ser um movimento de diversificação da oferta de
bens e serviços estabelecidos ali, de imediato, em geral, estes correspondem ainda a
uma categoria de consumo popular.
Por outro lado, além do levantamento das atividades econômicas, os resultados
obtidos com a aplicação da primeira etapa de questionários também ajudaram na
constatação da ocorrência do processo de descentralização na cidade de Resende/RJ,
bem como na mensuração da centralidade irradiada no subcentro estudado. Assim,
através deles, foi possível verificar a extensão do alcance espacial máximo irradiado a
partir da centralidade analisada; neste sentido, como pode ser observado na Tabela 2, as
respostas sobre o bairro de origem dos seus freqüentadores apontaram para uma
expressão de centralidade que extrapola os limites do próprio bairro, chegando a irradiar
para outros do em torno. Tal constatação, melhor representada pelo Mapa 2, indica o
número de freqüentadores que deslocam-se de fora do bairro, de suas respectivas
origens, para usufruírem dos fixos de comércio e serviços estabelecidos no subcentro
Cidade Alegria.
TABELA 2: BAIRRO DE ORIGEM DOS FREQÜENTADORES DO
SUBCENTRO NO BAIRRO CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ – 2013
Bairro de Origem
Frequentadores
Cidade Alegria
64%
Outros
36%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
214
ALCANCE ESPACIAL
MÁXIMO
Mapa 2: Alcance espacial máximo dos estabelecimentos comerciais e de serviços do
bairro Cidade Alegria, em Resende/RJ - 2013. Fonte: Pesquisa de campo. Produzido por
SPERLE (2014).
Por outro lado, com a finalidade de avaliar o nível de preferência dos seus
freqüentadores, o questionário indagava sobre a prioridade dada por eles ao subcentro
analisado, bem como o motivo desta preferência. Assim, como pode ser visto na Tabela
3, manteve-se um equilíbrio no padrão de respostas sobre a preferência dada, ou não, ao
local; já com relação ao motivo da prioridade, a localização foi a opção mais apontada
(Tabela 4), o que remonta ás razões conjunturais do processo de descentralização, no
caso, a distância em relação aos novos locais de residência com o Centro Principal da
cidade em questão.
TABELA 3: PRIORIDADE DADA PELOS FREQUENTADORES AO
SUBCENTRO NO BAIRRO CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ – 2013
Prioridade
Frequentadores
Sim
52%
Não
48%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
215
TABELA 4: MOTIVO DA PRIORIDADE DADA PELOS FREQUENTADORES
AO SUBCENTRO NO BAIRRO CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ – 2013
Motivo da prioridade
Frequentadores
Localização
65%
Outros
16%
Preços
10%
Variedade
6%
Infraestrutura
3%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
Desta forma, uma vez tendo sido realizadas as verificações em relação a
hipótese da descentralização urbana da cidade de Resende/RJ, partiu-se, então, para o
objetivo de identificar e entender o processo dialético em que centro e centralidade se
redefinem. Assim, de acordo com as observações feitas no decorrer dos campos
realizados, que apontavam para um incremento da estrutura física da área de análise,
surgiu a necessidade de conferência sobre um possível reforço de centralidade que
pudesse estar ocorrendo no bairro Cidade Alegria.
Tal reestruturação se deveu a construção, em menos de um ano, de duas
agências bancárias (do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal) e instalação de
um novo Supermercado, pertencente a mesma rede que já possuía unidade estabelecida
no Centro Principal de Resende, em Campos Elíseos. Desta forma, procurou-se
identificar o nível de centralidade em torno do estabelecimento destes novos fixos
comerciais e de serviços que, de acordo com a tendência dialética da relação entre
centro, neste caso subcentro, e sua respectiva centralidade, tendem a ampliá-la e
reestruturá-la.
Para isso, através do segundo modelo de questionário, de acordo com a
categoria de análise de busca por produtos alimentícios, foi possível verificar que o
subcentro constatado no bairro Cidade Alegria concentra em si mesmo, atualmente,
grande parte da centralidade em torno do suprimento desta demanda (Tabela 5). Quando
perguntados a respeito do local de busca por produtos desta mesma categoria, só que
mais especializados, o bairro de Campos Elíseos apareceu como local majoritário de
preferência, reforçando sua posição de Centro Principal da cidade de Resende (Tabela
6).
216
TABELA 5: PERCENTUAL DE MORADORES QUE ENCONTRAM NO
SUBCENTRO NO BAIRRO CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ, TODOS
OS ARTIGOS ALIMENTÍCIOS DE QUE PRECISAM – 2014
Onde buscam produtos
Moradores
alimentícios
Cidade Alegria
80%
Outros
20%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
TABELA 6: PERCENTUAL E LOCAL ONDE OS MORADORES DO
BAIRRO CIDADE ALEGRIA, EM RESENDE/RJ, ENCONTRAM ARTIGOS
ALIMENTÍCIOS ESPECIALIZADOS – 2014
Busca por produtos
alimentícios
Moradores
especializados
Campos Elíseos
80%
Manejo
20%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
Já com relação a categoria de análise do serviço prestado pelas agências
bancárias, o objetivo era o de compreender a repercussão da instalação das agências da
Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil no reforço da centralidade do subcentro.
Como pode ser observado na Tabela 7, do total de moradores entrevistados, a maior
parte indicou ser correntista de algum banco; já no Mapa 3 esta informação aparece
espacializada em função dos correntistas da Caixa Econômica Federal e do Banco Itaú,
bem como dos bairros nos quais elas são vinculadas.
Como pode ser verificada, a instalação das agências bancárias atraiu para o
subcentro em questão um novo fluxo de centralidade, uma vez que a maior parte dos
entrevistados indicou ser correntista de suas novas agências, tendo aberto ou
transferidos suas contas para o elas. Além disto, como foi possível perceber através da
aplicação do segundo modelo de questionário, muitos dos entrevistados que informaram
manter as suas contas em agências de outros bairros, disseram pretender transferi-las
para as novas agências, o que aponta para a tendência de um reforço ainda maior na
centralidade irradiada a partir do estabelecimento deste novo fixo de serviço no
subcentro do bairro Cidade Alegria.
217
TABELA 7: PERCENTUAL DE MORADORES DO BAIRRO CIDADE
ALEGRIA, EM RESENDE/RJ, QUE INFORMARAM SER CONRRENTISTAS
DE ALGUM BANCO - 2014
Correntistas/não
Percentual
correntistas
Correntistas
67%
Não correntistas
33%
TOTAL
100%
Fonte: Pesquisa de campo
Mapa 3: Total de moradores do bairro Cidade Alegria, em Resende/RJ, correntistas da
Caixa Econômica Federal e do banco Itaú, em função do bairro das agências - 2014.
Fonte: Pesquisa de campo. Produzido por SPERLE (2014).
7. Considerações Finais
Como já discutido em toda a extensão do trabalho aqui apresentado, o objetivo
da pesquisa se ateve a demonstrar as importantes repercussões espaciais surgidas da
interação, quase sempre incondicional, entre reestruturação produtiva e reestruturação
urbana. Tal relação, especialmente mantida sobre o palco das cidades médias, tende a
despertar novos processos, que quando de natureza espacial, propulsionam a emergência
de formas espaciais, exemplificadas pelo par descentralização e subcentro. Nesta
direção, a dinâmica de reestruturação produtiva em curso na cidade média de Resende,
218
no Médio Vale do Paraíba do Rio De Janeiro, através dos novos fluxos econômicos em
circulação no município, tem redefinido sua estrutura, implicando no processo de
reestruturação urbana da cidade média.
Desta forma, através da metodologia empregada para a verificação de
ocorrência do processo de descentralização urbana no município de Resende, como já
sugerido, foi possível constatar a emergência de um subcentro de comércio e serviços,
localizado no bairro Cidade Alegria. Este, por outro lado, para além de sua ocorrência,
através da centralidade irradiada por ele, já tem promovido a atração de novos fixos de
comércio e serviços que, por sua vez, tem reforçado e ampliado a expressão de
centralidade previamente conferida ao novo subcentro.
Assim, tanto o processo de descentralização urbana, quanto o seu
desdobramento na dialética entre centro e centralidade, tem sido algumas das
implicações promovidas pela reorganização do espaço-tempo das relações de trabalho,
surgidas com as novas tendências econômico-produtivas em vigor. Por outro lado, além
delas, é bom que se registre a diversidade de efeitos repercutidos no espaço das cidades,
especialmente das cidades médias, que legitimam as investigações dos efeitos da
reestruturação produtiva em seus espaços, que promovem redefinições na escala das
cidades, a reestruturação da cidade, e na ordem de sua hierarquia urbana, a
reestruturação urbana.
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221
REDE URBANA E RELAÇÕES INTERSCALARES NA CIDADE MÉDIA DE
ARAGUAÍNA - TO: PERSPECTIVAS A PARTIR DO COMÉRCIO DE
VESTUÁRIO
Reges Sodré da Luz Silva Dias
Mestrando em Geografia Universidade Federal de Uberlândia
Laboratório de Planejamento Urbano e Regional
[email protected]
Aires José Pereira*
Professor Ajunto da Universidade Federal do Tocantins
[email protected]
RESUMO
Este trabalho tem por objetivo analisar as interações espaciais interescalares a partir da
atuação de agentes nacionais e internacionais nas cidades médias do Tocantins, tendo
como preocupação principal avaliar tais dinâmicas no comércio de vestuário na cidade
de Araguaína. Verificou-se que nesta cidade é crescente o número de empresas com
atuação nessa fatia de mercado, cuja escala de abrangência de seu capital é nacional e
internacional, o que coloca Araguaína numa trama de relações que ultrapassam rígidos
padrões hierárquicos. Modifica-se a natureza das interações espaciais, pois se tornam
mais intensas, alongadas, mais frequentes e interescalares.
Palavras-Chave: Relações Interescalares, Cidades Médias, Araguaína
1. Introdução
Neste trabalho, valorizaram-se as interações espaciais interescalares a partir da
atuação de agentes nacionais e internacionais nas cidades médias do Tocantins, tendo
como preocupação principal avaliar tais dinâmicas a partir do comércio de vestuário na
cidade de Araguaína - TO.
Nosso referencial teórico baseia-se nas propostas de estudos de cidades médias
na rede urbana, privilegiando suas dinâmicas econômicas, as quais cada vez mais se
manifestam nessas cidades por meio de agentes que atuam na escala internacional. Para
tanto, mobilizamos os seguintes teóricos: Beltrão Sposito (2004; 2007; 2009; 2010);
Santos (2012), Santos e Silveira (2008), Catelan (2012; 2014); Corrêa (2001; 2007)
dentre outros. Essas leituras teóricas e metodológicas compõem a primeira parte do
artigo.
___________________________
* O autor não apresentou o trabalho e não participou do evento.
Considerando o arcabouço teórico aqui utilizado, analisamos as recentes
dinâmicas das cidades médias do Estado do Tocantins, como a concentração e
centralização espacial e econômica, além de também focalizarmos o aprofundamento
das interações espaciais, com respectiva ampliação de suas centralidades interurbanas.
Os dados utilizados foram do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),
Revista Exame e IPEADATA.
222
Para a identificação das relações interescalares em Araguaína, fizemos trabalho
de campo no sentido de identificar estabelecimentos de vestuários, nas principais
avenidas da cidade, com posterior visita a seus sites, permitindo assim, a catalogação
daqueles que atuam em escala regional, nacional e internacional, resultando na
montagem de uma tabela.
A partir daí, procedeu-se na análise das dinâmicas propiciadas por essas
empresas na cidade de Araguaína, que fortalecem seus papéis na rede urbana, tornandoos mais complexos.
2. Rede Urbana e Relações Interescalares: um olhar sobre as cidades médias
A fim de estabelecer um fio condutor a esta análise, tendo em vista a amplitude
da temática, destaca-se primeiro os pressupostos conceituais do que seja cidade média
para em seguida avançarmos no debate sobre as atuais dinâmicas que sobre elas se
estabelecem e que são por essas cidades fomentadas.
Nesse contexto, esta pesquisa buscou na noção de cidade média o seu
referencial teórico, entendendo-a inicialmente como “aquelas cidades que assumem um
determinado papel na estrutura urbana regional como centro sub-regional, não sendo
simplesmente centros locais”, nem metrópoles, “mas núcleos urbanos com capacidade
de polarizar e influenciar um número significativo de núcleos menores e articular
relações de toda ordem” (TRINDADE JR, 2011, p. 137).
Segundo Beltrão Sposito (2004, p. 331), é importante distinguir cidades de
porte médio de cidades médias. Enquanto as primeiras são definidas pelo seu tamanho
demográfico, a segunda o é por “suas características (o que não se restringe ao tamanho
demográfico e deve incluir a estruturação interna de seus espaços), como suas relações
com outras cidades (o que impõe o reconhecimento de seus papeis na estrutura urbana
da rede)”.
Assim, podemos dizer que as cidades médias96 são, entre outras coisas, capazes
de estabelecer fluxos de naturezas diversas com centros regionais menores, articular
esses centros e ela própria aos capitais regionais, à metrópole nacional e centros
internacionais. Esses fluxos baseiam-se em um contingente de população que justifique
nela a instalação de serviços especializados e ao mesmo tempo relativamente
diversificados que, por extensão, contém/interrompe por meio da geração de empregos
fluxos de população dela mesma e das cidades menores para as metrópoles. Uma cidade
média também estabelece fortes ligações com o campo, servindo como suporte ao
processamento de insumo do mesmo, de um lado, e distribuindo insumos à
funcionalização da produção agrícola, de outro. Por último, pode-se dizer que o espaço
de polarização da cidade média é marcado pela contiguidade territorial (AMORIM
96
Lembramos que foram levadas em consideração as dinâmicas econômicas, mas sem dúvida
outras características podem ser atribuídas às cidades médias.
223
FILHO e SERRA, 2001; BELTRÃO SPOSITO, 2004, 2007; CORRÊA, 2007;
TRINDADE JÚNIOR, 2011, SANFELIU e TORNÉ, 2004).
A partir dos anos 70 e 80, o sistema capitalista passou por diversas
reestruturações marcadas pela passagem do sistema fordista ao de acumulação flexível
de produção (HARVEY, 1998). Isso ocasionou claras consequências para o espaço,
sendo a interiorização do capital, através da desconcentração da produção e difusão do
consumo, mas com forte centralização dos comandos, um de seus aspectos mais
destacados (BELTRÃO SPOSITO, 2004).
Essas mudanças ocorrem apoiadas no meio técnico-científico-informacional
(SANTOS, 2012), o qual tem permitido a diminuição das distâncias - para um número
reduzido de agentes -, pelo melhoramento dos sistemas de transporte e comunicação,
constituindo-se a conectividade, uma de suas características mais avançadas, resultando
e contraditoriamente, condicionando essa realidade. Assim, as grandes empresas
alargam suas possibilidades locacionais, o que tem estimulado o fortalecimento do
consumo e da produção em cidades médias, realçando seus papéis nas redes urbanas,
bem como ampliando seu número.
Vê-se que a rede urbana brasileira torna-se mais complexa, a despeito da
complexidade funcional de seus centros, das interações espaciais entre eles, das relações
de competição e complementaridades. Diante disso, bens e serviços especializados
podem ser encontrados em centros de escalão inferior da rede urbana, fruto de sua
especialização e diversificação em vários segmentos de mercado. Ocorre, porém, que
não necessariamente significa que tal centro exerça a efetiva gestão do território,
embora estabeleça relações globais, deixando de ser tal atributo uma exclusividade das
metrópoles. Pode-se destacar ainda que, pela intensificação dos usos do território,
modificações ocorrem no padrão espacial da rede urbana, tornando-o uma realidade
efêmera e complexa. As diferenças regionais dos processos em cursos tornam mais rica
e complexa essa realidade e estimulante seu estudo.
Tomando esse contexto como referência, tem-se a relativização de rígidos
padrões hierárquicos entre os centros urbanos, fato ressaltado por Beltrão Sposito et al,
(2007), Beltrão Sposito (2007; 2010), Corrêa (2001), Santos (2012), Catelan (2012),
que apontam na direção de interações interescalares, heterárquicas, e verticalidades.
Assim, para Beltrão Sposito (2007, p. 237), desenham-se novas relações
espaciais chamadas de transversais, “por que extrapolam a própria rede em que se
inserem” uma dada cidade. Nesse sentido, uma análise que se aproxime da
complexidade das cidades médias deve também operar a partir de interações espaciais
interescalares que expressa, simultaneamente, a estruturação e articulação da rede
urbana (CATELAN, 2012).
Essa é uma das características da urbanização na Amazônia sob a égide da
expansão da fronteira agrícola a partir de 1960, em que “foram ampliadas as relações
espaciais” daquela “com o exterior e o Sudeste do país” (CORRÊA, 1987, p. 58),
224
levando nos últimos anos as cidades médias a estabelecerem relações mais intensas com
cidades fora da região do que propriamente dentro da mesma (RIBEIRO, 1998;
TRINDADE JR, 2006). Há, segundo este último autor, mais interações entre as
metrópoles regionais e capitais regionais do que primeiramente entre estas e as cidades
médias na Amazônia Oriental.
É inegável que “funções e [...] papéis” urbanos são “resultado das interações
espaciais interescalares” (CATELAN, 2012, p. 14). Em outras palavras, cidades médias
como Araguaína “ganham força, conformando rede de influências regionais, quanto
mais se ampliam as interações espaciais por meio de agentes e empresas que atuam na
escala nacional e internacional” (CATELAN, 2012, p. 21) e que nelas se instalem, ou
que delas, sendo sede, partam as interações. Essas interações não esgotam ou dissipam
os padrões hierárquicos, mas os tornam mais complexos e dinâmicos.
Por essa perspectiva, as interações espaciais, que constituem “um amplo e
complexo conjunto de deslocamentos de pessoas, mercadorias, capital e informação”, e
que “devem ser vistas como parte integrante da existência (e reprodução) e do processo
de transformação social” (CORRÊA, 1997, p. 279-280), cuja realização se dá em
variadas escalas, coloca as cidades e as redes urbanas, ou no dizer de Beltrão Sposito
(2012, p. 127) “sistemas urbanos”, numa trama de relações que somente podem ser lidas
pelas multiplicidades das relações escalares, dos agentes que neles atuam. Aqui as
interações são “tomadas enquanto uma perspectiva metodológica para a construção de
uma teoria espacial de articulação entre escalas” (CATELAN, 2012, p. 28), isto porque
“nada pode ser explicado apenas numa escala, mesmo que estejamos nos referindo à
escala internacional” (BELTRÃO SPOSITO, 2012, p. 130).
É importante destacar que as interações interescalares não ocorrem apenas em
cidades médias e escalões superiores da rede urbana. Tais interações podem ser
verificadas mesmo em cidades locais, principalmente pela expansão produtiva do
agronegócio, cujas principais empresas que comandam o setor atuam em escala
internacional. Isso, no entanto, não torna essas interações diversas e complexas, dada a
quase restrição ao setor produtivo, como nas cidades médias e grandes.
Em ambos os casos está posta a possibilidade metodológica de ver que as
relações espaciais e territoriais estabelecidas nessas cidades não passam somente pelo
viés hierárquico, mas ao contrário, são fruto do movimento relacional indissociável da
estruturação e da articulação. É assim que agentes internacionais instalam-se nas
cidades médias, sem que haja a “obrigatoriedade” do estabelecimento de vínculos com
núcleos em escalão superior da mesma rede urbana. Da mesma forma, empresas
originárias nesses espaços podem alcançar status internacionais, invertendo o
tradicional movimento vetorial top-down da/na rede urbana.
Todas essas condições são em parte abstratas, em relação à totalidade espaçotemporal, pois há notável variação desses padrões em relação a cada região, como
225
apontam Corrêa (2007) e Sanfeliu (2009). Tais cidades no centro-sul constituem-se de
melhores índices sociais e econômicos do que as mesmas na região norte, como destaca
Beltrão Sposito (2009). Apesar dessas especificidades, as características elencadas
aparecem na definição e no estudo de cidades médias na literatura brasileira e sulamericana, de acordo com cada contexto espaço-tempo.
3. Cidades Médias no Tocantins: as recentes dinâmicas
A rede urbana do Tocantins vem passando por intensas modificações nos
últimos 20 anos. Seu entendimento passa, necessariamente, pela articulação das escalas
intra e interurbana, colocando em relevo as novas formas criadas pela intensificação do
capital nacional e internacional, que aumentam as interações espaciais dos centros
tocantinenses.
Reconhecemos, inicialmente, que a criação do Estado do Tocantins, em 1988,
foi um marco na urbanização regional, tendo em vista, em primeiro lugar, a criação da
capital Palmas, que promoveu uma ruptura - não de imediato - no comando da rede
urbana regional. Em segundo lugar, e a partir daí, um arranjo institucional de atração de
investimentos - nacional e internacional - trouxe importantes impactos para o estado.
Entre eles, destacam-se a internacionalização da produção agrícola, que está impondo
novas relações cidade-campo capazes de incrementar o processo de urbanização, em
especial das cidades médias.
Parece-nos importante entender que a criação do Estado do Tocantins é um
marco enquanto possibilidade que esse evento engendrou, mas o que de fato interessa,
ao menos nesta análise, é o movimento do capital que, a partir daí, se verifica no espaço
regional. Assim, temos a intenção de realçar mais os processos que ajudaram na
produção e reprodução dessa nova urbanização.
As cidades médias do Tocantins vivem processos semelhantes nesse sentido,
ainda que as formas sejam distintas, dado a história específica de cada centro e o maior
avanço do processo em algumas. Trata-se, pois, da “preparação do território”, como
destacou Bessa e Corado (2011, p. 42), “para atender às exigências do grande capital”,
que avança dando novas dinâmicas às relações e às morfologias urbanas, o que
pressupõe maiores interações espaciais interescalares.
Admitimos a existência de três cidades médias no estado do Tocantins: Palmas
(228.332 habitantes), Gurupi (76.755 habitantes) e Araguaína (150.484 habitantes97). A
que nos parece de mais fácil identificação é Araguaína, pela posição na rede urbana
(relativamente distante de centros de mesmo nível hierárquico), pelo tamanho
demográfico e pelas funções urbanas a ela atribuídas na divisão territorial do trabalho
(ver mapa 01).
Sobre a cidade de Palmas, por ser capital do estado e exercer papéis
administrativos, existem alguns constrangimentos à aplicação do conceito de cidade
97
Os dados populacionais referem-se ao Senso Populacional de 2010 do IBGE.
226
média, pois ela pode ser o ponto de confluência da rede urbana estadual, sendo o destino
final da procura de bens ou serviços. Todavia, essa contingência não anula seus papéis
urbano-regionais de uma rede que, como demonstra os dados do REGIC (2008), está
inserida e comandada na e pela rede urbana de Goiânia. Ademais, essa cidade não
apresenta atributos nem populacionais, nem funcionais de uma metrópole. Ainda que os
números demonstrem seu vertiginoso crescimento, estes apenas confirmam seu papel
como a cidade média mais importante do Sudeste da Amazônia Oriental.
Mapa 01: Rede urbana do Tocantins: interações e centralidades
227
Fonte: IBGE, 2008. TOCANTINS, 2012. Elaboração: Reges Sodré (2014).
Beltrão Sposito (2004, p. 370) ressalta que “a situação geográfica das cidades
influi na definição de sua centralidade interurbana e no peso de seus papéis regionais”,
na medida em que “a distância de outras cidades de mesmo porte ou maiores, amplia a
área de influência da cidade regional principal”. Parece ser esse o ônus de Gurupi, que
228
em função de estar mais próximo de Palmas do que Araguaína, tem seus papéis urbanos
mais mitigados, estabelecendo assim dificuldades em sua conceituação (ver mapa 01).
Os dados da tabela 01, que ponderam um período de 42 anos, indicam o
crescimento do comércio e dos serviços nas três cidades médias aqui consideradas,
mostrando uma evolução significativa do número de estabelecimentos. A cidade de
Araguaína apresenta um crescimento significativo com taxa média anual de 4,20%,
tendo maior incremento absoluto de estabelecimento a partir de 1995 com média anual
de 96 estabelecimentos. Gurupi teve taxa média geral de 3,99%, isto é, praticamente o
mesmo crescimento de Araguaína.
Tabela 01: Estabelecimentos comerciais e de serviços nas cidades médias do
Tocantins
Comércio e serviços
Cidades
1970
1980
1985
1995
2006
2012
Araguaína
401
611
896
1492
2256
3130
Gurupi
396
451
558
1449
1695
2050
Palmas
x
x
x
x
3782
6220
Demais cidades
2646
2982
5859
7481
9713
11416
Fonte: IBGE, 2006; 2012. IPEADATA, 1970-1995. Organização. Reges Sodré (2014).
Associando os dados da tabela 01 com a articulação de escala nas cidades
médias, ganha destaque o processo de centralização e concentração econômica e
espacial98 do comércio e serviços que nelas se verificam, influenciando e decorrendo da
ampliação de fluxos de relações interescalares, cuja materialização é notável em seus
espaços intra-urbanos e interurbanos. Malgrado o fato de que esteja em curso a
tendência e a necessidade, como é própria do consumo, da dispersão dos pontos de
venda pelo interior do estado.
Na série histórica, as cidades médias apresentam crescimento médio anual
superior ao das demais cidades, sendo no primeiro caso 6,54% e, no segundo, 3,54%. O
crescimento acumulativo do comércio e serviço também se manifesta imponente, com
1330,36% nas cidades médias e 331,44% nas demais cidades.
Se levarmos em consideração os dados apenas a partir da criação de Palmas,
temos a acentuação da tendência, de modo que as três cidades médias em 2006
representavam no estado 44,32% dos estabelecimentos e em 2012 subiu para 49,96%. O
que impressiona é seu crescimento comparado com as outras cidades no mesmo
período, pois elas cresceram 47, 42%, enquanto as últimas 17,53%. Duas questões se
colocam: primeiro, esse crescimento pode ser atribuído ao desempenho econômico de
Palmas, que cresceu 64, 46%, bem superior a Araguaína (38,74%) e a Gurupi (20,94%);
segundo, há uma importante dimensão qualitativa desse crescimento, na medida em que
os serviços, o comércio e as indústrias instalados nas cidades médias são mais
especializados, diversificados e orientados pela atuação de capitais nacionais e
internacionais, principalmente na cidade de Palmas.
A este respeito, Beltrão Sposito (2009, p. 58) afirma que:
98
A respeito dos conceitos de concentração e centralização espacial e econômica e seu respectivo
contexto à realidade brasileira, ver Beltrão Sposito (2004, 2009) e Beltrão Sposito el at (2007).
229
Relacionando-se expansão de grandes empresas, a partir da
abertura de filiais ou concessão de representações comerciais e
de serviços, com ampliação dos papéis intermediários das
cidades médias, pode-se perceber que, independentemente de
qualquer outra dinâmica, relativa à produção no sentido estrito
do termo, é a ampliação do consumo de bens e serviços que, em
grande parte, explica as centralidades interurbanas em nível
regional.
Assim, entre as 50 maiores empresas do Brasil em 2013, cuja atuação se dá em
escala nacional e internacional, 25 estão presentes em cidades do Tocantins. Apenas
uma, a multinacional Bunge, não se localiza nas cidades médias. Ela se encontra na
cidade de Pedro Afonso, devido à forte dinâmica do agronegócio instalada ali.
Quadro 01: Maiores empresas atuando no Tocantins em 2013.
As maiores empresas do país presentes nas cidades médias do Tocantins
Empresas
Posição
Empresas
Posição
Ipiranga Produtos
4 Claro
25
Volkswagen
8 Telemar
26
Fiat
11 Mercedes-Bens
29
Telefônica
12 Globo
37
Via Varejo
13 Ale Combustíveis
41
Tim
16 Ford
42
Correios
18 Gol Palmas
48
MAN
Latin
Ambev
22 America
50
General Motors
24 x
x
Empresas presentes em apenas uma das cidades médias
Empresas
Posição Cidades
Grupo Pão de Açúcar
14 Palmas
x
JBS
15 Araguaína
x
Tam
28 Palmas
x
Toyota
30 Araguaína
x
Atacadão
32 Palmas
x
Renalt
36 Palmas
x
Gerdau Aços Longos
39 Palmas
x
Fonte: Revista Exame; Sites das empresas. Organização: Reges Sodré, (2014).
No quadro 01, aparecem somente 04 empresas, em destaque azul, que além das
cidades médias localizam-se em outras cidades do estado: Ford, Tim, Ambev e
Telefônica. É possível identificar também que 05 empresas que atuam somente em
Palmas, enquanto outras 02 apenas em Araguaína.
Esses dados de concentração e centralização econômica e espacial, em especial
pela atuação de capital multiescalar, podem ser relacionados a centralidades dessas
cidades médias, conforme os dados da pesquisa Região de Influência das Cidades 2007, realizado pelo IBGE (2008), que estão dispostos no mapa 01. Nele, a capital
230
Palmas exerce a função de Capital Regional B, com centralidade muito forte, Araguaína
como Capital Regional C, com nível de centralidade forte, e Gurupi como Centro SubRegional B, com centralidade de nível médio.
4. Araguaína e as relações interescalares através do comércio de vestuários
Para realizar esta análise, fizemos trabalho de campo para identificação de
franquias e lojas de vestuários com atuação nacional e internacional presentes na cidade
de Araguaína, com posterior visita a seus sites para o aprofundamento das informações.
Apesar do considerável esforço, não angariamos todas as informações que desejávamos,
razão pela qual alguns dados encontram-se não preenchidos na tabela 02, sendo que
outras empresas simplesmente foram retiradas da análise. Além disso, não tivemos a
pretensão de abarcar todas as lojas da cidade, mas focalizarmos um número que fosse
significativo para esta pesquisa.
Os segmentos considerados como de vestuário incluem: moda masculina e
feminina; infantil; íntima; unissex; calçados; bolsas e acessórios. Tornou-se inviável,
pela pulverização das lojas na cidade, distinguir tais seguimentos na montagem dos
dados - isso seria viável se estivéssemos tratando de um Shopping Center. Ademais,
algumas lojas trabalham com diversos seguimentos.
Ressaltamos ainda que a vinculação das sedes de empresas a um local ou
cidade, no período atual, marcado pela globalização econômica, torna-se temerário à
medida que elas podem ter várias sedes (CORRÊA, 1991; SASSEN, 1998). Contudo, o
que nos interessa, e esses autores concordam, é o fato da maioria dessas empresas terem
sede em grandes centros, implicando em relações de diversas escolas das suas operações
de produção e distribuição.
Entre as bandeiras relacionadas na tabela 02, destacam-se aquelas que fazem
parte de grupos varejistas de modas que mais vendem no Brasil. A revista Exame
relacionou 13 grupos que mais venderam em 2013 no Brasil, entre os quais estão
presentes em Araguaína três marcas; Cia Hering (8º posição no ranking), Arezzo&CO
(10º posição) e Lojas Avenidas (13º posição).
Tabela 02. Bandeiras nacionais e multinacionais de vestuário em Araguaína
Lojas/franquia
Localização em Araguaína Sede
Atuação
Avenida José de Brito
Mmartan
Soares
x
x
Avenida Primeiro de
Cara de Criança
Janeiro
Londrina/PA
x
Avenida Primeiro de
Hering Store
Janeiro
Blumenau/SC
Internacional
Avenida Primeiro de
Ateliermix
Janeiro
Sapiranga-RS
Internacional
Avenida José de Brito
Equus
Soares
Minas Gerais
Internacional
Avenida José de Brito
Mr. Cat
Soares
Rio de Janeiro
Nacional
231
Avenida José de Brito
Soares
Nacional
Avenida José de Brito
Arezzo
Soares
Belo Horizonte
Nacional
Avenida José de Brito
Carmen Steffens
Soares
São Paulo
Internacional
Avenida Primeiro de
Hope
Janeiro
x
Nacional
Avenida José de Brito
Lilica &Tigor
Soares
x
Nacional
Pezinho & Cia
Avenida 13 de Maio
x
x
Avenida Conego João
Lojas Avenidas
Lima
Cuiabá
Nacional
Santa Lola
Rua José de Brito Soares
x
Nacional
Avenida Conego João
Kazzu Azzee
Lima
Goiânia
Nacional
M.office
Avenida Filadélfia
x
x
Avenida Conego João
Colombo
Lima
x
x
Avenida Conego João
Armazém Paraíba
Lima
x
x
Fonte: Trabalho de Campo, 2014. Site das empresas. Organização: Reges Sodré
(2014/15).
A chegada dessas empresas em Araguaína é muito recente, data de 2005, com a
instalação da Carmen Steffens - loja com atuação focada em públicos da classe média
alta. Essa loja recentemente adotou novo endereço na Av. José de Brito, sendo que antes
se encontrava na Av. Cônego João Lima. Isso fortalece o fato de a maioria das lojas de
grife localizarem-se naquela avenida, dada a proximidade com bairros nobres na cidade,
como o setor Anhanguera, e, ainda assim, continuarem com localização favorável ao
público regional.
Em entrevista, a proprietária da franquia Carmen Steffens Araguaína destaca
que “foi difícil introduzir esse conceito porque, em cidade do interior, as pessoas
estavam acostumadas com aquela situação do fazer ‘notinhas’, o ‘leva para casa e acerta
depois’”. Por tudo isso, “o início foi complicado”. Porém, segundo ela, “as pessoas
entenderam que a cidade estava crescendo e que as mudanças eram necessárias”. A
partir de então, houve um surto de criação de franquias, lojas, e renomadas boutiques na
cidade.
Os produtos que elas oferecem são sofisticados e caros, dando distinção social
a quem pode ou não consumir, ou seja, eles são direcionados a um público de médio a
alto poder aquisitivo. Esse fator é muito importante, porque a cidade consegue atender
não somente a demanda por bens de consumo básico para a população das cidades
locais, mas oferece bens de consumo imaterial sofisticado a elite regional que, ao invés
de se deslocar para cidades maiores, ou mesmo Palmas, encontram aqui suas marcas
favoritas. A chegada dessas marcas amplia e complexifica as funções e os papéis da
cidade de Araguaína.
Terrace
232
Sob tais grifes há muito mais que valor de uso, pois o simbolismo de tê-las, até
mesmo pelo destacado marketing feito pelas mídias, é um meio de exibição e fantasia
em uma época que se distingue pessoas pelas marcas que usam, pela quantidade que
consomem, firmando-se como claro sinônimo de poder, elegância e sofisticação. Assim,
o crescimento do comércio de Araguaína, de forma pronunciada nos últimos 20 anos,
pode ser lido, além das transformações já contextualizadas, como fazendo parte das
exigências da sociedade local que inclui um novo modo de consumir e viver,
característico da “sociedade de consumidores”, conforme nota o sociólogo Bauman
(2008).
Segundo Bauman (2008, p. 73. grifo do autor), na sociedade de consumidores
“todo mundo precisa ser, deve ser e tem que ser consumidor por vocação” sendo “ao
mesmo tempo um direito e um dever humano universal que não conhece exceção”. É
por isso que paradoxalmente vemos também a criação, em Araguaína, de um conjunto
de lojas de vestuários especializadas em termos de preços: por exemplo, lojas que
vedem alguns produtos apenas por R$ 5,00 10,00 ou 12,00, destinadas ao público com
menor poder aquisitivo, nem por isso excluído do mercado. É a lei do mercado no
mundo capitalista: existem produtos a serem consumidos por todos os gostos e preços.
Essas lojas mais populares de vestuários estão localizadas principalmente na
Avenida Cônego João Lima e Avenida João de Souza Lima, cujo crescimento nos
últimos anos foi exponencial. As referidas avenidas cumprem importante papel de
distribuição de mercadoria à população regional de baixo poder aquisitivo,
principalmente aquela de cidades mais próximas, que devido aos baixos custos de
transporte, tem maior acesso à Araguaína, fazendo aí seus mais básicos tipos de
consumos, como constatamos em diversas entrevistas que fizemos com pessoas das
cidades de Carmolândia, Aragominas, Wanderlândia, Santa Fé do Araguaia,
Muricilândia e Pau D’arco nos meses de novembro e dezembro de 2014.
A esse respeito é importante notar que os brasileiros nunca gastaram tanto
dinheiro com sapatos, roupas, joias, óculos e os demais produtos que formam o que se
convenciona chamar de mercado da moda (EXAME, 2014). Além disso, segundo a
revista Exame, em nenhum país esse setor cresce tanto quanto no Brasil, fazendo com
que nos últimos dez anos o faturamento do setor quadruplicasse, chegando a 140
bilhões. Dessa forma, o Brasil saiu do 14º lugar no ranking mundial para o 7º em 2013.
Só o mercado de franquias cresceu cerca de 259% de 2007 a 2013.
Ainda segundo a publicação, nas classes D e E quase todo o dinheiro é gasto
em necessidades básicas como moradia e alimentação. Sobram apenas 40 reais por mês
para roupas e acessórios. Quem passa para a classe C gasta, em média, 97$. Na Classe
B, 202 $ e, na classe A, 455 $ por mês com moda. As grandes empresas percebem essa
dinâmica do mercado e criam diversas marcas destinadas a atender um público
diferenciado economicamente. Segundo a proprietária da franquia Carmen Steffens de
Araguaína, os gastos com moda nessa cidade em 2012 superou os 60 milhões de reais.
233
Esses novos hábitos podem ser notados em Araguaína, entre outros aspectos,
pelo crescente número de eventos, de festas e a intensificação de hábitos tipicamente
urbanos, como se alimentar fora de casa e participar de constantes coquetéis, cuja
divulgação nas redes sociais e em revistas especializadas fomenta e complementa essa
realidade. Beltrão Sposito (2004) já alertava sobre essas e outras novas práticas
socioespaciais em cidades médias, oriundas em parte de imitação de prática dos centros
metropolitanos.
No que tange às franquias e a sua relação com a rede urbana, Catelan (2012, p.
117) destaca que:
O sistema de franquias é tendência importante no fortalecimento
do comércio, além de ser observado à luz das interações
espaciais interescalares, haja vista que estas empresas
franqueadas possuem abrangência nas escalas nacional e
internacional e, ao mesmo tempo, fortalecem as funções e os
papéis destas cidades médias nas escalas local e regional, ao se
associarem com capitais menores que nelas atuam.
Segundo Corrêa (1991, p. 144), as corporações criam “novos padrões de
interação espaciais” ou os tornam mais complexos. Neste caso em estudo, isso se
verifica a) pela circulação de excedente em direção aos locais de matriz das empresas,
via rede bancária; b) pela circulação de mercadoria aos pontos de venda (para
Araguaína e região) e de informações, ligadas à gestão e à divulgação dos produtos; c)
fortalecimento da centralidade interurbana.
Esses processos que demandam formas diferenciadas imputam novas
qualidades ao processo de urbanização na cidade ainda incipiente, mostrando que o
consumo sofisticado atinge cidades médias no interior da Amazônia Legal e insere-as na
encruzilhada/trama de interações espaciais para além de sua região de influência, ainda
que esta justifique aquelas, e de certa forma delas resulta.
A instalação dessas empresas em Araguaína nos dá um conjunto de interações
que chegam até a cidade, conectando-a numa trama de relações e acumulações do
capital nacional e internacional. É a lógica exógena criando nexos no território local que
lhes são estranhos, pois mais especializados e dinâmicos. Embora o local não seja
inerte, é somente por apresentar condições de acumulação, pelo consumo, que é
requerido como ponto e rede de localização desses capitais.
Por outro lado, a análise de lojas de vestuários criadas em Araguaína e que vem
se expandido nos mercados regionais nos apresenta dinâmicas comerciais que parte da
referida cidade para a região de influência e além dela, chegando, por exemplo, aos
estados do Pará, Maranhão e Bahia. Entre as lojas de vestuário criadas em Araguaína
com forte atuação regional, inclusive em cidades médias como Marabá, estão: Planet
Bolsa, T & A, Top Fama, Lojas Rezende e Estação do Enxoval.
Há que se distinguir, portanto, que diferentemente de cidades médias do
sudeste, como as estudadas por Catelan (2012; 2014), em Araguaína as relações
interescalares no comércio de vestuário dão-se de modo muito mais intenso. Nesse
sentido, na medida em que lógicas nacionais e internacionais nela chegam e em nenhum
234
caso de fluxos que dela partem99 e atingem a escala internacional (e mesmo raramente a
nacional, como podemos observar) ficam restritas à escala microrregional e regional, o
que não invalida as dinâmicas de interações em múltiplas escalas.
Por último, cumpre ressaltar que as empresas que se localizam em Araguaína,
sejam com sede ou filiais, atuam e planejam tendo como referência os consumidores da
rede de influência dessa cidade, e não somente os que nela habitam. Segundo o IBGE
(2008; 2010), na região de influência da cidade aqui focalizada está presente um
contingente de 9.448.68 mil habitantes.
Essa lógica de atuação ocorre de duas maneiras complementares: 1) pessoas
que procuram a cidade para consumirem, não incluindo somente o comércio de
vestuário, mas também outros que abastecem seus pequenos comércios nas cidades
locais com produtos oriundo dessas lojas; 2) empresas criadas em Araguaína ou nela
instaladas usam a cidade como apoio logístico para a interiorização, pela abertura de
filiais, vendedores autorizados e outros.
5. Considerações finais
Constatamos que é crescente o incremento de interações espaciais
interescalares nas cidades médias do Tocantins orientadas pela atuação de agentes que
usam o espaço nacional e internacional como condição e meio de sua reprodução.
Acentuam-se as centralidades dessas cidades na rede urbana regional, com substancial
concentração e centralização espacial e econômica, havendo íntima relação entre espaço
intra-urbano e interurbano.
Em Araguaína, o recente incremento do comércio de vestuário, pelas
características descritas, faz com que a) a natureza das interações espaciais
internacionais e nacionais se modifiquem e deixe de ser apenas ligado ao já conhecido
ramo do agronegócio; b) a intensidade das interações espaciais aumenta; c) a
periodicidade torna-se mais intensa e d) os alcances tornam-se mais dinâmicos, porque
são interescaleres.
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BELTRÃO SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão. O chão em pedaços: urbanização,
economia e cidades. Presidente Prudente: UNESP/FCT, 2004 (tese de livre docência).
99
Referimo-nos a empresas criadas em Araguaína, pois se considerarmos o ciclo do capital,
obviamente diversas lógicas partem de Araguaína, como a própria demanda e a extração de excedente,
como destacado anteriormente.
235
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de Dados Geográficos do Tocantins – atualização 2012. Palmas, 2012.
237
PRIMEIRA APROXIMAÇÃO AOS AGENTES SOCIAIS “O SHOPPING
CENTER NA CIDADE DE CUZCO – PERU”100
Rita de Cássia Gregório de Andrade101
Universidade Estadual Paulista – Campus de Presidente Prudente
Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais – GAsPERR
[email protected]
RESUMO
Com o intuito de compreender a complexidade da produção do espaço urbano em
Cuzco, toma-se como ponto de partida a identificação dos agentes sociais, econômicos e
políticos. Os agentes econômicos envolvidos com os grandes empreendimentos de
comércio varejista também estão se insertando no espaço urbano, em especial, através
do Shopping Center Real Plaza, inaugurado em 2013. Este artigo compreende o
processo de início da pesquisa de doutorado sobre o shopping center na cidade de
Cuzco. Portanto, para sua realização, lançou-se mão de fontes documentais que tratam
da cidade de Cuzco (relatórios, dados estatísticos, notícias de jornais e fotografias) e
bibliográficas (livros e artigos científicos) sobre os agentes produtores do espaço e o
shopping center.
Palavras chaves: Produção do Espaço Urbano; Shopping Center; Cuzco.
1. Apresentação geral da cidade em estudo
Com uma população de 398.663 habitantes no ano 2011 (INEI, 2012, p. 17), a
cidade de Cuzco é considerada uma cidade média102, de acordo com a tipologia das
cidades peruanas (INEI, 2007). Esta urbe está localizada na Província de Cuzco, a qual
se situa no Departamento de mesmo nome103, no Sul do Peru (Figura 1). Logo,
encontra-se a certa distância das cidades da Costa, onde se concentra o mais expressivo
processo de urbanização do país, capitaneado por Lima Metropolitana. Efetivamente,
Cuzco é uma cidade provinciana por sua localização, contudo, cosmopolita pelo atrativo
turístico e a centralidade cultural que exerce.
100
Este artigo é resultado da Pesquisa de Doutorado, que se encontra em fase inicial, por isso, não
apresentam considerações finais. Essa pesquisa é orientada por Maria Encarnação Beltrão Sposito. É
financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP.
101
Estudante de Doutorado do Programa de Pós Graduação em Geografia/UNESP/Presidente Prudente.
102
Classificação realizada, segundo o tamanho demográfico.
103
Recebem a mesma denominação “Cuzco”: o Departamento, a Província e o Distrito, em termos
político-administrativos. Igualmente, há a cidade de Cuzco, que é um continuum urbano situado em vários
distritos.
238
Figura 1: Localização geográfica do Departamento de Cuzco
Fonte: Região Cusco, Documento do Ministerio del Comercio Exterior y del Turismo.
http://www.mincetur.gob.pe/newweb/Portals/0/Cusco.pdf
Cuzco está a 1.153 km de Lima, com trajeto terrestre de uma duração de 15
horas, não obstante, por seu potencial turístico, conta com o segundo mais importante
aeroporto do país, construído em 1964. Logo, diariamente, desembarcam em Cuzco
passageiros nacionais e internacionais.
Situada na Região Serra, está a uma altitude de 3.399 m. Por conseguinte, o
espaço topográfico sobre o qual Cuzco está assentada, determinante para sua forma
urbana, é constituído pelo vale do Rio Huatanay. Contudo, com o crescimento recente
do tecido urbano, a urbe andina tem sua expansão constrangida pelas montanhas
íngremes. De forma sucinta, Aedo (2001, p. 24) explica que:
El desarrollo físico y urbano de la ciudad del Cusco está
condicionado por las características geomorfológicas del valle
del Huatanay. Se trata de un crecimiento urbano longitudinal
cuyo eje direccional es la Avenida de la Cultura, única vía
generadora de interrelaciones entre las diferentes zonas urbanas
de la ciudad.
A estrutura urbana é do tipo centro-periférica, pois, de um lado, Cuzco é
formada pelo centro tradicional, Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1983, em
cuja área se instalou atividades comerciais e de serviços turísticos desde os anos 70 do
século XX e é o local mais densamente ocupado da cidade; de outro lado, têm-se os
bairros periféricos, os quais estão passando, nas últimas décadas, por processo de
intensificação da ocupação e diversificação dos usos do espaço.
A Figura 2 apresenta a evolução da forma urbana de Cuzco, com o centro
tradicional localizado à esquerda e o eixo de expansão posterior orientado para a direita.
239
Portanto, uma forma longitudinal, seguindo o curso do rio, como mencionou Aedo
(2001). A pequena faixa branca, na parte sul, corresponde ao Aeroporto Internacional
Alejandro Velasco Astete, localizado totalmente dentro da zona urbana.
Figura 2: Evolução do tecido urbano de Cuzco.
Fonte: AEDO, 2001, p. 24.
Em Cuzco, há déficit de área propícia para a urbanização, tanto pelas
características geomorfológicas, quanto pela presença de zonas naturais, históricas e
arqueológicas protegidas, fatores que intensificam os conflitos dos agentes sociais pela
apropriação e uso do espaço. A figura 3 apoia a descrição realizada:
Figura 3: Tecido urbano de Cuzco
Fonte: Google Earth
Efetivamente, estudar a cidade de Cuzco é uma tarefa que exige grande esforço,
em virtude das complexas interações e relações entre os agentes, tanto os da escala da
cidade quanto os de outras escalas geográficas, tais como a regional, nacional e
internacional. Tal realidade pode ser remetida às palavras de Lefebvre, ao relatar o:
(...) conjunto das atividades prático-sociais, na medida em que
elas se imbricam num espaço complexo, urbano e cotidiano,
240
assegurando até certo ponto a reprodução das relações de
produção (relações sociais). Através desse espaço atual, de sua
crítica e de seu conhecimento, alcança-se o global, a “síntese”.
(LEFEBVRE, 2008, p.18).
Com o intuito de compreender a complexidade da produção do espaço urbano
em Cuzco, toma-se como ponto de partida a identificação dos agentes sociais,
econômicos e políticos. A priori, destacam-se aqueles envolvidos nas atividades ligadas
ao Turismo, por terem sido determinantes na formação de vários arranjos espaciais na
cidade, como também os agentes conservadores do patrimônio. Em seguida, vem o setor
imobiliário, que está atuando cada vez mais em Cuzco e o Shopping Center Real Plaza,
objeto de estudo deste trabalho, encontrou possibilidade de inserir-se no comércio
varejista da cidade, sendo um de seus empreendimentos mais recentes.
2. Os Agentes Sociais: uma primeira aproximação
O trabalho de Andrade (2013) contém vários esclarecimentos a respeito das
particularidades espaço-temporais da ação dos agentes. Assim, ao estudar o papel da
Igreja como agente produtor do espaço urbano-regional do Recôncavo Baiano no século
XVIII, Andrade assinala que:
A identificação de agentes de produção passa pelo próprio
entendimento da dinâmica social de uma dada configuração
territorial. Esse exercício, entretanto, não segue um padrão
uniforme aplicável a todo espaço ou tempo histórico. Ainda que
possam ser agrupados genericamente, as peculiaridades de um
dado recorte têmporo espacial dão especificidades aos
agentes que ali atuam mediados pelas relações de poder na
produção do espaço social (ANDRADE, 2013, p 02).
No caso ora estudado, é relevante compreender a forma através da qual os
agentes sociais atuantes na economia pós-fordista produzem, hoje, uma cidade repleta
de particularidades culturais e naturais. Através deste exercício de reflexão e análise, foi
possível constatar que Cuzco vem sendo produzida por agentes sociais, políticos e
econômicos múltiplos e conflituosos, os quais, são: 1) O Estado, cuja ação é
desarticulada e fragmentada; 2) Agentes do setor terciário da economia, que se utilizam
do potencial arqueológico e paisagístico para acumular capital, através de atividades
ligadas ao Turismo; 3) Os grupos sociais mais desfavorecidos, atuando no setor
informal da economia e na ocupação ilegal das áreas de risco; 4) Os promotores
imobiliários e 5) os proprietários fundiários, que submetem a terra e os imóveis ao valor
de troca. Os agentes econômicos envolvidos com os grandes empreendimentos de
241
comércio varejista também estão se insertando no espaço urbano, em especial, através
do Shopping Real Plaza, inaugurado em 2013.
Tomando em consideração os agentes sociais elencados por Correa (1995),
buscou-se identificar os mesmos na cidade de Cuzco (Quadro 1), como exercício de
aproximação inicial ao reconhecimento de tais agentes.
Quadro 01: Agentes produtores do Espaço Urbano em Cuzco
Agentes identificados por Corrêa
(1995)
Donos dos meios de produção
(sobretudo as grandes indústrias)
Proprietários fundiários
Promotores imobiliários
Agentes identificados em Cuzco, com base em Corrêa
(1995)
Indústria manufatureira; construção; eletricidade; gás; água.
Públicos; privados; Igreja.
Empresas imobiliárias e construtoras formais e informais
- Municipalidades distritais: San Sebastian; Santiago;
Wanchaq; San Jerónimo;
Estado
- Municipalidade Provincial de Cusco
- Governo Regional;
- Ministério de Cultura; Ministério do Ambiente; UNESCO
Grupos sociais excluídos104
População indígena, de origem indígena, camponeses
migrantes.
Fonte: CORREA, 1995 e elaboração própria.
Primeiramente, será apresentado o agente Estado, o qual possui ação
administrativa de caracterização complexa. A bibliografia que trata dos agentes
produtores do espaço sempre ressalta o papel importante do Estado. Por exemplo, Souza
(2011) explica a função dele:
[...] dispõe-se enquanto planejador: promulgação de leis (planos diretores,
zoneamentos, legislação urbana/urbanística federal e estadual etc.) recursos
para investimentos em larga escala, monopólio (legal) da violência, poder
(legal) da polícia. É claro que o Estado, por tudo isso, é e permanece sendo
uma instância crucial do planejamento (e da gestão) das cidades. (SOUZA,
2011 p.150).
Porto (2008) também evidencia que o Estado realiza importantes intervenções
urbanas do ponto de vista da socialização da cidade, com a estruturação de obras de uso
coletivo, tais como escolas, correios, hospitais, para cumprir sua função governamental.
Capel (1974), por seu lado, fundamentou o papel do poder público, antes mesmo de
Souza (2011) e Porto (2008):
El Estado es a la vez agente que contribuye de forma decisiva a
la producción del espacio urbano, y árbitro en los conflictos y
contradicciones surgidos entre los diferentes agentes. Al mismo
tiempo realiza las acciones necesarias para la regulación del
sistema en el caso de la existencia de una presión popular a
104
Essa qualificação de Correa merece maior reflexão neste texto. Embora a pesquisa sobre a cidade de
Cuzco ainda esteja em fase inicial, já se nota que não há “excluídos”, pois, todos os agentes têm uma
participação. Tais afirmativas serão aprofundadas em fases posteriores da pesquisa.
242
través de movimientos reivindicativos de carácter urbano
(CAPEL, 1974, p. 51-52).
No caso das cidades peruanas, é importante verificar a ação atual de um Estado
eminentemente neoliberal e, ao mesmo tempo, com variadas instâncias de poder e
planejamento. A divisão político-administrativa da República do Peru105, distinta da
brasileira, tem uma particularidade, no que toca à organização do Estado, enquanto
agente de produção do espaço. Há uma fragmentação político-administrativa, com entes
políticos diversos atuando no mesmo espaço.
As menores unidades administrativas, a partir das quais há ações do poder
público na cidade de Cuzco, são os Distritos, cada qual com sua municipalidade
(Quadro 1). Apenas o Distrito de Cuzco não possui prefeitura distrital, uma vez que é
sede da prefeitura provincial. Por conseguinte, a cidade de Cuzco também
recebe influência de decisões tomadas na Província e, finalmente, no Governo Regional
de Cuzco, ou seja, no nível do Departamento. Instâncias nacionais e internacionais,
como o Ministério de Cultura, o Ministério do Meio Ambiente e a UNESCO, também
atuam na cidade imperial.
Logo, em Cuzco, como em todo o território peruano, há uma grande
fragmentação de competências entre as autoridades políticas, nacional, regional e
local106. Assim, a ação do agente Estado é complexa, dispersa, desarticulada e, pela
índole liberal que possui nos dias correntes, sua ação nem sempre é a mais
determinante, sobretudo, na política econômica, marcada pela dependência. Por isso, em
todos os entes políticos acima elencados, percebe-se um Estado ora ausente, reflexo das
políticas neoliberais, ora atendendo aos interesses dos agentes econômicos dominantes,
tanto provenientes de Lima, quanto de outros lugares. Em contrapartida, devido à
105
No Peru, embora haja a presença do município, há unidades administrativas menores com atribuições
municipais. Segundo a Lei Orgânica de divisão regional, há 25 regiões, mais a Província de Lima, que
tem um regime especial. Cada região é dividida em províncias, administradas por uma Prefeitura
Provincial. Por fim, cada província é dividida em distritos, que são governados por uma Prefeitura
Distrital. Vale ressaltar que a Região Callao, excepcionalmente, não está dividida em províncias, estando
dividida somente em distritos, devido a particularidades de sua formação histórico-administrativa.
106
O exemplo de Lima é ilustrativo, no que toca a falta de integração administrativa. Há uma
municipalidade maior, com seu prefeito, no entanto, há 42 distritos, os quais têm seu prefeito, que
decidem sobre normas urbanísticas, impostos e planejamento de seu territorial. Distritos estes que formam
uma cidade de 08 milhões de habitantes, cuja mancha urbana contínua também inclui Callao, que é outra
província, administrada por sua municipalidade provincial, que também está dividido em 07 distritos.
243
importância que Cuzco tomou como patrimônio histórico e natural, também se percebe
a intenção conservadora em vários locais, mais que em qualquer outra cidade do Peru.
Por sua parte, o setor imobiliário obteve grande importância nos últimos anos.
Segundo um relatório da “Cámara Peruana de la Construcción”, desde 2002 até 2012
foram construídos 5.000 apartamentos e casas em Cuzco sem nenhum
planejamento (CAPECO, apud LA REPÚBLICA, 2012), o que revela o paradoxo
do Estado, que ora atua em prol do patrimônio, ora atende aos interesses do
negócio imobiliário.
Esse boom imobiliário é noticiado frequentemente nos jornais do país, como
El Comercio, La República e Gestión. Por exemplo, no Jornal La República, de 30
de Agosto de 2013, saiu uma notícia com o título “Boom Inmobiliario se muda de
Lima a Provincias” e que aponta:
En Lima, muchas constructoras han migrado a la sección de
conos y ya no han encontrado zonas donde construir, ya sea
por la escasez de terreno o problemas con las municipalidades
para poder conseguir las licencias… ¿En qué provincias?
Sobre todo en Arequipa, en Cusco, en Piura, en Chiclayo y en
Trujillo.
Corroborando com o assunto antes discutido, uma reportagem de 30 de
agosto de 2013 do Jornal Gestión, apresenta o seguinte título: “En Cusco se ha
pasado del boom hotelero al boom inmobiliario”, mercado esse, vale agregar,
comandado por empresas formais e informais. No jornal, é citado como motivos
para esse “boom” o crescimento demográfico, vinculado à “minería informal (la
mayoría de personas que compran los departamentos provienen de Puerto Maldonado),
el narcotráfico, contrabando y la corrupción” (GESTIÓN, 16 de agosto de 2013).
Por outro lado, esse desenvolvimento econômico da última década está
ocasionando a acumulação do capital por alguns agentes, entretanto, sem significativas
melhorias das condições de vida de muitos habitantes, os quais compõem os grupos
sociais mais desfavorecidos, ou integrados ao setor informal mais pobre da economia. A
Figura 4 mostra uma senhora andina sobre uma zona alta, onde muitas famílias
estabelecem suas residências. Essa imagem dela olhando a cidade que cresce por ação
do setor imobiliário pode ser ilustrativa do que vem ocorrendo em Cuzco107
107
Cuzco ou Cusco? Neste artigo, prefere-se a escrita da palavra Cuzco, uma vez que a cidade aqui
estudada é identificada com essa denominação, na língua portuguesa. Entretanto, no idioma espanhol do
Peru, é utilizada a palavra Cusco. Isso explica porque, nas figuras e citações dos documentos sobre a
cidade em tela, aparece escrita a designação Cusco, conforme, por exemplo, o anúncio da Figura 4.
244
Figura 4: Vista da cidade desde um mirante habitado por população de baixa renda, imagem de 2013.
Fonte: Jornal La República, http://www.larepublica.pe/08-09-2013/22-mil-familias-en-peligro-por-caosurbano-en-cusco, consulta: 13/08/2014.
Portanto, tem-se a atuação dos grupos sociais de menor poder aquisitivo, cujas
práticas se caracterizam por ocupar áreas de risco da cidade, como pendentes íngremes,
terrenos arenosos e margem de rios, configurando áreas de “barriadas108” (Figuras 5 e
6). Em menor intensidade, estes agentes ocupam também áreas arqueológicas, gerando
conflitos com o Estado.
Figura 5: Desmoronamento de uma casa na
Urbanización Alto de los Incas, após chuva
intensa, no dia 10 de Outubro de 2013, fato que
ocorre com frequência. Fonte: La República.
http://www.larepublica.pe/10-10-2013/comienzaa-llover-en-cusco-y-faltan-planes-para-prevenirdesgracias, Consulta: 13/08/2014.
Figura 6: Casas em mau estado, no assentamento
de Santa Lucía, após chuvas fortes. 10 de Janeiro
de
2014.
Fonte:
El
Comercio.
http://www.larepublica.pe/10-10-2013/comienza-allover-en-cusco-y-faltan-planes-para-prevenirdesgracias, consulta: 13/08/2014.
Percebendo o crescimento do mercado imobiliário de Cuzco nos últimos anos e
o encarecimento do solo, os agentes fundiários (públicos, privados e a Igreja) já põem
suas propriedades como valor de troca nos distritos periféricos ao centro histórico. O
Jornal La República, de 10 de Dezembro de 2012, informa preços de terrenos que são,
indubitavelmente, inacessíveis à população de menor poder aquisitivo:
245
El metro cuadrado en el centro histórico cuesta 6 mil dólares.
En zonas como la avenida de La Cultura se oferta a 3 mil
dólares y en algunos lugares exclusivos como Santa Mónica,
Magisterio y Larapa, el m2 de terrenos (casas para demoler)
llega a 2 mil dólares.
Por seu turno, o setor industrial não é tão representativo quanto o terciário, como
pode ser visto nos dados locais da População Economicamente Ativa (PEA) e do
Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, são atividades presentes em Cuzco e são
descritas pela Municipalidade Provincial:
Está representada en su gran mayoría por micro empresas, entre
las principales actividades relacionadas o similares a las
industriales, se identifica fábricas de artículos confeccionados,
de calzado, maletas, muebles, prendas de vestir, instrumentos
musicales, joyas y artículos conexos, partes y piezas de
carpintería, entre las más resaltantes. (MUNICIPALIDAD
PROVINCIAL DEL CUSCO, 2011, p. 237).
Para explicitar a ação dos agentes econômicos, lançou-se mão, primeiramente,
de dados estatísticos. Estes, expostos no Quadro 2, são referentes à Província de Cuzco.
Assim, segundo as fontes estatísticas109 de 2011, as atividades mais representativas são
as de serviços de restaurantes e hotéis; transporte e telecomunicações e comércio.
Quadro 02: Valor bruto da produção da Província de Cuzco
Atividades
% da Província de Cuzco,
na Região Cuzco
Restaurantes e hotéis
68%
Transporte e telecomunicações
65%
Outros serviços
62%
Comércio
60%
Serviços governamentais
52%
Manufatura (artigos)
52%
Eletricidade e água
48%
Construção
46%
Agricultura, caça e silvicultura
7%
Minérios e hidrocarbonetos
3%
Pesca
0%
Fonte: Municipalidad Provincial del Cusco, 2011.
http://municusco.gob.pe/gerencias/WebPlanUrbano/assets/files/Teoria/CAPITULO%20II%20DIAGNOS
TICO/2.4.%20COMPONENTE%20ECONOMICO.pdf
Consulta: 10/08/2014
109
As atividades econômicas mais lucrativas da Província de Cuzco são diferentes das mais
representativas do Departamento de Cuzco. Logo, dados departamentais, também do ano 2011, revelam
que as atividades mais economicamente rentáveis a escala departamental são a mineira e de
hidrocarbonetos. Logo, o destaque para as atividades terciárias na cidade de Cuzco explica-se pelo
potencial turístico, gerado pelo patrimônio histórico e arqueológico, especialmente por sua proximidade a
cidadela de Macchu Picchu.
246
Em suma, a economia da cidade de Cuzco é eminentemente terciária, voltada
para o setor turístico, logo, com presença de agentes empresariais. A Prefeitura
Provincial de Cuzco explica que as atividades chamadas terciárias são:
… las actividades de comercio, hoteles y restaurantes, los
transportes y las comunicaciones, las finanzas, un conjunto de
actividades auxiliares (asesoría, informática, etc.), los servicios
sociales y personales, las actividades relacionadas con el ocio y
otras muy diversas (MUNICIPALIDAD PROVINCIAL DEL
CUSCO, 2011, p. 243).
Através das figuras 7 e 8, pode-se visualizar um ambiente com intenção de
ostentar comodidade e tradição, para hospedagem de turistas provenientes de todas as
partes do mundo. Os hotéis e restaurantes geralmente estão localizados no centro
histórico e vários deles são negócios de agentes econômicos não originários de Cuzco.
Figura 7: Belmond Hotel Monasterio.
Figura 8: Hotel Casa Andina Classic Cusco.
Fonte: Página web do hotel
http://www.visaluxuryhotelcollection.com.br/hotel
-detail/hotel-monasterio.
Consulta: 13/08/2014.
Fonte: Página web do hotel
http://www.inkanatura.net/hotelcasaandinacuzco.htm.
Consulta: 13/08/2014.
Também é necessário reafirmar que há a participação das atividades do setor
informal, ou do que Santos (2008) conceituou como “circuito inferior da economia”.
Por exemplo, na cidade de Cuzco, podem ser encontradas empresas informais de
http://www.visaluxuryhotelcollection.com.br/hotel-
transporte, tanto conduzindo gente da localidade,
quanto turistas, agências de turismo,
detail/hotel-monasterio
guias turísticos, serviços de lavagem de carros e atividades comerciais, desde venda de
roupa a suprimentos em geral.
Dessa forma, ao refletir sobre a ação dos agentes antes expostos, conclui-se
que o espaço urbano de Cuzco, “como qualquer outro objeto social, pode ser
abordado segundo um paradigma de consenso ou de conflito” (CORREA, 1995, p.
01). A primeira aproximação da identificação dos agentes produtores do espaço em
Cuzco mostrou que há, nesta urbe, agentes econômicos, sociais e políticos, tanto de
origem local como global, os quais dão forma e conteúdo à urbe.
247
Portanto, atuam em Cuzco os agentes que Vasconcelos (2011) chamou de
agentes legais e ilegais (ou formais e informais). Concomitantemente, há os agentes
examinados segundo suas ações locais, regionais, nacionais ou globais (escala) ou os
agentes hegemônicos ou dominantes e os dominados (associados ao poder político, à
economia, à cultura, etc.). Há, também, os agentes transformadores ou “conservadores”
das
cidades
(exemplos:
agentes
imobiliários,
defensores
do
patrimônio)
(VASCONCELOS, 2011).
Enfim, as abordagens de Corrêa, Capel e Vasconcelos, sobre os agentes sociais,
apresentam complementaridades e apoiam a análise aqui realizada, tendo como base
empírica a cidade de Cuzco. Esses teóricos reforçam a compreensão crítica, com
enfoque social e econômico, dos agentes que atuam no espaço urbano. Nessa
perspectiva, os agentes agem e interagem, de acordo com interesses econômicos,
frequentemente, gerando conflitos, no âmbito do sistema capitalista.
3. O Shopping Center no Peru: “De Lima às Províncias”
O número de shopping centers aumentou nos últimos quinze anos, como
resultado da redefinição dos papéis das cidades peruanas no atual processo de
reestruturação econômica. Outros países da América Latina receberam o shopping
center em suas grandes cidades desde a década de 1970, contudo, no Peru, a
construção desses empreendimentos foi retardada pela simultaneidade do conflito
armado e da crise econômica, que assolou o país nas décadas de 1980 e 1990.
O conflito político e a recessão econômica pelos quais o Peru passou tiveram
seu retrocesso na década de 1990, durante o governo de Alberto Fujimori, o qual
solucionou tais problemas, respectivamente, através da repressão e prisão dos
líderes guerrilheiros e da implantação de um programa de governo neoliberal,
seguindo o Consenso de Washington. O intuito do Programa de Ajuste Estructural
Neoliberal (PAEN) foi promover o desenvolvimento através da iniciativa privada,
do livre mercado e da competição entre os agentes econômicos nacionais e
internacionais, como via para dinamizar e/ou formalizar as atividades comerciais e
de serviços. Com isso, o país pôde retomar seu caminho rumo à economia
capitalista e global. Em suma, o Peru pós crise adentrou, de modo mais profundo,
no sistema de acumulação capitalista, o qual, segundo Harvey (2007, p. 140),
apoiou-se “(...) na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de
trabalho, dos produtos e padrões de consumo”.
248
Entretanto, o Peru é um país que, historicamente, desenvolveu sua economia em
função de demandas externas por matérias-primas, com cidades e regiões fortemente
marcadas pela atividade mineira, voltada para exportação, com base na agricultura de
subsistência e na economia informal. Assim, a nação peruana experimentou o processo
de reestruturação econômica, ora com rupturas, ora com permanências de suas
problemáticas. Efetivamente, as cidades estão se reestruturando, com a ação de
agentes econômicos da empresa privada e moderna, porém, com a continuidade
dos problemas advindos da atividade mineira, o ineficiente aproveitamento do seu
rico legado histórico, material e imaterial, e com o seguimento do dualismo
formal/informal nos ramos primário, secundário e terciário da economia.
A ineficácia do Estado como agente político, promotor de bem estar social e
proteção ambiental também afeta os espaços urbanos. Ainda hoje as cidades da
Serra e da Selva110 são lócus de precariedade de infraestrutura, carência de
serviços públicos, deficiente saneamento básico, desarticulação da rede urbana,
insegurança, conflitos ambientais com empresas mineiras e escassa preparação
ante os frequentes desastres naturais. O cultivo de coca e o narcotráfico ainda
marcam o destino de várias cidades, principalmente da Selva Amazônica.
Assim, as mudanças das duas últimas décadas se deram por meio da
articulação entre descontinuidades e continuidades dos dilemas históricos do país.
Dessa maneira, é nesse contexto que as novas formas de consumo se instalam,
como fruto da reestruturação econômica.
Essas novidades revelam-se na
construção de condomínios fechados, shopping centers, multiplicação das empresas
imobiliárias, como também na valorização dos hábitos de lazer e consumo de bens e
serviços especializados da modernização atual.
Nessa senda, os shopping centers foram construídos, primeiramente, em
Lima/Callao, tanto nos bairros de classe alta, quanto nos distritos populares de
economia emergente. Em seguida, ergueram-se nas três cidades grandes, todas
elas, assim como Lima, localizadas na Região Costa, quais sejam Arequipa,
Chiclayo e Trujillo. Em último lugar, os shopping centers despontaram nas cidades
110
O Peru é um país fortemente marcado por três grandes regiões naturais, chamadas Costa, Serra e
Selva. A primeira é constituída pelo Deserto Costeiro do Pacífico, uma região seca e cortada por vales de
rios que nascem na Serra. A segunda é a área montanhosa, ou seja, a Cordilheira dos Andes, berço da
cultura andina. Enquanto a terceira é a zona constituída pela Floresta Amazônica. Em suma, o Peru está
constituído por três regiões, isto é, a desértica, a montanhosa e a de floresta densa. Logo, o processo de
ocupação do Peru é influenciado, até os dias atuais, pelas condições adversas de sua geografia física.
249
médias. A tardança desse processo explica-se pelas particularidades das três
regiões (Costa, Serra e Selva) e pelo tradicional centralismo de Lima.
Todavia, a atividade mineira (recursos minerais), turística (patrimônio,
arqueológico, cultural e natural) e a própria economia informal dinamizaram
algumas cidades médias do interior, econômica e demograficamente. Isto
possibilitou a participação de várias destas cidades na nova divisão do trabalho,
sendo, portanto, um processo recente e em curso. Vale salientar que, até o
momento, somente nas cidades da Selva não há shopping centers dos grupos
registrados na Asociación de Centros Comerciales del Perú (ACCEP), nem mesmo
em Iquitos, que é uma urbe de tamanho considerável. Diversas cidades desta
região são dominadas pelo narcotráfico, pela atividade mineira ilegal e carece de
articulação regional e nacional, o que, talvez, desanime os investidores do ramo
comercial/formal.
As constatações antes expostas têm a ver com o que Yujnovsky (1971, p. 101)
afirma sobre a realidade latino-americana, ou seja, deve-se considerar as
particularidades de uma sociedade dependente, o tipo de estratificação e mobilidade
social, o baixo poder aquisitivo de estratos médios e baixos, as características
específicas do modo de vida de camadas de alta renda, entre outras variáveis que
incidem na estruturação do espaço urbano.
O Quadro 3 apresenta informações sobre os shopping centers existentes nas
cidades peruanas, até o ano de 2014, sem contabilizar alguns que estão em processo
de construção.
Quadro 3: Shopping Centers vinculados à Asociación de Centros Comerciales del Perú (ACCEP)
SHOPPING CENTER ANO
DE GRUPO EMPRESARIAL
N° DE
OPERAÇÃO
ESTABELECIMENTOS
(NOME DE MARCA)
DO
1°
PAÍS DE
GRANDE
DEMAIS
SHOPPING
NOME
ORIGEM
LIMA
CIDADES
Jockey Plaza
1997
Altas Cumbre
Chile
01
00
Mega Plaza e Mega
Plaza Express
Plaza Lima Sur,
Arequipa Center e
Balta Shopping
Minka, Plaza del Sol y
Plaza de la
Luna
La Rambla, Molina Plaza
El Quinde Shopping
Plaza
2002
Grupo Wiese
Parque
Arauco
Peru
Chile
04
03
2005
Cencosud
Chile
Inversiones
Centenario
Chile
02
Peru
01
04
2012
Breca
Peru
02
00
2006
Ekimed
Peru
00
02
01
1986
250
Boulevard de Asia
1998
Ibárcena
Peru
01
00
Mall Aventura Plaza
2008
Mall Plaza
Chile
02
02
Open Plaza
1995
Falabella
Chile
04
05
Parque Agustino
2011
Graña y
Montero
Chile
01
00
2006
Parque Arauco
Chile
02
2009
Corporation
Wong
Pontificia
Universidad
Católica
Grupo
Intercorp
Chile
01
Larcomar, Lambramani y
Lima
Outlet Center
Plaza Norte
01
Plaza San Miguel
1976
Real Plaza
2005
Peru
00
00
01
Peru
06
11
1.1.1
Fonte: ACCEP, 2014.
1.1.2
http://www.accep.org.pe/picsdb/ini_1415662494_OPORTUNIDADES%20DEL%20S
ECTOR%20Brochure%202014.pdf
Através do Quadro 03, pode-se constatar que os interessados em construir
shopping center no Peru, até o momento, são investidores provenientes do Chile e
grupos empresariais locais. Aliás, as empresas chilenas, dos mais diversos ramos, são
as protagonistas do desenvolvimento da economia formal no Peru.
Até o ano 2014, havia 57 shopping centers no Peru registrados na ACCEP, 28
localizados na grande Lima e 29 nas demais cidades. Complementando as informações
do Quadro 3, é importante mencionar que os shopping centers de construção mais
antiga, localizados em Lima, aumentaram seu tamanho pouco a pouco, desde que
tivessem espaço para expandir-se. Inclusive, a falta de terrenos é um dos impedimentos
iniciais para o estabelecimento de shopping center no Peru, por suas particularidades
físico-geográficas.
Por exemplo, o Plaza San Miguel, em 2011, tinha 79.246 m² de área locável,
enquanto que, em 2014, tal área subiu para 85.504 m². Por seu turno, o número de lojas
subiu de 200 para 230. O Jockey Plaza, um dos maiores e mais sofisticados shopping
centers de Lima, tinha uma área locável, em 2011, de 124.561 m², aumentando para
156.106 m² em 2014. Assim, o número de lojas subiu de 346 para 425.
Há grupos empresariais que não apresentaram, até agora, o afã de expansão
para outras cidades, a exemplo da Pontificia Universidad Católica del Perú, que possui
apenas um shopping, presente na paisagem limenha desde a década 70 do século XX. O
Shopping Plaza San Miguel está localizado nas vizinhanças do campus universitário,
251
no Distrito de San Miguel, nas terras, antes rurais (antiga Fazenda Fundo Pando),
pertencentes à Igreja Católica.
A maior parte desses centros comerciais foi inaugurada nos últimos dez anos.
Tomando em conta a extensão territorial de cada um deles, atualmente, verifica-se
variação de tamanho, em metros quadrados. Para dar dois exemplos, tem-se o
Shopping Plaza Norte, construído nos distritos periféricos de Lima, o qual possui
127.350 m² de área locável, enquanto o Parque Agustino tem somente 13.375 m² de
área locável, estando, este, localizado na chamada Lima consolidada.
Finalmente, nota-se que o grupo peruano Intercorp, que constrói os shopping
centers com o nome de marca Real Plaza, é um dos mais recentes (início das operações
em 2005) e foi o que mais se expandiu em número de empreendimentos (06 shopping
centers na grande Lima e 11 nas demais cidades), sendo o que mais aposta, atualmente,
nos centros urbanos de porte médio das províncias serranas.
4. O Shopping Center Real Plaza de Cuzco
O que não faltam são impedimentos, do ponto de vista legal, para transformar a
forma urbana e o conteúdo da cidade de Cuzco. No que se refere ao Centro Histórico,
isto é devido às normas de conservação, detalhadas nos planos específicos, enquanto
na escala provincial, é efetuado por via dos planos de desenvolvimento urbano, os
quais listam como áreas de restrição as altas pendentes, leito de rios, áreas agrícolas
circundantes à cidade, sítios arqueológicos, áreas verdes e áreas de proteção
ambiental. Logo, o processo de modernização, resultante da reestruturação neoliberal,
em curso no país, encontra barreiras em Cuzco.
Por isso, Cuzco foi uma das últimas cidades, com o seu tamanho e dinâmica, a
ter um shopping center. Urbes de porte menor foram lócus destes empreendimentos
antes da capital imperial. As causas dessa tardança aparecem no discurso dos jornais,
à época da inauguração do shopping:
Ciudades más pequeñas en población como Juliaca, Ica,
Cajamarca, Chincha o Cañete, esta última con una población 5
veces menores, sí tienen oferta de retail moderno... Durante
estos años hubo oposición de autoridades, organizaciones
defensoras de la conservación de Cusco tal como está y de otros
sectores de la población, había augurios tan negativos como que
Cusco no es plaza para C.C111 o que sufriría robos constantes
111
Centro Comercial
252
que harían inviable su supervivencia o que un C.C espantaría a
los turistas (GESTIÓN, 12/12/2013).
Portanto, houve conflitos entre os agentes conservadores do patrimônio
(Prefeitura provincial, UNESCO e alguns membros da sociedade civil) e os agentes
imobiliários e empresariais. Com efeito, Cuzco vive a dialética tradição/modernidade,
pois, de um lado, é uma cidade de grande valor arqueológico, histórico, artístico e
cultural e, de outro lado, anseia por mudanças. Nesse sentido, Centeno e Solano (2013,
165) afirmam:
Se construye entonces una forma de entender el desarrollo
urbano que las empresas inmobiliarias han sabido recoger y
estimular idealizando este nuevo modelo de vida urbana. Las
transformaciones urbanas se traducen en importantes
inversiones en edificios residenciales y de oficinas,
condominios, centros educativos exclusivos, grandes centros
comerciales o malls, que se convierten en los nuevos
indicadores del grado de modernidad que alcanza una ciudad.
O shopping center, ressalta Pintaude, "(...) não é fruto do prolongamento, da
expansão comercial de um lugar, mas fruto de uma ruptura com o virtual destino de um
lugar. Os shopping centers não são implantados em locais tradicionalmente comerciais,
a não ser eventualmente, quando as condições o permitem, e esta localização não é
condição necessária" (PINTAUDI, 1989, p. 152)
O Real Plaza de Cuzco foi construído pelo Grupo Intercop, em associação com
a Imobiliária Puerta del Sol e foi inaugurado em 2013. Este shopping center foi
edificado em terreno próximo a Avenida de la Cultura. Esta via é a principal
artéria comercial da cidade e conecta o centro aos principais bairros de Cuzco.
Na Figura 9, pode-se ver a localização do Real Plaza (círculo vermelho) e a
sul é possível visualizar (em linha amarela) a Avenida de la Cultura. O círculo e o
retângulo, em cor preta, correspondem, respectivamente, ao centro tradicional e
ao aeroporto, o que significa que o Shopping Center Real Plaza está localizado em
uma zona estratégica, desde um ponto de vista de acessibilidade, dinâmica
comercial e social.
253
Figura 9: Localização do Shopping Center Real Plaza de Cuzco
Fonte: Google Maps
Em suma, as estratégias locacionais dos promotores imobiliários responsáveis
pelo Real Plaza de Cuzco tomaram em conta uma localização não tão longe do centro,
com boas vias de conexão e onde pudessem adquirir maior terreno possível. O Real
Plaza possui uma área de 38.000 m². Os agentes sociais que produzem o Shopping
Center Real Plaza, são:
1) Proprietários fundiários: O local pertencia ao Arcebispado de Cusco e foi
adquirido pelo Grupo Intercorp. O terreno não estava vazio, era parte do Colégio
San Antonio Abad, de educação básica, mais precisamente o local onde estava o
campo de futebol, a piscina, espaços de recreação e área verde. O Grupo
Intercorp comprou o terreno que abarca o colégio inteiro, porém, a escola ainda
está em funcionamento, uma vez que não se pôde derrubá-lo e trasladá-lo, até o
momento. A mudança do colégio para novo local está prevista para o fim de
2015, quando se iniciará o processo de expansão do shopping center.
2) Donos dos meios de produção: Grupo Intercop. Entre os integrantes deste
grupo, estão o Banco Interbank (maior líder), Supermercados Peruanos SA,
Promart Homecenter, Loja Oechsle, Universidade Tecnológica do Peru, o
Colégio Bilíngue Innova School, etc.
3) Promotores Imobiliários: Imobiliaria Puerta del Sol
4) Estado: Municipalidade Provincial de Cusco, esta atuou nos processos de
concessão de licenças de construção, fiscalização da obra, etc.
As imagens panorâmicas, das figuras 10 e 11, mostram o local para construção
do shopping e o mesmo já edificado e em funcionamento.
254
Figura 10: Terreno antes da construção do
Shopping Real Plaza. Fonte: Cusco desde El Lente
de Mi Camara.
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbi
d=515539121888704&id=279639322145353
Consulta: 28/01/2015
Figura 11: Shopping Real Plaza. Fonte: Foro
Skyscrapercity.
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php
?t=801492
O Shopping Real Plaza possui estacionamento (Figura 12) e, conforme está
listado em sua página web112, tem 92 lojas, contando com os bancos BBVA, BCP e o
Coney Park. Abriga lojas de marcas famosas, como Joaquim Miró, Pierre Cardim,
Michèlle Berau, entre outras. Há ainda praça de alimentação bem equipada e o Cine
Planet. As imagens da Figura 12 mostram o estacionamento, partes da fachada do
shopping e seu interior, respectivamente.
112
http://realplaza.pe/cusco/tiendas
255
Figura 12: Imagens diversas do Shopping Real Plaza. Fotografia: José Luis Zuloaga Obregón, 2014.
Enfim, o Real Plaza é um dos empreendimentos resultantes do dinamismo
do mercado imobiliário, conforme pode ser visto nas notícias de jornais, como El
Comercio, La República e Gestión. Os distritos de influência imediata do shopping
são San Jerónimo, San Sebastian, Santiago e Wanchaq, porém, por sua
acessibilidade, todos os habitantes podem se dirigir, sem maiores dificuldades, até
o estabelecimento moderno.
Espera-se continuar com a pesquisa para estudar as transformações na estrutura
urbana e nas práticas espaciais dos citadinos e dos consumidores, após o funcionamento
do Shopping Real Plaza. Logo, analisar se este empreendimento vem se tornando ou não
um elemento reforçador de novas dinâmicas e (re)definição de centralidades.
Igualmente, é importante averiguar se o Shopping Real Plaza está atraindo
moradores e turistas para o consumo de bens e serviços, ou até mesmo se está
concorrendo ou ganhando espaços do comércio tradicional, em uma urbe cujo
potencial está mais no seu legado histórico do que em sua modernização.
5. Referências bibliográficas
256
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PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO-REGIONAL DO RECÔNCAVO BAIANO
SETECENTISTA. XIII SIMPURB. UERJ. Rio de Janeiro. 18 a 22 de novembro de
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http://gestion.pe/inmobiliaria/cusco-se-ha-pasado-boom-hotelero-al-boom-inmobiliario2073825
Jornal GESTIÓN. Mall en la capital arqueológica de América. 12 de Dezembro de
2013.
http://blogs.gestion.pe/hoysiatiendoprovincias/2013/12/mall-en-la-capitalarqueologic.html
Jornal LA REPÚBLICA. Capeco advierte que Cusco puede colapsar en 10 años. 10
de Dezembro de 2012. http://www.larepublica.pe/10-12-2012/capeco-advierte-quecusco-puede-colapsar-en-10-anos
259
A EXPANSÃO TEMPORAL DAS ATIVIDADES COMERCIAIS VAREJISTAS
NA CIDADE DE PRESIDENTE PRUDENTE (SP). AS FRONTEIRAS DO
HORÁRIO NOTURNO E DOS FINAIS DE SEMANA.
Sergio Moreno Redón113
RESUMO
Os horários comerciais são um indicador da capacidade dos estabelecimentos comercias
de se adaptar às novas necessidades sociais. Eles têm uma influência significativa sobre
a organização empresarial (principalmente no que se refere à distribuição das horas de
trabalho e do número de trabalhadores) e sobre os clientes. Portanto, a demarcação do
horário para as empresas deve ser considerada como um dos elementos da sua lógica
espacial, da mesma forma que é considerada, por exemplo, a localização.
O artigo explora, por um lado, os horários comercias dos estabelecimentos dos eixos
comerciais do Calçadão e da Avenida Coronel Marcondes, assim como também dos
principais shopping centers e hipermercados da cidade de Presidente Prudente; e, por
outro lado, a evolução dos horários comercias na legislação local. O resultado mostra
como há uma diferença significativa entre o avanço noturno dos novos grandes
estabelecimentos planejados, que já foram pensados para operar com um horário
dilatado, e a resistência dos estabelecimentos varejistas dos eixos urbanos tradicionais.
Palavras chave: Fronteira temporal, expansão temporal, horário comercial.
1. Introdução
Os horários comerciais são os períodos de tempo em que uma atividade econômica é
efetivada. No caso do comércio varejista, é o momento em que ela vai permanecer
aberta ao público. Nesse sentido, o horário tem uma influência significativa sobre a
organização empresarial (principalmente no que se refere à distribuição das horas de
trabalho e do número de trabalhadores) e sobre os clientes. Portanto, deve ser
considerado como um elemento da lógica espacial das empresas de varejo, da mesma
forma que é considerada, por exemplo, a localização.
É do interesse deste artigo chamar a atenção para as mudanças nos tempos,
concretamente nos horários de funcionamento do comércio varejista114. No conjunto da
113
Bolsista de pós doutorado no Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e Redefinições Regionais –
GAsPERR -, na Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista – Presidente
Prudente (Brasil). [email protected]
260
sociedade contemporânea, o incremento das atividades para horários noturnos parece
ser uma constante (LINDER, 1970). No entanto, nem todas as atividades econômicas
vão consegui-lo. As atividades comerciais, favorecidas pelas mudanças produzidas pela
Globalização, encontram-se entre as que, de forma generalizada, estão indo nesse
sentido. O caráter local do horário comercial, como vai se mostrar a partir da legislação
brasileira, faz necessária a proliferação de estudos de caso que mostrem como estão-se
desenvolvendo o processo em diversos contextos.
Os objetivos deste artigo são, de um lado, analisar a evolução dos horários comercias na
cidade média de Presidente Prudente e, de outro lado, identificar quais são as fronteiras
temporais (limites) para o comércio varejista.
A metodologia utilizada tem seguido dois passos. Primeiro, a análise da sequência
histórica dos horários nas diversas legislações da cidade de Presidente Prudente.
Identificando as principais mudanças, além dos principais limites que ainda não foram
superados. E segundo, um extenso trabalho de campo, aplicando questionários nos
estabelecimentos do Calçadão e da Avenida Coronel José Soares Marcondes115, assim
como nos Shopping Centers e Hipermercados da Cidade. O trabalho de campo foi
realizado em diferentes dias e horários, durante o período compreendido entre julho e
setembro de 2014. No Calçadão, foram aplicados com sucesso um total de 79
questionários, o que compreende a 91,86% do total de estabelecimentos do eixo e na
Avenida Coronel Marcondes, 192 questionários, correspondendo a 85,33% do total.
2. Tempo, horários comerciais e consumo.
Sobre o tempo, a Geografia tem aportado duas abordagens principalmente. A primeira
considera o tempo como método de análise de qualquer objeto de estudo, enquanto a
segunda o considera como um objeto de estudo da disciplina. Assim, a primeira
abordagem faz referência ao estudo a partir da história. Encontramos um exemplo no
Método de Geografia Urbana, de Raoul Blanchard (1931, p.13) quando estabelece como
elemento de análise a evolução histórica da cidade, “a vida da urbs vista e explicada
geograficamente”116. Milton Santos, que teorizou neste sentido sobre a necessidade de
114
Este tema é fruto de uma Pesquisa em andamento, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado de São Paulo (FAPESP), durante o biênio 2014-2016.
115
O trabalho de campo foi feito no trecho entre o Parque do Povo e a rua Varella.
116
Tradução do autor a partir do texto em catalão.
261
periodização em geografia, defendia que o tempo devia ser definido dentro de um
contexto propriamente geográfico e mensurável, considerando-o uma das variáveis
geográficas (SANTOS, 1990, p. 222). Mas isto não significa que o tempo deva ser
medido necessariamente no sentido estrito de quantificação e sim de existência empírica
(ibidem). Por isso, se todo dado geográfico pertence a um período histórico, também o
tempo pertence. O que inclui a segunda abordagem dentro da primeira.
É a partir desta consideração que se interpreta neste artigo a segunda abordagem, que
analisa o tempo como mais um elemento do espaço e, portanto, pode ser quantificado e
qualificado. Os trabalhos do geógrafo sueco Hägerstrand (e da escola geográfica de
Lund) sistematizaram a segunda abordagem, tanto a partir do estudo a difusão das
inovações, como do estudo dos itinerários dos indivíduos na cidade (HÄGERSTRAND,
1967, 1991). Os estudos sobre difusão fazem referência ao conceito de modernização,
que tenta explicar porque as inovações aparecem em uns lugares e não em outros e em
momentos diferentes. Os segundos, sobre itinerários, tentam entender como e por que os
indivíduos se deslocam em trajetos que percorrem rotas e lugares onde realizam as
atividades. Neste sentido, o tempo é considerado como um objeto que os indivíduos
consomem, repartido entre os trajetos e as atividades – os traços e os prismas
representados na cartografia de Hägerstrand. Os itinerários mostram as sincronizações e
sinchorizações (reunidas em um mesmo lugar), formando padrões de comportamento
espaço temporais (CRANG, 2003).
Neste artigo, os lugares – ou melhor dito, as atividades que se realizam nos lugares
sobre os quais alguém tem a capacidade de decidir – são considerados como portadores
de tempos no mesmo sentido que Hägerstrand usou. Se o indivíduo dispõe de um tempo
limitado para realizar suas atividades, alguns estabelecimentos também dispõem de
tempo para permitir ou não a realização dessas atividades. Portanto, se considerar os
lugares (os lugares entendidos a partir de agentes urbanos que controlam as atividades
que neles se realizam) como “proprietários” de uma quantidade de tempo ao dia, eles
vão decidir quando se pode realizar ou não a atividade ou atividades ali contidas. O
exemplo simples do horário comercial das lojas pode ser explicativo. Há uma diferença
fundamental entre quando está aberto ou fechada uma atividade, devido ao fato de que o
fechamento significa a permanência no lugar, mas não das condições para realizar a
atividade. Portanto, com o horário muda o conteúdo do lugar e também o acesso.
262
Ao cambiar o conteúdo também vão cambiar as relações espaciais, isto é, os fluxos. O
fato de que as condições que permitem a realização das atividades não se mantenham
durante todo o tempo de igual forma vai obrigar os fluxos a se sincronizar com os
horários. Assim, por exemplo, aqueles consumidores das lojas do centro urbano vão ter
que ir num horário em que as atividades estejam abertas, o que limita de fato o tempo
restante que os consumidores podem utilizar em outras atividades.
Desde o ponto de vista descrito acima, os horários comerciais vão funcionar, de um
lado, como elementos que possibilitam a realização das atividades durante um período
de tempo, e, de outro lado, como condicionantes dos fluxos, no sentido que deu
Hägerstrand para Activities constraint, quando participar de determinadas atividades
impossibilita a participação em outras (PARKES, THRIFT, 1980, p. 22). Neste caso a
restrição pode-se produzir antes do evento, durante o processo de planejamento. Por
exemplo, quando um indivíduo combina a atividade de compra com os horários de não
trabalho e os horários comerciais da cidade onde ele mora, possivelmente pelo fato de
não coincidirem não vão poder visitar, ou vai ter um período de tempo muito limitado,
alguns estabelecimentos.
O estudo das mudanças nos horários comerciais parece oportuno quando se fala de
consumo. Linder (1970) argumentou que a sociedade do consumo “demands time to
consume”, em referência ao aumento do tempo de lazer gerado pela redução do tempo
do trabalho e das modificações nos tempos destinados às necessidades fisiológicas
básicas, como dormir ou comer (PARKES, THRIFT, 1980, p.100). Linder colocou pela
primeira vez o tema da evolução das sociedades a partir do tempo livre, indicando que
nas sociedades mais avançadas o tempo livre é escasso.
Wilensky (1961), nos anos sessenta do século XX, já tinha identificado que o
crescimento econômico - dos Estados Unidos durante as décadas posteriores à II Guerra
Mundial - tinha induzido à aparição do “tempo de lazer” com uma conotação social
moderna, embora esse tempo não signifique tempo para fazer o que cada indivíduo
quiser. A distribuição desigual do tempo livre117 vai depender do tempo dedicado ao
trabalho e do tempo de trabalho não remunerado (como, por exemplo, as tarefas do lar).
Nesse sentido, só alguns grupos vão dispor de mais tempo livre do que de trabalho,
como os aposentados, ou os desempregados. Mas, para a maioria das pessoas que
117
Para os autores Wilensky (1961) e Gershuny (1992) a relação entre tempo de lazer e tempo livre é
evidente, desde que o primeiro é realizado dentro do segundo.
263
trabalham, o tempo de lazer é mais um tempo limitado e concentrado em alguns dias e
horas na semana, como os finais de semana (WILENSKY, 1961; GERSHUNY, 1992).
Isto é, quando tem tempo livre.
Coincidindo com o que já foi dito, as atividades chamadas terciárias têm ganhado
espaço e relevância nas cidades. Mas só algumas atividades econômicas têm conseguido
se situar entre aquelas que se realizam no tempo livre. O consumo e suas atividades
correlatas estão entre as principais a serem consideradas, embora o processo não
aconteça de forma espontânea. Assim, por exemplo, Bowlby (2002) mostra como, nos
anos pós-guerra mundial, na Grã-Bretanha, o marketing dos produtos de comida e de
equipamentos para a lar tinha orientado as donas de casa para incorporar entre as suas
atividades habituais as compras, incrementando as horas que elas se dedicavam a esta
atividade (BOWLBY, 2002: 118).
3. As fronteiras do tempo do comércio e a legislação.
Apesar dos novos meios de comunicação terem possibilitado a liberação dos horários do
consumo118, dentro da dinâmica das cidades, os horários comerciais seguem sendo um
importante marcador dos ritmos do consumo. Muitos centros urbanos e ruas comerciais
mudam significativamente sua aparência após o horário comercial. Quanto estão em
pleno funcionamento, as ruas e lojas conhecem uma animação, pelo fluxo de pessoas e
carros, que contrasta vivamente com a atmosfera de abandono, quando os
estabelecimentos estão de portas fechadas.
Mas, os horários comerciais não são homogêneos. Distribuem-se de forma desigual no
espaço, de acordo com o grau relativo de modernização, não dado pelo ano de
implantação e sim pela adaptação as novas condições do capitalismo (HARVEY, 2003;
SANTOS, 1990). Assim encontramos estabelecimentos com os mesmos horários e, às
vezes, com pequenas diferenças. Mas também há estabelecimentos com grandes
diferenças. O conjunto deles define a hora mínima e máxima em que a cidade oferece as
suas atividades comerciais para os citadinos.
118
Principalmente a partir dos anos 1990, o crescimento do Comércio eletrônico ou eComercio tem sido
considerado como um dos novos fatores de inovação comercial (ONU, 2004). O comércio “físico”,
embora tenha-se adaptado ao rápido crescimento dessas ferramentas, a transformação dos mercados
onde têm avançado mais permite entender o motivo pelo qual elas têm sido consideradas uma ameaça,
como por exemplo a venda de viagens ou de livros (EPSTEIN, 2001, THOMPSON, 2005. MORENO, 2011).
264
A expansão das atividades em horas noturnas nas cidades é um processo que pode ser
denominado como “colonização do tempo”. O sociólogo Murray Melbin (1978) o
denominou assim, tomando como hipótese que o processo era a continuação da
conquista do planeta pelo homem. Assim, ele utilizou o conceito de fronteira como o
período onde as atividades não tinham atuado ainda, mostrando que a fronteira temporal
pode mudar de um período para outro, mas com uma expansão ao longo do tempo. De
acordo com o sentido do conceito dado por Melbin, neste artigo se utiliza o termo
fronteira, tentando estabelecer, a partir da legislação, os limites ao tempo do comércio.
A atividade comercial, como outras atividades terciárias, tem seguido também esta
expansão. Mas não se conhecem as formas como o processo estaria se dando nas
cidades médias e as consequências que isto supõe para a organização temporal das
cidades e da sua região de influência119. Além dessa problemática, no caso dos horários
comerciais, não é comum ter um registro histórico dos horários dos estabelecimentos, o
que dificulta o seu estudo. Desse modo, a proposta neste artigo é analisar as legislações
em matéria de horários comerciais, como uma fonte fiável de como estas têm evoluído.
Elas são resultado de uma convenção entre os agentes sociais, que têm interesses no
controle no tempo comercial, e configuram-se como o principal marco regulatório dos
diferentes interesses. Por tanto, cabe considerar a legislação, de modo geral, como um
fator limitante da atividade comercial no tempo, porque ela demarca o período máximo
em que os estabelecimentos podem permanecer abertos, favorecendo os interesses de
uns agentes e não tanto os de outros.
O processo de expansão, em geral, será produzido pela relação entre fatores que
facilitam e fatores que dificultam (PARKES, THRIFT, 1980: 328-330). São três os
fatores facilitadores (enabling factors): inovações como o gás, ou a luz elétrica; o
impulso da demanda (demand push factors), isto é, a aparição de atividades a partir da
necessidade para o funcionamento da vida urbana, como o metrô, ou os hospitais; e os
fatores de atração do fornecimento120 (Supply pull factors), que faz referência às
necessárias cadeias de atividades para a produção de outras atividades, como o
119
Existe uma ausência de estudos sobre a produção social do tempo, em geral, se compararmos com a
produção do espaço. Neste sentido, Parkes e Thrift já indicaram o quanto o power to control the use of
time is less well understood (1980, p. 100).
120
Tradução do autor. Neste último caso pode ser traduzido também como atração da oferta.
265
funcionamento dos sistemas de transporte que, por sua vez, precisam de serviços de
manutenção, comunicações, subministro de energia, ou mesmo de limpeza.
Já os fatores que dificultam a expansão das atividades também são três: a segurança; as
escalas territorial e temporal onde estão situadas as atividades; e os impedimentos
sociais. O primeiro fator é essencial, sem elas dificilmente se consegue uma certa
normalidade no processo. O segundo fator faz alusão a que quanto maior é uma cidade,
seja em sua extensão urbana, mas, sobretudo, em complexidade social, menos limitante
vão ser. Nesse sentido, quanto mais complexa é uma sociedade, uma porção pequena de
tempo se torna fundamental para a consecução de uma finalidade (PARKES, THRIFT,
1980: 100). Por exemplo, pense-se na organização de um sistema de transporte de uma
grande metrópole e em uma pequena cidade. Em terceiro lugar, os impedimentos sociais
reúnem uma série de fatores diversos, que vão desde o sistema de transportes às leis, os
valores sociais, ou os costumes. A legislação pode ser considera dentro destes fatores.
4. As mudanças nos horários comerciais da Cidade de Presidente Prudente121.
A legislação brasileira sobre os horários comerciais é principalmente local. De acordo
com a interpretação do artigo 30 da Constituição Federal de 1988, o tempo do comércio
é uma questão de interesse local122:
Art. 30. Compete aos Municípios:
I - legislar sobre assuntos de interesse local123.
As Constituições dos estados membros da federação não fazem menção ao assunto, ou
replicam a fórmula já expressada. No caso da Constituição do Estado de São Paulo não
há nenhuma menção sobre as competências das prefeituras neste assunto.
No entanto, não podem se considerar todas as atividades comerciais como de interesse
local. Algumas estão sujeitas à regulação de instituições federais ou estaduais. Como é o
caso dos bancos sob a competência do Banco Central do Brasil. Portanto, a legislação
local não tem competências para regular os horários em todos os casos124.
121
Parte deste item será apresentado no 55 Congreso Internacional de Americanistas em San Salvador
(El Salvador) dos dias 12 à 17 de julho de 2015.
122
Existe jurisprudência do Superior Tribunal Federal de Justiça (STF) ao respeito. Artículo ratificado nas
Súmulas do STF 419 - 01/06/1964 y nº 645 - 24/09/2003.
123
Consultada de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
124
O Supremo Tribunal Federal de Justicia de Brasil estabeleceu jurisprudência a partir da Súmula 19
que dita "A fixação do horário bancário, para atendimento ao público, é da competência da União".
266
Em Presidente Prudente a legislação em matéria de horários comerciais apresenta 13
documentos, 7 leis e 6 decretos (Tabela 1). A primeira lei encontrada que ordenava o
tempo das atividades comerciais é do ano 1962. Ainda hoje está vigente, como
documento principal. É a lei 806, que instaurou a Semana Inglesa125 e determinava o
fechamento aos sábados no horário do meio dia.
Tabela 1. Prudente. Leis e Decretos em matéria de horários comerciais
Núm. Lei
Assunto
806/1962
Fechamento do comércio às 12 horas aos sábados
Nova redação à letra "b" do artigo 15, da Lei 806,
911/1964
que instituiu a Semana Inglesa
A inclusão de item ao artigo 5o da Lei Municipal no
2639/1988
806 de 1962
Estabelece novo horário de funcionamento das
farmácias e drogarias e regulariza o plantão de
3135/1991
sábados e domingos e inclusive os feriados
Estabelece horário excepcional e provisório do
D*. 7917/1992
comercio
Estabelece novo horário de funcionamento das
farmácias e drogarias e regulariza o plantão de
3777/1993
sábados e domingos e inclusive os feriados
D. 8126/1993
Dispõe sobre a abertura do comércio aos domingos
D.10758/1996
Dispõe sobre a abertura do comércio aos sábados
Institui a Codificação das Leis Municipais e dá
5005/1997
outras providências
Dispõe sobre o funcionamento do comércio varejista
D. 11565/1997
e serviços no mês de dezembro de 1997
Regulamenta o funcionamento do Shopping Popular
D. 11420/1997
– Camelódromo
Estabelece novo horário de funcionamento das
farmácias e drogarias e regulariza o plantão de
5379/1999
sábados e domingos e inclusive os feriados
Regulamenta o funcionamento do Shopping Popular
D. 16462/2004
– Camelódromo
Revocada
Não
Não
Não
Sim
Sim
Sim
Não
Não
Não
Sim
Sim
Não
Não
Fonte: Elaboração do autor. * Decreto
Embora seja significativa a quantidade de legislação existente, só três decretos
modificaram o estabelecido na lei de 1962. O decreto 7917, de 1992, que estabelecia um
período de 90 dias para testar um horário comercial diferente, e os decretos 8126, de
Consultado em
http://www.bcb.gov.br/pre/normativos/busca/normativo.asp?tipo=res&ano=2002&numero=2932
125
Semana Inglesa faz referencia as jornadas de trabalho diárias de 8 horas e 4 horas aos sábados,
deixando livres as tardes dos sábados e dos domingos. Ver ao respeito
http://atdigital.com.br/direitodotrabalho/2013/04/o-que-significa-semana-inglesa
267
1993, e 10758, de 1996, para dar permissão à abertura do comércio aos domingos e aos
sábados respectivamente (Tabela 2).
Tabla 2. Presidente Prudente. Horários comerciais de acordo com a legislação.
Núm. Lei
Horário dia Horas
Horários Sábados Horas mensais
de Segunda – Mensais
os sábados
Sexta Feira
806/1962
8h - 18h
200
8h - 12h
16
7917/1992
9h - 18h
180
9h - 13h / 1º S 9h - 20
17h*
D. 8126/1993 Permissão para abrir os domingos
D. 10758/1996
9h - 17h
32
*1ºS – Primeiro sábado de cada mês, depois do dia 4, o horário se amplia de 13h até 17h.
Fonte: Elaboração do autor.
Os três decretos já foram revogados, mas a influência deles é fundamental na evolução
dos horários. Principalmente a influência do primeiro, que marcou a tendência a seguir.
O decreto 7917, de 1992, estabeleceu um horário comercial, que diminuía as horas
durante os dias de segunda até sexta-feira e as aumentava aos sábados:
Art. 1 Fica autorizada a abertura do comércio varejista, em
caráter experimental; pelo período de noventa (90) dias, de
segunda à sexta-feira, das 9:00 às 18:00 horas e no sábado das
9:00 às 17:00 horas, na semana que sucede ao dia oficial de
pagamento do salário dos trabalhadores. (Art. 1 Decreto
7917/1992)
Para os sábados restantes, o horário passou a ser das 9:00 até às 13:00 horas (Art. 2.
Decreto 7917/1992). Assim, pelo decreto, o tempo total de abertura do comércio
conheceu uma redução de 16 horas ao mês. É importante salientar, no entanto, a
transferência de horas, pois, enquanto entre segunda e sexta-feira o tempo de
funcionamento do comércio perdeu 20 horas ao mês, aos finais de semana, ganhou 4
horas. Esta tendência de levar as atividades comerciais para o final de semana ficou
mais evidente com os decretos 8126, de 1993, e 10758, de 1996. Este último permitia
abrir o comércio todos os sábados de 9 horas até as 17 horas, o que equivalia a aumentar
6 horas a mais o horário comercial. E o decreto 8126, sem estabelecer um horário
concreto, permitia a abertura os domingos.
Apesar de não ter, na atualidade, uma lei ou decreto que defina um novo horário
standard (ou normal nos documentos legais) para os sábados, os comerciantes de
Presidente Prudente adotaram um horário próprio. Para o centro o horário habitual126 é
126
Utiliza-se aqui habitual para designar o horário standard não definido pela lei vigente.
268
das 9:00 até 17:00 horas no primeiro sábado depois do pagamento e até as 15:00 horas
os três seguintes, principalmente no Calçadão, e para a Avenida Coronel Marcondes, o
horário ficou das 8:00 até 13:00 horas todos os sábados.
4.1 Os horários reais e as fronteiras temporais do comércio em Presidente
Prudente.
O levantamento dos horários que estão sendo realizados no comércio de Presidente
Prudente evidencia que há diferenças significativas entre o horário standard, habitual e o
real (Tabela 3). Os dados levantados nos questionários mostraram que os horários
comerciais da cidade vão desde os dos hipermercados, como Walmart, que abre às 8:00
e fecha às 23:00, até aqueles do Calçadão, que seguem um horário parecida ao
estabelecido na lei de 1992.
Embora haja diferenças significativas entre os estabelecimentos dentro de cada eixo
comercial, existe certa coerência, o que indica uma homogeneidade por eixo ou por
centro. Por exemplo, de segunda à sexta feira o 50% dos estabelecimentos comerciais
do Calçadão seguem o horário de abertura às 9:00 horas, destes 92% fecha às 18:00
horas. Já na Avenida Coronel Marcondes, o horário de abertura mais comum é às 8:00
horas, seguido por 33% dos estabelecimentos, dos quais 70 % fecha às 18:00 horas.
Tabela 3. Presidente Prudente. Horários dos grandes estabelecimentos comerciais.
Horários
Ano
2ª
6ª
Sábado
Domingo
Estabelecimento inauguração
Parque
Shopping
Prudente
1986
10:00 - 22:00 10:00 - 22:00 14:00 - 22:00
PrudenShopping
1990
10:00 - 22:00 10:00 - 22:00 14:00 - 22:00
Muffato Max
2005
8:00 - 22:00
8:00 - 22:00
8:00 - 22:00
Makro Atacadista
2008
7:30 - 22:00
7:30 - 22:00
8:00 - 18:00
Walmart
2010
8:00 - 23:00
8:00 - 23:00
8:00 - 23:00
Assai Atacadista
2011
7:00 - 22:00
7:00 - 22:00
8:00 - 18:00
Havan
2012
7:00 - 22:00
7:00 - 22:00
10:00 - 20:00
Maxxi Atacado
2012
8:00 - 21:00
8:00 - 21:00
Fonte: Elaboração do autor.
A implantação dos grandes estabelecimentos comerciais planejados começou no final da
década de 1980 e se estendeu até o ano 2012 (Tabela 3127). O caso dos dois shoppings
127
Pela natureza destes estabelecimentos, em que todos os estabelecimentos abrem e fecham no
mesmo tempo, só foram aplicados um questionário para cada um.
269
centers coincide, de forma mais que evidente, com as propostas de modificação da lei128.
O primeiro, o Parque Shopping, foi inaugurado no ano 1986, com o nome de Strip
Center e com Lojas Americanas como loja ancora. Este empreendimento, considerado
como o pioneiro em ter um horário noturno, foi o precedente de outros que estenderam
o horário comercial da cidade para além das 18:00 horas. Numa notícia, o jornal local O
Imparcial (poucos dias depois da inauguração) apontava a importância do novo horário
para a cidade e com um discurso nitidamente progressista advertia contra a
irracionalidade de apresentar qualquer resistência:
[...] Não há como negar a importância de um empreendimento
como o Strip Center, inaugurado no último dia 18, cujo
verdadeiro peso, em termos de economia (inclusive de tempo)
de conforto e da própria possibilidade de investimento oferecida
dever ser aquilatado com isenção e de acordo com sua real
dimensão. Por isso mesmo, não parece sensata qualquer
resistência a uma nova realidade, imposta pelas próprias
características de um shopping center: o horário comercial
noturno. [...] A bem da verdade, é preciso esclarecer que os
funcionários do shopping estarão distribuídos em dois turnos,
diurno e noturno, o que significa que não haverá sobrecarga de
jornada de trabalho. Acrescenta-se a isso, ainda o fato de o
horário noturno ser restrito ao shopping. Seja como for, as
reações contrárias à introdução do novo horário devem ser
encaradas como típicas e comuns a determinado estágio de
desenvolvimento de um município e certamente deverão
esmorecer com a paulatina absorção de uma realidade
incontestável: o irreversível progresso de uma cidade com
vocação de metrópole. (Jornal O Imparcial de 23 de Novembro
de 1986).
Os horários comerciais dos dois eixos analisados são muito diferentes. Tomando como
referência o horário standard, para os dias de segunda até sexta-feira, pode-se afirmar
que existe uma diversidade grande de horários. De forma significativa, encontramos
farmácias, restaurantes, bares e lanchonetes entre aqueles que abrem antes do horário
standard, ou que fecham depois. De fato, este tipo de serviço, geralmente, segue
horários diferenciados por terem acordos sindicais diferentes. Ou no caso das farmácias,
por exemplo, por ter uma legislação própria.
No Calçadão, estes casos são a maioria, e são poucas as lojas que fecham um pouco
mais tarde, para tentar captar os últimos clientes (Tabela 4). Os estabelecimentos deste
128
Apesar de diversas referências à exclusividade do horário noturno para o Shopping Center, não se
tem encontrado evidência de lei ou decreto que permita a extensão. A hipótese é que utilizam um
licencia especial que outorga a prefeitura, procedimento contemplado no artigo 3 da lei de 1962.
270
grupo representam 11 % do total dos estabelecimentos estudados e só 3 são do comércio
varejista.
Tabela 4. Calçadão. Estabelecimentos com horário diferente ao
standard (de 8:00 à 18:00).
Horário de 2ª - 6ª
Tipologia
Quantidade
7:00
22:00
Farmácia e drogaria
1
7:30
18:30
Restaurante
1
7:30
18:30
Bijuteria e relógios
1
7:30
19:30
Bar e lanchonete
1
7:30
20:20
Farmácia e drogaria
1
8:00
18:30
Bar e lanchonete
1
8:00
18:30
Bijuteria e relógios
1
Calçados e acessórios de
8:00
18:30
couro
1
8:30
19:00
Bar e lanchonete
1
9
Total
79
Total estabelecimentos estudados
Fonte: Elaboração do autor.
Na Avenida Coronel Marcondes foram identificadas algumas atividades com serviço 24
horas, como hospitais, funerárias, hotéis, serviço de bombeiros, serviços de transporte
(mototaxi) e um posto de gasolina. Além de todas as atividades anteriormente citadas,
apareceram outras atividades com horário fora do standard, como postos de gasolina,
academias, panificadoras, lava jatos, estabelecimentos de venda de carros, serviços de
reparação de eletrodomésticos, venda de flores, cabeleireiros, supermercados, agências
de viagens, uma loja de roupas, entre outros (Tabela 5. Anexo). Os estabelecimentos
deste grupo representam 49 % do total dos estabelecimentos estudados, mas só 9% (18
estabelecimentos) são do comércio varejista.
Aos sábados, a situação muda. No Calçadão, aumentam os casos daqueles que não se
ajustam exatamente com o horário habitual129 (Tabela 6) e na Avenida Coronel
Marcondes diminui o número total, ainda que aumente o número de estabelecimentos
varejistas (Tabela 7. Anexo). Destacam-se três estabelecimentos no calçadão pela
extensão do horário, Lojas Pernambucanas (8:00 – 17:00), Casas Bahia (9:00-17:00) e a
loja Tanger (9:00-17:00). As três se diferenciam do restante porque abrem mais horas e
porque mantém o mesmo horário todos os sábados, superando a alternância de um
sábado estender o horário até 17:00 horas e os três seguintes do mês só até 15:00. Do
129
É importante lembrar que, neste caso, o horário habitual não é definido pela legislação e sim por
algum tipo de acordo entre os agentes. Ver apartado 3.
271
total um 24% dos estabelecimentos abre em horário diferente ao standard, e 15 (18%)
são varejistas.
Tabela 6. Calçadão. Estabelecimentos com horário diferente ao habitual (de
9:00 até 15:00).
Horário
Sábado
Tipologia
Quantidade
7:00 22:00 Farmácia e drogaria
1
7:30 15:00 Restaurante
1
7:30 15:00 Bar e lanchonete
1
7:30 15:00 Bijuteria e relógios
2
7:30 15:00 Calçados e acessórios de couro
1
7:30 15:00 Ótica e Relojoaria (Ótica + Joelharia)
1
7:30 15:00 Outros tipos de comércio
1
7:30 15:30 Bijuteria e relógios
1
8:00 16:00 Alimentação
1
8:00 17:00 Lojas de departamento
1
8:00 20:20 Farmácia e drogaria
1
8:30 15:00 Bijuteria e relógios
1
8:30 15:30 Calçados e acessórios de couro
1
8:30 18:00 Bijuteria e relógios
1
9:00 15:30 Calçados e acessórios de couro
1
9:00 16:00 Bijuteria e relógios
1
9:00 17:00 Móveis, eletrodomésticos e decoração
2
19
Total
79
Total estabelecimentos estudados
Fonte: Elaboração do autor.
Na Avenida Coronel Marcondes, o conjunto de estabelecimentos que abrem em horário
diferente ao habitual representam o 45% do total. E o comércio varejista é um 17 % do
total (32 estabelecimentos). De novo, a diversidade de tipologias de estabelecimentos e
variações de horários é uma caraterística predominante (Tabela 7. Anexo).
Aos domingos não há um horário standard ou habitual, mas os estabelecimentos que
abrem são poucos130. De fato, no Calçadão não há nenhum estabelecimento, enquanto
na Avenida Coronel Marcondes abrem os estabelecimentos já citados de 24 horas e
outros como farmácias, postos e supermercados (Tabela 8) - no total, 18% dos
estabelecimentos, dos quais 8 são estabelecimentos do comércio varejista (4% do total),
130
Os domingos são considerados como dia de repouso semanal de acordo com o disposto no decreto
27048/49 de 1949. Site consultado http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/116605/decreto27048-49.
272
e destes 8 estabelecimentos, 3 pertencem a lojas dentro de um dos supermercados e
outros três são estabelecimentos de alimentação, como padeira e rotisseria.
Tabela 8. Av. Coronel Marcondes.
Estabelecimentos que abrem os domingos.
Tipologia
Quantidade
Academia e clubes esportivos
1
Alimentação
3
Bar e lanchonete
4
Bijuteria e relógios
1
Calçados e acessórios de couro
1
Farmácia e drogaria
7
Hospitais, Clínicas e consultórios
médicos
2
Hotel
1
Outros serviços pessoais
5
Outros Serviços públicos
1
Outros tipos de comércio
1
Postos
3
Restaurante
2
Serviços transporte
1
Supermercados
2
35
Total
192
Total estabelecimentos estudados
Fonte: Elaboração do autor.
5. Conclusões.
O horário comercial não é só uma adaptação às mudanças nas atividades e práticas dos
indivíduos, é um indicador de organização das empresas. Só aquelas com uma maior
capacidade de organização131 vão poder ter um horário extenso e oferecer um leque de
combinações maior aos consumidores. Por este motivo, pode-se afirmar que os horários
comerciais são um indicador, neste momento, do nível técnico de cada estabelecimento.
A evolução recente dos horários comerciais no comércio varejista de Presidente
Prudente tem mostrado uma tendência de expansão, com a aparição de novas formas
comerciais. O que parece estar em sintonia com o processo identificado por Linder
131
Nesse sentido para ter um horário comprido à empresa, nas condições laborais atuais, deve fazer
frente a um número de trabalhadores maior e a mais gastos fixos, mas também a umas dificuldades
maiores na hora de contratar trabalhadores, por exemplo.
273
(1970)132. Mas, se a implantação dessas novas formas comerciais, principalmente
Shoppings Centers e hipermercados, tem expandido os horários da cidade, no caso dos
eixos comercias estudados, esse fenômeno tem acontecido de uma forma muito
desigual133.
A mudança mais evidente é a expansão dos horários para os finais de semana, tentando
capturar o conjunto de indivíduos que têm tempo livre, como já foi mencionado. No
caso estudado, esta tendência parece evidente para todo o comércio em geral. A análise
da legislação mostrou claramente a intenção de deslocar as horas da semana para o final
de semana. Coisa que chegou de forma mais espontânea por decisão dos
comerciantes134, a partir da experiência de um decreto já revogado.
Fica, portanto, evidente que no comércio de Presidente Prudente existe uma dupla
fronteira temporal. Apesar da cidade, em seu conjunto, ter estendido consideravelmente
o horário comercial para o horário noturno, existe uma divisão clara entre a fronteira das
novas formas comerciais planejadas e dos comércios de rua. De fato, só os primeiros
têm alcançado o horário noturno. Para a maior parte do comércio, ainda existe uma
fronteira muito evidente demarcada pelas 18:00 horas de segunda à sexta-feira.
Outra fronteira ainda mais marcada é a estabelecida os sábados e domingos. Os sábados
são um período temporal onde o processo está avançando de forma mais desigual. Por
enquanto, só umas poucas lojas do Calçadão têm tentado estender o horário para além
do horário standard. O resultado é que os grandes estabelecimentos planejados
conseguem concentrar a centralidade durante boa parte do dia. Os horários dominicais
são a maior fronteira de todas, afetando a todas as tipologias, mas de forma diferente,
visto que os shoppings centers e hipermercados reduzem as horas de funcionamento e
os estabelecimentos comerciais varejistas dos eixos, tendencialmente, permanecem
fechados.
132
E não só no caso brasileiro, os conflitos identificados em algumas cidades da Espanha (Afedeco, 2014)
parecem indicar que é um processo generalizado em outros países.
133
Montessoro (1999) mostra como a implantação do shopping center ParqueShopping de Presidente
Prudente mudou a centralidade da cidade e atraiu um número considerável de estabelecimentos de
comércio e serviços ao redor dele. Mas, no sentido do horário comercial, os estabelecimentos
mantinham o padrão indicado para a Avenida Coronel Marcondes e não o horário do shopping ou
similares.
134
Seria conveniente investigar como foi realizado este processo e quais agentes estiveram implicados.
274
Agradecimentos
O autor agradece a colaboração de Vitor Miyazaki no trabalho de campo realizado e de Nécio
Turra Neto pela correção do texto e as sugestões dadas.
Referências Bibliográficas
AFEDECO. Informe: Los horarios comerciales en España y en Europa. Afedeco y
Confederação Balear de Comerç. 2014
BLANCHARD, R. Un mètode de Geografia Urbana. Butlletí del C.E.C.1931.
[Original Revue de Géographie Alpine, 1928. Pág. 193 – 214.
BOWLBY. S.R. Planning for women to Shop in Postwar Britain, em FINDLAY, Leighl
Sparks. Retailing: Critical Concepts. New York. London. Vol. II. P, 107-134.
2002
CRANG, M. Rhythms of the city, em May, J. e Thrift, N. (Ed.), timespace. Geographies
of temporality. New York, routledge. 2003.
EPSTEIN, J. La industria del libro, Pasado, presente y futuro de la edición.
Barcelona, Anagrama. 2001.
ESCOBAR, M.: El Comercio Electrónico, perspectiva presente y futura en España,
Fundación AUNA, 2000.
GERSHUNY, J. Are we nunning out of time? Futuros.24.1. p. 3-22. 1992
HÄGERSTRAND, T. Innovation diffusion as a spatial process. Chicago. The
University of Chicago Press. 1967
HÄGERSTRAND, T. What about people in Regional Science". Serie Geográfica
núm.1, pp 93 – 110. 1991. [Edição original em Papers of the Reainal Science
Association, 24, pp. 7-21. 1970].
HARVEY, David. Paris, Capital of Modernity. London, Routledge. 2003
MITCHELL, W. E-topia: a vida urbana - mas não como a conhecemos. São Paulo:
Senac, 2002.
MONTESSORO, C. C. L. Shopping Centers e (re)estruturação urbana em
Presidente Prudente – SP.
Dissertação de Mestrado. Presidente Prudente.
UNESP. 1999
275
MORENO, S. Análisis teórico y aproximación práctica a las relaciones entre ciudad
y comércio: El caso de la producción, venta y consumo de libros en
Barcelona. Tese doutoral apresentada na Universidade de Barcelona. 2011.
ONU. E-Commerce and Development Report, 2004. New York e Geneva. 2004
PARKES, D., THRIFT, N. Times, Spaces and Places. London. Wiley, Chichester.
1980
SANTOS, M. Por uma geografia nueva. Madrid. Espasa Calpe. 1990
THOMPSON, John, B. Books in the Digital Age: The Transformation of Academic
and Higher Education Publishing in Britain and the United States.
Cambridge and Malden. Polity Press. 2005.
WILENSKY. H. L. The Uneven Distribution of Leisure. The Impact of Economic
Growth on “Free Time”. Social Problems. P. 32-56. 1961
Anexo.
Tabela 5. Av. Coronel Marcondes. Estabelecimentos com horário diferente
ao standard (de 8:00 à 18:00).
Horário de 2ª 6ª
Tipologia
Quantidade
0:00
0:00
Farmácia e drogaria
1
0:00
0:00
Hospitais, Clínicas e consultórios médicos
2
0:00
0:00
Hotel
1
0:00
0:00
Outros serviços pessoais
5
0:00
0:00
Bombeiros
1
0:00
0:00
Postos
1
0:00
0:00
Serviços transporte
2
12:00
0:00
Restaurante
1
18:00
0:00
Restaurante
1
5:30
14:30
Alimentação
1
6:00
18:00
Bar e lanchonete
3
6:00
21:00
Bar e lanchonete
1
6:00
22:00
Postos
1
6:00
23:00
Academia e clubes esportivos
1
6:00
0:00
Postos
1
6:30:00
18:00
Bar e lanchonete
1
6:30:00
22:00
Alimentação
1
7:00:00
17:00
ADL Administração pública Local
1
7:00:00
17:00
Hospitais, Clínicas e consultórios médicos
5
7:00:00
18:00
Hospitais, Clínicas e onsultórios médicos
3
276
7:00:00
18:00
Outros tipos de comércio
1
7:00:00
18:30
Bar e lanchonete
1
7:00:00
19:00
ADE Administração pública Estadual
1
7:00:00
19:00
Estacionamento e lava jato
1
7:00:00
21:00
Bar e lanchonete
1
7:00:00
22:00
Academia e clubes esportivos
1
7:00:00
22:00
Bar e lanchonete
1
7:00:00
22:00
Farmácia e drogaria
1
7:00:00
23:00
Farmácia e drogaria
3
7:30:00
12:00
Material de construção
1
7:30:00
17:00
ADE Administração pública Estadual
3
7:30:00
17:30
Moda, têxtil e confecção
1
7:30:00
17:45
Outros serviços empresariais
1
7:30:00
18:00
Oficinas
1
7:30:00
18:00
Venta de carros e motos e assessórios
1
7:30:00
18:15
Estacionamento e lava jato
1
7:30:00
19:00
Venta de carros e motos e assessórios
1
7:30:00
23:00
Farmácia e drogaria
1
7:45:00
21:00
Cafeteria
1
7:45:00
21:00
Farmácia e drogaria
1
7:45:00
21:00
Supermercados
1
8:00
19:00
Alimentação
1
8:00
19:00
Estacionamento e lava jato
1
8:00
19:00
Farmácia e drogaria
1
8:00
19:00
Hospitais, Clínicas e consultórios médicos
2
8:00
19:00
Outros tipos de comércio
1
8:00
19:30
Outros serviços pessoais
1
8:00
20:00
Cabeleireiro e centros de beleza
1
8:00
21:00
Educação
1
8:00
21:00
Farmácia e drogaria
1
8:00
22:00
Bar e lanchonete
1
8:00
22:00
Farmácia e drogaria
2
8:00
23:59
Farmácia e drogaria
1
8:15
21:00
Supermercados
1
8:30
18:30
Lazer e agencias de viagem
1
8:30
18:30
Outros serviços pessoais
1
9:00
19:00
ADE Administração pública Estadual
1
9:00
19:00
Alimentação
1
9:00
19:00
Cabeleireiro e centros de beleza
2
9:00
19:00
Outros tipos de comércio
2
9:00
20:00
Moda, têxtil e confecção
1
9:00
20:30
Bar e lanchonete
2
9:00
21:00
Bijuteria e relógios
1
9:00
21:00
Calçados e acessórios de couro
1
9:00
21:00
Farmácia e drogaria
1
277
9:00
21:00
Outros tipos de comércio
1
9:00
21:30
Educação
1
9:00
22:00
Educação
1
9:00
20:00
Móveis, eletrodomésticos e decoração
1
Total
92
Total estabelecimentos estudados
Fonte: Elaboração do autor.
192
Tabela 7. Av. Coronel Marcondes. Estabelecimentos com horário diferente
ao habitual (8:00 até 13:00).
Horário Sábado
Tipologia
Quantidade
0:00
0:00
Farmácia e drogaria
1
0:00
0:00
Hospitais, Clínicas e consultórios médicos
2
0:00
0:00
Hotel
1
0:00
0:00
Outros serviços pessoais
5
0:00
0:00
Bombeiros
1
0:00
0:00
Postos
1
0:00
0:00
Serviços transporte
2
5:30
14:30
Alimentação
1
6:00
13:00
Bar e lanchonete
1
6:00
15:00
Bar e lanchonete
1
6:00
16:30
Bar e lanchonete
1
6:00
21:00
Bar e lanchonete
1
6:00
22:00
Postos
2
6:30
22:00
Alimentação
1
7:00
7:00
13:00
18:00
Bar e lanchonete
Outros tipos de comércio
1
1
7:00
20:00
Bar e lanchonete
2
7:00
21:00
Academia e clubes esportivos
1
7:00
22:00
Farmácia e drogaria
1
7:00
23:00
Farmácia e drogaria
2
7:30
12:00
Hospitais, Clínicas e consultórios médicos
1
7:30
12:00
Material de construção
1
7:30
12:00
Moda, têxtil e confecção
1
7:30
12:00
Venta de carros e motos e acessórios
1
7:30
23:00
Farmácia e drogaria
1
7:45
13:00
Farmácia e drogaria
1
7:45
21:00
Cafeteria
1
7:45
21:00
Supermercados
1
8:00
13:30
Outros serviços pessoais
1
8:00
15:00
Cabeleireiro e centros de beleza
1
8:00
15:00
Moda, têxtil e confecção
1
8:00
17:00
Educação
1
8:00
18:00
Alimentação
2
8:00
19:00
Alimentação
1
278
8:00
19:00
Educação
1
8:00
21:00
Cabeleireiro e centros de beleza
1
8:00
21:00
Farmácia e drogaria
1
8:00
22:00
Bar e lanchonete
1
8:00
22:00
Farmácia e drogaria
2
8:00
23:59
Farmácia e drogaria
1
8:15
21:00
Supermercados
1
8:15
15:00
Moda, têxtil e confecção
1
8:15
15:00
Outros tipos de comércio
1
9:00
14:00
Cabeleireiro e centros de beleza
1
9:00
14:00
Fotografia, gráfica e vídeo club
1
9:00
15:00
Alimentação
2
9:00
15:00
Calçados e acessórios de couro
1
9:00
15:00
Moda, têxtil e confecção
2
9:00
15:00
Móveis, eletrodomésticos e decoração
6
9:00
17:00
Outros serviços empresariais
1
9:00
18:00
Educação
1
9:00
18:00
Outros tipos de comércio
1
9:00
19:00
Cabeleireiro e centros de beleza
2
9:00
19:00
Outros tipos de comércio
1
9:00
20:00
Moda, têxtil e confecção
1
9:00
20:30
Bar e lanchonete
1
9:00
21:00
Bijuteria e relógios
1
9:00
21:00
Calçados e acessórios de couro
1
9:00
21:00
Farmácia e drogaria
1
9:00
21:00
Outros tipos de comércio
1
9:30
20:00
Móveis, eletrodomésticos e decoração
1
12:00
18:00
Móveis, eletrodomésticos e decoração
1
12:00
18:00
Academia e clubes esportivos
1
12:00
19:00
Alimentação
1
12:00
23:59
Restaurante
1
18:00
23:59
Restaurante
1
18:30
23:59
Restaurante
1
Total
86
Total estabelecimentos estudados
Fonte: Elaboração do autor.
192
279
AS LÓGICAS ESPACIAIS DO SISTEMA BANCÁRIO: REESTRUTURAÇÃO
DAS CIDADES MÉDIAS PAULISTAS- MARÍLIA E SÃO CARLOS
Tamires Eugenia Barbosa135
RESUMO
Apresentando um breve histórico sobre o sistema bancário nas cidades
brasileiras, esse trabalho busca entender suas lógicas espaciais em duas cidades
paulistas - Marília e São Carlos - associando a abordagem, sobretudo, ao contexto das
cidades médias que é o caso das estudadas. Realizamos esta análise, trabalhando com as
relações entre lógicas espaciais, reforço da centralidade urbana e novas tendências a fim
de compreender possíveis práticas espaciais decorrentes da reestruturação urbana e da
cidade.
PALAVRAS-CHAVE
Sistema bancário - Lógicas espaciais - Cidades médias
INTRODUÇÃO
O sistema bancário brasileiro, seguindo a tendência internacional das duas
últimas décadas do século XX, passou por profundas transformações, visando diminuir
135
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”; Grupo de Pesquisa Produção do Espaço e
Redefinições Regionais – GAsPERR; Rede de Pesquisadores Sobre Cidades Médias- ReCiMe.
Trabalho realizado sob orientação da Professora Doutora Maria Encarnação Beltrão Sposito, com bolsa
de apoio concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
280
custos, o que exigiu não apenas inovações tecnológicas, como novas estratégias
espaciais. Estas se estabeleceram em dois planos diferentes: a) Rede urbana - Foram
fechadas inúmeras agências em cidades pequenas, sobretudo nas regiões mais pobres do
país, em que o número de correntistas e o volume de recursos movimentados não
justificavam do ponto de vista econômico, os custos de manutenção destas unidades.
Este processo fortaleceu os papéis urbanos de cidades médias e grandes que passaram a
concentrar serviços bancários de maior nível de complexidade. b) Espaços urbanos - As
agências que antes se concentravam, em cidades médias, apenas no centro principal,
passaram a obedecer a novas lógicas locacionais, buscando os setores residenciais de
maior poder aquisitivo, eixos comerciais importantes e shopping centers, e a instalação
de caixas eletrônicos seguiu a mesma tendência.
Este texto tem como objetivo analisar o contexto histórico de implantação das
principais redes bancárias nas cidades de Marília e São Carlos e investigar quais as
lógicas espaciais que orientam a localização das agências e caixas eletrônicos e em que
medida essas lógicas contribui para a reestruturação das cidades estudadas, através da
redefinição ou adição de novas características ao perfil funcional de determinados
espaços, redefinindo ou reforçando a centralidade urbana.
Para tal, verificamos as escolhas locacionais de agências e caixas eletrônicos em
Marília e São Carlos, buscando compreender porque foram instalados ali e de que forma
redefinem ou adicionam características ao perfil funcional das áreas onde estão.
Observamos, ainda, com que frequência os usuários desses bancos se deslocam até as
agências e caixas eletrônicos, por quais motivos se deslocam até determinados caixas e
qual o perfil dos usuários de certas unidades bancárias.
METODOLOGIA
Para o desenvolvimento da pesquisa que gerou este texto, foi realizada uma
revisão bibliográfica, com o intuito de haver um aprofundamento na estruturação
teórico-metodológica da pesquisa, subsidiando o entendimento e construção do
conhecimento científico da temática em questão. Foi feita consulta a eventuais trabalhos
científicos desenvolvidos sobre os municípios.
Como a pesquisa faz parte do Projeto Temático “Lógicas econômicas e práticas
espaciais contemporâneas - cidades médias e consumo”, realizaram-se discussões sobre
281
leituras referentes ao tema, além da elaboração de questionários e apresentação dos
dados coletados nas pesquisas de campo, bem como esclarecimento de dúvidas e
possibilidade de debates que proporcionaram direcionamento a pesquisa.
Como metodologia fundamental para análise de como se localizam os
empreendimentos bancários que foram pesquisados, utilizou-se uma abordagem que
tem como referência a ideia de que “(...) as cidades médias em suas relações,
sobreposições e articulações com outros espaços – rural ou urbano – seja tomada a partir
da distinção entre a função de gestão, produção e consumo, já que a dimensão que estou
privilegiando é a econômica.” (SPOSITO, 2006, p.247). Assim, foi trabalhado na
pesquisa como forma de sistematização, a identificação da estrutura do sistema bancário
em três escalas: a escala da gestão dos empreendimentos, das agências localizadas nas
cidades e dos caixas eletrônicos instalados. A autora ainda ressalta que o caminho
metodológico deve ser feito em dois conjuntos de análise de dinâmicas e processos
distintos, entretanto complementares e articulados entre si, o da (re)estruturação da
cidade e o da reestruturação urbana, sendo a ênfase do projeto dada, sobretudo, à
reestruturação da cidades.
Para a verificação das escolhas locacionais de agências e caixas eletrônicos em
Marília e São Carlos, foram realizados levantamentos dos endereços de todas as
agências e caixas eletrônicos junto aos sites: Banco24horas (http://www.tecban.com.br/)
e FEBRABAN (http://www.buscabanco. org.br) além da confirmação dos endereços
junto aos sites das próprias instituições bancárias. Visitas a campo foram executadas
para confirmação de localização e também como forma de observar os espaços onde os
caixas eletrônicos e agências bancárias se localizam, para buscar compreender as razões
das escolhas locacionais feitas.
Foram realizadas contagem de fluxo de clientes que acessam as agências da área
central utilizando a seguinte metodologia: Observou-se a quantidade de clientes que
acessam as agências durante 10 minutos em diferentes situações; com o comércio e
agência fechadas; com o comércio aberto e agência fechada; com o comércio e agência
aberta e após o fechamento do comércio em dias considerados úteis e também no
sábado. Aplicaram-se enquetes direcionadas aos usuários de alguns bancos e caixas
eletrônicos, buscando compreender qual a atratividade dessas áreas e porque essas
pessoas frequentam certos caixas eletrônicos e agências, em especial.
282
No que condiz à avaliação da forma de uso do solo residencial e para verificar se
as lógicas do setor bancário contribuem para aumentar a segmentação social do espaço,
como amostra, foram utilizados dados de localização de todas as agências da cidade de
São Carlos com o objetivo de avaliar se a segmentação social do espaço é reforçada de
fato. A conclusão foi também embasada em outros estudos acadêmicos sobre o tema, a
fim de subsidiar uma discussão mais aprofundada, principalmente com relação à
formação histórica desses espaços segmentados.
O SISTEMA BANCÁRIO BRASILEIRO
Em torno dos anos de 1970, dá-se início aos incentivos, por parte do governo,
para a abertura de novas agências em algumas áreas do território nacional onde ainda
não havia bancos, como ao longo da Transamazônica.
“A Resolução nº 193 de 04-11-1971 do Banco Central, estabelecia a abertura
de dez agências nessa área, podendo cada banco obter a autorização para
implantação de até duas agências ao longo desta rodovia, desde que já tivesse
experiência com agências pioneiras” (VIDEIRA, 2009, p.178)
Após esse período, o governo suspendeu novas cartas patentes e, com isso,
impediu a abertura de novas agências, a fim de promover uma troca, segundo a qual,
nos locais que houvesse muitas agências, essas fossem fechadas, assim autorizando a
abertura de novas somente em lugares de fronteira de capital como o Centro Oeste e a
Amazônia, de acordo com a categoria que foi fechada.
Segundo Minella (1988), os bancos envolvidos nesta empreitada se
consolidaram como fortes bancos nacionais e se destacaram, na organização do
território, por terem seus líderes envolvidos em órgãos de decisões políticas econômicas
do país.
Videira (2009) destaca que
“...diante desta suspensão de abertura de novas agências, havia três
vias para expansão da rede bancária: a abertura de agências pioneiras,
a instalação de postos de serviços em empresas privadas e públicas
(PEP’s), e as fusões e incorporações”. (VIDEIRA, 2009, p. 179)
Após a suspensão das cartas patentes, entre 1971 e 1976, os quatro maiores
bancos da rede privada – Bradesco, Itaú, Nacional e Unibanco – adicionaram
aproximadamente 79% de agências em sua rede, sendo que o total de agências no nível
nacional cresceu apenas 13%. Esse crescimento é resultado de incentivos
283
governamentais, que se apoiavam na ideia de que havia necessidade de maior segurança
no sistema financeiro do país, a fim de promover uma maior competição com os bancos
estrangeiros aqui instalados. Nessa época, muitos banqueiros também possuíam
informações privilegiadas por terem cargos políticos. (VIDEIRA, 2009, p. 180)
Em 1980, surgiu uma nova maneira de redistribuição de agências com o intuito
de descongestionar o eixo Rio-São Paulo. “Esta respeitava uma sistemática de
pontuação conforme a categoria que a agência estivesse inserida, para que houvesse a
permuta de agências”. (Videira, 2009), o que provocou um aumento significativo de
abertura de agências ao longo do território e o que levou, novamente, o Banco Central a
suspender as concessões de cartas patentes.
A partir de 1986, o Banco Central passou a regularizar a instalação de vários
Postos de Atendimento Bancário (PAB) e autorizou a abertura deles juridicamente. Os
Postos de Atendimento Bancário Eletrônico (PAE), também autorizados, são as
dependências bancárias automatizadas, proporcionando atendimento ao cliente por meio
de senha pessoal (VIDEIRA, 2009 P. 191) são popularmente conhecido como “caixas
eletrônicos”.
Anos depois, surge um ponto influente neste novo comportamento do sistema
bancário nacional, pois o Estado passou a ter uma posição mais intervencionista,
sobretudo, a partir de 1994, com a instituição do Plano Real.
“Estas posições inusitadas do governo, nesta década, estiveram voltadas
sempre no sentido de tomar medidas econômicas e jurídicas que atraíssem o
capital estrangeiro. O abandono de tarifas alfandegárias e a série de
programas de privatizações, assim como a eliminação de barreiras ao
investimento estrangeiros sobre o mercado de capitais, inscreveram-se nessa
onda neoliberal, possibilitando uma similaridade com os grandes centro
mundiais”. (VIDEIRA, 2009, p. 2007)
Nesse contexto, consegue-se observar o papel das agências instaladas, como no
caso das cidades médias do interior paulista situadas fora do eixo Rio-São Paulo,
sobretudo as que apresentam papéis importantes junto à rede urbana e que exercem
funções de capital regional, como é o caso de Marília.
MARÍLIA E SÃO CARLOS: BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO
Marília localiza-se na região centro-oeste do estado de São Paulo e está a 437
quilômetros da capital. Possui 216.745 habitantes, segundo dados do Censo IBGE 2010.
Atualmente, a cidade conta com aproximadamente 30 agências e pouco mais de 100
postos de atendimento bancário e eletrônico.
284
São Carlos está localizado a 250 quilômetros de São Paulo, com uma população
de 221.950 pessoas segundo dados do Censo IBGE 2010. O município conta com 22
agências e 58 Postos de Atendimento Bancário e Eletrônico.
As cidades escolhidas como objeto da pesquisa apresentam certas semelhanças
em sua formação. Nos dois casos, a implantação da estrada de ferro foi um elemento
importante ao desenvolvimento delas, proporcionando uma maior interação com outros
centros urbanos do estado; o cultivo do café também se mostrou importante para a
economia de ambas e a crise econômica de 1929 trouxe praticamente os mesmo reflexos
para elas, fazendo que tivessem que desenvolver outros tipos de atividades para
movimentar sua economia.
Marília mantém relações com uma densa rede de cidades de diferentes portes
demográficos e características socioeconômicas (MELAZZO, 2012 P.165). A cidade
está situada em uma região denominada de Alta Paulista região esta que proporciona
detectar diversas interações espaciais, elementos que ajudam a traçar o perfil da cidade e
orientam seus papéis urbanos junto a sua definição como cidade média no contexto da
rede urbana brasileira, sobretudo na região Sudeste.
“São Marcantes as relações regionais desenvolvidas com os municípios de
seu entorno direto, principalmente pelos intensos fluxos de pessoas e
mercadorias: seja pelo papel de centro de consumo e serviços especializados
que vem crescendo, diferenciando-se e sofisticando-se ao longo dos últimos
anos, seja ainda pela presença de determinadas atividades industriais,
caracterizadas pela tendência de especialização produtiva e pelas articulações
produzidas em distintas escalas geográficas cada vez mais ampla.”
(MELAZZO, 2012, p. 165)
Atualmente, Marília é considerada uma capital regional categoria C, segundo a
classificação da Região de Influência das Cidades – REGIC136, em uma posição de
hierarquia,
“que como as metrópoles, também se relacionam com o estrato superior da
rede urbana. Com a capacidade de gestão do nível imediatamente inferior ao
das metrópoles, têm área de influência de âmbito regional, sendo referidas
como destino, para um conjunto de atividades, por grande número de
municípios” IBGE137 apud MELAZZO, 2012).
136
A REGIC subdividiu as cidades brasileiras em cinco grandes níveis, com seus respectivos subníveis:
Metrópoles (Grande metrópole nacional, Metrópole Nacional e Metrópole), Capitais Regionais (A, B e
C), centros sub-regionais (A e B), Centros de Zona (A e B) e Centro Local. Mais detalhes sobre a
metodologia ver REGIC (2008).
137
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Região de influência das cidades 2007.
Rio de Janeiro: IBGE, 2008
285
Desenvolve um papel de centralidade importante junto aos municípios vizinhos,
o que abrange o apoio a dimensões jurídica, administrativa e econômica, o que se deve
ao fato de que sediam órgãos estatais e sedes de importantes empresas privadas, além de
oferecerem diversos serviços educacionais e bancários, nelas, desenvolverem-se várias
atividades comerciais. Mantêm importante relação com os outros centros urbanos, razão
pela qual as pessoas se deslocam para efetuar compras, procurar opções de lazer,
frequentar ensino superior, serviços de saúde de maior complexidade, dentre outros
motivos.
São Carlos, por sua vez, segundo a classificação da REGIC, está
hierarquicamente abaixo de Marília nessa tipologia, integrando-se à rede como Centro
sub-regional A. Por se encontrar próximo a Araraquara que é uma Capital Regional C, e
Ribeirão Preto que é considerada Capital Regional B, a oferta de serviços de maior
complexidade nesses dois núcleos urbanos pode refletir na maior atração para o
deslocamento dos citadinos até eles, diminuindo a importância regional de São Carlos.
Entretanto, apesar desta diferença, os dois municípios apresentam certas
semelhanças. São considerados cidades médias cujo conceito aponta que “sua
particularidade reside no pressuposto de uma específica combinação entre tamanho
demográfico, funções urbanas e organização de seu espaço intra-urbano” (CORRÊA,
2006) o autor ainda expõe que podemos pensar as cidades médias,
em primeiro lugar a rede urbana brasileira, na qual a cidade média é
importante nó e de onde é possível pensa-la como tal. Em segundo lugar, a
rede urbana global, em relação a qual à cidade média pode ser vista como um
nó menos importante. (CORRÊA, 2006, p. 23).
Ressalta, ainda, que:
Significa afirmar que na construção de um objeto de estudo qualificado como
cidade média, é necessário que não se considere isoladamente cada um desses
três pontos aqui apresentados - tamanho demográfico, funções urbanas e
organização do espaço intra-urbano - mas uma particular combinação deles.
(CORRÊA, 2006, p. 25)
As cidades estudadas apresentam papéis regionais, exercem influência e têm
relações diretas com um certo número de cidades pequenas no seu entorno, estão ligadas
à rede urbana brasileira de uma maneira intermediária, o que é proporcionado pelos
elementos que já foram citados até o momento.
MARÍLIA E O SISTEMA BANCÁRIO
Marília apresenta uma relação histórica com o desenvolvimento empresarial e
tecnológico do sistema bancário brasileiro. Nela teve origem o banco Bradesco S.A., em
286
10 de março de 1943, com a proposta inicial de se tornar um banco inovador,
democrático, presente em todo o país, a serviço de seu desenvolvimento econômico e
social, segundo a visão que eles projetam sobre si. Para isso, atendeu aos imigrantes,
lavradores e pequenos comerciantes, além do público tradicional das casas bancárias
que
era
formado
por
empresários
e
grandes
proprietários
de
terras.
(http://www.bradesco.com.br/html/classic/sobre/nossa-historia.shtm)
O primeiro caixa eletrônico do Brasil também foi instalado no município de
Marília e se situava na Rua Prudente de Moraes, ao lado de uma agência do Banco
Bradesco S.A.
Atualmente, as maiores instituições bancárias, nacionais e internacionais se
fazem presente na cidade, representando sete redes diferentes. (Banco Bradesco S.A;
Banco do Brasil S.A; Itaú Unibanco S.A; Banco Santander S.A; Caixa Econômica
Federal; Banco Mercantil do Brasil S.A e HSBC Bank Brasil S.A).
Quanto à localização delas, o maior número de agências está situado na área
central da cidade, com destaque para a Avenida Sampaio Vidal que apresenta uma
concentração de diversos bancos, inclusive mais de uma agência da mesma rede. Esta
via mostra-se como um importante eixo comercial do município, pois nela há uma
grande concentração tanto de agências como seguradoras e financeiras, além da
presença de escolas de línguas e cursos preparatórios, comércio de calçados e
confecções, utilidades, eletrodomésticos, dentre outros (Figuras 1 e 2). Ela tem
características fortes de comércio local e/ou regional, mostrando que a presença dos
bancos está intimamente relacionada com as atividades comerciais. MELAZZO, 2012
aponta que:
De uma perspectiva que procure abarcar toda a cidade, observa-se, entretanto, a
forte presença das agências bancárias, dos postos de atendimento e de caixas
eletrônicos quase exclusivamente nas áreas centrais e sul. Reforçam, assim, um
padrão de distribuição intimamente associado aos processos de formação de
centralidade ligada ao setor de comércio e serviços. (MELLAZO, 2012, p. 222)
BANCOS E CENTRALIDADE EM MARÍLIA E SÃO CARLOS
Uma parte dos postos de atendimento, em menor quantidade, encontra-se na
porção residencial das classes média e alta, região sul e sudeste, e também junto às
universidades e serviços de saúde, quando analisamos a cidade de Marília. Já ao norte,
em menor quantidade, encontram-se aqueles que apenas têm relação direta com as
empresas localizadas nos distritos industriais e o que está instalado no interior de um
287
dos shoppings centers da cidade. Nota-se ainda uma distribuição linear, reforçando a
importância dos eixos viários principais, como fatores determinantes da centralidade em
Marília (MELAZZO, 2012).
Figura 1 – Avenida Sampaio Vidal. Seguradoras e financeiras
Figura 2- Avenida Sampaio Vidal. Presença do Comércio em Geral
Em São Carlos, o principal eixo comercial e de serviços do município é a
Avenida São Carlos onde pode se notar a presença de várias agências como do Banco
Santander S.A; Banco Bradesco S.A; duas agências do Banco Itaú Unibanco S.A e
Banco do Brasil S.A. Essa grande via corta praticamente toda a cidade e concentra
comércio de diferentes setores: supermercados, lojas de eletrodomésticos, farmácias,
bem como lojas do setor calçadista e de roupas. A concentração de bancos está em um
trecho da avenida, onde o comércio de roupas, calçados e eletrodomésticos se mostra
288
mais presente. Em outro trecho, há um número expressivo de restaurantes, inclusive
fastfoods e supermercados (Ver fotos 3 e 4).
Foto 3 – Avenida São Carlos. Presença de comércio e serviços, como destaque para
fastfood e supermercado em trecho da avenida onde as agências não se fazem presente.
Figura 4 – Avenida São Carlos. Trecho de concentração da maior parte das
agências bancárias junto ao comércio de diversos segmentos
Em algumas ruas adjacentes, situadas no centro da cidade, encontra-se ao menos
uma agência de bancos como Santander S.A., Itaú Unibanco S.A., Banco do Brasil S.A.
e Bradesco S.A. Na rua XV de Novembro e Avenida Doutor Carlos Botelho, que são
próximas, uma da outra, e representam área de expansão do centro principal onde
289
também há muitas agências, sendo que neste setor da cidade consegue-se encontrar
tanto agências como postos de atendimento eletrônico próximos uns dos outros
reforçando a centralidade urbana junto a essa área de intensa atividade comercial.
(SPOSITO 2012, p. 54) destaca que:
“A presença de agências bancárias, no caso brasileiro, quando se
trata de cidades médias, têm significado importante em termos
de reforço da animação da área central. Desde a denominada
‘reengenharia do sistema bancário’, que vem acontecendo desde
1990, muitas cidades pequenas tiveram agências bancárias
fechadas. Isso fortaleceu os vínculos entre essas cidades
maiores, em todas as regiões do país”
Representação cartográfica 1- São Carlos. Localização das Agências, PAE e PAB. 2014
290
Nota-se que, na área central das duas cidades estudadas, uma concentração de
redes bancárias atrai grande fluxo de pedestres que acessam as agências ao longo do dia,
em horários distintos, havendo alterações de fluxos que podem ser relacionadas ao
funcionamento do comércio. É o que mostram os dados obtidos após trabalho de campo
291
realizado no município de Marília e São Carlos como serão representados nos gráficos a
seguir.
Gráfico 1– Av. Sampaio Vidal, Marília. Comparação entre o número médio de
usuários dos dias 25/10/2013, Sexta-feira e 26/10/2013, Sábado.
Número médio de usuários
110
120
100
64
80
Número médio de
usuários
60
40
20
0
Dia 25/10/13 Sexta-feira
Dia 26/10/2013 Sábado
Elaborado por: Tamires Eugenia Barbosa
Dados obtidos, após trabalho de campo realizado no mês de outubro de 2013, em
que foram escolhidas agências localizadas na área central, possibilitaram verificar que
há uma concentração de estabelecimentos comerciais de vários segmentos. A contagem
de pedestre foi realizada durante dois dias, sendo eles: a) dia 25 (sexta-feira), que por
ser dia útil, exigiu o levantamento de informações em três horários para contagem; das
14h às 16h, período, após a abertura das agências quando foi observado o maior
movimento de pessoas na via; b) das 16h às 17h, período após fechamento das agências
com o comércio ainda aberto; e c) das 18h às 18h30 min., período após o fechamento do
comércio, sempre contando o fluxo de pessoas que acessavam cada agência durante 10
minutos.
Já no dia 26, sábado, foi escolhido o período da manhã para contagem, das 10h
às 11h, com contagem também de 10 minutos para cada agência, já que neste período
havia grande fluxo de pessoas na avenida e levando em conta que no sábado o comércio
fecha mais cedo e, principalmente, considerando que o trabalho de campo se encerrou
após o almoço.
292
Gráfico 2 - São Carlos. Av. São Carlos. Comparação entre o número médio de usuários
nos dias 17/01/2014 – sexta-feira e 18/01/2014 – sábado.
Número médio de usuários
52,3
53
52
51
50
49
48
47
46
45
44
47
Dia 17/01/2014Sexta
Número médio de
usuários
Dia 18/01/2014 Sábado
Elaborado por: Tamires Eugenia Barbosa
Dados obtidos através da aplicação de enquetes nos municípios apontam que,
dentre os entrevistados, a maioria não se desloca até o centro da cidade apenas para
utilizar as agências. No caso de Marília, entre os entrevistados nenhum diz ir ao centro
apenas para realizar serviços bancários; em São Carlos, entre as pessoas que foram
entrevistadas apenas quatro disseram ir ao centro somente para efetuar serviços
bancários. Constatamos que os usuários aproveitam para fazer compras ou realizar
outros tipos de serviços, o que indica que a localização é o que mais influencia na
escolha da agência a ser utilizada, mostrando que o centro principal, onde as agências se
localizam em sua maior parte continua a exercer papel importante na estrutura urbana
da cidade.
Assim, através dos resultados obtidos com os trabalhos de campo realizados nos
municípios torna-se possível destacar alguns pontos previamente sugeridos no início da
pesquisa. No que tange ao reforço da centralidade nos municípios brasileiros, sobretudo,
nas cidades médias, Sposito (2012, p. 48) afirma que:
“O duplo processo de urbanização tem forte influência sobre os centros das
cidades, seja o centro histórico e/ou principal, sejam subcentros, centros
especializados, shopping centers, eixos comercias e de serviços etc. Várias
são as dinâmicas que estabelecem relações entre o padrão geral da
urbanização e a constituição da centralidade em múltiplas escalas”.
A forte presença de distintas agências junto aos grandes eixos comerciais dos
dois municípios, como Avenida Sampaio Vidal, em Marília e Avenida São Carlos, em
293
São Carlos, confirma a relação entre localização delas e as possibilidades de atrair
usuários que frequentam o centro para realizar outras atividades. O estudo das lógicas
espaciais executadas pelos grandes grupos que operam o sistema bancário tem tido
papel preponderante na articulação entre a reestruturação urbana (SOJA, 1993) e das
cidades (SPOSITO, 2007), ou seja, a escolha das cidades onde estão os bancos tem
influência na escala interurbana (reestruturação urbana) e a localização delas no espaço
urbano tem efeitos na escala da cidade (reestruturação da cidade).
294
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296
DINÂMICAS TERRITORIAIS RECENTES NO MUNICÍPIO DE VOLTA
REDONDA-RJ: A ASCENSÃO DE NOVOS AGENTES CONFIGURADORES
DO ESPAÇO INTRA-URBANO
Túlio Heckmaier de Paula Cataldo138
Fábio Salgado Araújo139
RESUMO
Este artigo propõe a discutir a ascensão de novas centralidades resultantes da atuação de
novos agentes sócios espaciais no município de Volta Redonda, localizado no estado do
Rio de Janeiro. Nesta perspectiva, o questionamento central da investigação consiste em
analisar como as centralidades tradicionais se consolidaram e quais razões levaram a
uma perpetuação da centralidade de tais locais em relação a oferta de serviços e uso
residencial. Também questionamos se há a existência de novos eixos centrais, que
obedecem a outras ordens e contextos político-econômicos e se são capazes de alterar a
rede de localidades centrais do município. Pretendemos confirmar o surgimento de
localidades que se diferem das antigas centralidades intra-urbanas ligadas à atuação da
CSN e se são dotadas de infraestrutura, oferta de bens, serviços etc., de modo que tais
possam se tornar novos eixos de expansão e centralidade no espaço intraurbano.
Palavras-chave: Centralidade; Volta Redonda, CSN
1. Introdução
Este artigo trata da ascensão de novas centralidades resultantes da atuação de
novos agentes sócios espaciais no município de Volta Redonda, localizado no estado do
Rio de Janeiro. A escolha pela temática resulta de investigações que induziram a
percepção que o espaço urbano do município sofreu diversas mutações, mas ainda
mantém a estrutura sócio-espacial de outrora, principalmente no que tange à valorização
de âmbito residencial e comercial de determinados bairros e a perpetuação de
138
Licenciatura e bacharelado em geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestrando
em Planejamento Urbano e Regional - IPPUR/UFRJ – Pesquisador do laboratório Tecnologia, Território
e Planejamento Regional.
139
Licenciatura e bacharelado em geografia pela Universidade Federal de Viçosa, mestre e doutorando
em geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
297
diferenciações de cunho sócio-espacial no tecido urbano da cidade. Neste sentido, faz-se
necessário admitirmos a peculiaridade existente na estruturação do espaço urbano em
questão, notadamente influenciado pela implantação da CSN (Companhia Siderúrgica
Nacional), na década de 1940.
Salientamos que este grande projeto de desenvolvimento, concebido em escalas
administrativas superiores e espacializado em nosso recorte de análise, possuía
necessidades, em uma perspectiva produtiva, que contribuíram por estruturar um espaço
em plena articulação com as demandas da atividade industrial, com efeito, a
estruturação espacial ligada ao estabelecimento de conjunturas favoráveis à reprodução
da mão de obra. Neste sentido, realizaremos o esforço de concebermos centralidades
ligadas à moradia e à oferta de serviços que se estruturavam paulatinamente e de acordo
com o início das atividades da indústria, nas décadas de 1940 e 1950, e se solidificaram
nos anos posteriores.
O principal objetivo do trabalho é verificar a perpetuação da importância das
centralidades induzidas e configuradas pela CSN no espaço intraurbano verificado e,
paralelamente, confirmar a existência de novas centralidades a partir da atuação de
novos agentes políticos e econômicos, notadamente em um recorte temporal
compreendido pelas décadas de 1990, 2000 e 2010. Também é foco de nossa
investigação a reestruturação territorial em um município de bases de formação
peculiares, em uma perspectiva urbana brasileira. As heranças da cidade industrial,
dotada de infraestrutura diretamente ligada aos interesses e demandas da indústria, são
conflitantes com um novo conjunto de forças que regem a constituição do espaço, com
maior efeito nas últimas décadas. A privatização da CSN, em 1993, contribuiu para que
este agente, encarado por nós como principal responsável pela produção do espaço até
dado momento, fosse substituído pelas esferas públicas municipais, que adentram tal
responsabilidade em um contexto de crise política, econômica e social, resultante do
processo de privatização iniciado ao final de década de 1980.
Nesta perspectiva, o questionamento central da investigação consiste em de que
maneira as centralidades tradicionais se consolidaram e quais razões levaram a uma
perpetuação da centralidade de tais locais quanto ao nível de oferta de serviços e uso
residencial. Também se questiona se há a existência de novos eixos centrais, que
obedecem a outras ordens e contextos político-econômicos e se tais são capazes de
alterar a rede de localidades centrais do município em foco.
298
Deste modo, este artigo encontra-se estruturado em três partes. Primeiramente,
trataremos brevemente dos contextos históricos, políticos e econômicos que definiram o
processo brasileiro de substituição de importações e que, por tal, requerem nossa
atenção uma vez que o complexo CSN-VR estruturou-se sob tal paradigma. Também se
faz necessário realizar breve apreciação em torno dos processos políticos, sociais e
territoriais pelo qual o município passou ao longo da segunda metade do século XX.
Posteriormente, analisaremos a constituição do espaço urbano a partir dos agentes que,
pioneiramente, obtinham maior parcela de ação sobre o território, notadamente a CSN.
Por fim, trataremos da ascensão das novas centralidades, em contexto recente, sob a
ação do poder público municipal. O intuito, neste fragmento, é o de confirmar o
surgimento de localidades que se diferem das antigas áreas centrais ligadas à atuação da
CSN e se são dotadas de infraestrutura, oferta de bens, serviços etc., de modo que tais
possam se tornar novos eixos de expansão e centralidade no espaço intraurbano.
2. Uma breve apreciação histórica do complexo CSN-VR e suas dinâmicas sócio
espaciais
A década de 1930 é compreendida por diversos autores como um ponto de ruptura na
sociedade brasileira. As novas diretrizes tomadas por parte daqueles que ascendiam
ao poder público são aqui entendidas como grandes garantias do estabelecimento de
novas ordens na conjuntura econômica e social do país a partir de dado momento. A
ditadura Vargas, voltando suas atenções para a implantação e, principalmente,
manutenção de um estado de bem-estar social, não se limita no estabelecimento de
um estado que se caracterizava, primeiramente, pelo forte caráter assistencialista
adotado. A preocupação dos ideólogos do Estado Novo detinha maiores anseios e
perspectivas. A promoção de um plano nacional de industrialização de base que, por
sua vez, possui fortíssimas necessidades de grandes porções de capital acumulado
para a garantia de sua implantação e (satisfatório) funcionamento, também regia as
diretrizes do governo do velho caudilho. Neste contexto, Perroux (1977, p. 150)
observa:
O nascimento de uma indústria nova é sempre fruto de uma
expectativa. Um ou mais agentes se propõe a enfrentar uma
situação nova. Julgam-na possível. Assumem os riscos de sua
realização. O projeto vai depender da amplitude de seu
horizonte econômico, e se consubstancia em um plano ou mais
exatamente, em planos alternativos e suscetíveis de correções ,
no decurso de períodos sucessivos. Uma vez que esses planos
sejam ou se tornem compatíveis com os planos de outros
agentes, em um mesmo conjunto, a expectativa torna-se criativa.
299
Neste sentido, a aventura de viabilização do complexo torna-se responsabilidade
estatal dado o período em questão, marcado pelo pleno desafio em buscar dinamizar o
setor secundário interno, dotando-o de um insumo industrial estratégico que passaria a
ser produzido em território brasileiro, compondo o processo interno de substituição de
importações.
Volta Redonda e a Companhia Siderúrgica Nacional são inseridas em dado contexto. A responsabilidade estatal de iniciar a
construção de um complexo, onde cidade e empresa iriam interagir de forma a sustentar as necessidades básicas mútuas, seria
útil no que diz respeito à criação de uma espécie de laboratório de experiências necessárias à constituição da moderna sociedade
do trabalho avançada. Os canteiros de obras são seus centros de excelência, como bem explana Ruy Moreira (2003). O
planejamento de uma malha urbana que sustentasse o mínimo de recursos necessários para os grandes fluxos de mão de obra
especializada e não especializada que se iniciariam, tornava-se consequência imediata da implantação da siderúrgica. Já na
década de 1940, têm início os preparativos para o grande ensaio da industrialização brasileira.
É exatamente essa dimensão humana que avulta da história
social de Volta Redonda: mesclam-se, num mesmo lugar,
milhares de pessoas, que deverão viver juntas, fazendo os
mesmos trabalhos, sofrendo as mesmas privações, dividindo os
mesmos anseios, somando as mesmas esperanças. (...) Mas os
Ciclopes vêm e,sem se darem conta, passam a se movimentar
como peões num tabuleiro de xadrez, ocupando as posições que
o Estado Novo lhes destina, nos termos de um Projeto Nacional,
que contempla a construção de um novo homem brasileiro,
para atuar no cenário de uma nova sociedade, moderna,
industrial, urbana(...)(BEDÊ, 2004 ,p.20-21).
A forma como o complexo foi espacialmente organizado teve a
finalidade de fazer dele o modelo de referência da construção da
sociedade industrial no Brasil. De fato, mais que uma retaguarda
de indústria de base destinada a subsidiar o desenvolvimento
econômico nacional com o aço que lhe é primordial, o complexo
CSN – VR atuou como uma retaguarda de modelo de sociedade
de operários que então apareciam para substituir no Brasil uma
sociedade de camponeses. E o seu modo de relação sociedade
– espaço, já a partir do arranjo geográfico da cidade, a
começar do dilema da escolha da sua localização no território
nacional, exprime esse papel de transformar jecas tatus em
operários(...) (MOREIRA, 2003, p.139 - 140).
Assim, o complexo constituído por empresa e cidade inicia seu processo de
afirmação, em um contexto de plena necessidade para que este pudesse garantir seu
objetivo e fomentar uma nova sociedade de trabalho, subsidiando o processo de
modernização produtiva, tão necessário ao momento que o país enfrentara neste
contexto. A cidade juntamente com a siderúrgica foi planejado a partir do modelo de
cidade industrial de Tony Garnier, adaptado pelo também arquiteto Attílio Corrêa Lima.
Com isso, a constituição dos primeiros bairros ocorre paralelamente à implantação da
siderúrgica, visando proporcionar moradia principalmente à mão de obra especializada
300
que chegava ao então distrito de Barra Mansa – RJ. O período de afirmação do
complexo é estratégico, pois o funcionamento da siderúrgica dependeria principalmente
de uma política absolutamente positiva e favorável para com a força de trabalho.
A elaboração do plano urbanístico da cidade foi influenciada pelo modelo
urbanístico norte-americano com o zoneamento indicando especialização por área e
ordenação dos fluxos, inclusive as áreas e equipamentos destinados ao lazer. Previa uma
cidade linear, com desenho simples e equilibrado com funções principais bem
articuladas. A área central seria ocupada pelo centro comercial, desenvolvendo-se
paralelamente à usina e concentrando a infraestrutura. A CSN seria um modelo
autárquico onde a empresa utilizava diversas estratégias para educar, vigiar e controlar o
trabalhador dentro e fora da fábrica. A estrutura da vila operária reproduzia a estrutura
disciplinar da usina, com arranjo espacial que representava essa ordem, havendo com
isto, um duplo controle dos trabalhadores configurando uma verdadeira company-town.
(CALIFE, 2000; MOREIRA, 2000; FONTES e LAMARÃO, 2006; PIQUET, 1998).
O não aproveitamento de todos os trabalhadores da construção da Usina gerou
uma desmobilização da mão-de-obra empregada na construção acarretando um
crescimento desordenado e desvinculado dos interesses imediatos da empresa. Com
isso, na margem esquerda do Rio Paraíba surgia outra Volta Redonda, ocupada de
forma não planejada por pequenos comerciantes e por aquela massa de trabalhadores
dispensados da CSN. Os dois núcleos originais de Santo Antônio de Volta Redonda
tornaram-se eixo de ligação entre os bairros planejados e os novos bairros surgidos
nesse processo de crescimento.
Assim, Volta Redonda ficaria dividida em duas: à margem direita do rio
desenvolvia-se o núcleo urbano a partir do projeto dos bairros operários – a chamada de
“Cidade Nova” – e à margem esquerda a “Cidade Velha”, separada da CSN e que não
dispunha dos serviços da parte planejada. Os trabalhadores não aproveitados pela CSN
foram deslocados para a parte “Velha” ou para a periferia da cidade, e os proprietários
de fazendas da região se converteram em loteadores e especuladores. Com isso, a cidade
conheceu uma considerável expansão da malha urbana (principalmente nas décadas de
1950/1960) com a implantação de numerosos loteamentos dando origem a novos
bairros, principalmente na margem esquerda do Rio Paraíba do Sul como podemos
observar na figura 01. O processo de ocupação de Volta Redonda gerou uma malha
urbana descontínua e rarefeita, com grandes vazios e áreas urbanas enquistadas, subindo
os morros e instalando-se em pequenas áreas de baixada. Não apenas as características
301
físicas definiram tal ocupação, mas, principalmente, o fato de as melhores terras estarem
nas mãos da CSN e de alguns fazendeiros (CALIFE, 2000; MOREIRA 2000; FONTES
e LAMARÃO, 2006).
Figura 01 – Mapa com a expansão dos bairros de Volta Redonda entre 1940 e 1970. Elaborado por:
Araújo, 2013.
Nas décadas de 1960 e 1970, a CSN começou a reduzir seus encargos com
moradias para funcionários vendendo as casas através da criação de uma imobiliária e
também desfez de seu patrimônio público – ruas, praças, serviços urbanos etc. – e dos
encargos decorrentes de sua manutenção passando para a Prefeitura Municipal. Assim,
no dia 1º de janeiro de 1968, a prefeitura e a CSN assinaram um termo de entrega e
recebimento dos serviços urbanos, dando início ao processo de unificação do espaço
urbano ao reunir, sob a mesma administração, a cidade operária e a cidade velha. Essa
medida foi responsável pela multiplicação dos encargos da administração municipal
sem que esta se encontrasse preparada para tanto, passando para a responsabilidade da
prefeitura o fornecimento desses serviços. O impacto foi significativo, pois até mesmo a
302
água que abastecia os bairros da cidade planejada era fornecida pela CSN (COSTA,
2004).
A crise na década de 1980 e acúmulo de dívidas da CSN foram fatores que
contribuíram para a estagnação econômica do município. As políticas governamentais
em nível nacional, empreendidas a partir do fim da década de 1980, levaram ao
processo de privatização da usina em 1993, dando origem a maior crise vivida pelo
município ao longo de sua história. Com a privatização houve uma diminuição da
intervenção da siderúrgica diretamente sobre a cidade, com a sua retirada na dotação de
infraestrutura urbana e o término das políticas sociais empreendidas pela empresa.
Assim, poder público municipal tem aumentado sua presença e poder no fomento de
políticas públicas e sociais.
O atual do poder público municipal, principalmente a partir de 1997 promoveu
alterações na estrutura administrativa da cidade com novos investimentos procurando
desenvolver o setor de comércio e serviços, construção/reforma de equipamentos e
mobiliário urbano, principalmente aqueles ligados a saúde, educação, lazer e esporte.
A CSN, hoje privatizada, continua sendo importante para o município, entretanto
para enfrentar os graves problemas sociais, ambientais e econômicos que culminaram
com a privatização houve um processo de reestruturação no município. Com o
afastamento definitivo da CSN do fomento das políticas públicas e de investimentos em
melhorias urbanas surgia a necessidade de uma gestão mais ativa da Prefeitura
Municipal. Atualmente o município passa por uma fase de reestruturação territorial em
conseqüência da reestruturação produtiva da empresa.
Com isso, a cidade vive no início deste século um período de grandes
transformações, onde o poder público municipal procura deslocar a imagem vinculada à
empresa (“cidade do aço”) para uma cidade moderna e para isso vem investindo na
construção e reforma de equipamentos urbanos para criar uma imagem de progresso e
construir um consenso junto a população em torno das intervenções urbanas aplicadas.
Procura-se com isso sugerir à população uma recuperação econômica após a crise vivida
pelo município depois da privatização. Este discurso político tem alto poder de
legitimação junto às classes trabalhadoras órfãs do paternalismo da CSN outrora
presente. (OLIVEIRA e MASCARENHAS, 2007; SOUTO, 2007; PALMEIRA, 2012).
3. A centralidade pioneira em foco: o caso do bairro Vila Santa Cecília
303
Neste momento, estaremos dedicados ao tratamento de eixos centrais pioneiros e
recentes no espaço intraurbano de Volta Redonda – RJ. Nosso intuito é o de verificar a
continuidade da proeminência e importância das centralidades antigas, com destaque
para o bairro Vila Santa Cecília, ao passo que também verificaremos a existência de
novas centralidades a partir da atuação de novos agentes configuradores do espaço
urbano (CORRÊA, 1995).
Conforme este mesmo autor, o espaço urbano, em seu caráter imutável de
fragmentação e articulação, é reflexo da dinâmica dos grupos sociais que o habitam. Por
tal, se a sociedade que compõe o espaço urbano é desigual e estratificada socialmente,
este irá possuir profundos reflexos desta estruturação desigual e se configurará de forma
também desigual. O complexo urbano-industrial constituído pela CSN em Volta
Redonda possui tal estratificação em sua própria gênese (PIQUET, 1998).
A Vila Santa Cecília surge como principal centralidade deste núcleo inicial.
Façamos a ressalva que quando de sua viabilização, o município de Volta Redonda – RJ
sequer existira. Este garante sua emancipação apenas em 1954, tornando-se oficialmente
um município. Logo, admitimos que o principal agente sobre a configuração do espaço
urbano em dado momento tornava-se a CSN, sob a égide do Governo Getulista, em
esferas federais de poder. As desapropriações de antigas fazendas cafeicultoras foram
realizadas com o intuito de garantia de loteamentos para a construção da Usina e da Vila
Operária. A antiga fazenda Santa Cecília é desapropriada, dando lugar ao bairro que
receberia nome similar, a Vila Santa Cecília.
Em 2013, Araújo (p.69) salientou que “a área central seria ocupada pelo centro
comercial, desenvolvendo-se paralelamente à usina e concentrando a infraestrutura:
creche, hospital, ambulatório, escola, cinema, clube, restaurante para operários, hotel
para empregados solteiros e viajantes” (apud CALIFE, 2000; MOREIRA, 2000;
FONTES e LAMARÃO, 2006). A Vila Santa Cecília emerge então como eixo central
do núcleo pioneiro e, de acordo com nossas observações, garante sua manutenção como
principal eixo central do tecido urbano, uma vez que possui uma série de características
sócio espaciais que serão analisadas ao longo deste trabalho.
Cabe, todavia, buscarmos realizar uma breve definição da ideia de área central,
compreendida por Corrêa (1995 ,p. 38)
[...] como a localidade, dentro de um contexto intraurbano,
caracterizada por assumir
o caráter de foco principal não
apenas da cidade mas também de sua hinterlândia. Nela
concentram-se as principais atividades comerciais, de serviços,
304
da gestão pública e privada, e os terminais de transportes interregionais e intra-urbanos. Ela se destaca na paisagem da cidade
pela sua verticalização.
Já Melo (1997, p.24), salienta que
[...] os geógrafos conceituam um lugar central por ser um ponto
de concentração e irradiação de fluxos comerciais, financeiros,
sociais, administrativos, etc. A centralidade, sob este prisma, é a
medida de importância do lugar enquanto lugar central, expressa
pela magnitude dos bens e serviços oferecidos e pela área de
influência. Afora esta tendência vale lembrar que a corrente
humanística na geografia aprecia a dimensão etnocêntrica como
algo concernente aos lugares centrais. No entanto, a centralidade
não se encerra neste círculo. Uma pluralidade de perspectivas
sobre o assunto merece ser analisada a despeito da dificuldade
em ordenar toda uma complexa gama de centralidades que se
entrelaçam ou ocorrem isoladamente.
Neste sentido, o tecido urbano do município possui seu eixo central concentrado
em quatro localidades, a saber, os bairros da Vila Santa Cecília, o eixo que interliga o
Aterrado e a Avenida Amaral Peixoto até o bairro Aero Clube indo até o bairro Retiro
como visualizamos nas figura 02 e 03 (IPPU – VR, 2008).
305
Figura 02 - O Arco de Centralidade proposto pelo IPPU – VR, considerando os bairros de Vila Santa
Cecília, o eixo constituído por Av. Amaral Peixoto e Aterrado, o bairro Aero Clube e o Retiro. Fonte:
Plano Diretor Participativo – Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Volta Redonda, 2008.
As figuras 02 e 03 podem nos auxiliar na visualização e na análise da
espacialização de nosso recorte de observação. Contudo, é de suma importância que
façamos a ressalva da consideração dos eixos centrais a partir da análise do Instituto de
Pesquisa e Planejamento Urbano, autarquia da Prefeitura Municipal de Volta Redonda –
RJ. O documento intitulado “Arco de centralidade” (PMVR, 2008) compõe o Plano
Diretor Participativo do município, lançado neste mesmo ano. Ele nos fornece
interessantes informações acerca da dinâmica urbana do município, além de nos
oferecer também a proposta do arco de centralidade, que evidencia os bairros que
possuem a maior capacidade de oferta de serviços e que concentram os aparatos
administrativos, culturais e simbólicos da cidade.
306
Figura 03: Imagem de satélite do Arco de Centralidade. Fonte: Fonte: Plano Diretor Participativo –
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Volta Redonda, 2008. Elaboração: João Wilheim, 2008
Consideramos também que as áreas centrais são, em diversos casos,
centralidades pioneiras e localidades responsáveis pela fundação das cidades. A Vila
Santa Cecília também exerce tal papel no espaço urbano volta-redondense. Os
equipamentos dotados de simbolismo estão inseridos no eixo central aqui enfocado e
destacam-se na paisagem. São heranças culturais e espaciais dotadas de história e carga
simbólica não encontradas em outra localidade no município. Neste contexto,
chamamos atenção para a Praça Brasil, localizada ao final da rua 14. As referências ao
novo trabalhador brasileiro, bem como ao ex-presidente Getúlio Vargas, estão fixas no
território e contrastam com a nova fase da cidade, notadamente desvinculada de seus
antigos mártires.
É de suma importância fazermos o esforço de analisar as simbologias existentes
no território, que se vinculavam a outras temporalidades e contextos que ainda
permanecem, mesmo que desvinculadas do período atual, no espaço. Volta Redonda –
RJ tem em sua paisagem uma série de conteúdos e formas que retratam o esforço
nacional e buscavam “exaltar o industrialismo, sublinhar a política social do governo e
espacializar, através do desenho e do equipamento da cidade, o homem novo que estava
307
sendo construído” (ARAÚJO, 2013, p.69). Admitimos como já salientado no início
deste trabalho, que a prefeitura municipal agora constitui um novo agente configurador
do espaço e solidifica novas formas que possuem diferentes conteúdos, como explanam
Mascarenhas e Oliveira (2006). Neste sentido, observamos que os símbolos criados
quando da construção da siderúrgica possuem sua manutenção garantida no espaço, mas
não mais se vinculam ao atual período vivenciado principalmente desde a década de
1990, após o marco da privatização da CSN. Desta maneira, o conflito existente entre a
cidade industrial com a cidade terciária é pleno e ainda irá representar uma série de
entraves e futuros processos para as próximas décadas.
Figura 04: Planta do bairro Vila Santa Cecília. Fonte: IPPU-VR
Se no passado, o referido bairro apresentava função residencial, e configurando a
emergência de uma centralidade, atualmente a Vila Santa Cecília passa por profundas
transformações em sua forma-conteúdo. Tais transformações são encaradas por nós
como manifestações espaciais da atuação dos novos agentes que (re) configuram o
espaço urbano de acordo com suas demandas e interesses. Esta reconfiguração, bem
como a ascensão de novos eixos centrais, será alvo de nossa abordagem no próximo
308
capítulo, quando trataremos de dois exemplos de espaços que apresentaram dinâmicas
recentes ligadas ao crescimento do setor terciário de Volta Redonda.
4. Breves considerações acerca da ascensão de novas centralidades intra-urbanas:
O exemplo da Rodovia dos Metalúrgicos e do Bairro Jardim Amália?
A partir deste momento, nos debruçaremos a analisar, de forma sucinta, dois
possíveis exemplos de novas centralidades de concentração de recursos e
empreendimentos ligados ao setor terciário e ao uso residencial. Referimos-nos,
especificamente, aos casos da Rodovia dos Metalúrgicos e ao bairro Jardim Amália,
respectivamente. Nas últimas décadas, notadamente após o processo de privatização e
da transferência de maior responsabilidade de gestão do espaço urbano à Prefeitura
Municipal, consideramos que novos agentes se tornam responsáveis pela reconfiguração
territorial que vigora no tecido urbano, agentes ligados, com efeito, ao setor de comércio
e prestação de serviços. Desta forma, a descentralização de atividades acompanha o
adensamento dos eixos centrais pioneiros e aqueles contemplados pelo arco de
centralidade, aliando também precauções por parte do poder público em esferas
municipais com tal fenômeno (IPPU-VR, 2008). Neste sentido, observamos a
ocorrência de realocação de investimentos, descentralização de atividades de consumo e
lazer e novos bairros escolhidos por classes com alto padrão de consumo para moradia.
Tais novas localidades se diferem dos eixos centrais considerados por nós até aqui e
representam a anexação de novos locais às dinâmicas econômicas e sociais no espaço
intraurbano. Optamos por analisar brevemente os casos supracitados pela dinâmica
vivenciada por tais nas últimas décadas.
4.1 A Rodovia dos Metalúrgicos (Rodovia Tancredo Neves)
A Rodovia dos Metalúrgicos, oficialmente denominada de Rodovia Tancredo
Neves, é o principal eixo de ligação da Rodovia Presidente Dutra com o tecido urbano
de Volta Redonda. Ao longo de seu percurso, observamos a existência de bairros,
predominantemente residenciais, construídos durante a segunda metade do século XX e
conectados aos eixos centrais da cidade a partir da referida rodovia, que desemboca na
Avenida Amaral Peixoto, no arco de centralidade (IPPU-VR, 2008). Nos últimos dez
anos, os loteamentos que se localizam ao longo da rodovia, em seu trecho de maior
309
proximidade ao eixo central, tem sido foco de escolha de localização por parte de redes
de comércio atacadista, hipermercados e, com efeito, de um novo empreendimento. Este
novo empreendimento, a saber, um Shopping Center, possui uma centralidade de
consumo que irá atrair novos e significativos fluxos de pessoas, bens e capitais para este
novo eixo. As figuras 04 e 05 nos auxiliam a compreender que tal localidade é alvo de
estabelecimento de novas centralidades ligadas ao setor de comércio e serviços e, por
tal, se aproveitam de diversos fatores. Entre esses fatores podemos destacar a própria
rodovia, eixo de ligação entre bairros distantes do centro e do próprio arco de
centralidade com a Rodovia Presidente Dutra, além da facilidade na obtenção de
terrenos a preços pouco elevados e dotados de grande extensão, como bem observados
nas figuras e imagem supracitadas.
Portanto, observamos que um novo eixo de oferta de serviços pode efetivar seu
desenvolvimento nas próximas décadas. O Shopping Center Park Sul, que promete ser o
maior empreendimento do gênero na região Sul Fluminense (ver figura 05), cuja
construção já teve início, ao passo que outros empreendimentos recentes, a saber, a rede
atacadista Spani, o setor de administração da empresa Café Faraó e a rede de
supermercados norte-americana Walmart já vigoram em funcionamento desde períodos
recentes.
Desta maneira, constatamos que a necessidade de grandes loteamentos sofrida
pelos empreendimentos em destaque, somada à valorização dos loteamentos nos centros
consolidados, a exemplo da Vila Santa Cecília, podem resultar na motivação de tais
empreendedores pela localização de suas iniciativas neste recorte espacial. Trata-se de
uma centralidade que poderá garantir sua consolidação na medida em que novos fixos
encontrarem vantagens de diferentes naturezas para a instalação neste novo eixo.
Questionamentos futuros podem seguir a direção da existência de iniciativas da
Prefeitura Municipal na concessão de incentivos à instalação de empreendimentos em
loteamentos ao longo da rodovia. Mas possuímos clara noção de que novos agentes,
notadamente ligados ao setor de comércio e serviços, são também grandes responsáveis
pela reconfiguração do espaço intraurbano em questão.
310
Figura 05 - Imagem de satélite contendo o recorte por nós observado: A Rodovia dos Metalúrgicos. A
área destacada trata-se do eixo de localização dos novos empreendimentos. Destaque para a proximidade
com a ligação que a rodovia promove com os eixos centrais do município, bem como com municípios
vizinhos, também alvo da oferta dos serviços ali futuramente encontrados. Fonte: HECKMAIER, 2014.
Figura 06 - Imagens contendo os outdoors de publicidade do Shopping Park Sul, com as mensagens:
“Aqui, o maior e mais completo empreendimento do Sul Fluminense” e “Uma oportunidade de ouro na
região do aço”. As constantes referências a região denotam que o empreendimento procura se tornar uma
referência de consumo intraregional, fator que este que afirma a característica atual de Volta Redonda,
enquanto nó da região do Médio Vale do Paraíba Fluminense. Fonte: HECKMAIER, 2014.
311
4.2 O bairro Jardim Amália
Buscamos neste momento salientar a importância de mais um novo eixo que
apresenta interessante dinâmica imobiliária, especialmente nas últimas duas décadas. O
referido bairro encontra-se próximo dos eixos centrais já referenciados e também às
principais vias de acesso a outras localidades do espaço urbano em questão. Contudo,
linhas de transporte coletivo são ineficientes e se limitam ao transporte até a base do
morro que caracteriza o desenho geomorfológico do bairro. Assim como o bairro do
laranjal - caracterizado por concentrar os funcionários do topo da hierarquia
empregatícia da CSN e dotado de residências de padrão com maior grau de sofisticação
quando da implantação da CSN e dos primeiros bairros do complexo urbano-industrial
– o Jardim Amália também se constitui em relevo acidentado e estrutura íngreme,
tornando o acesso à boa parte deste limitado à veículos automotores individuais, fator
este que caracteriza ainda mais o bairro como foco de classe média alta. Fruto
de
antigos loteamentos de fazendas cafeiculturas da localidade, o bairro teve sua expansão
em contexto recente e aglomera residências de bom padrão de sofisticação, além de um
incipiente comércio que busca atender apenas ao bairro em questão, com exceção de
poucos exemplos, como escolas de ensino básico particulares, um hospital também
particular, além de estabelecimentos noturnos de lazer e entretenimento que exercem
significativa centralidade atualmente por estabelecer diversos fluxos, que extrapolam até
mesmo os limites municipais, conforme os cadernos de bairro do IPPU-VR relatam
(2010). Constatamos, de acordo com nossas observações, que tal localidade sofre
intenso ritmo de procura e valorização dos imóveis, bem como até mesmo certa
verticalização, já ocorrem no bairro, como exemplificado na figura 16. Com uma
população de 6.492 habitantes, sendo que, deste total, o grupo de idade majoritário é de
35 a 39 anos (IPPU apud IBGE, 2010), o bairro torna-se, com o passar dos anos, uma
centralidade no espaço intraurbano, dotado de boa infraestrutura e equipamentos
urbanos, é alvo de procura de famílias de melhor poder aquisitivo, em relação a outros
bairros do município.
312
O bom tratamento das vias públicas, como asfaltamento, arborização e etc, são
notórios e também denota uma postura específica do poder público municipal e
participa do processo de valorização do solo que este bairro enfrentou nas últimas
décadas, tornando-se uma nova centralidade habitacional ao passo que poucos bairros
registraram crescimento populacional, com residentes de camadas médias de consumo,
como o aqui enfocado. A figura abaixo, conforme anteriormente mencionadas, retratam
empiricamente o que foi abordado. Podemos mais uma vez ratificar o papel da
verticalização residencial, com a presença de construções de padrão mais sofisticado.
Figura 07: Planta do bairro Jardim Amália. Fonte: IPPU-VR
Figura 08: Mosaico contendo fotos que nos auxiliam a visualizar as características do espaço em questão,
com o fenômeno da verticalização, dada a valorização sofrida pelo bairro em períodos recentes. Destaque
também para o embelezamento e arborização das ruas. Fonte: HECKMAIER, 2014.
313
5. Considerações Finais
Diante de nossas exposições ao longo deste trabalho, observamos que a
estruturação do espaço de Volta Redonda – RJ, que sofreu ímpar influência da CSN,
mantêm uma série de paradigmas e estruturações vivas no espaço, no território e na
paisagem. Todavia, é de suma importância realizar a ressalva de que a mudança nos
agentes configuradores do espaço promove profundos conflitos entre a cidade fordista e
a cidade terciária, que luta para se estabelecer em domínios influenciados pela
viabilização de um espaço integrado diretamente à indústria. A maior responsabilidade
do poder público municipal possui plenos desafios na gestão do espaço e busca torná-lo
cada vez mais autônomo em relação a CSN, além de realização de um esforço
considerável na reconstrução dos símbolos e das referências que o cidadão de Volta
Redonda busca em tempos de conflitos simbólicos e sociais.
A reestruturação do espaço atende a novas demandas e ao interesse de novos
agentes, que se afirmam no espaço e na sociedade principalmente após a paradigmática
privatização da CSN, em primórdios da década de 1990. Com isso, novas centralidades
buscam afirmação no espaço, apesar de ainda conflitarem e coexistirem com os eixos
centrais estruturados ao longo da implantação da CSN e nas primeiras décadas de
afirmação do complexo urbano-industrial. Estes, no caso específico da Vila Santa
Cecília, vivem pleno contexto de expansão de atividades econômicas, notadamente
terciárias, que atraem novos fluxos, instalam novos fixos, fortalecem fluxos já
existentes e contribuem para a maior diversificação e fortalecimento da centralidade
encontrada no bairro desde a década de 1940.
Portanto, observamos que as centralidades pioneiras, a exemplo do eixo de
centralidade proposto pelo IPPU-VR – O Arco de Centralidade – (2008), com ênfase
especial ao bairro da Vila Santa Cecília, persistem enquanto principais espaços dotados
de centralidade no município. O caso específico da Vila Santa Cecília nos chama
atenção para um maior adensamento da centralidade pioneira, dotada de serviços
especializados de grande demanda no município, atraindo até mesmo fluxos
interurbanos. A incorporação de novos espaços afirma que a localidade está anexando
novas áreas e incorporando-as em sua dinâmica de oferta de bens e serviços.
Contudo,
não
podemos
desconsiderar a existência de novos espaços dinâmicos, como os supracitados ao longo
314
deste trabalho, principalmente na Rodovia dos Metalúrgicos, uma vez que esta pode
oferecer aspectos que as centralidades pioneiras não mais estão aptas, como grandes
loteamentos a preços não elevados. O tipo dos empreendimentos que vêm sendo
erguidos neste eixo também carecem destas amenidades, visto que tratam-se de grandes
edificações que requerem grandes loteamentos para garantirem sua reprodução.
O caso do bairro do Jardim Amália também é elucidativo no aspecto de novas
centralidades residenciais que ascendem, ao passo que os bairros pioneiros e sempre
referenciados ao considerarmos as moradias de alto padrão não mais são o foco do novo
conjunto de grupos sociais de alto poder aquisitivo que residem na cidade, com efeito,
destacados da figura da CSN, diferentemente de períodos anteriores.
Deste modo, concluímos destacando a gama de participação que os novos
agentes configuradores do espaço urbano possuem na vigente reestruturação urbana
vivenciada por Volta Redonda – RJ. O poder público torna-se mediador dos interesses
do capital privado, na medida em que este se configura, de acordo com nossas
observações, como o maior modelador do espaço urbano em questão e o faz centro e
referência na rede urbana em que este se encontra inserido.
Por fim, salientamos a importância de considerarmos que o espaço urbano é
configurado a partir de interesses e agentes que não possuem caráter fixo e se vinculam
às demandas que tais possuem, tendo nas esferas políticas entraves ou agentes indutores
de novas configurações espaciais. É de suma importância sempre considerar que as
heranças do período em que a CSN configurava e planejava o território de acordo com
suas demandas entram e entrarão em constantes conflitos e se apresentarão enquanto
constantes entraves aos novos ritmos de expansão vivenciados, principalmente pelos
agentes atualmente hegemônicos.
315
6. Referências Bibliográficas
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Anais III CIMDEPE- Eixo 3-4