O CASARÃO DO CERNE ROMANCE GILBERTO BRAZ ALMEIDA 1 SERTÃO-SERTANÓPOLIS No início do século XX havia uma floresta encantada onde as águas dos rios eram límpidas e cristalinas. Havia muitos peixes: bagres, traíras, curimbatás, dourados, pintados, lambaris surubis... Havia muitas árvores: perobas, figueiras, paus-d’alho, canelas, timburis, cedros, marfins... Havia muitos pássaros: papagaios, maritacas, garças, urus, inhambus, jacus... Havia muitos bichos: onças, pacas, macacos, antas, cotias, tamanduás, capivaras... Havia muitas flores... Muitas frutas... Muitas borboletas... Nas margens dos rios ainda se encontravam armas de pedras, restos de cerâmicas, outrora deixados pelos índios Caingangues. Essa floresta era um pedacinho do norte do Paraná... Uma terra roxa abençoada por Deus, a melhor terra do Brasil, 2 A segunda melhor terra do mundo. Enquanto a floresta dormia em paz, Sertanópolis ainda não existia. Se a paz reinava na floresta em um lugar não muito distante, além das águas do Rio Paranapanema, no vizinho estado de São Paulo, os campos já estavam revestidos por um outro verde, tão verde... quanto o verde das matas: era o verde dos cafezais! Plantar café... Colher café... Ficar rico vendendo café... Assim era o desejo de muitas famílias portuguesas italianas, espanholas, sonhadoras e aventureiras. Trabalhar... Trabalhar... Derrubar as florestas; e foi dessa maneira que Sertanópolis começou a surgir na cabeça, nos planos dos valorosos e corajosos pioneiros. Como já foi dito, 3 o café era a principal riqueza do Brasil. Sertanópolis surgiu do café. As árvores das florestas deram lugar aos cafezais. Os animais e os peixes sumiram, muita gente ficou rica... Outros não tiveram a mesma sorte. Foram tempos difíceis, mas havia muito respeito com o próximo... Havia muita união entre os primeiros moradores de Sertanópolis. Quem conta essa história para os seus netinhos é a querida vovó Aurora, 4 O CASARÃO DO CERNE 1 A vovó Aurora veio para Sertanópolis no ano de 1927, juntamente com seu marido José Manuel e toda a sua numerosa prole. Sessenta anos depois, como num conto de fadas, já viúva há mais de quarenta anos, enquanto tricoteia na varanda hospitaleira do histórico casarão, recebe a visita de três netinhos muito queridos: Mário, Bruno e Amelinha. Mário, com nove anos de idade, o mais velho dos três, muito inteligente, mas terrivelmente brincalhão. Bruno era o caçula, um verdadeiro bicho preguiça, não queria nada com nada e estava sempre com sono e fome. Amelinha era o orgulho da vovó, muito sapeca, uma verdadeira enciclopédia falante... Um sabe tudo que não se cansa de querer saber mais. Por incrível que pareça, eis que também surgem do porão da casa a gatinha Filomena e o cachorrinho Zangado. São inimigos mortais, os rosnados e os arranhões são coisas de rotina, mesmo assim, um estava sempre ao lado do outro. Naquela tarde ensolarada de novembro, como sempre acontece, Amelinha começa o diálogo: _ Vovó, é verdade que o primeiro nome de Sertanópolis era Potiguará – Tibagi – Panema? _ Sim, minha neta _ a vovó arregala os olhos de admiração. _ Quem foi que inventou esse nome tão estranho? Perguntou Mário. _ Foram os índios Caingangues que aqui habitavam e denominaram a região com esse nome. A curiosidade de Mário vem à tona: _ Pioneiro...? 5 _ Sim, meu neto. Pioneiros são os primeiros colonizadores de um lugar que antes era só floresta. Amelinha não se contenta com a resposta. Quer saber ainda mais: _ Vovó, que foram os pioneiros de Sertanópolis? _ Foram muitos, minha neta. _ E a vovó começou a falar de nomes, sobrenomes, apelidos... Uma lista que parecia não ter fim. _ Cruz-credo! Como a vovó guarda na cabeça tantos nomes? Resmungou Bruno. _ Vovó, o vovô José Manuel também era pioneiro? Perguntou Mário. _ Sim, O vovô José Manuel, que Deus o tenha em um bom lugar no céu, também foi um dos pioneiros de Sertanópolis. Quando o vovô e a vovó chegaram aqui na Água do Cerne. Sertanópolis estava apenas começando. Não havia estradas, não havia pontes, era um sertão que dava medo. Mário: _ Eu não tenho medo do sertão, o que eu queria mesmo era encontrar uma onça pintada só para dar uma estilingada bem no olho arregalado dela. Todos riram. _ Moleque bobo, disse Amelinha. Eu nunca vi caçar onça de estilingue, só mesmo na cabeça oca do Mário, Bruno olha bem para o rosto da vovó, como quem quer chamar atenção só para si, dá três batidinhas na barriga e resmunga: _ Tô com uma vontade de comer doce de batata-doce. _ Vá plantar favas! Zombou a vovó Aurora. Faz muito tempo que ninguém faz doce de batata-doce, é só o que faltava! _ Vovó, como era o Cerne nos tempos do Sertão? Perguntou Amelinha. Ah, minha querida netinha, nem queira saber. Era muito difícil. A nossa primeira casa era um rancho de palmitos, coberto de tabuinhas, o piso era de chão batido, as paredes eram rebocadas de barro. Ao lado do rancho havia um pequeno engenho de moer cana. Perto do engenho tinha uma bica d’água, onde se lavava a roupa suja: alguns metros da bica d’água havia um monjolo. Amelinha: _ Monjolo? Que palavra estranha! A vovó responde com nostalgia: 6 _ O monjolo era uma espécie de pilão movido à água, servia para beneficiar arroz, café, fazer canjica de milho... _ Canjica? Oba! _ Disse Bruno – eu quero comer canjica. A lombriga tá quase saindo pela boca. _ Eu já sei que vou fazer para o Bruno, disse a vovó. _ O que, vovô? _ Vou mandar a Tiana fazer um chazinho de erva-de-santa-maria. Só para ver o tamanho da tal lombriga do Bruno. Amelinha resmunga: _ Lombriga, credo! Que horror! Vovó pelo amor de Deus, esquece o Bruno, eu quero mesmo é saber mais sobre o Sertanópolis! _ Minha netinha, amada netinha! Não havia conforto algum: não havia geladeira, televisão... Rádios eram raríssimos por estas bandas. O transporte era feito em carros de bois, carroças e nos lombos dos burros e dos cavalos. Enquanto a conversa ficava cada vez mais interessante, o inesperado acontece. _ Au... Au... Uau, au _ Miau, miau... Miau... Entre miados e latidos, rosnados e grunhidos a gatinha Filomena e o cachorrinho Zangado interrompe o diálogo. Bruno como sempre, é o juiz de paz. Com muitas dificuldades, consegue colocar cada um no seu canto. Mário, todo resignado: _ Eu ainda acabo pondo esta gata pulguenta e esse cachorrinho sarnento dentro de um saco de estopa... Vou amarrar bem o saco com um nó cego. Depois vou jogar os dois no rio, lá no poço das pedras que é bem fundão. _ Cruz-credo! Disse Amelinha. Menino cruel, pra que tanta maldade? Você não aprendeu no catecismo que é pecado matar os animais? _ Eu sei que é pecado. Só que eu já estou cansado desses dois rabugentos, respondeu Mário. A vovó tenta desviar a conversa: _ Vamos acabar com a discussão. Que tal tomarmos um cafezinho quente com leite, pão e manteiga acompanhados de um docinho de abóbora, que só a Tiana sabe fazer? _ Oba! Todos responderam em coro. 7 Na cozinha. Enquanto saboreavam o delicioso café acompanhado de tudo a que tinham direito, o diálogo prossegue. A vovó dá continuidade à prosa: _ Por falar em café, meus adoráveis netinhos, o café era a nossa principal fonte de riqueza. Foi com o dinheiro do café que construímos este casarão, e tudo que temos até os dias de hoje. Esses morros do Cerne que podem ser vistos da varanda eram todos cobertos pelos cafezais; era a coisa mais linda do mundo ver o cafezal florido, quando chegava o inverno era o tempo da colheita. Milhares de pessoas, entre crianças, mulheres, homens, trabalhavam contentes colhendo os preciosos frutos. Os terreirões ficavam cheios de café secando ao sol! Ah! Que saudades, meus netos! Até parece que estou sentindo aquele cheiro gostoso de café maduro. _ Nossa, vovó! Disse Amelinha. A senhora está chorando!? _ É, minha neta... Chorar faz bem para alma, principalmente quando se chora de saudades das coisas boas do passado. _ Só tinha café naqueles tempos? Perguntou Mário com uma carinha de muita curiosidade. _ É verdade que o café era a principal riqueza, mas não era a única. Naqueles tempos se plantava de tudo: arroz, milho, feijão, fumo; havia muita fartura. Cada sitiante ou fazendeiro tinha o seu pomar, a sua horta; criavam-se muitas galinhas, porcos, patos, perus, vacas... Os terreiros das casas até se pareciam com a arca de Noé, de tantos animais. Amelinha quis ir mais fundo na conversa: _ Vovó, Como era a cidade de Sertanópolis? _ A cidade de Sertanópolis, minha neta. Nessa época ainda não era cidade e sim uma pequena vila... Um amontoado de ranchos de palmitos, tal qual uma aldeia indígena. As ruas eram cheias de troncos de árvores. Em tempos de seca era a poeira que atormentava. Quando chovia, formava-se um lamaçal, mas que tinha cheiro de relva molhada. Depois Sertanópolis foi crescendo... Começaram a surgir às primeiras casas de alvenarias, foram surgindo às serrarias, às máquinas de beneficiar café, de beneficiar arroz, 8 as olarias, as oficinas de fazer carroças: e, aos poucos todo tipo de comércio e indústria que existe até os dias de hoje. Como quem está atento, e interessado na conversa Mário não se contenta, quer saber mais: _ Vovó, nos tempos que Sertanópolis era como uma aldeia de índios, quem é que mandava? _ Nos primeiros anos quando Sertanópolis ainda era distrito, quem comandava era o chefe político, depois com a criação do município, passou a ser governada pelos prefeitos. Afirma-se erradamente que o Sr. Luiz Deliberador foi o Primeiro prefeito de Sertanópolis. Ele foi apenas o primeiro chefe político do distrito e não o primeiro prefeito do município. A vovó Aurora teve que explicar também aos netos a diferença entre distrito e município. Amelinha interrompe as explicações: _ Vovó, quem foram os prefeitos de Sertanópolis? _ Foram muitos, minha neta. De memória só me lembro os nomes de alguns, mas eu tenho anotado numa caderneta tudo que vocês estão querendo saber. Vovó Aurora se levantou da poltrona e vai buscar a tal caderneta onde estavam anotados os nomes de todos os prefeitos. Era uma caderneta velha e amarelada. Colocou os seus óculos e começou a ler para as crianças. Por várias vezes interrompeu a leitura, dando ênfase a determinadas gestões. _ Bem meus netos, a conversa está para lá de interessante, mas a vovó tem que cuidar da vida. Já são cinco horas da tarde, tenho que tomar banho, depois preparar um caldo verde para o jantar. _ Que pena! Exclamou Amelinha. Eu gostaria de saber ainda mais sobre a história de Sertanópolis! _ Amanhã, depois do almoço, eu quero os três aqui na minha casa; então poderemos continuar com a nossa conversa _ ordenou carinhosamente a vovó, passando a mão nos cabelos de Amelinha. Bruno resolveu abrir a boca: _ Vovó. Eu só venho se tiver doce de batata-doce. 9 _ Tudo bem, Bruno, eu vou pedir para Tiana, fazer doce de batata-doce especialmente para você. Os três netinhos se despediram da vovó. Lá se foram cantarolando felizes por entre as árvores do pomar, O sabiá canta na laranjeira, o seu canto dobrado e melancólico. Um bando de rolinhas levanta vôo do chiqueiro dos porcos e pousam serenamente na galhada do timbó. As galinhas cacarejando ao redor dos pintinhos procuram o galinheiro. Era uma tarde, daquelas quentes, que morria com raios dourados ao sol poete. 10 2 À noite ninguém quis contar estrelas. A cantiga do ‘vaga-lume tem tem, teu pai tá aqui e tua mãe também’, não foi entoada pelas crianças. Todos foram dormir cedo... E todos tiveram lindos sonhos. Bruno sonhou que estava numa aldeia de índio, foi tratado como um herói vindo do espaço. Estava rodeado pelos indiozinhos que queriam saber histórias sobre o seu mundo _ Que azar! _ O pobre Bruno só sabia comer, beber e dormir. Nunca havia prestado atenção às histórias contadas pela vovó. Estava perdendo uma grande oportunidade de se tornar um ídolo daqueles pequenos caras-pintadas. Logo foi interrompido por um índio todo imponente. Deveria ser o cacique da tribo: _ Índio vem convida criança pro banquete. _ Comer... Oba! Entretanto, a alegria de Bruno durou pouco ao ver que sobre dois troncos de árvores havia um galho amarrado; nesse galho uma capivara estava sendo assada tal qual havia sido capturada na floresta. Nem mesmo as tripas haviam sido retiradas. Depois de muita dança e muita cantoria chegou à hora sagrada do banquete. Para que se cumprisse à tradição indígena, o primeiro pedaço de carne ainda crua e sem nenhum tempero foi oferecido a Bruno. Bruno não comeu o tal pedaço de carne de capivara, acordou todo embaraçado. Mário sonhou que estava numa pescaria juntamente com alguns de seus amigos de infância. As águas do rio eram tão limpas que se avistavam os cardumes de peixes de todos os tamanhos e variedades; além da farta pescaria, o cenário era deslumbrante. As águas límpidas do rio murmuravam sobre as pedras negras e pontiagudas fazendo um barulho murmurante agradável aos ouvidos. O barranco do rio era revestido por um tapete bem verde, só de samambaias e avencas. Nos troncos das árvores havia muitas orquídeas, todas floridas. Mário e seus amigos foram surpreendidos por um barulho estranho vindo lá dos fundos da floresta. Seria o rosnado de uma onça pintada? Ah! Como Mário desejava ver bem de perto a tal onça pintada. Todos fizeram silêncio e nada mais se ouviu a não ser o barulho do vento tocando e acariciando as folhas das árvores. 11 Mário rolou na cama, já não estava mais sonhando... Estava acordado. Amelinha sonhou que estava no meio de um cafezal cujos frutos maduros tinham um aroma muito agradável. No cafezal havia muitas árvores frutíferas: mangueiras, laranjeiras, abacateiros, jabuticabeiras. O caminho da roça era estreito e ladeado por uma fileira de pés de mandioca. O cafezal era mesmo um conto de fadas: mais se parecia um outro mundo. O tico-tico cantava melancolicamente: _ Cadê teu tio tio... Cadê teu tio tio _ O bem-te-vi respondia na laranjeira: _ Bem-te-vi... Bem-te-vi, te-vi, te-vi... _ Fogo apagou... Fogo apagou _ suplicava na folha seca da palmeira a pomba - rola. Era um dia de sol. Amelinha estava radiante como uma princesa. Que peninha, foi um sonho! Vovó Aurora, que há muito tempo não sonhava, também teve uma noite privilegiada. Sonhou que a família estava reunida numa grandiosa festa: seria a festa dos sessentas anos de moradia no Cerne? Talvez... Incrível! Até os membros da família já falecidos estavam presentes. Como a família havia crescido! Eram tantos os netos, bisnetos e tataranetos!... Todos estavam muito felizes, havia fartura de comidas, bebidas, muitos doces. Que festa maravilhosa! Seu coração palpitava de alegria; a emoção era muito forte!... Ora ria, ora chorava! Estava sendo tratada como se fosse uma rainha: recebeu muitas flores, muitos presentes, mas o que ela mais queria era sentir o calor fraterno dos entes queridos. A festa parecia não ter fim até que um galo solitário cantou no galinheiro. No seu canto matinal fez vovó Aurora acordar. Uma vez acordada passou o resto da noite pensando no sonho. 12 3 Um novo dia amanhece cheio de promessas. Logo cedo, como é normal para quem vivem no campo, naquelas paragens, todos se levantam com o cantar da passarada. Somente Bruno continuou dormindo. Prossegue a rotina de sempre. Primeiramente vem o lavar do rosto na bica d’água. Depois o tradicional café acompanhado de um delicioso pão caseiro. Após o café, Mário e Amelinha preparam o material escolar. Despedem-se do pai e da mãe como mandam os costumes da roça: _ Bença pai. Bença mãe _ Deus te abençoe, meus filhos. E lá se vão eles sorridentes cantarolando, cortando atalho na direção da escola. Era a escola de madeira, de cor amarela bem na beira da estrada. Ao lado havia um lindo jardim com muitos pés de rosas, uma carreira de lírios vermelhos, muitos pés de cravos, hortênsias, margaridas e muitas florzinhas rasteiras multicoloridas que todos chamavam de onze - horas. Bem próximo ao jardim podia-se contar pelo menos uns dez pés de limão-cravo. A professora tinha o nome de Perpétua, apesar da rigidez disciplinar, mesmo assim era muito querida. A aula... Bem... Numa a escola multe – seriada, a professora era uma verdadeira heroína. Mário já estava na terceira série, Amelinha freqüentava a segunda série. Bruno, como tinha apenas seis anos incompleto, ainda não estudava. Amelinha, apesar de ser uma aluna aplicada e estudiosa estava palpitante, tal era a vontade de continuar a conversa com a vovó... Os minutos pareciam horas e as horas demoravam uma eternidade, até que, por fim, a aula terminou. Todos os alunos saíram correndo. Mário e Amelinha saíram voando. Naquele dia almoçaram muito apressadamente, nem mastigavam direito a comida. A mamãe Bernadete chama duramente a atenção dos dois apressadinhos: _ Pra que tanta pressa? Até parece que o mundo vai acabar daqui a cinco minutos! Que horror? Comam devagar, senão a comida nem faz digestão. Amelinha e Mário nem ouviram a bronca da mamãe. Vão logo se livrando dos uniformes escolares. _ Cadê o Bruno? 13 Bruno, que já havia almoçado há mais de uma hora, estava só lá nos fundos do chiqueiro dos porcos, maldosamente cortando com o canivete os rabinhos dos leitões recém-nascidos. Filhotes da porca pintada. _ Bruno! Bruno! Eram os gritos ressonantes de Amelinha que podiam ser ouvidos a centenas de metros de distância. Só Bruno fingia não estar ouvindo. _ Bruno, onde está você? Responda por favor! Não estou com brincadeira, ralhou Mário. Em altos brados. _ Tô aqui, tô aqui, indignadamente respondeu Bruno. _ Vem logo! Você tem que ir conosco na casa da vovó! Gritou mais uma vez Mário. _ Já tô indo. Demorou ainda o tempo suficiente para terminar o serviço que havia começado, ou seja, deixar toda a ninhada de leitões rabicós, mesmo lutando contra a fúria da mãe porca pintada. Era aproximadamente uma hora da tarde. Fazia muito calor. As três crianças nem se despediram da mãe Bernadete. Logo já estavam subindo as escadarias do casarão da vovó. Em coro todos exclamaram na mesma tonalidade de voz as mesmas palavras: _ Bença, vovó. _ Deus vos abençoe, meus netos. Vão indo lá para a varanda, aqui na cozinha está muito quente. Só vou dar umas ordens para a Tiana e logo estarei com vocês. _ Tudo bem, respondeu Amelinha. Quando a vovó chegou à varanda todos já estavam reunidos. Nem mesmo Filomena e Zangado haviam se esquecido do compromisso daquela tarde. A varanda ficava para o lado do sol nascente. Na parte da tarde fazia uma sombra muito agradável. O vento que soprava trazia um cheiro gostoso das árvores. Em volta do casarão havia um verdadeiro bosque, com muitas figueiras do mato, paineiras, mangueiras, abacateiros... A visão que se podia ter da varanda era muito rica. No sentido norte ficava a várzea, já com o terreno pronto para o plantio do arroz, nos fundos da várzea corria manso o Ribeirão do Cerne. Do outro lado do Ribeirão ficava o Morro do Gabriel e na sequência verdeja radiante a Mata do Marcelino. 14 No lado leste a paisagem era formada pelo terreirão de café, a velha tulha de madeira, com seu imponente pontilhão e na seqüência a colônia dos empregados, com suas casas velhas desabitadas: numa visão mais distante, quase se perdendo na linha do horizonte podia se ver a cidade de Sertanópolis que se espalhava na planície do vale do Rio Tibagi. Para o sentido sul avistava-se o curral dos animais, um pasto bem gramado com dezenas de pés de coqueiros que ainda restavam dos tempos da floresta primitiva. O pasto era cortado, no sentido leste-oeste pela estrada que liga as cidades de Sertanópolis a Bela Vista do Paraíso. Atravessando a estrada, segue o caminho estreito da roça, cheio de curvas pelas encostas dos morros, ladeados por muitas árvores frutíferas. No Sentido oeste a visão era tomada pelo casarão, pode se dizer que do outro lado nas escadarias de acesso à cozinha, avista-se vários morros e lá no espigão reina imponente a cidade de Bela Vista do Paraíso. _ Pelo que parece todos estão bem animados, perguntou a vovó. _ Sim. _ Respondeu Amelinha muito inquieta e curiosa. _ Hoje eu vou tomar um porre de sabedoria sobre a história de Sertanópolis. _ Vocês não acham esse tipo de conversa muito chata? _ Não! _ Amelinha e Mário responderam ao mesmo tempo. Somente Bruno ficou calado. _ E você Bruno, não responde nada? _ Ah, vovó. Conversa dá sono, eu só vim porque eu quero comer doce de batata-doce. Na hora do café, se eu estiver dormindo a senhora me acorda. Tá? _ Tudo bem, Bruno. Faça o que você quiser. Prometo do fundo do meu coração que você vai ter uma surpresa e de arregalar os olhos. _ Amelinha e Mário se aproximam ainda mais da poltrona da vovó. Amelinha vai logo perguntando uma coisa que estava atravessada na sua garganta: _ Vovó, se não tem mais as lavouras de café por que o terreirão e a tulha ainda não foram demolidos? _ O terreirão e a tulha meus netos... Enquanto eu for viva ninguém vai demolir. Mesmo não tendo nenhuma serventia nos dias de hoje, ainda são as melhores recordações que guardo do passado. 15 Esse terreirão e essa tulha têm muita história para se contar. Daria para se escrever um livro. Passaram por eles milhares de sacas de café. Sabe-se lá em que continente foram parar. _ Por que nos dias de hoje não tem mais as lavoras de café? Perguntou Mário. _ Foram muitos os fatores: as supersafras provocavam a baixa dos preços. Produzia-se muito café no Brasil nessa época. A cidade de Londrina era considerada a capital mundial do café. Além dos preços instáveis, o café produzido na região era de péssima qualidade. Não se tinha o devido cuidado durante a colheita. O governo federal mandava queimar os estoques excedentes. Pior ainda, os grãos era quase todos perfurados pela broca, fazendo com que os grãos perdessem, não só no peso como também na qualidade. As geadas seguidas também contribuíram muito para a erradicação do café e o governo teve também sua parcela de culpa, pois não dava apoio aos pequenos proprietários de terras... A menina dos olhos dos governantes era a soja que já se afirmava como sucessora da cafeicultora. _ Vovó, a senhora falou em erradicação da lavoura de café. Eu não entendi direito. Queria que a senhora explicasse melhor, falou Mário. _ Erradicação... Bem... Como Explicar? Foi o fim da lavoura do café. Os pés de cafés foram arrancados por tratores ou cortados por machados. Toda a paisagem se modificou. Nos morros onde reinavam os cafezais plantou-se o capim. Nos lugares planos as terras foram mecanizadas, surgiram às lavouras de soja e trigo. _ Nos tempos dos cafezais _ continuou a vovó _ muita gente trabalhava na lavoura. Todo o serviço era braçal e a enxada era a principal ferramenta de trabalho. As famílias eram numerosas. Dava-se a preferência as que tinham mais enxadas no eito. As mãos dos lavradores eram grossas de calos de tanto puxar o cabo da enxada.. Trabalhava-se do amanhecer até o anoitecer. Em cada propriedade havia a colônia dos empregados; ganhavase pouco, mas havia muita fartura. Ninguém comprava gás, pois a comida era feita no fogão de lenha. A luz era da lamparina ou do lampião a querosenes. A água apanhava-se na bica ou diretamente na mina. Os filhos dos patrões e os filhos dos empregados eram todos iguais, brincavam com os mesmos brinquedos, improvisados a moda da rosa, nada era comprado. Uma bola de meia já fazia a alegria da garotada. Jogava-se também a bugalha e o jogo de felipe de café. Todo moleque tinha um estilingue no pescoço. Nisso eu sempre fui 16 contra, pois matavam sem piedade os pobres passarinhos. Nadar no rio era a principal aventura e sem falar no pavor das mães. À noite as brincadeiras de roda eram superdivertidas, até os adultos participavam. Quando não brincavam, as crianças se reuniam ao lado dos tios em frente às casas, sentados em bancos de madeiras ou no chão, ouviam lindas histórias dos tempos do sertão. Na roça tudo terminava em festa: festa para se comemorar o fim da colheita, casamentos, batizados... Festa na capela do bairro. Como eram lindas e concorridas as festas de São Sebastião. A capelinha ficava cheia de gente!... Vinha gente de muito longe, a pé, a cavalo. Muitas rezas. Leilões, sem falar nas procissões dos devotos. Quantos bailes se dançavam nas tulhas de café, ou nos terreirões! Havia apenas um sanfoneiro no meio da barraca e o povo arrastava o pé a noite inteira. Quando chegava o mês de junho era o tempo das festas juninas: Santo Antônio, São João e São Pedro. Rezava-se o terço, levantava-se a bandeira do santo sobre um mastro e no calor da fogueira, velhos e crianças, todos se divertiam animadamente enquanto conversavam ou contavam causos. Soltavam muitos fogos de artifício. O bom mesmo eram os bolos de fubá, o quentão, a pipoca, o pé-de-moleque, o chocolate, a rosca! Como se comia e bebia naquelas noites frias de inverno! No fim do ano era a festa de Natal! As famílias se divertiam muito. Todos reunidos realizavam um verdadeiro banquete! Muita comida: frango e leitoa assados, macarronada, vinho, refrigerantes, castanha portuguesa, nozes, avelãs, passas de uvas e de figos. O dia de natal era a maior festa do ano. A festança continuava no dia de ano-novo. O ano começava em festa e terminava também em festa. Com o fim da lavoura de café tudo isso acabou. O terreirão e a tulha são o que ainda restam desse tempo que parece que foi um sonho. Bruno dormia encaracolado na rede. _ Xi, como esse moleque ronca! Parece um porco, criticou Mário. _ Deixe o Bruno em paz, ralhou à vovó. 17 Debaixo do banco de madeira, Filomena e Zangado também tiravam uma pestana. De vez em quando, Zangado sacudia as orelhas com fúria: deviam ser as malditas pulgas que o atormentava, até mesmo quando estava dormindo. Amelinha, muito emocionada com o saudosismo da vovó, tenta retomar o diálogo. Entretanto sua voz ficou bloqueada, ao perceber que os olhos da vovó estavam merejados lágrimas. Apesar da idade, vovó Aurora ainda era muito conservada. Seus cabelos de nuance prateada, davam-lhe uma feição deslumbrante, de uma beleza rara, com uma pele sem rugas e sedosa. Amelinha conseguiu controlar a emoção. Com um lencinho branco enxuga as lágrimas da vovó. Em seguida dá um beijo gostoso naquela face encantadora. _ Vovó, eu adora a senhora. A senhora é a pessoa a quem eu mais quero bem no mundo. Mário também se aproxima ainda mais da vovó, ficam os três abraçados silenciosamente, contemplando a natureza. Lá fora, bem próximas da varanda, as guaches faziam os seus ninhos nos pés de coqueiros, cujas folhas verdes dançavam ao leve toque do vento. Como era belo ver aqueles pássaros de tamanho médio, multicoloridos tecendo os ninhos com o bico artesanalmente! Até pareciam sacolas penduradas nas folhas das palmeiras. Ficariam os três ali na varanda calados e abraçados por horas e horas sem fim. Mas o silencio foi interrompido. A boa e estimada negra Tiana entra na varanda toda sorridente: _ Uai, pessoal. Parece que tá havendo um velório por aqui. Ninguém conversa... Ninguém ri... Xi!... Tava até pensando lá na cozinha que o povo daqui tava dormindo. Então resolvi dar uma espiada e aproveitá pra dizer que o café loguinho fica pronto. Vê se anima gente. Cara de tristeza não paga dívida. _ Tudo bem Tiana, respondeu a vovó Aurora laconicamente. _ Já tô de volta para a cozinha, D. Aurora. Com o banzé da negra, Bruno, Zangado e Filomena acordaram. A barriga do Bruno estava roncando. Num piscar de olho, sem que houvesse tempo para uma retomada no diálogo, a negra Tiana está de volta à varanda e vai logo esparramando seu vozerio. 18 D. Aurora! D. Aurora! O café tá pronto, tá do jeitinho que as crianças adoram! Fiz até uma torradinha pra “vance”... Venham logo, se não o chocolate fica frio. _ Tudo bem, Tiana. Se for para comer então vamos. Todos seguiram Tiana. Zangado e Filomena também foram atrás. Sempre acaba sobrando alguma coisa apetitosa para os gatos e cachorros. A mesa da vovó sempre foi farta, mas nesse dia Tiana caprichou até demais: pão, manteiga, torrada, presunto, queijo, lingüiças de porco, curadas a capricho no varal estendido sobre a fumaça do fogão a lenha, uma delicia, como se fossem salames. Para completar a mesa: fatias de melão, de melancia, café, chocolate com leite. E para a alegria do Bruno, o tão desejado doce de batata-doce. Todos comeram com muito apetite. Só Bruno passou dos limites. Comeu tanto, mas tanto, que ficou com uma dor terrível na barriga. Só não foi parar no hospital de Sertanópolis graças ao milagroso chazinho de losna que Tiana teve que fazer as pressas. _ Tá melhor, Bruninho? Perguntou Tiana. Bruno com seu olhar de moleque malandro, encarou a negra e respondeu: _ Credo! Só não gostei do amargo da losna! O resto tava uma delícia! Já tô com vontade de comer novamente. _ Chega de falar em comer, só pensa nisso. Esse moleque parece um saco sem fundo, ralhou Amelinha. A conversa ainda continuou por mais de meia hora. O assunto, como não poderia deixar de ser, continuou sendo sobre a dor de barriga do Bruno. Depois do susto vem à risada, e todos deram boas gargalhadas. Só Bruno não achava graça alguma em toda aquela algazarra. De volta para casa dos pais, as crianças ainda pararam debaixo de uma goiabeira. É que no galho mais alto da árvore avistava-se uma linda goiaba madura. Mário não resistiu à tentação. Com muita habilidade _ como se fosse um macaco _ foi subindo, subindo... Só não conseguiu apanhar a fruta porque num dos galhos ao lado havia uma caixa de marimbondos. Se tentasse seguir os impulsos, seria fatalmente picado pelas vespas venenosas. O remédio foi descer totalmente frustrado... 19 _ Esses marimbondos me pagam. Amanhã vou derrubar a caixa deles com uma pedrada de estilingue e depois a goiaba irá parar no meu bucho. Ah, isso vai acontecer mesmo, senão eu troco de nome. Podem me chamar de Perna Torta ou de Maria Fedida. Amelinha tem pressa: _ Vamos logo para casa, tá ficando tarde. Mário e Bruno ainda continuam olhando para a goiaba madura. Um sanhaço pousa bem ao lado da fruta. Os marimbondos permanecem totalmente alheios, dando uma prova de que existe equilíbrio, harmonia e muita paz na natureza. O sanhaço bica com apetite o delicioso fruto. Depois de ter comido parte da goiaba, o pequeno pássaro agradece ao Deus Supremo com seu maravilhoso canto... E como canta bonito esse passarinho que tem a cor do céu. 20 4 Sábado na roça é um dia especial. Mário acordou cedo, da maneira como é acostumado acordar todos os dias. Apesar de ter dormido bem, não acordou tranqüilo. Há qualquer coisa mal resolvida em sua mente infantil. Deveres escolares?... Não! Aos sábados não há aula e naquele dia também não havia tarefa. Enquanto rola na cama, tenta descobrir a razão daquele tormento. Devem ser seis horas da manhã. Tal conclusão vem de uma restinga remanescente de floresta, bem ali pertinho da casa, onde centenas de pássaros fazem o gorjeio matinal. Não sabe quando e nem de quem ouviu dizer que os pássaros começam a cantar às seis horas da manhã, verdade ou não, tal afirmativa fica por conta do dito popular. Enquanto contempla o telhado negro cheio de picumã das lamparinas de querosene, ouve nitidamente o murmurar sonoro e contínuo da bica d’água... Um porco aflito grita desesperadamente no chiqueiro. Deve estar entalado... Também esses porcos não podem ver uma fresta na cerca que mal cabe o focinho e já tentam fugir... Será tão difícil assim a vida de porco no chiqueiro? O porco parou de gritar. Deve ter sido desentalado pelo tio Manuel ou se desentalou sozinho. No brejo a saracura três-potes começa a cantar. Como pode um pássaro magrelo de pernas compridas cantar tão alto? _ “Quebrei três potes... Quebrei três potes”... Que tipo de canto mais engraçado! Quando a saracura canta é sinal de chuva. Essa profecia Mário aprendeu com o tio Américo... Então vamos ter um sábado e um domingo chuvoso. _ Era um turbilhão de pensamento que lhe passava pela cabeça. Lá da cozinha vinha um cheiro gostoso de café quentinho. O pai dava conta de sua primeira tarefa matinal. _ Ah! Lembrei-me do que eu vou fazer hoje, _ pensou Mário quase que em voz alta, ainda na cama. _ Hoje eu vou derrubar a caixa de marimbondos lá da goiabeira. _ Bruno, Bruno, acorda! _ Me deixa dormir resmungou Bruno. Mário não desiste. Levanta-se a vai até a cama de Bruno: _ Você vai ou não vai comigo derrubar a caixa dos marimbondos? _ Vô sim, espera eu dar uma espreguiçada para espantar o sono. 21 _ Levanta logo que eu já tô indo. Mal tomaram o café, Mário apanhou o estilingue que estava pendurado num prego atrás da janela do quarto, procurou pela mucuta de pano, encontrou-a no balaio das roupas sujas. Uma vez munido do que procurava, juntou-se ao irmão e saíram à procura das pedras. Pularam a cerca de pau a pique do chiqueiro dos porcos e foram até o riozinho. Escolheram dezenas de pedrinhas, como se fossem bolas de gude e foram até a goiabeira: _ Cuidado Mário. Vê se acerta na primeira pedrada. Ouvi dizer que os marimbondos quando são agredidos ficam furiosos. _ Deixa comigo. Vou mostrar para esses marimbondos toda a minha pontaria. Mário procurou uma posição apropriada depois de estudar bem o local. Ordenou a Bruno que ficasse bem escondido debaixo de um arbusto ao lado da goiabeira. Mirou bem a pontaria e mandou para os ares uma pedrada certeira. Só se ouviu um barulho oco “pufe”... Era uma vez uma caixa de marimbondo no galho da goiabeira. Veio ao chão espatifando-se em dezenas de pequenos pedaços. Mário Correu rapidamente para debaixo do arbusto onde já se encontrava Bruno. As vespas, aos milhares, zuniam furiosas voando de um lado para outro, a procura dos malfeitores. _ Vamos ficar de bico calado, senão estamos frito _ Cochichou Mário nos ouvidos de Bruno. _ Dizem que os marimbondos fazem mel... Vou tomar um porre _ falou baixinho Bruno. Passara um quarto de hora e tudo em volta estava calmo. _ Vamos esperar mais um pouco, disse Mário. _ Chega de tanto esperar. Se você não é homem eu sou. Parece que tá borrando as calças de medo desses marimbondinhos. Qual foi a surpresa de Bruno. Havia mel nos pedaços da caixa dos marimbondos, como se fossem gotas de orvalho... Quando Bruno pegou uma parte da caixa em suas mãos e já ia levando-a na boca... Centenas de marimbondos saíram dos destroços... Pobre Bruno!... Coitado do Bruno!... _ Foge, Bruno! Foge Bruno! _ gritava Mário com pena do irmão. 22 _ Ai! Ai! Ui! Ai! Ui! Filhos da... de marimbondos! Vão picar a mãe, seus lazarentos! Bruno foi nocauteado pelas vespas. Seu corpo ficou parecendo uma bola de tão inchado. As vespas foram tão cruéis com Bruno que não pouparam nem mesmo o pipi: ficou parecendo uma bola. Bruno gemeu e chorou o dia inteiro. Teve que tomar remédio para abaixar a febre e tirar a dor. A lição dos marimbondos valeu-lhe para o resto da vida. 23 5 Ao findar daquele mal fadado dia de sábado, principalmente para Bruno, os últimos raios de sol foram ofuscados pela bruma da noite que se despedira sem o crepúsculo avermelhado. É que para o lado dos morros de Bela Vista do Paraíso, se elevaram no horizonte, nuvens negras, fazendo anoitecer em poucos minutos. Todo o vale do Cerne foi fustigado por um terrível vendaval. O vento que soprava a mais de cem quilômetros por hora vinha furiosamente quebrando os galhos das árvores, destelhando as casas, derrubando quase tudo que encontrava pela frente. Até parecia o fim do mundo. Mário, Bruno e Amelinha, amedrontados, buscaram proteção debaixo da mesa da cozinha, enquanto os pais acendiam velas, queimavam ramos bentos e rezavam para Santa Bárbara. Os relâmpagos eram tantos que clareavam a casa por inteiro a cada segundo. Os trovões retumbavam nas quebradas dos morros, fazendo tremer o assoalho da casa. Aos poucos a fúria do vento foi amainando e a chuva era tão forte que mais parecia uma cascata d’água despencando das nuvens agredindo tudo o que havia na terra. Choveu torrencialmente a noite inteira. Os rios transbordaram. Muitas pontes rodaram. Parte do arrozal da várzea foi destruída. A Saracura três-potes estava certa, o brejo onde ela havia cantado amanheceu coberto de água, como se fosse um lago. Aquele dia de domingo não foi um dia de descanso e sim de trabalho redobrado. Os homens passaram o dia concertando a cerca do chiqueiro dos porcos, a parte que havia sido arrastada pela cheia do riozinho, retocando os telhados das casas e desentulhando a lama da estrada de acesso as casas. As mulheres também não ficaram de braços cruzados, ocuparam-se com a limpeza das casas. As notícias que vinham pelos rádios, tocados à pilha, davam conta de que fora a pior tempestade do século. As cidades da região ficaram certo tempo sem energia elétrica. Os 24 prejuízos nas lavouras foram incalculáveis. As terras férteis de Sertanópolis foram devastadas pela erosão e foi à erosão o assunto principal da primeira aula após a tempestade. A princípio a mestra falou do significado da palavra: depois passou da teoria a prática levando os alunos a conhecer os estragos que as enxurradas fizeram nas terras aradas ao redor da escola. Aproveitando o gancho, a professora foi além com o assunto: _ As enxurradas arrastam as terras férteis para os rios. Os rios de Sertanópolis vão desaguar no Oceano Atlântico lá na Argentina... _ O que? As terras de Sertanópolis estão indo parar na Argentina, perguntou Amelinha todo indignada. _ As terras são nossas e não dos argentinos! _ Não é bem assim, respondeu a professora. Parte das nossas terras fica depositada nas margens dos rios, outra parte fica nos fundos das represas e uma menor quantidade segue pelos rios a baixo, sabe-se lá onde vão ficar depositadas. A professora aprofunda-se ainda mais nas explicações: _ O pior é que as nossas terras estão ficando cada vez mais fracas e improdutivas. Podem ser recuperadas com adubo, mas isso encarece muito. O certo mesmo é combater a erosão. _ Como combater a erosão? Perguntou Amelinha. _ Bem, Isso já é um assunto mais delicado. Acho melhor trazer um agrônomo de Sertanópolis para dar uma palestra não só para vocês, como também para todos os agricultores do bairro. Por unanimidade os alunos aprovaram a idéia da mestra. _ Assim que as estradas e as pontes forem concertadas, vou pedir para o Sr. Valdemar que é agrônomo da Cooperativa. Com certeza ele irá aceitar o meu pedido. Vamos reunir centenas de pessoas aqui na escola para ouvir e aprender tudo sobre erosão, concluiu a mestra. Nunca uma aula foi tão interessante e produtiva. Mário e Amelinha voltaram para casa sem nenhuma pressa. Pararam várias vezes no caminho para avaliar o estrago da erosão. _ Isso não pode continuar acontecendo, disse Amelinha. 25 _ É bom que esse tal de Agrônomo venha logo ensinar o papai a combater a erosão, falou Mário, um tanto pensativo e triste. 26 6 Passara-se certo tempo. As estradas e as principais pontes foram concertadas, só ficou o rastro da tempestade marcado pelos quatro cantos do bairro, principalmente nas terras mecanizadas. Foi numa manhã de domingo que o povo da querência, a convite da professora, se reuniu diante da escola. Podia se contar entre alunos, pais de alunos e convidados, umas duzentas pessoas. Pontualmente, às nove horas, Sr.Valdemar chegou todo suado dirigindo seu fusquinha 69 de cor verde, a cor do veículo não era por acaso, o proprietário era defensor do meio ambiente. O agrônomo foi saindo do carro limpando o suor da testa com um lenço branco, apertando a mão da professora e das pessoas mais próximas. Passando pela multidão chegou ao palanque improvisado pelos pais de alunos. Já no palanque, cumprimenta a todos com um sonoro bom dia e um sorriso discreto. Sem fazer rodeios e sem contar milongas vai logo justificando a razão de sua presença. _ Foi para falar sobre erosão que fui convidado pela professora Perpétua... Pois Bem. O que é a erosão? Posso dizer, com palavras simples, que a erosão é uma das piores desgraças do século XX. Por isso, é preciso acabar com a erosão antes que ela acabe com as terras de Sertanópolis. A erosão é um grande mal que deve ser combatido por todos os agricultores. São os homens os únicos culpados pela erosão. Nos tempos das florestas as águas dos rios eram límpidas e cristalinas e as nossas terras eram sem dúvida, a melhores terras do Brasil. Com o advento do café as florestas foram derrubadas. Os cafezais foram plantados nos lugares mais altos e o capim para o gado nas baixadas e a conservação do nosso solo foi em parte preservada por algumas décadas. Com a erradicação do café, aconteceu o contrário, nos morros onde verdejavam as lavouras cafeeiras se plantou capim e onde reinava o capim as terras foram mecanizadas, surgindo assim uma nova era na agricultura sertanopolense e brasileira, a soja passou a ser a principal riqueza do Brasil. 27 A mecanização de nossas terras não atende os padrões tecnológicos, não pode ainda ser comparada com a dos paises mais adiantados. O homem pode mudar a natureza, mas quando esta é agredida vem logo as reposta. Não, a natureza não é vingativa. A natureza não tem culpa pelo desmatamento agressivo provocado pela ambição humana. A natureza não é responsável se o homem tudo tira dela e nada dá em troca. Não é só arar as terras, plantar sementes selecionadas, combater as pragas e as ervas daninhas com inseticidas e herbicidas, sem ter a devida atenção com a conservação do solo. Sabe-se que até o presente momento, em nossa região, ainda não foi declarada guerra à erosão. Os agricultores não tomaram consciência do mal que ela representa. A terra quanto mais mecanizada, mais indefesa se torna. Abaixo de sua camada fofa, ela fica compactada pelo processo continuo da mecanização. A compactação do solo faz com que ele fique impermeável às águas das chuvas. Não havendo infiltração acontecem as enxurradas e, consequentemente a destruição do solo provocando inundações nos rios. Vamos combater a erosão. Para que isso aconteça serão necessárias grandes mudanças quanto ao hábito de se trabalhar a terra, a começar pela descompactação do solo, construir as curvas de nível nos terrenos inclinados, reflorestar as margens dos rios e os morros e por que não o plantio direto que já é tão praticado nos paises desenvolvidos? Quando os agricultores tomarem consciência do que estou falando e colocarem em prática as regras que estou ditando, tenho absoluta certeza de que uma nova era vai reinar no campo! Com essas palavras provocativas seu Valdemar encerrou a palestra. A conversa ainda prossegue. O agrônomo teve que responder muitas perguntas feitas pelos agricultores. Vovó Aurora e sua fiel companheira também se faziam presente naquela reunião. _ Puxa, como esse homem fala! Resmungou Tiana. _ É Tiana. Nos bons tempos do meu marido José, tudo era diferente. Hoje as coisas mudaram muito. _ Xi! Dona Aurora, não acredito nessa baboseira não! O pobre ‘agricurtô’ já nasceu sem sorte. O coitado dá um passo pra frente já escorrega does pra “trais’. É que nem boi no atoleiro: quanto mais luta para desatolar, mais as patas afundam na lama. Isso não tem mais concerto não “muié’. Essa história de palavras bonitas não resolve nada. 28 A senhora patroa, mesmo não concordando com o discurso da companheira, deu uma risadinha forçada e disse: _ Está bem Tiana! Vamos procurar o caminho da casa que já são horas de se fazer o almoço. Toda a multidão se dispersou pelos mais diferentes caminhos do bairro. Cada um levou consigo novos planos para o futuro. Os mais entusiastas voltaram as casa sonhando acordado com uma magnífica revolução no campo. 29 7 O mês de dezembro bastante chuvoso anunciava a chegada do natal que prometia inesperados acontecimentos. As lavouras de milho, arroz e soja, o que restou do temporal, havia se recuperado com tamanha facilidade. Tudo que se podia avistar no horizonte mais se parecia com um tapete verde. O sorriso havia retornado aos semblantes dos agricultores. No casarão da vovó a ausência dos netos já era notória e reclamada. _ O que poderia estar acontecendo com aqueles danadinhos? Pensava Tiana. _ Estariam doentes? Não! _ É que o mês de dezembro as obrigações escolares, durante há primeira quinzena, ocuparam o tempo ocioso das crianças. As provas do quarto bimestre, os exames finais... Mário e Amelinha tiveram que estudar muito, mas os esforços não foram em vão, obtiveram as melhores notas da escola. O início das férias não podia ser melhor com a notícia da chegada do tio Carlito. Tio Carlito, para que todos saibam, além de ser o caçula da família, foi o único a conquistar um diploma universitário... Médico, sim senhor!... E dos bons. Para a infelicidade dos sertanopolenses, tio Carlito escolheu a cidade de Curitiba para exercer a sua profissão e por lá fez nome, fama e muita riqueza. Casou-se e criou seus filhos. A distância que o separava do Cerne fez com que ele se tornasse uma criatura muito querida e carismática. Era o senhor dos senhores para os adultos e o príncipe encantado da criançada. A presença dele no sítio, quase sempre acompanhado pela esposa e raramente pelos filhos, já era sinônima de alegria, de pescarias fantásticas! Caçadas imperdíveis! Passeios mirabolantes! Um contador histórias que fazia os sobrinhos arregalarem os olhos de tanta curiosidade. Tio Carlito era um verdadeiro artista, um palhaço e sem contar as inúmeras safadezas que fazia com as crianças. Sempre estava aprontando algumas de seu variado repertório. Como por exemplo: colocar paina nos narizes melequentos das crianças, ou então abaixar os calções de elásticos dos sobrinhos deixando-os com o pipi tomando vento, enquanto a vítima puxava rapidamente o calção, a galera caia na raizada. 30 O casarão ficava em festa com a presença do tio Carlito. As visitas não paravam de chegar: vinha gente de todos os lugares para apertar as mãos do filho mais ilustre do Cerne. Uns vinham para matar saudades antigas, outros para fazer algumas consultas. Nem mesmo em férias aquela criatura tinha descanso. Convivia maravilhosamente bem com todos, sem causar frustrações a ninguém. Os que mais se beneficiavam do tempo livre do tio eram os sobrinhos. Eram eles o “xodó” do tio coruja. Para Amelinha trouxe de presente uma coleção do dicionário Aurélio encadernado e ilustrado. Para Mário trouxe dois livros de Monteiro Lobato; Viagem ao Céu e o Sítio do Pica-pau Amarelo; para Bruno, que ainda não estudava, o presente foi um par de botinas. No primeiro contato que teve com os sobrinhos, além de distribuírem os presentes sem perda de tempo, já traçaram o roteiro da primeira aventura. Sim... Um passeio na mata do Marcelino que ficava na seqüência do Morro do Gabriel. A mata era a maior reserva florestal da região: um verdadeiro paraíso ecológico! Muitas aves de todos os tamanhos e cores, algumas de canto maravilhoso. Muitas espécies de animais selvagens, sem contar com uma flora quase que intocável. Em parte livre das mãos devastadoras dos homens. Tal era a ansiedade de Mário, Bruno e Amelinha que naquela noite o sono custou-lhes a chegar. Pensava Amelinha: _ ‘Até que em fim vou conhecer uma mata quase primitiva. Ah! Quero colher avencas, samambaias, orquídeas e mil flores silvestres. Quero sentir o perfume de todas as flores do mato, comer frutos da selva, beber água na fonte e, se possível quero descansar e até dormir sobre as sombras das árvores centenárias. Os pensamentos de Mário também iam além da imaginação: ver com os próprios olhos uma floresta, quase como a dos tempos dos pioneiros. Sabia que não ia encontrar nem índios e nem onças pintadas, certamente iria encontrar centenas de outros animais remanescentes. Não via a hora de se embrenhar como um bandeirante por entre aquelas árvores seculares, que somente eram vistas a distância. E agora havia chegado o momento de desvendar todos os mistérios e segredos que o criador do Universo ainda reservava para o seu deleite. Bem ali tão perto de seus olhos e tão desconhecido dos seus pés ainda tenros de meninos. 31 Bruno estava angustiado, ficar fora do passeio não estava nos seus planos, mas à distância, os mosquitos, os espinhos, o sol quente, o medo de passar fome e sede, o medo de se perder na selva e principalmente o medo dos marimbondos que habitavam na floresta... Por outro lado seria uma ótima oportunidade de estrear as botinas novas. Rolava na cama. Ora pensava em ir ao passeio, ora achava melhor não ir e assim tão cheio de dúvidas ficou até que o sono tardio o levou para uma outra viagem... A viagem dos sonhos e os sonhos não foram de anjos e nem de espíritos malvados, apenas sonhos de uma criança na flor da idade. O dia amanheceu cheio de raios dourados e os pássaros fizeram mais um gorjeio matinal, daqueles que só quem mora no campo pode apreciar o quanto são belas as dádivas na natureza. 32 8 Foram horas de expectativa. Para ser preciso, uma manhã inteira fora gasta nos preparativos do passeio. Tio Carlito, com sua eterna mania de fazer tudo certo, nada podia falhar. Nada devia ser feito sem o cumprimento das metas previstas. Levar uma vasilha com água não era preciso, pois tio Carlito conhecia a palmo toda aquela região. Sabia das dezenas de minas d’água que borbulhavam naturalmente em cada grotão: levar o que comer também não era tão importante: por aqueles morros abandonadas havia muitos pés de frutas, desde os tempos dos cafezais. Se a fome apertasse, não seria difícil encontrar, naquela época do ano, mangas, goiabas, mamãos, bananas... Mesmo assim, cada um arrumou o seu lanche, ou seja, um sanduíche de pão caseiro com lingüiça de porco. Depois do almoço, ao meio dia pontualmente, todos já estavam de prontidão na varanda aguardando a hora da partida. Tiana, por ordem da vovó Aurora, reforça o lanche dos aventureiros com uma vasilha de plástico cheia de doces caseiros. Pelo cheirinho já se sabia que estavam uma delícia. Tio Carlito, pela última vez, confere se tudo estava em ordem, reparou se as crianças estavam usando sapatos de couro e roupas adequadas para enfrentarem os espinhos. Deu um sorriso ao ver que Bruno estreava a botina nova. Colocou o facão na cintura, a cartucheira no ombro esquerdo e o embornal com os lanches no outro ombro. Ordenou que as crianças passassem repelente no corpo para afugentar os mosquitos e os pernilongos, fez o mesmo no seu corpo. _ Vamos, falou o comandante com um belo sorriso animador. Era a ordem que todos aguardavam com muita ansiedade. Os quatro aventureiros se despediram da vovó Aurora, logo atrás, sem ser convidado zangado formava o quinto elemento. Um passeio na floresta à companhia de um cão nunca pode ser rejeita, pois a floresta sempre guarda mistérios imprevisíveis. Desceram pelo pasto abaixo na direção do Ribeirão do Cerne. Chegando às margens do Ribeirão, tio Carlito parou para observar um pé de gabiroba do mato que ele mesmo viu nascer e mesmo distante acompanhou seu crescimento, de ano 33 em ano, a cada período de férias. Já era uma árvore adulta, de porte médio, de galhos retorcidos, que guardavam como lembrança, amontoados de ciscos, marcas da última cheia do ribeirão. Para sua alegria a árvore estava carregada de frutinhas amarelas já maduras. Não resistiu ao convite e, com um pulo, apanhou um de seus galhos que gentilmente cedeu sem ser preciso fazer nenhuma força, como se a árvore quisesse saudar aquela criatura tão amante da natureza! Apanhou várias frutas, encheu os bolsos da camisa e das calças, repartiu com as crianças, deu um adeus à árvore amiga e partiram. Logo atravessaram uma cerca de arame farpado, na divisa do sítio e seguiram a caminhada na margem direita do rio, rumo leste. Aos poucos o casarão foi ficando cada vez mais distante. Lá bem na curva do rio onde as árvores formavam um verdadeiro bosque, era o local da travessia, havia naquelas paragens sombrias uma pinguela que há muito tempo, uma das cheias levou-a por água abaixo. Como o caminho se encontrava abandonado, não foi preciso improvisar uma outra no local. Atravessar o rio não foi difícil, havia ali uma corredeira cheia de pedras. Todos tiram os sapatos, arregaçaram as calças até os joelhos e, num piscar de olhos, já estavam na outra margem. Zangado demorou um pouca mais. O danado resolveu tomar alguns goles daquela água barrenta. Do outro lado a primeira tarefa era subir um barranco de aproximadamente três metros de altura. Logo além do barranco surge o primeiro imprevisto. Zangado, mesmo sendo o último a atravessar o rio foi o primeiro a subir o barranco. Tão logo venceu obstáculo começou a rosnar de uma forma muito estranha. Tio Carlito veio atrás, tomado de espanto viu o cachorrinho todo arrepiado, já hipnotizado por uma enorme cobra urutu cruzeiro, já preparado para dar o bote fatal no Zangado. Acenou para que as crianças não subissem o barranco. Mal teve tempo para tirar a cartucheira do ombro e já disparou um tiro certeiro. A enorme cobra morreu no local. As crianças queriam voltar dali mesmo. Dizem que o veneno dessa cobra é mortal. Zangado foi salvo por um milagre. Com um pedaço de pau seco, tio Carlito tirou a cobra do caminho e jogou-a em meio ao capinzal. Uma vez superado o primeiro obstáculo, os aventureiros seguem cautelosos por um trilho totalmente abandonado, onde o capim tomava conta de tudo. Tio Carlito ia à frente fazendo uso do facão, logo atrás vinham às crianças e por último o zangado já recuperado do susto. Outra cobra era tudo que ninguém desejava encontrar. 34 Assim que se livraram do capinzal tiveram a grata surpresa de avistar, a menos de cinqüenta metros de distância as ruínas de algumas casas abandonadas, ao lado um velho pomar: era o que restava de uma das muitas histórias, antes já contada por tio Carlito aos sobrinhos. Ali haviam morado muitas famílias nos tempos dos cafezais. Depois de alguns minutos de meditações, os aventureiros seguiram seu destino, que era a floresta do Marcelino, e a caminhada se podia dizer que estava apenas começando. Do lugar onde estavam até a floresta ainda tinham pela frente, no mínimo uma hora de caminhada, não pela distância e sim pela falta de caminho aberto sem empecilhos. Seguiram pelo antigo caminho da roça, também abandonado. Agora o tormento não era o capinzal com cobras venenosas. Eram os incômodos carrapichos e picão que se agarravam à roupa, causando um desconforto terrível: não só espetavam como causavam uma coceira insuportável, principalmente nas penas. De quando em quando tinham que parar para se livrarem daquelas pragas malditas. O suor não poupava ninguém, corria em bica pelos rostos de todos. O sol ainda estava a prumo, era aproximadamente uma hora da tarde. Com dificuldade foram galgando o morro. Alguns troncos de pés de cafés eram vistos de quando em quando em meio a capoeira. Pararam para descansar em baixo de um pé de manga espada, com muitas frutas maduras sobre os galhos. Ninguém resistiu à tentação, saborearam vários frutos deliciosos. Lá do alto do morro, já bem próximo da floresta, na direção contrária avistava-se o Casarão da vovó e a casa onde as crianças moravam. Ao lado do pé de manga havia uma mina d’água. O que era normal, pois naqueles morros, em tempo de chuva brotava água por todos os cantos. Enquanto saboreavam os frutos, também mataram a sede. Descansaram ainda alguns minutos, tempo suficiente para se livrarem dos carrapichos e dos picões, _ Avante guerreiros! Era a voz do comandante, rumo à reta final da jornada. O que todos queriam era chegar à floresta o mais rápido possível. Enquanto caminhavam, esta foi ficando cada vez mais próxima. Já se ouvia o cantar da passarada. Em poucos minutos lá estavam os aventureiros diante daquela maravilha exuberante, toda verde. Era mesmo um outro mundo de cores, sons e ruídos diferentes. O gorjeio dos pássaros se misturava com as cantigas de milhares de cigarras e o vento que soprava nas folhas das árvores tinha um som indescritível. O aroma das flores e dos frutos silvetres impregnava o local de maneira tentadora. Era mesmo um convite fascinante e irresistível. 35 Livraram-se dos últimos picões e carrapichos. Tio Carlito passa as últimas instruções e já começam a se embrenhar na floresta. O comandante vai à frente abrindo caminho com o facão. Tinham que voltar pelos mesmos rastros, Razão pela qual era preciso deixar as marcas, ou seja, galhos cortados, troncos de árvores repicados com o facão. Logo na entrada da floresta foram surpreendidos por um bando de macacos que saltavam de uma árvore para outra com tamanha agilidade, dando as boas vindas aos visitantes. Ficaram todos parados admirando os trapezistas da floresta. _ Tô com medo, disse Bruno. _ Podem ficar tranqüilos, os macacos não fazem mal algum ao homem, falou tio Carlito. Continuaram a caminhada. A mata era sombria e escura. _ Cadê o zangado? _Falou Amelinha. _ Zangado!... Zangado!... Zangado!... _ Nada do cachorrinho, nem um só latido. _ Logo o zangado aparece. Os cachorros são mesmo assim. Na floresta eles se sentem liberados, breve ele encontra o nosso faro e virá ao nosso encontro, disse tio Carlito. Em menos de meia hora, sem se importarem com a ausência de Zangado que ainda não havia retornado, estavam eles diante do primeiro grotão. Desceram o barranco com muito cuidado se agarrando nos troncos das árvores. Lá no fundo do grotão corria um riozinho de águas cristalinas. Novamente mataram a seda, lavaram o rosto, molharam as penas para amenizar a coceira causada pelos carrapichos e picões. Comeram os lanches e os doces caseiros, já do outro lado do grotão descansaram um bom tempo às sombras de uma enorme figueira. Começaram a ouvir um barulho estranho vindo na direção onde estavam. Mais uma vez o medo tomou conta das crianças. Tio Carlito ficou em estado de alerta com a cartucheira na mão pronta para atingir o alvo. O barulho veio vindo, veio vindo e cada vez mais perto, até que... _ Nossa! Que bichão! _ Falou Bruno todo arrepiado. _ Que maravilha! É uma anta, disse tio Carlito. Todos ficaram admirados com o tamanho do animal que seguiu o seu percurso água abaixo, sem notar os visitantes. Dali para frente foi um verdadeiro desfile de animais. Enquanto caminhavam encontraram, cotias, serelepes, porcos-espinhos, catetos, e até uma jaguatirica pode ser vista na galhada de uma árvore. 36 _ Que pena não ser uma onça pintada, disse Mário! _ Pelo menos era uma oncinha pouco maior que um gato... Mas era uma onça. Ninguém mais temia a floresta. Tio Carlito não só denominava os animais, as aves e as árvores, como também ia explicando tudo que encontravam aos sobrinhos. A floresta era encantadora, misteriosa, mesmo limitada parecia não ter fim. Respiravam um ar puro, as sombras das árvores que suavizavam o ambiente selvagem. Chegaram a ter inveja dos índios... Aquilo sim que era vida... Muita sombra e água fresca. Passaram três horas na floresta, passariam à vida inteira, mesmo assim, com certeza ela ainda teria novidades para mostrar, para ser estudada, para se descobrir, nem se lembravam mais do pobre Zangado. Infelizmente havia chegado à hora de voltar. Seguiram as marcas deixadas, bastante visíveis. Mais uma vez encontraram o bando de macacos. Passaram pelo grotão, lá estavam às pegadas ainda frescas da anta. Quando já estavam quase saindo da floresta ouviram um barulho confuso. Pararam para ouvir. Aproximaram-se um pouco mais na direção... Era como se fosse o grunhido de um cachorro. _ É o zangado, disse Amelinha. Coitado! Ele deve estar correndo algum tipo de perigo! A passos lentos, perfilados, cautelosos, todos seguiram a caminhada. Zangado havia perseguido um tatu que buscou proteção na sua toca. O ingênuo cachorrinho foi em sua captura. Só se ouvia um grunhido bem baixinho lá no fundo do buraco do tatu. E agora? Como salvar o Zangado? _ Se ao menos tivéssemos um enxadão para cavar, falou tio Carlito. _ Zangado!... Zangado!... Zangado!... Gritou desesperadamente Amelinha bem na estrada do buraco. Parece que o cachorrinho ouviu o seu clamor e foi saindo de ré até ficar por inteiro fora da toca. Estava irreconhecível de tanta terra que cobria os seus pelos, tinha terra até nos olhos. A alegria foi geral. Até mesmo zangado teve um dia de aventuras... Primeiro foi a cobra urutu-cruzeiro que por pouco não o matou e por fim o tatu-galinha ou, quem sabe um tatupeba ou um tatu-canastra. A verdade é que era um tatu. No caminho de volta as casas ainda pararam no pé de manga espada, saborearam mais alguns frutos e beberam água da mina. De onde estavam dava pra se notar que as chaminés das casas soltavam uma fumaça branca, sinal de que a janta já estava quase pronta. 37 Chegaram às casas ao anoitecer. Todos estavam cansados, mas muito contentes com o passeio que haviam realizado. Uma bela lição de ecologia as crianças aprenderam: se os homens tivessem preservado vinte por cento da floresta nativa, o mundo seria totalmente diferente. Só o reflorestamento pode salvar a planeta Terra. 38 9 Eram seis horas da tarde. Ao longe se ouvia o badalar do sino da capela de Nossa Senhora de Fátima, convidando os fieis do bairro para a novena de Natal. Lá estava o Sr. Tona Loução, cheio de pose, todo imponente puxando o badalo do sino. Ninguém ficou sem receber auditivamente o convite para a oração. Em tais circunstâncias as famílias das adjacências tinham por hábito jantar mais cedo, pois o terço era rezado pontualmente às vinte horas. Tio Américo era o rezador. Homem santo estava ali! Era mesmo um mensageiro de Deus aqui na terra. Pai de numerosa família, uma criatura simples, humilde, caridosa e prestativa. Um homem de poucos estudos, mas graças à paixão que tinha pela leitura falava como um doutor. Sabia tudo sobre política nacional e internacional, tinha aprimorado conhecimento sobre economia, história e geografia. Em se tratando de religião conhecia a bíblia do começo ao fim. As suas mensagens, os seus ensinamentos, as suas preces, os seus cantos sacros fluíam divinamente de sua alma pura com tamanha facilidade que cativava até mesmo os que tinham um coração de pedra. Todos tinham por ele muito respeito e admiração. Ninguém duvidava de que era ele o homem mais religioso e intelectual, morador do Cerne. Lá pelas dezenove horas o sacristão ligava o motor que fornecia energia elétrica para a capela. Em seguida fazia repicar pela segunda vez o sino. Os fiéis vinham em grupos e em poucos minutos o pátio da capela ficava repleto de gente. Enquanto se aguardava o início do terço, o alto-falante bem na torre da capela espalhava músicas sertanejas para todos os ouvintes. Os jovens passeavam ao redor do templo. As meninas ficavam agarradas na barra das saias das mães. Os moleques atiravam carrapichos nos vestidos rodados das moças, os homens conversavam sobre diferentes temas, principalmente sobre agricultura. Tio Carlito também se fazia presente nessa noite; era ele a criatura mais solicitada nas conversas de rotina. Ao seu redor formou-se um contingente de curiosos: alguns eram colegas de infância. Todos procuravam saber alguma coisa daquele que era o doutor do bairro. Este não demonstrava nem um pouco de orgulho da posição que ostentava. Dava 39 atenção a todos. Quem não o conhecesse, nem diria que ali, em trajes simples, estava um famoso médico da capital paranaense. Mário, Bruno e Amelinha não desgrudavam um só segundo do tio. Até mesmo durante o terço sentaram-se ao lado daquele que era o único herói, um príncipe de carne e osso. Se a reza do terço daquela noite para a maioria dos fiéis tinha algo de mito fervor, para tio Carlito... Bem... A cada Ave-Maria ele viajava numa outra dimensão. Quantas recordações! A capela de seus tempos de crianças e início de juventude era outra, num local muito acolhedor, romântico. Que saudades da capelinha de São Sebastião! Lá bem no alto do morro para que o santo pudesse contemplar todo o bairro e cuidar do rebanho de fiéis. Era um morro especial que tinha qualquer coisa de mistério. Os ciprestes, os alecrins e o capim gordura que ladeavam o templo impregnavam o local de um aroma inconfundível. Era um perfume do campo, Um cheiro gostoso da própria natureza, onde todos se sentiam inebriados com aquele odor tão contagiante e conquistador. Já a capela de Nossa Senhora de Fátima era moderna, de alvenaria, espaçosa, ao lado da estrada, um local de fácil acesso, mas que não tinha nada de romantismo ou de lirismo. Era apenas um templo religioso e nada mais. Lá pelo quinto mistério do terço, tio Carlito ainda estava pensado nos tempos dos padres da época. Pensava também nas festas da matriz, nas cerimônias religiosas da semana Santa, nas missas do galo, nos retiros espirituais, na Congregação Marina, no Apostolado Coração de Jesus, nas Filhas de Maria e na Cruzada Eucarística. Quanta história para se contatar! Quantas festas! Sem falar nas primeiras paqueras. Mas o tempo passou e voltar atrás impossível! Estava ele ali diante do altar de Nossa Senhora de Fátima, revivendo um passado maravilhoso, muito bem aproveitado nos curtos períodos de férias que desfrutava na sua terra natal. Lá pelas tantas da ladainha surgiu-lhe a idéia de registrar todo esse passado em um livro. Naquela noite, de volta a casa da mãe, fez de tudo para continuar acordado. Os pensamentos fluíam como revoadas de andorinhas. Era uma viagem infinita no mundo das recordações. Passou a limpo toda infância e inicio de juventude. Pela madrugada afora os galos cantaram várias vezes. Centenas de sapos coaxavam no brejo ao lado da várzea de 40 arroz, até que dormiu como nos tempos que ainda era criança, quando ainda orava pelo anjo da guarda, zelava as flores do jardim e brincava de contar estrelas. 41 10 Mal o dia amanheceu Mário e Bruno já estavam subindo as escadas do casarão. _ Benção, vovó! Bom-dia Tiana! E já vão logo perguntando pelo tio Carlito. _ O tio Carlito ainda não se levantou, respondeu a vovó. _ Xi! Como esses meninos são apegados ao tio, falou Tiana dando um beliscão carinhoso na bochecha avermelhada do Bruno. Enquanto aguardavam pelo tio, aproveitaram o tempo de uma forma apetitosa. Quem é que podia resistir à mesa farta da vovó? Aquele café matinal com uma enorme variedade de coisas gostosas para se deliciar até empanturrar. Como sempre, nem precisa falar: Bruno ultrapassava os limites, pois tinha os olhos maiores que a barriga. Como mudar a sua mania de comilão? Tio Carlito se levantou e veio sentar-se à mesa com as crianças. Fez também sua primeira refeição. Tranquilamente comeu de tudo um pouco. _ Que tal uma pescaria hoje à tarde? Falou o tio de uma forma provocante. _ Oba! Respondeu Mário já pronto para a aventura. A parte da manhã fora gasta nos preparativos da pescaria: Arrumar as varas, arrancar minhocas que sempre foi uma tarefa difícil. Naquele dia também não foi diferente. Tiveram que cavar quase uma hora pra encontrar as benditas iscas. Ufa! Até que enfim o problema das iscas estava resolvido. O preço não saiu por menos de várias bolhas de sangue nas mãos finas do doutor. Às duas horas da tarde lá estavam eles no Poço das Pedras, o mais sombrio e mais profundo de todos. Iscaram os anzóis e os arremessaram para dentro d’água suja. Quase barrenta toda poluída. Pobre Cerne! Que desgosto para o tio Carlito: nenhum peixe beliscava os anzóis. As primeiras iscas chegaram a mudar de cor de tanto tempo na água. Trocaram as iscas... E nada, nenhum lambarizinho pra contar a história. Do outro lado do rio havia um barranco de pedras e a seguir, uma capoeira. Até os pássaros estavam em silencio, somente algumas cigarras zuniam nos ouvidos daqueles pescadores sem sorte. 42 _ Oba! Tio Carlito fisgou um peixe, gritou Bruno. Era um lambarizinho tão pequeno, pouca coisa maior que o anzol. Como o Poço das Pedras não estava para peixes, resolveram tentar a sorte em um outro local, rio abaixo, na direção do Poço Comprido. Em outras épocas também era ótimo para se pescar. Era lá onde o Tio Daniel matava curimbatás a tiro nos bons tempos do sertão. _ Bem, vamos tentar neste local, disse tio Carlito. Era um local também sombrio, onde as águas faziam o remanso. O primeiro a jogar o anzol na água foi Bruno, Mal o anzol afundou, já fisgou um peixe-cachorro. O guloso do peixe engoliu o anzol. O doutor teve que fazer uma cirurgia de emergência pra tirá-lo da barriga do peixe... Uma especialidade que ele sabia fazer como ninguém. Também pudera! Era doutor em quase tudo! Infelizmente ele só não tinha solução e nem remédio pra curar a maldita doença do Ribeirão do Cerne que estava morrendo, agonizando, pedindo socorro. Ah! Se o tio Carlito pudesse, ressuscitaria o Cerne e fazia-o voltar como era antes, com suas águas cristalinas, quase potáveis, com seus milhares de peixes, com suas pedras negras limbosas, cheias de musgos nas partes emersas. Agora o rio estava quase sem vida: as águas poluídas, os poços assoreados, as margens totalmente modificadas. Estava ele ali no Poção Comprido com os sobrinhos, matando saudades, mas com um nó na garganta de tanta revolta. Pescando sim! Peixe que era bom, nada. Mais de duas horas de tentativas e só dois exemplares insignificantes foram capturados. _ Que tal tentar a sorte no Poço do Bebedouro? Tinha esse nome, pois era lá onde o gado bebia água. Aqui também era bom de pesca, falou Tio Carlito, já quase desistindo da pescaria. Desceram um pouco mais e já estavam no Poço do Bebedouro. Pelo menos ali fluía do barranco uma mina d’água. Essa mina d’água tinha história e poesia... E como tinha! Um filho do Cerne que de tanto beber a sua água, estando um dia distante, escreveu os seguintes versos: “Mina d’água, mina d’água, 43 lá no fundo do grotão corria manso o ribeirão. Mina d’água, mina d’água, dos arvoredos ao lado dos sabiás e das rolinhas da passagem escorregadia, de tantos rastros cansados. Mina d’água, mina d’água. em teu barranco enfeitado de samambaias de avencas e de musgos em tua bica murmurante quantas vezes matei a minha sede”? O poeta tinha razão: a água ainda era pura, fresquinha e o local acolhedor. No Poço do Bebedouro deram prosseguimento à pescaria. Também foi um fracasso. _ Podemos disistir, disse ti Carlito. Sabia que ainda havia outros poços. Poços mesmo só de nome. Antigamente tinham profundidade... Hoje, quando muito não passam de meio metro. Esse é o preço que se tem que pagar pelo progresso, pensou tio Carlito. Isso sem contar às cartas que recebia de sua mãe, falando da matança de milhares de peixe causadas pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. Dá nisso mesmo... Hoje o Cerne é um rio quase sem vida com tantos outros pelo Brasil. Uma tarde inteira só para pegar dois peixinhos. Lá podia se chamar de pescaria? 44 Uma perda de tempo total, mas pelo menos serviu para aumentar a sua revolta em relação à mecanização da agricultura. Não que fosse contra, mas deveria haver outra maneira de se atingir o progresso sem causar tanto impacto a natureza... Se ao menos as águas do rio estivessem limpas, podiam passar o resto da tarde nadando no Poço do Bebedouro, como fazia há muitos anos atrás quando ainda era criança. Nem isso era possível! Bruno ainda teimou em entrar na água, mas tio Carlito não permitiu. Enrolaram as linhas nas varas, jogaram as iscas e adeus Cerne dos bons tempos que, infelizmente, Bruno e Mário não chegaram a conhecer. 45 11 Antes que os sobrinhos tivessem acordado, bem cedinho, tio Carlito se levantou sem fazer barulho. Abriu à porta de acesso à varanda, contemplou o céu, nenhuma nuvem existia. O horizonte avermelhado anunciava um dia de muito sol. Desceu as escadas. Logo estava caminhando a esmo sem ter hora prevista para voltar. Subiu pelo caminho do mato onde um bando de gralhas com suas cantorias despertavam até mesmo as folhas das árvores. Ao chegar à estrada que liga Sertanópolis a Bela vista do Paraíso, tão conhecida como estrada do Cerne, parou por alguns segundos. A brisa da manhã era gostosa, o cheiro da relva orvalhada dava testemunho de que a natureza teima em seguir o seu percurso sendo guiada pelas mãos divinas, mas que tem no homem o seu principal rival. Impulsivamente, movido por uma força estranha, os seus passos seguem na direção de Bela Vista do Paraíso. Percebeu que não estava sendo guiado pelas próprias pernas e nem pelo poder da mente, a sua cabeça viajava no tempo. Nenhuma outra força podia frear seus movimentos, muito menos controlar o seu subconsciente que estava detonando como uma bomba prestes a explodir. Quantas recordações o tempo armazenava naquela cabeça fértil, raramente bloqueada pelos tropeços da vida. Não, aquilo não era uma simples caminhada. Seria talvez uma fuga? Uma viagem revivida num universo um tanto confuso? Estava girando como um satélite fora de órbita. Melhor assim! Não seria preciso seguir rigorosamente o seu percurso. De uma coisa ele tinha certeza: o local era o mesmo, mas a paisagem, quanta coisa havia mudado! As poucas pessoas que até então cruzaram em seu caminho não eram conhecidas, mesmo assim foram cumprimentadas com um sincero sorriso. Já estava além da ponte do Cerne, na subida dos Nicolinos. Quantas transformações! Nada mais se apresentava como nos tempos de antigamente, quando era menino. Sentia uma saudade que chegava a ser gostosa. Só de pensar que aquela estrada, em outras épocas, o único meio de transporte era o lombo dos cavalos, as carroças e os carros de bois. Alguns anos depois a estrado do Cerne foi premiada com a jardineira do tio Felizardo. Toda aberta, fogosa, subia e descia por aqueles morros na parte da manhã e na parte da 46 tarde. Já era sem dúvida um meio de transporte moderno. Todos apreciavam viajar de jardineira. Os homens fumavam grossos cigarros de palha: às vezes a fumaça era tanta que até parecia que o veículo estava pegando fogo. As mulheres morriam de medo, rezavam para tudo quanto era santo durante a viagem. Eram milhares de “ave-marias cheias de graças” que subiam para o céu juntamente com a fumaça e a poeira da estrada. Em cada subida as preces aumentavam. Qualquer erro na troca de marchas... Valha-me Deus! Somente o barranco é que podia socorrer. Quando a viagem chegava ao ponto final, os passageiros desciam dando graças a Deus, enquanto sacudiam a poeira da roupa ou limpava o suor do rosto com um lenço. Quando chovia, ai então, a estrada ficava intransitável. Só mesmo a cavalo. Os suprimentos paras as casas, normalmente era feito na cidade de Sertanópolis. Comprava-se apenas o necessário: açúcar, querosenes e o sal. O resto, cada um se virava com o que produzia. O sol estava começando a esquentar, deveria ser umas nove horas. Resolveu votar, ou seja, ele mesmo não opinava nada. Eram suas pernas que estavam como se fossem nuvens levadas pelo vento. Enquanto voltava, resolveu descansar às sombras de uma das poucas árvores que existiam na beira da estrada, no mais a plantação de soja quase invadia o leito da estrada. De lá onde estava tinha uma visão do morro arredondado do sítio onde nasceu. O morro ainda era verde, mas não era o verde de sua eterna saudade, o verde escuro e viçoso dos cafezais. Aquele verde sem graça da soja e dos capinzais não lhe provocava nenhuma inspiração. Dava-se pra delinear nitidamente o antigo caminho da roça por aonde ele, em tempos de menino, ia todo santo dia levar almoço para o pai e os irmãos mais velhos. Era como se estivesse vendo a carroça sendo puxada por dois burros e uma mula: Peão, Calçado e a Limeira. O carroceiro era o Daniel, seu irmão mais velho. A carroça ia rangendo as rodas aos solavancos, batendo nas pedras, enquanto os animais fincavam os cascos na terra tentando arrastar aquela carga pesada de café. O relho comia solto no lombo dos animais. Daniel batia sem piedade e a cada relhada os animais se esforçavam ainda mais. Enquanto suavam em bica, a carga chegava ao seu destino que era o terreirão de café, e já voltavam sem descansar pelo mesmo caminho, para outra viagem, mais outra, até o fim do dia. Assim era vida do carroceiro. Pobre dos animais! Lá ainda estava o caminho da roça, um marco inesquecível do tempo como um poema lírico. 47 Havia muito cascalho espalhado pelo caminho da roça, da roça que tinha um caminho estreito, tão estreito que mal cabia uma carroça. Sentia-se ao longe o azedume das frutas, as mangas apodreciam aos montes, as laranjas apodreciam aos montes, montes que enchiam carroças. Oh! Curvas fechadas na minha eterna saudade do caminho estreito da roça! por lá hei de voltar algum dia feito criança feliz num passeio de carroça. Tio Carlito tinha uma alma de poeta, era um sonhador, um saudosista, um amante da natureza. Se dependesse dele o mundo seria completamente diferente. Aquela caminhada insólita fez com que ele ficasse ainda mais perdido no tempo presente. Ao chegar a casa, a mãe toda aflita o aguardava como se ele ainda fosse um menino, quando sumia pelos matos, ou pelas margens dos rios sem ter hora prevista para voltar. 48 12 O Ano de 1987 chegava ao fim. Já era véspera de natal. Os preparativos para a grandiosa festa eram sempre um misto de muito trabalho e alegria contagiante. Era dia de se matarem as leitoas, os frangos, os cabritos, temperar as carnes, fazer doces, ornamentar as casa e aguardar a chegada das visitas tão esperadas que normalmente, eram as de parentes mais próximos. Mário, Amelinha e Bruno, para eles o tão famoso Papai Noel era apenas uma lenda contada na roça, apenas amigo das crianças da cidade, mas que nunca ‘deu as caras’ lá pelas bandas do sítio onde moravam. Mesmo assim os sonhos de ganhar um brinquedo era algo tido como certo. Mesmo que o presente fosse uma ferramenta de trabalho, isto é, uma enxadinha, com a qual se podia até trabalhar na roça. Na casa da vovó Aurora a grande atração era sem dívida o presépio de Natal, uma tradição que herdara de sua mãe, que por sua vez herdara de seus antepassados vividos em Portugal há muitos séculos atrás. O presépio era um verdadeiro encanto. Sempre fora montado com muito esmero, com um trabalho cuidadosamente artesanal. A casinha de palha era perfeita. As imagens de barro davam um aspecto de pura originalidade. Era como se tudo aquilo tivesse vida e o menino de Jesus fosse uma criancinha de verdade, sendo constantemente tocado e acariciado pela mãe, a Virgem Santíssima. O São José tinha cara de carpinteiro. As vaquinhas e os cordeirinhos ruminavam um capim gostoso de quase dois mil anos. Os reis magos seguiam uma estrela de papel, muito brilhante, revestida de brocado. Toda a Belém estava presente ali na Sala da vovó Aurora, longe, muito longe do rei Herodes e de todos os soldados do Império Romano. Os montinhos de pó de serra coloridos assemelhava-se às areias do deserto e o galho de cipreste da árvore de Natal exalava um perfume típico do oriente. Em tudo aquilo, tão simples e tão profundo, fluía naturalmente o espírito do Natal. Para as crianças, o presépio da vovó Aurora era uma viagem no túnel do tempo. Era reviver dois mil anos de história do cristianismo, tão bem contados pelo tio Américo. Tudo se resumia num quadrado mágico de uma pequena mesa de madeira, com o poder de se 49 transformar no tamanho da crença de cada um. O mais importante é que o presépio simbolizava o nascimento de Jesus Cristo, o salvador da humanidade. Nisto todos acreditavam, oravam com fé e admiravam-no com muita emoção. Na véspera do Natal, antes da ceia, a família inteira ficava diante do presépio, fazia suas orações. Nessa noite feliz, todos cantavam glórias ao senhor. Naquela tarde de véspera de Natal, tio Carlito, a convite de seu cunhado Paulo, lá pelas quatorze horas entraram no jipe, que era pau para toda obra, e seguiram viagem com destino a Sertanópolis. A principal razão dessa curtíssima viagem não podia ser outra, a não ser comprar as bebidas e as frutas de Natal para a grandiosa festa. O motorista seu cunhado, estacionou o veículo diante do Almeida Mercados que nesse dia estava repleto de fregueses. Depois de cumprimentar os proprietários também sobrinhos, tio Carlito trocou algumas palavras com o cunhado e saiu pelas ruas de Sertanópolis. Já nos primeiros passos sua mente é levada por um redemoinho misterioso. Deixa de ser um adulto racional, que tudo faz premeditadamente. Havia se transformado num ser sentimental, uma de suas virtudes, era então, um poeta nostálgico. Finge não ver a cidade do presente. Sente-se a caminhar na Sertanópolis do passado. É verdade que os tempos haviam mudado e muito... Que a cidade cresceu se modernizou, que tudo ficou mais fácil: ruas asfaltadas, esgoto, água encanada, energia elétrica... É verdade que as ruas estão cheias de carros... É verdade que as residências são hoje de alvenaria, fachadas modernas e até prédios de apartamento... Mas para que serve tanto modernismo? Se na cabeça de um doutor poeta o tempo não passou, se teimosamente prefere a cidade de Sertanópolis de cinqüenta anos atrás. Eram tempos em que às ruas eram cheias de buracos, ainda de terra, a energia elétrica era oriunda de um possante motor, amarravam-se os cavalos diante das casas comerciais e as ruas tinham nomes dos estados brasileiros. 50 As casas comerciais da época eram todas muito modestas, a maioria eram de pequeno e médio porte, porém muito bem sortidas, não havia supermercados. Eram as famosas vendas de Secos & Molhados. Que saudades do Clube Literário, quantas noitadas de carnaval!... Que saudades da Livraria da Dona Eulina, a primeira aviadora de Sertanópolis e uma das primeiras do Brasil, escritora, autora do livro “A Pequena Manicaca”!... Que saudade do Aeroclube... Pobre garoto Odilon, que perdeu sua vida num acidente aéreo!... Que saudade da Vila Mineira, das cabras, que pastavam tranqüilas nas inúmeras datas vazias nas proximidades da maquina de arroz do seu Sinésio!... Que saudade dos times de futebol: o Palmeirinha e o B.A.C., quantos craques!... Que saudades do padre Domingos, da construção da atual Igreja Matriz. Quantas campanhas de café, leilões de gado e a grandiosa obra se tornaram realidade!... Nessa viagem no mundo das recordações, o Dr. Carlito era mesmo um inveterado saudosista. Três horas se passaram rapidamente que ele mesmo não acreditou quando olhou no relógio. Foi como num toque mágico, como que contar: um, dois, três e já. Tio Carlito acordou. Não que estivesse dormindo, como quem diz: cai na realidade. Seu cunhado já o aguardava no estacionamento do Almeida Mercados com as compras feitas e acomodadas no velho jipe. Na volta para casa, durante o percurso, aquelas duas criaturas pouco conversaram. Somente o barulho do motor do veículo quebrava a monotonia do silêncio indesejável. Tio Carlito ainda estava preso ao saudosismo premeditado. 51 13 Finalmente o tão esperado dia de natal chegou. O raiar do sol, num céu sem nuvens, prometia um dia de muito calor e tudo que se podia avistar era um imensidão verde, as lavouras e os pastos estavam em estado de graça, pois chovera muito naquele final de ano. A natureza estava em festa, era como se o menino de Jesus tivesse nascido novamente no Vale do Cerne. As coleirinhas gorjeavam melodiosamente por todas as árvores frutíferas do pomar. As andorinhas revoavam em bando, de quando em quando pousavam no telhado do casarão, os filhotes dos guaches ensaiavam os primeiros vôos nas folhas dos coqueiros. A brisa matinal, além do frescor, cheirava a relva orvalhada, havia fartura de frutas no pomar. Zé Américo, como sempre reinava no curral. Era o retireiro do sitio, o responsável pelo leite quentinho da mesa farta da vovó. Por falar no Zé... Era também um dos muitos netos. Nunca foi dado ao trabalho da roça, mas em compensação tinha um jeito todo especial para cuidar do gado. Executava essa tarefa com exímia perfeição e dedicação. Não se pode negar que tinha um gênio tinhoso e os nervos à flor da pele. Às vezes chegava a ser valentão. Era uma criatura imperativa, os amigos eram amigos pra valer e o resto que se dane. Naquele dia de Natal a sua tarefa de retireiro terminou mais cedo. Na roça os milharais cheiravam a melancia e a melões maduros. As melancias eram tantas: verdes ou rajadas; cumpridas ou redondas; grandes ou pequenas; espalhadas pela terra fofa e úmida. Em tudo reinava o espírito do Natal. Um cheiro apetitoso de carne assada entrava pelas narinas fazendo crescer água na boca e a barriga roncar de apetite. Cada criança esnobava um presente, mesmo sendo simples e barato, era o melhor presente do mundo. Amelinha ganhou uma boneca de pano; Bruno, um carrinho de madeira; Mário sorria todo contente com seu precioso presente: uma enxadinha duas caras, novinha em folha cheirando a tinta, encabada num cabo de sapuva, prontinha para o trabalho. Será que Mário estava a fim de capinar na roça ao lado do pai? E os estudos? Vovó Aurora estava feliz, radiante. Até parece que havia rejuvenescido algumas dezenas de anos. Era para ela, um dia muito especial. Muito católica. Sempre fora devota do Menino Jesus. Seus olhos mágicos viam em cada criança, um verdadeiro Menino Jesus, 52 em cada mulher, uma nossa Senhora, em cada homem, um São José. Nisso não há exagero, era uma criatura do bem, havia formado uma numerosa família exemplar. Conseguiu passar para os filhos e estes para os netos a tradição religiosa, o amor e o respeito para com o próximo, a grandeza do trabalho. Pregava que o trabalho engrandece o homem e que a felicidade está em se contentar com o que se tem. Era uma mulher realizada, feliz. O dia de Natal completava essa felicidade. Vovó Aurora estava eufórica, seus olhos brilhavam, a sua pele transpirava amor. Mas lá no fundo do seu coração escondia um mistério, não era dor, não era tristeza. Era como se fosse um aviso. Como se aquela reunião fosse à última de sua vida. Mesmo assim estava feliz e somente isso é que importava. O resto ela entregava nas mãos de Deus. Sentia-se preparada para o grande encontro com o Pai Eterno, a qualquer hora, a qualquer dia, a qualquer minuto. Sabia que a sua vida não fora inútil, tinha razão de sobro para festejar e agradecer ao Pai Supremo. Como ela se sentia orgulhosa de ser a matriarca de tão numerosa prole! Todos naquele dia de Natal comeram a vontade, beberam sem cometer exageros. A comida estava uma delícia. Bruno estava no céu, não sabia o que comer diante de tantas novidades. Só de petiscar um pouquinho de cada prato diferente já era o suficiente para encher a barriga. Muita conversa: risadas, piadas, discursos, músicas e danças. Foi um dia inteiro de festa. Antes do anoitecer _ Quando o sol beijava a linha do Horizonte _ Mário, Bruno e Amelinha foram ter com o Tio Carlito que descansava numa rede amarrada entre dois troncos de mangueiras, lá bem no fundo do pomar. O tio filosofa solitariamente. Gostava de fazer esse exercício mental todos os dias. Do local onde estava tinha uma visão deslumbrante, avistava-se a várzea de arroz, o Morro do Gabriel e lá na crista do horizonte podia se ver a Mata do Marcelino. O olhar de tio Carlito estava fixo na Mata do Marcelino. A sua cabeça, como sempre, viajava no tempo. Até parece que foi ontem... Todo o vale do Cerne, o município de Sertanópolis, o norte novo e o norte novíssimo do Paraná, tudo era uma só floresta. A partir da década de 1920 é que começaram as primeiras derrubadas. 53 Trilhões e trilhões de árvores vieram ao chão entre as décadas de 1920-1950... Quanta coragem! Quanta luta! As árvores foram derrubadas de maneira desordenada, sem nenhum tipo de controle ambiental, nem se pensava de preservação de pelo menos uma quinta parte da floresta. Quanta ganância!... Nos meses de agosto e setembro o sol sumia na fumaça, que por ironia representava progresso. Eram tardes tristes, o ar ficava pesado, o tempo abafado. À noite então, era como se o mundo estivesse pegando fogo. Milhares e milhares de árvores ardiam ao mesmo tempo. Era preciso limpar a terra, prepará-la para o plantio do café. Tinha que ser assim... Como plantar café sem destruir a natureza? Hoje se sabe, graças à tecnologia, que é possível plantar novos cafeeiros em terras já cultivadas, mas naqueles tempos, as matas é que cederam espaço, para os aventureiros sedentos de riqueza, diante do denominado ouro verde. Hoje se sabe também quando a natureza é agredida, quando o homem ultrapassa os seus limites, o que já estamos vivenciando, ocorrem as mudanças climáticas. Ora são as chuvas em demasia, oras são as secas devassadoras. O planeta Terra vai sofrendo as conseqüências, sem contar com a extinção da fauna e da flora. Mário, Bruno e Amelinha sentam-se ao lado do tio, a rede por pouco não desmontou. Respeitaram o silencio do tio. Curiosamente ficaram meditando, raciocinando, tentando adivinhar o seu pensamento, procurando encontrar uma pista que os levassem a mergulhar de corpo e alma no mundo secreto do tio. Sabiam que o seu pensamento vagava na direção norte, para o mesmo lado que soprava o vento da tarde moribunda. Mário, não se conteve, resolveu romper o silencio do tio e por acaso acertou em parte. É que na direção norte, além da Mata do Marcelino, fica o pico mais alto de Sertanópolis. _ Tio Carlito, quando é que nós vamos conhecer o Morro do Cruzeiro? Essa pergunta oportuna fez o tio revelar parte de sua meditação: _ O Morro do Cruzeiro é um lugar muito bonito. De lá se tem uma visão deslumbrante de todo o município de Sertanópolis. Pode-se também avistar muitas cidades da região. Que tal realizarmos esse passeio depois de amanhã? Todos concordaram e o tão esperado depois de amanhã, nas cabecinhas tenras dos sobrinhos, demorou uma eternidade para chegar. 54 14 Já que promessa é divida, restava ao tio Carlito pagar mais uma que havia prometido aos sobrinhos: a do passeio ao Morro do Cruzeiro. De acordo com a data combinada e os preparativos resolvidos, finalmente chegou o momento tão aguardado. Levantaram bem cedo. O percurso era de aproximadamente dez quilômetros. Para facilitar, tornar o passeio mais rápido e menos cansativo, utilazaram-se do velho jipe do tio Paulo. Tio Carlito, embora sendo um bom motorista não era dado a esse tipo de tarefa. Acabou assumindo o volante demonstrando uma feição de pouco entusiasmo. Nem por isso a viagem foi menos interessante. Logo estavam subindo o morro principal da estrada da Água Morena. Amelinha começou a demonstrar sinais de que estava com medo, enquanto contemplava a ribanceira, procurando conter-se fechou os olhos e começou a rezar bem baixinho totalmente atarracada na poltrona, ficou durinha como uma estátua. Já Mário e Bruno achavam tudo fascinante. Quanto maior o perigo mais eles se sentiam entusiasmados. Era para eles aquela subida de morro como se estivessem numa nave subindo para o céu. O jipe, muito lentamente, foi galgando o morro. Os pneus carecas patinavam nos pedregulhos. Com a força das rodas, as pedrinhas eram arremessadas para uma distancia considerável. Amelinha continuava rezando. Tio Carlito permanecia fixo no volante: às vezes dava a sensação de que empurrava o veículo com as mãos. Depois de vencerem várias curvas perigosas, chegaram ao topo do morro. _ Que lugar maravilhoso! Disse Amelinha _ É verdade, respondeu tio Carlito procurando um local apropriado para estacionar o jipe. _ Puxa vida! Ninguém se lembrou de trazer uma máquina fotográfica? Falou Mário. _ É verdade. Vai ter que ficar para outra ocasião, concluiu Tio Carlito dando uma tapinha na cabeça do Bruno. 55 Tio Carlito estacionou o jipe em um local bastante sombrio ao lado de um bosque de eucaliptos. Do lado esquerdo encontrava-se a velha cruz de madeira, com aproximadamente cinco metros de altura. A cruz abandonada, naquele local desabitado dava nome ao morro. Em outras épocas nos tempos do café existia ali, ao lado, uma venda. Era do senhor Nelson Gorine, uma casa comercial bastante modesta, mas muito bem sortida. Tinha de tudo e uma ótima freguesia. Muitas famílias moravam na redondeza. Ao lado da venda existia uma capela de madeira, também muito bem freqüentada nos finais de semana e uma vez por mês o padre de Sertanópolis celebrava uma missa no local. O êxodo rural foi responsável pelo abandono de tudo, restou à cruz que fora plantada numas das Missões ocorridas em Sertanópolis, lá pelos anos de 1960. Subiram um pouco mais até onde estava a cruz. De lá a visão era deslumbrante. Soprava um vento forte, o clima era agradável, mesmo em pleno verão. Tio Carlito, mesmo não sendo professor, começa mais uma de suas aulas: __ Vocês estão vendo que a cidade de Sertanópolis está localizada em um local bastante plano, bem no vale do Rio Tibagi. É nesse vale que se encontram as melhores terras do Brasil, a tão propagada terra roxa de origem basáltica, muito apropriada para agricultura. Como vocês podem ver, toda a planície está coberta pelas lavouras de soja e milho. Em outras épocas, no auge das lavouras de café, essas terras planas e baixas tinham pouco valor devido à ocorrência de geadas constantes que queimavam tudo. Nem pensar em plantar café nessa planície. Era perda de tempo. Razão pela qual, reinavam nos morros os verdes cafezais. Pois bem, do outro lado da Represa Capivara, Sertanópolis faz divisa com as cidades de Rancho Alegre e Sertaneja, ambas bastante visíveis, lá de onde estavam. Lá distante no sentido sul e sudoeste, quase na linha do horizonte vejam quantas cidades: Jataizinho, Ibiporã, Londrina, Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana, Maringá... Londrina era a que mais se destacava, devido à quantidade de prédios. De todas essas cidades somente Ibiporã e Londrina fazem divisa com Sertanópolis. O que mais chamou a atenção de Mário foi o brilho a distância das águas da Represa Capivara, com o reflexo dos raios de sol formava uma lamina prateada. _ E você, Bruno, está gostando do passeio? 56 Bruno fez um gesto reticente... Se a pergunta estivesse relacionada com comida, ai então, teria a resposta na ponta da língua. O vento soprava forte, sacudindo as folhas dos eucaliptos, os pássaros cantavam no bosque, já era quase a hora do almoça. Amelinha contempla pela última vez as cidades distantes, a barriga do Bruno roncava. Tio Carlito já aguardava os sobrinhos no jipe, com o motor ligado. Enquanto retornavam as casas à conversa era sobre o próximo passeio no Lago Capivara. 57 15 De longe se ouvia um barulho contínuo de motor. Lá bem no meio do Lago de Capivara um barco de cor branca deslizava sobre a imensidão de águas não muito cristalinas. Os tripulantes do barco eram cinco: dois adultos e três crianças. Tio Carlito e um amigo de infância, cujo apelido era Chiquito, o piloto do barco. O time completava-se com Mário, Bruno e Amelinha. O barco chegava até a flutuar e tinha-se a impressão, mesmo não desenvolvendo alta velocidade, de que estava decolando. Todos os tripulantes usavam salva-vidas. No que diz respeito à segurança, tio Carlito não abusava. Sempre fora muito prevenido, os motivos de alegria somente poderiam terminar em festa, nunca em tragédia. Chiquito conhecia como ninguém o Lago de Capivara. Para a felicidade de todos, nessa época do ano, o lago estava cheio, as águas atingiam o limite máximo da reserva. Algumas árvores secas, cujas galhadas sobressaiam acima do nível das águas, causavam sem dúvida, um enorme perigo para as embarcações que transitavam diariamente pelo lago. Na cabeça do piloto, tudo aquilo era corriqueiro. Pilotava o barco mecanicamente, se dava ao luxo de contar história sobre o lago, principalmente sobre pescadores. Era como se o barco e o piloto fossem programados por um computador. Tudo aquilo acontecia com exímio e perfeição quase que sobrenatural. Passear com Chiquito de barco era mesmo uma aventura para ninguém botar defeito, principalmente para aquelas crianças que não cabiam em si de tanto contentamento. Sentiam uma emoção indescritível, nem mesmo acreditavam que tudo aquilo fosse verdade. Só mesmo na companhia de tio Carlito é que tais passeios pitorescos mirabolantes aconteciam. _ Que Maravilha! Que lindo! Eram frases curtas que saiam da boca de Amelinha. Mário e Bruno não se cansavam de observar o lago. Nunca tinham visto antes tantas águas acumulados, como se fosse um braço de mar, com direito a ondas consideráveis, variando de tamanho com as lufadas de vento. Quantas maravilhas seus pequeninos olhos negros puderam deslumbrar diante de uma enorme variedade de aves aquáticas que tornavam o lago um tanto selvagem: bandos de paturis passavam voando rasteiro rente às águas, sempre na mesma direção. Algumas garças brancas chamaram a atenção de 58 Amelinha. Nunca tinha visto uma ave tão exótica. Até um jacaré pode ser visto a uma pequena distância, tomando tranqüilo um banho de sol. O passeio transcorria de maneira notável, tudo de acordo com o previsto. O barco, à vezes, ziguezagueava no lago. Eram manobras que o piloto Chiquinho fazia com perfeição, mexendo com a adrenalina das crianças; medo para Amelinha e agito frenético para Mário e Bruno. Um outro animal que conheceram foi uma capivara que fugia aflita de um malvado caçador. No percurso, sem rumo definido, muitas embarcações foram encontradas, algumas de turistas e outras de pescadores, muitos peixes podiam ser vistos nas proas dos barcos. Na cabeça das crianças o tempo presente é o que contava, o momento histórico estava acontecendo, sendo vivenciado a cada novidade encontrado ao longo do lago... Para tio Carlito o tempo presente se misturava com o passado: aquele lago artificial inundara aproximadamente dois mil e seiscentos hectares das melhores e das mais caras terras do Brasil. Fora uma afronta, uma agressão. Não que a energia elétrica não seja necessária para progresso e desenvolvimento do país. O local é que fora mal escolhido. Pior ainda: a CESP pagou como indenização uma ninharia por essas terras, menos que quarenta por cento do valor real e num prazo totalmente prejudicial aos acomodados agricultores. Isso sem contar que parte dessas terras as margem dos rios eram argilosa. Sabe-se que um hectare de argila tem um valor relevante, muito superior as terras agricultáveis. E os proprietários não foram informados. Não se socorrerão da justiça, só perderam. Quem ganhou com isso foi a CESP, que até então, nada recolheu como tributos aos cofres públicos de Sertanópolis, sendo um calote, uma injustiça, pois as terras inundadas eram produtivas, que traziam riqueza para o município, para os proprietários e salário para quem nelas trabalhavam. Está tudo errado! Na cabeça de um doutor era inadmissível aceitar tantas injustiças. Não se conformava com a passividade de seus conterrâneos que aceitaram tudo, sem questionar, sem fazer protesto. Assistiram pacificamente a tomada de suas terras pelas águas da represa... Pena que os prefeitos que governaram a cidade nessa época e posterior não apostaram no turismo... Nem isso aconteceu. Quanta burrice! Enquanto as crianças contemplavam a natureza modificada, que não deixava de ter o seu encanto, tio Carlito engolia, o gosto amargo de uma saudade indigesta. Pensava silenciosamente enquanto mordia os lábios, revendo na imaginação um outro cenário: Aqui era o Porto Camilo, lá na frente era o Porto Figueira, na seqüência, 59 mais adiante se encontrava o Porto de Areia. Quantas olarias deixaram de existir! Maldito governo dos Militares que provocou tudo isso? Por que não apoiaram os pequenos agricultores? Por que estes tiveram que vender as suas terras? Para que tanto privilegiar os latifundiários! Mais uma vez, malditos governos dos militares! Que saudade do Rio Tibagi de outras épocas! Meu Deus! Será que não havia outro lugar mais pobre para se construir uma hidroelétrica? Tinha que ser nas melhores terras do Brasil? Como entender as tramóias, os jogos de interesses particulares ou de grupos privilegiados, articulados pelos políticos? É verdade que a energia elétrica seja necessária, mas o Brasil é do tamanho de um Continente, Sertanópolis bem que podia ter sido poupado. Eram três mundos diferentes navegando num só barco sobre as águas do Lago Capivara: um mundo de fantasia se passava na cabeça das crianças: outro mundo extremamente realista, dramático martelava a cabeça do Tio Carlito. Já na cabeça do piloto Chiquinho era apenas mais um passeio de rotina como tanto outros já realizados no mesmo local. Parte do dia fora gasto no passeio. No barco não faltou o que comer e água fresquinha potável, à vontade, numa vasilha térmica. Mário e Amelinha fizeram centenas de perguntas sobre o lago, foram respondidas a contento pelo piloto Chiquinho e pelo tio Carlito. Havia uma diferença notória no palavreado: um carregava as frases de romantismo, o outro não tinha a menor intenção de esconder a sua revolta. Conheceram a foz dos ribeirões: Couro do Boi, Taboca, Cerne, Tigre, Sete Ilhas e Biguá. Todos formavam em sua foz um verdadeiro braço do lago. Conheceram a Ponte Caída onde se localiza a única e mal administrada área de lazer do município e algumas ilhas espalhadas pelo Lago. Foi sem dúvida, um dia maravilhoso e inesquecível para as crianças. 60 16 As férias voaram na velocidade dos raios solares como um nevoeiro de verão, como um beija-flor em busca do néctar da vida. Apesar de o tempo virar fumaça, muita coisa boa aconteceram durante aquelas férias repletas de aventuras inesquecíveis. Tio Carlito e os sobrinhos viveram intensamente cada segundo, com tanta ansiedade cada passeio, cada pescaria, como se aquelas férias fossem a última. Até parece que o destino estava traçado. O Cerne que sempre fora berço e palco de grandes acontecimentos, um paraíso de apenas três gerações, a saga de uma família predestinada a viver em plena harmonia, cujos laços de amizade iam além das fronteiras do bairro. Tudo estava ali, preso por um fio, prestes a desmoronar, mas no casarão que fora erguido com muito trabalho suor, no ano de 1934, ainda reinava a grande matriarca de uma família de pioneiros de Sertanópolis. O primeiro acontecimento melancólico foi, sem dúvida, a despedida de tio Carlito. Aquela mesma criatura de sempre: bondosa, generosa, amante da natureza e filho benquisto que por centenas de vezes já havia partido, sempre com um nó na garganta, com lágrimas nos olhos e com um adeus que deixava nitidamente estampado no rosto todas as esperanças de que haveria um breve regresso. Aquela despedida tinha algo de diferente. Uma coisa seca, amarga, dolorida, um sabor de angústia, uma dor indefinida, incontida e inexplicável: não era uma doença física, muito menos mental. Eram lágrimas místicas, eram palavras mudas, eram soluções sufocadas pelos domínios da mente. Era uma despedida, uma separação de caráter definitivo, um adeus que tinha algo de mistério no ar, na pele, nas batidas do coração, nos olhares tristes, nos apertos de mãos. O coração de um doutor batia descompassadamente e a viagem de volta era como se a estrada de Curitiba fosse um túnel escuro, sem paisagens, uma estrada infinita como se ela não levasse a lugar nenhum. Era o caminho de volta para a sua morada, para a sua esposa e filhos que infelizmente por outras razões não o acompanharam nessa viagem. Estava de volta para a sua luta cotidiana: a vida agitada na cidade grande onde tudo era uma selva de pedras, onde amigos verdadeiros se podiam contar nos dedos. O resto era 61 trabalhar, trabalhar, acumular riquezas, que pouco lhe representava. Era uma criatura sem vaidades. Gostava sim, de passar temporadas na praia, em sua casa à beira mar, de quando em quando viagens para o exterior e passar os finais de semana em sua fazenda no município de Rio Negro. No mais, acomodava-se em sua casa toda murada, um verdadeiro esconderijo, um isolamento total. Ele em companhia da esposa e filhos, seus pés de frutas, seus passarinhos, seus livros. Nada era tão natural, tão deslumbrante, tão hospitaleiro como o Casarão do Cerne. Lá ele se sentia como um herói, um príncipe, um mágico. Mas era como um menino que se identificava melhor. Cada regresso era sempre um motivo de festa, de muitas alegrias que fatalmente terminavam em novas despedidas, novas lágrimas, eternas saudades. Entretanto, sempre tinha que partir. Nessas idas e voltas estava a razão de sua vida. O segundo acontecimento, não podia ser pior. Numa dessas tardes de um clima agradável na cidade de Curitiba, enquanto atendia a uma paciente em seu consultório localizado no centro da capital paranaense, recebeu um telefonema que mudaria tudo em sua vida. Quase paralisou todos os seus sentidos, ficou pálido, um suor frio percorreu o seu corpo. A luz do dia ficou fosca, quase cinzenta, foi como se o mundo inteiro girasse diante dos seus olhos, quase teve uma vertigem. A notícia... Bem... Teve que voltar ao Cerne. A viagem que ele nunca desejou fazer. Foi um martírio, seu próprio calvário... Não! Não pode ser verdade! Era um pesadelo, uma paulada na cabeça, como se tivesse perdido o sentido da vida, o fim dos sonhos... Tinha que ser forte, encarar a realidade. Faltava-lhe a coragem, nunca havia premeditado antes esse regresso indesejável... Não estava só, vinha acompanhado pela família, a estrada era um pesadelo, as paisagens eram sem vida, sem cor... Sentia-se mal, nada o consolava, engolia um choro silencioso e dolorido. Ao chegar naquele sitio onde sempre era recebido com festa: O casarão estava triste as árvores silenciaram as águas do Cerne silenciaram o Morro da Gabriel ficou cinzento 62 as andorinhas imigraram antes da hora marcada. As pombinhas em revoadas sem destino vagueavam em volta do casarão. Os guaxes abandonaram os seus ninhos o terreirão e atulha perderam o encanto, a varanda ficou esquecida toda a família desesperada os amigos desconsolados. Morreu uma heroína a maior de todas as matriarcas a parteira do Cerne a comadre do Cerne a mãe do Cerne a avó do Cerne a bisavó do Cerne a própria história do Cerne ali toda morta coberta de flores como uma Deusa como uma Santa, tão linda, tão meiga, tão amiga, tão prestativa. Tão cheia de doçura mas calada para sempre. Para Mário, Bruno e Amelinha, com a morte da vovó Aurora o golpe quase foi fatal. Tudo aconteceu tão rapidamente. Milhões de coisas em suas vidas mal desabrochadas, ainda mal preparadas para rolar as pesadas e duras pedras do caminho. Foi a pior de todas 63 as tempestades. Aquela que sem piedade arrasa tudo. Como recomeçar? Como reconstruir aquela melhor parte do mundo que desabou para sempre? O que fazer da vida sem aquela criatura tão querida que nunca magoava a ninguém?... Estava sempre de braços abertos, cheia de amor para dar, tudo era vida, tudo tinha encanto, tudo era resolvido com tamanha facilidade. Amelinha desconsolada chorou por vários dias, perdeu a apetite, o sono, o rumo da vida, ficou fora de órbita, nada mais tinha graça. Mário e Bruno abandonaram os brinquedos, como duas crianças órfãs perderam a magia da vida, o colorido dos sonhos de infância. As noites se misturavam com os dias: Somente um vazio norteava seus passos, hora perdidos no pomar, hora perdidos nas nuvens brancas do céu, hora perdidos no tempo. Nem os vaga-lumes, nem as cigarras, nem as borboletas, nem as flores... Nada... Nada mais tinha encanto, nada mais tinha graça, era uma tristeza só, uma tristeza que causava dó. Mas... Como na vida tudo tem o seu tempo... Um tempo para rir, um tempo para chorar, um tempo para viver, 64 uma hora marcada para morrer... Somente os sobreviventes são os que têm tempo para recomeçar. Aos poucos, todas as angústias, todos os sofrimentos começaram a ceder espaço para a nova realidade. Vovó Aurora se foi para sempre, mas os seus valores não morreram, serão eternos. As suas lições de vida serão também infinitas. As suas lindas histórias, carregadas de emoção ficaram como herança como o maior de todos os tesouros trancados naqueles três corações, tenros, sequiosos de saber e cheio de amor para dar. O mundo em volta é que deu uma guinada de cento e oitenta graus para recomeçar num outro tempo, num outro espaço físico juntos com outras pessoas. Com a morte da vovó Aurora mudou tudo naquele sítio tão hospitaleiro. O Cerne nunca mais foi o mesmo... Mário Bruno e Amelinha levados por circunstâncias alheias as suas vontades, tiveram que deixar a terra amada onde nasceram e até então foram ali muito felizes. Mudaram-se juntamente com seus pais para a cidade de Sertanópolis: Adeus Cerne, adeus casinha pequena, adeus bica d’água, adeus chiqueirão dos porcos, paiol de milho, e forno caipira. Adeus morros, sojas e trigais. Adeus escolinha amarela, capela de Nossa Senhora de Fátima, campo de futebol. Adeus riozinho de pedras pontiagudas, 65 várzea de arroz, ranchinho de sapé. Adeus paineiras, jabuticabeiras, gados multicoloridos, palmeiras secular. Adeus patos, perus, galinhas de angolas, galos índios, porcas pintadas. Adeus tios e tias, primos e primas, coleguinhas de infância. Adeus, adeus para sempre casarão da vovó. 66 17 A vida é uma fonte inesgotável de surpresas, um palco magistral onde cada ser humano é um artista, é um transbordar de infinitas sabedorias, um eterno aprender onde até os mais fracos são capazes de provocar grandes surpresas. Quem diria! Mário Bruno e Amelinha um dia morando na cidade! Tão livres como passarinhos! Tão amantes da natureza e de repente a cidade virou uma gaiola. Quanta diferença. Uma outra realidade, tudo aparentemente fácil e ao mesmo tempo tão difícil, dependentes do dinheiro tão escasso. Ei, mundo cão, selva de pedras, coração de concreto... Comprar uma laranja? Comprar um mamão? Comprar uma manga? Até a água era preciso comprar! Que calamidade! Era tudo tão complicado para aquelas criaturinhas que nunca tiveram um tostão no bolso. Viviam num paraíso terrestre repleto de farturas onde as frutas se apanhavam nas árvores, fresquinhas, saborosas e cheirosas e ainda sobravam frutas 67 Que alimentavam milhares de pássaros, sem contar as que apodreciam, transformando-se em adubo orgânico, fonte renovadora da vida vegetal. Vovó Aurora estava certa quando falava dos problemas da cidade: da diferença que existia entre os homens, da desigualdade social. Agora, morando na cidade, ficava mais fácil entender por que as crianças da mesma idade não brincavam com os mesmos brinquedos e moravam em casas completamente diferentes. Uns tinham brinquedos eletrônicos, bicicletas, roupas e sapatos importados; outros não tinham nada, nem uma bola de borracha, ficavam de porta em porta mendigando por um prato de comida, eram tratados como marginais. Vovó Aurora tinha razão. Muitas vezes ela falou com nostalgia sobre o êxodo rural. Das milhares de casas que ficaram abandonadas pelos sítios e fazendas. Colônias inteiras foram demolidas. Todos tinham um único destino: morar nas cidades como se as cidades tivessem solução para tudo. E as cidades não tinham solução para nada e os governantes ficaram de braços cruzados diante da proeminente tragédia... Vovó Aurora estava correta quando falava sobre os bóias-frias que levavam uma vida pior que a dos escravos. Quando trabalham, comem muito mal, quando não encontram trabalho, ficam sem ter o que comer. Vovó Aurora estava certa quando falava sobre as favelas, sobre os menores abandonados, os trombadinhas. Antes do êxodo rural as famílias tinham casa para morar, emprego e muita fartura. Os filhos dos empregados conviviam com os filhos dos patrões de igual para igual. Todos eram muito felizes e o melhor lugar do mundo para se viver era na zona rural... Vovó Aurora comentava que as meninas com menos de quinze anos estão se prostituindo para sobreviver. Que a fome, as drogas e a AIDS estão se alastrando, corroendo a sociedade, destruindo as famílias, provocando revoltas, crimes, roubos e tudo quanto é pecado. 68 Vovó Aurora falava ainda das coisas boas da cidade: energia elétrica, ruas asfaltadas, água encanada e esgoto, meios de comunicações, escolas, hospitais, igrejas, esportes e diversões. Só que a vovó Aurora nunca quis morar na cidade. O esplendor do casarão, o verde dos campos, o canto das aves, o mugir do gado era tudo em sua vida. O resto era utopia. 69 18 Tão logo foram superadas as reações constrangedoras, causadas pelo impacto inicial da mudança. Mário, Bruno e Amelinha vão aos poucos se acostumando com a nova vida na cidade. As ruas de Sertanópolis vão se abrindo como um leque e as novas amizades vão surgindo a cada dia que passa. Os estudos têm continuidade numa escola maior. Bruno começa a estudar. Adeus, professora Perpétua! Adeus escolinha do Cerne! Quantas saudades!... Agora estão os três estudando na Escola Municipal Luiz Deliberador. Muitos alunos, muitos professores. Em nada se parecia com a Escola Campos Sales, lá da água do Cerne. Quando não estão estudando aproveitam o tempo para conhecer a cidade. Cada rua, cada praça vão se transformando em lugares comuns, assim como era o caminho da roça, o pomar, o ribeirão e o casarão da vovó. A cidade de Sertanópolis, na medida em que o tempo foi passando para Mário, Bruno e Amelinha, reveste-se de poesia, fica acolhedora, passam a entender por que era denominada de “a capital da amizade”. Mas, o casarão do Cerne, lá distante, mesmo que o silêncio habite seus aposentos, mesmo que o descaso o transforme em ruínas, mesmo que nada reste em seu lugar, a sua história, jamais será esquecida. 70 19 Quis o destino, que Sertanópolis entre os anos de 1988-1992 fosse administrada por um prefeito nascido no casarão do Cerne, neto da vovó Aurora. Certamente ela teria ficado orgulhosa se ainda estivesse viva. Infelizmente foi um dos poucos prazeres que no exercício de sua majestade de grande matriarca não chegou a comemorar. Uma das muitas obras inauguradas durante a gestão de seu neto Edson Pedro Almeida, com certeza a que ela mais gostaria de se fazer presente foi a do Museu Histórico de Sertanópolis. Sempre fora defensora da preservação do patrimônio público, dos registros da memória histórica. Não se conformava com a perda do linguajar rude das famílias portuguesas, italianas e espanholas que desbravaram o sertão. Quantos costumes se perderam: danças, cantorias, brincadeiras de roda, remédios caseiros, simpatias, pratos típicos!... Vovó Aurora viu muito suor derramar na implantação do progresso do município. Compartilhou com o seu povo nos momentos de alegria e também nos momentos de tristeza. Pelas suas mãos santas de parteira nasceram muitos filhos da terra que adotara para viver a maior parte de sua existência... Foi ao sepultamento de muitos pioneiros... Conviveu com políticos, padres, juizes, promotores e delegados. Com méritos, um dos jardins residências de Sertanópolis leva seu nome: “Jardim Aurora”. Com certeza lá no céu ela deve estar muito feliz com a homenagem merecida. Felizmente Amelinha herdara todo o fanatismo grandioso de sua avó. O Museu Histórico de Sertanópolis começou a fazer parte de sua vida. Passava horas conversado com as funcionárias. Constantemente se emocionava, chorava de saudades do passado. Lá ela sentia a presença de sua querida avó. Era como se aquela voz tão meiga, tão amiga, ainda estivesse penetrando agradavelmente em seus ouvidos. Tudo no Museu trazia-lhe boas recordações. Adorava ouvir as monitorias realizadas pelas funcionárias para os visitantes, contando histórias da era do pioneirismo. Era como se ele estivesse ouvindo a voz de sua avó. Visitar o Museu era para ela, como adentrar no casarão do Cerne, era um reencontro prazeroso com o passado, ainda tão presente na sua memória. Era encher a sua alma de 71 esperança, sorrir para a vida, viver intensamente a infância e adolescência. Estudar... Estudar... Quem sabe ser um dia uma professora de História... Trabalhar no Museu? E por que não ser uma escritora famosa e escrever muitos livros, mostrar ao mundo, em prosa e em versos, toda a magia, todo o encanto da terra amada, onde nasceu. 72