O CASARÃO
DO
CERNE
ROMANCE
GILBERTO BRAZ ALMEIDA
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SERTÃO-SERTANÓPOLIS
No início do século XX havia
uma floresta encantada
onde as águas dos rios
eram límpidas e cristalinas.
Havia muitos peixes:
bagres, traíras, curimbatás, dourados,
pintados, lambaris surubis...
Havia muitas árvores:
perobas, figueiras, paus-d’alho,
canelas, timburis, cedros, marfins...
Havia muitos pássaros:
papagaios, maritacas, garças,
urus, inhambus, jacus...
Havia muitos bichos:
onças, pacas, macacos, antas,
cotias, tamanduás, capivaras...
Havia muitas flores...
Muitas frutas...
Muitas borboletas...
Nas margens dos rios
ainda se encontravam
armas de pedras, restos de cerâmicas,
outrora deixados pelos
índios Caingangues.
Essa floresta era um pedacinho
do norte do Paraná... Uma terra roxa
abençoada por Deus,
a melhor terra do Brasil,
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A segunda melhor terra do mundo.
Enquanto a floresta dormia em paz,
Sertanópolis ainda não existia.
Se a paz reinava na floresta
em um lugar não muito distante,
além das águas do Rio Paranapanema,
no vizinho estado de São Paulo,
os campos já estavam revestidos
por um outro verde,
tão verde...
quanto o verde das matas:
era o verde dos cafezais!
Plantar café...
Colher café...
Ficar rico vendendo café...
Assim era o desejo
de muitas famílias portuguesas
italianas, espanholas,
sonhadoras e aventureiras.
Trabalhar... Trabalhar...
Derrubar as florestas;
e foi dessa maneira
que Sertanópolis
começou a surgir
na cabeça,
nos planos
dos valorosos e corajosos
pioneiros.
Como já foi dito,
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o café era a principal riqueza do Brasil.
Sertanópolis surgiu do café.
As árvores das florestas deram
lugar aos cafezais.
Os animais e os peixes sumiram,
muita gente ficou rica...
Outros não tiveram a mesma sorte.
Foram tempos difíceis, mas havia
muito respeito com o próximo...
Havia muita união entre os
primeiros moradores de Sertanópolis.
Quem conta essa história
para os seus netinhos
é a querida vovó Aurora,
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O CASARÃO DO CERNE
1
A vovó Aurora veio para Sertanópolis no ano de 1927, juntamente com seu marido
José Manuel e toda a sua numerosa prole.
Sessenta anos depois, como num conto de fadas, já viúva há mais de quarenta anos,
enquanto tricoteia na varanda hospitaleira do histórico casarão, recebe a visita de três
netinhos muito queridos: Mário, Bruno e Amelinha.
Mário, com nove anos de idade, o mais velho dos três, muito inteligente, mas
terrivelmente brincalhão.
Bruno era o caçula, um verdadeiro bicho preguiça, não queria nada com nada e estava
sempre com sono e fome.
Amelinha era o orgulho da vovó, muito sapeca, uma verdadeira enciclopédia falante...
Um sabe tudo que não se cansa de querer saber mais.
Por incrível que pareça, eis que também surgem do porão da casa a gatinha Filomena
e o cachorrinho Zangado. São inimigos mortais, os rosnados e os arranhões são coisas de
rotina, mesmo assim, um estava sempre ao lado do outro.
Naquela tarde ensolarada de novembro, como sempre acontece, Amelinha começa o
diálogo:
_ Vovó, é verdade que o primeiro nome de Sertanópolis era Potiguará – Tibagi –
Panema?
_ Sim, minha neta _ a vovó arregala os olhos de admiração.
_ Quem foi que inventou esse nome tão estranho? Perguntou Mário.
_ Foram os índios Caingangues que aqui habitavam e denominaram a região com esse
nome.
A curiosidade de Mário vem à tona:
_ Pioneiro...?
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_ Sim, meu neto. Pioneiros são os primeiros colonizadores de um lugar que antes era
só floresta.
Amelinha não se contenta com a resposta. Quer saber ainda mais:
_ Vovó, que foram os pioneiros de Sertanópolis?
_ Foram muitos, minha neta. _ E a vovó começou a falar de nomes, sobrenomes,
apelidos... Uma lista que parecia não ter fim.
_ Cruz-credo! Como a vovó guarda na cabeça tantos nomes? Resmungou Bruno.
_ Vovó, o vovô José Manuel também era pioneiro? Perguntou Mário.
_ Sim, O vovô José Manuel, que Deus o tenha em um bom lugar no céu, também foi
um dos pioneiros de Sertanópolis. Quando o vovô e a vovó chegaram aqui na Água do
Cerne. Sertanópolis estava apenas começando. Não havia estradas, não havia pontes, era
um sertão que dava medo.
Mário: _ Eu não tenho medo do sertão, o que eu queria mesmo era encontrar uma
onça pintada só para dar uma estilingada bem no olho arregalado dela.
Todos riram.
_ Moleque bobo, disse Amelinha. Eu nunca vi caçar onça de estilingue, só mesmo na
cabeça oca do Mário,
Bruno olha bem para o rosto da vovó, como quem quer chamar atenção só para si, dá
três batidinhas na barriga e resmunga:
_ Tô com uma vontade de comer doce de batata-doce.
_ Vá plantar favas! Zombou a vovó Aurora. Faz muito tempo que ninguém faz doce
de batata-doce, é só o que faltava!
_ Vovó, como era o Cerne nos tempos do Sertão? Perguntou Amelinha.
Ah, minha querida netinha, nem queira saber. Era muito difícil. A nossa primeira casa
era um rancho de palmitos, coberto de tabuinhas, o piso era de chão batido, as paredes eram
rebocadas de barro. Ao lado do rancho havia um pequeno engenho de moer cana. Perto do
engenho tinha uma bica d’água, onde se lavava a roupa suja: alguns metros da bica d’água
havia um monjolo.
Amelinha: _ Monjolo? Que palavra estranha!
A vovó responde com nostalgia:
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_ O monjolo era uma espécie de pilão movido à água, servia para beneficiar arroz,
café, fazer canjica de milho...
_ Canjica? Oba! _ Disse Bruno – eu quero comer canjica. A lombriga tá quase saindo
pela boca.
_ Eu já sei que vou fazer para o Bruno, disse a vovó.
_ O que, vovô?
_ Vou mandar a Tiana fazer um chazinho de erva-de-santa-maria. Só para ver o
tamanho da tal lombriga do Bruno.
Amelinha resmunga:
_ Lombriga, credo! Que horror! Vovó pelo amor de Deus, esquece o Bruno, eu quero
mesmo é saber mais sobre o Sertanópolis!
_ Minha netinha, amada netinha! Não havia conforto algum: não havia geladeira,
televisão... Rádios eram raríssimos por estas bandas. O transporte era feito em carros de
bois, carroças e nos lombos dos burros e dos cavalos.
Enquanto a conversa ficava cada vez mais interessante, o inesperado acontece.
_ Au... Au... Uau, au _ Miau, miau... Miau... Entre miados e latidos, rosnados e
grunhidos a gatinha Filomena e o cachorrinho Zangado interrompe o diálogo.
Bruno como sempre, é o juiz de paz. Com muitas dificuldades, consegue colocar cada
um no seu canto.
Mário, todo resignado:
_ Eu ainda acabo pondo esta gata pulguenta e esse cachorrinho sarnento dentro de um
saco de estopa... Vou amarrar bem o saco com um nó cego. Depois vou jogar os dois no rio,
lá no poço das pedras que é bem fundão.
_ Cruz-credo! Disse Amelinha. Menino cruel, pra que tanta maldade? Você não
aprendeu no catecismo que é pecado matar os animais?
_ Eu sei que é pecado. Só que eu já estou cansado desses dois rabugentos, respondeu
Mário.
A vovó tenta desviar a conversa:
_ Vamos acabar com a discussão. Que tal tomarmos um cafezinho quente com leite,
pão e manteiga acompanhados de um docinho de abóbora, que só a Tiana sabe fazer?
_ Oba! Todos responderam em coro.
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Na cozinha. Enquanto saboreavam o delicioso café acompanhado de tudo a que
tinham direito, o diálogo prossegue.
A vovó dá continuidade à prosa:
_ Por falar em café, meus adoráveis netinhos, o café era a nossa principal fonte de
riqueza. Foi com o dinheiro do café que construímos este casarão, e tudo que temos até os
dias de hoje. Esses morros do Cerne que podem ser vistos da varanda eram todos cobertos
pelos cafezais; era a coisa mais linda do mundo ver o cafezal florido, quando chegava o
inverno era o tempo da colheita. Milhares de pessoas, entre crianças, mulheres, homens,
trabalhavam contentes colhendo os preciosos frutos. Os terreirões ficavam cheios de café
secando ao sol!
Ah! Que saudades, meus netos! Até parece que estou sentindo aquele cheiro gostoso
de café maduro.
_ Nossa, vovó! Disse Amelinha. A senhora está chorando!?
_ É, minha neta... Chorar faz bem para alma, principalmente quando se chora de
saudades das coisas boas do passado.
_ Só tinha café naqueles tempos? Perguntou Mário com uma carinha de muita
curiosidade.
_ É verdade que o café era a principal riqueza, mas não era a única. Naqueles tempos
se plantava de tudo: arroz, milho, feijão, fumo; havia muita fartura. Cada sitiante ou
fazendeiro tinha o seu pomar, a sua horta; criavam-se muitas galinhas, porcos, patos, perus,
vacas... Os terreiros das casas até se pareciam com a arca de Noé, de tantos animais.
Amelinha quis ir mais fundo na conversa:
_ Vovó, Como era a cidade de Sertanópolis?
_ A cidade de Sertanópolis, minha neta. Nessa época ainda não era cidade e sim uma
pequena vila... Um amontoado de ranchos de palmitos, tal qual uma aldeia indígena.
As ruas eram cheias de troncos de árvores. Em tempos de seca era a poeira que
atormentava. Quando chovia, formava-se um lamaçal, mas que tinha cheiro de relva
molhada.
Depois Sertanópolis foi crescendo... Começaram a surgir às primeiras casas de
alvenarias, foram surgindo às serrarias, às máquinas de beneficiar café, de beneficiar arroz,
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as olarias, as oficinas de fazer carroças: e, aos poucos todo tipo de comércio e indústria que
existe até os dias de hoje.
Como quem está atento, e interessado na conversa Mário não se contenta, quer saber
mais:
_ Vovó, nos tempos que Sertanópolis era como uma aldeia de índios, quem é que
mandava?
_ Nos primeiros anos quando Sertanópolis ainda era distrito, quem comandava era o
chefe político, depois com a criação do município, passou a ser governada pelos prefeitos.
Afirma-se erradamente que o Sr. Luiz Deliberador foi o Primeiro prefeito de Sertanópolis.
Ele foi apenas o primeiro chefe político do distrito e não o primeiro prefeito do município.
A vovó Aurora teve que explicar também aos netos a diferença entre distrito e
município.
Amelinha interrompe as explicações:
_ Vovó, quem foram os prefeitos de Sertanópolis?
_ Foram muitos, minha neta. De memória só me lembro os nomes de alguns, mas eu
tenho anotado numa caderneta tudo que vocês estão querendo saber.
Vovó Aurora se levantou da poltrona e vai buscar a tal caderneta onde estavam
anotados os nomes de todos os prefeitos. Era uma caderneta velha e amarelada. Colocou os
seus óculos e começou a ler para as crianças. Por várias vezes interrompeu a leitura, dando
ênfase a determinadas gestões.
_ Bem meus netos, a conversa está para lá de interessante, mas a vovó tem que cuidar
da vida. Já são cinco horas da tarde, tenho que tomar banho, depois preparar um caldo
verde para o jantar.
_ Que pena! Exclamou Amelinha. Eu gostaria de saber ainda mais sobre a história de
Sertanópolis!
_ Amanhã, depois do almoço, eu quero os três aqui na minha casa; então poderemos
continuar com a nossa conversa _ ordenou carinhosamente a vovó, passando a mão nos
cabelos de Amelinha.
Bruno resolveu abrir a boca:
_ Vovó. Eu só venho se tiver doce de batata-doce.
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_ Tudo bem, Bruno, eu vou pedir para Tiana, fazer doce de batata-doce especialmente
para você.
Os três netinhos se despediram da vovó. Lá se foram cantarolando felizes por entre as
árvores do pomar,
O sabiá canta na laranjeira, o seu canto dobrado e melancólico. Um bando de rolinhas
levanta vôo do chiqueiro dos porcos e pousam serenamente na galhada do timbó. As
galinhas cacarejando ao redor dos pintinhos procuram o galinheiro. Era uma tarde, daquelas
quentes, que morria com raios dourados ao sol poete.
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À noite ninguém quis contar estrelas. A cantiga do ‘vaga-lume tem tem, teu pai tá
aqui e tua mãe também’, não foi entoada pelas crianças. Todos foram dormir cedo... E
todos tiveram lindos sonhos.
Bruno sonhou que estava numa aldeia de índio, foi tratado como um herói vindo do
espaço. Estava rodeado pelos indiozinhos que queriam saber histórias sobre o seu mundo _
Que azar! _ O pobre Bruno só sabia comer, beber e dormir. Nunca havia prestado atenção
às histórias contadas pela vovó. Estava perdendo uma grande oportunidade de se tornar um
ídolo daqueles pequenos caras-pintadas. Logo foi interrompido por um índio todo
imponente. Deveria ser o cacique da tribo: _ Índio vem convida criança pro banquete.
_ Comer... Oba! Entretanto, a alegria de Bruno durou pouco ao ver que sobre dois
troncos de árvores havia um galho amarrado; nesse galho uma capivara estava sendo assada
tal qual havia sido capturada na floresta. Nem mesmo as tripas haviam sido retiradas.
Depois de muita dança e muita cantoria chegou à hora sagrada do banquete. Para que se
cumprisse à tradição indígena, o primeiro pedaço de carne ainda crua e sem nenhum
tempero foi oferecido a Bruno.
Bruno não comeu o tal pedaço de carne de capivara, acordou todo embaraçado.
Mário sonhou que estava numa pescaria juntamente com alguns de seus amigos de
infância.
As águas do rio eram tão limpas que se avistavam os cardumes de peixes de todos os
tamanhos e variedades; além da farta pescaria, o cenário era deslumbrante. As águas
límpidas do rio murmuravam sobre as pedras negras e pontiagudas fazendo um barulho
murmurante agradável aos ouvidos. O barranco do rio era revestido por um tapete bem
verde, só de samambaias e avencas. Nos troncos das árvores havia muitas orquídeas, todas
floridas.
Mário e seus amigos foram surpreendidos por um barulho estranho vindo lá dos
fundos da floresta. Seria o rosnado de uma onça pintada? Ah! Como Mário desejava ver
bem de perto a tal onça pintada. Todos fizeram silêncio e nada mais se ouviu a não ser o
barulho do vento tocando e acariciando as folhas das árvores.
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Mário rolou na cama, já não estava mais sonhando... Estava acordado.
Amelinha sonhou que estava no meio de um cafezal cujos frutos maduros tinham um
aroma muito agradável. No cafezal havia muitas árvores frutíferas: mangueiras, laranjeiras,
abacateiros, jabuticabeiras. O caminho da roça era estreito e ladeado por uma fileira de pés
de mandioca. O cafezal era mesmo um conto de fadas: mais se parecia um outro mundo. O
tico-tico cantava melancolicamente: _ Cadê teu tio tio... Cadê teu tio tio _ O bem-te-vi
respondia na laranjeira: _ Bem-te-vi... Bem-te-vi, te-vi, te-vi... _ Fogo apagou... Fogo
apagou _ suplicava na folha seca da palmeira a pomba - rola.
Era um dia de sol. Amelinha estava radiante como uma princesa. Que peninha, foi um
sonho!
Vovó Aurora, que há muito tempo não sonhava, também teve uma noite privilegiada.
Sonhou que a família estava reunida numa grandiosa festa: seria a festa dos sessentas anos
de moradia no Cerne? Talvez... Incrível! Até os membros da família já falecidos estavam
presentes. Como a família havia crescido! Eram tantos os netos, bisnetos e tataranetos!...
Todos estavam muito felizes, havia fartura de comidas, bebidas, muitos doces. Que festa
maravilhosa! Seu coração palpitava de alegria; a emoção era muito forte!... Ora ria, ora
chorava! Estava sendo tratada como se fosse uma rainha: recebeu muitas flores, muitos
presentes, mas o que ela mais queria era sentir o calor fraterno dos entes queridos. A festa
parecia não ter fim até que um galo solitário cantou no galinheiro. No seu canto matinal fez
vovó Aurora acordar. Uma vez acordada passou o resto da noite pensando no sonho.
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Um novo dia amanhece cheio de promessas. Logo cedo, como é normal para quem
vivem no campo, naquelas paragens, todos se levantam com o cantar da passarada.
Somente Bruno continuou dormindo. Prossegue a rotina de sempre. Primeiramente vem o
lavar do rosto na bica d’água. Depois o tradicional café acompanhado de um delicioso pão
caseiro. Após o café, Mário e Amelinha preparam o material escolar. Despedem-se do pai e
da mãe como mandam os costumes da roça: _ Bença pai. Bença mãe _ Deus te abençoe,
meus filhos. E lá se vão eles sorridentes cantarolando, cortando atalho na direção da escola.
Era a escola de madeira, de cor amarela bem na beira da estrada. Ao lado havia um
lindo jardim com muitos pés de rosas, uma carreira de lírios vermelhos, muitos pés de
cravos, hortênsias, margaridas e muitas florzinhas rasteiras multicoloridas que todos
chamavam de onze - horas. Bem próximo ao jardim podia-se contar pelo menos uns dez pés
de limão-cravo. A professora tinha o nome de Perpétua, apesar da rigidez disciplinar,
mesmo assim era muito querida. A aula... Bem... Numa a escola multe – seriada, a
professora era uma verdadeira heroína. Mário já estava na terceira série, Amelinha
freqüentava a segunda série. Bruno, como tinha apenas seis anos incompleto, ainda não
estudava. Amelinha, apesar de ser uma aluna aplicada e estudiosa estava palpitante, tal era
a vontade de continuar a conversa com a vovó... Os minutos pareciam horas e as horas
demoravam uma eternidade, até que, por fim, a aula terminou. Todos os alunos saíram
correndo.
Mário e Amelinha saíram voando.
Naquele dia almoçaram muito apressadamente, nem mastigavam direito a comida. A
mamãe Bernadete chama duramente a atenção dos dois apressadinhos:
_ Pra que tanta pressa? Até parece que o mundo vai acabar daqui a cinco minutos!
Que horror? Comam devagar, senão a comida nem faz digestão.
Amelinha e Mário nem ouviram a bronca da mamãe. Vão logo se livrando dos
uniformes escolares.
_ Cadê o Bruno?
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Bruno, que já havia almoçado há mais de uma hora, estava só lá nos fundos do
chiqueiro dos porcos, maldosamente cortando com o canivete os rabinhos dos leitões
recém-nascidos. Filhotes da porca pintada.
_ Bruno! Bruno! Eram os gritos ressonantes de Amelinha que podiam ser ouvidos a
centenas de metros de distância. Só Bruno fingia não estar ouvindo.
_ Bruno, onde está você? Responda por favor! Não estou com brincadeira, ralhou
Mário. Em altos brados.
_ Tô aqui, tô aqui, indignadamente respondeu Bruno.
_ Vem logo! Você tem que ir conosco na casa da vovó! Gritou mais uma vez Mário.
_ Já tô indo.
Demorou ainda o tempo suficiente para terminar o serviço que havia começado, ou
seja, deixar toda a ninhada de leitões rabicós, mesmo lutando contra a fúria da mãe porca
pintada.
Era aproximadamente uma hora da tarde. Fazia muito calor.
As três crianças nem se despediram da mãe Bernadete. Logo já estavam subindo as
escadarias do casarão da vovó.
Em coro todos exclamaram na mesma tonalidade de voz as mesmas palavras:
_ Bença, vovó.
_ Deus vos abençoe, meus netos. Vão indo lá para a varanda, aqui na cozinha está
muito quente. Só vou dar umas ordens para a Tiana e logo estarei com vocês.
_ Tudo bem, respondeu Amelinha.
Quando a vovó chegou à varanda todos já estavam reunidos. Nem mesmo Filomena e
Zangado haviam se esquecido do compromisso daquela tarde.
A varanda ficava para o lado do sol nascente. Na parte da tarde fazia uma sombra
muito agradável.
O vento que soprava trazia um cheiro gostoso das árvores. Em volta do casarão havia
um verdadeiro bosque, com muitas figueiras do mato, paineiras, mangueiras, abacateiros...
A visão que se podia ter da varanda era muito rica.
No sentido norte ficava a várzea, já com o terreno pronto para o plantio do arroz, nos
fundos da várzea corria manso o Ribeirão do Cerne. Do outro lado do Ribeirão ficava o
Morro do Gabriel e na sequência verdeja radiante a Mata do Marcelino.
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No lado leste a paisagem era formada pelo terreirão de café, a velha tulha de madeira,
com seu imponente pontilhão e na seqüência a colônia dos empregados, com suas casas
velhas desabitadas: numa visão mais distante, quase se perdendo na linha do horizonte
podia se ver a cidade de Sertanópolis que se espalhava na planície do vale do Rio Tibagi.
Para o sentido sul avistava-se o curral dos animais, um pasto bem gramado com
dezenas de pés de coqueiros que ainda restavam dos tempos da floresta primitiva. O pasto
era cortado, no sentido leste-oeste pela estrada que liga as cidades de Sertanópolis a Bela
Vista do Paraíso. Atravessando a estrada, segue o caminho estreito da roça, cheio de curvas
pelas encostas dos morros, ladeados por muitas árvores frutíferas.
No Sentido oeste a visão era tomada pelo casarão, pode se dizer que do outro lado nas
escadarias de acesso à cozinha, avista-se vários morros e lá no espigão reina imponente a
cidade de Bela Vista do Paraíso.
_ Pelo que parece todos estão bem animados, perguntou a vovó.
_ Sim. _ Respondeu Amelinha muito inquieta e curiosa. _ Hoje eu vou tomar um
porre de sabedoria sobre a história de Sertanópolis.
_ Vocês não acham esse tipo de conversa muito chata?
_ Não! _ Amelinha e Mário responderam ao mesmo tempo. Somente Bruno ficou
calado.
_ E você Bruno, não responde nada?
_ Ah, vovó. Conversa dá sono, eu só vim porque eu quero comer doce de batata-doce.
Na hora do café, se eu estiver dormindo a senhora me acorda. Tá?
_ Tudo bem, Bruno. Faça o que você quiser. Prometo do fundo do meu coração que
você vai ter uma surpresa e de arregalar os olhos.
_ Amelinha e Mário se aproximam ainda mais da poltrona da vovó. Amelinha vai
logo perguntando uma coisa que estava atravessada na sua garganta:
_ Vovó, se não tem mais as lavouras de café por que o terreirão e a tulha ainda não
foram demolidos?
_ O terreirão e a tulha meus netos... Enquanto eu for viva ninguém vai demolir.
Mesmo não tendo nenhuma serventia nos dias de hoje, ainda são as melhores recordações
que guardo do passado.
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Esse terreirão e essa tulha têm muita história para se contar. Daria para se escrever um
livro. Passaram por eles milhares de sacas de café. Sabe-se lá em que continente foram
parar.
_ Por que nos dias de hoje não tem mais as lavoras de café? Perguntou Mário.
_ Foram muitos os fatores: as supersafras provocavam a baixa dos preços. Produzia-se
muito café no Brasil nessa época. A cidade de Londrina era considerada a capital mundial
do café. Além dos preços instáveis, o café produzido na região era de péssima qualidade.
Não se tinha o devido cuidado durante a colheita. O governo federal mandava queimar os
estoques excedentes. Pior ainda, os grãos era quase todos perfurados pela broca, fazendo
com que os grãos perdessem, não só no peso como também na qualidade.
As geadas seguidas também contribuíram muito para a erradicação do café e o
governo teve também sua parcela de culpa, pois não dava apoio aos pequenos proprietários
de terras... A menina dos olhos dos governantes era a soja que já se afirmava como
sucessora da cafeicultora.
_ Vovó, a senhora falou em erradicação da lavoura de café. Eu não entendi direito.
Queria que a senhora explicasse melhor, falou Mário.
_ Erradicação... Bem... Como Explicar? Foi o fim da lavoura do café. Os pés de cafés
foram arrancados por tratores ou cortados por machados. Toda a paisagem se modificou.
Nos morros onde reinavam os cafezais plantou-se o capim. Nos lugares planos as terras
foram mecanizadas, surgiram às lavouras de soja e trigo.
_ Nos tempos dos cafezais _ continuou a vovó _ muita gente trabalhava na lavoura.
Todo o serviço era braçal e a enxada era a principal ferramenta de trabalho. As famílias
eram numerosas. Dava-se a preferência as que tinham mais enxadas no eito. As mãos dos
lavradores eram grossas de calos de tanto puxar o cabo da enxada.. Trabalhava-se do
amanhecer até o anoitecer. Em cada propriedade havia a colônia dos empregados; ganhavase pouco, mas havia muita fartura. Ninguém comprava gás, pois a comida era feita no fogão
de lenha. A luz era da lamparina ou do lampião a querosenes. A água apanhava-se na bica
ou diretamente na mina. Os filhos dos patrões e os filhos dos empregados eram todos
iguais, brincavam com os mesmos brinquedos, improvisados a moda da rosa, nada era
comprado. Uma bola de meia já fazia a alegria da garotada. Jogava-se também a bugalha e
o jogo de felipe de café. Todo moleque tinha um estilingue no pescoço. Nisso eu sempre fui
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contra, pois matavam sem piedade os pobres passarinhos. Nadar no rio era a principal
aventura e sem falar no pavor das mães. À noite as brincadeiras de roda eram
superdivertidas, até os adultos participavam. Quando não brincavam, as crianças se reuniam
ao lado dos tios em frente às casas, sentados em bancos de madeiras ou no chão, ouviam
lindas histórias dos tempos do sertão.
Na roça tudo terminava em festa: festa para se comemorar o fim da colheita,
casamentos, batizados... Festa na capela do bairro. Como eram lindas e concorridas as
festas de São Sebastião. A capelinha ficava cheia de gente!...
Vinha gente de muito longe, a pé, a cavalo. Muitas rezas. Leilões, sem falar nas
procissões dos devotos.
Quantos bailes se dançavam nas tulhas de café, ou nos terreirões! Havia apenas um
sanfoneiro no meio da barraca e o povo arrastava o pé a noite inteira.
Quando chegava o mês de junho era o tempo das festas juninas: Santo Antônio, São
João e São Pedro. Rezava-se o terço, levantava-se a bandeira do santo sobre um mastro e no
calor da fogueira, velhos e crianças, todos se divertiam animadamente enquanto
conversavam ou contavam causos. Soltavam muitos fogos de artifício. O bom mesmo eram
os bolos de fubá, o quentão, a pipoca, o pé-de-moleque, o chocolate, a rosca! Como se
comia e bebia naquelas noites frias de inverno!
No fim do ano era a festa de Natal! As famílias se divertiam muito. Todos reunidos
realizavam um verdadeiro banquete! Muita comida: frango e leitoa assados, macarronada,
vinho, refrigerantes, castanha portuguesa, nozes, avelãs, passas de uvas e de figos. O dia de
natal era a maior festa do ano.
A festança continuava no dia de ano-novo. O ano começava em festa e terminava
também em festa.
Com o fim da lavoura de café tudo isso acabou. O terreirão e a tulha são o que ainda
restam desse tempo que parece que foi um sonho.
Bruno dormia encaracolado na rede.
_ Xi, como esse moleque ronca! Parece um porco, criticou Mário.
_ Deixe o Bruno em paz, ralhou à vovó.
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Debaixo do banco de madeira, Filomena e Zangado também tiravam uma pestana. De
vez em quando, Zangado sacudia as orelhas com fúria: deviam ser as malditas pulgas que o
atormentava, até mesmo quando estava dormindo.
Amelinha, muito emocionada com o saudosismo da vovó, tenta retomar o diálogo.
Entretanto sua voz ficou bloqueada, ao perceber que os olhos da vovó estavam merejados
lágrimas. Apesar da idade, vovó Aurora ainda era muito conservada. Seus cabelos de
nuance prateada, davam-lhe uma feição deslumbrante, de uma beleza rara, com uma pele
sem rugas e sedosa. Amelinha conseguiu controlar a emoção. Com um lencinho branco
enxuga as lágrimas da vovó. Em seguida dá um beijo gostoso naquela face encantadora.
_ Vovó, eu adora a senhora. A senhora é a pessoa a quem eu mais quero bem no
mundo.
Mário também se aproxima ainda mais da vovó, ficam os três abraçados
silenciosamente, contemplando a natureza.
Lá fora, bem próximas da varanda, as guaches faziam os seus ninhos nos pés de
coqueiros, cujas folhas verdes dançavam ao leve toque do vento. Como era belo ver aqueles
pássaros de tamanho médio, multicoloridos tecendo os ninhos com o bico artesanalmente!
Até pareciam sacolas penduradas nas folhas das palmeiras.
Ficariam os três ali na varanda calados e abraçados por horas e horas sem fim. Mas o
silencio foi interrompido. A boa e estimada negra Tiana entra na varanda toda sorridente:
_ Uai, pessoal. Parece que tá havendo um velório por aqui. Ninguém conversa...
Ninguém ri... Xi!... Tava até pensando lá na cozinha que o povo daqui tava dormindo.
Então resolvi dar uma espiada e aproveitá pra dizer que o café loguinho fica pronto. Vê se
anima gente. Cara de tristeza não paga dívida.
_ Tudo bem Tiana, respondeu a vovó Aurora laconicamente.
_ Já tô de volta para a cozinha, D. Aurora.
Com o banzé da negra, Bruno, Zangado e Filomena acordaram. A barriga do Bruno
estava roncando.
Num piscar de olho, sem que houvesse tempo para uma retomada no diálogo, a negra
Tiana está de volta à varanda e vai logo esparramando seu vozerio.
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D. Aurora! D. Aurora! O café tá pronto, tá do jeitinho que as crianças adoram! Fiz até
uma torradinha pra “vance”... Venham logo, se não o chocolate fica frio.
_ Tudo bem, Tiana. Se for para comer então vamos.
Todos seguiram Tiana. Zangado e Filomena também foram atrás. Sempre acaba
sobrando alguma coisa apetitosa para os gatos e cachorros.
A mesa da vovó sempre foi farta, mas nesse dia Tiana caprichou até demais: pão,
manteiga, torrada, presunto, queijo, lingüiças de porco, curadas a capricho no varal
estendido sobre a fumaça do fogão a lenha, uma delicia, como se fossem salames. Para
completar a mesa: fatias de melão, de melancia, café, chocolate com leite. E para a alegria
do Bruno, o tão desejado doce de batata-doce. Todos comeram com muito apetite. Só
Bruno passou dos limites. Comeu tanto, mas tanto, que ficou com uma dor terrível na
barriga. Só não foi parar no hospital de Sertanópolis graças ao milagroso chazinho de losna
que Tiana teve que fazer as pressas.
_ Tá melhor, Bruninho? Perguntou Tiana.
Bruno com seu olhar de moleque malandro, encarou a negra e respondeu:
_ Credo! Só não gostei do amargo da losna! O resto tava uma delícia! Já tô com
vontade de comer novamente.
_ Chega de falar em comer, só pensa nisso. Esse moleque parece um saco sem fundo,
ralhou Amelinha.
A conversa ainda continuou por mais de meia hora. O assunto, como não poderia
deixar de ser, continuou sendo sobre a dor de barriga do Bruno. Depois do susto vem à
risada, e todos deram boas gargalhadas. Só Bruno não achava graça alguma em toda aquela
algazarra.
De volta para casa dos pais, as crianças ainda pararam debaixo de uma goiabeira. É
que no galho mais alto da árvore avistava-se uma linda goiaba madura. Mário não resistiu à
tentação. Com muita habilidade _ como se fosse um macaco _ foi subindo, subindo... Só
não conseguiu apanhar a fruta porque num dos galhos ao lado havia uma caixa de
marimbondos. Se tentasse seguir os impulsos, seria fatalmente picado pelas vespas
venenosas. O remédio foi descer totalmente frustrado...
19
_ Esses marimbondos me pagam. Amanhã vou derrubar a caixa deles com uma
pedrada de estilingue e depois a goiaba irá parar no meu bucho. Ah, isso vai acontecer
mesmo, senão eu troco de nome. Podem me chamar de Perna Torta ou de Maria Fedida.
Amelinha tem pressa:
_ Vamos logo para casa, tá ficando tarde.
Mário e Bruno ainda continuam olhando para a goiaba madura.
Um sanhaço pousa bem ao lado da fruta. Os marimbondos permanecem totalmente
alheios, dando uma prova de que existe equilíbrio, harmonia e muita paz na natureza. O
sanhaço bica com apetite o delicioso fruto. Depois de ter comido parte da goiaba, o
pequeno pássaro agradece ao Deus Supremo com seu maravilhoso canto... E como canta
bonito esse passarinho que tem a cor do céu.
20
4
Sábado na roça é um dia especial. Mário acordou cedo, da maneira como é
acostumado acordar todos os dias. Apesar de ter dormido bem, não acordou tranqüilo. Há
qualquer coisa mal resolvida em sua mente infantil. Deveres escolares?... Não! Aos sábados
não há aula e naquele dia também não havia tarefa. Enquanto rola na cama, tenta descobrir
a razão daquele tormento. Devem ser seis horas da manhã. Tal conclusão vem de uma
restinga remanescente de floresta, bem ali pertinho da casa, onde centenas de pássaros
fazem o gorjeio matinal. Não sabe quando e nem de quem ouviu dizer que os pássaros
começam a cantar às seis horas da manhã, verdade ou não, tal afirmativa fica por conta do
dito popular.
Enquanto contempla o telhado negro cheio de picumã das lamparinas de querosene,
ouve nitidamente o murmurar sonoro e contínuo da bica d’água... Um porco aflito grita
desesperadamente no chiqueiro. Deve estar entalado... Também esses porcos não podem
ver uma fresta na cerca que mal cabe o focinho e já tentam fugir... Será tão difícil assim a
vida de porco no chiqueiro? O porco parou de gritar. Deve ter sido desentalado pelo tio
Manuel ou se desentalou sozinho. No brejo a saracura três-potes começa a cantar. Como
pode um pássaro magrelo de pernas compridas cantar tão alto? _ “Quebrei três potes...
Quebrei três potes”... Que tipo de canto mais engraçado! Quando a saracura canta é sinal de
chuva. Essa profecia Mário aprendeu com o tio Américo... Então vamos ter um sábado e
um domingo chuvoso. _ Era um turbilhão de pensamento que lhe passava pela cabeça.
Lá da cozinha vinha um cheiro gostoso de café quentinho. O pai dava conta de sua
primeira tarefa matinal.
_ Ah! Lembrei-me do que eu vou fazer hoje, _ pensou Mário quase que em voz alta,
ainda na cama. _ Hoje eu vou derrubar a caixa de marimbondos lá da goiabeira.
_ Bruno, Bruno, acorda!
_ Me deixa dormir resmungou Bruno.
Mário não desiste. Levanta-se a vai até a cama de Bruno:
_ Você vai ou não vai comigo derrubar a caixa dos marimbondos?
_ Vô sim, espera eu dar uma espreguiçada para espantar o sono.
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_ Levanta logo que eu já tô indo.
Mal tomaram o café, Mário apanhou o estilingue que estava pendurado num prego
atrás da janela do quarto, procurou pela mucuta de pano, encontrou-a no balaio das roupas
sujas. Uma vez munido do que procurava, juntou-se ao irmão e saíram à procura das
pedras. Pularam a cerca de pau a pique do chiqueiro dos porcos e foram até o riozinho.
Escolheram dezenas de pedrinhas, como se fossem bolas de gude e foram até a goiabeira:
_ Cuidado Mário. Vê se acerta na primeira pedrada. Ouvi dizer que os marimbondos
quando são agredidos ficam furiosos.
_ Deixa comigo. Vou mostrar para esses marimbondos toda a minha pontaria.
Mário procurou uma posição apropriada depois de estudar bem o local. Ordenou a
Bruno que ficasse bem escondido debaixo de um arbusto ao lado da goiabeira. Mirou bem a
pontaria e mandou para os ares uma pedrada certeira. Só se ouviu um barulho oco “pufe”...
Era uma vez uma caixa de marimbondo no galho da goiabeira. Veio ao chão espatifando-se
em dezenas de pequenos pedaços. Mário Correu rapidamente para debaixo do arbusto onde
já se encontrava Bruno.
As vespas, aos milhares, zuniam furiosas voando de um lado para outro, a procura dos
malfeitores.
_ Vamos ficar de bico calado, senão estamos frito _ Cochichou Mário nos ouvidos de
Bruno.
_ Dizem que os marimbondos fazem mel... Vou tomar um porre _ falou baixinho
Bruno.
Passara um quarto de hora e tudo em volta estava calmo.
_ Vamos esperar mais um pouco, disse Mário.
_ Chega de tanto esperar. Se você não é homem eu sou. Parece que tá borrando as
calças de medo desses marimbondinhos.
Qual foi a surpresa de Bruno.
Havia mel nos pedaços da caixa dos marimbondos, como se fossem gotas de
orvalho... Quando Bruno pegou uma parte da caixa em suas mãos e já ia levando-a na
boca... Centenas de marimbondos saíram dos destroços... Pobre Bruno!... Coitado do
Bruno!...
_ Foge, Bruno! Foge Bruno! _ gritava Mário com pena do irmão.
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_ Ai! Ai! Ui! Ai! Ui! Filhos da... de marimbondos! Vão picar a mãe, seus lazarentos!
Bruno foi nocauteado pelas vespas. Seu corpo ficou parecendo uma bola de tão
inchado. As vespas foram tão cruéis com Bruno que não pouparam nem mesmo o pipi:
ficou parecendo uma bola. Bruno gemeu e chorou o dia inteiro. Teve que tomar remédio
para abaixar a febre e tirar a dor.
A lição dos marimbondos valeu-lhe para o resto da vida.
23
5
Ao findar daquele mal fadado dia de sábado, principalmente para Bruno, os últimos
raios de sol foram ofuscados pela bruma da noite que se despedira sem o crepúsculo
avermelhado. É que para o lado dos morros de Bela Vista do Paraíso, se elevaram no
horizonte, nuvens negras, fazendo anoitecer em poucos minutos. Todo o vale do Cerne foi
fustigado por um terrível vendaval.
O vento que soprava a mais de cem quilômetros por hora vinha furiosamente
quebrando os galhos das árvores, destelhando as casas, derrubando quase tudo que
encontrava pela frente. Até parecia o fim do mundo.
Mário, Bruno e Amelinha, amedrontados, buscaram proteção debaixo da mesa da
cozinha, enquanto os pais acendiam velas, queimavam ramos bentos e rezavam para Santa
Bárbara.
Os relâmpagos eram tantos que clareavam a casa por inteiro a cada segundo. Os
trovões retumbavam nas quebradas dos morros, fazendo tremer o assoalho da casa. Aos
poucos a fúria do vento foi amainando e a chuva era tão forte que mais parecia uma cascata
d’água despencando das nuvens agredindo tudo o que havia na terra. Choveu
torrencialmente a noite inteira. Os rios transbordaram. Muitas pontes rodaram. Parte do
arrozal da várzea foi destruída.
A Saracura três-potes estava certa, o brejo onde ela havia cantado amanheceu coberto
de água, como se fosse um lago.
Aquele dia de domingo não foi um dia de descanso e sim de trabalho redobrado. Os
homens passaram o dia concertando a cerca do chiqueiro dos porcos, a parte que havia sido
arrastada pela cheia do riozinho, retocando os telhados das casas e desentulhando a lama da
estrada de acesso as casas.
As mulheres também não ficaram de braços cruzados, ocuparam-se com a limpeza
das casas.
As notícias que vinham pelos rádios, tocados à pilha, davam conta de que fora a pior
tempestade do século. As cidades da região ficaram certo tempo sem energia elétrica. Os
24
prejuízos nas lavouras foram incalculáveis. As terras férteis de Sertanópolis foram
devastadas pela erosão e foi à erosão o assunto principal da primeira aula após a
tempestade. A princípio a mestra falou do significado da palavra: depois passou da teoria a
prática levando os alunos a conhecer os estragos que as enxurradas fizeram nas terras
aradas ao redor da escola.
Aproveitando o gancho, a professora foi além com o assunto:
_ As enxurradas arrastam as terras férteis para os rios. Os rios de Sertanópolis vão
desaguar no Oceano Atlântico lá na Argentina...
_ O que? As terras de Sertanópolis estão indo parar na Argentina, perguntou Amelinha
todo indignada. _ As terras são nossas e não dos argentinos!
_ Não é bem assim, respondeu a professora. Parte das nossas terras fica depositada
nas margens dos rios, outra parte fica nos fundos das represas e uma menor quantidade
segue pelos rios a baixo, sabe-se lá onde vão ficar depositadas.
A professora aprofunda-se ainda mais nas explicações:
_ O pior é que as nossas terras estão ficando cada vez mais fracas e improdutivas.
Podem ser recuperadas com adubo, mas isso encarece muito. O certo mesmo é combater a
erosão.
_ Como combater a erosão? Perguntou Amelinha.
_ Bem, Isso já é um assunto mais delicado. Acho melhor trazer um agrônomo de
Sertanópolis para dar uma palestra não só para vocês, como também para todos os
agricultores do bairro.
Por unanimidade os alunos aprovaram a idéia da mestra.
_ Assim que as estradas e as pontes forem concertadas, vou pedir para o Sr. Valdemar
que é agrônomo da Cooperativa. Com certeza ele irá aceitar o meu pedido. Vamos reunir
centenas de pessoas aqui na escola para ouvir e aprender tudo sobre erosão, concluiu a
mestra.
Nunca uma aula foi tão interessante e produtiva. Mário e Amelinha voltaram para
casa sem nenhuma pressa. Pararam várias vezes no caminho para avaliar o estrago da
erosão.
_ Isso não pode continuar acontecendo, disse Amelinha.
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_ É bom que esse tal de Agrônomo venha logo ensinar o papai a combater a erosão,
falou Mário, um tanto pensativo e triste.
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6
Passara-se certo tempo. As estradas e as principais pontes foram concertadas, só ficou
o rastro da tempestade marcado pelos quatro cantos do bairro, principalmente nas terras
mecanizadas.
Foi numa manhã de domingo que o povo da querência, a convite da professora, se
reuniu diante da escola. Podia se contar entre alunos, pais de alunos e convidados, umas
duzentas pessoas.
Pontualmente, às nove horas, Sr.Valdemar chegou todo suado dirigindo seu fusquinha
69 de cor verde, a cor do veículo não era por acaso, o proprietário era defensor do meio
ambiente. O agrônomo foi saindo do carro limpando o suor da testa com um lenço branco,
apertando a mão da professora e das pessoas mais próximas. Passando pela multidão
chegou ao palanque improvisado pelos pais de alunos.
Já no palanque, cumprimenta a todos com um sonoro bom dia e um sorriso discreto.
Sem fazer rodeios e sem contar milongas vai logo justificando a razão de sua presença.
_ Foi para falar sobre erosão que fui convidado pela professora Perpétua... Pois Bem.
O que é a erosão?
Posso dizer, com palavras simples, que a erosão é uma das piores desgraças do século
XX. Por isso, é preciso acabar com a erosão antes que ela acabe com as terras de
Sertanópolis. A erosão é um grande mal que deve ser combatido por todos os agricultores.
São os homens os únicos culpados pela erosão. Nos tempos das florestas as águas dos rios
eram límpidas e cristalinas e as nossas terras eram sem dúvida, a melhores terras do Brasil.
Com o advento do café as florestas foram derrubadas. Os cafezais foram plantados nos
lugares mais altos e o capim para o gado nas baixadas e a conservação do nosso solo foi em
parte preservada por algumas décadas.
Com a erradicação do café, aconteceu o contrário, nos morros onde verdejavam as
lavouras cafeeiras se plantou capim e onde reinava o capim as terras foram mecanizadas,
surgindo assim uma nova era na agricultura sertanopolense e brasileira, a soja passou a ser
a principal riqueza do Brasil.
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A mecanização de nossas terras não atende os padrões tecnológicos, não pode ainda
ser comparada com a dos paises mais adiantados. O homem pode mudar a natureza, mas
quando esta é agredida vem logo as reposta. Não, a natureza não é vingativa. A natureza
não tem culpa pelo desmatamento agressivo provocado pela ambição humana. A natureza
não é responsável se o homem tudo tira dela e nada dá em troca.
Não é só arar as terras, plantar sementes selecionadas, combater as pragas e as ervas
daninhas com inseticidas e herbicidas, sem ter a devida atenção com a conservação do solo.
Sabe-se que até o presente momento, em nossa região, ainda não foi declarada guerra
à erosão. Os agricultores não tomaram consciência do mal que ela representa. A terra
quanto mais mecanizada, mais indefesa se torna. Abaixo de sua camada fofa, ela fica
compactada pelo processo continuo da mecanização. A compactação do solo faz com que
ele fique impermeável às águas das chuvas. Não havendo infiltração acontecem as
enxurradas e, consequentemente a destruição do solo provocando inundações nos rios.
Vamos combater a erosão. Para que isso aconteça serão necessárias grandes
mudanças quanto ao hábito de se trabalhar a terra, a começar pela descompactação do solo,
construir as curvas de nível nos terrenos inclinados, reflorestar as margens dos rios e os
morros e por que não o plantio direto que já é tão praticado nos paises desenvolvidos?
Quando os agricultores tomarem consciência do que estou falando e colocarem em
prática as regras que estou ditando, tenho absoluta certeza de que uma nova era vai reinar
no campo!
Com essas palavras provocativas seu Valdemar encerrou a palestra.
A conversa ainda prossegue. O agrônomo teve que responder muitas perguntas feitas
pelos agricultores.
Vovó Aurora e sua fiel companheira também se faziam presente naquela reunião.
_ Puxa, como esse homem fala! Resmungou Tiana.
_ É Tiana. Nos bons tempos do meu marido José, tudo era diferente. Hoje as coisas
mudaram muito.
_ Xi! Dona Aurora, não acredito nessa baboseira não! O pobre ‘agricurtô’ já nasceu
sem sorte. O coitado dá um passo pra frente já escorrega does pra “trais’. É que nem boi no
atoleiro: quanto mais luta para desatolar, mais as patas afundam na lama. Isso não tem mais
concerto não “muié’. Essa história de palavras bonitas não resolve nada.
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A senhora patroa, mesmo não concordando com o discurso da companheira, deu uma
risadinha forçada e disse:
_ Está bem Tiana! Vamos procurar o caminho da casa que já são horas de se fazer o
almoço.
Toda a multidão se dispersou pelos mais diferentes caminhos do bairro. Cada um
levou consigo novos planos para o futuro. Os mais entusiastas voltaram as casa sonhando
acordado com uma magnífica revolução no campo.
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7
O mês de dezembro bastante chuvoso anunciava a chegada do natal que prometia
inesperados acontecimentos.
As lavouras de milho, arroz e soja, o que restou do temporal, havia se recuperado
com tamanha facilidade. Tudo que se podia avistar no horizonte mais se parecia com um
tapete verde. O sorriso havia retornado aos semblantes dos agricultores.
No casarão da vovó a ausência dos netos já era notória e reclamada.
_ O que poderia estar acontecendo com aqueles danadinhos? Pensava Tiana. _
Estariam doentes? Não! _ É que o mês de dezembro as obrigações escolares, durante há
primeira quinzena, ocuparam o tempo ocioso das crianças. As provas do quarto bimestre, os
exames finais...
Mário e Amelinha tiveram que estudar muito, mas os esforços não foram em vão,
obtiveram as melhores notas da escola.
O início das férias não podia ser melhor com a notícia da chegada do tio Carlito.
Tio Carlito, para que todos saibam, além de ser o caçula da família, foi o único a
conquistar um diploma universitário... Médico, sim senhor!... E dos bons. Para a
infelicidade dos sertanopolenses, tio Carlito escolheu a cidade de Curitiba para exercer a
sua profissão e por lá fez nome, fama e muita riqueza. Casou-se e criou seus filhos.
A distância que o separava do Cerne fez com que ele se tornasse uma criatura muito
querida e carismática. Era o senhor dos senhores para os adultos e o príncipe encantado da
criançada. A presença dele no sítio, quase sempre acompanhado pela esposa e raramente
pelos filhos, já era sinônima de alegria, de pescarias fantásticas! Caçadas imperdíveis!
Passeios mirabolantes! Um contador histórias que fazia os sobrinhos arregalarem os olhos
de tanta curiosidade. Tio Carlito era um verdadeiro artista, um palhaço e sem contar as
inúmeras safadezas que fazia com as crianças. Sempre estava aprontando algumas de seu
variado repertório. Como por exemplo: colocar paina nos narizes melequentos das crianças,
ou então abaixar os calções de elásticos dos sobrinhos deixando-os com o pipi tomando
vento, enquanto a vítima puxava rapidamente o calção, a galera caia na raizada.
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O casarão ficava em festa com a presença do tio Carlito. As visitas não paravam de
chegar: vinha gente de todos os lugares para apertar as mãos do filho mais ilustre do Cerne.
Uns vinham para matar saudades antigas, outros para fazer algumas consultas. Nem mesmo
em férias aquela criatura tinha descanso. Convivia maravilhosamente bem com todos, sem
causar frustrações a ninguém.
Os que mais se beneficiavam do tempo livre do tio eram os sobrinhos. Eram eles o
“xodó” do tio coruja. Para Amelinha trouxe de presente uma coleção do dicionário Aurélio
encadernado e ilustrado. Para Mário trouxe dois livros de Monteiro Lobato; Viagem ao Céu
e o Sítio do Pica-pau Amarelo; para Bruno, que ainda não estudava, o presente foi um par
de botinas.
No primeiro contato que teve com os sobrinhos, além de distribuírem os presentes
sem perda de tempo, já traçaram o roteiro da primeira aventura.
Sim... Um passeio na mata do Marcelino que ficava na seqüência do Morro do
Gabriel. A mata era a maior reserva florestal da região: um verdadeiro paraíso ecológico!
Muitas aves de todos os tamanhos e cores, algumas de canto maravilhoso. Muitas espécies
de animais selvagens, sem contar com uma flora quase que intocável. Em parte livre das
mãos devastadoras dos homens. Tal era a ansiedade de Mário, Bruno e Amelinha que
naquela noite o sono custou-lhes a chegar.
Pensava Amelinha: _ ‘Até que em fim vou conhecer uma mata quase primitiva. Ah!
Quero colher avencas, samambaias, orquídeas e mil flores silvestres. Quero sentir o
perfume de todas as flores do mato, comer frutos da selva, beber água na fonte e, se
possível quero descansar e até dormir sobre as sombras das árvores centenárias.
Os pensamentos de Mário também iam além da imaginação: ver com os próprios
olhos uma floresta, quase como a dos tempos dos pioneiros. Sabia que não ia encontrar nem
índios e nem onças pintadas, certamente iria encontrar centenas de outros animais
remanescentes. Não via a hora de se embrenhar como um bandeirante por entre aquelas
árvores seculares, que somente eram vistas a distância. E agora havia chegado o momento
de desvendar todos os mistérios e segredos que o criador do Universo ainda reservava para
o seu deleite. Bem ali tão perto de seus olhos e tão desconhecido dos seus pés ainda tenros
de meninos.
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Bruno estava angustiado, ficar fora do passeio não estava nos seus planos, mas à
distância, os mosquitos, os espinhos, o sol quente, o medo de passar fome e sede, o medo
de se perder na selva e principalmente o medo dos marimbondos que habitavam na
floresta... Por outro lado seria uma ótima oportunidade de estrear as botinas novas. Rolava
na cama. Ora pensava em ir ao passeio, ora achava melhor não ir e assim tão cheio de
dúvidas ficou até que o sono tardio o levou para uma outra viagem... A viagem dos sonhos
e os sonhos não foram de anjos e nem de espíritos malvados, apenas sonhos de uma criança
na flor da idade.
O dia amanheceu cheio de raios dourados e os pássaros fizeram mais um gorjeio
matinal, daqueles que só quem mora no campo pode apreciar o quanto são belas as dádivas
na natureza.
32
8
Foram horas de expectativa. Para ser preciso, uma manhã inteira fora gasta nos
preparativos do passeio. Tio Carlito, com sua eterna mania de fazer tudo certo, nada podia
falhar. Nada devia ser feito sem o cumprimento das metas previstas.
Levar uma vasilha com água não era preciso, pois tio Carlito conhecia a palmo toda
aquela região. Sabia das dezenas de minas d’água que borbulhavam naturalmente em cada
grotão: levar o que comer também não era tão importante: por aqueles morros abandonadas
havia muitos pés de frutas, desde os tempos dos cafezais. Se a fome apertasse, não seria
difícil encontrar, naquela época do ano, mangas, goiabas, mamãos, bananas... Mesmo
assim, cada um arrumou o seu lanche, ou seja, um sanduíche de pão caseiro com lingüiça
de porco.
Depois do almoço, ao meio dia pontualmente, todos já estavam de prontidão na
varanda aguardando a hora da partida.
Tiana, por ordem da vovó Aurora, reforça o lanche dos aventureiros com uma vasilha
de plástico cheia de doces caseiros. Pelo cheirinho já se sabia que estavam uma delícia.
Tio Carlito, pela última vez, confere se tudo estava em ordem, reparou se as crianças
estavam usando sapatos de couro e roupas adequadas para enfrentarem os espinhos. Deu
um sorriso ao ver que Bruno estreava a botina nova. Colocou o facão na cintura, a
cartucheira no ombro esquerdo e o embornal com os lanches no outro ombro. Ordenou que
as crianças passassem repelente no corpo para afugentar os mosquitos e os pernilongos, fez
o mesmo no seu corpo.
_ Vamos, falou o comandante com um belo sorriso animador.
Era a ordem que todos aguardavam com muita ansiedade.
Os quatro aventureiros se despediram da vovó Aurora, logo atrás, sem ser convidado
zangado formava o quinto elemento. Um passeio na floresta à companhia de um cão nunca
pode ser rejeita, pois a floresta sempre guarda mistérios imprevisíveis. Desceram pelo pasto
abaixo na direção do Ribeirão do Cerne.
Chegando às margens do Ribeirão, tio Carlito parou para observar um pé de gabiroba
do mato que ele mesmo viu nascer e mesmo distante acompanhou seu crescimento, de ano
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em ano, a cada período de férias. Já era uma árvore adulta, de porte médio, de galhos
retorcidos, que guardavam como lembrança, amontoados de ciscos, marcas da última cheia
do ribeirão. Para sua alegria a árvore estava carregada de frutinhas amarelas já maduras.
Não resistiu ao convite e, com um pulo, apanhou um de seus galhos que gentilmente cedeu
sem ser preciso fazer nenhuma força, como se a árvore quisesse saudar aquela criatura tão
amante da natureza! Apanhou várias frutas, encheu os bolsos da camisa e das calças,
repartiu com as crianças, deu um adeus à árvore amiga e partiram. Logo atravessaram uma
cerca de arame farpado, na divisa do sítio e seguiram a caminhada na margem direita do
rio, rumo leste. Aos poucos o casarão foi ficando cada vez mais distante. Lá bem na curva
do rio onde as árvores formavam um verdadeiro bosque, era o local da travessia, havia
naquelas paragens sombrias uma pinguela que há muito tempo, uma das cheias levou-a por
água abaixo. Como o caminho se encontrava abandonado, não foi preciso improvisar uma
outra no local. Atravessar o rio não foi difícil, havia ali uma corredeira cheia de pedras.
Todos tiram os sapatos, arregaçaram as calças até os joelhos e, num piscar de olhos, já
estavam na outra margem. Zangado demorou um pouca mais. O danado resolveu tomar
alguns goles daquela água barrenta.
Do outro lado a primeira tarefa era subir um barranco de aproximadamente três
metros de altura. Logo além do barranco surge o primeiro imprevisto. Zangado, mesmo
sendo o último a atravessar o rio foi o primeiro a subir o barranco. Tão logo venceu
obstáculo começou a rosnar de uma forma muito estranha. Tio Carlito veio atrás, tomado
de espanto viu o cachorrinho todo arrepiado, já hipnotizado por uma enorme cobra urutu
cruzeiro, já preparado para dar o bote fatal no Zangado. Acenou para que as crianças não
subissem o barranco. Mal teve tempo para tirar a cartucheira do ombro e já disparou um
tiro certeiro. A enorme cobra morreu no local. As crianças queriam voltar dali mesmo.
Dizem que o veneno dessa cobra é mortal. Zangado foi salvo por um milagre.
Com um pedaço de pau seco, tio Carlito tirou a cobra do caminho e jogou-a em meio
ao capinzal. Uma vez superado o primeiro obstáculo, os aventureiros seguem cautelosos
por um trilho totalmente abandonado, onde o capim tomava conta de tudo. Tio Carlito ia à
frente fazendo uso do facão, logo atrás vinham às crianças e por último o zangado já
recuperado do susto. Outra cobra era tudo que ninguém desejava encontrar.
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Assim que se livraram do capinzal tiveram a grata surpresa de avistar, a menos de
cinqüenta metros de distância as ruínas de algumas casas abandonadas, ao lado um velho
pomar: era o que restava de uma das muitas histórias, antes já contada por tio Carlito aos
sobrinhos. Ali haviam morado muitas famílias nos tempos dos cafezais. Depois de alguns
minutos de meditações, os aventureiros seguiram seu destino, que era a floresta do
Marcelino, e a caminhada se podia dizer que estava apenas começando.
Do lugar onde estavam até a floresta ainda tinham pela frente, no mínimo uma hora
de caminhada, não pela distância e sim pela falta de caminho aberto sem empecilhos.
Seguiram pelo antigo caminho da roça, também abandonado. Agora o tormento não era o
capinzal com cobras venenosas. Eram os incômodos carrapichos e picão que se agarravam
à roupa, causando um desconforto terrível: não só espetavam como causavam uma coceira
insuportável, principalmente nas penas. De quando em quando tinham que parar para se
livrarem daquelas pragas malditas. O suor não poupava ninguém, corria em bica pelos
rostos de todos. O sol ainda estava a prumo, era aproximadamente uma hora da tarde. Com
dificuldade foram galgando o morro. Alguns troncos de pés de cafés eram vistos de quando
em quando em meio a capoeira. Pararam para descansar em baixo de um pé de manga
espada, com muitas frutas maduras sobre os galhos. Ninguém resistiu à tentação,
saborearam vários frutos deliciosos. Lá do alto do morro, já bem próximo da floresta, na
direção contrária avistava-se o Casarão da vovó e a casa onde as crianças moravam.
Ao lado do pé de manga havia uma mina d’água. O que era normal, pois naqueles
morros, em tempo de chuva brotava água por todos os cantos. Enquanto saboreavam os
frutos, também mataram a sede. Descansaram ainda alguns minutos, tempo suficiente para
se livrarem dos carrapichos e dos picões,
_ Avante guerreiros! Era a voz do comandante, rumo à reta final da jornada.
O que todos queriam era chegar à floresta o mais rápido possível. Enquanto
caminhavam, esta foi ficando cada vez mais próxima. Já se ouvia o cantar da passarada. Em
poucos minutos lá estavam os aventureiros diante daquela maravilha exuberante, toda
verde. Era mesmo um outro mundo de cores, sons e ruídos diferentes. O gorjeio dos
pássaros se misturava com as cantigas de milhares de cigarras e o vento que soprava nas
folhas das árvores tinha um som indescritível. O aroma das flores e dos frutos silvetres
impregnava o local de maneira tentadora. Era mesmo um convite fascinante e irresistível.
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Livraram-se dos últimos picões e carrapichos. Tio Carlito passa as últimas instruções e já
começam a se embrenhar na floresta. O comandante vai à frente abrindo caminho com o
facão. Tinham que voltar pelos mesmos rastros, Razão pela qual era preciso deixar as
marcas, ou seja, galhos cortados, troncos de árvores repicados com o facão. Logo na
entrada da floresta foram surpreendidos por um bando de macacos que saltavam de uma
árvore para outra com tamanha agilidade, dando as boas vindas aos visitantes. Ficaram
todos parados admirando os trapezistas da floresta.
_ Tô com medo, disse Bruno.
_ Podem ficar tranqüilos, os macacos não fazem mal algum ao homem, falou tio
Carlito.
Continuaram a caminhada. A mata era sombria e escura.
_ Cadê o zangado? _Falou Amelinha.
_ Zangado!... Zangado!... Zangado!... _ Nada do cachorrinho, nem um só latido.
_ Logo o zangado aparece. Os cachorros são mesmo assim. Na floresta eles se sentem
liberados, breve ele encontra o nosso faro e virá ao nosso encontro, disse tio Carlito.
Em menos de meia hora, sem se importarem com a ausência de Zangado que ainda
não havia retornado, estavam eles diante do primeiro grotão. Desceram o barranco com
muito cuidado se agarrando nos troncos das árvores. Lá no fundo do grotão corria um
riozinho de águas cristalinas. Novamente mataram a seda, lavaram o rosto, molharam as
penas para amenizar a coceira causada pelos carrapichos e picões. Comeram os lanches e os
doces caseiros, já do outro lado do grotão descansaram um bom tempo às sombras de uma
enorme figueira. Começaram a ouvir um barulho estranho vindo na direção onde estavam.
Mais uma vez o medo tomou conta das crianças. Tio Carlito ficou em estado de alerta com
a cartucheira na mão pronta para atingir o alvo. O barulho veio vindo, veio vindo e cada
vez mais perto, até que...
_ Nossa! Que bichão! _ Falou Bruno todo arrepiado.
_ Que maravilha! É uma anta, disse tio Carlito.
Todos ficaram admirados com o tamanho do animal que seguiu o seu percurso água
abaixo, sem notar os visitantes. Dali para frente foi um verdadeiro desfile de animais.
Enquanto caminhavam encontraram, cotias, serelepes, porcos-espinhos, catetos, e até uma
jaguatirica pode ser vista na galhada de uma árvore.
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_ Que pena não ser uma onça pintada, disse Mário! _ Pelo menos era uma oncinha
pouco maior que um gato... Mas era uma onça.
Ninguém mais temia a floresta. Tio Carlito não só denominava os animais, as aves e
as árvores, como também ia explicando tudo que encontravam aos sobrinhos. A floresta era
encantadora, misteriosa, mesmo limitada parecia não ter fim. Respiravam um ar puro, as
sombras das árvores que suavizavam o ambiente selvagem. Chegaram a ter inveja dos
índios... Aquilo sim que era vida... Muita sombra e água fresca. Passaram três horas na
floresta, passariam à vida inteira, mesmo assim, com certeza ela ainda teria novidades para
mostrar, para ser estudada, para se descobrir, nem se lembravam mais do pobre Zangado.
Infelizmente havia chegado à hora de voltar. Seguiram as marcas deixadas, bastante
visíveis. Mais uma vez encontraram o bando de macacos. Passaram pelo grotão, lá estavam
às pegadas ainda frescas da anta. Quando já estavam quase saindo da floresta ouviram um
barulho confuso. Pararam para ouvir. Aproximaram-se um pouco mais na direção... Era
como se fosse o grunhido de um cachorro.
_ É o zangado, disse Amelinha. Coitado! Ele deve estar correndo algum tipo de
perigo!
A passos lentos, perfilados, cautelosos, todos seguiram a caminhada. Zangado havia
perseguido um tatu que buscou proteção na sua toca. O ingênuo cachorrinho foi em sua
captura. Só se ouvia um grunhido bem baixinho lá no fundo do buraco do tatu. E agora?
Como salvar o Zangado?
_ Se ao menos tivéssemos um enxadão para cavar, falou tio Carlito.
_ Zangado!... Zangado!... Zangado!... Gritou desesperadamente Amelinha bem na
estrada do buraco. Parece que o cachorrinho ouviu o seu clamor e foi saindo de ré até ficar
por inteiro fora da toca. Estava irreconhecível de tanta terra que cobria os seus pelos, tinha
terra até nos olhos. A alegria foi geral. Até mesmo zangado teve um dia de aventuras...
Primeiro foi a cobra urutu-cruzeiro que por pouco não o matou e por fim o tatu-galinha ou,
quem sabe um tatupeba ou um tatu-canastra. A verdade é que era um tatu.
No caminho de volta as casas ainda pararam no pé de manga espada, saborearam mais
alguns frutos e beberam água da mina. De onde estavam dava pra se notar que as chaminés
das casas soltavam uma fumaça branca, sinal de que a janta já estava quase pronta.
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Chegaram às casas ao anoitecer. Todos estavam cansados, mas muito contentes com o
passeio que haviam realizado. Uma bela lição de ecologia as crianças aprenderam: se os
homens tivessem preservado vinte por cento da floresta nativa, o mundo seria totalmente
diferente.
Só o reflorestamento pode salvar a planeta Terra.
38
9
Eram seis horas da tarde. Ao longe se ouvia o badalar do sino da capela de Nossa
Senhora de Fátima, convidando os fieis do bairro para a novena de Natal.
Lá estava o Sr. Tona Loução, cheio de pose, todo imponente puxando o badalo do
sino. Ninguém ficou sem receber auditivamente o convite para a oração. Em tais
circunstâncias as famílias das adjacências tinham por hábito jantar mais cedo, pois o terço
era rezado pontualmente às vinte horas.
Tio Américo era o rezador. Homem santo estava ali! Era mesmo um mensageiro de
Deus aqui na terra. Pai de numerosa família, uma criatura simples, humilde, caridosa e
prestativa. Um homem de poucos estudos, mas graças à paixão que tinha pela leitura falava
como um doutor. Sabia tudo sobre política nacional e internacional, tinha aprimorado
conhecimento sobre economia, história e geografia. Em se tratando de religião conhecia a
bíblia do começo ao fim. As suas mensagens, os seus ensinamentos, as suas preces, os seus
cantos sacros fluíam divinamente de sua alma pura com tamanha facilidade que cativava
até mesmo os que tinham um coração de pedra. Todos tinham por ele muito respeito e
admiração. Ninguém duvidava de que era ele o homem mais religioso e intelectual,
morador do Cerne.
Lá pelas dezenove horas o sacristão ligava o motor que fornecia energia elétrica para a
capela. Em seguida fazia repicar pela segunda vez o sino. Os fiéis vinham em grupos e em
poucos minutos o pátio da capela ficava repleto de gente. Enquanto se aguardava o início
do terço, o alto-falante bem na torre da capela espalhava músicas sertanejas para todos os
ouvintes. Os jovens passeavam ao redor do templo. As meninas ficavam agarradas na barra
das saias das mães. Os moleques atiravam carrapichos nos vestidos rodados das moças, os
homens conversavam sobre diferentes temas, principalmente sobre agricultura.
Tio Carlito também se fazia presente nessa noite; era ele a criatura mais solicitada nas
conversas de rotina. Ao seu redor formou-se um contingente de curiosos: alguns eram
colegas de infância. Todos procuravam saber alguma coisa daquele que era o doutor do
bairro. Este não demonstrava nem um pouco de orgulho da posição que ostentava. Dava
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atenção a todos. Quem não o conhecesse, nem diria que ali, em trajes simples, estava um
famoso médico da capital paranaense.
Mário, Bruno e Amelinha não desgrudavam um só segundo do tio. Até mesmo
durante o terço sentaram-se ao lado daquele que era o único herói, um príncipe de carne e
osso.
Se a reza do terço daquela noite para a maioria dos fiéis tinha algo de mito fervor,
para tio Carlito... Bem... A cada Ave-Maria ele viajava numa outra dimensão. Quantas
recordações! A capela de seus tempos de crianças e início de juventude era outra, num local
muito acolhedor, romântico. Que saudades da capelinha de São Sebastião! Lá bem no alto
do morro para que o santo pudesse contemplar todo o bairro e cuidar do rebanho de fiéis.
Era um morro especial que tinha qualquer coisa de mistério. Os ciprestes, os alecrins e o
capim gordura que ladeavam o templo impregnavam o local de um aroma inconfundível.
Era um perfume do campo, Um cheiro gostoso da própria natureza, onde todos se sentiam
inebriados com aquele odor tão contagiante e conquistador. Já a capela de Nossa Senhora
de Fátima era moderna, de alvenaria, espaçosa, ao lado da estrada, um local de fácil acesso,
mas que não tinha nada de romantismo ou de lirismo. Era apenas um templo religioso e
nada mais.
Lá pelo quinto mistério do terço, tio Carlito ainda estava pensado nos tempos dos
padres da época. Pensava também nas festas da matriz, nas cerimônias religiosas da semana
Santa, nas missas do galo, nos retiros espirituais, na Congregação Marina, no Apostolado
Coração de Jesus, nas Filhas de Maria e na Cruzada Eucarística. Quanta história para se
contatar! Quantas festas! Sem falar nas primeiras paqueras. Mas o tempo passou e voltar
atrás impossível! Estava ele ali diante do altar de Nossa Senhora de Fátima, revivendo um
passado maravilhoso, muito bem aproveitado nos curtos períodos de férias que desfrutava
na sua terra natal. Lá pelas tantas da ladainha surgiu-lhe a idéia de registrar todo esse
passado em um livro.
Naquela noite, de volta a casa da mãe, fez de tudo para continuar acordado. Os
pensamentos fluíam como revoadas de andorinhas. Era uma viagem infinita no mundo das
recordações. Passou a limpo toda infância e inicio de juventude. Pela madrugada afora os
galos cantaram várias vezes. Centenas de sapos coaxavam no brejo ao lado da várzea de
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arroz, até que dormiu como nos tempos que ainda era criança, quando ainda orava pelo anjo
da guarda, zelava as flores do jardim e brincava de contar estrelas.
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10
Mal o dia amanheceu Mário e Bruno já estavam subindo as escadas do casarão.
_ Benção, vovó! Bom-dia Tiana! E já vão logo perguntando pelo tio Carlito.
_ O tio Carlito ainda não se levantou, respondeu a vovó.
_ Xi! Como esses meninos são apegados ao tio, falou Tiana dando um beliscão
carinhoso na bochecha avermelhada do Bruno.
Enquanto aguardavam pelo tio, aproveitaram o tempo de uma forma apetitosa. Quem
é que podia resistir à mesa farta da vovó? Aquele café matinal com uma enorme variedade
de coisas gostosas para se deliciar até empanturrar.
Como sempre, nem precisa falar: Bruno ultrapassava os limites, pois tinha os olhos
maiores que a barriga. Como mudar a sua mania de comilão?
Tio Carlito se levantou e veio sentar-se à mesa com as crianças. Fez também sua
primeira refeição. Tranquilamente comeu de tudo um pouco.
_ Que tal uma pescaria hoje à tarde? Falou o tio de uma forma provocante.
_ Oba! Respondeu Mário já pronto para a aventura.
A parte da manhã fora gasta nos preparativos da pescaria: Arrumar as varas, arrancar
minhocas que sempre foi uma tarefa difícil. Naquele dia também não foi diferente. Tiveram
que cavar quase uma hora pra encontrar as benditas iscas.
Ufa! Até que enfim o problema das iscas estava resolvido. O preço não saiu por
menos de várias bolhas de sangue nas mãos finas do doutor.
Às duas horas da tarde lá estavam eles no Poço das Pedras, o mais sombrio e mais
profundo de todos.
Iscaram os anzóis e os arremessaram para dentro d’água suja. Quase barrenta toda
poluída. Pobre Cerne! Que desgosto para o tio Carlito: nenhum peixe beliscava os anzóis.
As primeiras iscas chegaram a mudar de cor de tanto tempo na água. Trocaram as iscas... E
nada, nenhum lambarizinho pra contar a história.
Do outro lado do rio havia um barranco de pedras e a seguir, uma capoeira. Até os
pássaros estavam em silencio, somente algumas cigarras zuniam nos ouvidos daqueles
pescadores sem sorte.
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_ Oba! Tio Carlito fisgou um peixe, gritou Bruno.
Era um lambarizinho tão pequeno, pouca coisa maior que o anzol.
Como o Poço das Pedras não estava para peixes, resolveram tentar a sorte em um
outro local, rio abaixo, na direção do Poço Comprido. Em outras épocas também era ótimo
para se pescar. Era lá onde o Tio Daniel matava curimbatás a tiro nos bons tempos do
sertão.
_ Bem, vamos tentar neste local, disse tio Carlito.
Era um local também sombrio, onde as águas faziam o remanso. O primeiro a jogar o
anzol na água foi Bruno, Mal o anzol afundou, já fisgou um peixe-cachorro. O guloso do
peixe engoliu o anzol. O doutor teve que fazer uma cirurgia de emergência pra tirá-lo da
barriga do peixe... Uma especialidade que ele sabia fazer como ninguém. Também pudera!
Era doutor em quase tudo! Infelizmente ele só não tinha solução e nem remédio pra curar a
maldita doença do Ribeirão do Cerne que estava morrendo, agonizando, pedindo socorro.
Ah! Se o tio Carlito pudesse, ressuscitaria o Cerne e fazia-o voltar como era antes,
com suas águas cristalinas, quase potáveis, com seus milhares de peixes, com suas pedras
negras limbosas, cheias de musgos nas partes emersas.
Agora o rio estava quase sem vida: as águas poluídas, os poços assoreados, as
margens totalmente modificadas. Estava ele ali no Poção Comprido com os sobrinhos,
matando saudades, mas com um nó na garganta de tanta revolta. Pescando sim! Peixe que
era bom, nada. Mais de duas horas de tentativas e só dois exemplares insignificantes foram
capturados.
_ Que tal tentar a sorte no Poço do Bebedouro? Tinha esse nome, pois era lá onde o
gado bebia água. Aqui também era bom de pesca, falou Tio Carlito, já quase desistindo da
pescaria.
Desceram um pouco mais e já estavam no Poço do Bebedouro. Pelo menos ali fluía
do barranco uma mina d’água. Essa mina d’água tinha história e poesia... E como tinha!
Um filho do Cerne que de tanto beber a sua água, estando um dia distante, escreveu os
seguintes versos:
“Mina d’água,
mina d’água,
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lá no fundo do grotão
corria manso o ribeirão.
Mina d’água,
mina d’água,
dos arvoredos ao lado
dos sabiás e das rolinhas
da passagem escorregadia,
de tantos rastros cansados.
Mina d’água,
mina d’água.
em teu barranco enfeitado
de samambaias
de avencas
e de musgos
em tua bica murmurante
quantas vezes matei
a minha sede”?
O poeta tinha razão: a água ainda era pura, fresquinha e o local acolhedor.
No Poço do Bebedouro deram prosseguimento à pescaria.
Também foi um fracasso.
_ Podemos disistir, disse ti Carlito.
Sabia que ainda havia outros poços. Poços mesmo só de nome. Antigamente tinham
profundidade... Hoje, quando muito não passam de meio metro. Esse é o preço que se tem
que pagar pelo progresso, pensou tio Carlito.
Isso sem contar às cartas que recebia de sua mãe, falando da matança de milhares de
peixe causadas pelo uso indiscriminado de agrotóxicos. Dá nisso mesmo... Hoje o Cerne é
um rio quase sem vida com tantos outros pelo Brasil.
Uma tarde inteira só para pegar dois peixinhos. Lá podia se chamar de pescaria?
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Uma perda de tempo total, mas pelo menos serviu para aumentar a sua revolta em
relação à mecanização da agricultura. Não que fosse contra, mas deveria haver outra
maneira de se atingir o progresso sem causar tanto impacto a natureza... Se ao menos as
águas do rio estivessem limpas, podiam passar o resto da tarde nadando no Poço do
Bebedouro, como fazia há muitos anos atrás quando ainda era criança. Nem isso era
possível!
Bruno ainda teimou em entrar na água, mas tio Carlito não permitiu.
Enrolaram as linhas nas varas, jogaram as iscas e adeus Cerne dos bons tempos que,
infelizmente, Bruno e Mário não chegaram a conhecer.
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11
Antes que os sobrinhos tivessem acordado, bem cedinho, tio Carlito se levantou sem
fazer barulho. Abriu à porta de acesso à varanda, contemplou o céu, nenhuma nuvem
existia.
O horizonte avermelhado anunciava um dia de muito sol. Desceu as escadas. Logo
estava caminhando a esmo sem ter hora prevista para voltar. Subiu pelo caminho do mato
onde um bando de gralhas com suas cantorias despertavam até mesmo as folhas das
árvores. Ao chegar à estrada que liga Sertanópolis a Bela vista do Paraíso, tão conhecida
como estrada do Cerne, parou por alguns segundos. A brisa da manhã era gostosa, o cheiro
da relva orvalhada dava testemunho de que a natureza teima em seguir o seu percurso
sendo guiada pelas mãos divinas, mas que tem no homem o seu principal rival.
Impulsivamente, movido por uma força estranha, os seus passos seguem na direção de
Bela Vista do Paraíso. Percebeu que não estava sendo guiado pelas próprias pernas e nem
pelo poder da mente, a sua cabeça viajava no tempo. Nenhuma outra força podia frear seus
movimentos, muito menos controlar o seu subconsciente que estava detonando como uma
bomba prestes a explodir.
Quantas recordações o tempo armazenava naquela cabeça fértil, raramente bloqueada
pelos tropeços da vida. Não, aquilo não era uma simples caminhada. Seria talvez uma fuga?
Uma viagem revivida num universo um tanto confuso? Estava girando como um satélite
fora de órbita. Melhor assim! Não seria preciso seguir rigorosamente o seu percurso. De
uma coisa ele tinha certeza: o local era o mesmo, mas a paisagem, quanta coisa havia
mudado! As poucas pessoas que até então cruzaram em seu caminho não eram conhecidas,
mesmo assim foram cumprimentadas com um sincero sorriso. Já estava além da ponte do
Cerne, na subida dos Nicolinos. Quantas transformações! Nada mais se apresentava como
nos tempos de antigamente, quando era menino. Sentia uma saudade que chegava a ser
gostosa. Só de pensar que aquela estrada, em outras épocas, o único meio de transporte era
o lombo dos cavalos, as carroças e os carros de bois.
Alguns anos depois a estrado do Cerne foi premiada com a jardineira do tio Felizardo.
Toda aberta, fogosa, subia e descia por aqueles morros na parte da manhã e na parte da
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tarde. Já era sem dúvida um meio de transporte moderno. Todos apreciavam viajar de
jardineira. Os homens fumavam grossos cigarros de palha: às vezes a fumaça era tanta que
até parecia que o veículo estava pegando fogo. As mulheres morriam de medo, rezavam
para tudo quanto era santo durante a viagem. Eram milhares de “ave-marias cheias de
graças” que subiam para o céu juntamente com a fumaça e a poeira da estrada. Em cada
subida as preces aumentavam. Qualquer erro na troca de marchas... Valha-me Deus!
Somente o barranco é que podia socorrer. Quando a viagem chegava ao ponto final, os
passageiros desciam dando graças a Deus, enquanto sacudiam a poeira da roupa ou limpava
o suor do rosto com um lenço. Quando chovia, ai então, a estrada ficava intransitável. Só
mesmo a cavalo. Os suprimentos paras as casas, normalmente era feito na cidade de
Sertanópolis. Comprava-se apenas o necessário: açúcar, querosenes e o sal. O resto, cada
um se virava com o que produzia.
O sol estava começando a esquentar, deveria ser umas nove horas. Resolveu votar, ou
seja, ele mesmo não opinava nada. Eram suas pernas que estavam como se fossem nuvens
levadas pelo vento. Enquanto voltava, resolveu descansar às sombras de uma das poucas
árvores que existiam na beira da estrada, no mais a plantação de soja quase invadia o leito
da estrada.
De lá onde estava tinha uma visão do morro arredondado do sítio onde nasceu. O
morro ainda era verde, mas não era o verde de sua eterna saudade, o verde escuro e viçoso
dos cafezais. Aquele verde sem graça da soja e dos capinzais não lhe provocava nenhuma
inspiração. Dava-se pra delinear nitidamente o antigo caminho da roça por aonde ele, em
tempos de menino, ia todo santo dia levar almoço para o pai e os irmãos mais velhos. Era
como se estivesse vendo a carroça sendo puxada por dois burros e uma mula: Peão,
Calçado e a Limeira. O carroceiro era o Daniel, seu irmão mais velho. A carroça ia
rangendo as rodas aos solavancos, batendo nas pedras, enquanto os animais fincavam os
cascos na terra tentando arrastar aquela carga pesada de café. O relho comia solto no lombo
dos animais. Daniel batia sem piedade e a cada relhada os animais se esforçavam ainda
mais. Enquanto suavam em bica, a carga chegava ao seu destino que era o terreirão de café,
e já voltavam sem descansar pelo mesmo caminho, para outra viagem, mais outra, até o fim
do dia. Assim era vida do carroceiro. Pobre dos animais! Lá ainda estava o caminho da
roça, um marco inesquecível do tempo como um poema lírico.
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Havia muito cascalho
espalhado pelo caminho da roça,
da roça que tinha
um caminho estreito, tão estreito
que mal cabia uma carroça.
Sentia-se ao longe
o azedume das frutas,
as mangas apodreciam aos montes,
as laranjas apodreciam aos montes,
montes que enchiam carroças.
Oh! Curvas fechadas
na minha eterna saudade
do caminho estreito da roça!
por lá hei de voltar
algum dia feito criança feliz
num passeio de carroça.
Tio Carlito tinha uma alma de poeta, era um sonhador, um saudosista, um amante da
natureza. Se dependesse dele o mundo seria completamente diferente.
Aquela caminhada insólita fez com que ele ficasse ainda mais perdido no tempo
presente. Ao chegar a casa, a mãe toda aflita o aguardava como se ele ainda fosse um
menino, quando sumia pelos matos, ou pelas margens dos rios sem ter hora prevista para
voltar.
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12
O Ano de 1987 chegava ao fim. Já era véspera de natal. Os preparativos para a
grandiosa festa eram sempre um misto de muito trabalho e alegria contagiante. Era dia de
se matarem as leitoas, os frangos, os cabritos, temperar as carnes, fazer doces, ornamentar
as casa e aguardar a chegada das visitas tão esperadas que normalmente, eram as de
parentes mais próximos.
Mário, Amelinha e Bruno, para eles o tão famoso Papai Noel era apenas uma lenda
contada na roça, apenas amigo das crianças da cidade, mas que nunca ‘deu as caras’ lá
pelas bandas do sítio onde moravam. Mesmo assim os sonhos de ganhar um brinquedo era
algo tido como certo. Mesmo que o presente fosse uma ferramenta de trabalho, isto é, uma
enxadinha, com a qual se podia até trabalhar na roça.
Na casa da vovó Aurora a grande atração era sem dívida o presépio de Natal, uma
tradição que herdara de sua mãe, que por sua vez herdara de seus antepassados vividos em
Portugal há muitos séculos atrás.
O presépio era um verdadeiro encanto. Sempre fora montado com muito esmero, com
um trabalho cuidadosamente artesanal. A casinha de palha era perfeita. As imagens de
barro davam um aspecto de pura originalidade. Era como se tudo aquilo tivesse vida e o
menino de Jesus fosse uma criancinha de verdade, sendo constantemente tocado e
acariciado pela mãe, a Virgem Santíssima. O São José tinha cara de carpinteiro. As
vaquinhas e os cordeirinhos ruminavam um capim gostoso de quase dois mil anos. Os reis
magos seguiam uma estrela de papel, muito brilhante, revestida de brocado. Toda a Belém
estava presente ali na Sala da vovó Aurora, longe, muito longe do rei Herodes e de todos os
soldados do Império Romano. Os montinhos de pó de serra coloridos assemelhava-se às
areias do deserto e o galho de cipreste da árvore de Natal exalava um perfume típico do
oriente.
Em tudo aquilo, tão simples e tão profundo, fluía naturalmente o espírito do Natal.
Para as crianças, o presépio da vovó Aurora era uma viagem no túnel do tempo. Era reviver
dois mil anos de história do cristianismo, tão bem contados pelo tio Américo. Tudo se
resumia num quadrado mágico de uma pequena mesa de madeira, com o poder de se
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transformar no tamanho da crença de cada um. O mais importante é que o presépio
simbolizava o nascimento de Jesus Cristo, o salvador da humanidade. Nisto todos
acreditavam, oravam com fé e admiravam-no com muita emoção. Na véspera do Natal,
antes da ceia, a família inteira ficava diante do presépio, fazia suas orações. Nessa noite
feliz, todos cantavam glórias ao senhor.
Naquela tarde de véspera de Natal, tio Carlito, a convite de seu cunhado Paulo, lá
pelas quatorze horas entraram no jipe, que era pau para toda obra, e seguiram viagem com
destino a Sertanópolis.
A principal razão dessa curtíssima viagem não podia ser outra, a não ser comprar as
bebidas e as frutas de Natal para a grandiosa festa.
O motorista seu cunhado, estacionou o veículo diante do Almeida Mercados que
nesse dia estava repleto de fregueses. Depois de cumprimentar os proprietários também
sobrinhos, tio Carlito trocou algumas palavras com o cunhado e saiu pelas ruas de
Sertanópolis.
Já nos primeiros passos sua mente é levada por um redemoinho misterioso. Deixa de
ser um adulto racional, que tudo faz premeditadamente. Havia se transformado num ser
sentimental, uma de suas virtudes, era então, um poeta nostálgico. Finge não ver a cidade
do presente. Sente-se a caminhar na Sertanópolis do passado.
É verdade que os tempos haviam mudado e muito... Que a cidade cresceu se
modernizou, que tudo ficou mais fácil: ruas asfaltadas, esgoto, água encanada, energia
elétrica...
É verdade que as ruas estão cheias de carros...
É verdade que as residências são hoje de alvenaria, fachadas modernas e até prédios
de apartamento...
Mas para que serve tanto modernismo? Se na cabeça de um doutor poeta o tempo não
passou, se teimosamente prefere a cidade de Sertanópolis de cinqüenta anos atrás.
Eram tempos em que às ruas eram cheias de buracos, ainda de terra, a energia elétrica
era oriunda de um possante motor, amarravam-se os cavalos diante das casas comerciais e
as ruas tinham nomes dos estados brasileiros.
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As casas comerciais da época eram todas muito modestas, a maioria eram de pequeno
e médio porte, porém muito bem sortidas, não havia supermercados. Eram as famosas
vendas de Secos & Molhados.
Que saudades do Clube Literário, quantas noitadas de carnaval!...
Que saudades da Livraria da Dona Eulina, a primeira aviadora de Sertanópolis e uma
das primeiras do Brasil, escritora, autora do livro “A Pequena Manicaca”!...
Que saudade do Aeroclube... Pobre garoto Odilon, que perdeu sua vida num acidente
aéreo!...
Que saudade da Vila Mineira, das cabras, que pastavam tranqüilas nas inúmeras datas
vazias nas proximidades da maquina de arroz do seu Sinésio!...
Que saudade dos times de futebol: o Palmeirinha e o B.A.C., quantos craques!...
Que saudades do padre Domingos, da construção da atual Igreja Matriz. Quantas
campanhas de café, leilões de gado e a grandiosa obra se tornaram realidade!...
Nessa viagem no mundo das recordações, o Dr. Carlito era mesmo um inveterado
saudosista. Três horas se passaram rapidamente que ele mesmo não acreditou quando olhou
no relógio.
Foi como num toque mágico, como que contar: um, dois, três e já. Tio Carlito
acordou. Não que estivesse dormindo, como quem diz: cai na realidade.
Seu cunhado já o aguardava no estacionamento do Almeida Mercados com as
compras feitas e acomodadas no velho jipe.
Na volta para casa, durante o percurso, aquelas duas criaturas pouco conversaram.
Somente o barulho do motor do veículo quebrava a monotonia do silêncio indesejável. Tio
Carlito ainda estava preso ao saudosismo premeditado.
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13
Finalmente o tão esperado dia de natal chegou. O raiar do sol, num céu sem nuvens,
prometia um dia de muito calor e tudo que se podia avistar era um imensidão verde, as
lavouras e os pastos estavam em estado de graça, pois chovera muito naquele final de ano.
A natureza estava em festa, era como se o menino de Jesus tivesse nascido novamente no
Vale do Cerne. As coleirinhas gorjeavam melodiosamente por todas as árvores frutíferas do
pomar. As andorinhas revoavam em bando, de quando em quando pousavam no telhado do
casarão, os filhotes dos guaches ensaiavam os primeiros vôos nas folhas dos coqueiros. A
brisa matinal, além do frescor, cheirava a relva orvalhada, havia fartura de frutas no pomar.
Zé Américo, como sempre reinava no curral. Era o retireiro do sitio, o responsável
pelo leite quentinho da mesa farta da vovó. Por falar no Zé... Era também um dos muitos
netos. Nunca foi dado ao trabalho da roça, mas em compensação tinha um jeito todo
especial para cuidar do gado. Executava essa tarefa com exímia perfeição e dedicação.
Não se pode negar que tinha um gênio tinhoso e os nervos à flor da pele. Às vezes
chegava a ser valentão. Era uma criatura imperativa, os amigos eram amigos pra valer e o
resto que se dane. Naquele dia de Natal a sua tarefa de retireiro terminou mais cedo.
Na roça os milharais cheiravam a melancia e a melões maduros. As melancias eram
tantas: verdes ou rajadas; cumpridas ou redondas; grandes ou pequenas; espalhadas pela
terra fofa e úmida. Em tudo reinava o espírito do Natal. Um cheiro apetitoso de carne
assada entrava pelas narinas fazendo crescer água na boca e a barriga roncar de apetite.
Cada criança esnobava um presente, mesmo sendo simples e barato, era o melhor
presente do mundo. Amelinha ganhou uma boneca de pano; Bruno, um carrinho de
madeira; Mário sorria todo contente com seu precioso presente: uma enxadinha duas caras,
novinha em folha cheirando a tinta, encabada num cabo de sapuva, prontinha para o
trabalho. Será que Mário estava a fim de capinar na roça ao lado do pai? E os estudos?
Vovó Aurora estava feliz, radiante. Até parece que havia rejuvenescido algumas
dezenas de anos. Era para ela, um dia muito especial. Muito católica. Sempre fora devota
do Menino Jesus. Seus olhos mágicos viam em cada criança, um verdadeiro Menino Jesus,
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em cada mulher, uma nossa Senhora, em cada homem, um São José. Nisso não há exagero,
era uma criatura do bem, havia formado uma numerosa família exemplar. Conseguiu passar
para os filhos e estes para os netos a tradição religiosa, o amor e o respeito para com o
próximo, a grandeza do trabalho. Pregava que o trabalho engrandece o homem e que a
felicidade está em se contentar com o que se tem. Era uma mulher realizada, feliz. O dia de
Natal completava essa felicidade.
Vovó Aurora estava eufórica, seus olhos brilhavam, a sua pele transpirava amor. Mas
lá no fundo do seu coração escondia um mistério, não era dor, não era tristeza. Era como se
fosse um aviso. Como se aquela reunião fosse à última de sua vida. Mesmo assim estava
feliz e somente isso é que importava. O resto ela entregava nas mãos de Deus. Sentia-se
preparada para o grande encontro com o Pai Eterno, a qualquer hora, a qualquer dia, a
qualquer minuto. Sabia que a sua vida não fora inútil, tinha razão de sobro para festejar e
agradecer ao Pai Supremo. Como ela se sentia orgulhosa de ser a matriarca de tão numerosa
prole!
Todos naquele dia de Natal comeram a vontade, beberam sem cometer exageros. A
comida estava uma delícia. Bruno estava no céu, não sabia o que comer diante de tantas
novidades. Só de petiscar um pouquinho de cada prato diferente já era o suficiente para
encher a barriga.
Muita conversa: risadas, piadas, discursos, músicas e danças. Foi um dia inteiro de
festa.
Antes do anoitecer _ Quando o sol beijava a linha do Horizonte _ Mário, Bruno e
Amelinha foram ter com o Tio Carlito que descansava numa rede amarrada entre dois
troncos de mangueiras, lá bem no fundo do pomar. O tio filosofa solitariamente. Gostava de
fazer esse exercício mental todos os dias. Do local onde estava tinha uma visão
deslumbrante, avistava-se a várzea de arroz, o Morro do Gabriel e lá na crista do horizonte
podia se ver a Mata do Marcelino.
O olhar de tio Carlito estava fixo na Mata do Marcelino. A sua cabeça, como sempre,
viajava no tempo. Até parece que foi ontem... Todo o vale do Cerne, o município de
Sertanópolis, o norte novo e o norte novíssimo do Paraná, tudo era uma só floresta. A partir
da década de 1920 é que começaram as primeiras derrubadas.
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Trilhões e trilhões de árvores vieram ao chão entre as décadas de 1920-1950... Quanta
coragem! Quanta luta! As árvores foram derrubadas de maneira desordenada, sem nenhum
tipo de controle ambiental, nem se pensava de preservação de pelo menos uma quinta parte
da floresta. Quanta ganância!... Nos meses de agosto e setembro o sol sumia na fumaça, que
por ironia representava progresso. Eram tardes tristes, o ar ficava pesado, o tempo abafado.
À noite então, era como se o mundo estivesse pegando fogo. Milhares e milhares de árvores
ardiam ao mesmo tempo. Era preciso limpar a terra, prepará-la para o plantio do café. Tinha
que ser assim... Como plantar café sem destruir a natureza? Hoje se sabe, graças à
tecnologia, que é possível plantar novos cafeeiros em terras já cultivadas, mas naqueles
tempos, as matas é que cederam espaço, para os aventureiros sedentos de riqueza, diante do
denominado ouro verde. Hoje se sabe também quando a natureza é agredida, quando o
homem ultrapassa os seus limites, o que já estamos vivenciando, ocorrem as mudanças
climáticas. Ora são as chuvas em demasia, oras são as secas devassadoras. O planeta Terra
vai sofrendo as conseqüências, sem contar com a extinção da fauna e da flora.
Mário, Bruno e Amelinha sentam-se ao lado do tio, a rede por pouco não desmontou.
Respeitaram o silencio do tio. Curiosamente ficaram meditando, raciocinando, tentando
adivinhar o seu pensamento, procurando encontrar uma pista que os levassem a mergulhar
de corpo e alma no mundo secreto do tio.
Sabiam que o seu pensamento vagava na direção norte, para o mesmo lado que
soprava o vento da tarde moribunda.
Mário, não se conteve, resolveu romper o silencio do tio e por acaso acertou em
parte. É que na direção norte, além da Mata do Marcelino, fica o pico mais alto de
Sertanópolis.
_ Tio Carlito, quando é que nós vamos conhecer o Morro do Cruzeiro?
Essa pergunta oportuna fez o tio revelar parte de sua meditação:
_ O Morro do Cruzeiro é um lugar muito bonito. De lá se tem uma visão
deslumbrante de todo o município de Sertanópolis. Pode-se também avistar muitas cidades
da região. Que tal realizarmos esse passeio depois de amanhã?
Todos concordaram e o tão esperado depois de amanhã, nas cabecinhas tenras dos
sobrinhos, demorou uma eternidade para chegar.
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Já que promessa é divida, restava ao tio Carlito pagar mais uma que havia prometido
aos sobrinhos: a do passeio ao Morro do Cruzeiro.
De acordo com a data combinada e os preparativos resolvidos, finalmente chegou o
momento tão aguardado. Levantaram bem cedo. O percurso era de aproximadamente dez
quilômetros. Para facilitar, tornar o passeio mais rápido e menos cansativo, utilazaram-se
do velho jipe do tio Paulo.
Tio Carlito, embora sendo um bom motorista não era dado a esse tipo de tarefa.
Acabou assumindo o volante demonstrando uma feição de pouco entusiasmo. Nem por isso
a viagem foi menos interessante. Logo estavam subindo o morro principal da estrada da
Água Morena. Amelinha começou a demonstrar sinais de que estava com medo, enquanto
contemplava a ribanceira, procurando conter-se fechou os olhos e começou a rezar bem
baixinho totalmente atarracada na poltrona, ficou durinha como uma estátua.
Já Mário e Bruno achavam tudo fascinante. Quanto maior o perigo mais eles se
sentiam entusiasmados. Era para eles aquela subida de morro como se estivessem numa
nave subindo para o céu.
O jipe, muito lentamente, foi galgando o morro. Os pneus carecas patinavam nos
pedregulhos. Com a força das rodas, as pedrinhas eram arremessadas para uma distancia
considerável. Amelinha continuava rezando. Tio Carlito permanecia fixo no volante: às
vezes dava a sensação de que empurrava o veículo com as mãos. Depois de vencerem
várias curvas perigosas, chegaram ao topo do morro.
_ Que lugar maravilhoso! Disse Amelinha
_ É verdade, respondeu tio Carlito procurando um local apropriado para estacionar o
jipe.
_ Puxa vida! Ninguém se lembrou de trazer uma máquina fotográfica? Falou Mário.
_ É verdade. Vai ter que ficar para outra ocasião, concluiu Tio Carlito dando uma
tapinha na cabeça do Bruno.
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Tio Carlito estacionou o jipe em um local bastante sombrio ao lado de um bosque de
eucaliptos. Do lado esquerdo encontrava-se a velha cruz de madeira, com aproximadamente
cinco metros de altura.
A cruz abandonada, naquele local desabitado dava nome ao morro. Em outras épocas
nos tempos do café existia ali, ao lado, uma venda. Era do senhor Nelson Gorine, uma casa
comercial bastante modesta, mas muito bem sortida. Tinha de tudo e uma ótima freguesia.
Muitas famílias moravam na redondeza. Ao lado da venda existia uma capela de madeira,
também muito bem freqüentada nos finais de semana e uma vez por mês o padre de
Sertanópolis celebrava uma missa no local. O êxodo rural foi responsável pelo abandono de
tudo, restou à cruz que fora plantada numas das Missões ocorridas em Sertanópolis, lá pelos
anos de 1960.
Subiram um pouco mais até onde estava a cruz. De lá a visão era deslumbrante.
Soprava um vento forte, o clima era agradável, mesmo em pleno verão.
Tio Carlito, mesmo não sendo professor, começa mais uma de suas aulas:
__ Vocês estão vendo que a cidade de Sertanópolis está localizada em um local
bastante plano, bem no vale do Rio Tibagi. É nesse vale que se encontram as melhores
terras do Brasil, a tão propagada terra roxa de origem basáltica, muito apropriada para
agricultura. Como vocês podem ver, toda a planície está coberta pelas lavouras de soja e
milho. Em outras épocas, no auge das lavouras de café, essas terras planas e baixas tinham
pouco valor devido à ocorrência de geadas constantes que queimavam tudo. Nem pensar
em plantar café nessa planície. Era perda de tempo. Razão pela qual, reinavam nos morros
os verdes cafezais.
Pois bem, do outro lado da Represa Capivara, Sertanópolis faz divisa com as cidades
de Rancho Alegre e Sertaneja, ambas bastante visíveis, lá de onde estavam.
Lá distante no sentido sul e sudoeste, quase na linha do horizonte vejam quantas
cidades: Jataizinho, Ibiporã, Londrina, Cambé, Rolândia, Arapongas, Apucarana,
Maringá... Londrina era a que mais se destacava, devido à quantidade de prédios. De todas
essas cidades somente Ibiporã e Londrina fazem divisa com Sertanópolis.
O que mais chamou a atenção de Mário foi o brilho a distância das águas da Represa
Capivara, com o reflexo dos raios de sol formava uma lamina prateada.
_ E você, Bruno, está gostando do passeio?
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Bruno fez um gesto reticente... Se a pergunta estivesse relacionada com comida, ai
então, teria a resposta na ponta da língua.
O vento soprava forte, sacudindo as folhas dos eucaliptos, os pássaros cantavam no
bosque, já era quase a hora do almoça. Amelinha contempla pela última vez as cidades
distantes, a barriga do Bruno roncava. Tio Carlito já aguardava os sobrinhos no jipe, com o
motor ligado.
Enquanto retornavam as casas à conversa era sobre o próximo passeio no Lago
Capivara.
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De longe se ouvia um barulho contínuo de motor. Lá bem no meio do Lago de
Capivara um barco de cor branca deslizava sobre a imensidão de águas não muito
cristalinas. Os tripulantes do barco eram cinco: dois adultos e três crianças. Tio Carlito e
um amigo de infância, cujo apelido era Chiquito, o piloto do barco. O time completava-se
com Mário, Bruno e Amelinha. O barco chegava até a flutuar e tinha-se a impressão,
mesmo não desenvolvendo alta velocidade, de que estava decolando. Todos os tripulantes
usavam salva-vidas. No que diz respeito à segurança, tio Carlito não abusava. Sempre fora
muito prevenido, os motivos de alegria somente poderiam terminar em festa, nunca em
tragédia.
Chiquito conhecia como ninguém o Lago de Capivara. Para a felicidade de todos,
nessa época do ano, o lago estava cheio, as águas atingiam o limite máximo da reserva.
Algumas árvores secas, cujas galhadas sobressaiam acima do nível das águas, causavam
sem dúvida, um enorme perigo para as embarcações que transitavam diariamente pelo lago.
Na cabeça do piloto, tudo aquilo era corriqueiro. Pilotava o barco mecanicamente, se
dava ao luxo de contar história sobre o lago, principalmente sobre pescadores. Era como se
o barco e o piloto fossem programados por um computador. Tudo aquilo acontecia com
exímio e perfeição quase que sobrenatural. Passear com Chiquito de barco era mesmo uma
aventura para ninguém botar defeito, principalmente para aquelas crianças que não cabiam
em si de tanto contentamento. Sentiam uma emoção indescritível, nem mesmo acreditavam
que tudo aquilo fosse verdade. Só mesmo na companhia de tio Carlito é que tais passeios
pitorescos mirabolantes aconteciam.
_ Que Maravilha! Que lindo! Eram frases curtas que saiam da boca de Amelinha.
Mário e Bruno não se cansavam de observar o lago. Nunca tinham visto antes tantas
águas acumulados, como se fosse um braço de mar, com direito a ondas consideráveis,
variando de tamanho com as lufadas de vento. Quantas maravilhas seus pequeninos olhos
negros puderam deslumbrar diante de uma enorme variedade de aves aquáticas que
tornavam o lago um tanto selvagem: bandos de paturis passavam voando rasteiro rente às
águas, sempre na mesma direção. Algumas garças brancas chamaram a atenção de
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Amelinha. Nunca tinha visto uma ave tão exótica. Até um jacaré pode ser visto a uma
pequena distância, tomando tranqüilo um banho de sol.
O passeio transcorria de maneira notável, tudo de acordo com o previsto. O barco, à
vezes, ziguezagueava no lago. Eram manobras que o piloto Chiquinho fazia com perfeição,
mexendo com a adrenalina das crianças; medo para Amelinha e agito frenético para Mário
e Bruno. Um outro animal que conheceram foi uma capivara que fugia aflita de um
malvado caçador. No percurso, sem rumo definido, muitas embarcações foram encontradas,
algumas de turistas e outras de pescadores, muitos peixes podiam ser vistos nas proas dos
barcos.
Na cabeça das crianças o tempo presente é o que contava, o momento histórico estava
acontecendo, sendo vivenciado a cada novidade encontrado ao longo do lago... Para tio
Carlito o tempo presente se misturava com o passado: aquele lago artificial inundara
aproximadamente dois mil e seiscentos hectares das melhores e das mais caras terras do
Brasil. Fora uma afronta, uma agressão. Não que a energia elétrica não seja necessária para
progresso e desenvolvimento do país. O local é que fora mal escolhido. Pior ainda: a CESP
pagou como indenização uma ninharia por essas terras, menos que quarenta por cento do
valor real e num prazo totalmente prejudicial aos acomodados agricultores. Isso sem contar
que parte dessas terras as margem dos rios eram argilosa. Sabe-se que um hectare de argila
tem um valor relevante, muito superior as terras agricultáveis. E os proprietários não foram
informados. Não se socorrerão da justiça, só perderam. Quem ganhou com isso foi a CESP,
que até então, nada recolheu como tributos aos cofres públicos de Sertanópolis, sendo um
calote, uma injustiça, pois as terras inundadas eram produtivas, que traziam riqueza para o
município, para os proprietários e salário para quem nelas trabalhavam. Está tudo errado!
Na cabeça de um doutor era inadmissível aceitar tantas injustiças. Não se conformava com
a passividade de seus conterrâneos que aceitaram tudo, sem questionar, sem fazer protesto.
Assistiram pacificamente a tomada de suas terras pelas águas da represa... Pena que os
prefeitos que governaram a cidade nessa época e posterior não apostaram no turismo... Nem
isso aconteceu. Quanta burrice! Enquanto as crianças contemplavam a natureza modificada,
que não deixava de ter o seu encanto, tio Carlito engolia, o gosto amargo de uma saudade
indigesta. Pensava silenciosamente enquanto mordia os lábios, revendo na imaginação um
outro cenário: Aqui era o Porto Camilo, lá na frente era o Porto Figueira, na seqüência,
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mais adiante se encontrava o Porto de Areia. Quantas olarias deixaram de existir! Maldito
governo dos Militares que provocou tudo isso? Por que não apoiaram os pequenos
agricultores? Por que estes tiveram que vender as suas terras? Para que tanto privilegiar os
latifundiários! Mais uma vez, malditos governos dos militares! Que saudade do Rio Tibagi
de outras épocas! Meu Deus! Será que não havia outro lugar mais pobre para se construir
uma hidroelétrica? Tinha que ser nas melhores terras do Brasil? Como entender as
tramóias, os jogos de interesses particulares ou de grupos privilegiados, articulados pelos
políticos? É verdade que a energia elétrica seja necessária, mas o Brasil é do tamanho de
um Continente, Sertanópolis bem que podia ter sido poupado.
Eram três mundos diferentes navegando num só barco sobre as águas do Lago
Capivara: um mundo de fantasia se passava na cabeça das crianças: outro mundo
extremamente realista, dramático martelava a cabeça do Tio Carlito. Já na cabeça do piloto
Chiquinho era apenas mais um passeio de rotina como tanto outros já realizados no mesmo
local.
Parte do dia fora gasto no passeio. No barco não faltou o que comer e água fresquinha
potável, à vontade, numa vasilha térmica.
Mário e Amelinha fizeram centenas de perguntas sobre o lago, foram respondidas a
contento pelo piloto Chiquinho e pelo tio Carlito. Havia uma diferença notória no
palavreado: um carregava as frases de romantismo, o outro não tinha a menor intenção de
esconder a sua revolta.
Conheceram a foz dos ribeirões: Couro do Boi, Taboca, Cerne, Tigre, Sete Ilhas e
Biguá. Todos formavam em sua foz um verdadeiro braço do lago. Conheceram a Ponte
Caída onde se localiza a única e mal administrada área de lazer do município e algumas
ilhas espalhadas pelo Lago. Foi sem dúvida, um dia maravilhoso e inesquecível para as
crianças.
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As férias voaram na velocidade dos raios solares como um nevoeiro de verão, como
um beija-flor em busca do néctar da vida.
Apesar de o tempo virar fumaça, muita coisa boa aconteceram durante aquelas férias
repletas de aventuras inesquecíveis.
Tio Carlito e os sobrinhos viveram intensamente cada segundo, com tanta ansiedade
cada passeio, cada pescaria, como se aquelas férias fossem a última.
Até parece que o destino estava traçado. O Cerne que sempre fora berço e palco de
grandes acontecimentos, um paraíso de apenas três gerações, a saga de uma família
predestinada a viver em plena harmonia, cujos laços de amizade iam além das fronteiras do
bairro. Tudo estava ali, preso por um fio, prestes a desmoronar, mas no casarão que fora
erguido com muito trabalho suor, no ano de 1934, ainda reinava a grande matriarca de uma
família de pioneiros de Sertanópolis.
O primeiro acontecimento melancólico foi, sem dúvida, a despedida de tio Carlito.
Aquela mesma criatura de sempre: bondosa, generosa, amante da natureza e filho benquisto
que por centenas de vezes já havia partido, sempre com um nó na garganta, com lágrimas
nos olhos e com um adeus que deixava nitidamente estampado no rosto todas as esperanças
de que haveria um breve regresso. Aquela despedida tinha algo de diferente. Uma coisa
seca, amarga, dolorida, um sabor de angústia, uma dor indefinida, incontida e inexplicável:
não era uma doença física, muito menos mental. Eram lágrimas místicas, eram palavras
mudas, eram soluções sufocadas pelos domínios da mente. Era uma despedida, uma
separação de caráter definitivo, um adeus que tinha algo de mistério no ar, na pele, nas
batidas do coração, nos olhares tristes, nos apertos de mãos.
O coração de um doutor batia descompassadamente e a viagem de volta era como se a
estrada de Curitiba fosse um túnel escuro, sem paisagens, uma estrada infinita como se ela
não levasse a lugar nenhum. Era o caminho de volta para a sua morada, para a sua esposa e
filhos que infelizmente por outras razões não o acompanharam nessa viagem.
Estava de volta para a sua luta cotidiana: a vida agitada na cidade grande onde tudo
era uma selva de pedras, onde amigos verdadeiros se podiam contar nos dedos. O resto era
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trabalhar, trabalhar, acumular riquezas, que pouco lhe representava. Era uma criatura sem
vaidades. Gostava sim, de passar temporadas na praia, em sua casa à beira mar, de quando
em quando viagens para o exterior e passar os finais de semana em sua fazenda no
município de Rio Negro. No mais, acomodava-se em sua casa toda murada, um verdadeiro
esconderijo, um isolamento total. Ele em companhia da esposa e filhos, seus pés de frutas,
seus passarinhos, seus livros. Nada era tão natural, tão deslumbrante, tão hospitaleiro como
o Casarão do Cerne. Lá ele se sentia como um herói, um príncipe, um mágico. Mas era
como um menino que se identificava melhor.
Cada regresso era sempre um motivo de festa, de muitas alegrias que fatalmente
terminavam em novas despedidas, novas lágrimas, eternas saudades. Entretanto, sempre
tinha que partir. Nessas idas e voltas estava a razão de sua vida.
O segundo acontecimento, não podia ser pior. Numa dessas tardes de um clima
agradável na cidade de Curitiba, enquanto atendia a uma paciente em seu consultório
localizado no centro da capital paranaense, recebeu um telefonema que mudaria tudo em
sua vida. Quase paralisou todos os seus sentidos, ficou pálido, um suor frio percorreu o seu
corpo. A luz do dia ficou fosca, quase cinzenta, foi como se o mundo inteiro girasse diante
dos seus olhos, quase teve uma vertigem.
A notícia... Bem... Teve que voltar ao Cerne. A viagem que ele nunca desejou fazer.
Foi um martírio, seu próprio calvário... Não! Não pode ser verdade! Era um pesadelo, uma
paulada na cabeça, como se tivesse perdido o sentido da vida, o fim dos sonhos... Tinha que
ser forte, encarar a realidade. Faltava-lhe a coragem, nunca havia premeditado antes esse
regresso indesejável... Não estava só, vinha acompanhado pela família, a estrada era um
pesadelo, as paisagens eram sem vida, sem cor... Sentia-se mal, nada o consolava, engolia
um choro silencioso e dolorido.
Ao chegar naquele sitio onde sempre era recebido com festa:
O casarão estava triste
as árvores silenciaram
as águas do Cerne silenciaram
o Morro da Gabriel ficou cinzento
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as andorinhas imigraram antes
da hora marcada.
As pombinhas em revoadas sem destino
vagueavam em volta do casarão.
Os guaxes abandonaram os seus ninhos
o terreirão e atulha perderam o encanto,
a varanda ficou esquecida
toda a família desesperada
os amigos desconsolados.
Morreu uma heroína
a maior de todas as matriarcas
a parteira do Cerne
a comadre do Cerne
a mãe do Cerne
a avó do Cerne
a bisavó do Cerne
a própria história do Cerne
ali toda morta
coberta de flores
como uma Deusa
como uma Santa,
tão linda,
tão meiga,
tão amiga,
tão prestativa.
Tão cheia de doçura
mas calada para sempre.
Para Mário, Bruno e Amelinha, com a morte da vovó Aurora o golpe quase foi fatal.
Tudo aconteceu tão rapidamente. Milhões de coisas em suas vidas mal desabrochadas,
ainda mal preparadas para rolar as pesadas e duras pedras do caminho. Foi a pior de todas
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as tempestades. Aquela que sem piedade arrasa tudo. Como recomeçar? Como reconstruir
aquela melhor parte do mundo que desabou para sempre? O que fazer da vida sem aquela
criatura tão querida que nunca magoava a ninguém?... Estava sempre de braços abertos,
cheia de amor para dar, tudo era vida, tudo tinha encanto, tudo era resolvido com tamanha
facilidade.
Amelinha desconsolada chorou por vários dias, perdeu a apetite, o sono, o rumo da
vida, ficou fora de órbita, nada mais tinha graça.
Mário e Bruno abandonaram os brinquedos, como duas crianças órfãs perderam a
magia da vida, o colorido dos sonhos de infância. As noites se misturavam com os dias:
Somente um vazio norteava seus passos,
hora perdidos no pomar,
hora perdidos nas nuvens brancas do céu,
hora perdidos no tempo.
Nem os vaga-lumes,
nem as cigarras,
nem as borboletas,
nem as flores...
Nada... Nada mais
tinha encanto,
nada mais tinha graça,
era uma tristeza só,
uma tristeza que causava dó.
Mas...
Como na vida tudo tem
o seu tempo...
Um tempo para rir,
um tempo para chorar,
um tempo para viver,
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uma hora marcada para morrer...
Somente os sobreviventes
são os que têm tempo para recomeçar.
Aos poucos, todas as angústias, todos os sofrimentos começaram a ceder espaço para
a nova realidade. Vovó Aurora se foi para sempre, mas os seus valores não morreram, serão
eternos. As suas lições de vida serão também infinitas. As suas lindas histórias, carregadas
de emoção ficaram como herança como o maior de todos os tesouros trancados naqueles
três corações, tenros, sequiosos de saber e cheio de amor para dar.
O mundo em volta é que deu uma guinada de cento e oitenta graus para recomeçar
num outro tempo, num outro espaço físico juntos com outras pessoas.
Com a morte da vovó Aurora mudou tudo naquele sítio tão hospitaleiro. O Cerne
nunca mais foi o mesmo... Mário Bruno e Amelinha levados por circunstâncias alheias as
suas vontades, tiveram que deixar a terra amada onde nasceram e até então foram ali muito
felizes. Mudaram-se juntamente com seus pais para a cidade de Sertanópolis:
Adeus Cerne,
adeus casinha pequena,
adeus bica d’água,
adeus chiqueirão dos porcos,
paiol de milho,
e forno caipira.
Adeus morros,
sojas e trigais.
Adeus escolinha amarela,
capela de Nossa Senhora de Fátima,
campo de futebol.
Adeus riozinho
de pedras pontiagudas,
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várzea de arroz,
ranchinho de sapé.
Adeus paineiras, jabuticabeiras,
gados multicoloridos,
palmeiras secular.
Adeus patos, perus,
galinhas de angolas,
galos índios,
porcas pintadas.
Adeus tios e tias,
primos e primas,
coleguinhas de infância.
Adeus,
adeus para sempre
casarão da vovó.
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A vida é uma fonte inesgotável de surpresas, um palco magistral onde cada ser
humano é um artista, é um transbordar de infinitas sabedorias, um eterno aprender onde até
os mais fracos são capazes de provocar grandes surpresas.
Quem diria! Mário Bruno e Amelinha um dia morando na cidade! Tão livres como
passarinhos! Tão amantes da natureza e de repente a cidade virou uma gaiola. Quanta
diferença. Uma outra realidade, tudo aparentemente fácil e ao mesmo tempo tão difícil,
dependentes do dinheiro tão escasso.
Ei, mundo cão,
selva de pedras,
coração de concreto...
Comprar uma laranja?
Comprar um mamão?
Comprar uma manga?
Até a água era preciso comprar!
Que calamidade!
Era tudo tão complicado
para aquelas criaturinhas
que nunca tiveram
um tostão no bolso.
Viviam num paraíso terrestre
repleto de farturas
onde as frutas se apanhavam
nas árvores, fresquinhas,
saborosas e cheirosas
e ainda sobravam frutas
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Que alimentavam
milhares de pássaros,
sem contar as que apodreciam,
transformando-se em adubo orgânico,
fonte renovadora da vida vegetal.
Vovó Aurora estava certa quando falava dos problemas da cidade: da diferença que
existia entre os homens, da desigualdade social. Agora, morando na cidade, ficava mais
fácil entender por que as crianças da mesma idade não brincavam com os mesmos
brinquedos e moravam em casas completamente diferentes. Uns tinham brinquedos
eletrônicos, bicicletas, roupas e sapatos importados; outros não tinham nada, nem uma bola
de borracha, ficavam de porta em porta mendigando por um prato de comida, eram tratados
como marginais.
Vovó Aurora tinha razão. Muitas vezes ela falou com nostalgia sobre o êxodo rural.
Das milhares de casas que ficaram abandonadas pelos sítios e fazendas. Colônias inteiras
foram demolidas. Todos tinham um único destino: morar nas cidades como se as cidades
tivessem solução para tudo. E as cidades não tinham solução para nada e os governantes
ficaram de braços cruzados diante da proeminente tragédia...
Vovó Aurora estava correta quando falava sobre os bóias-frias que levavam uma vida
pior que a dos escravos. Quando trabalham, comem muito mal, quando não encontram
trabalho, ficam sem ter o que comer.
Vovó Aurora estava certa quando falava sobre as favelas, sobre os menores
abandonados, os trombadinhas. Antes do êxodo rural as famílias tinham casa para morar,
emprego e muita fartura. Os filhos dos empregados conviviam com os filhos dos patrões de
igual para igual. Todos eram muito felizes e o melhor lugar do mundo para se viver era na
zona rural...
Vovó Aurora comentava que as meninas com menos de quinze anos estão se
prostituindo para sobreviver. Que a fome, as drogas e a AIDS estão se alastrando,
corroendo a sociedade, destruindo as famílias, provocando revoltas, crimes, roubos e tudo
quanto é pecado.
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Vovó Aurora falava ainda das coisas boas da cidade: energia elétrica, ruas asfaltadas,
água encanada e esgoto, meios de comunicações, escolas, hospitais, igrejas, esportes e
diversões.
Só que a vovó Aurora nunca quis morar na cidade. O esplendor do casarão, o verde
dos campos, o canto das aves, o mugir do gado era tudo em sua vida. O resto era utopia.
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Tão logo foram superadas as reações constrangedoras, causadas pelo impacto inicial
da mudança. Mário, Bruno e Amelinha vão aos poucos se acostumando com a nova vida na
cidade.
As ruas de Sertanópolis vão se abrindo como um leque e as novas amizades vão
surgindo a cada dia que passa.
Os estudos têm continuidade numa escola maior. Bruno começa a estudar.
Adeus, professora Perpétua!
Adeus escolinha do Cerne!
Quantas saudades!...
Agora estão os três estudando na Escola Municipal Luiz Deliberador. Muitos alunos,
muitos professores. Em nada se parecia com a Escola Campos Sales, lá da água do Cerne.
Quando não estão estudando aproveitam o tempo para conhecer a cidade. Cada rua,
cada praça vão se transformando em lugares comuns, assim como era o caminho da roça, o
pomar, o ribeirão e o casarão da vovó.
A cidade de Sertanópolis, na medida em que o tempo foi passando para Mário, Bruno
e Amelinha, reveste-se de poesia, fica acolhedora, passam a entender por que era
denominada de “a capital da amizade”.
Mas, o casarão do Cerne, lá distante, mesmo que o silêncio habite seus aposentos,
mesmo que o descaso o transforme em ruínas, mesmo que nada reste em seu lugar, a sua
história, jamais será esquecida.
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Quis o destino, que Sertanópolis entre os anos de 1988-1992 fosse administrada por
um prefeito nascido no casarão do Cerne, neto da vovó Aurora.
Certamente ela teria ficado orgulhosa se ainda estivesse viva. Infelizmente foi um dos
poucos prazeres que no exercício de sua majestade de grande matriarca não chegou a
comemorar. Uma das muitas obras inauguradas durante a gestão de seu neto Edson Pedro
Almeida, com certeza a que ela mais gostaria de se fazer presente foi a do Museu Histórico
de Sertanópolis. Sempre fora defensora da preservação do patrimônio público, dos registros
da memória histórica. Não se conformava com a perda do linguajar rude das famílias
portuguesas, italianas e espanholas que desbravaram o sertão. Quantos costumes se
perderam: danças, cantorias, brincadeiras de roda, remédios caseiros, simpatias, pratos
típicos!...
Vovó Aurora viu muito suor derramar na implantação do progresso do município.
Compartilhou com o seu povo nos momentos de alegria e também nos momentos de
tristeza. Pelas suas mãos santas de parteira nasceram muitos filhos da terra que adotara para
viver a maior parte de sua existência... Foi ao sepultamento de muitos pioneiros... Conviveu
com políticos, padres, juizes, promotores e delegados.
Com méritos, um dos jardins residências de Sertanópolis leva seu nome: “Jardim
Aurora”. Com certeza lá no céu ela deve estar muito feliz com a homenagem merecida.
Felizmente Amelinha herdara todo o fanatismo grandioso de sua avó. O Museu
Histórico de Sertanópolis começou a fazer parte de sua vida. Passava horas conversado com
as funcionárias. Constantemente se emocionava, chorava de saudades do passado. Lá ela
sentia a presença de sua querida avó. Era como se aquela voz tão meiga, tão amiga, ainda
estivesse penetrando agradavelmente em seus ouvidos. Tudo no Museu trazia-lhe boas
recordações. Adorava ouvir as monitorias realizadas pelas funcionárias para os visitantes,
contando histórias da era do pioneirismo. Era como se ele estivesse ouvindo a voz de sua
avó. Visitar o Museu era para ela, como adentrar no casarão do Cerne, era um reencontro
prazeroso com o passado, ainda tão presente na sua memória. Era encher a sua alma de
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esperança, sorrir para a vida, viver intensamente a infância e adolescência. Estudar...
Estudar... Quem sabe ser um dia uma professora de História... Trabalhar no Museu?
E por que não ser uma escritora famosa e escrever muitos livros, mostrar ao mundo,
em prosa e em versos, toda a magia, todo o encanto da terra amada, onde nasceu.
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O CASARÃO DO CERNE ROMANCE