EROSÃO E ESTABILIZAÇÃO BIOLÓGICA DE TALUDES Espaços Verdes – Projectos e Construção, Lda ao abrigo do Programa PRIME EROSÃO E ESTABILIZAÇÃO BIOLÓGICA DE TALUDES António de Assunção Alho copyright António de Assunção Alho, 2006 em coordenação da empresa Espaços Verdes – projectos e construção, Lda. e dos técnicos Filipa Isabel Louro, Luísa Corvo e Maria Joana Sabino. Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado – além do uso legal como breve citação em artigos ou críticas – sem prévia autorização do editor. Direitos reservados a Espaços Verdes, Lda., Lisboa, Portugal Publicação editada com ao abrigo do SIME (Sistema de Incentivos à Modernização Empresarial) Programa PRIME (Programa de Incentivos à Modernização da Economia) Capa de Maria Constança Pignateli Sousa Vasconcelos 2ª Edição, 2006 2.4 MATERIAIS UTILIZADOS NA HIDROSSEMENTEIRA...............41 2.4.1 Água..............................................................................................................41 2.4.2 Sementes .......................................................................................................42 2.4.3 Fertilizantes ..................................................................................................42 2.4.4 Fixadores ......................................................................................................43 2.4.5 “Mulch”........................................................................................................43 2.4.5.1 Fibra de "mulch"..................................................................................45 2.4.5.2 "Mulch" químicos e não fibrosos .........................................................46 2.4.5.3 Bonded Fiber Matrix (BFM) ................................................................46 2.4.5.4 Produtos resultantes da compostagem ..................................................47 2.4.5.5 Técnicas de bio engenharia que utilizam exclusivamente material vegetal .................................................................................................48 2.4.5.5.1 Colocação de estacas vivas –“Live staking”...........................48 2.4.5.5.2 Fachinagem ...........................................................................48 2.4.5.5.3 Entrançados ou “Brushlayer”.................................................49 2.4.5.5.4 Colocação de tapetes de relva, “Turfing”, “Sodding”.............51 2.4.5.5.5 Sementeira a lanço ................................................................51 2.4.5.6 Técnicas de bio engenharia que utilizam material vegetal associado a materiais inertes ................................................................52 2.4.5.6.1 Mantas biodegradáveis - “Rolled erosion-control products RECPs”................................................................................52 2.4.5.6.2 Estrutura celular pré-fabricada...............................................55 2.4.5.6.3. Estruturas geossintéticas - “Geogrid”....................................55 2.4.5.6.4 “Joint planting” ou gabiões ou rochas com vegetação ............56 2.4.5.6.5 “Branchpacking” ...................................................................58 2.4.5.6.6 “Live cribwall”......................................................................58 2.4.5.6.7 “Wattle Fences” ....................................................................59 2.5 SISTEMA DE APOIO À DECISÃO .........................................................61 3. EXPERIMENTAÇÃO E TRABALHOS DE CAMPO...............63 3.1 CARACTERIZAÇÃO DO LOCAL ..........................................................63 3.1.1 Localização dos taludes................................................................................63 3.1.2 Caracterização Edafo-Climática .................................................................64 3.1.2.1 Clima...................................................................................................64 3.1.2.2 Solos....................................................................................................68 Índice ÍNDICE 1. INTRODUÇÃO ..................................................................................................1 2. EROSÃO E ESTABILIZAÇÃO BIOLÓGICA DE TALUDES ..........................................................................................................3 2.1 EROSÃO .............................................................................................................3 2.1.1 Erosão do Solo na Europa .............................................................................3 2.1.2 Tipos de Erosão ..............................................................................................9 2.1.2.1 Erosão Hídrica .......................................................................................9 2.1.2.1.1 Factores Responsáveis pela Erosão Hídrica ...........................12 2.1.2.2 Erosão Eólica.......................................................................................14 2.1.3 Métodos de Quantificação e Predição da Erosão........................................15 2.1.3.1 Métodos Experimentais........................................................................15 2.1.3.1.1 Experimentação de Campo ....................................................17 2.1.3.1.2 Experimentação Laboratorial.................................................17 2.1.3.2 Modelos...............................................................................................18 2.1.3.2.1 Modelos Empíricos................................................................18 2.1.3.2.2 Modelos fisicamente baseados...............................................21 2.1.3.3 Modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão em taludes ................21 2.2 O PAPEL DA VEGETAÇÃO NA ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES ........................................................................................................24 2.2.1 O Papel Funcional da Vegetação .................................................................24 2.2.2 Contribuição da Vegetação para a Segurança de Taludes Rodoviários ....27 2.2.3 Critérios para a Selecção da Vegetação ......................................................29 2.2.4 Legislação Vigente para a Arborização de Taludes Rodoviários ...............30 2.2.5 Legislação Vigente para Cortes e Desramações de Árvores e Arbustos ao Longo das Estradas Nacionais ......................................................................32 2.3 TÉCNICAS DE REVESTIMENTO VEGETAL ...................................33 2.3.1 Características Bio-físicas............................................................................35 2.3.2 Descrição das técnicas..................................................................................36 2.3.2.1 Cobertura do solo ou "Mulching".........................................................36 2.3.2.2 Hidrossementeira sem "mulch" ............................................................40 2.3.2.3 Hidrossementeira com "mulch" ou "Hydromulchins"...........................41 i Índice 3.2 SISTEMA DE APOIO À DECISÃO (SAD) ............................................69 3.3 INVENTÁRIOS FLORÍSTICOS E ESCOLHA DAS ESPÉCIES ...70 3.5 TÉCNICAS DE REVESTIMENTO VEGETAL ...................................73 3.6 DESENHO EXPERIMENTAL...................................................................75 3.7 TRABALHOS REALIZADOS NA PRÉ- INSTALAÇÃO .................76 3.7.1 Recolha e análise do solo..............................................................................76 3.7.2. Mobilização do solo .....................................................................................76 3.7.3 Construção e colocação das caixas e recipientes próprios para a recolha de água e sedimentos..........................................................................................77 3.8 HIDROSSEMENTEIRA...............................................................................78 3.9 RECOLHA DE DADOS................................................................................80 3.9.1 Medição das perdas de solo..........................................................................80 3.9.2 Medição da quantidade de água escoada (“run-off”) .................................81 3.9.3 Vegetação......................................................................................................81 3.10 TRATAMENTO ESTATÍSTICO DOS DADOS .................................81 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ..............................................................83 4.1 QUANTIFICAÇÃO DAS PEDRAS DE SOLO .....................................84 4.2 QUANTIFICAÇÃO DA ÁGUA ESCOADA...........................................87 4.3 VEGETAÇÃO..................................................................................................88 5 - CONCLUSÕES ...............................................................................................99 ANEXOS..................................................................................................................103 BIBLIOGRAFIA.................................................................................................111 iii Índice de Figuras ÍNDICE DE FIGURAS Fig. 2.1 - Principais tipos de degradação do solo: i) natural ii) antropogénico (adaptado de Mbgawu 2003) ...................................................................................................... 4 Fig. 2.2 - Metodologia do Corine para avaliação da erosão do solo (adaptado de EEA 2003) .......................................................................................................................... 7 Fig. 2.3 a) - Risco actual de erosão (Corine 1992) ....................................................................... 7 Fig. 2.3 b) - Risco potencial de erosão (Corine 1992) .................................................................. 8 Fig. 2.4 – Áreas com alto risco de erosão em Portugal continental (adaptado de Corine 1992) .......................................................................................................................... 9 Fig. 2.5 – Estações Experimentais (Gamito 2002) ..................................................................... 17 Fig. 2.6 – Factores que influenciam as perdas de solo (adaptado de Vieira et al. 1996) .......... 19 Fig. 2.7 - Metodologia do Modelo EPR (Erosion Potential Risck Model) ................................ 23 Fig. 2.8 - Efeito da vegetação na estabilidade de um talude (adaptado de Greenway 1987) ........................................................................................................................ 25 Fig. 2.9 – Efeito de arco no solo provocado por raízes de árvores (adaptado de Greenway 1987)....................................................................................................... 26 Fig. 2.10 - Esquema da técnica de “Live staking”. Adaptado de Tuttle R.W. e Ralston D.C (1992)................................................................................................................ 48 Fig. 2.11 - Esquema da técnica de fachinagem. Adaptado de Tuttle R.W. e Ralston D.C. (1992) ....................................................................................................................... 49 Fig. 2.12 - Esquema da técnica de entrançados. Adaptado de Lewis (2000) ............................ 50 Fig. 2.13 - Esquema da técnica da colocação da manta biodegradável. Adaptado de Lewis (2000)............................................................................................................. 54 Fig. 2.14 - Esquema de secção lateral de uma estrutura geossintética. Adaptado de Grey e Sotir 1996.............................................................................................................. 56 Fig. 2.15 - Esquema da técnica de “joint planting”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992)...... 57 Fig. 2.16 - Esquema da técnica de colocação de vegetação entre os gabiões Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) ............................................................................................ 57 Fig. 2.17 - Esquema da técnica de “Branchpacking”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) ....................................................................................................................... 58 Fig. 2.18 - Esquema da técnica de “Live cribwall”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) ...... 59 Fig. 2.19 - Esquema da técnica de “Wattle Fences”. Adaptado de Polster e Bio (2002) .......... 59 Fig. 3.1 - Localização dos taludes onde se realizaram os ensaios.............................................. 63 Fig. 3.2 – Perfil do talude (S/N), localizado na autoestrada A8 antes da intervenção .............. 63 Fig. 3.3 – Perfil do talude (N/S), localizado na autoestrada A8 antes da intervenção .............. 64 Fig. 3.4 - Balanço hídrico. As áreas entre as curvas representam S (excesso de água), Cs (cedência de água pelo solo, ∆A>0), D (défice de água) e Rs (restituição de água) ........................................................................................................................ 67 Fig. 3.5 - Modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão em taludes: entrada de dados ...... 69 v Fig. 3.6 - Riscos de susceptibilidade de erosão .......................................................................... 69 Fig. 3.7 - Técnica de bioengenharia sugerida pelo modelo ....................................................... 70 Fig. 3.8 - Taludes estabilizados com revestimento vegetal, existentes na A8, onde foram realizados os inventários ......................................................................................... 71 Fig. 3.9 - Desenho experimental do ensaio instalado nos taludes.............................................. 75 Fig. 3.10 – Trabalhos de mobilização do solo com uma retroescavadora................................. 77 Fig. 3.11 - Modelo do método de recolha de sedimentos simplificado de Gerlach (Morgan 1986) ......................................................................................................... 77 Fig. 3.12 - Modelo da caixa usada no ensaio.............................................................................. 78 Fig. 3.13 - Instalação de caixas nos taludes ao pK 50+850........................................................ 78 Fig. 3.14 - Hidrossementeira nos taludes, realizada durante a instalação do ensaio................ 80 Fig. 3.15 - Fotografia do ensaio ao pK 59+400 .......................................................................... 80 Fig. 4.1 - Talhão nu erosionado no talude S/N .......................................................................... 89 Fig. 4.2 - Cobertura vegetal do talude da via (S/N) nas várias modalidades ............................ 91 Fig. 4.3 - Cobertura vegetal do talude da via (N/S) nas várias modalidades ............................ 92 Fig. 4.4 - Cobertura vegetal do talude na via S/N ..................................................................... 94 Fig. 4.5 - Cobertura vegetal do talude na via N/S ..................................................................... 96 ANEXO Fig. 1- Cobertura vegetal do talude (S/N) nas várias modalidades..........................................107 Fig. 2 - Cobertura vegetal do talude (N/S) nas várias modalidades.........................................108 Índice de Gréficos ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 4.1- Valores médios de partículas erodidas recolhidas nas caixas e nos bidons durante o ensaio (g/talhão)...................................................................................... 86 Gráfico 4.2-Valores médios de água escoada e recolhida nos bidons (l/talhão) ....................... 88 Gráfico 4.3- Percentagem de cobertura em ambos os talhões. ................................................. 90 Gráfico 4.4 - Grau de revestimento no talude da via S/N ......................................................... 94 Gráfico 4.5 - Grau de revestimento no talude da via N/S ......................................................... 96 Gráfico 4.6 - Grau de revestimento S/N versus N/S .................................................................. 97 vii Índice de Quadros ÍNDICE DE QUADROS Quadro 2.1 - Erosão do solo na Europa induzida por acção do homem (milhões de hectares) (adaptado de EEA, 2003).......................................................................... 5 Quadro 2.2 - Risco potencial de erosão dos solos, dados por países da Europa do sul (adaptado de Calé 2002)............................................................................................ 8 Quadro 2.3 - Tipos de erosão hídrica (adaptado de Vieira et al. 1996; Branca 1996) ............. 10 Quadro 2.4 - Característica da vegetação condicionante dos diversos efeitos (adaptado de Coppin e Richards 1990) .................................................................................... 27 Quadro 2.5 - Importância do revestimento vegetal em vias públicas (adaptado de Festas 1984; AIPCR 1964) ................................................................................................. 28 Quadro 2.6 - Regras de actuação sobre a arborização existente nas estradas nacionais ......... 33 Quadro 2.7 - Resumo das técnicas de revestimento vegetal, incluindo a sua classificação segundo o grau de prevenção do risco de erosão, custo, vantagens e limitações (Adaptado de Gamito 2002, s/a 2003).................................................... 60 Quadro 3.1 - Características dos taludes estudados: ................................................................ 64 Quadro 3.2 -Tratamento sumário dos dados ............................................................................ 65 Quadro 3.3 - Síntese dos principais indicadores do regime térmico (ºC) ................................. 66 Quadro 3.4 - Classificação Climática ........................................................................................ 67 Quadro 3.5 - Áreas e percentagens correspondentes às famílias de solos existentes................ 68 Quadro 3.6 - Espécies pioneiras e arbustivas referidas com maior frequência em projectos de integração paisagística realizados na região de Lisboa e Vale do Tejo.......................................................................................................................... 71 Quadro 3.7 - Espécies arbustivas descritas no projecto de execução, elaborado para o troço Torres Vedras-Bombarral na A8 (Estudocivil, 1997)................................... 71 Quadro 3.8 - Espécies arbustivas inventariadas em taludes com revestimento vegetal já bem estabelecido da A8 ........................................................................................... 72 Quadro 3.9 - Mistura A - Mistura com base nas espécies que constam no Inventário efectuado aos taludes, cujo revestimento vegetal foi bem sucedido na autoestrada A8 ............................................................................................................... 72 Quadro 3.10 - Mistura B - Mistura com base nas espécies que constam maioritariamente nos estudos de integração paisagística, elaborados para redes rodoviárias da região de Lisboa e Vale do Tejo............................................ 73 Quadro 3.11 - Mistura C - Mistura de sementes de espécies pioneiras existente no mercado, recomendada para controlo de erosão em taludes com inclinações elevadas ................................................................................................................... 73 Quadro 3.12 - Análise Química e Biológica do Mulch (Mulch 3) utilizado na modalidade B (Composto)........................................................................................................... 74 Quadro 3.13 - Preço unitário e por Kg e m2 dos “mulch” estudados ....................................... 75 Quadro 3.14 - Resultados da análise do solo dos taludes onde foram instalados os ensaios (Laboratório Rebelo da Silva) .................................................................... 76 ix Quadro 3.15 - Quadro resumo das modalidades usadas no ensaio .......................................... 79 Quadro 4.1- Valores de precipitação total (mm) registados na Estação de Dois Portos entre Fevereiro de 2005 e Março de 2006 (Instituto de Meteorologia) .................. 83 Quadro 4.2- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas erodidas recolhidas nas caixas durante o ensaio (g/talhão) .................................................. 84 Quadro 4.3- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons durante o ensaio (g/talhão).................... 85 Quadro 4.4 - Resultados da análise textural das partículas recolhidas nas caixas e nos bidões utilizando 3 tipos de amostra resultantes de misturas de material (i) Material das caixas dos talhões da modalidade B(Composto) (ii) Material das caixas dos restantes talhões (iii) Partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons de todas as modalidades durante o ensaio (Laboratório Rebelo da Silva) ..................................................................... 86 Quadro 4.5- Análise estatística de perdas de solo (teste de Duncan) ........................................ 86 Quadro 4.6 - Média, desvio padrão e rácio comparativo do valor de água total escoado durante o ensaio (l).................................................................................................. 87 Quadro 4.7- Percentagem de cobertura e análise estatística (teste de Duncan) ....................... 90 ANEXO Quadro 1 - Valores de humidade relativa, horas de insolação, precipitação total (mm) e temperatura máxima, média e mínima (ºC) registados na Estação de Dois Portos entre Dezembro de 2004 e Maio de 2005 (Valores fornecidos pelo Instituto l de Meteorologia)....................................................................................105 Quadro 2- Dados meteorológicos referentes a um período de 30 anos (1958 a 1988) da estação de Dois Portos............................................................................................105 Quadro 3. - Resultados da análise do solo dos taludes onde foram instalados os ensaios (Laboratório Rebelo da Silva)................................................................................106 Quadro 4 - Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas erodidas recolhidas nas caixas durante o ensaio (g/talhão) ...................................................................106 Quadro 5- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons durante o ensaio (g/talhão)...................106 Quadro 7- Média, desvio padrão e rácio comparativo do valor de água total escoado durante o ensaio (l).................................................................................................106 Quadro 8 - Média, desvio padrão e rácio comparativo da cobertura vegetal nas várias modalidades em ambos os taludes: ........................................................................109 Quadro 9 - Preço unitário e por Kg e m2 dos “mulch” estudados. ..........................................109 Cap. 1 - Introdução 1. INTRODUÇÃO O solo é um sistema dinâmico permanentemente sujeito a mudanças, sendo a remoção e redistribuição das suas partículas um fenómeno tão antigo como o planeta. A erosão é condicionada por factores climáticos, geomorfológicos e antropogénicos. Contudo, estes últimos podem não só desencadear como também acelerar estes processos. A construção das vias de comunicação actuais, exige traçados que permitam uma mais fácil circulação de veículos, levando à existência de taludes de grande declive e dimensão, ou conduzindo muitas vezes ao atravessamento de zonas consideradas geotecnicamente instáveis, o que levanta problemas na decisão sobre as intervenções a realizar em tais taludes. Uma das fases mais críticas da construção de vias está relacionada com a exposição do solo às condições climatéricas, após a realização de escavações e aterros. Este tipo de intervenções para além de originar alterações profundas ao nível dos solos, uma vez que levam à destruição da vegetação e da estrutura física do solo, e de alterarem profundamente todo o relevo da região e da paisagem, eliminam as condições favoráveis para a regeneração espontânea do coberto vegetal e da paisagem. Isto acontece porque, em situações de grande declive e ausência de solo, se torna difícil a fixação de espécies vegetais. A taxa de perda de solo ocorrida nos locais de construção é 10 a 20 vezes superior à das áreas agrícolas. Este problema é especialmente dramático em zonas de clima mediterrâneo, com longos períodos de elevadas temperaturas e escassa precipitação, como é o caso de Portugal. A integração paisagística e o impacte ambiental, cada vez mais considerados como decisivos e condicionantes das soluções de engenharia, justificam por si só a obrigatoriedade de proceder ao revestimento vegetal dos taludes. Além disso, a vegetação desempenha também importantes acções funcionais, já que afecta os maciços terrosos do ponto de vista hidrológico, hidráulico e mecânico. (Mendonça e Cardoso 1998a). A vegetação ajuda a estabilizar os taludes proporcionando uma maior resistência à erosão que é oferecida em grande parte pelas raízes. As raízes das plantas penetram na massa do solo e nas fracturas existentes na rocha mãe, conseguindo atravessar desde as zonas instáveis até às mais estáveis e criando uma cadeia de fibras numa massa de solo fragilizada. Neste contexto, a utilização de técnicas de bioengenharia relacionadas com a criação de condições favoráveis ao estabelecimento de vegetação em locais problemáticos, pode ser uma valiosa contribuição para o controlo dos fenómenos erosivos. Existem diversas técnicas de revestimento vegetal para a estabilização de taludes que têm sido estudadas e aplicadas em inúmeros países, em especial nos Estados Unidos e na Europa, descritas por Schiechtl (1980) e Gray e Sotir (1996). Contudo e apesar das qualidades comprovadas, estas técnicas são ainda pouco utilizadas no nosso país (Gamito e Hamilton 2001). Estas técnicas encontram-se pouco difundidas, devido à existência de poucos estudos que comprovem a sua eficácia em oposição à relativa dispersão das técnicas de Engenharia Civil, pelo que se manifestam 1 de reduzida aplicação (Gamito e Hamilton 2001). Em 2002, Gamito desenvolveu um sistema de apoio à decisão que utiliza uma base de dados com informação relevante para o processo de decisão, um modelo de avaliação de risco de erosão e um outro do risco de deslizamento de terras, com o objectivo de auxiliar a selecção da técnica mais adequada para prevenir a erosão de taludes, em Portugal. Contudo, apesar do carácter inovador e interdisciplinar, o SAD - Sistema de Apoio à Decisão, apresenta um cariz marcadamente conceptual, necessitando de confirmação experimental. O presente estudo tomou como base o SAD e foi estruturado em duas partes distintas. Na primeira parte efectua-se uma abordagem sumária à problemática dos fenómenos erosivos ocorridos em zonas inclinadas, ao papel da vegetação no controlo da erosão bem como às técnicas de revestimento vegetal que poderão ser utilizadas na estabilização de taludes. Na segunda parte aborda-se a aplicação e comparação de algumas técnicas num caso prático, com instalação de um ensaio de taludes em auto-estrada e desenvolve-se a discussão da técnica recomendada pelo SAD. 2 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes 2. EROSÃO E ESTABILIZAÇÃO BIOLÓGICA DE TALUDES 2.1 EROSÃO A erosão é um dos processos de evolução natural da terra, designando-se “erosão natural” ou “erosão geológica” quando resulta apenas da acção de factores naturais (Hudson 1986). Quando o equilíbrio natural não é perturbado, o processo desenrola-se a um ritmo tal, que se verifica um equilíbrio entre a remoção de partículas e a formação de novos solos. O homem, ao explorar o solo em seu proveito, perturba este equilíbrio provocando a aceleração dos fenómenos erosivos e desencadeando processos de sedimentação. A “erosão acelerada” ou “erosão antrópica” resulta da intervenção humana e a sua velocidade excede consideravelmente a capacidade de regeneração do solo através do processo de pedogénese (Hudson 1986). Nos Estados Unidos este tipo de erosão é responsável por 70% dos sedimentos formados e estimase que 4,5 biliões de toneladas destes sedimentos são descarregados anualmente nos rios norte americanos (OSHEH 2004). Os processos de erosão superficial e os deslizamentos são os principais responsáveis pela degradação dos taludes (Gray e Leiser 1989; Gray e Sotir 1996). Embora estes constituam um fenómeno natural, a intervenção do homem na paisagem em geral e nos taludes em particular podem acelerar estes processos (Gamito 2000). Estima-se que nos solos agrícolas das zonas montanhosas do Mediterrâneo e em solos arenosos, limosos e calcários do norte da Europa, a produção de sedimentos pode alcançar as 100 t/ha ano. Oldeman et al. (1990) estimou que a erosão pode ser responsável por 85 % dos 2.000 biliões de hectares de solos degradados a nível mundial. É difícil calcular os prejuízos causados pela erosão. Só nos EUA estima-se que os custos estatais e federais sejam superiores a 2.1 biliões de dólares/ano (Crosson et al. 1995). 2.1.1 Erosão do Solo na Europa Os grandes problemas dos solos europeus são as perdas irreversíveis do solo devido ao aumento da sua compactação, à erosão e à constante deterioração por contaminação local e difusa. É evidente que os solos europeus se vão continuar a deteriorar, provavelmente como resultado de alterações climáticas, do uso do solo e de outras intervenções humanas (EEA 2000). Na Europa a erosão do solo é provocada principalmente pela água (erosão hídrica) e, em menor extensão, pelo vento. A erosão provoca, a longo prazo, perdas irreversíveis de solo e reduz as suas funções ecológicas (EEA 1999). 3 A associação de factores como a erosão hídrica, eólica, declínio da fertilidade, salinização e a alteração dos níveis da água (alagamento e seca) provocam a degradação (Fig. 2.1), temporária ou permanente do solo (Mbagwu 2003). Fig. 2.1 - Principais tipos de degradação do solo: i) natural ii) antropogénico (adaptado de Mbgawu 2003) As perdas de solo são superiores no sudeste europeu, mas a erosão hídrica tem-se tornado um problema noutras partes da Europa (EEA 2000). A figura 2.1 apresenta a extensão da degradação do solo na Europa. As regiões mediterrânicas são consideradas particularmente propícias à erosão. Este facto deve-se à alternância de longos períodos secos e chuvosos (EEA 2003). Esta distribuição irregular da precipitação tem consequências particularmente gravosas em termos de erosão quer porque a ela está associada a ocorrência de chuvadas de intensidade muito elevada, quer porque os meses chuvosos coincidem com a altura do ano em que os solos se apresentam mais desprotegidos, sem uma cobertura vegetal conveniente (Morgan 1986). Em certas partes das regiões mediterrânicas a erosão atingiu um estado irreversível, noutras a erosão cessou simplesmente porque já não existe solo. No extremo atinge-se a desertificação. Dada a baixa taxa de formação de solo, qualquer solo com perdas superiores a 1t/ha/ano pode atingir a irreversibilidade num período de 50-100 anos (EEA 1999). De acordo com informação da European Environmental Agency (2003) a erosão do solo no Norte da Europa é considerada ligeira, porque a chuva cai predominantemente em terrenos pouco declivosos e é bem distribuída ao longo do ano. 4 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Quadro 2.1 - Erosão do solo na Europa induzida por acção do homem (milhões de hectares) (adaptado de EEA, 2003) Países candidatos adesão Países EFTA* Resto da europa União europeia EUROPA (excluindo Rússia) Tipo de Erosão Erosão Hídrica Erosão Eólica Total Erosão Hídrica Erosão Eólica Total Erosão Hídrica Erosão Eólica Total Erosão Hídrica Erosão Eólica Total Erosão Hídrica Erosão Eólica Total Ligeira 4.5 0.0 4.5 0.8 0.6 1.3 0.8 0.0 0.8 12.8 1.0 13.8 18.9 1.6 moderada 29.2 0.0 29.2 1.5 1.3 2.9 19.3 5.8 25.1 11.9 0.1 12.0 62.0 7.2 alta 14.7 0.0 14.7 0.0 0.0 0.0 6.5 0.0 6.5 1.4 0.0 1.4 22.6 0.0 extrema 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0 1.0 0.7 1.7 0.0 0.0 0.0 1.1 0.7 20.5 69.2 22.6 1.8 total 48.4 0.0 48.4 2.3 1.9 4.2 27.7 6.5 34.2 26.2 1.1 27.3 104.6 9.5 114.1 (17,4% da área total) *Países EFTA-Islândia, Liechtenstein, Noruega, Suiça. De acordo com o Plano Nacional de Política Ambiental - PNPA (1995) o processo de erosão do solo é inerente ao ambiente no seu estado natural, tal como os processos sequentes de transporte e deposição de sedimentos. Segundo o PNPA (1995) podem considerar-se três grupos de factores principais que condicionam o estado de erosão do solo e que estão profundamente inter-relacionados: GRUPO A - factores naturais e intrínsecos ao solo. O grau de erodibilidade decorre da sua constituição e origem geológica; GRUPO B - factores naturais extrínsecos ao solo (climáticos, geomorfológicos e filológicos); GRUPO C - factores antropogénicos que podem não só desencadear processos de erosão, como acelerar outros processos por interferência com os factores naturais. Nos factores do Grupo A, o tipo de solo é muito importante no que se refere à sua própria evolução. O teor em matéria orgânica é fundamental para regular o grau de compactação. A origem do solo determina a sua capacidade de evolução. A própria constituição e espessura do solo condicionam a sua estabilidade e resistência aos processos de erosão. Os factores dos Grupos A e B interferem, decisivamente, na evolução pedológica, dado que os factores climáticos influenciam o teor de água no solo, os factores geomorfológicos são determinantes na génese e estabilidade física dos solos e os fitológicos contribuem com o teor em matéria orgânica para a defesa contra os processos erosivos. Os factores antropogénicos têm-se vindo a sobrepor aos factores naturais, alterando o seu comportamento e consequentemente o do próprio solo. O Homem interfere utilizando o solo como factor produtivo (agricultura, silvicultura) e de suporte a diversas actividades. Consoante a 5 adequabilidade dos usos em relação à capacidade de suporte do solo, maior ou menor será a responsabilidade do Homem nos processos de iniciação e agravamento do ciclo erosivo. Em Portugal as regiões montanhosas são as mais afectadas, por efeito da erosão vertical, embora regiões como o Alentejo estejam cada vez mais sujeitas a processos erosivos. O problema da erosão do solo no Alentejo é bem evidente no período entre Novembro e Fevereiro quando, depois de efectuadas as sementeiras, os cereais ainda não oferecem um desenvolvimento vegetativo suficiente para conter o solo que se encontra solto. Nestas circunstâncias é habitual o aparecimento de ravinas ao longo das encostas, com enormes depósitos de materiais na base. Paralelamente, os cursos de água apresentam-se, com uma cor amarelada devido à sobrecarga de materiais em suspensão (Poeira et al. 1990). Na região centro de Portugal, onde se encontra a maior parte do território com declives mais acentuados (Maciço Central), cujas superfícies desprotegidas têm aumentado nos últimos anos por via da desflorestação causada maioritariamente por incêndios, verifica-se uma erosão concentrada. Um grande número de barragens para a produção de energia tem registado decréscimo de rendimento, devido à deposição de sedimentos no fundo das albufeiras. O assoreamento tem colmatado, por outro lado, estuários, rias e zonas baixas do troço terminal de diversos rios da região Centro, casos do Vouga, Lis e Mondego (Poeira et al. 1990). Desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, que se tem vindo a chamar a atenção para os fenómenos de erosão e sedimentação tendo-se desencadeado diversas acções/projectos no sentido de conhecer rigorosamente, o processo de erosão e de proceder às devidas correcções. O programa Corine, criado em 1985, coordena as iniciativas nacionais dos EM (estados-membros) que visam melhorar a informação a nível internacional sobre o uso e ocupação do solo e assegurar a consistência de definições e de dados, nomeadamente através de modelos preditivos sobre o risco de erosão, utilizados em mapas de avaliação dos riscos de erosão na Europa (Fig. 2.2). Este inventário inclui os sectores da agricultura e floresta, localização de infra-estruturas diversas e avaliações ambientais, pretendendo servir de suporte à elaboração de políticas ambientais e de ordenamento do território. O primeiro inventário europeu Corine Land Cover foi produzido nos anos 80 a partir da interpretação visual de imagens de satélite, na escala 1: 100 000, incluindo Portugal Continental e reflectindo o uso/ocupação do solo. A Rede Europeia de Informação e de Observação do Ambiente (EIONET), que foi criada através do Regulamento (CEE) nº 1210/90, de 7 de Maio, para ajudar a Agência Europeia do Ambiente (AEA) a produzir informações politicamente relevantes sobre o ambiente da Europa, nomeadamente em termos de solo, assegura a difusão do programa Corine. Segundo Briggs e Giordano (1995) a metodologia Corine (Fig. 2.2) para a determinação da erosão do solo é uma simplificação considerável da USLE (Equação Universal das Perdas do Solo). 6 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes TEXTURA DO SOLO, SR 0 para rocha 1 para C, SaC, SiC 2 para SsCL, CL, SiCL, Lsa 3 para SaL, L, SiL, Si PROFUNDIDADE DO SOLO 1 para >75cm 2 para 25-75 cm 3 para <25 cm ERODIBILIDADE, K 0 para Sr.Sd.Ss=0 1 para 0<Sr.Sd.Ss<3 2 para 3<Sr.Sd.Ss<6 3 para Sr.Sd.Ss>6 PEDREGOSIDADE DO SOLO 1 para >10 % 2 para <10 % 1 para 2 para 3 para 4 para INDICE DE FOURNIER, F pi2/p <60 60< pi2/p<90 91< pi2/p<120 pi2/p>120 1 para 2 para 3 para 4 para INDICE DE ARIDEZ DE BAGNOULS-GAUSSEN, B (2Ti2-pi)=0 0<(2Ti2-pi)<50 50<(2Ti2-pi)<130 (2Ti2-pi)>130 EROSIVIDADE, R 1 para F.B<4 2 para 4<F.B<8 3 para F.B>8 0 1 2 3 RISCO POTENCIAL DE EROSÃO DO SOLO, Ep para K.R.S=0 para 0<K.R.S<5 para 5<K.R.S<11 para K.R.S>11 0 1 2 3 RISCO ACTUAL DE EROSÃO DO SOLO, E A para Ep.V=0 para Ep.V=1-2 para Ep.V=3-4 para Ep.V=>=5 DECLIVE, S 1 para <5 % 2 para 5-15 % 3 para 15-30 % 4 para >30% COBERTURA DO SOLO, V 1 para completamente protegido 2 para não completamente protegido Fig. 2.2 - Metodologia do Corine para avaliação da erosão do solo (adaptado de EEA 2003) O risco potencial de erosão (Fig. 2.3 b)) define-se como o risco inerente à ocorrência de erosão sem considerar o uso actual do solo ou coberto vegetal (Corine 1992). Fig. 2.3 a) - Risco actual de erosão (Corine 1992) 7 Fig. 2.3 b) - Risco potencial de erosão (Corine 1992) A fragilidade do solo nacional foi traduzida em números pelo Corine. Este demonstrou que Portugal é o país da Europa com maior risco potencial de erosão. No nosso país 68% dos solos são de alto risco, 25% de médio risco, 6% de baixo risco e 1% excluído de risco (ver Quadro 2.2, Fig. 2.4). Quadro 2.2 - Risco potencial de erosão dos solos, dados por países da Europa do sul (adaptado de Calé 2002) PAÍS ALTO RISCO risco moderado RISCO baixo área sem danos Km2 % Km2 % Km2 % Km2 % França 16 355 9 37 900 20 93 443 49 42 469 22 Itália 82 348 27 85 211 28 122 416 41 11 483 4 Grécia 57 414 43 27 436 21 27 027 21 20 113 15 Espanha 202 101 41 205 157 41 69 662 14 20 598 4 Portugal 61 120 68 21 890 25 4 918 6 1 000 1 UE do SuL 419 338 35 377 594 31 317 466 26 95 477 8 8 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Alto Trás-os-Montes-75 Cávado-44 Ave-49 Tâmega-62 Douro-71 Douro-Vouga-10 Vouga-33 Dão-Lafões-93 Beira Interior Norte-61 Douro-71 Pinhal Interior Norte-98 Pinhal Litoral-70 Estrela-95 Pinhal Litoral-90 Pinhal Interior Sul-99 Médio Tejo-92 Lezíria do Tejo-57 Alto Alentejo-77 Oeste-87 Grande Lisboa-62 Sétubal-35 Alentejo Central-54 Alentejo Litoral-62 Baixo Alentejo-55 Legenda: >70% 50%-69% Algarve-74 < 50% Fig. 2.4 – Áreas com alto risco de erosão em Portugal continental (adaptado de Corine 1992) 2.1.2 Tipos de Erosão A erosão do solo é um processo de duas fases que compreende o destacamento de partículas de solo, pela acção da água na forma de gota de água ou de outros fenómenos de origem química, física ou biológica e subsequentemente o transporte dessas partículas pelo talude (Gamito 2000). 2.1.2.1 Erosão Hídrica A erosão hídrica existe em todo o mundo, com excepção dos desertos e zonas onde a água se encontra permanentemente congelada, os seus efeitos podem ser observados essencialmente sob duas formas: a superfície do solo é atacada pela chuva causando a ruptura das partículas que o constituem, permitindo a sua remoção e transporte por escoamento superficial -remoção superficial do solo ou quando o perfil do solo é atacado, resultando num movimento de massas. Cada uma destas formas inclui vários tipos de erosão, as quais se encontram no Quadro 2.3. Erosão por Salpico O processo de erosão hídrica inicia-se quando as gotas de água atingem o solo desprotegido destacando partículas e fraccionando agregados (Young 1972). 9 A erosão por impacto é provocada pelo embate das gotas da chuva sobre o solo, desintegrando parcialmente os agregados naturais, libertando as partículas finas e projectando-as a distâncias de um metro ou mais (Vieira et al. 1996). Quadro 2.3 - Tipos de erosão hídrica (adaptado de Vieira et al. 1996; Branca 1996) Formas Tipos Salpico (impacto gota) Laminar Remoção superficial do solo Sulcos Ravinas “Creeping” Movimento de massas Deslizamentos Solifluxão Observações É o primeiro estado do processo erosivo Resulta do bombardeamento da superfície do solo pela chuva É a primeira causa de desagregação e desintegração do solo Ocorre em solos de declive variável Pouco evidente e extremamente perigosa Transporte de partículas que se encontram em suspensão Precede a erosão por sulcos Desenvolve-se nas zonas irregulares do solo Provoca a remoção e transporte de partículas do solo e abertura de pequenos sulcos Forma canais com 30 cm de profundidade Sucede à erosão laminar e precede as ravinas; os seus efeitos são visíveis Sucede à erosão por sulcos e amplia os efeitos O tipo de ravinamento varia com a friabilidade Ocorre em solos com declive acentuado Movimento da camada superficial do solo ao longo da superfície do talude Movimento de massa lento Movimento de massas do solo ou de rocha, perceptível ao longo do plano inclinado Movimento de massas rápido Movimento de massas do solo sob a forma de correntes de lama Movimento de massas - rápido A ruptura mecânica dos agregados do solo e o rearranjo das partículas devido ao impacto das gotas podem conduzir à formação de crostas, reduzindo a capacidade de infiltração e aumento do escoamento superficial (Santos 2002). Em terrenos declivosos, a força do impacto das gotas de chuva é tal que mais de metade das partículas desprendidas se movimenta pelo talude (Bertoni e Lombardi Neto 1985). Estudos demonstram que se deve manter um grau de cobertura superior a 70% para prevenir a desagregação das partículas do solo, o início da erosão laminar e a formação de sulcos. Em solos muitos erodíveis deve manter-se um grau de cobertura compreendido entre 80-100% (DPIWE 2005). Erosão Laminar A erosão laminar ou entre sulcos manifesta-se por uma remoção e transporte relativamente uniforme de solo de toda a área em causa, não sendo por isso tão perceptível como os outros tipos de erosão (Meyer 1979). 10 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Este tipo de erosão ocorre mesmo em terrenos com pequenos declives, desgastando-os suave e uniformemente em toda a sua extensão. A matéria orgânica e a argila são as primeiras partículas a ser desagregadas (Vieira et al. 1996). Pode-se prevenir a erosão laminar através da manutenção da cobertura vegetal (prevenção da erosão por salpico) e da maximização da infiltração da água. Esta consegue-se pela manutenção da estrutura e teor em matéria orgânica (DPIWE 2005). Erosão por Sulcos Designa-se erosão por sulcos o processo de destacamento e transporte de partículas do solo por acção de escoamento superficial concentrado. Dentro do sulco assume-se que o destacamento por acção do impacto da gota não tem significado (Foster 1982). O destacamento das partículas através do escoamento depende da erodibilidade dos sulcos, das características hidráulicas do escoamento dentro dos sulcos e da carga de sedimentos em suspensão (Bagarello e Ferro 1999). Os sulcos desenvolvem-se para onde é canalizado o escoamento, devido às variações topográficas, às marcas no solo deixadas pelas operações culturais ou às irregularidades ocasionais que ocorrem à superfície. Depois de formados, aumentam rapidamente com a concentração do escoamento, o qual por sua vez, aumenta com o comprimento e o declive da encosta (Meyer 1975). Assim que o escoamento superficial se inicia, a erosão por sulcos pode ser prevenida quer pela redução da velocidade da corrente quer pelo aumento da compactação do solo, dificultando assim a sua remoção. A redução da velocidade do escoamento pode ser alcançada, pelo aumento da rugosidade do solo (ver ponto 2.3), pela diminuição do declive do talude e pelo uso de um sistema de drenagem eficaz (DPIWE 2005). Erosão por Ravinas De acordo com Mitchell e Bubenzer (1980) as ravinas formam-se por agrupamentos e desenvolvimento dos sulcos. Morgan (1986) por sua vez considera que o início da ravina é um processo mais complexo. As ravinas são canais fundos, com uma secção relativamente estreita, que na primeira fase de formação tem a forma de V. À medida que a ravina se desenvolve, a sua secção pode ser moldada por fenómenos de desgaste e deslizamento assumindo uma forma triangular, trapezoidal ou em U (Bagarello e Ferro 1999). Quando os solos são profundos e os diferentes horizontes são de material de consistência uniforme, as ravinas desenvolvem-se em paredes mais ou menos verticais (Bertoni e Lombardi Neto 1985). Quando são friáveis, as paredes estão sujeitas a frequentes desmoronamentos. Por sua vez, quando o 11 subsolo ou os horizontes subsuperficiais são mais resistentes que os horizontes superficiais, as ravinas apresentam a forma de V (Vieira et al. 1996). O início e crescimento das ravinas dependem de uma concentração de escoamento suficiente para formar um canal definido, ficando o seu comprimento dependente da área de drenagem contributiva (Schumm 1956). O desenvolvimento da ravina nem sempre se deve a processos de erosão à superfície do solo. Quando o escoamento subterrâneo se concentra numa rede de canais pode, numa situação de precipitação intensa, induzir a quebra da superfície do solo, expondo a referida rede como ravina (Bagarello e Ferro 1999). Segundo Horton (1945), numa encosta encontram-se três zonas de erosão: a zona superior próxima do topo, praticamente sem erosão; uma zona a meio da encosta, onde se acentua o escoamento superficial, com grande erosão; e no final uma zona de erosão decrescente e com deposição de sedimentos. Segundo Schaeffner (1989) as principais consequências destes tipos de erosão são: • • • • um atentado à estética dos taludes. Este aspecto poderá ser considerado como menor, mas para o utente da via traduz-se como um impacte visual negativo; uma redução da estabilidade dos taludes, pois desde que as ravinas atinjam uma certa profundidade, podem desencadear grandes deslizamentos; um assoreamento prematuro e frequentemente irremediável das linhas de água vizinhas e de saneamento; riscos de aluimento de terras que obrigam a posteriores tratamentos dos taludes, assim como um incremento das dificuldades de utilização de materiais de tratamento dos mesmos. Trata-se então de um fenómeno que, em certos casos, pode originar problemas de difícil resolução, pelo que é conveniente estimar a priori a amplitude da erosão sobre o projecto, a fim de estabelecer estratégias específicas. A erosão ravinosa pode ser prevenida através da minimização das desmatações e da construção de uma drenagem eficaz dos taludes. Assim que as ravinas estejam instaladas são de difícil controlo. Na maior parte dos casos tem de se recorrer a uma combinação de técnicas de revestimento vegetal (ver ponto 2.3) e de engenharia para controlar este tipo de erosão (DPIWE 2005). 2.1.2.1.1 Factores Responsáveis pela Erosão Hídrica A chuva é um dos factores climáticos que apresenta maior importância quando se estuda a erosão dos solos. As características da chuva que mais contribuem para a erosão são: a frequência, a intensidade e a duração (Vieira et al. 1996). 12 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes A frequência é o número de chuvadas que ocorre em determinado tempo, isto é, o maior ou menor espaço de tempo decorrido entre uma chuvada e outra (Vieira et al. 1996). Assim, se os intervalos de tempo entre chuvadas for curto, existe elevado teor de humidade no solo, e caso se registe uma nova chuvada nestas condições ocorrerá escoamento superficial. Se as chuvadas forem espaçadas, o solo encontar-se-à seco e a probabilidade de ocorrer escoamento superficial é menor (Branca 1996). A intensidade é a quantidade de chuva que cai em determinado intervalo de tempo (Vieira et al. 1996). Este factor é o elemento mais activo na remoção das partículas do solo (Morgan e Rickson 1996). O jacto de água, produzido após o impacto da gota de água, projecta as partículas em vários centímetros no ar (Morgan 1990). Quanto maior a intensidade da chuvada maior será a sua capacidade de separar as partículas do solo e consequentemente a sua erodibilidade, para igualdade dos outros factores (Branca 1996). A duração é o tempo de duração da chuvada (Viera et al. 1996). Se a intensidade da chuvada determina fundamentalmente modificações à superfície do solo, o transporte de partículas, está fundamentalmente dependente da duração do aguaceiro com determinada intensidade (Madeira 1990). A queda contínua de chuva pode provocar a compactação do solo e originar a formação de uma crosta, que irá reduzir a capacidade de infiltração do solo (Morgan 1990). O escoamento será tanto maior em quantidade, quanto maior for a duração da chuvada até atingir um volume estável, para intensidade constante (Branca 1996). O declive e a área do terreno são também factores físicos que influenciam a erosão hídrica do solo. A erosão hídrica não constitui um problema das zonas planas, apenas em zonas onde a topografia dos terrenos é ondulada, as perdas de solo começam a adquirir alguma importância. O tamanho e a quantidade de material que a água pode arrastar ou transportar em suspensão depende da velocidade com que esta escorre, a qual é resultante do comprimento e do grau de inclinação do terreno (Castro 1965). Quanto maior for o declive maior é a velocidade com que a água escorre ao longo do talude, diminuindo portanto, o seu tempo de infiltração. Por outro lado quanto maior o comprimento do talude maior será o volume do escoamento e consequentemente a sua velocidade. Tanto o comprimento como a forma de um talude influenciam o volume do escoamento, sendo no entanto mais importante o comprimento (Ayres 1936). As propriedades físicas do solo, nomeadamente a sua estrutura, textura e consequentemente a porosidade (sobretudo a macroporosidade) condicionam a resistência do solo ao impacto das gotas de água e a capacidade de infiltração da água (Gray 1982). A estrutura do solo desempenha um papel importante de maior ou menor resistência à energia de destruição das gotas de água. A estrutura grumosa é a que melhor defende o solo da erosão, já que corresponde a uma agregação de maior estabilidade física. Em contrapartida a ausência de estrutura facilita a erosão (Castro 1965). Segundo Castro (1965) a textura do solo contribui para a erosão da seguinte forma: 13 • • Um solo arenoso, com grandes espaços porosos, durante uma chuvada pouco intensa, absorve toda a água que recebe sem originar escoamento superficial e portanto sem sofrer erosão. Por outro lado contém baixa proporção de partículas argilosas, que actuam ligando e mantendo unidas as partículas mais grosseiras. Desta forma, qualquer corrente de água, ao fluir sobre a sua superfície arrasta grandes quantidades de solo. Esta característica dos solos arenosos também diminui a capacidade de retenção da água; Num solo argiloso, com poros muito pequenos, durante uma chuvada, grande parte da água não penetra no terreno ocorrendo elevada drenagem superficial. Em contrapartida é grande a sua capacidade de retenção de água. Os solos de textura intermédia são os que se apresentam mais vantajosos por, na sua constituição, possuírem partículas de diferentes tamanhos e misturadas em tais proporções que minimizam os inconvenientes dos extremos. Outro factor com grande influência na erosão hídrica do solo é a vegetação. Toda a planta, desde a mais pequena erva até à árvore mais corpulenta, defende o solo da acção prejudicial das chuvas. Ayres (1936) resume a forma como as plantas defendem o solo da seguinte forma: • dispersão directa, intercepção pelas folhas e evaporação das gotas de água da chuva, não chegando desta forma ao solo; • transpiração de grandes quantidades de água que passam dos estratos mais profundos ao ar; • protecção directa contra o impacto das gotas de água da chuva; • efeito sugador do sistema radicular sobre as partículas do solo; • penetração das raízes através do perfil, as quais ao morrerem e se decomporem deixam numerosas cavidades tubulares que aumentam a infiltração e melhoram o arejamento do solo; • melhoramento da estrutura do solo, maior teor de matéria orgânica e consequente aumento da infiltração; • aumento do atrito superficial e dispersão lateral do escoamento superficial da água, reduzindo, desta forma, o seu volume e diminuindo a sua velocidade. 2.1.2.2 Erosão Eólica A erosão eólica é um processo que consiste na ablação, transporte e redistribuição das partículas móveis e finas do solo pela acção do vento. O vento exerce uma força sobre a superfície do solo, transportando as partículas sob três formas: rolamento, saltação e suspensão. As partículas removidas são depositadas noutros locais resultando uma acumulação à superfície das partículas mais grosseiras (Branca 1996). Os factores intervenientes na erosão eólica são: o clima (vento, precipitação, e temperatura do ar), as características do solo, a cobertura vegetal, a topografia do terreno e a acção do homem (Gray 1982). 14 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes A força que o vento exerce sobre a superfície do solo depende da sua velocidade e das irregularidades do terreno que fazem ascender as partículas a alturas em que a velocidade do vento é nula. Neste princípio baseiam-se muitas das medidas de luta contra a erosão eólica, por exemplo, procurar manter à superfície um conjunto de partículas mais grosseiras, capazes de absorver a força do vento evitando a ocorrência de desprendimentos e transporte de partículas mais finas. Se o terreno se apresenta nu e muito liso, a velocidade é nula numa altura compreendida entre 0.03 e 2.5mm (Castro 1965). A pluviosidade determina as variações na humidade do solo. Quando a chuva é insuficiente para dotar o solo da humidade necessária para aumentar a sua coesão, ou para que cresça uma vegetação protectora, este fica exposto à acção do vento com fácil ablação de partículas. Quando a distribuição das chuvas determina precipitações concentradas numa estação, e se durante a época seca sopram ventos de grande intensidade, então pode ocorrer uma situação critica de erosão eólica (Branca 1996). A temperatura do ar influencia o regime hídrico do solo e a sua cobertura vegetal. Se durante o período seco as temperaturas do ar forem elevadas, os níveis de humidade do solo baixam drasticamente o que aumenta a sua susceptibilidade à desagregação, piorando as condições para o desenvolvimento das plantas. Existe uma relação directa entre a estrutura e textura do solo e a erosão eólica. No caso das partículas pesadas, estas apenas rolam impulsionadas por um choque de partículas de tamanho intermédio. O vento eleva-as pouco e transporta-as a curtas distâncias. Por outro lado, se as partículas forem leves podem ser transportadas a distâncias consideráveis, permanecendo em suspensão por períodos de tempo mais prolongados (Alho 1984). Segundo Castro (1965), a erosão eólica é um problema das zonas planas. No entanto este tipo de erosão também pode ocorrer em superfícies onduladas, nomeadamente nas cotas superiores, pois as partículas encontram-se mais expostas, enquanto nas zonas mais baixas estão abrigadas do vento. 2.1.3 Métodos de Quantificação e Predição da Erosão Para estudar o fenómeno da erosão e estimar as perdas do solo utilizam-se dois métodos diferentes: experimentação e modelação (Morgan 1990): • Experimentação - baseia-se na recolha de material erodido em campos experimentais (2.1.3.1.1) e/ou laboratórios (2.1.3.1.2) unidades experimentais (Hudson 1993) • Modelação - métodos baseados em modelos matemáticos (ex: USLE, RUSLE) e fisicamente baseados e outros (Hudson 1993) 2.1.3.1 Métodos Experimentais A experimentação é talvez o método mais correcto para determinar a erosão do solo em taludes. 15 No entanto, as unidades experimentais só devem ser usadas: 1. quando se pretende fazer uma demonstração ou quando o objectivo é demonstrar factos já conhecidos; 2. para fazer estudos comparativos, por exemplo para testar, demonstrar ou obter uma indicação aproximada do efeito do escoamento ou uma simples comparação da erosão numa situação com ou sem “mulch”, etc. 3. para obter dados para a construção/validação de um modelo ou equação de previsão do escoamento ou perda de solo (Hudson 1993). Os problemas associados às unidades de experimentação são muitos e variados: 1. São caras na instalação, na manutenção e nos custos operativos; 2. Requerem muita mão-de-obra de diferentes níveis de qualificação; 3. É necessário muita dedicação; 4. São necessárias instalações laboratoriais para manejamento das amostras; 5. Estas unidades têm todos os problemas e dificuldades de ensaios agronómicos, mas com a agravante de se ter que recolher e quantificar a água e o solo, verificando-se por isso uma grande margem para erros e falhas; 6. Existem igualmente restrições no que pode ser quantificado em unidades pequenas (Hudson 1993). Segundo Hudson (1993) existem diversos tipos de unidades de experimentação: 1) Chuva natural ou simuladores de chuva O método mais simples e barato é instalar a unidade e esperar que chova, mas a imprevisibilidade da chuva pode tornar esta tarefa frustrante. O método alternativo consiste em recorrer a simuladores de chuva que têm a vantagem de acelerar a obtenção de resultados mas têm igualmente a desvantagem de serem caros e exigirem muita mão-deobra. 2) Unidades ligadas ou livres As maiorias das unidades estão separadas para definir a área a partir da qual o escoamento e o solo estão a ser colectados, mas existem alguns casos em que é apropriado usar unidades livres como são exemplo os dispositivos de Gerlach (ver ponto 2.1.3.1.1). Existem vários graus de sofisticação na construção destes dispositivos e recipientes mas, na maioria dos casos, não se justificam soluções caras e complicadas, porque o que é exigido é um grande número de repetições para superar as variações que resultam do facto de não haver separadores a limitar ou dirigir o escoamento de cada talhão. 3) Tamanho das unidades O tamanho das unidades deve estar relacionado com o objectivo do ensaio. • Micro unidades Unidades de um ou dois metros quadrados. Podem ser apropriadas se o objectivo for uma simples comparação de dois tratamentos onde o resultado do tratamento não é susceptível de ser influenciado pela escala. 16 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes • • Unidades de pequena escala Unidades com cerca de 100m2. São as mais usadas em ensaios de praticas culturais, efeitos de cobertura, rotações e quaisquer outras práticas que possam ser reproduzidas em pequenas unidades, da mesma forma como seriam numa escala de campo e onde se espera que os resultados não sejam afectados pelo tamanho do talhão. Unidades de campo Unidades com aproximadamente 1 ha. Permitem fazer tratamentos que não seriam realisticamente aplicáveis a pequenos talhões. 2.1.3.1.1 Experimentação de Campo Método de Gerlach Talvez a forma mais expedita de obter valores de erosão do solo seja o Método de Gerlach (1980). Consiste na colocação de caixas metálicas de 0,5m de comprimento por 0,1m de largura, lado a lado, ao longo do talude. Cada caixa está ligada, através de um tubo, a um recipiente que recolhe a material erodido. A quantidade de solo recolhido no recipiente representa a erosão da área do talude correspondente à área da caixa e do talhão. Estações Experimentais Existem outros métodos para medir a erosão do solo. Estes são utilizados em estações experimentais onde é conhecido o comprimento, o declive e o tipo de solo (Silva 1999). As unidades experimentais geralmente têm 22m de comprimento e estão individualizadas por separadores de madeira ou metal, de forma a evitar o fluxo de água vindo de outras partes do talude. Fig. 2.5 – Estações Experimentais (Gamito 2002) Estes métodos, apesar de serem os mais credíveis para obter valores de erosão do solo, são mais caros e mais complexos do que o método de Gerlach ou similares. 2.1.3.1.2 Experimentação Laboratorial A experimentação pode igualmente ser conduzida em laboratórios. Neste ambiente controlado, as condições de campo, podem ser simuladas e a erosão do solo estimada. Geralmente é utilizado um simulador de chuva para simular a precipitação nas unidades experimentais. 17 No entanto, a reprodução exacta da realidade não é possível devido a problemas de escala. A erosão do solo é uma consequência de vários fenómenos que ocorrem numa certa área. A diminuição de escala destas áreas requer, por exemplo, que a precipitação possa ser reproduzida numa escala equivalente. Contudo, isto é difícil de obter uma vez que o tamanho e a intensidade das gotas de chuva não podem ser convertidas para escalas inferiores. Uma vez que a altura dos simuladores de chuva não é suficiente (normalmente limitada pelo telhado do laboratório) para reproduzir a intensidade da chuva, é necessário descarregar a água a pressões mais elevadas, o que resulta na produção de gotas mais pequenas do que as que ocorrem na natureza (Morgan 1990). Ambos os métodos quer de campo ou laboratório são bastante expeditos para determinar valores de erosão do solo. No entanto, pode levar três a quatro anos até se poderem considerar fiáveis os resultados obtidos e apenas são válidos para as áreas em estudo. A generalização para taludes com diferentes características (solo e dimensões) seria, deste modo, desajustada. 2.1.3.2 Modelos Quando valores quantificativos são atribuídos aos factores condicionantes da erosão e são combinados numa equação matemática simples ou modelo, devidamente testado e validado, este pode ser utilizado para prever a quantidade média de solo que se perde em diferentes regiões, tipos de solo, declives e padrão de utilização do solo. Os modelos são, assim, importantes instrumentos de ordenamento, que não só permitem estimar a taxa de erosão actual e verificar a gravidade do problema, como permitem avaliar o efeito da variação de um ou mais factores e prever a implementação de medidas de conservação. 2.1.3.2.1 Modelos Empíricos USLE (Universal Soil Loss Equation) A equação universal de perda do solo (USLE), deduzida por Wischmeier e colaboradores em 1957, com base em dados experimentais obtidos nos EUA, é talvez o modelo mais utilizado para estimar valores de erosão hídrica laminar e por sulcos (Santos 2002). São vários os factores que influenciam as perdas de solo (Fig. 2.6), cada um constituindo uma variável independente que pode ser reduzida a um número, de maneira a que o seu produto represente a quantidade de solo perdido (Vieira et al. 1996). 18 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes A Erosão é Função da: Erosividade Chuva Erodibilidade Características Físicas Técnicas de controle de erosão Maneio Energia A = R x K x SL x P x C Fig. 2.6 – Factores que influenciam as perdas de solo (adaptado de Vieira et al. 1996) A equação das perdas de solo exprime, assim, a acção dos principais factores que influenciam a erosão pela chuva (Bertoni e Lombardi 1985). A USLE prevê o valor médio de perda do solo. A USLE é representada pela seguinte expressão matemática: A=RKLSCP A - perda de solo estimada por unidade de área (t/ha/ano), calculada com base num produto de seis factores principais: R - factor de erosividade da precipitação, quantifica o efeito do impacto das gotas de chuva no solo e a acção de transporte subsequente, iniciado com a escorrência superficial. É função do índice erosivo de Wischemeier (EI30-índex), que corresponde à energia cinética total libertada vezes a intensidade dos 30 minutos mais intensos de uma chuvada erosiva, que é uma precipitação com altura total inferior a 13mm com espaçamento mínimo de 6 horas de outra ocorrência. K - factor erodibilidade do solo, exprime a susceptibilidade do solo à erosão e é definido como a perda de solo em ton/ha por unidade do índice de erosividade R. K é influenciado principalmente pela sua textura (granulometria), estrutura, permeabilidade e teor de matéria orgânica. O cálculo do seu valor pode ser auxiliado de várias formas, nomeadamente através da leitura de gráficos designados nomógrafos. L - factor de comprimento do talude; factor relativo usando como referência um talhão de 22.1m de comprimento, do mesmo tipo de solo e com o mesmo declive. S - factor de declive do talude; factor relativo usando como referência um declive de 9 % para o mesmo tipo de solo e para o mesmo comprimento. C - factor de cobertura e maneio do solo, define-se como a razão de perda de solo entre um terreno sobre o qual está implantada uma cultura determinada, ao longo do seu ciclo vegetativo e sob 19 condições climáticas específicas e o terreno de referência, completamente lavrado e em situação de pousio. Este factor procura ter em consideração a influência das diferentes fases dos trabalhos agrícolas ou silvícolas assim como o desenvolvimento das plantas, na erodibilidade do solo. P - factor de práticas de conservação do solo, define-se como a razão entre a erosão que ocorre sob utilização de práticas específicas de conservação do solo e a que ocorre sob cultivo, no sentido do maior declive (Mitchell e Bubenzer 1980). Estas práticas conservativas são normalmente a lavoura segundo as curvas de nível, a armação do terreno em valas e cômoro e o terraceamento. A tecnologia associada ao modelo não foi deixando de evoluir; vários modelos foram aparecendo e entroncando nas bases do modelo inicial e a USLE tornou-se na mais importante ferramenta de previsão da erosão e de planeamento da conservação do solo nos EUA e no Mundo (Antunes e Coutinho 2002). A investigação não deixou de aperfeiçoar o modelo existente e foi sendo necessário subdividir e parametrizar os factores iniciais da USLE. Este desenvolvimento esteve na base da metodologia da Equação Universal da Perda de Solo Revista (RUSLE) (Renard et al. 1997). RUSLE (Revised Universal Soil Loss Equation) A RUSLE é um modelo empírico de erosão concebido para prever a perda de solo média anual (A), considerando dados de um conjunto de anos tão alargado quanto o possível, transportada por escoamento a partir de áreas declivosas específicas com sistemas de culturas e operações culturais bem definidas, em áreas de pastoreio e de mato. Esta equação também pode ser aplicada a áreas não agrícolas, como locais de construção (Renard et al. 1995). As modificações introduzidas pela RUSLE incidem sobre todos os factores. O factor R, da erosividade da chuva, apresenta uma nova equação para o cálculo da energia cinética; o factor K, da erodibilidade do solo, reflecte agora a variabilidade ao longo do ano; o factor LS, da topografia, reflecte a relação da erosão entre sulcos e nos sulcos; o factor C, das culturas, é calculado como o produto de factores que reflectem o uso prévio do solo, a cobertura superficial, a cobertura pela cultura, a rugosidade da superfície e, em algumas áreas, a humidade do solo; o factor P, de práticas conservativas, foi alterado de forma a considerar as lavouras segundo as curvas de nível (Sebastião 1995). Renard et al. (1995) chamam a atenção para alguns aspectos da utilização da RUSLE: • As perdas de solo variam ao longo de uma encosta longa e uniforme. A perda de solo que ocorre no topo da encosta é substancialmente menor que a média da perda de toda a encosta e a que ocorre na base é consideravelmente maior. Estas perdas do solo acima da média ocorrem, geralmente, no mesmo local ano após ano. Uma vez que a RUSLE calcula o valor médio anual, é incapaz de prever os valores extremos que ocorram em tais locais. • Com uma selecção apropriada dos valores a atribuir aos factores da RUSLE pode-se calcular a perda de solo média para um sistema de várias culturas num determinado ano de rotação ou para uma determinada fase vegetativa da cultura nesse ano. De forma mais particular, as relações que permitem o cálculo dos factores R e C foram determinadas tendo 20 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes • em conta um valor médio, resultante da assumpção de que as flutuações dos valores destes factores, ocorridas entre acontecimentos isolados, se esbatem para um período de tempo longo. Não é de esperar muita precisão quando se utiliza a RUSLE para simular acontecimentos específicos, porque os factores têm um carácter anual e se prestam ao cálculo de perdas de solo médias, tendo em conta grandes períodos de tempo. Todos os processos de cálculo estão concebidos para unidades americanas. A utilização do modelo obriga à conversão prévia de todas as variáveis de entrada que se encontrem em unidades do Sistema Internacional. A RUSLE, como tentativa de reabilitação e renovação da metodologia da USLE, não correspondeu a um verdadeiro avanço pois, mantendo-se a mesma linha conceptual, promoveu o ajustamento e aperfeiçoamento dos procedimentos de cálculo da mesma base paramétrica, o que consiste numa sub-factorização, passando dos sete iniciais para cerca de 115 parâmetros. (Antunes e Coutinho 2002). 2.1.3.2.2 Modelos fisicamente baseados Com a evolução da investigação, surgiram e foram sendo desenvolvidos novos modelos de base semi-empírica e fisicamente baseada, tal como o CREAMS, com componentes de erosão e sedimentação. Em meados dos anos 80, foi iniciado também o desenvolvimento de uma nova tecnologia de abordagem de erosão - o Projecto de Previsão da Erosão Hídrica - PPEH (Water Erosion Prediction Project - WEPP), que teve o seu lançamento oficial em Agosto de 1995. Na Europa tem vindo a ser desenvolvido um esforço de criação de um modelo fisicamente baseado, o EUROSEM - de certo modo concorrencial do PPEH - apoiado num grupo alargado de investigadores de diferentes origens e associado à base de desenvolvimento do “Sistéme Hidrologique Européen - SHE”. Recentemente, tem-se observado uma tentativa de articulação dos principais modelos de previsão da erosão disponíveis, empíricos e fisicamente baseados, com o objectivo de tirar o máximo partido de investigação e da experiência acumulada, que pretende interactuar num espaço alargado dos diferentes modelos e das distintas escalas de intervenção “Modular Soil Erosion System” - MOSES (Antunes e Coutinho 2002). 2.1.3.3 Modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão em taludes A forma de obter informações relativas à erosão do solo assinaladas nos pontos anteriores são insatisfatórias devido principalmente ao facto de requererem informação que, na maioria dos casos, é de difícil acesso (por exemplo valores de intensidades de precipitação) e não é frequentemente utilizada pelos especialistas da bioengenharia. Desta forma um dos objectivos do SAD (Sistemas de Apoio à Decisão) (ver ponto 2.3.3) é ser uma ferramenta simples, acessível e facilmente compreensível por todos os utilizadores (Gamito e Hamilton 2001). 21 O modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão (EPR) foi baseado na USLE ao invés de se basear no modelo WEPP e EUROSEM, porque os factores KLS da USLE que reflectem características do talude que condicionam a erosão do solo se obtêm com relativa facilidade, ao contrário dos parâmetros utilizados nos outros modelos. Usando apenas os índices KLS, o modelo EPR não calcula a quantidade de solo perdido mas apenas um valor potencial, uma vez que os factores RCP da USLE não são tomados em consideração. A regressão que representa o índice de erosividade (R) deve ser determinada para todas as regiões onde a intensidade de precipitação é diferente, o que ainda não foi feito para o território nacional, para além disso o R é obtido através da monitorização dos valores médios da intensidade anual da precipitação o que no caso português é de difícil acesso. De facto, em Portugal os valores de intensidade de precipitação são sempre mais baixos ou mais altos que os valores médios anuais de intensidade de precipitação, o que significa que esses valores na realidade nunca se verificam (Tomás 1997). Adicionalmente, a regressão usada na USLE para calcular o índice R para Portugal pode sobre-estimar a erosão em cerca de 10 vezes (Tomás e Coutinho 1994). Existem outros estudos que sugerem uma sobre-estimativa mais baixa, de cerca de 3 vezes, no entanto estes não reportam ao nosso território. Consequentemente, devido à dificuldade de calcular este factor em Portugal, a aplicabilidade da USLE e da RUSLE neste contexto fica comprometida. Enquanto que o factor R da USLE não é usado, pelos motivos acabados de referir, para os factores C (efeito da vegetação na erosão do solo) e P (efeito das medidas de conservação na erosão do solo) assumem-se os mais altos valores possíveis porque as técnicas de biotecnologia são geralmente utilizadas em taludes sem cobertura vegetal (C=1) e sem medidas de conservação (P=1). Consequentemente estes dois factores deixam de ter influência nos resultados. Para se obter o valor exacto da erosão, deve ser considerado, o factor R, sempre que seja possível a sua determinação. Apesar de ser uma adaptação da USLE, o modelo EPR utiliza expressões diferentes para calcular o K. Silva (1999) após ter conduzido ensaios em estações experimentais determinou as expressões de cálculo do K para o caso dos solos portugueses. Como as expressões que reflectem a influência do talude na erosão são independentes das características do solo, os factores LS do EPR são calculados utilizando as mesmas equações propostas por Wischmeier e Smith (1978). 22 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes USLE factores KLS Experimentação de Campo para determinar o factor K Português (Silva, 1999) Factores LS de acordo com Wischmeier & Smith (1978) Adapatação da Metodologia à Realidade Portuguesa Classes LS para os taludes Portugueses (Morgan, 1990; Silva, 2001) Classes K de acordo com a análise dos horizontes de todos os solos Portugueses Modelo EPR Fig. 2.7 - Metodologia do Modelo EPR (Erosion Potential Risck Model) O que diferencia este modelo dos anteriores é a introdução de classes de risco potencial de erosão. As classes de risco resultam, no caso do factor K, da análise de todos os solos portugueses, no caso dos factores LS, das considerações de Morgan (1990) e Silva (2002), do valor máximo de erosão aceitável e da influência dos factores LS na perda total de solo. Para facilitar a associação entre o risco de erosão e a aptidão das técnicas de biotecnologia o modelo EPR apresenta três classes de risco: alto, médio e baixo. A razão para estabelecer três classes de risco de erosão deriva da possibilidade de agrupar as técnicas de biotecnologia em três categorias de acordo com a sua capacidade de minimizar a erosão. Gamito (2000) refere que, como este processo de dedução é responsável pela introdução de alguma inexactidão, a existência de mais do que três categorias diminuía a sua credibilidade. 23 2.2 O PAPEL DA VEGETAÇÃO NA ESTABILIZAÇÃO DE TALUDES O revestimento vegetal dos taludes melhora a sua integração paisagística e diminui o impacte ambiental associado à abertura de escavações ou à construção de aterros. A vegetação afecta a estabilidade superficial do solo e também o movimento de massas de forma importante e significativa (Menashe 2001). Os efeitos estabilizadores ou os benefícios protectores conferidos pela vegetação dependem do tipo de vegetação e do tipo de processo de degradação que ocorre no talude. Por exemplo, no caso da estabilização em relação ao movimento de massas, os efeitos protectores da vegetação lenhosa vão desde o reforço e retenção mecânicos, conferidos pelas raízes e caules, até à modificação da hidrologia do talude, como resultado da extracção de água do solo via evapotranspiração (Menashe 2001). A combinação de técnicas de reforço do solo de taludes com sistemas de bioengenharia de solos oferece, tipicamente, as seguintes vantagens: • Estabilização imediata do talude e controlo da erosão • Redução dos custos de manutenção • Modificação do regime hídrico do solo usando sistemas de drenagem e/ou socalcos • Aumento de habitats de vida selvagem e da diversidade ecológica • Aumento da qualidade estética e beleza cénica através da revegetação e naturalização do talude (Sotir el al. 1998) As medidas de engenharia deterioram-se ao longo do tempo, tornando-se progressivamente menos efectivas ou falhando rotundamente. Se a vegetação não é incorporada nas medidas de engenharia, os problemas de estabilização podem tornar-se recorrentes a longo prazo (Menashe 2001). O recurso a soluções bioestruturais para resolução de problemas de erosão e de estabilização de taludes é tendencialmente mais económico, efectivo e adaptável a longo prazo do que a aplicação de soluções puramente estruturais. A revegetação e as medidas biotécnicas podem ser usadas em conjunto com biotêxteis e estruturas de engenharia sempre que apropriado (Menashe 2001). Os métodos mais eficazes no controlo da erosão têm provado ser aqueles que melhor reproduzem as condições que se encontram nos taludes naturais. Métodos de controlo mecânicos ou artificiais, apesar de serem algumas vezes de uma efectividade imediata, deterioram-se com o tempo e revelam-se muito mais ineficazes a longo prazo que aqueles que empregam os processos de regeneração da vegetação natural (Menashe 2001). 2.2.1 O Papel Funcional da Vegetação Os mecanismos pelos quais a vegetação influencia a estabilidade de um talude podem ser classificados como sendo de natureza hidrológica e mecânica. Os factores mecânicos são relativos 24 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes às interacções físicas da folhagem e/ou do sistema radicular das plantas com o talude. Os factores hidrológicos são aqueles que se relacionam com o ciclo hidrológico quando a vegetação está presente (Greenway 1987). A figura 2.8 ilustra os mecanismos hidrológicos e mecânicos que influenciam a estabilidade dos taludes. Legenda: Chuva Vento MECANISMOS HIDROLÓGICOS 1 8 1-Intercepção 4 2-Infiltração 3-Diminuição da velocidade de 4 2 1 escoamento 4-Evapotranspiração 3 MECANISMOS MECÂNICOS 6 5-Reforço dado pelas raízes 5 7 6-Efeito de arco criado pelas raízes 7-Sobrecarga 8-Efeito de barreira contra o vento Fig. 2.8 - Efeito da vegetação na estabilidade de um talude (adaptado de Greenway 1987) Os efeitos funcionais da vegetação, que podem ser benéficos ou adversos para a estabilização de taludes, foram exaustivamente estudados por Coppin e Richards (1990). Nos parágrafos seguintes faz-se uma descrição desses efeitos, geralmente associados à folhagem in situ ou depositada na superfície dos maciços, às raízes e ao tamanho da vegetação, procurando-se em cada caso valorar a sua acção. Quando a folhagem da vegetação intersecta os pingos da chuva, no seu trajecto para o solo, pode ter como consequência alguns dos seguintes efeitos: • Perda por absorção e evaporação, o que é benéfico pois reduz a quantidade de água disponível para infiltração; • Redução da energia cinética das gotas e consequentemente da sua erosividade, o que constitui também um efeito benéfico; • Aumento do tamanho das gotas que, pode contrapor-se ao efeito anterior, sendo localmente desfavorável. Por outro lado, a folhagem que cobre a superfície dos maciços afecta o fluxo da água superficial ao favorecer: • Um aumento do volume de água para infiltração, o que é, em princípio, desfavorável para a estabilidade; • Uma maior rugosidade superficial com a consequente redução favorável da velocidade do fluxo de água e ar; 25 • O arrastamento e concentração de detritos, o que constitui um efeito adverso já que conduz à concentração do fluxo e ao aumento da velocidade da água. Ainda no que respeita à folhagem depositada sobre os terrenos, ela tem efeitos mecânicos benéficos pois protege a superfície dos impactos devido ao tráfego e amortece a velocidade do vento, constituindo assim uma protecção contra a erosão eólica. Por sua vez as raízes penetram no perfil do solo acarretando quer um efeito desfavorável, que consiste na abertura de fissuras que incrementam a infiltração da água, quer um efeito favorável, dado que absorvem a humidade e, consequentemente, conduzem à diminuição do teor em água dos maciços terrosos. Do ponto de vista mecânico, os efeitos das raízes são genericamente benéficos, consistindo em: • união superficial das partículas, resultando em restrições dos movimentos, redução da erosão e, naturalmente, incremento da resistência ao corte; • penetração nos níveis profundos dos maciços, conduzindo à amarração dos níveis superiores aos inferiores e ao suporte dos níveis superiores através de reforço e efeito de arco. As raízes de algumas espécies de árvores desenvolvem-se de tal forma que acabam por constituir verdadeiros “cilindros de raízes” ancorados em profundidade (Fig. 2.9). Estes funcionam como estacas passivas contribuindo com um efeito estabilizador do solo superficial situado a montante dessas árvores. Para espaçamentos não muito elevados pode desenvolver-se um fenómeno de efeito de arco, entre as árvores, do qual resulta a transferência de tensões do solo deslizante para as raízes (Melo 1993). Substrato Cilindros verticais de raízes de árvores ancoradas no substrato Fig. 2.9 – Efeito de arco no solo provocado por raízes de árvores (adaptado de Greenway 1987) Os diversos factores que caracterizam a vegetação, ou seja, a sua altura e o seu peso, a forma, comprimento, densidade e resistência das raízes, entre outros, condicionam de forma distinta os diversos efeitos hidrológicos, hidráulicos e mecânicos associados à sua existência. O quadro 2.4 dá indicações, quanto às características da vegetação, que determinam a importância de cada um dos efeitos que esta possa ter. 26 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Quadro 2.4 - Característica da vegetação condicionante dos diversos efeitos (adaptado de Coppin e Richards 1990) Características condicionantes Efeitos S Intercepção da chuva Fluxo superficial Arraste superficial Infiltração X X No fluxo de ar (vento) Partículas sem suspensão Desvios do fluxo Arraste superficial Protecção contra ruído Na água subterrânea Evapotranspiração Teor em água do solo Drenagem interna Nas características do maciço Erosão Transporte Isolamento Filtro Resistência própria No fluxo de água superficial H F1 F2 X X X X F3 F4 X X X Legenda: S-% de cobertura superficial H-Altura P-Peso F1-Forma e comprimento da folhagem F2-Densidade da folhagem F3-Robustez da folhagem R2 R3 X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X C X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X Rede superficial Reforço das raízes Ancoragem Contraforte Cunha de raízes R1 X Sobrecarga Mecânicos P X X X X X X X F4-Flexibilidade da folhagem R1-Profundidade das raízes R2-Densidade das raízes R3-Resistência das raízes C-Ciclo do crescimento anual 2.2.2 Contribuição da Vegetação para a Segurança de Taludes Rodoviários As plantações, nos terrenos marginais às estradas, podem servir de guia visual ajudando a controlar o excesso de velocidade e ter um papel de balizagem e sinalização viva melhorando a condução óptica (identificação à distância do desenvolvimento do traçado), entre outros aspectos que se encontram assinalados no quadro 2.5. 27 Quadro 2.5 - Importância do revestimento vegetal em vias públicas (adaptado de Festas 1984; AIPCR 1964) Vantagens do Revestimento vegetal Qualidades Exigidas às espécies Vegetais Observações a) Condução óptica Sinalização: forma definida, de preferência tronco claro e folhas persistentes Em grandes espaços, as plantações complementares são necessárias para se obter uma boa condução óptica. b) Protecção contra o encandeamento Efeito de filtro e de sombra: boa capacidade de rebentação e ramificação densa; folhas persistentes As plantações quando estabelecidas como separadores de vias independentes, previnem o encandeamento, durante o dia pelo sol e à noite pelos faróis. c) Protecção contra o vento Abrigos dos ventos (igual a b)) Efeito de cortina, permitindo a diminuição da velocidade do vento. d) Protecção em caso de acidente Elasticidade: Propriedades elásticas; espécies folhosas com facilidade de rebentação As plantações quando colocadas à beira de precipícios podem atenuar as consequências dos acidentes por despiste, nomeadamente se entre estes e a faixa de rodagem existirem arbustos que amorteçam a queda. Estabilização: Sistema radicular denso, desenvolvimento rápido do sistema radicular; qualidade pioneira; espécies de fácil rebentação O revestimento vegetal permite controlar os efeitos provocados pela erosão, evitando o deslizamento de terras para a via. a) Protecção contra a poluição rodoviária Filtro: Semelhante a 1b), 1c) e 3b) resistência aos diferentes componentes das emissões gasosas A vegetação permite a protecção contra poeiras, a diminuição do ruído da circulação e controlo dos níveis de poluição provocados pelas emissões gasosas dos carros. b) Demarcação e faixagem da estrada Orla: Crescimento denso e formação de cortina espessa À noite e durante períodos de nevoeiro, ajudam a sinalizar a direcção e a largura da estrada, advertindo os condutores para possíveis perigos. 1) Circulação 2) Construção a) Consolidação de taludes 3) Segurança envolvente Estudos realizados pela AIPCR (1964) avaliaram os inconvenientes das plantações em vias públicas e o meio de os minimizar. Os parágrafos que se seguem referem algumas das conclusões obtidas. 28 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes As plantações desempenham um papel importante na diminuição da monotonia e fadiga do condutor. Quando se verifica um excesso de regularidade e densidade de plantações o efeito é contrário. Portanto, deve efectuar-se um cuidadoso plano de plantação tendo em conta todas as funções que estas vão desempenhar. As plantações muito próximas da via podem agravar as consequências dos acidentes de veículos que saem da estrada. Para reduzir a probabilidade de choques de veículos contra as árvores estas devem ser recuadas em relação à plataforma, também se deve evitar o emprego de árvores ou arbustos que possam impedir ou diminuir a visibilidade do condutor. As plantações nem sempre asseguram eficazmente a consolidação dos taludes, pondo em risco a segurança dos utentes da via. Portanto, existe um conjunto de procedimentos a seguir: • Sempre que as plantações, por si só, não consigam actuar eficazmente, deve utilizar-se um método combinado de material “vivo” e material “inerte”; • Deve ser efectuada, o mais cedo possível, uma sementeira à base de espécies pioneiras de forma a evitar a erosão superficial; • Deve efectuar-se uma escolha criteriosa das espécies vegetais a instalar de forma a garantir uma boa cobertura do solo. 2.2.3 Critérios para a Selecção da Vegetação A escolha das espécies herbáceas pioneiras, arbustivas e arbóreas deve, segundo Schiechtl (1980), basear-se em dois critérios: Critério fitossociológico - de acordo com este critério deve efectuar-se uma listagem das espécies características do local onde se pretende fazer o novo revestimento vegetal. Após o levantamento, determina-se quais as espécies primárias e as suas sucessoras, com vista à correcção de um tipo de vegetação próxima da climácica. Critério ecológico - de acordo com este critério deve efectuar-se um levantamento das condições edafo-climáticas do local onde se pretende fazer o novo revestimento vegetal. Embora, os solos que têm de ser artificialmente revestidos não sejam considerados como solos do ponto de vista pedológico, é igualmente necessário fazer uma análise das características físicas e químicas do solo. Após esta análise determina-se quais as espécies que se adaptam melhor às condições do local. Cada associação vegetal forma com o seu sítio uma relação dinâmica evolutiva extremamente intensa que conduz à evolução no sentido da formação de um ecossistema climácico estável e de elevada resistência. Quando se realiza a escolha de uma combinação de espécies pretende-se que esta assegure as diversas funções a que se destinam. Existe um conjunto de propriedades, inerentes a cada espécie, que devem ser encontradas e combinadas com base na vegetação correspondente às condições locais, de modo a que essas funções sejam asseguradas (Fernandes 1987). 29 Duthwiler (1967) apresenta um conjunto de propriedades que as associações vegetais devem possuir de modo a garantir a consolidação de encostas: 1 - Estágio inicial de pré-consolidação: • Boa propagação por semente e boa capacidade germinativa em solo nu ou em solo orgânico. • Capacidade regenerativa após eventual cobertura, boa capacidade das raízes de perfurarem o solo e se espalharem. • Boa capacidade de formação de raízes adventícias em estacas ou ramos. • Fraca susceptibilidade à seca ou ao excesso de água. 2 - Estádio inicial de colonização (herbáceas pioneiras): • Manutenção da capacidade germinativa por longo tempo. • Bom enraizamento lateral e profundo extensivo ou bom enraizamento denso. • Bom desenvolvimento de raízes mergulhantes ancorantes bem consolidadas no solo. • Boa capacidade de cobertura do solo pelo restolho. • Elevada produção de folhagem facilmente decomponível, capacidade de enriquecimento do solo em azoto (simbiontes radiculares), boa capacidade de formação de húmus. 3 - Estádio arbustivo (estabilização da associação pioneira): • Boa capacidade de uso temporão da água. • Boa resistência à seca. • Boa capacidade de crescimento em povoamentos densos. • Boa capacidade de resistência a variações intensas de biomassa. 2.2.4 Legislação Vigente para a Arborização de Taludes Rodoviários Em Portugal a legislação de arborização remete-se ao ano de 1961 encontrando-se presente no Decreto de Lei nº2110, de 19 de Agosto (secção 4ª). O presente Decreto-Lei pretende delegar às câmaras municipais de cada concelho a competência de promover e conservar a arborização das respectivas vias públicas, considerando-se como tal a arborização propriamente dita e o restante revestimento vegetal das suas margens, taludes e terrenos sobrantes. Na concepção e execução dos trabalhos de arborização das vias municipais, devem ser consideradas todas as funções que a arborização pode desempenhar, especialmente as de salubridade, agrado e conforto para os viajantes, de conservação dos pavimentos e consolidação das margens e taludes, bem como as de segurança ou facilidade do trânsito consoante as condições topográficas ou atmosféricas. O Artigo 35 do referido Decreto de Lei apresenta uma sistematização dos trabalhos a realizar, os quais devem consistir em: 30 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes 1. Plantação de espécies arbóreas apropriadas, o menos possível susceptíveis de prejudicar os prédios contíguos, convenientemente espaçadas e dispostas com a possível regularidade na zona da via municipal, tanto nos taludes como ao longo da via; 2. Plantação de árvores dispersas, isoladamente ou em pequenos grupos, para fins de ornamento ou para, mediante o emprego das espécies de porte e características apropriadas, se referenciarem pontes, cruzamentos ou outros locais que seja conveniente destacar; 3. Plantação de árvores em taludes, terrenos sobrantes ou marginais, de forma a constituírem-se pequenos maciços ou pequenos bosques; 4. Plantação de espécies arbustivas ornamentais, isoladas ou em grupos, nas banquetas, inclusive entre as árvores de alinhamento ou nos taludes; 5. Plantação de espécies trepadoras e afins para revestimento e embelezamento de muros, gradeamentos, taludes ou outras vedações; 6. Plantação de sebes vivas, talhadas ou não, para melhor enquadramento ou balizagem, no exterior das curvas; 7. Plantação ou sementeira de espécies diversas para revestimento ou fixação de taludes ou arribas. Pelo Decreto n.º 467/72, de 22 de Novembro, foi outorgada à Brisa-Auto-estradas de Portugal S. A. R. L., a concessão da construção, conservação e exploração de auto-estradas, nos termos das bases anexas àquele decreto. No projecto de concessão a BRISA fica responsável pela arborização das auto-estradas em toda a sua extensão, considerando-se como tal a arborização propriamente dita e demais revestimento florístico das suas margens, separador, taludes e áreas de serviço. Todos os lanços de auto-estrada são objecto de um projecto de integração paisagística que tem por objectivo atenuar alterações que as obras possam provocar no meio ambiente. No projecto paisagístico opta-se pela reconstituição e reforço de vegetação autóctone nos corredores ecológicos identificados, para ser estabelecido um "continuum naturale" que encaminhe a fauna existente para estas áreas (BRISA 2002). A introdução de espécies não indígenas pode originar situações de predação ou competição com espécies nativas, a transmissão de agentes patogénicos ou de parasitas e afectar seriamente a diversidade biológica, as actividades económicas ou a saúde pública, com prejuízos irreversíveis e de difícil contabilização. Acresce que, quando necessário, o controlo ou a erradicação de uma espécie introduzida que se tornou invasora, é especialmente complexa e onerosa. Nesse sentido, pelo Decreto-Lei nº 565/99, de 21 de Dezembro, interdita-se genericamente a introdução intencional de espécies não indígenas na Natureza, visando-se assim promover também o recurso a espécies autóctones aptas para os mesmos fins. Esta regulamentação vem atender às obrigações internacionalmente assumidas por Portugal, ao aprovar, para ratificação, através do Decreto n.º 95/81, de 23 de Julho, a Convenção de Berna, pelo Decreto n.º 103/80, de 11 de Outubro, a Convenção de Bona, e pelo Decreto n.º 21/93, de 21 de Junho, a Convenção da Biodiversidade, que preconizam a adopção de medidas que condicionem as introduções intencionais e evitem as introduções acidentais, bem como o controlo ou a 31 erradicação das espécies já introduzidas. Também a Lei de Bases do Ambiente, Lei n.º 11/87, de 7 de Abril, no seu artigo 15.º, n.º 6, preconiza a elaboração de legislação adequada à introdução de exemplares exóticos da flora e, no seu artigo 16.º, n.º 3, a adopção de medidas de controlo efectivo, severamente restritivas, no âmbito da introdução de qualquer espécie animal selvagem, aquática ou terrestre. Do referido Decreto-Lei constam listagens das espécies não indígenas invasoras, das espécies não indígenas que comportam risco ecológico e das espécies não indígenas com interesse para arborização. As listagens encontram-se remetidas para anexo deste trabalho estando organizadas da seguinte forma: • Anexo I – inclui as espécies da flora não indígenas, classificadas como espécies invasoras. • Anexo II – inclui as espécies não indígenas com interesse para a arborização. • Anexo III – inclui as espécies da flora não indígenas que comportam risco ecológico conhecido. 2.2.5 Legislação Vigente para Cortes e Desramações de Árvores e Arbustos ao Longo das Estradas Nacionais De acordo com as disposições legais vigentes sobre a protecção dos arvoredos em geral e muito especialmente sobre a defesa da arborização do domínio rodoviário nacional, o corte de árvores das estradas nacionais terá de reduzir-se ao mínimo indispensável, só devendo, em regra, ser abatidas depois de terem atingido o termo da sua longevidade, isto é, quando comecem a secar ou definhar apresentando nítidos sintomas de decrepitude (JAE 1977). Fora das condições referidas, o corte de arvoredo rodoviário nacional só deverá ser considerado por imposição de ordem técnica ou outro motivo imperioso, como perigo para as construções ou para a circulação, mas sempre sem sacrifício inútil da arborização existente (JAE 1977). As regras de actuação sobre a arborização existente nas vias encontram-se assinaladas no Quadro 2.6. Embora não se encontre regulamentado no quadro que se segue, quando se trata de suprimir árvores, tais com eucaliptos, castanheiros, carvalhos, vidoeiros, ulmeiros, amieiros, choupos, que possuam faculdade de rebentação de “toiça” e se encontrem em taludes, banquetes ou terrenos sobrantes, suficientemente afastados da plataforma da estrada e seja conveniente ou aconselhável aproveitar tal faculdade económica, deverá pôr-se de lado o arranque, que poderia até prejudicar a segurança das terras, e efectuar-se o corte em épocas apropriadas, de forma a conseguir-se aquele aproveitamento (JAE 1995). 32 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Despacho, aprovado pelo secretário de estado das obras públicas, sobre corte e/ou desramações de árvores e arbustos ao longo das estradas nacionais de 6/11/76 e de 13/1/77, baseado na Circulaire nº 72/144 du 30 août emitida pelo Ministério dos Transportes Francês Legislação Quadro 2.6 - Regras de actuação sobre a arborização existente nas estradas nacionais Regras de actuação Abate de motivos rodoviárias árvores por de obras Poda ou desramações de árvores por motivo de prejuízos para o trânsito ou prédios confinantes Observações • • reduzir ao mínimo o sacrifício da arborização existente preveligiar o alargamento assimétrico da via • evitar decotes, mutilações, desramações profundas e podas intensivas efectuar apenas o corte de ramos secos ou apodrecidos e a supressão ou encurtamento de ramos demasiado baixos caso seja inevitável deve proceder-se à remoção das árvores (Artº138 do D.L nº2037 de 19/6/49) eliminar árvores que estão radicadas no interior da curva e cujas raízes provocam saliências sensíveis junto da faixa de rodagem eliminar árvores que embora façam parte de alinhamentos de arvoredo dispostos na berma, se afastem de modo a perigar a circulação eliminar árvores que estando situadas a menos de 1,5m da faixa de rodagem, façam parte de itinerários com tráfego médio diário > 2000 veículos remover o arvoredo que invada a faixa de rodagem prejudicando a circulação de veículos de cargas com altura máxima regulamentar remover árvores e arbustos que prejudiquem a visibilidade do trânsito ou encubram placas de sinalização os proprietários são obrigados a cortar as árvores que ameacem ruína e desabamento sobre a zona da estrada (Artº 5 do D.L nº 13/71) integração de árvores, que se situem em propriedades confinantes, no domínio rodoviário (D.L nº 28468 de 15/2/38) • • • Abate por excessiva proximidade da faixa de rodagem • • Remoção por motivo da circulação de veículos de cargas • Remoções para melhoria da visibilidade do trânsito • Remoção e/ou desramação de arvoredo de prédios confinantes • Casos que justificam medidas excepcionais • 2.3 TÉCNICAS DE REVESTIMENTO VEGETAL Uma das fases mais críticas da construção de estradas está relacionada com a exposição do solo às condições climatéricas, após a realização de escavações e aterros (Caraco 2000). Contudo, os problemas de erosão nos taludes poderão continuar, após o termo da construção, se não forem tomadas medidas preventivas apropriadas, como sejam os métodos de protecção permanentes, ou se os procedimentos adoptados não forem totalmente efectivos ou mantidos apropriadamente. Mesmo nos casos em que a intensidade dos fenómenos erosivos é baixa, estes efeitos são permanentes, dando origem deste modo a processos cumulativos (AIPCR 1991). A erosão remove o solo fértil composto por nutrientes e matéria orgânica, reduzindo deste modo a capacidade de estabelecimento e de desenvolvimento de plantas. Pelo facto do revestimento vegetal proteger o solo dos impactos nocivos da precipitação e do vento, a diminuição do crescimento das espécies vegetais e a consequente redução da cobertura vegetal, provoca a perpetuação e agravamento da erosão, levando à infertilidade do solo. Neste contexto, a utilização de técnicas de 33 bioengenharia através da criação de condições favoráveis ao restabelecimento de vegetação, pode ser uma valiosa contribuição para o controlo dos fenómenos erosivos. As técnicas de bioengenharia, surgiram pela primeira vez na década de 50 e baseiam-se nas funções estruturais do material vegetal vivo, tanto para controlo da erosão simples através de sementeira de herbáceas, como para estabilização de taludes mais complexa como de plantação de arbustos de médio e grande porte (Schiechtl 1980). Estas técnicas podem ser aplicadas para regenerar taludes inclinados, para tratar zonas com problemas de infiltrações ou para controlar a erosão superficial (Gray e Leiser 1982). Podem ainda ser usadas em construções que permitem o reforço do solo, como é o caso das paredes de retenção de solo constituídas por material vegetal (“wattle fences”) (Polster 2003). Contudo, segundo Coppin e Richards (1990), a bioengenharia do solo inclui apenas a utilização da vegetação e de outros materiais biológicos, enquanto que o controlo da erosão e estabilização do solo que incorpore materiais inertes como rochas, pedras, madeiras se intitula biotecnologia. A utilização de materiais de cobertura do solo, como sejam os “mulch”, mantas ou geotêxteis, como protectoras da superfície do solo enquanto se verifica o processo de estabilização da vegetação, é também considerada uma extensão dos métodos de biotecnologia (Ramsay 2001). As medidas de protecção biológica contra a erosão consistem em assegurar a formação de uma cobertura vegetal o mais abrangente possível na superfície do solo (AIPCR 1991). Em relação à aplicação apenas de “mulch” e mantas, a cobertura vegetal, apesar de poder atingir taxas de erosão semelhantes, constitui, provavelmente, o método de controlo de erosão mais eficiente. Lee and Skogergbee (1985) verificaram que a quantidade de sólidos suspensos na água de escorrimento diminuiu 99% quando a biomassa aumenta de 0 para 2,8Kg/ha (Caraco 2000). Todavia, o estabelecimento de vegetação representa um desafio, uma vez que os requisitos variam consideravelmente de local para local, sendo fundamental a escolha das espécies certas e a criação de condições adequadas para o desenvolvimento das plantas (Caraco 2000). As técnicas relacionadas com a estabilização através de revestimento vegetal apresentam, segundo Fernandes (1987), inúmeras vantagens relativamente às técnicas de Engenharia Clássica tradicionais, entre as quais se destacam o facto de serem técnicas biológica e ecologicamente activas e de exercerem a sua função protectora dum modo elástico, através da absorção dos elementos e acções agressivas e da diminuição ou anulação da sua intensidade. Por outro lado, não são afectadas por processos de degradação, proporcionando pelo contrário uma estabilização crescente, favorecendo a capacidade regenerativa intrínseca e originando ainda uma valorização estética e paisagística, uma vez que permitem o enquadramento da construção na paisagem natural. Estas técnicas utilizam plantas nativas, estacas e rochas provenientes do local e por isso bem adaptadas às condições edafo-climáticas da região e são responsáveis também pelo favorecimento da fauna selvagem e o melhoramento da qualidade da água, pelo estabelecimento de barreiras 34 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes biológicas, pela filtração da poluição e pelo impedimento de ocorrência de fenómenos de lixiviação de nutrientes (Franti 1996; Grillmayer 1995). As principais desvantagens destas técnicas estão relacionadas com o facto de exigirem uma aplicação adaptada e dependente das características do sítio, da sua utilização só se poder efectuar em determinadas alturas do ano, de apenas atingirem a eficiência plena após um certo intervalo de tempo (Fernandes 1987) e de serem bastante exigentes em termos de mão-de-obra (Gamito 2002). 2.3.1 Características Bio-físicas O desenvolvimento e implementação de programas de regeneração de qualquer área com o objectivo de alcançar uma estabilidade ecológica permanente requer um planeamento cuidadoso e uma abordagem apropriada e aplicada caso a caso (Fryar et al. 2002). O estudo das características biofísicas, nomeadamente o solo, a topografia, a hidrologia, o clima e a vegetação da zona em causa torna-se indispensável para se obter uma cobertura do solo satisfatória, sendo para tal necessário seleccionar a técnica e a mistura de sementes mais adequadas. Em relação às condições do solo é necessário considerar os seguintes aspectos: − Identificação e classificação do tipo de solo; − Tamanho da espessura da camada superficial, que deve ser suficiente para permitir o estabelecimento do tipo de vegetação desejada; − Análise e interpretação das características físicas do solo (propriedades texturais e estruturais da zona de crescimento das raízes; percentagem de matéria orgânica; capacidade de retenção de água e permeabilidade do solo; quantidade de matéria orgânica); − Análise das características químicas (nutrientes disponíveis, presença de materiais tóxicos); − Outras condições do solo que possam influenciar a regeneração; − Medição do risco de erosividade (Schiechtl 1980, Fryar et al. 2002). O estudo topográfico do local está relacionado essencialmente com: − a inclinação e dimensão do talude; − a exposição do talude (Norte, Sul, …); − o sistema básico de drenagem, a existência de áreas de captação de água; − risco de erosão devido à inclinação (Fryar et al. 2002) Os dados hidrológicos relevantes para os estudos de estabilização de taludes incluem: − frequência de cheias ou inundações; − a presença de fontes ou cursos de água; − profundidade e qualidade da toalha freática (Fryar et al. 2002) O clima pode ser avaliado através dos factores descritos seguidamente: − dados climatéricos gerais; − altitude e distância do mar; − intensidade da precipitação e a sua distribuição ao longo do ano; 35 − − − humidade, duração e frequência dos períodos secos durante a estação de crescimento; média da temperatura e variação da temperatura; vento, média e distribuição sazonal (Schiechtl 1980). A análise detalhada da vegetação espontânea existente no local ou nas áreas envolventes, através da realização de inventários florísticos e do conhecimento das suas características culturais, descritas na bibliografia, apresenta considerável utilidade na selecção das melhores espécies para a estabilização de taludes. As informações e dados relacionados com a vegetação mais relevantes para este tipo de estudo são: − inventário e classificação da vegetação circundante; − estrutura da vegetação - detalhes sobre a emergência, tipo de cobertura; − relação entre as espécies, forma e densidade com a estrutura e o tipo de solo (biogeografia); − presença de espécies raras ou ameaçadas; − presença ou ausência de infestantes, tipo e extensão (a presença de infestantes pode afectar o programa de regeneração de um talude); − percentagem de cobertura de vegetação ou a percentagem de exposição do solo. O risco de erosão e de escorrimento superficial deve ser avaliado com base em: − tamanho do talude; − inclinação do talude; − tendências para condições climatéricas desfavoráveis (especialmente de chuvas intensas num curto período de tempo); − condições do vento (frequência, força, velocidade e rajadas) − coesão do solo e a presença de partículas coesivas; − quantidade de matéria orgânica e água (Schiechtl 1980). Sendo assim, na escolha das técnicas e materiais a utilizar deverão ser considerados todos estes factores e as exigências quer do sítio, quer dos objectivos da intervenção. 2.3.2 Descrição das técnicas Seguidamente descrevem-se algumas técnicas de bioengenharia, referidas na bibliografia, relacionadas com a utilização de materiais vegetais e aplicados em taludes, dando especial ênfase às técnicas mais utilizadas – hidrossementeira e à cobertura do solo. 2.3.2.1 Cobertura do solo ou “Mulching” Os métodos de cobertura do solo com palha, de modo a evitar a dessecação e o crescimento de infestantes, têm sido utilizados na agricultura desde a época dos Romanos. Estes métodos, denominados actualmente por “mulching” (cobertura do solo), juntamente com os “mulch seeding” (combinação entre a sementeira e a cobertura do solo) têm sido muito utilizados e divulgados, embora haja também sobre eles alguns mal-entendidos e interpretações erradas (Schiechtl 1980). 36 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes O “Mulching” baseia-se na cobertura do solo com materiais orgânicos, tais como resíduos de culturas, (palha, caules de arrozais), pedaços de madeiras, cascas de madeira compostas, ou minerais (areia grossa). O “mulch” simula o efeito do revestimento vegetal, uma vez que reduz o impacto da precipitação sobre a superfície, o que origina uma diminuição do escoamento superficial de água e do aparecimento de ravinas. Posteriormente, o “mulch” ao absorver parte da energia cinética do fluxo de água, (devido ao aumento dos factores de fricção hidráulicos), irá também reduzir a velocidade de descolamento (Poesen 2000). A cobertura do solo é realizada normalmente após a sementeira, através de uma projecção mecânica ou do espalhamento manual de uma camada de palha ou feno cortado pela superfície da área semeada. Frequentemente, a palha é previamente misturada com substância aderentes, de modo a proporcionar uma rápida cobertura adesiva. A cobertura da superfície com uma espessura apropriada de “mulch” permite uma boa protecção superficial do solo. Uma camada de “mulch” pode contrariar microclimas extremos, mas só será possível erradicá-los completamente em casos muito particulares (Schiechtl 1980). Em taludes inclinados, o “mulch” também pode ser fixado através da colocação de uma rede fina geosintética (Fryar et al. 2002). Schiechtl, em 1958, desenvolveu um método de colocação de “mulch” em taludes que tem sido largamente utilizado em grandes construções, na Europa, e é indicado para locais difíceis, do ponto de vista de regeneração da vegetação. O método inicia-se com o espalhamento de palha não cortada no talude, de modo a formar uma camada contínua de “mulch”. A seguir, dependendo das condições do local e dos objectivos da regeneração, é espalhada uma determinada mistura de sementes, juntamente com fertilização mineral e orgânica, em cima da palha. Numa terceira fase, a cobertura de palha é fixada ao talude através da projecção de emulsões de “betumen” ou outras substâncias aderentes. Dependendo das condições do local, todos estes processos podem ser realizados quer manual, quer mecanicamente. Quando as condições são muito adversas, a palha pode ser fixada através de espigões ou pinças, ou utilizando uma malha de arame (Schiechtl 1980). A espessura da camada de “mulch” deverá permitir a máxima penetração de luz, dependendo das condições climáticas do local (temperatura, precipitação e luz). Com o espalhamento do “mulch”, formam-se bolsas de ar nas suas camadas que permitem criar microclimas favoráveis, de modo que a temperatura do ar aqueça rapidamente, mas nunca atinja temperaturas perigosamente altas. Por outro lado, estas camadas possibilitam a redução da dessecação e a ocorrência de condensação durante as noites frias (Schiechtl 1980). A cor escura do “betumen” utilizado para fixar a palha ou outro “mulch” acelera a germinação, uma vez que cria uma barreira de absorção da luz. Este aspecto é importante em zonas de altitude e longitude elevada, embora a retenção de demasiado calor possa prejudicar as plântulas. Para além de proporcionar a criação de um microclima, o “mulch” também protege a superfície do solo contra as acções mecânicas, nomeadamente da chuva, vento, deslizamento de rochas, granizo, gelo (Schiechtl 1980). 37 Tal como o revestimento vegetal, a eficiência de controlo da perda de solo depende do tipo de “mulch”, sendo os “mulch” constituídos por pequenos elementos mais eficientes do que os com partículas grandes (Poesen e Lavee 1991). Este método proporciona taxas de crescimento vegetal elevadas e é especialmente interessante para áreas com uma estação de crescimento muito curta, devido a grandes altitudes ou seca. Tem sido bastante utilizado como método de regeneração nas regiões alpinas e mediterrânicas, podendo ser mais económico do que a técnica de hidrossementeira com “mulch”, em regiões onde a mão-deobra é abundante e barata (Schiechtl 1980). Palha A palha pode ser eficiente sozinha ou combinada correctamente, embora precise de ser sempre fixada ou retida no solo convenientemente, de modo a prevenir o seu deslizamento ao longo do talude durante as tempestades ou mesmo ser arrastada pelo vento. A palha pode ser fixada ao solo através da aplicação de um químico fixador; da utilização de um tractor de lagartas (drawn) que esmague a palha contra a superfície do solo; da aplicação de uma cobertura de fibras com substância colante; ou da colocação de uma rede de plástico (Caraco 2000). As fibras da palha e do feno devem ser suficientemente longas (10 a 20 cm), de modo a permitir a interligação entre elas e a obtenção de um efeito cobertura adequado. Quanto maior for o tamanho das fibras, melhores serão os benefícios da aplicação do “mulch” (Lancaster e Austin 2003). Produtos resultantes da compostagem Os produtos compostados são constituídos por materiais orgânicos decompostos e relativamente estáveis, resultantes da degradação biológica, acelerada e controlada em condições aeróbias (Epstein 1997). Estes compostos especialmente os GMC “Green material Composts” (Compostos constituídos por material vegetal) e os CCM “Co-composted material” (Mistura de material verde com biosólidos municipais), têm sido estudados por diversas equipas de trabalho dos Estados Unidos (Califórnia, Texas, Portland Oregon), com o objectivo de testarem a sua viabilidade como controladores primários da erosão, substituindo assim os tradicionais “mulch” (Haynes et al. 2000). A camada de composto ou de “mulch” compostado, quando aplicada no talude, funciona como uma manta molhada que previne o arrastamento e a aceleração das partículas de solo, juntamente com o movimento de água. O sucesso da aplicação do composto no talude está relacionado com o impedimento da entrada da água debaixo da cobertura, na parte superior do talude. Se a água penetrar debaixo da camada da manta e se o talude for inclinado, ocorrerá erosão e o “mulch” deslizará. Deste modo, recomenda-se a colocação de uma barreira constituída por composto na parte superior do talude (“filter berms”), de forma a promover uma continuidade da camada de composto (Tyler et al. 2000). A aplicação de compostos sob a forma de mantas permite o aumento da infiltração da água, ao dificultar o seu movimento. Esta técnica, associada à sementeira, origina melhores resultados do que qualquer outro método, especialmente o de hidrossementeira, uma vez que além de aumentar a 38 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes capacidade de armazenamento de humidade, diminui a libertação de nutrientes e cobre as sementes entre 2 e 5 cm (Tyler 2003). Os produtos compostados apresentam também inúmeros benefícios relacionados com a melhoria das condições do talude, nomeadamente: - Melhoramento da estrutura - Os compostos melhoram a estrutura física do solo, especialmente em solos de textura fina, uma vez que reduzem a densidade, melhoram a friabilidade e a porosidade e aumentam a permeabilidade ao ar e à água, reduzindo assim a erosão - Armazenamento de água - Alteração e estabilização do pH - Aumento da capacidade de troca catiónica - Fornecimento de nutrientes - Aumento da actividade microbiana no solo - Diminuição das doenças das plantas - Fixação de metais pesados e outros contaminantes, impedindo a sua fixação pelas plantas (s/a 1996). Em taludes de aterros localizados nas estradas e autoestradas, os compostos podem ser mais eficientes na redução da erosão e no estabelecimento de vegetação do que os tradicionais “hidromulch”. Tal deve-se à capacidade de melhorar a estrutura do solo, promover um maior crescimento das plantas, mais permanente e abundante (s/a 1997). Os produtos compostados podem ser utilizados como mantas em taludes com inclinação H:V=2:1, aplicando uma espessura de 5 a 20 cm, embora esta cobertura possa ser menor nos taludes menos severos ou com menores escorrimentos. Os locais cobertos por compostos constituídos por madeiras são normalmente semeados passado algum tempo, após a estabilização do produto (s/a 1996). Segundo Risse e Faucette (2001) a espessura da camada de composto a aplicar deverá variar entre os 2,5 e os 7,5 cm, sendo necessário aumentá-la se a inclinação do talude for elevada. A mistura mais apropriada para a formação de uma manta deverá ser constituída por 0,5 a 1,2 cm (partículas finas) e 5 a 7,5 cm (partículas grossas). A proporção recomendada para a maioria dos casos é de 3:1 (finas:grossas), embora se o rápido revestimento vegetal não for o principal objectivo, poder-se-á aumentar a quantidade de partículas grossas. A mistura de relva com folhas pode ser utilizada como composto, embora seja necessário ter alguns cuidados no sentido de manter as condições aeróbicas e controlar a saída dos nutrientes e de possíveis odores (Haynes et al. 2000). Normalmente o espalhamento do composto é realizado mecanicamente com o auxílio de “bulldozer”, “grading blade” (s/a 2000b) ou, especialmente em zonas mais íngremes, com sopradores pneumáticos que proporcionam uma camada de composto sobre a superfície do talude mais consistente e uniforme do que manualmente. Diversas marcas como a Finn e a Rexius possuem máquinas que realizam aplicações secas e húmidas, com possibilidade de espalhar o 39 produto com semente incluída e com um nível de humidade a variar entre os 0 e os 60% (Keating 2001). Em relação ao estabelecimento vegetal, embora a hidrossementeira seja o método mais utilizado, estudos comparativos realizados utilizando o espalhamento pneumático do composto juntamente com sementes, demonstraram que este último método é mais favorável (Tyler et al. 2000). 2.3.2.2 Hidrossementeira sem “mulch” O desenvolvimento de maquinaria para execução da hidrossementeira iniciou-se na década de 50, em diversos países da Europa (Alemanha, Áustria, Suíça) e nos Estados Unidos, sendo este último o país com mais experiência na utilização desta técnica (Schiechtl 1980). A hidrossementeira consiste na projecção de sementes, fertilizantes e outras substâncias, através de uma mistura aquosa, utilizando para tal uma moto-bomba dotada de agulheta (Fryar et al. 2002). A mistura deve ser agitada constantemente durante todo o processo de projecção, de modo a assegurar consistência à mistura. Poderá ser necessário realizar duas ou mais aplicações, nos locais mais problemáticos, embora a aplicação múltipla não apresente vantagens consideráveis. Será, contudo, importante esperar que a mistura espalhada anteriormente seque e assente, antes de proceder a outra aplicação (Schiechtl 1980). A quantidade de mistura contendo todos os componentes necessários à hidrossementeira poderá variar entre os 1 e os 30 l/m2, estando dependente do local onde será realizado o trabalho. Deste modo, é muito importante analisar primeiro a área a tratar, dando principal atenção às condições do solo, do clima e do potencial risco de erosão, de modo a decidir qual o método e os materiais mais apropriados (Schiechtl 1980). A hidrossementeira é uma técnica rápida e efectiva para semear taludes e banquetas. Porém, para além de não evitar prontamente a erosão da superfície do solo (Fryar et al. 2002), a área a semear deve ser suficientemente acessível para possibilitar a deslocação de um hidrossemeador. Normalmente, a projecção pode atingir no máximo uma altura de 40m sem mangueira e chegando aos 150 m com mangueira (Schiechtl 1980). A hidrossementeira sem “mulch” é recomendável apenas nas estações húmidas ou em áreas húmidas com sombra abundante. A hidrossementeira não deve ser executada em períodos de intensa precipitação, ventos fortes ou neve (Schiechtl 1980). Esta técnica é principalmente aplicada em taludes rochosos, pedregosos, com declives acentuados, acessíveis a veículos. É também utilizada em sementeiras em áreas mais vastas como as autoestradas, onde não existem condições para a execução da sementeira normal. É muito importante que a camada superficial do solo se mantenha húmida até ao desenvolvimento das raízes (Schiechtl 1980). 40 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes 2.3.2.3 Hidrossementeira com “mulch” ou “Hydromulching” O “Hydromulching” é uma técnica onde as sementes, os fertilizantes, os materiais de “mulch”, juntamente com fixadores são misturados homogeneamente com agitação constante, num hidrossemeador. Tal como na hidrossementeira clássica, a suspensão, é posteriormente projectada na área a semear (Fryar et al. 2002). A aplicação de “hidromulch” conjuga os benefícios da hidrossementeira simples, apenas utilizando semente e água, com as vantagens da cobertura do solo. Em seguida, destacam-se algumas destas vantagens: - Acessibilidade: Proporciona uma cobertura protectora do solo rápida e eficiente, em locais inacessíveis ou em taludes, ou onde não é seguro executar a aplicação manualmente (Fryar et al. 2002; s/a 1998). - Múltiplas potencialidades. Os hidrossemeadores poderão ser utilizados para realizar uma simples operação ou várias ao mesmo tempo. Em áreas planas e com boas condições de desenvolvimento vegetal, poderá apenas ser necessário a aplicação de água e sementes (s/a 1998). Por outro lado, com a adição de outros produtos ao “mulch”, como fixadores e estimulantes de crescimento, permite adaptar a mistura a hidrossemear às condições do local. - Eficiência: É uma técnica muito eficiente por: - ser possível a sua aplicação em áreas difíceis, disponibilizando sementes, matéria orgânica e nutrientes, aumentando assim as possibilidades de estabilização vegetal; - ser o método com aplicação mais rápida, quando comparado com outras técnicas, podendo ser utilizado em grandes áreas; - poder combinar diversas funções; - ser económico (s/a 1998) 2.4 MATERIAIS UTILIZADOS NA HIDROSSEMENTEIRA Os materiais escolhidos para a hidrossementeira/”hidromulching” deverão possuir determinadas características que permitam a formação de uma mistura fluida, capaz de cobrir eficientemente a superfície. Os constituintes mais importantes da mistura são a água e as sementes (s/a 1998). 2.4.1 Água A água, para além de ser o meio de transporte essencial da hidrossementeira, proporciona a humidade necessária para a germinação das sementes e possibilita a dissolução dos fertilizantes, tornando-os disponíveis para as pequenas plântulas. Por outro lado, a humidade auxilia a expansão 41 lenta das fibras de “mulch”, proporcionando deste modo, condições favoráveis à germinação das sementes (s/a 1998). Dependendo do local onde se realizará a hidrossementeira, a disponibilidade de água poderá influenciar a eficiência do processo. A necessidade de realizar longas viagens para encher o depósito poderá reduzir significativamente a produtividade da operação (s/a 1998). 2.4.2 Sementes Uma vez que o objectivo principal da Hidrossementeira é o estabelecimento de uma cobertura vegetal, torna-se fundamental a selecção de misturas de sementes de boa qualidade e adaptadas ao meio (s/a 1998). Esta selecção deve basear-se num trabalho base de caracterização fitossociológica dos terrenos em causa (Fernandes 1987). A mistura deverá conter espécies pioneiras, com o objectivo de realizarem uma protecção inicial e temporária e espécies autóctones que proporcionarão uma cobertura duradoura ou mesmo permanente. Estas últimas são, usualmente menos exigentes em fertilizantes e encontram-se melhor preparadas para enfrentar condições adversas do que as formas cultivadas introduzidas (s/a 1998). A densidade de sementeira deverá ser mais elevada do que em condições normais devido, a diversos factores, nomeadamente: declive do talude, necessidade de rápida implantação, esterilidade do solo e adversidade das condições ambientais existentes. Contudo, nunca deverá exceder os 500 Kg/ha (AIPCR 1991). 2.4.3 Fertilizantes Os fertilizantes utilizados na hidrossementeira deverão dissolver-se rapidamente. Quando são pouco solúveis apresentam as seguintes desvantagens: - necessitam de uma agitação mais prolongada; - podem depositar-se no fundo do tanque, especialmente quando a hidrosse-menteira é realizada em plano inclinado; - são abrasivos para o equipamento; - as pequenas plântulas não tiram partido dos benefícios dos nutrientes em solução (s/a 1998). A formulação da mistura deve ter em conta as necessidades do solo e o objectivo da fertilização. As operações de sementeira inicial necessitam de um fertilizante completo, com altos níveis de azoto e potássio (ex: 24-8-16). Numa adubação de cobertura, a fertilização deverá ser rica em azoto (27-140). Os fertilizantes devem ser empacotados em sacos resistentes à humidade (s/a 1998). 42 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes 2.4.4 Fixadores Nos taludes com inclinações consideráveis, utilizam-se fixadores viscosos que permitem a ancoragem das fibras de “mulch” ao talude. Estes fixadores são normalmente compostos por emulsões de asfalto, produtos destilados do petróleo, emulsões de co-polímeros de acetatos e colas vegetais secas em pó, derivadas do “guar gum”, “psyllium” e “alginase sodio”. A taxa de aplicação destas colas varia com o tipo de produto, severidade das condições do local, clima e longevidade desejada da instalação (Lancaster e Austin 2003). Os produtos provenientes de bases vegetais como o “guar gum” ou Plantagro são relativamente económicos e possuem um poder de fixação relativamente elevado, para taludes com inclinações moderadas. Devido ao facto de apresentarem uma vida útil relativamente curta, a sua utilização está restringida a situações que sejam, à partida, favoráveis ao desenvolvimento e à estabilização das plantas, mesmo sem a aplicação destes produtos. Os compostos líquidos de ligação do solo permitem o escoamento da água sobre as áreas cobertas com “mulch” e podem manter a sua eficiência durante dois anos, biodegradando-se com o tempo, à medida que se verifica o crescimento das plantas (Trotti 2000). Os fixadores podem ser utilizados isoladamente como estabilizadores do solo ou combinados com “mulch”, proporcionando a fixação destes “mulch” ao solo. Os fixadores permitem também manter o solo e as sementes ligados, para além de diminuir os riscos potenciais de erosão e aumentar a capacidade de retenção de água na área tratada (Trotti 2000). Os agentes de retenção da humidade (MRAs) são poderosos produtos capazes de reter mais de 200 vezes o seu peso em água, reduzindo deste modo a necessidade de armazenamento de água dos “mulch”. Contudo, estes agentes não têm grande utilidade em locais onde não existe humidade disponível na atmosfera (Trotti 2000). 2.4.5 “Mulch” Na década de 60, iniciou-se o desenvolvimento de “mulch” aplicados hidraulicamente, compostos por madeira, celulose de madeira, papel, etc. em alternativa às técnicas de aplicação a seco com “mulch” convencionais (Lancaster e Austin 2003). Deste modo, os “hidromulch” podem ser aplicados juntamente com as sementes, fertilizantes e estabilizadores do solo, numa só passagem (Lancaster e Austin 2003). Um “hidromulch” deverá ser suficientemente fino para passar através da bomba do hidrossemeador; absorver água rapidamente para se manter em suspensão; formar um conjunto de fibras interligadas forte e contínuo quando for aplicado nos taludes e ser livre de sementes de infestantes ou de qualquer substância tóxica que possa dificultar a germinação da semente e o crescimento futuro (s/a 1998). 43 Os “hidromulch” são todos os resíduos vegetais ou outro tipo de material que podem ser aplicados na superfície do solo com auxílio de um hidrossemeador. A principal função do “hidromulch” tal como os “mulch” aplicados “a seco” está relacionada com a prevenção da erosão, protegendo a superfície do solo do impacto das gotas da chuva e reduzindo a velocidade do fluxo do escoamento superficial. São também responsáveis pela criação de um microclima ideal para a germinação das sementes e desenvolvimento das plantas, uma vez que aumentam a humidade disponível, devido à redução da evapotranspiração. Normalmente, as baixas taxas de crescimento vegetativo são provocadas principalmente pela falta de humidade durante as épocas críticas. Estes compostos proporcionam ainda uma valiosa protecção contra o frio e o calor extremo e podem eventualmente degradar-se e originar uma fonte adicional de matéria orgânica. Quando utilizados com sementes permitem ainda a sua fixação ao solo, impedindo o seu arrastamento e proporcionando uma cobertura mais uniforme (s/a 1998). Outra vantagem dos “mulch” hidráulicos relativamente à palha está relacionada com o facto de originarem uma aplicação “limpa” e com humidade, que estimula desde o início a germinação. Contudo, se não houver precipitação suficiente ou se as plântulas não forem regadas, esta vantagem pode ser desastrosa para o seu crescimento (Lancaster e Austin 2003). O “mulch” pode ser utilizado em conjunto com sementes para o estabelecimento da vegetação, ou isolado para proporcionar uma protecção da superfície do solo (s/a 1998). A maneira mais simples de melhorar a eficiência de qualquer “mulch” é aumentar a espessura da sua camada. Apesar dos produtos compostados ou das fibras de madeira poderem ser úteis em algumas circunstâncias, a palha e as fibras de madeiras são mais utilizadas, especialmente devido ao baixo custo. O “mulch” de palha proporciona uma cobertura do solo mais espessa protegendo, por isso de forma mais eficaz as sementes e o solo. Porém, as fibras são mais fáceis de aplicar (Caraco 2000). As taxas de aplicação de “mulch” são determinadas pelas condições climatéricas, estando o sucesso da hidrossementeira dependente da quantidade apropriada de “mulch” de modo a armazenar água suficiente para manter as sementes hidratadas e protegidas (Meeks 2002). A principal limitação destes tipos de “mulch” está relacionada com o tamanho das fibras, que não devem exceder os 1,3 cm do comprimento, de forma a permitir a passagem através da bomba de um hidrossemeador. Deste modo, o efeito do “mulch” fica diminuído, comparativamente à palha, mesmo aumentando a sua concentração (Lancaster e Austin 2003). A longevidade dos “mulch” está limitada pela retenção da matriz de ligação das fibras que varia entre os 1 e 4 meses. Os “mulch” contendo fibras especiais, mecanicamente ligadas produzindo uma matriz, são os que proporcionam melhores resultados. Contudo, a força de ligação dos “mulchs” é limitada e pode ser excedida em condições de escoamento excessivas, em taludes ou áreas com elevada concentração de fluxo de água. Uma vez perdida a força interna do “mulch”, a eficiência do produto depende da força limitada das suas fibras curtas e dimensionalmente instáveis (Lancaster e Austin 2003) 44 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Os principais inconvenientes desta técnica prendem-se com o facto de apresentar melhores resultados em ambientes húmidos e de ser inadequada para condições tropicais ou de ocorrência de tempestades intensas (Fryar et al. 2002). 2.4.5.1 Fibra de “mulch” Actualmente existem no mercado 3 tipos básicos de “mulch” vegetais: − “mulch” constituídos por 100% de fibra de madeira, produzidas através do desfibramento de pedaços de madeira inteiros. Apresentam fibras longas, uma vez que durante o processo de produção se tenta maximizar o comprimento das fibras. Quando aplicadas, as fibras longas interligam-se e colam-se umas às outras, formando uma manta contínua na superfície do solo. Esta manta de “mulch” tem como função originar um efeito de estufa. Devido ao tamanho das suas fibras, este tipo de “mulch” permite a mesma cobertura do solo com menos 35% de material do que os “mulch” de celulose; − − “mulch” formados por 100% de fibra de celulose (fibras de papel); possuem fibras curtas devido ao facto de serem produzidos a partir de fibras inicialmente manufacturadas, de modo a criar superfícies lisas para produtos relacionados com papel e para outros fins diferentes do “mulch”. Quando aplicados, estas fibras curtas de celulose colam-se umas às outras, em vez de se entrelaçar. As partículas agrupam-se e formam uma crosta, (como um borrão de tinta), originando condições de desenvolvimento opostas ao desejado efeito de estufa. Frequentemente, os resultados da aplicação destas fibras são lentos e provocam uma germinação irregular; “mulch” com 50% de fibra de madeira e 50% de fibra de celulose, que combinam as características benéficas de protecção contra a erosão das fibras da madeira com o baixo custo da produção de fibras de papel reciclado (www.greatcircleint.com). Dos diversos tipos de produtos para cobertura utilizados na hidrossementeira, os mais populares são os “mulch” de fibras de madeiras, especialmente tratados para absorver água, e as misturas de fibras de produtos reciclados triturados (jornais, resíduos vegetais e outros) (s/a 1998). Para além das vantagens já descritas, as fibras apresentam também os seguintes benefícios: − Protegem as sementes contra a acção centrífuga da bomba do hidrossemeador e contra as perturbações no interior da mangueira ocorridas durante o percurso até à sua projecção, − Permitem uma distribuição das sementes mais uniforme, − Possibilitam a visualização da área coberta (s/a 1998). De uma forma geral, os “mulch” de fibra de madeira são mais eficientes no controlo da erosão, devendo os de fibra de papel ser utilizados apenas quando se pretende uma protecção durante um curto período, por se degradarem rapidamente (Caraco 2000). Como já foi referido, uma grande vantagem destes “mulch” consiste no facto de poderem ser aplicados juntamente com as sementes, água e fixadores numa única aplicação com o 45 hidrossemeador. Apesar do fixador nem sempre ser necessário, a sua aplicação apresenta vários benefícios, sem que provoque um acréscimo de custos superiores a 2% em relação à hidrossementeira simples (Caraco 2000). A quantidade aplicada de “mulch” de fibra varia entre 500 a 2000 Kg/ha de acordo com um conjunto de condições. Taludes com superfícies irregulares que permitam a deposição de sementes necessitam de menos “mulch”. Também a exposição solar poderá influenciar a quantidade a utilizar. Taludes expostos a sul (com mais sol) necessitam de mais “mulch” do que os virados a norte (s/a 1998). 2.4.5.2 “Mulch” químicos e não fibrosos Estes tipos de “mulch” foram recentemente desenvolvidos e podem ser usados isolados em substituição das fibras de “mulch” ou em conjugação com estas. Podem ser produzidos a partir de polímeros, extractos de algas e extractos de gomas vegetais (s/a 1998). Estes materiais deverão apresentar determinadas características, tais como: serem de tamanho reduzido; serem fáceis de manejar, transportar e aplicar. Comparativamente aos “mulch” descritos anteriormente, estes representam uma aplicação mais fácil e por isso mais económica (s/a 1998). O seu objectivo principal é o de formar uma camada permeável na superfície do talude, a qual possibilita a fixação de qualquer material. Quando aplicado de forma isolada, este tipo de “mulch” permite consolidar a superfície. Neste caso, estas partículas fixam as sementes ao talude e formam uma barreira protectora que evita os efeitos erosivos do vento e da chuva, apesar de possibilitarem a penetração da humidade no solo e a existência de trocas gasosas com a atmosfera. Quando usado em conjunto com “mulch” de fibras, o seu carácter fixador é reforçado, melhorando a estabilidade da rede de fibras na superfície do solo (s/a 1998). Alguns destes “mulch”, principalmente os do tipo orgânico (derivados de algas), adicionam nutrientes ao solo, aquando da sua decomposição, embora nenhum deles contribua para aumentar os níveis de matéria orgânica. A maioria são produtos denominados estabilizadores do solo e são provavelmente mais eficientes no controlo da erosão do solo do que na promoção da germinação das sementes (s/a 1998). 2.4.5.3 Bonded Fiber Matrix (BFM) Em 1993, foi introduzida uma nova classe de produtos para controlo da erosão, os BFM “Bonded Fiber Matrix”, que engloba diversos tipos de produtos, os quais aplicados hidraulicamente formam uma manta protectora do solo (s/a 2001). Esta matriz tridimensional elimina directamente o impacto das gotas de água no solo (os orifícios da camada superficial são inferiores a 1mm), não permite a existência de espaços entre o produto e o solo e possui uma elevada capacidade de armazenamento de água. Além disso, não origina a formação de uma crosta impermeável à água e é totalmente 46 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes biodegradável, transformando-se em nutrientes benéficos para o crescimento das plantas (www.greatcircleint.com). Estes materiais variam desde simples misturas de mucilagem de plantas e “mulch” de papel até combinações precisas de fibras e colas com complexas formulações químicas (s/a 2001). Depois de secos, os BFMs aderem à superfície do solo formando uma manta contínua, porosa e resistente à erosão, que não inibe a germinação nem o crescimento das plantas debaixo e através da manta (s/a 2001). Os BFMs podem ser aplicados sem semente para controlo temporário da erosão, durando apenas uma estação, embora sejam normalmente misturados e aplicados com sementes e fertilizantes, com o objectivo de controlar permanentemente a erosão através do revestimento com plantas. A taxa de aplicação dos BFM é normalmente mais elevada do que a dos “mulch” normais, variando entre os 3000 e os 4000 Kg/ha, dependendo das condições do local (s/a 2001). Estes BFMs podem também ser combinados com “hidromulch” (s/a 2002). O sucesso da aplicação destes produtos depende do tipo de fixador e do volume de “mulch” espalhado, mas permite normalmente resultados semelhantes aos das mantas, sendo muito mais económica. Porém, esta técnica requer uma verificação cautelosa de todos os procedimentos de aplicação. Nem todos os hidrossemeadores têm capacidade para aplicação dos BFM. As bombas de hidrossemeadores têm que ser adaptadas, de modo a possibilitarem a utilização de misturas altamente viscosas e com “mulch” de fibras longas (Fryar et al. 2002). 2.4.5.4 Produtos resultantes da compostagem A utilização de produtos compostados como forma de “mulch” apresenta inúmeras vantagens, já descritas. Embora estes produtos sejam aplicados normalmente com máquinas próprias, nomeadamente com sopradores, têm sido realizadas algumas tentativas (s/a 2000a) no sentido de os incorporar na mistura de hidrossementeira. Usualmente os compostos não são aplicados nem testados no método de hidrossementeira, devido principalmente à inconsistência do tamanho das partículas e da densidade dos compostos, que afectam a operação de espalhamento dos hidrossemeadores (s/a 1999). As múltiplas vantagens atribuíveis aos compostos, tornam-os numa alternativa interessante para controlo da erosão, quer temporário quer permanente. O facto de poderem ser constituídos por desperdícios vegetais (cada vez mais abundantes), faz com que a sua utilização seja uma solução ambiental muito útil e acessível a qualquer interessado (Keating 2001). 47 2.4.5.5 Técnicas de bioengenharia que utilizam exclusivamente material vegetal 2.4.5.5.1 Colocação de estacas vivas –“Live staking” Esta técnica envolve a inserção e posterior colocação (“tamping”) de estacas, provenientes do material vegetativo dormente, mas com possibilidade de formação de raízes. Se as estacas forem correctamente preparadas e colocadas, elas irão enraizar e desenvolver-se, originando plantas saudáveis (Tuttle e Ralston 1992). As estacas devem apresentar normalmente um diâmetro de 1 a 4 cm e um comprimento de 60 a 100 cm. A terminação basal deve possuir um ângulo apropriado para permitir uma fácil inserção no solo. As estacas são inseridas perpendicularmente ao talude, permanecendo à superfície apenas 5 a 7,5 cm, com uma densidade de 2 a 4 estacas por m2 (Kennedy e Mullen 2000). Fig. 2.10 - Esquema da técnica de “Live staking”. Adaptado de Tuttle R.W. e Ralston D.C (1992) O crescimento das espécies vegetais a partir das estacas irá criar um entrançado de raízes que, ao reforçarem e ligarem as partículas do solo e ao extraírem o excesso de humidade deste, melhorarão a sua estabilidade. Este desenvolvimento vegetativo é também responsável pela criação de condições favoráveis ao aparecimento e posterior estabelecimento de outras espécies existentes na vizinhança (Tuttle e Ralston 1992). A técnica das estacas vivas é apropriada para reparar pequenos deslizamentos de terra ou retirar a humidade de depressões (covas) que possam existir nos taludes. É normalmente utilizada em locais com condições facilitadas e quando o tempo disponível para a estabilização do solo é limitado (Fryar et al. 2002). 2.4.5.5.2 Fachinagem A fachinagem consiste na colocação de feixes imobilizados em linha, constituídos por pelo menos 5 estacas, longas, atadas umas às outras. Estes feixes devem ser colocados em valas pouco profundas e segundo as curvas de nível em taludes secos, ou em valas ligeiramente inclinadas em taludes 48 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes húmidos. Cada fachina, ao dividir o talude em pequenas porções, permite controlar a erosão e o escoamento da água ao longo do declive, proporcionando uma estabilização imediata da superfície do talude (Tuttle e Ralston 1992). A sua instalação deve ser iniciada desde a base do talude e ir subindo progressivamente até ao topo (Kennedy e Mullen 2000). A utilização da técnica de fachinagem é indicada para situações, em que se pretende impedir o escorregamento da própria terra viva, onde a vegetação ainda não atingiu o desenvolvimento necessário até que o seu sistema radicular assegure por si só a fixação da camada de terra viva (AIPCR 1991). Tal como as sebes entrançadas, este tipo de construção linear permite uma certa armação da camada superficial do terreno (Fernandes 1987). Quando adequadamente instaladas, as estacas provenientes de ramos de espécies apropriadas enraízam e estabilizam imediatamente os taludes. Esta técnica é mais adequada para taludes rochosos e inclinados, onde a escavação é difícil (Tuttle e Ralston 1992) bem como para taludes com elevada inclinação (1:1) (Kennedy e Mullen 2000). Relativamente às sebes entrançadas, descritas seguidamente, a fachinagem apresenta melhor comportamento hidráulico (condutora ou armazenadora de água) e a sua construção é mais fácil e expedita (Fernandes 1987). Fig. 2.11 - Esquema da técnica de fachinagem. Adaptado de Tuttle R.W. e Ralston D.C. (1992) 2.4.5.5.3 Entrançados ou “Brushlayer” O entrançado é um sistema de armação e estabilização da camada superficial do solo, usando para tal ramos com viabilidade vegetativa, entrançados, dispostos em linhas ou formando polígonos. Esta técnica consiste na colocação de ramos verdes em pequenos socalcos escavados nos taludes, de largura a variar entre os 60 e 90 cm. São recomendados para taludes com inclinação até H:V=2:1 e 49 que não excedam os 5 m na vertical. Os ramos deverão ter 12 a 50 mm de diâmetro e um comprimento suficiente, de modo a alcançarem o final do socalco. A parte dos ramos que fica à superfície retardará o escoamento da água, reduzindo assim a erosão superficial (Fernandes 1987; Tuttle e Ralston 1992). Para garantir uma sustentação eficaz do solo, o material vegetal deve ser enterrado a uma profundidade de 10 a 15 cm. Devido à sua elevada capacidade de sustentação do solo, os entrançados são particularmente utilizados na consolidação do solo em encostas muito problemáticas. No entanto, esta técnica apresenta alguns inconvenientes, nomeadamente a necessidade de elevada quantidade de material vivo e a relativa susceptibilidade ao desmoronamento de rochas (Fernandes 1987). Fig. 2.12 - Esquema da técnica de entrançados. Adaptado de Lewis (2000) Esta técnica é semelhante à fachinagem, uma vez que também está relacionada com a colocação de ramos verdes em taludes. Contudo, a orientação dos ramos e a profundidade à qual estes são colocados, é diferente. Na fachinagem os ramos são colocados na perpendicular em relação às curvas de nível do talude, uma vez que esta orientação é mais efectiva do ponto de vista do reforço do solo e da estabilidade do volume de terra e do talude (Tuttle e Ralston 1992). Para além dos benefícios referidos para as outras técnicas, relacionados com o favorecimento do aparecimento de outras espécies vegetais, o facto da divisão dos taludes em pequenas áreas aumentar a resistência ao deslizamento e a criação de uma malha de raízes no solo, esta técnica auxilia ainda a infiltração nas zonas secas e retira humidade nas zonas húmidas, proporcionando assim um microclima mais favorável para a germinação das sementes e a regeneração natural. Dado que as estacas funcionam como drenos horizontais, esta técnica pode ainda rectificar e atenuar inclinações adversas de taludes (Tuttle e Ralston 1992). 50 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes 2.4.5.5.4 Colocação de tapetes de relva, “Turfing”, “Sodding” Nesta técnica, ao proceder-se à aplicação de placas de relva em toda a superfície a proteger, assegura-se a cobertura imediata do solo, evitando fenómenos de erosão. Porém, não é apropriada para muitas áreas, devido a possíveis incompatibilidades com a vegetação vizinha. Também poderá ser muito dispendiosa a sua aplicação a zonas vastas (Fryar et al. 2002). As placas de relva podem ser colocadas em taludes com inclinação acentuada onde a colocação de terra viva se torna um processo complicado. Enquanto as raízes não se desenvolvem suficientemente para tornar definitiva a fixação do tapete à superfície do talude, há a possibilidade de ocorrer o desmoronamento devido à pressão provocada pelas águas de infiltração. Para evitar este perigo é conveniente realizar uma drenagem interior, captando grande parte da água de infiltração e promovendo a drenagem em lençol durante o período do enraizamento (Sottomayor 1964). 2.4.5.5.5 Sementeira a lanço Consiste no espalhamento da semente com um distribuidor manual ou ligado a um tractor ou camião (Fryar et al. 2002). É mais apropriada para pequenas áreas, para a ressementeira de zonas onde a vegetação se encontra rala (Caraco 2000). As sementes também podem ser lançadas por avião, em zonas inacessíveis (Goddwin e Sheley 2003). Apresenta como principal vantagem o facto de ser um processo económico e eficiente, uma vez que é o método mais barato para se obter, num prazo de tempo relativamente curto, uma boa cobertura do solo (Fernandes 1987). Sempre que possível deve realizar-se, antes da sementeira, uma preparação do terreno. A adição de “hidromulch” a seguir à sementeira também poderá aumentar o sucesso da estabilização do talude (Goodwin e Sheley 2003). Contudo, a sementeira está por vezes, limitada às zonas que permitem o acesso de tractor (com declives inferiores a 1:3). Por outro lado, este tipo de técnica, para além de não ser apropriada para sementes com penugem, não origina uma distribuição uniforme e homogénea com misturas de sementes de diferentes tipos. Esta técnica encontra-se mais vocacionada para espécies utilizadas em relvados, não proporcionando por isso um adequado controlo da erosão (Fryar et al. 2002). 2.4.5.5.6 Sementeira em linha Esta técnica é similar à anterior, uma vez que utiliza tractores agrícolas convencionais, a que são acoplados semeadores e perfuradores. Estes perfuradores que poderão ser constituídos por grades de discos ou escarificadores, permitem a distribuição e enterramento da semente e dos fertilizantes numa única operação (Fryar et al. 2002). 51 Esta técnica é mais apropriada para áreas superiores a 1 ha, devido aos custos elevados que envolvem toda a operação. Segundo Northcutt (1993), a sementeira em linha é duas vezes mais dispendiosa do que a sementeira normal com posterior cobertura (Caraco 2000). O facto de as sementes e os fertilizantes serem imediatamente enterrados, origina não só uma melhor germinação das sementes e, consequentemente, um melhor estabelecimento das plantas, como também diminui as perdas de fertilizantes relacionadas com a evaporação para a atmosfera e com o arrastamento provocado pela precipitação, minimizando ainda os prejuízos com as sementes devido aos insectos e pássaros (Fryar et al. 2002). Com este método consegue-se controlar a profundidade e a quantidade de semente colocada e possibilita um contacto entre a semente e o solo, aspecto fundamental para aumentar a taxa de germinação e o sucesso do revestimento. A profundidade da sementeira varia também com as características do local que influencia a humidade do solo, como a textura e a exposição ao sol (Goddwin e Sheley 2003). A maior desvantagem desta técnica prende-se com a não protecção da superfície do solo, imediatamente a seguir à sementeira, ficando este, sujeito a fenómenos de erosão (Fryar et al. 2002). 2.4.5.6 Técnicas de bio engenharia que utilizam material vegetal associado a materiais inertes 2.4.5.6.1 Mantas biodegradáveis - “Rolled erosion-control products - RECPs” Na década de 60, devido às limitações das técnicas de “mulch” convencionais, iniciou-se o desenvolvimento de um grupo de produtos intitulados “Rolled erosion-control products- RECPs”, que incluía produtos pré-fabricados como os “mulch control nets”, “open-weave geotextiles”, “erosion control blankets” e os “turf reinforcement mats”. Esta categoria engloba produtos manufacturados a partir de fibras de madeira, palha, junça, polipropileno, coco, PVC e nylon. Estes tipos de materiais originam produtos com as propriedades dos “mulch” de fibras longas, mas com a resistência, a estabilidade e a estrutura das redes, malhas e geotêxteis (Lancaster e Austin 2003). 1) “mulch” - control netting (MCN) - são redes de fibras naturais tecidas ou extrudidos geosintéticos, bidimensionais, utilizadas normalmente como mantas degradáveis temporárias, para ancorar “mulch” de fibras, como a palha ou feno. Estes MCN são colocados sobre as áreas semeadas, juntamente com “mulch” e são fixados com o auxílio de grampos ou estacas. Devido ao facto de estas redes não ficarem coladas ao “mulch”, não oferecem o mesmo grau de integridade estrutural que as mantas pré-fabricadas. Estas redes são adequadas principalmente para locais menos estáveis, onde já não é conveniente utilizar os “mulch” convencionais aplicados juntamente com água, mas que ainda não necessitam de um controlo da erosão elevado (Robinson 2004, Lancaster e Austin 2003). 2) “Open-weave textile” (OWT) - são estruturas bidimensionais, temporárias, degradáveis constituídas por tecido ou pelo processamento de fios de polipropileno, as quais permitem 52 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes um controlo da erosão com ou sem a utilização de uma camada inferior de “mulch”. Oferecem uma composição mais forte do que as redes e são normalmente utilizadas para taludes com declives acentuados, ou para reforçar a camada por debaixo da cobertura (Lancaster e Austin 2003). 3) “Erosion-control blankets” (ECB)- são constituídos por fibras naturais ou polímeros que estão mecânica, estrutural e quimicamente ligados, de modo a formar uma matriz contínua que facilita o estabelecimento de vegetação e controla a erosão. As mantas mais utilizadas são feitas de palha, pedaços de madeira, côco, polipropileno ou de uma combinação destes produtos tecidos ou agregados (Lancaster e Austin 2003). Esta classificação engloba uma extensa diversidade de aplicações, uma vez que alterações nas fibras, redes ou fixadores podem originar mantas com diversos tipos de eficiência, durabilidade e longevidade funcional. Estes produtos podem estar disponíveis com as sementes pré-incorporadas nas suas estruturas (Lancaster e Austin 2003). Existe no mercado uma gama variada de mantas de controlo da erosão, desde mantas sintéticas protectoras de raízes, até esteiras orgânicas de junça ou côco, destinadas não só a auxiliar o estabelecimento da vegetação como também a proteger o solo contra a erosão. São ideais para locais onde se verifique um elevado escoamento superficial e onde seja necessária uma protecção imediata do solo (Lancaster e Austin 2003). As mantas são aplicadas em locais que requerem uma protecção maior e mais durável contra a erosão. Devido ao facto de os materiais degradáveis, constituintes das mantas, apenas permitirem uma protecção temporária, a aplicação daquelas está limitada às áreas onde a vegetação natural será, a longo prazo, responsável pela estabilização do talude. A longevidade funcional das mantas pode variar desde os 3 meses até mais de 3 anos, conforme a sua transformação mais rápida ou mais lenta em matéria orgânica (Lancaster e Austin 2003). As mantas biodegradáveis estão indicadas para taludes de declive inferior a 1:1 e são utilizadas para ajudar a estabelecer a cobertura do solo, conservar a humidade entre o solo e o material vegetal, evitar a compactação ou formação de crostas, reduzir a velocidade do escoamento, absorver a energia cinética produzida pela chuva, vento, neve, etc., regular a temperatura do solo ao limitar a sua exposição ao frio e ao calor e ainda incorporar matéria orgânica no solo. A aplicação das mantas necessita de uma boa preparação superficial do solo e é ineficaz em superfícies irregulares ou rochosas, uma vez que eventuais espaços entre a manta e o solo, poderão dar origem a erosão sob a manta (Fryar et al. 2002). 53 Fig. 2.13 - Esquema da técnica da colocação da manta biodegradável. Adaptado de Lewis (2000) “Turf Reinforcement Mat” (TRM) - consiste no processamento de uma matriz tridimensional, permanente, espessa, constituída por filamentos e fibras sintéticas, resistentes aos ultra-violetas (Lancaster e Austin 2003). A principal função das TRM é proporcionar um reforço permanente da vegetação existente, durante fenómenos meteorológicos adversos, onde os elevados fluxos hidráulicos e a exagerada inclinação, a que estão sujeitas as plantas, originam tensões superiores aos seus limites de resistência. Facilitam também a retenção de sedimentos durante a ocorrência de escoamento (www.maccaferri.com.au/erosion .htm). Foram desenhadas para serem utilizadas em conjugação com a camada arável e com sementes ou turfa, de modo a criar uma matriz forte, durável e contínua do complexo solo-raízes-matéria orgânica. Esta matriz proporciona duas vezes mais protecção contra a erosão do que apenas as espécies vegetais (Honnigford 2002). A sinergia criada promove o crescimento lateral do sistema radicular, aumentando a resistência das plantas aos fluxos de alta velocidade e às tensões de corte (Lancaster e Austin 2003). Podem ser também utilizadas em aplicações hidráulicas permanentes e críticas, como os canais de drenagem, locais onde se verificam condições extremas (velocidade da água e tensões de corte) que excedem o limite da vegetação natural. Estas estruturas permanentes desempenham também uma função de consolidação e protecção do solo ao qual as plantas estão ancoradas, prevenindo assim o deslizamento do solo e o enfraquecimento do sistema radicular (Lancaster e Austin 2003). O reforço da vegetação com TRM constitui uma alternativa aceitável, de resultados comprovados, económica e ambientalmente mais equilibrada do que a utilização de enrocamento ou de outros materiais não vegetais. As TRMs são muitas vezes utilizadas em situações onde a alternativa verde é preferível ao betão armado (Lancaster e Austin 2003). 54 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes As TRM são instaladas de maneira a optimizar a interacção entre as raízes ou os caules das plantas com a estrutura de matéria orgânica. Tipicamente, a instalação envolve a colocação e a fixação das TRM, de maneira a criar um contacto íntimo com a superfície do solo (Lancaster e Austin 2003). Existem dois métodos para a colocação das TRM. No primeiro método a TRM é directamente colocada sobre a superfície recentemente semeada, permitindo o desenvolvimento da vegetação por cima da estrutura de material orgânico. Neste caso, a TRM previne a lavagem do solo contendo as estruturas das raízes das plantas ancoradas, bem como o arrastamento das plantas ao longo do talude. Esta instalação origina o fortalecimento radicular da vegetação, bem como o processo de sedimentação natural e a sucessiva deposição de material vegetal entre ou sob a estrutura de matéria orgânica subjacente. No segundo método, estende-se a TRM e procede-se ao seu enchimento com solo fino e com a mistura de semente. Neste tipo de instalação, a vegetação enraíza imediatamente na estrutura ou por debaixo dela, originando assim o fortalecimento inicial e permanente (Lancaster e Austin 2003). 2.4.5.6.2 Estrutura celular pré-fabricada As estruturas celulares pré-fabricadas são utilizadas em locais onde a vegetação não consegue, por si só, estabilizar o talude, quer por se tratar de taludes muito inclinados e altos, quer devido à presença de água no seu interior ou à possibilidade de ocorrerem desmoronamentos mesmo na presença de vegetação (AIPCR 1991). As estruturas celulares podem ser de plástico, metal ou betão, sendo estas últimas as mais utilizadas, pela sua rusticidade. Estas estruturas garantem o fornecimento de uma camada de terra viva uniforme e regular onde poderá ocorrer o revestimento vegetal. As espécies herbáceas e arbustivas podem ser semeadas manualmente ou recorrendo ao processo de hidrossementeira. Esta técnica, apesar de dispendiosa, proporciona uma diminuição dos custos de modelação do terreno, dada a sua capacidade de instalação em taludes de declive acentuado. 2.4.5.6.3. Estruturas geossintéticas - “Geogrid” Existem diversos produtos geossintéticos com um amplo campo de aplicação na protecção dos taludes contra a erosão. Alguns produtos, tais como malhas tridimensionais de poliamida, nylon ou propileno e estruturas alveolares em polietileno ou em geotêxtil, são especificamente fabricados para este fim (AIPCR 1991). Estes produtos celulares, tridimensionais, em forma de malha de favo foram desenvolvidos durante a guerra do Golfo para permitir a passagem dos camiões através das dunas (Fryar et al. 2002). 55 Fig. 2.14 - Esquema de secção lateral de uma estrutura geossintética. Adaptado de Grey e Sotir 1996 A escolha do tipo de estrutura a utilizar prende-se com as características edafo-climáticas do local e com a inclinação do talude. Alguns destes produtos têm um tempo de vida limitado, devido à exposição aos raios ultra-violetas (AIPCR 1991). As estruturas alveolares são indicadas para taludes com declives 2:1. No entanto, para inclinações limite é necessário aplicar-se uma rede de protecção que possibilite a contenção da terra vegetal. Os alvéolos hexagonais destas estruturas possuem um diâmetro compreendido entre 20 e 40 cm e uma altura de 7,5 a 15 cm. Cada alvéolo funciona como um vaso onde são colocadas as sementes e as plantas. Estas estruturas geossintéticas estão preparadas para assegurar a protecção dos taludes expostos aos efeitos erosivos, evitando deslizamentos superficiais, pois repartem o escoamento superficial em pequenos escoamentos, diminuindo assim a sua velocidade. As estruturas tridimensionais são mais indicadas para taludes com declives não superiores a 1:1,5 e podem ser também aplicadas em taludes rochosos. Estas estruturas são constituídas por uma malha de fios de poliamida de espessura variável entre 10 e 20 mm, dispostos aleatoriamente. Estas estruturas geossintéticas são concebidas para retardar a velocidade de escoamento superficial, reduzindo a erosão e promovendo a sedimentação e retenção das sementes, evitando o seu escorregamento. Esta técnica é uma boa opção para declives inclinados, onde não se pode realizar escavações ou quando há necessidade de colocação de terra que foi anteriormente removida. 2.4.5.6.4 “Joint planting” ou gabiões ou rochas com vegetação Consiste na colocação de estacas de material vegetal, juntamente com terra, entre as ravinas ou as fendas nas rochas. Alternativamente, podem ser plantadas na mesma altura da colocação de rochas na superfície do talude (Tuttle e Ralston 1992). As estacas a plantar deverão ter um ou dois anos, sem ramos, com um diâmetro de 2 a 4cm e um comprimento de 20 a 40 cm (Schiechtl 1980). 56 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Fig. 2.15 - Esquema da técnica de “joint planting”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) Fig. 2.16 - Esquema da técnica de colocação de vegetação entre os gabiões Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) As raízes das plantas, ao extraírem a humidade do solo, melhoram a drenagem e com o passar do tempo, originam matéria orgânica na base do solo, à sua volta, onde as rochas foram colocadas. Este sistema radicular vai auxiliar a fixação e reforçar o solo, prevenindo o deslizamento de partículas finas entre as unidades da rocha (Tuttle e Ralston 1992). Esta técnica promove a melhoria do microclima do local, tal como qualquer sistema que aplique material vegetal vivo. Normalmente são plantadas estacas de arbustos, com sistemas radiculares superficiais que crescem paralelamente à superfície, não existindo por isso o risco daqueles causarem danos nas paredes (Schiechtl 1980). A plantação das espécies vegetais só será possível, durante o seu período de dormência, sendo contudo a taxa de insucesso de 30 a 50%. A estabilização do talude só se inicia com o aparecimento das raízes. Com o decorrer do tempo, as folhas que vão caindo e apodrecendo, formam uma camada de húmus, que cobre e protege o muro de rocha eficientemente (Schiechtl 1980). 57 2.4.5.6.5 “Branchpacking” Consiste na colocação de camadas alternadas de estacas e terra compactada, de modo a tapar pequenas depressões ou buracos localizados no talude. Trata-se de um método efectivo de estabilização e reforço imediato do solo em pequenas zonas, onde se verifica a retenção de água, constituindo uma barreira contra a erosão e as condições favoráveis ao escoamento. As estacas vegetais são fixadas no talude com o auxílio de paus de madeira (Tuttle e Ralston 1992). Esta técnica está vocacionada para reparar pequenas depressões localizadas em taludes. Fig. 2.17 - Esquema da técnica de “Branchpacking”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) 2.4.5.6.6 “Live cribwall” Esta técnica consiste no enchimento de uma caixa rectangular de madeira ou metal com terra vegetal, pedras e estacas vivas que enraízam dentro da estrutura e penetram no talude. Durante a construção, os ramos de material vivo devem ser dispostos ao ar livre entre as ripas da caixa, de modo a não ficarem fora do solo mais de ¼ do seu comprimento. O material de enchimento deve ser suficientemente fino, por forma a garantir o crescimento das raízes (Gamito 2002). Logo que as estacas enraízem e se estabeleçam, a vegetação originada substituirá gradualmente a estrutura inicial nas suas funções. Esta técnica proporciona não só uma protecção imediata contra a erosão, oferecida pelas estruturas de madeira, como garante também uma estabilização do talude a longo prazo, através da sua parte vegetativa. É indicada para ser colocada na base dos taludes, quando é necessária uma pequena parede para estabilizar a base e reduzir o declive do talude (Tuttle e Ralston 1992). 58 Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Fig. 2.18 - Esquema da técnica de “Live cribwall”. Adaptado de Tuttle e Ralston (1992) 2.4.5.6.7 “Wattle Fences” Esta técnica baseia-se na construção de pequenas barreiras de retenção de terras, utilizando estacas de material vegetal vivo, as quais ao abrolharem e originarem novos lançamentos, irão fortalecer a estrutura. Contudo, estas estruturas são normalmente utilizadas em locais com condições de humidade favoráveis, como é o caso de solos de textura fina ou locais onde a ocorrência de infiltração ou a existência de toalhas freáticas proporcione humidade suficiente para o desenvolvimento das estacas (Polster 2003). As “Wattle Fences” podem ser utilizadas em taludes com elevada inclinação (70º) desde que o talude esteja globalmente estabilizado (Polster e Bio 2002). Fig. 2.19 - Esquema da técnica de “Wattle Fences”. Adaptado de Polster e Bio (2002) 59 Quadro 2.7 - Resumo das técnicas de revestimento vegetal, incluindo a sua classificação segundo o grau de prevenção do risco de erosão, custo, vantagens e limitações (Adaptado de Gamito 2002, s/a 2003) Técnicas de revestimento vegetal Prevenção do risco de erosão Custo Vantagens Limitações A aplicação de “mulch” em taludes pode ser difícil e requerer a utilização de equipamento especializado. Palha só pode ser utilizada em taludes até 20% e composto até 40% e pode surgir necessidade de serem fixados. A palha pode trazer sementes de infestantes Não previne os deslizamentos. Não proporciona qualquer protecção superficial contra a erosão É necessário ter acesso a equipamento próprio para hidrossementeira. Pode ser necessário efectuar várias aplicações, em áreas com baixo crescimento vegetal. Não são muito eficazes em locais com pouca humidade. Cobertura do solo ou “Mulching” Médio Custos variável Pode ser usada isoladamente para proteger áreas durante pequenos períodos. Protege solo da erosão da gota de chuva. Preserva a humidade do solo e protege a germinação das sementes contra temperaturas extremas. Meio relativamente barato de promover o crescimento das plantas e a protecção dos taludes Hidrossementeira sem “mulch” Baixo Baixos Técnica económica e eficiente para ser aplicada a grandes áreas. Hidrossementeira com “mulch” Baixo Custos variável (Baixos) Colocação estacas vivas Baixo Baixos* Alto Baixos* Técnica económica e eficiente para ser aplicada a grandes áreas. A utilização de fixadores com “mulch” pode ser utilizada para fornecer imediatamente protecção até à germinação das espécies e estabelecimento de vegetação. Permite o revestimento de taludes inclinados, onde as técnicas de sementeira e “mulching” são difíceis. Técnica complementar. Serve para controlar o movimento de massa superficial, embora não seja tão eficaz como a “cribwall” e a “geogrid” Reduz largamente a erosão, através da diminuição do escoamento e da deposição dos sedimentos. de Fachinagem Técnicas de revestimento vegetal Prevenção do risco de erosão Só protege da erosão a partir do momento em que a superfície do talude estiver completamente coberta. Custo Vantagens Limitações Permite a estabilização do solo imediata e protege a superfície do talude Não é tão eficiente como as “geogrids” ou os gabiões com vegetação. Os taludes não devem exceder os 37º. Proporciona uma protecção do talude e o estabelecimento de vegetação imediato. Pode ser utilizado em taludes inclinados. É de fácil instalação e pode ser reparado, se ficar danificado. Aparência esteticamente agradável. Controlo da erosão relativamente eficiente e económico. A eficácia aumenta com o desenvolvimento da vegetação. Aparência esteticamente agradável. Dispendioso e muito intensivo em termos de trabalho manual. Entrançados “Brushlayer” Médio Colocação de placas de relva Alto Menos dispendio sos do que “Wattle Fences” Elevados Sementeira Baixo Baixos 60 O seu potencial para prevenir a erosão só é efectivo depois das raízes e folhas estarem totalmente desenvolvidas. Deve ser aplicada numa superfície preparada e requer um período de manutenção. É difícil instalar em taludes inclinados, está limitada a determinadas épocas do ano e as zonas semeadas recentemente ficam susceptíveis à erosão provocadas pelo escoamento da água. Cap. 2 – Erosão e Estabilização Biológica de Taludes Estruturas geossintéticasGeocellular Containment System Erosion-control blankets (RECB) Mantas biodegradáveis Alto Muito elevados Alto Elevados Gabiões com vegetação “Joint planting” Alto Elevados Rip rap vegetação Médio Baixos “Branchpacking” Médio “Live cribwall” Alto Mediana mente elevados Elevados “Wattle Fences” Médio com Mediana mente elevados É usado para estabilizar taludes inclinados, proporcionando também uma protecção da superfície contra a erosão. Apresenta excelentes benefícios em termos geotécnicos. Cobertura imediata. Podem ser utilizados como protecção temporária ou permanente em taludes altamente erodidos. Permitem uma cobertura mais uniforme e prolongada do que os “mulch”. Podem ser usados para reter paredes em taludes inclinados. Quando instalados ao longo do talude, reduz totalmente a erosão. Técnica muito permeável e flexível. Tem a função de proteger o talude como uma armadura. Quando cobre toda a superfície, a erosão é reduzida ao mínimo. Utilizado para zonas com estruturas do solo problemáticas. Serve para reparar pequenos orifícios no talude É usada para estabilizar taludes inclinados, proporcionando também uma protecção da superfície contra a erosão. Apresenta excelentes benefícios em termos geotécnicos. Permite a estabilização do solo imediata e protege a superfície Exige técnica de utilização para obtenção de bons resultados Só evitam os deslizamentos, após o estabelecimento das raízes. Não são adequados para taludes rochosos. É necessário preparação do terreno para instalar correctamente os RECP Técnica muito intensiva em termos de mão-de-obra. Não é tão eficiente na previsão dos deslizamentos como os gabiões, os “geogrids” e os “cribwalls”. Necessita de elevada quantidade de água para o estabelecimento da vegetação Altura limitada Não é tão eficiente com as “geogrids” ou os gabiões com vegetação Relativamente a outras que utilizem também o mesmo tipo de material vegetal. 2.5 SISTEMA DE APOIO À DECISÃO Os sistemas de apoio à decisão (SAD) consistem numa agremiação de programas e técnicas informáticas, desenvolvidos através da utilização de um suporte digital, com intuito de facilitar a acessibilidade à informação e sua subsequente análise (Sodja et al. 1994). Estas propriedades dos SAD favorecem as capacidades decisórias dos seus utilizadores (Wherrett 1996). A utilização de SAD iniciou-se no final da década de século passado quando várias escolas de Gestão de Empresas procuram beneficiar do ambiente digital para a elaboração de modelos analíticos que auxiliassem os gestores durante o processo de decisão (Powers 1999). Desde então, este tipo de sistemas tem vindo a ser empregue em outras áreas onde existem dificuldades em obter soluções para problemas complexos e poucos estruturados (Adelman 1992; Sprague e Carlson 1982). Uma vez que em problemas daquela natureza podem coexistir várias soluções, os SAD caracterizam-se por procurarem minimizar o grau de incerteza, quando uma delas tem que ser adoptada (Graham e Jones 1988). 61 Esta particularidade dos SAD ajusta-se à realidade da escolha da técnica mais eficaz para estabilizar taludes, pois a existência de uma panóplia de possíveis opções dificulta a tomada de decisões. Este processo é ainda agravado pela dificuldade em identificar todas as variáveis que conformam o problema. Como tal, procurou-se desenvolver um SAD que, por um lado, disponibilizasse toda a informação relevante e, por outro, coadjuvasse no processo de análise necessário para a escolha da melhor técnica. O SAD é constituído pelas seguintes secções: Mapa Dado que as técnicas da bio-engenharia se socorrem da vegetação como material de construção, o SAD disponibiliza informação acerca da vegetação mais comum na área de intervenção, das espécies que podem ser propagadas por estacas e das espécies pioneiras, para além da informação acerca dos factores ambientais (solo, litologia, pH do solo, precipitação, temperatura, riscos de geada e insolação) que condicionam a sua instalação e desenvolvimento. Modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão em taludes Este modelo foi desenvolvido com base na equação Universal das Perdas e em estudos realizados para a aplicação desta equação ao caso Português. No entanto, em vez de utilizar informações pouco acessíveis e expressões difíceis de calcular, apenas requer o input de informações simples como a textura, o declive e comprimento do talude. Esta informação permite-nos obter três possíveis riscos de erosão: baixo, médio e alto. O SAD, no entanto, não proporciona uma única solução pois ela dificilmente existe. De facto, várias técnicas podem ser empregues para fazer face a diferentes susceptibilidades. Cabe ao utilizador escolher aquela que se afigura mais razoável. Para tal, o SAD disponibiliza a visualização da técnicas num ambiente virtual que pretende aproximar o mais possível o utilizador da realidade. 62 Cap. 4 – Resultados e Discussão 3. EXPERIMENTAÇÃO E TRABALHOS DE CAMPO 3.1 CARACTERIZAÇÃO DO LOCAL 3.1.1 Localização dos taludes A parte experimental deste projecto foi instalada em 2 taludes de escavação (Quadro3.1), localizados na auto-estrada A8, entre Torres Vedras e o Bombarral (Fig. 3.1). Estes taludes foram seleccionados, em colaboração com a empresa Autoestradas do Atlântico, fundamentalmente por necessitarem de intervenção urgente, dado que não se encontravam ainda estabilizados e por estarem praticamente desprovidos de cobertura vegetal, apresentando alguns sinais de erosionamento (Fig. 3.2 e 3.3). Fig. 3.1 - Localização dos taludes onde se realizaram os ensaios Fig. 3.2 – Perfil do talude (S/N), localizado na autoestrada A8 antes da intervenção 63 Fig. 3.3 – Perfil do talude (N/S), localizado na autoestrada A8 antes da intervenção Quadro 3.1 - Características dos taludes estudados: Sul/Norte Talude (S/N) Local A8 pKs 50+800 Altura (m) >8 Comprimento (m) > 60 Exposição W Declive (Graus) 45 Existência de sulcos Alguns Grau de cobertura(%) 10 Norte/Sul (N/S) A8 59+400 >8 >100 E 45 Muito Pouco 5 3.1.2 Caracterização Edafo-Climática 3.1.2.1 Clima Pode-se definir o clima como uma sucessão habitual dos estados da atmosfera, sendo caracterizado pelos valores médios anuais dos diversos elementos meteorológicos. Estes são a intensidade da radiação solar, temperatura do ar e do solo, ventos, humidade do ar, nebulosidade, natureza e repartição das precipitações. Estes valores podem ser caracterizados pela amplitude, pelas variações diurnas, mensais e anuais e os seus valores extremos máximos e mínimos. Para a caracterização climática da zona em estudo utilizaram-se como base os dados relativos à estação de Dois Portos que tem como principais características uma latitude de 39º2´, longitude de 9º11´e altitude de 110 m. Os dados objecto de tratamento são referentes a um período de 30 anos (1958 a 1988), conforme recomendado pela Organização Meteorológica Mundial. 64 Cap. 4 – Resultados e Discussão Quadro 3.2 -Tratamento sumário dos dados Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Média Total Geada 6 3 2 0 0 0 0 0 0 0 2 6 - - HR9 85 84 79 77 76 76 74 75 77 80 82 83 79 - I 131,0 131,6 180,8 197,5 252,5 260,8 298,3 301,5 234,4 185,6 144,9 143,2 - 2.462,1 R 98,8 90,5 71,5 58,1 50,7 25,7 5,2 6,3 22,5 75,2 108,3 94,2 - 707,0 R01 15 15 13 11 9 5 2 2 5 10 14 14 - - R1 13 13 10 9 7 5 1 1 4 8 12 11 - - R10 4 3 3 2 2 1 0 0 1 3 4 3 - - T 10,2 10,8 12,2 13,7 15,5 18,2 20,0 20,4 19,9 16,9 13,0 10,5 15,1 - T9 9,3 10,0 11,6 13,7 15,9 18,5 19,8 19,8 19,4 16,3 12,2 9,6 - - Tamax 17,6 19,5 22,3 25,2 29,0 32,6 33,7 34,5 33,4 28,3 22,5 18,2 - - Tamin 1,6 1,5 2,4 4,1 6,1 8,7 10,7 10,9 9,1 5,3 2,5 1,3 - - Tmax 14,2 14,9 16,7 18,3 20,2 23,4 25,4 25,9 25,6 22,2 17,7 14,7 - - Tmin 6,2 6,7 7,6 9,0 10,5 13,1 14,6 14,8 14,2 11,6 8,3 6,9 - - Vento 10,5 12,2 11,5 11,7 11,9 10,8 11,4 11,2 9,0 8,9 8,8 10,3 - - Chave: Geada - Número de dias de Geada HR9 - Valores médios de Humidade Relativa às 9UTC (%) I - Insolação (h) R - Precipitação (mm) R01 - Número de dias com precipitação superior a 0,1 mm R1 - Número de dias com precipitação superior a 1,0 mm R10 - Número de dias com precipitação superior a 10 mm T - TEMPERATURA DO AR - Média diária (ºC) T9 - TEMPERATURA DO AR - Média diária às 9 horas (ºC) Tamax - TEMPERATURA DO AR - Máxima absoluta (ºC) Tamin - TEMPERATURA DO AR - Mínima absoluta (ºC) Tmax - TEMPERATURA DO AR - Média das máximas (ºC) Tmin - TEMPERATURA DO AR - Média das mínimas (ºC) Vento - Velocidade Média do Vento (km/h) Precipitação A precipitação depende de inúmeros factores como a altitude, a época do ano, o relevo e outros factores fisiográficos locais. A sua influência sobre os ecossistemas pode ser determinante por se apresentar como um dos grandes condicionantes do ciclo hidrológico e da vegetação, sendo ainda, um dos principais agentes nos processos de erosão hídrica do solo, da ocorrência de cheias, da lavagem de pavimentos e de infiltrações de águas no solo. A precipitação total registada na Estação de Dois Portos é de 707 mm, observando-se uma precipitação máxima de 108,3mm em Novembro e uma mínima de 5,2 mm em Julho. Temperatura do ar A temperatura do ar é condicionada por factores gerais a que se sobrepõem factores regionais e locais. Os factores gerais são a radiação solar e o movimento da terra, os factores regionais são a 65 influência dos mares, dos continentes e das cadeias montanhosas, sendo os locais a topografia, a natureza do solo e o seu revestimento. No quadro seguinte é apresentada uma síntese, onde podem ser verificados os principais parâmetros das condições térmicas registadas na estação climática de Dois Portos: Quadro 3.3 - Síntese dos principais indicadores do regime térmico (ºC) Estação de Mirandela Média mensal Extremos absolutos Média anual 15.1 Mínimo 10.2 Máximo 20.4 Amplitude 10.2 Mínimo 1.3 Máximo 34.5 Períodos com Tmin< 0ºC - Os índices de temperatura do ar são sempre susceptíveis de variações específicas, sobretudo em termos de amplitudes diárias, devido essencialmente à concentração de partículas poluentes características da rede viária. Humidade Relativa A região apresenta valores de humidade relativa mais elevados no Inverno do que no Verão, valores estes que variam entre 85%, em Janeiro, e 74%, em Julho. Classificação Climática A enorme variabilidade inter anual, quer da precipitação total quer estacional ou mensal, tem como consequência um elevado factor de risco para a manutenção das espécies. Este factor é naturalmente agravado pelas deficientes condições edáficas dominantes. Os solos delgados de baixa capacidade de retenção de água, não conseguem armazenar grande parte da precipitação ocorrida, conduzindo a deficiências a partir do mês de Maio. O balanço hídrico (Fig. 3.4) realizado pelo método de Thornthwaite, permite determinar quais os meses em que se verifica risco de défice ou excesso de água no solo. 66 Cap. 4 – Resultados e Discussão Balanço Hídrico 120 100 mm 80 D Rs 60 S Cs 40 20 0 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Meses ETP(mm/mês) R(mm) ETR (mm/mês) Fig. 3.4 - Balanço hídrico. As áreas entre as curvas representam S (excesso de água), Cs (cedência de água pelo solo, ∆A>0), D (défice de água) e Rs (restituição de água ) O gráfico anterior permite considerar um semestre húmido de Outubro a Abril no qual se concentra mais de 84% da queda pluviométrica e um semestre seco de Maio a Setembro de acentuada estiagem e durante o qual se verifica nítida carência de água no solo. A classificação climática de Thornthwaite baseia-se em quatro índices, sendo dois indicadores do regime térmico e outros dois do regime hídrico. A concentração estival da eficiência térmica expressa a importância do trimestre mais quente do ano e a eficiência térmica expressa as exigências de água em valor anual de ETP(mm); os índices de humidade e de aridez caracterizam o regime hídrico em termos sazonais . Quadro 3.4 - Classificação Climática Índices Valores Classificação Índice de aridez (Ia) 35 % s2 Índice de humidade (Ih) 28 % Índice hídrico (IH) 7% C2 Concentração estival da eficiência térmica (CEET) 41 % a’ 760 mm B´2 Eficiência térmica A classificação climática resultante dos valores obtidos é: C2 B´2 s a’ – Clima sub-húmido chuvoso, mesotérmico, com nula ou pequena concentração da eficiência térmica na estação quente e grande deficiência de água no verão. 67 Segundo a classificação de Köppen: Csb C - clima mesotérmico sem queda regular de neve s - estação seca no Verão b - Verão pouco quente De acordo com os dados da estação meteorológica em causa, verificou-se a ocorrência de geadas na região no período de Novembro-Março, com especial incidência nos meses de Dezembro e Janeiro. 3.1.2.2 Solos Apesar deste trabalho se desenvolver numa formação geológica à qual não se deve dar a designação de solo, será interessante fazer uma pequena caracterização dos solos da região. Para obter a representatividade das várias famílias de solos, procedeu-se à quantificação das áreas ocupadas pelas mesmas (método da contagem das quadrículas, descrito no Projecto de Arborização parcial do Concelho de Torres Vedras). Quadro 3.5 - Áreas e percentagens correspondentes às famílias de solos existentes Famílias Vato Vcst/Vcst’/Vcs Pato Aac Pcst Lvt Vto Vt Sbc/Sb Ac/Atc/Atl/At Área social Total Legenda: - Vato - Vcst/Vcst’/Vcs - Sbc/Sb - Ac/Atc/Atl/At Área (ha) 248,2 182,3 93,15 84,56 67,6 54,9 32,2 25,2 54,56 11,33 55 909 Percentagem (%) 27,3 20,0 10,24 9,3 7,43 6,03 3,5 2,7 6 1,24 6,05 100 Solos Mediterrânicos vermelhos ou amarelos Solos Calcários vermelhos Solos de Baixas (Coluviossolos) Aluviossolos As famílias de solos mais representativas da região são: - Solos Mediterrânicos vermelhos ou amarelos (Vato) - Solos Calcários vermelhos (Vcst/Vcst’/Vcs) Os Solos Mediterrânicos Vermelhos de Materiais não Calcários são formados a partir de rochas não calcárias. Evoluindo, de perfil A BA C, ou seja, solos argiluviados de cores avermelhadas, relacionando-se com argilas ou margas argilosas, em geral de espessura mediana, texturas finas/médias ou finas e grau de saturação com bases acima de 35%. 68 Cap. 4 – Resultados e Discussão Os Solos Calcários Vermelhos são solos pouco evoluídos, de perfil A C, ou frequentemente A Bc C, originários de rochas calcárias, com percentagem variável de carbonatos ao longo do perfil, de coloração avermelhada. 3.2 SISTEMA DE APOIO À DECISÃO (SAD) Para a orientação na escolha da técnica de estabilização recorremos ao sistema de apoio à decisão (SAD) desenvolvido por Gamito (2002), como referido no ponto 2.1.3.3, utilizando a página disponível online http://sbdss.no.sapo.pt/ Fig. 3.5 - Modelo de cálculo de susceptibilidade de erosão em taludes: entrada de dados Fig. 3.6 - Riscos de susceptibilidade de erosão 69 Fig. 3.7 - Técnica de bioengenharia sugerida pelo modelo Segundo este modelo o talude S/N apresenta um risco de erosão baixa e a técnica de Bioengenharia recomendada é a hidrossementeira. No talude N/S, apesar de ter uma textura diferente do primeiro, quando introduzidos os valores no modelo SAD os resultados são os mesmos e recomenda-se igualmente a hidrossementeira. 3.3 INVENTÁRIOS FLORÍSTICOS E ESCOLHA DAS ESPÉCIES Para a selecção das espécies das misturas a utilizar no ensaio foram considerados os seguintes passos: 1 - Recolha bibliográfica das espécies características da zona de Lisboa e Vale do Tejo (projectos de integração paisagística e Quercetea) 2 - Listagem de sementes disponíveis no mercado vs. preço 3 - Inventário local 4 - Caracterização/adequação das espécies indicadas (boa capacidade de uso temporão da água, boa resistência à seca, boa capacidade de crescimento em povoamentos densos, boa capacidade de resistência a variações intensas de biomassa). Foram efectuadas pesquisas aos estudos de integração paisagística elaborados para a rede rodoviária da zona de Lisboa e Vale do Tejo, extraindo-se uma lista com as espécies herbáceas e arbustivas (Quadro 3.6) que mais frequentemente eram aconselhadas para a estabilização de taludes nesta região. 70 Cap. 4 – Resultados e Discussão Quadro 3.6 - Espécies pioneiras e arbustivas referidas com maior frequência em projectos de integração paisagística realizados na região de Lisboa e Vale do Tejo Espécie herbáceas Agrostis tenuis Cynodon dactylon (L.) Pers. Dactylus glomerata Festuca arundinacea Festuca rubra var fallax Festuca rubra var rubra Lolium multiflorum Lam. Lolium perenne L. Lotus corniculatus Lupinus luteus Trifolium fragiferum Trifolium incarnatum Trifolium repens Trifolium subterraneum Espécie arbustivas Acanthus mollis L. Cistus crispus L. Cistus ladanifer L. Cistus salvifolius L. Crataegus monogyna Jacq. Cytisus multiflorus (L'Hér.) Sweet Daphne gnidium L. Lavandula luisieri (Rozeira) Rivas Mart. Lygos sphaerocarpa (L.) Heywood Ononis natrix L. Spp.ramosissima (Desf.) Batt. Phillyrea latifolia L. Pistacia lentiscus L. Teucrium fruticans Viburnum tinus Dos estudos de impacto ambiental e dos projectos de execução de integração paisagística elaborados para a rede viária da A8, troço Torres Vedras-Bombarral, obtiveram-se as espécies arbustivas projectadas para estabilização dos taludes do troço em estudo e as respectivas densidades (Quadro 3.7). Quadro 3.7 - Espécies arbustivas descritas no projecto de execução, elaborado para o troço Torres Vedras-Bombarral na A8 (Estudocivil, 1997) Espécie Cistus crispus Cistus ladanifer Crataegus monogyna Jacq. Daphne gnidium Erica scoparia Lavandula luisieri Lygus sphaerocarpa Rhamnus alaternus Rosa canina Teucrium fruticans Viburnum tinus Quantidade aplicada (g/m2) 0,0125 0,0125 0,05 0,075 0,1 0,025 0,1 0,075 0,04 0,06 0,125 Fig. 3.8 - Taludes estabilizados com revestimento vegetal, existentes na A8, onde foram realizados os inventários 71 Paralelamente foram realizados diversos inventários florísticos (Fig. 3.8) aos taludes já intervencionados da Auto-estrada A8 e que apresentavam um revestimento vegetal satisfatório, com arbustos bem estabelecidos e desenvolvidos, constituindo por isso exemplos de sucesso relativamente à estabilização de taludes através de espécies vegetais. Os resultados destes inventários encontram-se descritos no Quadro 3.8. Quadro 3.8 - Espécies arbustivas inventariadas em taludes com revestimento vegetal já bem estabelecido da A8 Grau de cobertura (%) 1 1 1 2 2 2 28 5 5 5 5 5 5 5 6 7 7 8 Espécie Salix salvifolia Spartium junceum Tamarix sp. Calluna vulgaris Centaurea sphaerocephala ssp lusitanica (?) Cistus ladanifer Ulex jussiaei Cistus albidus Cistus salvifolius Coronilla valentina glauca Dittrichia viscosa Erica scoparia Ononis natrix Teline monspessulana Cistus crispus Lavandula luisieri Retama shaerocarpa Cytisus striatus Com base nos factores anteriormente enumerados definiram-se as seguintes misturas de sementes: Quadro 3.9 - Mistura A - Mistura com base nas espécies que constam no Inventário efectuado aos taludes, cujo revestimento vegetal foi bem sucedido na auto-estrada A8 Espécie Acanthus mollis L, Cistus crispus Cistus salvifolius Cytisus multiflorus (L'Hér,) Sweet Daphne gnidium Lygus sphaerocarpa Ononis natrix Phillyrea latifolia L, Pistacia lentiscus L, Total 72 % na mistura 3 2 2 7 6 28 3 21 28 100 Quantidade aplicada (g/m2) 0,07 0,04 0,04 0,18 0,15 0,71 0,07 0,53 0,71 2,5 Cap. 4 – Resultados e Discussão Quadro 3.10 - Mistura B - Mistura com base nas espécies que constam maioritariamente nos estudos de integração paisagística, elaborados para redes rodoviárias da região de Lisboa e Vale do Tejo Espécie Calluna vulgaris Centaurea sphaerocephala ssp lusitanica (?) Cistus albidus Coronilla valentina glauca Cytisus striatus Erica scoparia Lavandula luisieri Ononis natrix Spartium junceum Teline monspessulana Total % na mistura 1 7 3 13 16 4 5 7 7 37 100 Quantidade aplicada (g/m2) 0,03 0,16 0,05 0,28 0,35 0,08 0,10 0,14 0,15 0,80 2,14 Quadro 3.11 - Mistura C - Mistura de sementes de espécies pioneiras existente no mercado, recomendada para controlo de erosão em taludes com inclinações elevadas Espécie Dactylis glomerata “Amba” Festuca arundinacea “Eldorado” Lolium perenne “Aviara” Lolium multiflorum “Labelle” Trifolium repens “Huia” Trifolium pratensis “Lucrum” % na mistura 25% 20% 30% 20% 2,5% 2,5% 3.5 TÉCNICAS DE REVESTIMENTO VEGETAL A sementeira das espécies vegetais foi efectuada recorrendo à técnica de hidrossementeira e consistindo na projecção de uma mistura constituída por sementes, fertilizantes, “mulch” e água. Existem no mercado diversos tipos de “mulch” que podem ser utilizados na hidrossementeira. Neste ensaio foram seleccionados três tipos de “mulch” com características bastante distintas e abaixo descritos. Avaliaram-se e compararam-se os resultados da sua aplicação, relacionados não só com o controlo da erosão, mas também com o desenvolvimento da cobertura vegetal. Foi igualmente comparado o preço dos diferentes tipos de “mulch” estudados (Quadro 3.13). - Mulch 1- Fibras de madeira Este tipo de “mulch” é o mais utilizado actualmente e é produzido através do desfibramento de pedaços de madeiras inteiros. Apresenta fibras longas que quando aplicadas se interligam e se colam umas às outras, formando uma manta contínua na superfície do solo;. - Mulch 2 - BFM (Bonded Fiber Matrix) As BFM fazem parte de uma nova classe de produtos de controlo da erosão, que ao serem aplicados hidraulicamente originam uma matriz tridimensional, a qual auxilia a prevenção da erosão e potencia o crescimento das plantas. Apresentam características semelhantes às das mantas biodegradáveis, sendo porém a sua aplicação menos dispendiosa e mais fácil. 73 - Mulch 3- Compostos resultantes de processos de compostagem de material vegetal A utilização deste tipo de produtos compostados tem sido objecto de diversos estudos de forma a tirar partido das múltiplas vantagens destes, relacionadas não só com as suas características físicas e químicas, mas também com o facto da sua aplicação constituir uma solução ambiental económica e acessível. Após análise a diversos produtos compostados, seleccionou-se o composto proveniente da empresa de Valorização e Tratamento de Resíduos Sólidos S.A. do Algarve – Algar, por esta apresentar um processo de compostagem de maior qualidade conforme descrito seguidamente. A transformação de Resíduos Verdes (sobras resultantes da manutenção de jardins e de espaços verdes) em composto consiste, numa primeira fase, na desfibração dos resíduos em pequenos pedaços, visando a aceleração da compostagem e também um manuseamento mais fácil. Esta matéria-prima é depois colocada em pilhas homogéneas, onde decorre a sua decomposição natural. A temperatura das pilhas é monitorizada com frequência, servindo estas informações para determinar o estado da sua decomposição. Regularmente, as pilhas do material são revolvidas com um equipamento próprio (o volteador), de forma a garantir uma decomposição uniforme de toda a matéria através da oxigenação das pilhas, acelerando o processo de compostagem. Simultaneamente, é efectuada a injecção de água de forma a controlar o teor de humidade do material a compostar. Quando o material atinge a sua fase de estabilização (passados cerca de 2 meses), é colocado num crivo rotativo que o separa em 2 tipos de produtos: composto e mulching (algar.com.pt/pt/rsu/compostagem.htm). Quadro 3.12 - Análise Química e Biológica do Mulch (Mulch 3) utilizado na modalidade B (Composto) Parâmetro Matéria seca Matéria Orgânica pH (1:6) a 22 ºC Condutividade a 20º C (1:5) Fósforo Total Azoto Total Carbono Orgânico Total Relação C:N Potássio Cobre Zinco Chumbo Selénio Cádmio Crólmio Total 74 Resultado Expressão de Resultados 80.8 29.3 8.5 1091 436 1.2 16.3 13:1 381 14.8 48.9 1.0 <0.3 0.1 4 % (m/m) % (m/m) Unidades de pH (em matéria fresca) µS/cm (na matéria fresca) mg/Kg P2O5 % (m/m) % (m/m) mg/Kg K mg/Kg Cu mg/Kg Zn mg/Kg Pb mg/Kg Se mg/Kg Cd mg/Kg Cr Cap. 4 – Resultados e Discussão Parâmetro Arsénio Total Níquel Mercúrio Salmonella sp. Clostridium perfrigens Resultado Expressão de Resultados 4.2 24 <0.07 Ausência 0 mg/Kg As mg/Kg Ni mg/Kg Hg Presença ou Ausência/g (na matéria fresca) UFC/g (na matéria fresca) Quadro 3.13 - Preço unitário e por Kg e m2 dos “mulch” estudados Mulch Peso unitário 22,7 Kg Dose de aplicação €/embalagem* €/Kg €/m2** 135 a 300 g/m2 23€ 1,01€ 0,22€ Fibra de madeira “Bond Fibre 2 22, 7 Kg 300 a 450 g/m 64€ 2,82€ 1,06€ Matrix”-BFM 3 2 1m 500 g/m 25€ Composto** * Preço de tabela ** Valor referente apenas ao custo do mulch, não tendo sido considerado o custo da aplicação 3.6 DESENHO EXPERIMENTAL Em cada talude, estabeleceram-se 15 talhões, com dimensões de 1 m de largura e 8 m de comprimento, definindo-se um intervalo de 50 cm de separação entre eles. Nestes 15 talhões foram testadas 4 modalidades e 1 branco, repetidos 3 vezes aleatoriamente em cada talude (Fig.3.9). Fig. 3.9 - Desenho experimental do ensaio instalado nos taludes 75 Os materiais e equipamentos utilizados no ensaio são enumerados seguidamente: - 30 caixas de chapa galvanizada - 30 bidões de 65 L e 30 bidões de 25 L - 30 garrafas de 1,5 L - 2 misturas de sementes (9 Kg) - fibras de madeira com fixadores – 45 Kg - BFM – 60 Kg - adubo de libertação lenta (22-27-7) - composto resultante de processo de compostagem - hidrossemeador de 1000 L - retroescavadora 3.7 TRABALHOS REALIZADOS NA PRÉ- INSTALAÇÃO 3.7.1 Recolha e análise do solo Colheita e amostragem da terra As amostras do solo foram recolhidas após limpeza de ervas, pedras e detritos vegetais e através de abertura de covas. Foram recolhidas e misturadas diversas amostras retiradas de toda a superfície dos taludes a estudar. Análises de solo Os dados obtidos estão descritos no Quadro 3.14. Quadro 3.14 - Resultados da análise do solo dos taludes onde foram instalados os ensaios (Laboratório Rebelo da Silva) Parâmetro Classificação textural Argila (%) Limo (%) Areia (%) pH (H2O) Matéria Orgânica (%) Magnésio (ppm) Potássio (ppm) Fósforo (ppm) Talude S/N Franco-Arenoso 13,3 7,9 78,8 5,7 (pouco ácido) 0,24 (muito baixo) >125 (muito alto) 49 (médio) 8 (muito baixo) Talude N/S Areno-Franco 9,6 3,8 86,6 8,5 (pouco alcalino) 0,24 (média) >125 (muito alto) 98 (alto) >200 (muito alto) 3.7.2. Mobilização do solo Três dias antes da Hidrossementeira efectuou-se a mobilização do solo recorrendo ao uso de uma retroescavadora (Fig. 3.10). A mobilização da camada superficial (5-10cm de solo) permitiu o reperfilamento do talude sendo, desta forma, eliminadas as ravinas já existentes e preparada a cama para as sementes. 76 Cap. 4 – Resultados e Discussão Fig. 3.10 – Trabalhos de mobilização do solo com uma retroescavadora 3.7.3 Construção e colocação das caixas e recipientes próprios para a recolha de água e sedimentos O método escolhido para determinar as perdas de solo foi adaptado de Gerlach (1966). Consiste na utilização de caixas simples de metal (Fig. 3.11 e 3.12), com 1m de comprimento por 0,15 m de largura e com 7 aberturas no fundo, de forma a permitir o escoamento da água. A caixa deve ser bem fixada ao talude e ficar completamente nivelada, possibilitando assim a saída uniforme da água por todos os orifícios. Na abertura posicionada a meio da caixa coloca-se uma mangueira que fica ligada a um recipiente com capacidade para 65L localizado na base do talude, e que se destina a recolher a água do escoamento. Como medida de segurança, colocou-se outro recipiente de 25L, igado através de uma mangueira ao bidon de 65L, de modo a receber a água excedente. Em cada talhão foi instalada uma caixa de recolha de sedimentos (Fig. 3.13). Fig. 3.11 - Modelo do método de recolha de sedimentos simplificado de Gerlach (Morgan 1986) 77 Fig. 3.12 - Modelo da caixa usada no ensaio Caixas de metal Bidon 65ltrs Bidon 25ltrs Fig. 3.13 - Instalação de caixas nos taludes ao pK 50+850 3.8 HIDROSSEMENTEIRA Efectuou-se esta operação no dia 14 de Dezembro de 2004 (Fig. 3.14). Para tal recorreu-se a um hidrossemeador Finn com um depósito de 1000L. As misturas para cada talhão apresentaram a seguinte constituição: Modalidade A - água - fibras de madeira com fixador (mulch 1) -150g/m2 - bioestimulante de origem natural – 500ml/1000L - adubo de libertação lenta (22-27-7) - 35 g/m2 - mistura de sementes pioneiras (mistura C) -35 g/m2 - mistura de sementes arbustivas (mistura A) - 2,5 g/m2 78 Cap. 4 – Resultados e Discussão Modalidade B -composto de resíduos verdes (mulch 3) - camada de 5 cm - água - bioestimulante de origem natural – 500ml/1000L - adubo de libertação lenta (22-27-7) - 35 g/m2 - mistura de sementes pioneiras (mistura C) -35 g/m2 - mistura de sementes arbustivas (mistura B) - 2,1 g/m2 Modalidade C - água - fibras de madeira + fixador (mulch 1) - 150g/m2 - bioestimulante de origem natural – 500ml/1000L - adubo de libertação lenta (22-27-7) - 35 g/m2 - mistura de sementes pioneiras (mistura C) -35 g/m2 - mistura de sementes arbustivas (mistura B) - 2,1 g/m2 Modalidade D - água - BFM - (Bonded Fibre Matrix) (mulch 2) - 300g/m2 - bioestimulante de origem natural – 500ml/1000L - adubo de libertação lenta (22-27-7) - 35 g/m2 - mistura de sementes pioneiras (mistura C) - 35 g/m2 - mistura de sementes arbustivas (mistura B) - 2,1 g/m2 Modalidade N Não se efectuou a hidrossementeira, ficando o solo a descoberto. Quadro 3.15 - Quadro resumo das modalidades usadas no ensaio Modalidade Mobilização do solo Fibras de madeira + fixador Bioestimulante Adubo Sementes pioneiras (mistura C) Sementes arbustivas (mistura B) Sementes arbustivas (mistura A) Composto BFM A X X X X X B X X X X X C X X X X X X D X N X X X X X X X X Na modalidade B, dada a grande dimensão das partículas que constituem o composto, não foi viável a aplicação, juntamente com a restante mistura, através do hidrossemeador. O composto foi por isso espalhado manualmente e posteriormente realizou-se uma hidrossementeira só com sementes, adubo e bioestimulante. 79 Fig. 3.14 - Hidrossementeira nos taludes, realizada durante a instalação do ensaio Fig. 3.15 - Fotografia do ensaio ao pK 59+400 3.9 RECOLHA DE DADOS Foram realizadas visitas periódicas ao ensaio, para recolha da água escoada e depositada nos reservatórios e dos sedimentos armazenados nas caixas. A periodicidade das recolhas variou com a precipitação que ocorreu durante o período do ensaio. Houve a preocupação constante de manter os recipientes de recolha nivelados e sem obstáculos que pudessem impedir a saída normal da água através dos seus orifícios. O ensaio iniciou-se em Setembro de 2004 e as últimas recolhas que serviram de base para este trabalho foram efectuadas em Março de 2006. 3.9.1 Medição das perdas de solo Todos os sedimentos existentes nas caixas foram recolhidos e secos em estufa e posteriormente pesados. Para quantificar os sedimentos depositados no recipiente de recolha da água, que foram arrastados pelo movimento desta ao longo do talude, retirou-se uma amostra de água de 1,5 L, secou-se o solo e, mediante o conhecimento do volume de água existente no bidão, efectuaram-se os cálculos necessários, tendo também em consideração as 7 repartições da caixa de recolha. 80 Cap. 4 – Resultados e Discussão 3.9.2 Medição da quantidade de água escoada (“run-off”) A quantidade de água escoada existente no bidão foi quantificada e posteriormente, calculou-se o volume total de água escoada por talhão tendo em conta as 7 repartições da caixa. 3.9.3 Vegetação Nesta fase do trabalho, a caracterização da vegetação foi efectuada com base na percentagem de cobertura vegetal desenvolvida nos diferentes talhões, considerando em cada um deles 3 zonas distintas (superior, média e inferior) e a média respectiva. Na data em que foi realizada a última observação dos talhões, a qualidade de arbustos germinados não foi considerada significativa, pelo que não apresentaremos nesta fase a discussão sobre a dominância de arbustos, nem a comparação das características geométricas das raízes e densidade radical. 3.10 TRATAMENTO ESTATÍSTICO DOS DADOS O tratamento estatístico foi realizado recorrendo à ANOVA e ao teste de Duncan. 81 82 Cap. 4 – Resultados e Discussão 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os dados analisados correspondem a um período de observação compreendido entre Dezembro de 2004 e Março de 2006. Todos os dados monitorizados, no decorrer do ensaio, estão directa ou indirectamente dependentes das condições climatéricas a que o talude se encontra sujeito. No período de germinação e instalação do ensaio (Dez. 2004 - Abr. 2005) registaram-se condições meteorológicas anormais para a época, com precipitações escassas e pouco intensas, consideradas de seca extrema (Quadro 4.1). Quadro 4.1- Valores de precipitação total (mm) registados na Estação de Dois Portos entre Fevereiro de 2005 e Março de 2006 (Instituto de Meteorologia) Totais Nº Dias Totais Nº Dias Fev. 12,2 21 Set. 16,1 30 Mar. 45,3 30 Out. 96,6 29 Abr. 20,3 28 Nov. 36,5 20 Mai. 17,8 29 Dez. 20,0 17 Jun. 0,8 28 Jan. 31 17 Jul. 5,0 31 Fev. 42,7 17 Ago. 0,5 31 Mar. 45,1 14 Estas condições climatéricas influenciaram negativamente os resultados do ensaio, nomeadamente a taxa de germinação, taxa de crescimento das espécies vegetais e os valores de escoamento superficial e consequentemente do material erodido. Contudo, a falta de precipitação verificada nesse período, embora prejudicial para testar a capacidade dos “mulchs” no controlo da erosão, através da sua protecção superficial contra o impacto das gotas de água provenientes da precipitação e da redução da velocidade de escoamento superficial, permitiu testar as suas potencialidades para criarem microclimas propícios à germinação das sementes e desenvolvimento das plantas, uma vez que estes ao provocarem uma redução na evapotranspiração, aumentam a humidade disponível, aspecto particularmente importante em anos secos. Sendo o objectivo do ensaio comparar o desempenho de diferentes “mulchs” aplicados de modo semelhante, através da hidrossementeira, e comparar o desenvolvimento de duas misturas de sementes com arbustos diferentes, deve salientar-se que, apesar de algumas tentativas para aplicar o “mulch” (composto) com o hidrossemeador, teve que se recorrer a uma aplicação manual, uma vez que o tamanho e a densidade das partículas do composto bloqueavam a sua passagem através do bico do hidrossemeador. No segundo período de germinação Outono/Inverno (Setembro 2005-Março 2006) as condições climatéricas foram consideradas normais para a época e favoráveis para o aumento do revestimento vegetal dos taludes. Em Março de 2006 eram já visíveis alguns arbustos, numa fase muito inicial do seu desenvolvimento, de difícil quantificação, pelo que considerámos como não vantajosa a descriminação do grau de cobertura nesta fase. 83 4.1 QUANTIFICAÇÃO DAS PEDRAS DE SOLO Para efectuar a quantificação e predição da erosão recorreu-se ao método directo de recolha de material erodido em campos experimentais (ver ponto 2.1.3.1.1). Este método é o mais recomendado e acessível para estudar o efeito global das características da cobertura vegetal, das práticas culturais e, especialmente, das práticas conservacionistas (Schaefer et al., 2002). Para a recolha do escoamento superficial e do material erodido optou-se por uma adaptação do método de Gerlach (Morgan, 1986). A recolha dos sedimentos foi efectuada periodicamente ao longo do ensaio e englobou: • o solo que se armazenou na caixa de metal. Este foi pesado após secagem (Fig.4.2); • o solo que foi arrastado pela água proveniente do escoamento superficial e se depositou no bidon. Neste caso foi necessário recolher uma amostra, provocar a evaporação da água, posteriormente secar e quantificar as partículas de solo. Para a análise estatística dos resultados obtidos no ensaio, recorreu-se ao programa de computador STATISTICA/ANOVA, e realizou-se o teste LSD (ou DMS - Diferença Mínima Significativa) de comparação de médias. Caixas Os valores das recolhas podem ser observados no quadro que se segue. Quadro 4.2- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas erodidas recolhidas nas caixas durante o ensaio (g/talhão) MODALIDADES TALUDE S/N M ÉDIA DP TALUDE N/S R ÁC IO M ÉDIA DP R ÁC IO N 3.860 2.978 1,00 2.230 1.810 1,00 A 970 591 0,25 500 320 0,22 B 1.637 1.841 0,42 384 280 0,17 C 1.217 439 0,32 640 354 0,29 D 1.390 855 0,36 346 304 0,16 Nota: O rácio estabelece a relação das perdas de solo das várias modalidades com o nu. Com base nos valores obtidos para o desvio padrão verifica-se a ocorrência de uma grande variação dentro das três repetições correspondentes à mesma modalidade. A análise estatística (aplicação do método de Duncan) demonstra que as diferenças de perda de solo entre as modalidades não foram significativas (Quadro 4.4). Observa-se que todos os “mulch” aplicados no ensaio contribuíram para diminuir as perdas de solo em valores absolutos. No talude S/N os valores de perdas de solo foram superiores aos do talude N/S. No primeiro a modalidade A (fibras de madeira) registou menos 75% de perdas que o nu, sendo das quatro modalidades estudadas a que apresentou melhores resultados. A modalidade B 84 Cap. 4 – Resultados e Discussão (composto) foi a que demonstrou menos eficácia no controlo da erosão com valores 58% inferiores ao nu. Este aspecto deve-se fundamentalmente às características do “mulch” (composto) usado, pois as partículas que o constituem são muito leves e pouco coesas destacando-se facilmente sendo arrastadas pela água com facilidade e acumulando-se na caixa de recolha. No talude N/S foi a modalidade D (BFM) que apresentou melhores resultados Nesta as perdas de solo foram inferiores a quase um terço das registadas na modalidade N (Nú). No entanto, apesar do BFM ser uma técnica eficaz para controlo da erosão é muito desvantajosa economicamente, com custos quase 3 vezes superiores ao das outras modalidades (Quadro 3.13). A modalidade C, com valores 71% inferiores ao nu, foi a que apresentou piores resultados, no entanto apresentou um comportamento semelhante em termos percentuais nos dois taludes. Bidons Quadro 4.3- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons durante o ensaio (g/talhão) MODALIDADES TALUDE S/N MÉDIA DP TALUDE N/S RÁCIO MÉDIA DP RÁCIO N 994 873 1,00 338 321 1,00 A 141 116 0,14 174 207 0,51 B 500 234 0,50 90 22 0,27 C 538 703 0,54 140 107 0,42 D 215 36 0,22 62 37 Nota: O rácio estabelece a relação das perdas de solo das várias modalidades com o nu. 0,18 Comparando os resultados obtidos da quantificação das partículas em suspensão na água escoada com os das partículas erodidas recolhidas nas caixas, verifica-se que os primeiros representam cerca de 1/5 do total. Segundo análises granulométricas realizadas, descritas no quadro 4.5 as partículas de solo existentes na água, correspondem sobretudo a argilas, no caso da modalidade B correspondem também a matéria orgânica proveniente da aplicação do composto. As argilas, embora existam em pequena quantidade, desempenham um papel importante na estabilização dos taludes. A argila é, em geral, da fracção mineral, a parte responsável pela retenção de elementos nutritivos e pela agregação de solos. Dela depende essencialmente a consistência do solo e por isso estes valores são fundamentais numa avaliação global (Costa,1995). 85 Pe rdas Terra N 4000 3500 3000 2500 N 2000 B D 1500 C N A 1000 C A B D C B 500 N D A A C B D 0 Bidon Ca ixa Bidon Ca ixa Gráfico 4.1- Valores médios de partículas erodidas recolhidas nas caixas e nos bidons durante o ensaio (g/talhão) As análises químicas e texturais efectuadas à composição do solo, recolhido na modalidade B, confirmam a presença de uma elevada percentagem de matéria orgânica (Quadro 4.4). Quadro 4.4 - Resultados da análise textural das partículas recolhidas nas caixas e nos bidões utilizando 3 tipos de amostra resultantes de misturas de material (i) Material das caixas dos talhões da modalidade B(Composto) (ii) Material das caixas dos restantes talhões (iii) Partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons de todas as modalidades durante o ensaio (Laboratório Rebelo da Silva) CAIXAS CAIXAS RESTANTES MODALIDADE B MODALIDADES. Franco-Arenoso Franco-Argilo-Arenoso Argilo-Arenoso Argila (%) 19,2 28,2 54,2 Limo (%) 11,9 12,9 31,9 Areia (%) 68,9 58,9 13,9 4,9 (Alto) 0,8 (Baixo) 4,5 (Alto) PARÂMETRO Classificação textural Matéria Orgânica (%) BIDÕES Apesar de não haver diferenças significativas entre modalidade, como se pode observar no quadro 4.5, podemos fazer algumas observações em relação aos valores obtidos. Quadro 4.5- Análise estatística de perdas de solo (teste de Duncan) MODALIDADES TALUDE S/N TALUDE N/S B IDON C AIXA B IDON C AIXA N 994a 3860a 338a 2230a A 141a 970a 174a 500a B 500a 1637a 90a 384a C 538a 1217a 140a 640a D 215a 1390a 62a 346a Nota: As médias seguidas pela mesma letra ao longo de cada coluna não diferem significativamente a p≤ 0,05 86 Cap. 4 – Resultados e Discussão No talude N/S foi a modalidade D (BFM) que apresentou melhores resultados. Nesta as perdas de solo foram inferiores em mais de um terço às registadas na modalidade N (Nu). No talude S/N a modalidade A aparece com o melhor resultado, valores quase 90% inferiores de partículas em suspensão na água escoada e a modalidade C é a que apresenta piores resultados (valores 40% abaixo do nu). 4.2 QUANTIFICAÇÃO DA ÁGUA ESCOADA A água que cai no talhão proveniente da precipitação pode ter dois potenciais destinos: escoar pelo talude, podendo originar zonas privilegiadas de escoamento, levando à erosão laminar e à posterior formação de sulcos superficiais, ou infiltrar-se no solo. Neste estudo, considerou-se que a precipitação escoada na superfície do solo, é quantificada como “run off” (quadro 4.6). Quadro 4.6 - Média, desvio padrão e rácio comparativo do valor de água total escoado durante o ensaio (l) MODALIDADES TALUDE S/N MÉDIA DP N 13,46 A TALUDE N/S RÁCIO MÉDIA DP RÁCIO 7,09 1,00 11,41 3,64 1,00 20,01 10,55 1,49 11,28 2,65 0,99 B 14,97 1,84 1,11 13,17 1,59 1,15 C 43,66 23,17 3,24 12,87 2,53 1,13 D 25,92 14,56 1,93 9,52 0,89 0,83 A colocação de “mulch” nos taludes possibilita o aumento da infiltração da água proveniente da precipitação e diminui o escoamento. Contudo, neste ensaio os valores registados não sustentam esta hipótese. Nas modalidades Nu, verificou-se o aparecimento de ravinas que provocou a canalização da água para as laterais do talhão. Apesar dos talhões estarem afastados 50cm, a inexistência de separadores laterais permitiu a passagem de água através dos sulcos duns talhões para os outros, influenciando deste modo os resultados obtidos. No talude S/N, a modalidade A apresentou valores mais elevados de escoamento do que a modalidade N enquanto no talude N/S apenas na modalidade D, se obteve menores quantidades (Quadro 4.6). Os graus de cobertura observados para cada uma das modalidades vem corroborar com os valores do “Run off”. Nas modalidades em que se verificam maiores graus de cobertura, registam-se menores valores de “Run off” com excepção da modalidade A pelo motivo já descrito 87 Run off 50,00 C 45,00 40,00 l/talhão 35,00 30,00 D 25,00 20,00 15,00 A N B N A B 10,00 C D 5,00 0,00 Sul/Norte Norte/Sul Gráfico 4.2-Valores médios de água escoada e recolhida nos bidons (l/talhão) 4.3 VEGETAÇÃO Observando o Quadro 4.7 e o Gráfico 4.3 verifica-se que em todas as modalidades houve um grau de cobertura superior a 25%. Na última monitorização realizada em Março 2006 verificou-se uma evolução no coberto vegetal com a germinação de algumas espécies arbustivas como Ulex sp, Cistus albidus, acompanhadas por uma importante proliferação de Trifolium sp, nos locais onde se observa maior acumulação de matéria orgânica e humidade, e de Dittrichia viscosa, que apareceu de forma bastante uniforme no talude N/S (60 exemplares), mas também no talude S/N (14 exemplares). Destas quatro espécies referidas, apenas o Cistus albidus faz parte da composição inicial de uma das misturas de sementes - a mistura B – que foi colocada nos talhões com as modalidades B, C e D. Portanto as espécies referidas surgiram nos ensaios por disseminação a partir da vegetação circundante e fazem parte da flora natural da região, que se enquadra no Subsector Fitogeográfico Oeste-Estremenho Os talhões de nus– sobre os quais não foi aplicada nenhuma mistura de sementes ou mulch, tendo apenas sofrido mobilização - sofreram um processo de ravinamento bastante significativo como se pode constatar pela figura 4.1. 88 Cap. 4 – Resultados e Discussão Fig. 4.1 - Talhão nu erosionado no talude S/N Os talhões onde foi aplicado composto têm uma cobertura vegetal menos uniforme, provavelmente devido ao erosionamento das próprias partículas do composto com arrastamento das sementes da mistura. Apesar do ravinamento das partículas de composto, esta modalidade é a que apresenta maior diversidade de espécies com predominância de compostas. Esta situação é mais favorável à fixação do solo devido à coexistência de diferentes tipos de raízes que atingem diferentes profundidades. No que diz respeito ao grau de cobertura vegetal dos dois taludes observou-se, durante o período do ensaio, uma inversão dos valores. Enquanto que no Verão seco de 2005 era o talude da via Sul/Norte (mais exposto aos ventos e humidade do mar) que apresentava um maior grau de cobertura, em Março de 2006, após uma época de chuvas mais ou menos contínuas com reflexos evidentes no erosionamento preferencial do talude da via Sul/Norte, observámos que foi o talude da via Norte/Sul (com uma exposição a nascente e por consequência mais seco e quente o que reflectiu menor erosionamento) e apresenta um grau de cobertura mais elevado. Desta forma, se concluiu que o desenvolvimento da vegetação variou, anualmente, de acordo com a exposição e as condições climatéricas observadas. Nos anos de maior precipitação, a cobertura dos taludes com uma orientação Sul, Sudeste ou Este esteve favorecida, devido ao menor grau de humidade, uma exposição solar mais intensa, que promoveu a produção de biomassa, e uma menor exposição à acção erosiva das gotas de chuva. Nos anos de maior secura, foram os taludes com exposição Norte, Noroeste ou Oeste, mais sujeitos aos ventos húmidos vindos do mar, que apresentaram um maior grau de cobertura, apesar do efeito mais erosivo da chuva que se fez sentir, sobretudo no primeiro ano. Nota-se, que existe alguma tendência para uma cobertura mais densa na parte média e inferior (quadro 4.7) em todas as modalidades e em ambos os taludes. Estas diferenças têm provavelmente origem no rolamento e/ou arrastamento das sementes ao longo do talude. 89 Quadro 4.7- Percentagem de cobertura e análise estatística (teste de Duncan) TALUDE N/S MODALIDADES TALUDE S/N SUPERIOR MÉDIO INFERIOR GERAL SUPERIOR MÉDIO INFERIOR N 10% a 32%a 50%a 31%a 3%a 3%a 3%a GERAL 3%a A 60%b 37%a 74%a 57%a 80%c 80%c 77%c 79%c B 87%c 87%b 87%a 87%c 30%b 27%b 30%b 29%b C 73%bc 57%ab 87%a 72%bc 30%b 30%b 30%b 30%b D 87%c 73%b 87%a 82%c 40%b 37%b 33%b 37%b Da análise estatística conclui-se que há diferenças significativas de cobertura vegetal entre todas as modalidades e o nu, muito embora estas diferenças não se reflitam nas perdas de solo verificadas (Quadro 4.7). As diferenças entre os taludes das vias S/N e N/S são visíveis e observa-se que no geral, há uma maior cobertura no talude da via N/S que no da via S/N, sendo nas modalidades N e A onde a diferença é mais visível. Na modalidade C também se regista uma diferença acentuada. Na modalidade D, observa-se uma inversão dos valores gerais, sendo maior a cobertura no talude da via N/S em relação ao da via S/N. Se tivermos em atenção o período temporal em questão (Dez 2005Mai 2006), podemos dizer que a exposição poente do talude S/N foi favorável à germinação por ser naturalmente mais quente. A presença de mais argila no talude S/N também justifica estas diferenças principalmente se tivermos em conta as condições climatéricas adversas que ocorreram neste período (Quadro 4.1). Percentagem de Cobertura 100,00 N/S 90,00 N/S S/N 80,00 N/S 70,00 N/S % 60,00 50,00 S/N 40,00 N/S S/N S/N 30,00 20,00 10,00 S/N 0,00 N A B C D Modalidades Gráfico 4.3- Percentagem de cobertura em ambos os talhões. A diferença textural dos solos nos dois taludes não é muito marcada (Quadro 3.14). No entanto, o talude da via N/S encontrava-se mais estabilizado que o da via S/N o que justifica, de certa forma, os resultados de perdas de solo referidos nos Quadros 4.2 e 4.3. Estatisticamente verifica-se que no talude da via S/N todas as modalidades diferem do nu e entre elas à excepção da modalidade B (Quadro 4.8). No talude da via N/S todas as modalidades diferem do nu mas não se registam diferenças significativas entre elas. 90 Cap. 4 – Resultados e Discussão N(1) A(2) A(1) C(2) B(1) C(1) D(1) D(2) B(2) N(2) D(3) B(3) N(3) A(3) C (3) Fig. 4.2- Cobertura vegetal do talude da via (S/N) nas várias modalidades 91 N(1) A(2) A(1) C(2) B(1) C(1) D(1) D(2) B(2) N(2) D(3) B(3) N(3) A(3) B(3) Fig. 4.3 - Cobertura vegetal do talude da via (N/S) nas várias modalidades 92 Cap. 4 – Resultados e Discussão Dez 2004 Sementeira Jun 2005 1ª Avaliação Resultados 1 ano e 3 meses Dez 2005 Out Dez 2006 2006 Mar 2006 2ª Avaliação Resultados Mar 2007 Observação Ensaio 12 meses sem observações e colheitas 3 colheitas de sedimentos e água (23-2-2005 / 11-5-2005 / 7-3-2006) 1 colheita de água (1-4-2005) 2 observações do revestimento vegetal (5-11-2005 / 7-3-2006) As visitas realizadas ao ensaio em Março e .Outubro. de 2006 permitiram fazer observações importantes, sobretudo, relacionadas com o grau de revestimento, tipo de revestimento, evolução do solo e erodibilidade registada. 1. Talhões S/N O revestimento vegetal dos taludes evidencia uma clara melhoria com importante acréscimo do seu grau de cobertura, sendo que das quatro modalidades ensaiadas, a B é a que apresenta melhor e mais uniforme comportamento seguido da A. A modalidade B suplanta a A em cerca de 40% quanto ao coberto vegetal. Entre as espécies herbáceas presentes, destacam-se os Trifolium repens “Huia” (trevo branco) e Trifolium pratensis “Lucrum” (trevo violeta), pelo elevado grau de germinação e adaptação. Não se observam, diferenças significativas relativamente às misturas de plantas arbustivas utilizadas – misturas A e B – porque se está apenas no segundo ano do ensaio e porque o ano de instalação foi muito seco, o que não facilitou o desenvolvimento dessas espécies. Apesar das circunstâncias climáticas adversas ainda se podem observar diversas plantas arbustivas das quais se destacam o Cytisus multiflorus (L’Hér) Sweet (giesta branca), o ononis natrix (joina dos matos), a Erica scoparia (urze das vassouras) e a Lavandula luisieri (rosmaninho), pertencentes às misturas A e B e encontrando-se diversos exemplares nos talhões de ensaio. As observações recolhidas podem ser evidenciadas através das fotografias dos talhões e dos gráficos que ajudam a interpretar as condições actuais do ensaio neste talude e as respostas em cada modalidade. 93 Figura 4.4 - Cobertura vegetal do talude na via S/N Revestimento (0-10) 10 8 6 grau de cobertura S/N 4 2 0 N1 A1 B1 C1 D1 A2 C2 D2 B2 N2 D3 B3 N3 A3 C3 Talhões Gráfico 4.4 - Grau de revestimento no talude da via S/N O talude S/N na área do ensaio encontra-se mais estabilizado e estruturado que na data da instalação, em 2004, e apresenta já uma camada de solo de cerca de 5cm de espessura com alguma matéria orgânica, sobretudo, nos talhões das modalidades B e A, o que permite já a existência de fauna característica, como evidenciam as diversas galerias de toupeira existentes. Quanto à erosão verificada nos primeiros dois anos do ensaio, é bem evidente o efeito positivo do revestimento vegetal e da cobertura do solo (mulch), em todas as quatro modalidades mas, sobretudo, nas B e A já referidas e mais ainda se compararmos os talhões dessas mesmas 94 Cap. 4 – Resultados e Discussão modalidades com o talhão testemunha (N) ou com o ravinamento existente no talude que não foi objecto de intervenção. O talhão testemunha (N) evidencia, de facto, os efeitos da erosão sofrida, sobretudo, a hídrica e que originou sulcos com cerca de 15 a 30cm de profundidade e apreciáveis arrastamentos de sedimentos, nomeadamente, limo, argila, areias e algum calhau rolado. A erosão neste talhão pode estimar-se em cerca de 80% superior (em média) à das quatro modalidades ensaiadas. Os sulcos provocados deixaram mais à vista as argilas ou margas vermelhas e cinzentas, que são parte importante do talude, com textura franco-arenosa. Todos estes efeitos são perfeitamente visíveis nos talhões do ensaio e também nas fotografias dos mesmos (Figura nº 4.4). Devido a actos de vandalismo imprevisíveis não é possível quantificar as perdas de solo e a quantidade de água escoada, porque cerca de 50% dos bidons de 65L foram destruídos ou deslocados da sua posição. 2. Talhões N/S O revestimento vegetal do ensaio na vertente N/S mostra também que as modalidades B e A são as que proporcionam melhor desenvolvimento e fixação nos talhões, embora aqui apareça a modalidade C também com um bom desenvolvimento, praticamente equivalente à A. A vegetação que cobre a área do ensaio neste talude tem uma composição diferente da que encontra no S/N, prevalecendo aqui o Lolium sp. (azevém), como herbácea, com maior povoamento e a Cytisus multiflorus (L’Hér) Sweet (giesta branca), como arbustiva, com mais presença. Pode dizer-se que o Lolium sp. (azevém) cobre cerca de 70 a 80% dos talhões das quatro modalidades, enquanto que os trevos foram mais arrastados para o terço inferior dos talhões e sobretudo para fora do ensaio. Este facto deve-se, certamente, às características do talude, bastante mais consolidado e estabilizado que a S/N o que origina maior escoamento de água e menor percentagem de matéria orgânica retida. O sombreamento mais acentuado neste talude contribui também para um menor crescimento das espécies presentes e justifica as características do seu povoamento. A não observação de diferenças significativas quanto às espécies arbustivas das misturas A e B deve-se, certamente, também ao facto de estarmos apenas no 2º ano do ensaio, de o ano de instalação ter sido muito seco e de o talude ser bastante consolidado com fraca retenção de água. As observações recolhidas podem também ser visíveis através das fotografias do talude e dos talhões implantados e ainda nos gráficos relativos às respostas ao revestimento em cada modalidade. 95 Figura 4.5 - Cobertura vegetal do talude na via N/S Revestimento (0-10) 10 8 6 grau de cobertura N/S 4 2 0 N1 A1 B1 C1 D1 A2 C2 D2 B2 N2 D3 B3 N3 A3 C3 Talhões Gráfico 4.5 - Grau de revestimento no talude da via N/S É bem visível o efeito positivo dos tratamentos das modalidades A, B, C e D na defesa contra a erosão, quando comparado com o talhão testemunha (N) e mais ainda com o talude original a nascente e a poente. Apesar disso, o grau de erosão não é tão elevado como a S/N, devido, sobretudo, ao facto do talude a N/S estar mais estabilizado, sob a forma de um arenito argiloso consolidado (Figura nº 4.5). 96 Cap. 4 – Resultados e Discussão Revestimento Os actos de destruição sobre o material de recolha de água de escoamento repetiram-se neste talude, inviabilizando igualmente as colheitas para determinação das perdas de solo e da quantidade de água escoada. 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 grau de cobertura S/N grau de cobertura N/S N1 A1 B1 C1 D1 A2 C2 D2 B2 N2 D3 B3 N3 A3 C3 Talhões Gráfico 4.6 - Grau de revestimento S/N versus N/S 97 98 Cap. 5 - Conclusões 5 - CONCLUSÕES Todos os anos grandes quantidades de solo são erodidos em taludes de auto-estradas, principalmente nas auto-estradas em construção. Este tipo de erosão é de difícil controlo devido à grande extensão de solo perturbado e à dificuldade em controlar o escorrimento de água. As taxas de erosão nestas zonas são tipicamente 10 a 20 vezes superiores às verificadas em regiões agrícolas. A erosão nos taludes das auto-estradas acarreta grandes despesas (escavações, reposição de solo, consolidação de taludes, etc.) e impactes ambientais negativos como a remoção de importantes constituintes do solo (Muste et al.). Consequentemente, a prevenção da erosão é, cada vez mais, um factor decisivo no planeamento, construção e manutenção de auto-estradas. O controlo da erosão em taludes requer muitas vezes o uso de estruturas de engenharia. No entanto estas medidas estruturais envolvem grandes investimentos e um alto grau de tecnologia, daí que o uso racional de revestimentos vegetativos, mesmo que combinado, se necessário, com essas soluções de engenharia, é sempre a melhor opção a tomar quando nos defrontamos com o problema da erosão em taludes. Os benefícios estéticos acrescentados, devido ao uso de coberturas vegetais, continuam a ganhar popularidade, uma vez que provam ser funcionais e uma alternativa economicamente vantajosa em relação às outras formas de controlo de erosão Quando se tem que resolver um problema de erosão é essencial saber quais as opções que existem disponíveis no mercado. Existe uma diversidade de materiais e técnicas que solucionam quase todos os problemas de erosão (ver ponto 2.3). No entanto, decidir quais os correctos, é uma tarefa complicada. A chave para uma selecção correcta é definir os problemas encontrados, o tipo de erosão prevalente e caracterizar a zona em estudo. Na procura da solução mais eficiente para o problema em estudo recorremos à aplicação do sistema de apoio à decisão (ver ponto2.5). A combinação dos factores: declive; comprimento do talude; e constituição do solo apontam a hidrossementeira como a técnica de bioengenharia a utilizar e permitem determinar um risco potencial de erosão baixo. Por a hidrossementeira ser uma técnica que permite a utilização/combinação de vários tipos de materiais e o objectivo deste estudo ser encontrar uma resposta especializada procedeu-se à comparação entre BFM, composto orgânico e hidrossementeira clássica. Sendo o BFM a técnica economicamente mais desvantajosa, pretendia-se obter resultados idênticos aos publicados (Erosion Control and Highway planting) em que se verifica que a utilização de BFM conduz a uma redução do nível de sedimentos provenientes do erosionamento do solo na ordem dos 95% quando comparado com o solo nu, diminuindo, por sua vez, o “runoff” em cerca de 30%. Apesar da análise estatística realizada com os valores obtidos no nosso ensaio demonstrar que não existem diferenças significativas de perdas de solo e de “run off” entre as modalidades e o nu, se tivermos em conta que no estudo referido, apenas se faz uma análise em termos percentuais. podemos dizer que no nosso ensaio se obtiveram reduções nas perdas de solo compreendidas entre os 64-85%, valores estes que se aproximam dos pretendidos. Os valores de “run off” ficaram aquém das expectativas em ambos os taludes. Este facto deve-se essencialmente à existência de sulcos no Nu que canalizaram a água para os talhões anexos . 99 Para que o BFM possa mostrar uma das suas potencialidades, isto é, a diminuição do impacto da gota de água no solo e consequentemente a diminuição do destacamento das partículas torna-se necessário que se verifiquem períodos de precipitação intensa, facto que não se registou no período de observação em causa. No entanto a sua capacidade de retenção de humidade à superfície manifestou-se por um elevado grau de cobertura. O composto actua principalmente a nível da retenção da humidade permitindo o aumento da taxa de germinação. Estudos realizados nos E.U.A. para a Clean Washington Center indicam resultados muito positivos obtidos com recurso à técnica de hidrossementeira, nomeadamente à utilização de produtos compostados em que as taxas de germinação são 15 a 30 % superiores, quando comparadas com as fibras de madeiras, mais usadas em hidrossementeira. O talude N/S tem uma boa exposição solar (poente) o que aliado à precipitação que se registou no segundo ano de ensaio permitiu uma boa taxa de germinação alcançando-se os 30% pretendidos. No S/N onde se verifica um maior ensombramento obtivemos uma taxa de germinação muito mais baixa. Também o Departamento de Protecção Ambiental de Connecticut colaborou dois anos no projecto de investigação “Using compost to Control Erosion” que demonstrou que a utilização de composto é eficaz no controlo de erosão (s/a, 2000ª). No entanto, não deve ser descurado o facto de, nestes estudos se ter recorrido à utilização de sopradores pneumáticos próprios para o efeito, que permitiram acrescentar colas a este “mulch”, tornando-o muito mais eficaz. Assim sendo, acreditamos que recorrendo à sua utilização haja uma alteração dos valores registados a favor deste mulch que é do ponto de vista económico e ambiental muito vantajoso. Ao longo do período de observações do ensaio houve uma distribuição irregular de precipitação que influenciou em grande medida os resultados porque o processo de erosão hídrica só se inicia quando as gotas de água atingem o solo desprotegido destacando as partículas e fraccionando agregados originado a erosão por salpicos. De acordo com os dados do quadro 4.1 observa-se que no decorrer do primeiro ano do ensaio, a fraca precipitação não permitiu a ocorrência deste primeiro estado de erosão, logo os resultados que obtivemos reportam essencialmente ao segundo ano de ensaio. onde se registou um período de chuvas intensas que foi muito favorável ao erosionamento uma vez que o solo se apresentava ainda muito desprotegido. O talude N/S registou menos perdas de solo que o talude S/N. A textura do primeiro é areno-franco e os solos com uma constituição maioritariamente arenosa possuem grandes espaços porosos, durante uma chuvada pouco intensa absorvem a água que recebem sem originar grande escoamento superficial e portanto sem sofrer uma erosão muito intensa. Por outro lado o talude S/N apresenta uma textura franco-arenosa contendo maior proporção de partículas argilosas, que actuam ligando e mantendo unidas as partículas mais grosseiras, ao fluir qualquer corrente de água sobre a sua superfície arrasta grandes quantidades de solo. Esta característica destes solos também diminui a capacidade de retenção da água; Sendo os solos em estudo de texturas intermédias são os que se apresentam mais vantajosos por na sua constituição possuírem partículas de diferentes tamanhos e misturadas em tais proporções que minimiza os inconvenientes dos extremos. 100 Cap. 5 - Conclusões A comparação entre os taludes S/N e N/S não pode ser conclusiva na medida em que os materiais originários apresentavam à partida estabilidades estruturais completamente distintas – o talude N/S apresenta-se muito mais consolidado que o S/N. Outro factor com grande influência na erosão hídrica do solo é a vegetação. Toda a planta, desde a mais pequena erva até à árvore mais corpulenta, defende o solo da acção prejudicial das chuvas. Para prevenir a desagregação de partículas do solo, o início da erosão laminar e a formação de sulcos, deve manter-se um grau de cobertura superior a 70% para solos com níveis de erosão baixos e médios. Embora ainda não se tenha verificado o cumprimento deste requisito em todas as modalidades deve aguardar-se mais dois anos que é o tempo esperado para o desenvolvimento e estabilização dos arbustos utilizados no ensaio. A existência de ravinas visíveis (na modalidade N-nu) evidencia níveis de erosão superiores, o que demonstra a necessidade de se proteger o talude, principalmente quando estes são compostos essencialmente de areia e argila, pois sabe-se que uma cobertura protectora bem estabelecida pode reduzir as taxas de erosão na ordem dos 80% (Mc Cullah &Howard, 2000). Apesar da curta duração do ensaio e das diferenças geológicas entre os taludes, pode concluir-se que houve diferenças notórias entre as modalidades, com destaque positivo para as modalidades B e A. De facto, ao fim de dois anos apresentavam um melhor revestimento vegetal e originaram o desenvolvimento de uma nova estrutura do solo, que favorece a implantação e enraizamento das espécies arbustivas. Este estudo permitiu-nos determinar que todos os factores testados neste ensaio são passíveis de optimização e melhorias, principalmente no que se refere às quantidades de “mulch” e sementes usadas e à forma de aplicação do composto, que poderá ser feita recorrendo a sopradores pneumáticos próprios para o efeito. Também a utilização de separadores laterais que individualizem os talhões, não permitindo a passagem de água entre talhões adjacentes, poderá ser uma melhoria importante a implementar num novo ensaio. Apesar das melhorias que podem ser alcançadas com novos estudos demostrou-se que qualquer uma das técnicas de bioengenharia estudadas oferecem tipicamente as seguintes vantagens: • Estabilização imediata do talude e controlo da erosão • Redução dos custos de manutenção • Aumento de habitats de vida selvagem e da diversidade ecológica. • Aumento da qualidade estética e beleza cénica através da revegetação e naturalização do talude (Sotir el al., 1996) De entre todas as técnicas estudadas conclui-se que a modalidade A(fibras de madeira) é a mais vantajosa, já que reduz grandemente as perdas , tal como a modalidade D-BFM, mas apresenta grandes vantagens económicas em relação a esta última . 101 102 Anexos ANEXOS 103 104 Anexos Quadro 1 - Valores de humidade relativa, horas de insolação, precipitação total (mm) e temperatura máxima, média e mínima (ºC) registados na Estação de Dois Portos entre Dezembro de 2004 e Maio de 2005 (Valores fornecidos pelo Instituto l de Meteorologia) Dez Jan Fev. Mar. Abr. Mai. HR9 85 85 76 77 77 73 I * * 167,5 194,5 236,3 290,4 R * * 12,2 45,3 20,3 17,8 T 9,8 11 8.6 12,8 14,4 17,4 Tmax 14,3 15,2 14,6 18,6 19,2 22,7 Tmin 6,1 5,6 3,1 7,3 9,6 12,4 *Valores não foram disponibilizados pelo Instituto de Meteorologia Quadro 2- Dados meteorológicos referentes a um período de 30 anos (1958 a 1988) da estação de Dois Portos Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez 85 84 79 77 76 76 74 75 77 80 82 83 79 - HR9 Média Total I 131,0 131,6 180,8 197,5 252,5 260,8 298,3 301,5 234,4 185,6 144,9 143,2 - 2.462,1 R 98,8 90,5 71,5 58,1 50,7 25,7 5,2 6,3 22,5 75,2 108,3 94,2 - 707,0 T 10,2 10,8 12,2 13,7 15,5 18,2 20,0 20,4 19,9 16,9 13,0 10,5 15,1 - Tmax 14,2 14,9 16,7 18,3 20,2 23,4 25,4 25,9 25,6 22,2 17,7 14,7 - - Tmin 6,7 7,6 9,0 10,5 13,1 14,6 14,8 14,2 11,6 8,3 6,9 - - 6,2 Legenda: HR9 - Valores médios de Humidade Relativa às 9UTC (%) I - Insolação (h) R - Precipitação (mm) T - TEMPERATURA DO AR - Média diária (ºC) Tmax - TEMPERATURA DO AR - Média das máximas (ºC) Tmin - TEMPERATURA DO AR - Média das mínimas (ºC) Vento - Velocidade Média do Vento (km/h) 105 Quadro 3. - Resultados da análise do solo dos taludes onde foram instalados os ensaios (Laboratório Rebelo da Silva) Parâmetro Classificação textural Argila (%) Limo (%) Areia (%) pH (H2O) Matéria Orgânica (%) Magnésio (ppm) Potássio (ppm) Fósforo (ppm) Talude S/N Franco-Arenoso 13,3 7,9 78,8 5,7 (pouco ácido) 0,24 (muito baixo) >125 (muito alto) 49 (médio) 8 (muito baixo) Talude N/S Areno-Franco 9,6 3,8 86,6 8,5 (pouco alcalino) 0,54 (média) >125 (muito alto) 98 (alto) >200 (muito alto) Quadro 4 - Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas erodidas recolhidas nas caixas durante o ensaio (g/talhão) TALUDE S/N M O D A LID A D E S MÉDIA DP N 1.936,67 728,03 A 656,67 B TALUDE N/S RÁCIO MÉDIA DP RÁCIO 1,00 960,00 870,69 1,00 370,72 0,34 130,00 111,36 0,14 1.376,67 1.770,15 0,71 197,00 238,26 0,21 C 746,67 325,63 0,39 300,00 170,00 0,31 D 510,00 209,52 0,26 254,00 290,63 0,26 Quadro 5- Média, desvio padrão e rácio comparativo de partículas em suspensão na água escoada e armazenadas nos bidons durante o ensaio (g/talhão) TALUDE S/N MODALIDADES MÉDIA DP TALUDE N/S RÁCIO* MÉDIA DP RÁCIO N 40,76 32,08 1,00 23,62 38,20 1,00 A 8,55 4,95 0,21 4,49 6,84 0,19 B 48,22 24,83 1,18 4,97 3,46 0,21 C 17,12 19,31 0,42 4,61 2,07 0,20 D 5,96 3,01 0,15 3,80 3,76 0,16 * o rácio estabelece a relação das perdas de solo das várias modalidades com o nú. Quadro 7- Média, desvio padrão e rácio comparativo do valor de água total escoado durante o ensaio (l) TALUDE S/N M O D A LID A D E S MÉDIA DP TALUDE N/S RÁCIO MÉDIA DP RÁCIO N 6,96 4,51 1,00 4,41 1,25 1,00 A 8,18 1,04 1,18 5,28 0,42 1,20 B 6,22 1,84 0,89 6,34 0,85 1,44 C 5,83 2,77 0,84 5,04 0,96 1,14 D 5,84 0,38 0,84 3,69 1,07 0,84 106 Anexos N(1) A(2) D(3) A(1) C(2) B(3) B(1) C(1) D(1) D(2) B(2) N(2) N(3) A(3) B (3) Fig. 1- Cobertura vegetal do talude (S/N) nas várias modalidades 107 N(1) A(2) D(3) A(1) C(2) B(3) B(1) C(1) D(1) D(2) B(2) N(2) N(3) A(3) B(3) Fig. 2 - Cobertura vegetal do talude (N/S) nas várias modalidades 108 Anexos Quadro 8 - Média, desvio padrão e rácio comparativo da cobertura vegetal nas várias modalidades em ambos os taludes: Talude S/N N A B C D Parte Superior Parte Média Média DP Rácio Média DP Rácio 0% 0,01 1 2% 0,03 1,00 38% 0,16 115 70% 0,00 42,00 48% 0,13 145 67% 0,06 40,00 33% 0,15 100 57% 0,12 34,00 43% 0,12 130 67% 0,06 40,00 Parte Inferior Média DP Rácio 5% 1,00 83% 0,13 16,67 63% 0,06 12,67 72% 0,03 14,33 68% 0,08 13,67 Média 2% 64% 59% 54% 59% Geral DP 0,01 0,04 0,03 0,10 0,06 Rácio 1,00 28,75 26,75 24,25 26,75 Parte Inferior Média DP Rácio 15% 0,13 1,00 37% 0,06 2,44 43% 0,15 2,89 63% 0,06 4,22 82% 0,03 5,44 Média 12% 30% 39% 48% 68% Geral DP 0,02 0,03 0,07 0,05 0,13 Rácio 1,00 2,57 3,33 4,10 5,86 Talude N/S N A B C D Parte Superior Média DP Rácio 2% 0,03 1,00 27% 0,06 16,00 30% 0,00 18,00 43% 0,25 26,00 50% 0,20 30,00 Média 18% 27% 43% 37% 73% Parte Média DP Rácio 0,16 1,00 0,06 1,45 0,06 2,36 0,06 2,00 0,15 4,00 Quadro 9 - Preço unitário e por Kg e m2 dos “mulch” estudados. Mulch Peso Unitário Dose de Aplicação €/embalagem1) €/Kg €/m22) Fibra de madeira 22,7 Kg 135 a 300 g/m2 23€ 1,01€ 0,22€ “Bond Fibre Matrix”-BFM 22, 7 Kg 300 a 450 g/m2 64€ 2,82€ 1,06€ Composto 700 Kg3) 1000 g/m2 25€4) 0,036€ 0,036€ 1) Preço de tabela Valor referente apenas ao custo do mulch, não tendo sido considerado o custo da aplicação 3) Foi considerada uma densidade de 0,7 ton/m3 4) Não foi considerado o custo com transporte 2) 109 110 Bibliografia 103