“Amazônia e o direito de comunicar”
17 a 22 de outubro de 2011 - Belém/PA
Pelo direito de comunicar na Amazônia:
Rádio Cabana FM, a voz da resistência popular!1
Phillippe Sendas de Paula FERNANDES2
Sávio Senna Rocha de OLIVEIRA3
Luciana Miranda COSTA4
Universidade Federal do Pará, Belém, Pará
Resumo
A primeira transmissão radiofônica no Pará aconteceu no dia 22 de abril de 1928, com a
inauguração da Rádio Clube do Pará, a quarta a surgir no Brasil. No entanto, na Amazônia,
comunicar não é uma tarefa fácil. Entre vários exemplos, destacamos as dificuldades que as
rádios comunitárias encontram na veiculação de suas programações: agressões, apreensão de
equipamentos, pedidos de outorgas que se arrastam por anos, são alguns exemplos. Este artigo
é resultado da disciplina e surge com a proposta de apresentar e registrar informações sobre a
Rádio Comunitária Cabana, localizada na Região Metropolitana de Belém, no Pará. A
metodologia se estrutura em pesquisa bibliográfica e entrevistas com os adminitradores da
rádio. Além disso, faremos um breve passeio pela história do rádio no Brasil e no Pará.
Palavras-chave: Amazônia, Comunicação, rádio comunitária, Cabana FM.
Introdução
A primeira transmissão radiofônica no Brasil aconteceu em caráter experimental nos
cem anos da Independência. De lá para cá, já se passaram quase 90 anos e muita coisa mudou,
seja no aspecto tecnológico, seja no aspecto do conteúdo. A Rádio Sociedade do Rio de
Janeiro foi a primeira emissora do Brasil, fundada em 1923. Na Região Norte, a Rádio Clube
do Pará inaugurou a sua transmissão no dia 22 de abril de 1928, sendo considerada a quarta a
surgir país. Outra emissora só apareceria na região 17 anos depois, com a Rádio Baré, de
Manaus, inaugurada em 29 de setembro de 1945. Diante desse cenário incipiente da produção
1
Trabalho apresentado em Grupo de Trabalho da II Conferência Sul-Americana e VII Conferência Brasileira de Mídia
Cidadã.
2
Estudante do 6º semestre do Curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, da Universidade Federal do Pará.
Bolsista de Iniciação Científica, por meio do Programa PIBIC UFPA-AF, do projeto de pesquisa “Jornais Paraoaras:
percurso da mídia impressa em Belém”. E-mail: [email protected].
3
Estudante do 6º semestre do Curso de Comunicação Social, habilitação Jornalismo, da Universidade Federal do Pará.
E-mail: [email protected].
4
Orientadora do trabalho. Jornalista, Coordenadora da Rádio Web UFPA, pesquisadora do CNPq e professora da
Faculdade de Comunicação e do Curso de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade
Federal do Pará. E-mail: [email protected].
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radiofônica nacional, a capital paraense foi considerara uma das “vanguardas da radiodifusão
do Brasil” (CAVALCANTE apud VIEIRA; GONÇALVES, 2003, p. 15).
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006 registra que o rádio
se encontra em 87,87% dos domicílios, ou seja, em aproximadamente 48 milhões de lares,
perdendo apenas para a televisão, que está presente em 93,02% dos domicílios. Além disso, o
rádio é o eletrodoméstico preferido nacionalmente, após o fogão e a televisão, segundo a
pesquisa (CANELLAS, 2009, p. 229).
A pesquisadora Luciana Miranda Costa, que desenvolve um trabalho de pesquisa
histórica sobre o rádio no Pará, o considera como o principal veículo de comunicação da
Amazônia. Segundo ela, por muitas áreas ainda não possuírem energia elétrica e, diante de
limitações como a falta de uso do computador, o rádio continua liderando na produção de
informação, entretenimento, recados e até como palanque político.5 Esses dados servem para
assegurar a importância que o rádio tem no contexto amazônico. Uma região em que
metrópoles e pequenos municípios compõem o extenso espaço que ocupa aproximadamente
59% do território nacional.
Este artigo surgiu com a proposta de coletar informações e, registrá-las, sobre a
Rádio Comunitária Cabana FM, localizada na Região Metropolitana de Belém, Pará. Diante
das lacunas em torno das informações sobre a Rádio Cabana, a pesquisa realizada em 2009, se
estruturou, basicamente, por meio de entrevistas com os administradores da rádio na época,
ou seja, os relatos de Paulo de Tarso, Presidente da Rádio Cabana, e Javé Neiyre, produtor do
Programa “Jóia do Esporte”, possibilitaram a construção deste trabalho. Além disso, a partir
de pesquisa bibliográfica, faremos um passeio por uma breve contextualização histórica do
rádio no Brasil e no Pará.
A história do rádio no Brasil...
As primeiras experiências com transmissões radiofônicas foram realizadas no Recife,
utilizando um transmissor importado da França, onde foi inaugurada a Rádio Clube de
Pernambuco no dia 6 de abril de 1919, por Oscar Moreira Pinto. Mas, oficialmente, o rádio
5
Entrevista disponível no site <http://www.radioliberal.com/plantao/imprimir.asp?id_noticia=303750> Acesso em
12/04/2011.
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foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, em meio às comemorações do Centenário da
Independência do Brasil, quando transmitiu o discurso do então Presidente Epitácio Pessoa,
direto da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, por meio de 80 receptores importados para o
evento. Após a inauguração, óperas foram transmitidas diretamente do Teatro Municipal do
Rio de Janeiro. Mesmo com o impacto causado com as transmissões públicas, elas foram
encerradas por falta de projetos que lhes dessem continuidade.
A radiodifusão só se instalou no dia 20 de abril de 1923, com a inauguração da Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Roquette Pinto e Henry Morize. A Rádio, de cunho
educativo, tinha como objetivo “levar a cada canto um pouco de educação, de ensino e de
alegria”. Inicialmente, o rádio surgia como meio de comunicação elitizado, devido ao alto
custo dos aparelhos receptores – existentes apenas no exterior – e da programação voltada
para fins altruístas, culturais e educativos. No começo eram transmitidas óperas, poesias,
concertos e palestras culturais, por exemplo.
Em sua primeira fase, o rádio se mantinha com mensalidades pagas pelos que
possuíam aparelhos receptores, por doações eventuais de entidades públicas e privadas e
raramente com a inserção de anúncios pagos já que, na época, eram proibidos pela legislação.
Também eram feitos apelos para que interessados aderissem à emissora como sócios,
ajudando a mantê-la.
A partir da década de 30, com a publicidade legalizada, o rádio sofre uma mudança
radical. A inserção de mensagens comerciais transfigura imediatamente o rádio: o que era
erudito, educativo e cultural se transforma em popular, lazer e diversão. Em razão da disputa
de mercado, as emissoras transformam-se em empresas. Disputas que deixaram de lado a
preocupação educativa, para entrarem em cena os interesses mercadológicos.
Os empresários passaram a perceber que o rádio era mais eficiente do que os
veículos impressos para divulgação de seus produtos, graças também ao grande número de
analfabetos no país. Com a publicidade como suporte da programação, o objetivo principal
passa a ser o de alcançar grandes audiências, buscando mercado para os produtos anunciados.
Diante desse cenário, o rádio não poderia mais viver apenas da improvisação. Precisaria
mudar para poder fazer face à nova situação: estrutura-se como empresa, investe e passa a
contratar artistas e produtores.
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Em 1935, ocorrem dois fatos marcantes para o desenvolvimento da programação nas
emissoras brasileiras. A Rádio Kosmos, de São Paulo, depois Rádio América, cria o primeiro
auditório e, é inaugurada no Rio de Janeiro, a Rádio Jornal do Brasil, apresentando programas
fundamentados na informação.
Getúlio Vargas foi o primeiro governante brasileiro a identificar no rádio grande
importância política, utilizando-o dentro de um modelo autoritário, com a criação do
Departamento Oficial de Propaganda – DOP, encarregado de uma seção de rádio que
antecedia a “Hora do Brasil”. Em 1934, o DOP foi transformado em Departamento de
Propaganda e Difusão Cultural, surgindo então “A Voz do Brasil”. Posteriormente, foi
transformado em Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP, ligado à Presidência da
República, e tinha como objetivo a fiscalização e censura não só do conteúdo das
programações radiofônicas, mas também as do cinema, teatro e jornais.
No dia 12 de setembro de 1936, às 21h, um fato marcava a história do rádio no
Brasil: ía ao ar, pela primeira vez, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A partir de então, o
rádio busca se desenvolver de maneira organizada e burocrática. O decênio de 30 foi
importante para que o rádio definisse seus caminhos e encontrasse o seu rumo na fase
seguinte, acompanhando e auxiliando o desenvolvimento nacional como um todo. E, assim
preparado, o rádio entra nos anos 40, a chamada “época de ouro do rádio brasileiro”. Cada vez
mais, as emissoras percebem a concorrência existente entre elas. É a guerra pela audiência,
com as emissoras concorrendo entre si para garantir o faturamento. Cada uma delas procura
mostrar mais popularidade, fator importante para que os anunciantes se decidissem pelo
investimento de suas verbas.
Em 1942, era veiculada pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a primeira
radionovela brasileira: “Em Busca da Felicidade”. Nos anos seguintes, o gênero se prolifera
rapidamente, integrando a programação da maioria das emissoras da época. Algumas
emissoras começam a se especializar em determinados ramos de atividade. A Rádio
Panamericana, de São Paulo, por exemplo, a partir de 1947, transforma-se na “Emissora dos
Esportes”, alcançando liderança na audiência e introduzindo muitas inovações nas
transmissões esportivas.
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É também a fase em que o radiojornalismo começa a surgir como atividade mais
estruturada, com o lançamento de alguns radiojornais que marcaram, definitivamente, o
gênero. Entre eles, merecem destaque o “Repórter Esso”, o “Grande Jornal Falado Tupi” e o
“Matutino Tupi”. O “Repórter Esso” e o “Grande Jornal Falado Tupi” foram importantes para
que o radiojornalismo brasileiro fosse encontrando sua definição, os caminhos de uma
linguagem própria para o meio e deixando de ser apenas a “leitura ao microfone” das notícias
dos jornais impressos.
A “época de ouro” do rádio termina com o surgimento, no Brasil, de um novo meio
de comunicação: a televisão. Para enfrentar a concorrência com a TV, o rádio precisava
procurar uma nova linguagem, mais econômica. No inicio, foi reduzido à fase do vitrolão:
muita música e poucas produções de programas. Como o faturamento era menor, as emissoras
passaram a investir menos, tanto em produção, quanto em equipamentos e pessoal técnicoartístico.
O radiojornalismo ganha grande impulso. Um novo tipo de programação noticiosa
foi lançado pela Rádio Bandeirantes, de São Paulo, em 1954, mostrando-se revolucionário e
influenciando a programação de outras emissoras. Outro passo para que o rádio tentasse
deixar de perder terreno para a televisão foi dado em 1959. A Rádio Jornal do Brasil, do Rio
de Janeiro, lança um tipo de programa que seria depois adotado pelas emissoras de todo o
país: os serviços de utilidade pública. Na mesma época, a Rádio Tamoio, também no Rio de
Janeiro, procurava outra alternativa para as rádios: introduz o esquema de “música,
exclusivamente música”. Estas duas alternativas passam a caracterizar a programação
radiofônica nos anos 60. Ainda no decênio de 60, começam a operar as primeiras emissoras
em freqüência modulada (FM). A primeira emissora brasileira a explorar esse serviço foi a
Rádio Imprensa, do Rio de Janeiro. Posteriormente, já nos anos 70, esse tipo de transmissão
utilizaria canais abertos, surgindo um número elevado de emissoras operando em FM, todas
voltadas exclusivamente para a programação musical.
Um outro grupo de emissoras começa a dar ênfase à programação mais “falada”, que
buscava reencontrar o diálogo com o público. Surgem programas de trocas de informações,
como o “Show da Manhã”, na Rádio Panamericana, de São Paulo. A mesma Panamericana
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cria, em 1967, uma equipe de jornalismo bem estruturada, que faz com que a imagem da
própria emissora mude, de esportiva, para jornalística e de prestação de serviços.
Em 12 de maio de 1969 é criada a Rádio Mulher, de São Paulo: a primeira emissora
brasileira a se especializar exclusivamente em assuntos femininos, fundamentada nos moldes
norte-americanos e europeus. A tendência à especialização mostrou-se cada vez maior. As
emissoras passaram a se identificarem com determinadas faixas sócio-econômicas e culturais,
procurando dirigir-se a elas e buscando sua linguagem nos próprios padrões das classes que
desejavam integrar à audiência. No final da década de 70, algumas emissoras de São Paulo
sentiram a necessidade de se unirem para melhor poder agir no sentido de expandir o meio.
... E no Pará
Durante a década de 20, 19 emissoras de rádio surgiram no Brasil. No dia 22 de abril
de 1928, um coquetel reunindo algumas pessoas da sociedade paraense marcaria a
inauguração da primeira emissora de rádio do Norte e, considerada por muitos, a quarta
emissora do país: era a Rádio Clube do Pará. Somente 17 anos depois, outra emissora seria
lançada na região, a Rádio Baré, inaugurada no dia 29 de setembro de 1945, em Manaus.
O bacharel em Direito, Roberto Camelier, juntamente com o jornalista Edgar
Proença e Eriberto Pio, todos paraenses, foram os idealizadores da Rádio Clube. Eles, além de
visitarem a rádio de Roquete Pinto, no Rio de Janeiro, mantinham contato com os irmãos
Moreira Pinto, fundadores da Rádio Clube de Pernambuco. Inicialmente, a Rádio Clube do
Pará era sustentada por uma associação de amigos que pagavam mensalidades, garantindo
assim, o funcionamento da emissora, semelhante ao que ocorria com as outras rádios
brasileiras.
“PRC-5: A Voz do Pará”, era o slogan da pioneira rádio paraense. O transmissor da
rádio foi montado por Camelier, ajudado pelo eletricista Manoel Franco de Jesus, e possuía
uma potência entre 350 e 440 watts com a altura de pouco mais de um metro. Os primeiros
discos tocados na rádio foram cedidos pelo Almirante Braz de Aguiar e, a sua programação, –
conseqüência das limitações técnicas – era bastante variável e indefinida. Quando a rádio
conseguiu certa estabilidade na transmissão sonora, “a sua programação passou a ser diária,
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das 20 às 22 horas, produzida por pessoas da sociedade local” (GONÇALVES & VIEIRA,
2003, p. 38).
Na década de 30, por meio de acordos internacionais, definiu-se que as rádios
brasileiras utilizariam o prefixo PRC e as emissoras estrangeiras o prefixo ZYNC. A partir de
então, Edgar Proença criou um novo slogan que marcou a Rádio Clube: “PRC-5: A Voz que
Fala e Canta Para a Planície”.
Apesar de toda fama, as dificuldades financeiras impediam que a rádio tivesse um
lugar fixo. Por diversas vezes, o local de funcionamento da PRC-5 foi mudado. Somente em
1937, com a doação de um terreno no bairro do Jurunas, bairro da periferia de Belém, a Rádio
Clube do Pará teria a sua primeira sede própria, conhecida como a “Aldeia do Rádio”. Nesse
mesmo ano, uma portaria do governo federal determinando como potência mínima o valor de
1000 watts para o funcionamento das emissoras, colocou em risco a continuidade da Rádio
Clube. Edgar Proença chegou a emitir uma nota oficial comunicando o fechamento da rádio.
No entanto, com a ajuda da população, a emissora pôde adquirir os equipamentos necessários
para continuar as suas transmissões. Um ano depois, em 1938, uma festa marcava a
inauguração do novo estúdio da emissora, no famoso Bar Café Brasil, localizado no centro de
Belém. A Rádio Clube começava a superar as dificuldades técnicas e a investir em sua
programação, como registra Gonçalves e Vieira (2003):
A partir de 1939, os programas com apresentações no estúdio foram melhor organizados,
valorizando, sobretudo, os artistas paraenses. Surgiram programas excelentes de música
clássica, popular e regional. (...) A manhã começava com o programa Amanheça Cantando,
apresentado pelo locutor de plantão, que trazia as notícias do dia anterior e os fatos previstos
para acontecer. Entre uma notícia e outra, rodavam os discos de sucesso (GONÇALVES &
VIEIRA, 2003, p.50, grifos das autoras).
A década de 40 marca a fase áurea do rádio em Belém. É nesse momento que a
programação da Rádio Clube torna-se diversificada sendo composta por serviços de
jornalismo esportivo – sempre prioridade –, radiojornalismo, radionovelas e os programas de
auditório. A emissora chegou a contratar a sua própria orquestra para as apresentações na
rádio. Em 1942, a PRC-5 passa a operar também em Ondas Tropicais (OT) podendo ser
ouvida em toda região amazônica.
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No dia 6 de fevereiro de 1954, foi inaugurada a Rádio Marajoara fazendo parte do
conglomerado de Assis Chateaubriand, o “Diário e Emissoras Associados”. A rádio dispunha
de melhores condições técnicas e estruturais comparadas com as da Rádio Clube. A sede da
emissora ocupava um quarteirão no nobre bairro de Nazaré e nela havia um auditório luxuoso
com capacidade para mil pessoas e até camarins. No dia da inauguração, houve uma grande
festa contando com a presença de muitos profissionais de emissoras de rádio de outros estados
brasileiros. Gonçalves e Vieira (2003) resumem a programação da rádio em sua fase inicial:
Nos primeiros tempos de 1953, a programação da emissora começava às cinco da manhã, com
uma abertura musical que ia até às sete horas. (...) Depois, entrava no ar o Pequeno Jornal
Falado, com notícias do dia anterior. Às oito horas, iniciava o programa Gabinete de Leitura,
escrito por Frederico Barata com curiosidades sobre o dia: santos, fatos históricos etc. (...) Os
programas de auditório aconteciam nas noites de segunda, quarta e sextas-feiras e aos sábados
e domingos (GONÇALVES & VIEIRA, 2003, p.105, grifos das autoras).
Além disso, a Rádio Marajoara fez muito sucesso com os programas humorísticos,
com todos os scripts vindos da carioca Rádio Tupi. O jornalismo da rádio era construído a
partir das informações fornecidas pela Agência Meridional, dos “Diários Associados”, e pela
United Press International, responsável pelas notícias internacionais. A emissora, no mês de
outubro, realizava a cobertura da procissão do Círio de Nazaré. Na ocasião, os três locutores
se dedicavam a utilidade pública como ajudando as crianças perdidas a encontrarem seus pais.
Em 1965, também da Rádio Tupi, a Marajoara copiou o formato do programa A Patrulha da
Cidade, um dos programas mais duradouros no rádio paraense. Nele, os assuntos mais
recorrentes eram os policiais.
Na década de 60, novas emissoras de transmissão radiofônica aparecem no estado. A
Rádio Guajará e a Rádio Nazaré são criadas durante esse período. Na véspera do Círio de
Nazaré de 1960, a Rádio Difusora do Pará também foi inaugurada, mais tarde conhecida
como Rádio Liberal. Em 2009, segundo o Instituto de Pesquisas IBOPE, a Rádio 99 FM,
ligada ao Grupo Rede Brasil Amazônia (RBA), é a líder de audiência em relação às outras
emissoras. No site www.radios.com.br existem 41 emissoras de rádio paraenses, entre AM e
FM, cadastradas. Muitas delas estão vivendo o processo de convergência midiática e
diversificando o seu conteúdo graças às novas possibilidades proporcionadas pela Internet.
Mais uma vez, é o rádio se adequando às novas tecnologias e alcançando novos públicos.
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No ar: Rádio Cabana FM 87,9
As chamadas “rádios livres” surgiram na década de 60 na Europa. A primeira rádio
era da Inglaterra e realizava as suas transmissões de um barco. A partir de então, surge a
terminologia de “rádio pirata” (PALMQUIST, 1997, p. 2). A partir de meados dos anos 80,
surgem no Brasil as também conhecidas como “rádios comunitárias”. A proposta da maioria
dessas rádios é fazer um contraponto aos grandes veículos midiáticos do país. Para Francisco
Cavalcante (2003), “a rádio livre é um sonho democrático, uma utopia moderna, pela qual
trabalham incansavelmente milhares de ativistas no Brasil” (apud GONÇALVES & VIEIRA,
2003, p. 19).
Em 2003, 17 pessoas se reuniram e criaram a Rádio Comunitária Cabana FM,
atualmente localizada na Rua Parabor, 581, bairro da Guanabara (ver Figura 1), em
Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Com o slogan “Cabana FM: a voz da
resistência popular”, o nome da rádio foi inspirado numa das mais importantes revoltas
regenciais do Brasil, a Cabanagem. Muitos historiadores registram que a Cabanagem foi o
único movimento em que as camadas pobres assumiram o
poder de uma província, no caso, a Província do GrãoPará. Segundo Paulo de Tarso, um dos fundadores da
rádio, assim como os cabanos, eles pensam “em uma
sociedade justa, feliz e igualitária”, portanto, assim
definiu-se o nome da rádio.6 O principal propósito da
rádio é a luta pela democratização dos meios de
comunicação no Brasil.
Desde 2005, a Rádio Cabana não realiza mais
suas transmissões, no entanto, no dia 7 de abril de 2010, o
Ministério das Comunicações concedeu a licença para o
Figura 1 Sede da Rádio Cabana, em
Ananindeua (PA)
Foto Phillippe Sendas.
6
funcionamento da rádio. A partir de então, passou a ser
construído um novo estúdio e novos equipamentos foram
Entrevista com o então Presidente da Rádio Cabana FM, Paulo de Tarso, realizada em 9 de junho
de 2010.
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emprestados e adquiridos em parceria com a iniciativa privada, alguns políticos e a
comunidade em geral. Em abril de 2011, a mais recente conquista: a Associação Cultural de
Difusão Comunitária FM Cabana 103,3 recebeu, por meio da Câmara dos Deputados, a
outorga que autoriza a execução do serviço de radiodifusão comunitária, em Ananindeua, no
Pará.
A freqüência da rádio é 87,9 FM. Outras rádios comunitárias de Ananindeua
possuem a mesma freqüência e isso causa interferência nas transmissões da Rádio Cabana.
Sendo assim, Paulo de Tarso afirma que mesmo possuindo uma antena de 30 metros e um
transmissor de 25 watts, a cobertura será realizada mais em Belém, por não haver
interferências, do que em Ananindeua. Na parte administrativa da rádio, 11 membros se
dividem na diretoria (sete), no conselho fiscal (três) e na suplência (um). As eleições são
realizadas de quatro em quatro anos para os cargos administrativos da emissora.
A Rádio Cabana FM não possui uma relação específica com algum movimento
social. Na verdade, vários movimentos sociais ajudam/ajudaram na produção radiofônica da
emissora. Paulo cita como exemplos o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), o Movimento Negro, o Movimento de Mulheres, a Associação Brasileira de
Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO), Associação de Moradores entre outros. Com o
retorno das transmissões da Cabana FM, haverá uma reunião para agregar novamente as
pessoas na construção da rádio. A rádio comunitária mudou de lugar sete vezes fugindo da
fiscalização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e da Polícia Federal. Mesmo
assim, a Anatel apreendeu os equipamentos da rádio e não os devolveu.
A programação da Rádio Cabana FM era predominantemente musical. Programas de
reggae, músicas do passado e rock foram criados na tentativa de agradar a todos os públicos.
Além disso, a rádio trabalha muito com a cobertura esportiva. É o caso do “Jóia do Esporte”,
que surgiu com a proposta de “divulgar o esporte amador, o esporte profissional e o esporte
comunitário”, sob a coordenação de Javé Neri. Há também o programa “Sementes no Ar”,
inspirado em um projeto do Governo do Estado do Pará e é realizado com as crianças que
vivem em torno do Lixão do Aurá, em Ananindeua.
O jornalismo na rádio ainda está em discussão. Não há programas específicos com
foco no jornalismo, entretanto, os administradores da rádio afirmam que estão pensando no
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assunto e pretendem inserir essa característica nas novas transmissões. Os comunicadores da
rádio são chamados de “cabanos” e, segundo Javé, isso se dá porque são pessoas engajadas
nas lutas de movimentos sociais e, também, reivindicam melhorias para as comunidades da
Grande Belém. Segundo os administradores da rádio, a programação possuía uma boa
aceitação do público.
Atualmente, a Rádio Cabana FM tem a sua programação veiculada de segunda à
sexta-feira, das 6h a 0h. Aos sábados, a rádio veicula seu conteúdo a partir das 7h até 0h e, aos
domingos, de 7h as 18h. A programação ainda se estrutura, principalmente, no conteúdo
musical e voltado também para informações sobre esporte. Entre outros exemplos de
programas, destacamos: “Musical Cabano”, “Uma Hora Só de Música”, “Pará Pai Dégua”,
“Cabano no Forró” e “Frequência Popular”. Os telefones para contato da Rádio Cabana FM
são (91) 8884-9964 / 8286-5826 e o site www.cabanafm.com.br.
Considerações finais
O rádio ainda mantém sua relevante importância no Estado do Pará como veículo de
comunicação da população, já que, com suas extensas dimensões territoriais, lugares onde a
televisão, a internet, e nem mesmo a energia elétrica chega, o famoso “rádio de pilha” garante
a informação e o entretenimento dessas pessoas, mesmo com uma programação pautada na
preferência do público das grandes cidades do Estado. Ainda na Amazônia, distante dos
grandes centros econômicos do país, por disposição de três paraenses, uma rádio conseguiu
ser implantada e até hoje está em funcionamento com seus 82 anos: a Rádio Clube do Pará.
Uma história escrita com muitas dificuldades, conquistas e apreço do público paraense.
Tendo em vista a proposta deste artigo que foi realizar uma pesquisa sobre uma rádio
comunitária da Região Metropolitana de Belém, neste caso, escolheu-se a Rádio Cabana FM,
é importante ressaltar que a prática das rádios livres ainda é muito repreendida. Segundo o
Coletivo Brasil de Comunicação Social – Intervozes, no Brasil, existem aproximadamente 20
mil pedidos de autorização de rádios comunitárias. As penas para os que insistem em
trabalhar com a radiodifusão “ilegal” são maiores que as de lesão corporal e cárcere privado.
O Intervozes afirma ainda que, atualmente, existem 3.118 processos por radiodifusão. Em
contrapartida, muitos políticos possuem várias concessões de rádios para transmitirem o que
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bem entender. Comunicar na Amazônia não é uma tarefa fácil, mas as iniciativas de colocar
em prática o exercício de uma mídia realmente cidadã existem e devem sempre ser
preservadas e louvadas.
Referências bibliográficas
CANELLAS, Wanessa. Rádio: alguns aspectos estéticos dos estudos de recepção. In: Lugar Comum,
Rio de Janeiro, nº. 28, p. 229-238, 1 de outubro de 2009.
CAVALCANTE, Francisco. Eu vi no rádio. In: VIEIRA, Ruth & GONÇALVES, Fátima. Ligo o
rádio para sonhar. Belém: Prefeitura Municipal, 2003, p. 13-24.
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação do rádio: os grupos de poder e a determinação dos
conteúdos. São Paulo: Summus, 1985, p.13-36.
PALMQUIST, Helena. A Breve História das Rádios Comunitárias em Belém. Trabalho da
disciplina Projetos Experimentais em Radiojornalismo I. Prof.ª Luciana M. Costa, 1997, p.1-20.
Rádios AM/FM do Pará. Disponível em <http://www.radios.com.br/cnt/resultado/14/uf/> Acesso
realizado em 3 de outubro de 2011.
Rádio Cabana FM – Programação. Disponível em <http://cabanafm.com.br/> Acesso realizado em
9 de outubro de 2011.
VIEIRA, Ruth & GONÇALVES, Fátima. Ligo o Rádio para Sonhar. Belém: Prefeitura Municipal,
2003.
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