GERAÇÕES / BRASIL
BOLETIM DA SOCIEDADE GENEALÓGICA JUDAICA DO BRASIL
Junho 1998
Semestral
Volume 4 nº 2
Veja nesta edição
Possibilidades de Parentesco
A Matemática dos Ancestrais
Onomástica
Famílias Judias
Italianas na Antigüidade
Minha História
Leitor relata como sua
família chegou ao Brasil
Family Finder
Procure por parentes
e antepassados através
deste serviço internacional
Judeus Islamizados
A seita dos Doenmeh
Retrato de Shabetai Tzvi – Smyrna, 1666
em resumo
Viaje conosco nesta edição
C
em anos do primeiro Congresso Sionista Mundial, 50 do Estado de Israel (Medinat Israel). São muitos os caminhos percorridos por Israel, e no mundo latino eles tomam muitas formas diferentes, como se verá nesta edição. Se o leitor atentar um
pouco sobre os assuntos que tratamos neste número, verá que temos razão. O início desta viagem começa na Turquia, onde
sobrevive uma estranha seita que não faz adeptos, é secreta e demonstra o impacto de um falso-messias do séc. XVII sobrevivendo
na mentalidade desta gente até nossos dias. Estamos na antiga Sublime Porta, a última fronteira de Sefarad, onde os judeus ibéricos encontraram refúgio das terríveis perseguições do temido século XV. Tomamos o caminho de volta, passamos pela Itália, examinamos a formação daquela comunidade tão antiga, já velha no tempo dos Césares. Ao mesmo tempo, pegamos um atalho e acompanhamos uma nova diáspora, do italiano, que procura melhores lugares para viver, e vai para o Egito, onde tem que passar por
um novo Pessach, até chegar ao Brasil. Aqui voltamos à genealogia dos aristocráticos Mesquitas, publicando um documento inédito, estabelecendo um novo link com a “Santa Terrinha”.
Para a viagem prosseguir temos que carregar também nossos equipamentos. Há também um material que chamamos de serviço e
que servirá como ferramenta nova para nossos sócios — nele você encontrará endereços úteis, indicações, cálculos de parentesco
e até um noticiário diferenciado, para que você faça o seu próprio itinerário.
Quando esta viagem terminar, deixará de ser literária e passará à prática. Pois entre 12 e 17 de julho, muitos genealogistas, inclusive alguns desta casa, estarão em Los Angeles, participando do Seminário Anual, o décimo oitavo, que previsivelmente chamar-se-á
“Hollywood Chai”.
Como quem fica no porto, nós aqui da redação, desejamos que todos tenham uma boa viagem!
Os Editores
literatura
Dicionário de Sobrenomes Sefaradim
J
á entrou em fase final de edição o Dicionário de Sobrenomes Sefaradim (e anexos), que está sendo escrito pela equipe de
pesquisadores ligados à Sociedade Genealógica Judaica do Brasil. Até o momento, já são dez mil verbetes, identificando
estas famílias de origem judaica. Para compô-los, foi necessário recorrer a uma quantidade muito grande de fontes: listas de
sócios de sinagogas e de cemitérios, livros, revistas, Home Pages na Internet, árvores genealógicas, listas de vítimas da Inquisição e
do Nazismo. O resultado desta pesquisa permite traçar, em poucas linhas, milhares de histórias familiares.
Como exemplo deste trabalho, transcrevemos um destes verbetes. Ele contém o sobrenome pesquisado, locais onde foram encontrados judeus ou cristãos-novos deste sobrenome, etimologia, formas em que podem ser encontrados em outros verbetes, fontes bibliográficas, tribunais da Inquisição onde foram sentenciados e um expoente da família (muitas vezes contendo uma fotografia e uma
árvore genealógica, como neste caso):
CARDOSO / CARDOZO (S. Paulo, Rio de Janeiro, Sobral, Brasil, Beja, Lisboa, Bragança, Portugal, Panamá, México, Marrocos, Tunis, Florença, Livorno, Padova, Bordeaux, Hamburgo,
Izmirna, Rhodes, Gibraltar, Hunt’s Bay (Jamaica), Brasil holandês, New York, Londres, Easton,
Savannah, Kingston, Chicago, Trancoso, Nantes, Bayonne, Salonica, Amsterdã, Suriname,
Tunísia, Istambul, Mesão Frio, Vila do Conde, Vila Real, Mangualde, Chacim, Freixo de Espada-àCinta, Egito, Nantes, Labastide-Clairence) A, cheio de cardos ou espinhos, portuguesa {Jessurun
Cardoso, Cardoso de Almeida, Cardoso Coutinho, Cardoso de Azevedo, Cardoso Nunes,
Rodrigues Cardoso, Cardoso de Sá, Cardoso Pardo, Cardoso de Bethencourt, Cardoso de
Fonseca, Cardozo Baeza, Cardozo da Costa, Cardozo Frias, Cardozo Gaspar, Cardozo Nunes,
Cardozo Porto, Costa Cardozo, Fernandes Cardozo, Gomes Cardozo, Henriques Cardozo,
Jessurum Cardosso, Lopes Cardoso, Marques Cardozo, Núñez Cardoso, Nunes Cardoso, Pardo
Cardozo, Rodrigues Cardoso, Rodríguez Cardoso, Uziel Cardoso, Ximenes Cardozo, Ximines
Cardozo, Yessurun Cardozo, Aboab Cardozo, Azubi Cardozo, Cartozo} [ABC, ALL, AZE, BAR,
BIR, CAR, CKSP, CPTU, DOV, EFW, EJU, FAR, HCL, JCB, LAR, LIR, LUZ, MEL, NOV, OSO,
PIS, ROS, SCH, TOA, ZUB, LBG, MOK, COH, EIS, ESR, JMA, KPIA, PAZ, STE, VID] # Inq. de
Lisboa, México, Madrid, Toledo e Panamá. @ Benjamin Nathan Cardozo (N.Y.C., 1870 –
Rochester, 1938), o segundo judeu a ser nomeado juiz da Suprema Corte do EUA (vd. árvore
genealógica e fotografia).
Benjamin N. Cardoso (1870 - 1938),
juiz da Suprema Corte Americana
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matéria de capa
Os Doenmeh: Judeus Islamizados
Shabetai Tzvi converteu-se ao Islamismo. Mas seus descendentes mantiveram tradições
judaicas, fundando uma estranha seita messiânica híbrida: os “Doenmeh”.
Prof. Reuven Faingold*
A
história do célebre “Messias de Smirna” Shabetai Tzvi e
o fracasso de seu movimento de redenção, teve conseqüências nocivas para a “História Judaica”. Depois que
Shabetai Tzvi converteu-se ao Islã em setembro de 1666 (adotando o nome de Aziz Mehemet Aga), muitos de seus discípulos interpretaram esta apostasia como uma missão secreta
empreendida com uma finalidade mística em mente. A esmagadora maioria de seus adeptos ou maaminim, espalhados por
todos os cantos do mundo, principalmente nos Balcãs, Constantinopla, Smirna, Livorno, Hamburgo, Amsterdã, e outros
lugares da Europa, acreditava que era essencial seguir os passos do seu mestre e tornar-se muçulmano, porém sem renunciar ao Judaísmo. Este grupo de adeptos, que talvez chegasse a
250 famílias, formaram uma seita conhecida como “Doenmeh”,
que em língua turca significa “convertidos” ou “apóstatas”.
Entre os Doenmeh havia poucos entendidos em Cabala. Não
obstante, este pequeno núcleo gozava de uma especial reputação na época. Isto aparece muito claro no “Comentário dos Salmos” de Israel Chazan de Castoria, escrito por volta de 1679.
Jacob Querido: Reencarnação de Shabetai Tzvi
A origem da seita Doenmeh está intimamente ligada à última
mulher de Shabetai Tzvi — Iochevet — mais conhecida no
Islã como Aysha. Ela era filha de Joseph Filosof, um dos
rabinos de Salônica.
Depois de retornar da Albânia, passando um breve período por
Adrianópolis, Iochevet proclamou seu irmão mais novo Jacob
Filosof ou Jacob Querido, a reencarnação da alma de Shabetai
Tzvi.
Há dois relatos contraditórios dessa conversão dos Doenmeh
ao Islã. Na realidade, tudo indica que houve duas levas de conversões: uma conversão aconteceu em 1683 e outra em 1686.
Seja como for, o importante é que muitas “revelações místicas”
foram experimentadas em Salônica durante todos estes anos.
Com o passar do tempo, a seita de Jacob Querido foi se organizando e adquirindo bases institucionais sólidas. Durante o século XVIII, a seita recebeu adeptos de outras comunidades, especialmente da Polônia.
Grande parte da comunidade Doenmeh estava formada por
Jacob Querido (1650-1690) sempre manifestou uma forte deconversos persuadidos pelo próprio Shabetai Tzvi. Eles eram
dicação à tradição islâmica. Seu nome em árabe era Abdullah
fervorosos muçulmanos, e privadamente adeptos shabetaianos
Yacoub, e em 1688 chegou a participar de uma peregrinação a
que observavam um judaísmo messiâMeca com Mustafah Effendi, um de
nico baseado nos “Dezoitos Preceitos”
seus mais fervorosos discípulos. NatuEles eram fervorosos muçulmanos,
atribuídos a Shabetai Tzvi e aceitos peralmente, esta viagem opunha-se aos
e privadamente observavam um
las comunidades Doenmeh. Estes 18
princípios da comunidade Doenmeh.
preceitos, cujo texto foi publicado por
judaísmo messiânico
Entre 1690 e 1695, já retornando de sua
Guershom Scholem (o maior estudioso
peregrinação a Meca, Jacob Querido
do movimento Shabetaísta), são uma esmorreu em Alexandria no Egito. Deste
pécie de versão paralela dos “Dez Man-damentos”. Estes preshabetaísta não restaram escritos, exis-tindo apenas um mero
ceitos — ou mandamentos da seita — determinam qual deverá
panfleto redigido contra ele por um ou-tro judeu apóstata.
ser o tipo de relacionamento entre os adeptos Doenmeh
perante turcos e judeus. Para ilustrarmos, por exemplo, o
casamento entre membros do grupo e muçul-manos autênticos
As sub-seitas dos Doenmeh
estava es-tritamente proibido.
Os próprios conflitos e atritos internos nos círculos Doenmeh
Logo depois da morte de Shabetai Tzvi, o centro das atividades dos adeptos deslocou-se para a cidade grega de Salônica,
onde permaneceu até o século XX.
causaram uma divisão na organização da seita. Destas lutas
político-religiosas, resultaram duas novas sub-seitas:
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 3
matéria de capa
a) Os “izmirlis” ou “izmirim”: constituída por membros da
primeira comunidade (o grupo original). Estes aristocratas
da seita eram chamados “Cavalleros” em ladino ou
“Kapanjilar” em turco. Incluíam os grandes comerciantes e
a classe média, bem como a maioria da intelectualidade
Doenmeh. Foram também os primeiros a mostrar, a partir
do século XIX, uma marcada tendência para assimilação
com os turcos.
b) os “jacobitas” ou “jakoblar” (em turco) constituída pelos
rabinos e seguidores de Jacob Querido. Esta sub-seita de
aproximadamente 43 famílias, incluía um grande número
de funcionários turcos de classe média e baixa.
Depois de 1700, um novo líder de nome Baruchiah Russo,
apareceu entre os adeptos de Querido, e foi proclamado por
seus discípulos como sendo a reencarnação do messias
Shabetai Tzvi. Russo era filho de um velho seguidor do
“Messias de Smirna”. Depois de sua conversão, Baruchiah
Russo foi chamado em turco “Osman Baba”. Então, uma
terceira seita organizou-se em torno dele.
c) os “konyosos” ou “karakashlar” foram considerados o núcleo mais afastado dos Doenmeh. Composto por um proletariado e classes de artesãos, proclamavam uma espécie de
niilismo religioso. Além disso, os konyosos conservavam os
nomes de família sefaraditas originais, que são freqüentemente mencionados em poemas dedicados aos mortos.
Alguns dos membros “konyosos” foram enviados como
representantes da seita à Polônia, Alemanha, e Áustria,
onde despertaram uma efervescência messiânica entre 1720
e 1726. Ramificações desta seita missionária, da qual mais
tarde surgiram os “frankistas” (a seita de Jacob Frank),
estabeleceram-se em vários lugares da Diáspora.
Ainda muito jovem, Baruchiah Russo morreu em 1720, e
seu túmulo foi alvo de peregrinação de discípulos e
admiradores. Seu filho também foi líder espiritual dessa
seita, e morreu em 1781.
Durante o período da Revolução Francesa, um poderoso
líder da seita ganhou destaque. Ele era conhecido como
“Dervixe Efendi”, e talvez possa ser identificado como o
poeta Doenmeh Juda Levi Tovah, um cabalista que escrevia
belíssimos sermões em ladino.
Doenmeh — Judeus ou não?
O termo Doenmeh, surgido no século XVIII, é complexo. É
difícil saber se ele faz referencia à conversão de judeus shabetaístas ao Islamismo, ou ao fato destes não serem muçulmanos
autênticos. Por sua parte, os judeus chamavam os Doenmeh de
“minim”, que em hebraico significa “sectários”; levando uma
forte conotação pejorativa de “apóstatas hereges”. Entre os
diversos textos dos rabinos de Salônica, há numerosos escritos
que abordam a questão de como deviam ser tratados os
Doenmeh, se deveriam ser considerados judeus ou não.
Os Doenmeh moravam em bairros separados em Salônica, e
seus líderes conviviam amistosamente com vários grupos sufistas, e com as ordens de “Dervixes” turcos, mais conhecidos
como “Baktashi”. Da mesma forma, os Doenmeh mantinham
contatos com shabetaístas que não se haviam convertido ao Islamismo, e com vários rabinos de Salônica que, quando necessário, dirimiam questões da lei mosaica para a seita. Estas relações foram rompidas somente em meados do século XIX.
O comportamento dos Doenmeh perante o Judaísmo era
ambivalente. Em um primeiro momento, eles demonstravam
uma atitude ambígua em relação ao Judaísmo tradicional, encarando-o como nulo, sendo seu lugar tomado por uma Torah
mais elevada, mais espiritual, chamada “Torah da Emanação”
ou “Torat Ha-Atzilut”. Entretanto, num segundo momento,
procuraram conduzir-se segundo a Torah da tradição talmúdica, denominada “Torah da Criação” ou “Torat Ha-Beriah”.
Costumes e ritos Doenmeh
Os livros de liturgia dos Doenmeh eram escritos em formato
muito pequeno, para que pudessem ser facilmente ocultados.
Todas as sub-seitas ocultavam seus assuntos tanto dos judeus
como dos turcos, e durante muito tempo o que se conhecia dos
“Doenmeh” baseava-se apenas em relatos e comentários de
viajantes estrangeiros.
No início, o conhecimento do hebraico era comum entre os
Doenmeh, e sua liturgia era produzida nesta língua. Isto pode
ser visto nos seus livros de orações. No entanto, com o correr
do tempo, o uso do ladino foi aumentando, e tanto a literatura
poética como os sermões eram escritos nesta língua.
Os manuscritos dos Doenmeh revelavam informações sobre
suas idéias shabetaístas, e foram traduzidos e examinados
depois que várias famílias decidiram
assimilar-se por completo à sociedade
Seus livros de liturgia eram
turca.
escritos em formato pequeno, para
Sem dúvida, ficou evidente para os
Até 1870, os Doenmeh falavam ladino
que pudessem ser ocultados
governantes e autoridades turcas que
entre si, e somente depois desta data, o
estes apóstatas, de quem se esperava
turco tornou-se a língua de uso cotidiano.
que incentivassem judeus a se
Os cemitérios Doenmeh eram usados pelas três seitas. Em
converterem ao Islamismo, não tinham a mínima intenção de
compensação, como sempre aconteceu nas diferentes épocas
se assimilar. Ao contrário, eles estavam clandestinamente
históricas, cada sub-seita tinha sua própria sinagoga chamada
determinados a observar uma vida sectária, semi-clandestina;
“kahal” ou “congregação”. Ela estava localizada no centro do
guardando externamente as práticas islâmicas e sendo
bairro, escondida dos estranhos.
politicamente cidadãos fiéis às leis do país.
4 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
matéria de capa
Os Doenmeh na atualidade
A força numérica dos Doenmeh é conhecida parcialmente.
Segundo o viajante dinamarquês Karsten Niebuhr (17331815), umas 600 famílias viviam em Salônica em 1774, e os
casamentos realizados por estes eram endogâmicos, ou seja,
consagrados no seio das famílias da congregação.
ca, mesmo preservando a sua fé em Shabetai Tzvi, que havia
ab-rogado os mandamentos práticos da Torah, admitin-do uma
“Torah de Emanação” superior, como sua substituta.
O princípio de divindade de Shabetai Tzvi desenvolveu-se
firmemente e foi aceito sem restrições pela seita. Além de sua
ab-rogação dos mandamentos práticos e sua crença trinitária
mística, um fator despertava grande oposição entre seus contemporâneos: a inclinação em permitir
casamentos proibidos pela “Halachá” e
Kemal Ataturk, o fundador da
realizar bacanais que envolviam a troca
República Turca moderna, seria
de mulheres, atos que certamente degradavam a meta final da lei judaica.
também de origem Doenmeh
Durante o longo período em que os
Doenmeh ficaram em Salônica1, a estrutura da seita permaneceu intacta, embora vários membros chegaram a atuar
nos movimentos dos “Jovens Turcos”.
Três deles chegaram a ministros no gabinete turco2. Um deles — o ministro
das finanças Mehmet Cavit Bey (18751926) — descendia da família do próprio Baruchiah Russo,
um dos mais importantes líderes da seita.
Contrariamente ao que pensavam os turcos, os judeus de
Salônica afirmavam que Kemal Ataturk, o fundador da
República Turca moderna, seria também de origem Doenmeh.
Antes da I Guerra Mundial, o número de Doenmeh era estimado em 10.000 a 15.000 pessoas, divididos nas três seitas
mencionadas.
A troca de populações ocasionada pela guerra greco-turca, fez
com que os Doenmeh tivessem que abandonar Salônica. A
maioria deles se estabeleceu em Istambul, e apenas uns poucos
estariam em outras cidades turcas como Smirna e Ancara.
Desde o século XVIII, começaram a
sentir-se acusações de licenciosidade, o
que teria dado origem a uma certa promiscuidade sexual durante algumas gerações. De fato, ocorreram cerimônias orgiásticas, principalmente na festa Doenmeh de “Chag Ha-Keves”
(Festa do Cordeiro) celebrada em 22 de Adar, perto da festa de
Purim.
Entre os Doenmeh era costume comemorar outras datas sagradas relacionadas à vida de Shabetai Tzvi e acontecimentos
particulares ligados a sua apostasia. A célebre liturgia
Doenmeh para o 9 de Av, aniversário dele, chamada “Chag
Ha-Semachot” (Festa do Júbilo), ainda existe nas festividades
dos Doenmeh.
Na imprensa otomana da época, houve um polêmico debate
sobre o caráter judaico dos Doenmeh e sua assimilação. Quando saíram de Salônica, ainda no século passado, a assimilação
começou a expandir-se. Há evidências de que as seitas dos
“konyosos” tenha sobrevivido até 1970, pois algumas famílias
continuavam pertencendo a esta organização.
Entre intelectuais turcos3, havia descendentes dos Doenmeh, e
inclusive houve tentativas de persuadi-los para retornar ao
Judaísmo e imigrar para Israel. Tudo isto foi em vão, pois poucas foram as famílias Doenmeh que imigraram para o novo
Estado judeu.
Palavras Finais
Parece que não existiu uma diferença religiosa muito grande
entre os Doenmeh e outras seitas que também acreditavam em
Shabetai Tzvi. Em sua literatura, dificilmente se faz menção
ao fato de pertencerem ao Islamismo. Os membros das três subseitas Doenmeh afirmavam ser a verdadeira comunidade judai1 Hamdi Bey, um Dönme Vali, foi um dos principais reconstrutores de
Salônica após o incêndio de 1890.
Djavid-bey, ministro das finanças da Turquia (1879-1922)
2 Estes três ministros seriam, o já citado Mehmet Cavit Bey, também
conhecido como Djawid Bey; Enver Pachá (1879-1922) e talvez Kiamil
Pachá.
3 Adil Bey, editor do jornal turco Yeni Asir (Nova Época) de Salônica.
* Prof. Reuven Faingold é doutor em História pela Universidade Hebraica
de Jerusalém.
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onomástica e heráldica
Famílias Judaicas Italianas Na Antigüidade
Sobrenomes de famílias judaicas italianas remontam à época de judeus deportados por Tito.
Alguns tiveram origem em clãs familiares do final do século XI.
Anna Rosa Campagnano*
S
egundo Franco Pisa, alguns sobrenomes das grandes famílias judaicas italianas tiveram origem num grande clã
familiar (entendendo-se por clã um conjunto de indivíduos com descendência e interesses comuns). Como clãs familiares, podem ser definidas as famílias conhecidas desde o
fim do século XI: os Anawim, os min-ha Ne’arim, os min-ha
Zeqenim, os min-ha Dayanim, os min-ha Adumim, os min-ha
Tapuchim.
A família min-ha Anawim — não confundir com a alemã Hanau
— remonta à época dos judeus deportados a Roma por Tito.
Em hebraico, o significado da palavra anaw é: modesto,
humilde, manso. Sobrenomes como Umili, Piattelli, delli
Mansi, Umano e Bozzecco, conhecido sobretudo em Roma e
Ferrara, derivam da tradução literal do hebraico.
Já os sobrenomes Del Vecchio, dei Vecchi, que a partir do
Renascimento, espalharam-se por Mântua, Pádua, Lugo,
Florença e Trieste, derivam de min-ha Zeqenim (zaken, velho).
O brasão familiar contém uma macieira circundada por dois
leões.
Existiu um outro clã, muito maior, formado por grupos que
nãodescendiam de um só “pater famíliae”, e que nem eram
constituídos somente de parentes próximos, que se chamava
dos mi Bethel ou mi ha Knesset (casa do Senhor ou casa de
reunião, sinagoga). Deste grupo faziam parte banqueiros,
médicos, rabinos e literatos. O fato de se fazer parte dele, ou
seja, “daqueles que fazem parte das Escolas mais importantes
da Itália, herdeiros da casa do Senhor em Jerusalém”,
constituía-se em grande honra. Deste segundo clã fazem parte
as famílias Uziel e Uzielli (Livorno, Florença e Veneza),
Camerino (Marche, Umbria e Toscana), Fano e da Fano
(Fano, Bolonha, Ferrara, Modena, Milão e Roma), Pisa e da
Pisa (Roma, Perugia, Florença, Ferrara e Milão) e da
Sanminiato (Perugia e Florença).
Min-ha Ne’arim é conhecida em Roma, Livorno e Pisa. Uma
velha tradição conta que esta família tinha origem na nobreza
de Jerusalém e havia combatido o Império Romano. Conduzida a Roma por Tito, entre os prisioneiros que o acompanharam
no seu triunfo, ela inseriu-se depois na liberta e florescente comunidade hebraica da cidade. De Fanciulli e Supino, conforme a tradição italiana, são sobrenomes derivados do nome do
clã cujo brasão tem no leão e no pinheiro um emblema de sua
antiga linhagem. Um importante ramo da família floresceu em
Bolonha do fim do séc. XIV ao séc. XV.
A família Min-ha Ne’arim (hoje
De Fanciulli e Supino) tinha origem
na nobreza de Jerusalém e havia
combatido o Império Romano.
Min-ha Adumim, traduzido para De Rossi e Rosselli, é uma
família conhecida em Roma e Livorno. O brasão contém a
bacia dos Levitas, fazendo referência a sua casta sacerdotal; e
um leão coroado, representando sua origem na aristocracia do
antigo reino de Israel. Outros ramos da família encontram-se
em Mântua, Ferrara e Veneza.
Os De Pomis, que derivam o seu nome da antiga família romana dos min-ha Tapuchim (plural de Tapuach, maçã) ficaram
em Roma até 1260, quando então se transferiram para Spoleto.
6 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
* Anna Rosa Campagnano é historiadora e pesquisa a história dos judeus
italianos no Brasil.
E-mail: [email protected]
onomasthics and heraldry
Italian Jewish Families
Recognized Since Ancient Times
Jewish Italian surnames came from the days of Titus Vespasianus.
Some had their origin in the end of 11 th century.
Anna Rosa Campagnano*
A
ccording to Franco Pisa, some of the surnames of the
great Italian Jewish families originate from a great
family clan, herewith understood to mean a group of
individuals with common extraction and interests.
Families known since the end of the 11th century, such as minha Anawim, min-ha Ne’arim, min-ha Zeqenim, min-ha
Dayanim, min-ha Adonim, min-ha Tapuchim, can be defined
as family clans.
The min-ha Anawim family (not to be mistaken for the Hanau
family, of German origin), goes back to the time when Jews
were deported to Rome by Titus. In Hebrew, the word anaw
means modest, humble, meek. Surnames such as Umili,
Piattelli, delli Mansi, Umano and Bozzecco, common
especially in Rome and Ferrara, originate from the literary
translation from Hebrew.
From min-ha Zeqenim (zaken meaning old), come the
surnames Del Vecchio and dei Vecchi, which after the
Renaissance spread to various cities, such as Mantua, Padua,
Lugo, Florence and Trieste.
Min-ha Ne’arim is familiar in Rome, Leghorn and Pisa. An
old tradition says that this family originated in Jerusalem’s
nobility and fought against the Roman Empire. Taken to
Rome as prisioners by the triumphant Titus, they later settled
into the free and flourishing Hebrew population of the city.
De Fanciulli and Supino, as per the Italian translation, are the
surnames which originated from the old family, whose coat of
arms shows, besides a lion, the pine tree, which is considered
a symbol of old ancestry.
to Spoleto. The family’s coat of arms shows an apple tree
surrounded by two lions.
There was another, much larger clan, formed by groups which
did not originate from one sole “pater famíliae” and were not
even made up only by close relatives, like the one formed by
the Roman inter-family group which called itself mi Bethel or
mi ha K’neset (house of the Lord or house of gathering, or
synagogue). The group called mi Bethel consisted of bankers,
doctors, rabbis and literati. Being part of this group, i.e., “of
those who belong to the most important Schools in Italy, heirs
of the House of the Lord of Jerusalem”, was a great honor.
This second clan is made up of the following families: Uziel
and Uzielli (Leghorn, Florence, Venice), Camerino (Le
Marche, Umbria and Tuscany), Fano and da Fano (Fano,
Bologna, Ferrara, Modena, Milan and Rome), Pisa and da Pisa
(Rome, Perugia, Florence, Ferrara and Milan), da Sanminiato
(Perugia, Florence).
(Collected and translated from the book by Franco Pisa,
“Parnassim, the great Italian Hebrew families from the 11th to
the 19th century”.)
An important ramification of the family has existed in
Bologna since the end of the 13th and through the 14th century.
Min-ha Adumin, translated to De Rossi and Rosselli, is a
family known in Rome and Leghorn. The coat of arms shows
a Levim plate, a reference to the caste of priests, and a
crowned lion, a symbol pertaining to the aristocracy of the old
kingdom of Israel.
Another branch of the family is found in Mantova, Ferrara and
Venice.
The De Pomis, originating from the old Roman family min-ha
Tapuchim, stayed in Rome until 1260, when they transferred
* Anna Rosa Campagnano is historian and researches History of the
Italian Jews in Brazil.
E-mail:[email protected]
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 7
minha história
Genealogia Familiar
Quais as funções da genealogia moderna? Saber quem-é-filho-de-quem,
ou entender as causas das ondas imigratórias de um povo?
O autor, através deste relato pessoal, explica a questão.
Renato Minerbo
P
ara nós judeus, a genealogia tem um sentido muito especial, pois somos o povo que tem a sua história ligada
a uma origem familiar; somos todos descendentes de
Abraão e Sara.
A família é a célula mãe de qualquer sociedade. Sua
genealogia está intimamente atrelada à história do meio no
qual evoluiu. Ao abordar o estudo desta evolução, deparamonos com uma nítida mudança no modo de
relatar, apresentar e interpretar a história.
“Nono Joseph”, como o chamávamos, escolheu o Egito, o
eldorado da época.
Lembro-me de que na véspera do dia de meu Bar-Mitzvah,
percorremos, ele e eu, todas as confeitarias do Cairo à procura
de um típico doce de Corfu, que era oferecido nesta ocasião:
uma cornucópia de biscoito cheia de balas, bombons, guloseimas. Não encontramos, mas ficou a lembrança.
Era o costume da época (ainda hoje
existente em algumas comunidades)
as minorias “importarem” mulheres
Sem citar historiadores da antigüidade,
É importante entendermos o que
da mesma tribo… para ter certeza de
podemos verificar que no início do século,
somos agora, visto o que éramos
que as tradições não se perderiam.
“Isaac e Mallet” ensinavam datas,
em termos de cultura, em
Seguindo essa prática meu avô
números, fatos. Em seguida A. Toynbee,
experiências migratórias causadas
recebeu de Corfu sua esposa, cuja
com longas pinceladas dignas de pinturas
pelas diásporas judaicas
irmã foi enviada à França para casar
modernas, nos levava em poucas páginas a
com um tal de Farhi (que depois mupercorrer séculos, continentes e culturas
dou seu nome para Farchi). O resto
no acompanhamento de povos e impérios.
da família ficou em Corfu e foi dizimada nos campos de
Hoje, o enfoque já é outro: F. Braudel vê a História como um
Auschwitz, salvo um primo de primeiro grau do meu pai que
conjunto de fatores interativos que descrevem cada célula
fugiu para as montanhas, onde se juntou à resistência grega.
(pequena ou grande) nas suas múltiplas facetas. Assim sendo,
Como todos os resistentes europeus durante a 2ª Guerra
se a historiografia evoluiu, também a abordagem da
Mundial, findo o conflito, tinha-se tornado comunista. Acabou
genealogia o fez e o enfoque haverá de assumir novos rumos.
preso pela ditadura grega na ilha de Makronissos. Saiu de lá
para
fazer aliá, tornou-se membro ativo do partido comunista
Não é mais do interesse do pesquisador saber apenas quem é
israeli
e morreu solteiro sem ter perdido o ideal de construir
filho, neto, ou bisneto de quem, descobrir se a família pesquium
mundo
melhor.
sada é de origem nobre ou plebéia. Me parece mais ou tão
importante poder entender o que somos agora visto o que
éramos em termos de cultura, e experiências migratórias causadas pelas diásporas judaicas, o contato com as sociedades
que encontramos e que, ora nos aceitaram, ora nos rejeitaram,
seja via guetos ou campos de extermínio. Olhando a genealogia sob esse ângulo, relatarei meu núcleo familiar.
Enquanto isso, na França, a prima (de l° grau) do meu pai
atravessou a guerra fazendo faxinas nas lojas de móveis do
cunhado; ele era judeu, mas tinha nome de polonês (com o
qual também sobreviveu à ocupação nazista). Morei na casa
dela, quando estudante em Paris. Alegre, gorducha, gulosa,
morreu com 102 anos, sem se preocupar
com o colesterol e outros males do gêEra
o
costume
da
época
nero. A única falha dela foi não ter
Resido no Brasil (onde nasceram meus
transmitido às suas duas filhas nenhuma
“importarem”
mulheres
da
mesma
filhos e netos) há mais de 38 anos, poreceita de doces de Purim, e quase netribo
para
se
ter
certeza
de
que
as
rém nasci, como meu pai, no Egito.
nhuma cultura judaica. Como consetradições não se perderiam
Meu avô por sua vez, nasceu em Corfu
qüência dessa ignorância cultural, as
no fim do século passado, de família
duas moças casaram-se fora da comunivêneta abastada. O seu irmão, provadade,
abandonando-a.
velmente o “dandy” da família (o playboy de hoje), numa
viagem a Milão, foi seduzido pela facilidade de se afortunar na
bolsa. Porém esqueceu-se de que quando uns ganham, outros
têm que perder. Ficou com os perdedores, arruinando a família, e iniciando mais uma onda de imigrações.
8 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
Do Egito tenho duas boas lembranças. A primeira é que ali
casei, em outubro de 1956, com Viviana, cuja mãe nasceu em
Jerusalém, e cujo pai era italiano oriundo da Toscana.
minha história
A segunda é que logo depois de casados fomos expulsos do
Egito pelo ministro da educação que tinha sido convidado ao
nosso casamento. Confiscou nossa gráfica especializada na
impressão de livros escolares, que passou a imprimir material
de propaganda anti-judaica: “era mais prático…” E foi no
“S.S.Augustus”, em dezembro de 1956, que revivemos
literalmente a frase repetida há séculos na primeira noite de
Pessach: “Cada um de nós deve considerar-se como se tivesse
ele mesmo saído do Egito…” Assim sendo, Moisés saiu do
Egito nos tempos dos Faraós. Lá estava o “Nono Joseph” de
volta à época de Hitler, e de lá saímos novamente por vontade
de Nasser. Haja analogia!
Tentando resumir minha visão de genealogia familiar, posso
dizer que de Corfu até São Paulo, via Egito, meu núcleo, em
menos de 100 anos foi, a partir de uma linda ilha grega, desmembrado, destroçado e dispersado. Em Corfu foi dizimado,
do Egito foi expulso, na França foi assimilado e em Israel foi
sepultado.
Nos nossos “genes” foi programada a ferida do holocausto, o
idealismo do revoltado, o conformismo do assimilado, e o
instinto de vida e sobrevivência do emigrado.
Esta é parte da “minha” genealogia familiar, a que recebi e estarei transmitindo aos meus descendentes. Não é nada extraordinário ou digno de pesquisa e estudo. É provavelmente a genealogia de boa parte das famílias judias e porque não dizer do
povo judaico.
Logo depois de casados fomos
expulsos do Egito pelo Ministro da
Educação — que tinha sido convidado
ao nosso casamento
Se você tem uma história interessante para contar, escreva para a redação de
Gerações / Brasil, colocando no envelope a Sigla “MINHA HISTÓRIA”.
Ou envie por e-mail para: [email protected]
personalidades
Com certeza você conhece o empresário Benjamin Steinbruch, o “barão do aço”, mas não
sabe nada de Isaac Benayon Sabbá — nascido
em Belém, em 12 de fevereiro de 1907, filho de
Primo e Fortunata Sabbá — e é normal, pois,
pouco sabemos da região amazônica. I. B. Sabbá foi certamente o empresário mais importante desta região. A sua atividade criadora permitiu que ele, de um começo extremamente
modesto, chegasse a ser um dos homens mais ricos deste país,
possuindo em torno de quarenta empresas. A história de
Sabbá e de outros judeus de origem marroquina, que fizeram
a vida na região amazônica foi escrita por Samuel Benchimol
na monografia “Judeus no Ciclo da Borracha” (Manaus,
1994, 75 páginas, datilografada).
Artur Carlos de Barros Basto (1887-1961), capitão do Exército Português, tinha tudo para alcançar os mais altos postos
de sua carreira: valente, fora condecorado em campos de batalha da I Guerra Mundial; pesquisava e escrevia com facilidade, e era um republicano de primeira. Mas perdeu tudo ao se
dedicar à reintegração dos criptojudeus portugueses ao Judaísmo. A trágica história deste homem está contada no livro
“Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Basto, O Apóstolo
do Marranos” (Porto, l997, 300 pp.), de Elvira de Azevedo
Mea e Inácio Steinhardt. Utilizando farta documentação oficial do arquivo pessoal do próprio Cap. Barros Basto, o livro
busca esclarecer o complô que destruiu a carreira deste idealista. [Edições Afrontamento, rua Costa Cabral, 859, Porto,
Portugal, tel. 529271].
Completa neste ano o centenário do artigo “J’Accuse” de
Emile Zola, publicado no jornal parisiense “L’Aurore” (1301-1898), que defendia apaixonadamente o capitão Dreyfus,
do Exército Francês, acusado e julgado culpado de traição
quatro anos antes. Alfred Dreyfus (1859-1935), um judeu de
origem alsaciana, foi tomado como bode expiatório, numa
conspiração urdida por outros oficiais, para salvar o verdadeiro traidor, um nobre de origem húngara. Desonrado, preso
e banido para uma ilha-prisão, logo se formaram, em volta de
Dreyfus, dois partidos, um contra e outro favorável a ele, todos
lutando de forma passional. Um de seus primeiros defensores, foi o jurista baiano Rui Barbosa,
que entrou na luta, defendendo-o de Londres. O
caso Dreyfus foi um dos incentivos ao movimento sionista de Theodor Herzl.
A família Castro, de Recife — Manuel Castro,
vindo de Kishinev (Bessarábia), viveu em Recife,
onde viria a falecer com menos de 30 anos. A
lápide mortuária registra que ele nasceu em 5653
e morreu em 5682. A estranheza está no uso do
sobrenome ibérico, por um judeu de origem ashkenazi e
fartamente aparentado neste mesmo grupo. Nenhum de seus
descendentes sabe explicar como surgiu o nome Castro na
família. Recorrendo aos poucos registros que existem (a lápide
citada), descobre-se que ele chamava-se religiosamente: Meir
b. Yossef Castro — e nada mais. Outra curiosidade é que seus
descendentes e parentes, filho, netos e primos, formam uma
dinastia de médicos homeopatas, espalhados pelo Brasil. O
escritor Leôncio Basbaum (Recife, 6-11-l907 – S. Paulo, 1703-1969), aliás Jeremias Cordeiro, ou Augusto Machado,
primo destes Castros, também foi médico homeopata. (Inf. de
Diva Masur, Recife).
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 9
curiosidade
A Matemática dos Ancestrais
Talvez a teoria de Adão e Eva não seja tão absurda.
Você tem um ancestral em comum com toda a população da terra.
Basta observar os cálculos deste artigo para descobrir que você tem um
primo na África, na Ásia... ou mesmo na esquina de sua casa!
Autor: Richard Panchyk
Tradução: Alain Bigio
A
maioria dos genealogistas sabe que casamentos entre
primos de primeiro e segundo graus eram comuns no
passado. Mesmo hoje há muitos casos que podem ser
encontrados em muitas comunidades. O que talvez não nos
damos conta é o papel dramático de casamentos entre primos
ao longo da história da humanidade.
rações, verificamos que por volta do ano 1245 a população da
Terra teria que ter mais de 134 milhões de pessoas só de parentes diretos e isto é mais gente do que a população do planeta naquela época (Tabela 1).
Imagine uma árvore genealógica como é, isto é, como uma árvore. Cada ramo, à medida que cresce, tem mais ramificações.
Se um casamento ocorre entre primos de nossos ancestrais,
então o cume da árvore estaria um pouco mais estreito, pois
primos compartilham de mesmos avós. Se ocorrerem muitos
casamentos entre primos, isto provocaria um estreitamento
ainda maior.
Sociedades tribais e outras comunidades fechadas do passado
tendem a ter laços familiares bastante estreitos entre si. Os
grupos eram tipicamente pequenos devido à logística biológica
(algo que biólogos chamam de “capacidade de carga”). É
óbvio que casamentos fora do grupo ocorriam também,
criando variedade genética dentro do
grupo e aumentando as chances de soCada um de nós possui uma árvore
brevida. Os motivos são complexos,
mas para mantermos a brevidade, pogenealógica em forma de losango:
dem ser reduzidos a poucas frases.
negar casamentos entre primos em
Cada um de nós possui uma árvore em
forma de losango. Em algum ponto,
nossa árvore atinge o ponto mais largo,
mas daí em diante é necessário que se
estreite. A época em que ocorre é por
nossas árvores é um mito
hipótese entre as gerações 20 e 35 para
Os traços genéticos malévolos carregaa maioria das pessoas oriundas da Eudos como genes recessivos por um dos
ropa (Judeus e não Judeus). Talvez a
pais não serão repassados à próxima geteoria de Adão e Eva não seja tão absurda assim! O efeito do
ração se o outro pai possui traços benevolentes que se socasamento entre primos pode ser visto na Tabela 2. Em escala
breponham aos genes perigosos. Se ambos pais possuem o geainda maior, isto poderia ter o efeito de um estreitamento
ne malévolo como recessivo, a probabilidade do filho dedramático da árvore. Estima-se que a população ashkenazi (?)
senvolver este defeito ou mutação é grande.
foi reduzida a cerca de 97 mil no ano 70 da Era Vulgar4. CasaEm populações onde o casamento endogâmico é comum, tais
mento endogâmico portanto é um fato. Somos todos parentes.
doenças são um grande perigo, mas ao contrário da crença
popular, casamento entre primos não é um perigo sério para a
Para demonstrar isto busquei solução para este problema em
transmissão desses defeitos genéticos. Para que isto aconteça,
outra direção (Tabela 3). Tomando os 4096 ancestrais da 13ª
a endogamia precisa ser muito mais intensa. Testemunha disto
geração, avancei de acordo com certas regras para mostrar
disso é a família Habsburg e toda a realeza européia.
quantos primos deveremos ter. Como pode ser visto, isto chega ao absurdo de 20 milhões de pessoas. A bem da verdade,
Negar casamentos entre primos em nossas árvores genealógieste número é reduzido, devido a fatores tais como guerras,
cas é um mito. Alguém postulou uma vez que somos 50. Pridoenças e horrores como o Holocausto. Ainda assim, não é
mo um do outro (exceto para os grupos mais isolados, os “puabsurdo afirmar que se um ashkenazi encontrar outro, totalros”, dos quais poucos ainda existem). Isto significa que se vomente estranho na rua, em algum lugar do mundo, os dois são
cê considerar a você mesmo como a primeira geração e recuar
provavelmente primos de 10 graus pelo menos.
até a geração 52, você tem um ancestral em comum com toda
a população da terra. Basta encontrar um ancestral comum entre
Esse artigo foi publicado originalmente em inglês na revista AVOTAYNU,
centenas de milhares e você terá um primo na África ou Ásia.
spring 97 e traduzido sob autorização do autor e editor
O motivo dos casamentos entre primos tinha que acontecer e
freqüentemente ocorreu. Tinha que ocorrer, pois se não acontecesse os números não estariam corretos. Como todos sabem,
possuímos dois pais biológicos, quatro avós biológicos e assim
por diante. Se estendermos este raciocínio por algumas ge10 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
4 Cada um dos cerca de 14 milhões de judeus contemporâneos descendem
quase certamente de um dos 97 mil sobreviventes da guerra contra Roma
que, de acordo com Flávio Josefo cairam da Palestina após o ano 70. V.
Alex Schoumatoff, The Mountain of Names (N.Y., 1990).
curiosidade
A menos que se descenda da realeza ou de uma grande família rabínica, é improvável que encontremos um parente mais afastado
do que de 10º grau, não importa quanto pesquisemos. Isto nos mostra o tamanho de nossa família. À medida que você encontra
primos de 4, 5, 6, 7, 8 e 9 graus, você aumenta a sua própria definição de genealogia. E daí? O que significam esses números para
um genealogista judeu? Nunca faça pouco de uma informação. Alegre-se que as conexões entre nós são mais próximas do que
pensamos. Elas têm que ser; é assim mesmo que as coisas são.
Tabela l – Quantidade de Ancestrais Sem Endogamia
Tabela 2 – Número de ancestrais considerando apenas um
casamento entre primos de 1º grau
Geração
Quantidade
de ancestrais
Graus de
parentesco
Ano
Geração
Quantidade
de ancestrais
Graus de
parentesco
Ano
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
1
2
4
8
16
32
64
128
256
512
1.024
2.048
4.096
8.192
16.384
32.768
65.536
131.072
262.144
524.288
1.048.576
2.097.152
4.194.304
8.388.608
16.777.216
33.554.432
67.108.864
134.217.728
268.435.456
536.870.912
Você
Pais
Avós
Bisavós
Trisavós
Tetravós
Pentavós
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28 avós
1970
1945
1920
1895
1870
1845
1820
1795
1770
1745
1720
1695
1670
1645
1620
1595
1570
1545
1520
1495
1470
1445
1420
1395
1370
1345
1320
12955
1270
1245
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
1
2
4
6
12
24
48
96
192
384
768
1.536
3.072
6.144
12.288
24.576
49.152
98.304
196.608
393.216
786.432
1.572.864
3.145.728
6.291.456
12.582.912
25.165.824
50.331.648
100.663.296
201.326.592
402.653.184
Você
Pais
Avós
Bisavós
Trisavós
Tetravós
Pentavós
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28 avós
1970
1945
1920
1895
1870
1845
1820
1795
1770
1745
1720
1695
1670
1645
1620
1595
1570
1545
1520
1495
1470
1445
1420
1395
1370
1345
1320
1295
1270
1245
Se a probabilidade de ocorrer um
casamento entre primos em 1000, a
redução no número de ancestrais
seria enorme
5 Neste ponto, o número calculado, é maior que a população mundial.
Aparecem 75% de ancestrais por causa de um só casamento
endogâmico. Se a probabilidade de ocorrer for de 1 para 1000,
a redução no número de ancestrais seria enorme. Na 17 geração do príncipe Charles, quando ele deveria ter 65.536 ancestrais, ele tem cerca de 23 mil (35 %), isto por causa do casamento entre primos6. Deste total, um genealogista identificou
2.800 ancestrais, 1.995 seriam descendentes de uma mesma
pessoa, Eduardo VIII. Isto significa que mesmo, mais para trás,
a porcentagem de progenitores é reduzida ainda mais, por um
número maior de casamentos entre primos.
6 Shoumanoff, ob. Cit., p. 234.
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 11
curiosidade
A Teoria da Relatividade
Vimos quantos ancestrais temos. E parentes em geral? Quantos primos temos? Começando na geração 13, e considerando
apenas 60% dos progenitores por causa de casamentos endogâmicos, calcularemos quantos parentes deveríamos ter na geração n.1 e verificar quantos descendentes haveria na 13 geração. Assumimos que a população dobra a cada geração.
3
Σ xy
2
α+∆
=
Tabela 2 – Estimativa do Número de Parentes
Geração
Número de parentes
13
12
11
10
09
08
07
06
05
04
03
02
01
2.458
4.916
9.832
19.664
39.3288
78.656
157.312
314.624
629.248
1.258.496
2.516.992
5.033.984
10.067.968
Cerca de vinte milhões dos descendentes da geração 13 são
seus parentes!
O tradutor, Alain Bigio é engenheiro químico.
E-mail: [email protected]
in memorian
Faleceu em Jerusalém (20-01) o vice-primeiro-ministro de Israel, Zevulun Hammer, de 61 anos, sabra de Haifa, líder do Partido
Nacional Religioso, acumulava também o ministério da Educação, Cultura e Esportes, e que segundo o presidente Weizman, era
“um líder que sabia como integrar a herança sionista a religiosa”. O ministro Hammer era casado e tinha quatro filhos.
Faleceu em S. Paulo (12/02) Josef (Yoske) Zilberberg, nascido Luck, Polônia em 4 de fevereiro de 1913, filho de Jakow Oizer e
Pezia Jenta Zilberberg, casado com Mnicha Brukowicz. Era um idichista. Deixou descendência. Foi sepultado no Cemitério
Israelita do Butantã.
Faleceu em New York (31-03), onde nascera em 1920, a advogada Bella Abzug (née Savitzky), filha de Emanuel e Esther
Savitsky. Ela foi a primeira judia a ser eleita para o Congresso norte-americano, onde esteve entre 1971 a 1977, representando o
movimento feminista. Foi casada com Martin M. Abzug e deixou duas filhas. Sua última participação foi na Conferência Mundial
sobre a Mulher em Pequim, em 1995.
Faleceu em São Paulo, em abril, o Rabino Abraham Hamu, aos 88 anos, líder espiritual dos judeus da Amazônia durante décadas.
Vivia em Belém do Pará onde fica uma das mais antigas sinagogas brasileiras. Foi casado com Estrella Hamu e deixou os filhos,
Manassé Hamu e Ruth Hamu Shalem. Deixou também netos e netas. O enterro realizou-se no Cemitério Israelita do Butantã , em
São Paulo.
Faleceu em Tucson (17/04), a fotógrafa Linda Eastman, nascida em Scarsdale (NY), em 1941, filha de Lee Eastman (n. Epstein) e
Louise Lindner, neta materna de Max Joseph Lindner e Stella Dryfoos. Ela era casada com o ex-Beatle, Paul McCartney, desde
1969. Deixa filhos: Mary, Stella e James.
Faleceu em S. Paulo (19-04), onde nascera, o engenheiro Sérgio Roberto Vieira da Motta, ministro das Comunicações, aos 58
anos. Ele era filho de José e Noêmia Vieira da Motta. Católico de formação, ele pertenceria a “uma família de cristãos-novos”, de
origem portuguesa (cf. “Motta acende velas para si e para FHC”, Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 30-05-1997, p. 1-8). Casado,
deixou filhas.
Faleceu em Phoenix (29-05), onde nascera em 1 de janeiro de l909, Barry Morris Goldwater, político conservador norte-americano, neto de um judeu polonês. Eleito senador em 1952, esteve na vida pública até 1987, sempre à Direita, até mesmo do Partido
Republicano, pelo qual foi candidato a Presidente da República. Goldwater deixou filhos e netos.
12 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
memória
Elias Lipiner Z”L (1916-1998)
Prof. Reuven Faingold
Conheci Elias Lipiner há quase 16 anos no “Oitavo Congresso Mundial de Ciências Judaicas” realizado em Jerusalém.
Estava escrevendo minha tese de mestrado sobre “Judeus e Judaísmo em João de Barros” e já tinha lido uma boa parte de
suas pesquisas. De imediato, fiquei maravilhado com a clareza
e erudição de suas obras.
Lipiner, nascido na Romênia, foi advogado, filólogo, ensaísta
e historiador. Pelo seu profundo conhecimento e domínio dos
temas, poderia ter lecionado em qualquer Universidade, embora sempre preferiu manter distância das intrigas do mundo
acadêmico. Homem modesto por natureza, Elias — como costumava chamá-lo — dedicava seu tempo a debruçar-se sobre
os mais diversos assuntos da cultura luso-brasileira.
Suas obras, algumas delas extremamente curiosas, abordam temas diferentes, a saber: a história dos cristãos novos no Brasil
e Portugal, a jurisprudência portuguesa, o messianismo e o sebastianismo, historiografia judaica em Portugal, belas biografias de judeus na era dos descobrimentos, o significado oculto
das letras do alfabeto hebraico, a Cabala e o misticismo judaico, etc.
Lipiner estava trabalhando na preparação de mais duas obras:
1) Batizados em pé. Estudos sobre a conversão forçada em
Portugal e 2) uma segunda edição ampliada de Santa Inquisição: Terror e Linguagem, publicada anteriormente em 1977.
Foi Elias quem me ensinou que “a cultura é patrimônio público”, pois ela não tem dono e cabe a cada pessoa chegar até
ela. Era esta, talvez, a frase que melhor sintetizava a visão de
mundo desta maravilhosa personalidade.
Elías Lipiner não se encontra mais entre nós. Ficou fortemente
gravada na minha memória a imagem do “mestre”, do erudito,
e principalmente do amigo. Agora, fica um enorme vazio na
historiografia luso-brasileira como também na historiografia
judaica. Acredito que este espaço demorará a ser preenchido
novamente.
Iehi zichró baruch (Que seu nome seja abençoado).
Começou ainda jovem com breves estudos em iídiche, a sua
primeira língua de pesquisa. Logo depois adotou o português,
chegando a um domínio completo, divulgando assim pesquisas significativas:
1. Os judaizantes nas capitanias de cima, São Paulo 1969.
2. Santa Inquisição: Terror e Linguagem, Rio de Janeiro 1977.
3. O tempo dos judeus segundo as Ordenações do Reino, São
Paulo 1983. (Prêmio de História da Academia Paulistana de
História).
4. Gaspar da Gama, um converso na frota de Cabral, Rio de
Janeiro 1987.
5. Izaque de Castro, o mancebo que veio preso do Brasil,
Recife 1992.
6. As letras do alfabeto na criação do mundo, Rio de Janeiro
1992. (versão resumida de sua opus magnum, escrita em
hebraico “Chazon há-otiot”, intitulada em inglês: The
Metaphysics of the Hebrew Alphabet, Magnes Press,
Jerusalem 1989)
7. O sapateiro de Trancoso e o alfaiate de Setúbal, Rio de
Janeiro 1993.
Elias Lipiner (1916-1998)
“A cultura é patrimônio público”
Elias Lipiner
8. Gonçalo Anes Bandarra e os Cristãos Novos, Trancoso 1996.
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 13
pesquisa
Os Mesquitas: subsídios para uma genealogia
trasmontana — um documento inédito
A partir de pesquisa realizada em Portugal, foi possível ao Gerações/Brasil descobrir
o paradeiro de um documento que faltava para completar uma parte da genealogia dos Mesquitas
Paulo Valadares*
N
o último número de Gerações / Brasil, publicamos uma genealogia brasileira da família Mesquita, originária de Campinas,
cujo ádvena e tronco é o comerciante português Francisco Ferreira de Mesquita, nascido em Relvas, na região de Vila Real,
nos Trás-os-Montes, em 1838. A sua certidão de óbito7 omite os nomes de seus pais e toda a bibliografia referente à família
é imprecisa; para alguns é apenas o capitão Monteiro e uma senhora Mesquita. Apenas João Gabriel de Sant’Ana é positivo: os
pais de Francisco seriam o capitão Francisco Monteiro e Maria Mesquita8. Mas as informações param por aí e Sant’Ana não diz
de onde tirou estas informações. Insatisfeitos com elas, procuramos o Arquivo Distrital de Vila Real e ali foi localizado um registro
paroquial que nos permite identificá-lo genealogicamente.
Graças ao Sr. Manuel Silva Gonçalves, diretor do Arquivo Distrital de Vila Real, a quem agradecemos pela gentileza, foi recuperado um assento de batismo, firmado pelo Cura de Relvas, onde surge sem nenhum mistério o nosso personagem. Ele é Francisco, filho de Joaquim Ferreira Monteiro e Luíza Margarida Pereira da Mesquita, neto paterno de José Joaquim Ferreira e Luíza
Maria, neto materno de José Álvares da Mesquita e Helena Maria, nascido em Relvas, freguesia de San Christóvão de Parada de
Cunhos, em 9 de fevereiro de 1838. O padrinho do batizado é Francisco Manoel de Moraes Sarmento Pinto da Mesquita, abade de
San Cosme do Valle, no arcebispado de Braga, que talvez seja o tio padre e tutor dos órfãos, mencionado no primeiro artigo.
Atestado de batismo de Francisco Ferreira de Mesquita (1838)
* Paulo Valadares é historiador, e vive em Campinas.
E-mail: [email protected]
7 Certidão de Óbito nº 4518, fl. 81 (v), livro C-8, Cartório de Registro Civil de Itapira, “Francisco Ferreira de Mesquita, falecido a 20 de Dezembro de 1898,
às 19:30, nesta Cidade, à rua Comm. João Cintra, de sexo masculino, de cor branca, profissão lavrador, natural de Relvas, Portugal, domiciliado e residente
em São Paulo, S.P., com sessenta anos de idade, estado civil casado, filho de NÃO CONSTA DO TERMO e de NÃO CONSTA DO TERMO.”
8 João Gabriel Sant’Ana. Genealogia Sebastianense (S. Paulo, 1976), p. 278.
14 • GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2
direto da fonte
Agenda do Genealogista • Portugal
Onde encontrar registros de casamentos, óbitos, nascimentos, e outros documentos em Portugal
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Angra do Heroísmo — Bibl. Pública e Arquivo – Palácio Bettencourt – Rua da Rosa, 49 – 9700 Angra do Heroísmo
Aveiro — Arquivo Distrital – Praça da República – 3800 Aveiro Tel. (034) 21998
Beja — Arquivo Distrital – Av. Vasco da Gama – 7800 Beja Tel. (084) 26311
Braga — Bibl. Pública e Arq. Distrital – Largo do Paço – 4700 Braga Tel. (053) 22129
Bragança — Bibl. Pública e Arq. Distrital – Largo de S. Francisco – 5300 Bragança Tel. (073) 28260
Castelo Branco — Arquivo Distrital – Rua de S. Marcos, 3 – 6000 Castelo Branco Tel. (072) 23856
Coimbra — Arquivo da Universidade – Rua de S. Pedro – 3000 Coimbra Tel. (039) 25422
Coimbra — Biblioteca Geral da Universidade – Largo da Porta Férrea – 3000 Coimbra Tel (039) 25541/2
Évora — Bibl. Pública e Arq. Distrital – Lag. Conde Vila Flor – 7000 Évora – Tel. (066) 22369
Faro — Arquivo Distrital – Rua de S. Pedro, 12 – 8000 Faro Tel (089) 25457
Guarda — Arquivo Distrital – Largo Gen. Humberto Delgado – 6300 Guarda Tel. (071) 21 629
Horta — Bibl. Pública e Arquivo – R. Dom Pedro IV, 25-1-9900 – Horta
Leiria — Bibl. Pública e Arq. Distrital – Largo da República – 2400 Leiria – Tel. (044) 824110
Lisboa — Academia Portuguesa de História – Palácio da Rosa, Lg. da Rosa, 55, – 1100 Lisboa Tel. (01) 8884997
Lisboa — Arq. Histórico do Min. das Finanças – Rua de Sta Marta, 61-E – 1100 Lisboa Tel. (01) 55 64 06
Lisboa — Arq. Nacional da Torre do Tombo (ANTT) – Alameda da Universidade – 1700 Lisboa Tel. (01) 793 72 28
Lisboa — Arquivo Histórico Militar – Largo do Caminho de Ferro – 1100 Lisboa
Lisboa — Associação Portuguesa de Genealogia – Av. Rossano Garcia, 45, 6. Esq. – 1700 – Lisboa Tel 3815430 Fax 3815439
Lisboa — Bibl. da Academia das Ciências – Rua da Academia das Ciências, 19 – 1200 Lisboa Tel. (01) 3699 83
Lisboa — Bibl. da Ajuda – Palácio da Ajuda – 1300 Lisboa Tel. (01) 63 85 92
Lisboa — Bibl. Genealógica “Estaca de Lisboa” – Av. Gago Coutinho, 93 – 1700 Lisboa Tel. (01)80 69 55
Lisboa — Bibl. Nacional – Campo Grande, 83 – 1700 Lisboa Tel. (01) 73 50 47
Ponta Delgada — Bibl. Pública e Arquivo – Convento da Graça – Rua Ernesto do Canto – 9500 Ponta Delgada
Portalegre — Arquivo Distrital – Quartel de S. Francisco – 7300 Portalegre Tel. (045) 22 975
Porto — Arquivo Distrital – Praça da República, 38 – 4000 Porto Tel. (02) 200 40 02
Porto — Bibl. Pública Municipal do Porto – Rua D. João IV – 4100 Porto
Santarém — Arquivo Distrital – Rua Passos Manuel – 2000 Santarém Tel. (043) 24 431
Setúbal — Arquivo Distrital – Rua Dr. Gama Braga, 15 – 2900 Setúbal Tel. (065) 26 500
Viana do Castelo — Arquivo Distrital – Rua Manuel Espregueira, 140 – 4900 Viana do Castelo Tel. (058) 82 97 39
Vila Real — Bibl. Pública e Arq. Distrital – Av. Almeida Lucena, 5 – 5000 Vila Real Tel. (059) 74 661
Viseu — Arquivo Distrital – Largo de Sta Cristina – 3500 Viseu Tel. (032) 42 43 6
family finder
Nomes de família e respectivas localidades de origem que são objeto de procura pelos nossos sócios. Caso você tenha
(ou queira) alguma informação, escreva para a redação de Gerações / Brasil.
Akerman; Ucrania, Romenia,
N York
Amaro; Lixa, Porto
Assumpção; Portugal
Bartenstein; Ratibor, Breslau
Basbaum; Kishinev (Moldavia)
Basto(s); Cabeceiras de
Basto, Lixa, Porto
Bastos; Brasil
Bauerman; Alemanha
Belik; Polonia
Belk; Polonia
Berman; Polonia
Bezerra; Fortaleza
Bick ; Shargorod - Ucrania
Bitelman; Kishinev
Bitelman; Orghev
Bravo; Porto
Breves; São Jorge, Açores,
ca.1720
Brissac; França
Bussolo; Itália, Brasil
Caldeira; Vila do Conde
Carlos; Pernambuco
Carlos; Rio de Janeiro
Carneiro Santiago; Lambari,
Carmo de Minas
Carrasqueira; Vila Nova de
Paiva, Viseu, S.José do Rio
Preto
Carvalho da Silva; Poço
Fundo (Minas Gerais)
Castro; Bessarabia
Coan; Irlanda do Norte
Comper; Tirol, Itália, Brasil
Cowan / Cowen; Irlanda
Czyzyk; Polonia (?)
Debiasi; Tirol, Itália, Brasil
Della Giustina; Itália, Brasil
Dimenstein; Lodz (Polonia)
Dozza; Italia
Eckstein; New York
Eiger; Wiersbinik (Pol)
Feigenbaum; Shargorod (Ucr)
Farber; Polonia, Israel, USA
Faustino Carlos; Paraiba do
Sul
Ferreira Mendes; Eloy
Mendes
Foá; Italia
Fonseca; Vila Nova de Paiva,
Viseu, S.José do Rio Preto
Franco; Uruguay
Fuhrman; Ucrania, São Paulo,
Rio de Janeiro
Furtado; Portugal, França
Galperin; Lublin
Gelfond; New York
Genezio; Bessarabia
Gitelman; Polonia
Goldfeld; Krashnik (Pol)
Goldman; Varsóvia
Goldsmith; New York
Goulart Brum; Eloy Mendes
Grimberg; Mir, Minsk
Griner; Ostrowiecz (Pol)
Haritoff; Russia, ca.1840
Heine-Furtado; França
Hertz; Alemanha
Hinkel; Alemanha
Israel; Cairo, Egito
Jacobovitz; Lodz (Polonia)
Jacques; Flandres, França,
ca.1760
Junckes; Brasil
Jungklaus; Alemanha, Brasil
Kahn; Alemanha, Israel, USA
Kastro; Bessarabia
Katz; Polonia, Israel, USA
Kaufman; Odessa (Russia)
Kaufman; Satanov (Russia)
Kaushansky; Kishinev
Khinkes; Dubossary Moldavia
Kleiman; Russia
Kunze; Dunan Jvards, Hungria
Kunze; Prichowitz, Liberec,
Jablonec
Lacerda; Portugal
Layner; Polonia, Israel, USA
Lessner; New York
Maghidman; Soroki - Moldavia
Malay; Yedenits, Bessarabia
Marques; Vila Nova de Paiva,
Viseu, S.José do Rio Preto
Massarani; Italia
Mendes; Rio de Janeiro,
ca.1860
Mexias; Piraí, RJ, ca.1860
Michels; Nagyszentmiklos
(Rom)
Michels; Phugar, Hungria
Michels; San Nicolaul,
Romenia
Moracsohn; Putzig - Polonia
Moretzshon; Putzig - Polonia
Niemeyer; Rio de Janeiro,
ca.1890
Nobrega; Praia do Almoxarife,
Faial
Oliveira; Abaíra, Bahia
Oliveira; Mucugê, Bahia
Oliveira; Rio de Contas
Perri; Italia
Pinkuss; Egeln, Magdeburg
Pistori; Italia
Rawet; Alemanha, França,
Polonia
Regen; Polonia
Rodius; Alemanha, Brasil
Roitman; Polonia
Rosenblum; Studhof
Saffons; Uruguay
Schweich; Alemanha, ca.1870
Schweitzer; New York
Szczvpak; Chelm (Pol)
Szyfman; Koruv (Pol)
Taitelbaum; Radom (Pol)
Taublib; Krashnik (Pol)
Tepler; Polonia (?)
Tribuch; Vilna, Mir, Minsk,
Odessa
Tribur, Triboir; Vilna, Mir,
Minsk, Odessa
Trindade; Vila Nova de Paiva,
Viseu
Utchitel; Caracas, Venezuela
Valle; São Sebastião, ca.1820
Varão; Brasil, Portugal
Varon; Espanha, Turquia
Veit; Göppingen
Waksman; Philadelphia, New
York, Miami
Waserman; Studhof
Woitowich; Polonia
Xavier; Espanha
GERAÇÕES / BRASIL, Junho 1998, vol. 4, nº 2 • 15
internet & informática
JewishGen (www.jewishgen.org) é o foro oficial na Internet
sobre Genealogia Judaica. Ele foi criado por Susan King.
Qualquer pessoa que tenha um e-mail pode receber gratuitamente as
mensagens contendo as suas discussões. Basta mandar uma
mensagem a [email protected], colocando apenas no corpo do
e-mail: sub jewishgen (nome) (sobre-nome). Não é preciso assinar. A
confirmação, deve ser feita após comunicação do JewishGen,
também de forma padrão, mandando a seguinte mensagem: set
jewishgen mail=digest
Há na Internet uma Lista de Discussão chamada Genealogia
no Brasil, que pode começar com sua mensagem sendo enviada para [email protected] — ela será distribuída para
todos os participantes da lista, que poderão responder ou mesmo comentá-la; de volta à lista, ela voltará a ser redistribuída, estabelecendo-se a discussão. Explicando o seu funcionamento, os rudimentos da
pesquisa genealógica e onomástica, há três artigos bem humorados de
Rubens R. Câmara (www.enfoque.com/genealogia).
Cobra Family Genealogy Home Page”
“The
(www.geocities.com/Athens/Acropolis/3515) descreve os
descendentes brasileiros do português Domingos Rodrigues Cobra
(Almada, 1670 — Almada, 1749), procurador do Conde de Assumar
no Brasil, e outros portadores deste sobrenome incomum. A família
Cobra seria cristã-nova e chegou a Lisboa vinda de Lamego, num
momento em que a ação do Santo Ofício semeava o pânico na sua região de origem. No Brasil ela misturou-se aos Lemes e aos Nogueiras,
aparentando-se às famílias proeminentes. Um de seus descendentes
mais conhecidos é o escritor Oswald de Andrade. [Maria José
Távora e Rubem Queiroz Cobra, cx. Postal n. 1988, Brasília, DF,
70259-970, ou [email protected]].
Visite nossa Home Page:
http://www.lookup.com/homepages/82259/sgjbpage.htm
expediente
GERAÇÕES / BRASIL
é uma publicação semestral da
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