128
Revue
Out of Africa
É um dos mais carismáticos Professores da Universidade de Évora, bem conhecido
das várias gerações de alunos de Engenharia Zootécnica, e das novas de Medicina
Veterinária. Figura ímpar da Mitra, esguio, de barbas brancas e memória de elefante,
Victor Caeiro vê-se como um homem de direita, marcado pela “Revolução de Abril”
que o fez perder o emprego e a África que amava. Apesar da reforma, e dos vetustos
setenta e sete anos, trabalha de sol a sol naquilo que mais gosta: a Parasitologia
V
ictor Manuel Paes Caeiro nasceu em
Évora a 17 de Dezembro de 1929, tendo-se casado no Estoril no dia em que
fazia trinta anos (17 de Dezembro de 1959)
com a Dra. Judite.
Frequentou o antigo Liceu Nacional André
de Gouveia de 1940 a 1946, situado, então,
nos claustros do Colégio do Espírito Santo.
Regente Agrícola pela Escola de Regentes
Agrícolas de Évora (ERAE), que frequentou
entre 1946 e 1949, acabou realizando o 8º ano
na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra.
Esta frequência permitiu-lhe a entrada na
Escola Superior de Medicina Veterinária
de Lisboa (ESMV), dispensado de exame de
admissão, no ano lectivo de 1949/50, vindo a
terminar a licenciatura em 1955. Ali permaneceu como assistente voluntário até Maio
de 1956, onde leccionou as cadeiras Parasitologia e Entomologia, Clínica das Doenças
Parasitárias e Parasitologia Tropical.
“O Feitiço do Império” (1955-1962)
Da primeira vez que visitou África tinha
vinte e seis anos. Foi em 1955, a bordo do
“Império”, um dos navios da Companhia
Colonial de Navegação que, juntamente com
o “Pátria”, faziam o curso entre a metrópole
e as colónias. Da sua amurada viu as costas
da África Ocidental. No “Angola” foi de
Moçâmedes para Lourenço Marques, mas
ao contornarem o enorme maciço rochoso
da Cidade do Cabo (Cabo da Boa Esperança
ou Tormentoso), rumo a Moçambique, apanharam os navegantes uma enorme borrasca
que “a todos muito assustou”, como conta
nas suas memórias. A viagem, que durou
quase dois meses, foi feita na companhia de
oito colegas, finalistas, como ele, do curso
de Medicina Veterinária de Lisboa. Para
sempre lhe ficou a recordação, indelével, foi
amor à primeira vista, o “feitiço do império”
fez-se sentir logo ali, marcando o que viria
a ser a sua vida:
“África nasceu para mim em 1955. Quando
acabei o meu curso, cá na antiga Escola Superior de Medicina Veterinária de Lisboa, fomos
fazer uma excursão de fim de curso, tenho
ainda a medalha que a minha mãe me deu,
a 2 de Agosto, quando partimos de cá, e desde
então fiquei com uma paixão por aquilo!”
Começou por trabalhar na África do Sul, em
Onderstpoort, Pretória, no Veterinary Research Laboratories, como bolseiro da Fundação
Calouste Gulbenkian, entre Janeiro de 1958
e Maio de 1959. Visitou Moçambique entre
Junho e Julho desse ano, dando particular
atenção às actividades de combate às Tripanosomíases, percorrendo toda a província
nos locais onde se encontravam os Sectores
da Missão de combate aquela doença.
Revue
129
130
Revue
Já em Angola, de Agosto a Outubro de 1959,
iniciou no Laboratório Central de Patologia
Veterinária de Nova Lisboa os trabalhos conducentes à sua dissertação de doutoramento
com o material que tinha recolhido em Angola. Neste período teve ainda oportunidade
de visitar a Companhia dos Diamantes de
Angola, e o Laboratório de Biologia no Dundo, onde procedeu à captura de parasitas.
De Julho a Setembro de 1960 voltou a Nova
Lisboa para dar continuação aos trabalhos
iniciados em 1959. De novo nos conta:
“Fiquei em Lourenço Marques depois da
excursão ter acabado. Depois beneficiei da
possibilidade de ter uma bolsa dada pela
Fundação Gulbenkian para ir para a África
do Sul, onde estive num laboratório em Pretória, no Onderstepoort Research Laboratories,
a trabalhar um ano e meio. Quando voltei
para Lisboa, acabei por fazer o meu doutoramento com o material que havia recolhido
em Angola em 1962 doutorei-me.”
O Retorno a África (1963 a 1975)
Doutorado em Ciências Médicas Veterinárias,
mediante provas públicas realizadas em
Junho de 1962 na ESMV, ficou apesar disso
desempregado, por não ter sido contratado por
falta de proposta do responsável das matérias
que leccionava. O conflito com o orientador, e
responsável pelas cadeiras que dava, começara ainda durante a realização da tese:
“Estava na ESMV de Lisboa em Março de 1962
quando fui convidado a fazer uma palestra
sobre o ensino da medicina veterinária no
Quénia. O meu orientador não achou bem,
sendo ele professor catedrático e eu apenas
um assistente... Hoje já não é a mesma coisa,
os assistentes já são gente, naquele tempo
nem se olhava para os professores (risos).
Bem, acontece que nos zangámos por causa
dessa conferência que fui fazer a Nairobi, porque achava que ele é que devia ser convidado.
Terminei o meu doutoramento em condições
que deve calcular... Olhe, doutorei-me, mas
como não gostava de mim, não me contratou
e fiquei desempregado.”
Em Lisboa, desempregado, com trinta e três
anos, casado e com dois filhos, deveu à sua
mulher o sustento da família. Não desarmou,
contudo, frente às contrariedades: dedicouse à estofagem de cascos de maples que comprava na Feira da Ladra a 100 escudos cada:
“Era preciso não pensar. O desgaste físico
tinha de suplantar o espiritual”, desabafa.
Contudo, as amizades que tinha feito em
Angola (Nova Lisboa, 1955 e 1959) levaram a
que recebesse o convite para exercer funções
de investigador do Instituto de Investigação
Científica de Angola (IICA), localizado em
Luanda. Trabalho que foi realizando em contacto com o Laboratório Central de Patologia
Veterinária de Nova Lisboa, onde se estreia
ao serviço da parasitologia tropical.
Porém, em Janeiro de 1964 iniciam-se os
estudos superiores nas províncias ultramarinas, com a criação dos designados Estudos
Gerais Universitários de Angola e Moçambique. E assim, com o funcionamento do
primeiro ano lectivo, 1963/64, foi nomeado
1º Assistente dos Estudos Gerais Universitários de Angola, regendo a disciplina de
Parasitologia e Entomologia do Curso de
Medicina Veterinária, continuando a dar
colaboração no IICA. Seguiu-se, então, um
período de bonança e de enorme produtividade. Montou nessa altura o Laboratório de
Parasitologia na Avenida Marginal da Baía
de Luanda. Situado no segundo andar do
edifício, era um espaço amplo e bem apetrechado, dispondo de uma sala de apoio e de
um gabinete para o docente e de um outro
para os técnicos.
Em 1963 retornou a Angola no “Príncipe
Perfeito”, um dos dois novíssimos navios
da Companhia Nacional de Navegação que
passaram a fazer a ligação entre a metrópole
e as províncias ultramarinas, substituindo
os velhinhos “Pátria” e Império”. Iniciou
trabalho como investigador do Instituto de
Investigação Científica de Angola (IICA) a
19 de Abril.
Mas a fortuna continuava a fazer girar a sua
roda... Desavenças profissionais levaram-no
a um novo desterro, passando um ano em
França e Inglaterra, onde aproveitou para
fazer investigações em Paris, Lille, Lyon e
Glasgow, com nomes sonantes da especialidade como o Prof. Jacques Euzéby, Biquet ou
Revue
Jarret. Visitou especialistas e laboratórios,
trocou experiências, num ambiente acolhedor que recorda com gratidão até hoje.
Depois de prestar provas na ESMV em Lisboa,
retorna a Luanda em 1966, recebendo a 7 de
Novembro o título de Professor Agregado do
3º grupo de disciplinas do Curso de Medicina
Veterinária dos Estudos Gerais Universitários
de Angola. Em Outubro de 1968 foi nomeado
Director do Curso de Medicina Veterinária,
e foi neste cargo que teve o prazer de ver
entregar um ano depois (1969) o certificado
ao primeiro médico Veterinário formado da
Faculdade de Ciências Veterinárias de Nova
Lisboa, o Dr. Álvaro Savedra de Oliveira, acto
presidido pelo Prof. Marcelo Caetano, que
então se encontrava em visita a Angola.
Durante a sua direcção do Curso de Medicina Veterinária, também a Faculdade se
desenvolve notoriamente. Na área da sua
especialidade, adaptaram-se instalações
no Instituto de Investigação Veterinária de
Angola às necessidades de ensino, desenvolvendo-se uma Herdade Experimental,
construindo-se um estádio e iniciando-se
a construção do Hospital Veterinário, entre
outras benfeitorias há muito esperadas, que
vieram representar um grande avanço para
a investigação e docência da Medicina Veterinária em Angola.
Mas a roda da fortuna não parava. Quatro
dias depois de ter apresentado provas públicas em Lisboa para obtenção da Cátedra
em Medicina Veterinária, eclode a revolução
em Portugal. Estávamos no dia 25 de Abril
de 1974. Catedrático já, volta para a sua universidade em Luanda, mas durante o “Verão
Quente” é saneado em votação quase unânime pelo staff da Faculdade, ficando do seu
lado apenas o “pessoal menor, funcionários
brancos e pretos, e dois ou três docentes”.
“É curioso registar. Eu, o saneado, com esperança de que ali ainda pudesse vir a ficar, na
terra que havia tomado como minha, vi fugir
os outros e ler no ‘Província de Angola’ que
‘os docentes saídos de Angola, não deveriam
ser recebidos nas Universidades Portuguesas’.
Quando cá cheguei, quem escreveu e publicou
já exercia funções na Faculdade de Farmácia de Lisboa! Fui saneado com o rótulo de
fascista e racista. Foi escrito e dessa reunião
tenho a acta.”
Esteve ainda uns meses em Nova Lisboa, até
que Jonas Savimbi, Presidente da UNITA e
Gerónimo Wamga, Ministro da Educação do
Governo de Transição lhe conferem a posse
de Professor Catedrático da Universidade de
Luanda, que lhe tinha sido negada pelo Governo de Lisboa, oferecendo-lhe um lugar em
Luanda para reger a cadeira na Faculdade de
Medicina, mas as ameaças fizeram com que
voltasse a Nova Lisboa já preparando a sua
volta à “velha” Lisboa, o que veio a acontecer
pouco tempo depois, Setembro de 1975.
Évora, enfim, e a criação do Curso de
Medicina Veterinária
Pertencendo ao quadro Geral de Adidos, e
tendo explicitado a vontade de integração na
recém criada Universidade em Évora, teve de
aguardar quase três anos para realizar esse desiderato. Os tempos eram assim, conta-nos:
“Como vinha de Angola meti os papéis para
a Universidade de Évora logo em 1975. Mas
também aqui havia quem não gostasse de
mim..., quem não gostasse dos regentes
agrícolas e dos médicos veterinários, eu
acumulava as duas coisas! Só em 1978 é que
consegui entrar, e desde essa altura fiquei
sempre por aqui. Olhe, fui acompanhando
com muito gosto e lutei, desde 1978, para
a construção desta Universidade em pleno
Alentejo. Necessitava-se, além dos outros cursos de agricultura, de Medicina Veterinária, e
comecei desde logo a bater-me pelos estudos
de Medicina Veterinária, proposta que apresentei ao Prof. Ário Lobo de Azevedo em 1978.
Não valeu de nada. Agora, com a máxima
franqueza, devo ao professor Jorge Araújo
ter-me compreendido e ter trazido o curso de
Medicina Veterinária para a nossa academia.
Depois disse-lhe que precisávamos de outra
131
132
Revue
coisa, um Departamento de Medicina Veterinária.... E também está criado, há dois ou três
meses. Fiquei feliz por isto ter sido feito antes
de morrer, como podem calcular!”
Aliás, não tem dúvidas em afirmar que a
formação em Medicina Veterinária tem um
grande futuro:
“Se quer que lhe diga muito honestamente, o
curso de Medicina Veterinária tem os alunos
que tem. Têm-se licenciado e todos com provas dadas. O curso está bem. Fico satisfeito
de ter, contra tudo e contra todos, lutado para
que ele fosse feito aqui na Universidade. Tem
ainda, claro, algumas deficiências, falta gente, como sempre, muita gente, mas estamos
no bom caminho, estão lançadas as sementes
e há-de frutificar, não tenho dúvidas nenhumas, temos gente nova...”
Quando veio, em 1978, não existia ainda a
Medicina Veterinária, dando aulas à Engenharia Zootécnica na parte da Parasitologia,
e sente pena ao ver que os engenheiros zootécnicos aqui formados não têm aplicação,
em número apreciável, para a sua formação,
até porque é muito ligado aos alunos que
foi tendo e que continua encontrando em
diversas circunstâncias. Acha, por isso,
que se deve ter prudência para não se estar
a “fabricar gente para o desemprego”, pois,
considera, “se existem cursos que não têm
viabilidade, devia haver a coragem para
acabar com eles e trabalhar naqueles em que
existem necessidades”. É este o caso, hoje em
dia, esclarece, da Medicina Veterinária.
Não nega que lhe custou voltar para Évora,
já pelas causas desse regresso, já porque a
Herdade da Mitra que conhecera, enquanto
estudante da Escola de Regentes Agrícolas,
é uma sombra do que fora:
Exemplares de Carraça Macho
e Fêmea, ilustração científica
por Victor Caeiro
“Uma tristeza que só visto... naquele tempo arranjávamos a horta. Nós é que fazíamos tudo...
eram as aulas práticas das disciplinas que
tínhamos. O Horto era um jardim completo,
agora vá lá ver... Naquele tempo os professores
davam aulas e nós trabalhávamos aqui. Fazíamos azeite, vinho, a Herdade da Mitra é um
verdadeiro laboratório. Por exemplo, nós temos
dos melhores terrenos de pasto do Alentejo!”
A paixão pela Parasitologia: “Aldeia da
Roupa Branca” e outras histórias...
“Ó rio não te queixes,
Aí o sabão não mata,
Aí até lava os peixes,
Aí põe-nos cor de prata.
Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.
Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.
Um lençol de pano-cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.”
Letra da música do filme “Aldeia da Roupa Branca”,
1939: Raul Portela, G. Chianca e A. Curto,
interpretada por Beatriz Costa
Explicou-nos então a sua paixão pela Parasitologia. Em África trabalhava já com carraças, glossinas e tripanossomas, responsáveis
pela “Doença do Sono” e outras epidemias
tropicais. Para ele, a Parasitologia é uma das
“ciências mais bonitas” que existem com
“aquela bicharada toda”. É uma “matéria
inesgotável”:
“Fiquei ligado as carraças (risos). Sabe, uma
coisa é certa, não podemos acabar com elas,
por isso é muito mais inteligente habituarmonos a viver com elas... e é isso que eu faço. O
Dengue, honestamente não acredito que chegue cá; as glossinas só podem viver em África,
porque só lá têm as condições ecológicas necessárias que são dadas pelas temperaturas e pela
humidade, daí só lá poder existir a doença do
sono. Agora, carraças existem em todo o mundo, todavia há carraças que só vivem no Sara,
outras que só vivem na África do Sul, Moçambique e Angola. Foi um problema grave, doenças
transmitidas a essa gente que acompanhava
os bois, por exemplo, e acabavam apanhando
a febre das carraças aos outros. ”
Mas não são apenas as carraças que o interessam. Há uns anos atrás existia em Portugal a
Bilharziose, conhecida como “a doença das
lavadeiras do Algarve”. Era provocada por um
xistosoma que se alojava na bexiga e provoca-
Revue
va hemorragias que saíam na urina. Recordanos o filme “Aldeia da Roupa Branca”:
“Hoje já não é vulgar, mas naquele tempo iase lavar a roupa ao rio. Não viram o filme da
‘Aldeia da Roupa Branca’? Lá estão as lavadeiras com os pés dentro de água do rio a lavar
na pedra. Ora, as bilharsias são transmitidas
porque as larvas que nadam na água entram
através da pele e, no hospedeiro, mudam para
adultos, alojando-se na corrente sanguínea e
vão fazer a postura dos ovos nos vasos da parede da bexiga; os ovos que têm um arieto ou bico,
provocam a ruptura nos vasos, provocando pequenas hemorragias, sendo eliminados na urina sanguinolenta Assim, o homem infectado,
urinado para um rio, um lago ou uma lagoa,
expulsa os ovos que irão parasitar os caracóis
hospedeiros intermediários das bilharzias, nos
quais as larvas se desenvolvem. Quando as
larvas deixam o caracol, nadam e vão penetrar
no hospedeiro definitivo, humano masculino
ou feminino, através da pele passando para a
corrente sanguínea.
Era uma doença muito comum no Algarve, até
que um grande parasitologista, o Prof. Carlos
França, a conseguiu erradicar, deixando de
existir esse tipo de parasitose. É possível
que cá esteja erradicada, mas vamos ver o
que o Alqueva traz... Sabe como é a vida de
campo... se se urinar, vai parar à água e se
lá houver caracóis, lá vai o ovo! No caracol,
desenvolve-se e origina a larva, e por aí em
diante. O engraçado é que, no tempo da minha juventude, as adolescentes aos 14 anos
queriam todas ter Bilharziose, para dizer que
já eram mulheres (risos), é verdade!”
É um contador de histórias inesgotáveis, e
ainda mais se estas têm no centro algum
parasita. Imaginamos bem como devem ser
divertidas e ilustradas as suas aulas. A esta
capacidade narrativa junta-se o gosto e o
talento para o desenho científico, que aqui
deixamos alguns exemplares. Uma verdadeira veia de naturalista.
sensação de injustiça não escondida, ficou
evidentemente muito sensibilizado com uma
recente homenagem: a atribuição do seu nome
ao Laboratório de Parasitologia da Mitra.
“Sabe, sou uma pessoa muito grata. Já agradeci aos alunos, à Associação de Estudantes
de Medicina Veterinária e ao Reitor, Prof.
Jorge Araújo. Gostei dessa atitude. Para quem
começou a dar aulas em 1955, chegar a esta
altura e ver que os alunos que fui tendo gostaram de mim, é importante (sorri). Foram eles,
aliás, que fizeram a proposta ao Sr. Reitor
para que este laboratório de parasitologia
tivesse o meu nome, e, note-se, que eu, ao longo da vida, montei vários laboratórios. Pois,
porque melhor do que aquilo que dizemos, é
aquilo que deixamos, aspirando a que venha
a ser melhor que aquilo que encontramos
no início. E isto (faz um gesto largo com as
mãos, envolvendo todo o espaço do gabinete
onde estamos e as salas adjacentes) começou,
enfim, com muito boa vontade. Hoje temos um
volume de trabalho muito grande que está
para ser publicado...”
Deve ser por isso, que, apesar de jubilado,
o professor vem trabalhar todos os dias.
Quem quiser encontra-o no seu gabinete ou
no laboratório:
“Venho trabalhar de manhã e à tarde. Só
quando estive um bocado engripado é que
fiquei uns dias sem vir. Mas venho sempre
porque, repare, ao fim deste tempo todo eu
tenho a obrigação de deixar coisas escritas.
Tenho cento e tal trabalhos – ou duzentos, não
sei – publicados. Mesmo agora, em final de
festa, ainda tenho muito que fazer...”
E quando, já no final da entrevista, lhe
perguntámos se voltou de novo a África, respondeu-nos com o mesmo sorriso nostálgico
que guarda para quando se fala desta sua segunda pátria: “Não. Não voltei a Angola, mas
voltei a Moçambique. Fiz toda a costa num
aviãozinho, um “teco-teco”, tirando muitas
fotografias da água e do fundo...
Uma justa homenagem – O “Laboratório
de Parasitologia Victor Caeiro”:
Depois de tantos períodos difíceis que passou ao longo da vida, que legaram alguma
Texto: Sara Marques Pereira
Fotografia: Susana Rodrigues
133
Download

Out of Africa - Universidade de Évora