Área: Agricultura Familiar.
PRODUÇÃO DE SEMENTES DE FEIJÃO-CAUPI ATRAVÉS DA
AGRICULTURA FAMILIAR NA BAHIA
Alana Assunção Moreira¹; Giderval Vieira Sampaio¹; Alex Leal de Oliveira²; Edson Alva de Oliveira³;
Eli Santana dos Santos4; Pablo Rocha5; Valdizar Gonçalves Brito5
1Engº Agrônomo, MSc. EBDA, Av. Siqueira Campos 132, Vitoria da Conquista, BA. E-mail: [email protected]
²Engº Agrônomo EBDA – Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola / Em mestrado PPGCTS/UFPel.
³Eng° Agrônomo, EBDA– Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola , DSc.
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Engenheiro Agrônomo, EBDA– Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola , MSc.
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Engenheiro Agrônomo.
Resumo – A produção de sementes através de entidades organizadas da Agricultura Familiar é uma atividade
desenvolvida através de convênio de cooperação técnica entre a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola EBDA e as organizações que apresentam condições técnicas para a condução de áreas de produção de sementes.
Com objetivo de suprir as necessidades do insumo semente para a agricultura familiar do estado, a EBDA se
dedica a produção de sementes de algumas espécies, entre elas as de Vigna unguiculata L. Walp. Essas sementes
foram cultivadas em áreas de perímetros irrigados, na região do Projeto Formoso, Território de Identidade do
Velho Chico, em Bom Jesus da Lapa-BA, sob supervisão técnica da EBDA. A área foi cultivada com feijãocaupí BRS Pujante em 25 hectares e BRS Guariba em 18 hectares. Como resultado foi alcançada a produção de
28t de BRS Pujante e 18t de BRS Guariba, para o atendimento de 8.600 agricultores familiares em estado de
extrema pobreza nas regiões semiáridas da Bahia.
Palavras-chave: Vigna, agricultura familiar, sementes.
Introdução
O feijão-caupí (Vigna unguiculata L. Walp) foi introduzido na América Latina, no século XVI, pelos
colonizadores espanhóis e portugueses, primeiramente nas colônias espanholas e em seguida no Brasil,
provavelmente no estado da Bahia. A partir da Bahia, foi levado pelos colonizadores para outras áreas da região
Nordeste e para as outras regiões do país (FREIRE FILHO, 1988).
Essa espécie responde por cerca de 20% do feijão consumido no Brasil, sendo uma das principais fontes
de alimentação proteica nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. É cultivada e consumida em outras regiões, onde
raramente é utilizada para o consumo humano na forma de grãos. (BEVILAQUA et al., 2007).
O feijão-caupí é de fácil manejo. Talvez por isso, seja cultivado em uma gama muito grande de sistemas
de produção, desde os consorciados com diferentes culturas até os cultivos solteiros. Por se tratar de uma cultura
de grande valor alimentar e de ampla adaptação, o feijão-caupí é uma cultura de grande potencial estratégico
(FREIRE FILHO et al, 2007).
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As características da planta, como a maior tolerância ao estresse hídrico, ciclos mais adaptados, menor
exigência em fertilidade e menor custo de produção, tornaram o feijão-caupí uma alternativa útil para os
agricultores familiares baianos.
A taxa de utilização de sementes ainda é baixa para a maior parte das culturas no estado da Bahia, a
exemplo do feijão, que na safra 2009/2010 apresentou valor de 15% (ABRASEM,2010). Nesses casos, os
agricultores ainda utilizam grãos para a semeadura.
Esse cenário pode ser modificado com a produção coletiva e regional, uma vez que os materiais ali
multiplicados são os desejados pelos agricultores locais. Para Oliveira et al. (2012) ações dessa natureza
favorecem a autonomia dos agricultores familiares na produção de sementes e apresentam grandes resultados
sociais e produtivos.
Com o objetivo de permitir a inclusão da tecnologia de produção de sementes e promover a
autossuficiência e sustentabilidade na produção de sementes pelos agricultores familiares, foram implantadas
áreas de produção de sementes de feijão-caupí no município de Bom Jesus da Lapa, objetivando-se o
fornecimento de sementes para a agricultura familiar local.
Material e Métodos
A seleção da entidade organizada da agricultura familiar foi realizada de acordo com a identificação da
habilidade inicial dos associados para a produção de sementes. Outro critério de seleção foi o seu
reconhecimento legal como organização da agricultura familiar, comprovada através da DAP – Declaração de
Aptidão ao Pronaf, na modalidade DAP/Jurídica.
Selecionada a entidade, se iniciou o processo de capacitação continuada entre os agricultores,
responsáveis técnicos e assistentes técnicos da EBDA. As principais temáticas foram: Legislação para a
produção de sementes, preparo do solo, adubação, espaçamento e densidade de semeadura, isolamento dos
campos, rouguing e inspeção de campo, tratos culturais e fitossanitários, além do manejo da água de irrigação,
colheita e beneficiamento.
A escolha da área de produção foi baseada em critérios como: conhecimento do produto no mercado
local e regional, fertilidade e topografia favorável à semeadura, bem como a sua localização das áreas dentro de
perímetros irrigados. Também foi considerada a tradição local no cultivo e manejo cultural do feijão-caupí e a
receptividade dos agricultores às tecnologias disponibilizadas pelo programa.
O campo de produção de sementes foi implantado na Fazenda Estreito em Bom Jesus da Lapa/BA,
situado no Território de Identidade Velho Chico, sendo o sistema de cultivo por irrigação via pivô central em
duas áreas. A semeadura dos campos foi realizada utilizando-se sementes básicas de Vigna unguiculata L. Walp
(cv. BRS Guariba) em 18 hectares e do (cv. BRS Pujante) em 25 hectares, oriundas da Embrapa. Essas cultivares
foram escolhidas para a multiplicação por se tratarem de materiais de ciclo precoce, apresentando capacidade de
adaptação ao clima semiárido, boa tolerância as principais fitomoléstias e por serem conhecidas dos cooperados.
Os agricultores que se dedicam a produção de sementes, especialmente aqueles que são responsáveis
pela sua multiplicação, constituem o elo central de um programa de sementes. A produção de sementes envolve
grandes investimentos, exigindo do produtor a escolha de terras adequadas, condições ecológicas favoráveis e o
compromisso de seguir normas rigorosas de produção. Esses agricultores desenvolvem uma atividade econômica
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e socialmente muito relevante. (BARROS; PESKE, 2006).
Os campos foram monitorados para o maior aproveitamento da água e do solo. Para manutenção da
qualidade fitossanitária dos campos, foram executadas as ações de monitoramento de pragas, bem como o seu
combate, em todas as etapas de desenvolvimento das plantas. As ações de adubação ocorreram em dois
momentos, sendo o primeiro na semeadura, e complementada com adubação de cobertura, recomendada pela
análise de solo.
A colheita foi realizada manualmente e o produto obtido foi agrupado para o pré-beneficiamento
mecanizado ainda em campo, separando as sementes dos materiais indesejáveis. Barros (2007) reforça que a
colheita manual, embora demande muita mão-de-obra, é o método mais eficiente na manutenção da qualidade de
sementes, por reduzir substancialmente as injurias mecânicas.
Após secagem natural e beneficiamento, as sementes foram amostradas e submetidas à análise
laboratorial, atingindo os padrões estabelecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, para a
comercialização de sementes de Vigna unguiculata L. Walp. Com a emissão de termo de conformidade, foi
realizado o ensacamento próprio e distribuição no estado para o atendimento da demanda do insumo semente
para 8.600 agricultores familiares baianos.
Resultados e Discussão
A produção de feijão-caupí no estado da Bahia resulta da soma de pequenas lavouras com caráter
essencialmente de subsistência e com pouco emprego de tecnologia.
Para Marcos Filho (2005), a utilização de sementes de boa qualidade fisiológica é fator primordial no
estabelecimento de qualquer cultura. Sementes de baixa qualidade, isto é, de potencial de germinação e vigor
reduzidos, originam lavouras com baixa população de plantas e em consequência com população inadequada,
acarretando sérios prejuízos econômicos.
A simples substituição dos grãos, comumente utilizados pelos agricultores, por sementes com
potencialidade genética, permanecendo constantes outros fatores de produção, proporcionou incremento em
produtividade de 18% no feijão-caupí (LUDWIG, 2008).
Como a utilização de sementes de qualidade inferior, ou até mesmo grãos para a semeadura se
constituem em um dos principais entraves para o aumento da produção e produtividade local, tem-se na
multiplicação de materiais adaptados uma excelente alternativa para a melhoria do desempenho das lavouras de
feijão-caupí no estado da Bahia.
Considerando-se o desabastecimento de sementes de caupí e seu pouco acesso pela agricultura familiar,
é possível se inferir que a produção de sementes, através de entidades organizadas instaladas em pontos
estratégicos do estado da Bahia, favorece a autossuficiência da agricultura familiar na produção de sementes.
Os resultados de produção de sementes obtidos nos campos de produção de BRS Guariba e BRS
Pujante, no município de Bom Jesus da Lapa/BA (Tabela 01), permitiram o fornecimento gratuito de 5kg de
sementes para cada família associada ao programa de produção, totalizando 8.600 agricultores familiares
atendidos apenas com a essa iniciativa na safra 2010/2011. As sementes eram oferecidas, juntamente com
sementes de milho, para o cultivo em consórcio nas pequenas áreas de produção para agricultores em condição
de vulnerabilidade social.
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Cultivar
Área Cultivada (ha)
Produção (kg)
BRS Pujante
25
28.000
BRS Guariba
18
18.000
Tabela 01 – Produção de sementes através de entidade organizada da agricultura familiar no município de Bom Jesus da Lapa/BA, 2010
Conclusões
- A produção de sementes de feijão-caupí, através da agricultura familiar é viável, rentável e permitiu a inserção
dos mesmos no sistema de produção de sementes;
- O programa estadual de produção de sementes permite a execução de um serviço de extensão rural atuante com
a possibilidade da aplicação de várias metodologias, como por exemplo: Treinamento de Mão de Obra, Visita
Técnica, Excursão, Dias de Campo;
- O sucesso obtido na produção reflete positivamente no espírito cooperação da entidade. Observa-se que ao
longo do processo o convívio social se modifica, o entrosamento e o trabalho em grupo promovem a igualdade
social e o fortalecimento comunitário.
- O grupo se torna referenciado na comunidade, mostrando sua experiência exitosa, que pode ser verificada in
loco pelos agricultores circunvizinhos, contribuindo assim, para o processo contínuo de capacitação dos
associados.
- Com a produção de 46t de feijão-caupí foram beneficiadas 8.600 famílias, ratificando-se que as ações e os
trabalhos desenvolvidos são de grande importância social e econômica.
Referências
BEVILAQUA, G.A.P.; GALHO, A.M.; ANTUNES, I.F.; MARQUES, R.L.L.; MAIA, M.S. Manejo de
sistemas de produção de sementes e forragem de feijão-miúdo para a agricultura familiar. Embrapa Clima
Temperado. Pelotas. Documento 204. 2007. 23 p.
ABRASEM. Anuário 2010 da Associação Brasileira de Sementes e Mudas. 2010. Pelotas:Ed. Becker &
Peske.2011, p.32.
OLIVEIRA, A. A.; MOREIRA, A. A.; OLIVEIRA, E. A. S.; SANTOS, E. S.; VILELA, V. D.; SAMPAIO, G.
V. Produção de sementes em comunidades rurais da Bahia assistidas pela Empresa Baiana de
Desenvolvimento Agrícola. In: Resumen de Trabajos do XXIII Congreso Panamericano de Semillas. Santa
Cruz de la Sierra, Bolívia, 2012.
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BARROS, A.S.R.; MOTTA, C.A.P.; KRZYZANOWISK, F.C.; POLA, J,N. et al. Produção de sementes em
pequenas propriedades. 2ª.Ed. Londrina: IAPAR, 2007, 98p (IAPAR - Circular Técnica 129)
FREIRE FILHO,F.R.; VILARINHO,A.A; CRAVO,M.S; CAVALCANTE, E.S. Panorama da cultura do
feijão-caupi no Brasil. In: Workshop da cultura do feijão-caupi em Roraima. Disponível em <
>
http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/63327/1/AP-2007-panorama-cultural-feijao-caupi.pdf
Acesso: 02/04/2013.
PESKE,S.T; BARROS,A.C.S. Produção de Sementes In: Peske,S.T; Lucca Filho,O.A. Barros,A.C.S.A (Org).
Sementes: fundamentos científicos e tecnológicos 2.ed.Pelotas: Ed. Universitária/UFPel, 2006.p 17-25.
MARCOS FILHO. Fisiologia de sementes de espécies cultivadas. Jaboticabal: Funep, 2005. 546 p
FREIRE FILHO,F.R. Genética do caupi . In: Araújo JPP de and Watt E E (Org.) O caupi no Brasil. Brasília:
Editora ITA/EMBRAPA, 1988, p. 194-222.
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