Metodologia para a produção de sementes em parceria com comunidades de agricultores familiares Foto:Autores Alex Leal de Oliveira Alana Assunção Moreira2 Giderval Vieira Sampaio3 Edson Alva Souza Oliveira4 Eli Santana dos Santos5 Valfredo Vilela Dourado6 1 1 – Engenheiro Agrônomo, MSc. Ciência e Tecnologia de Sementes, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] 2 - Engenheira Agrônoma, MSc. Geoquímica, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] 3 – Engenheiro Agrônomo, MSc. Fitotecnia, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] 4 – Engenheiro Agrônomo, DSc. Ciência e Tecnologia de Sementes, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] 5 – Engenheiro Agrônomo, MSc. Fitotecnia, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] 6 – Engenheiro Agrônomo, EBDA-Divisão de Produção Vegetal; e-mail: [email protected] Em função de suas particularidades, o segmento da agricultura familiar recebe tratamento especial da legislação de sementes, e algumas organizações estabelecem arranjos específicos para o desenvolvimento de novas cultivares e o suprimento de sementes que atendam suas necessidades (VILLAS BOAS et.al., 2010). Uma opção para a produção de sementes junto à agricultura familiar é a instalação de bancos comunitários de sementes, que mesmo sendo extremamente simples, apresentam grande utilidade aos agricultores que ainda semeiam suas lavouras com sementes inadequadas ou até mesmo grãos. 58 A iniciativa de formar um grupo de interesse para produzir a própria semente é desejável, uma vez que ações dessa natureza promovem o desenvolvimento sustentável da comunidade, incrementa a produção e fortalece a integração. PRODUÇÃO PRÓPRIA DE SEMENTES Existe uma grande diferença entre as sementes oriundas dos bancos comunitários e as comercializadas ilegalmente por pessoas que burlam a lei e vendem sementes de cultivares não permitidos. O comércio destas Os bancos comunitários aqui discutidos, referem-se a uma produção conjunta com a agricultura familiar, sob controle restrito de entidades de pesquisa e ATER. Para Oliveira et al. (2012) ações dessa natureza favorecem a autonomia dos agricultores familiares na produção de sementes e apresentam grandes resultados sociais e produtivos. Assim sendo, a implantação dos bancos de sementes organizados nas comunidades tradicionais não pode ser considerada consequência de um processo empírico, nem deve sustentar o comércio ilegal de sementes. Essa produção é amparada por lei federal, que normatiza o uso das sementes oriundas da agricultura familiar, assentamentos da reforma agrária e povos indígenas, sendo reconhecida pela Lei de Proteção de Cultivares (Lei nº 9.456, de 25 de abril de 1997). ESCOLHA DOS PARTICIPANTES A escolha das comunidades rurais para a realização desse tipo de trabalho deve levar em consideração as características locais e o seu nível de organização. A seleção dos participantes merece Foto: EBDA sementes é proibido e não pode ser confundido nem denominado como sementes legalizadas “informais” ou “próprias”, que nada têm de ilegalidade. atenção especial, pois apenas os agricultores familiares têm o amparo legal para a multiplicação de sementes na modalidade proposta pelo banco comunitário de sementes. É interessante, também, que seja realizada pelo responsável técnico, uma triagem a campo, que confirme o histórico e as habilidades da comunidade, além das condições essenciais à implantação de um campo de produção de sementes. Sensibilização para a produção de sementes Com o levantamento técnico concluído, os dados devem ser apresentados à comunidade, de modo simples. Figura 1 Contato inicial Todo o processo de sensibilização se baseia na metodologia dialogada e participativa. Entendida como um processo contínuo, esta precisa ser adaptada de acordo com a realidade de cada grupo e ao contexto ao qual está inserido. A etapa de sensibilização (Figura 1) é o momento mais importante do processo, uma vez que, são nos primeiros encontros que as comunidades definem a sua participação no projeto. Confirmado o interesse recíproco na execução da proposta, o técnico precisa estabelecer um compromisso formal para a execução das etapas do programa de produção de sementes nas comunidades, conforme figura 1: ETAPAS PARA SENSIBILIZAÇÃO, CAPACITAÇÃO E VERIFICAÇÃO DE RESULTADOS NA PRODUÇÃO DE SEMENTES EM COMUNIDADES RURAIS Reunião Participativa Fonte: Autores 59 Capacitação Produção de Sementes Avaliação dos Resultados A capacitação inicial dos agricultores que aderirem ao programa começa com a realização de um curso, onde todas as etapas da produção, colheita, secagem, beneficiamento, armazenamento e os atributos de qualidade desejáveis nas sementes são discutidos. Esse modelo tem como vantagem a possibilidade de “visualização de todas as etapas” em um único momento, mas, como o processo de aprendizagem é contínuo, a cada etapa da execução nova capacitação é oferecida no campo, tratando sobre uma temática específica (Figura 2). A inserção das novas tecnologias para a produção de sementes é feita de forma gradativa. Como o intuito principal é apoiar os agricultores familiares para que alcancem sua autonomia na produção de sementes, o trabalho deve ser orientado no sentido de adaptar as tecnologias de produção ao conhecimento tradicional. PRODUÇÃO DE MATERIAIS ADAPTADOS A taxa de utilização de sementes (TUS) ainda é muito baixa para algumas culturas, a exemplo do feijão, que na safra 2012/2013 apresentou média nacional de 19% (ABRASEM, 2013). Esse cenário pode ser modificado com a produção comunitária, uma vez que os materiais ali multiplicados são os desejados pelos agricultores locais. Foto: EBDA Capacitação para produção de sementes Figura 2 – Capacitação com temática específica para execução de tratos culturais em área de produção comunitária de sementes na Bahia. Os materiais selecionados para a multiplicação devem ser de cultivares adaptadas para aquela condição, ou caso exista interesse dos agricultores, é possível se iniciar um processo de resgate e produção de sementes crioulas, que após passarem por um programa de seleção e melhoramento genético, podem ser inseridos no banco de sementes. Condução dos campos de sementes comunitários A área selecionada deve ser irrigada, de fácil acesso durante todo o ano, com boa fertilidade e que apresente as condições de isolamento para as culturas que serão implantadas. Além das pragas e doenças, outros contaminantes devem ser eliminados com a execução dos tratos culturais e fitossanitários. Especialmente importantes para produção de sementes, esses 60 contaminantes podem ser identificados como: misturas varietais, outras plantas cultivadas, plantas invasoras, plantas que produzem sementes nocivas, toleradas e/ou proibidas, plantas atípicas, plantas segregantes e mutagênicas. A atividade específica para a produção de sementes, que consiste na identificação e eliminação sistemática de todos esses contaminantes é denominada “Rouguing”. É o grande diferencial na produção de sementes e deve ser executado por pessoas treinadas, que supervisionadas pelo técnico (Figuras 3 e 4), serão capazes de identificar todos aqueles contaminantes relacionados. O momento da colheita também deve ser acompanhado pelo responsável técnico, que programa com a comunidade a data para sua execução e o método que será utilizado (manualmente ou mecanizado), considerando o tamanho do campo e as peculiaridades da cultura. Foto: EBDA Figura 3 e 4 – Serviço de ATER acompanhando as atividades comunitárias de Capina e Rouguing de campo na produção de sementes. Um importante diferencial entre a colheita manual e mecânica de sementes está no fato de que, na primeira inexiste o dano mecânico, e no mesmo momento da operação manual de colheita, já se pode efetuar uma pré-seleção no campo, com a escolha e rejeição de plantas, procedimento que não poderá ser realizado na colheita mecanizada. Além disso, a operação manual pode favorecer a qualidade das sementes, pois permite a colheita em momento mais próximo da maturidade fisiológica. Pode-se deduzir que a semente colhida manualmente pela agricultura familiar tem como vantagem o maior rigor para a seleção de vagens, sementes, frutos e espigas, o que não seria possível com o uso de colheitadeiras. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os agricultores familiares, organizados em associações comunitárias buscam a sua autonomia produtiva e social. A adoção de tecnologias adaptadas como os bancos comunitários de sementes, associado ao treinamento dos agricultores e a presença do serviço de ATER, certamente contribuem para essa emancipação. REFERÊNCIAS ABRASEM. Anuário 2013: agricultura sem fronteiras. 2011. Pelotas: Becker & Peske, 2011, p.36. BRASIL. Lei n° 9.456, de 25 de abril de 1997. Lei de Proteção de Cultivares (LPC). Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9456. htm> Acesso: 03 out. 2014. OLIVEIRA, A. L. et al. Produção de sementes em comunidades rurais da Bahia assistidas pela Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola. In: CONGRESO PANAMERICANO DE SEMILLAS, 23., Santa Cruz de la Sierra, Bolívia, 2012. Resumen de Trabajos… Bolívia, 2012. VILLAS BOAS, H. D. C. et al. A empresa pública de pesquisa e os marcos legais na indústria de sementes. Pelotas: Universitária da UFPel, 2010. 214p. 61