ANAIS O CAPITAL SOCIAL E A DISPOSIÇÃO DAS EMPRESAS PARA A ADOÇÃO DE AÇÕES VOLTADAS À SUSTENTABILIDADE: ESTUDO EM UM CLUSTER DE FERRAMENTARIA RODRIGO MOREIRA CASAGRANDE ( [email protected], [email protected]) FURB - Fundação Universidade Regional de Blumenau MOHAMED AMAL ( [email protected] , [email protected] ) FURB - Fundação Universidade Regional de Blumenau MARIALVA TOMIO DREHER ( [email protected] , [email protected] ) FURB - Fundação Universidade Regional de Blumenau RESUMO O capital social, na medida em que enfatiza a confiança e a cooperação, favorece o surgimento de redes de relacionamento, reconhecimento e comprometimento mútuo. Procurou-se com esta pesquisa identificar os aspectos do capital social presentes num ambiente clusterizado e sua influência na disposição das organizações para cooperarem em ações de sustentabilidade. Utilizou-se a pesquisa descritiva, usando como ferramenta de entrevista um questionário semiestruturado. Os resultados demonstram que embora exista o entendimento de parte dos entrevistados de que o cluster pode funcionar como catalisador de ações de sustentabilidade, ainda há um forte viés para a dimensão econômica. Palavras-chave: Capital Social. Cluster. Sustentabilidade. 1 INTRODUÇÃO O aparente sucesso de localidades configuradas como Arranjos Produtivos Locais (APL) resultou em novo debate sobre a relação entre os espaços locais e regionais e os processos de desenvolvimento econômico. As tentativas de explicar a base e a evolução do sucesso de APLs têm mostrado que o foco apenas em explicações tradicionais baseadas na importância das chamadas externalidades - redução de custos de transação, oferta de mão-deobra especializada, disponibilidade de agrupamento de fornecedores especializados, infraestruturas, difusão de conhecimento tecnológico - não conseguem captar certas vantagens que são mais intangíveis (STORPER, 1997). Como vantagens intangíveis de APLs é possível citar uma série de fatores sócioculturais, tais como convenções, confiança, valores compartilhados, normas, contato “olho no olho”, inovação e aprendizagem, em que a atividade econômica está imersa e que fornece os quadros vitais para ação econômica. Esses fatores podem gerar a existência de redes, relações de colaboração e capacidades institucionais que são de importância crescente no fornecimento de vantagem competitiva (AMIN, THRIFT, 1994; BAGNASCO, 1999). Nesse contexto, insere-se o capital social, que foi concebido considerando-se características da organização social, como redes e normas que facilitam benefícios mútuos através de ações coordenadas. Na arena de desenvolvimento local e regional, o capital social é central para os debates sobre o componente sócio-cultural do processo de desenvolvimento 1/17 ANAIS econômico (EVANS, SYRETT, 2007). Groootaert (1997) discorre que as tentativas de monitorar e avaliar o progresso dos objetivos explícitos do desenvolvimento do capital social local desenvolve a consciência de metas coletivas relacionadas com ações econômicas e contribui para a sensibilização de como o capital social é tanto uma entrada como a saída de um processo de desenvolvimento sustentávell. Nessa linha, surgem ideias que valorizam relações de longo prazo e ações em prol do desenvolvimento sustentável, onde as organizações devem integrar-se com uma crescente gama de parceiros, buscando novas formas de simbiose que auxiliarão cada parceiro a desempenhar tarefas tradicionais de forma mais eficiente, além de prover uma plataforma a partir da qual poderão alcançar objetivos que nenhum dos parceiros poderia alcançar sozinho (ELKINGTON, 2012). Assim, a ênfase na cooperação, confiança e normas de reciprocidade no capital social pode ser importante para a construção de culturas de associação necessárias para o desenvolvimento de ações voltadas para a sustentabilidade. Nesse sentido, a questão de pesquisa deste trabalho é: Como os elementos do capital social identificados em um ambiente clusterizado podem resultar em maior disposição das empresas na adoção de ações voltadas à sustentabilidade? Diante desse contexto, o objetivo deste estudo será analisar os aspectos do capital social e a sua vinculação com a disposição das organizações para cooperarem em ações de sustentabilidade num ambiente clusterizado. O trabalho mostra-se relevante em função de que o desenvolvimento da economia social que acrescenta e gera capital social dentro do processo mais amplo de desenvolvimento local ainda carece de maior compreensão, o que pode ser um reflexo da confusão conceitual em torno da noção de capital social em si. Neste caso, pesquisas empíricas, especialmente de natureza mais contextual e interpretativa, podem trazer mais luz sobre esta temática. 2 REVISÃO DE LITERATURA Este capítulo compreende a revisão de literatura, que abrange aportes teóricos sobre o capital social e sustentabilidade. 2.1 Capital Social Em uma das primeiras definições de capital social, Hanifan (1916) discorre sobre o capital acrescido de fatores intangíveis como boa vontade, companheirismo, solidariedade e as relações sociais entre os que compõem uma unidade social. Mais recentemente, as definições de capital social apresentam uma abordagem mais institucional e tentam articular o valor que contribuem para as organizações enquanto estruturas sociais (DANIEL et al., 2003). O conceito de capital social ganhou corpo na década de 1960, principalmente no trabalho do sociólogo francês Bourdieu (1980), que denominou capital social como sendo um agregado de recursos potenciais ou atuais associados à possessão de duráveis redes de relacionamento, reconhecimento e comprometimento mútuo. No entanto, foi, acima de tudo, em Fundamentos da Teoria Social, publicado por Coleman (1990), que o termo capital social entrou em uso mais amplo, quando foi abordado enfatizando redes, organizações e ligações através do qual as informações e as normas são transmitidas e tem um viés claramente mais sociológico. Por outro lado, há uma versão cognitiva do conceito que incide sobre normas, 2/17 ANAIS valores, confiança, atitudes e crenças. Esta perspectiva é representada principalmente pelo trabalho de Putnam (1993), que tem uma abordagem de ciência política. Putnam (1996) ainda destacou que diferentemente do capital físico, que se refere a objetos físicos, o capital humano refere-se às propriedades dos indivíduos e sugeriu que o capital social tem relação com as conexões entre os indivíduos, com suas redes sociais, suas normas de reciprocidade, fazendo emergir a confiança. Nessa mesma linha, Cohen e Prusak (2001) ampliaram a definição de Putnam, definindo o capital social como um estoque de conexões entre as pessoas, envolvendo confiança, compreensão mútua e valores compartilhados que unem as pessoas como membros de redes e comunidades humanas. Compartilhando essa mesma visão, Trigilia (2001), reconhece que o termo capital social é utilizado de diferentes formas e significados, mas na maioria das vezes se relaciona com a capacidade de cooperação e a confiança, uma forma particular de cultura local gerada pela rede de relações que une atores individuais e coletivos. Também compatível com essa visão, a definição adotada por Evans e Syrett (2007) aborda os recursos de dentro das comunidades em que são criadas a confiança e a reciprocidade, além de normas comuns de comportamento, compromisso partilhado e de pertença, formais e informais, redes sociais e canais de informação eficazes, que podem ser utilizadas de forma produtiva por indivíduos e grupos para facilitar ações que beneficiem indivíduos, grupos e a comunidade em geral. Nesse sentido, a cooperação se materializa na relação interparceiros, em que cada um dos atores compartilha decisões e espaços sociopolíticos comuns. Esta ótica se contrapõe ao princípio da competição tradicional do eixo dominante da ordem capitalista e privilegia a interação e reciprocidade em que a práxis humana passa a ser vista como produtora e distribuidora dos bens necessários à sustentação de toda a humanidade (ABDALLA, 2004). Em um ambiente de cooperação, é preciso considerar atitudes e valores dos parceiros, para que seja possível estabelecer confiança entre as partes.É a partir da análise desses pressupostos que uma relação de cooperação vem ou não a se estabelecer, podendo ultrapassar os limites das individualidades para atendimento do coletivo. Num recorte sobre a cooperação na condução da responsabilidade social, a confiança é fundamental na discussão dos meios que levem à solução dos problemas sociais que assolam, das mais diversas formas, o desenvolvimento local (DREHER, UHIRICH, 2010). Nessa mesma linha, Fisher (2002) aborda que num mundo constituído de organizações, esforços que visem benefícios comuns voltados para o bem estar social tendem a fortalecer a sociedade civil. Além disso, a autora ressalta que nenhum tipo de organização consegue, isoladamente, atender às necessidades e propiciar o desenvolvimento das pessoas inseridas em diversos grupos sociais. Daí a necessidade de existir a confiança nas relações. Sobre o aspecto confiança, Fukuyama (1996) discorre que se trata da expectativa de um comportamento estável, honesto e cooperativo que nasce no seio de uma comunidade, com base em normas compartilhadas por seus membros. As normas podem envolver questões de "valor" e podem constituir normas seculares, como padrões profissionais e códigos de A informação e a confiança, que circulam por meio de relações pessoais comportamento. em aglomerações produtivas, podem limitar o oportunismo e facilitar a cooperação econômica, o que é salutar em termos de desenvolvimento. Por outro lado, também é digno de registro que o impacto das redes sociais sobre as atividades econômicas podem ser um instrumento inibidor da competição e inovação, com a possibilidade de redução de eficiência 3/17 ANAIS por formas de conluio entre os atores (COLEMAN, 1990; PORTES, SENSENBRENNER 1993). O capital social no nível macro se manifesta através de laços extra-comunitários, através da ética profissional entre gestores da indústria, laços de credibilidade, que são referidos como “ligação”, e no nível micro, o que envolve laços "intra-comunitários" e é referido como "integração".Um equilíbrio de ambos, integração e articulação, permite que os menos poderosos alavanquem recursos de idéias e informações (WOOLCOCK, 2001). Essa otimização de recursos que pode ser obtida por meio do capital social, como o conhecimento tácito por exemplo, que pode ser considerado um recurso competitivo na medida em que pressupõe a circulação de informações e de confiança nas relações, está intimamente ligado aos processos de cooperação, abordados por Becattini e Rullani (1993). A cooperação, inerente ao capital social, permite que o conhecimento tácito oriundo do capital humano gere vantagem competitiva, na medida em que permeia as relações com as empresas locais e externas, bem como os atores públicos e privados que se inter-relacionam em redes e se estendem para a comunidade (COOKE, MORGAN, 1998). Considerando-se os eveitos de nível de agregação, como o observado em um Arranjo Produtivo Local (APL), também pode ser dito que um determinado contexto territorial é mais ou menos rico em capital social, dependendo da medida em que os sujeitos individuais ou coletivos de uma mesma localidade estão envolvidos nas redes de relações, o que coloca uma grande ênfase em redes sociais como base de capital social (COLEMAN, 1990). A perspectiva da rede promove uma sensibilidade à variedade e complexidade de interações que sustentam a atividade organizada dentro de um dado ambiente, o qual não pode ser compreendido adequadamente pela observação de comportamentos individuais, mas de padrões relacionais (BURT, 1983; HATCH, 1997). DiMaggio e Powell (1983) apontaram que o processo de estruturação nas redes possui quatro etapas: aumento de interação entre as organizações; emergência de características definidas de coalizões e estrutura de dominação; aumento na carga de informação com organizações que têm de lidar; e formação da consciência nas organizações de que elas estão comprometidas com empreendimentos comuns. Tais observações têm levado a um aumento significativo de estratégias que procuram construir a elementos de capital social, em especial onde há uma fraqueza evidente nas dimensões públicas e privadas do setor para a economia local e uma relativa falta de outras fontes de capital financeiro, físico e humano. 2.2 Sustentabilidade O conceito de sustentabilidade deriva da definição do desenvolvimento sustentável que surgiu como um novo modelo que preconiza a satisfação das necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades (ELKINGTON, 1999). Foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, de 1972, ocorrida em Estocolmo, que colocou a dimensão do meio ambiente na agenda internacional, abordando pela, pela primeira vez, as dependências entre o desenvolvimento e o meio ambiente. O crescimento econômico, reconhecidamente, foi considerado necessário, mas ele não deveria ser obtido por meio da incorporação predatória do capital da natureza (SACHS, 2009). 4/17 ANAIS Desde lá, o tema passou, pouco a pouco, a fazer parte das estratégias organizacionais. A partir da segunda metade de década de 1990, o entendimento sobre sustentabilidade e responsabilidade social corporativa ganhou ainda mais corpo no sentido de valorizar a construção de relacionamentos de longo prazo com os stakeholders: clientes, fornecedores, empregados, acionistas e comunidade em geral, e reconhecer o impacto das atividades produtivas na degradação dos recursos comuns do meio ambiente (SACHS et al. 2010). Nesse contexto, cresce o entendimento de que os complexos sistemas industriais constituem a força principal de destruição do ambiente planetário e, a longo prazo, a principal ameaça à sobrevivência da humanidade. As organizações humanas precisam passar por uma mudança fundamental, tanto para se adaptar ao novo ambiente empresarial quanto para tornar-se sustentáveis do ponto de vista social e ambiental. Esse duplo desafio é urgente e real, de modo que as recentes e exaustivas discussões sobre a mudança empresarial estão plenamente justificadas (CAPRA, 2005). O paradigma de desenvolvimento alicerçado em objetivos meramente capitalistas, visando ao lucro máximo, parece ser uma “lente” que apresenta o crescimento econômico como gerador de bem-estar à sociedade e que entende o meio ambiente apenas como matériaprima para o processo produtivo, principalmente no processo industrial. Esse modelo, da maneira como foi idealizado, não é sustentável ao longo do tempo, já que os recursos naturais são finitos se forem mal utilizados (CAMPANHOLA, 1995). Salamon et al. (1999) discorrem que a sociedade passou a buscar uma via alternativa em termos de responsabilidade social, para se ver livre da dependência do Estado, que é visto inclusive como inibidor de iniciativas que procuram resolver questões que envolvam a sustentabilidade. Trata-se da criação de uma nova via com divisão de poder entre atores estatais e não-estatais, na gestão de recursos comuns. Nesse contexto, Elkington (2012) afirma que o desenvolvimento sustentável deve atender, de forma sistêmica, três dimensões essenciais: econômica, social e ambiental. O pilar ambiental defende a conservação e manejo dos recursos naturais; o pilar econômico refere-se às consequências financeiras das ações da empresa para os stakeholders; e o pilar social alude à participação na manutenção e aperfeiçoamento do equilíbrio do sistema, no que tange a direitos e responsabilidades. A busca pela sustentabilidade, então, vem movimentando a sociedade e o mercado, estimulando a transparência, a produção mais limpa, a geração de produtos ecológicos e a participação em projetos de desenvolvimento sustentável. Inobstante, no campo organizacional nem sempre são consideradas todas as dimensões da sustentabilidade, e, tradicionalmente, a ênfase é na dimensão econômica, em detrimento das demais. Muitos problemas socioambientais foram causados porque decisões simples e fragmentadas visavam atender apenas à dimensão econômica, dentro do conceito de homem econômico, defendido pelos pensadores clássicos da Administração (SALAMON et al., 1999) 3 METODOLOGIA Nesta pesquisa utilizou-se a metodologia da pesquisa descritiva, com abordagem do método qualitativo. Conforme Triviños (1987, p.128), a pesquisa qualitativa é 5/17 ANAIS essencialmente descritiva, pois “as descrições dos fenômenos estão impregnadas dos significados que o ambiente lhe outorga”. Uma marca das pesquisas qualitativas é a maneira como são observados e analisados os fatos, na medida em que é utilizado um conjunto de interpretações e práticas materiais que dão sustentação ao mundo sob o prisma dos pesquisadores, que observam os fatos em cenários naturais, entendendo e interpretando os fenômenos observados (ALVES; AQUINO, 2012). Alves e Aquino (2012, p. 81) discorrem que “a pesquisa qualitativa visa a compreensão, a interpretação e explicação de um conjunto delimitado de acontecimentos que é a resultante de múltiplas interações, dialeticamente consensuais e conflitivas, dos indivíduos, ou seja, os fenômenos sociais”. Para tanto, ganha importância a técnica da coleta de dados. Gomes e Araújo (2005) destacam que, conforme a técnica adotada é possível observar nuances como alterações das feições diante de um fato, as expressões corporais, a tonalidade de voz dos respondentes diante os questionamentos, diferenças entre o discurso e comportamento, entre outros aspectos. Nesta pesquisa, utilizou-se a entrevista semi-estruturada, que, conforme Martins e Theóphilo (2009), permite maior flexibilidade e liberdade para o pesquisador explorar mais amplamente determinada questão, sem ficar demasiadamente balizado por um prévio roteiro. Para testar a validade e confiabilidade da pesquisa, foi utilizado o recurso da triangulação, procurando-se identificar o mesmo fenômeno ou pergunta de pesquisa, a partir de uma ou mais fontes de dados (IKEDA; PUSCHEL; PELISSARO, 2008). Neste caso, entrevistas com profissionais que vivenciam o cluster de ferramentaria exercendo funções bem distintas: um ocupa a presidência da Associação Nacional de Ferramentaria, outro é gestor do SENAI e um terceiro é empresário local. 4 O CASO ESTUDADO: O CLUSTER DE FERRAMENTARIA DE JOINVILLE O setor ferramenteiro é a porta de entrada de qualquer produto. Numa cadeia produtiva da produção de bens de consumo é a segunda etapa. A primeira é o desenvolvimento de produto, que normalmente é feita pela empresa que quer produzir aquele produto e, a partir da daí entra o trabalho da ferramentaria, que vai construir o ferramental. O molde é um dos tipos de ferramental. Existem moldes para injeção de plásticos, moldes para injeção de alumínio, para estampa, corte, dobra, repuxo, embutimento. Sejam os moldes para área de metais, borracha, plástico, vidro, tudo tem algum ferramental que dá forma a esses produtos. Então, o que caracteriza o setor é a fabricação do ferramental que vai proceder a mudança do formato de um material para outro estado, o que acaba se refletindo em um produto ou pedaço de um produto. Geralmente esses moldes são processados por usinagem e depois vão para uma indústria que procede com a entrada do material original para transformar em outro produto final. O campo de estudos da pesquisa envolve o cluster de ferramentaria de Joinville, que buscou uma concentração de empresas para encontrar ações de combate à carga tributária excessiva, escassez de mão de obra qualificada, necessidade de maciços investimentos em tecnologia, dificuldades de gestão e, principalmente, a concorrência internacional acirrada que têm enfrentado nos últimos anos. A cidade de Joinville está logisticamente posicionada no centro dos três maiores pólos ferramenteiros do Brasil (Caxias do Sul, Joinville e São Paulo). Outro fator que contou para 6/17 ANAIS esta seleção foi a intensa atividade do Núcleo Setorial de Usinagem e Ferramentaria da Associação Empresarial de Joinville – ACIJ, que já conta com um histórico considerável de ações em favor do segmento e também a forte ligação com o SENAI de Joinville, que desenvolve estratégias conjuntas com os empresários deste setor. Joinville é um cluster importante para o setor, comparável com as cidades do Rio Grande do Sul e São Paulo. Em número de ferramentarias, Santa Catarina conta com cerca de 500, das quais 400 estão localizadas em Joinville. No Rio Grande do Sul existem também cerca de 500 empresas, das quais 70% na região de Caxias do Sul. E o Estado de São Paulo conta com mais de 1.000 ferramentarias, sendo a grande maioria concentrada na grande São Paulo. O cluster ferramenteiro de Joinville fica dentro do arranjo produtivo local metalmecânico. Há dois Arranjos Produtivos Locais (APL) em Joinville, um de plástico e um de metal-mecânico. O motivo pelo qual se formou esse aglomerado de ferramentaria em Joinville se deve ao fato de que aquela cidade detém o maior pólo desenvolvedor do Brasil de PVC, capitaneado por empresas como Tigre, Amanco, Krona e Forteleve, que estão instaladas em Joinville e região. A Tigre, na década de 90, fechou a sua própria ferramentaria, que possuía acima de 200 funcionários, entendendo que seu core business não era fazer moldes e sim vender conexão. Então, ela resolveu terceirizar a ferramentaria e a maioria dos funcionários que lá estavam resolveu abrir uma ferramentaria própria, gerando uma explosão de ferramentarias em Joinville, por volta de 1994, 1995. O entrevistado Christian Dihlmann é presidente da ABINFER – Associação Brasileira da Indústria de Ferramentaria, é Engenheiro Mecânico e Mestre em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC e Especialista em Administração de Empresas pela Fundação Educacional da Região de Joinville - FURJ/UNIVILLE, diretor da BRTooling Consultoria Ltda., diretor comercial da Jung Industrial Ltda. e diretor/editor da Revista Ferramental. O entrevistado Alexandre de Avis é Tecnólogo em Gestão da Qualidade e Produtividade, graduado pela SOCIESC e Pós Graduando do curso de Engenharia da Manutenção Mecânica, pelo SENAI Joinville. Técnico em ferramentaria de moldes e técnico em mecânica geral. É especialista em metal mecânico pelo SENAI Joinville, onde hoje é responsável pelo setor de usinagem e protótipos, atuando como instrutor e consultor. O entrevistado Edson Ferreira da Silva é diretor-proprietário da empresa Perfilpolimer, fundada em 1992, na cidade de Joinville. A Perfilpolimer desenvolve linhas completas para extrusão e impressão, atendendo linhas para fabricação de perfis técnicos, linhas para tubos, monofilamento, linhas para flexíveis (mangueiras), linha odontológica, linha hospitalar (cateter, tubos flexíveis), linhas de hastes flexíveis, linhas de corrugados e tubos extensíveis (sifão), entre outros equipamentos, conforme a necessidade do mercado. 4.1 As entrevistas Mesmo que a característica predominante para a formação de um cluster seja a forte concentração de empresas em uma mesma região, Bergman & Feser (1997) defendem que o conceito de cluster transcende a aglomeração geográfica de uma atividade econômica. Os entrevistados foram questionados se essa situação é percebida em Joinville, ou seja, se empresas que não estão exatamente na mesma aglomeração geográfica se caracterizam como componentes do cluster ferramentaria. 7/17 ANAIS O entrevistado Dihlmann frisou que entende que o cluster é uma cadeia ampla de stakeholders, com fornecedores, produtores e clientes e, por isso, não está atrelado necessariamente a um mesmo município. Segundo o entrevistado há uma integração e intercâmbio de interesses com outras cidades geograficamente próximas. O entrevistado Edson também entende que essa situação do cluster transcender a região de Joinville acontece devido às relações comerciais, na medida em que possui clientes em vários Estados. O nordeste brasileiro, por exemplo, tem aumentando muito a demanda e há também a relação praticamente de co-irmã entre Joinville e Caxias do Sul, com atividades de competição e de complementaridade. Uma definição de Fukuyama (2001), considera que o capital social é um conjunto de relações sociais onde um sujeito único ou coletivo pode fazer uso a qualquer momento. Através da disponibilidade do capital de relações, como as informações (recurso cognitivo), e como a confiança (recurso normativo), é permitido aos atores alcançarem objetivos que não seriam realizados, ou que poderiam ser obtidos a um custo muito mais elevado. Indagado sobre se as pequenas e médias empresas ganham em competitividade ao participarem de um cluster por conta das vantagens da cooperação, o Sr. Dihlmann manifestou-se de acordo com este entendimento, na medida em que o cluster de ferramentaria há empresas especializadas em eletroerosão, outras especilizadas em polimento, outras em tratamento térmico. Ou seja, não existe aquela ferramentaria que detenha todas os recursos para finalizar a produção. Desta forma, uma pequena empresa pode agregar tecnologia ao seu molde, sem ter que investir. O entrevistado Edson discorre que esse ganho de competitividade das empresas que participam do cluster fica bem evidenciado principalmente na relação entre as empresas e o SENAI de Joinville, na medida em que o SENAI funciona como fomentador de novas tecnologias, desenvolve cursos de capacitação e aperfeiçoamento de mão-de-obra, gera interação entre as empresas do cluster e disponibiliza máquinas e equipamentos de última geração. Essas respostas dos entrevistados Dihlmann e Edson vão ao encontro das visões de Amato Neto (2000), que discorre que os clusters proporcionam às pequenas e médias empresas a capacidade de desenvolver atividades que isoladamente não conseguiriam e de Altenburg e Meyer-Stamer (1999), que abordam a visão de eficiência coletiva proporcionada pelos clusters, onde as empresas têm acesso a concentração de mão-de-obra especializada, spill-overs tecnológicos e outros fatores que favorecem a especialização local. O entrevistado Alexandre também corroborou essa visão ao destacar a ocorrência de intercâmbio técnico e tecnológico. Segundo ele, um grande exemplo são as pequenas empresas de ferramentaria que trabalham em parceiria com outras pelo fator máquina, ou seja, pequenas empresa que não possuem um certo tipo de máquinário acabam recorrendo a outras que o possuem, criando, assim, uma extensão de sua empresa. Isso possibilita a execução de serviços que sozinhos não seriam exequíveis. Nesse sentido, os entrevistados foram questionados se as empresas que participam do cluster ganham em competitividade por conta da eficiência coletiva. Alexandre entende que essa afirmativa é válida porque o estabelecimento de parcerias existentes no cluster faz com que elas consigam atender com mais velocidade seus clientes.O entrevistado Alexandre ainda fez questão de trazer um exemplo para ilustrar a cooperação: 8/17 ANAIS A maior ferramentaria de Joinville trabalha com outras pequenas empresas, que executam para ela trabalhos pontuais. São trabalhos que dentro desta grande empresa não seriam lucrativos, porém é necessário a execução pois o cliente que traz os “grandes serviços” é o mesmo que necessita da execução dos “pequenos serviços. O entrevistado Edson partilha dessa visão, ao perceber que a interação entre as organizações faz com que haja uma constante preocupação em aperfeiçoar técnicas administrativas e tecnologias empregadas por cada uma delas. Dihlmann, embora concorde com o ganho de competitividade por conta da eficiência coletiva, frisou que ainda percebe a ausência de uma cultura de trabalho em comunidade. Segundo ele isso ocorre por conta de um problema de falta de uma cultura de trabalhar em comunidade, em coletividade. “Parece que a busca por trabalho em coletividade somente ocorre quando não há outra alternativa e este é um fator negativo da cultura brasileira, que impede que se tire maior proveito dos benefícios do cluster”, frisou Dihlmann. Tais comentários sugerem que a confiança é reconhecida como um forte componente do capital social. Becattini e Rullani (1993) discorrem que a circulação de informações e de confiança nas relações e empresas em ambientes clusterizados está intimamente ligado aos processos de cooperação. Os estrevistados foram convidados a expor sua opinião se entendem que o cluster acaba gerando um ambiente de confiança e cooperação entre as empresas. Segundo Dihlmann, a confiança aparece desde que o APL seja levado a sério, e frisa que “confiança não significa que não vai acontecer a concorrência, a confiança é profissional e esse deveria ser o caminho natural, porém ainda não temos isso bem estabelecido”. O entrevistado Alexandre também abordou a importância da confiança, ressaltando que paralelamente ocorre a concorrência. O entrevistado Edson entende que ainda prevalece a desconfiança no cluster, por conta de um entendimento de que ações oportunistas vão ocorrer nos processos de obtenção e fidelização de clientes. Essa observação mantém aderência com a abordagem de Woolcock (2001) sobre confiança e altruísmo.Woolcock (2001) refere-se à importância da integração e ligação, que permitem que os menos poderosos alavanquem recursos de idéias e informações. Para tanto, a confiança deve caminhar junto com a cooperação. Considerando que para cooperar muitas vezes é preciso “abrir mão” de alguma oportunidade para prevalecer o proveito mútuo, os entrevistados foram convidados a explanar se percebem isso no cluster de ferramentaria de Joinville. Dihlmann discorreu que muito raramente as empresas “abrem mão” de uma oportunidade em prol do conjunto. O entrevistado entende que o conceito de cluster no Brasil ainda não está amadurecido no Brasil. “(...) se tiver uma oportunidade boa, o empresário não deixa de pegá-la para si, mesmo em ocasiões em que não tem total domínio sobre a técnica necessária para o atendimento da oportunidade”. Nessa mesma direção, o empresário Edson abordou que uma empresa somente vai abrir mão de alguma oportunidade se já estiver com 100% de sua capacidade produtiva comprometida. Nesse caso ela acaba distribuindo oportunidades entre os demais integrantes do cluster. Por exemplo, realiza um negócio em que terá de produzir 10 moldes, mas tem capacidade para produzir somente 6 no prazo estipulado. Daí distribui a demanda entre 2 ou mais parceiros neste negócio. “Mas somente neste caso, do contrário fica com a produção 9/17 ANAIS toda para ele, sem renunciar”, ressaltou o entrevistado. Estas observações ilustram efeitos danosos da desconfiança no capital social, na medida em que impede os agentes de se relacionarem de forma adequada. Hirschamn (1984) discorre que, a partir do momento em que está instalada a desconfiança, logo se torna impossível de saber se de fato era justificada, pois ela tem a capacidade de satisfazer a si própria. Questionado sobre se precisam adotar alguma estratégia para combater eventuais desconfianças entre as empresas clusterizadas, Dihlmann destacou que as missões empresariais para feiras de ferramentaria em outros países, como Alemanha, China entre outras, ajudam nesse sentido, pois a viagem conjunta gera união. “Quando você passa uma semana viajando para uma feira na Alemanha, no mesmo hotel, no mesmo ônibus, na mesma sala de palestra, nos mesmos stands, no mesmo restaurante à noite com seus concorrentes, ali afloram desgostos, virtudes e ali as pessoas passam a se conhecer”. Já a visão do empresário Edson é de que a confiança não se estabelece de forma natural, pois a competição gera a sensação de que o oportunismo vai prevalecer. Então, para que os agentes se relacionem de forma adequada se faz necessário o estabelecimento de normas, regulamentos e de fiscalização. Ou seja, na medida em que a desconfiança impera, não há como esperar que espontaneamente surjam relacionamentos pautados na confiança; a relação precisa ser pautada de forma normativa. Estudos apontam que estratégias como a responsabilidade social emitem um alerta quanto ao compromisso social das organizações. A cooperação voluntária é mais provável de emergir em comunidades que tem herdado um bom estoque de capital social, o qual diz respeito a características da organização social, como confiança, normas e cadeias de relação social, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade através de ações ordenadas, gerando um campo fértil para o surgimento da cooperação espontânea (PUTNAM, 1996). Nessa linha, os entrevistados foram questionados se existe um campo fértil para a disseminação de ações de responsabilidade social corporativa num ambiente clusterizado. Alexandre abordou que as empresas percebem que trabalhos sociais que unam o grupo, como por exemplo a campanha do agasalho, aproxima as pessoas transformando os colaboradores em parceiros e deixam o ambiente de trabalho mais harmonioso. Além disso, olhando para o aspecto de geração de empregos, as empresas do cluster precisam de mão-deobra especializada para eventuais serviços e buscam na sociedade pessoas ainda sem experiência para “formá-las” dentro de seus padrões, ou mesmo buscam alunos do SENAI, recém formados, com pouca experiência. Dihlmann entende que há o campo fértil para a disseminação de ações de responsabilidade social num cluster, mas desde que o viés econômico não seja negligenciado. Dihlmann ainda complementou que essas ações ocorrem, não por que as empresas acreditam que devam fazer alguma coisa pela sociedade, mas por necessidade. O entrevistado exemplifica esse raciocínio com a parceria estabelecida com o SENAI para formar mão-de-obra qualificada. Realizamos um trabalho num bairro menos favorecido de Joinville. Identificamos uma escola municipal e em contato com a prefeitura conseguimos que fosse destacado um professor da rede municipal, que é ferramenteiro. Então o que fizemos? Montamos uma sala nessa 10/17 ANAIS escola, aonde as crianças no contraturno estudam mecânica. Acho que vai amadurecer bastante essa questão da responsabilidade social, mas hoje ela ainda não é espontânea ou natural. É por interesse próprio. A criação dessa escola na comunidade mostra que o desenvolvimento da economia social em localidades carentes contribui para a construção de infra-estrutura comum e ajuda diretamente os indivíduos e as famílias que lá vivem. Nessa linha, a construção de capital social é significativa porque fornece benefícios a indivíduos e mobiliza recursos de capital social importantes para o bom funcionamento de laços intra e extra-comunitários (PISELLI, 2000) . Elkington (2012) discorre que cresce o entendimento de que as empresas precisam criar parcerias que valorizem mais a lealdade e que devem incluir atividades de sustentabilidade no estabelecimento de suas prioridades. Os entrevistados foram questionados se percebem um movimento conjunto das empresas que participam do cluster no sentido de incluir ações de sustentabilidade no estabelecimento de suas prioridades, envolvendo as dimensões econômica, social e ambiental, e se isso ocorre isoladamente ou de forma coletiva. O entrevistado Alexandre entende que práticas na direção da sustentabilidade ocorrem isoladamente. Segundo ele o termo sustentabilidade para pequenas e médias empresas de ferramentaria ainda se mostra um pouco distante, caracterizando-se como um grande desafio a ser desenvolvido. “Vejo que as empresas têm uma certa resistência para implementar essa filosofia e acredito que nas ações de sustentabilidade ainda acontecem isoladamente”, lamentou o entrevistado. Dihlman destacou que podem ocorrer ações voltadas à sustentabilidade, mas antes disso existe o interesse econômico. O aspecto social acaba sendo uma conseqüência. “Se a economia de uma empresa vai bem, teoricamente o entorno dela vai bem. Ela acaba irradiando limpeza, segurança, geração de empregos, dentre outros aspectos”. Já no tocante à dimensão ambiental, o entrevistado entende que os empresários somente fazem ações de sustentabilidade ambiental que a lei impuser. Dihlmann abordou que no campo ambiental as ações visam atender regulamentos: Nada é feito de livre e espontânea vontade no campo da proteção e preservação ambiental. Isso não muda pelo fato de ser uma empresa clusterizada ou não. Isso passa por uma questão de prioridades. Se estou muito bem economicamente, se estou muito bem socialmente, somente daí vou partir para a terceira dimensão, que é a ambiental. Como as empresas ainda têm muitas coisas para resolver no campo econômico, as outras duas dimensões ficam para um segundo plano. Segundo Elkington (2012), a revolução da sustentabilidade enfoca parcerias, valorizando o papel dos chamados complementadores e a construção de relações de confiança como um dos investimentos mais vitais na criação do capital social. Nesse sentido, fazendo um exercício de projeção, os entrevistados foram convidados a opinarem se dentro do conceito do cluster, será que esses ambientes poderiam gerar um terreno fértil para o aculturamento da importância da prática de ações de sustentabilidade. 11/17 ANAIS Dihlmann entende que é muito mais fácil a difusão de ideais quando você está organizado. Então o cluster pode ser sim um catalisador, mas a partir do momento que forem satisfeitas as necessidades atreladas ao econômico e ao social. “Enquanto não houver dinheiro para pagar a folha de funcionários, as empresas não vão se preocupar com o plantio de árvores”, destacou o entrevistado. O entrevistado Alexandre voltou a frisar que ainda ocorrem isoladamente as ações voltadas para a sustentabilidade no cluster de ferramentaria, mas consegue visualizar um cenário positivo, não pelo fato da filosofia ser facilitada pelo cluster, mas como um movimento de institucionalização de práticas sustentáveis na sociedade como um todo. Na visão de Edson, o ambiente clusterizado gera maiores possibilidades de difusão de ações voltadas para a sustentabilidade, porque há uma maior convivência entre as empresas, até mesmo por conta da proximidade física, além das atividades desenvolvidas pelo SENAI, que vem agregar as organizações. Discorreu Edson: Se uma empresa adota alguma novidade, e aí pode ser alguma ação de sustentabilidade como resfriamento do teto da empresa com uso de água da chuva estocada, substituição de lâmpadas de maior consumo por lâmpadas de led, dentre outras medidas, outras empresas tendem a adotar isso também. Edson também destacou que não fica somente no campo da disseminação de ideias implementadas, há também os ganhos propiciados por ações conjuntas. Um exemplo claro disso é que nossa empresa, conjuntamente com outras empresas, contrata um prestador de serviços que faz o recolhimento de todos os resíduos líquidos e metálicos, para que nada seja eliminado no rio e que possa, até mesmo, ser reaproveitado de alguma forma no processo industrial. Essa medida se torna mais em conta pelo fato de várias empresas que compõem o cluster também contratarem os serviços da mesma prestadora de serviços. Finalmente, entende-se, com base nas teorias visitadas e nas entrevistas realizadas, que o reconhecimento do capital social como um determinante do processo de desenvolvimento econômico local pode instigar as lideranças empresariais de APLs a persegui-lo, na medida em que enfatiza a confiança, cooperação e normas de reciprocidade, criando culturas de associação para o funcionamento eficaz de formas de rede de desenvolvimento local, o que pode gerar efeitos positivos na busca por um desenvolvimento que leve em conta as três dimensões da sustentabilidade: econômica, social e ambiental. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Verifica-se uma crescente quantidade de publicações que sugerem o estabelecimento de um novo ambiente no mundo dos negócios, onde os interesses dos acionistas dividem espaços com as demandas do governo, da comunidade, dos clientes, dos funcionários e dos fornecedores. Para agregar valor a todos esses stakeholders, é preciso que as organizações considerem, de forma sistêmica, as três dimensões da sustentabilidade – econômica, social e 12/17 ANAIS ambiental – sob pena de perderem atratividade. Em todo o mundo, podemos ver exemplos bem sucedidos de aglomerações de empresas, tais como o Vale do Silício, na Califórnia, os distritos industriais, da Terceira Itália, o calçadista, no Vale do Sinos. Constituídos, em geral, por pequenas e médias empresas, os clusters propiciam o aumento das ações coletivas e da cooperação. Há correntes teóricas que criticam e o envolvimento das organizações em ações de sustentabilidade, acusando-as de utilizarem uma máscara ideológica que esconde as suas reais intenções e procedimentos. Porém, percebe-se uma maior aceitação no meio acadêmico e empresarial de que as empresas precisam criar parcerias que valorizem mais interações profícuas ao invés de focar apenas em indicadores de crescimento, produtividade e rentabilidade. Essa interação entre as organizações, como parte de um sistema de relacionamento remete a reflexões sobre a ação coletiva. No desenvolvimento local, as ações de cooperação podem gerar benefícios gerados pela complementaridade e pelo aumento da capacidade de enfrentamento da instabilidade ambiental. A pesquisa demonstrou que em um ambiente de cooperação, é preciso considerar atitudes e valores dos parceiros, para que seja possível estabelecer confiança entre as partes. É a partir da análise desses pressupostos que uma relação de cooperação vem ou não a se estabelecer, podendo ultrapassar os limites das individualidades para atendimento do coletivo. Nesse sentido, as empresas tendem a se relacionar mais intensamente com um número menor de fornecedores e sentem a necessidade de se envolver com stakeholders externos, incluindo atividades da sustentabilidade, no estabelecimento de suas prioridades. Nesse contexto, o artigo abordou o capital social, que é uma capacidade que decorre da prevalência de confiança, e o objetivo foi o de analisar os aspectos do capital social e a sua vinculação com a disposição das organizações para cooperarem em ações de responsabilidade social num ambiente clusterizado. Verificou-se que os fatores confiança e cooperação, componentes do capital social, ainda precisam ser amadurecidos e conquistados entre as empresas que compõem o cluster de ferramentaria de Joinville. Além disso, o trabalho demonstrou que embora exista o entendimento de que o cluster possa funcionar como catalisador de ações de sustentabilidade voltadas para a responsabilidade social e ambiental, isso ainda é insipiente no cluster de ferramentaria de Joinville, que está voltado para a dimensão econômica. De um modo geral, este trabalho demonstra um cenário preocupante, na medida em que as empresas, mesmo em um ambiente clusterizado, centralizam seus esforços nas questões econômicas. Obviamente, uma empresa necessita de lucro para sobreviver, mas o modo de produção em prol da lucratividade deve considerar também, o bem estar social e a conservação ambiental, propostas pelo desenvolvimento sustentável. Por fim, para ampliar o escopo desta discussão propõem-se novos estudos em diferentes clusters, que possam contribuir ainda mais com as reflexões desta temática. Referências: ABDALLA, M. O princípio da cooperação: em busca de uma nova racionalidade. 2. ed. São Paulo: Paullus, 2004. 13/17 ANAIS ALTENBURG, T. & MEYER-STAMER, J. How to Promote Clusters: Policy Experiences from Latin America. World Development Vol.27, n.9, p.1693-1713, 1999. ALVES, E. C.; AQUINO, M. A. A pesquisa qualitativa: origens, desenvolvimento e utilização nas dissertações do PPGCI/UFPB - 2008 a 2012. Revista de Informação & Sociedade, v. 22, p. 79-100, ed. especial, 2012. AMATO NETO, J. Redes de Cooperação Produtiva e Clusters Regionais. São Paulo: Atlas, 2000. AMIN, A.; THRIFT, N. 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