UNVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
DEPARTAMENTO DE URBANISMO
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM CONSERVAÇÃO DE
PATRIMÔNIO EM CENTROS URBANOS
SANTA BÁRBARA
O BRAÇO MORTO DO ARROIO QUE AINDA VIVE NA MEMÓRIA
por
Glenda Dimuro Peter
Trabalho de Conclusão do Módulo I
Profa. Dra. Sandra Pesavento
Porto Alegre, 16 de novembro de 2004.
O Santa Bárbara
Nelson Nobre Magalhães
O Santa Bárbara ainda vive,
Arroio de minha lembrança,
É um pouco da saudade
Dos meus tempos de criança.
Cortava a nossa cidade,
Presente da natureza,
A sua paisagem verde,
Tinha um toque de beleza.
Tinha peixes... tartarugas,
Pequenas embarcações,
Tinha também poesia,
Seus belos salsos-chorões.
A mão de Deus quem o fez,
Mas o homem por maldade
O levou para mais longe
Do coração da cidade.
Hoje paga um alto preço!
Um crime sem precedentes,
Desviaram nosso arroio
Aumentaram as enchentes.
Suas pontes eram belas
Num cenário sem igual
Uma delas sempre eu lembro;
A ponte lá do Ramal.
Pontezinhas de madeira,
As recordo com carinho:
A ponte lá da Uruguai
E também a do Moinho.
O Santa Bárbara ainda vive,
Arroio da minha lembrança,
É um pouco da saudade,
Dos meus tempos de criança.
2
SUMÁRIO
1.
INTRODUÇÃO...............................................................................................4
2.
DOS PRIMÓRDIOS ATÉ O FINAL DO SÉCULO XIX ............................................5
3.
AS PONTES SOBRE O SANTA BÁRBARA ........................................................11
4.
O COMEÇO DA ANSIEDADE POR PROGRESSO...............................................14
5.
DE ARROIO A CANAL ..................................................................................24
6.
O OLHAR COM SIGNIFICADO.......................................................................26
7.
APRENDENDO COM OS ERROS ....................................................................28
8.
BIBLIOGRAFIA: ..........................................................................................31
3
1. INTRODUÇÃO
Este trabalho relata a história do arroio Santa Bárbara, desde as primeiras
ocupações da cidade de Pelotas até os dias de hoje.
Através de narrativas, história, mapas, fotos, notícias de jornais e relatos foi
possível perceber a verdadeira importância que esse arroio teve para a cidade, desde
a sua fundação até meados do século XX, quando o descaso com o Patrimônio
Ambiental fez com que o Santa Bárbara ficasse quase que totalmente poluído, com
ocupações irregulares em suas margens e por fim fosse aterrado e seu curso natural
desviado para uma zona ainda não urbanizada da cidade.
Esse fato, além de quase acabar com a memória do arroio, trouxe outros
problemas como constantes alagamentos do braço morto do arroio, como se a
natureza sempre teimasse em trazer as águas para o local de origem.
Digo quase porque ele ainda vive na memória de alguns, e ainda existem
vestígios que comprovam a sua passagem pela zona central da cidade. Através desse
trabalho, mostraremos a trajetória do arroio pelo tempo: veremos o arroio que
realmente existiu e não apenas enxergaremos os cacos que dele sobraram.
Será possível reconhecer quem foram os verdadeiros culpados pela morte do
Santa Bárbara e o que pode ser feito para revivê-lo no imaginário daqueles que
nunca viram suas águas correrem em seu curso natural e nem ao menos sabem de
sua importância no passado da Cidade de Pelotas.
4
2. DOS PRIMÓRDIOS ATÉ O FINAL DO SÉCULO XIX
O arroio Santa Bárbara tem uma posição muito importante na história da
Cidade de Pelotas, já que o povoamento inicial se estabeleceu, em função das
charqueadas, nas várzeas do canal São Gonçalo, do rio Pelotas e do arroio Santa
Bárbara, pelo vínculo com o transporte hidrográfico.
Na coxilha limitada pelo Canal de São Gonçalo e o arroio Santa Bárbara virá a
erguer-se o povoado e freguesia de São Francisco de Paula, berço da futura
cidade. 1
Alguns moradores da região em 1780, anos antes de ela ser elevada à cidade,
por segurança afastaram-se das charqueadas. Segundo Lopes Neto: Devido às
disparadas das tropas de gado selvagem, pelos males das enchentes e também pelo
desassossego das escravaturas recém vindas, a cidade veio a se formar na coxilha
entre o arroio Santa Bárbara, o rio Pelotas e o canal São Gonçalo. 2
Deve ser lembrado também que o mau cheiro próximo às charqueadas,
oriundos do sangue, carne apodrecida e em decomposição, também contribuiu para
que a população procurasse uma outra região para construir suas moradas.
No início do século XIX, muitos eram os forasteiros que passavam por Pelotas
e depois relatavam suas experiências em diários de viagem e livros. A maioria deles
descrevia o local citando sempre o arroio Santa Bárbara, como José Caetano da Silva
Coutinho, que escreveu em 1815: Este arraial, que fica no meio de um vasto
horizonte chato entre os arroios de Santa Bárbara e de Pelotas... 2
Em 1816, Francisco de Paula D Azeredo disse: as indústrias... dão contudo
lugar a um tráfego imenso, facilitado pelos grandes rios e vias aquáticas, onde se
movem centenares de iates carregados dos produtos do país que vêm trazer
abundância à Europa e à América, e dando a esta Província uma importância
imponente, que ela tem sabido conservar e aumentar. 2 Através desse relato
podemos observar que mesmo antes da Freguesia de São Francisco de Paula se
tornar vila ou cidade, já tinha uma economia próspera. E grande era o tráfego entre
os rios e, embora D Azeredo não tenha citado nomes, sabemos que o canal Santa
Bárbara estava na rota das embarcações de menor porte.
Para resolver os problemas de posses de terras e pagamento do foro entre o
capitão-mor, Antônio Francisco dos Anjos, e alguns moradores e posseiros, foi
realizada pelo engenheiro Maurício Ignácio da Silveira o que se considera a primeira
planta da zona urbana de Pelotas, datada de 1815, quando a cidade ainda era
considerada Freguesia.
O primeiro loteamento de Pelotas (veja Figura 1) desenvolveu-se ao redor da
capela São Francisco de Paula (atual Catedral São Francisco de Paula), pertencente
ao capitão-mor.
Nessa planta, as ruas da cidade ainda não alcançavam o arroio Santa Bárbara,
mas em suas margens já havia a charqueada de José Vieira Viana, juntamente com
uma olaria uma fábrica de sabão, conforme confirmou Nicolau Dreys em sua
passagem por Pelotas: As charqueadas ocupam as margens do rio de São Gonçalo e
do rio de Santa Bárbara, formando cada uma delas um círculo de população
especial . 2
1
2
MAGALHÃES, Mario Osório. História e Tradições da Cidade de Pelotas. Pelotas: Ed. Armazém Literário, 1999.
MAGALHÃES, Mario Osório. Pelotas: toda a prosa. Primeiro volume 1809-1871. Pelotas: Ed. Armazém Literário, 2000.
5
Figura 1: Mapa das ruas da Freguesia de São Francisco de Paula 1815
Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas
Pelotas: Editora Universitária UFPel, 2004.
1777-1888.
Em 1830, a Freguesia de São Francisco de Paula foi elevada à categoria de
vila, sob o mesmo título.
Em 1834, existiu uma lei na Vila que começava definindo seus limites: Nos
limites urbanos desta vila são compreendidos por ora, os prédios que se acham entre
os arroios Santa Bárbara, e a rua das Fontes (atual rua Almirante Barroso) desde o
rio São Gonçalo até a sanga norte, que corre pelos terrenos sem edifícios
permanentes a José Rodrigues Barcellos e Antônio Francisco dos Anjos . 3 Conforme
poder ser observado na Figura 2.
Essa lei comprova que mesmo antes da Vila de São Francisco de Paula se
tornar cidade, o arroio Santa Bárbara já fazia parte dos limites urbanos.
Figura 2: Mapa dos limites urbanos da Vila de São Francisco de Paula
Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas
Pelotas: Editora Universitária UFPel, 2004.
3
GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas
Universitária UFPel, 2004.
6
1777-1888.
1777-1888. Pelotas: Editora
No dia 27 de junho de 1835, um decreto do presidente da Província outorgava
à Vila de São Francisco de Paula a elevação à cidade.
Após muitas discussões sobre o nome da cidade, foi aprovado o nome Pelotas,
em homenagem, segundo palavras de Domingos José de Almeida na Assembléia
Legislativa de 1835, ao fato histórico (estabelecimento das charqueadas) que
aglomerara com rapidez do raio a gente e a riqueza da localidade .4
Na verdade, pelota era como se chamava uma canoa de couro utilizada para a
travessia dos rios, que deu nome ao arroio da região e posteriormente ao município.
Neste mesmo ano, o engenheiro Eduardo Kretschmer levantou a planta da
cidade, projetando sua ampliação (o segundo loteamento). Manteve o traçado
regular anteriormente estabelecido, com as ruas principais correndo na direção
norte-sul e as secundárias no sentido leste-oeste. Desenhou uma quadrícula de 142
quarteirões dois quais 40 somente delimitados (ainda não estavam oucpados), o que
demonstra uma preocupação com crescimento da futura cidade, adotando a mesma
malha regular utilizada no primeiro loteamento.
O principal motivo da hierarquia das ruas norte-sul em relação às ruas lesteoeste era o sentido de escoamento das águas pluviais, como pode se observar no
Código de Posturas de 1834: Sendo mais fácil o escoamento das águas da Vila pelas
ruas que estão de leste a oeste, conforme nivelamento dos edifícios e a inclinação
dos terrenos . 5 Isso se dava porque a leste encontramos a várzea do Pepino e a
oeste a do arroio Santa Bárbara.
Em meados do século XIX, como podemos ver no mapa da Figura 3, a cidade
estava expandindo-se em direção ao Santa Bárbara, e muita coisa começou a
acontecer em suas margens.
4
GUTIERREZ, Ester J.B. Negros, Charquedas e Olarias: Um estudo sobre o espaço pelotense. Pelotas: Editora Universitária
UFPel, 1993.
5
WEIMAR, Günter. Urbanismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS/Prefeitura de Porto Alegre,
1992.
7
Figura 3: Mapa das ruas da Cidade de Pelotas 1835
Fonte: GUTIERREZ, Ester J.B. Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas
Pelotas: Editora Universitária UFPel, 2004.
8
1777-1888.
Mais ou menos nessa mesma época, em 1832, foi construído, às margens do
arroio Santa Bárbara, o barco a vapor chamado Liberal, considerado o primeiro da
província. Em uma época que somente navegavam embarcações movidas a remo e
a vela, causou admiração quando um grupo de empresários, liderados por Domingos
José de Almeida, mandou vir dos estados Unidos, um motor para a montagem da
barca. Construída no Estaleiro havido no local onde hoje é o início da rua General
Osório, numa curva do arroio santa Bárbara, ainda não aterrado. Serviu a Barca nas
forças dos farrapos, construída que foi por um grupo de liberais, até que, requisitada
pela marinha do Império, combateu contra seus próprios idealizadores .6
Nesse local estabeleceu-se talvez o primeiro bairro de Pelotas, chamado não
por acaso de Bairro do Estaleiro. Nesse ponto, o arroio Santa Bárbara fazia um
acentuado cotovelo, onde hoje é o extremo sul da rua Marechal Deodoro (na época
também chamada de rua do Estaleiro), e era situado onde se achou a Fábrica de
Conservas do Sr. Leivas Leite, próxima da antiga caieira Carpena ,7 fato que indica
que pequenas indústrias já estavam se instalando no local.
As águas límpidas do Santa Bárbara permitiam que ali se lavassem toda a
roupa da freguesia (veja Figuras 4 e 5). Ceroulas, corpetes, calçolas com babados e
fitas expunham-se nos coradouros e varais; devia ser grato do transeunte, também,
o espetáculo das pernas roliças e bem torneadas daquelas jovens aldeãs convidando
ao pecado numa reboleira de mato, ali perto .8 Uma rua da cidade, a atual rua
Professor Araújo, durante muitos anos recebeu o nome de rua das Lavadeiras, por
desembocar neste local. Era comum também o trânsito de pequenas embarcações
de pesca ou passeio (Figuras 6 e 7).
Figura 4 e 5: Fotos de lavadeiras às margens do Santa Bárbara
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
Figura 6 e 7: Fotos de embarcações nas águas do arroio
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
6
Início do século XX
Início do século XX
LEÓN, Zênia de. Pelotas: sua história e sua gente. Pelotas: Editora Universitária UFPel, 1996.
OSÓRIO, Fernando. A Cidade de Pelotas, volume 1. Organização e notas de Mario Osório Magalhães. Pelotas: Editora
Armazém Literário, 1997.
8
MAGALHÃES, Mário Osório. Passeios da Cidade Antiga (Guia Histórico das Ruas de Pelotas). Pelotas: Editora Armazém
Literário, 2000.
7
9
No mesmo ano de 1932, a Câmara de Vereadores da então Vila proibiu a
edificação e o levantamento de cercas nas margens do Santa Bárbara, isso para não
privar o uso das lavadeiras, que se utilizavam desse único lugar em toda a vila
destinado para essa atividade. Uma outra proposta, também apresentada pelos
vereadores, foi a de colocar os despejos nesse mesmo arroio, em um ponto mais
abaixo da lavagem de roupa, mais precisamente no passo do Santa Bárbara, lugar
onde as águas corriam em direção ao cemitério, nas imediações da nova cacimba.
Desde esta época o arroio começou a ser poluído pela mão do homem.
Entre 1850 e 1876, num local denominado como Canteiro do Chuvisco,
próximo à Praça antes denominada Constituição, foi construída uma forca que
segundo Fernando Osório, ergueu-se sobre um embasamento de material . 9 Durou
até a extinção da pena de morte, mas a tradição do nome do que acontecia por lá
dura até os dias de hoje. Embora a Praça da Constituição não exista mais, a praça
que hoje se situa próximo ao local da forca é comumente chamada de Praça dos
Enforcados.
Uma das portas da cidade estava localizada também às margens do arroio.
Era a chamada Estrada do Fragata, que comunicava Pelotas com a Campanha RioGrandense, por onde chegavam os tropeiros conduzindo a matéria-prima das
charqueadas, e concentrava um grande número de comerciantes, sobretudo
mascates. Para o gado, a Tablada, o Logradouro Público e a Praça da Caridade
pareciam ser suficientes. Faltava espaço para as carretas. 10 Foi assim que, num
vazio na margem direita do arroio Santa Bárbara, foi localizada a Praça da
Constituição, que logo passou a ser chamada, de acordo com a sua função, de Praça
das Carretas.
Esta praça era um espaço natural, com árvores primitivas e era mais um
espaço aberto para estacionamentos das carretas que um lugar de lazer,
contemplação ou divertimento. Servia às atividades de transporte e de
abastecimento da zona urbana, as carretas que saiam daqui levavam produtos como
charque, sabão, rolos de corda, açúcar (que chegava nos navios vindos do nordeste)
para as regiões serranas. Após alguns anos as estrebarias da Companhia de Ferro
Carris e Cais de Pelotas situaram-se ali.
As margens do arroio não eram bem vistas pela classe senhorial. Certa vez,
Domingos José de Almeida disse: ... uma pequena curva do Santa Bárbara, ali com
menos de 15 palmos de largura e quase sempre seco, servindo este pequeno terreno
tão somente para foco de imoralidades, fundição de crioulos e entretenimento de
escravos da cidade . 10
No dia 2 de abril de 1878, o jornal Correio Mercantil apresentava uma notícia
que falava: Observam-se ali coisas horrorosas. Homens e crianças algumas delas
mais terão oito anos. Em parceria impudica e afoita uma linguagem desbragada e
arrasta uma série de atentados à moralidade, que nem mesmo nos é permitido
tornar mais explícito para fazer compreendê-la .
Através desses relatos podemos perceber que este lugar era freqüentado por
escravos, negros adultos e crianças, além das tradicionais lavadeiras.
9
OSORIO, Fernando. A cidade de Pelotas. Organização e notas de Mario Osório Magalhães. Pelotas: Editora Armazém Literário,
1997.
10
GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas 1777-1888. Pelotas: Editora
Universitária UFPel, 2004.
10
3. AS PONTES SOBRE O SANTA BÁRBARA
Em 1845, quando a cidade de Pelotas já avançava sobre o arroio, os
vereadores pensaram em construir uma ponte de madeira. Não se sabe ao certo qual
seria a localização exata dessa ponte que deveria ser erguida pela Prefeitura. O que
se sabe é que existiram trechos onde havia os chamados passos do arroio , lugares
onde era possível atravessar com o gado e a cavalo. Existiu o Passo do Apois (Passo
Real) no fim da atual Rua Tiradentes, o Passo do Aquino, na atual rua Professor
Araújo e alguns outros.
Por volta do ano de 1847, surgiu a idéia de erguer uma ponte de pedra e
alvenaria. Sua construção seria um grande marco para o progresso da cidade, pois
facilitaria o acesso à Estrada do Fragata e permitiria que pessoas, veículos e gados
atravessassem o arroio a seco. Essa ponte deveria ter 20 metros de comprimento
por 17,80 de largura e 5 de altura e estaria localizada na atual rua Marechal Floriano.
Sua construção foi difícil. Em 1847 o Palácio do Governo da Província do Sul
mandou dinheiro para as obras.
O volume I da Bibliografia Sul Riograndense, registra que Friedrich
Haydtmann, arquiteto e diretor prático de obras, contratado para o Província, fez, em
1850, a ponte sobre aquele trecho do Santa Bárbara, o que permitiu o desvio das
tropas do primitivo trajeto. Mas com o tempo e o crescimento da cidade, aquela obra
de engenharia haveria de ser aperfeiçoada . 11
Roberto Dietrich tomou a direção da construção e seguiu seu plano, que
previa a colocação de um pavimento de ferro, o qual foi fabricado na fundição do
Barão de Mauá, na Ponta da Areia .12 Depois de iniciadas as obras, a cidade foi
assolada por uma repentina enchente a construção ficou paralisada.
Em 1957, o chefe da Segunda Seção de Obras Públicas mandou que fossem
colocadas canoas no arroio para fazer a travessia de visitantes e para não interceptar
o trânsito ao cemitério (que já estava localizado na Estrada do Fragata).
A obra reiniciou no ano de 1865 e em 1867 estava enfim concluída. Muitos a
chamavam de ponte de pedra, ou ponte do Ritter, pois próximo a ela estava
localizada a cervejaria Ritter (veja Figuras 8 e 9).
A autoria da construção foi atribuída a José Vieira Pimenta, construtor
português de inúmeras obras de Pelotas, que finalizou a obra iniciada por Dietrich.
Ainda hoje existe uma placa nas amuradas que restaram da ponte com o nome de
Pimenta e de outros que colaboraram para a construção da ponte: Assembléia
Provincial e os Presidentes Barão e Conde da Boa Vista e o Homem de Melo. Existe
uma outra placa conservada que diz que a ponte fora reformada em 1914.
Desde então, as pesadas rodas das carretas, naquele ponto, deixaram de se
afundar no chão lamacento das margens, percorrendo, seguras a nova passagem.
Desapareceram canoas e caiques, que transportavam passageiros de um lado a
outro. Não mais se afogavam animais ao atravessarem, a nado, as águas
correntosas, naquele ir e vir das bandas do Fragata para as charqueadas, a oeste ao
sul da cidade. 13
11
NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa cidade era assim. Pelotas: Livraria Mundial,1989.
GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas 1777-1888. Pelotas: Editora
Universitária UFPel, 2004.
13
NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa cidade era assim. Pelotas: Livraria Mundial,1989.
12
11
Em passagem por Pelotas, Augusto de Pinho descreveu a ponte de pedra em
1869: Sobre o rio Santa Bárbara há uma ponte de um só arco, construída com gosto
e solidez, que dá passagem para uma larga praça que já conta com um bom número
de prédios, seguindo pela estrada que fica em continuação a esse largo, encontra-se
o cemitério... 14
Em 1870 estabeleceram a cobrança de um pedágio nessa ponte, que cessou
em 1872.
Figura 8: Fotos da Ponte de Pedra, também chamada de Ponto do Ritter. Início século XX.
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
Figura 9: Vista da Ponte de Pedra. À esquerda estava situada a Praça das Carretas e
à direita (atrás da ponte) a Fábrica de cerveja Ritter, mais atrás o Hospital.
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
Uma outra ponte também foi construída e reconstruída várias vezes na rua
Riachuelo, atual Lobo da Costa. Em 1958 existia uma ponte de madeira de 20,90
metros de comprimento, por 5,70 de largura e 3 de altura. Esta ponte sofreu
reformas até 1876, quando um trecho do arroio foi canalizado. Em 1885, recebeu
nos acessos suportes de alvenaria, por empreitada de Joaquim Dias Ferreira. No ano
de 1908 foi demolida e substituída por uma ponte metálica, com estrados e
corrimãos de ferro.
14
MAGALHÃES, Mario Osório. Pelotas: toda a prosa. Primeiro volume 1809-1871. Pelotas: Ed. Armazém Literário, 2000.
12
Uma terceira ponte foi construída em 1882, pela Companhia Ferro Carril e Cais
de Pelotas, situada no prolongamento da Rua Sete de Abril, atual Dom Pedro II (veja
Figura 10). Em 1888 a Câmara Municipal mandou alargar esta ponte pelo
alinhamento a rua. Em 1907 foi demolida e substituída por outra, segundo Alberto
Coelho mandada vir da Europa pela Empresa Industrial e Construtora do Rio Grande
do Sul para servir a projetada estrada de Ferro de São Lourenço e por ela cedida a
Intendência Municipal na administração do dr. Antero Leivas . 15
Figura 10: Vista da ponte de ferro da Rua Sete de Abril (atual Dom Pedro II).
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
Segundo lembranças do historiador pelotense, Nelson Nobre Magalhães,
existiram ainda pequenas pontes, algumas apenas para pedestres, sendo uma na
atual rua Uruguai (nas proximidades da Fábrica de Papel), uma de madeira na rua
Telles, uma ponte de ferro na atual Professor Araújo, outra de madeira cerca do
Moinho Pelotense (particular) e ainda a ponte do Ramal (antiga linha ferroviária) que
se localizava no bairro do Estaleiro (veja Figura 11).
Figura 11: Foto da Ponte do Ramal.
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
15
GUTIERREZ, Ester J.B.Barro e Sangue; mão-de-obra, arquitetura e urbanismo em Pelotas
Universitária UFPel, 2004.
13
1777-1888. Pelotas: Editora
4. O COMEÇO DA ANSIEDADE POR PROGRESSO
Abadie Rosa Faria deixou Pelotas em 1910 e em 1917 escreveu Pelotas de
Agora para o Almanaque de Pelotas relatando suas impressões sobre a cidade:
...Depois de uma ausência de quase um lustro, Pelotas já era outra. Impressionarame aquele súbito avanço. A remodelação ia-se impondo...surgiam fábricas, centros
de produção manufatureira...E era assim também no perímetro central...A ponte de
pedra fora reedificada. Ao lado do Santa Bárbara havia uma praça ajardinada. Para
além, o caminho do parque, que dizem agora esplendente, era um novo bairro, que
se intensificava com as magníficas instalações da Força e Luz .
Com a Proclamação da República e a extinção do trabalho escravo, o Brasil
inicia sua inserção em um sistema mais avançado de capitalismo, o que gera uma
mudança nas relações de trabalho. Em Pelotas, o processo não é diferente. A
urbanização das cidades, de um modo geral, exclui e promove a segregação social
dentro do espaço urbano. A partir das duas últimas décadas do século XIX, a cidade
passou a crescer em mais de uma direção, seguindo para as periferias, definindo
seus três principais bairros: Fragata, Areal e Três Vendas.
Foi na década de 1910 que se verificou uma grande modernização urbana da
cidade. Durante quase todo esse período, o cargo de Intendente foi ocupado pelo
engenheiro, formado na Bélgica, Cypriano Corrêa Barcellos.
Em 1911, o então intendente Dr. Carlos Barbosa Gonçalves manifestou a
intenção de construir uma ampla avenida beira-rio. Esta avenida começaria no arroio
Santa Bárbara e iria até a Praça Domingos Rodrigues, localizada na parte central do
porto de Pelotas. Isso se faria com o sacrifício da Rua do Pântano (nome sugestivo,
já que esta era a última rua da cidade, no extremo sul, próximo à várzea do São
Gonçalo e que hoje nem existe no mapa da cidade) que se manteve com algumas
casas até o século XX.
O projeto do intendente não vingou. Talvez se tivesse sido concluído, a cidade
de Pelotas hoje teria um grande atrativo natural. Atualmente esta zona da cidade
possui uma grande ocupação irregular e é esquecida pelo governo municipal. Na
época, foi considerado um devaneio do intendente, hoje poderia ser a solução de
alguns problemas de Pelotas.
A cidade foi se aproximando cada vez mais da várzea do arroio Santa Bárbara,
que em 1921 já estava completamente envolvido pela malha urbana. Com a
urbanização veio também a retirada da vegetação, que impedia a ação erosiva das
águas pluviais. Ruas foram abertas e pavimentadas, impermeabilizando ainda mais o
solo. Edificaram-se prédios que dificultavam ainda mais o escoamento natural das
águas.
A primeira vez que o homem interviu no curso natural do arroio Santa Bárbara
foi na execução da Praça Cypriano Barcellos, ainda no século XIX. Parte do terreno
foi conquistado do arroio, cujo curso, ao sair da ponte de alvenaria, inclina-se com
forte inflexão para leste, vindo a beirar os prédios da Rua Paisandú (atual Barão de
Santa Tecla) com frente a oeste, que se prolonga a embocadura da Rua Riachuelo
(atual Lobo da Costa) que era banhada no seu término por essas águas . 16
A Câmara Municipal mandou que se cavasse um canal em linha reta em toda a
largura da Praça da Constituição, desde a Rua Marechal Floriano até a Lobo da
16
Biblioteca Pública Pelotense
Livro de Atas da Câmara Municipal de Pelotas. 1874-1879 24 - maio-1878
14
Costa, conforme pode ser observado na Figura 12. O arroio foi desviado por meio do
canal e o leito antigo passou a fazer parte da praça. Os proprietários dos terrenos do
entorno aproveitaram-se da situação e também avançaram sobre o arroio que fora
afastado.
Em 1888 a praça foi nivelada, aterrada e neste lugar foi construído um cais de
alvenaria de 125 metros.
Figura 12: Vista da Ponte de Pedra com o leito do arroio canalizado pela primeira vez.
À esquerda Praça Cypriano Barcellos.
Fonte: Nelson Nobre Magalhães.
Todos esses fatores contribuíram para o aumento das enchentes e inundações
que passaram a assolar os arredores das várzeas da cidade.
Em 1914 houve uma grande enchente onde os arroios atingiram a cota de
10,50 metros acima do nível normal. A partir desse ano houve inúmeras inundações,
algumas memoráveis como a de 1941, 1956 e mais recentemente, neste ano de
2004.
Nelson Nobre testemunhou a enchente de 1956: Na nossa pouca idade, não
nos preocupava o perigo e, junto alguns garotos, da nossa idade, entramos água
adentro para ajudar os ribeirinhos, na retirada de seus pertences .
A cidade cresceu e não foram planejadas as ocupações das baixadas, várzeas,
córregos e arroios, permitindo a existência de áreas inundáveis.
Pelotas não tinha um plano público de zoneamento e as indústrias ocupavam
áreas de seu interesse, que normalmente eram próximas ao Porto e à Ferrovia, ou
mesmo dentro da área urbana, que se expandia rapidamente.
Os trabalhadores dessas indústrias procuravam locais próximo ao seu trabalho
para morar, e não importava se o saneamento era ineficiente, o acesso era difícil ou
existisse a possibilidade de enchentes. Tornou-se comum a construção de casas em
áreas próximas às mananciais de água, principalmente por pessoas de baixa renda.
Indústrias, matadouros, curtumes e população não tinham nenhuma preocupação
em despejar seus resíduos e esgotos diretamente nos cursos de água, até então
despoluídos. E nas margens do Santa Bárbara não foi diferente.
O Relatório da Diretoria de Higiene Municipal de 1916 dizia que: as minúcias
deste relatório patenteiam o miserável estado sanitário do arroio Santa Bárbara,
verdadeira cloaca imunda de toda a sorte de despejos de casas particulares e
fábricas . E ainda alertava que: Tal situação, a ser mantida, se torna, cada vez
mais, uma severa ameaça para a salubridade pública desta cidade, pois o arroio já
perdeu em parte, e vão perder ainda mais, o grande volume de águas que pelas
sarjetas nele ia ter para aumentar a sua descarga e melhorar a sua velocidade .
15
Neste mesmo ano, o Engenheiro Chefe Municipal solicitou castigo severo
para aqueles que contaminarem as águas do arroio Santa Bárbara. Foram
identificados treze fábricas, dentre as quais seis curtumes, o Matadouro Público e
dezenas de casas e cortiços.
Embora nesta época já houvesse preocupação do Poder Público com as
questões de saneamento e higiene, a população parecia não se preocupar, colocando
interesses pessoais e econômicos acima de tudo. Algumas fábricas preferiam jogar
lixo em seus quintais a pagar pelo transporte de seus resíduos industriais para outros
locais, mesmo que isso custasse a vida do arroio. O próprio Hospital da cidade, que
estava localizado próximo às margens do Santa Bárbara depositava restos de lixo
hospitalar por ali.
O relatório da Intendência de 1922 afirmava que: Pelotas não pode
permanecer com um lençol tão extenso de águas paradas ou terrenos encharcados
em suas cercanias durante boa parte do ano .
Em 1927, o engenheiro Saturnino de Brito já alertava em relatórios do
Saneamento de Pelotas que deveriam ser regulamentadas servidões e utilizações do
Santa Bárbara em função do seu saneamento, evitando assim conseqüências mais
graves futuramente. Sugeria que o arroio fosse canalizado e que os terrenos de suas
planícies fossem drenados.
O Poder Público atuava tentando melhorar as condições dos arroios e de
saneamento básico e prolongando avenidas, afinal a população estava sempre
crescendo. Mas a população das zonas ribeirinhas ia crescendo descontroladamente,
fato agravado pelo êxodo rural.
As margens do Santa Bárbara foram prejudicadas também devido à sua
proximidade com o centro da cidade. Como as fábricas se localizavam na maioria na
zona central, os trabalhadores também tentavam se localizar próximos a elas. Com a
falta de infra-estrutura adequada a situação cada vez se agravava mais.
Em pouco menos de meio século o arroio estava totalmente poluído. No final
do século XIX lavadeiras utilizavam suas águas límpidas para lavar a roupa suja,
pescadores passeavam com suas embarcações. Mas o arroio, que era um patrimônio
natural, acabou sofrendo com as conseqüências da má utilização das suas águas.
Em relatórios do Saneamento de Pelotas, datado de 1947, havia o
pensamento que não se deveria desprezar o que a natureza já havia executado, e
que o leito atual, retificado e dragado desde sua foz no canal São Gonçalo até a
ponte da Rua Sete de Abril (Dom Pedro II), poderia servir ao tráfego de pequenas
embarcações, e revestido no trecho entre a Sete de Abril e a Ponte de Pedra, seria a
solução útil à cidade, pois resolveria economicamente o problema do saneamento da
zona atravessada e serviria ao tráfego fluvial.
Outra solução apresentada foi a da criação de uma bacia defendida por um
dique que iria do Porto à Estrada de Ferro, e que seria esgotada por meio de
bombas.
Assim como os devaneios do intendente Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, essas
propostas não foram levadas adiante. Do mesmo modo, se tivessem sido realizadas,
nossa história hoje seria diferente.
Na década de 60, começaram a crescer as manifestações populares para uma
solução para o problema do arroio, que tinha se tornado um estorvo para os
moradores de Pelotas. Enchentes constantes, mau cheiro, sujeira e transbordamento
de valetas.
Alguns culpavam o Poder Público pela falta de uma política governamental
clara. Outros as indústrias e fábricas. O certo é que não soubemos valorizar esse
16
importante recurso natural. Município, fábricas, curtumes, mas principalmente nós,
homens, seres humanos, fomos culpados pela poluição do arroio. Descaso, preguiça,
interesses pessoais, desconhecimento, ambição, são algumas palavras que podem
ser empregadas para a explicação desse fato.
Assim, segundo relatório do Ródio, para regularização de enchentes e
captação de água para fins de reforço do abastecimento da cidade de Pelotas 17,
foram desenvolvidos na década de 50, projetos para canalização do arroio Santa
Bárbara e construção de uma barragem do arroio, para a Estação de Tratamento de
Água da cidade, assim sanando com dois problemas que atormentavam os
pelotenses: enchentes e falta d água.
No final da década de 60, o anseio pelo progresso estava cada vez maior. Sob
a administração de Louzada, vários projetos urbanísticos eram criados prevendo a
evolução da cidade. Não foi a toa que no ano de 1968 foi feito o Primeiro Plano
Diretor de Pelotas, prevendo abertura de grandes avenidas perimetrais.
Uma das razões da criação do SANEP, em 25 de outubro de 1965 sob a sigla
SAAE - Serviço Autônomo de Água e Esgotos -, foi a assinatura do contrato de
financiamento das obras da Hidráulica do Arroio Santa Bárbara em 1966. O projeto
final foi elaborado pelo Escritório Saturnino de Brito e executado pela construtora
Pelotense Ltda. com base no Anteprojeto do reservatório do Arroio Santa Bárbara
concebido em 1953 pela Comissão de Estudos de Obras de Irrigação do Estado do
Rio Grande do Sul e no projeto final de barragem do Arroio, cujas obras se
encontravam em andamento sob comando do DNOS.
Contrato assinado, financiamento acertado, coube agora o marketing do
governo sobre suas benfeitorias para a cidade.
O jornal Diário Popular de 28 de abril de 1968 trazia a seguinte manchete:
Com a Radial, Norte e Oeste da Cidade ficarão mais próximos . E o texto seguia
dizendo: Não bastará, contudo, a pavimentação desse trecho da Marcílio Dias para
torná-la uma via radial, ainda que provisoriamente. Há necessidade de realizar outras
obras no seu trecho final, ou seja, o ponto onde é interrompida pelo arroio Santa
Bárbara, que é também onde a rua desemboca no Largo Aldrovando Leão (defronte
à Cia. Pelotense de Eletricidade). Observando-se o citado local, agora, notar-se-á que
o pequeno bar da esquina o Novo canto do Rio está fechado, que igualmente as
casinhas, nos fundos, têm as portas e janelas cerradas, que já não são habitadas;
sucede, na realidade, que a Prefeitura de Pelotas desapropriou tais prédios, pois
aquilo que ali é hoje uma simples ruazinha vai ser alargada e pavimentada e
construirá no futuro, o trecho final da grande avenida chamada Primeira Radial Norte
Principal de Pelotas, além disso, nesse ponto, o leito do arroio santa Bárbara será
aterrado, aliás, deve ser assinalado que será esse o primeiro ponto do Santa Bárbara
a receber aterro; ali, justamente onde agora existe uma transitadíssima ponte de
madeira, o Santa Bárbara será cortado pela primeira vez dentro da zona urbana .
Fica claro com as notícias dos jornais que o Poder Público passava à populção
uma idéia de modernidade . Citações como Primeira Radial Norte Principal de
Pelotas em substituição a uma transitadíssima ponte de madeira com certeza
davam idéias de progresso e avanços.
Era notável o descaso com o leito do arroio e suas pontes que ainda
sobreviviam no fim da década de 60. Aguardava-se com ansiedade a conclusão das
obras da barragem. Manchetes dos jornais indicavam que a barragem ficaria pronta
17
RODIO S.A. 1963. Arroio Santa Bárbara - estudos topográficos, geotécnicos e hidrológicos no Rio Grande do Sul. Relatório
complementar No 188-04, Rio de Janeiro.
17
até novembro de 1968 e diziam que na primeira etapa da obra ela forneceria 20
milhões de litros de água diários para Pelotas além de prevenir contra enchentes .
Enquanto isso, as pontes que foram construídas no século XIX precisavam de
manutenção. Notícia do jornal Diário Popular de maio de 1968 alertava que a ponte
da Rua Urbano Garcia (atual Rua Professor Araújo) estava em estado de emergência
e que necessitava de reparos. A Prefeitura respondeu que colocaria um aterro para
solucionar o problema provisoriamente.
Seis dias após essa notícia, em 31 de maio, o jornal Diário Popular noticiava:
Ponte do Santa Bárbara: local vai ser aterrado. Queda da ponte na rua Urbano
Garcia. O Acidente provocará o início imediato da aterragem do leito do Santa
Bárbara, pois já se encontra pronto o novo leito, á altura da Lomba do Fragata. O
desaparecimento dessa ponte provocará acréscimo de trânsito pela Floriano. A
solução para o problema é a rápida abertura da avenida Perimetral que desembocará
no Largo Androvando Leão e passará a ser via obrigatória para veículos de carga.
Os jornais seguiam noticiando o que acontecia às pontes do santa Bárbara.
Em 29 de junho do mesmo ano, a manchete do Dário era a seguinte: Água,
umidade e ferrugem corroem ponte da Pedro II . A reportagem falava que a
Prefeitura havia sido solicitada a chamar uma equipe de técnicos especializados a fim
de realizar uma perícia sobre as condições de segurança da ponte sobre a Rua Dom
Pedro II, para evitar o desmoronamento como ocorreu com a ponte da Urbano
Garcia. Os técnicos vieram de outras cidades, já que Pelotas não contava com mãode-obra especializada. Falaram que o estado da estrutura metálica era precário e que
a ponte não possuía contraventamento, o que fazia com que ela se movimentasse
quando um veículo passava. Eram necessários reparos na estrutura metálica,
limpeza, pintura, reconstrução do estrado de concreto e também limitar o peso dos
veículos. A resposta do Governo era a autorização para a Secretaria Municipal tomar
todas as decisões necessárias para as medidas de segurança.
No dia 7 de novembro de 1968, era feito através dos jornais o convite para a
inauguração da Barragem Santa Bárbara.
Através da leitura dos jornais da época, principalmente desse ano de 1968,
nota-se que já não importava mais reparar as antigas pontes: o arroio iria ser
aterrado e elas não seriam mais necessárias. Assim, pouco a pouco elas foram
ruindo e desaparecendo do cenário da cidade. A única que ainda permanece é a
Ponte de Pedra. O novo leito do arroio já estava pronto, como diz a notícia á altura
da Lomba do Fragata . Foi localizado em uma zona ainda não povoada da cidade,
um pouco mais a oeste, em direção ao cemitério no bairro Fragata.
O arroio Santa Bárbara, que possuía ao todo 15 km de extensão, desde sua
nascente próximo ao Monte Bonito até desaguar no canal São Gonçalo, teve seu
curso retificado e canalizado a partir da Barragem do Santa Bárbara.
Segundo Guerra e Cunha, a canalização é uma obra de engenharia realizada
no sistema fluvial que envolve a direta modificação da calha do rio e desencadeia
consideráveis impactos, tanto no canal quanto na planície de inundação. Existem
diferentes processos que consistem desde o alargamento da calha fluvial, a
retificação do canal principal e a construção de canais artificiais e diques de
contenção nas suas margens, além da remoção de obstáculos nos canais .18
Muitos são os problemas apontados sobre a canalização de rios e arroios, tais
como: mudança dos padrões de drenagem, perda dos meandros que aumentam a
18
GUERRA, A.T.; CUNHA, S.B. Geomorfologia, uma atualização de bases e conceitos. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil, 1994.
18
quantidade de sedimentos transportados e dando origem a novos depósitos que
podem assorear o canal, mudança na flora e fauna do local etc.
Para agravar a situação, a cidade continuou crescendo, e a população acabou
por ocupar algumas áreas aterradas do antigo arroio. Estes terrenos pertencem à
União e são ocupados por posseiros que têm dificuldade em regularizar a sua
situação perante a Prefeitura Municipal.
O mais absurdo exemplo de ocupação do antigo leito é o da Receita Federal.
O seu prédio foi construído ao lado da Ponte de Pedra, na década de 90. Nessa
época, o projeto foi aprovado pelos órgãos da Prefeitura e ninguém notou que ele
previa a destruição da ponte para dar lugar à entrada principal. Um Promotor
conseguiu uma liminar e as obras ficaram paradas por algum tempo. Sofrendo
pressões por parte dos preservacionistas da cidade, o projeto foi alterado, fazendo a
entrada ao prédio localizar-se na rua lateral (veja Figura 13).
Figura 13: Prédio da Receita Federal de Pelotas. Projeto previa demolição da ponte para acesso à escadaria.
Fonte: Glenda Dimuro Peter
Foi uma grande conquista, pois esta é o único vestígio físico que ainda resta
do saudoso arroio. Mas outros vestígios não nos deixam esquecer de sua existência...
Embora a canalização do arroio tenha sido feita por vários motivos, dentre eles
acabar com as enchentes, o seu antigo percurso, que chamamos de braço morto,
traz lembranças dos tempos em que ele cortava a cidade. Estas zonas continuam
sofrendo com os alagamentos, como se a natureza teimasse em colocar o Santa
Bárbara em seu trajeto original . 19
É bem verdade que um grande trecho do antigo arroio nunca conseguiu ser
agregado à malha urbana, causando grandes vazios urbanos, terrenos murados e
abandonados em meio aos quarteirões existentes, ou então ocupados por pessoas
de baixa renda, que constroem seus casebres em meio a terrenos alagadiços, em
vazios urbanos entre os quarteirões da cidade, como podemos observar nas Figuras
14 e 15.
19
CORDEIRO, Leandro Hartleben. I dentificação e caracterização da Bacia de Captação do Reservatório Santa Bárbara-Pelotas.
Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do curso de Oceanologia da FURG. 2000.
19
Figura 14 e 15: Vista de terrenos abandonados em meio à malha urbana. Na Figura 14 observamos um terreno murado e à
esquerda vestígios da ponte na Rua Lobo da Costa. Na Figura 15, banhados ocupados por população de baixa renda.
Fonte: Glenda Dimuro Peter
Na Figura 16, nos mostra o aerofotogramétrico da década de 70. Em azul
podemos observar o curso do arroio Santa Bárbara pela malha urbana de Pelotas e
também o canal com o percurso desviado. Nota-se que os aterramentos não foram
feitos todos na mesma época, mas ao longo de alguns anos, conforme as
necessidades.
Figura 16: Aerofotogramétrico da década de 70.
Fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas
20
Se observarmos as imagens aéreas da cidade de Pelotas do ano de 2002
(Figura 17) perceberemos que é irregular ocupação do braço morto do arroio, em
alguns trechos existem prédios, mas na maioria do percurso o que encontramos são
áreas verdes e alagadiças entre os quarteirões. Algumas massas de vegetações
podem ser notadas na imagem da década de 70 e nessa de 2004. O trecho final do
arroio, ao sul, não foi aterrado e continua desembocando no Canal São Gonçalo.
Figura 17: Vista aérea do braço morto (trecho em destaque). Ocupação rarefeita e grande presença de vegetação e banhados.
Fonte: Glenda Dimuro Peter.
21
Em 1989, Heloisa Assumpção Nascimento falava: Detendo-se, hoje, o
pelotense na Ponte de Pedra, de onde, há anos, contemplava as águas correntosas
do arroio, agora só vê farto depósito de lixo, jogado ali, em pleno coração da urbe.
De modo que nosso marco histórico citadino está a servir de anteparo a um depósito
de detritos .20
De fato, durante muitos anos, esse espaço aterrado ao lado da Ponte de
Pedra serviu como depósito de lixo, localização de parques de diversões e circos que
visitavam a cidade. Após a construção da Receita Federal, mais um desses absurdos,
que só acontecem em nosso país, foi executado pela própria Prefeitura, um
camelódromo sobre o leito do antigo arroio. Desde então essa é a sua ocupação.
As pessoas que por ali passam nem têm idéia de tudo que aconteceu naquele lugar.
A Ponte de Pedra serve apenas como muro para vândalos e pichadores, que nem
imaginam a importância que um dia ela teve para a cidade de Pelotas (veja Figura
18).
Figura 17: Vista situação atual da Ponte de Pedra.
Fonte: Glenda Dimuro Peter.
A Administração atual da Prefeitura de Pelotas fez um Projeto de
Requalificação da Praça Cipriano Barcellos. O projeto trata da recuperação do
tradicional logradouro público e sua original condição de importante espaço de lazer
da área central da cidade, agregando-se a esta ação o tratamento do espaço situado
entre a praça e o camelódromo, correspondente ao local do antigo leito do Arroio
Santa Bárbara, expandindo-se desta forma a área total do logradouro.
A idéia básica partiu da necessidade de ser criada pelo Serviço de Saneamento
de Pelotas SANEP - no antigo leito do Arroio Santa Bárbara, uma grande piscina
para contenção temporária das águas pluviais provenientes da área mais central da
cidade, buscando-se com isto solucionar em parte o problema crônico de inundação
da rua Saldanha Marinho e adjacências, quando da ocorrência de grandes
precipitações pluviométricas.
O projeto então, norteando-se por esta premissa e pelo imaginário público
relativo a constante presença da água naquele local, propõe o rebaixamento de nível
da área correspondente ao antigo leito do arroio, surgindo daí um grande espelho
d água que ficará contido, do lado da praça, por um muro com parapeito e pelo lado
oposto por uma arquibancada construída em concreto armado, que servirá como
área de contemplação e espaço para a realização de eventos ao ar-livre. Este
espelho d água, nos dias de grande intensidade de chuvas, funcionará como
piscinão de contenção provisório das águas pluviais. Como forma de interligar as
duas áreas, sobre o espelho d água está previsto a construção de uma ponte em
20
NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa cidade era assim. Pelotas: Editora Livraria Mundial, 1989.
22
estrutura metálica, apoiada em pórticos, que garantirá o fluxo de pedestres entre a
praça e o camelódromo. 21 O relato segue descrevendo o projeto, que ainda prevê a
recuperação da vegetação, criação de playgrounds e melhorias na Praça Cypriano
Barcellos.
Figura 15: Perspectiva do Projeto de Requalificação da Praça Cypriano Barcellos
Vista do piscinão no antigo leito do arroio Santa Bárbara.
Fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas Secretaria de Planejamento Urbano, 2004.
A Manchete do Diário Popular de setembro de 2004 dizia: Cidade: Antigos
muros de contenção do Santa Bárbara podem ser reaproveitados. Enquanto obreiros
escavavam no estacionamento do camelódromo, foi descoberto que os muros de
contenção do antigo leito do arroio Santa Bárbara continuam ali soterrados. Nesta
semana o Sanep fará nova escavação, mais ampla, para averiguar as condições do
canal original e o nível do lençol freático. Se for possível, a autarquia pretende
adequar as medidas do tanque para reaproveitar a estrutura em suas paredes
laterais. Também a construção da arquibancada está condicionada ao resultado
desta avaliação .
O projeto da Prefeitura pode amenizar o problema das cheias no local, mas
não prevê o resgate da memória do lugar. Não foi pensado em nenhum tipo de
informação sobre o que foi esse espaço no passado, nada que rememore aqueles
que um dia passearam nas margens do arroio ou que desperte o imaginário dos que
nunca viram suas águas cruzarem a praça. Talvez essa descoberta arqueológica
desperte nos projetistas algum sentimento, algo que os façam lembrar que
realmente ali existiu um arroio e que este fato não só merece como deve ser
lembrado para todos os novos usuários do espaço.
21
Arquivos Prefeitura Municipal de Pelotas
Secretaria de Planejamento Urbano, 2004.
23
5. DE ARROIO A CANAL
Com um novo leito, o arroio mudou de nome e passou a se chamar Canal
Santa Bárbara. O problema das enchentes continua o mesmo, desde o século
passado, com um agravante. Agora, além de alagar onde já alagava antes (no braço
morto) são constantes também as reclamações dos moradores do Bairro Simões
Lopes, cortado pelo leito do canal que continua com os mesmos problemas de
transbordamentos. A manchete do Diário Popular de 7 de junho de 2002 mostrava:
Água invade o bairro Simões Lopes: volume dos canais São Gonçalo e Santa
Bárbara continuam subindo (veja Figura 18).
Figura 18: Moradores do bairro Simões Lopes sofrem com o aumento do nível do canal Santa Bárbara.
Fonte: jornal Diário Popular.
As margens do Canal continuam poluídas como antes, por dejetos industriais e
esgotos da população. Suas margens são ocupadas por inúmeras habitações
irregulares, como podemos ver na Figura 19.
Suas novas pontes em nada se parecem com aquelas que um dia foram
construídas no arroio. Sem nenhum estilo arquitetônico, são apenas concreto e aço,
nada que mereça a nossa atenção e apreço (Veja Figura 20).
Figura 19: Vista da Canal Santa Bárbara e sua ocupação ribeirinha.
Fonte: Glenda Dimuro Peter.
24
Figura 20: Vista de uma das Pontes do Canal Santa Bárbara.
Fonte: Glenda Dimuro Peter.
A Figura 21 mostra uma vista aérea atual da cidade, mostrando o leito do
canal Santa Bárbara e o bairro Simões Lopes.
Figura 21: Vista aérea do Canal Santa Bárbara.
À direita está localizado o bairro Fragata e ao fundo o Canal São Gonçalo.
Fonte: Prefeitura Municipal de Pelotas.
25
6. O OLHAR COM SIGNIFICADO
Apenas alguns leitores privilegiados da cidade, com habilitações culturais,
profissionais e estéticas que os dotam de um olhar refinado, sensível e arguto, como
escritores, fotógrafos e pintores do urbano, que resgatam as sensibilidades do real
vivido, estabelecendo com a cidade uma relação privilegiada de percepção 22
conseguem captar que tão maior quanto os problemas físicos que o aterramento
do arroio nos trouxe, são os problemas psicológicos da perda da memória e
identidade.
Os homens comuns passam despercebidos, muitas vezes por dia, pela única
ponte que restou para nos contar alguma história, ou pelas lombas das diferenças
de nível que o braço morto deixou pelos cruzamentos de algumas ruas da cidade. A
ponte mais parece um muro de arrimo para vencer o desnível da rua em relação à
praça e quase todo mundo não vê além do que lhes é mostrado. O único fato que
nos leva a pensar sobre a importância da ponte é a localização de diversas placas em
sua estrutura (Figuras 22 e 23), informando as reformas pelas quais ela sofreu no
passado e que há muito tempo não são realizadas. As placas parecem querer dizer:
sim aqui existiu algo importante para nossa cidade, sim aqui é um lugar que merece
ser lembrado, ou simplesmente, aqui jaz o arroio da cidade.
Figuras 22 e 23: Placas da Ponte de Pedra.
Fonte: Glenda Dimuro Peter.
O que não pode ser negado é que a Ponte de Pedra perdeu a sua verdadeira
função de estabelecer comunicação entre dois pontos separados por um curso
d água. Mas isso não significa que ela não deva ser preservada, pois como já foi dito,
é a única prova concreta, física que nos sobrou dos tempos do arroio. Ela hoje
representa o que um dia foi o leito do arroio. É o único monumento que nos resta
para presentificar a ausência do Santa Bárbara.
Os mais aculturados conseguem fazer uma criação imaginária do acontecido,
uma representação mental. Alguns realmente vivenciaram aquele tempo e
conseguem nos narrar fatos que ajudam a contar a história. Outros, como eu,
tentam imaginar o que foi, fazem uma reconstrução do passado através da história,
narrativas, mapas e fotos, tentando montar um quebra-cabeças, arrumar os cacos da
22
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Muito além do espaço: por uma história cultural do urbano.
26
história. Fazemos uma rememoração porque não temos e nem podemos ter diante
de nós o que se viu e viveu nas margens daquele arroio.
O que consideramos patrimônio pode mudar com o tempo. Sabemos que algo
que não existe mais pode ser considerado um patrimônio perdido, algo que não foi
valorizado em determinada época pode vir a ser valorizado em outra.
Com o arroio Santa Bárbara aconteceu exatamente isso. No século XIX ele era
respeitado e lembrado por todos que passavam por Pelotas. Tinha um grande valor
para a população que utilizava suas águas límpidas. Em determinada época deixou
de ser valorizado e hoje não existe mais. Agora pode ser tratado como um
patrimônio perdido, mas ainda podemos resgatar algum lugar de memória, algum
lugar com significados e lembranças de um tempo que não existe mais em sua única
ponte que ainda vive.
27
7. APRENDENDO COM OS ERROS
A cidade sonhada pelos produtores do espaço se apoderou de alguns
trechos do leito do antigo arroio, hoje diluído pela zona central da cidade sem nunca
ter conseguido realmente se homogeneizar à malha urbana.
Em Pelotas predominou o domínio da razão em busca pelo progresso sem
medir conseqüências futuras. A Primeira Radial Principal Norte, via perimetral tão
planejada em meados da década de 60, hoje é uma via de mão-dupla, estreita, com
trânsito caótico de veículos, bicicletas e excesso de caminhões de carga que fazem
diariamente o trajeto norte-oeste da cidade. Nem parece com a grande via sonhada
e que para a sua construção não se mediu conseqüências, nem mesmo aterrar o
arroio que cortava a cidade.
Quando as pontes precisaram de manutenção, a Prefeitura não tomou as
atitudes de prevenção necessárias. Por que preservar pontes velhas de um arroio
sujo e mau cheiroso, ocupado (em alguns trechos) por populações ribeirinhas e
pobres, que só causava alagamentos em épocas de chuvas? Talvez fosse esse o
pensamento dos políticos da época, tinham a cabeça ocupada com as idéias de
progresso e assim não sobrava tempo para outros pensamentos... Talvez para eles o
arroio merecesse ser aterrado. Não nos deram a opção de ver as suas águas
correntes, não pensaram em criar políticas mais severas e projetos de despoluição, e
nem a população da época se importou muito com isso... Não tinham o domínio da
técnica de recuperação ou não quiseram gastar com isso? Quem tem o poder ensina
o que lembrar e o que esquecer . Como diz Walter Benjamim: A sociedade
capitalista produz imagens que são fantasmagorias, onde compramos uma coisa
pensando que é outra 23. Isso explicaria, quem sabe, porque a maioria população
concordava com o aterramento do canal. Outros agiram como meros espectadores
da vontade dos produtores do espaço , que atribuíram funções aos espaços criados
que poderiam estar distantes da verdadeira vontade da população.
As palavras de Aluísio Magalhães, que dizia que patrimônio não era apenas
coisas excepcionais, mas também os saberes e os fazeres, não chegou a tempo de
influenciar nossos políticos, no início dos anos 70. Não chegou a tempo de salvar a
vida do arroio...
Não soubemos cuidar do nosso arroio, nosso patrimônio não apenas natural,
mas ambiental, já que todo um contexto urbano foi perdido. Não soubemos despoluílo e aproveitar seus recursos naturais como faziam nossos conterrâneos do século
XIX. Quantas cidades do mundo são lindas, limpas, organizadas e modernas e
possuem um canal, igualmente lindo e despoluído, com pontes maravilhosas
cortando sua malha urbana? É o caso de Copenhagem, na Dinamarca, e de Saint
Petersburg, na Rússia, onde milhares de cidadãos e turistas convivem
harmoniosamente com sua história e ambiente natural (Veja Figuras 24, 25 e 26).
23
Conforme citado em PESAVENTO, Sandra J. Muito Além do Espaço: por uma história cultural do urbano. Estudos Históricos,
Vol. 8, N° 16, 1995, p.279-290.
28
Figuras 24: Imagem de um Canal em Copenhagem, na Dinamarca, com barcos para passeios turísticos.
Fonte: Graçaliz Pereira Dimuro.
Figuras 25 e 26: Imagens de Saint Petersburg, na Rússia. Pontes cruzam a cidade e margens dos canais são arborizadas.
Fonte: Graçaliz Pereira Dimuro.
Depois de feitas essas cirurgias urbanas em nome do progresso de Pelotas,
o que nos resta é retocar os estragos. Os antigos produtores marcaram para
sempre a cidade, fazendo uma cicatriz praticamente irreversível. Transformaram um
lugar em um lugar qualquer, um lugar com sentimentos e significados em uma
simples passagem de trânsito em nome do progresso futuro. Os atuais produtores
através do Projeto de Requalificação da Praça Cypriano Barcellos estão com uma boa
intenção e é um bom começo, pois trará de volta o arroio ao seu antigo leito, pelo
menos no trecho onde isso é possível.
Quem sabe esse piscinão , se vier acompanhado de um museu ao ar livre
pode fazer desse espaço novamente referência para a cidade? O que restou da
história do arroio precisa de uma narrativa para ter sentido. Esse espaço poderá vir a
ser novamente um lugar de memória, e quem sabe consiga se resgatar a memória
perdida, onde passado, presente e futuro andem juntos. A releitura do passado e sua
história fazendo um espaço presente e evitando que aconteçam os mesmos erros no
futuro.
Resgatando a memória escolhemos o que lembrar e o que esquecer, mas não
basta lembrar que por ali um dia passou o arroio da cidade. Devemos lembrar que
por ali passou um arroio, que era navegável, onde lavadeiras dividiam espaço com
pequenas embarcações, onde várias pontes, de várias formas e materiais, faziam a
ligação com a terra firme, mas que um dia começou a ser poluído pela população,
pelas indústrias e pelos políticos que não elaboravam políticas mais severas. Deve
ser lembrado que não se teve competência para despoluí-lo, e a ansiedade pelo
progresso causou a sua morte.
29
Era um arroio e cortava o centro da cidade.
A poesia de suas águas espelhava a certeza de dias pitorescos.
Há quem o lembre saudoso e lamente o destino que lhe foi dado.
Em outros tempos o Arroio Santa Bárbara era límpido e suas águas inspiravam
tranqüilas pescarias e pequenas embarcações desenhavam em seu leito operosas
jornadas. A indiferença o fez fétido e o Arroio das pontes suntuosas e das tímidas
passarelas de madeira, pouco a pouco foi se tornando um incômodo para a nossa
população.
Até que um dia, desviaram-no para mais longe, contrariando a natureza que o
desenhava primorosamente perto da zona central da cidade.
Vez que outra, no seu antigo leito juntam-se pequenas poças d'água, que
dizem da sua vontade de voltar para o seu leito natural.
A mão do homem que não teve competência para despoluí-lo, teve forças
para descaracteriza-lo e sem se importar com conseqüências o fez mais feio e menos
bucólico.
Somos daqueles que até hoje lamentam o crime bárbaro impetrado contra o
Arroio da Cidade e, quanto mais o tempo passar e pudermos dizer do nosso eterno
descontentamento o faremos.
Não podemos aceitar que a insensibilidade tenha forças para dar razão as
coisas ilógicas. Pena que quando foi tomada esta atitude, não se tenha criado uma
consciência coletiva para que tal ato não se cometesse.
Hoje, quando muitos sonham com a indústria sem chaminé, o TURISMO,
pensamos se o Santa Bárbara com pequenas embarcações deslizando em suas águas
não seria, também, uma opção turística?...
Temos certeza que sim! Hoje, olhando fotos de época, emociona-nos a força
do trabalho dos que em outros tempos, sem tanta tecnologia, souberam com
criatividade e talento fazer Pelotas progressista.
O Santa Bárbara, naquele tempo, existia e em vez de ser um estorvo facilitava
através de suas águas a locomoção de tantas pessoas, que optavam por ele para
chagarem a seus lugares de serviço.
Fica aqui nossa homenagem ao ARROIO DA CIDADE e a saudade dos tempos
bucólicos, que a imagem fotográfica nos oferece.
A sombra dos seus salsos-chorões, que permanecem verdes à margem da
lembrança lançamos nossos olhos nas águas do tempo, onde submergem cenas de
encantamento.
E nós, meros caminhantes da história, narramos com emoção as coisas
bonitas desta cidade Princesa. Somos de Pelotas e, lamentamos, com veemência,
que tantos erros foram e ainda são cometidos, penalizando a nossa cidade.
E não venham falar em progresso, porque se houver um comparativo entre o
ontem e o hoje, facilmente constataremos que perdemos em muito para o passado.
A verdade é uma bóia de esperança, que permanece indelével e não naufraga.
MAGALHÃES, Nelson Nobre (editor). Pelotas Memória, n° 6, Pelotas, 1999.
30
8. BIBLIOGRAFIA:
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