PESQUISA QUALITATIVA SEBRAE Fevereiro/2009 SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] SUMÁRIO A Pesquisa.......................................................................................................................................... 1 Especificações Técnicas ................................................................................................................ 1 Introdução: Algumas Observações sobre a Pesquisa .................................................................... 3 O Público Pesquisado - A denominação......................................................................................... 3 O Contexto da Análise .................................................................................................................... 5 A Receptividade à Lei ..................................................................................................................... 6 A Realidade dos Autônomos ou... (Sobre)Vivendo na Corda Bamba .......................................... 10 O Início: a falta de opção .............................................................................................................. 10 O Perfil dos Autônomos ................................................................................................................ 12 Fatores geradores da heterogeneidade da categoria ................................................................... 25 A Motivação da Permanência ....................................................................................................... 25 A Atitude em Relação à Informalidade ......................................................................................... 30 A Receptividade à Criação do MEI .................................................................................................. 35 A Apresentação ............................................................................................................................ 35 As Reações .................................................................................................................................. 35 O Potencial de Adesão à Figura Jurídica do MEI ......................................................................... 38 Dúvidas em Relação à Adesão ao MEI ........................................................................................ 45 SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 1 A PESQUISA ESPECIFICAÇÕES TÉCNICAS Metodologia: Técnica: Qualitativa 10 Grupos de Discussão Realização: 06 a 12 de fevereiro de 2009 Público Pesquisado: Empreendedores informais com faturamento mensal de até R$3.000,00 com no máximo um empregado, residentes nas praças de Belém, Recife, Goiânia, São Paulo e Porto Alegre. Objetivos da Pesquisa: Avaliar o impacto junto a microempreendedores informais da mudança na lei da Micro e Pequena Empresa, que pretende criar a figura do microempreendedor individual (MEI). SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 2 Perfil dos Grupos CIDADE QUANT. GRUPOS PROFISSÃO GÊNERO CLASSE* IDADE 01 Encanador, motoboy, camelô, eletricista, vendedor de bolos, pintor, vendedor de frutas, fornecedor de marmitex, pedreiro. Homens C2/D 25 a 45 anos 01 Camelô, artesã, lavadeira, cabeleireira, vendedora de salgados, manicure, costureira, Mulheres fornecedora de marmitex. C2/D 25 a 45 anos 01 Conserta celular, pedreiro, serralheiro, pintor, artesão, vendedor de cosméticos, motorista, motoboy, técnico em informática. C2/D 25 a 45 anos C2/D 25 a 45 anos C2/D 25 a 45 anos C2/D 25 a 45 anos Homens C2/D 25 a 45 anos 01 Massagista, pipoqueira, vendedora de churros, vendedora de cachorro quente, manicure, Mulheres vendedora de pastel, costureira, artesã. C2/D 25 a 45 anos 01 Pedreiro, sorveteiro, carpinteiro, artesão, eletricista, pintor, polidor de automóveis, camelô, Homens motoboy. C2/D 25 a 45 anos 01 Cozinheira, cabeleireira, lavadeira, vendedora Mulheres de sucos, doceira, artesã, manicure, salgadeira. C2/D 25 a 45 anos Belém do Pará Recife 01 01 São Paulo 01 01 Porto Alegre Goiânia Homens Diarista, promotora de festas e eventos, manicure, artesã, camelô, vendedora de Mulheres salgados, cabeleireira, vendedora de cosméticos, faxineira. Marceneiro, camelô, vendedor de água de coco, pipoqueiro, pedreiro, pintor, vendedor de Homens cachorro quente, encanador. Vendedora de cachorro quente, camelô, artesã, cabeleireira, manicure, salgadeira, faz marmitex, Mulheres costureira, confecciona e vende bijuterias. Vendedor de cachorro quente, motoboy, marceneiro, eletricista, camelô, técnico em informática, vendedor de churros, pipoqueiro, pedreiro. *Critério de Classificação Econômica Brasil associado à escolaridade do participante. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 3 INTRODUÇÃO: ALGUMAS OBSERVAÇÕES SOBRE A PESQUISA O PÚBLICO PESQUISADO - A DENOMINAÇÃO “AUTÔNOMO” É A FORMA QUE O PÚBLICO PESQUISADO SE AUTODENOMINA; “Por exemplo, quando você conversa com alguém que tem seu trabalho próprio, ele não diz assim „sou um microempresário‟, mas ele vai dizer „eu sou autônomo, eu trabalho por conta própria, eu faço meu salário”. (Belém , Homens) “Autônomo é do comércio e você trabalha para si próprio . Não tem outra pessoa, trabalha para si próprio , mesmo não tendo um salário certo. Autônomo não tem um salário. Mas eu acho que faz mais sentido com a palavra”. (Belém, Mulher es) QUANDO ESTIMULADOS SOBRE A POSSIBILIDADE DE SEREM EMPREENDEDORES, MUITOS NÃO SABEM O SIGNIFICADO DA PALAVRA; ENTRE OS QUE SABEM, HÁ RECEPTIVIDADE À DESIGNAÇÃO PORQUE ACHAM “CHIQUE”, MAS PERCEBE-SE QUE NÃO HÁ IDENTIFICAÇÃO DO CONCEITO COM O QUE FAZEM – O TERMO EMPREENDEDOR TEM UM SIGNIFICADO MUITO MAIS SOFISTICADO DO QUE A ATIVIDADE QUE EXERCEM NO DIA A DIA; “– Fiquei chique, sou dona da empresa!. – A gente passou a existir ”. (Goiânia, Mulher es) “Uma coisa mais social, muitos acham que microem preendedor é melhor do que chamar de ambulante, camelô, pintor, encanador ”. (S ão Paulo, Hom ens) PORTANTO, O NOME MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL É AVALIADO ENTRE ESSAS DUAS REFERÊNCIAS: O DESCONHECIMENTO DO QUE É SER “EMPREENDEDOR” E A AUSÊNCIA DE IDENTIFICAÇÃO COM O QUE FAZEM PORQUE EMBUTE O SIGNIFICADO DE EMPRESÁRIO, STATUS QUE NÃO ACHAM QUE TÊM; “Eu não sei se eu sou microempresário ou autônomo, porque eu trabalho com serralheria. Eu trabalho sozinho, mas não me impede de fazer um serviço maior porque eu boto mais gente pra trabalhar comigo. Aí, quer dizer, eu vou ser microempresário a partir desse momento. Se eu estou sozinho eu sou autônomo”. (Recife, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 4 “- Microempresário tem quatro, cinco funcionários. Eu trabalho sozinho. - A gente é batalhador d o dia a dia, a gente está sempre batalhando, não pára”. (Por to Aleg r e, Homens) A SIGLA MEI GERA RISOS E DEBOCHE, MAS É AVALIADA COMO MAIS – TUDO EM SUAS VIDAS É “MEI” (NO SENTIDO DE MEIO). HÁ AINDA ASSOCIAÇÕES BEM HUMORADAS COM O I NO FINAL DA SIGLA COM “INDIVIDADO” E “INROLADO” (SITUAÇÕES EM QUE SE PERCEBEM MAIS DO QUE GOSTARIAM). PRÓXIMA DA SITUAÇÃO DOS AUTÔNOMOS “– Meio. – Meio para tudo, não é? – Meio caminho andado. – Está lá no meio e se acha realizado ”. (Goiânia, Mulher es) “- Dá para perceber que é metade, não é? Rebaixou – Meio para lá e meio para cá ”. - Ah! Ele é um MEI. Meio empreendedor ”. (Belém, Homens) “Não é definido completo, é definido metade ”. (Goiânia, Homens) “– Ruim toda vida. – Já está colocando nós pela metade. – Pequeno. – Incompleto. Disforme ”. (Goiânia, Homens) “– Quando fala MEI, aí deu até câimbra. – Tinha que ter um outro nome, mas MEI não. – Nem a palavra não é completa. MEI. – Nós somos MEI. – O governo gosta de machucar a gente até com isso! ” (Goiânia, Hom ens) “- Sou MEI, ninguém sabe o que é isso. - Sou MEI... - Meigalinha. - É! MEI o quê? Meigalinha. - Meiga. - É melhor ser autônomo. MEI... É melhor mesmo falar que sou microempreendedor individual ”. (Recife, Mulher es) “- Por que já está deixando a gente de lado. - O meio empresário”. (Belém, Mulher es) "- O que você faz? Eu sou MEI. - Vão pensar que você trabalha com meia. - „Individados, Inrolados‟”. (S ão Paulo, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 5 O CONTEXTO DA ANÁLISE SE A ANÁLISE DA REALIDADE DOS AUTÔNOMOS É PELO ENFOQUE INDIVIDUAL/PESSOAL, SURGE UMA CARACTERÍSTICA COMUM À CATEGORIA: TODOS (SOBRE) VIVEM NA CORDA BAMBA; SE A ANÁLISE É PELA ÓTICA DA VISÃO DE CONJUNTO, TORNA-SE NECESSÁRIO TENTAR ALGUMAS SEGMENTAÇÕES POR CAUSA DA HETEROGENEIDADE DA CATEGORIA. ISSO É IMPORTANTE PARA QUE SE COMPREENDA AS VÁRIAS DIMENSÕES EMBUTIDAS NA AVALIAÇÃO QUE FAZEM DA LEI. “Eu me defino com uma palavra: necessidade. Tantas vezes você necessita e tem que optar . Você vê a chance melhor para sobreviver e você opta por aquilo. E eu penso também que hoje na vida o homem, chefe de família , tem que ser clínico geral, de tudo ele tem que optar em saber fazer, desde que seja bom naquilo”. (Belém, Hom ens) “- Sobrevivente. Se não tem uma formação acadêmica boa e não tem uma profissão, não tem como entrar no mercad o de trabalho. Não tem como você trabalhar pra ganhar R$400,00 e sustentar uma família. Porque é o que o mercado oferece. - Um herói sobrevivente ”. (Por to Aleg r e, Homens) “No meu entender é sobrevivência. Porque você não tem condições de pagar imposto, não tem condições de pagar nada . Aí você vai fazer o quê?” (Recife, Hom ens) “O autônomo não tem benefícios, não tem carteira assinada, não tem vale-transporte, não tem almoço, não tem décimo terceiro, não tem nada”. (G oiânia, Hom ens) “Um cara desempregado hoje arruma um bico e é autônomo ”. (Recife, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 6 A RECEPTIVIDADE À LEI AS REAÇÕES À LEI FORAM, GROSSO MODO, POSITIVAS. SUGESTÕES E DÚVIDAS FORAM EXPLICITADAS, COMO DETALHAREMOS EM CAPÍTULO ESPECÍFICO; MAS OBSERVAMOS QUE AS MANIFESTAÇÕES DE APROVAÇÃO TIVERAM A VER COM A POSSIBILIDADE DE QUE ELA TRAGA BENEFÍCIOS INDISCUTÍVEIS, MAS SEMPRE QUANDO AVALIADOS DE FORMA ABSOLUTA; ENTRETANTO NÃO SE PODE DEIXAR DE OBSERVAR QUE É DIFÍCIL SER EXPLICITAMENTE CRÍTICO A UMA PROPOSTA COM CARACTERÍSTICAS TÃO “POLITICAMENTE CORRETAS” (FACILITAÇÃO DA FORMALIZAÇÃO DA ATIVIDADE, ACESSO AOS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS, POSSIBILIDADE DE ACESSO A CRÉDITO, ETC.) E CUJO CUSTO É CONSIDERADO ACESSÍVEL/JUSTO. “Eu penso que você entrar para a formalidade é trabalhar despreocupado. Trabalhar legalmente, sem medo é muito melhor”. (Belém , Hom ens) “Você não trabalha em paz, você não tem soss ego para trabalhar. É muito melhor você trabalhar sossegada ”. (Goiânia, Mulher es) “Aprendi a gostar da minha profissão, ela traz também algum a coisa que me prejudica. Braço, por exemplo, os movimentos repetitivos, coluna, perna e veia. Escova progressiva foi proibida, mas sabe como é... Então, tudo isso traz desgaste e cadê o dinheiro para corrigir? Tudo isso traz coisas que futuramente v ão me trazer problema. É nesse pensamento que eu , às vezes, tenho vontade de sair do meu ramo, por causa desses prejuízos que eu vou ter, pela minha saúde . Eu tenho vontade de sair do meu ramo por isso . Eu aprendi a fazer com amor, mas isso aí vai me trazer prej uízo”. (Goiânia, Mulher es) “Eu trabalho informal. Se por acaso eu sofresse um acidente amanhã, eu não tenho INPS... Não tenho nada disso, entendeu? Eu não tenho nada!” (Recife, Hom ens) “Se eu for fazer um crediário e você também, você tem trabalho formal e eu não, ele vai dar atenção pra você, pra mim não. Eu sou discriminada porque eu sou autônoma. Ele sabe que com você, você vai receber e pagar. Eu sou autônoma, então eu posso ter hoje e amanhã não ter”. (Recife, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 7 “Quando você está informal vo cê não consegue, mas a partir que você faz essa formalidade você consegue crédito ”. (Goiânia, Homens) “Quando você é autônomo e vai fazer um crediário numa loja, não tem como provar o que você ganha, então el es não querem fazer seu cartão”. (Por to Aleg r e, M ulher es) “Eu acho que essa lei, que é uma Lei nova, ela está dando benefícios para as pessoas que são autônomas, dando coisas que a gente não tem, que a gente não faz. Pagando o INSS, dá os benefícios que a gente não tem. Essa lei já está aprovada ou nã o?” (Recife, Mulher es) NESTE CONTEXTO AS RESISTÊNCIAS EXPLICITADAS VERBALMENTE OCORRERAM PRINCIPALMENTE QUANDO HÁ INFERÊNCIAS SOBRE O QUE PODE ESTAR POR TRÁS DA LEI; Intenção do governo de aumentar o controle e a arrecadação sobre a categoria – em um primeiro momento o percentual da contribuição é acessível, mas depois de saber quem exerce a atividade, o governo vai poder começar a aumentar os impostos; “- Esmola demais o santo desconfia . Às vezes querem descobrir quem trabalha informal para daqui a pouc o enfiar a faca. Foi a impressão que eu tive, entendeu? - Quem chegar lá, ele já está sabendo que você é ilegal. É igual ela colocou, isso é para poder descobrir quantas pessoas estão ilegais ”. (S ão Paulo, M ulher es) “Mas isso aí o governo vai dar garantia que essas taxas que a gente vai pagar vão ser fixas ou vão ter reajuste de quanto em quanto tempo? Porque nada vem de graça . O medo da gente é esse . De uma hora para outra o negócio explodir e a gente ficar preso ali no banco, em qualquer coisa”. (G oiânia , Mulher es) OU ÀS DIFICULDADES DE SUA IMPLEMENTAÇÃO - ARGUMENTOS REFLETEM A FALTA DE CREDIBILIDADE ADMINISTRATIVA: NO GOVERNO E EM SUA MÁQUINA A Lei não ir para frente, como sempre acontece com projetos que podem beneficiá-los (tipo Banco do Povo ou Microcrédito) - funcionários públicos vão atender com má vontade, ninguém vai saber explicar direito, quando alguém for procurar vão existir outras condicionalidades para que possa haver a adesão, etc. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 8 “Se for simples assim ... Porque na hora não é, na hora complica tudo”. (G oiânia, M ulher es) “- A gente já vai meio escaldado de coisa de governo! - O problema maior é que eu tenho a minha opinião. A gente não acredita que a lei seja cumprida . - É. O governo já fez tantas leis, né? A lei não é cumprida .” (Reci fe, Hom ens) “Até uma vez eu fui procurar o Banco do assim num grupo. Eu tentei procurar , eu esse crédito que era para eu colocar um mais pessoas e conseguisse uma pesso a consegue”. (Belém , M ulher es) Cidadão e ele apóia a gente, só, fui sozinha. Queria fazer salão para eu trabalhar com que fizesse um cabelo. Não “O governo já lançou um plano pelo Banco do Brasil, onde você adquiria um empréstimo para uma pessoa que era autônoma e aí você compraria em materiais, né? Matéria -prima. E aí pagava aquele produto e você trabalharia. E pagava em pequenas parcelas . Mas aí... Depois que ele lançou acabou isso! Não tem mais. Não sei por quê”. (Recife, Hom ens) “Eu vou falar uma coisa . Às vezes, nós aqui não iríamos nos beneficiar com isso, talvez seriam outras pessoas que seriam beneficiadas. Porque geralmente ia ficar como está, porque é assim, às vezes o governo fala assim: - Tem o banco do povo. Aí o microempreendedor vai lá e nunca consegue o que ele quer. Aí vai um que tem condições e consegue muito mais que você, que ela, que fomos”. (G oiânia, M ulher es) “- Se acabar com essa burocracia toda! - O próprio funcionário quando vai dar informação para você, vão lhe dar a informação correta? - Você chega lá para pedir uma orientação, o cara não quer atender . Porque é funcionário público, trabalha a hora que quer, não é mesmo? - Me diga aí qual é o órgão do governo que funciona bem? - Nenhum! - Não tem nenhum não! - Lei nenhuma no Brasil funciona! - Nenhuma. - Lei no Brasil é para você não tê -la”. (Recife, Homens) O MAIS IMPORTANTE, CONTUDO, É QUE QUANDO SE CONSIDERA O (TÃO BEM RELATADOS EM UM MOMENTO ANTERIOR A APRESENTAÇÃO DA LEI) NÃO HÁ CONTEXTO PESSOAL E PROFISSIONAL DA CATEGORIA COMO NÃO RELATIVIZAR AS REAIS POSSIBILIDADES DE ADESÃO DESTE SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 9 PÚBLICO À FORMALIZAÇÃO DE SUAS ATIVIDADES, INDEPENDENTE DA RECEPTIVIDADE VERBALIZADA APÓS A APRESENTAÇÃO DA LEI; PORTANTO, APENAS JUNTANDO AS PEÇAS DO COMPLEXO MALABARISMO QUE É A ROTINA DE UM AUTÔNOMO INFORMAL É QUE SE PODE TER UMA IDÉIA MAIS REALISTA DAS VERDADEIRAS POSSIBILIDADES DE ALCANCE DA LEI. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 10 A REALIDADE DOS AUTÔNOMOS OU... (SOBRE)VIVENDO NA CORDA BAMBA O INÍCIO: A FALTA DE OPÇÃO RARAMENTE ALGUÉM NORMALMENTE FICAM SE TORNA AUTÔNOMO DESEMPREGADOS (OU POR OS ESCOLHA MARIDOS – FICAM DESEMPREGADOS) E TÊM QUE “SE VIRAR” PARA SOBREVIVER; “- É o fato de não ter opção, não é escolha. - A gente não tem opção, não arranja emprego, tem que trabalhar ”. (Recife, M ulher es) “Foi por desespero mesmo. Eu era voluntária, dava aula de informática, só que era gratuito, já tinha 2 anos que eu estava dando aula. Terminei o ensino médio, estava fazendo cursinho, estava desesperada mesmo, o tempo inteiro correndo atrás de serviço e nada. Todos os cursos que eu tinha não adiantava porque eu não tinha experiência na carteira . Então eu estava p assando com uma colega minha e vi no salão a placa que estava precisando de manicure. Eu já fazia em casa a minha, da minha mãe, das minhas colegas. Então pensei, vou arriscar, mas com aquele medo, pensando que não quero essa profissão para minha vida, mas eu vou tentar, fiz o teste e consegui”. (G oiânia, Mulher es) “Quando o marido da gente trabalha, ajuda, põe as coisas dentro de casa, sustenta. Mas quando desemprega, a gente quer fazer por onde ajudar. Antes eu não trabalhava, trabalhei um ano numa padar ia três anos atrás, mas antes não tinha profissão nenhuma. Agora até fazer unha, eu fiz. Mas eu vi que eu tinha que fazer alguma coisa. Então uma colega minha trabalhava fazendo coxinha pra fora e ela me ensinou. E comecei a viver de vender coxinha, pastel , comecei a trabalhar com isso”. (Recife, Mulher es) “Eu trabalhava como auxiliar numa empresa , mas como não consegui mais emprego, comecei a vender pastel ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Eu sou autônomo porque não tenho condições de arranjar emprego. Se eu tivesse emprego, eu teria o emprego só ”. (Recife, Homens) “Eu comecei por necessidade. Porque um dia um rapaz me chamou pra ajudar ele e fui ajudar . De lá pra cá, faz 26 anos que eu trabalho como pedreiro. Foi por necessidade, faz muito tempo que eu faço isso!” (Recife, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 11 “Eu comecei porque não consegui terminar os meus estudos. Porque eu não tive oportunidade de estudar . A gente quando tem filhos e a gente não tem uma condição boa , a gente tem que ficar em casa. Então peguei na m áquina, mas um dia vou parar. Mas Deus me livre porque eu gosto de costurar, mas a roupa hoje em dia eu não consigo costurar. Mas, na verdade, eu queria ser advogada”. (Belém, Mulher es) “Eu comecei aqui no centro, aqui no centro há uns vinte anos que tenho banca aqui, aquelas bancas vendendo roupas de crianças . Tem uns vinte anos e continuo até hoje. Foi uma forma que eu achei também de sobreviver, porque desde pequena eu procurei emprego. Mas foi a coisa mais fácil que encontrei para ter dinheiro. Ai veio o filho, tenho dois filhos, ai não tiveram oportunidade também ”. (Belém , M ulher es) “Eu comecei porque eu fiquei 3 meses parado sem conseguir emprego nenhum. A gente acostumado com a rotina que a gente tem , não consegue ficar parado. Eu estava enlouquecendo, então eu comece i a catar latinha, tanto durante o dia quanto a noite, eu nem dormia . Passei 3 meses assim. Eu já tinha uma experiência sobre como polir carro, então com esses 3 meses que se passaram eu juntei um dinheiro e comprei uma máquina e comecei a polir carro . Desde esse dia até hoje eu sou isso aí . Eu já comecei a desenvolver mais, desenvolvi até mais a profissão”. (Goiânia, Homens) MUITOS PRECISAM DA AJUDA DO PARCEIRO OU DE ALGUM PARENTE PARA CONSEGUIR EXERCER SUA ATIVIDADE, O QUE TRAZ ALGUMAS CONSEQÜÊNCIAS IMPORTANTES: A renda obtida com o trabalho “autônomo” em muitos casos não é individual, equivale a toda a renda familiar; (situação importante na hora de avaliar o valor do teto de faturamento do negócio do MEI previsto em Lei) Portanto as dificuldades e inseguranças, sejam de origem objetiva ou subjetiva, geradas por esse tipo de inserção no mercado de trabalho são amplificadas - adversidades não afetam apenas uma pessoa, mas a situação/ sobrevivência de toda a família. “Eu trabalho com mingau, minha mulher que faz. Eu procuro obter dessa minha venda o resultado bom para que eu venha sustentar a minha família através desse meu trabalho ”. (Belém, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 12 O PERFIL DOS AUTÔNOMOS A FALTA DE CAPACITAÇÃO PESSOAL PARA A ATIVIDADE QUE EXERCEM É PERCEBIDA POR TODOS ELES (MESMO QUE SEMPRE FAÇAM “COM AMOR”, TENHAM “COMPROMISSO E RESPONSABILIDADE”, DÊEM “TUDO DE SI” E TRABALHEM ”DE SOL A SOL”): “Não sabia nem assinar o nome, comecei a estudar e já estou no primeiro ano. A minha intenção é formar, vou lutar para is so. Tenho família, tenho três filhos, meu serviço é difícil de fazer, é pesado . Eu saio de casa às 6 horas e chego em casa às 11 horas da noite todo dia”. (G oiânia, Hom ens) Não há tempo nem condições para um planejamento ou preparação sobre o que fazer – agarra-se ao que se tem à mão, já que a “opção” é feita em uma situação de urgência financeira; “Você que tem responsabilidade, você deixa de ser feliz porque você não tem tempo para poder pensar em sair, divertir, fazer alguma coisa com sua família, porq ue está pensando na dívida que está chegando. Tem um monte de conta para pagar e você fica nervosa ”. (Goiânia, M ulher es) A atividade “escolhida” geralmente é decorrente de conhecimentos absorvidos no próprio ambiente - e é bom lembrar que as características socioeconômicas do entorno deste público raramente ajudam no acréscimo ou aquisição de habilidades: Alguns aprenderam a atividade com o pai ou a mãe desde a infância porque eram seus “ajudantes” (bordados, costura, marcenaria, etc.); “Vendo churros acho que desde os 12 anos mais ou menos . Eu ia com meu pai e minha mãe e agora faço faculdade pra sair da venda que já faz tanto tempo que eu estou ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “O meu também veio do meu pai . Ele era pedreiro. Desde pequeno eu ia para obra com ele. Ele era pedreiro, meu tio é eletricista, o outro era vidraceiro. Aí de tudo você aprende um pouquinho, eletricista, pedreiro, encanador, tudo eu entendo um pouquinho ”. (Belém , Hom ens) “Meu pai era alfaiate . Ele ensinou pra gente desde pequeno . Minha mãe era costureira, eu fiquei ajudando ela . Mas hoje ela não é mais SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 13 costureira e eu acabei ficando com as clientes dela. Mandei o negócio dela pra frente ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Eu na verdade cresci dentro do comércio . O meu pai sempre foi comerciante, já fui criado naquele ritmo de trabalhar em negócio, então eu tenho isso na cabeça de trabalhar para mim mesmo, eu vou fazer o meu horário, eu vou mandar no meu negócio, então é isso aí ”. (Belém , Hom ens) Outros têm atividades que são uma extensão de algum conhecimento doméstico (“fazer comida”, “andar de moto”) ou da vaidade pessoal (fazer unha/cabelo; depilar, etc.); “Eu sou muito vaidosa, então sempre gostei de me arrumar, de arrumar meu cabelo, então comecei a fazer um curso aqui, outro ali. E gosto do que faço”. (Recife, Mulher es) Também há os que se utilizam de conhecimentos/habilidades que aprenderam em empregos formais anteriores (exemplo: bombeiros, eletricistas, pintores e pedreiros geralmente são oriundos da construção civil; vendedores de porta em porta e camelôs, normalmente já passaram por alguma experiência no comércio); “Comecei trabalhar como ajudante e desde então eu aprendi a fazer massa, massa final, reboque. É uma profissão que eu gostei e estou com ela até hoje. Tem um amigo meu que me ajuda e estou sustentando minha família ”. (S ão Paulo, Homens) “Aí comecei a trabalhar de motoboy como empregado, ganhava R$400,00 por mês, mal dava pra viver e de dois anos pra cá, eu comecei a entregar meu próprio cartão e dá pra ganhar em torno de R$1.000,00, R$1.500,00”. (Por to Aleg r e, Homens) Existem aqueles que abraçam atividades que não requerem nenhum tipo de conhecimento anterior (camelôs, pipoqueiros, vendedores de água de coco e churros, montagem de bares em cantos da própria moradia, etc.); “Cabeleireira, cozinheira , é tipo assim, você não serviu para mais nada e foi ser isso. Você está me entendendo? É assim que eu me sinto”. (G oiânia, M ulher es) “Eu desde pequena comecei a trabalhar para eu comprar o meu chinelo, a minha sandália, mi nha roupa. Então ali eu não tive aquela oportunidade, ai eu fui ser informal ”. (Belém, Mulher es) “Isso acontece muito com quem vem da roça e serviço de carpinteiro é um serviço braçal e é mais fácil de você aprender . Se você vê a SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 14 pessoa fazendo, você vai trabalhando e pegando as manhas do trabalho e o serviço difícil, mais pesado você ganha um dinheirinho a mais. Então porque você vai desenvolver? Porque se você for trabalhar com um serviço leve , vai ganhar um salário mínimo que é quinhentos reais e com is so você não consegue nem dar arroz com feijão para seus filhos ”. (G oiânia, Homens) “Sou pipoqueira, antes eu era diarista, babá, mas optei por vender pipoca que ganha mais ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) Há o grupo que investe naquilo que acham que “têm jeito” (dom) – artesãos, cabeleireiras, atividades ligadas a vendas, por causa da facilidade de se relacionar/lidar com pessoas; “Eu comecei a vender empada nas barracas perto de casa. Eu nunca fiz curso não, mas sou muito enxerida e aprendi a costurar, a faz er crochê e comecei a deixar nas lojas pra vender. Tudo por necessidade. Eu tenho filho, e só fui arrumando menino, porque gente pobre só sabe arrumar menino. Aí pra não faltar, tem que trabalhar”. (Recife, M ulher es) E ainda tem o grupo que escolhe sua atividade pela avaliação do mercado de algum produto ou serviço, geralmente, ligado à oferta de alimentos ou roupas porque “sem comer e vestir ninguém fica” “Não tenho queixa, não, porque comida geralmente não pára de vender, não tem problema não ”. (Recife , Mulher es) “Estou nessa por falta de emprego. Então meu marido e eu conversamos: o que vende mais? É comida . Então vamos vender cachorro quente, que a gente sabe fazer, é prático, coisa rápida ”. (Por to Aleg r e, M ulher es) DIANTE DA FALTA DE CAPACITAÇÃO, A ATIVIDADE QUE EXERCEM GERALMENTE É MUITO CONCORRIDA E ELES NÃO TÊM COMO SE DIFERENCIAR DE SEUS CONCORRENTES; “Porque hoje tem muito desemprego. Eu estou vendendo, mas alguém para comprar lá, tem que ter dinheiro. Não dá para comprar porque não tem dinheiro. E também a concorrência aumentou muito. Eu vendo o guardanapo a sete reais, ele põe a cinco reais ”. (Belém, Mulher es) “Por causa do desemprego, ficar sem trabalhar não fica , prefere ir para rua trabalhar. Então piorou, encheu a rua, tem mais gente vendendo que comprando”. (Goiânia, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 15 PORTANTO A MARGEM DE GANHO (NORMALMENTE MEDIDA PELA DIFERENÇA ENTRE RECEITA FINAL E OS CUSTOS DIRETOS) É MUITO PEQUENA, MAL DANDO PARA SOBREVIVER; O TEMPO É UM BEM PRECIOSO – AUMENTO DAS HORAS TRABALHADAS É A ÚNICA FORMA DE AUMENTAR A RENDA E REDUÇÃO DE HORAS TRABALHADAS SIGNIFICA PERDA; “- Se você ficar doente você está na forca. - Não pode ficar doente, você ganha o que você produz. - Você quer sair e não pode sair 10, 15 dias. Você fica muito tempo fora e quando volta seu cliente procurou alguém porque você não estava”. (S ão Paulo, Hom ens) ASSIM INSTAURA-SE UM CÍRCULO VICIOSO: INVESTIR EM CAPACITAÇÃO, SEJA DE QUE TIPO FOR, FICA APENAS NO DESEJO - NÃO TÊM DISPONIBILIDADE DE TEMPO OU FINANCEIRA PARA BUSCÁ-LA DE FATO; (vivem presos na armadilha da falta de tempo para investir em capacitação, já que o ganho em suas atividades depende diretamente de horas trabalhadas. Quando a atividade vai bem, têm que aproveitar e trabalhar de sol a sol, quando vai mal não têm dinheiro e nem ânimo para buscar capacitação) “- Não tenho tempo. - Não faço (cursos de capacitação) . - É por dinheiro mesmo que não faço ”. (Recife, Mulher es) “Na 25 tem a malícia da rua, malícia do comércio, a lábia que você tem que ter. Você tem que ter jogo de cintura, entendeu? É o conhecimento. Acho que se você puder unir as duas coisas é o ideal . Estudar e ter experiência. Na rua a realidade é dura . Você está o dia inteiro na rua e, às vezes, não tem nem o sábado e domingo. Você tem que aproveitar o movimento”. (S ão Paulo, Mulher es) O TIPO DE CAPACITAÇÃO MAIS COBIÇADO É AQUELE LIGADO À MELHORIA DA TÉCNICA DA ATIVIDADE EXERCIDA – É A FORMA DE SE DIFERENCIAR, AUMENTAR A CLIENTELA E GANHAR MAIS (COZINHAR OUTRAS RECEITAS, COSTURAR MELHOR, FAZER ARMÁRIOS DIFERENTES, POR EXEMPLO) (essa é a forma mais concreta/visível para conseguir “crescer”. A preocupação com planejamento, controles, cálculo de custos, determinação do preço, gestão de uma forma geral, é delegada a um segundo plano, até porque sobreviver é uma batalha diária e não permite horizontes de planejamento maiores do que há de um mês – prazo em que as contas vencem); SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 16 PREVALECE EMOCIONAL: A CONVIVÊNCIA COM A INSEGURANÇA – FINANCEIRA E Muitos não têm clientela garantida, ou ela é muito pequena e não sabem como ampliá-la – portanto não têm referência certa, apenas uma noção, de quanto vão tirar no final do mês; Estão sujeitos a vários tipos de sazonalidade: férias escolares, estações do ano, impactos anuais na renda disponível da maior parte da clientela (início de ano – IPVA, IPTU, material escolar, etc.) – sempre têm que guardar alguma coisa para enfrentar os períodos de baixa; “O dia-a-dia não é fácil, se você não abrir a boca você não leva dinheiro para casa. Se você não andar, não bater perna, você não ganha dinheiro. Por exemplo, tem dia que você vai pra casa com 5 reais, 2 reais, tem dia que dá pra tirar mais ”. (Goiânia, Homens) “Pra mim o pior é você não ter cliente para comprar a sua mercadoria. Para mim é o pior . Porque se você não tem cliente para comprar a sua mercadoria , como é que você vai viver ?”. (Belém, Mulher es) “- A questão do tempo, a chuva. – Os fregueses chatos. – As autoridades perseguindo ”. (Belém, Homens) “No meu caso, eu trabalho sábado e domingo, mas se chover no sábado e no domingo, eu não trabalho e não tenho dinheiro ”. (Por to Aleg r e, M ulher es) “ O que me afeta são as férias da escola e quando chove muito. Eu vendo na porta de escolas, na rua. Eu já cheguei a vender em balada, vendo até pão com maionese no final da noite, é uma beleza. ” (S ão Paulo, M ulher es) “- Às vezes não tem venda, aí não tem dinheiro. - Dependendo não tem venda em determinada época, no inverno, por exemplo. - Por exemplo, churros é mais do inverno, no verão não tem tanta venda, é mais fraca a venda. No verão eles querem tomar refrigerante, água de coco ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) A margem é muito pequena e é afetada por qualquer alteração em seus custos diretos, já que não é possível repassar para o preço final todos os aumentos que SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 17 acontecem (quando não é um insumo é outro), porque perdem clientes; A sensação de insegurança financeira é acentuada pela falta de controle do conjunto da atividade (falta gestão) e a mistura com os gastos familiares – muitos nem sabem se estão ganhando alguma coisa ou só rolando dívidas/dificuldades. “Eu tinha um lanchinho, eu e meu esposo . Trabalhamos no lanche, bonitinho, tudo muito bom, de primeira, as mesas organizadas, tudo limpinho. Estava indo de vento em popa, só que nós gastamos na reforma, gastamos para deixar tudo arrumadinho. Quando a gente terminou, o dinheiro acabou e, aí começamos a ficar no vermelho . Seguramos até mais uns 3 meses, mas chegamos a um ponto de ver que se a gente continuasse aberto, a gente não ia dar conta. Chegava no final o que voc ê ganhava ali... Eu tinha aluguel da sala, aluguel da minha casa, luz ... Quer dizer, nós dois juntos trabalhando muito, mas o valor final era muito pouco, tem que repartir para a água, energia, aí você acaba pensando: - O que sobrou para mim? – Nada. Aí as pessoas dizem ‟porque vocês vão fechar? Não pode fechar, vocês estão com negócio próprio ‟. Mas só quem está lá dentro é que está vivenciando a situação. Nós fechamos, deixamos poucas dívidas, graças a Deus . Mas essas poucas já nos deram dor de cabeça porque quando você é honesto , você se preocupa com os outros, você comprou tem que pagar ”. (Goiânia, Mulher es) “É que a matéria-prima é muito cara, né? Então, como a gente é autônomo, a gente compra uma certa quantidade de material e aí esse material você tem que tirar dali transporte, custos, tem que pagar passagem para as pessoas comprarem o material. Você tirar todo o custo daquilo ali que você investe é muito pouco . Então, fica assim... uma coisa rotativa! ” (Recife, Homens) “No início, eu tinha 3 ajudantes. Minha cunhada e meus sobrinhos estavam ajudando e a gente pagava eles também, mas aí você começa a contar: um toma 5 laranjinhas, o outro toma 10, aí acaba tendo prejuízo, aí você fala : está restrito a tomar 3 laranjinhas, você tem direito a 3. Você começa a policiar”. (Goiânia, Mulher es) “Será que mesmo a gente trabalhando muito, eu não estou pagando para trabalhar? Porque para fazer suco você precisa da embalagem, você precisa de uma série de coisas e no final das contas a gente pensa se está compensa ndo. Será que eu estou ganhando ? Até o momento a gente está sobrevivendo, eu estou conseguindo pagar minhas contas, mas falar que está sobrando para fazer uma viagem, que está rendendo muito não está. Está me sustentando hoje. A margem de lucro está muito pequena. É como ela falou, estou trabalhando muito, mas não está rendendo. Você entende? Então, de SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 18 repente eu estou trabalhando com suco agora, mas não é isso que eu quero fazer o resto da minha vida . Eu quero talvez mudar de profissão, porque eu acho que todos nós que estamos aqui, que não tem medo de trabalho, a gente faz qualquer negócio e por causa dos nossos filhos, dos nossos compromissos a gente quer fazer o melhor ”. (Goiânia, M ulher es) “Porque a maioria das vezes a gente coloca os pés pelas mãos e não sabe onde está escorregando. Por exemplo, no meu caso, meu marido reclamava, meu menino passa va e tinha os espetos de picanha, de cupim e tal. Ele não analisava os espetos que tinha para ele chegar e comer, o que sai menos . „É do meu pai, é meu, eu vou comer a vontade‟. Na hora do enxugamento é que não dava, não sobra. Aí chega no final do mês que você não usou a caneta, não usou todas as entradas e saídas , o seu negócio está fechando ”. (Belém, Mulher es) Percebem que são os primeiros a serem afetados em épocas de crise econômica – seja pelo temor da clientela de gastar, seja pelo aumento da concorrência (desemprego gera mais autônomos) – e a crise está aí, segundo os noticiários, e já está sendo sentida por alguns; (mais um ingrediente, mesmo que conjuntural, de incerteza, mais um problema/risco/aumento de tensão sobre o negócio. Momento não contribui para aumentar gastos, mesmo que se avaliados como interessantes ou importantes, como no caso da contribuição prevista na Lei) “Para mim já azedou. O p essoal mesmo que tem dinheiro „agora não vou gastar, não sei se vou estar empregado mês que vem, vou adiar, vou fazer a festa mais pra frente ‟.” (S ão Paulo, Mulher es) “Por onde você passa, pelos bares, todo mundo reclamando. Em Porto de Galinhas eles estão reclamando porque se não tem turismo, eles perdem. Eles geralmente fazem 10 passeios por dia, hoje eles estão fazendo 2 por dia. Por quê? Por causa de turista. Os turistas não estão indo pra lá. E por que não estão indo? Por causa de dinheiro que não tem”. (Recife, M ulher es) “No meu caso é porque a pessoa que faz massagem comigo daqui a pouco não vai fazer porque está desempregada ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Não sei, acho que é essa crise . O pessoal não quer gastar, não quer comer. O pessoal está econom izando, comprando comida pra fazer em casa, o pessoal já vem de barriga cheia. Eu trabalho com lanche e as pessoas vêm de barriga cheia por causa da dificuldade pra ter um gasto. Eu passei por Ipanema, Itapuã e as pessoas levam sua comida, estão levando seus lanches, estão com dificuldade pra gastar ”. (Por to Aleg r e, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 19 São trabalhadores que não têm “registro”, vivem na ilegalidade Ameaça constante de fiscalização (e, portanto de perderem o pouco que têm em termos de equipamentos, ingredientes, matérias-primas, mercadorias, etc.) – sentimento mais forte entre ambulantes e quem mexe com comida; “É porque você não tem segurança no trabalho . De repente você pode perder tudo e ficar sem nada, você não é legalizado . A fiscalização pode vir e tomar todas as suas coisas e você está errada”. (G oiânia, M ulher es) “Para mim é não ter a certeza de que amanhã eu vou estar trabalhando no mesmo lugar que eu estava hoje. Hoje, eu pego uma encomenda para entregar amanhã e a freguesa vai lá buscar e pode ser que eu não esteja lá e eu nunca mais veja ”. (Goiânia, Mulher es) “Se eu estiver com meu material numa esquina dessa e o rapa vier, se eu não correr eles pegam ”. (Goiânia, Homens) “No local não legalizado, a qualquer hora , pode acontecer alguma coisa. Sei lá o que pode acontecer. Mas se tiver tudo certinho, você trabalha tranquila. Se você está num ponto certo... Tipo o rapa lá, toda hora passa o rapa, eu fico com medo daquilo lá. Eu não vou trabalhar nunca sossegada ”. (S ão Paulo, Mulher es) Não têm nenhum benefício garantido – férias, 13º, fundo de garantia, seguro desemprego; plano de saúde; “- Não tem décimo terceiro. - Não tem fundo de garantia. - Seguro desemprego. - Às vezes não tem venda, aí não tem dinheiro ”. ( Por to Aleg r e, Mulher es) “Eu não tenho no final aquele salário certo meu, nem todo o mês dá aquilo, o dinheiro n ão dá. Às vezes dá, às vezes não dá. E também porque a gente não contribui para o INSS. Nós não temos décimo terceiro, férias. Essa é a desvantagem ”. (Belém, Mulher es) Muitos não recolhem o INSS e, portanto, não têm direito à aposentadoria, auxílio doença (muito valorizado já que se ficarem doentes não têm como trabalhar), etc. (Atenção: a informalidade/ilegalidade é fonte de tensão constante, mas também é um fator importante na preservação da margem de ganho da atividade. Impressão geral é de que impostos e taxas comeriam o que ganham – ninguém gosta de ser ilegal, é a SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 20 precariedade da situação em que (sobre)vivem que não permite que se legalizem, já que qualquer gasto a mais pode significar uma redução nos parcos ganhos). “– O lado ruim é que você não tem uma carteira assinada. – Não tem o décimo terceiro, o abono salarial. – Se você adoecer você não tem como se virar. – Eu fiquei 4 meses e 15 dias, fiz uma cirurgia na perna, eu fiquei a favor de amigos”. (G oiânia, Homens) “- Eu sei que faço errado, mas tenho consciência que eu estou errando. Igual esse negócio difícil , INSS. Venho a dois anos tentando. Falo assim “vou deixar de fazer uma coisa” para pagar, mas cada vez parece que está mais apertado. - Certo e errado é um ponto, as condições nossas que não d ão para pagar. Você quer fazer aquilo, mas a burocracia é muito grande. - E a margem do seu lucro de repente você tem que reservar para comprar a sua mercadoria ”. (S ão Paulo, Mulher es) “Se eu ganho todo mês R$ 2 mil, vou ter condições de gastar pelo menos R$ 500 com impostos e vai sobrar R$ 1500, aí dá para mim. Mas a partir do momento que ganho R$ 500 hoje, amanh ã R$ 800, depois vem para R$ 100, vou ficar nessa corda bamba até me arrumar. Quando conseguir me arrumar e ter meus clientes certos, aí vou me legalizar. Isso é , se eu tiver assim, se não tiver uma oportunidade melhor no futuro ”. (S ão Paulo, Mulher es) “Eu queria, eu quero trabalhar na formalidade, mas não consigo porque não tenho ainda a renda. Se eu fosse conseguir essa renda é justo que estaria saindo ”. (Belém, Mulher es) “– Na informalidade ganha mais. – Ganha mais. – Não tem benefícios. – O seu benefício é na hora. – Você sai, você ganha mais no dia a dia. – É a vista bem dize r, você ganha a vista”. (Goiânia, Homens) NÃO SE SENTEM APOIADOS POR NINGUÉM – GOVERNO(S), ASSOCIAÇÕES, SINDICATOS OU QUALQUER TIPO DE INSTITUIÇÃO: “– É a falta de apoio. Quem trabalha na rua não tem apoio . Não tem apoio da prefeitura, não tem apoio da s ecretaria da cultura. – De associação. – A gente não existe para o governo. – Se existir eles vêm e tiram a gente. – A gente não tem benefício nenhum, não está legalizado. – O imposto é tão caro que você vai ficar pagando para trabalhar. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 21 – Cada dia é um imposto diferente, aparece tanto imposto que a gente nem sabe o que está pagando ”. (Goiânia, Mulher es) Em alguns casos têm ajuda da família (nuclear ou estendida) – e têm que dividir seus ganhos com eles; Raramente ocorrem depoimentos sobre algum programa implantado pela prefeitura de seus municípios, mas oferecidos apenas em um determinado momento (programas pontuais e datados e não políticas regulares de incentivo/apoio); “O ruim é a ilegalidade . Todo mundo fica assim . Você está aqui hoje e não sabe o que o prefeito pode aprontar ”. (S ão Paulo, Homens) “- No bairro onde moro, há uns anos atrás tinha vários tipos de cursos que era até da vice -governadora. - A Igreja Católica também fornece para as pessoas carentes. - Tem curso de artesanato, de costura. T em vários cursos”. (Belém, Mulher es) MUITOS TENTAM, DE FORMA RECORRENTE, RETORNAR AO MERCADO DE TRABALHO FORMAL (CARTEIRA ASSINADA) E NÃO CONSEGUEM (MAIORES MOTIVOS: IDADE E/OU FALTA DE QUALIFICAÇÃO); “- Eu entendi assim, que não fui chamada porque era uma pessoa incapaz, sem profissão. - Sem estudo. - Que não é capaz de exercer ”. (Recife, Mulher es) “– Geralmente (autônomos) são pessoas que já passaram da idade, você sabe que a partir dos 40 anos é difícil. Você sabe que, por exemplo, a tecnologia evolui u e muitas das vezes muitos ficaram para trás. – Pessoas que vêm do interior que não t êm oportunidade e às vezes quando têm não aproveitam”. (Belém, Homens) NÃO TÊM ACESSO A CRÉDITO PARA CONSUMO PESSOAL OU PARA INVESTIR NO NEGÓCIO: Não têm nenhum documento que comprove renda: carteira, contracheque; referência de emprego, declaração de contador, etc.; “O emprego formal ela ganha com carteira assinada, por isso costuma ter mais crédito. Ai você não tendo carteira assinada , você não tem crédito”. (Belém , M ulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 22 Geralmente têm que comprar à vista – restrição importante ao consumo pessoal e a ampliação da atividade (matériasprimas têm que ser compradas picadas, no dia-a-dia); “- Fica complicado fazer cartão porque você não tem renda fixa pra comprovar o que ganha. E a loja te dá um limite. - Eu só compro a vista. - Com cartão de amiga”. (Por to Aleg r e, Mulher es) Não têm crédito nem prazo para pagar fornecedor (falta do CNPJ) – diferencial considerado importante, principalmente em relação à concorrência (pode repassar o prazo para a clientela; podem comprar mais barato por causa da quantidade); (Atenção: ter um CNPJ é um benefício mais concreto e valorizado do que o significado “abstrato” de sair da ilegalidade ou da informalidade) “Ele coloca mais barato. Ele compra de fornecedores, ele pode vender mais barato. Eu compro direto no supermercado. Não posso aumentar por causa dele ”. (Recife, Mulher es) “Na hora de uma compra que você vai fazer a prazo, se eu tivesse CNPJ... (S ão Paulo, M ulher es) “- Ele é importante para tudo, né? - Pelo crédito, né? - Tudo que você vai fazer que você tem um CNPJ e quem não tem um CNPJ... Para você comprar é melhor. Se você vai lá no banco pegar um empréstimo...” (Recife, Homens) “O CNPJ é a minha empresa, vou estar cada strado nele. Então, eu sou alguém, sou uma pessoa... Tem a física e sou uma pessoa jurídica”. (S ão Paulo, M ulher es) “Se eu tivesse CNP,J eu estava pegando reforma de colégio, eu estava fazendo calçamento de rua, porque a gente faz. Porque eu tenho 3, 4, 5 pedreiros trabalhando comigo quando precisa”. (Recife, Homens) BALANÇO PERFIL DO AUTÔNOMO NÃO TÊM CAPACITAÇÃO DIFICULDADE); (E TÊM CONSCIÊNCIA DE QUE ISSO É UMA SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 23 “Já passou na minha cabeça . O problema é que eu não tenho dinheiro para investir no que eu quero, mas quando eu conseguir com certeza eu vou procurar me capacitar ” . (Goiânia, Homens) NÃO TÊM TEMPO, DINHEIRO OU ACESSO À INFORMAÇÃO PARA SE CAPACITAR; “É falta de tempo. Você cuida da casa, do seu trabalho, cuida de um idoso que depende de você . Então não tem tempo”. (Recife, Mulher es) DESEJO É POR CAPACITAÇÃO NO SENTIDO DE APRIMORAR A TÉCNICA PARA EXERCER A ATIVIDADE E NÃO CAPACITAÇÃO EM GESTÃO; SUAS ATIVIDADES TÊM MARGENS PEQUENAS E, PORTANTO, SÃO MUITO VULNERÁVEIS A QUALQUER AUMENTO DE CUSTOS; “Mas, só que é o seguinte, nós sabemos que tem muitos encargos sociais. Muitas das vezes é o que dificulta e faz com que você não chegue onde você quer. Porque você sabe que se meter a cara e registrar a empresa, legalizar, tudo bacana para eu trabalhar direitinho, a gente sabe que é muito difícil, hoje depende de finanças”. (Belém , Hom ens) “Mas autônomo não dá pra pagar muito imposto não, senão não sobra dinheiro”. (Por to Aleg r e, Mulher es) MAIS SUJEITOS ÀS OSCILAÇÕES SAZONAIS E DA ECONOMIA; “No meu caso, eu trabalho di reto mesmo durante seis meses. Chegou o inverno o serviço pára. Então você atrasa. Você não tem como continuar pagando. Ou você paga o INSS e deixa de pagar a energia... Aí corta...” (Recife, Hom ens) ATIVIDADES EXERCIDAS NORMALMENTE NÃO PROPORCIONAM NENHUM TIPO DE BARREIRA À ENTRADA DE CONCORRENTES (NÃO EXIGEM HABILIDADE ESPECÍFICA, INVESTIMENTOS GRANDES VALORES PARA CAPITAL DE GIRO); EM EQUIPAMENTOS NEM “Porque vai fazer um ano que a gente está aberto . Mas é assim, a gente está aqui e tem dois ou três co ncorrentes ao lado. É a concorrência também ”. (G oiânia, Mulher es) “Nesse mês a dificuldade é a chuva. A dificuldade que a gente tem com água, comprador não aparece”. (Belém, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 24 PRODUTOS E SERVIÇOS OFERECIDOS NÃO SÃO DIFERENCIADOS (A NÃO SER SE DEPENDEREM DE “DONS ARTÍSTICOS”); INSERIDOS EM AMBIENTE QUE PROPORCIONA UMA CLIENTELA DE BAIXO PODER AQUISITIVO – MERCADO MUITO SUSCETÍVEL AO AUMENTO DOS PREÇOS DE SEUS PRODUTOS OU SERVIÇOS. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 25 FATORES GERADORES DA HETEROGENEIDADE DA CATEGORIA A MOTIVAÇÃO DA PERMANÊNCIA PERCEBE-SE, GROSSO MODO, TRÊS COMPORTAMENTOS DISTINTOS EM RELAÇÃO À FORMA DE ENCARAR A PERMANÊNCIA NO MERCADO DE TRABALHO COMO AUTÔNOMO: O grupo de “otimistas” - permanecem como autônomos por opção, gostam do que fazem, se consideram com jeito para gerirem seu próprio negócio/atividade, pretendem “crescer”: “Acho que o que eu faço t em mais potencial. Entra naquela parte de gostar do que faz”. (S ão Paulo, Homens) Geralmente são autônomos há mais tempo; Têm mais noção/conhecimento de sua atividade por causa da experiência/dom/traquejo (e não por capacitação formal) – relativamente, têm mais noção da concorrência, dos riscos, da receita, registram/controlam mais seus custos, conhecem mais o comportamento/ perfil clientela; Comparam ganhos da atividade com os salários líquidos que obteriam caso fossem assalariados; Têm informação sobre a possibilidade de ter acesso aos benefícios do INSS caso recolham como autônomo e conhecem o percentual sobre o salário mínimo a ser recolhido e alguns já contribuem; (quando não contribuem, a lógica é pela avaliação do custo beneficio da contribuição: aposentadoria muito pequena, insuficiente para os gastos na velhice x abrir mão de gastos/economizar hoje um valor que não está “sobrando” - vale à pena? Para valer teria que se recolher sobre mais que um salário mínimo, o que torna o valor muito alto. Atenção: Lei não soluciona esse impasse) Têm um componente aventureiro na personalidade - a falta de segurança e os riscos inerentes aos autônomos não são fatores que pesam tanto quanto o sonho de ascender e a sensação de liberdade de ser o “próprio patrão”; SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 26 (potencial microempreendedores/empresários – apesar de raramente se autodefinirem dessa forma não negam ter esse sonho/objetivo); Têm vontade de sair da informalidade, mas também têm mais conhecimento sobre as dificuldades de abrir legalmente uma empresa – burocracia, taxas, altos impostos, sujeitos a maior fiscalização. “Restaurante só para hora do almoço, ali pronto e fecha . Eu tenho que ter um capital. Então, para eu fazer meu sonho ser realizado, vou ter que primeiro guardar. Primeiro vou ter que guardar para eu ter o capital e abrir, começar. Se eu vou abrir numa esquina um barzinho, uma lanchonete, vou ficar um mês sem ninguém aparecer. Mas um mês e quinze dias a prefeitura vai abrir bater na minha porta, aí tenho que ter impostos... ” (S ão Paulo, Mulher es) “Aí vai depender do salário da pessoa . Tem muitas pessoas que chegam para mim e perguntam por que não arrumo um emprego, aí eu falo que para arrumar um emprego para ganhar um salário e meio para mim não dá, porque na minha venda eu consigo alcançar um salário de mil e cem reais por mês ”. (Belém, Homens) “Você já pensou quando você estiver velhinho e for pegar o salário de aposentado? Vai se manter?”. (Belém, Mulher es) “Eu tive uma oportunidade de emprego para ser registrada e não quis. O valor que eles estavam me oferecendo eu ganho três vezes mais na rua. Eu posso pagar INSS e estar ganhando mais do que ficar numa firma fechada”. (S ão Paulo, Mulher es) “Vamos ser sinceros que nossos empregos são subempregos, mas ninguém fica sem trabalhar aqui . Todo mundo levanta setecentos reais por mês mole, no mínimo ”. (Goiânia, Homens) “No meu caso é autônomo querendo ser um empreendedor porque eu pretendo, eu almejo coisas maiores para mim . Não só para mim como para minha família toda . Conforto para mim e minha família ”. (Belém , Hom ens) “Um salão, por exemplo. Se eu abrir um salão, tenho que colocar duas ou três funcionárias , ter massagem, depilação, et c. Ia ser bom, mas só os impostos que a gente ia pagar e os salários dos funcionários, com os direitos deles ... Ia ser bom, lógico, porque eu ia crescer, ia ter depilação, escova, eu poderia só gerenciar. Mas ia gastar muito porque o governo não ajuda. A b urocracia é muito grande, ia pagar muito imposto pra isso ”. (Recife, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 27 Os “frustrados” – permanecem como autônomos por falta de opção, maior desejo é voltar ao mercado formal de trabalho como empregados de carteira assinada: A atividade exercida como autônomo é vista como uma coisa provisória, só para sobreviver no curto prazo (mesmo já se estando há anos nela); Não há interesse em crescer, se aprimorar, se capacitar ou legalizar a atividade; Maior desejo é o retorno à estabilidade, sensação de segurança propiciado por uma “carteira assinada”; Medo dos riscos, ausência de estabilidade financeira e a insegurança quanto ao futuro presentes na atividade autônoma são fatores que pesam o suficiente para que desejem mudar. (Atenção: para esse grupo, a possibilidade de contribuir para o INSS entre quem não contribui é um ponto positivo da Lei – talvez o único. Mas a Lei não oferece um real diferencial em relação à contribuição já possível como autônomo) “Eu sou manicure, as vezes eu estou lá limpand o as unhas, os pés na pessoa. Oh meu Deus, o que eu estou fazendo aqui ?! Eu fico pensando porque eu fico limpando o pé de uma pessoa, quando eu deveria estar fazendo uma outra coisa. A minha auto -estima naquele momento está lá em baixo. Ao mesmo tempo aume nta a minha autoestima porque eu estou ali pelos meus filhos, pela minha filha. Eu preciso, não é?”. (Belém , Mulher es) “Eu quero terminar o segundo grau e fazer enfermagem. Só por enquanto é que estou fazendo isso porque eu tenho dois filhos pra criar. Quero futuro, tenho dois filhos, um de onze e um de quatro, isso não é futuro”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Tudo que eu pego para fazer eu faço com amor, mas é aquela velha história, você quer crescer na vida . Eu pretendo me formar, mas sinceramente eu não acredito que hoje, com o dinheiro do meu suco eu vou pagar minha universidade ou então vou ter que pagar um cursinho, ralar muito. Eu não estou tendo esse tempo agora porque eu fabrico suco praticamente o dia inteiro, a noite eu estou com os pés inchados, as mãos calejadas . Para eu ir a noite hoje para um cursinho eu não dou conta. Mas eu sei que eu preciso segurar esse trabalho, quem sabe ganhar um pouquinho mais ”. (Goiânia, Mulher es) “No meu caso eu digo que eu preferiria fazer outra coisa com certeza, mesmo fazendo com amor, com dedicação . Mas quem não SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 28 almeja um bom salário, um bom emprego em uma repartição, principalmente hoje no governo federal ? A gente vê por aí placas de tantos mil o salário. Então para quem ganha pouco, mesmo você trabalhando com o q ue gosta, com certeza você olha e almeja muitas vezes um emprego desses ”. (Belém, Homens) “Você não tem tanta preocupação porque todo mês tem seu salário, tem até um convênio. Você trabalhando autônomo, não sabe o dia de amanhã. Segurança para o futuro, v ocê pode ser mandado embora , mas está todo mês ali, pode se programar melhor . Autônomo você não sabe quantos meses fica parado ”. (S ão Paulo, Homens) “Um salário certo é bom, você ter plano de saúde é bom. Meu filho está trabalhando, ele tem um salário cer to, ele tem os direitos dele certo, ele tem o plano de saúde. A gente vai para o SUS, eu trabalhando informal não posso pagar plano de saúde. Você não tem condições de sustentar uma casa, pagar plano de saúde, pagar nada ”. (Recife, M ulher es) “Se você pegar o carnê e pagar, não é lá essas coisas, mas ele vem na hora que a gente mais precisa. Quando eu trabalhava, eu fiquei afastada quatro meses pelo INSS porque eu dei LER nos dois pulsos ”. (Goiânia, M ulher es) “A desvantagem é que a gente trabalha sem carte ira assinada. Se ficar velho, não tem uma aposentadoria ”. (Belém, Homens) Os “realistas conformados” – percebem que não têm muita opção no mercado formal como assalariados e também têm consciência das dificuldades de ser autônomo/ trabalhar por conta própria: Opção de arrumar um emprego formal fora de questão diante da idade e/ou da percepção da falta de capacitação pessoal versus as exigências atuais do mercado – se conseguissem o salário seria muito baixo; Conhecem o negócio, tanto do ponto de vista de ter certa noção de gestão quanto do mercado/clientela (talvez seja o grupo que mais se importe em controlar seus custos e conhecer sua margem); Pesa a noção de que ampliação requer investimento, capital de giro, contratação de empregados, etc. – percepção de ampliação concreta dos riscos no sentido de que crescer significa aumentar custos (legalizar empresa e, portanto aumentar custos com abertura, taxas e impostos, investir em equipamentos, matériaprima e empregados) e, principalmente, só ocorrerá com a formalização/legalização da atividade; SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 29 E que não há segurança de que o retorno/receita aumentará na mesma proporção dos gastos com a ampliação da atividade; Estão relativamente acomodados/conformados com a atual situação – percepção de que riscos de uma ampliação não compensam diante da relativa segurança da situação atual. “Segurança, plano de saúde, cesta básica, essas coisas. Trabalho. A gente trabalha por conta própria e não tem segurança nenhuma. Não tem uma renda, às vezes dá mais, às veze s dá menos”. (S ão Paulo, Mulher es) “Anoto tudo. Eu anoto tanto que eu compro... Como vai saber o cálculo? Hoje pago o preço em um palmito e amanha pago outro. Eu tenho que fazer a minha contabilidade porque se eu compro mais caro, eu tenho que repassar ”. (S ão Paulo, Mulher es) “- Daí será que compensaria? Pagar funcionário, correr atrás de um monte de coisas. - Contador, tributos, mais serviços para pagar. Você vai virar um mini empresário, vai arrumar serviço para os outros trabalharem. Daí será que o cara trabalha igual eu ? Vai fazer o serviço mal feito. - E o funcionário vai querer receber o dinheiro, se não ele põe a firma no pau. - Daí já era. - Daí a necessidade aumenta. - Porque não fica preocupado só com você, tem mais 1, 2 pessoas para dar atenção”. (S ão Paulo, Homens) “Eu quero continuar assim. Se puder aumentar eu aumento, mas por enquanto está bom ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 30 A ATITUDE EM RELAÇÃO À INFORMALIDADE O QUE É COMUM Á CATEGORIA: Não há qualquer resquício de desconforto ou embaraço pessoal pela questão da informalidade (ou ilegalidade), muito antes pelo contrário, há solidariedade e pesar quando alguém é pego pela fiscalização; Não há pressão social do entorno (família, vizinhos, amigos, clientes) - muitos vivem na mesma situação; outros entendem que ela não é opção e sim uma imposição das circunstâncias; (o entorno incomoda na questão do horário – como muitos têm horários diferentes daqueles normalmente cumpridos por quem tem carteira assinada, a impressão é que vizinhança e família estendida muitas vezes acham que eles não trabalham – ter um CNPJ, status de pessoa jurídica, poderia ajudar nesta questão que afeta a estima e o respeito em seus círculos de convivência) “- Acho que é errado, mas não é uma coisa que a gente faz as sim porque eu quero. - Não tem opção. - Não tem opção realmente. Ninguém quer ficar correndo o tempo todo, tem o lugar e tem que sair, entendeu? Se você for legalizado, está tudo certinho „o papel está aqui, pago imposto ‟. Quem não quer ser assim?” (S ão Pau lo, M ulher es) “- Você sendo uma merendeira de rua é diferente de trabalhar numa lanchonete. - Eles vêem a pessoa que trabalha em casa, eles pensam que a pessoa só fica em casa sem fazer nada. Comigo mesm o é assim. E se vê o marido assim também, então, pensa como que conseguem comer... - É a opinião das pessoas. - Ficam pensando: o que essa mulher faz o dia inteiro ? - As vezes você ganha mais do que quem sai para trabalhar com horário fixo. - E as vezes a gente trabalha bem mais ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Como não tem hora, você acorda a hora que quiser. Me incomodo com o que a pessoa está pensando, que o cara é vagabundo. Não deveria ser assim, mas eu sou . A família não. Eles sabem o quanto você está trabalhando”. (S ão Paulo, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 31 Muitas vezes é até um diferencial positivo para a clientela – sinaliza preço mais baixo do que os produtos e serviços ofertados pela concorrência “legalizada”; “É melhor porque você vai ter um lugar pra atender, até cobrar mais por aquilo ali talvez. As vezes você cobra mai s barato porque você não tem uma estrutura, não paga imposto, não paga funcionário ”. (Por to Aleg r e, M ulher es) Os argumentos para justificar a ilegalidade/informalidade em que vivem são concretos e fortes, enquanto que a ilegalidade/informalidade são conceitos abstratos e distantes: Ninguém é informal/ilegal por “opção”, mas pelos reveses da vida; Todos são trabalhadores e sustentam a si e a família às custas do próprio esforço/trabalho; Ninguém está prejudicando ninguém, nem mesmo ao fisco: todos crêem que pagam impostos (e altos), porque eles estão embutidos nos preços dos ingredientes, combustível, equipamentos, etc que necessitam para suas atividades. (e impostos pagos não são revertidos, como deveriam ser, para a prestação de serviços públicos essenciais para pessoas que dependem deles (grupo que se incluem). E muitas vezes são extraviados na máquina ou fonte de corrupção para políticos) “Não paga imposto é isso que gera essa questão de informalidade. Mas os governos também não procuram dar opção, não dão apoio”. (Belém , Hom ens) “Pago. Eu compro meus materiais, então pago imposto ”. (Recife, Mulher es) “- Agora se isso aí vai ser cumprido... do jeito do Brasil eu acho que não vai não! Só no dia que o Brasil mudar de nome. - Sei lá! Para Cuba. Porque lá eles têm medo de roubar ”. (Recife, Hom ens) O QUE É DIFERENTE: O incômodo com a informalidade não aparece por causa de princípios de legalidade ou cidadania; SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 32 Mas é visto como um impedimento ao crescimento da atividade: há consciência de que a informalidade é um teto para a expansão da atividade; Portanto, há segmentos dentro da categoria que desejam sair da informalidade – o grupo que almeja um crescimento que não seja apenas marginal e sim um upgrade, tem consciência da necessidade de se legalizar. Assim: O grupo categorizado anteriormente como “frustrado” não se incomoda com o fato de permanecerem na informalidade (as vezes preocupam-se com a contribuição para o INSS); O grupo de otimistas quer a legalização de sua atividade para poder “crescer”; E parte dos “realistas conformados” se sente atraído pela possibilidade da formalidade, mas as angústias quanto ao verdadeiro potencial da atividade muitas vezes trabalham em sentido contrário à formalização do negócio. “Eu não contribuo, não pago, não gosto do que estou fazendo, estou fazendo por necessidade mesmo. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Eu estou estudando e meu sonho é chegar a ser Juiz e vou chegar . Esse trabalho que eu faço gosto dele, mas eu procuro ganhar mais . Estou estudando para i sso, não estou investindo em lote, nem em barraco, nem em nada. Estou investindo no meu estudo . Esse é meu sonho, mas enquanto não chegar lá eu vou lutar ”. (Goiânia, Homens) “Faz diferença para a gente crescer. O nosso concorrente que está lá é uma microempresa. Ai vai ser melhor em termos para poder vender em outro lugar, em outra cidade ou quem sabe em outro País ”. (Belém , M ulher es) “Na realidade eu tenho um sonho, de não ser só um microempresário e sim me tornar um empresário . Eu tenho uma visão mais l á na frente, só que isso tem que ser passo a passo . No caso hoje eu sou um autônomo, mas no caso de amanhã ou depois eu me torno um microempresário, já almejando me tornar um empresário. Eu tenho essa vontade, tenho essa vontade de ter funcionários comigo, é um sonho meu”. (Belém , Hom ens) “Barra mais é a questão financeira ”. (Belém, Homens) “- O governo, são as leis que estão aí . Não existe aquele negócio de expectativa de um ano, microambulante. Você não ganha incentivo pra começar a querer crescer. A primeira coisa que vão falar é que SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 33 tem que pagar isso, aquilo. Essa é uma das vantagens que o informal tem, você não tem nada disso. - Se não me engano, 60, 70% das empresas que abrem elas falhem no 1º, 2º ano. - Porque você já chega pagando ”. (S ão Paulo, H omens) “Primeiro você tem que ir na Receita Federal, não é? Eu não sei se é verdade! Estou contando mais ou menos... Eu vou falar o que falaram para mim. Tem um camarada que abriu uma pizzaria agora, ele foi legalizar. Ele gastou no mínimo, no mínimo uns R$ 4.000,00!” (Recife, Hom ens) Além da segmentação atitudinal em relação à permanência na atividade, há também expectativas diferentes em relação à legalidade quando se segmenta a categoria pelos seus setores de atuação: Autônomos ligados ao comércio: Crescer significa se estabelecer em um ponto físico, tanto no sentido de alugar um imóvel como (e principalmente) no de ter um ponto legalizado na rua É o segmento, especialmente no caso de ambulantes e vendedores de alimentos em carrinhos na rua, que mais sofre com a informalizadade/ilegalidade de sua atividade – sofrem perseguições da fiscalização e, muitas vezes da polícia O maior impedimento a ser vencido, neste caso, é obter permissão da prefeitura – sendo que nas grandes cidades, especialmente São Paulo, a impressão é que as cotas para os melhores pontos já estão preenchidas (O único argumento que parece fazer com que esse segmento valorize a formalização pela questão do CNPJ é o de que uma empresa legalizada permite prazos junto aos fornecedores e, talvez, acesso à linhas de crédito específicas) Autônomos ligados aos setores indústria e serviços: nestes campos de atuação, para crescer é fundamental a emissão de nota fiscal e, portanto, a receptividade à idéia de formalização/legalização da atividade é muito grande para quem deseja ampliar suas atividades (nota fiscal significa, além de prazo na compra de matériaprima/equipamentos, a possibilidade de “pegar serviços maiores” e trabalhar para empresas, segmento que sempre exige nota fiscal) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 34 “- Eu pretendo ter uma lancheria. - Ter um espaço pra eu fazer pastel, cachorro quente, churros, tudo”. (Por to Aleg r e, M ulher es) “Se você trabalha bem, se tem um local bom, se tem condições de expandir seu negócio, é bom ”. (Recife, Mulher es) “A que trabalha legalizada tem um prestígio maior em qualquer lugar que ela chegue. Ela tem mais vantagens em relação a compras, a empréstimo. Tudo que ela queira fazer ela tem mais disponibilidade, né? É mais aceita.” (Recife, Homens) “O formalizado tem mais condiçõ es de compra porque ele vai provar que ele tem uma empresa . Então, ele vai ter um contador, ele vai declarar imposto de renda e tal, ali você está comprovando que você tem uma renda, que tem uma empresa ”. (Belém, Homens) “Na formalidade é melhor . No meu caso é melhor porque eu tenho condição de manter uma clientela, eu conheço essa área, ter clientes para ter uma estabilidade ”. (Belém, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 35 A RECEPTIVIDADE À CRIAÇÃO DO MEI A APRESENTAÇÃO APÓS UMA CONVERSA INICIAL SOBRE A VIDA DOS AUTÔNOMOS, EXPLICAMOS A MUDANÇA NA LEI GERAL DA MICRO E PEQUENA EMPRESA QUE CRIARÁ A FIGURA JURÍDICA DO MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL. A EXPLICAÇÃO FOI A MESMA EM TODAS AS REUNIÕES ATRAVÉS DA LEITURA DO SEGUINTE TEXTO: “A Lei Geral da Micro e Pequena Empresa foi feita também para microempreendedores autônomos individuais, ou seja, sem sócios. No máximo ele poderá ter 1 funcionário e sua renda total (faturamento) não poderá ser maior do que R$3.000,00 por mês (ou R$36.000,00 por ano). Através do pagamento de uma quantia mensal, que eu vou explicar a seguir, ele poderá ter acesso aos benefícios da Previdência/INSS (como aposentadoria, licença maternidade, auxílio doença e pensão por morte), à linhas de crédito para desenvolver seus negócios e poderá vender seus produtos e serviços para o governo. Ele deverá recolher 11% do salário mínimo para o INSS (R$46,65 no salário mínimo antigo e 51,15 no novo, de 465,00; R$1,00 (valor fixo) a título de ICMS e R$5,00 (valor fixo) a título de ISS (no caso de sua atividade estar ligada ao setor de serviço). Esse valor poderá ser cobrado até mesmo na conta de luz. No caso de ter um funcionário, a empresa deverá arcar também com 3% do salário mínimo (R$12,45) para complementar os 8% que serão descontados do salário do empregado a título de sua contribuição para o INSS/Previdência. Essa contribuição, por si só, não possibilita que o negócio seja legalizado, porque também é necessário que o microempreendedor cumpra as leis do município, tenha uma contabilidade simplificada, tenha nota fiscal para emitir quando necessário e guarde as notas fiscais de suas compras. AS REAÇÕES A PRINCIPAL COMPREENSÃO SOBRE A CRIAÇÃO DA FIGURA JURÍDICA DO MEI É O CONCEITO QUE ELA EMBUTE DE LEGALIDADE, OU SEJA, A POSSIBILIDADE DA CATEGORIA “SAIR DA SOMBRA” (EXPRESSÃO LITERAL DE UM PARTICIPANTE): “- Para você sair da sombra , mostrar que nós produzimos ...”. (S ão Paulo, Hom ens) “A gente deixa de ser ilegal, para começar. Você está ali „estou pagando‟”. (S ão Paulo, M ulher es) “Informal você não é conheci do, não é visto. A verdade é essa, não é?” (G oiânia, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 36 Quer seja no sentido da formalização da atividade: começar a existir de fato para a clientela, fornecedores, bancos, governo - e neste caso a obtenção de um CNPJ é o mais valorizado; “– O positivo que eu vejo nesse caso é que você entrando no mercado você tem facilidade em tudo, em crédito . Você consegue comprar, você comprando você vende mais, você facilita o mercado que você trabalha. – Fica mais conhecido, trabalha com banco, fica mais fácil ”. (Goiânia, Hom ens) “Pra mim seria bom porque iria registrar a firma”. (Por to Aleg r e, Hom ens) Quer seja no sentido de começar a existir para a Previdência – foco mais individual, valorizado principalmente por quem não contribui para o INSS e, portanto, não tem acesso à benefícios que são muito valorizados – principalmente aposentadoria e auxílio doença; “Pensando que eu vou poder encostar, que os meus filhos vão poder ter médicos. Vou ter esses benefícios, vou ter nota fiscal, vou ter vantagens grandes ”. (Por to Aleg r e, Homens) “- A parte da Previdência. ”- Garante a aposentadoria ”. (S ão Paulo, Homens) A “LEGALIDADE” TEM UM SIGNIFICADO MUITO POSITIVO, NO SENTIDO DE POSSIBILITAR A INSERÇÃO, DE FATO, NO MERCADO FORMAL; A INCLUSÃO SOCIAL E ATÉ TRAZER ALGUMA TRANQÜILIDADE EMOCIONAL: Acesso da atividade aos benefícios do “mundo formal” – obter prazos junto aos fornecedores, facilitar acesso a crédito/bancos; incorporar à clientela empresas e pessoas físicas que precisam de nota; “Mas é bom para a gente comp rar”. (Belém, Mulher es) “A partir da hora que o empreendedor registra uma firma, contrata funcionário, começa a movimentar, então quer dizer, ele está ganhando. A coisa só vai andar para ele, os negócios vão bem para ele porque ele tem crédito para compra r”. (Goiânia, Homens) “Para mim é a regularidade, né? A gente ficaria trabalhando tudo certinho e abriria mais o campo de trabalho pra gente .” (Recife, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 37 Aumenta o respeito profissional junto aos “outros” (clientela, fornecedores, concorrência, etc.) – afinal há maior valorização do “trabalho”/atividade/produtos de quem é legalizado; “Pelo menos você vai ficar mais conhecido, as portas deverão se abrir”. (Belém , Hom ens) Menos uma preocupação/temor no dia-a-dia: ser pego pela fiscalização – importante principalmente para quem trabalha como ambulante (fiscalização prefeitura/rapa) ou no setor de alimentação (fiscalização sanitária); “- Os direitos que a gente vai ter. - Vai estar legalizado. - Poder trabalhar tranqüila porque está legalizado. - Porque a gente vê o tanto que camelô sofre quando policial chega, eles têm que correr”. (Por to Aleg r e, Mulher es) “Porque se for legalizada a gente não vai ter mais perseguição, ter que ficar trabalhando com medo, tudo isso ”. (Belém, Homens) MAS LEGALIDADE É UM CONCEITO RELATIVAMENTE DISTANTE E ABSTRATO – CARACTERÍSTICAS QUE NÃO DEVEM SER MENOSPREZADAS DIANTE DA REALIDADE CONCRETA QUE A CATEGORIA ENFRENTA NA BATALHA DO DIAA-DIA. BENEFÍCIOS SÃO VALORIZADOS E VINCULADOS A SONHO/ASPIRAÇÃO /TEMPO FUTURO E IMPEDIMENTOS SÃO SEMPRE OBJETIVOS, CONCRETOS E PRÓXIMOS (ESTÃO NO AQUI E AGORA, NO TEMPO PRESENTE); “– Hoje eu sou um vendedor pequeno demais, mas quem sabe no dia de amanhã eu posso ser um empresário. – Porque eu já acostumei com a rotina da minha vida ”. (Goiânia, Hom ens) O SIGNIFICADO DA MUDANÇA DA LEI (LEGALIZAÇÃO DA ATIVIDADE) É POSITIVO E SUFICIENTE PARA SEMEAR O INTERESSE EM ADERIR A ELA, MAS COEXISTE COM CONSIDERAÇÕES QUE DEVEM SER LEVADAS EM CONTA PARA SE DIMENSIONAR DE FORMA REALISTA O POTENCIAL DE ADESÃO DA CATEGORIA À CRIAÇÃO DA FIGURA JURÍDICA DO MEI. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 38 O POTENCIAL DE ADESÃO À FIGURA JURÍDICA DO MEI REAÇÕES INICIAIS SÃO DE RECEPTIVIDADE E HÁ APROVAÇÃO, INTERESSE E ATÉ MANIFESTAÇÕES DE INTENÇÃO DE ADESÃO À FIGURA JURÍDICA DO MEI JÁ NO INÍCIO DE SUA VIGÊNCIA; MAS É LEVIANO INFERIR QUE TAIS MANIFESTAÇÕES IRÃO SE TRADUZIR EM ATITUDES CONCRETAS DE ADESÃO NO MOMENTO EM QUE A LEI FOR IMPLANTADA, SE CONSIDERARMOS O CONTEXTO DE DIFICULDADES DA CATEGORIA; (a hipótese do desejo de “legalização” não conseguir se traduzir em realidade/ação foi uma observação verbalizada por alguns, depois de alguma reflexão. Mas, independente de ter sido ou não verbalizado, esta é uma possibilidade que pode ser inferida a partir da análise dos “malabarismos” que um autônomo de baixa renda tem que se submeter para sobreviver). UMA DELIMITAÇÃO MINIMAMENTE REALISTA SOBRE O ALCANCE DA ADESÃO À FIGURA JURIDICA DO MEI DEVE CONSIDERAR: A falta de credibilidade e o ambiente de desconfiança que permeia qualquer iniciativa do poder público. Não são poucas as inferências negativas sobre a verdadeira intenção do governo por trás da Lei – facilitar a vida dos autônomos ou simplesmente trazê-los para a formalidade e, em um momento posterior, mudar os percentuais de contribuição para aumentar a receita do fisco? (a falta de credibilidade na administração pública e nos políticos já faz parte da “cultura” na hora de avaliar iniciativas do governo. Certamente não é um ponto específico da Lei, mas terá peso na hora de se optar ou não em se tornar um MEI) “- É uma coisa mais fácil e também um valor bem mais baixo. - Não tem tantos impostos. - Abrir uma empresa hoje em dia, não é qualquer um que abre, não. - Tem que ver se vai ser só isso. - Acho que vem mais coisas atrás. Esmola dema is o santo desconfia”. (S ão Paulo, M ulher es) “– É bom só para o governo. – Essa nova lei é boa só para o governo. SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 39 – Porque se você quiser pagar como autônomo , você paga. De qualquer forma, o governo vai ter mais arrecadação ”. (Goiânia, Hom ens) “- Está muito mastigadinho. - Não estou botando muita fé não. - É melhor alguém ter a experiência primeiro... ” (S ão Paulo, Mulher es) “- Eu acho que o governo viu uma coisa que há muito tempo está acontecendo. É que tem muito ilegalizado. - E eles estão perdendo din heiro. - Um jeito de voltarem a ter controle da gente porque hoje eles não têm controle. É um jeito deles controlarem ”. (S ão Paulo, Homens) Os custos da legalização da atividade – requisito para se tornar um MEI: A impressão generalizada é de que são muitas as exigências (burocracia) e o custo é bastante elevado para quem quer abrir uma empresa – falta tempo, dinheiro, informação e até paciência para trilhar o périplo que se tem notícia como necessário para abrir formalmente um negócio; (mesmo com o esclarecimento de que a abertura será simplificada, permanecem desconfianças quanto aos custos, principalmente sobre o pagamento de diversas taxas, e dúvidas sobre como essa simplificação ocorrerá - nada que diz respeito a serviço público é fácil, simples ou rápido) “Todos os direitos que ele ta rezando aí, né? Esses direitos todinhos aí. Eu acho que mais chamou a atenção foi isso! Apesar de eu não acreditar. Porque se eu pegar um papel desse aí e for em qualquer órgão desse aí, a conversa é a mesma.” (Recif e, Homens) “A gente tem que ter dinheiro pra começar, tem que ter o espaço pra trabalhar”. (Recife, M ulher es) A grande carga tributária de quem é “legalizado” - impostos assustam, a impressão é de que são exorbitantes, mesmo não havendo clareza sobre o quê e como se tem que pagar (atividade geradora, incidência, percentuais, nomes/siglas dos impostos, etc.): O esclarecimento sobre se a contribuição prevista em Lei é a única com a qual deverão arcar não diminui o receio de que, em um segundo momento ocorram modificações; SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 40 É importante esclarecer também como a categoria ficará em relação à Receita Federal (grande temor é sobre o Imposto de Renda da Pessoa Física); (muitos não sabem sequer qual o percentual vigente para quem quer contribuir para o INSS como autônomo. Nesta ótica, muitas vezes não há como avaliar o valor relativo da contribuição proposta na Lei porque não se tem parâmetro de comparabilidade. A maioria não sabe o que é ICMS ou ISS - e muito menos qual incide sobre o que e qual a referência de cálculo desses tributos – portanto a explicação sobre os valores fixos de referência destes tributos presentes na lei são praticamente inócuos e às vezes chegam a assustar, porque dão nome a impostos que nem se sabia que existia). “- É muita coisa pra gente pagar. - Os impostos do município continuam. - Você falou quatrocentos reais não sei de quê, falou da Receita ?”. (Recife, M ulher es) “Vai pesar porque a gente vai ter que pagar tanta coisa. Se a gente somar tudo quanto é que não vai dar? Quanto é que vai sobrar para nós, para cada um. O funcionário que a gente vai ter e quanto vai ser a minha renda?” (Belém , M ulher es) “Tem muita gente hoje em dia que está quebrando muito. Tem muitas empresas que estão fechando e por qu ê? Não tem condições de pagar aqueles impostos ”. (Belém, Mulher es) “O que tem de negativo é a gente ter que pagar. Nem todo o tempo dá pra pagar tudo o que tem aqui. A gente tem que ter o dinheiro certo”. (Belém , M ulher es) A falta de capacitação pessoal para gerir uma empresa (assumida por praticamente todos) – aumenta a sensação de insegurança no caso da “legalização” da atividade: Necessidade de registros e controles, mesmo que vistos como necessários para o sucesso de qualquer negócio, mesmo que simplificados diante das poucas exigências da Lei, representa uma dificuldade a mais; (a figura do contador, por exemplo, é muito valorizada porque significa controle do que entra e saí, registros do negócio. Todos gostariam de ter um, mas o custo é muito alto, o que impossibilita sua contratação) “Eu não tenho condição de pagar um contador todo mês . É quase um salário só para o contador ”. (Goiânia, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 41 A heterogeneidade das necessidades dos setores e das atividades em que atuam: Comércio: Se o que mais atrai no na figura do MEI é a possibilidade de legalização a baixo custo, para quem trabalha neste setor o problema da “legalidade” não soluciona a questão com as prefeituras; Embora que em segundo plano, a legalização vista sob a ótica da aquisição de um CNPJ os atrai pela possibilidade da obtenção de prazos junto aos fornecedores e pelo acesso a crédito para compra de equipamentos e/ou aumento do capital de giro. “Mas tem o negócio do alvará que você vai ter que expor seu negócio só em um local, não vai poder sair pra vend er”. (Por to Aleg r e, Hom ens) “A gente torce. A prefeitura você vê os caras, no centro é o rapa. Eu trabalho na escola de dia . A noite eles não levam , mas comem tudo, tem cerveja, refrigerante. Se tiver 3, 4 homens, acabou tudo que você tiver. Daí você dá u m tempinho e tal”. (S ão Paulo, Homens) Serviço e indústria: Nestes setores a receptividade à figura jurídica do MEI é bem maior do que a de quem trabalha no comércio, porque o valorizado é a obtenção do CNPJ e assim ampliar a clientela (incluir pessoas jurídicas ou quem precisa de comprovação através de nota fiscal); Também é valorizada a possibilidade de prazos junto aos fornecedores e o acesso a crédito. “Eu acho que resolve. Você vai ter um CNPJ, vai ter um tudo legalizado”. (Recife, M ulher es) “Legalizar todos os autônomos. Seria importante para todos eles! Porque aí você vai ter CNPJ e vai poder concorrer com um monte de coisas!” (Recife, Hom ens) As diferenças das necessidades de mão-de-obra das diversas atividades, mesmo dentro de um mesmo setor: Em algumas atividades, não há necessidade de mais de um funcionário, mas em outras apenas um funcionário não resolve o problema – exemplo de cabeleireiras é o mais SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 42 típico porque uma só funcionária não é suficiente para que se legalize um salão de beleza; para abertura de um restaurante ou de um pequeno negocio de segurança particular ocorre o mesmo problema; “– Em restaurante funciona de dezesseis a meia -noite. Como que com um funcionário você vai ficar na cozinha, atender o balcão, atender lá fora? Aí você não presta um bom atendimento. – Até mesmo na feira não tem como ter só um ”. (Goiânia, Mulher es) A heterogeneidade regional: O teto de 36.000,00 anuais de faturamento é avaliado de forma diferente de acordo com a região de moradia do autônomo – para quem mora em São Paulo, por exemplo, este é um teto muito baixo para garantir uma sobrevivência adequada ao sonho de ter um negócio próprio legalizado. A heterogeneidade de atitude/comportamento pessoal dos autônomos: “– Eu entraria. – Se o governo facilitasse o crédito e desburocratizasse. – Eu não entraria porque meu sonho não é empresa, meu sonho é estudar e formar”. (G oiânia, Homens) “otimistas” – é o grupo mais receptivo à criação da figura do MEI. Os benefícios são valorizados na proporção direta do desejo de ampliar sua atividade/crescer na vida e, principalmente, na crença de que a legalização da atividade é um fator primordial para este avanço (entretanto é importante observar que uma talvez não tenha condições concretas para se depois de legalizados - dependem de principalmente de capacitação em gestão e crédito) parte desse grupo manter na atividade outros estímulos, acesso, de fato, a “Acho que todo mundo quer aumentar . Quero ter um ponto fixo. É bem melhor do que ter ficar indo na c asa da pessoa. As pessoas saberem que você está em um lugar em tempo integral é interessante. O meu projeto é esse. Talvez até em sociedade, por que não? Com mais uma. Uma depiladora, outra manicure, todas num lugar só que a gente não precisasse ficar indo nas casas”. (Por to Aleg r e, M ulher es) “Eu pretendo continuar no mesmo serviço que eu trabalho, com lanche, mas pretendo abrir uma loja ”. (Por to Aleg r e, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 43 Os “realistas conformados” – é o grupo que a visão mais abrangente acerca das dificuldades inerentes à ampliação da atividade e percebem que a falta de legalização é apenas uma delas - têm receio de que, no balanço final, a legalidade e os possíveis benefícios da Lei não sejam suficientes para contrabalançar os outros obstáculos. (provavelmente apenas parte deste grupo vai aderir a Lei e, mesmo assim, após uma compreensão mais aprofundada sobre suas condicionalidades, seus custos, seus benefícios e da análise da performance de conhecidos após se tornarem MEIS) “O autônomo ganha limpo, o dinhei ro é dele, não tem que descontar vale refeição, vale transporte, INSS. Tem uns que não pagam. O dinheiro que vem na mão dele é limpo ”. (Por to Aleg r e, Homens) Os “frustrados” – grupo provavelmente não se interessará em se tornar um MEI (desejo é voltar a ser assalariado), mas poderá se interessar pelos benefícios do INSS. Entretanto não há nenhum diferencial em relação à contribuição como simples autônomo (e, no caso do MEI há até algum aumento na contribuição já que ela inclui os valores fixos do ICMS e, se for o caso, do ISS) “Não resolve não. Não resolve porque quanto mais vai tendo imposto, vai tendo arrecadação, mais os políticos lá em cima vão lucrar mais”. (G oiânia, Homens) A heterogeneidade da situação financeira e intelectual dos autônomos: Grupo que apenas “sobrevive” - margem proporcionada pela atividade é tão pequena que não dá para abrir mão de nenhum centavo, nem mesmo para contribuir para o INSS, quanto mais arcar com custos, mesmos que baixos, da legalização. Grupo descolado da “sociedade organizada” – grupo que vive em situação de “falta absoluta”: faltam condições materiais e intelectuais para ter qualquer tipo de ação que signifique mudança no mundo de carência em que vivem (subgrupo dentro do grupo que “sobrevive”, mas cujas características são mais impeditivas ainda para se tornarem MEIS porque convivem com mais faltas do que a “simples” falta material) “Pra gente pagar um INPS a gente tira do bolso. E se eu não paguei até hoje, não vou pagar ”. (Recife, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 44 “Não contribuo, não consigo. Meu pai me fez parar de estudar muito cedo pra trabalhar. Ele está com sessenta anos, não tem condições de trabalhar sozinho. ”. (Por to Aleg r e, Homens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 45 DÚVIDAS EM RELAÇÃO À ADESÃO AO MEI O QUE SE DEVE FAZER PARA SE TORNAR UM PROCURAR? QUE DOCUMENTAÇÃO LEVAR? MEI – AONDE IR? QUEM “Às vezes a pessoa vai atrás da informação e aí já vem o fiscal para fechar o seu negócio. Você vai a um lugar e eles te mandam para outro, que te manda para outro e cada um é uma taxa . As vezes você não tem aquele dinheiro. O medo é mais ou menos isso. ” (Goiânia, Mulher es) “O MEI vai ser atendido em que local? ” (S ão Paulo, Mulher es) “Quais são os papéis que vão exigir para eu abrir essa firma? Vou levar só meu RG? Vamos abrir a sua firma, todo mundo vai lá, mas ele não deu o que vou levar. Eu vou levar só o RG? O que ele vai exigir? Ele vai exigir só o CPF e o RG . Vou lá e a minha palavra basta, ou tem mais alguns pap éis. Esse tipo de coisa... Se eu for optar por isso, eu vou continuar na minha casa. Eu acho que é um comprovante de endereço ” . (S ão Paulo, Mulher es) É OBRIGATÓRIO A ABERTURA DE EMPRESA PARA SE TORNAR UM MEI? – DÚVIDA MAIS PRESENTE EM QUEM SE INTERESSA PRIMORDIALMENTE PELOS BENEFÍCIOS PREVIDENCIÁRIOS. É tão simples assim, vai lá, pega o carnê e pag a, ou tenho que abrir uma firma . . . ”(Por to Aleg r e, Homens) O QUE VAI SER EXIGIDO, DE FATO, PARA A ABERTURA DESTA EMPRESA? – DÚVIDA VAI DE ENCONTRO À IMPRESSÃO DE BUROCRACIA E CUSTOS MUITO ELEVADOS NA HORA DE ABRIR UM NEGÓCIO; “Se você procura se legaliza r você tem que várias barreiras . Você vai gastar rios de dinheiro. Eu tentei com a minha serralheria... Eu tentei seguir pelo caminho certo, né? Mas eu não consegui, certo? ” (Recife, Hom ens) “É muita burocracia. E pra você montar uma empresa hoje em dia o custo é muito alto. O imposto é muito alto que você paga ”. (Recife, Hom ens) “É muito burocrático. E é muito dinheiro. Eu tenho vontade de legalizar no meu nome porque eu uso o nome da minha mãe, eu pretendo fazer o meu nome, mas depende de dinheiro. Com dinheiro você pode abrir o que quiser ”. (Por to Aleg r e, Mulher es) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 46 E SE O NEGÓCIO NÃO DER CERTO, COMO FECHAR? – IMPRESSÃO DE QUE O ENCERRAMENTO DE UMA EMPRESA É TÃO BUROCRÁTICO E CARO QUANTO SUA ABERTURA; “É fácil para entrar e depois se você não quer mais . Se caso um dia não quiser mais isso... A gente escuta muita gente comentando de abrir o negócio. Tem uma cunhada minha que também faz cortina e ela fica pensando em abrir um galpão, só que sempre fica aquela dúvida porque para abrir é fácil . Você vai na prefeitura, vai na junta comercial e abre o negócio. Na hora de fechar você ouve todo mundo falando que tem que pagar, não pode abrir falência, fica enrolado, tem que pagar não sei o qu ê”. (S ão Paulo, Mulher es) “Meu vizinho abriu uma empresa e deu uma pal estra seis meses depois. Tem taxa de bombeiro, taxa de SIN, liberação, fiscalização, receita, secretaria da fazenda. Gastou não sei quantos mil, foi dinheiro. Com seis meses ele fechou, e o nome dele está sujo até as cuecas”. (Recife, M ulher es) “Você paga taxa, você faz tudo, faz nota fiscal e vem tudo. Se for fechar, meu Deus do céu ”. (S ão Paulo, Homens) NO CASO DO NEGOCIO NÃO DER CERTO, COMO FICAM AS CONTRIBUIÇÕES QUE FORAM FEITAS EM NOME DA EMPRESA? VÃO VALER PARA A APOSENTADORIA? “Se eu não quiser mais, como vai ficar essa contribuição? ” (S ão Paulo, M ulher es) COMO É FEITO O CÁLCULO DO VALOR DA APOSENTADORIA? A CONTRIBUIÇÃO É SÓ PARA A APOSENTADORIA DE UM SALÁRIO MÍNIMO? “- Eu já tive carteira assinada e nunca precisei mas tinha colega que faz isso, o carnê de contribuição. - Provar que você tem uma renda. - Um comprovante de INSS mensal ”. (S ão Paulo, Homens) “Quando eu for me aposentar, não vou querer receber o salário mínimo”. (S ão Paulo, M ulher es) E O TEMPO DE CONTRIBUIÇÃO – SÃO 30 OU 35 ANOS OU PODE SER MENOS? TEMPO É MUITO LONGO PARA QUEM JÁ ESTÁ COM UMA CERTA IDADE E VAI COMEÇAR A CONTRIBUIR AGORA. ALGUNS ACHAM QUE ATINGIR O LIMITE DE IDADE É SUFICIENTE PARA COMEÇAR A RECEBER A APOSENTADORIA, ENTÃO QUAL O SENTIDO DE CONTRIBUIR PARA RECEBER 1 SALARIO MÍNIMO? SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 47 “Você chega nos 65 anos... Não importa se você pagou ou não pagou, você tem direito”. (S ão Paulo, Mulher es) “Não só por causa de falar assim, vou pagar para o governo. A partir dos meus 35 anos já não consegui mais arrumar emprego porque 35 anos está velho. O governo não pensa que com 35 anos você come, que você tem conta de luz, água e telefone para pagar, que você tem filhos. O governo não está se preocupando com isso ”. (S ão Paulo, Mulher es) E QUEM JÁ CONTRIBUI ANTES E PAROU DE CONTRIBUIR, COMO FICA SE AGORA COMEÇAR DE NOVO? “Eu trabalhei muitos anos com registro e há muitos anos estou sem registro, fico imaginando se na hora que eu chegar nos meus 65, se vai fazer diferença. A cada ano eu falo “mês que vem vai dar, vou voltar”, você quer fazer o carnê, não quer pagar um mês e parar. Então, você quer fazer o carnê do INSS e pagar direto. Você não pode pagar um mês e parar”. (S ão Paulo, Mulher es) QUANDO E COMO SE DEVE EMITIR NOTA FISCAL? ATIVIDADES SÃO MUITO PEQUENAS (VENDA DE ARTESANATO, SANDUÍCHES, SALGADOS, ÁGUA DE COCO, PIPOCA) – COMO VAI SER POSSÍVEL EMITIR NOTA FISCAL? ONDE SE ARRUMA UM BLOCO DE NOTAS FISCAIS? “O fato da empresa precisar ter nota fiscal demanda uma burocracia danada. Eu concordo que tem que ter nota fiscal, se tem uma barraquinha de pão de queijo tem que ter nota fiscal . Mas para ele conseguir essa nota fiscal que vem lá da fazenda, da secretaria do município é muito difícil ele chegar nesse ponto. Isso é bom, eu concordo, mas essa nota fiscal vai dar uma dor de ca beça para ele. Tem que ter contador, é muito complicado . A burocracia está é na nota fiscal, a burocracia está é nas pequenas coisas onde parece que não está”. (G oiânia, Hom ens) E SE O FATURAMENTO FOR ACIMA DOS 36.000 REAIS ANUAIS, O QUE ACONTECE? “Mas, o governo determinou a sua renda, você não vai ser patrão de si, você vai ser funcionário do governo ”. (Goiânia, Mulher es) “Pode trazer prejuízo para o governo. Porque na questão aí é pouco, vai ter que seguir esse quadro aí, não pode passar disso, então quando a gente ganhar um dinheiro maior a gente não vai poder declarar ele”. (Belém , Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected] 48 “– No máximo três mil. – E o que vai acontecer nisso aí? Se a pessoa ganhar quatro mil, ela não vai poder declarar. – Pois é, ai que está”. (Belém, Homens) ESSA CONTRIBUIÇÃO DISPENSA EXATAMENTE DE QUAIS IMPOSTOS? E O IMPOSTO DE RENDA? “Eu acho que vai, porque a gente vai abrir um pequeno neg ócio. Hoje em dia os fiscais vão ficar ali em cima. Se não tiver legal eles fecham mesmo”. (Belém , M ulher es) VAI SER NECESSÁRIO TER UM CONTADOR PARA FAZER A CONTABILIDADE? – ISSO SIGNIFICA UM AUMENTO DE CUSTO PRATICAMENTE IMPEDITIVO, MAS COMO FAZER ESSE CONTROLE SEM UM CONTADOR? SE A CONTRIBUIÇÃO FOR PAGA JUNTO DA CONTA DE LUZ E NÃO SE TIVER DINHEIRO PARA PAGÁ-LA A LUZ VAI SER CORTADA? “- Daí se não pagar, corta a luz também. - Só faltava essa. - Você tem a luz e de repente não consegue pagar a conta de luz porque tem mais R$ 50,00 e pouco em cima. Você tem o dinheiro da luz, mas não tem para isso. Eu acho que esse negóc io não vai dar certo”. (S ão Paulo, Hom ens) SÍNTESE Pesquisa e Análise Av. do Contorno, 6321 - 10o andar - 30110-110 - Belo Horizonte/MG - Telefax: (31) 3286-0108 - E-mail: [email protected]